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ALGUMAS CULTURAS PRÉ-HISTÓRICAS PARANENSES: UMA INTRODUÇÃO ÀS

TRADIÇÕES UMBU, HUMAITÁ, ITARARÉ, ARTE RUPESTRE DE PLANALTO E


GEOMÉTRICA

Vanessa Cristina Chucailo – (FAFIUV)


Orientador: Dto. Jefferson Willian Gohl

RESUMO: O presente texto se propõe a relatar de forma sucinta, algumas diferentes tradições pré-
históricas identificadas a partir do estudo de vestígios arqueológicos, presentes na região sul do
Brasil, com maior destaque no estado do Paraná. Abordarei as tradições Umbu e Humaitá
(caçadores-coletores), tradições de Planalto e Geométrica (arte rupestre) e Itararé (agricultores e
ceramistas). O trabalho arqueológico se faz essencialmente necessário para o estudo dessas
sociedades primitivas e dos vestígios deixados, permitindo que se compreenda como elas viviam,
pensavam e agiam. E através do estudo desses materiais, gerar uma consciência histórica no
sentido de preservar essas evidências como patrimônio cultural e histórico que representam a
humanidade e sua trajetória no tempo.

PALAVRAS-CHAVE: arqueologia, vestígios, tradições pré-históricas paranaenses.

INTRODUÇÃO

Para muitos a história do Brasil se inicia com a chegada de Pedro Álvares


Cabral em 22 de abril de 1500. Só se estudava a história do Brasil a partir dessa
data. Hoje sabemos que muito antes de 1500, o Brasil já era habitado e, portanto
possuía uma história, culturas e sociedades mesmo que primitivas.

Os últimos 500 anos ocupam quase todas as páginas de nossos livros


didáticos, relegando os milhares de anos da Pré-História a uma pequena
introdução, porque nossas origens remotas são, ainda, pouco
consideradas. Embora mais de 40 milhões de brasileiros tenham
antepassados indígenas, essa herança é mal conhecida e mesmo
rejeitada, por ser considerada parte de uma cultura inferior. (FUNARI,
NOELLI, 2002, p. 27)

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O estudo da Pré-história é tão necessário quanto qualquer outro estudo.
Sabe-se que nos períodos chamados pré-históricos existiam pessoas vivendo em
bandos ou agrupamentos tribais e que elas deixaram conscientemente ou
inconscientemente vestígios de sua cultura.
Estudos de grupos pré-históricos baseiam-se no estudo desses vestígios. É
através do trabalho arqueológico que tais evidências materiais podem ser
encontradas, conservadas, compreendidas e estudadas de maneira adequada por
várias áreas do conhecimento. A Arqueologia é, portanto, uma ciência que estuda
os vestígios das antigas sociedades, por meio de escavações, técnicas e métodos.

Segundo um ponto de vista tradicional, o objeto de estudo da


arqueologia seria apenas as “coisas”, particularmente os objetos criados
pelo trabalho humano (os “artefatos”), que constituíram os “fatos”
arqueológicos reconstituíveis pelo trabalho de escavação e restauração
por parte do arqueólogo. Essa concepção encontra-se ainda muito
difundida entre aqueles que consideram ser a tarefa do arqueólogo
simplesmente fazer buracos no solo e recuperar objetos antigos.
(FUNARI, 2003, p. 13)

Isso nos remete ao fato de que em algumas situações, a Arqueologia é vista


como uma ciência secundária para historiadores, antropólogos, sociólogos. No
entanto, para um “pré-historiador” que estuda sociedades em passados remotos
nos seus mais diversos aspectos: alimentação, migrações, padrões de ocupação do
território, rituais, etc., a Arqueologia é praticamente o único meio para que esse
“pré-historiador” consiga sua documentação, através dos vestígios materiais,
deixados por esses longínquos predecessores, e que são encontrados nos sítios
arqueológicos. (PROUS, 1992, p. 25).

