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DOI: 10.18468/estcien.2018v8n1.

p47-56 Artigo de revisão de literatura

O processo de urbanização carioca na 1ª República do Brasil no século XX:


uma análise do processo de segregação social

Marcelo Penna da Silva1


1 Pós-graduado em História do Brasil pela Universidade Candido Mendes, Pós-Graduado em Africanidades e Cultura Afro-brasileira
pela Universidade Norte do Paraná, Licenciado em História pela Universidade Norte do Paraná e Graduando em Geografia pela Uni-
versidade do Estado do Rio de Janeiro e pós graduando lato sensu em Geografia e Meio Ambiente, pela Universidade Candido Men-
des. Professor da rede de ensino privado do Município de Petrópolis-RJ, Brasil.
E-mail: celo_penna2@hotmail.com http://lattes.cnpq.br/2352803257535592

RESUMO: O presente trabalho visa analisar os impactos urbanísticos causados no Rio de Janei-
ro, no recorte do governo do prefeito Pereira Passos (1902-1906), no qual se compreenderá
que o inchaço demográfico no Distrito Federal, desencadeou uma série de processos insalu-
bres. Assim, veremos que o famoso “bota abaixo” acarretou num processo de segregação so-
cial da população negra carioca principalmente, causando a migração dos ex-escravos para as
periferias e a subida dos morros, acarretando na favelização. Assim, podemos identificar que a
reforma empreendia pelo governo municipal trouxe a cidade do Rio de Janeiro a padrões salu-
bres aceitáveis e necessários, porém a um preço injusto: a segregação sociespacial. Dessa for-
ma, a dinâmica das favelas é oriunda desta reforma cujo cerne era uma proposta de pseudo
processo “civilizatório” acarretando impactos perceptíveis até os dias atuais. Assim, podemos
analisar que o preço pago pelo plano urbanístico idealizado pelo “Haussmann tropical” – o pre-
feito Pereira Passos, a fim de recriar uma Paris, no coração da recém-capital da 1ª República
do Brasil, foi efetuado apenas pela população mais pobre e negra, na qual não houve o cuida-
do de reintegra-los à sociedade e/ou lhes garantir direitos.
Palavras-chave: Favelização; Rio de Janeiro; Pereira Passos;

The carioca urbanization process in the 1st Republic of Brazil in the twentieth century: an
analysis of the social segregation process
ABSTRACT: The present study aims to analyze the urban impacts caused in Rio de Janeiro, in
the cut of the government of the mayor Pereira Passos (1902-1906), in which it will be under-
stood that the demographic swelling in the Federal District, triggered a series of unhealthy
processes. Thus, we will see that the famous "boot down" led to a process of social segrega-
tion of the black population, mainly, in Rio, causing the migration of the former slaves to the
peripheries and the rise of the hills, causing the “favelização”. Thus, we can identify that the
reform undertaken by the municipal government brought to the city of Rio de Janeiro an ac-
ceptable and necessary health standards, but at an unfair price: the socio-spatial segregation.
In this way, the dynamics of favelas comes from this reform whose core was a proposal of
pseudo "civilizing" process bringing impacts perceptible until the present day. Thus, we can
analyze that the price paid by the urban plan designed by the "tropical Haussmann" - the
mayor Pereira Passos, in order to recreate a Paris, in the heart of the newly capital of the 1st
Republic of Brazil, was done only by the poorest and black population, in which there was no
care to reintegrate them into society and / or guarantee them rights.
Keywords: Favelização; Rio de Janeiro; Pereira Passos;

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1 INTRODUÇÃO ximidade com o eixo econômico da época e


