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Frãbu

Tabu do Corpo - José Carlos Rodrigues.

Primeiro trabalho em língua portuguesa a tratar


de forma científica dos aspectos simbólicos do
do
L Corpo
corpo humano. O autor demonstra como os
princípios estruturais

Para o antropólogo
humano é socialmente
se reproduzem no corpo
de maneira a dotá-I o de um sentido particular.
José Carlos Rodrigues, o corpo
concebido, e, portanto, um
objeto do cientista social. Estabelece para tanto
uma distinção. No corpo, existem aspectos
r---------
instrumentais, universais, que são as funções
orgânicas estudadas pelos cientistas naturais. Mas l.,/í 'St' C"arlos Rodrigues I
existem também os aspectos expressivos,
portanto simbólicos, ou seja, as codificações
particulares de um grupo social, objeto do so.ciólogo.
O prof. José Carlos Rodrigues afirma: "estudar
a apropriação social do corpo é estrategicamente
importante para os cientistas sociais, uma vez que

j
ele é sem dúvida, o mais natural, o mais concreto,
o primeiro e o mais normal patrimônio que o
homem possui."
Talvez por isso, Os tabus do corpo se
constituam numa das mais fascinantes e
~
elucidativas iniciações à Antropologia Social e seu
objeto por excelência, a cultura. ~ que no corpo
se encontram indissociadas as dimensões
orgânica e social do homem, domínios
respectivos da natureza e da cultura.
r~\',

achíamé
SÉRIE UNIVERSIDADE - VOL.: 2
José Carlos Rodrigues
Orientador: Luiz Felipe Baêta Neves

1I

TABU DO CORPO
I
Dissertação de mestrado apresentada
ao Programa de Pós-graduação em Antropologia Social
do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

3~ Edição

t
I
t·1

Edições Achiamé Ltda.


Rua da Lapa, 180, sobreloja
Tel. 222-0222
20021 - Rio de Janeiro - RJ - Brasil

Editor
Robson Achiamé Fernandes

Coordenador Editorial
Moacy Cirne

Gerente Comercial
",I achiamé
Rio de Janeiro
Jaques Jonis Netto
1983
" t
"
Às pessoas que entrevistei - e muitas vezes incomodei _
deve este trabalho a sua eventual originalidade, e devo eu res-
peito e gratidão.
Com Elisa de Alencastro Bezzi contraí uma dívida de
que não poderei me libertar.

Rio de Janeiro, março de 1975


I.C.R.
SUMÁRIO

Introdução 1

('''píIUlo I 9
1\ Sociedade como Sistema de Significação
1\ Cultura ea Natureza 20
O Sagrado e o Profano 24
O Distante e o Próximo 29
() Desvio e a Norma 32
O Consciente e o Inconsciente 39

('apítulo II li ~3'· .)
Corpo ou Corpos? 43 / c ~l
O Corpo: Vida e Morte 49
,:. 1)
O Corpo: Suporte de Signos 62 G
O Corpo: Fome de Símbolos 65 11 () 7
1\ Gramática dos Sexos 69 (/,'
Feiticeiros, Médicos e Semiólogos 87
O Corpo: Denotação e Conotação 95
Higiene: Mito e Rito 108
Os Códigos da Emoção 121

Capítulo III
O Nojo do Corpo ou a Magia sem Magos 127
Os Códigos do Corpo e os Códigos da Sociedade 129
O Tabu do Natural 159
{

Referências Bibliográficas 169


concebida e conhecida. Este modelo, através do qual a cons-
ciência se forma, é, basicamente, inconsciente.
CAPíTULO 11
O modelo explícito, que expressa o tipo de apreensão pela
CORPO OU CORPOS?
consciência e que as pessoas podem reconhecer com facilidade,
configura o que Bohannahn (8) denominou "teoria de folk",
"Se os judeus se tivessem ligado
conceito aproximado ao de "modelo consciente" de Lévi-Strauss a Jeová perfurando-se os septos,
(50). Ele tem normalmente a função de justificar, legitimar, ou quantos erros a menos na litera-
mitificar os procedimentos das pessoas. O modelo consciente, tura etnográfica!"
para o analista, é um conjunto de dados e teorias "feitos em A. Van Gennep
casa" que permite a ele aceder aos modelos inconscientes res-
ponsáveis pela manifestação dos fenômenos conscientes.
Esta construção teórica tem o mérito fundamental de nos Procuramos esquematizar no capítulo anterior as principais
ensinar que o aprofundamento da análise pode nos mostrar que dimensões presentes no pensamento antropológico contempo-
elementos aparentemente vagos, flutuantes e indepéndentes são râneo, notadamente entre aqueles pesquisadores que pretendem
signos enraizados em estt"Uturas coerentes, em códigos subja- entender a natureza da sociedade humana como sendo basica-
centes, de onde extraem os seus valores, e que sistemas muitas mente a de um sistema de significação. Vimos que a Cultura
vezes distanciados do ponto-de-vista da consciência podem des- funciona como uma espécie de grade que se aplica sobre um
cobrir um terreno comum em que se torne viável a tradução território originalmente. indistinto, seccionando-o e estabelecen-
recíproca: cozinha e ritual, mito e arte, astronomia e sistema do entre as partes, assim constituídas, contrastes e diferenças
de parentçsco ... que se responsabilizam, a partir de então, pela constituição do
Desde que a consciência esquece os fundamentos incons- sentido. Vimos também que esta atribuição de sentido ao
dencientes que a codificam, ela torna-se fonte de erro e deve mundo só se torna possível porque a sociedadeé,ela mesma,
ser vista com muito cuidado: "quanto mais nítida a estrutura um sistema estruturado ~ujos componentes relacionam-se se··
manifesta, tanto mais difícil se torna apreender a estrutura pro- gundo uma determinada lógica, lógica esta que é introjetada
funda, por causa dos modelos consciente e deformados que se nas mentes dos indivíduos e, por esse caminho, "projetada",
interpõem como obstáculos entre o observador e seu objeto" sobre o mundo, na medida em que este, para ser àpreendido
(50, p. 318). Freud, ,por outro lado, mostrou que nada se proí- pelos indivíduos, deye ser representado em suas mentes e, por-
be senão em razão de sua desiderabilidade ou de sua importân- tanto, "concebido". i
cia, e que proibir algo realçá a importância da coisa proibida. Observamos que a Cultura adquire, ou funda, o seu pró-
prio sentido, aos olhos de seus membros, a partir do momen-
Quais as defonp.ações que nossa consciência projeta no to em que se opõe à Natureza, ou melhor, a um conceito de
mundo? Qual a importância dos fenômenos dos quais nossa
natureza culturalmente fabricado. Por meio deste artifício, a
consciência se vê compelida a se omitir? De que maneira co- Cultura cria os seus contornos externos, instituindo os seus
lorem e matizam o nosso mundo, as lentes que se interpõem limites e a sua fisionomia própria (que se torna espedfica
entre nós e ele? Por serem inconscientes, esses fatores não dei- quando ela se opõe como um "nós" às outras culturas vistas
xam de ser reais já que estão constantemente atuando. Desco- como um "eles" ou "outros").
brir as fórmulas inconscientes das lentes por meio das quais Estabelecida a sua identidade própria, precisa instituir
os homens enxergam o mundo e nele projetam sentido, eis a "internamente" os cortes e contrastes por meio dos quais o
missão do cientista social.
seu domínio íntimo se carregará de sentido e fará sentido nas
mentes dos indivíduos. Tratamos, então, de definiras carac-
42 43
terísticas do Sagrado e do Profano como constituintes da opo- algum dos indivíduos, quer como exigência da sociedade glo-
sição entre a vida social ordinária e a vida social extraordinária, bal, .quer como requisito da fração social a que o indivíduo
mostrando como efta última, em suas maneiras de manifestação se associa particularmente. Portanto, é a sociedade em sua
globalidade e cada fragmento social em particular que decidem
(o Puro e o Impuro), traça parâmetros em relação aos quais_
a vida social profana oscila 'e adquire sentid(). Depois, anali- o ideal intelectual, afetivo, moral ou físico que a educação deve
samos de maneira sumária o problema do distanciamento entre implementar nos indivíduos a socializar, e, tanto quanto no
os componentes des sistemas sociais, mostrando ser a distância espírito, uma sociedade não pode sobreviver sem fixar no fí-
um dos principais agentes de significação, ao mesmo tempo sico de suas crianças algumas similitudes essenciais que as
que condição lógica de todo processo de comunicação. Final- identifiquem e possibilitem. a comunicação entre elas.
mente, tentamos mostrar como o comportamento individual É claro que existem certos comportamentos qtTe' estarão
está subordinado [~ determinados códigos - muitas vezes in- presentes em todos os seres humanos independentemente da
conscientes - que programam coletivamente a maneira de formação específica que cada um por ventura tenha tido; é ine-
agir, de pensar e de sentir consideradas adequadas ou justas, gável que existem conjuntos de motivações' orgânicas que con-
e que estes comportamentos - quer se conformem às normas duzem os seres humanos a determinados tipos de atuação com-
coletivamente estabelecidas, quer delas se desviem - são ine- portamental. Mas a cada uma dessas motivações biológicas
xoravc1mente Illen,agens significantes e expressam a natureza a cultura atribui uma significação especial em função da qual
do sistema social. assumirá determinadas atitudes e desprezará outras. Além disso,
Trataremos, nas páginas seguintes deste trabalho, de com- cada cultura, à sua maneira, inibe ou exalta esses impulsos,
preender como es~es princípios estruturais se reproduzem no sel,ecionando, dentre todos, quais serão os inibidos, quais serão
corpo humano de maneira a atribuir a ele um sentido parti- os exaltados e quais serão os considerados sem importància
cular que - contrariamente ao que poderiam supor muitos c, portanto, tenderão a permanecer desconhecidos.
- não é o mesmo segundo os diferentes sistemas sociais. Ao realizar este trabalho, a Cultura dita normas em re-
Queremos dizer com isto que, como qualquer outra realidade lação ao corpo; normas a que o indivíduo tenderá, à custa
do mundo,.o corpo Àumano é socialmente concebido, e que de castigos e recompensas, a se conformar, até o ponto de
a análise da representação social do corpo oferece uma das estes padrões de comportamento se lhe apresentarem como tão
numerosas vias de acesso à estrutura de uma sociedade par- naturais quanto o desenvolvimento dos seres vivos, a sucessão
ticular. das estações ou o movimento do nascer e do pôr-do-sol. En-
tretanto, mesmo assumindo para nós este caráter "natural" e
"universal", a mais simples observação em torno de nós po-
Sabe-se que cada sociedade elege um certo número de derá demonstrar que o corpo humano como sistema biológico
atributos que configuram o que o homem deve ser, tanto do é afetado pela religião, pela ocupação, pelo grupo familiar,
ponto de vista intelectual ou moral, quanto do ponto de vista pela classe e outros intervenientes sociais e culturais.
físico; que esta constelação de atributos é, em certa medida, Além disso, sabemos que, inspirado no seu próprio corpo,
a mesma, para todos os membros de uma sociedade, embora o homem concebeu relações entre os astros, as estações, as
tenda a se distinguir em nuances segundo os diferentes grupos, coisas, os animais e os deuses; reconhecernos no nosso corpo
classes ou categorias que toda sociedade abriga. "Reconhece-se e no das pessoas que C0l19SCO se~relacionam um dos diversos
ser função da educação inculcar nas cri ancas esses atributos, indicadores da nossa posição social e o manipulamos cuida-
de maneira a garantir um certo número de estados mentais e doslimente em função desse atributo. Vemos, no nosso próprio
físicos, alguns dos quais impossíveis de estarem ausentes em dia-a-dia, o corpo se tornando cada vez mais carregado de