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A Arqueologia surge num momento imperialista durante o século XIX, como
um subproduto da expansão das potencias colonizadoras européias e norte
americana, que buscavam enriquecer explorando outros territórios. Nesse
momento, cria-se uma imagem aventureira do trabalho do arqueólogo. Essa fama
heróica que muitas vezes circula a profissão é ainda reforçada pelas inúmeras
produções cinematográficas do tipo “Indiana Jones” (FUNARI, 2003).
A ciência arqueológica é muito mais complexa do que se imagina, se valida
de critérios particulares de trabalho e exige para seu trato sólidos conhecimentos
(PEREIRA JUNIOR, 1967). Não pode simplesmente ser deixada em segundo plano,
sendo definida como uma disciplina auxiliar e não como uma ciência autônoma
como a História ou a Antropologia.
Os vestígios mais comuns e que auxiliam na identificação e estudos de
determinados grupos pré-históricos são: pinturas rupestres, artefatos cerâmicos,
artefatos líticos, sambaquis, restos de assentamentos, cemitérios, resquícios de
fogueira, ossos humano e de animais, uma infinidade de extratos que permitem o
homem entender o próprio homem em tempos históricos e pré-históricos, nem
que para isso seja necessário imaginação e criatividade.
Este trabalho busca relatar algumas características que diferenciam certas
tradições primitivas identificadas na região sul do Brasil, destacando
principalmente as regiões paranaenses. As evidências de ocupações humanas no
Paraná remontam cerca de 10.000 anos atrás, embora exista a hipótese do
surgimento de grupos que datam entre 12.000 e 15.000 anos atrás, abrangendo
não somente o Paraná, mas também Santa Catarina, Rio Grande do Sul e nordeste
da Argentina. (PARELLADA, 2007).

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As tradições abordadas são: Umbu e Humaitá de caçadores-coletores; as
tradições de Planalto e Geométrica identificadas pela arte rupestre e a Itararé de
agricultores e ceramistas. É importante esclarecer que essas não eram as únicas
tradições presentes na região, podemos citar ainda os Paleoíndios, os Tupiguarani,
as populações que habitavam o litoral e construíam os Sambaquis, entre outros
que não serão tratados de forma mais abrangente pelo presente trabalho.

2 DA CULTURA JÊ ÀS TRADIÇÕES UMBU E HUMAITÁ

A cultura Jê se estabeleceu em vários pontos do território nacional,


dispersando-se pelos estados do Pará, Maranhão, Piauí, Bahia, Goiás, Minas Gerais,
São Paulo e Paraná. Formavam um grande povo dividido em 54 famílias. No sul do
Brasil podemos citar a família dos Coroados, Caingangues e Xoklengues.
(BARBOSA, 2004, p. 56-57).
No Paraná, observou-se a manifestação de duas grandes tradições
relacionadas à cultura Jê: a Umbu e a Humaitá, ambos caracterizados como grupos
de caçadores-coletores. Os grupos pré-históricos que se manifestaram na região
sul do país são em geral identificados e classificados como caçadores-coletores, e
também caçadores-coletores-pescadores. Esses povos buscavam sempre novos
ambientes ecológicos para o seu sustento.
Nenhuma dessas duas tradições que os arqueólogos se convencionaram de
chamar “Umbu” e “Humaitá”, deixaram aparentemente descendentes
historicamente conhecidos (MOTA, 2009, p. 58-59).

