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Estudo da cinética de adsorção de azul de metileno por palha de

milho(1).
Julia Marcondes Borges(2); Monique Domingos dos Santos(3); Fabrício Pereira Leandro(4)
Lucas Dominguini(4)

Resumo Expandido
(1)
Trabalho executado com recursos do Edital 038/2011/PRPPGI, da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e
Inovação.
(2, 3, 4)
Aluno bolsista do curso Técnico Integrado em Edificações; Instituto Federal de Santa Catarina, Câmpus Criciúma
(5)
– SC; Professor do Instituto Federal de Santa Catarina, Câmpus Criciúma – SC, lucas.dominguini@ifsc.edu.br.

RESUMO: Com os problemas com o meio ambiente se tornando cada vez mais frequentes, é crescente a
preocupação com a necessidade de diminuição da poluição do ar, do solo e das águas superficiais e/ou
lençóis freáticos. Um dos grandes geradores de poluentes aquosos é a indústria têxtil. Uma das formas de
remoção dos pigmentos têxteis da água é por adsorção. A adsorção é um processo de separação de uma
base líquida de uma fase particulada porosa sólida. Também é crescente a utilização de bissorventes in
natura ou quimicamente tratado para remoção desses pigmentos. Nesse contexto, o presente trabalho
analisou a capacidade de remoção de azul de metileno de efluentes industriais por palha de milho, com e
sem tratamento químico prévio, e estabelecer as equações relativas ao comportamento da absorbância da
solução em função do tempo de contato com o adsorvente. Os resultados mostraram que a palha de milho
quimicamente tratada com hidróxido de sódio foi a que apresentou melhor resultado, removendo mais de 75
% do corante da solução, em uma hora.

Palavra Chave: Azul de Metileno, Palha de Milho, Adsorção.

INTRODUÇÃO permanecendo aí retidas (DI BERNARDO; DI


BERNARDO; CENTURIONE FILHO, 2002).
Problemas ambientais têm se tornando cada Na adsorção tem-se uma etapa física,
vez mais frequentes, principalmente devido ao envolvendo interações eletrostáticas e as forças de
crescimento populacional e ao aumento da atividade Van der Vaals entre o adsorvato e o adsorvente e
industrial. Isso contribui para a poluição do ar, do uma etapa química, quando há reação química
solo e das águas superficiais e subterrâneas. entre o sítio ativo de adsorção e adsorventes.
Atualmente existe, em todo o mundo, uma grande O modelo matemático para decaimento da
preocupação com a água, não só por causa de sua absorbância em função do tempo pode ser descrita
escassez em algumas regiões, mas também por pela Equação 1.
causa de processos constantes de poluição. As
principais fontes de poluição dos recursos hídricos 𝑑𝐶𝐴
− = 𝑘. 𝐶𝐴 𝛼 Eq. 1
são efluentes domésticos e industriais, dispostos 𝑑𝑡
sem o devido tratamento (KUNZ et al., 2002).
A indústria têxtil no Brasil foi responsável pelo onde CA representa a absorbância em um tempo t,
faturamento de 15,7 bilhões de dólares em 2010 e CAo representa a absorbância no tempo 0 s, k é a
geração de 254.390 empregos formais até janeiro constante cinética do decaimento da absorbância
de 2012 (ABIT, 2012). Entretanto, Harrelkas et al. em função do tempo e α é a ordem cinética
(2009) indicam a necessidade de, (FOGLER, 2012).
aproximadamente, 117 a 150 L de água por quilo de Isso faz com que as empresas têxteis
tecido produzido na indústria têxtil, sendo que 80% busquem novas alternativas de tratamento simples
deste volume é descartado como efluente e apenas e de baixo custo para construção de filtros
12% do total compõe as perdas por evaporação. adsortivos em camadas para a retirada de corantes
Muitos corantes têm origem sintética e efluentes industriais (KUNZ et al., 2002).
complexas estruturas moleculares aromáticas que Os efluentes têxteis se caracterizam por
os fazem mais estáveis, pois são projetados para serem coloridos, devido à presença de corantes
serem resistentes ao desbotamento por produtos que, durante o processo de tintura, não se fixam na
químicos, luz, altas temperaturas e degradação fibra, apresentando excesso da carga de tingimento
enzimática resultante da lavagem com detergente, no tecido e dos seus compostos químicos serem de
portanto, isso os torna mais difíceis de biodegradar difícil biodegradação. Quando estes efluentes são
(FURMANSKI; COSTA; DOMINGUINI, 2012). descartados podem causar impactos no corpo
O processo de adsorção é uma alternativa receptor devido à contaminação e à sua carga
para sua remoção. Tal fenômeno decorre a partir poluente (KUNZ, 1999).
ações interfaciais com as moléculas do adsorvato, Do ponto de vista ambiental, a remoção da
por transferência para a superfície do adsorvente, cor dos efluentes é um dos grandes problemas
enfrentados pelo setor têxtil. A elevada estabilidade de 1 em 1 minuto nos primeiros 15 minutos e, após
biológica dos corantes dificulta sua degradação isso, de 5 em 5 minutos, até se completar uma hora.
pelos sistemas de tratamento convencionais Observou-se o comportamento da absorbância da
empregados pelas indústrias têxteis (DALLAGO; solução, em função do tempo, por meio de leituras
SMANIOTTO; OLIVEIRA, 2005). em um espectrofotômetro (Spectro, SP-22), no
A adsorção é um processo de separação, comprimento de onda de 642 nm.
onde uma fase fluída é colocada em contato com Na sequência, repetiu-se o procedimento para
uma fase particulada porosa sólida, que tem a palha de milho quimicamente tratada. Para tal, uma
propriedade de, fixar uma ou mais espécies que amostra de palha de milho foi adicionada em
originalmente estavam contidas na fase fluída. A soluções de NaOH (Vetec, 99 % de pureza) e HCl
adsorção envolve a acumulação ou concentração (Vetec, 37 % de pureza), de concentração 0,1 mol/L,
de substâncias na superfície interfacial ou fronteira na proporção 1:10 palha/solução, por duas horas,
de fases (CECHETTI et al., 2010).
sob agitação constante.
O carvão ativo tem sido um dos mais
Os ensaios de adsorção foram realizados em
empregados, principalmente por apresentar grande
triplicata e os resultados e os modelos matemáticos
capacidade adsortiva, contudo, possui um elevado
expressam a média dos valores obtidos.
custo industrial.
A fim de reduzir o alto custo dos processos de
RESULTADOS E DISCUSSÃO
adsorção, a bioadsorção vem se destacando como
método alternativo, uma vez que utiliza algumas
biomassas de baixo custo na remoção de A Figura 1 representa os resultados de
contaminantes orgânicos, ecologicamente corretos. absorbância em função do tempo para a palha de
Como exemplo, cita-se adsorção por fibra de milho in natura e quimicamente tratada com
coco verde (SOUZA et al 2007; MONTEIRO; hidróxido de sódio e ácido clorídrico.
YAMAURA, 2007), fibra de bagaço de cana de
açúcar (CARVALHO et al, 2010; ALBERTINI; Figura 1 – Comportamento da absorbância em
CARMO; PRADO FILHO, 2007). Fibra de algodão função do tempo, para adsorção com palha de milho
(MUXEL; ALFAYA, 2008), casca de banana quimicamente tratada.
2
(RABELO; ALBARELLI; BEPPU, 2009), casca de
1,8
arroz e sabugo de milho (ASSIS; GORGULHO; 1,6
MARTELLI, 2011), entre diversos outros trabalhos 1,4
Absorbância

