Você está na página 1de 16

MATERIALIZAÇÕES DE IMAGENS NO PRESENTE, RESGATE E

ATUALIZAÇÕES DE PROCESSOS FOTOGRÁFICOS

MATERIALIZATION OF IMAGES IN PRESENT, RESCUE AND PHOTOGRAPHIC


PROCESS UPDATES

Eriel de Araújo Santos / UFBA


Renata Voss Chagas / UFBA
Luisa Magaly Santana Oliveira Reis / IFBAIANO

RESUMO
Este texto aborda sobre a recuperação de alguns processos fotográficos antigos, de base
química, em consonância com a tecnologia digital para produção de imagens que ressoa em
poéticas artísticas transdisciplinares. Os resultados analisados neste artigo foram obtidos
pelo grupo de pesquisadores do LABIMAGE – laboratório de materializações de imagens.
Cada artista pesquisador estudou operações fotográficas de caráter híbrido para atender
suas investigações, onde arte, religião, história, sociologia e experiências autoreferenciais
conduziram as escolhas técnicas, conceituais e suportes que contém as imagens
fotográficas produzidas. Assim, apresentamos uma discussão sobre os trabalhos realizados
e a importância do resgate das origens da fotografia e possíveis atualizações frente ao
conhecimento da arte atual. A origem no presente.

PALAVRAS-CHAVE
Fotografia; Materialização de imagem; Transdisciplinar.

ABSTRACT
This paper deals with the recovery of some old chemical-based photographic processes, in
line with the digital technology for imaging that resonates in transdisciplinary artistic
processes. The results analyzed in this article were obtained by the LABIMAGE group of
researchers - laboratory of materializations of images. Each artist studied hybrid
photographic operations to attend to their investigations, where art, religion, history,
sociology and self-referential experiences led to the technical, conceptual and material
choices that contain the photographic images produced. Thus, we present a discussion
about the works accomplished and the importance of the rescue of the origins of the
photography and possible updates in front of the knowledge of the current art. The origin in
the present.

KEYWORDS
Photography; Image materialization; Transdisciplinary.
Desde a sua invenção, a imagem fotográfica vem desafiando nosso modo de ver e
nossa capacidade de resgatar histórias vividas. Assim também, podemos afirmar
que redirecionou o modo como os artistas configuram suas ideias sobre a existência
e a memória. Pensando assim, podemos iniciar uma reflexão sobre a presença da
imagem fotográfica sobre um determinado suporte de papel, tão comum à história da
fotografia, e sua fluidez, existente nos sistemas virtuais de comunicação. Vivemos
num momento em que a materialização de imagens numa determinada superfície
parece estar obsoleta; contudo, percebemos que existem outras direções que
abordam sobre a importância da materialidade das fotografias em superfícies
conhecidos dos processos fotográficos, e aquelas que surgem de uma necessidade
determinada pelo processo criativo em artes visuais e design. Nesse sentido,
verificamos que artistas contemporâneos visitam processos fotográficos antigos para
atender as suas estratégias poiéticas. Assim, o trânsito entre as técnicas usadas
pela fotografia do passado e os processos fotográficos atuais perfazem caminhos
cada vez mais complexos e dinâmicos na produção artística atual. Uma
potencialização instaurada na imagem fotográfica que soma qualidades visuais
inerentes a cada escolha material e conceitos imanentes dos materiais e objetos
escolhidos para “suportar” uma imagem fotográfica.

A partir da necessidade de trabalhar com múltiplos processos fotográficos, do


analógico ao digital e vice e versa, o líder do grupo de Pesquisa Arte Híbrida – CNPq
criou o LABIMAGE, laboratório para materializações de imagens, para
desenvolvimento da pesquisa intitulada “A materialidade da imagem e os processos
artísticos contemporâneos”, projeto contemplado pelo Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) através da Chamada Universal
MCTI/CNPq Nº 01/2016. Com isso, está sendo possível realizar investigações que
correspondem às proposições apresentadas pelos integrantes desse grupo.