44 45
conotações: liberado física e sexualmente na publicidade~ na gamcas, está fora da abordagem sociológica e pertence ao do-
modã,· nos filmes e romances; cultivado higiênica, dietética c mínio dos cientistas naturais.
t.erapeuticamente; objeto de obsessão de juventude, elegância
e cuidados.
Estudar a apropriação social do corpo é estrategicamente
Cumpre uma função ideológica. A visão que se tem do
importante para os cientistas sociais, uma vez que ele é, sem
homem primitivo, "pré-histórico", é de proporções desequili-
dúvida, o mais natural, o mais concreto, o primeiro e o mais
bradas, exageradamente peludo, pesado. Classificamos as pes-
normal patrimônio que o homem possui. Como tal, portanto,
soas quanto à "aparência", habilitando-as ou não a determi- deve ser visto pelos cientistas sociais como uma categoria
nados empregos, e nos surpreendemos quando uma pessoa própria, sistematicamente relacionada às outras categorias so-
"bem apresentada" é identificada como transgressora das nor- ciais. Classificá-Ia como "outros" ou "vários" é esquecer que
mas sociais e considerada criminosa. Nunca esperamos ser aten- ele possui o seu lugar próprio - e de importância - no
didos por um médico negro e normalmente não nos ligamos domínio das Ciências Sociais.
ao fato de apenas rarÍssimas vezes sermos atendidos nos res- Este lugar é o ponto de convergência de fenômenos sin-
taurantf'S por garçom de pele preta. gulares que põem em relação Íntima a natureza orgânica e a
Ao corpo se aplicam, portanto, crenças e sentimentos natureza social do homem, onde a Cultura e a Natureza dia-
que estão na base da nossa vida social e que, ao mes~o tem- logam, onde o grupo e o indivíduo se interpenetram. Este é
po, não estão subordinados diretamente ao corpo. O mundo o lugar dos fatos "dos quais Lévi-Strauss (51, p. 154) diz que
das representações se adiciona e se sobrepõe a seu fundamento :c.-eria necessário estudar bem depressa, pois neles a natureza
natural e material, sem provir diretamente dele. As forças social se liga muito diretamente à natureza biológica do ho-
mem.
físicas e as forças coletivas estão simultaneamente juntas e
O estudo da maneira pela qual cadà sociedade pressiona
separadas.
os seus indivíduos a fazerem determinados usos de seus corpos,
Nesse sentido, para que possamos compreender sociolo- e a se comunicarem com eles de maneiras particulares, abre
gicamente o corpo, para que possamos transformá-lo em ob- novas perspectivas para o estudo da integração social, uma
jeto da Ciência Social, é necessário apenas que apliquemos a vez que, por meio dessa pressão, a marca da estrutura social
ele a distinção que os sociólogos formularam entre o que cha- imprime-se sobre a própria estrutura somática individual, de
mamos de aspectos "instrumentais")e "expressi~os" )do com- forma a fazer do psíquico, do físico e do coletivo um amál-
portamento humano. A atividade expressiva éum modo de gama único que somente a abstração pode separar.
dizer ou expressar alguma coisa, uma idéia ou estado espiritual; Nesse terreno, todavia, muito pouco, infelizmente, se pro-
é uma atividade simbólica, à qual convém sempre indagar o duziu, "a este respeito, nada se fez, ou quase nada... Nin-
/ v'
que está sendo dito ou o que significa. Da atividade instru- guém, na verdade, abordou ainda esta tarefa imensa de que
mental, procuramos saber para que serve, a que fim visa. Mauss sublinhava a necessidade urgente, a saber, o inventário í
e a descrição de todos os usos que os homens, no decurso
Tudo o que for expressivo no corpo~ tudo o que comunic~
da história, fizeram e continuam a fazer de seus corpos ... "
alguma coisa aos homens, tudo o que depender das codifica-
(51, p. 151). De fato, os trabalhos que incidem explicita-
ções particulares de um grupo social, é objeto de estudo so- mente sobre este terreno são escassos; representam normal-
ciol§gico. Tudo o que for universal, tudo o que for apenas ment~ artigos programáticos ou formulações de esquemas teó-
instrumental, tudo o que cumprir funções exclusivamente or- ricos que têm por finalidade constituir o estudo da sociologia
46 47
um olhar amplo sobre a apropriação geral que a sociedade faz
do corpo em domínio próprio, diferente do das outras disci- do corpo humano, procurando destacar alguns tópicos que nos
plinas (Medicina, Antropologia, Física, Biologia, etc.). São parecem mais importantes ou, do ponto de vista desse traba-
extremamente raros os trabalhos empíricos de caráter eminen- lho, mais interessantes.
temente sociológico, e muitos dos que dispomos, como os de
Ruth Benedict (4) e Margareth Mead, (61, 62) fizeram-no
de maneira esporádica e assistemática, encarando a's manifes- o Corpo: Vida e Morte
tações corporais como subprodutos das motivações psíquicas
variáveis segundo as diferentes culturas.
No conjunto das modificações que o homem sofre no decorrer
Uma discussão da apropriação cultural do corpo exige de sua existência, há duas mudanças que se destélçam e predo-
que tomemos por base o exame d.~uma larga relação de formas minam sobre as outras: o nascimento)e a m?rtc.) Rechaçada
culturais possíveis, porque somente assim poderemos distinguir como tabu na vida cotidiana, a morte está, não óhstanle, pre-
entre os comportamentos humanos que são culturalmente con- sente, em todos os momentos, nas mitologias, no ritual, no
dicionados e os que são comuns a toda a humanidade; além inconsciente.
disso, como vimos, a introspecção simples não pode na maioria Os nossoS jornais relatam e dissecam dezenas de mortes
das vezes nos fazer distinguir entre os compd:tamentos "ins- diariamente. A morte exerce fascínio e é ambicionada merca-
tintivos" e os culturalmente determinados, já que tende a to- doria jornalística. O espectador dos meios de comunicação de
mar como naturais os comportamentos específicos do grupo a massa, como diz, Kientz (37, p. 140), "é um espectador in-
que o indivíduo pertence. saciável dos casos de morte". O jornal e o cinema fazem re-
Todavia, ao utilizarmos dados extraídos de diferentes cul- verberar o tabu de morte, vendendo para cada um de nós
turas, tomamos consciência dos limites desse procedimento e um sentimento que está reprimido na profundidade de cada
procuramos nos resguardar da suposição de que possamos in- alma.
ferir a significação de cada um deles fazendo abstração do De fato, esta exaltação da morte nos diários contrasta
sistema a que cada um pertença e do contexto etnográfico em com a sua silenciosa dissimulação na vida cotidiana, em que
que este sistema mesmo adquire significação. Pelo contrário, a ela é banida das conversas, obscurecida por metáforas e es-
exposição que segue procurará demonstrar que em Antropolo- condida das crianças que podem ver os cadáveres empilhados
gia duas coisas podem freqüentemente ser a mesma coisa e nas telas de cinema e televisão, mas. a quem é furtado o
que uma coisa normalmente é duas ou mais coisas, segundo conhecimento da realidade da morte em seus CÍrculos familia-
as variações dos sistemas culturais. res, e de quem se afastam os velhos, porque estes seres enru-
Os dados de diferentes procedências etnográficas que en- gados, curvados, decrépitos, são capazes de transmitir a idéia
tram na composição do texto seguinte apenas cumprem a fun- de decadência e morte. Quantos j()vens ..viram ou se aproxi-
ção dupla de nos fazer sair de nós mesmos, para que nos maram de um cadáver? - ---- .-
possamos apreciar como objeto, e de colocar intelectualmente Ninguém permanece perto de um cadáver, sem que sua
as mesmas coisas em novas relações, de forma que possamos fisionomia ateste que é precisamente um cadáver o que está
deduzir novas relações e novos conhecimentos. vendo. Se a pessoa não está habituada, apresenta certas .r.ea-
ções típicas, ousa olhar rapidamente para o cadáver e afasta
os olhos imediatamente, de maneira a não deixar dúvida de
Antes de procedermos à análise específica e mais deta-
que'quer separar sua visão de algo que não quer ver; há quem
Iha_dª_de um dos tabus do corpo, as evitações chamadas de
cubra os olhos e quem desmaie.
(nojo"! - o qtiêfaremos no capítulo seguinte - vamos lançar
49
48
o certo é que o morto, como as coisas insólitas, anormais f;'-(;U_ servirá a ele como seu mais poderoso fetiche (12, p.
ou ambíguas, constitui um ser impuro, cujo contato representa 1(". h).
,\
perigo para o mundo das normas. Em muitas sociedades, amea- A morte tem mana e atribui mana~!David Sudnow (68,
ça manchar a todos e a tudo que tem ou teve contato com ele I' 11) relata o estigma que recai nos hospitais que estudou
- incluindo os seu&pertences - já que tudo que se relaciona ",Iue os indivíduos que se relacionam com cadáveres. Descreve
com ele participa de sua perigosa personalidade: se ele é tabu, .1' ••.. ~empre que se constata a presença desses indivíduos, des-
são também tabu suas propriedades, sua casa, seus parentes, . ,,"l1a-se da ocorrência de morte; de onde quer que esses in-
seus amigos. Estes, segundo os casos e em grau variáveis, se .I,v"llIllS venham, e para onde quer que eles se encaminhem,
tratam com cuidados especiais, se evitam, se destroem ou se "lU ~empre vistos e imaginados como indivíduos que recolhem
-purificam. ..••laveres, ou que se acham envolvidos nas horripilantes tare-
Em algumas sociedades, como entre os'Maori,: os que to- I,,'. de necrópsia. Vistos como poluídos por causa de suas ati-
caram um morto, ou participaram de seu enterro, estão ex- "I( Lides, estes indivíduos tentam dissimular de toda maneira

tremamente poluídos. Qualquer contato com outras pessoas n, aspectos mais degradantes de seus misteres: evitando falar
lhes está interditado. Estão proibidos de entrar em casa ou 'I(' ;I~;sllnto,não usando guardanapo manchado de sangue; dis-

