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JOSÉ GIACOMO BACCARIN; SANY SPÍNOLA ALEIXO; DENISE

BOITO PEREIRA DA SILVA; GABRIELA GERALDI MENDONÇA


UNESP, JABOTICABAL - SP - BRASIL.

Alimentação Escolar e Agricultura Familiar: Alcance e Dificuldades para


Implantação do Artigo 14 da Lei 11.947/2009 no Estado de São Paulo1

Grupo de Pesquisa: Agricultura Familiar e Ruralidade

Resumo
O Artigo 14 da Lei Federal 11.947 de 2009 estabelece que estados e municípios, ao
executarem ações do Programa Nacional de Alimentação Escolar, devem gastar no mínimo
30% dos recursos recebidos do Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação na
compra de produtos originários da agricultura familiar. Nessas compras a preferência deve
ser dada aos agricultores do próprio município e, na sua impossibilidade, deve-se seguir a
seguinte prioridade: compra da região, do território rural, do estado, de outros estados.
Além da questão nutricional, pretende-se contribuir para o desenvolvimento local e
assegurar renda aos agricultores familiares. Em termos institucionais, o Artigo 14 deriva da
Lei Federal 10.696 de 2003 que criou o Programa de Aquisição de Alimentos da
Agricultura Familiar. O alcance do Artigo 14 é significativo, considerando-se o valor dos
repasses orçamentários do FNDE e a obrigação de todos os entes federados a ele aderirem.
Neste trabalho discutiram-se questões da aplicação do Artigo 14 no Estado de São Paulo,
referentes à ação das prefeituras e ao seu potencial alcance para os agricultores familiares.
A análise das chamadas públicas de um grupo de prefeituras indicou algumas inadequações
às condições dos agricultores familiares. O número de pontos de entrega dos produtos, às
vezes, é excessivo e não se fixa a freqüência de entrega. Embora predomine a demanda por
produtos in natura, aparecem também produtos transformados industrialmente, sendo que
alguns deles dificilmente seriam ofertados por agricultores familiares paulistas. Em todas
as chamadas são demandados produtos de origem vegetal. Nos produtos de origem animal,
predomina a demanda por ovo e têm baixa procura as carnes e o leite. Sob o ponto de vista
dos agricultores familiares, o Artigo 14 constituiu um mercado institucional importante,
potencialmente capaz de lhes assegurar mais de 3% de sua renda. De maneira geral os
agricultores familiares em São Paulo apresentam oferta suficiente dos principais produtos
agropecuários para o atendimento da Alimentação Escolar. Contudo, não se deve esquecer
que muitos deles, especialmente os de origem animal, antes do consumo, passam por
transformações normalmente em grandes unidades industriais, trazendo dificuldade para
seu fornecimento pelo agricultor familiar para a Alimentação Escolar.

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Este artigo foi possível com informações obtidas em desenvolvido de Projeto de Pesquisa financiado pelo
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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Belo Horizonte, 24 a 27 de julho de 2011,
Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural
Palavras Chaves: Agricultura Familiar; Alimentação Escolar; Segurança Alimentar.

Abstract
The 14th article of Federal Law 11,947 from 2009 establishes that states and municipalities
that execute the Programa Nacional de Alimentação Escolar must spend at least 30% of the
funds received from Fundo Nacional para o Desenvolvimento da Educação in the purchase
from family agriculture’s products. In such purchases the preference should be given to
farmers from the municipality, if that is not possible, should be followed the priority: from
the region, from rural territory, from the state, from other states. Beyond the nutrition
issue, it intended to contribute to local development and ensure income to family
agricultures. In institutional terms, the 14th Article came from Federal Law 10,696 from
2003 which created the Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar. The
14th article’s range is significant, considering the amount of budgetary transfers from
FNDE and the obligation of all states and municipalities to adhere to it. In this paper were
discussed issues from the implementation of the 14th Article in the State of São Paulo,
concerning to actions of local governments and their potential for reaching the agricultures.
Analysis of public calls from a few municipalities has indicated some inadequacies to
family farmers’ conditions. The number of delivery points is, in some cases, excessive and
the delivery frequency is not settled. Although prevails the demand for fresh products,
industrialized processed products are also required and some of them would hardly be
offered by family farmers from São Paulo. Vegetal products are demanded in every public
call. The demand for eggs dominates the animal products, while meat and milk have a low
demand. Under the view of the family farmers, the 14th article constituted an important
institutional market, potentially able to ensure over 3% of their income. In general, São
Paulo’s family agricultures have enough production for supplying the major agricultural
products used in school meals. However it should not be forgotten that some products,
especially the animal ones, needs to go under transformations in great manufacturing units
before consumption, disabling their provision by the family agriculture for school meals.

Key Words: Family Agriculture, School Feeding, Food Security.

1. INTRODUÇÃO

Em 16 de junho de 2009 foi aprovada a Lei Federal 11.947 que regulamenta o


Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), em vigência no Brasil desde a década
de 1950. Em seu Artigo 14, a Lei estabelece que, dos recursos repassados pelo Fundo
Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do Ministério da Educação para os
estados e municípios executarem as ações de Alimentação Escolar, no mínimo 30% devem
ser destinados à compra de produtos originados da agricultura familiar.
Em termos de políticas direcionadas aos agricultores familiares, bem como à
segurança alimentar, o Artigo 14 da Lei 11.947 (daqui para frente chamado apenas de
Artigo 14) pode ser visto como um dos desdobramentos do Programa de Aquisição de
Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), instituído a partir da aprovação da Lei Federal
10.696, de 2 de Julho de 2003. O PAA procura alcançar dois objetivos, o de garantir renda

