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Elizete Passos

ÉTICA
E PSICOLOGIA
teoria e prática

VETOR
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BIOÉTICA: UMA NOVA
ORIENTAÇÃO ÉTICA

Os avanços da ciência e da tecnologia vêm representando para


a humanidade uma verdadeira revolução. Ao mesmo tempo em
que sinalizam melhores condições de vida para os seres humanos,
maiores recursos no campo da saúde, mais longevidade,
oportunidades educacionais e participação social, entre outros
benefícios, também significam ameaças ao ser humano e ao
planeta, se mal utilizados, ou seja, se não forem praticados com
consciência, compromisso social e responsabilidade.
Diante dessa realidade, surgiu a Bioética, não como mais uma
disciplina filosófica ou um código deontológico, e sim como um novo
olhar da ética sobre questões emergentes do mundo tecnológico.
Considerando sua articulação estreita com a vida humana e a
problemática que ela envolve, procuraremos analisar no presente
capítulo em que consiste esse novo olhar da ética sobre a vida
humana, em específico, e a vida no planeta, em geral, visando a ter
mais um aporte teórico para a compreensão da ética aplicada às
práticas profissionais dos psicólogos.

A SOCIEDADE DA TECNOCIÊNCIA

Conforme vimos no capítulo anterior, até a Idade Média reina-


va a idéia de que os seres humanos possuíam uma essência que
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deveria ser revelada por meio do conhecimento ou da fé em um ser


superior. Diante disso, defendiam verdades universais e absolutas
e sua aceitação nos planos teórico e prático como condições para a
liberdade e uma vida consciente, feliz e boa.
Esse entendimento justificava muitas relações de poder como as
vivenciadas entre médicos e enfermos, os primeiros considerados
detentores de um saber superior e privativo, que deveria dirigir
quem não o possuía, sob o argumento de possibilitar-lhes viver sem
doenças e no caminho do bem e da felicidade.
A partir do Renascimento1 e ao longo da Idade Moderna, os
valores se alteraram com as mudanças sofridas na concepção de
mundo hegemônica. As idéias iluministas trouxeram a razão para
posição de maior destaque e com ela a ordem natural, de
inspiração metafísica, foi substituída pela autonomia e por uma
orientação moral diferente da ordem imposta. Nas palavras de Von
Zuben (1999, p. 5):

[...] a partir do Iluminismo afirmou-se o caráter autônomo do


indivíduo chegando-se à definição do princípio de liberdade
moral: todo indivíduo é um agente moral e deve ser tratado e
respeitado como tal.

Ao mesmo tempo em que a razão leva à consciência e à


liberdade de escolha, defendendo o direito do ser humano de optar
pelos valores e pela atitudes que tomará, exigindo uma sociedade
que acolha a diferença, também oportuniza
0 crescimento dos poderes humanos, em decorrência da sua
engenhosidade para desenvolver a ciência e a técnica.
As possibilidades que elas apresentam aos seres humanos são
enormes, a ponto de colocar em perigo a própria razão

1 Teve início na Itália do século Xiy com o movimento de retomada da cultura greco- romana.
Evoluiu com o desenvolvimento da ciência e da técnica na construção de uma nova forma de
olhar o mundo e de viver. Prepara a nova sociedade, baseada na ciência, que se estabelecerá a
partir do século XVII.

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e seus poderes de dirigir os sujeitos. Na prática, acarretam


mudanças nos campos da cultura, das relações sociais, atingindo os
valores morais e modificando o horizonte ético das pessoas.
Os resultados positivos são inúmeros, entretanto os negativos
também. Agregado aos perigos possíveis e a força da concepção
sobre o ser humano como ser da cultura e doador de significados,
levam a posições diversas sobre a tecnociência que variam desde a
sua exaltação até a sua recusa, chegando a uma espécie de
tecnofobia, como afirmam alguns autores (VON ZUBEN, 1999;
PEGORARO, 2002).
Os argumentos contra a tecnociência a acusam, entre outras
coisas, de manipular o ser humano, destruindo sua natureza, seus
sentimentos e sua afetividade, também sua composição física, por
meio de manipulações genéticas. Os exemplos são inúmeros:

Nos procriátricos, assistimos uma combinação de reprodução:


bebês com mais de dois progenitores, a possibilidade de fetos
humanos passarem um tempo no ventre de mamíferos
superiores, a própria idéia de clonagem. (VON ZUBEN, 1999, p.
4).

