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Tipos de filosofia

O processo do filosofar
A filosofia de vida
Como seria o caminhar do filósofo? Na medida em que somos seres racionais e sensíveis,
estamos sempre dando sentido às coisas. Ao "filosofar" espontâneo do homem comum,
costumamos chamar filosofia de vida.
No Capítulo 5 (Ideologia), quando nos referimos à passagem do senso comum para o bom
senso, identificamos esse último à filosofia de vida. Enquanto o senso comum é
fragmentário, incoerente, preso a preconceitos e dogmático, o bom senso supõe a
capacidade de organização que dá certa autonomia ao homem que analisa sua experiência
de vida cotidiana.
Como veremos adiante, enquanto o homem comum faz sua filosofia de vida, o filósofo
propriamente dito é um especialista. Mas o especialista filósofo é diferente dos outros
especialistas (como o físico ou o matemático). Por exemplo, quando observam o
estudioso de trigonometria, podemos bem pensar que grande parte dos homens não
precisa se ocupar com esse assunto. No entanto, o mesmo não acontece com o objeto de
estudo do filósofo, cujo interesse se estende a qualquer homem.
Segundo Gramsci, "não se pode pensar em nenhum homem que não seja também
filósofo, que não pense, precisamente porque pensar é próprio do homem como tal". Isso
significa que as questões filosóficas fazem parte do cotidiano de todos nós. Se o filósofo
da educação investiga os fundamentos da pedagogia, o homem comum também se
preocupa em escolher critérios - não importa que sejam pouco rigorosos - a fim de decidir
sobre as medidas a serem tomadas na educação de seus filhos.
Estamos diante de diferentes filosofias de vida quando preferimos morar em casa e não
em apartamento, quando deixamos o emprego bem pago por outro não tão bem
remunerado, porém mais atraente, ou quando escolhemos o colégio onde estudar. Há
valores que entram em jogo aí. Se escolho um "colégio fraco para passar de ano e ter
tempo para passear", ou se, ao contrário, prefiro um "colégio forte para me preparar para
o vestibular", ou, ainda dentro dessa última opção, "um bom colégio para ter um contato
melhor com o mundo da cultura e abrir as possibilidades de autoconhecimento", é preciso
reconhecer que existem critérios bem diferentes fundamentando tais decisões.
É por isso que consideramos tão importante a introdução do estudo de filosofia nas
escolas de 2º grau. Não propriamente para preparar futuros prováveis filósofos
especialistas, mas a fim de dar alguns subsídios para o aprimoramento da reflexão
filosófica inerente a qualquer ser humano. Nesse sentido, o ensino da filosofia deveria se
estender a todos os cursos e não só às classes d e ciências humanas.

A filosofia propriamente dita


A filosofia propriamente dita tem condições de surgir no momento em que o pensar é
posto em causa, tornando -se objeto de reflexão. Mas não qualquer reflexão.
Como vimos, o homem comum, no cotidiano da vida, é levado a momentos de parada, a
fim de retomar o significado de seus atos e pensamentos, e nessa hora é solicitado a
refletir. Entretanto, ainda não é filosofia rigorosa o que ele faz.
Examinemos a palavra reflexão: quando vemos nossa imagem refletida no espelho, há
um "desdobramento", pois estamos aqui e estamos lá; no reflexo da luz, ela vai até o
espelho e retorna; reflectere, em latim, significa "fazer retroceder", "voltar atrás".
Portanto, refletir é retomar o próprio pensamento, pensar o já pensado, voltar para si
mesmo e colocar em questão o que já se conhece.
É ainda Gramsci quem diz: "o filósofo profissional ou técnico não só "pensa" com maior
rigor lógico, com maior coerência, com maior espírito de sistema do que os outros
homens, mas conhece toda a história do pensamento, sabe explicar o desenvolvimento
que o pensamento teve até ele e é capaz de retomar os problemas a partir do ponto em
que se encontram, depois de terem sofrido as mais variadas tentativas de solução. "
Segundo o professor Flermeval Saviani, a reflexão filosófica é radical, rigorosa e de
conjunto. Interpretaremos esses tópicos:
Radical: a palavra latina radix, radicis significa "raiz", e no sentido figurado,
"fundamento, base". Portanto, a filosofia é radical não no sentido corriqueiro de ser
inflexível (nesse caso seria a antifilosofia!), mas enquanto busca explicitar os conceitos
fundamentais usados em todos os campos do pensar e do agir. Por exemplo, a filosofia
das ciências examina os pressupostos do saber científico, do mesmo modo que, diante da
decisão de um vereador em aprovar determinado projeto, a filosofia política investiga as
"raízes" (os princípios políticos) que orientam sua ação.
Rigorosa: enquanto a "filosofia de vida" não leva as conclusões até as últimas
consequências e nem sempre é capaz de examinar os fundamentos delas, o filósofo deve
dispor de um método claramente explicitado a fim de proceder com rigor, garantindo a
coerência e o exercício da crítica. Mesmo porque o filósofo não faz afirmações apenas,
precisa justificá-las com argumentos. Para tanto usa de linguagem rigorosa, que evita as
ambiguidades das expressões cotidianas e lhe permite discutir com outros filósofos a
partir de conceitos claramente definidos. É por isso que o filósofo sempre "inventa
conceitos", ou cria expressões novas (quanto fizeram isto os gregos)) ou altera e
especifica o sentido de palavras usuais.
De conjunto: enquanto as ciências são particulares, porque abordam "recortes" da
realidade e se distinguem de outras formas de conhecimento, e a ação humana se expressa
nas mais variadas formas (técnica, magia, arte, política etc.), a filosofia é globalizante,
porque examina os problemas sob a perspetiva de conjunto, relacionando os diversos
aspetos entre si. Nesse sentido, além de considerarmos que o objeto da filosofia é tudo
(porque nada escapa a seu interesse), completamos que a filosofia visa ao todo, à
totalidade. Daí a função de interdisciplinaridade da filosofia, estabelecendo o elo entre as
diversas formas de saber e agir humanos.
A maneira pela qual se faz rigorosamente a reflexão filosófica varia conforme a
orientação do filósofo e as tendências históricas decorrentes da situação vivida pelos
homens em sua ação sobre o mundo.

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