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aos agricultores familiares e de contribuir para alimentação de pessoas em insegurança
alimentar.
O PAA, cujos recursos orçamentários são administrados pelo Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome e pelo Ministério do Desenvolvimento
Agrário, tem sido executado ou diretamente pelo Governo Federal, através da Companhia
Nacional de Abastecimento (CONAB), ou via convênios com estados e municípios. Seus
recursos são fixados anualmente no orçamento do Governo Federal, sem que haja o
estabelecimento de porcentuais mínimos de gasto e sem que haja obrigação dos demais
entes federados em aderirem ao Programa.
Nesse sentido, o Artigo 14 é bem mais ambicioso. Estabelece uma porcentagem
mínima de aplicação obrigatória, quanto aos recursos repassados pelo FNDE, a todos os
entes da federação que executam ações de Alimentação Escolar, sejam estados sejam
municípios.
No caso específico do Estado de São Paulo, as ações de Alimentação Escolar são
executadas, na sua quase totalidade, diretamente pelos municípios. É comum que suas
licitações tradicionais envolvam volumes relativamente altos de recursos, dos quais
participam empresas especializadas que fornecem produtos da Alimentação Escolar com
alto nível de processamento industrial, o que facilita sua manipulação pelos servidores
encarregados de servirem as refeições aos alunos. Mesmo a compra de produtos perecíveis,
como frutas e verduras, tende a ser feita diretamente junto a comerciantes atacadistas ou
varejistas e não a agricultores.
Supõe-se que o artigo 14 imponha, para a maioria das administrações municipais,
a necessidade de se procederem adaptações significativas na execução da Programa de
Alimentação Escolar. Entre elas, mudanças no cardápio, com a valorização de produtos in
natura. Também devem ocorrer alterações na logística de distribuição dos produtos e
refeições entre as escolas do município. O processo licitatório tem que ser adaptado,
prevendo-se a fixação prévia de preços, de acordo com critério justificado, e a compra de
pequenos volumes de cada fornecedor da agricultura familiar, cujas vendas não podem
suplantar, individualmente, o valor de R$ 9.000,00 por ano. Ainda mais, fugindo da
tradição de grande parte das prefeituras paulistas, talvez seja necessário que se adotem
programas municipais de estímulo ao desenvolvimento e organização dos agricultores
familiares.
Quanto ao agricultor familiar também se pode levantar uma série de questões para
que se beneficie do Artigo 14. É necessário que sua situação de agricultor familiar esteja
formalizada, com a obtenção da Declaração de Aptidão ao PRONAF (DAP)2. É preciso
que sua produção tenha volume e regularidade adequados às necessidades de consumo da
Alimentação Escolar. Para a participação em licitações, especialmente em municípios mais
distantes, pode ser imprescindível que a mesma não seja individual, mas se dê via
associação ou cooperativa. Em produtos, como o leite, é necessário se estabelecer arranjos
administrativos e produtivos, que possibilitem sua transformação industrial (ainda que seja
apenas a pasteurização, para o exemplo citado), possibilitando seu consumo pelos
escolares.

2
Esta declaração, concedida por órgãos de assistência técnica, no mais das vezes, reconhece que determinado
agricultor se caracteriza como familiar. Normalmente, é utilizada para obtenção de crédito junto ao Programa
de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), daí o seu nome.
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A aplicação do Artigo 14 traz embutida a intenção de que a execução do Programa
de Alimentação Escolar também contribua com o desenvolvimento local. Assim,
recomenda-se que se priorize a compra de agricultores familiares do próprio município.
Não sendo possível, deve-se estabelecer a seguinte ordem de prioridade, compra de
agricultores da região, do território rural, do estado e, finalmente, de outros estados.
Este artigo, que traz resultados parciais de um projeto de pesquisa que se encerrará
em 2012, tem o objetivo de discutir questões da aplicação do Artigo 14 no Estado de São
Paulo, tanto no que se refere à forma de sua execução por prefeituras, quanto no seu
potencial alcance para os agricultores familiares. Especificamente, faz-se:
a) Uma análise qualitativa de chamadas públicas de prefeituras paulistas visando à
compra de produtos da agricultura familiar para a Alimentação Escolar nos anos de 2010 e
2011;
b) Estima-se qual seria o volume de recursos disponível para a compra de produtos
da agricultura familiar considerando-se os repasses do FNDE e supondo-se que a obrigação
dos 30% mínimos se estendesse para os repasses do Governo Estadual e para os gastos
próprios dos orçamentos municipais;
c) Compara-se o volume de recursos disponível com a renda bruta da agricultura
familiar no Estado de São Paulo;
d) Estima-se a disponibilidade de alguns produtos de agricultores familiares
paulistas que podem fazer parte da Alimentação Escolar.
Além dessa introdução, o artigo contém quatro seções. Na segunda, detalhando
pontos já abordados na introdução, discorre-se sobre a fundamentação legal e os objetivos
do Artigo 14, relacionando-os com o desenvolvimento institucional tanto do PNAE, quanto
do PAA, bem como se levantam outros questionamentos sobre a aplicabilidade da nova
legislação. A terceira seção é dedicada à análise qualitativa e quantitativa das chamadas
públicas para compra de produtos da agricultura familiar pelas prefeituras paulistas,
discutindo sua adequação às condições da produção da agricultura familiar. Na quarta
seção, estimam-se os potenciais efeitos da aplicação do Artigo 14 na renda bruta dos
agricultores familiares, qual sua capacidade de produção de alguns produtos alimentícios e
seu nível de formalização. Por fim, há uma seção de considerações finais. Julgou-se mais
adequado que as questões metodológicas fossem tratadas disseminadamente nas seções do
artigo.

2. ALIMENTAÇÃO ESCOLAR COMO FATOR DE DESENVOLVIMENTO DE


AGRICULTORES FAMILIARES: QUESTÕES INSTITUCIONAIS

Sob o ponto de vista do agricultor familiar, o Artigo 14 asseguraria o escoamento


de parte de sua produção por preço supostamente mais favorável que o encontrado em
mercados tradicionais. Nesse sentido, enquanto garantia de renda para o agricultor, o artigo
14 deriva, institucionalmente falando, da Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM)
e, mais especificamente, do Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar
(PAA).
A PGPM foi instituída em 1945 e seu gerenciamento ficava a cargo da Comissão
para Financiamento da Produção (CFP), órgão constituído em 1943 (WEDEKIN, 2005).
Em 1966, o Decreto Lei 79/66 promoveu reformulação profunda na PGPM, mas foi
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somente na década de 1980 que ela ganhou maior relevância, no que se refere à quantidade
da produção agrícola beneficiada.
Seu funcionamento ocorria através de dois instrumentos básicos, a Aquisição do
Governo Federal (AGF) e o Empréstimo do Governo Federal (EGF), ainda hoje vigentes.
A execução da AGF é feita com recursos provenientes do Tesouro Nacional e contribui
para a formação de estoques reguladores públicos. Já o EGF constitui-se em crédito de
comercialização, com recursos provenientes do Sistema Nacional de Crédito Rural
(BACCARIN, 2009).
A década de 1990 marcou importantes alterações na PGPM. Primeiro, o seu
gerenciamento passou a ser feito pela Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB),
órgão resultante da fusão, em 1990, da CFP, da Companhia Brasileira de Armazenamento
e da Companhia Brasileira de Alimentos. Em segundo lugar foram criados novos
instrumentos, como o Prêmio de Escoamento de Produto (PEP), o Contrato de Opção de
Venda e o Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (PEPRO), que convivem com os
tradicionais AGF e EGF e têm como característica básica serem baseados na equalização
de preços, ou na diferença entre o preço de mercado e o Preço Mínimo fixado pelo
Governo Federal.
Apesar da sofisticação de instrumentos e da estrutura administrativa montada, na
verdade, a PGPM não conseguia contemplar as necessidades de garantia de renda,
especialmente dos agricultores familiares. “Em sua maioria, as formas de acesso à PGPM
exigem, por exemplo, contratação de pregoeiro, contrato com armazém cadastrado, volume
de produtos, e outros elementos que de alguma forma dificultam a participação da
agricultura familiar.” (MÜLLER, 2010).
Em 2 de julho de 2003, no âmbito do Programa Fome Zero do Governo Federal, foi
criado o PAA, através da Lei 10.696/03, que foi regulamentada, inicialmente, pelo Decreto
4.772 de 2 de julho de 20033. Ao mesmo tempo, que procura servir como um programa de
preço mínimo ou de garantia de renda ao agricultor familiar, o PAA objetiva contribuir
com a segurança alimentar de segmentos da população brasileira4.
O preço que o PAA garante ao agricultor é chamado de Preço de Referência, sendo
fixado regularmente pelo seu Comitê Gestor5. Com isso se ganha em agilidade, na medida
em que não é necessário seguir os valores vigentes de Preços Mínimos, estabelecidos por
lei e, portanto, de alteração mais demorada. Também se pode contemplar uma gama muito
ampla de produtos, indo além dos que têm Preço Mínimo (32 produtos), e beneficiando
produtos tipicamente regionais.
Desde seu início, o PAA estabelece um limite monetário anual com que cada
agricultor pode ser beneficiado. No começo esse valor era de R$ 2.500,00 e em 2010 o
limite atingia de R$ 8.000,00 por ano.