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Os caçadores-coletores da tradição Umbu viviam em grupos que variavam
entre vinte e cinco a quarenta indivíduos (BARBOSA, 2004, p. 58). Eram grupos
nômades, portanto suas moradias eram temporárias. Habitavam geralmente em
áreas altas (topos de morros e colinas), abertas (campos e cerrados) e próximas de
recursos aquáticos (córregos e rios).
Sua alimentação era vasta, e compreendia caças como veados, tatus,
lagartos, capivaras, porcos do mato e aves. Na região litorânea praticavam a pesca
e a coleta de mariscos e moluscos, que em geral originaram os sambaquis: locais
que serviam tanto como moradia quanto cemitérios, formados por montes de
conchas, restos de comida, machados, projéteis, ossos humanos e de animais, entre
outros materiais que hoje servem para revelar aspectos da vida de determinado
povo. Praticava-se ainda a coleta de frutos e raízes como complementação
alimentar, fonte de carboidratos e proteínas. (BARBOSA, 2004, p. 58)
Não se destacaram tanto por sua arte rupestre, mesmo porque são poucos
os locais descobertos e identificados como pinturas tipicamente Umbu. Seus
antigos locais de habitação são facilmente identificados principalmente pela
presença em grande quantidade de pontas de projéteis. (PARELLADA, 1999, p. 04).
As populações da Tradição Umbu confeccionavam uma boa porção de materiais
líticos, onde podemos citar além das pontas de projéteis de várias formas e
tamanhos (pedunculadas, foliáceas, triangulares,...), os furadores, raspadores,
lascas, polidores, lâminas polidas de machado, mós, picões e talhadores.
No Paraná sítios arqueológicos registrados da tradição Umbu são
encontrados nos vales dos rios Ribeira, Iguaçu, Tibagi, Ivaí, Itararé, Paranapanema,
na Serra do Mar e no litoral. (PARELLADA, p. 126).

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A outra tradição presente na maior parte do estado do Paraná nos vales dos
rios Paranapanema, Ivaí, Tibagi, Iguaçu e Paraná e no sul de São Paulo
(PARALLADA, p. 129), que deriva da cultura e do tronco lingüístico Jê, é a tradição
Humaitá.
Também identificados como caçadores-coletores, os Humaitá formavam
pequenos grupos de quarenta a sessenta pessoas que possuíam acampamentos
temporários em espaços abertos e amplos, mas em geral matas fechadas e
próximas de rios. “Eventualmente poderiam ocupar abrigos sob rocha
(reentrâncias em paredes rochosas)” (MOTA, 2009, p. 58).

Com a expansão das florestas – fato pelo aquecimento ambiental desde a


última glaciação passando de clima frio e seco para quente e úmido
subtropical – esse grupo acompanhou o crescimento da vegetação e se
instalou nessas regiões de mata fechada. Foram identificadas datações a
partir de 6000 anos a. C. [...] (BARBOSA, 2004, p. 58)

A cultura Humaitá é bastante semelhante a Umbu, no que diz respeito aos


locais de habitação, o modo de se obter alimentos e produção de instrumentos. No
entanto seus instrumentos em geral caracterizam-se por produções sobre bloco
(PARELLADA, p. 128), produzindo instrumentos em pedra lascada ou polida:
seixos, blocos, raspadores, furadores e talhadores.
Existe uma divergência no que diz respeito à diferenciação entre: Humaitá e
Umbu, pelo fato de que possivelmente a tradição Humaitá desenvolveu trabalhos
cerâmicos, promovendo a produção de novos instrumentos como as mãos de pilão
para moer grãos. Porém há quem diga que esta tradição não foi capaz de elaborar
trabalho em cerâmica. (MOTA, 2009, p. 59). Mas é possível observar a ocorrência

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da adaptação ao trabalho cerâmico e o domínio da agricultura por parte de novas
tradições. (BARBOSA, 2004).

3 ARTE RUPESTRE: TRADIÇÕES PLANALTO E GEOMÉTRICA

Sabemos que a arte é um dos elementos estruturantes da cultura humana,


assim como a religião e a língua. Para Clifford Geertz (2004, p. 142) a arte parece
existir em um mundo próprio onde não é possível alcançá-la através do simples
discurso. Por vezes ignoramos como a arte começou tanto quanto desconhecemos
o início da linguagem. Quanto mais se recua na História, mais definidas e mais
estranhas são as finalidades absorvidas pela arte. (GOMBRICH, 1999).
Para o homem pré-histórico, a arte rupestre não se tratava apenas de um
deleite estético, adquiria um valor mítico e um sentido prático. Nesse sentido,
assim como decifrar a escrita de uma civilização antiga, por exemplo, traz
respostas decisivas para o estudo de tal sociedade, a arte rupestre pode ser
igualmente compreendida, e até mesmo interpretada contribuindo para o
entendimento de elementos mais abstratos que compõem a cultura das sociedades
ágrafas.

