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o Anti-Semitismo na Era Vargas

o anti-semitismo na era Vargas: fantasmas de lima


geração (1930-1945), de Maria Luiza Tucci Carneiro.
São Paulo, Brasiliense, 1988, 600 p.

Marcos Chor

A questão racial no Brasil tem sido No ano passado, em um ciclo de


fonte de grandes controvérsias, o que debates intitulado'" Autoritarismo e
pode se.r constatado nas comemora· anti-semitismo na era Vargas", 1 a ex­
ções dos cem anos da abolição da posição de uma historiad.ora da Uni­
escravidão. Parece que nosso universo versidade de São Paulo suscitou in­
cultural e ideológico encontra certa tensa polêmica ém forno da atuação
resistência em tratar as relações ra­ de Osvaldo Aranha à frente do Minis­
ciais de uma maneira mais isenta, tério das Relações Exteriores durante
dando ao tema a importância que ele o Estado Novo. Esta historiadora, Ma­
merece. ria Lujza Tucci Carneiro, em sua tese
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de doutorado Anti-semitismo na era O anti-semitismo, no caso brasilei­


Vargas: fantasmas de uma geração ro, aproxima-se do padrão tradicional,
(1930-1945), revela entre outras coi­ segundo o qual a visão negativa do
sas concepções e práticas anti-semitas judeu prende-se a aspectos relativos
do então chefe do Itamarati. Revol­ à religião e à economia. Este padrão.
vendo um terreno minado por (dolos, que no imaginário da sociedade brasi­
mitos e segredos, Tucci Carneiro pro­ leira é difuso, contraditório, acober­
vocou reações apaixonadas ao ques­ tado, contendo a idéia de exclusão e
tionar em particular. imagem de Os­ tolerância, própria às relações raciais
valdo Aranha, que é considerado e neste paIs, só foi ameaçado em sua
reverenciado como o maior defensor hegemonia na década de 30. Neste
brasileiro da causa judaica, e especial­ perlodo, a instabilidade política, o
mente a criação do Estado de Israel. crescimento das correntes antiJiberais,
Tema mundialmente difundido na o golpe de 37 e o Estado Novo con­
década de 30, cultivado durante o sé­ tribufram em parte para que setores
culo XIX principalmente pelas forças das elites políticas e da intelectuali­
conservadoras que atribulam aos ju­ dade concebessem os judeus como
deus a destruição do mundo tradi­ fonte de todos os males do mundo
cional e a criação da modernidade, moderno. .
o anti-semitismo foi apropriado por Esta visão foi sinteticamente expos­
diversos movimentos autoritários e to­ ta pelo ex-líder integralista Gustavo
talitários que surgiram no perlodo en­ Barroso da seguinte forma: "Ninguém
tre guerras, transformando-se em moe­ combate o judeu porque ele seja de
da conente no quadro cultural e polí­ raça semita nem porque siga a reli­
tico europeu. Entre outros fatos que gião de Moisés. Mas sim porque ele
compõem este cenário de retomada age politicamente dentro das nações,
do anti-semitismo estão o famoso caso no sentido de um plano pré-concebido
Dreyfus, na França, e a publicação, e levado por diante através dos tem­
no inicio do século, dos Protocolos pos. ti I Dessa maneira, mesmo levan�
dos Sábios de Sião, panfleto confec­ do em consideração as particularida­
cionado pela polícia tzarista contendo des da sociedade brasileira, o anti­
11m plano para a conquista do mundo semitismo moderno. essencialmente
supostamente elaborado pelos judeus. polItico e ao mesmo tempo intoleran­
Os protocolos foram adotados oficial­ te, influenciou as atitudes de intimi­
mente pelo partido nazista e consti­ dação. prisão e deportação de judeus,
tulram um dos livros básicos de sua além da proibição de sua entrada no
doutrina. Tornaram-se conhecidos, re­ Brasil nos anos 30, principalmente no
cebendo inúmeras edições. o que mui­ perlodo do Estado Novo.
to contribuiu para a popularização do Ao centrar seu estudo no primeiro
mito da conspiração mundial judaica. governo Vargas, Tucci Carneiro ela­
bora um primoroso trabalho de pes­
No Brasil. as manifestações antiju­
quisa de fontes primárias e secundá­
daicas podem ser situadas principal­
rias. Utilizando documentos do Ar­
mente em dois momentos de nossa quivo Histórico do Itamarati, do Cen­
história: na atuação do Tribunal do tro de Pesquisa e Documentação de
Santo Ofício da Inquisição, na perse­ História Contemporânea do Brasil
guição aos cristãos-novos e judeus vin­ (Cpdoc) e do Arquivo de Hospeda­
dos de Portugal nos séculos XVII e gem dos Imigrantes, além de perió­
XVIII, e no primeiro governo Vargas. dicos da época e obras do pensa­
de 1930 a 1945. mento social brasileiro que contem-
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pIam idéias racistas e anti-semitas, Carneiro, ao longo de sua tese, valo­


