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Fazendo Gênero 8 - Corpo, Violência e Poder

Florianópolis, de 25 a 28 de agosto de 2008

Vozes femininas da Idade Média: Auto-representação, corpo e relações de gênero

Luciana Calado Deplagne (UFPB / FAPESQ)


Gênero; Autoria feminina; Literatura Medieval
ST 70 - Corpo, violência e poder na antiguidade e no medievo em perspectiva interdisciplinar

Apresentaremos nessa comunicação os primeiros resultados da pesquisa pós-doutoral


financiada pelo CNPq/FAPESq, na Universidade Federal da Paraíba, que tem por título
“Representações de Gênero na Literatura Medieval de autoria feminina: estudos e tradução”. O
principal interesse da pesquisa é resgatar a memória feminina dessas primeiras escritoras ocidentais,
identificando alguns aspectos recorrentes em seus escritos, tais como: auto-representação, corpo
feminino, relações de gênero. Utilizamos como categoria de análises as discussões teóricas do
pensamento feminista contemporâneo, acreditando ser uma via possível de compreensão das relações
de poder e de gênero que estão inseridas nos escritos medievais, em particular, naqueles de autoria
feminina.
Nessa perspectiva teórica de busca da memória feminina, julgamos fundamental que tal
resgate surja a partir de suas próprias vozes, através da recuperação de textos e espaços de mulheres.
Trata-se, como bem define Rita Schmidt (1999: 37), “de dar visibilidade à autoria feminina e assim,
reconstituir a voz da mulher e suas representações no contexto da natureza gendrada da
autoria/paternidade cultural que funda o prestígio da função autoral.”
Ancorando-se em pesquisas de medievalistas que já se debruçaram nesse estudo da produção
literária de autoria feminina e ou de eu-lírico feminino na Idade Média, tais como Ria Lemaire, Maria
do Amparo Maleval, Anne Paupert, Pierre Bec, Eliane Vienot, Peter Dronke, Régine Pernoud, Odile
Deplanche, Rivera Garretas, buscaremos identificar espaços de participação da mulher através da
escrita, na qual ela representa seu mundo exterior, revela seus anseios e se auto-representa. Dessa
forma, mais do que enfatizar a vitimização da mulher nesse período da história, nosso trabalho prima
pelo reconhecimento da resistência feminina aos preceitos sociais impostos ao longo da história.
A fim de tecer nas próximas linhas uma breve exposição desses escritos femininos repartimos
nossa comunicação em três expressões distintas da escrita feminina na Idade Média, focalizando as
relações de gênero através da auto-representação e da representação feminina do corpo. Primeiramente,
os relatos auto-biográficos femininos, em seguida a poesia lírica das trobairitz e por último o tratado
médico de Trotula de Salerno, De mulierum passionibus.
1. Relatos autobiográficos nos escritos femininos medievais
O papel da mulher na história vem sendo um dos tópicos de interesse nos estudos medievais,
como uma forma de resgatar as minorias silenciadas pela historiografia tradicional. No caso da Idade
Média, as fontes históricas utilizadas no estudo da participação feminina ao longo da história são quase
exclusivamente documentos literários e religiosos de autoria masculina, o que levou a concepção
generalizada de um “Mâle Moyen Âge”(Idade Média masculina), difundida por George Duby, um dos
historiadores de maior impacto sobre os medievalistas. No entanto, alguns pesquisadores vêm
reavaliando tal ponto de vista através da análise de fontes de autoria feminina, e de uma releitura dos
documentos históricos. Em 1998, a revista feminista CLIO dedicou um número exclusivo a essa
reavaliação da perspectiva dubyniana, intitulado George Duby et l´histoire des femmes. Em um dos
artigos, “Pour une revision du “Mâle” Moyen Âge de George Duby”, Any Livingstone chega à
seguinte conclusão: “As mulheres não estavam “na margem”. Elas não eram o “outro”, e sim
indivíduos bem instalados no coração das relações estruturadoras da sociedade. E o importante está
exatamente aí: que os pesquisadores a partir de agora, “escutem” as vozes das mulheres medievais e
possam resgatá-las nas narrativas do passado”1.
Virginia Woolf, já no início do século XX, alertara também para essa distância entre a
condição feminina na vida real e a imagem da mulher representada na literatura de autoria masculina,
confrontando esses dois espaços patriarcais: o real e o ficcional:

... Se a mulher só existisse na ficção escrita pelos homens, poder-se-ia imaginá-la como
uma pessoa de maior importância: muito versátil, heróica e mesquinha; admirável e
sórdida; infinitamente bela e medonha ao extremo; tão grande quanto o homem e até
maior, para alguns. Mas isso é a mulher na ficção. Na realidade, (...) ela era
trancafiada, surrada e atirada pelo quarto. (WOOLF: 1985, p.56)

Tais observações nos apontam para a importância de se buscar as vozes femininas do passado
para a reconstituição da história das mulheres, a partir de suas próprias representações, tanto do mundo
exterior, quanto de si mesmas.
É evidente que toda representação e auto-representação estão inseridas em um contexto
determinado, em um certo “lugar” de onde se fala, pois todo ser está de certa forma condicionado ao
seu meio, ao seu período histórico e seus valores, mesmo quando se colocam em posição contrária. Tal
delimitação espacial nos parece um importante instrumento de análise na abordagem da experiência
feminina da escrita na Idade Média, na medida em que nos ajuda a reconhecer o processo de busca de
uma identidade nas representações e auto-representações das escritoras medievais. Nossa análise segue
o conceito de “lugar” definido pela lingüista e psicanalista francesa Luce Irigaray, sendo o qual “cada
um(a) tem um lugar, este lugar que envolve apenas aquele ou aquela, que é a capa primeira de seu
corpo, sua identidade corporal, sua delimitação, igualmente em relação aos outros corpos”2.
Uma leitura de textos de autoria feminina deixa-nos rapidamente perceber alguns traços
identificadores dessa escrita, tanto na forma quando no conteúdo. Uma das marcas de distinção
encontra-se na auto-representação feminina, seja em textos autobiográficos, seja na expressão do eu-
lírico nos textos poéticos. É comum observar nas suas auto-representações a autocrítica, a auto-
depreciação das escritoras medievais, podendo ser interpretadas como consciência da condição de
inferioridade em que a mulher se encontrava em relação ao papel social ocupado pelo homem. Elas
estavam, de certa forma, penetrando em um universo quase exclusivamente masculino, o da escrita. A
identificação desse lugar de subordinação ocupado pela mulher é ainda mais importante na análise de
textos especificamente auto-biográficos. Como ressalta a historiadora Rivera Garretas (1995:160),

En un género literario cuyo canon ortodoxo ha sido desde hace muchos siglos tan
acusadamente masculino como éste, es obvio que las mujeres que han querido contar
por escrito su vida han entrado, en tanto que género (femenino), en condiciones de una
precariedad especial. Precariedad, porque la experiencia de vida de ellas no es, por
principio, considerada representativa de la experiencia universal o significativa de la
época, y porque el público a quien va dirigido el texto autobiográfico va a juzgarlo (y
las autoras son conscientes de ello) a través del prisma deformante de la feminidad de
la autora.

Mas, apesar da escrita autobiográfica apresentar-se como um gênero literário dedicado às