Um dos princípios que norteia as pesquisas do LABIMAGE é a relação de


multidisciplinaridade e transdisciplinaridade. Ou seja, os projetos desenvolvidos

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1707
procuram responder questões que atravessam fronteiras inerentes às expressões
das artes visuais, temas pertencentes aos campos filosóficos, sociológicos, afetivos,
espiritualistas e dos estudos de gênero e sexualidade. Para tanto, os processos de
conotação (BARTHES, 2014), permitem ampliar as ações fotográficas para além dos
procedimentos técnicos, pois em cada trabalho, executado pelos membros do grupo
de pesquisa Arte Híbrida, percebemos a inserção de valores simbólicos inerentes
aos objetos escolhidos e a imagem fotográfica produzida ou apropriada.

Oito artistas pesquisadores, presentes neste projeto, tiveram como eixo norteador
para elaboração dos seus trabalhos a construção de relações conceituais e
materiais entre uma imagem fotográfica e a superfície que a contém. Cada artista
produziu uma série de imagens produzidas por técnicas fotográficas e apresentadas
em objetos que atendessem aos seus critérios poéticos. Contudo, a quantidade de
imagens-objetos e as dimensões dos mesmos foram pré-determinadas para atender
as necessidades que configurarão a publicação do livro “Diáfanas presenças, oito
poéticas digitais-analógicas”.

Quando pensamos sobre as coisas que estão ao nosso redor, logo nos conectamos
com nossa existência física. No entanto, não podemos esquecer da realidade virtual
e imaginária. Algo que atravessa os corpos materiais e instauram questionamentos
sobre o visível e o perceptível, atuando em nossas vidas e influenciando
comportamentos e histórias. Assim, com as foto-imagens-materiais produzidas,
pretende-se estabelecer um alargamento dos processos fotográficos analógicos e
digitais para além das questões técnicas, pois as alterações ou sobreposições de
alguns desses processos criativos promovem uma espécie de laboratório da
imaginação a partir de um dado do real fotografado. Afinal, final “fazemos coisas
porque elas nos ampliam potencialmente como pessoas” (MILLER, 2013, p. 90).

Com efeito, a virtualidade nos leva a pensar sobre uma imagem desmaterializada,
onde a substância que a torna visível, revelada ou impressa, é substituída por pixels.

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1708
Num mundo em que tudo se encaminha para a virtualização, não podemos nos
esquecer da função dada à materialidade presente em nossa existência e processos
de criação artística. Pois, a arte não se dá somente pelo sentido, mas também pela
presença de materialidades que nos afeta, pois
A palavra “presença” não se refere (pelo menos, não principalmente)
a uma relação temporal. Antes, refere-se a uma relação espacial
com o mundo e seus objetos. Uma coisa “presente” deve ser tangível
por mãos humanas – o que implica, inversamente, que pode ter
impacto imediato em corpos humanos. Assim, uso “produção” no
sentido a sua raiz etimológica (do latim producere), que se refere ao
ato de “trazer para diante” um objeto no espaço (GUMBRETCH,
2010, p. 13).

Neste sentido, a relação entre presença e produção abre possibilidades para que os
artistas-pesquisadores do LABIMAGE possam materializar suas idealizações
poéticas. As imagens utilizadas pelos pesquisadores foram produzidas por máquinas
digitais ou apropriadas de sistemas virtuais. Em seguida, foram transferidas ou
reveladas por processos fotográficos distintos como: foto transferência, cianotipia,
fotocerâmica, empoeiramento (tradução nossa para o processo de revelação
denominado dusting on) e carbonização. Dessas escolhas, podemos afirmar que a
liberdade, as adequações metodológicas e técnicas fotográficas, adotadas pelos
artistas, pode ressignificar as imagens em uma polissemia visual carregada de
signos correlatos com as estratégias adotadas pelos mesmos.