a historiadora paulista revela atitudes riza em demasia as semelhanças entre
contrárias aos judeus, principalmente os dois regimes políticos, sem deter-se
do governo brasileiro, que até recen­ nas pré-condiçóes que prefigurariam
temente eram desconheciJas_ À novi­ o surgimento de um regime totalitário
dade do trabalho deve-se acrescentar no Brasil que elegesse o judeu como
a perseverança com que a pesquisa­ inimigo objetivo e propusesse a sua
dora soube enfrentar as dificuldades eliminação.
impostas pelo Ministério das Rela­ A tese é dividida em quatro partes,
ções Exteriores ao manuseio de do­ sendo que na prim�ira, dedicada ao
cumentos do Arquivo Histórico do fenômeno anti-semita, são empregados
ltamaratL com freqüência os conceitos de anti­
Outro aspecto que cabe ser ressaJ­ semitismo tradicional e anti-semitis­
tado é a proposta de estudo do anti­ mo moderno, elaborados por Hannah
semitismo abarcando diversos níveis Arendt em O anti-semitismo como
de análise (hist6rico, sociológico, polí­ instrumento de poder. Nesta obra, a
tico e ideológico). indicando a riqueza filósofa política alemã analisa basi­
e relevância do tema e propiciando camente alguns aspectos do anti-semi­
amplas possibilidades de pesquisa s0- tismo que contribuem para a com­
bre esta vertente do pensamento au­ preensão do mundo moderno e· da
toritário/totalitário, que até hoje é gênese e do funcionamento do tota­
no Brasil pouco investigado. Além litarismo. Neste sentido faz-se neces­
disso, a tese notabiliza-se pela criati­ sário, para maior clareza da exposi­
vidade ao analisar o anti-semitismo ção, desenvolver o significado dos
nas charges existentes em algumas dois conceitos apontados acima.
revistas de época e ao valer-se de
O padrão tradicional de anti-semi­
depoimentos orais de judeus que vi­
tismo caracteriza-se pela existência de
venciaram os riscos e o drama de
conteúdos econômico-religiosos, indi­
entrarem no território brasileiro du­
cando as formas de inserção dos ju­
rante o Estado Novo.
deus na sociedade até o início da
No entanto, qualquer trabalho que
modernidade. A princípio através da
analise um perlodo tão rico como o
religião, como exemplo vivo da ver­
primeiro governo Vargas e que se
dade do cristianismo, em seguida na
detenha num estudo, em várias di­
economia, integrados pela rejeição.
mensões, de uma temática complexa
vivendo à margem da produção como
como a do anti-semitismo, corre o
embrião monetário numa economia
risco das imprecisões e generalizações.
pré-capitalista. Marginalizados, man­
Esta observação, de inIcio, pode ser·
tendo-se num equilíbrio precário com
constatada na introdução da tese, on­
certa autonomia, os judeus, dentro de
de o Brasil é definido como uma pre­
uma sociedade não-judia, oscilavam
tensa democracia racial "desprovida
entre a exclusão e a tolerância. Vi­
de. campos de concentração ou de ex­
viam na sociedade, mas não perten­
termlnio". Ou mais adiante, quando
ciam à sociedade.
se lê que "realmente não chegamos a
tanto, mas existiram entre nós, o pa­ O segundo padrão. desenvolvido a
ralso dos trópicos, condimentos neces­ partir do século XVlIl, ,?oderno, es·
sários que quase nos transformaram sencialmente polftico, culminou no
num purgatório nazista" (p. 21-22). início do século XX, com a elabo­
Ao estabelecer uma analogia entre ração pela polícia tzarista dos Prolo­
o Estado Novo e o 111 Reich, Tucci colos dos Sábios de Sião, o grande
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mito da conspiração mundial judaica. sempre como um homem rico e pode­