de pesquisas. 1,2

Neste contexto, abre-se uma janela para 1


0,8
novos ensaios nessa área. Na região sul de Santa
0,6
Catarina, polo têxtil e agrícola, a biomassa de milho 0,4
é um dos resíduos oriundos da atividade rural. Tal 0,2
material demonstra capacidade de remoção do 0
0 10 20 30 40 50 60
corante azul de metileno de efluentes têxteis
Tempo (min)
(CELANTE et al., 2012; BORGES et al., 2012).
In natura Tratada com NaOH Tratada com HCl
Considerando que esses materiais podem ter
seu potencial adsortivo alterado quando tratado
quimicamente com ácidos ou bases fortes (LIU et Os resultados mostram um melhor rendimento
al., 2012), o objetivo do trabalho foi analisar a na remoção do pigmento utilizando-se a palha de
capacidade de adsorção de azul de metileno por milho quimicamente tratada com NaOH.
palha de milho, com e sem tratamento químico A Figura 2 representa a palha de milho em
prévio, e estabelecer as equações relativas ao diferentes estágios, onde é possível perceber o
comportamento da absorbância da solução em corante impregnado nas fibras do biossorvente.
função do tempo de contato com o adsorvente.
Figura 2 – Palha de milho in natura, quimicamente
METODOLOGIA tratada com NaOH e após adsorção.