por ser a capital do país, o Distrito Federal.
No alvorecer do século XX, surgia no ho- Em 13 de maio de 1888, ainda durante o
rizonte uma forma de pensar que ainda Império do Brasil, S.A. I a princesa Isabel,
conservava traços dos antigos costumes assina a Lei 3353/88, conhecida por Lei Áu-
imperiais. O recém-golpe da República dado rea, que decretava a libertação de todos os
pelos militares em 15 de novembro de 1889 cativos, findando assim a escravidão em
deu a mentalidade social uma visão de co- terras brasileiras. Aqui, apresentam-se al-
mo as elites regeriam os interesses do Bra- guns desafios: o Império não indenizou os
sil: excluindo as camadas mais baixas, tendo proprietários desses escravos recém-
somente interesse pelas questões que en- libertos, bem como não teve tempo de rea-
volviam os mais ricos. Qual a mudança en- lizar o processo de integração do ex-cativo à
tão do regime recém-nascido para o tão sociedade, visto que, a República golpeou o
criticado regime monarquista existente no regime político monárquico existente a é-
século XIX, tão criticado por aqueles que poca.
agora governavam? Dessa forma, o Rio de Janeiro se tornou
Nas primeiras décadas do século XX, o uma região abundante de ex-escravos ne-
Rio de Janeiro, capital dos Estados Unidos gros, trabalhadores imigrantes, vendedores
do Brasil, mostrou-se sob uma égide inte- ambulantes, etc. que se amontoavam em
ressante: o então presidente da República, habitações precárias na cidade, as quais
Rodrigues Alves, volta-se para os ensejos Aluízio de Azevedo, de forma literária do
políticos desta cidade e toma para si um período realista brasileiro, descreveu em
único sentido: a transformação do espaço sua obra intitulada “O Cortiço”.
em algo aceitável aos padrões urbanos eu- O projeto urbanístico de Pereira Passos
ropeus da época. Para isso, o prefeito do possuía sim bons objetivos, exceto pelo fato
Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos socio-segregador que estava implícito em
(1902-1906), articulou uma reforma de cu- seus ideais, no qual trata de uma “limpeza”
nho urbanística realizada na capital federal, étnica e racial, que estava subjetivo por de-
cujo seus objetivos visavam: a uma nova trás de ideais reformadores, tendo assim, o
rede viária, melhoria nas condições de salu- fim dos cortiços e empurrando a população
bridade pública e um embelezamento ur- mais pobre, principalmente os negros, para
bano, no qual introduziria o Rio de Janeiro os morros e áreas mais afastadas e menos
aos padrões da Belle Époque1. nobres. Dessa forma, a especulação imobi-
O Rio de Janeiro havia sofrido um incha- liária assume o lugar de contribuir para que
ço demográfico causado pelo apogeu cafe- a classe social economicamente mais baixa
eiro do século XIX e por ter sido fortemente não ocupasse áreas agora destinas daqueles
difundido pelo Vale do Paraíba, dando a que “mereciam” desfrutar de tal processo
esta região uma dupla importância: a pro- urbanístico.
1
Expressão francesa usada que significava Bela Época 2 A TRANSIÇÃO DE SÉCULOS (XIX-XX)
que se iniciou aproximadamente em 1871 e durou até
1914, eclosão da Primeira Guerra Mundial, tendo a ca-
racterística de aflorar ambiente artístico e intelectual. O final do século XIX foi marcado por um
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processo que reformulou o sistema popula- carência escrava. Além disso, elaborou-se
cional brasileiro: a abolição da escravatura. um novo tráfico de escravos, um tráfico “a-
A partir de 1850, com a proibição e fiscali- daptado”, cujo foi denominado por tráfico
zação efetiva do tráfico negreiro – Lei Eusé- interprovincial, no qual os engenhos de a-
bio de Queiroz – reativou-se um antigo pro- çúcar em decadência no Nordeste passaram
jeto, ainda do Brasil Colonial, de D. João VI, a comercializar os cativos com os cafeicul-
que era a imigração europeia portuguesa e tores do Sudeste (SILVA; SOUSA, 2016).
não portuguesa. Podemos afirmar que a Dessa forma, veremos como a população
consolidação do Estado Nacional Brasileiro no Rio de Janeiro, sofreu um chamado in-
e a política de incentivo ao imigrante foram chaço demográfico. Em 1872, data do 1º
fatores que contribuíram com a agricultura Recenseamento do Império do Brazil2, o Rio
brasileira, e assim, consequentemente im- de Janeiro, capital do Império, possuía cerca
plicou no processo de urbanização no Rio de 274.972 habitantes, totalizando a pro-
de Janeiro. Não podemos falar do processo víncia cerca de 1.057.696 e, em 1890,
de urbanização ocorrida nos primeiros anos quando foi realizado o 1º Censo da Repúbli-
do século XX, sem mencionar o café – prin- ca dos Estados Unidos do Brasil, o Distrito
cipal produto brasileiro por cerca de quase Federal possuía cerca de 522.651, totali-
100 anos – e da mobilidade populacional zando o Estado do Rio de Janeiro 1.399.535
acarretada pelo processo abolicionista. A habitantes (SILVA; SOUSA, 2016). Impor-
atividade cafeeira consolidou-se como prin- tando-nos ressaltar que, ao findar o século
cipal atividade nacional, enraizou-se na re- XIX, cerca de 70.000 ex-escravos, sendo
gião sudeste, concretizando novamente destes aproximadamente 22 mil na corte, e
esta região como o eixo econômico brasilei- uma capital não tão bela e nem de perto
ro. correspondente aos padrões europeus.
Dessa forma, temos plena consciência de
que a população está atrelada à economia, 3 RIO DE JANEIRO – UM PANORAMA GE-
na qual mobilidade demográfica está volta- RAL
da para o eixo econômico do país, como foi
na época da mineração, da cana-de-açúcar, Ao observar-se o Rio de Janeiro ao final
do látex, sendo a migração populacional do século XIX e início do século XX, seria
direcionada para essas regiões mais percep- latente a percepção que estaria este longe
tíveis e as mudanças urbanísticas foram la- de ser uma capital federal nos moldes “a-
tentes para a época. Todavia, nenhum deles ceitáveis”, possuindo comumente o apelido
teve mais destaque como o café e as mu- de “Capital da Morte”. O aspecto urbano do
danças ocorridas na região de seu desen- Distrito Federal se mostrava ultrapassado,
volvimento. ou como alguns diziam: “estava envolvida
Com o fim do tráfico negreiro e o avanço em uma atmosfera das antigas e ultrapas-
das leis abolicionistas, vemos o aumento do sadas cidades portuguesas” (GOMES, 2014).
imigrante na região sudeste, afinal, em ra- O Rio de Janeiro sofria com surtos epi-
zão da Revolução Industrial criou-se na Eu- dêmicos de doenças por falta de salubrida-
ropa um excedente populacional agrícola
que migrou para o Brasil a fim de suprir a 2
Adota-se a nomenclatura original do documento.