Este período é pontuado pela com­ roso, detentor do capital" (p. 40-41).
plexa inserção dos judeus na socie­ Este enfoque destoa do de Hannah
dade, através da emancipação, pela Arendt, que concebe o anti-semitismo
crescente autonomia e centralização moderno como uma ruptura que, ao
do Estado e pelas tensões entre socie­ lado de outras rupturas, criaria as
dade civil e sociedade política. Esta condições para O surgimento do tota­
situação histórica fez com que os ju­ litarismo. Além disso, a análise dos
deus se tornassem ponto vulnerável elementos políticos contidos neste pa­
de insatisfações advindas da disso­ drão de anti·semitismo sofre de algu­
lução da sociedade tradicional e do mas imprecisões, tanto na questão
surgimento do processo de moderni- da cidadania na Revolução Francesa,
zação. ,.' onde se afirma que os judeus "com­
Para o anti-semitismo moderno, os pletaram a sua integração na socie­
judeus transformaram-se em "merca­ dade ocidental", quanto na colocação
dores do mal", organizados em socie­ de que, "seguindo o exemplo da lei
dades secretas e articuladas interna­ francesa de 1791, os demais países
cionalmente, presentes nas principais da Europa outorgaram aos judeus o
mudanças ocorridas no mundo. Cria­ direito de emancipação, destruindo a
dores do socialismo, do iluminismo, antiga autonomia comunitária judai­
do capitalismo, do individualismo pos­ ca" (p. 40). Il bom lembrar que na
sessivo, do materialismo, da compe­ interação entre judeus e não-judeus,
tição, dos conflitos, do Estado dentro principalmente a partir da era mo­
do Estado, da manipulação dos gover­ derna até o início da Segunda Guerra
nantes e das massas e, finalmente, do Mundial, os aspectos de tensão e con­
comunismo. Se os judeus ocupam to­ flito foram mais relevantes do que
dos os espaços que são responsáveis os de Hintegração" e "destruição".
pelos principais conflitos no mundo Esta é a fonte do anti-semitismo mo­
moderno, a única solução, segundo derno, essencialmente calcada nas ten­
este padrão de anti-semitismo, é a sões entre sociedade civil e Estado.
eliminação da fonte de todos os ma­ Estas observações colocam em evi­
les: os judeus. dência o próprio entendimento sobre
o anti-semitismo que perpassa a tese.
Mesmo utilizando a tipologia arend­
Hannah Arendt, em sua obra já men­
tiana, Tucci Carneiro dilui a diferença
cionada, afirma a inexistência de uma
entre os dois padrões de anti-semi­
"história anaIftica do anti·semitismo".
tismo abordados pela filósofa alemã,
Esta constatação ad\"ém das críticas
como se pode observar' na seguinte
à historiografia judaica, composta em
passagem: UTanto no anti-semitismo
sua maioria por estudos com "tendên­
tradicional como no moderno, o ju­
cia polêmica e apologética, detectando
deu é identificado como um estran­
da história cristã as ocorrências carac­
geiro, incapaz de se adaptar e de se
terizadas pelo ódio aos judeus". Ao
integrar nos países onde se instala. Ele sublinhar as catástrofes, expulsões e
é apresentado sempre como um indi­ massacres partilhados pelos judeus em
víduo hostil à civilização, explorador sua história, esta historiografia funda­
dos mais fracos, desrespeitador da menta aquilo que SaIo Baron deno­
fé cristã, imoral, anti-social, depre­ minou de "versão lacrimogênea", ou
dador e de esplrito revolucionário; que Arendt entende como "a teoria
uma anomalia social e racial. O judeu, que apresenta os judeus como eterno
do ponto de vista econômico, é visto bode-expiatório". •
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Dessa maneira, mesmo ao analisar ligações entre as idéias coletadas e a


