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A Comunicação Organizacional

em uma perspectiva crítica


Critical perspectives on Organizational Communication
La Comunicación Organizacional en una perspectiva crítica

entrevista
Dennis K. Mumby
D elgado, alto, meio tímido, sorriso
franco e aberto, estilo descontraí-
do, Dennis Mumby, inglês radicado
Com mais de cinquenta artigos pu-
blicados em periódicos acadêmicos
de abrangência internacional, Mum-
nos Estados Unidos, é hoje um dos by foi convidado para a conferência
mais respeitados estudiosos e pesqui- inaugural do III Congresso Brasileiro
sadores da Comunicação Organiza- Científico de Comunicação Organi-
cional no mundo. zacional e Relações Públicas – Abrap-
corp 2009, realizado de 28 a 30 de
Sua relevância na área pode ser iden- abril, em São Paulo (SP). Ele abor-
tificada pelo número de premiações dou o tema central, “Comunicação,
recebidas ao longo de sua carreira, humanização e organizações”. Com
dadas por instituições associativas o título “Reflexões do Professor Den-
acadêmicas de renome. Citem-se al- nis Mumby”, Alessandra Brandão fez
guns: Award for Outstanding Scho- uma síntese dessa palestra, disponí-
larly Book (produção do melhor li- vel em http://www.blogger.com/
vro acadêmico da área), da National feeds/2409256537811291604/posts/
Communication Association (NCA), default?start-index=26 e que repro-
por meio da sua Divisão de Pesqui- duzimos aqui.
sa em Comunicação Organizacional,
em 2004 e 2005; Fredric M. Jablin Me- “Hoje em dia as organizações não
morial Award for Outstanding Mem- mais se preocupam apenas com a fa-
ber (prêmio Fredric M. Jablin para bricação de produtos, mas principal-
membro de destaque), da Interna- mente em agregar valores e significa-
tional Communication Association dos (políticos, sociais e democráticos)
(ICA), em 2005; Award for Outstan- a eles. Não é simplesmente o produ-
ding Scholarly Book (produção do to, e sim a criação da marca, capaz
melhor livro acadêmico da área), da de ‘amarrar’ o produto a qualquer
International Speech Communica- emoção humana e ser exatamente
tion Association (Isca), por meio da como a sociedade quer que ela seja.
sua Divisão de Pesquisa em Comu- Os consumidores desejam estabele-
nicação Organizacional, em 1988 e cer um relacionamento com a marca,
1989; Award for Outstandig Scholar- ao passo que as organizações querem
ly Article (produção do melhor arti- conectar-se com seus públicos e com-
go acadêmico-científico da área), da pletá-los emocionalmente, por meio
Isca, em 1985, 1986, 1987 e 1996. do chamado ‘emotional branding’”.

Em 2007 teve cinco artigos repro- “Comunicação não é alguém dando


duzidos no já renomado livro Major informações a outra pessoa. Comuni-
works in organizational communication cação envolve humanizar” (Mumby).
(Sage), editado por Linda Putnam e
Kathy Krone, uma obra de cinco vo- “Dessa forma, o papel da empresa vai
lumes que reúne a reprodução de ar- muito além de simplesmente fornecer
tigos considerados pelos pares como produtos com a função que lhe foi pri-
“os clássicos da Comunicação orga- meiramente atribuída. É preciso que
nizacional” dos últimos trinta anos. a empresa disponha de um canal para

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ouvir os públicos, tanto fora quanto dagem é um contraste claro com as
dentro dela. O Professor Dennis salien- pesquisa dos anos 1960 e 1970, quan-
ta que nós deveríamos ser melhores do se tratavam as organizações como
em ouvir. Deveríamos entender que pouco mais do que recipientes para
‘cada conversa é uma oportunidade o estudo da transmissão de informa-
para aprender algo que não sabíamos ções. Atualmente, questões sobre po-
antes daquela conversa’ e é, portanto, der, discurso, identidade, diversidade
uma possibilidade de mudança”. e democracia tornaram-se centrais
na tentativa de entender o processo
“A humanização no contexto organiza- organizacional. O propósito do cur-
cional é um tópico de muita relevância. so foi caracterizar essa pesquisa mais
As pessoas não devem ter receios de contemporânea e avaliar seu impacto
serem como são e, o mais importan- em nossa percepção da vida organiza-
te, devem ser aceitas deste jeito. Essa cional. Em particular, Mumby explo-
“violência simbólica”, que é o sistema rou o neo-marxismo, o pós-moder-
da diferença, no qual algumas pessoas nismo e o feminismo, examinando
valem menos do que as outras, deve suas similaridades e diferenças.
ser trabalhada para ser extinta”.
Como estudioso da Comunicação Or-
“Humanizando organizações, a pro- ganizacional, Mumby é seguidor da
fitabilidade aumentará e teremos um teoria crítica e um dos introdutores
emotional labor, ou seja, um ambien- de novas frentes de estudo na Comu-
te de trabalho em que ‘as pessoas não nicação Organizacional, relacionadas
apenas aceitarão as diferenças dos aos estudos de gênero e do humor no
outros e pronto, elas as acoplarão’”. contexto das organizações. Ele mes-
mo apresenta a atividade em que se en-
Após o evento, Mumby também mi- volve no momento. “Minha pesquisa
nistrou, nos dias 02, 04 e 05 de maio, atual tem como foco as relações entre
o curso “Estudos de Comunicação discurso, poder e organização. Estou
Organizacional em uma perspectiva particularmente interessado em pro-
crítica”, desenvolvido em três temas: cessos de controle e resistência, bem
“Teoria e metateoria da tradição críti- como nas formas como essa dialética
ca”; “O fazer da pesquisa crítica: po- é discursivamente produzida, man-
der e controle no local de trabalho; e tida e reproduzida. Correlatamente,
“Estudos organizacionais de gênero”. interessa-me explorar a relação entre
No curso o professor mostrou como gênero e identidade, bem como exa-
nos últimos 25 anos testemunha- minar de que forma os processos de
mos uma mudança de paradigma no controle e resistência organizacional
modo como estudamos as organiza- se ligam com as identidades organiza-
ções. Baseados em várias teorias da cionais de gênero. Também estou tra-
filosofia contemporânea, os pesqui- balhando em um livro-texto (manual)
sadores de Comunicação Organiza- sobre Comunicação Organizacional.
cional têm explorado as organizações Será o primeiro desse tipo a ser escri-
como locais discursivos de formação to nessa área usando a teoria crítica
de sentido e identidade. Essa abor- como perspectiva organizacional”.