O autor citado relembra as possibilidades de manipulação da


ciência no campo psíquico, ao mostrar o poder dos produtos
químicos na inibição ou recondução de sentimentos e afetos, o que
poderia ser feito de forma natural, por meio de processos
terapêuticos baseados na escuta e na reelaboração de situações
vividas ou mentalmente construídas.
Contudo, se por um lado os poderes da ciência são rejeitados
por serem manipuladores, por outro, eles são capazes de proezas
que melhorarão substancialmente a vida humana. Von Zuben
(1999, p. 7) relembra outro exemplo ao afirmar:

[...] a integração recíproca entre homem e elementos ci-


bernéticos. São próteses sensoriais múltiplas permitin

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do fantástica ampliação da percepção natural, remodelando a


experiência exterior do homem. Ou a implantação de micro-
eletrodos no cérebro, influenciando os centros de prazer e de
dor. Enfim são diversas intervenções manipu- ladoras, que
podem estender as fronteiras das experiências existenciais do
homem.

Apesar de a idéia de manipulação trazer embutida a de falta de


respeito, de liberdade e de ética, o autor defende que a tecnociência
tem muito a oferecer ao ser humano em prol da sua dignidade e de
uma vida melhor. Assim, a tecnofobia, ou seja, a rejeição a tudo
que seja originado da técnica é uma posição radical e impeditiva do
bem-estar humano. Von Zuben (1999) adverte que, assim como ela
pode trazer perigos, as ideologias também são ameaçadoras e
impeditivas.
É verdade que os pressupostos da técnica são realmente
diferentes daqueles referentes ao mundo do sentido. Enquanto este
não interfere na ordem natural das coisas e tende a só fazer algo
após analisar sua importância e conseqüências, aquela tem por
princípio agir sobre a realidade e realizar o que cientificamente
seja possível. Diante de sua importância e de suas possibilidades
também de trazer riscos para o ser humano e para a sociedade, o
caminho não deve ser de rejeitá-la, mas de usá-la com ética. A
bioética veio com tal finalidade.

ORIENTAÇÕES SEGUIDAS PELA BIOÉTICA

A sociedade da tecnociência traz, portanto, mudanças subs-


tanciais, até mesmo em conceitos básicos e historicamente sedi-
mentados, como o de ser humano. Se antes, a pergunta central
consistia em saber o que ele era, agora ela foi reelaborada para: o
que pode ser feito com o ser humano? O que a ciência fará com ele?
A preocupação com o poder da ciência na manipulação do ser
humano foi assim exposta por Von Zuben (1999, p. 9):

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[...] como enfrentar, na ordem da compreensão, o reino da


tecnociência de modo geral e, de modo particular no campo das
ciências biomédicas, onde justamente o existir humano é mais
profundamente afetado?

Alguns fatores corroboram para tornar a situação mais


preocupante, como o grande avanço da ciência ao lado da
estagnação da ética que, em geral, mantém-se fechada em modelos
abstratos e princípios universais, que não dão conta dos problemas
emergentes que a nova sociedade apresenta. A bioética tem sua
origem nesse contexto e como finalidade inaugurar uma nova
forma de olhar, cuidar e orientar o poder humano, revigorado com
o avanço da ciência e da técnica.
Iniciou-se voltada para questões da biomedicina, evoluiu e
alargou suas fronteiras, envolvendo até mesmo aquelas referentes
ao meio ambiente, numa resposta clara da complexidade da
sociedade. Para dar conta de tamanha abrangência, a bioética
caracteriza-se pela confluência de múltiplas referen- cialidades,
próprias de quem trabalha com diversas áreas do saber, e como
uma nova metodologia, baseada no pluralismo e no respeito à
diversidade social.
O caminho tomado pela bioética, diferente daquele da ética
tradicional, que consistia em dizer o que podia ou não ser feito, é
importantíssimo, pois não impede o crescimento da ciência e os
benefícios que ela poderá trazer para a vida, entretanto também
não deixa que ela caminhe sem limites e possa tornar-se
ameaçadora.
Indubitavelmente, o debate ético em torno da ciência e da
técnica não é fácil. Há quem considere a ética como impeditiva do
crescimento da ciência, preconceituosa e moralista, a ponto de
imaginar que ela e ciência sejam excludentes. Essa posição tem
sentido devido à tradição metafísica e universalizante que a ética
possui, entretanto, como dissemos em capítulo anterior, esse
modelo está em questionamento e pouco a pouco vem sendo
substituído por uma ética social e valores historicamente
construídos.