o anti-semitismo numa visão múltipla, conjuntura política da época. Este
Tucci Carneiro aproJÚma-se da histo­ procedimento que recorta a temática
riografia tradicional, enveredando fre­ racial, sem inseri-Ia no conjunto das
qüentemente pelos caminhos da la­ obras destes pensadores e na época
mentação e da denúncia. Em conse­ na qual foram elaboradas, transforma
qüência disso, nota-se a ausência de freqüentemente o entendimento sobre
lima análise dialética que conceba o a questão em denúncia. Além disso,
fenômeno do anti-semitismo a partir as influências internacionais sobre es­
das relaçôes de interação e conflito tes intelectuais não passam de indi­
entre judeus e não-judeus. caçôes, o que fragiliza as vinculações
A segunda parte da tese, o "Anti­ propostas. .
semitismo nas tramas da política na­ Por último, nota-se a ausência de
cionalu, é a mais extensa e impor­ uma análise mais acurada da Revo­
tante. Nela, a historiadora da USP lução de 30, do período de instabi­
resgata os conteúdos racistas presen­ lidade e radicalização política (1930-
tes nas obras de diversos intelectuais 1937), do golpe de 37 e do governo
brasileiros, principalmente da Repú­ autoritário do Estado Novo. Algumas
blica Velha, que influenciaram a po­ passagens podem confirmar esta ob­
titica imigratória restritiva do primei­ servação: "Assim, a partir da Revo­
ro governo Vargas. Ao mesmo tempo lução de 30, com a ascensão e a par­
analisa a conjuntura política, privi­ ticipação de uma burguesia comercial
legiando os aspectos ideológicos que e industrial nas esferas do poder, com
colaboraram para a formação de um a emergência de grupos políticos de
pensamento com feições racistas no extrema-direita e com a formulação
Brasil. Mas é na atuação da "elite de um pacto Igreja/Estado, podemos
Rio Branco", e particularmente de verificar, serpenteando por entre os
Osvaldo Aranha, onde se encontra valores liberais exaltados, a recupe­
a principal contribuição desta tese. ração das idéias raciais" (p. 97).
Apresentando uma quantidade signi­ Em outro momento: "� de suma
ficativa de documentos, Tucci Car­ importância ressaltarmos a presença
neiro revela fatos estarrecedores, que da Igreja neste momento de conso­
suscitam inevitavelmente a releitura lidação do novo regime que procura­
da trajetória política de Osvaldo Ara­ va lima ideologia que lhe fornecesse
nha e do Ministério das Relações Ex­ um conteúdo filosófico e moral" (p.
teriores neste período. Ademais, ex­ 110). E finalmente: "O autoritarismo
põe de maneira transparente o drama surgiu como a única forma possível,
de milhares de judeus que, fugindo em contraposição ao liberalismo e ao
do nazismo, não puderam entrar no comunismo, de conter estas 'novas
Brasil. forças' que emergirpm no cenário na­
Esta riqueza documental, que tem cional, como conseqüência do desen­
provocado intensos debates e posicio­ volvimento urbano-industrial. As so­
namentos, destoa do trabalho reali­ luções nacionalistas ganharam força
zado com o material pesquisado. No e sentido, encobrindo as atitudes fas­
caso dos intelectuais brasileiros que cistizantes de Vargas e seu Ministé­
foram analisados, a historiadora pau­ rio" (p. 120).
lista pinça os conteúdos racistas eJÚs­ O enfoque dado às relações entre
tentes em suas obras, aponta vagamen­ Estado e sociedade repercutirá na
te influências que informariam estas análise do anti-semitismo, particular­
concepções e, concluindo, estabelece mente no Estado Novo: "As restri-
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ções impostas à entrada dos judeus Na quarta e última parte, "As lem­
no Brasil foram muito bem recebidas branças e emoções dos judeus imi­
pela burguesia industrial e comercial, grantes", Tucci Carneiro resgata a
que VIU nesta IflIclatlva governamen- memória de judeus vindos da Europa
• • • • •

tal um 'trabalho patriótico' e de 'res­ perseguidos pelo nazismo, através de


ponsabilidade'. A classe sentia-se pro­ depoimentos orais. Utilizando um mé­
tegida de 'uma concorrência comercial todo que recentemente tem sido valo­
desleal' que invadia o mercado brasi­ rizado como forma de recuperação
leiro, visto que grande parte dos ju­ da memória histórica, Tucci Carneiro,
deus imigrantes concentravam-se nas a partir de entrevistas, traça 11m qua­
cidades, dedicando-se ao comércio. Da dro de esperanças, apreensões, frus­
mesma forma, esta burguesia sentiu­ trações, medo e morte, vivenciado pe­
se beneficiada, no Estado Novo, com los judeus que aqui se encontravam,
a proibição de greves e protestos ope­ ou que entravam naquele período no
rários, além da aplicação de uma país, ou que foram impedidos de viver
aquI.