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Nesta entrevista para Organicom, pandiu para incluir muitos domínios
Mumby conversa conosco sobre a de estudo, metodologias e aborda-
sua visão de Comunicação Organi- gens teóricas diferentes.
zacional, seus interesses de pesquisa, Entretanto, o termo “comunicação
tendências da área e sua percepção organizacional” é exclusivo do campo
do que seja a Comunicação Organi- da Comunicação, caracterizando es-
zacional brasileira, em comparação tudos produzidos no âmbito ou sob a
com a norte-americana. sua ótica. Estudiosos da Comunicação
Organizacional trabalham em depar-
* * *
tamentos com colegas de outras áreas
0SHBOJDPN – Professor Dennis, antes de de pesquisa da Comunicação, como
mais nada, nosso agradecimento por Retórica, Comunicação Interpessoal,
ter aceitado conceder-nos esta entrevista Comunicação de Massa, Comunica-
para a revista Organicom. ção de Saúde e assim por diante. Eu
sei que no Brasil a Comunicação Or-
Dennis Mumby o Eué que agradeço pela ganizacional e as Relações Públicas
oportunidade desta entrevista. Mi- são bastante unidas, mas o mesmo
nha viagem a São Paulo, em abril não acontece nos Estados Unidos.
deste ano, para participar do III Con- Meu departamento, por exemplo, não
gresso da Abrapcorp, foi uma expe- contempla um programa de Relações
riência maravilhosa e enriquecedora. Públicas, embora nossa Escola de
Foi minha primeira experiência de Jornalismo o possua. Então, parte do
Brasil. Aprendi muito conversando problema em responder esta pergunta
com estudiosos brasileiros. Recebo diretamente é que o campo maior da
com alegria esta chance de falar so- Comunicação é notavelmente inter-
bre questões relacionadas à Comuni- disciplinar e tem desenvolvido confi-
cação Organizacional. gurações diferentes de subcampos em
diferentes instituições.
0SHBOJDPN – Que tal começarmos esta en- Apesar dessa falta de uma concepção
trevista com você nos contando o que en- clara de Comunicação Organizacio-
tende por Comunicação Organizacional? nal, nosso campo é caracterizado
por fortes ligações entre membros
Dennis Mumby oÉ difícil responder esta
questão de maneira direta, já que a
Comunicação Organizacional se ex-
pandiu de diversas formas. Em ter-  0DBNQP
mos bem simples, em seu contexto EB$PNVOJDB¸·P
norte-americano, a Comunicação
Organizacional pode ser descrita 0SHBOJ[BDJPOBM¹
como um subcampo dentro do cam- OPUBWFMNFOUFJOUFSEJTDJQMJOBS
po da Comunicação, tendo surgido FUFNEFTFOWPMWJEP
inicialmente no meio da década de DPOGJHVSB¸ÆFTEJGFSFOUFT
1950, com foco em “Comunicação
Industrial e de Negócios”. Ao longo EFTVCDBNQPT
dos últimos cinquenta anos, ela se ex-

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de uma comunidade de estudiosos
que estão verdadeiramente interes-
sados em promover um campo que  7JWFNPTFNVNB
dá valor a uma multiplicidade de teo- DVMUVSBESBNBUÈSHJDB
rias e métodos... Sim, temos debates CBTFBEBFNQFSGPSNBODF 
vigorosos sobre o valor de diferentes RVFFYQMPSBDPNPPTBUPSFT
abordagens para estudar a Comuni-
cação Organizacional, mas damos TPDJBJTenactTJHOJGJDBEPT
valor à força na diversidade. Acho FJEFOUJEBEFTOBTVB
que este é um dos motivos por que WJEBDPUJEJBOB
somos capazes de desenvolver for-
tes ligações com outros campos de
conhecimento e outras disciplinas,
como os Estudos das Organizações, adaptáveis a um extenso conjunto de
a Administração e a Psicologia. posições profissionais.
Ou seja, não estamos interessados Se estiver em um programa cujo
em “policiar” os limites de nosso curso tem foco em Comunicação
campo e decidir quem pode ou não Organizacional, um estudante cursa
pode ser um membro de nossa co- tipicamente disciplinas como: lide-
munidade, quais indivíduos podem rança; dinâmica de grupo; cultura or-
se unir ou não a ela. Acredito que ganizacional; teoria organizacional;
esse não é o caso de muitos campos, ética e comunicação organizacional;
em que os limites acadêmicos são responsabilidade social corporativa;
frequentemente impostos e demar- métodos de pesquisa; e disciplinas
cados de forma cuidadosa. congêneres. Em nível de doutorado,
geralmente os alunos estão se prepa-
0SHBOJDPN – Quais as exigências, nos Esta- rando para uma carreira acadêmica,
dos Unidos, em termos de formação pro- embora um número reduzido obte-
fissional, para alguém que deseje se tor- nha a titulação e logo busque empre-
nar um “comunicador organizacional”? go no mercado.

Dennis Mumby o Não há exames formais 0SHBOJDPN – Apesar de a Comunicação


ou um processo de acreditação para Organizacional, nos Estados Unidos e
estudantes de Comunicação Orga- em vários outros países, não ter carac-
nizacional. Geralmente, eles fazem terísticas de prática profissional, como
cursos de Comunicação Organiza- você já disse, que papel você atribuiria ao
cional como parte da sua formação planejamento estratégico nesse campo de
em Comunicação, que, por sua vez, conhecimento?
é parte de uma formação mais ampla
em Ciências Humanas e Sociais. Nes- Dennis Mumby o A realidade é que ques-
se sentido, os estudantes não são trei- tões de planejamento estratégico
nados para assumir posições de tra- – pelo menos no sentido em que tra-
balho específicas de comunicação em dicionalmente esse termo é utilizado
organizações, mas lhes são ensinadas nos estudos de Administração – não
habilidades analíticas amplas que são são um ponto importante na pauta