tocar algum objeto, sob pena de os tornarem impuros também. "lIl1lando que fazem a limpeza do chão depois das autópsias,
Nem sequer tocam com as próprias mãos os seus alimentos. d. f~ fácil verificarmos este poder negativo nas conotações
Apenas indivíduos miseráveis e abandonados que vivem de es- '''I',;ltívas com que vemos os "papa-defuntos", os coveiros e
molas podem se aproximar deles. Ao fim desse período de 1".1,,-; os que de ·uma forma ou de outra se relacio,nam com a
~uo~h~_
isolamento tudo o que teve algum contato com eles, tudo
o que os serviu no tempo de perigo, é sumariamente destruído .i'auto isto é verdadeiro, que nos hospitais existe uma evi-
e eles são purificados. Coisa fundamentalmente parecida acon- .klllc divisão de tarefa na maneira de se lidar com cadáveres.
tece com osbayaks(marítimos que praticam o enterro imedia- '., lllL:dicos que entrevistamos (e o trabalho de Sudnow (68,
tamente após a morte, porque acreditam que se o conservassem I' 100) o confirma, somente tocam cadáveres quando
')j, 97,
perto por muito tempo estariam se expondo a sinistras influên- d"'I',lIosticam a morte ou realizam autópsia, considerando a
cias. A mais simples observação de nossos costumes demonstra IILlIlIl'ulação de corpos mortos um trabalho de menor dignidade,
que não sentimos coisa essencialmente diferente. d,-;llIIado às pessoas de status menos elevado. Os médicos e
A morte reconhecemos uma eficácia ritual. A morte tem , ••IClmciras de status mais elevado são normalmente os que
mana. Basta olharmos em volta dos muros dos cemitérios e IIIIIIOSchance têm de presenciar falecimentos e de ver cadá-
VI I CS, C os que menos probabilidade têm de os manipular fi-
veremoS a quantidade de ritos mágicos de que ela é objeto.
'.1' ;Ullcnte, já que "o trabalho de locomoção e preparo dos
Ritos que exprimem o seu poder temível. Entre certos Pigmeus,
a iniciação dos magos exige provas para o ingresso na socie- , .••bveres é feito por pessoas de menos nível", conforme nos
dade secreta dedicada à magia negra, muitas delas ligadas ao d"iaroll um informante médico. Num dos hospitais que
contato com a morte e com a impureza: em uma delas se ',IIdllOW estudou, a tarefa de preparar os cadáveres estava a
coloca atado, peito contra peito e boca contra boca, o can- ,.11/',0 de funcionários de baixa posição, 95 % dos quais eram
didato, a um cadáver, levando-os, ambos, para o fundo de ItC;',1 OS~

um fosso, que se cobre de ramagens, onde permanecem três


dias; outros três dias, o neófito passa em sua cabana, atado
ao morto que se putrefaz e de cuja mão ele deve se servir i A morte não pode ser esquecida com facilidade. Sobretudo
para a alimentação, esta mesma mão que, depois, posta para 'I";I(\do se trata de uma pessoa próxima, é talvez o golpe mais
51
50
\I!

violento que a existência dirige ao homem. Ela significa uma ,L"" i qualquer: é necessano dar-lhe uma sepultura. Não por
terrível ameaça ao grupo humano e exige alterações substan- 1I111'1e~; gesto instrumental de motivação higiênicà, mas por
ciais na organização da vida, sobretudo quando é inesperada. "I" "',,Il.::I\) moral e por necessidade de exprimir alguma coisa.
,\
A morte de uma pessoa adulta significa normalmente dor e 11" I :;(~ poderia explicar, por exemplo, o enterro, por motivos
solidão para as pessoas que sobrevivem a ela: verdadeira chaga l,,,,.,mente utilitários (afastar a sociedade de uma possível fonte
que põe em risco a vida social. ,I, ,!<-mentos patogênicos), porque, se isto fosse verdade, não
Vau Gennep (32) e Hertz (35) mostraram que a morte, , ,,,tenderia o porquê de algumas sociedades enterrarem os
para a consciência coletiva, representa um afastamento do in- " llll'mbros antes mesmo de estes falecerem.
divíduo da convivência humana; esta exclusão, entretanto, tem (l l"nterro, e as outras formas de se lidar com o corpo
um caráter temporário e tem por efeito fazer! com que o morto ",,,010, L: um meio de a comunidade assegurar a seus membros
passe da sociedade palpável dos vivos para a sociedade invisí- 'I'" ,. indivíduo morto caminha na direção da ocupação do
vel dos ancestrais. Como fenômeno social, a morte consiste na '11 hll~ar determinado, devidamente sob controle. Estas práti-
. \ \
"realização do penoso trabalho de desagregar o morto de um " ,omunicam ao grupo uma mensagem que evolui da inse-
:(domínio e introduzi-Ia em outro. A feitura desse trabalho exige ,"1,1111;:' ao sentimento de ordem, e representam a maneira
~oda uma desestruturação e uma reorganização das categorias I'" 1.11 que cada grupo tem de resolver o mesmo problema
mentais e dos padrões de relacionamento social. E, apenas ao I ,,,,,LIIllcntal: o drama da finitude humana.

termo desse doloroso esforço, o grupo se recobra, restabelece ,Inlz (35, p. 34) relata que, entre os lndonésios, os
sua paz e vence. I' ", lIic'" C particularmente a viúva, têm obrigação de recolher,
Nessa passagem de um mundo a outro, do conhecido ao L I, illPUS em tempOS, os líquidos produzidos pela decom.po-
desconhecido, do seguro ao misterioso, o indivíduo recebe um "H, do'; cadáveres, a fim de aplicá-Ios sobre o próprio corpo
acondicionamento que se concretiza em ritos que o preparam ," .k lllisturá-Ios aos alimentos. Aqueles que observam este
para a nova vida; muda o nome, as roupas, ou o gênero de ,,111. .1 justificam-no alegando que o afeto pelo defunto e a
vida. Este estágio intermediário, intersticial entre um mundo I. 1.I,f,\ que sobre eles se abate, em virtude de h:wer perdido
e outro, coloca em jogo forças perigosas. Entre a desintegra- • ',11,\ presença, os obrigam a proceder dessa maneira. Obser~
ção do indivíduo excluído de um mundo e a sua integração à .1 ftllbvia, que esta alegação não basta para explicar o rito,
sociedade dos mortos, pratica-se uma série de procedimentos " 'l'I<" ele é estritamente obrigatório, inclusive ameaçando de
rituais que visam completar o processo e proteger a comunida- 1'"I1I'"IU capital às mulheres que não o ob3ervarem. Diz ele:
de. Ninguém estará livre do perigo antes que o processo fune- 11.1<1 :,c trata, pois, simplesmente de um sentimento individual,
rário esteja completado em todas as suas etapas, e antes que iI", de uma participação forçada de certos sobreviventes à
todas as coisas estejam em seus devidos lugares. "'1,,1";;10 presente do morto".
Nesta fase intermediária, o grupo está sujeito à ação das TI :lIa-se de manobras sociais, por meio das quais o grupo
forças nefastas que a morte irradia - forças nocivas que amea- ".d 11\11:1, por meio do morto, a solidariedade do grupo a que
çam o homem. Deve, então, se prevenir e se munir dos re- ,J, 1"lIl'nCeu. Coloca-se a morte no seu devido lugar e evita-se
~
cursos simbólicos capazes de alterar essas forças e de neutrali- .1"111 que ela continue agindo no interior da sociedade. Os 1< '

zá-Ias. É necessário exorcizar o cadáver, a morte, e tudo o que I","'lIlcs próximos, que realizam estes atos, comungam de al~
diga respeito a eles. Nesse ponto está a inspiração das práticas 1'"111.' lorma com o defunto; imunizam-se a si mesmos e evitam
funerárias e de seu valor expressivo. '1'11 .\ sociedade sofra outras infelicidades; acreditam que ab-
Valor expressivo, porque, por tudo o que se disse, o '" V('11l as qualidades do morto ou a potfncia mística que re~
,.1.-' IlO cadáver, tornando-se, assim, capazes de a controlar.
corpo humáiiomorto não pode ser considerado como um ca-
53
52
Entretanto, estes parentes estão em contato íntimo e sólido 1.llIlIlIa se deitava fora porque, na sua dor, esta não podia
com a morte - o que é um argumento para a comunidade 10, 1"lcresse por coisas que lhe pertenciam nem utilizá-Ias. As
completar a construção de uma muralha protetora em torno I'" 'I" ias tendas eram desmontadas e dadas a outras pessoas.
de si, expulsando-os temporariamente do seu convívio. Uma 11.,.Ia ficava para a viúva, além do cobertor em que ela pró-
prática parecida, o próprio Rertz diz existir entre os Dayaks, I" 1;1~,e envolvia. Os cavalos favoritos do morto eram levados
")' de Bornéo, que promovem a comunhão com os mortos mis- ,,, I'l' de sua campa e aí mortos, enquanto todos gemiam".
turando com arroz os líquidos que provém da decomposição Um dos costumes mais comuns entre os diferentes povos
do cadáver, fazendo com que os parentes próximos se alimen- , que em certo grau podemos constatar entre nóS mesmos -;
tam dele durante o período fúnebre. , .'1l:.lsle na proibição de se tocar no nome do morto em deter-
Entre os Bororo verifica-se a dupla inumação. Realizam IIIIII;l(losperíodos, ou sem observar determinadas condições.
um primeiro enterro, rápido, quando durante várias semanas 1',11.1 alguns povos, inclusive, o pronunciar o nome do morto
se joga água sobre o cadáver para apressar a decomposição. .••• determinadas circunstâncias, ou diante de determinadas
Quando esta se encontra adiantada, abrem a sepultura e lavam IH'c,nas constitui uma profunda ofensa, sujeita a penas com-
o esqueleto, retirando dele todas as carnes. Pintam, então, de l,""veis às dos mais graves crimes. Outros grupos costumam
vermelho, os ossos, e os enfeitam com plumas. C-olocam-nos I.,,, ;11 o nome do morto imediatamente apóS o seu falecimento,
em um cesto e os submergem, em ato solene, em um rio ou ". ;lImlo as proibições de citar o nome sobre o anterior. O Ir!

lago, onde moram as almas, completando o processo (53, p. I "." do nome em alguns povos atinge o extremo de deter- II,i

193). A.. água e a morte, em decorrência disto, estão para '""',;l' ('Om que todos os que possuem nomes idênticoS ou 'i