3
Posteriormente, a regulamentação do PAA foi alterada pelo Decreto 5.783, de 15 de agosto de 2006 e pelo
Decreto 6.959, de 15 de setembro de 2009 (MÜLLER, 2010).
4
O PAA tem como objetivo central “(...) garantir o acesso aos alimentos em quantidade, qualidade e
regularidade necessárias às populações em situação de insegurança alimentar e nutricional e promover
inclusão social no campo por meio do fortalecimento da agricultura familiar.” (MDA, citado por
CHMIELEWSKA et al, 2010: 7).
5
O Comitê Gestor do PAA é composto por um representante do Ministério de Desenvolvimento Social e
Combate à Fome (MDS), que é seu coordenador, além de representantes dos ministérios do Planejamento,
Orçamento e Gestão, da Fazenda, do Desenvolvimento Agrário, da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e
da Educação (MÜLLER, 2010).
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Atualmente, o PAA é executado através de quatro modalidades, quais sejam,
Compra Direta, Formação de Estoque pela Agricultura Familiar, Compra com Doação
Simultânea e Incentivo à Produção e ao Consumo de Leite (Programa do Leite).
A modalidade Formação de Estoque pela Agricultura Familiar funciona
tipicamente como um crédito de comercialização. Permite a associações de agricultores
familiares, ao receberem os recursos do PAA, reterem sua produção em armazéns próprios,
à espera de melhoria do preço de mercado. Seu pagamento pode ser dar com a entrega do
produto, mas é mais comum que ocorra de forma financeira. Esse caso guarda pouca
correspondência com o previsto no artigo 14.
A modalidade Compra Direta é executada diretamente pela CONAB, que a
implementa em situações em que os preços de mercado estão desfavoráveis aos
agricultores. Os produtos adquiridos passam a compor os estoques governamentais,
contribuindo de imediato para recuperação de preços aos agricultores, e podendo ser
usados em situações emergenciais, como a distribuição de cestas de alimentos na
ocorrência de desastres naturais. Nesta modalidade podem ser adquiridos apenas os
seguintes produtos: feijão, arroz, trigo, farinha de mandioca, castanha do Brasil, castanha
de caju, leite em pó integral, milho e farinha de trigo. Pelo fato dessa modalidade visar à
formação de estoques públicos estratégicos, sua proximidade com o previsto no Artigo 14
é pequena.
Por sua vez, as outras duas modalidades do PAA, a Compra com Doação
Simultânea e o Programa do Leite, desenvolvem-se de forma parecida com o previsto no
Artigo 14. Como seu nome deixa evidente, o Programa do Leite destina-se a aquisição
pública e distribuição para segmentos sociais em insegurança alimentar do leite fluido,
tendo sua aplicação restrita à Região do Semi Árido. Já na Compra com Doação
Simultânea pode-se adquirir qualquer produto alimentício, inclusive processados, oriundo
de agricultores familiares também para distribuição com caráter social, não havendo
restrição geográfica para sua aplicação. Ou seja, o Programa do Leite é um caso específico
e localizado da Compra com Doação Simultânea.
Em parte, essas modalidades são executadas diretamente pela CONAB. Mas, é
muito comum que sejam executadas por estados e municípios conveniados com o Governo
Federal. Entre o seu público beneficiário, estão os atendidos por asilos, orfanatos, pessoas
abaixo da linha da pobreza, crianças de creches e escolas públicas que recebem
alimentação escolar.
Ou seja, nessas duas modalidades, o PAA já se apresentava, em boa parte, como
um programa que contribuía para que a produção dos agricultores familiares fizesse parte
do Programa de Alimentação Escolar. Contudo, isso se dava de maneira localizada, apenas
naqueles entes federados conveniados com a União ou atendidos, no caso da Compra
Direta com Doação Simultânea, diretamente pela CONAB.
Há vários estudos regionais dos efeitos do PAA sobre a situação dos agricultores
familiares6. De positivo, costumam destacar o aumento da renda dos agricultores,
contribuindo, inclusive, para a realização de investimentos produtivos que resultam na
melhoria tecnológica de suas atividades agropecuárias. Destacam também problemas,