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da ampla maioria dos pesquisadores dores etc. Então, nesse tipo de projeto
de Comunicação Organizacional. Na baseado na comunidade, o planeja-
pesquisa crítica, a ideia de interven- mento estratégico tem uma impor-
ção e transformação social exerce um tância central. Eu argumentaria que,
papel importante, com o pesquisador se os estudiosos de orientação crítica
sendo posicionado como um agente assumirem mais seriamente projetos
da mudança social; em tais contextos, de comprometimento com diferen-
o planejamento estratégico se torna tes grupos de stakeholders que levem à
muito mais importante. Por exemplo, real mudança social, o planejamento
minha colega Pat Parker, da Universi- estratégico precisa ser mais seriamen-
dade do Colorado, está engajada em te um foco, tanto da perspectiva teóri-
um projeto de longo prazo com dois ca quanto da prática.
bairros de baixa renda na cidade de
Chapel Hill, na qual a universidade – O que faz um profissional de
0SHBOJDPN
está localizada. Como parte de seu es- comunicação organizacional nos Estados
forço de intervenção (em que colabo- Unidos?
rou com residentes locais), ela fundou
o Ella Baker Center for Leadership. Dennis Mumby o Bem, de um modo ge-
Esse centro trabalha com mulheres ral, a Comunicação Organizacional,
adolescentes afro-americanas para de- nos Estados Unidos, é um empreen-
senvolver projetos de intervenção ba- dimento acadêmico e por isso não
seados na comunidade e proporcionar temos uma noção do “profissional de
a elas experiências de liderança que se comunicação organizacional” tão de-
traduzirão em oportunidades de uma senvolvida como no Brasil. Então, no
vida melhor. Esse tipo de projeto de geral, não há realmente um “profissio-
comprometimento baseado na comu- nal de comunicação organizacional”
nidade naturalmente requer bastante trabalhando em um contexto corpo-
planejamento estratégico, incluindo rativo. Isto não significa que não te-
trabalhar com membros da comuni- nhamos pessoas em nosso campo que
dade para estabelecer planos de ação dão consultorias ou trabalham com
e objetivos, envolver-se com solicita- organizações sobre questões relacio-
ções de financiamento, procurar doa- nadas à Comunicação. Há vários pro-
fessores que assessoram organizações,
transpondo a divisão entre os mundos
acadêmico e corporativo.
 /PT&TUBEPT6OJEPT
O·PI²SFBMNFOUF 0SHBOJDPN – Quando um pesquisador de
Comunicação Organizacional tem a pos-
VNiQSPGJTTJPOBM sibilidade de analisar uma organização,
EFDPNVOJDB¸·P qual deve ser o seu principal interesse?
PSHBOJ[BDJPOBMw
Dennis Mumby o Novamente, não há uma
USBCBMIBOEPFNVN
resposta simples para esta questão,
DPOUFYUPDPSQPSBUJWP principalmente em 2009. Particular-
mente desde o começo da década

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de 1980, o campo se expandiu de tal
forma que se tornou tremendamente
eclético quanto a abordagens e inte-  1PSNVJUPUFNQP
resses dos estudiosos de Comunica- PTQFTRVJTBEPSFT
ção Organizacional. Em termos bem O·PQSFTUBSBN
amplos, talvez a maior inovação nos BUFO¸·Pµ
últimos 25 anos tenha sido o fato de
que os pesquisadores tomaram como iDPNVOJDB¸·Pw
um ponto focal a vida cotidiana de OB$PNVOJDB¸·P
membros da organização. O que isto 0SHBOJ[BDJPOBM
significa em termos de pesquisa é que
os estudiosos realmente se interessa-
ram em examinar e explorar proces-
sos comunicativos. Uma das ironias cional cotidiana. Em outras palavras,
de nosso campo é que por muito compreender as organizações é uma
tempo os pesquisadores não pres- questão de entender como membros
taram muita atenção à “comunica- se envolvem coletivamente em pro-
ção” na Comunicação Organizacio- cessos de produção de sentido por
nal; mesmo quando eles alegavam meio de práticas de comunicação e
estudar processos de comunicação, o de que maneira, como resultado, as
que estavam realmente fazendo era realidades organizacionais são cons-
analisar os resultados de surveys ou da- truídas. De forma alguma isso signi-
dos de experimentos. Ao se voltarem fica que os pesquisadores devam pro-
ao estudo de processos reais de co- curar uma realidade organizacional
municação (conversa cotidiana, nar- única. Pelo contrário, acho que algu-
ração de histórias, rituais, metáforas mas das pesquisas mais interessantes
etc.), os pesquisadores começaram a ao longo das últimas décadas for-
examinar a verdadeira “matéria” da neceram visões das complexidades,
organização, isto é, o que torna uma multiplicidades e contradições do
organização uma organização. processo de organizing, mostrando-o
Então, para responder a questão, eu de várias formas como precário, con-
diria que um pesquisador deve estar testável e cheio de incertezas.
fundamentalmente interessado em
como os membros da organização 0SHBOJDPN – No curso “Comunicação Or-
constroem comunicativamente o or- ganizacional de uma perspectiva críti-
ganizing1 no nível da vida organiza- ca”, que ministrou no Brasil como parte
das atividades do III Abrapcorp, você fez
1 Organizing  UFSNP PSJHJOBSJBNFOUF VUJMJ[BEP referência à performance ethnography
QPS .VNCZ FN JOHMºT  FN QPSUVHVºT UFSJB (etnografia performática) como uma
DPNP USBEV¸·P MJUFSBM iPSHBOJ[BOEPw 0 VTP
EF UFSNPT OP HFSÈOEJP ¹ SFTVMUBEP EF VN
NPEJTNP WJHFOUF OB MJUFSBUVSB FTQFDJBMJ[BEB OPDBS²UFSEJO³NJDP JOUFSNJUFOUFFGPSNBUJWP
EF W²SJBT ²SFBT  JODMVTJWF OB $PNVOJDB¸·P EP QSPDFTTP EF PSHBOJ[BS "MHVNBT WF[FT o
0SHBOJ[BDJPOBM QBSB DPNJTTP JOEJDBSBFYJT JODMVTJWF OFTUB FOUSFWJTUB o  organizing UFN
UºODJBEFVNBEJO³NJDBWJWB EFVNDPOU½OVP TJEP VUJMJ[BEP DPNP TJOÃOJNP EF VNB DPO
NPWJNFOUPOBRVJMPFNRVFPHFSÈOEJP¹VUJMJ DFQ¸·PNBJTDPOUFNQPS³OFBEFPSHBOJ[B¸·P
[BEPoOPDBTP OPPSHBOJ[BS"ºOGBTFBRVJ¹ /PUBEBSFWJTPSBU¹DOJDB