legislação trabalhista, previdenciária


e sindical" (p. 129). Na conclusão, a historiadora faz
Neste sentido, o entendimento das uma sintese da sua visão sobre o
relações entre classes sociais, ideolo­ anti-semitismo no Brasil nos anos 30,
gia e instituições poUticas é instru­ incorrendo em certas imprecisões. A
mentai: o econômico, o social, o po­ primeira delas é a de considerar que
lítico e o ideológico têm determinadas haja contradição entre anti-semitismo
funcionalidades, transformando a pes­ e nacionalismo, como aparece no pri­
quisa, em certas passagens, numa lei­ meiro parágrafo: "O anti-semitismo
tura árida e repetitiva. que se manifestou durante a era Var­
gas pode ser caracterizado como polí­
A terceira parte, "Propaganda, ima­
tico e xenófobo, apesar de camuflado
gem e simbolismo", apresenta eon·
sob a máscara do nacionalismo." A
teúdos anti-semitas em obras de mili­
segunda, a utilização pouco rigorosa
tantes da Ação Integralista Brasileira,
do conceito de anti-semitismo moder­
em especial a de Gustavo Barroso, em
no, como se pode observar: "Do pon­
panfletos de autores desconhecidos,
to de vista do anti-semitismo moderno,
em documentos de alguns diplomatas
verificamos que este se manteve me­
da "elite Rio Branco" e em órgãos
diante cálculos políticos, ajustado de
da imprensa. Há ainda um estudo da
acordo com as necessidades do poder
imagem do judeu na caricatura po­
e instigado por pseudoteorias cientí­
lítica.
ficas importadas da Europa" (p. 499).
Mais adiante, a pesquisadora retra­ A terceira refere-se às relações entre
ta a reação à onda anti-semita, ba­ burguesia e racismo, sem provas coo­
seando-se fundamentalmente no estu­ vincentes da vinculação entre os dois
do de algumas obras de judeus e termos em questão, como por exem­
não-judeus publicadas na época. O plo: "Deste clima de exaltação à raça
caso mais interessante refere-se ao 'branca' em detrimento do judeu, do
inquérito entre intelectuais brasileiros negro e do japonês, cresceu o eufo­
intitulado Por que ser anti-semita? rismo da tão cobiçada identidade na­
A historiadora da USP expõe, com cional. Pressões vindas de fora soma­
Itiuita propriedade, os preconceitos ram-se às nossas tradições racistas e
dos autores em relação aos judeus religiosas que, impulsionadas pela for­
mesmo ao se colocarem contra o anti: ça do nacionalismo emergente, con­
semitismo. tribuíram para a prática do anti-semi-
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tismo. E este tipo de manifestação definitivas às questões formuladas,


camuflada só pode ser compreendida mas teremos subsídios significativos
se relacionada com a ascensão de uma para a compreensão de uma das fa­
burguesia que mostrou-se liberal nos cetas do autoritarismo e da intole­
momentos de vilória mas que, diante rância neste país.
do temor de lima revolução proletária
Notas
e de um pressuposto 'concorrente co­
mercial' - o semita -, apelou para 1. Este ciclo de debates foi promovido
a repressão, a censura e a perseguição pela Federação Israelita do Estado do Rio
aos comunistas, judeus, anarquistas, de Janeiro (FIERJ) DO Conjunto Univer·
maçons e até mesmo nazistas" (p. sitário Cândido Mendes, entre 26 e 29 de
outubro de 1987.
SOl).
2. Gustavo Barroso, O que o integralis.
O anti-semitismo é uma questão ta deve saber. Rio de Janeiro, Civilização
no Brasil? Como se insere historica­ Brasileira, 1935, p. 119,
mente esta problemática? Qual é a 3.Hannah Atendt, O anti-semitismo co­
atualidade deste tema? Apesar dos mo instrumento de poder, São Paulo. Do­
limites da análise, custo inevitável a cumentário, p. 13 e 24.

quem se propôs um trabalho de ta­


manha magnitude como este, ao ler­
Marcos Chor é professor auxiliar do Dep.
mos a tese de Maria Luiza Tucci Car­ de Sociologia da PUC/RJ e pesquisador
neiro talvez não tenhamos respostas da Casa de Osvaldo Cruz (Fiocruz).

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