Ao reconhecer que as estratégias artísticas contemporâneas podem dar “vida” às


vozes emudecidas ou idealizadas por cada indivíduo e nos conectar com o invisível,
o indizível; acreditamos que possamos abrir cisões nas histórias e conhecer o
desconhecido. Com isso, os artistas operam com dispositivos capazes de acionar
passados e atualizá-los no presente. Nas oito proposições visuais, aqui
apresentadas, cada componente criou relações metafóricas entre as imagens
fotográficas e sua presença incorporada e associada às qualidades do objeto que
contém as imagens. Um modus operandi que faz colidir polissemias numa mesma
superfície.

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1709
Se uma imagem pode matar, como questiona Marie-José Mondzain, podemos
discutir também sobre a possibilidade de uma imagem tornar vivo algo esquecido ou
negligenciado pela história. Uma espécie de retorno às origens para recuperar
dados soterrados por narrativas construídas através de negligências e ausências
sinistras, pois:

O visível é um mercado que não cessa de matar as imagens e com


elas toda a esperança de liberdade. O mundo da sujeição é do
saciamento, o das imagens exige a manutenção de uma sede. Sede
de ver o invisível, sede de ouvir vozes que não exigem que nos
amarremos a um mastro para nos proteger de um naufrágio. Não
existe imagem que não seja tempestade e figuração de um perigo.
Na tempestade é preciso saber governar o barco. Cabe a cada um
responder pelas visibilidades que dá a ver, que faz conhecer e que
deseja partilhar. Não se trata, numa política do visível, de
compatibilizar as vozes, mas dar à voz o lugar de onde ela se pode
ouvir, ao atribuir ao espectador o lugar de onde ele pode, por seu
turno, responder e fazer-se ouvir. A violência do visível equivale ao
desaparecimento destes lugares e, através disso, à aniquilação da
voz. (MONDZAIN, 2009, p.71).

É preciso, então, atenção às imagens produzidas do real, aquelas que se misturam


ao imaginário e proporcionam a potencialização da imaginação e consequentemente
do multiculturalismo existente em nossas sociedades. Assim,

O multiculturalismo resultante que, acima de tudo, supõe uma


posição ideológica que, sem dúvida, é contaminado por interesses
políticos e econômicos, coloca problemas de identidade, diferença,
singularidade, enraizamento, racismo, xenofobia, nacionalismo, etc.,
problemas todos eles relacionados, em última análise, com a
desconstrução do centralismo moderno. (GUASCH, 2007, p.558)

A condição multicultural, cada vez mais complexa, é condutora de novos rumos à


produção artística e reflexões teóricas sobre o posicionamento da arte. Nesse
sentido, de maneira sucinta, analisaremos alguns trabalhos, resultantes das
investigações produzidas no LABIMAGE, e suas relações metafóricas, elaboradas
entre uma imagem fotográfica, o processo fotográfico usado e o objeto escolhido por
cada artista pesquisador.

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1710
Na história dos objetos, produzidos pelas mais diversas civilizações, percebemos
que as funções destes carregam usos e simbolismos que os tornam signos de
poder, status e outros sentidos em sua existência. Assim, a aparição visual ou
mesmo sua presença nos conecta com modos de existências que podem apontar
outras narrativas, agora instauradora de indagações éticas e estéticas. Na obra “Em
descanso”, por exemplo, foram escolhidas imagens fotográficas de sete tipos de
facas (Pedra lascada, Athame, Punhal, Peixeira, Tática, Chefe, Descartável) para
compor uma série de objetos-imagens que instauram discussões sobre a
importância desse objeto em vários momentos da história humana.

O autor dessa obra apresenta sete imagens fotográficas de facas sobre objetos de
porcelana, pois da pedra ao plástico a história da faca indica que este objeto se faz
presente em momentos de alegria, terror e encantamento. É como um estado de
sublimidade que se instaura nas imagens oriundas da cultura material e sua
reverberação no comportamento e história social. Em cada objeto observamos uma
espécie de espectro arqueológico, o qual indica possíveis ampliações das nossas
ações para além daquelas que nosso corpo é capaz.