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de e planejamento, a cidade possuía abun- período, trabalhavam no comércio, manu-


dância de ruelas profundas, mal pavimen- fatura e atividades artísticas. Enquanto que,
tadas, sem mencionar a precariedade de 48% dos os negros ativos trabalhavam no
iluminação pública. A capital carioca era o serviço doméstico, 17% na indústria e 16%
berço de um apanhado de doenças conta- não tinham profissão alguma3.
giosas “A falta de planejamento urbano e
de infraestrutura sanitária fizeram com que 4 A REFORMA PEREIRA PASSOS
o Rio se tornasse foco de uma variedade de
doenças como a febre amarela, varíola, sa- Quando Rodrigues Alves assumiu a pre-
rampo, disenteria, difteria, tuberculose e sidência da República, Pereira Passos foi
até mesmo a peste bubônica”. (SUPPIA; incumbido da “missão” de construir o mais
SCARABELLO, 2014). notável centro de atração nesta parte do
O centro antigo do Rio de Janeiro era um mundo4. Dessa forma, Passos, renomado
espaço bastante distinto, coexistia uma ga- engenheiro, realizou uma das maiores e
ma de pessoas de diferentes classes sociais, notórias reformas urbanísticas de todos os
que desempenhavam diferentes papeis so- tempos. Sua inspiração, como dito anteri-
ciais e econômicos: cavalheiros e damas da ormente, era remodelar o Rio de Janeiro
elite, biscateiros, vendedores de carnes e sob a cidade francesa de Paris, emoldurado
vísceras, brancos, negros e mulatos, ho- pelo Barão Eugène Haussmann entre 1853 e
mens, mulheres e crianças, ex-cativos, imi- 1870.
grantes e sempre livres. Devemos compactuar com as ideias de
Santos e Motta (2003) quanto a afirmar que
O Rio de Janeiro do começo do século, com a reforma urbana de Passos compreendia a
menos de 600 mil habitantes, já não lembra mudanças radicais na malha urbana, reali-
mais, em 1901, a “Cafraria Lusitana” dos pri-
zada pelas obras públicas, fato este que não
meiros decênios da centúria anterior. Quan-
do muito lembrará certas cidades do seten- corresponde à mesma assimilação de re-
trião africano, as da orla do Mediterrâneo: forma urbana na atualidade, afinal no início
Tânger, Alexandria ou Oran, com sua popula- do século XX, o que Passos realizou foi uma
ção descalça e mal vestida, as suas toscas lo- verdadeira cirurgia urbana no Rio de Janei-
jas de comércio, de toldozinho esgarçado à
ro.
frente e o homem de feição árabe, roliço e
porco, ao fundo, vendendo mercadorias; com A insalubridade carioca estava relaciona-
seus burricos pejados de hortaliça ou fruta da ao precário calçamento, a falta de distri-
cruzando o logradouro público, e levados pe- buição de água e coleta de esgoto, estando
la rédea do nativo (EDMUNDO, 1938 apud os cortiços5 constantemente em discursos
BENCHIMOL, 1992 p.204). de sanitaristas como foco do problema. De