6
Entre eles citem-se o de Chmielewska et al (2010) para Sergipe, de Gomes & Bastos (2007) para
Pernambuco, de Mattei (2007) para Santa Catarina e de Ortega et al (2007) para Bahia e Minas Gerais.
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como o trâmite burocrático lento, o risco de descontinuidade associado à sua dependência
de convênios, dificuldades no estabelecimento de preços dos produtos e outros.
Quanto à alimentação escolar, ainda no ano de 1955 foi criado o Programa
Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), visando combater deficiências nutricionais
entre os educandos. A Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 208, determina que a
alimentação, junto com outras ações, seja implementada como programa suplementar da
educação pública. A ampliação da Alimentação Escolar aparece como uma das ações
priorizadas pelo Programa Fome Zero do Governo Federal, em 2003.
Atualmente os recursos federais destinados à Alimentação Escolar são geridos pelo
Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação do Ministério da Educação, que os
repassa a estados e municípios, obedecendo um valor per capita único e o número de
alunos matriculados na rede beneficiada. No caso do Estado de São Paulo, o Governo
Estadual e muitos municípios aportam recursos complementares para a Alimentação
Escolar.
De maneira geral, a execução do Programa de Alimentação Escolar se encontra
descentralizado, com suas ações sendo exercidas, na sua grande maioria, em nível
municipal. Este é o caso dos municípios paulistas, que gerenciam a aplicação da maior
parte dos recursos, embora a sua origem seja predominantemente federal, seguida pela
estadual e, por fim, pela municipal.
Ainda que relativamente antigo, o PNAE vinha se desenvolvendo sem uma
institucionalização mais estruturada e organizada. Visando sanar esse problema e dando
maior alcance ao PNAE, em 16 de junho de 2009 foi aprovada a Lei Federal 11.947 que,
entre outros objetivos, dispõe sobre o atendimento da Alimentação Escolar.
Como não poderia deixar de ser, a Lei 11.947 trata, entre outros, de aspectos
relativos à qualidade nutricional da alimentação escolar, direcionando grande parte de sua
elaboração ao consumo alimentar. Contudo, ela vai além e estabelece normatização que
vincula parte do atendimento das necessidades nutricionais à produção de alimentos
originados de agricultores familiares (MÜLLER, 2010).
Isso já se explicita no Artigo 2 da Lei que estabelece como uma das diretrizes do
PNAE o “V – apoio ao desenvolvimento sustentável, com incentivo para a agricultura
familiar e local” (MEC, 2011).
No Artigo 14 da Lei, cuja íntegra se encontra em anexo, se especifica o vínculo
entre alimentação escolar e produção da agricultura familiar. Determina-se que no mínimo
30% dos recursos de alimentação escolar oriundos do FNDE devam ser gastos na compra
de produtos de agricultores familiares. Determina-se também que pode ser dispensado
processo licitatório desde que os preços sejam compatíveis com os do mercado local.
A Lei 11.947 foi regulamentada pelo Decreto 38 do Conselho Deliberativo do
FNDE, em 16 de julho de 2009. Entre as várias normas operacionais estabelecidas, convém
aqui destacar a elaboração da chamada pública, mecanismo de aquisição de produtos que
pode substituir, neste caso específico, o processo licitatório convencional.
A chamada pública deve ser amplamente publicizada e “conter minimamente as
informações necessárias às organizações da agricultura familiar que se interessem em
fornecer para a alimentação escolar, como produto, período e local de entrega, quantidade,
padrão de qualidade.” (MÜLLER, 2010).
O agricultor familiar para participar da chamada pública, seja isoladamente ou via
alguma associação, deve ser reconhecido formalmente enquanto tal, possuindo a
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Declaração de Aptidão ao PRONAF (DAP). O limite anual de venda de produtos para
alimentação escolar encontra-se estabelecido em R$ 9.000,00 por agricultor.
Outro aspecto a ser destacado do Artigo 14 é que ele procura contribuir para o
desenvolvimento local do município que executa as ações do PNAE, estabelecendo como
prioritário que se compre os produtos de agricultores familiares de sua área geográfica.
Somente na impossibilidade disso ocorrer é que a compras deveriam ser estendidas, em
ordem de prioridade, para a região, para o território rural, para o estado e para outros
estados.
Na prática, o Artigo 14 passou a vigorar no ano de 2010. Pelo menos desde 2004,
discutia-se entre integrantes do Governo Federal a elaboração de legislação desse tipo,
mas, de fato, ela só foi concretizada em 2009. Entre as explicações para esse prazo
relativamente longo de elaboração, está a necessidade de se concatenar áreas diferentes do
poder público, tanto no que se refere à sua missão administrativa quanto às suas fontes
orçamentárias.
Mesmo por que a aplicação do Artigo 14 é muito recente e as avaliações são
preliminares, convém levantar, com evidente caráter especulativo e exploratório, mais
alguns questionamentos sobre sua implementação pelos municípios paulistas.
Esses municípios têm tradição de executar as ações de Alimentação Escolar, que já
se encontram municipalizadas, em sua grande maioria, há mais de duas décadas. Essa
execução, contudo, vem sendo exercida nos moldes tradicionais, comprando-se produtos
com alto nível de processamento e fornecidos por empresas especializadas ou, no caso de
frutas e verduras, adquirindo-os, muitas vezes, no comércio atacadista. Alguns municípios,
ainda que em número reduzido, chegam a licitar não a compra de produtos, mas sim o
serviço de Alimentação Escolar, com as empresas vencedoras processando e fornecendo
aos escolares a alimentação já pronta para o consumo.
A implantação do Artigo 14 exige mudanças, pelo menos em parte, do processo
licitatório municipal, com a adoção de um novo instrumento, a Chamada Pública. Mas,
talvez, a maior dificuldade seja outra, a de concatenar diferentes áreas de ação pública,
neste caso, ensino e nutrição, de um lado, e desenvolvimento rural, de outro.
Grande parte dos municípios paulistas não conta com estrutura administrativa
própria dedicada ao desenvolvimento rural. Ações dessa área são executadas geralmente
por órgãos estaduais. Mesmo que haja produção da agricultura familiar no município é
necessário que se construam arranjos administrativos para que a mesma seja incorporada
sistematicamente no cardápio elaborado para a Alimentação Escolar. Nesse sentido, os
poucos municípios paulistas que já tinham convênio com o Governo Federal e executavam
o PAA, modalidade Compra Direta com Doação Simultânea, em suas áreas, a princípio,
teriam mais facilidades para implantação do Artigo 14.
Outro ponto diz respeito à priorização da área de compra. Neste caso, há certa
imprecisão conceitual na Resolução 38 não ficando clara a delimitação de região ou
mesmo território rural. Contudo, julga-se que o problema maior seja de outra natureza.
Alguns municípios, especialmente os de região metropolitana, como São Paulo e
Campinas, que concentram grande parte da população escolar e, por conseqüência, os
repasses do FNDE para Alimentação Escolar, não têm área rural ou ela é muito exígua.
Deverão, portanto, buscar fornecedores de produtos da agricultura familiar em áreas fora
de seus limites geográficos. O critério para a escolha desses fornecedores seguirá a ordem
de priorização territorial do Artigo 14, ou simplesmente será levado em conta a existência
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prévia de organização de agricultores familiares com disponibilidade de produtos, mesmo
que sejam originados de outros estados?
Mesmo em municípios com área rural significativa e com agricultores familiares,
pode ser necessário que haja ações prévias, por parte da prefeitura local, de esclarecimento,
mobilização, organização, documentação e de desenvolvimento rural para os mesmos
possam ser beneficiados pelo Artigo 14. Será que isso vai ser feito, ou simplesmente, como
se sublimando os agricultores familiares locais, se procurarão fornecedores já preparados
para o atendimento imediato da lei, mesmo que seja de fora dos limites municipais?
Evidentemente há outro lado na questão, que é o interesse do agricultor familiar e
de suas associações em participar da implantação do Artigo 14. Foi criado um mercado
institucional importante para escoamento de parte de sua produção, mesmo que o limite
individual de compra, de R$ 9.000,00 por ano, possa parecer baixo para as condições de
agricultores familiares do Estado de São Paulo. É de se esperar, a conferir em estudos
posteriores, que esse seja um estímulo que leve o agricultores familiares a se mobilizarem
e reivindicarem junto ao poder público local a implantação do Artigo 14 em sua plenitude,
inclusive com a incorporação do objetivo de desenvolvimento local.