confissões e experiências dos protagonistas históricos masculinos, é notória a presença da autoria
feminina desse gênero literário como forma de reivindicar um espaço de registro da participação
feminina no contexto da sociedade patriarcal. Temos, por exemplo, na Baixa Idade Média, os relatos
autobiográficos espirituais de Hildegarde de Bingen(séc XII), Christiana de Stommeln (séc. XIII-XIV),
Juliana de Norwich (séc XIV), as memórias de Leonor López de Córdoba(séc XIV-XV), o relato de
vida da sua contemporânea Christine de Pizan, e a autobiografia de Margery Kempe, escrita em 1432.
Se a auto-depreciação e humildade marcam os relatos dessas escritoras, como uma tomada de
consciência de sua condição de inferioridade da mulher na vida real, podemos observar nas entrelinhas
que se trata, sobretudo, de um jogo estratégico encontrado para se adentrar no espaço literário
masculino. Em alguns casos, como no da escritora Christine de Pizan, na sua obra mais célebre A
Cidade das Damas (1405), tal manobra revela-se na atitude alternante de se apresentar ora como uma
“simples escolar ignorante [...] pobre de espírito”, ora de valorizar-se através da elevada erudição e
conhecimento amplo de obras literárias, da história, da filosofia, demonstrado ao longo da obra, assim
como através das vozes de outros personagens, como o da dama alegórica Razão que no início da
narrativa explica o motivo da sua aparição e de ela ter sido escolhida entre todos para construir a cidade
utópica em defesa das mulheres: “não aparecemos a qualquer um. Mas tu, minha cara Christine, pelo
grande amor que dedicaste à busca da verdade em teu longo e assíduo estudo, que te fez retirar-te do
mundo, tornando-te solitária, mereceste nossa amizade e mostraste-te digna de nossa visita”3. Tal
recurso de auto-afirmação fica evidente no final da obra quando a própria Christine descorre a favor da
modéstia: “quanto mais uma pessoa abunda em virtudes, mais demonstra humildade e gentileza”.

2. Ousadia e auto-representação na poesia lírica das trobairitz


Interessante observar expressões distintas de auto-representação dentro da própria literatura
feminina do período, em decorrência da modalidade literária. Na lírica trovadoresca, por exemplo, a
valorização feminina presente na poesia do “fin´amors” através da representação de vassalagem do
trovador em relação à Dama é igualmente visível na poesia das trobairitz, as poetisas trovadoras do
século XII e XIII.
Conserva-se, portanto, a descrição positiva que põe em valor as características físicas e morais
feminina. Nesse aspecto, observamos na poesia das trobairitz uma auto-representação feminina
bastante valorizadora, como observamos na estrofe, reproduzida abaixo, da Condessa de Dia4. Trata-se
de um dos mais célebres poemas dessas poetisas, o único cuja melodia foi também conservada.

A chantar m’er de so qu’ieu non volvria, Ponho-me a cantar o que não queria,
Tan me rancur de lui cui sui amia, Queixo-me tanto de quem sou a ‘amiga’
Car ieu l’am mais que nuilla ren que sia: Pois amo-o mais que tudo nesta vida:
Vas lui no .m val merces ni cortesía Mas nada o toca: dó, nem cortesia,
Ni ma beltatz ni mos pret ni mos sens, Nem m´alma, beleza e valores tantos
C’atressi .m sui enganad’e trahïa Por ele sou enganada e traída,
Com degr’ esser, s’ieu fos desavinenz. Assim como se me faltassem encantos.

Constituída de monólogos amorosos (cansós, sirventès, coblas) e de diálogos poéticos


(tensons), a poesia das trobairitz representa uma forma de expressão feminina em resposta à literatura
dos trovadores. Apesar de enquadrar-se no mesmo código do amor cortês, o conjunto dos poemas de
trobairitz apresenta um estilo mais livre com o maior grau de subjetividade em relação aos poemas de
seus colegas trovadores e trouvères. Segundo a opinião de alguns pesquisadores, como Pierre Bec, Meg
Bogin, John Baldwin, Beretta Spampinato, Jeanroy, sobre a produção poética dessas mulheres, tais
diferenças e a essência mesmo das duas poesias (de autoria masculina e de autoria feminina) se
justificam na própria motivação de suas escritas. Enquanto os troubadours encontravam no fazer
poético uma maneira de ascensão social, uma motivação de ordem profissional, as trobairitz
encontravam nessa atividade um meio de expressão, de se tornarem visíveis, portanto, razões pessoais.
O código sócio-poético trovadoresco é utilizado pelas mulheres trovadoras de maneira
invertida na representação da situação erótica habitual, na medida em que são as poetisas que assumem
o papel ativo do prejador, que rogam o amor do seu amante (cavalier ou amic) escolhido por suas
qualidades (proeza). Observa-se, no entanto, uma sensualidade mais marcante na lírica feminina, assim
como uma linguagem mais direta, mais clara, como vemos nos versos da poetisa Castelosa: “[...]Que
pòis dòmna s´avé / D´amar, prejar deu be / Cavalièr, s´em lui vê / Proez´e vassalatge.” (“Pois, quando
uma dama decide amar, é ela quem deve pedir o amor do cavaleiro, se ela vê nele proeza e qualidades
cavalerescas”). Ou ainda os ousados versos da trobairitz Condessa de Dia:

“Bela amics, avinenz e bos, “Belo amigo, charmoso e cortês,


Quora´us tenrai em mon poder, quando ter-vos-ei em meu poder
Et que jagués ab vos um ser, E que me deitarei ao vosso lado,
Et que´us dès um bais amores? E que possa dar-vos beijo de amor?
Sapchatz, gran talan n´auria Saiba que muito prazer teria
Que´us tengués em luòc del marit [...]”, De vos ter no lugar do meu marido[...]”

Na introdução da antologia de poemas, Chants d´amour des femmes-troubadours,


traduzidos para o francês moderno, Pierre Bec (1995:p.40) faz menção a essa distorção do código de
amor cortês trovadoresco:

Alors que pour l´homme-troubadour, le désir éternellement inassouvi (du moins en


príncipe), joint aux tensions sociales qui le dynamisent, se fixe sur l´image idéalisée
d´une dame hautaine et inaccessible, pour la grande dame poétesse, la sensualité
continue de maintenir une valeur bien précise de preuve d´amour. On voit d´autre part
que la discrétion (le celar), valeur fondamentale chez les troubadours, ne semble pas
exister chez les trobairitz qui, au contraire, parlent de leur amour avec ostentation5.

3. O cuidado feminino com o corpo em De mulierum passionibus


Várias são as representações do corpo feminino na Idade Média: da erótica da poesia
provençal, aos textos literários de forte caráter misógino, baseados nos tratados pretensamente
científicos que pregavam a debilidade do corpo feminino e sua inferioridade em relação ao corpo
masculino, passando pela literatura espiritual das místicas conhecidas como Trovadoras de Deus, por
quem o corpo era representado como alimento celeste, como o pão da vida.
De tal diversidade de relações com o corpo na Europa feudal, encontramos um interessante
registro da medicina medieval, sobre o corpo humano, intitulado De Mulierum Passionibus. Trata-se
de uma obra composta de receitas terapêuticas e de medicina preventiva, em especial no que se refere à
clínica obstetrícia e ginecológica, escrito por uma médica do século XI, chamada Trotula de Rugiero.
Também mestra da Scuola Medica Salernitana, na Itália, Trotula viveu em Salerno e foi bastante
reconhecida pelo seu trabalho até o final da Idade Média. Seu tratado era composto de três partes: um
prólogo sobre o Trotulae curandarum aegritudinum (Livro único de Trótula sobre a cura das
doenças), a segunda parte sobre sua prática de cura de doenças relacionadas à obstetrícia, do antes,
durante e depois do parto. A terceira parte é composta de uma série de receitas de cosméticos para o
embelezamento do corpo.
A pesquisadora Pina Boggi Cavallo (RUGIERO, 1994:30), na apresentação da tradução
bilíngüe (latim-italiano) elaborada por Piero Cantalupo, assim define o trabalho de Trótula:

Teoria e pratica di una scienza della corporeità, dunque, quella che è dato di cogliere
attraverso una lettura possibile di un testo dell´XI secolo, in cui la vita campeggia e si
salva, in cui la morte non ha ancora occupato lo spazio aperto tra lo sguardo e la
parola, nel pieno della vecchiezza della clinia e dell´ars erótica, che di vecchio,
entrambe, conservano solo il nome.