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Também a bioética, apesar de sua juventude2 e seu direcio-


namento, tem uma forte influência de orientações tradicionais,
especialmente pela grande contribuição teórica recebida de pes-
soas ligadas à igreja, em especial da católica e da evangélica.
Apenas para contextualizar suas tendências, destacaremos
alguns dos seus principais paradigmas. Até os anos 1970, vigorou
a direção religiosa que consistia em defender que os principais
problemas que acometiam o ser humano e o planeta só poderiam
ser resolvidos por meio da ética teológica. Isso porque, ela se
orientava por princípios metafísicos e baseava- se na crença de que
existia uma essência humana independe da realidade concreta.
Diante disso, tanto os indivíduos quanto à ciência deveriam se
orientar por eles.
A realidade mundial e as atrocidades a que foram submetidos
seres humanos, a título de pesquisas, em períodos de guerra
(Segunda Guerra Mundial) e fora deles, fizeram com que surgisse
uma nova orientação para a bioética, tendo origem especialmente
nos Estados Unidos. As discussões não negavam o valor da ciência
nem propunham sua interrupção, mas destacavam a necessidade
da ética orientar sua produção e aplicação, devido à grandiosidade
dos problemas éticos que ela ocasionava.
O Principalismo tornou-se o paradigma hegemônico e, ainda
hoje, o é. Suas bases morais são: autonomia, consentimento
esclarecido, beneficência e justiça. De todos eles, a beneficência é
tida como o principal, pois argumentam que o ser humano e seu
bem-estar devem ser a meta de toda ação humana, entre elas, as
referentes à ciência e a técnica.
Sua posição de destaque não tem imunizado esse paradigma de
críticas. Os seguidores da tendência religiosa o acusam de
burocratizar a ética, transformando-a em normas de conduta e
sem base filosófica. Essa crítica recebeu reforço

2 O termo bioética surgiu na década de 1970, assim como as grandes discussões sobre o
assunto. Entretanto, desde o apogeu da ciência positivista no século XVIII questiona-se seu
poder e sua necessidade de ser orientada por princípios éticos.

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até mesmo de seguidores do paradigma e serviu para que suas


diretrizes éticas fossem repensadas e reordenadas.
Também dão destaques às suas qualidades, entre as quais
figuram: a forma simples de tratar problemas complexos e a
linguagem fácil com que os problemas éticos foram apresentados
aos profissionais da área da saúde. É, de significativo valor para o
comportamento ético, o destaque feito para o respeito à autonomia
do sujeito. Ao seu direito de escolha, de assumir uma orientação
ética apenas se ela for coerente com os seus princípios e não de
forma imposta e pelo uso do poder. Como diz Pegoraro (2002, p.
106): “[...] a pessoa autônoma é a que decide o que é bom para si ou
aquilo que faz seu bem- estar”. Diante do que, afirma o autor: “[...]
nenhuma moral pode impor-se aos seres humanos contra a sua
consciência.” (PEGORARO, 2002, p. 106).
Essas são, como vimos, as condições necessárias ao agir moral,
pois só podemos falar de responsabilidade pelos atos praticados, se
eles forem livres e conscientes. Entretanto, também demonstramos
que não se fala de liberdade absoluta, de autonomia sem limites,
uma vez que vivemos em contado e em articulação com outros
indivíduos e com condicionamentos de várias ordens. Tanto uma
quanto a outra são construções dialéticas, compartilhadas,
discutidas, dialogadas.
Por último, e só para dar um panorama das principais
orientações teóricas da bioética, vale registrar a tendência
Fenomenológica. Esta, diferentemente das anteriores, não segue
princípios estabelecidos, centrando-se na própria realidade. Como
a define Pegoraro (2002, p. 108): “[...] a ética fenomenológica se
concentra na idéia de um estilo de vida, um rumo que a pessoa
traça para si e para o horizonte ético.”
Disso decorre a concepção de valores morais históricos e de
formas diferentes de realização do horizonte ético. Cada época e
cada sociedade têm uma maneira própria de concretizar seus
intentos e de, muitas vezes, ser impedida de atingi-los.

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Em síntese, podemos dizer que a bioética está estruturada com


base em duas grandes tendências: uma essencialista, que congrega
os paradigmas confessionais e principalista, e outra
existencialista, como as caracterizadas pelo caminho
fenomenológico e todos os outros de inspiração historicista e
dialética. As concepções que fazem parte da primeira orientação
consideram a existência de uma natureza humana e, por
conseqüência, sua liberdade, consciência, desejos, etc., fazem parte
dela. A segunda orientação, diferentemente, considera que a
biologia não define nossa forma de ser nem nossa conduta moral.
Elas são elaboradas historicamente, seguindo nossas experiências
e oportunidades.