3. CHAMADAS PÚBLICAS E PRODUÇÃO FAMILIAR EM SÃO PAULO: GRAU


DE COMPATIBILIDADE

Nesta etapa do trabalho, foi realizado um estudo avaliativo das chamadas públicas
vinculadas ao cumprimento do Artigo 14. Para tanto, em uma amostra um pouco superior a
5% do total de 645 municípios do estado de São Paulo, foram analisados 41 proclames.
Teve ainda como recorte temporal, chamadas públicas anunciadas nos anos de 2010 e
2011, que é concomitante ao da realização da pesquisa.
A avaliação do material combinou procedimentos de pesquisa qualitativa e
posteriormente, quantitativa, o que permitiu, de forma exploratória, a construção de uma
matriz de indicadores de processo, ou seja, de avaliação de atendimento aos objetivos da
Lei Federal 11.947 e, especialmente do Artigo 14, sendo: i) operacionalização da entrega
dos produtos, abrangendo número de unidades de recebimento (UR) e periodicidade de
entrega; ii) o grau de processamento dos produtos demandados; iii) a origem dos alimentos
demandados, se animal ou vegetal e; iv) sendo de origem animal, qual a participação dos
diferentes produtos demandados.
Foram compiladas dos editais, a princípio, as informações acerca dos locais de
entrega por parte dos produtores e recebimento pelas unidades demandantes (escolas,
creches, projetos sociais, entre outros). Consideraram-se quatro situações ou grupos de
municípios. Um deles chamado de muito descentralizado, com mais de 50 UR. No
descentralizado, estava prevista a entrega entre 11 e 50 UR e no pouco descentralizado,
entre 2 e 9 UR. Finalmente, no centralizado, previa-se uma única unidade de entrega, como
o almoxarifado da prefeitura ou uma cozinha piloto.
Complementar e paralelamente a análise inicial, observou-se também a
periodicidade de entrega nas UR. Esse indicador foi dividido nas seguintes categorias: i)
entregas de 2 a 5 vezes por semana; ii) entregas semanais; iii) entregas de 1 a 2 vezes por
mês; iv) com periodicidade em aberto; v) sem informação.

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Dada a tabulação dos dados iniciais, partiu-se para a análise específica dos
alimentos demandados, verificando-se a princípio o grau de processamento dos mesmos.
Neste caso, consideraram-se três grupos: i) produtos in natura, que não passam por
nenhum grau de processamento; ii) médio grau de processamento (MGP) para os alimentos
que podem ser transformados e ou acondicionados e higienizados pelo próprio agricultor,
considerando as especificações legais em vigor e; iii) alto grau de processamento (AGP)
para os produtos que exigem necessariamente a transformação industrial fora do seu
espaço produtivo ou de organização do agricultor familiar.
Por fim, após a constatação do grau de processamento, verificou-se a origem dos
produtos, se vegetal ou animal. Nesta segunda opção, avaliou-se ainda a participação de
cada tipo de produto, ou seja, ovos, carne bovina, carne suína, carne de frango, peixe, leite
in natura e leite em pó, derivados lácteos e mel.
É preciso deixar claro, em relação à tabulação dos dados, que, na maior parte das
análises, a indicação de um fator não exclui a presença de outro. Por exemplo, em um
mesmo proclame, os municípios podem demandar entrega semanal para alguns produtos e
mensal para outros, bem como produtos in natura e produtos com médio ou alto grau de
processamento. Sendo assim, os valores totais, podem não ser os mesmos que o número de
editais analisados, conforme poderá ser observado nas Tabelas 2, 3 e 4. Neste caso, os
valores porcentuais foram calculados em relação ao total de editais analisados (41) e não
do número de observações feitas.
Vale salientar também, que na avaliação dos editais o principal foco de
preocupação está na sua adequação às condições de produção da agricultura familiar. Ou
seja, se permitem participação efetiva e continuada desse ator social, possibilitando-lhe
melhoria de renda, ao mesmo tempo, que se reforça o desenvolvimento local.
Passada a exposição acerca da metodologia utilizada para a coleta e análise dos
dados, apresenta-se os resultados parciais e a apreciação dos elementos em questão. Os
dados demonstram uma diversidade de situações que merecem ser mais bem exploradas e
aprofundadas, posteriormente. De qualquer forma, entende-se como necessário a
apresentação imediata dos resultados já obtidos no intuito de promover o debate, corrigir
eventuais erros e acatar as sugestões pertinentes.
No que tange ao primeiro indicador de avaliação, ou seja, a operacionalização da
entrega dos produtos, abrangendo número de unidades de recebimento (UR), seus
resultados aparecem na Tabela 1. Em 31,71% dos editais analisados, as entregas previstas
são muito descentralizadas ou descentralizadas. Dos editais que apresentaram até 50 UR, a
média de locais demandantes dos alimentos, ou seja, que os produtores devem visitar, é 27
e no caso dos editais que apresentaram mais que 50 UR, a média chega a 191 UR.

Tabela 1: Unidades de recebimento dos produtos da agricultura familiar para a


Alimentação Escolar
Categorias Editais (%) UR (média)
Muito descentralizado (+ 50 UR) 8 19,51 191
Descentralizado (de 10 a 50 UR) 5 12,20 27
Pouco Descentralizado (2 a 9 UR) 5 12,20 5
Centralizado 22 53,66 1
Não consta 1 2,44 ---
Fonte: Dados da pesquisa.
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Na análise dos editais com muitos pontos de entrega percebeu-se a existência de
diversos roteiros com número menor de entrega por agricultor. De qualquer forma, o
número de pontos de entrega aparenta ser excessivo, por exemplo, com roteiros prevendo a
entrega em 60 UR.
É importante considerar que o Artigo 14 prevê que os recursos da Alimentação
Escolar sejam gastos apenas com a compra de gêneros alimentícios provenientes da
agricultura familiar, não se permitindo o pagamento de fretes e outros serviços
eventualmente vinculados à sua distribuição. Também se deve levar em conta que o
agricultor familiar pode vender, no máximo, R$ 9.000,00 por ano no âmbito do Artigo 14.
Assim, a obrigação de distribuir os produtos por um número muito alto de pontos
de entrega aparece como um obstáculo considerável à participação de agricultores
familiares, especialmente daqueles que atuam de forma individual e não associada. Muito
dificilmente está atendendo-se, nesse caso, o proclamado no caput do Artigo 14, ou seja,
“(...) priorizando-se os assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais
indígenas e as comunidades quilombolas”.
Por outro lado, vale salientar que na maioria dos casos, como pode ser visto na
Tabela 1, os locais de entrega são centralizados ou pouco descentralizados, facilitando a
participação dos agricultores familiares. Em um caso, por exemplo, o número de UR chega
a cinco, sendo que em uma delas se concentra todo o alimento demandado pelas escolas
rurais e bairros muito distantes do centro da cidade. Desta forma, o produtor ou entidade
organizativa, cumpre sua cota de entrega, planeja a logística de transporte e atende o que se
supõe esperado pela gestão municipal, o desenvolvimento rural com equidade.

6.1- Os gêneros alimentícios das Escolas Rurais E. M. Rural Bairro da Represa,


E. M. Rural Bairro do Guaraiúva, E. M. Rural Bairro dos Cardosos. E. M. Rural
Antonia Moraes de Souza, E. M. Rural Bairro da Ponta Alta, E. M. Rural Bairro
das Anhumas, E, M. Rural Bairro do Piúca e Creche deverão ser entregues na
sala de Divisão da Merenda Escolar, na Prefeitura, situada na Rua Geraldino
de Oliveira, 236, Centro.
6.2- Os gêneros alimentícios das Escolas E. M. E. F. Sargento Sebastião José
Monteiro, situada a Rua Fioravante Restivo 171, E. E. S. G. Adélio Ferraz de
Castro, situada a Rua Fioravante Restivo 165, E. M. E. I. Aparecida de Lourdes
Borelli, situada a Rua Fioravante Restivo 185 e E. M. Professora Josephina
Parra Negretti, situada a Rua Euclides Fredering, 70, deverão ser entregeus nos
endereços toda terça feira de cada mês ficando a combinar nova data de entrega
quando feriado ou ponto facultativo.