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nova e interessante técnica de pesquisa
em uso por alguns pesquisadores de Co-
municação Organizacional. Do seu pon-
 "JEFJBEF
to de vista, quais são os prós e os contras VNBBCPSEBHFN
dessa técnica? O que ela agrega às técni- QFSGPSNBUJWB
cas mais comumente utilizadas? ¹BUSBFOUF
Dennis Mumby o Devo esclarecer que QPSRVFFOGBUJ[B
não sou usuário da performance eth- BOP¸·PEForganizing
nography. Entretanto, vários de meus DPNPenact
colegas, em um subcampo da Comu-
nicação chamado Estudos de Perfor-
mance, se interessaram muito pela
ideia do “performativo”, que surge uma cultura dramatúrgica baseada
originalmente na obra de Judith Bu- em performance (emprestando o ter-
tler e outros. Muito dessa obra se in- mo de Erving Goffman), sendo seu
teressa em como identidades sociais objetivo explorar como os atores so-
são construídas e “desempenhadas” ciais enact significados e identidades
momento a momento; isto é, a iden- (além de sistemas de diferença) na
tidade é examinada como performa- sua vida cotidiana. Para o etnógrafo
tiva e não como fixa e estável. Na Co- performático, as performances coti-
municação Organizacional, a ideia dianas são textos a serem interpreta-
de uma abordagem performativa é dos, e textos podem ser performados.
atraente porque enfatiza a noção de Então, às vezes os dados etnográficos
organizing como enacted2 e performa- são vertidos em performances ao
da por meio de práticas comunica- vivo ou filmadas e não em textos aca-
tivas cotidianas. Nesse sentido, nós dêmicos. O recente documentário
“fazemos” gênero, “fazemos” raça, de Dwight Conquergood, The heart
“fazemos” sexualidade e assim por broken in half, é um exemplo clássico
diante. Dessa maneira, a performance de performance ethnography – um estu-
ethnography enfatiza que vivemos em do etnográfico de dois anos sobre a
cultura das gangues de Chicago que,
2 Enact¹VNUFSNPRVF OBMJUFSBUVSBFTQFDJB como filme, tem um impacto muito
MJ[BEB EF W²SJBT ²SFBT  JODMVTJWF OB $PNVOJ diferente na audiência do que um ar-
DB¸·P 0SHBOJ[BDJPOBM  UFN TJEP NBOUJEP OP tigo acadêmico sobre o assunto. Não
PSJHJOBM QPS O·P TFS QPTT½WFM GB[FS EFMF VNB
USBEV¸·P MJUFSBM QBSB P QPSUVHVºT OP TFOUJEP
há muitos pesquisadores de Comu-
FNRVFUFNTJEPVUJMJ[BEPOFTTBTMJUFSBUVSBT  nicação Organizacional produzindo
RVF¹PTFOUJEPBFMFBUSJCV½EPQPS8FJDLOB performances ao vivo ou filmes em
TVBPCSB5IFTPDJBMQTZDIPMPHZPGPSHBOJ[JOH vez de artigos acadêmicos, mas cer-

 " USBEV¸·P QBSB FOBDU FODPOUS²WFM
OPT EJDJPO²SJPT JOHMºTQPSUVHVºT VTVBJT 
tamente é uma forma intrigante de
DPNPQPSFYFNQMP OP)PVBJTT0O-JOFFOP prestar contas de como se dá a vida
8FCTUFST ¹ EF TBODJPOBS  QSPNVMHBS  PSEF organizacional. Quem sabe – talvez
OBS  EBS GPS¸B EF MFJ &OBDU OP TFOUJEP EBEP
QPS 8FJDL TF SFGFSF µ FYQSFTT·P EB DBQBDJ
no futuro tais performances se tor-
EBEFEFBHFOUFTEBSFNWJEBµB¸·P /PUBEB nem eventos comuns em congressos
SFWJTPSBU¹DOJDB
 de estudos organizacionais!

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0SHBOJDPN – Durante a sua estada no os processos organizacionais são, por
Brasil, você comentou que a abordagem definição, políticos por natureza, a
crítica define o que hoje é o campo da Co- ideia é bastante aceita. E de muitas
municação Organizacional. Poderia ex- formas minha carreira acadêmica
plicar melhor esse seu ponto de vista? pode ser descrita como um esforço
para explorar sistematicamente as
Dennis Mumby o Bem, acho que eu te- relações entre comunicação, poder e
ria problemas com muitos de meus organização (o título de meu primei-
colegas se eles vissem, em um texto ro livro, em 1988, foi Communication
escrito e publicado, que eu disse que and power in organizations – Comu-
a perspectiva crítica define o campo nicação e poder nas organizações –,
da Comunicação Organizacional! tendo sido a primeira investigação
Nos últimos vinte anos, aproxima- sobre organizações e poder feita no
damente, ela certamente se tornou campo da Comunicação Organiza-
uma abordagem muito importante cional, e com o porte de publicação
no campo e tem, de muitas maneiras, em livro, que adotou explicitamente
redefinido o que conta como objetos uma perspectiva crítica).
legítimos de estudo na Comunicação A emergência da perspectiva crítica,
Organizacional. O que a perspectiva na minha opinião, realmente abriu o
crítica tem feito para o campo, no campo da Comunicação Organiza-
meu modo de ver, foi, fundamental- cional a formas diversas de se pensar
mente, enfraquecer a ideia de que sobre as organizações e de pesquisá-
as organizações são simplesmente las. Uma vez que você enfraquece
locais de tomada de decisão racional a sua concepção de assuntos como
onde poder e política são fenômenos gerenciamento, estratégia, cultura
idiossincráticos e anômalos. Antes de etc. enquanto processos puramente
a perspectiva crítica vir à cena, o ter- racionais e, ao contrário, os visualiza
mo “poder” era, de forma generaliza- como caracterizados por jogos de po-
da, visto como um palavrão e ampla- der, resistência, esforços para moldar
mente ignorado como um fenômeno a realidade organizacional, e assim
legítimo de estudo. Hoje, diante da por diante, passa a ter uma visão mui-
aceitação de que as organizações e to mais interessante e “texturizada”
das formas como as pessoas constro-
em suas vidas organizacionais.
Então, acho que, de muitas maneiras,
 "FNFSHºODJB a perspectiva crítica é um esforço para
EBQFSTQFDUJWBDS½UJDB ”tirar dos trilhos” a ideia de business as
usual (os negócios como de praxe) e
BCSJVPDBNQPEB enfraquecer a ideia de que a perspecti-
$PNVOJDB¸·P0SHBOJ[BDJPOBM va gerencialista é o padrão, o modo de
BGPSNBTEJWFSTBT estudar as organizações pelo “senso co-
EFQFOTBSFQFTRVJTBS mum”. Tomo emprestada de Michael
Burawoy, um sociólogo organizacio-
BTPSHBOJ[B¸ÆFT nal, a principal questão da perspectiva
crítica, que não é “por que as pessoas