As pinturas representam para o homem arcaico o mesmo que a máquina


de Gutenberg representou para o homem medieval, e talvez o mesmo
que a internet representará para o nosso tempo. Estes avanços são como
prenúncios de revolução que no contexto pré-histórico está
representado pelo período Neolítico, que legou grande avanço
tecnológico inserindo na cultura humana a agricultura, a cerâmica, a
utilizações da roda e o inicio da estrutura de cidades-estados. A rocha,
além de suporte para tantas formas de manifestações artísticas
representa um importante aspecto mitológico no pensamento primitivo,

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[...] tornava-se possível alcançar outras “dimensões espirituais”. [...] O
homem pintava na pedra o que acreditava estar dentro ou por trás da
mesma. (BARBOSA, 2004, p. 70)

Os sítios arqueológicos com arte rupestre em geral, são classificados e


divididos no Paraná em duas tradições: a de Planalto e a Geométrica. Cada qual
possui padrões e características próprias, separadas por temáticas que auxiliam na
distinção e a identificação de determinado grupo pré-histórico na região. Mas em
alguns casos só a identificação da arte rupestre não é suficiente para caracterizar o
povo que a produziu, faltam outros vestígios materiais que correlacionem à
produção dessas pinturas e/ ou gravuras a determinados povos. (PARELLADA,
2009, p. 04)
Os abrigos arqueológicos já identificados no Paraná com presença de
pinturas e/ ou gravuras rupestres situam-se nos municípios de Sengés, Jaguariaíva,
Piraí do Sul, Castro, Tibaji, Ventania, Ponta Grossa, Palmeira e Irati, praticamente
toda região que compreende os Campos Gerais. (MELO, PARELLADA, SILVA, 2006,
p. 31-32).
3.1 TRADIÇÃO DE PLANALTO

As pinturas e gravuras rupestres que caracterizam a tradição de Planalto


em geral são representações de animais associados a figuras humanas e sinais. A
rica fauna inspirava os indígenas pré-históricos a fazer representações de
cervídeos, aves, canídeos, répteis, desdentados.

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São grafismos pintados, geralmente de coloração vermelha, e raramente em
preto, branco ou amarelo. (MELO, PARELLADA, SILVA, 2006, p. 32) (PARELLADA,
2007, p. 167).

Imagem 1: figura de um veado onde


observamos o detalhe do casco bipartido
comum a estes animais. Representação
encontrada no Abrigo Paulino III (UTM 592.266
E – 7297.143 N / Altitude 936 metros), em Piraí
do Sul – PR. Fonte: BARBOSA, João Nei de
Almeida. Arte rupestre: a história que a rocha
não deixou apagar. Curitiba: J. N. A. Barbosa,
2004. p. 39.

Imagem 2: Painel com a nítida representação


de um pássaro (21x19 cm), um sinal que parece
uma asa (13x13 cm) e linhas. Representação
encontrada no Abrigo Cavernas (UTM 591.743
E – 7291.619 N – Altitude 1.139 metros), em
Piraí do Sul – PR. Fonte: BARBOSA, João Nei de
Almeida. Arte rupestre: a história que a rocha
não deixou apagar. Curitiba: J. N. A. Barbosa,
2004. p. 39

Imagem 3: Painel contendo


oito cervídeos com
sobreposição de desenhos
(66x16 cm). Representação
encontrada em Ponta Grossa –
PR, no Abrigo Usina São Jorge
(UTM 593.023 E – 7232.290 N
/ Altitude 900 m). Fonte:
BARBOSA, João Nei de Almeida.
Arte rupestre: a história que a
rocha não deixou apagar.
Curitiba: J. N. A. Barbosa, 2004.
p. 29

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3.2 TRADIÇÃO GEOMÉTRICA

A tradição geométrica caracteriza-se como o próprio nome diz, por


representações de sinais geométricos apenas, dificilmente aparecendo outras
formas de representações como na tradição de Planalto.
São pontos, círculos, traços, riscos, triângulos, grades. Apresentam-se em
grandes quantidades no Paraná. As colorações utilizavam da policromia entre
vermelho e amarelo. (MELO, PARELLADA, SILVA, 2006, p. 32) (PARELLADA, 2007,
p. 167).