Figura 1. Eriel Araújo. Em descanso. Fotografias em óxidos minerais (manganês, ferro e cobalto) e
prata pura, reveladas em 7 objetos de porcelana, fixadas a 1000°C. Dimensão: 9 x 4 x 2,5 cm (cada
objeto). 2019. Coleção particular. Salvador, Bahia.

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1711
As fotos, usadas para compor “Em descanso”, foram reveladas sob a luz solar, após
sensibilização da superfície de suportes de porcelana para facas. O pigmento usado
para compor essas imagens é uma mistura de óxidos minerais (ferro, cobalto e
manganês) e prata pura em pó. Uma espécie de alquimia visual onde imagem,
objeto e substâncias químicas são reunidas para uma construção visual metafórica
sobre valores atribuídos aos objetos que criamos ampliar nossas ações aqui na
Terra.

Na ânsia de tornar vivas as ritualizações e encantamentos dos povos originários


brasileiros, o autor das fotografias que compõem a obra “Eçaraia Anhangüera”
propõe trazer uma leitura sobre a distância entre o que interpretamos como exótico e
o que interpretamos como íntimo. Os suportes utilizados fundamentam em suas
qualidades intrínsecas, como um proto-objeto e a formação histórica, sociopolítica,
imaginária e, portanto, cultural de nosso país; um trajeto genocida, de interdições
narrativas, fissuras e fragmentos.

Figura 2. Raoni Gondim. Eçaraia Anhangüera. Fotografia revelada em cianotipia sobre 5 azulejos.
Dimensão: 15 x 15 cm (cada objeto). 2018. Coleção particular. Salvador, Bahia.

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1712
Nesse trabalho, composto por cinco objetos, a sobreposição de imagens e técnicas
usadas para sua criação, tenta ultrapassar os limites, muitas vezes, impostos entre o
manual e industrial. Com isso, a proposta alcança um lugar de diálogo entre os
modos de existência e resistência. Uma figuração usada para revelar situações de
apagamentos de uma determinada cultura e a permanência de seus valores frente
ao crescente domínio de um sistema social que determina hábitos que vão de
encontro à natureza humana.

Das histórias conhecidas àquelas que foram omitidas, algumas práticas de


sobrevivência adquiriram outros modos de existências. Nesse sentido, a obra
“Meta(EXÚ)”, faz transbordar o significado do sincretismo presentes nas situações
afrodiaspóricas e evoca verdades sobre expressões artísticas, culturais e religiosas
dos escravizados do Brasil. Assim, o autor dessa obra desenvolve interpretações de
narrativas da diáspora africana e discussões sobre o campo simbólico e o
transcendental, reunindo um conjunto de experiências que atravessam valores
inerentes ao sagrado e a arte. O uso do próprio corpo para conter elementos
simbólicos de rituais religiosos, agora ressiginifificado por uma ação artística, se
torna um lugar de potência para o processo criativo.

Figura 3. Mário Vasconcelos. META(EXÚ). Fotografias reveladas por empoeiramento de óxido de


manganês e cinzas de pólvora sobre 10 garrafas de vidro. Dimensão: 13,5 x 4 cm (cada). 2018.
Coleção particular. Salvador, Bahia.

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1713
Após performance, realizada com uso de água benta da igreja católica e cachaça, os
registros fotográficos dessa ação foram incorporados aos recipientes usados,
pequenas garrafas de vidro. Nessa proposição artística o sagrado e o profano
perfazem caminhos até se dissolverem em reflexões que atravessam o conteúdo
sacro, político, cultural, simbólico e transcendental de um corpo negro. Com isso, o
autor dessa obra impregna objetos com imagens de um corpo pleno de valores
visíveis e aqueles estabelecidos pelos nossos antepassados.

O corpo, materialidade que dá substância à nossa existência, pode ser revelado de


inúmeros modos pela arte. Pensar sobre imaginários dos desejos, submissões e
ações conhecidas como pornografia, fetichismo e erotismo, a obra “Anjos
harmoniosos em noite venturosa”, procura estabelecer algumas relações,
aparentemente esdrúxulas, entre os globos de neve e os plugs eróticos,
considerados como objetos de prazer. Pensando assim, o autor dessa obra vem
desenvolvendo trabalhos artísticos que exploram “outros prazeres”, uma relação
poïética entre arte e erotismo. Em seus trabalhos o desejo estético, erótico e as
discussões sobre gênero e diversidade fazem parte da criação e fruição artística.

