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Consultoria e auditoria de processos de gestão de pessoas

Aula 10: Ética nos processos de auditoria e consultoria


organizacional

Apresentação
Nesta aula, discutiremos as questões éticas relacionadas ao pro ssional de Auditoria e Consultoria Organizacional. Neste
sentido, trataremos dos principais aspectos relativos à Governança Corporativa e ao Compliance.

Objetivos
De nir os conceitos de ética e moral;

Discutir o que é Governança Corporativa;

Delimitar o conceito de Compliance.

Conceitos de ética
A palavra ética vem do grego ethos. Originalmente, ela tinha dois signi cados distintos. O primeiro era o de casa ou morada.
Como a casa é o lugar de abrigo do ser humano, o local que o protege de todas as ameaças externas do mundo natural, o
homem diferencia-se, neste sentido, dos demais animais na natureza. Assim, a casa simboliza a distinção do ser humano
frente aos outros elementos da natureza. É algo próprio, distinto, do ser humano. A ética, portanto, é algo que distingue o ser
humano dos demais animais. Só homem é dotado de ética.

Outro signi cado para ethos é hábito ou comportamento que resulta da repetição constante. O hábito não é uma ação
instintiva, como as ações dos animais. Antes, é resultante da experiência humana e da assimilação de aprendizados ao longo
das experiências.

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Podemos, assim, de nir ética como um conjunto de valores e normas
consolidados por uma tradição ou hábito socialmente reforçados,
transmitidos e controlados. Este é um primeiro sentido geral do termo,
re exo do signi cado da palavra no grego original.

Não existe, portanto, grupo humano sem ética. Todos têm um conjunto de valores a lhes guiar.

A constatação da existência de diversos grupos de valores nas diferentes sociedades humanas levou ao desenvolvimento de
estudos sobre a ética na história da humanidade. Podemos citar, como exemplo, os estudos dos lósofos gregos sobre o
assunto, como Sócrates e Platão.

Sócrates Platão

Uma das principais abordagens está centrada nos aspectos normativos. Adotando a perspectiva de que uma norma ou valor
devem ser aceitos se estiverem baseados no postulado da razão, partimos para a elaboração de normativos éticos que
especi quem as condutas aceitáveis e aquelas não aceitáveis dentro de um grupo humano. Temos, assim, um segundo
sentido do termo ética: uma área de estudo das ciências humanas.

Um terceiro sentido, que devemos considerar sobre o conceito de ética, é o de conduta racionalmente justi cável. Mesmo
quando uma conduta é socialmente estabelecida e prática, ela pode ser eticamente condenável. Isto implica em dizer que
aquilo que pode ser ético quando consideramos o primeiro sentido do termo (conduta baseada em normas e valores aceitos no
grupo social) pode não ser quando a avaliamos racionalmente. Por exemplo, furar a la e alegar que todos fazem, ou seja, é um
costume social em dada região. Mas isto não constitui uma ação racional e a consideramos antiética. Aplica-se neste caso a
frase “explica, mas não justi ca”.

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Conceitos de moral
A palavra moral vem do latim mos ou mores, que signi cam costume ou costumes. As duas palavras (ethos e mores) têm um
sentido original comum, ou seja, o de hábito ou costume.

Os estudos sobre Ética reservam a palavra moral para expressar a ideia de


hábito ou costume e a palavra ética para a conduta justi cável
racionalmente.

O conceito de ética, segundo o dicionário Aurélio, diz


respeito ao estudo dos juízos de apreciação referentes à
conduta humana suscetível de quali cação do ponto de
vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada
sociedade, seja de modo absoluto.

Podemos dizer que a ética pro ssional é a moral aplicada


ao ambiente de trabalho. Regido pela ética pro ssional, um
funcionário não agride o outro, não rouba nem se apropria
dos aparelhos e utensílios do escritório etc.

En m, corresponde às regras básicas para o bom convívio


das pessoas dentro de uma empresa, entre os empregados
e o próprio local de trabalho. Essas regras podem vir
expressas em códigos de conduta, no próprio contato de
trabalho, assinado pelo empregado, ou em outras situações.
 Fonte: Shutterstock.