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Além de criticar, a abordagem crítica
tenta abrir possibilidades para pensar
 "QFSTQFDUJWB e praticar formas diferentes de orga-
DS½UJDBUJSBEPTUSJMIPT nização. Como é uma democracia
BJEFJBEFbusiness organizacional genuína? Qual é o pa-
as usualFFOGSBRVFDF pel da comunicação na criação de um
organizing mais democrático? Qual é
BJEFJBEFRVFB o papel dos pesquisadores de Comu-
QFSTQFDUJWBHFSFODJBMJTUB nicação Organizacional na geração
¹PQBES·P de possibilidades democráticas? Estas
são questões difíceis, mas acho que,
para o trabalho crítico passar de um
empreendimento meramente acadê-
não trabalham mais?” e sim “por que mico, precisamos nos esforçar para
as pessoas trabalham tanto?”. Em ou- achar as respostas.
tras palavras, o que é que muitas vezes
instiga as pessoas a darem suas vidas e 0SHBOJDPN – Ainda no curso que ministrou
almas para organizações, geralmente após o III Abrapcorp, no Brasil, você ex-
negligenciando famílias, vidas pessoas pressou o ponto de vista de que humor e
etc.? Para responder à pergunta alter- gênero, hoje em dia, devem ser reconhe-
nativa (ou seja, à não-gerencialista), cidos como temas de interesse da Comu-
uma pessoa deve começar de uma nicação Organizacional. Por que atribui
posição diferente e pensar em organi- essa importância a eles?
zações e corporações como forças co-
lonizadoras cujo objetivo é moldar a Dennis Mumby oO estudo do gênero já
realidade para as pessoas. Quando fiz está presente por algum tempo na
minha palestra no III Abrapcorp, uma Comunicação Organizacional – pelo
das coisas que disse é que a corpora- menos desde o começo da década de
ção moderna odeia a ideia de que os 1990. Estudos feministas tiveram for-
seres humanos têm experiências com te influência no campo nos últimos
o mundo e entre si e “produzem sen- vinte anos. Em seu início, os estudos
tido” de qualquer forma que não seja críticos não prestavam muita atenção
intermediada ou patrocinada por pro- ao gênero, tendendo a tratar o poder
cessos de corporativização. A aborda- de forma bastante genérica com foco
gem crítica, conforme sugiro, analisa reduzido em formas particulares de
e critica os mecanismos discursivos diferença. A questão da igualdade de
pelos quais as corporações constro- gêneros tem sido um tema contínuo
em realidades (frequentemente, de na sociedade norte-americana já há al-
maneira arbitrária) que atendem seus gumas décadas, mas apenas no início
interesses ao mesmo tempo em que, da década de 1990 os pesquisadores co-
muitas vezes, prejudicam os interesses meçaram a observar questões relacio-
de outros stakeholders (por exemplo, nadas com a criação de oportunidades
comunidades locais, proprietários de iguais para mulheres para examinar
pequenos negócios, fazendeiros sus- a ideia, pioneiramente desenvolvida
tentáveis etc.) por Joan Acker, de que as organizações

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têm gênero. Isto é, em vez de pensar formação de identidade na sociedade
no gênero como um bem do indiví- contemporânea. Por exemplo, atual-
duo, devemos pensar nele como fun- mente estou editando um projeto de
damentalmente estruturado na real livro chamado Organizing difference,
construção das organizações e parte contendo trabalhos que tratam da in-
dos processos cotidianos de organi- terseção de diferença e organização
zação. Eu acho que esta é uma mudan- por meio de um conjunto amplo de
ça importante, porque nos leva a ir assuntos. Alguns estudiosos de Co-
além de pensar sobre comportamen- municação Organizacional – Karen
tos individuais ou políticas organi- Ashcraft, por exemplo – argumen-
zacionais, procurando mais exa- tam que é um erro até mesmo falar
minar as formas pelas quais realidades sobre gênero separadamente de ou-
organizacionais, identidades e siste- tras formas de diferença e que deve-
mas de significado são pressupostos mos tomar como foco as interseções
em unidades binárias de gênero (mas- de várias formas de diferença no pro-
culino/feminino,cultura/natureza,ra- cesso de organização. Assim, analisar
zão/emoção, dependente/indepen- como, por exemplo, gênero, raça e
dente e assim por diante). sexualidade são articulados juntos
Para mim, o interessante é que, nos deve ser nosso foco contínuo na pes-
últimos anos, a abordagem crítica quisa da diferença e da Comunicação
deixou de pensar principalmente Organizacional.
sobre gênero passando a ter como Acho que minha proposta de que o
foco mais amplamente a questão da humor seja uma questão importante
diferença e as formas com que a di- para a Comunicação Organizacional
ferença é o meio e o resultado do or- talvez expresse mais um desejo de
ganizing. Assim, questões de raça, se- minha parte do que qualquer outra
xualidade, classe, forma física etc. se coisa. É um interesse pessoal meu (e
tornaram parte da pauta crítica. Eu sem dúvida o motivo de eu ter falado
sugeriria que isto envolve um foco sobre isso), mas ainda é uma área rela-
maior na questão da identidade hu- tivamente pouco explorada. Sim, tem
mana e um interesse na organização havido alguma pesquisa nessa área,
como um dos principais lugares da incluindo um livro recente editado
por Carl Rhodes e Robert Westwood,
para o qual contribuí com um capítu-
lo. Em minha opinião, o humor tem
 "BCPSEBHFN sido estudado recentemente porque
DS½UJDBEFJYPV é uma característica que permeia to-
dos os meandros organizacionais. O
EFQSJPSJ[BSPHºOFSP  local de trabalho seria um lugar terri-
QBTTBOEPBUFSDPNP velmente chato se ninguém contasse
GPDPNBJTBNQMP piadas ou ocasionalmente se soltasse
BRVFTU·P e agisse como bobo. Com o domí-
nio das perspectivas gerencialista e
EBEJGFSFO¸B funcionalista, havia pouco incentivo
para estudar o humor, porque ele era