'li

sempre associadas no pensamento desses indígenas. Para evitar I "liidos ao do defunto tomem outros diferentes; ou ainda de ii
I
associação com a morte, provavelmente, os Esquimós pres- ,tilll a modificação do nome de animais ou coisas quando
crevem que a morte deve ter lugar fora das casas. Talvez .. 'HHil1cntes com o do falecido.
encontremos também, nesse ponto, a explicação de porque, () nome, de qualquer maneira,' está associado àquele que
nos nossos velórios, se coloca sempre o defunto com os pés ••I ,ri a, sendo uma parte constitutiva da identi~ade social da
Jt
voltados para o lado de fora de casa, e porque a tendência 1"".:,lla.Portanto, é lógico que possa ser envolvido no tabu que
a velar o corpo em lugares especialmente dedicados a isto .ll! n:speito ao defunto. Pronunciar o nome de um morto é
(capelas), abandonando-se as residências. '"11;( forma de entrar em contato com ele, ou, o que pode ser I,
Ruth Benedict (4, p. 78) narra que "nas planícies do •••.11';I',rave, de invocá-lo.
oeste a atitude do sobrevivente durante o luto era tudo o Todo esse trabalho social ligado à morte diz respeito
que há de mais distante de uma tal ansiedade: era um ren-
"'l'l'dfico a cada sociedade. Quem pode pronunciar o nome
der-se dionisíaco a uma dor sem restrições. A conduta seguida .1., lIlorto e quando, o que se pode comer e como, como se
intensificava, em vez de evitar o desespero e o abalo que a 1'.llar () corpo do morto, vestindo-o, lavando-o, pintando-o,
morte implica. As mulheres golpeavam a cabeça e cortavam: I" balido os orifícios corporais, mutilando uma parte de seU
os dedos. Longas filas de mulheres com as pernas nuas a •••1po, enterrando-o, cremando-o, quem deverá temer, quem
verter sangue atravessavam o acampamento quando morria ,kverá chorar _ tudo isso é função de cada cultura e expressa
qualquer pessoa importante. Não limpavam o sangue da cabeça 1',II1icularidades de sua própria cosmologia e de sua estru-
nem das pernas, deixando formar uma crosta. Logo que o ;I social.
111I ! r t'

corpo saía da tenda a enterrar, atirava-se ao chão, para quem Não obstante, os antropólogos têm observado que os
o quisesse, tudo que nela existia. Os bens próprios do morto
não deviam ser poluídos, mas tudo () que existia em casa da
1'11Il:t';dimentosfunerários mostram uma similaridade bastante ,
'",I;lIltlc através do mundo e através da história. Parece que, 'I
55 '
54
em todas as sociedades, o ato de morrer, talvez o mais Íntimo I"L' si; isto é, na sua solidão, pode levá-Ia com ela ( ... )
da existência humana, é transformado em uma ocasião pública. '""I conseqüência, é tratado com todas as precauções com que
Há quase sempre uma manifestação de tristeza mais ou menos
I", .1 pessoa que morreu. Deve isolar-se durante quatro dias
real, mais ou menos convencional. O cadáver é sempre con- 01, loda a vida corrente: não deve falar com ninguém nem
siderado peri.goso ou repugnante. Há sempre ritos que cum- ,,"q',II{~mse lhe deve dirigir; toma um emético todas as manhãs
premarriisslÍorle preparar o morto para sua viagem em 1'''.1 :;e purificar, e sai da aldeia para ofertár com a mão es-
direção ao outro mundo. Mallinowski (57, p. 49) observa a 'I'" "Ia milho moído, fazendo girar quatro vezes a mão em
dupla e contraditória tendência de, por um lado" preservar 1"1110 da cabeça e arremessando o milho para 'arrancar de si
o corpo, deixar suas formas intactas, ou reter partes do mesmo, " ,it:')',osto', como se diz. No quarto dia crava no chão as varas
e, por outro lado, o desejo de despachá-lo, de aniquilá-lo .I, OL,r pelo morto e roga-lhe, na única prece que em Zufi.i se
completamente. Para ele, a mumificação e a cremação corres-
01111)',1' a um indivíduo natural ou sobrenatural, que o deixe em
pondem às duas expressões extremas dessas tendências, I"!, q lIe o não arraste consigo e que lhe conceda:
enquanto o canibalismo mortuário - praticado, ao mesmo
tempo, com extrema repugnância e asco, e em nome da reve-
rência, do amor e da devoção que se dedica ao morto _ Toda a vossa boa sorte
representa o ponto intermediário, onde elas se encontram e Que nos guarde ao longo
conflitam. E acrescenta: "é impossível ver a mumificação ou De um caminho seguro."
a cremação ou qualquer forma intermediária como determi-
nadas pelo mero acidente de crença, como um traço histórico
de uma ou de outra cultura que ganhou sua universalidade
pelo mecanismo da difusão e do contato apenas. Porque nesses 1\ morte de um homem ou de uma mulher, para um
costumes está claramente expressa a atitude mental fundamen- r' "po de reduzidas dimensões, é um evento de enormes pro-
tal dos parentes, amigos ou amantes sobreviventes ... " 1""';O(;S. OS parentes e amigos são abalados no mais profundo
A descrição de Ruth Benedict (4, p. 76-8) do seguinte ,10 :;lIa vida emocional. A morte mutila uma sociedade pequena
110 IlIgar do morto deixa um vazio indisfarçável. Ela quebra
ritual resume tudo o que estamos tentando dizer: "(Aos ,

é
Zufi.i), o qlle mais interessa que a pessoa enlutada esqueça
,. ,IIIS0 normal das coisas e questiona as bases morais da
",wdade, ameaçando a coesão e a solidariedade do grupo
( ... ) Reúnem-se para alimentar o morto pela última vez e
despedi-Ia ( ... ) .Então, expulsam-no da aldeia, levando-o I",do em suaintegridade.
para fora dela (e) enterram tudo (o que era seu). Voltam A reação do homem é um impulso contrário a essas
para casa a correr e sem olhar para trás, e trancam a porta
Iolt;~IS desagregadoras. A violência das manifestações contrá·
contra o morto, gravando nela com uma faca de sílex uma 'L"; a morte significa que a sociedade continua viva. Quanto
'Il.W; da chora, quanto maior a sua dor, tanto mais intensa
cruz para evitar que ele entre, o que corresponde ao formal
rompimento com o· morto. O chefe fala às pessoas, dizendo- .• ~,lIapresença na alma de seus membros. A sociedade reaje
, "111 veemência igual à da força que a feriu. Os indivíduos
lhes que o esqueçam para sempre ( ... ) Despedem as pessoas
IlIl1lc;l a amam tanto quanto quando ela é ameaçada. Visa
e terminou o luto. Mas qualquer que seja a tendência de um
, "111 isto reagir ao desabrigo a que seus membros se viram
. povo, a morte é um fªto iIl1piedosamente iniludível ( ... )
',"hllletidos, restabelecendo, pelo calor da solidariedade dos
uma morte que toca muito de perto uIl1a pessoa nem mesmo
tl'W ficaram, a integridade do grupo. Aproximando-se, os
em Zufi.i é coisa fácil de esquecer ( ... ) o cônjuge que sobre- ,t ,hrcviv'\'utes conseguem ocupar o vazio deixado pelos que
I'
,J
,
vive corre grande perigo. A sua falecida mulher pode puxá-lo partiram.
56
57
Tudo isto porque os efeitos da morte não se restringem ""III',entes, os militares,
os sacerdotes, merecem, cada um, um
absolutamente a dar termo à existência material do homem. I" '" n hmento particular. Em muitas sociedades, o cadáver de
Ela atinge, diretamente o capital investido nesse corpo pelo li'" :,lIícida suscita um pavor especial e mais intenso, e por
grupo social. Ela incide sobre uma individualidade física car- ." (' imediatamente abandonado. Entre nós, cristãos, os
regada de sentido. Quando um homem morre, não é apenas "" "Lis não podiam ser enterrados no mesmo cemitério que
uma fração do grupo que foi roubada: algo de dignidade infi- ",orlos regulares, nem suas sepulturas receber a bênção
nitamente mais elevada foi afetado - a própria estrutura " li dotal, acreditando-se que iam para o inferno. Mas, se,
social, que se reproduz no organismo. Atingido em seu I'''' IIIll lado, o suicídio pode gerar entre os parentes que
princípio
desmoronar. mais sagrado, o edifício social corre o risco de "\·,.-vlvem um certo sentimento de vergonha, por outro, os
"t',,"viventes de um suicida altruísta, de um mártir, de alguém
Aí está a razão do pavor 9ue a morte inspira. A putre- I'" :,(' deixou morrer em defesa dos ideais patrióticos, dos
fação, a decomposição, não ameaçam apenas a material idade "'''li":; da moralidade coletiva, dele podem se orgulhar, e sua
corporal, já que, a ser isto verdadeiro, todos os corpos deve- "', ", ••, Ia se torna, para sempre, objeto das mais solenes
' 'i riam provocar o mesmo horror. Entretanto, a experiência I' '.'I"I("IlClas.
I
J

etnográfica demonstra que o sentimentO que' a morte deter- J'alllbém é diferente, e mais branda, a reação que a morte'
Dilria varia enormemente com o tipo de morte e com a qua- ,I, • I ,a 1I~:as produz na consciência coletiva. Na realidade, a
lidade do morto. A morte do rei, do governante, ou de qual- '''''''lLtídade investiu nelas pouco mais que esperança. Não
quer alto mandatário, é normalmente seguida de intenso 1,. ""li a Ihes imprimir a sua marca. Sente-se pouco atingida.
assombro, pois nele se resume toda a personalidade social. A 1, ••1" ::c passa como se fosse uma morte menor. Um fenômeno
morte do rei anuncia a iminência do caos. A decadência de ".I", :;ocial", como diz Robert Hertz (35, p. 80). Em muitos
sua majestade se apresenta aos homens como catastrófica, I '''I'II;IIS, os natimortos são lançados ao lixo.
deixando-os perplexos. À iminência do caos, muitos povos I J;í ainda a morte insólita, ocorrida fora da rotina, longe
respondem com rituais de inversão da ordem, procurando
,L.. !"evisões, colhendo de surpresa os sentimentos sociais,
produzir, sob controle social, a desordem que poderia provir '.,,, os desastres, a morte do casal que retoma da lua-de-mel,
de fontes implacáveis: nas ilhas Sandwich muitos matam, ,I., I' )vem assassinado no dia de sua formatura, do rapaz J

pilham e incendeiam, enquanto as mulheres se prostituem.