Porém, as oportunidades de trabalho pa-


3
ra os negros estreitaram-se com a abolição Recenseamento Geral da República dos Estados Unidos
do Brasil, realizado em 1890.
e a imigração. De acordo com dados de 4
Discurso de Posse de Rodrigues Alves em 15 de novem-
1890, podemos observar que cerca de mais bro de 1902.
5
da metade dos 89 mil estrangeiros que se Famosas habitações populares em crescimento no Rio
encontravam de forma ativa, durante este de Janeiro desde o processo de imigração na segunda
metade do século XIX.

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certa forma, a classe dominante e também um único objetivo: apagar as marcas do
os higienistas, atribuíam a estas habitações passado e fazer florescer uma nova cidade.
a culpa, se assim podemos dizer, da insalu- Segundo Gomes (2014), o centro da cidade
bridade urbana, tomando a população po- foi reconstruído de maneira que rompia
bre, em classe mais específica, os negros, com características de cidade colonial e
como proliferadores de tais doenças, assim emergia novos traçados compatíveis com a
como nos mostra Santos e Silva,. utilização de trens e bondes, já que estes
substituíam carruagens e animais.
Os higienistas e a classe dominante ‘culpava’
a população pobre em especial os indivíduos 5 A SUBIDA DOS MORROS PELA POPULA-
negros, seus bairros (cortiços) e moradias pe-
ÇÃO NEGRA
la proliferação de doenças, que (segundo e-
les) impediam a chegada de indivíduos de ou-
tros países, prejudicando a imigração de eu- O fomento pela vinda do imigrante bran-
ropeus, além de manchar a imagem do Brasil co tinha o objetivo de trazer ao Brasil um
como nação. (SILVA & SANTOS, 2012, p. 4) nível de branqueamento social esperado,
visto que com a Abolição em 1888, a popu-
Como também nos mostra Maurício A- lação negra se tornou latente, ao ponto que
breu (2012) o imigrante era visto como um europeu de
fato, aquele dotado de civismo e com inten-
Os cortiços eram alvos de constantes denún-
to de trabalho intrínseco em suas raízes
cias que o apontavam como o epicentro mais
comum das epidemias de cólera, e também culturais, e que substituiria o negro ex-
eram foco das agitações populares, em vista escravo, o que para as elites brancas tais
de serem residências de um número elevado características não eram estendidas aos
de trabalhadores, (...), que viviam no limiar negros africanos. Podemos relacionar que a
da subsistência (ABREU, 2012, p. 212). subida dos morros pela população negra,
aqueles que eram os mais oprimidos (NE-
Dessa forma, tem-se início no Rio de Ja- DER, 1997), se deu pelo fato de que esta
neiro o então conhecido “bota abaixo”, ou população sem a integração ao mercado de
seja, a derrubada dos cortiços, que consisti- trabalho ficara à margem da sociedade,
am na abertura de vias e estradas largas, sendo empurrado então, morro acima, sen-
mas acima de tudo, a abertura para um no- do tais, um risco à ordem pública.
vo Rio de Janeiro. Tendo por base que a
partir do alargamento das ruas haveria de Todas as reformas urbanas do final deste pe-
aumentar a circulação de pessoas e merca- ríodo tiveram como resultado “empurrar os
dorias, além de realizar uma limpeza no trabalhadores pobres de origem africana para
espaço urbano de habitações indesejadas e os morros da periferia do centro da cidade”.
A origem africana destes trabalhadores não
insalubres, que poluíam a paisagem, abrin-
podia ser ignorada e, com isso, aumentava a
do espaço para grandes instituições e cons- percepção do senso comum que estes, os ne-
truções de negócios. (ARAUJO, 2017). gros, eram a grande e concreta “ameaça” à
Dessa forma, a cidade do Rio de Janeiro ordem política e social vigente, tal ameaça
foi invadida por operários de todas as par- era corroborada tanto pelo fato de que, his-
toricamente, eram os mais oprimidos, quanto
tes juntamente com empreiteiros possuíam
por deterem uma perspectiva de mundo di-

