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O legislador negativo no ordenamento jurídico moçambicano

O poder legislativo dum Estado é responsável pelo processo legiferante, que é regra geral
desempenhado pela Assembleia da República, como se pode perecer a partir da leitura do artigo 168 da
CRM. O processo legiferante não se circunscreve somente na elaboração da lei, mas também
compreende o processo de extinção da leis; esse último processo também é exercido pelo Conselho
Constitucional, doravante designado por CC, através da invalidação das leis e demais actos normativo
dos órgãos do Estado, quando esses se mostrarem contrários as normais constitucionais, conforme a
alínea a) do número 1 do artigo 243 da CRM.

Sendo assim, quando o CC estiver a realizar a fiscalização da constitucionalidade dos actos normativos
está a actuar como do poder legislativo se tratasse, como é do entendimento de Hans Kelsen, (KELSEN,
Hans, jurisdição constitucional, traduzido por Sérgio Sérvulo da Cunha, Martins Fontes, São Paulo, 2003),
que “anulação duma norma constitui no exercício duma função legislativa negativa e não numa função
jurisdicional.”

Com base na ideia do autor acima citado, exercendo a função legislativa, o Conselho Constitucional não
pode fixar normas particulares, isto é, normas aplicáveis num só caso em concreto, como consta no
artigo 73 alínea c) da Lei Orgânica do CC e no acórdão nº. 9/CC/2017 de 27 de Dezembro, ao
estabelecer: “…nos processos de fiscalização concreta de constitucionalidade, os efeitos da decisão de
inconstitucionalidade proferida pelo Conselho Constitucional, se reflectem apenas in casu…” . A lei tem
como característica a generalidade que respeita a indeterminabilidade dos seus destinatários, sejam
estes indivíduos ou entidades por eles constituídas

No processo de fiscalização da constitucionalidade das normas o CC não pode se assemelhar aos


Tribunais, porque este tem a prerrogativa de fixar normas individuais, como é o caso da sentença que se
aplicam a uma situação em concreta.

Fixando o CC normas individuais estaria a desvirtuar o fundamento da criação do processo fiscalização


concertada que é de:

1- Evitar com que normas declaradas inconstitucionais continuem em vigor no ordenamento


jurídico, como acontece no sistema de fiscalização difuso de origem norte-americana.
2- Garantir a autoridade da Constituição, ao evitar com que a mesma norma seja constitucional
para um tribunal e inconstitucional para o outro.

A saída desse dilema seria a generalização dos efeitos das decisões de inconstitucionalidade no processo
de fiscalização sucessiva abstracta, o que implica a revisão do artigo 73 alínea c) da Lei Orgânica do CC,
sem necessariamente rever a constituição, na medida em que está não estabelece que as decisões do
CC podem ter efeitos inter parte.

Por Delson da Paiva Viramão