Os códigos escritos são apenas reforços de valores, que devem


permear a conduta humana onde quer que nos encontremos. Apesar
disso, as regras de ética pro ssional não têm caráter sancionatório,
vinculativo. Como se baseiam na moral, eles são dotados de
subjetividade, sendo que, em cada situação, empresa ou grupo as
regras podem variar.

Saiba mais
O Instituto Brasileiro dos Consultores de Organização (IBCO) elaborou um código de ética para os pro ssionais de consultoria.
Esse código, basicamente, aborda as normas de conduta na relação do consultor com o cliente, com a comunidade e com a
própria categoria pro ssional.

Atividade
1. (CESPE/2015/MPU/TÉCNICO DO MPU - SEGURANÇA INSTITUCIONAL E TRANSPORTE) - Indique se a a rmativa a seguir
está certa ou errada.

Moral pode ser de nida como todo o sistema público de regras próprio de diferentes grupos sociais, que abrange normas e valores aceitos e
praticados como certos e errados.

2. (CESPE/2015/MPU/TÉCNICO DO MPU - SEGURANÇA INSTITUCIONAL E TRANSPORTE) - Indique se a a rmativa a seguir


está certa ou errada.

A ética envolve um processo avaliativo do modo como os seres humanos, a natureza e os animais intervêm no mundo ao seu redor.

Governança Corporativa
O termo governança corporativa é de nido pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) como:

"As práticas e os relacionamentos entre os


Acionistas/Cotistas, Conselho de Administração, Diretoria,
Auditoria Independente e Conselho Fiscal, com a nalidade
de aperfeiçoar o desempenho da empresa e facilitar o acesso
ao capital."
Esta expressão designa os assuntos relativos ao poder de controle e direção de uma empresa. Assim, a governança
corporativa constitui-se como um sistema de controle das decisões e do desempenho das organizações para reduzir riscos
internos e externos e aumentar a credibilidade dos investidores e da sociedade em torno das práticas adotadas por cada
organização.

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 Fonte: Shutterstock.

As melhores práticas de governança corporativa implicam na adoção de rígidos valores éticos sobre os comportamentos dos
agentes da organização. A empresa que opta pelas boas práticas de governança corporativa adota como princípios a
transparência (de gestão, atos, controles), prestação de contas (accountability) e a equidade de tratamento entre os acionistas.

Vejamos alguns dos avanços na área de governança corporativa a seguir.


Nos Estados Unidos
Um marco da governança corporativa moderna foi a lei
Sarbanes-Oxley, promulgada em julho de 2002, nos Estados
Unidos. Esta lei foi elaborada após uma série de escândalos
contábeis com grandes companhias americanas. Foi criado
um organismo regulador das empresas de auditoria, que
determinou penas e responsabilidades dos executivos para
tentar recuperar o equilíbrio no mercado de capitais.

Na Inglaterra
Para estabelecer um conjunto de critérios adotados na
implantação da governança corporativa, foram redigidos
códigos de boas práticas. O primeiro código elaborado foi o
chamado relatório Cadbury, na Inglaterra. Seus principais
temas são as responsabilidades do conselho, a importância
de membros independentes no conselho e a necessidade de
comitês do conselho, especi camente um comitê de
auditoria e um comitê de remuneração. Além disso, o
código destaca diretamente que o conselho deveria manter
um controle total e efetivo sobre a companhia.
No Brasil
No Brasil, uma das referências para a governança corporativa é o código do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa
(IBGC). O Código de Melhores Práticas de Governança Corporativa do IBGC enfatiza os seguintes princípios:

Clique nos botões para ver as informações.

Transparência 

Diz respeito à disponibilização de informações por parte das empresas sobre suas ações a todos os interessados, não se
restringindo apenas a dados nanceiros ou econômicos. A transparência gerar um clima de con ança entre todas as
partes envolvidas na empresa.