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versa da eurocêntrica, cuja matriz reflexiva Podemos compreender que nem somen-
consiste em excluir o diferente. (NEDER, te às demolições empreendidas por Passos
1997, p. 109)
foram responsáveis isoladamente para a
exclusão da população pobre, mais preci-
Se o processo urbanístico de Passos ser-
samente dos negros. Veremos que a demo-
via para reestruturar a cidade com prédios
lição somada a tantas outras medidas co-
e moradias aceitáveis, esbarrou-se em um
mo: especulação do solo, proibição de cer-
sério problema: a população mais pobre, e
tas profissões ou práticas econômicas – li-
para o Prefeito não foi problema algum re-
gadas à subsistência dos trabalhadores, agi-
solve-lo. O problema maior está em que tal
am como um potente ato segregadora, so-
processo gerou uma consequência gravís-
lucionando o problema da população pobre
sima: o processo de favelização e segrega-
e negra que vivia no centro da cidade, oca-
ção sócio-espacial.
sionando a ocupação dessa população em-
pobrecida de espaços segregados, excluin-
Tida até hoje por muitos como uma iniciativa
de modernização excludente, a Reforma Pe- do-os da dinâmica urbanística e demográfi-
reira Passos também costuma ser apontada ca da capital federal no nascente século XX.
como responsável pelo surgimento das pri-
meiras favelas no Rio de Janeiro, uma vez que O homem empobrecido no Rio de Janeiro
a população trabalhadora mais pobre [carac- sempre foi segregado do direito de morar em
terizada pelos negros ex-cativos] expulsa de determinados espaços da cidade, especial-
suas casas no centro foi relativamente próxi- mente naqueles ditos nobres. No final do sé-
ma ao trabalho. (SUPPIA & SCARABELLO, culo XIX e início do século XX, houve o des-
2014). monte dos cortiços que ao tentar afastar os
empobrecidos dos espaços nobres acabou
Os antigos cortiços cederam espaço à vi- potencializando a expansão de um novo tipo
de agrupamento habitacional que vinha sur-
são modernista de Pereira Passos acarre-
gindo – as favelas, que passaram, também, a
tando, literalmente, a expulsão e empur- ser “perseguidas”, devido a razões mais vari-
rando a população negra e pobre para áreas adas, durante todo o século XX (SOUSA, 2003,
menos valorizadas, como Neder (1997) nos p. 48).
mostra, a favela foi destino daqueles tidos
como pobres e excluídos da sociedade cari- A dinâmica espacial compreendida da
oca. população negra excluída pelo processo
“civilizatório” de Passos se mostra da forma
O prefeito Pereira Passos, imbuído de espírito que sempre tiveram suas moradias voltadas
modernizador, passou a demolir quarteirões para o “resto”, ao ponto que os casarões
inteiros de cortiços, desalojando os morado-
antigos ocupados no centro eram apenas
res para áreas periféricas da cidade ou “em-
purrando” para os morros centrais aqueles abandonados pela elite que migrou para a
que necessitavam continuar morando na área emergente região nobre carioca, a Zona Sul,
central da cidade. Passos teria transformado modelando-a a seu bel prazer.
definitivamente a Favela na moradia dos po-
bres e excluídos da cidade (NEDER, 1997, p. Grande parte dessa população preta e parda
109-110). habitava os velhos casarões do Centro, aqui
também recém-abandonados como moradia