BIOÉTICA: UM NOVO OLHAR


SOBRE A ÉTICA

Após esses esclarecimentos, podemos falar de conceito, de


sistematização e elaboração do que é considerado bioética.
Segundo Oliveira (1995, p. 336), o termo foi usado pela primeira
vez no ano de 1971, pelo biólogo e oncologista Van Rensselger,
para significar “[...] o estudo da moralidade dos comportamentos
humanos no campo das ciências biológicas”. Da preocupação com a
qualidade de vida que a biologia poderia trazer para os seres
humanos, ela ampliou seu leque de interesse e passou a se ocupar
também de questões referentes à saúde, degradação ambiental,
crescimento demográfico, entre outras.
Muitas dessas questões, hoje de interesse da Bioética, são
específicas de países pobres, em que os problemas humanos são,
muitas vezes, colocados com o simplismo que as necessidades de
sobrevivência impõem, assim como a partir de posições
preconceituosas. Por exemplo, muitas das políticas demográficas
colocadas em prática nessas culturas definem

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quem deve ou não nascer sem uma orientação de base ética


filosófica, mas pragmática e excludente.
No início, ela se tornou um dos grandes temas de debate nos
meios acadêmicos dos EUA e da Europa e hoje passou a ser
discutida em países da América Latina, tanto nos ambientes de
pesquisa quanto da prática dos profissionais que lidam com a vida
em todos os seus aspectos.
Apesar da tendência, ainda hoje presente em muitos lugares, de
interpretá-la como uma deontologia médica, ela é um reencontro
da filosofia com as ciências da vida. Segundo Clotet (1993 apud
OLIVEIRA, 1995, p. 341): “[...] bioética é o estudo sistemático da
conduta humana na área das ciências da vida e dos cuidados da
saúde, na medida em que esta conduta é examinada à luz dos
valores e dos princípios morais.”
Também ela não pode ser tomada como uma filosofia, uma ética
ou uma forma de ciência. Mais apropriado é defini-la como uma
disciplina que procura interpretar problemas da biomedicina e da
biotecnologia. A suposta indefinição sobre seu status, longe de
dificultar sua aplicação, a favorece, pois acaba dando conta da
pluralidade do mundo, ao tratar de questões de múltiplas áreas,
por exemplo: da genética, da psicologia, da sociologia e da
tecnologia.
Em todas as situações, ela não pode prescindir de sua base
filosófica sob pena de se limitar a definir o que é certo ou errado, o
que deve ou não ser feito. Olinto Pegoraro (2002, p. 79) demonstra
essa preocupação e desvirtuamento da bioética com as seguintes
palavras:

[...] caso a bioética se afaste desta posição, poderá tornar- se


casuística, pragmática, sem raízes éticas, guiando-se apenas
por uma espécie de jurisprudência, que toma decisões
semelhantes em casos semelhantes.

Outra recomendação fundamental para que ela cumpra seu


real papel é não se apartar da realidade e isso inclui

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acompanhar o desenvolvimento da ciência e da técnica. De nada


adianta seguir a tradição universalista da ética, pois não
responderá às demandas de um mundo em crescente complexidade
e não poderá orientar seu destino. Ela precisa estar conectada com
os grandes avanços e suas conseqüências ou até antevê-las e
modificar seus rumos, sejam elas referentes ao meio ambiente ou
abiomedicina. Ou seja, ela deve se preocupar com todas as formas
de vida, com o poder de manipulação da ciência seja em relação à
vida humana, animal ou vegetal, pois todas elas podem ameaçar o
equilíbrio do planeta.
O compromisso em cuidar do poder da ciência e acompanhá-la
significa orientá-la, a fim de evitar que o seu fazer seja dirigido por
suas possibilidades técnicas e que o progresso esteja vinculado a
esse entendimento. A ciência precisa ser incentivada, porém de
forma ética e voltada para o bem-estar e o crescimento do ser
humano, pois só assim podemos analisar o que é ou não progresso.
As recomendações feitas, de fato, apresentam o que devem ser
as características da bioética. A elas se agrega o princípio da
democracia, necessário aos seus propósitos e ao momento atual.
Por exemplo, ainda vigoram, na relação médico paciente,
resquícios da ideologia medieval, em que a ordem deveria ser
respeitada, pois havia sido estabelecida por Deus para a nossa
felicidade. Transpondo essa lógica para a relação entre médico e
paciente, é comum o médico exercer o domínio sobre esse, que deve
aceitar e seguir os ditames de quem tem o poder da cura.
A Idade Moderna, como dissemos, inaugura outra ideologia,
baseada na autonomia e em uma ordem moral que deve ser
escolhida pela consciência de cada indivíduo. Isso traz mudanças
na tradicional relação entre médico e paciente. Este passa a ter
direito de opinar sobre sua saúde ou doença e a forma como quer
ser tratado, cabendo às instituições sociais oferecer as condições
para isso. Como diz Von Zuben (1999, p. 5):

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[...] o critério de ‘beneficência’3 (do lado do médico) deverá


doravante articular-se ao de ‘autonomia’ (do paciente) e, ambos
com o critério de justiça (da sociedade) para todas as tomadas
de decisão.”