I,,1"'lIIado por um raio, do filho que morre eletrocutado ao
Reações da m'esma natureza podem ser vistas nas ilhas Fidji. I' "1." salvar o pai, as chacinas e monstruosidades. Estas
Esta licenciosidade ritual é obrigatória e não tem fim, muitas
Il''',il-:; provocam uma comoção especial: ferem incisivamente.
vezes, antes que a decomposição do cadáver real se complete
11. 11'-'11ser seguidas das mais cristalinas reiterações dos sÍm-
e não reste senão um esqueleto imputrescíveL O terror que
1 •• ,1••,; de solidariedade. Os Ao-Naga, familiares de um morto
àcompanha a morte do rei coloca-se acima das divergências
políticas profanas: aponta, de modo inequívoco, para a extre- I'''' acidente, matam todo o seu gado, permanecem seis dias
ma precariedade da organização social, trazendo, para a "" sair, deixam de lado tudo que pertenceu ao defunto,
proximidade da consciência, a possibilidade de uma existência • "1I',llOcm outra casa e passam a viver miseravelmente. Na
anômica que não poderá mais ser humana. \II';h;ília, os que morreram por acidente não são conside-
Além disso, o gênero de morte determina reações dife-
,,,dos merecedores de honras fúnebres (12, p. 123). Em
rentes no trato com o cadáver, o que se expressa na diver- 1I11111associedades, o grupo que teve um de seus membros
sidade das fórmulas rituais. Os que sofrem mortes violentas, ;I','.;,·;sinado por um membro de outro grupo acha-se no direito,
as mulheres virgens, as crianças, os natimortos, os suicidas, fllI na obbgação, de matar um membro do grupo do assassino.
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59
o horror que o cadáver inspira, portanto, não tem a ver , '" Ldlllcnte agramaticaL Mas deixa claro que, nos ritos e
essencialmente com as transformações naturais que se operam , " "',.1\ funerários, a Cultura busca se impor com todas as
no corpo. Estas transformações, por elas mesmas, não signi- 1"","',llCS com que tenta estruturar o mundo: Natureza /
ficam tanto. Elas valem, na realidade, por aquilo a que reme- , "li,,, a, Sagrado / Profano, Puro ! Impuro, Próximo I Dis-
('onformidade / Desvio, Ordem / Desordem ...
tem o espírito do homem. Nenhuma sociedade pode suportar , ",I"

"
um corpo alheio ao controle cujo aprendizado é uma das ,\ ';ociedade tem que se apropriar desse processo natural
primeiras tarefas, que ela impõe ao recém-nascido. Por isso, 1''''1'1(', se os indivíduos morrem, ela, pelo cuntrário,sobre-
tratamos o corpo cuidadosamente depois de sua morte: ves- " \(" ela vê no homem a sua imagem projetada, gravada,
timo-lo, fechamos-lhe a boca e os olhos, obturamos-lhe todos I, "\:15 que o constituem devem ter a mesma perenidade.
os orifícios pelos quais ele pode manifestar alguma atividade \ .1,',lllIição do corpo turva a sua imagem, sobretudo enquan-
de uma natureza escapada ao oomÍnio da coletividade. " ,,," se consome. Obriga a sociedade a refletiisobre si e
:f: esta atividade incontrolada que sobrevém ao cadáver I" ,meus a pensar em seus destinos. Evidencia-Ihes suas
- e que o consome - que a sociedade não pode suportar. "I""ahilidades. Para uma sociedade que se crê imorta.l, o J
E preciso esconder, apressar, intervir de alguma forma. Enter- I" l.lClIlo de degradação do objeto em que se vê não pode
rar, comer, cremar,' são formas de interferência, tentativas IIportado. Não pode suportar que os membros que a
simbólicas de definir o irreversÍvel processo por caminhos ••I" ";nllam, que os corpos em que existe, estejam destinados
demarcados. Assisti certa vez, em um programa de televisão, , I' I (Ter. f: bastante comum dizermos que a morte é trai-
a um debate sobre a cremação, tendo os participantes quase " " pois diante dela nos sentimos como vítimas: difici!-
.1

unanimemente tomado o partido desse processo como um "",10- perguntamos "por quê?", quando nos noticiam a morte
método "mais econômico", "mais racional" e "mais digno". I, ,,,,n pessoa, mas "de quê?"
A cremação, como o cozimcnto, representa uma transformação í ;Ida sociedade dá à morte a sua {.esposta e esta resposta
culturalmente orientada. IIIILIespécie de teste projetivo da estrutura social. Mas todas
A transformação culturalmente canalizada aparece real- ,I, "'<;pondem ao mesmo problema: a morte do símbolo que
mente aos indivíduos como "mais digna". Um jornal de 4 de • pu é, A morte do corpo é a morte do símbolo daestru-
"11

setembro de 1973, traz a notícia de haver sido derrotado em IlIll ',(leia!, é a evidência da entropia, é a imposição ao homem
primeira instância um recurso contra a medida do prefeito da .I, ',I' pensar na finitude" (1, capo 9).
cidade de Pirassununga, no estado de São Paulo, que mandou () que se teme na morte é exatamente o que ela tem de
retirar do cemitério municipal um epitáfio que continha os 111' 11 "", c por isso se procura dar ao cadáver aparência de
seguintes dizeres: "Bípede, meu irmão: eis o fim prosaico ,,,L, vestindo-o, engravatando~o, banhando-o, maquiando-o,
de um espermatozóide que, há mais de oitenta anos, pene- .I11,dll lhe, enfim, uma "boa aparênch'). As flores, com que
trou um óvulo, iniciou o seu ciclo evolutivo e acabou virando , ,0111 III")S os cadáveres, cujas pétalas separamos e lançamos
carniça. Estou enterrado aqui. Sou o Chico Sombração. Xingai 11.1', \('IHl!turas, que enviamos em coroas, estão presentes tam-
por mim." Aí se recusa o enquadramento cultural, pois se I" em outros ritos muito proximamente ligados à vida
11 I

descreve o processo de transformação em termos puramente (.lIl1vcrsários, casamentos, nascimentos, convalescença, corte,
naturais; substituem-se por palavras profanas os termos sagra- '\11" Novo, etc,), e, se quisermos aprofundar, são os órgãos
dos que deveriam figurar; impele-se para a natureza, a comu- I'~'vonsúveis pela reprodução da vida vegetal. ..
nidade; matam-se as esperanças de ressurreição e de vida (h ritos que lidam com a morte solucionam o problema
eterna. Fala-se na primeira pessoa, quando os mortos devem
'1111' da ,implica, prometendo, implicitamente, a ressurreiçã() e
silenciar. Ameaça-se. Peca-se. No contexto, a expressão é " VIlIa eterna. A noção de morte está sempre ligada à de
60 61
ressurreição, e esta ligação não se dá explicitamente, apenas, I Ld'IOS, das faces, decepamento das falanges, perfuração
nas religiões institucionalizadas: o avanço material já permite 1., • "IVldo, amputação das unhas, circuncisão,' inscrustrações,
a alguns (ou a milhões?) a audácia de sonhar com um conge- 'I" ,,,I.lIIICllto dos dentes, deformação cefálica, atrofiamento
lamento, na esperança de que a ciência do futuro lhes possa ,I. IIwlllhros, obesidade, compleição atlética, prescrição de
devolver a vida. E cada povo tenta trazer a certeza dessa '" ., I,lrma e cor considerados desejáveis esteticamente, pin-
vida eterna~pâra perto de si, lançando mão dos recursos que I,,,, .1:1'; unhas dos pés, das mãos, barbeamento, corte de
lhe parecem viáveis - quer recuperando, após o luto, os .1"1,,, Iransformações de coloração da pele por meios quí-
nomes que haviam proscrito, dando-os às novas crianças que "'" ,. 011 físicos; tatuagem (injeção de pigmentos embaixo da

nascem, quer carregando no peito as caveiras dos' parentes I" I, IIcando a superfície inteiramente lisa), moko (estrias
falecidos (como as viúvas Bena-Bena, de Nova Guiné), quer '" ,I" ;I(Lassobre a pele e sobre as quais se esfregam pigmen-
expondo os corpos mumificados dos grandes líderes e os ossos I T,"kil/a (introdução de uma agulha e linha impregnados).
de sacerdotes e arcebispos (como no convento de Santa Cata- I ';Hla urna dessas práticas se explica por uma razão
rina, no Monte Sinai), ou ainda, assimilando, por meios cani- " " I,. "Lar, ritual ou estética: ritos propiciatórios, marca tribal,
balísticos ou não, as virtudes das grandes personalidades que '1'11" de status social, ritos de passagem, etc.; os japoneses e
desapareceram fisicamente, mas que não podem perecer moral- ", 1'"IIIII;sios,entre outros, são conhecidos pela extrema sofis-
mei'lte. Hertz constatou, em todos os ritos que estudou, que as ""li'" c pelo agudo refinamento de seus trabalhos sobre o
partes moles dos cadáveres, quando não eram preservadas ,,' I'" especialmente no que diz respeito à habilidade de
por procedimentos artificiais, eram pura e simplesmente des- 'dl!lI Militas vezes, essas marcas fazem referência direta a
truídas. E nós mesmos tomamos, como símbolo da morte, a " Li< •••• ,; sociais: o amor à mulher, o amor aos pais, o elogio

caveira - exatamente o que, da morte, fica. O que se teme , 1."', ,tO social a que se pertence... Em ~ada sociedade
na morte é exatamento o que ela tem de morte, e o que I" "k, ';1: ia levantar o inventário dessas impressões-mensagens'
nela se cultua é o amor à 'vida.
, ,k.,obrir-Ihes o código: bom caminho para se demonstrar,
" .. ',llpnfície dos corpos, as profundezas da vida social.
f'-!;tohá, praticamente, sociedade que não fira de alguma
o Corpo: Suporte de Signos
1"'.111:1 [) corpo de seus membros, havendo, inclusive, prefe-
j, 11' 1.1'; que podem parecer estranhas à primeira vista. Por que
Que o corpo porta em si a marca da vida social, expressa-o
, ,. HIHlllência largamente difundida no espaço e no tempo, da
a preocupação de toda sociedade em fazer imprimir nele,
fisicamente, determinadas transformações que escolhe de um
I'" IlIl'Ilcia pelas partes genitais? - perfurando ritualmente a
",,11.1. na base do pênis, para controlar a fecundação (disci-
repertório cujos limites virtuais não se podem definir. Se con-
....• da metra); furando o prepúcio e introduzindo algum
siderarmos todas as modelações que sofre, constataremos que,
o corpo é pouco mais que uma massa de modelagem à qual a ,,1'1,111 que impossibilite as relações sexuais; ou costurando as
sociedade imprime formas segundo suas próprias disposições: 1"'lldes da vulva de forma a reduzir o orifício vaginal (infi-
formas nas quais a sociedade projeta a fisionomia do seu III,LiI:ao); praticando-se a excisão do clitóris, ou procedendo
próprio espírito. I lalllotomia; abrindo parcial ou totalmente a parte inferior
01'1 mdra peniana, de forma a fazer com que homens e mulhe-
Arranhando, rasgando, perfurando, queimando a pele _
imprimem-se cicatrizes-signos que são formas artísticas ou 11", assumam a mesma posição ao urinar; distendendo os
indicadores rituais de status, como as mutilações do pavilhão 1f,l>lospor meio de manipulação ou outros métodos; escari-
auricular, corte ou distenção do lóbulo, perfuração do septo, Ihulldo-us de modo a colarem-se durante a cicatrização; pra-
62 63
ticando a circuncisão; a castração total ou unilateral; ou o '" "'.',lIlade de combater a inflamação prepucial, a fimose, o
desvirginamento ritual. . . , ,I" vlIlvimento da resistência da mucosa da glande, é pro-
11

Todas essas intervenções da comunidade sobre o sexo 1,'!1I racionalizações que se destinam a legitimar uma prática

são maneiras de ela tentar controlar - agindo sobre o órgão ,111 dúvida muito anterior ao argumento. A origem dessas
:- uma função cujo exercício deve responder pela própria I"li I, ;\'; é social, não havendo outro fundamento: são signos
contiImidade da~1(i~t~Ilcia do grupo humano. Não têm, por- d, I'('rlínência ao grupo e de concordância com os se1.IS
tanto,' importância maior que a sociológica. Nesse ponto, a 1" "" 'pIOS.

