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Pode cultivar o ócio, sim!

Por mais que pareça contraditório, esse tempo para fazer nada te torna mais produtivo
e saudável.

Quando foi a última vez que você fez algo porque realmente gostava? Que não
envolvia nenhuma obrigação ou vantagem? Pois é, isso é um dos sintomas que
estamos inseridos numa realidade baseada no desempenho, onde só o que interessa é
o quanto produzimos. Não à toa também estamos nos transformando numa sociedade
cansada, que funciona num esquema 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Uma saída apontada por muitos filósofos e estudiosos pode parecer bastante simples,
mas é um desafio e tanto em tempos tão ocupados: o ócio. Classificado como criativo,
criador, construtivo ou valioso, nada mais é do que reservar um tempo para defender
as próprias necessidades. Entenda mais sobre o conceito e conheça os benefícios de
incorporar essa prática no dia a dia.

Só pare

Um novo ano acabou de começar e com ele vem a sensação boa de renovação, de novas
oportunidades e de muito tempo para realizar as atividades que tanto planejamos.
Aproveitar os mais de 300 dias e tirar do papel o que ansiamos para ter mais bem-estar
e qualidade de vida. Já iniciamos o período com a mente cheia de metas de como fazer
para deixá-la mais vazia e tranquila.

Mas parece que em um passe de mágica essa disposição se esvai. De repente somos
tomados pelas tarefas diárias e nos deparamos com velhos conhecidos nossos: cansaço,
estresse, ansiedade, falta de tempo e frustração. Passamos uma média de 9 horas e 20
minutos por dia conectados (conforme pesquisa da Hoopsuite com a We Are Social),
checando e respondendo e-mails fora do expediente, conversando com os colegas de
equipe e com os chefes, atualizando relatórios, ou então mantendo ativa a vida dentro
das redes sociais.

Nas palavras de Ariano Suassuna, "a praga do celular" e a possibilidade de acessar a


internet a qualquer hora e na maior parte dos lugares, facilitou com que estejamos
sempre disponíveis para responder obrigações de trabalho e também da esfera pessoal.
Permanecemos sempre ligados, empenhados em produzir mais e melhor e muitas vezes
deixamos de lado algo fundamental para efetivamente ficarmos bem: parar.
O tempo livre, aquele com nada para fazer, é parte de um processo humano
indispensável a fim de evitar o esgotamento mental. Mais que isso, é uma experiência
subjetiva e emocional, que é oposta ao modelo corporativo de competitividade, onde
desfrutar a vida, a autonomia e a liberdade são vistos como brecha para ser ultrapassado
pelos concorrentes.

Conectar-se com os próprios desejos: melhor remédio

O impacto de viver num mundo hiperacelerado, de demandas incessantes e numa rotina


totalmente ocupada atinge o corpo em cheio. Nosso organismo se estressa quando é
mais exigido do que é capaz de suportar. A sensação de não dar conta dos inúmeros
acontecimentos que nos cercam gera sintomas ou quadros psicossomáticos —quando
o corpo manifesta "dores" psíquicas.

Daí a importância das escolhas conscientes sobre o que fazer com seu tempo e no tempo
livre. Muitos processos mentais importantes precisam de inatividade, devaneio e outras
formas de descanso durante o dia para renovar os reservatórios de energia física e
mental e permitir que sejam ativadas ou estimuladas.

Vamos nos permitir

Todas essas experiências de liberdade e autonomia, que envolvem o uso de habilidades


ou levam a descobertas pessoais, são possíveis a partir do ócio criativo. Na atual
sociedade do consumismo exacerbado, onde tudo é monetizado e vira produto, o ócio
foi convertido em lazer (tempo socialmente convencionado como livre), e o lazer se
converteu em consumo. Com isso, perdeu-se a noção de um momento destinado ao
desfrute e ao desenvolvimento humano.

Vale destacar que a proposta do conceito de ócio criativo não está relacionada
necessariamente a não fazer nada. Mas se permitir investir em objetos de satisfação,
como estudo, meditação, arte, poesia, esporte ou outro hobby, numa forma de fazer
circular o desejo e a capacidade de criação. Na medida em que os indivíduos são
privados de sua capacidade criativa, do próprio querer em nome da produção, temos
sujeitos cada vez mais alienados quanto ao próprio desejo, o que colabora para a
manutenção do mal-estar e do sofrimento psíquico.

Diante de tamanha aceleração do tempo, que conduz à falta da introspecção e do


convívio consigo mesmo, não sabemos mais praticar o ócio. O desejo de ter se sobrepõe
e esvazia o centramento no próprio ser, e a realização do humano desemboca numa
inquietude e coisificação de tudo e todos. O bem-viver, sem estar atrelado à condição
material, precisa ser reaprendido. Isso é possível a partir de pequenos esforços diários
para resgatar ações que nos propiciam prazer, dão sentido humano e revigoram as
próprias forças, e não como uma máquina de potencial produtivo.

Fonte: https://www.uol.com.br/vivabem/reportagens-especiais/tempo-produtivo-
ocio-criativo/index.htm#cover

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