A especificidade de cada indivíduo destitui a ciência e a ordem


do seu antigo poder de ter uma única forma de conduzir o
tratamento ou de lidar com as pessoas. Cada indivíduo é
considerado um microcosmo e sua situação precisa ser analisada
particularmente. Os profissionais devem procurar seguir um
horizonte ético que privilegie a liberdade, a justiça social, entre
outros princípios.
Sintetizando, podemos dizer que as principais características da
bioética são: autonomia, pluralidade e diálogo. Rapidamente,
poderiam ser entendidas como ausência de hierarquia de uns sobre
outros, também de um conhecimento sobre outro; respeito às
diferenças e liberdade de expressão.
Se bem entendida e aplicada, ela trará resultados favoráveis
enormes. De um lado, diminuirá os riscos que a ciência e a técnica
possam representar, porque mesmo não estando ao alcance de
todos (seu fazer especialmente) serão conduzidas com ética.
A segurança que essa orientação representa também diminui as
resistências contra elas, o que facilitará seu caminho, pois
passarão a contar com as contribuições sociais.
Ainda vale relembrar que ela não precisa ter uma única direção
teórica e ideológica; como vimos, não o tem. O que é importante,
porque possibilita o respeito às diferenças e o debate ou embate de
direções, fator de crescimento e de reflexão. Caso o posicionamento
fosse de defender uma posição homogênea teríamos perdido muitas
contribuições, como as oferecidas pela tendência religiosa, a
primeira a colocar em discussão os riscos e poderes da ciência e
oportunizar que o debate fosse iniciado.

3 Discutiremos em mais detalhes esses conceitos ainda neste capítulo, ao traba-


lharmos com a normatização relacionada à bioética, especialmente a Resolução
196/96.

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Debate que não se restringiu aos interesses que motivaram o


seu surgimento, pois ela acompanhou o curso do desenvolvimento
científico e das emergências sociais e do planeta, abrangendo, como
dissemos, um temário amplo que abriga tanto a pesquisa básica
quanto a aplicada, tanto as questões da biomedicina quanto do
meio ambiente, a fim de que sejam implicadas a dignidade do ser
humano e o respeito à biodiversidade.
Com base nisso, ou seja, na garantia de um horizonte ético, ela
se configurou em orientação teórica e ideológica como também em
normas sistematizadas, em leis e resoluções, a fim de servir de
forma mais prática às necessidades de esclarecimentos dos
implicados e garantia de sua responsabilidade.

ALGUMAS NORMAS INTERNACIONAIS E


NACIONAIS SOBRE A BIOÉTICA

No ano de 1969, o filósofo Daniel Gallahan e o psiquiatra


Willard Gayling criaram o Institute ofSociety, Ethics and the Life
Sciences, em Nova York, com a finalidade de discutir questões
éticas sobre a biologia. Em 1971, foi a vez de André Hellegrs fun-
dar o Centro de Bioética, denominado Kennedy Institute. Neles a
preocupação era a mesma: abrir espaços de discussão, reflexão e
proposição, até mesmo de normas, para orientar a conduta dos
profissionais de todas as áreas a que a bioética se estende.
Hoje, os centros de pesquisa e as escolas de bioética estão
distribuídos em várias partes do mundo, mas continuam con-
centrados nos Estados Unidos e em países da Europa. Em cada um
vigora uma identidade que passa pela situação concreta do país,
seus problemas e emergências, bem como ideologia e orientação
teórica. Muitos seguem uma orientação religiosa, outros, a visão de
médicos, etc. Para dar alguns exemplos, vale lembrar que aqueles
dos Estados Unidos seguem valores individuais e dedicam-se
principalmente à microbioética.

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As européias tomam caminhos opostos: além de centrarem-se na


macrobioética, seguem uma tendência valorativa humani- zadora.
Enquanto isso, a tendência dos latino-americanos é tratar as
questões sociais, com destaque para aquelas referentes à pobreza,
desembocando em um caminho que articula a macrobioética e uma
bioética classista (OLIVEIRA, 1995).
Entre as escolas de Medicina, em especial da Medicina Legal,
existe uma tendência em despolitizar a bioética e acreditar que a
elaboração de leis seja suficiente para sua pronta aplicação. Como
conseqüência, desde 1947 iniciaram as discussões sobre a
instituição de normas, sendo aprovado nesse ano o Código de
Nuremberg. Nele, a preocupação básica é com estudos que
envolvam os seres humanos. As recomendações são claras: as
pessoas devem ter informações sobre os procedimentos em que
serão envolvidas e concordarem em participar do processo. Ainda
assim, cumpre ao pesquisador zelar por seu bem-estar e evitar ou
interromper qualquer estudo que possa levar à morte ou invalidez
dos sujeitos pesquisados. Os itens 7 e 10 do Código nos dão a
devida dimensão dos cuidados. Respectivamente: “[...] devem ser
tomados cuidados especiais para proteger o participante do
experimento de qualquer possibilidade de dano, invalidez ou
morte, mesmo remota.” O item 10 determina:

O pesquisador deve estar preparado para suspender os


procedimentos experimentais em qualquer estágio, se ele tiver
motivos razoáveis para acreditar que a continuidade do
experimento provavelmente causará dano, invalidez ou morte
para os participantes.