Ainda ao se tratar da distribuição dos produtos, mais especificamente da sua


periodicidade de entrega, observa-se, na Tabela 2, que 56,10% das chamadas prevê-se a
entrega semanal dos produtos. Isso aparenta ser adequado às condições de agricultores que
produzem produtos in natura, como frutas, verduras e legumes. No entanto, o fato de em
31,71% dos editais não constar essa periodicidade é preocupante, uma vez que, a não ser
que já exista uma articulação muito grande entre os gestores locais e os agricultores, a
informação de tal elemento seria condição sine qua non para o entendimento e
planejamento do agricultor, a fim de, mais uma vez, promover seu interesse a tal chamada.

11
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É sabido que a logística de distribuição e comercialização da produção
agropecuária não é simples, requerendo procedimentos com alto nível de organização, que
podem influenciar decisivamente no sucesso ou fracasso de uma atividade (Guilhoto et al,
2006). Quanto mais previsível e centralizada a entrega dos produtos dos agricultores
familiares, maiores seriam as chances de se propiciar efeitos benéficos e continuados em
sua renda e, por conseguinte, no desenvolvimento local.
Tabela 2: Periodicidade de entrega dos produtos da agricultura familiar par a Alimentação
Escolar
Periodicidade Número de editais (%)
2 a 5 vezes por semana 6 14,63
Semanal 23 56,10
1 a 2 vezes por mês 2 4,88
Em aberto 3 7,32
Não consta 13 31,71
Fonte: Dados da pesquisa.
Isso dificilmente ocorreria no seguinte caso constatado, embora o reconheça como
extremo. Ao se associarem os roteiros e a periodicidade de entrega, em um caso verificou-
se que estavam previstas 764 entregas por mês, posto que deveriam ser atendidas, todas as
semanas, 191 UR.
Outra importante discussão se estabelece em torno do grau de processamento
industrial do produto de origem agropecuária. Segundo Guilhoto et al (2007), os produtos
de caráter familiar têm menor articulação com o setor industrial que os produtos
provenientes da agricultura patronal. Sendo assim, tendo em vista o atendimento ao Artigo
14, espera-se uma demanda maior, por parte dos municípios, de produtos in natura e com
baixo grau de processamento, do que de produtos com médio e alto grau de processamento.
Ao analisar a Tabela 3, observa-se que 90,24% das chamadas atendem tal objetivo,
ou seja, na sua quase totalidade demandam-se produtos in natura. Em 43,90% das
chamadas são demandados produtos com médio grau de processamento e em 24,39%
delas, produtos com alto grau de processamento.

Tabela 3: Grau de processamento dos produtos da agricultura familiar para a Alimentação


Escolar
Grau de processamento Número de editais (%)
In natura 37 90,24
Médio grau de processamento 18 43,90
Alto grau de processamento 10 24,39
Fonte: Dados da pesquisa.

Chama a atenção em alguns editais a presença de produtos mais sofisticados, como


achocolatado em pó, margarina, salsicha tipo“Hot Dog”, hambúrguer de carne bovina,
arroz parbolizado – Longo Fino – Tipo 1, macarrão curto de sêmola para macarronada
(com ou sem ovos) tipo parafuso, óleo de soja refinado tipo 1, preparado ou concentrado
líquido para refresco sabor uva.
A se conferir com análises mais específicas, têm-se a impressão inicial que
dificilmente agricultores familiares do Estado de São Paulo estariam aptos a fornecer
vários desses produtos. Se isso for correto, os gestores municipais, nesses casos, estão
12
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apostando que é possível obter esses produtos de agricultores de outros estados ou, o que
seria indefensável, no fracasso da chamada pública, justificando a não execução do Artigo
14 pela falta de agricultores habilitados.
Finalmente, ao se analisar a origem dos alimentos, percebeu-se que todas as
chamadas públicas demandaram produtos de origem vegetal e pouco mais da metade
(58,54%) também demandaram produtos de origem animal. Neste caso, como pode ser
visto na Tabela 4, os dois produtos mais demandados foram o ovo, presente em 48,78%
das chamadas e o mel, em 14,63%. Não à toa, esses produtos são passíveis de
transformação ou acondicionamento e higienização pelo próprio agricultor ou núcleo
organizativo, considerando as especificações legais em vigor.
Os demais produtos de origem animal tiveram pequena participação nas chamadas
públicas. Inclusive, a carne de frango que, como se verá na seção seguinte tem grande
potencial para ser ofertado pelos agricultores familiares para a Alimentação Escolar em
São Paulo. O problema aqui parece residir na necessidade de transformação industrial
prévia desses produtos, normalmente realizadas em unidades de grande porte.

Tabela 4: Tipo de produto de origem animal demandados dos agricultores familiares para
Alimentação Escolar
Produto Número de editais (%)
Ovo 20 48,78
Carne bovina 2 4,88
Carne suína 0 0,00
Carde de frango 2 4,88
Peixe 1 2,44
Leite in natura 3 7,32
Leite em pó 4 9,76
Derivados do leite 4 9,76
Mel 6 14,63
Fonte: Dados da pesquisa.

Em pelo menos uma chamada pública percebeu-se o esforço da prefeitura em


contemplar agricultores familiares como fornecedores de produtos de origem animal.
Repare-se nos itens do seu edital selecionados e apresentados abaixo.

(...)
8. Frango inteiro, limpo, acondicionado em embalagens individualizadas,
apropriado para o transporte, sendo que o mesmo deve preservar as
características do alimento e a higiene, de acordo com as portarias do MAPA e
vigilância sanitária. (...)
10. Leite in natura, padronizado, acondicionado em embalagem apropriada,
contendo no máximo 50 litros, o qual deverá manter a integridade do produto,
sem resíduos ou corpos estranhos, isento de sujidades, parasitas e larvas,
atendendo as especificações da legislação vigente. (...)
24. Peixe fresco criado em cativeiro, inteiro, limpo, acondicionado em
embalagens individualizadas, apropriado para o transporte, sendo que o mesmo
deve preservar as características do alimento e a higiene, de acordo com as
portarias do MAPA e vigilância sanitária. (...)
13
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25. Carne bovina, em peças inteiras, acondicionada apropriadamente para o
transporte, sendo que o mesmo deve preservaras características do produto e
sua higiene, de acordo com as portarias do MAPA, vigilância sanitária e SISP.
(...)
31. Ovos brancos/vermelhos, de tamanho e coloração uniforme, livre de
enfermidades e materiais terrosos, sem danos físicos e mecânicos oriundos do
manuseio e transporte, entregue em caixa de monobloco plástico, com
aproximadamente 20 kg em cada caixa. (...)