Imagens 4 e 5: Formas geométricas e símbolo formado por pontos (15x11 cm). Representações
encontradas no Abrigo Iapó (UTM 574.777 E – 7283.317 N / Altitude 1.149 metros) em Tibagi – PR.
Fonte: BARBOSA, João Nei de Almeida. Arte rupestre: a história que a rocha não deixou apagar.
Curitiba: J. N. A. Barbosa, 2004. p. 49.

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Imagem 6: Símbolo abstrato (30x33 cm).
Representação encontrada no Abrigo Lajeado
Grande III (UTM 652.600 E – 7319.329 N / Altitude
873 metros) no município de Sengés – PR. Fonte:
BARBOSA, João Nei de Almeida. Arte rupestre: a
história que a rocha não deixou apagar. Curitiba: J. N.
A. Barbosa, 2004. p. 46.

Imagem 7: Símbolos geométricos (26x28 cm).


Representação encontrada no Abrigo Santa Rita I
(UTM 597.194 E – 7293.424 N / Altitude 1.146
metros), em Piraí do Sul – PR. Fonte: BARBOSA,
João Nei de Almeida. Arte rupestre: a história que
a rocha não deixou apagar. Curitiba: J. N. A.
Barbosa, 2004. p. 35.

4 AGRICULTORES-CERAMISTAS: TRADIÇÃO ITARARÉ

A Itararé é outra tradição proveniente da cultura e grupo lingüístico Jê.


Habitaram áreas de floresta subtropical, levando sempre em consideração a
proximidade de cursos fluviais. “Existem poucas datações de sítios arqueológicos
de tradição Itararé. A mais antiga foi obtida no Rio Grande do Sul, 140 d.C. e a mais
recente é de 1640 d.C. no Estado do Paraná.” (CALLI, 2001, p. 16).
Suas habitações em geral eram estruturas parcialmente subterrâneas,
sustentadas por estacas, cobertas de palha e serviam não só como moradia, mas
como depósito de alimentos ou locais de sepultamentos. Possuíam uma dieta
fortalecida pela caça e coleta de pinhão, mas principalmente do plantio de milho,

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feijão, mandioca, entre outros, por isso caracterizam-se não só como coletores-
caçadores, mas também agricultores. (PARELLADA, 2005, p. 42)
Outra característica que corresponde à tradição Itararé é a fabricação de
cerâmicas. Inúmeros fragmentos são encontrados nos sítios Itararé. São cerâmicas
pouco espessas, de pequenas dimensões, podem apresentar uma coloração cinza
ou marrom, (PARELLADA, 2007, p. 166), são lisas, algumas vezes muito bem
polidas e até brilhantes, com funções mais utilitárias para cozimento, por exemplo.
(BARATA, 1999). A técnica de produção da cerâmica utilizada pelos povos
primitivos era a de rolinhos de argila. É uma técnica aparentemente simples.
Apanha-se o barro adequado junto a um córrego e, com as mãos, são feitos roletes,
colocando-os um sobre o outro e juntando-os com a ponta dos dedos. Essa
cerâmica é posta para descansar, para que a argila fique um pouco mais firme, e
então ela será queimada diretamente em uma fogueira.
No que diz respeito à fabricação de materiais líticos, são provenientes do
diabásio, silexito, quartzo cristal, quartzito e calcário silicificado. Encontram-se
vários instrumentos de grande porte, além das mãos de pilão, lâminas de machado
lascadas ou polidas, talhadores, raspadores.

A espécie humana tem a seu favor um complexo sistema nervoso. Isto lhe
atribuiu uma excelente coordenação motora, capaz de transmitir
instantaneamente os comandos do cérebro para as mãos. Esta habilidade
manual tem papel fundamental no desenvolvimento humano, onde as
mãos exercem uma função de experimentadora que sente e investiga.
Através da relação do indivíduo com a natureza (transformação) e do
individuo com o coletivo (identidade), desenvolvem-se novas
ferramentas culturais como os ídolos de pedra e ossos, as lâminas de
machados e pontas de projéteis, pois possuíam uma função prática,
estética e mítica. (BARBOSA, 2004, p. 69)

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Essa cultura de subsistência e a fabricação de objetos para armazenamento
do alimento permitiam ao homem pré-histórico permanecer por um período mais
prolongado em determinado local. Em longo prazo, dessas tradições surgiram
aquelas com acampamentos fixos e com capacidades bem mais desenvolvidas.