A ênfase dada aos cuidados com os seres humanos envolvidos


em pesquisa, além de fazer parte de uma atitude ética que deve
visar, sempre e em qualquer atividade humana, à saúde e ao bem-
estar das pessoas, reflete o horror a que a Segunda Guerra
Mundial submeteu o ser humano, em decorrência da fixação
doentia de Hitler com a eugenia e a criação de uma “raça pura”.
E l i z e t e P as s os

Mesmo no pós-guerra, em nome agora do progresso da ciência,


pesquisas continuavam sendo desenvolvidas, em que vidas
humanas eram ceifadas de forma “natural” e sem nenhuma
preocupação ética.
A Declaração de Helsinki, na Finlândia, aprovada na 18a
Assembléia dos Médicos, no ano de 1964, reforça a preocupação em
estabelecer limites sobre a atividade científica que fosse prejudicial
ao ser humano. Nela define-se que: “[...] é missão do médico
salvaguardar a saúde do povo. O conhecimento e consciência dele
ou dela são devotados ao cumprimento desta missão.” O cuidado
com pesquisa envolvendo seres humanos volta a ser o centro de
tais preocupações. Além de recomendar que elas só devam ser
realizadas por profissionais com competência reconhecida e sob
absoluta condução científica, exige que sejam precedidas por
análise sobre os seus riscos e benefícios. O item 4 do tópico sobre os
Princípios Básicos da Declaração afirma:

[...] todo projeto de pesquisa biomédica que envolve seres


humanos deve ser precedido por uma avaliação cuidadosa dos
riscos previsíveis e dos possíveis benefícios, tanto para o
indivíduo submetido à experimentação como para os outros. Os
interesses do indivíduo devem prevalecer sobre os interesses da
ciência e da sociedade.

A Declaração explicita que os médicos devem interromper


qualquer pesquisa se ela estiver trazendo riscos para as pessoas,
principalmente se esses forem maiores do que os benefícios.
Igualmente, legisla que os sujeitos envolvidos nas pesquisas
precisam ter total conhecimento sobre a mesma e das condições a
que serão submetidos, de modo que só farão parte da mesma se,
esclarecidos, decidirem participar.
Alarga o conceito de vida, incluindo a vida dos animais
irracionais e dos vegetais, ao recomendar cuidado com a pre-
servação do meio ambiente. Logo na sua Introdução, pode-se ler:
“[...] deve ser tomado um cuidado especial na condução de

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pesquisa que possa afetar o meio ambiente e ainda o bem estar dos
animais utilizados para a pesquisa deve ser respeitado.”
Outras normas foram sendo elaboradas em todo o mundo,
tendo em vista colocar critérios ao trabalho dos cientistas,
especialmente nas áreas da saúde. No ano de 1975, foi a vez da
Declaração de Tóquio; em 1981, a de Manila; e em 1982, foram
elaboradas as Normas Internacionais para a Pesquisa Biomédica,
pela Organização Mundial de Saúde e pelo Conselho de
Organizações Nacionais de Ciências Médicas. Todas se
apresentam como princípios orientadores da conduta dos
pesquisadores da área e não como lei. Apesar disso, não existe uma
relação amistosa entre elas e todos os cientistas, até porque
atravessa essa relação o desejo ilimitado de conhecer e os limites
que as orientações éticas, neles contidos, colocam.
O reconhecimento desses desencontros não foi suficiente para
estancar o processo sobre a construção de normas sobre o assunto,
entre outros motivos, porque a ordem simbólica dos valores dá
sentido ao fazer humano e leva à reflexão sobre as melhores
escolhas a serem feitas, por exemplo: aquelas que não coloquem a
vida humana em segundo plano, que não devastem o meio
ambiente e não manipulem os dados da realidade. O que não se
pode esperar da técnica, visto que ela em si nada escolhe, porém,
se for utilizada sem critérios éticos, poderá chegar até onde tiver
condições de ir, sem levar em conta o ser humano e sua dignidade.