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visto não apenas como trivial, mas humor também é consistente com a
também como um impedimento à virada pós-moderna em direção ao
eficiência e produtividade. De fato, a estudo da ironia e do cinismo no lo-
administração tradicionalmente ten- cal do trabalho – dois elementos que
tou controlar o humor e a brincadei- são muitas vezes integrados ao uso
ra e procurou limitar seus efeitos nos do humor.
resultados da empresa.
É claro, o humor é parte da condição 0SHBOJDPN– Dennis, que questões e pro-
humana e, por extensão, tem uma pre- blemas comunicacionais são enfrentados
sença importante nas práticas cotidia- pela Comunicação Organizacional?
nas de organização. Então, em parte,
acho que ele se tornou um objeto de Dennis Mumby o Eu poderia responder
estudo crítico precisamente por cau- a essa questão de várias maneiras.
sa de sua cotidianidade. Além disso, Acho que um problema é que, como
o humor também tem sido teorizado campo, nós ainda tendemos a ter um
como meio de resistência no local de foco excessivo nos contextos organi-
trabalho e, claramente, a abordagem zacionais corporativos. Essa situação
crítica passou bastante tempo estu- tem melhorado, mas ainda gostaria
dando as formas de resistência indi- de nos vermos indo mais além dos
vidual e coletiva dos trabalhadores a tipos de organização que estudamos
processos de controle administrativo- para incluir organizações sem fins
gerencial. Assim, diversos pesquisa- lucrativos, grupos de voluntariado,
dores (por exemplo, David Collinson, movimentos sociais etc. Além disso,
Peter Fleming, Steve Linstead, para acho que ainda operamos com um
citar alguns) têm se interessado pelas modelo de organização muito está-
formas de atuação do humor na cons- tico e baseado no modelo do contê-
trução de discursos organizacionais e iner. Vemos as organizações como
na produção de sentido de modo a lugares “nos quais” as pessoas traba-
permitir que os trabalhadores subver- lham e as pesquisamos como tais, em
tam a lógica administrativo-gerencial vez de pensarmos sobre as práticas
dominante e os sistemas de racionali- de organização e as formas com que
dade. Entendo que a pesquisa sobre as pessoas se organizam por meio da
comunicação e de sistemas de sig-
nificação fora do contexto físico das
organizações. Por exemplo, a pesqui-
 "JOEBPQFSBNPT sa sobre identidades profissionais (o
DPNVNNPEFMP trabalho de Karen Ashcraft sobre pi-
lotos de avião me vem à mente) não
EFPSHBOJ[B¸·P é realmente o estudo de uma orga-
NVJUPFTU²UJDP nização específica e sim uma investi-
FCBTFBEP gação de como um grupo de pessoas
OPNPEFMP se organiza ao redor de um conjunto
de discursos, identidades e corpos de
EPDPOUºJOFS conhecimento historicamente pro-
duzidos. Entendo que tal trabalho é

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0SHBOJDPN– Você acredita que a Comu-
nicação Organizacional possa ser vista
 2VFTUÆFTEFSB¸B  como uma manifestação empírica do ob-
TFYVBMJEBEF DMBTTF  jeto comunicacional?
GPSNBG½TJDBFUDTF
Dennis Mumby o Esta certamente é a cren-
UPSOBSBNQBSUFEBQBVUB
ça de muitos estudiosos de Comuni-
DS½UJDB*TUPFOWPMWFVN cação Organizacional. A “Escola de
GPDPNBJPSOBRVFTU·P Montreal”, particularmente, passou
EBJEFOUJEBEFIVNBOB os últimos quinze anos desenvolvendo
o que eles chamam de modelo CCO
(Communicative Constitution of Or-
ganization – Constituição Comunicati-
empolgante porque realmente colo- va das Organizações), de organizing no
ca o discurso – em níveis tanto macro qual o foco está na análise do texto e
quanto micro – no centro dos proces- da conversação para ilustrar as formas
sos de organizar e mostra como reali- com que esses mecanismos comuni-
dades organizacionais surgem de em- cativos constituem o que chamamos
bates complexos por controle sobre de organização. Entretanto, em vez
quem consegue moldar os sistemas de descrever as organizações como
de significação organizacionais. a “manifestação empírica” da comu-
Além disso, parece-me que aceitamos nicação, eu diria que as organizações
rapidamente demais e indiscrimi- são tanto o meio quanto o resultado
nadamente a ideia de comunicação dos processos de comunicação. Isto
como constitutiva das organizações. é, a comunicação é componente da
Acho que essa ideia é profunda, mas organização, mas ao mesmo tempo a
muitas vezes a aceitamos como dada organização age de volta na comuni-
em vez de tomá-la como uma pro- cação para funcionar como contexto
blemática que requer explicação e semântico e estrutural para processos
investigação detalhadas. Além disso, de comunicação. É famosa a afirma-
aceitar esse princípio tende a deixar ção do antropólogo Clifford Geertz de
passar desapercebido o fato de que que “o homem é um animal amarra-
as organizações são estruturas ma- do a teias de significados que ele mes-
teriais que produzem consequências mo teceu”. Acho que não é insensato
reais para pessoas reais. Nesse senti- imaginar as organizações como “teias
do, a comunicação também é mate- de significação” dentro das quais os
rial, além de simbólica, no que cria homens, como seres comunicativos,
realidades que possuem consequên- estão amarrados. Nós, comunicativa-
cias materiais no mundo. Assim, sem mente, produzimos organizações e so-
entrar em muitas complexidades, a mos produzidos pelas organizações.
relação entre o comunicativo e o ma-
terial é um assunto ao qual os estu- 0SHBOJDPN– Você acredita que as bases te-
diosos de Comunicação Organizacio- óricas da Comunicação Organizacional
nal precisam continuar voltando seus provêm uma teoria comunicacional das
esforços de pesquisa. organizações?