Equidade 

Refere-se à atitude por parte das empresas de tratar todos os interessados e sócios de maneira igual, sem promover
discriminações ou preferências por qualquer razão.

Prestação de Contas (accountability) 

Diz respeito ao ato de prestar constas de todas as ações e decisões tomadas pelos dirigentes para todas as partes
interessadas, incluindo as consequências das decisões tomadas, mesmo que indesejadas.

Responsabilidade Corporativa 

Refere-se à necessidade de que os gestores zelem pela sustentabilidade da organização, desenvolvendo ações que
promovam a longevidade da empresa, ao mesmo que tempo que as tornem ambientalmente sustentáveis e socialmente
responsáveis.

As organizações e o conceito de Compliance


O termo compliance pode ser de nido como a situação em que uma empresa e indivíduos se encontram em
conformidade com as regras internas e externas relativas às atividades da instituição, preservando a imagem da
organização e sujeitando-se às regras legais a que esta organização e seus empregados estão sujeitos.

Esta expressão designa um imperativo interno da organização, ou seja, não há mecanismos legais que obriguem uma
empresa a manter mecanismos de compliance. Antes, é um mecanismo interno para garantir que todos que fazem
parte da organização estejam imbuídos do espírito de manter elevados padrões de conduta ética no desempenho de
suas atividades.

 Shutterstock
Segundo Canderolo, Rizzo e Pinho (2012) dentre os objetivos de uma política de complicance temos, por exemplo:


Cumprir a legislação nacional e internacional, as regulações do

Prevenir demandas judiciais.
mercado e as normas internas da empresa.


Obter transparência na condução dos negócios.

Resguardar a con dencialidade das informações da empresa e
dos clientes.


Evitar o con ito de interesse entre os diversos atores da

Prevenir os ganhos indevidos por meio da criação de
instituição. condições arti ciais de mercado, ou da manipulação e uso da
informação privilegiada.


Prevenir a lavagem de dinheiro.
A adoção de práticas de governança corporativa re ete uma preocupação das empresas. As empresas que se preocupam com
sua imagem e com relações éticas e justas adotam políticas de compliance.

Outra razão para adoção de politicas de compliance por parte das empresas é a lei anticorrupção promulgada em 2013. A lei
brasileira 12.846/13 estabelece severas punições para as empresas que incorram em crimes contra a administração pública, o
que reforçou a necessidade de criação de mecanismos corporativos de controle das ações dos dirigentes e empregados para
impedir que suas estruturas sejam usadas para práticas de corrupção.

Segundo o Portal de Compliance, há oito passos para implantar um programa:

1. Patrocínio e Tone of the Top 


Um programa de compliance deve ser
patrocinado pela alta direção da empresa.

 2. Supervisão e recursos para


Compliance
Deve existir dentro da estrutura da empresa
uma posição de liderança de compliance, ou
seja, alguém com autoridade, autonomia e
recursos para executar as políticas de forma
independente, subordinando-se apenas à alta
direção da empresa.

3. Código de Ética & Conduta, 


políticas e procedimentos
A implantação de uma política requer a
elaboração de normas internas, com
diretrizes claras para a empresa, na sua
atuação corporativa e jurídica, e para as
ações e comportamentos individuais de seus
empregados.

 4. Assessment de riscos
Para que a política de compliance seja
e ciente, a empresa precisa conhecer os
riscos associados ao seu negócio, ou seja,
identi car riscos trabalhistas, ambientais,
sanitários, a atuação da concorrência.
Também é importante estudar temas como
lavagem de dinheiro, crimes nanceiros,
corrupção etc.

5. Programas de treinamentos, 
comunicação e incentivo contínuos
A disseminação das normas aplicáveis à
compliance precisa ser feita de maneira
abrangente para que todos os empregados e
a direção tenham consciência do que se
espera deles de maneira clara.

 6. Controles Internos, monitoramento,


auditoria de cultura e aprimoramento
contínuo
É necessário garantir que as normas
construídas sejam efetivamente acatadas por
todos os envolvidos. Isto requer a criação de
controles efetivos para monitorar o
cumprimento das regras.