Neste exemplo, destaca-se que o município, ao mesmo tempo em que exige a


qualidade do produto, de acordo com os padrões sanitários da legislação vigente, demanda
grau de processamento baixo, o que pode possibilitar aos agricultores familiares, mesmo os
assentados de reforma agrária, integrantes de comunidades indígenas e quilombolas,
almejar as condições sanitárias condizentes com as possibilidades de entrega.

4. CONTRIBUIÇÃO ECONÔMICA POTENCIAL DO ARTIGO 14 PARA A


AGRICULTURA FAMILIAR EM SÃO PAULO: ANÁLISE PRELIMINAR

A primeira análise deste item diz respeito à relação entre os recursos financeiros
previstos no Artigo 14 e o Valor da Produção da agricultura familiar. Para obtenção deste
último, a partir dos dados do Censo Agropecuário da Agricultura Familiar de 2006,
somaram-se os valores obtidos com produtos vegetais, produtos animais e seus derivados e
produtos da agroindústria. O Valor da Produção assim obtido alcançou R$ 3.382.013.997,
sendo atualizado para 20107, resultando no valor de R$ 5.159.839.838.
Na Tabela 5 evidencia-se que, dos repasses do FNDE para os municípios e o
Governo do Estado de São Paulo para serem utilizados em Alimentação Escolar em 2010,
aproximadamente R$ 163 milhões deveriam ter sido gastos comprando produtos oriundos
da agricultura familiar. Supondo que algo semelhante fosse adotado para o gasto próprio
do Governo Estadual com Alimentação Escolar, chamado de Suprimento Escolar, mais
cerca de R$ 81 milhões poderiam ser destinados à agricultura familiar. Quanto aos gastos
próprios municipais com alimentação escolar, supôs-se8 que eles equivalem, em média, a
30% do repasse do FNDE. Aplicando os 30% sob o valor assim obtido, haveria um
potencial de se gastar mais aproximadamente R$ 49 milhões com produtos da agricultura
familiar.

Tabela 5: Estimativa dos recursos destinados à compra de produtos da agricultura familiar


decorrente do Artigo 14 e de sua extensão ao repasse estadual e gastos municipais com
Alimentação Escolar, dados de 2010
Recursos para alimentação escolar Total (R$) 30% (R$)
Repasse Federal 542.073.022 162.621.906

7
Essa atualização foi feita pelo Índice de Preços Recebidos médio pelos agricultores paulistas, calculado pela
Fundação Getúlio Vargas (FGV, 2011). Consideraram-se os valores de setembro de 2006 e setembro de
2010.
8
Essa suposição é bastante precária e foi feita baseado em informações de questionários respondidos por
cerca de 5% dos municípios paulistas.
14
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Suprimento Escolar (Estadual) 270.971.679 81.291.504
Gastos Municipais 162.621.906 48.786.572
Repasse Federal + Estadual 813.044.701 243.913.410
Repasse Federal + Estadual + Municipal 975.666.607 292.699.982
Fonte: FNDE, 2010; Portal da Transparência, 2010; SEDUC- SP, 2011.

O Gráfico 1 indica que, gastando-se apenas o previsto no Artigo 14, as compras


de seus produtos representariam 3,15% do Valor de Produção da agricultura familiar.
Estendendo a obrigação do Artigo 14 também para os gastos estaduais, esse porcentual se
elevaria para 4,73%. Se for considerada a mesma obrigação para os gastos municipais,
atingir-se-ia o porcentual de 5,67%. Ou seja, já se criou um potencial mercado institucional
significativo para os produtos da agricultura familiar, que poderia ser ainda maior se no
Estado e nos municípios fossem adotadas legislações semelhantes ao Artigo 14.

Fonte: FNDE, 2010; Secretaria Estadual da Educação, 2010 e IBGE, 2006.


Gráfico 1: Relação porcentual entre gastos com produtos da agricultura familiar para
Alimentação Escolar e seu Valor da Produção, considerando o Artigo 14 e sua extensão
para os gastos estadual e municipais.

Uma segunda análise desta seção diz respeito ao potencial de se obter alguns
produtos alimentícios da agricultura familiar no Estado de São Paulo. Isso é feito com o
auxílio da Tabela 6. Uma observação inicial é que sua disponibilidade per capita, muito
provavelmente, está subestimada. Enquanto tomou-se a população estudantil atendida pela
Alimentação Escolar de 2010, que foi de 16.433.728 (INEP, 2010), a produção da
agricultura familiar considerada foi a de 2006. É de supor que em 2010 essa produção
tenha sido maior.

15
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Convém esclarecer como foram obtidas as quantidades produzidas da Tabela 6. No
caso do leite e dos ovos sua produção foi obtida diretamente do Censo Agropecuário da
Agricultura Familiar de 2006. Já a produção das carnes foi estimada a partir do número de
animais registrado no Censo. Para essa conversão, usou-se uma série de coeficientes
técnicos, após consultas a docentes das áreas de produção e tecnologia zootécnica da
Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da UNESP, campus de Jaboticabal e de
publicações especializadas (FELÍCIO, 1998; 2000).
Tabela 6: Produção de alguns produtos pelos agricultores familiares do Estado de São
Paulo, disponibilidade para a população estudantil paulista e comparação com o consumo
per capita no Brasil.
Quantidade 3 - Disponib. per 4 -Consumo per
Produto 3/4 (%)
produzida* Capita Capita Brasil**
Arroz 12.182.310 0,7 26,5 2,64
Feijão 33.755.410 2,1 9,1 23,08
Mandioca 243.249.502 14,8 7,1 208,45
Carne bovina 76.849.633 4,7 35,6 13,20
Leite 507.321.483 30,9 137,1 22,54
Carne frango 2.859.814.462 174,0 38,6 450,78
Ovos 61.961.667 3,8 9,3 40,86
Carne suína 18.139.861 1,1 13,4 8,21
Fonte: Adaptado de IBGE (2006; 2011); INEP (2010); ANUALPEC (2010); FELÌCIO (1998; 2000),
BACCARIN (2010).
* A produção está registrada em Kg, exceto para o leite, em litros, e ovos, em dúzia.
** Valores de 2009, exceto leite de 2005.