Imagem 8 – Vasilhame cerâmico da Tradição arqueológica Itararé. Relacionada aos ancestrais de


grupos do Tronco lingüístico Jê, e encontrado em Roncador – PR. Fonte:
http://www.museuparanaense.pr.gov.br/modules/galeria/detalhe.php?foto=15&evento=2

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através da presente síntese sobre algumas das culturas pré-históricas que


existiram no território paranaense foi possível observar a inserção do território
nacional e regional dentro do período dito “Pré-histórico”, desde o início de
pequenos grupos e até populações inteiras.

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Com a breve análise das tradições Umbu e Humaitá, foi possível observar
semelhanças e diferenças, mesmo que ambas as tradições se caracterizam como
coletores-caçadores, e habitaram o território paranaense. No entanto a tradição
Umbu preferia habitar áreas de campos e cerrados, enquanto os Humaitá
assentavam-se geralmente em vales de rios com cobertura florestal.
Tanto em sítios Umbu, quanto nos caracterizados Humaitá, é possível
encontrar uma variedade de artefatos líticos. Porém, nos sítios Umbu os materiais
predominantes são as pontas de projéteis, enquanto que em sítios Humaitá
existem inúmeros vestígios de produções sobre blocos.
As manifestações de arte rupestre identificadas no Paraná foram
classificadas tendo por referência suas próprias representações: a Tradição
Geométrica, caracterizada por apresentar pontos, traços, barras, círculos ou sinais
mais elaborados formados por um conjunto de sinais simples; e a Tradição de
Planalto, em geral, representando figuras humanas, animais, alguns associados a
figuras geométricas, sobrepostos, ou até apresentados em fila. Sabendo que a arte
rupestre foi a maneira que o homem primitivo encontrou para se manifestar,
conclui-se que “A representação não é só um ato gráfico, pois cria uma relação
nova, carregada de significados” (PARELLADA, 2009, p. 2).
Da tradição Itararé, uma vez caracterizados como caçadores-coletores e
agricultores, certamente conclui-se que tal tradição desenvolveu técnicas de
produção de artefatos cerâmicos, especialmente de potes, vasilhas e vasilhames
para armazenamento de alimentos. Logo a cerâmica, juntamente com as técnicas
agrícolas no cultivo de milho, mandioca, feijão, forneciam uma melhor estabilidade

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habitacional, apesar de possivelmente ela já estar sendo produzida mesmo sem a
horticultura (PARELLADA, 2008).
Uma vez que nosso território é riquíssimo em sítios arqueológicos, é
importante o incentivo às pesquisas e produções sobre assuntos que abrangem as
sociedades primitivas na região sul do Brasil, especialmente no Paraná.

Deve ser destacada a importância atual da arqueologia de resgate na


captação de recursos para a realização das pesquisas arqueológicas no
Brasil. Obviamente, com bom senso e ética é possível executar trabalhos
de qualidade [...] (PARELLADA, 2007, p.170).

Muitas vezes a falta de interesse por parte das esferas governamentais no


que diz respeito às políticas de preservação desses patrimônios da humanidade
acaba representando uma forma de desmotivação e desvalorização dos trabalhos
dos pesquisadores da área.
Logo, as pesquisas de caráter arqueológicas devem estar aliadas a projetos
bem estruturados e políticas de salvamento e preservação dos vestígios
encontrados, que muitas vezes por falta de informação acabam sendo alvos de
depredações naturais ou atos de vandalismos.

REFERÊNCIAS

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catarinense. 1999.
Disponível em:
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S00967252002000200005&script=sci-
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MOTA, L. T. Povos indígenas no Paraná: história e relações interculturais. In:
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