Outros trabalhos apontam para a importância da obra de Trotula e de outras escritoras médicas
medievais na história da medicina, como ressalta a tese de Carmen Simone Grilo Diniz, Entre a
técnica e os direitos humanos - possibilidades e limites da humanização da assistência ao parto,
do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, (2001)6:

O trabalho das médicas de Salerno, assim como de outras autoras médicas medievais,
como Hildegarde de Bingen (1098-1173), nos levam a relativizar - pelo menos como
regra geral - a escuridão do período no que diz respeito às mulheres e às prática cultas
de cuidados com a saúde. Um dos dados que produz mais estranhamento é a diferença
de concepção sobre a sexualidade e a reprodução nos escritos dessas autoras, em
contraste com os de outros religiosos. A menstruação é chamada de "flores" por
Trótula e Hildegarde, em analogia às flores das árvores, essenciais à produção dos
frutos; ambas insistem no especial cuidado para o bem-estar das mulheres
menstruadas. Para Brooke (1995:39), a prescrição do uso do ópio no parto por Trótula
é especialmente interessante, porque na época o alívio das dores, em especial as do
parto, era expressamente proibido pela Igreja. Ainda que o trabalho de Hildegarde seja
pontuado de referências à serpente e ao pecado, tanto ela quanto Trótula escreveram
com bastante otimismo sobre o desejo e o prazer sexual, o que é espantoso tanto para a
época quanto pelo fato de a primeira ter chegado a ser canonizada - talvez porque parte
dos seus escritos estiveram desaparecidos até o século passado.

Bastante difundida sua obra durante o medievo, traduzida em vários idiomas, Trótula teve, no
entanto, sua identidade questionada no século da invenção da imprensa, pelo seu primeiro editor, em
1544. Período de intensa misoginia, o Renascimento negou a autoria dessa obra a uma mulher,
alegando o elevado grau de cientificidade impossível para a sabedoria feminina da época. Apenas
pesquisas recentes do final do século XX é que vão devolver a Trotula o reconhecimento da autoria de
sua obra De mulierum passionibus.
A esse respeito, é valioso o estudo da historiadora espanhola Rivera Garretas Trotula: el
cuerpo de mujer (1995:107), onde ela busca identificar, através da crítica feminista contemporânea, os
elementos construtores da categoria “corpo feminino” no texto De mulierum passionibus.

Si el cuerpo es, en buena parte, lenguaje, discurso, y nuestro lenguaje es un lenguaje


fálico, masculino, donde situar a Trotula y a su tratado sobre el cuerpo de las mujeres?
Seguramente no es casualidad que haya sido tan sinuoso el camino que salía de Trotula
y su cuerpo y su palavra de mujer negados desde el siglo XVI, y que llega a un final de
etapa en el cual las mujeres tenemos alguna posibilidad de recuperar cuerpo y
lenguage. En outras palavras, no es precisamente por una “ironia de la historia” que
durante cuatro siglos se han acumulado esfuerzos para cancelar la incómoda identidad
de Trotula. Una apoyatura filosófica compleja en que asentar con cierta autonomia un
lenguaje de y en torno al cuerpo femenino la ofrece el pensamiento de la diferencia
sexual.

Últimas considerações
Nesse breve estudo sobre a produção feminina na Europa feudal tentamos resgatar traços da
escrita feminina e suas próprias representações da realidade, através de formas distintas de expressões:
relatos auto-biográficos, o contratexto feminino da poesia lírica trovadoresca e até um tratado médico.
Acreditamos, pois, que o conhecimento de tais obras constitui o único meio de colocar abaixo
representações errôneas e nocivas, às quais, ao longo da história os escritos femininos foram expostos.
Seus escritos nos dão prova da importância da palavra feminina como meio das mulheres participarem
do processo histórico, manifestando sua visão de mundo em uma sociedade tradicionalmente
androcêntrica. Estudar o passado vale, então, para compreender as raízes da dominação que deram
suporte às relações hierárquicas de gênero através do tempo e identificar as marcas de resistência
constituintes do discurso e trajetória feminina. .