No caso dos bovinos considerou-se uma taxa de abate de 17,7%, um peso médio de
450 Kg por animal abatido, um rendimento de carcaça de 54% e um aproveitamento de
carcaça comercializada de 70%. Registre-se que o rebanho bovino apresentado pelo Censo
2006 da Agricultura Familiar foi de 2.552.491 cabeças.
O rebanho de aves do Censo 2006 foi de 102.764.199. Considerou-se uma taxa de
abate de 281,1%, um peso médio por animal abatido de 2,4 Kg, um rendimento de carcaça
de 75% e um aproveitamento de carcaça comercializada de 55%, chegando-se à produção
de carne de frango da Tabela 6.
Para os suínos foram considerados os seguintes coeficientes: taxa de abate de
80,9%, peso médio do animal abatido de 100 Kg, rendimento de carcaça de 80% e
aproveitamento de carcaça comercializada de 62%. O Censo 2006 aponta que existiam
452.068 suínos nos estabelecimentos agropecuários familiares em São Paulo.
As quantidades produzidas dos três produtos vegetais foram obtidas diretamente do
Censo de 2006.
Ao se comparar a disponibilidade por estudante com o consumo per capita
brasileiro percebe-se que a produção da agricultura familiar paulista poderia garantir bom
atendimento para a Alimentação Escolar, para a maioria dos produtos. A grande
deficiência estaria no fornecimento do arroz e deficiências intermediárias aparecem nas
carnes bovinas e suínas.
Registre-se que as estimativas aqui apresentadas são bastante preliminares e
deveriam ser aperfeiçoadas com informações dos cardápios praticados na Alimentação
Escolar, que permitisse calcular a quantidade física consumida dos produtos considerados.
16
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Pretende-se fazer algo desse tipo na sequência da pesquisa. Também outros produtos
deveriam ser incorporados na análise, como frutas (laranja, especialmente) e verduras,
embora sua produção pela agricultura familiar não esteja disponível no Censo
Agropecuário.
Embora possa-se entender que, de maneira geral, há disponibilidade suficiente de
produtos alimentícios em estabelecimentos familiares em São Paulo, não se pode esquecer
as exigências sanitárias para sua comercialização, especialmente os de origem animal.
Segundo o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem
Animal, é proibida a entrada de animais em qualquer dependência do estabelecimento, sem
prévio conhecimento da Inspeção Federal das condições de saúde do lote e dos
documentos de procedência dos animais. Para abate, há exigências de condições
adequadas, como local, temperatura, água e equipamentos especializados, além de mão de
obra qualificada para o serviço. Após abate, todos os órgãos devem ser inspecionados, e a
carne passar por uma série de testes químicos e físicos para que possa ser processada
adequadamente e posteriormente destinada à comercialização. É necessário, portanto, que
qualquer estabelecimento, de produção ou de abate, seja certificado.
Uma relação entre os segmentos da produção, industrialização e comercialização é
necessária para que se consiga uma produção de maior quantidade e, acima de tudo, de
qualidade, gerando um retorno econômico. Para tanto, seria preciso maior organização
entre agricultores, relação direta com indústrias responsáveis pelo processamento e
mercado para a venda dos produtos de origem animal.
A produção de leite e a de ovos são mais características de estabelecimentos
familiares e poderiam, portanto, representar atividades de peso em seu interior, não fosse
as legislações e certificações pelas quais esses produtos também tem que passar para serem
comercializados. Para o leite, por exemplo, é necessário que haja certificação do rebanho,
processamento e armazenagem adequados, fatores que muitas vezes inviabilizam a
produção para venda, ou para consumo na Alimentação Escolar. Mais uma vez, deve ser
ressaltada a importância da organização entre os agricultores, que juntos poderiam
fortificar a produção e conseguir atingir o nível técnico para que o leite pudesse atender às
exigências para comercialização.
No caso dos ovos, é necessário que a granja atenda aos padrões sanitários e os ovos
passem, antes da comercialização, por classificação, embalagem e armazenagem
adequados, mas a industrialização poderia ser dispensada. Como visto na seção anterior, o
ovo é o produto animal mais frequente (bem acima dos demais) nas chamadas públicas
relativas ao Artigo 14.
Uma última informação dessa seção diz respeito à organização e à formalização dos
agricultores familiares em São Paulo. Não se têm disponíveis informações sobre o número
de associações e de cooperativas dos agricultores paulistas. Em relação à Declaração de
Aptidão ao PRONAF, constatou-se que em 2011, 97.717 agricultores familiares
apresentaram DAP ativa em São Paulo, número expressivo em relação aos 151.015
estabelecimentos de agricultura familiar constatado no Censo de 2006 (IBGE, 2009, MDA,
2011).
Mesmo assim, várias prefeituras têm afirmado que uma das dificuldades dos
agricultores familiares participarem do PNAE é a falta da DAP. Problemas recorrentes à
emissão da DAP também foram apontados como um entrave para a participação no PAA
na região de Toledo, PR (RAUPP et al, 2010).
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5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao se abordar à aplicação do Artigo 14 por um grupo de prefeituras paulistas


percebeu-se algumas inadequações pelo menos em parcela significativa das chamadas
públicas. Em alguns casos, exige-se uma logística para entrega, com muitas unidades de
recepção e sem freqüência definida, dificultando a participação dos agricultores familiares.
Produtos que exigem transformação industrial relativamente sofisticada aparecem nessas
chamadas e dificilmente serão ofertados pelos agricultores familiares do Estado de São
Paulo. Os produtos vegetais estão presentes em todas as chamadas e os animais em mais da
metade delas. Contudo, neste caso, a demanda que se destaca é pelo ovo de galinha, com
pouca freqüência para as carnes bovina, de frango e suína e para o leite.
O Artigo 14 possibilitou a constituição de um mercado institucional significativo
para os agricultores familiares no Estado de São Paulo. O gasto mínimo de 30% dos
repasses para Alimentação Escolar do FNDE, se executados a contendo, podem ser
equivalentes a mais de 3% da renda desses agricultores.
Ainda que preliminarmente, pode-se observar que a produção da agricultura
familiar paulista dos produtos alimentícios mais importantes, de maneira geral, é suficiente
para atender às necessidades da Alimentação Escolar.
Contudo, há muito que se estudar sobre a real efetividade e alcance econômico e
social do Artigo 14. Deve-se aprofundar a análise de como as prefeituras municipais vem
se moldando às exigências do Artigo 14, no que se refere ao cardápio, ao processo
licitatório e, eventualmente, em ações de desenvolvimento de seus agricultores familiares.
Do lado dos agricultores, deve-se abordar mais detidamente seu nível de
organização, a forma como participa das chamadas públicas, se individual ou
coletivamente, se consegue desenvolver arranjos administrativos e produtivos que
permitam aumentar o grau de processamento de seus produtos, entre outras questões.

6. BIBLIOGRAFIA

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Anexo 1 – Artigo 14 da Lei 11.947/2009

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Art. 14. Do total dos recursos financeiros repassados pelo FNDE, no âmbito do PNAE, no mínimo
30% (trinta por cento) deverão ser utilizados na aquisição de gêneros alimentícios diretamente da
agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, priorizando-se os
assentamentos da reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e as comunidades
quilombolas.
1º A aquisição de que trata este artigo poderá ser realizada dispensando-se o procedimento
licitatório, desde que os preços sejam compatíveis com os vigentes no mercado local, observando-
se os princípios inscritos no art. 37 da Constituição Federal, e os alimentos atendam às exigências
do controle de qualidade estabelecidas pelas normas que regulamentam a matéria.
2º. A observância do porcentual previsto no caput será disciplina pelo FNDE e poderá Sr
dispensada quando presente uma das seguintes circunstâncias:
I – impossibilidade de emissão do documento fiscal correspondente;
II – inviabilidade de fornecimento regular e constante dos gêneros alimentícios;
III – condições higiênico-sanitárias inadequadas.

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