Resolução 196/96

No Brasil, o debate sobre o assunto foi coroado com a ela-


boração da Resolução 196, aprovada no dia 10 de outubro do ano de
1996, pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS). Surge como um
instrumento orientador, mas também regulador das pesquisas com
seres humanos no País.
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Sua elaboração tomou por base a Declaração Universal dos


Direitos Humanos, o Código de Nuremberg e a Declaração de
Helsinki, assim como a legislação do país explicitada em seus
principais documentos: Constituição de 1988; Estatuto da Criança
e do Adolescente; Lei Orgânica da Saúde, de 19 de setembro de
1990; e outras leis que regulamentam o uso de órgãos e de
cadáveres.
E fruto de um esforço democrático, que incluiu discussões em
todos os estados e pelas diferentes comunidades científicas, assim
como em fóruns acadêmicos. Também foram consultados órgãos
responsáveis pela produção e pelo gerenciamento da ciência e da
tecnologia no País das mais diferentes áreas: saúde, educação,
meio ambiente, entre outros.
A Resolução segue os princípios básicos da bioética, ante-
riormente apresentados: autonomia, não maleficência, beneficência
e justiça. Faz questão de não deixar dúvidas quanto aos conceitos
básicos, por exemplo, o de pesquisa com seres humanos, que é
definida como aquela que os envolve direta ou indiretamente,
inclusive o manejo de informações e de materiais. Exige que todo
projeto de pesquisa seja acompanhado por um protocolo, que
evidencie as qualidades técnicas e éticas do pesquisador, os sujeitos
da pesquisa e de que forma serão envolvidos nela.
Os sujeitos precisam ter conhecimento do que a investigação
significa e como participará dela. Quais suas conseqüências
positivas e negativas, se existe possibilidades de algum tipo de
sofrimento e após estarem esclarecidos, devem escolher livremente
se aceitam ou não participar, firmando o seu consentimento por
escrito. No caso de pessoas que estejam impossibilitadas de poder
de decisão, por qualquer tipo de problema, o consentimento deverá
ser dado pelos seus responsáveis.
O consentimento dos sujeitos da pesquisa não diminui a
responsabilidade do pesquisador com seu bem-estar, nem com as
conseqüências que poderão advir dela. Se vier a acontecer algum
risco ou prejuízo a essas pessoas, a pesquisa deve ser

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interrompida e os envolvidos, ressarcidos dos danos. Também têm


o direito de saírem do processo de pesquisa caso não queiram
continuar.
A fim de garantir o cumprimento do previsto na Resolução,
servir como órgão consultor e educativo, a mesma prevê a criação
de comitês de ética em todos os estados e instituições que se
dediquem à produção de conhecimento na área. Eles têm uma
composição multiprofissional, incluindo profissionais das diversas
áreas da ciência (saúde, exatas e humanas), assim como filósofos,
religiosos e representantes da comunidade atendida pela
instituição. Como se encontra registrado às páginas 6 e 7 da
referida Resolução:

[...] são colegiados inter-disciplinares com caráter consultivo,


deliberativo e educativo, criados para defender os interesses
dos sujeitos da pesquisa em sua integridade e dignidade e para
contribuir no desenvolvimento da pesquisa dentro de padrões
éticos.

Os Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) têm como objetivo:


[...] salvaguardar os direitos e a dignidade dos sujeitos da
pesquisa. Além disso, o CEP contribui para a qualidade das
pesquisas e para a discussão do papel da pesquisa no
desenvolvimento institucional e social da comunidade.
Contribui ainda para a valorização do pesquisador que recebe o
reconhecimento de que sua proposta é eticamente adequada.
(BRASIL, 2002, p. 11).

Esses comitês vinculam-se ao Comissão Nacional de Ética em


Pesquisa (CONEP), que é o órgão responsável pela coordenação
dos CEPs e mantém com eles diálogo constante.
Em consonância com a Resolução 196, o Conselho Federal de
Psicologia criou a Resolução 016/2000, que dispõe sobre a
realização de pesquisa em Psicologia com seres humanos. Antes,
porém, tanto o Código de Ética de Psicologia quanto a Resolução
011 de 1997 já legislavam sobre o assunto.
E l i z e t e P as s os

A referida Resolução 016 estabelece em seu Artigo l9:

Toda pesquisa em Psicologia com seres humanos deverá estar


instruída de um protocolo, a ser submetido à apreciação de
Comitê em Ética, reconhecido pelo Conselho Nacional de
Saúde, como determina a Resolução MS 196/96 do CNS.