Figura 4. Josemar Antônio. Anjos harmoniosos em noite venturosa. Fotografias em cianotipia sobre 7
objetos de vidro. Dimensão: 13 x 7 cm (cada). 2019. Coleção particular. Salvador, Bahia.

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1714
As imagens reveladas nestes objetos de vidro apresentam dualidades inerentes do
humano, a liberdade e os esconderijos dos desejos. Assim, o autor busca confrontar
a forma de objetos apropriados àquilo que se esconde na memória. Nesses objetos,
sensibilizados pela cianotipia, algumas imagens sobre desejos, vontades e prazeres
são expostas e confrontadas em transparências líquidas, numa espécie de liberdade
visual dos escondidos da alma. Um íntimo translúcido.

A translucidez do cristal de quartzo, os acontecimentos biológicos, psíquicos,


espirituais e transcendentais são alguns dos princípios norteadores da obra
“Reincorporações”, pois tais acontecimentos são passageiros ao corpo humano que
entra em contato com tais experiências. Um corpo carregado de informações
ancestrais que muitas vezes se manifesta pelas ações que lhe são invocados, seja
pelos embates com as sociedades seja pelo campo espiritual, transcendental. A
partir dessas reflexões, a autora dessa obra une cenas de incorporações,
fotografadas durante rituais religiosos, fundidas em cristais de quartzo. Uma
sobreposição visual onde a soma das incorporações ultrapassa o significado de
corpo humano, objeto material e qualidades sígnicas de uma imagem.

Figura 5. Luisa Magaly. Reincorporações. Fotografias reveladas por empoeiramento de óxido de


manganês sobre 7 cristais de quartzo. Dimensões variadas. 2018. Coleção particular. Salvador,
Bahia.

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1715
Com acesso e autorização para registrar momentos de incorporações em ritos
religiosos, esta obra encerra, em sua estrutura cristalina, imagens de corpos que
deixam passar o indizível, manifesto ancestral originário e diaspórico que marca sua
presença e responsabilidade sobre os transes sociais. Uma tentativa de conexão de
tempos, lugares e estados do Ser que vive em constante retorno a suas origens.
Assim, a autora propõe a incorporação de imagens fotográficas em objetos que
contém características capazes de conduzir energias de purificação.

Ao perceber o horizonte como demarcação do deslocamento pela imagem fixada na


memória, a obra “Respir@fundo” perfaz um caminho metafórico em direção ao que é
descartado, mas não esquecido. Assim, a partir de uma perda das funções de uma
máquina fotográfica, ao cair no mar, o autor dessa obra propõe uma retomada de
sua forma, agora em gesso, contendo imagens da superfície limite entre acima e
abaixo do mar. Essas imagens limites nos fazem pensar sobre a função do tempo e
espaço em nossas vidas, pois o posicionamento geográfico, as atividades
desenvolvidas num determinado lugar e os objetos que escolhemos para seguir
adiante, resultam em ações que refazem os modos de vida dos objetos e suas
funções sociais.

Figura 6. Rodrigo Seixas. Respir@fundo. Fotografias transferidas para 6 objetos de gesso. Dimensão:
14,0 x 7,5 cm (cada). 2018. Coleção particular. Salvador, Bahia.

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1716
Sendo uma forma apropriada da origem de uma máquina fotográfica, o autor dessa
obra desvia as funções de sua origem, agora representada como um fantasma
encarnado no gesso. Com isso, a superfície desses objetos ocupa um lugar de
fixação de uma ideia sobre os deleites e esperanças que os oceanos nos
proporcionam. O que era uma carcaça do que produzia imagens, agora serve como
amparo de imagens sobreviventes. Uma maneira de discutir ideias sobre o infinito
em uma imagem de superfícies na superfície de uma matéria.