7. Due Diligence & Compliance 


Individual
A empresa precisa conhecer as práticas
individuais dos seus fornecedores e
acompanhar os comportamentos de seus
empregados diretos. Isto poderá evitar que a
empresa que exposta a comportamentos
antiéticos individuais.

 8. Canal de denúncias, mecanismos


disciplinares e de investigação
Para tornar o programa de compliance
efetivo, é preciso ter mecanismos que
recepcionem denúncias de descumprimento
das políticas construídas, garantindo o
anonimato e a con dencialidade das
informações recebidas. Ao mesmo tempo, é
preciso punir aqueles que infringem as
normas estabelecidas. A equipe que trata das
denúncias deve ser capacitada para averiguar
as informações encaminhadas.
Atividade
3. (ESAF/SUSEP/2010/ANALISTA TÉCNICO/ CONTROLE E FISCALIZAÇÃO) Leia o texto a seguir, analise as sentenças propostas
e indique V para Verdadeira e F para Falsa. Aponte a opção correta correspondente. Quanto à Governança Corporativa, temos que:

I. É o conjunto de processos, costumes, políticas, leis, regulamentos e instituições que regulam a maneira como uma empresa
é dirigida, administrada ou controlada.

II. São stakeholders: acionistas, segurados, corretores e bene ciários.

III. Tem havido um renovado interesse no assunto, desde 2001, devido aos espetaculares colapsos de grandes corporações
norte-americanas como a Enron Corporation e Worldcom, levando o governo federal norte-americano, em 2002, a aprovar a Lei
Sarbannes-Oxley, com o propósito de restaurar a con ança do público em geral na governança corporativa.

a) V V V.
b) V V F.
c) V F F.
d) V F V.
e) F V F.

4. (FUNDEP/2018/ CODEMIG / ANALISTA DE COMPLIANCE) Conforme o Portal de Compliance (2016), para que possamos ter
plenamente implementado um programa efetivo de compliance, são necessários oito passos fundamentais para que esse
programa possa ter êxito e ser, de fato, bem-sucedido. Indique a alternativa que não representa um passo fundamental para que o
programa de compliance seja bem-sucedido:

a) Patrocínio e tone of the top.


b) Supervisão e recursos para compliance.
c) Código de ética e conduta, políticas e procedimentos.
d) Evitar corrupção junto a agentes do poder público.
e) Due Diligence & Compliance Individual

Referências

Notas
CANDELORO, Ana Paula P.; RIZZO, Maria Balbina Martins de; PINHO, Vinícius. Com- pliance 360º: riscos, estratégias, con itos e
vaidades no mundo corporativo. São Paulo: Trevisan Editora Universitária, 2012.

CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de pessoas: o novo papel dos recursos humanos nas organizações. 4. ed. São Paulo: Manole,
2014.

DIAS, Sergio Vidal dos Santos. Auditoria de processos organizacionais: teoria, nalidade, metodologia de trabalho e resultados
esperados. 4.ed. São Paulo: Atlas, 2015.

IBCO – Instituto Brasileiro de Consultores de Organização. Estatuto e Código de Ética IBCO 2017. Disponível em:
//ibco.org.br/estatuto-e-codigo-de-etica-ibco/. Acesso em: 27 ago. 2019.

OLIVEIRA, D. P. R. de. Manual de consultoria empresarial: conceitos, metodologia, práticas. 2 ed. São Paulo: Atlas, 1999.

ORLICKAS, E. Consultoria interna de recursos humanos: conceitos, cases e estratégias. São Paulo: Futura, 2001.

Portal de Compliance. Disponível em: https://www.portaldecompliance.com.br. Acesso em: 08 set. 2019.


Próxima aula

Conceitos de processos de gestão de pessoas e de auditoria de processos;

Tipos de auditorias de processos;

Possibilidades de carreiras existentes no trabalho como auditor.

Explore mais

Guia de Programas de Compliance do CADE- Conselho Administrativo de Defesa Econômica..

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