O Artigo 2- destina-se a explicitar o que significa o protocolo e


como ele deve ser instruído. Em nada difere do modelo exigido pela
Resolução 196. Exige que o pesquisador explique e justifique a
importância da pesquisa, os procedimentos a serem adotados e
cobra o consentimento esclarecido dos sujeitos, entre outros.
O Artigo 3e também segue a mesma orientação presente na
Resolução 196. Faz destaque para os riscos da pesquisa, define
aqueles que podem ser considerados mínimos ou não. Quanto a
isso, traz no seu parágrafo 3e orientação específica aos pro-
fissionais/pesquisadores da Psicologia (BRASIL, 1997):

As pesquisas que manipulem variáveis que possam gerar


ansiedade, ou utilizem instrumentos (inclusive entrevistas)
com o objetivo de obter dados e informações sobre eventos que
possam ter sido traumáticos (por exemplo, com vítimas de
violência, abuso físico ou sexual, entre outros) não receberão
classificação de risco mínimo. No entanto, o pesquisador deverá
incorporar procedimentos que permitam avaliar, ao término da
participação de cada indivíduo, se nenhum dano foi causado.

Outro elemento de destaque na Resolução do Conselho Federal


de Psicologia (CFP) diz respeito ao sigilo e uso de informações.
Constitui-se de seis parágrafos que obrigam o pesquisador a
guardar sigilo sobre as informações que lhe forem concedidas
sigilosamente, recomenda e exige cuidados especiais com os
sujeitos mais vulneráveis, como crianças, adolescentes, pessoas
sem condição de decidir e exige que o pesquisador se comprometa
em tomar as iniciativas necessárias

52
É t i c a e P s i c o l og i a : t e or i a e p r á t i c a

ao constatar situações em que os seus sujeitos estejam sendo


submetidos a situações desumanas e prejudiciais a eles.
Ainda fazem parte desse instrumento legal os seguintes itens e
seus respectivos artigos e parágrafos: do uso de instrumento de
avaliação psicológica; da autoria e co-autoria; dos pareceres e da
divulgação dos resultados.
Decerto o documento do CFR em foco, vem resolver algumas
das questões colocadas por profissionais da área acerca da
imprecisão dos documentos anteriores que se referem ao assunto,
como o Código de Ética de 1988. Quanto a ele, há quem o considere
de pouca valia para os pesquisadores por deixar de fora uma série
de questões importantes, assim como por estar redigido de
maneira pouco esclarecedora4.
As críticas se estendiam ao CFP por não ter acompanhado
outros Conselhos que já haviam instituído suas normas de
pesquisa com seres humanos; bem como aos pesquisadores da área
das ciências humanas, por não estarem preocupados com a
dimensão ética; assim como os instrumentos de divulgação das
pesquisas, especialmente revistas, inclusive as de Psicologia, que
também não cobravam dos pesquisadores esclarecimentos a
respeito das condições em que o estudo aconteceu, quando o país já
havia instituído uma resolução com força de Lei.
Enfim, essa última observação nos remete às reflexões teóricas
que fizemos sobre a ética em capítulo anterior, ao salientarmos que
ela é muito mais do que lei e que só será verdadeiramente ético o
comportamento que se dá como escolha livre e consciente. Sem
dúvida, as leis, os códigos as normas são importantes enquanto
norteadoras da ação, entretanto elas poderão ser falseadas caso
não haja uma consciência ética.
Diante disso, as leis elaboradas sobre a bioética em cada país
devem ter por base seus princípios filosóficos. Não se quer com isso
dizer que ela precisa se transformar em uma

4 Caludio Hutz, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, discute o assunto em artigo
intitulado: A ética na produção do conhecimento em psicologia.
E l i z e t e P as s os

disciplina humanitária, mas em orientação de conduta dos


profissionais da saúde embasada em compromissos filosóficos e
políticos. Como afirma Oliveira (1995, p. 341), ela não é: “[...] mais
um feudo da filosofia ou Teologia. Ou mais uma associação de
juristas e/ou legisladores.” Também não pode ser tomada como
sinônimo de deontologia ou ética médica, porém deve ter sempre
compromisso com o respeito e a preservação das diferenças
humanas e da diversidade cultural. Entre outros, fazendo frente à
opressão de qualquer espécie e com todo e qualquer segmento da
sociedade: mulheres, negros, pobres, velhos, enfim, especialmente
com as minorias. Com isso, sem dúvida, ela será de imensa valia
na defesa dos direitos humanos.
No plano mais restrito, ela representa a imposição de barreiras
ao imenso poder da ciência e da técnica e dos perigos que elas
representam se estiverem em mãos inescrupulosas. Entre outros
motivos, porque continuamos à mercê de perigos que muitos
julgam fazer parte do passado como a eugenia; por outro, porque
estamos diante de um sem-número de possibilidades da ciência em
relação à engenharia genética, à clonagem e a tantas outras já
listadas.
Por tudo isso, ela não necessita seguir uma única direção
teórica, seja ela fundamentalista, metafísica ou religiosa, mas
precisa ser consensual quanto a seus fins e sua ação. De modo que
sua direção precisa apontar para uma ética pública e pluralista,
em que as diferenças teóricas se dissolvam e sua prática contribua
para o fortalecimento e respeito aos direitos humanos.

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