As imagens guardadas na memória, muitas vezes, se escondem da consciência.


Contudo, ao serem fotografadas e impressas, são passíveis de contatos
inesperados com histórias vividas. Partindo desse pensamento, a obra “Quarta-feira
de cinzas” propõe um caminho inverso ao da revelação de imagens de um passado
vivido, propondo um apagamento memorável.

Figura 7. Renata Voss. Quarta-feira de cinzas. Fotografias carbonizadas. Dimensão variável. 2018.
Coleção particular. Salvador, Bahia.

Dos arquivos pessoais fotográficos aos momentos vividos, poderíamos dizer que o
desejo individual ou coletivo redefine o curso da história em múltiplas direções.
Assim, ao nos depararmos com algumas imagens, surgem questionamentos do

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1717
porquê da sua existência. Daí, percebemos que algumas delas devem ser
guardadas, como uma espécie de bússola, outras destruídas.

Quando olhamos para uma determinada direção, podemos perceber caminhos que
até então eram desconhecidos. Em “Notas sobre a água”, a desorientação dada pela
imagem fotográfica produzida nos distancia daquilo que vemos, nos coloca numa
deriva visual. A autora dessa obra indica um olhar sobre um outro horizonte, circular,
numa tentativa de reordenamento do que não pode ser ordenado, a Natureza.

Figura 8. Celeste Wanner. Notas sobre a água. Foto transferência sobre 3 objetos em alumínio. 15 x
15 cm. 2019. Coleção particular. Salvador, Bahia.

A torção do horizonte num olhar atento às imagens sobre o mar, nos conecta a um
signo atrelado ao irrepresentável. Dessa maneira, as transferências dessas imagens
do mar em objetos de alumínio questionam os possíveis enigmas presentes nos
fenômenos físicos que nos afectam. Nesse sentido, a autora confronta
materialidades que se esquivam de significados predeterminados e conduz sua
criação artística para outras maneiras de ver o visível.

Ao trabalharmos em atelier, lidamos com diversos materiais e ideias que nos coloca
numa relação poïética afetiva e efetiva com eles. Tentamos usá-los a favor da
imaginação criativa, enquanto muitas vezes, nós e eles, não nos comportamos do

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1718
modo como previmos, gerando desvios na criação artística. Assim, objetos,
materialidades, processos fotográficos, imagens fotográficas e uma diversidade de
pensamentos transversais participam dos estudos que propõem uma ampliação da
fotografia contemporânea, pois

A fotografia artística contemporânea tornou-se menos a aplicação de


uma tecnologia visual preexistente e plenamente funcional e mais
uma iniciativa que envolve escolhas positivas a cada passo do
processo. Este fato se encontra nitidamente ligado a uma decidida
valorização da materialidade e da qualidade objetal desse meio de
expressão, numa retomada das raízes da fotografia nos idos do
início do século XIX. (COTTON, 2010, 219)

Nas atividades desenvolvidas pelo grupo de artistas-pesquisadores envolvidos


nesta pesquisa, foram utilizados processos artesanais de construção de imagens,
abrangendo técnicas como: cianotipia, marrom van dyke, antotipia, goma
bicromatada, papel salgado, fotocerâmica, empoeiramento e carbonização de
imagens.

Nos resultados aqui apresentados, podemos destacar que os exercícios poéticos


propõem uma ampliação do significado de uma imagem fotográfica, nos quais os
indivíduos e suas existências física, social e espiritual, se fazem presentes nas
escolhas materiais, visuais e conceituais em cada obra produzida. Uma conexão
entre passado e presente, físico e virtual, imanente e transcendente, o Eu e o Outro.
Assim, como pensa Baqué (2003, p.132), “Para que o Ser esteja seguro, deve existir
entre a imagem e aquilo que é uma imagem à distância, um déficit ontológico”.
Desse déficit, a arte se alimenta e constrói narrativas intercambiáveis entre os
modos de existência e as imagens construídas do Ser.