reprodução da espécie e a persistência das tradições sociais


se encontram, e o sexo se transforma em um bom objeto para
materializar os sentimentos da comunidade acerca de sua o Corpo: Fome de Símbolos
sobrevivência.
Portanto, nenhuma prática se realiza sobre o corpo, sem I "I',lIlam-Se os que pensam que o sistema gastro-intestinal
que tenha, a suportá-Ia, um. sentido genéricÇ) ou específico. ',!lIde por meio do qual o corpo se relaciona fundamental-
'''' "to' com objetos. Na realidade, são as convenções sociais,
Não há razões para se supor que as pessoas a elas se subme-
,,,"" se sabe, que decidem o que é alimento e o que-não é
tam a contragosto ou sem conformidade intelectual: aqui todos
,1","",,10, bem como quem pode comer o quê e quando.
concordaram que o ladrão devesse ter a mão amputada; ali,
I', ,!I,mlo, podemos esperar encontrar uma relação mais ou
que as mulheres que ultrajaram o marido devessem ter o
"" ,:; líntima entre os tipos de alimentos conhecidos e aceitos
nariz cortado; 'acolá, que os homens, diferentemente dos ani-
mais ou dos seres impuros, deveriam ser circuncidados, ou que I" ': mIRa população e o gênero de estruturação social da
,mmnidade. AnaIogamente, é bastante provável que exista
as mülheres deveriam ter os lábios vulvares distendidos, para
poderem ser consideradas belas e desejadas sexualmente como .•o":'pondência entre os tipos de alimentos prescritos para
,I, 1"'lIIinadas ocasiões e a natureza dessas ocasiões.
boas parceiras. Pelo contrário, essas ocasiões são normalmente
aguardadas pela comunidade com uma certa ansiedade e ()s Talensi, da Africa Ociden'lal, não permitem que as
recebidas mesmo pelos seus pacientes, com alegria, já que "".Ihcrcs cozinhem ou comam galinhas caseiras ou cães; per-
significam a possibilidade de uma situação de dignidade '1',IICI!l e matam hienas - que os jovens recusam como
maior, o ingresso em uma classe privilegiada, ou o restabele- ,,I 11",:lIto, pois as consideram impuras por desenterrarem e
cimento da ordem das coisas. , 'illlcl'eJ11cadáveres, enquanto OS anciãos as consideram um
E os homens não perdem a possibilidade de lançar mão .I,Ii,'ioso manjar (27, p. 17). Os Pueblos, contrariamente a
desses recursos, para se aproximarem do ideal de estética !'I.'lIdc parte das populações indígenas que travaram contato
corporal que a sociedade define, destacando, dissimulando ou , ,>111 os povos de tradição ocidental, rechaçam as bebidas
,!,"ólicas com extremo asco (4, p. 64). Boltanski(l O, p. 9)
atenuando particularidades de sua aparência: submetem-se a
.I.rlloustrou como varia a categorização d-ôs-ãfimêrÍtossegundo
dietas especiais, praticam exercícios físicos, pintam-se ou dei-
,,', (";Iratos da sociedade francesa.
tam-se em mesas de operações cirúrgicas -,- porque creem
que, procedendo assim, estarão incrementando a vitalidade I'. verdade que, quando um homem come, está reagindo
de sua constituição orgânica e social. ,I ddcrminadas motivações internas, isto é, às contrações de
:B claro que as explicações utilitárias e instrumentais não I, d Ile que decorrem da redução da taxa de açúcar na compo-
bastam para nos fazer compreender a permanência e a difusão ',1',;10 sangüínea. A outro nível, porém, a sua reação não pode
destas práticas. Explicar, por exemplo, a circuncisão, por ",'1 entendida apenas com recurso aos conhecimentos fisio-
razões higiênicas, pela aversão ao cheiro do esmegma, pela I••giros. O kto de um indivíduo sentir fome pela manhã, pelo
65
64
meio-dia, pela tarde, e à noite, na hora de jantar, é um enqua- ,L, I"rças orgânicas instintivas, existem outros fatores atuan-
dramento cultural, assim como o é, em grande parte, a quan- \, ()s prazos de desmame variam enormemente pelas dife-
tidade de alimentos que é ingerida. A fome de um trabalhador ,. "te; culturas, sendo as mulheres, muitas vezes, obrigadas a
braçal não é exatamente idêntica ao apetite de um burguês; .I"lIclllar, com seu seio, animais. Algumas culturas manipu-
nem a disposição do italiano coincide com a do francês, à 1"11 " prazo de desmame como instrumento de controle da
mesa. É bastante conhecida a resistência dos samurais à sen·
,. 1'1I11IIlÇão.A transição do seio para alimentos sólidos não S~
sação de fome, pela qual não podiam se deixar vencer: deviam, ,L, talllhém da mesma maneira em diferentes culturas: as
quando famintos, dar aparência de terem acabado de comer, , . ""I1;:IS Hopi recebem pequenos pedaços de alimentos pre-
palitando ostensivamente os dentes (5, p. 128). L'"l1"lIle mastigados por vários membros da família e postos
Também não se pode comer e beber de uma maneira "11 ,;lIa boca, cedo aprendendo a sugar milho, carne e frutas
qualquer. Há alimentos especiais para cada ocasião. Há ali- ; "', p. 368), sendo o seio uma das muitas fontes de satis-
mentosproibidos a determinadas pessoas. Há quantidades I •• \O oral que uma criança recebe. A boca é, portanto, um
estabelecidas para cada tipo de pessoas, ou para cada sexo. ""'>Infante instrumento de comunicação'com'ü nlunctoe com
Há maneiras especiais de prepará-Ios, de servi-Ios e de comê- • ",cícdade, mesmo se se abstrair a comunicação verbal: cada
los. Há alimentos de ricos e alimentos de pobres. Há alimentos qlle se lhe nega, ou recebe, um alimento, de tipo particular
com virtudes excepcionais. Alguns alimentos se servem em ,." elll situações especiais, a criança aprende algo sobre a
horas fixas; outros podem ser comidos a qualquer tempo. As ,,1.1
refeições, em algumas culturas, se fazem normalmente a sós, !'auto é a alimentação uma atividade expressiva r~ue a
noutras com o grupo familiar, ou com toda a comunidade. "",,,pofagia parece ter sido muito raramente praticada com
, "I
No ato de comer, alguns membros ocupam uma posição, no I .11'. puramente, ou fundamentalmente, alimentícios (a rigor,
tempo e no espaço, especial. Certos alimentos podem ser ulvl'I. nunca, porque nenhuma alimentação humana é apenas
lomados diretamente com as mãos, outros exigem algum ins- ,,,,11 lIIuental) _ a vítima tem sempre uma qualificaç㺠espe-
trumento mediador. A alimentação exige, às vezes, purificação ,LlI 11111parente, um possúiclór de virtudes notáveis de que se
anterior; outras vezes, posterior, e às vezes negligencia essa ,,,,,. r partilhar, 11m morto canibalisticamente transformado em
atitude. Certos assuntos podem ser mencionados à refeição, .111111'1110, a fim de evitar o horror de uma lenta e indigna
outros são tabu e muitas vezes se exige silêncio. Há povos que dO( "lIIposição, dando-lhe a mais honrosa sepultura.
usam mesas e povos que não as conhecem. Não poucos antropólogos observaram já o estreito para-
Todos esses hábitos, que cada cultura elege a seu gosto 1011\11I0existente entre a prática cristã da comunhão - em
particular, configuram princípios normativos que muitas vezes '1'11"se ingerem o corpo e o sangue de Cristo - e os ritos
definem a condição de humanidade. É comum uma pessoa ',iIlJiJ:llísticos de muitos povos que acreditam estar ingerindo,
não conseguir comer ao lado de outra que observa práticas 11" alo de comer a carne humana, as virtudes veneradas na
diferentes, sobretudo se se colocam em evidência os. distan- . ,","midade, e celebrando, por meio desta ingestão, o estreita-
ciamentos sociais e as regras de higiene. Nes;;as horas, como 0..-1110 dos laços que ligam, por meio destas virtudes, os
em todas, o estômago se submete ao intelecto. oll"lIIbros à coletividade.
A alimentação contém algumas das primordiais doutri- Causou grande repercussão, há poucos anos, a notícia. de
nações a que o homem assiste ao se socializar. Inclinamo-nos '11W 11111 grupo de sobreviventes de um desastre aéreo, nas mon-
muitas vezes a pensar que o comportamento ao mamar é algo Llllhas geladas dos Andes, na ausência de outro tipo de ali-
instintivo e automático, mas quem quer que tenha tido uma 1I1l'1l10, serviu-se da carne dos companheiros que haviam
razoável experiência com culturas diferentes percebe que, além 1I1"ll'ido. É claro quc este gesto resultou da opção enlre mor-
67
66
rer e viver um pouco mais, já que as possibilidades de sal. o asco que senti foi profundo. O mal-~star explica-se
vação eram remotas. Isto prova não estar esta prática tão 1" LI inversão total dos termos de uma gramática que nos
afastada, quanto imaginamos, das alternativas abertas à defesa 1"'lIIiIC controlar culturalmente os eventos naturais. Ao tor-
da vida, para a nossa sociedade: outros povos, seguramente, li.' I,,:; crus, a descrição transformou os alimentos em fontes
preferíriam a morte. A ser confirmada a integralidade da ,I, inror e perigo. Nesta situação está sempre o homem em
notícia, mesmo neste caso, não poderíamos considerar o gesto 010 aos alimentos, independentemente das definições cul-
como puramente famínico, uma vez que, segundo consta, cada I'I!.Ii'; particulares: enquanto animais, fazemos parte da Natu-
indivíduo deveria evitar de comer aqueles com quem tivesse i!, mas, enquanto seres humanos, somos partes da Cultura
algum laço de parentesco, e deveriam preferir certas partes do nossas sobrevivências, enquanto animais e enquanto
organismo a outras. Disso podemos concluirque,rnesrno ..à 1" '1!1i"11S, dependem da ingestão de alimentos, que são, pro-
tfva _.',.'-'~.".'.'._-
de ,-,.,~".,-",-
controlar
a
beira da anomia,. çultura não. se. furtou ao esforço da tenta-
õs processos naturais.-"'"
l'! LIHIl;nte, elementos da Natureza, e da sobrevivência das
"<----"" -"
"u __ ~_"",._",._,,"_,,_w_~··,_.,,, , •." ~,-">._ _._~'.~••'." ."."" •._.~_,"., "_"o,."""~""_.' ..,,"
'11i"j',llrias intelectuais com que pensamos o mundo, que per-
As regras alimentares de uma sociedade apresentam, por- 1''''(111 ao domínio da Cultura.