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Dennis Mumby o A questão da relação
entre comunicação e organização
tem estado no centro dos estudos de  "JEFJBEFRVF
Comunicação Organizacional por BTPSHBOJ[B¸ÆFT
muitos anos. Os estudiosos há muito T·PDPOTUSV¸ÆFT
tempo vêm se esforçando em encon- DPNVOJDBUJWBT
trar uma resposta para como melhor
conceptualizar uma teoria da co- ¹BPNFTNP
municação das organizações. Como UFNQPTJNQMFT
mencionei anteriormente, um fato FQSPGVOEB
estranho em relação às décadas ini-
ciais de nosso campo é que a maioria
dos pesquisadores de forma nenhu-
ma estava realmente estudando Co- plexidades e texturas da constitui-
municação. Acho que é em parte por ção comunicativa das organizações
esse motivo que os pesquisadores exige teorias robustas e métodos
hoje põem o foco particularmente na sofisticados. As organizações são
relação comunicação-organização. estruturas comunicativas e sociais
Além disso, parece-me que a questão notavelmente complexas, e há uma
das teorias comunicacionais sobre as estabilidade para essa estrutura e
organizações é vista como uma for- também uma percepção de que elas
ma com que nosso campo pode fa- são precárias e constituídas e recons-
zer contribuições importantes para o tituídas na dinâmica de momento a
estudo interdisciplinar das organiza- momento. A Comunicação é o que
ções; isto é, outros campos estudam faz a organização possível, mas isto
as organizações (Administração, So- também significa que as organiza-
ciologia, Psicologia etc.), mas nós ções não são as estruturas estáveis e
gostamos de pensar que nenhum de- invariáveis que o senso comum nos
les é capaz de trazer sofisticação te- diz que são. Como Karl Weick disse
órica para o estudo de organizações certa vez, “a palavra ‘organização’ é
enquanto construções comunicativas um substantivo, mas é também um
como nós fazemos. mito.” Weick estava enfatizando a
Acho, sim, que o trabalho teórico que necessidade de falar sobre a organi-
temos feito em nosso campo propor- zação como um processo, como or-
ciona algumas teorias comunicativas ganizing, e não, como uma entidade
sólidas das organizações. A ideia de fixa; mas ele poderia também estar
que as organizações são construções falando sobre o fato de que as orga-
comunicativas é ao mesmo tempo nizações realmente existem apenas
simples e profunda. Por um lado, é nas práticas de comunicação diárias
uma ideia simples dizer que as orga- rotineiras de seus membros.
nizações são estruturas comunicati-
vas que funcionam principalmente 0SHBOJDPN – Tomando por referência o que
por meio das interações cotidianas leu, viu, ouviu e vivenciou em termos do
dos seus membros. Por outro lado, que seja a Comunicação Organizacional
examinar verdadeiramente as com- no Brasil, você diria que aqui existe um

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pensamento e prática de Comunicação ou não, eu diria que o estudo das Re-
Organizacional que são diferentes da lações Públicas nos Estados Unidos
concepção mainstream (do que seja Co- é visto como um empreendimento
municação Organizacional)? bastante conservador e vinculado
aos interesses corporativos. Por ou-
Dennis Mumby o Como disse no início de tro lado, me parece que no Brasil as
minhas observações, foi uma expe- Relações Públicas são concebidas de
riência tremendamente gratificante maneira mais progressista politica-
visitar o Brasil e falar para estudiosos mente e não estão tão “amarradas” à
e estudantes de Comunicação Orga- vida corporativa. De fato, me parece
nizacional. Há claramente um traba- que o estudo e a prática de Relações
lho muito estimulante acontecendo Públicas aí são bastante situados no
aí. Baseado em minha limitada expe- contexto de questões de justiça so-
riência, eu diria que há um par de coi- cial e democracia.
sas vem a minha mente em termos Relacionado a isso, a minha percep-
de caracterizar a comunicação Orga- ção é de que o estudo da Comunica-
nizacional no contexto brasileiro. ção Organizacional no Brasil possui
Em primeiro lugar, está claro que o uma forte orientação à práxis, com
campo está bem vinculado às Rela- preocupações com o desenvolvimen-
ções Públicas; de fato, as duas áreas to de práticas de comunicação fortes
parecem ser concebidas como uma e democráticas nas organizações. Se
só, aí no Brasil. Fiquei muito surpre- puder fazer uma comparação entre
so ao ser perguntado sobre o estudo os estudos norte-americanos e brasi-
de Relações Públicas quando estava leiros de Comunicação Organizacio-
em São Paulo – um campo de es- nal, eu diria que os Estados Unidos
tudos sobre o qual eu não sei prati- primeiro desenvolveram, nos últi-
camente nada à respeito! Mas tam- mos vinte anos ou mais, uma forte
bém me parece que aí as próprias base teórica e só em anos relativa-
Relações Públicas são concebidas mente recentes passaram ao estudo
de forma bem diferente da configu- empírico e crítico de questões como
ração norte-americana. Sendo justo democracia, ética, responsabilida-
de social corporativa etc. No Brasil,
por outro lado, os estudos de Co-
municação Organizacional desde o
início parecem ter sido fortemente
 /·P¹JOTFOTBUP fundamentados em questões de de-
JNBHJOBSBTPSHBOJ[B¸ÆFT mocracia, justiça social etc. e só re-
centemente começaram a voltar-se
DPNPAUFJBTEF ao desenvolvimento de arcabouços
TJHOJGJDB¸·PEFOUSPEBT teóricos que acompanham esse tipo
RVBJTPTIPNFOT DPNP de orientação centrada na práxis.
TFSFTDPNVOJDBUJWPT  Nesse sentido, os estudos brasileiros
possuem uma ligação íntima com
FTU·PBNBSSBEPT questões sociais mais amplas que,
no meu modo de ver, os estudiosos