Talvez possamos dizer que a arte atual apresenta respostas à mestiçagens e


hibridismos instaurados no processo criativo, surgidos da arte conceitual e seus
questionamentos sobre a imagem e a presença física do seu referente, numa
engenharia de atitudes usadas para discutir a realidade e sua expansão enquanto

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1719
conhecimento dos fatos. Aqui potencializada pela disruptura dos paradigmas
impostos pela fotografia documental.

As discussões levantadas por André Rouillé (2009), por exemplo, sobre arte e
fotografia, parecem apontar para a disputa de ocupação de um lugar, o lugar da
imagem. Seja esta produzida pelos processos maquínicos, seja esta produzida pelas
habilidades manuais. Contudo, podemos ver que esses processos para a produção
de uma imagem podem ser intercambiáveis, no intuito de atender aos “pedidos”
daquele que produz essa ou aquela visualidade de uma ideia. Nesse sentido,
acreditamos que o mais importante é a interação entre as partes, para então surgir
um signo potente a partir de uma ideia materializada dos dispositivos eletrônicos ou
substâncias sensíveis à sua presença.

Referências

BAQUÉ, Dominique. La fotografía plástica. Gustavo Gili: Barcelona, 2003.

BARTHES, Roland. O óbvio e o obtuso. Tradução Isabel Pascoal. Lisboa: Edições 70,
2014.

COTTON, Charlotte. A fotografia como arte contemporânea. Tradução Maria Silva


Mourão Netto. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

GUASCH, Anna Maria. El arte último del siglo XX, del posminimalismo a lo
multicultural. Madrid: Alianza, 2007.

GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença: o que o sentido não consegue


transmitir. Tradução Ana Isabel Soares. Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2010.

MILLER, Daniel. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material.
Tradução: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

MONDZAIN, Marie-José. A imagem pode matar. Lisboa: VEGA, 2009.

ROUILLÉ, André. A fotografia entre documento e arte contemporânea. Tradução


Constancia Egrejas. São Paulo: SENAC São Paulo, 2009.

SAX, David. A vingança dos analógicos: por que os objetos de verdade ainda são
importantes. Tradução de Alexandre Matias. Rio de Janeiro: Anfiteatro, 2017.

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1720
Eriel de Araújo Santos
Artista visual. Doutor em artes visuais (PPGAVI-UFRGS). Mestre em artes visuais (PPGSV-
UFBA). Bacharel em artes plásticas (EBA-UFBA). Professor Associado da Escola de Belas
Artes da UFBA, na qual atua no departamento de expressão gráfica e tridimensional. É
professor permanente do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da EBA-UFBA. É
líder do grupo de pesquisa Arte Híbrida – CNPq. Coordena o laboratório para materialização
de imagens – LABIMAGE da EBA-UFBA. Pesquisa processos fotográficos e a arte híbrida
na contemporaneidade.

Renata Voss Chagas


Artista visual. Doutora em Artes Visuais (PPGAV-UFBA). É membro do Grupo de Pesquisa
Arte Híbrida. Desenvolve trabalhos autorais desde 2004 e tem interesse por processos
alternativos em fotografia bem como na investigação dos diversos suportes que ela pode
assumir. Atualmente desenvolve um trabalho que estabelece relações entre fotografia,
movimento e memória.

Luisa Magaly Santana Oliveira Reis


Artista visual. Licenciada em Artes Visuais. Mestre em Artes Visuais (PPGAV-UFBA). É
membro do Grupo de Pesquisa Arte Híbrida - CNPq. Sua pesquisa relaciona os processos
de criação artística e os fundamentos presentes na espiritualidade e presença do anima em
corpos-objetos.

SANTOS, Eriel de Araújo; CHAGAS, Renata Voss; REIS, Luisa Magaly Santana Oliveira.
Materializações de imagens no presente, resgate e atualizações de processos fotográficos, In:
ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PESQUISADORES EM ARTES
PLÁSTICAS, 28, Origens, 2019, Cidade de Goiás. Anais [...] Goiânia: Universidade Federal de Goiás,
2019. p. 1706-1721.
1721