tanto, profundas dimensões inconscientes, e residem no âmago Como poderrairiOs hümens manter esses domínios sepa-
de cada ser. Qualquer procedimento agramatical pode trans- ".1,,'; c a Natureza sob o domínio da Cultura? Lévi-Strauss
tornar violentamente um indivíduo. "Certa vez conheci a i' \) observou que os homens sempre empregaram o fogo,
esposa de um comerciante do Arizona que tinha um prazer I''',' fazerem os seus alimentos passarem de um estado cru
algo diabólico em produzir reações culturais. Servia a seus "Ji li! :11, a um estado cozido cultural, fu;}t;3.o que pode ser
convidados, não raro, deliciosos sanduíches recheados com I ,,,dl<"IH preenchida por outros elementos intermediários, que
uma carne que não parecia nem frango nem atum, mas que dli:11H um "cozimento" simbólico: talheres, copos, pratos
vagamente lembrava as duas. Quando lhe faziam perguntas, li" caso que acabamos de descrever, palavras ... Os homens
não dava resposta alguma, até que cada um tivesse comido a li'" <ia instrumentalmente obrigados a cozer seus alimentos;
,1,\ () fazem por razões puramente expressivas: reafirmar, nos
sua porção. Explicava então que o que tinha comido não era
frango, nem atum, mas a carne branca e suculenta de casca. d,Lllhcs, as particularidades da estrutura social e, no todo, a
"l,remacia da Cultura sobre a Natureza, supremacia esta que
véis recentemente· mortas. A reação era imediata: acesso de
, reações emocionais, profundamente incrustadas no incens-
vômitos, não raros violentos. Um processo biológico é envol-
'II"1I1C, procuram proteger, reagindo aos argumentos "cientí-
vido numa trama cultural" (39;"p.30).Elí ffieslno, quando 11'":;", "racionais" e "lógicos" que advogam a sua mudança,
~-;:;;nçi,-'senti-algo-muitõ parecido ao ler em uma revista uma
I" 'I', estão em causa - nas regras dietéticas - a unidade,
descrição, mais ou menos como a seguinte: "um povo do " 1I1lcgridade e a identidade do sistema social.
hemisfério norte costuma ingerir pela manhã, num estranho
ritual, a secreção de uma glândula de um determinado mamí-
fero, ao qual misturava-se líquido de uma cor terrivelmente A Gramática dos Sexos
negra; figurava, ainda, nessa tétrícacerimônia, uma gosma
que determinados insetos vomitavam, células reprodutoras de ",i111' se hoje que a capacidade de reação erótÍCa está pre-
aves e determinadas pastas gordurosas." Talvez o leitor tenha '."III\." desde o nascimento, num determinado grau, e que esta
percebido tratar-se de uma apetitosa refeição matinal, ao estilo ,,,pacidade passa por um desenvolvimento gradual. Obser-
americano, constituído de leite, café, mel, manteiga, queijos \'t>II-SC que durante o primeiro ano de vidl as crianças sno
e ovos. /',nlitalmente reativas e podem empenhar-se numa espécie de
(,8
69
.,," ,n 10 exagero, proclamar "sou mulher" é quase tào natu-
masturbação. Pode-se observar, muitas vezes, crianças de idade 1,01 ••• mo dizer "sou general do Exército dos Estados Unidos".
variável dedicalldo-~;e a brinquedos sexuais e masturbação. Em () papel sexual define também um ideal de comportamento
muitas sociedades as crianças constroem "casas" e brincmn de 'I'" ,ada indivíduo tentará realizar. Margareth Mead (61,
"casamento", muitas vezes participando de coitos simulados. I' I,')) observa que um homem Munduf,umor tratará sua
Toda cultura se preocupa com as manifestações da sexua- ,,," •• 1 lllulher como se ela fosse uma fie meio de diversas,
lidacle, coibindo-as ou estimulando-as. Algumas sociedades I" '''1"'' o ideal para o homem bem realizado, nessa sociedade,
iinpõem a mais estrita monogamia para ambos os sexos, ou 1'''''.Ulf várias mulheres, enquanto um homem Arappesh,
para um deles apenas, enquanto outras admitem que um "'li duas mulheres, tratará cada uma como sc fosse a única.
homem se una sexualmente a várias mulheres, ou vários \ lru'li :;cxo poderá ser privilegiado com um status considerado
homens a uma só mulher. O homossexualismo foi aceito em ••, ••, elevado pelo grupo social: então o seu órgão sexual será
várias sociedades, como no mundo greco-romano e em certas • ,.I "do com orgulho, será invejado, poderá ceder o lugar no
áreas do IsIª, e terminantemente banido em várias outras. ',Ht1HI\ "o

Em diversos períodos da história cristã e entre certos grupos Imlavia, qualquer que seja a forma pela qual as dife-
do Tibete, o celibato foi admirado e desejado. Definir os ,. li!!', sociedades se apropriem da constituição genética da
papéis sexuais do homem e da mulher e a forma de relacio- I" • li humana, cada sociedade ditará normas para o rela-
namento de ambos é um problema muito menos biológico do ... '".IIII"l1tO de homem e mulher e associará a cada um
que se tem comumente pensado. ...•.. .,mplexo de valores e de símbolos: divisão do trabalho,
Além disso, o fato de um indivíduo ser do sexo mas- ,I" ,;10 tio poder, divisão de riqueza, dignidade, etc. É claro
culino ou do sexo feminino não significa apenas que ele possui I'" LIIS símbolos, normas e valores são suceptíveis de variar ';'j

uma determinada conformação anatômica e fisiológica. Signi- . ,,1111I ai mente, não se podendo assumir as postulações de
fica também que ele possui um status social cujos limites, !I. "hllma cultura particular como absolutas e universalmente
direitoS e obrigações estão devidamente convencionados e em "..I••las.
relação aos quais a comunidade mostra determinadas espec- i ,t:vi-Strauss
(54), seguindo um raciocínio que está des-
tativas. Cozinhar ou dirigir empresas, caçar ou costurar, IIIL.do a dirigir por bastante tempo ainda as teorizações dos
cuidar das crianças ou ler jornal, são ilustrações destas espec- ilI'llIpólogos sociais, demonstrou a necessidade lógica de, em
tativas, que cada sociedade define à sua maneira. I", Lts as sociedades, se interditarem as relações consideradas
Em toda sociedade as crianças e os adolescentes se 1111 c;tuosas, ou seja, a aproximação - por relações sexuais
ajustam ou são enquadrados nessas definições de papéis e as •"I por casamento - de parentes socialmente definidos como
vêem como as mais naturais e as mais desejáveis. A própria . ,,,.,,;mgüíneos. Mostrou que a razão da universalidade da
bipartição dos sexos, a que estamos acostumados, não é con- I" "'''11;;-10 do incesto é de ordem lógica e sociológica, repre-
siderada universalmente, existindo sociedades que definem uma ,,"lando uma operação ao mesmo tempo natural e cultural,
terceira posição - a que a tradição ctnológica resolvcu cha- 1.1 quc, embora sendo a interdição universal, o parente especí-
mar berdache-)- quando um homem assume o status e o I"" que se proíbe é culturalmente escolhido e definido: o
papel de mulher, vestindo-se, pensando e se comportando , "lHcito de "consagüinidade" não é universal. Contudo, fugi-
como tal, e simulando ciclos menstruais e gravidez, sem que ,',1I110S ao nosso propósito se nos detivéssemos aqui nas
seja homossexual ou hermafrodita. Tais práticas podem ser IIl1l1Úciasdesta importante demonstração.
constatadas em diversas sociedades - Crow, Dakota, Zuni, Interessa-nos, especificamente, o fato de o tabu das reIa-
Dayak, Chukchee - e os berdaches podem muitas vezes ser '."CS incestuosas figurar como a mais sólida regulamentação
investidos em funções religiosas. Como afirmou alguém, com
71
70
do relacionamento entre os sexos na sociedade humana e Dcuteronômio, capo 22: "Se houver de entre vós, homem
dentre as mais zelosamente guardad(ls. ~e .qualquer profana- 'I'" de noite tenha padecido impureza entre sonhos, sairá
ção. KIackhohn (39, p. 30-31) relata úm:- inCidente ocorrido 1'10.1 lora do arraial, e não voltará, menos que à tarde se
em uma escola pública para Índios americanos em que, inad- i, "li;, lavado em água: e depois do sol posto tomará a ir
vertidamente, uma professora provocou profundo mal-estar, I"L' Il campo." Dessa maneira, no mundo ocidental, o que
em ambos, ao sugerir que um rapaz e uma jovem dançassem , ,hama "amor carnal" foi posto em oposição a um "amor
juntos: tratava-se de integrantes do mesmo clã, o que repre- .I, 11I0"', tendo o primeiro sido rebaixado às "sujidades terre-
sentaria - pelo tipo de proximidade corporal e de sugestão ",",", e O segundo elevado "às sublimes regiões do trans-
que a dança produz, segundo o autor, que se propusesse que , '" knte". Há culturasamda - mais rígidas quanto à vida
a professora e seu irmão fossem para a cama juntos. Nesse , 11;11, mas há também aquelas que consideram - com res-
caso, a indignação virtual da professora e a vergonha que os I, ",' rCS a certas pessoas e a certas situações - o sexo em si
Índios sentiram .representam reações emocionais igualmente ""IIlO natural e uma das boas coisas da vida.
padronizadas pelas respectivas culturas. Não é sem razão que Os conceitos de "decente"; e "indecente"r é claro, são
os palavrões de sugestão incestuosa figuram entre os mais ", !,"mente aprendidos =..::: .. e-não há éUltUra que não tenha o
poderosamente ofensivos em quase todas as línguas. '" ,"'Hceito de decência. Todavia, não é verdadeiro que esteja
Reconhecemos, então, que nenhuma sociedade deixa de 11l; Ire associado primordiahnente com a indumentária e com
restringir de alguma forma o comportamento sexual ele seus ""hertura dos órgãos sexuais. Sabemos que existem inúme~
membros. Entretanto, a atividade do sexo fora do casamento .' .. povos que sustentam a nudez absoluta ou quase absoluta.
não é sempre clandestinamente realizada nem inspiradora de ""I,,:m não se dirige universalmente para as funçõesexcre-
culpa. Muitas religiões ocidentais construíram teorias segundo i.q LI:;, já que muitas sociedades as vêem como ingênuos e
as quais o ato sexual é vergonhoso, indigno e desonroso, I" "" Il especiais. O pudor, para os muçulmanos, como sabeJ
devendo ser realizado na obscuridade da noite, em solidão, a ,,,,,.;, está no rosto, não existindo em relação às pernas e às
portas fechadas e furtivamente, devendo visar apenas à pro- '''~;IS, o que permite com que as mulheres levantem as saias,
criação - mas, mesmo assim, intrinsecamente pecaminoso. A 'Ill qualquer pejo, para se coçarem nas vias públicas; para
relação sexual foi proibida, em diversos momentos da história ,.. chinesas, o pudor está mais nos pés, que são cuidadosa-
americana e européia, nos dias anteriores ao Natal, nos dias ""'lIlc ocultos, enquanto os japoneses não têm tabus contra a
anteriores à Páscoa, antes da comunhão dominical; entre os Illldez, não havendo separação de sexos no banho; algumas
judeus e maometanos, durante uma semana antes e/ou depois ',t'Ifas indus recusam exibir, descobel;tas, as cabeças; em
da menstruação e durante certas fases da lua; alguns códigos lllllllas regiões do Brasil, mulher casada de cabelos soltos seria
limitam as relações~exuais a determinada semana do mês ,,,"siderado "sem vergonhice". O pudor pode estar na barba,
lunar; a palavra "mast1.!rbação'j prende-se etimologicamente 110) parto, no ato ~e_comer, nas palavras, etc.
a manu estupro, impurificar com a mão; os compórtamentos A noção de decência estende-se também ao discurso,
eróticos em p\Íblico são contra-iridicados e qualquer indício I,I. ,ibindo-se determinadas .•..• frªses, palavras ou referências.
de excitação deve ser imediatamente dissimulado; as roupas 1,)(lavia, nem aqui se encontra universalidade. A este prop6-
servem para nos separar dos corpos alheios, mas servem tam- '.110, BoItanski (9, p. 38) observou, nas classes populares fran-
bém para nos separar dos nossos próprios; mesmo em situa- ,,':,;IS, a impossibilidade de se distinguir o discurso educado
ções em que se permite o nudismo (saunas, vestiários coleti- ( 'culto", "elevado" ... ) sobre a sexualidade, do discurso obsce-
vos, etc.), a nudez dos órgãos genitais é disfarçada e encarada 110, por falta de vocabulário específico para esta distinção. Em
com uma artificial naturalidade. lodas, ou na maioria das sociedades, o discurso obsceno, s6