A palha de milho foi obtida manualmente de


uma espiga de uma planta pronta para colheita.
Após a obtenção da espiga de milho, retirou-se a
palha. Esta foi cuidadosamente limpa e cortada em
pedaços de aproximadamente 3 mm.
A Figura 3 demonstra a solução de azul de
Para a realização dos ensaios de adsorção,
metileno no tempo 0 e após 60 minutos para
foram colocados 200 mL de azul de metileno, de
-1 tratamento com o biossorvente in natura e
concentração 50 mg.L , e uma massa 2 g de palha
quimicamente tratado com HCl e NaOH,
de milho, in natura, em um erlenmyer de 250 mL. respectivamente.
Para determinação do comportamento da
absorbância em função do tempo, foram removidas
alíquotas de, aproximadamente, 2 mL, em intervalos
Figura 3 – Solução de azul de metileno no tempo 0 Tabela 1 – Valores de α e k para a equação cinética
min. e após tratamento químico com palha de milho Adsorvente α k
in natura, quimicamente tratada com HCl e NaOH, In natura 0,516 0,090
respectivamente. Tratado com NaOH 0,494 0,125
Tratado com HCl 0,636 0,096

Substituindo na Equação 3 e rearranjando,


obtêm-se os modelos matemático-teóricos para a
adsorção com palha de milho in natura (Equação
4), tratada quimicamente com NaOH (Equação 5) e
com HCl (Equação 6).

𝐶𝐴 0,484 = −0,0424. 𝑡 + 1,38 Eq. 4

𝐶𝐴 0,506 = −0,0634. 𝑡 + 1,40 Eq. 5

𝐶𝐴 0,364 = −0,0351. 𝑡 + 1,27 Eq. 6

A Figura 5 representa os modelos


matemáticos apresentados anteriormente.
Os resultados expressam um aumento
Figura 5 – Gráfico dos modelos matemático-
significativo no poder adsortivo da palha de milho
teóricos.
quando tratado quimicamente tratada com NaOH ou 2,00
HCl, onde é perceptível uma mudança na coloração 1,80
da água com azul de metileno. 1,60

Analisando a estrutura e as propriedades do 1,40


Absorbância

1,20
pigmento, percebe-se que o azul de metileno é um
1,00
composto aromático heterocíclico, sólido verde 0,80
escuro, solúvel em água, produzindo solução azul, 0,60
inodoro, com fórmula molecular: C16H18ClN3S e 0,40
massa molar 319,85 g/mol. Sua estrutura química é 0,20
0,00
representada na Figura 4. 0 10 20 30 40 50 60
Tempo (min)
Figura 4 – Estrutura química do azul de metileno. In Natura Tratada com NaOH Tratada com HCl

Analisando os modelos matemáticos obtidos


em relação ao modelo experimental apresentado na
Fonte: Hassan et al. (2013) Figura 2, percebe-se coerência nos resultados. O
melhor valor de k indica o processo que apresenta
Percebe-se que a estrutura química a melhor cinética de adsorção, no caso, aquele com
apresenta caráter básico, devido a ressonância fibra tratada quimicamente com NaOH.
existente entre o átomo de nitrogênio e enxofre na Isso pode ser quimicamente explicado pelo
molécula, após protonação da estrutura pela fato da capacidade do hidróxido de sódio de atacar
ionização do átomo de cloro. a lignina presente na palha de milho, expondo
O modelo matemático pode ser obtido pela melhor suas fibras ao contato com o adsorvato.
linearizando a Equação 1, onde obtêm-se a
Equação 2, na qual é possível obter a ordem CONCLUSÕES
cinética da reação (α).
Ao analisar os resultados, percebe-se que o
𝑑𝐶𝐴 tratamento químico com NaOH aumenta o poder de
ln − = ln 𝑘 + α. ln 𝐶𝐴 Eq. 2
𝑑𝑡 adsorção de azul de metileno por palha de milho.
Esse resultado já era esperado uma vez que o
Resolvendo a Equação 1, para qualquer α NaOH tem a capacidade de degradar a lignina
diferente de 0 e 1, tem-se o modelo matemático presente nessa fibra, aumentando a capacidade de
descrito na Equação 3. interação entre as moléculas de celulose e o azul
de metileno.
1 1 Dessa forma, conclui-se que a palha de milho
𝛼−1 = 𝛼 − 1 . 𝑘. 𝑡 + Eq. 3
𝐶𝐴 𝐶𝐴𝑜 𝛼−1 quimicamente tratada com NaOH pode vir a ser
mais uma opção de adsorvente natural para
A Tabela 1 representa os valores de k e de α tratamento de soluções aquosas contaminadas com
para cada um dos casos. sítios ativos similares ao azul de metileno.
Em relação aos modelos matemáticos HASSAN, W. et al. Potential biosorbent, Haloxylon
obtidos, eles se apresentaram coerentes com os recurvum plant stems, for the removal of methylene blue
dados experimentais. dye. Arabian Journal of Chemistry. Arabian, 2013.

KUNZ, A. et al. Novas tendencias no tratamento de


AGRADECIMENTOS
efluentes têxteis. Química Nova, v. 25, n. 1, p. 78-82,
2002.
Ao CNPq e o IFSC, pelo financiamento.
KUNZ, A. Remediação de efluente têxtil: combinação
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2+
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BORGES, J. M. et al. Influência do tratamento químico Anual da Sociedade Brasileira de Química, Águas de
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FILHO, P. L. Ensaios de tratabilidade de água e dos
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