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da classe dominante, que começara sua pe- ros, numa face de produção das favelas, e
regrinação em direção à privacidade e exclu- expandir-se para os subúrbios, seguindo os
sividade da Zona Sul. Além de local predomi-
caminhos das linhas de trem. Sendo neste
nante de moradia, era o Centro fonte de so-
brevivência para ambulantes, quituteiras, pe- tempo que o chamado território negro
dintes, prostitutas, vendedoras etc. Era no (ROLNIK, 1989) é deslocado para o Campo
Campo de Santana (hoje Praça da República) do Santana e para a Praça Onze. Tendo as-
e nos pátios e avenidas dos cortiços, que se sim, após o surgimento de morros que hoje
transformavam em terreiros de samba, jongo
possuem uma singularidade cultural e uma
ou macumba, que o território negro do Rio
de Janeiro se estruturava na virada do século. herança para aqueles que habitam e para
(ROLNIK, 1989, p. 8). toda a população em geral, como o Morro
da Mangueira (então Morro do Telégrafo).
As antigas casas populares e prédios co- Assim, da mesma forma como a elite ca-
loniais cederam abertura para vias e mo- rioca migrou seu eixo de ocupação para
dernos prédios (FERREIRA, 2009). Esse pro- áreas nobres da Zona Sul do Rio de Janeiro,
cesso de segregação se fez como conse- a população negra deixou o centro, claro
quência social em relação ao progresso, ao que obrigada – isso difere seu processo de
capitalismo e à modernidade. ocupação, criando assim laços culturais e
Acima de qualquer coisa, nosso pensa- sentimentais aos subúrbios e morros, ge-
mento compactua com o de Albergaria rando àquele lugar um misto de pertença e
(2010), o qual afirma que “A reforma Perei- luta, dando aos subúrbios e morros um sen-
ra Passos organizou a cidade do ponto e timento de território negro, na qual os anti-
vista de uma organização de classes, divi- gos casarões no centro do Rio – os cortiços,
dindo os espaços de acordo com os critérios cedem lugar aos morros, território mais
e classes” (ALBERGARIA, 2010), pois en- negro da cidade do Rio de Janeiro.
quanto presenciávamos o projeto urbanísti- O processo de segregação social do pre-
co no centro da capital brasileira e víamos feito Pereira Passos está subentendido, o
um crescimento vertical – prédios, nos su- que nos obriga a discordar do pensamento
búrbios e morros da zona norte e sul assis- de Azevedo (2003), pois a uma simples aná-
tiam o crescimento horizontal, em moradias lise do Decreto 39 de 10 de dezembro de
quase multifamiliares, marcada pela popu- 1903, o então prefeito proibia os cortiços e
lação negra. cachoeiras na região central, dificultando
que habitações populares ocupassem a re-
A reforma realizada pelo prefeito Pereira Pas- gião central, contribuindo claramente para
sos demoliu os cortiços e abriu largas aveni- este processo social, visto que, em momen-
das. Ficou conhecida como “bota abaixo”. to algum se preocupou com a moradia po-
Sob a égide do discurso higienista, desalojou
pular, só interessando a retirada destes da
do centro da cidade os antigos moradores
dos cortiços, que migraram em duas direções: linha de visão central.
para a periferia e para os morros (ALBERGA- . Existem aqueles, que como Azevedo
RIA, 2010). (2003) defendem que Pereira Passos não
realizou uma reforma que gerou problemas
Tendo a população negra sido expulsa do segregacionais e sim que seu plano corres-
Centro, restou-lhes subir e ocupar os mor- pondia a um projeto de inclusão social con-
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servador, tendo Paris como exemplo. carioca, foi propulsor da consolidação das
favelas como os espaços mais caracteriza-
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS damente negros da cidade, no qual estes
espaços possuíam uma mistura singular,
Questiona-se até os dias atuais que a a- passada pela África, senzala e pelo deslo-
bolição da escravatura, realizada pelo Impé- camento e marginalização exercidos pela
rio, de nada contribuiu para a integração do República, principalmente. Os subúrbios
negro ex-cativo à sociedade, todavia, o pro- foram vistos como lugares fora da questão
cesso de integração sequer obteve tempo urbana, até mesmo como um local infeliz,
