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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Artigo de opinião: O ensino de jovens e adultos no Brasil


Aluna: Julia Maria da C. G. Fernandes

O campo de ensino que compreende a educação de jovens e adultos muitas vezes passa
por um entendimento, por uma parte geral da sociedade, de se tratar de um campo de
educação de segunda categoria e marginal, cuja função, muitas vezes se limita a
possibilitar ao indivíduo a posse de um diploma, o que, é verdade, para muitos significa a
oportunidade do acesso a mais oportunidades dentro do mercado de trabalho, além de um
símbolo de dignidade que para muitos a conclusão da escola significa, especialmente entre
os grupos de menor poder aquisitivo, mas limitar a educação fora da idade escolar
recomendada a um serviço de capacitação é uma concepção limitada do que é a educação
essencialmente.

O entendimento superficial sobre o ensino de jovens e adultos interfere na necessária


reflexão sobre a função social da escola, pois é a partir dessa conclusão que se formam as
diretrizes do projeto pedagógico a ser aplicado pelos profissionais envolvidos no campo
educacional. A função social da escola, portanto, deve estar muito bem definida. Hoje o
currículo escolar obedece a uma lógica mercadológica, uma vez que a educação está, de
forma excludente, inserida no campo da iniciativa privada, interferindo portanto na
discussão sobre a função social da escola, uma vez que se a escola tem uma função social,
ela deveria ser homogeneamente acessível aos cidadãos. Quando a escola não mais é um
espaço de cidadania e inclusão, há um impacto no currículo para que atenda às
expectativas do mercado da educação e isso recai também no ensino de jovens e adultos,
que não pode se resumir em uma venda deliberada de certificações, marginalizando e
estigmatizando ainda mais esse campo educacional ainda tão necessário na sociedade.

Sendo assim, convido-lhes a refletir sobre quem é o indivíduo que frequenta os espaços de
educação para jovens e adultos. A primeira análise compreende que, se há a necessidade
da educação de jovens e adultos, significa que sujeitos foram privados do estudo eletivo em
idade escolar, e que, portanto, é necessário admitir que há uma ausência do Estado em seu
dever constitucional de garantir educação para todos os cidadãos em estado escolar, como
solicita o Estatuto da Criança e do Adolescente. Em poucas palavras, o profissional que
trabalha com a educação de jovens e adultos precisa estar consciente de que está lidando
com pessoas desprovidas de ações eficientes do Estado para com seu acesso à educação,
e que a escola, enquanto instituição, os perdeu, por diversas razões, que vão desde
criminalidade, falta de estrutura familiar, necessidade da entrada no mercado de trabalho,
deficiências que a escola não conseguiu incluir. Em todas essas razões, há lacunas que o
Estado promoveu. Partindo deste princípio, de que estamos diante de pessoas que o
Estado deve reparação, torna-se muito difícil traçar um projeto pedagógico para jovens e
adultos a partir da experiência com o ensino regular e não é possível que se faça apenas
pequenas adaptações, pois não se trata apenas de um público diverso. No ensino de jovens
e adultos, as experiências são muito diferentes e a prática não deve seguir os mesmos
caminhos. Pelo contrário, a perspectiva histórica e internacional sugere que se flexibilize os
currículos, de modo que se integre a formação geral realizada nas escolas regulares e a
formação profissional, reconhecendo processos de aprendizagem informais e formais,
combinando meios de ensino presenciais e a distância, tornando os indivíduos aptos a
aprender dentro das possibilidades de suas trajetórias. A capacitação do profissional que
trabalhará com esse segmento precisa ser direcionada nesse sentido, e parte do currículo
dos cursos de formação de educadores deve compreender essa demanda, ao invés de se
concentrar somente na educação para idade escolar, pois isso é uma prática alienada da
realidade brasileira.

Por fim, é preciso compreender que a capacitação social, profissional, política e cidadã dos
indivíduos não são apenas direitos desse indivíduo, mas também direitos da sociedade na
qual este indivíduo se insere. É um direito da sociedade, como um todo, ter sujeitos
devidamente incluídos, pois é justamente isso que assegura seu funcionamento.
Nesse sentido, se faz necessåria uma mudança de cosmovisão acerca da educação como
algo que se limita a uma idade correta, precisamos de iniciativas que chamem toda a
sociedade a engajar-se em na elevação do nível educacional da população, baseando-se
no instinto natural e humano de constante aprendizado, destituindo, portanto, o ensino de
jovens e adultos do lugar de atraso e tornando o processo educacional de todos uma
prioridade coletiva.

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