Referências bibliográficas
BEC, Pierre. Chants d’amour des femmes-troubadours : Trobairitz et « chansons de femme ».
Paris: Stock/Moyen Âge, 1995.
BOGIN, Meg. Les femmes troubadours. Paris: Collection femmes, 1978.
DE PIZAN. La Cité des Dames. Trad. Thérèse Moreau et Eric Hicks. Paris: Stock/Moyen Age, 2000.
DE RUGGIERO, Trotula. Sulle malattie delle donne. Trad: Piero Cantalupo. Palermo: La Luna
saggia, 1994.
EPINAY-BURGAND, G., ZUM BRUNN, E. Femmes troubadours de Dieu. Paris: Brepols, 1988.
IRIGARAY, Luce. Éthique de la différence sexuelle. Paris: Minuit, 1984.
JEANRROY, A., La poésie lyrique. Génève: Ed.Genève, 1973.
RIVERA GARRETAS, M. Textos y espacios de mujeres. Europa, siglos IV-XV. Barcelona: Icaria,
1990.
SCMIDT, Rita Terezinha. “Recortes de uma história: a construção de um fazer/saber”. In:
RAMALHO, Christina (org.). Literatura e Feminismo. Propostas teóricas e reflexões críticas. Rio
de Janeiro: Elo, 1999.
VOZZO MENDIA, Lia (ed.) Memorie de Leonor Lopéz de Córdoba. Parma, : Pratiche Editrice,
1992.
WOLF, Virginia. Um teto todo seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

1
«Les femmes n’étaient pas « en marge ». Elles n’étaient pas l’« autre ». Non, elles étaient des individus bien installés au
coeur des rapports structurant la société. Et l’important est bien là : que les chercheurs, désormais, « entendent » les voix
des femmes médiévales et puissent les restituer au récit du passé » LIVINGSTONE, Amy. « Pour une révision du « mâle »
Moyen Âge de Georges Duby (États-Unis) », Clio, numéro 8/1998, Georges Duby et l'histoire des femmes, [En ligne], mis
en ligne le 3 juin 2005. URL : http://clio.revues.org/document318.html. Consulté le 30 juin 2008.
2
"Chacun (e) a un lieu, ce lieu-ci qui n'enveloppe que lui ou elle, qui est l'enveloppe première de son corps, son identité
corporelle, sa limite, également par rapport aux autres corps." Luce Irigaray. Éthique de la différence sexuelle. Paris:
Minuit, 1984, p. 43.
3
“[...] nous n´apparissons pas à n´importe qui. Mais toi, ma chère Christine, par le grand amour que tu as porté à la
recherche du vrai dans cette longue et assidue étude, qui t´a retirée du monde et rendue ainsi solitaire, tu as mérité notre
amitié et t´es montré dingne de notre visite...” DE PIZAN. La Cité des Dames. Trad. Thérèse Moreau et Eric Hicks. Paris:
Stock/Moyen Age, 2000, p.42.
4
- Todas as referências de poemas de trobairitz aqui citadas foram retiradas da obra de Pierre Bec Chants d´amour des
femmes-troubadours. Ver referência completa na Bibliografia.
5
Enquanto que para o trovador, o desejo eternamente insaciado (ao menos em princípio), se junta às tensões sociais que o
dinamizam, fixando-se à imagem idealizada de uma mulher altiva e inacessível, para a grande dama poetisa, a sensualidade
continua mantendo um valor bem preciso de prova de amor. Vê-se, por outro lado, a discrição (celar), valor fundamental
nos trovadores, não parece existir na poesia das trobairitz que, ao contrário, falam de seu amor com ostentação”
6
-Tese disponível no seguinte endereço eletrônico: www.mulheres.org.br/parto/fundocorpo.htm