de ser posto em prática, afinal, cerca de 18 tratado por diversos autores literários da
meses após a assinatura da Lei Áurea, o época como Aluísio de Azevedo e Lima Bar-
golpe republicano se fez presente e tomou reto.
o poder. Assim sendo, deve-se compreen- Excluídos da dinâmica espacial carioca do
der que a recém-nascida República Brasilei- início do século XX, a população negra reti-
ra foi responsável por manter os padrões rou-se para áreas antes fora de cogitação
elitizados da época do século XIX, que afi- de habitação, os morros e subúrbios. Afas-
nal, pelos antigos barões do café, a escravi- tados da zona nobre e central, proibidos de
dão jamais chegaria ao fim, um dos motivos exercerem suas profissões “subalternas”,
que os levaram a apoiar o golpe da Repúbli- criaram nestes morros um verdadeiro terri-
ca. tório negro, livre do pseudo civismo branco
É indiscutível que a reforma do prefeito e e elitizador. As favelas tornaram-se um
engenheiro Francisco Pereira Passos foi símbolo da crítica contra a reforma urbana,
primordial para o Rio de Janeiro, por mais um marco daqueles que foram excluídos da
que tenha se ocupado mais em transformar nova urbe, tratando este fato com uma for-
a cidade em uma “Paris nos Trópicos”, a ça quase sobre-humana, tendo as heranças
reforma garantiu à capital federal padrões escravistas em suas costas e a força de
sanitários mais que aceitáveis; garantiu pa- construir uma nova realidade buscando re-
drões que eram necessários. O problema duzir as diferenças existentes entre as par-
estava no discurso sanitarista e civilizatório: tes que habitavam a cidade carioca.
as moradias populares – os famosos corti- Enfim, podemos afirmar que o processo
ços – eram um dos maiores agravantes e, de favelização do Rio de Janeiro é fruto de
para trazer a cidade a um modelo salubre, a uma reforma desplanejada, cujo único obje-
demolição se fez necessária, a sua visão. tivo era responder a padrões e, acima de
Pereira Passos governou de 1902 até 1906, tudo, corresponder a uma camada elitizada,
retirando do Rio de Janeiro o apelido de cujo embelezamento da cidade era mais
“Capital da Morte” e introduzindo-a no con- primordial do que um planejamento habita-
texto de uma nascente “Cidade Maravilho- cional daqueles que foram obrigados a reti-
sa”, todavia, à custa de um processo de se- rar-se. A segregação originada nesta refor-
gregação social tremendo, sentido até os ma perdura até os dias atuais, o Rio de Ja-
dias atuais. neiro manteve a especulação do solo origi-
É impossível não conseguir compreender nada pela reestruturação de Passos, tendo
que a luta pela apropriação do solo urbano o limite tênue entre as favelas e as zonas
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mais valorizadas. cimento, expansão, remoção e, agora, ex-
As favelas hoje representação um sinal clusão através de muros. Revista Bibliográ-
de luta, de cultura e de labuta, sendo hoje fica de Geografía y Ciencias Sociales, Uni-
reconhecido como herança cultural e agen- versidad de Barcelona. Vol. XIV nº 828, 25
te modificador da dinâmica socioespacial e de junho de 2009.
política, bem como as favelas representa- GOMES, A. L.. A Reforma Urbana do Prefei-
ção a força da população negra, que mesmo to Pereira Passos – Rio de Janeiro. Projeto
expulsa da visão, não se ateve ou se ame- de ensino apresentado à Universidade Nor-
drontou do processo pseudo-civilizatório. te do Paraná para obtenção do curso de
As favelas surgem no Rio de Janeiro mais do graduação. 2014
que um complexo da desigualdade, apre- NEDER, G. Cidade, Identidade e Exclusão
sentam-se como um resultado de exclusão Social. Tempo, Rio de Janeiro, Vol. 2, nº 3,
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Artigo recebido em 08 de agosto de 2017.


Avaliado em 15 de dezembro de 2017.
Aceito em 16 de janeiro de 2018.
Publicado em 25 de maio de 2018.

Como citar este artigo (ABNT):


SILVA, Marcelo Penna da. O processo de
urbanização carioca na 1ª República do Bra-
sil no século XX: uma análise do processo de
segregação social. Estação Científica (UNI-
FAP), Macapá, v. 8, n. 1, p. 47-56, jan./abr.
2018.

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