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uma importante coletânea que com-
pila trabalhos de estudiosos da Co-
 0TQFTRVJTBEPSFT municação Organizacional baseados
EF$PNVOJDB¸·P nos Estados Unidos e de estudiosos
0SHBOJ[BDJPOBM críticos de Estudos Organizacionais
OPT&TUBEPT6OJEPT australianos e europeus. Para mim,
essa obra é importante para ilustrar
FTU·PTF as diversas ligações entre Comunica-
UPSOBOEPNFOPT ção Organizacional e Estudos Orga-
JOTVMBSFT nizacionais (ou pelo menos entre as
pessoas que produzem trabalho crí-
tico nessas áreas), além de mostrar
as contribuições de estudiosos de
norte-americanos estão apenas co- Comunicação Organizacional para
meçando a compreender. entender as organizações como fenô-
O campo da Comunicação Organi- menos discursivos.
zacional, no Brasil, é estimulante e De um modo mais geral, me parece
vibrante. Espero ansiosamente pelo que o campo continua a se engajar
desenvolvimento de relações mais em pesquisa inovadora em várias
próximas entre os estudiosos brasi- áreas. Está claro que os estudiosos
leiros e os norte-americanos. Acho estão expandindo suas agendas de
que podemos aprender muito uns pesquisa para além das corporações
com os outros. Por isso, repito que e estudando vários outros contextos
fico muito feliz em poder estar con- organizacionais, incluindo organi-
versando com os leitores de Organi- zações sem fins lucrativos, ONGs,
com sobre isso. grupos feministas etc. Acho que essa
mudança representa um desejo de
0SHBOJDPN – Uma última questão, Dennis: explorar formas alternativas de or-
qual é a sua avaliação sobre “o estado da ganizing e de possibilitar o desfrute
arte” e seu ponto de vista sobre tendên- de formas organizacionais mais hu-
cias da Comunicação Organizacional? manas e democráticas. Dados os im-
pulsos utópicos e emancipadores da
Dennis Mumby o Acho que o campo pro- teoria crítica, essa mudança é muito
vavelmente está mais estimulante consistente com essa filosofia.
e vibrante do que nunca. Algo que Isso se dá também porque os pesqui-
aconteceu nos últimos cinco, dez sadores de Comunicação Organiza-
anos é o desenvolvimento de fortes cional nos Estados Unidos estão se
ligações entre estudiosos de Comu- tornando menos insulares, tanto por
nicação Organizacional norte-ame- causa de suas fortes ligações com es-
ricanos, europeus e australasiáticos tudiosos de outras áreas quanto por
em estudos organizacionais críticos. causa de seus esforços para estudar
Por exemplo, o The Sage handbook of a Comunicação Organizacional de
organizational discourse, editado por maneira mais global. Como membro
David Grant, Cynthia Hardy, Clifford de vários conselhos editoriais, estou
Oswick e Linda Putnam em 2004, é vendo um número crescente de ma-

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nuscritos de estudiosos baseados nos de um foco principal no gênero para
Estados Unidos que pesquisam as or- examinar as maneiras como várias
ganizações globalmente. Além disso, formas de diferença se cruzam no
esses estudiosos estão se tornando processo de organizing. Por fim, al-
mais sensíveis ao estudo de organi- guns pesquisadores estão menos inte-
zações globais, ao mesmo tempo em ressados no estudo das organizações
que prestam atenção a assuntos or- per se e mais em como comunicação
ganizacionais específicos da cultura. e discursos organizam identidades –
Nosso periódico mais importante da por exemplo, diversos pesquisadores
área, o Management Communication estão estudando a construção discur-
Quarterly, se tornou crescentemen- siva de profissões (como o trabalho
te internacionalizado sob a edição de Karen Ashcraft sobre pilotos de
de Jim Barker, não apenas publican- avião), em um esforço para entender
do trabalhos de estudiosos de todo como as profissões funcionam como
o mundo (inclusive do Brasil), mas sistemas de significação e poder que
também trabalhos que tratam cada constroem identidades de formas in-
vez mais de questões internacionais/ clusivas e exclusivas.
globais. Então, o estado do campo é vibrante
Outras tendências atuais na pesquisa e de um pluralismo saudável, em que
de Comunicação Organizacional in- muitas teorias e métodos de pesquisa
cluem um foco no equilíbrio traba- coexistem em um esforço para en-
lho-vida. Muitos pesquisadores estão tender as complexidades da vida or-
interessados nas maneiras como o ganizacional. Para mim, o que con-
surgimento da forma organizacional tinua sendo excitante e inspirador é
pós-fordista e a ruptura da tradicio- a maneira como os estudiosos estão
nal separação entre trabalho e vida desenvolvendo e explorando pers-
familiar criaram desafios importantes pectivas verdadeiramente comunica-
para os empregados, particularmente cionais no estudo das organizações,
em torno de questões de identidade, maneiras em que processos comuni-
comunicação e trabalho de conheci- cacionais e discursivos são levados a
mento. O fim da organização fordis- sério como características importan-
ta e o surgimento do pós-fordismo tes e decisivas da vida organizacional.
gerou muita pesquisa – grande parte No início de minha carreira acadêmi-
dela crítica – sobre o “trabalhador do ca, parecia ser uma batalha constante
conhecimento” e as maneiras pelas procurar mover estudiosos para além
quais o trabalho administrativo está do campo da Comunicação Organi-
crescentemente sujeito a várias prá- zacional, levando-os a considerar a
ticas de controle discursivas e não- comunicação como um fenômeno a
discursivas. Amplia-se também a pes- ser estudado. Este é cada vez menos
quisa sobre diferença e organização – o caso, já que, no mundo todo, estu-
como já falei antes, os estudiosos diosos da Administração, Sociologia,
de Comunicação Organizacional es- Psicologia e Linguística estão se vol-
tão desenvolvendo concepções mais tando cada vez mais para nosso tra-
amplas de diferença, que vão além balho como fonte.

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