72 73
\,

é considerado ilícito em relação a determinadas pessoas (sogra, I"H!em ser abraçadas e apalpadas, na medida em que o recato 1'1

mãe, etc.) ou em determinadas situações (templo, salas de '111(' comanda as relações entre os sexos, especialmente em 1[11

II1

aula, etc. ) - às vezes, inclusive, de maneira não simétrica, p"hlico, é suspenso" (14, p. 139-40).
já que a outra pessoa pode não ser obrigada a uma conduta A esta altura, parece claro que o que é sexualmente

I1
igual perante a primeira, o que é muito comum, entre nós nas ,";1 ímulante em um sociedade pode exercer o efeito exata-
II11

relações hierarqui::adas. É possível, ainda, acontecer de lIlt'nte contrário em outra. Há, na Africa Central, um ideal de
aquilo que deve ser reprimido e escondido no cotidiano, "';laica feminina que identifica e beleza com a obesidade, 111

por ser considerado indigno e inferior, deva ser rituahnente "'lido a moça, à época de sua puberdade, submetida às mais

/111
liberado, mostradc e dito, em certas ocasiões, como nos diversas técnicas, capazes de fazê-Ia o quanto mais gorda;
festejos carnavalescos, nos trotes estudantis e nas festas de ;"I'.uns povos na Africa do Sul costumam arrancar os incisivos I'11

casamento. ',lIperiores; outros se tingem de diversos modos e alguns têm


., hábito de arrancar as sobrancelhas e substituí-Ias por outras
111,

Existem freqeentemente crenças de teor, mágico asso- II1

ciadas com o sexo. Em muitas sociedades ele é considerado qlle saem quando se lava o rosto, ou de beber vinagre para
perigoso, ou a rl~lação sexual perigosa, se executada em Iwaf com a cor pálida que encanta os poetas ...
determinadas circu nstâricias. É comum temer-se que as se- Sociedades inteiras ignoram o orgasmo feminino, e os
creções sexuais se iam utilizadas com fins mágicos contra a I'robriandesesnão reconhecem no orgasmo o clímax da rela-
pessoa de que err anaram; também é freqüente a crença de ',;10 sexual, como o fazemos, considerando-o como apenas
que as relações se" uais com mulheres grávidas ou' menstruadas lima entre um agregado de experiências agradáveis (48, p.
são capazes de ef litOS nocivos: podem provocar impotência, ~1\'; ). Em algumas sociedades de rígida organização militar ou
esterilidade, produ::Ír monstros ou desgraça: generalizada. ,h- grupos de idade, em presídios ou em situações de guerra, i
I,'I
I

IJ

',;l() comuns as práticas homossexuais, admitidas expressamente I11I


I111

IIli,IIII
II

II
Contudo, é exatamente por causa do tniãii{í,) que em L '
I1I11

, II1'1'

1I1
I
lill'l

~ u;II
lil
li/li
1111

geral se lhe recpn hecem, que as relações sexuais - muitas por muitas sociedades e submetidas inclusive às regulamenta- 1/111

III!
1,11,
I1I
" 1

vezes proibidas eu' nome da separação entre o Sagrado e o ,oes convencionais (proibição do incesto, etc.) que muitas I
1I
I11I11
I!

Profano - são sa ~ralizadas' por certos ritos. As religiões ate- vCI,es impedem que o indivíduo seja considerado como um
\ niense, romana, h'ndu e muitos povos primitivos atribuíram plTvertido ou aberrante e, portanto, não lhe causando trans-
sacralidade ao ato sexual e o incluíram em rituais. O tantrismo I, )fI10S íntimos e não prejudicando sua atividade heterossexual.

indiano ilustra Cor'lO um ato fisiológico pode ser erigido em Sllcicdades há, também, que pura e simplesmente desconhecem
;1 homossexualidade como categoria do pensamento coletivo.
ritual e valorizado como uma espécie de técnica mística: não
se trata mais, aí, de um ato fisiológico, "mas de um rito Cada sociedade tem o que se poderia denominar de sua
místico: os parceir os não são mais seres humanos, mas estão dllogenética: já se pensou que os homens e animais eram
desligados e livre~ como deuses... pelos mesmos atos que !',nados por um barro leitoso produzido no interior da terra;
fazem queimar certos homens no Inferno durante milhões de que o sêmen era a espuma do que havia de melhor no nosso
anos, os iogues ohtêm sua eterna salvação" (26, p. 144-5). :,:lngue, uma parte da matéria constitutiva do cérebro, ou um
Nas ilhas Fidgi,~onhecem-se ritos, no curso dos quais se compósito de tudo o que entra na formação do corpo; a
realizam exatamen~e os atos que mais rigidamente se consi- produção de crianças pode ser atribuída a espíritos, à espuma
-deram como sexudmente proibidos, ligados às interdições de do mar, aos astros, a sonhos, a animais, a plantas e ao acaso.
incesto. Roberto Da MaUa chamou atenção para o fato de Os Pilaga, da América do Sul, crêem que a ejaculação do
r que no carnaval b ;a.slIeiro há uma "suspensão de normas que homem projeta um homúnculo completo no interior da mulher
e que aí ele se desenvolve até estar suficientemente grande
l_comandam as relal:ões entre os sexos" e "que ... as mulheres
74 75
para sair (7, p. 150). Os Arapesh não imaginam que o tra- forma, a posição que os europeus e americanos p~nsam ser
balho da paternidade fisiológica se resuma ao ato inicial e hiologicamente normal para as relações sexuais, não é obser-
que o pai possa ir embora e voltar nove meses depois, consi- ,ada em várias outras partes do mundo e talvez r;iio tenha
derando tal forma de paternidade impossível e repulsiva, pois ',illo usada muito freqüentemente na Grécia e em Roma anti-
a atividade sexual é considerada 'importante para a alimen- )'as: nesse ponto, as possibilidades são muito mais numerosas
tação e formação da criança durante as primeiras semanas no que a nossa capacidade de imaginação.
ventre matemo: a criança é produto da contribuição idêntica Lévi-Strauss observou que "todas as sociedades conce-
do sêmen e do sangue (61, p. 55-6). h:"r11 uma analogia entre as relações sexuais e a alimentação;
O caso dos !robriandinos foi bastante polemizado nos mas, conforme os casos e os níveis de pensamento, ora o
círculos antropológicos. Leach estranhamente sustenta, em homem, ora a mulher, ocupa a posição do que come edo
cada um desses trabalhos (43, 44), posições absolutamente que é comido" (55, p. 156), a analogia que se manifesta em
antitéticas acerca das teorias genéticas desses indígenas, um grande número de língua, ao nível do vocabulário, em
admitíndo uma de suas posições, que eles desconhecem a que se aplicam palavras idênticas para designar os atos de
paternidade fisiológica e atribuem o papel da produção de (,(lmer e de manter relações sexuais; "em Yoruba 'comer' e II
crianças a um espírito que penetra no ventre de uma mulher 'casar' se dizem por um único verbo, que tem o sentido I1

e aí se transforma em criança, ficando os homens completa- ,-cral de 'ganhar', 'adquirir'; uso simétrico ao francês, que I
mente excluídos do processo (crença, aliás, que não parece aplica o verbo consommer ao casamento e à refeição. Na 11I
11111

II
li
muito distante do que desejam alguns mitos cristãos). Para os língua dos Koko Yao da península do cabo York, a palavra II1

L3cker, são os horlens que depositam uma "semente" no ven- Katakuta tem o duplo sentido de incesto e canibalismo, que 1I

tre de uma mulhe", semente esta que deve germinar, crescer ',,10 formas hiperbólicas de união sexual e de consumição ali-

e se transformar em criança: para eles, supor que entre a mu- mentar: pelo mesmo motivo, a consumição do totem e o 1I1
il

lIlcesto se dizem da mesma maneira em Ponapê; e, entre os


lher e a criança existe algum laço de consanguineidade, cor-
\lashona e os Matabele da África, a palavra totem tem igual- il
responde a um abmrdo semelhante ao de supormos a existên- 111.

mente por sentido 'vulva da irmã', o que fornece uma verifi- li

cia de algum víncu' o genético entre um pinto e um ninho (43).


cação indireta da equivalência entre copular e comer" (55,
Para algumas sociedades, são pais tantos quantos tiveram rela- II

1'. 130); "os Tupari d;:st<~namo coito por locuções cuio sentido
ções sexuais com lima mulher, e, para outras, as crianças são
próprio é 'comer a vagina' (Küma Ka), 'comer o p~nis' (Ang I1

trdzidas por cegonhas que as carregam peío bico.


r a). O mesmo se passa em Mundurucu, .. Um mito Cashibo II

Os MundogUl'lOr consideram as rela4soes sexuais que exe-


111

(\1160) relata que apenas criado o homem, pediu de comer, 11

cutam no mato, de forma "atlética" e "violenta", muito mais c o Solo ensinou ... plantar milho ... e outras plantas comes-
II
satisfatórias que as que realizam cautelosa e silenciosamente tf"eis. Então o homem perguntou a seu pênis: 'E tu, que
nos cestos em qu:: dormem, e mais aÍldentes ainda aquelas queres comer?' O pênis, respondeu: 'o sexo feminino'" (53,
I1

que se realizam em plantações dos outros, estraganclo-lhes_a

1.1,
p. 266). O tema daivagi1liidéllt~ti? que encontramos na mito- II
colheita de jnhame (61, p. 213): Muitas tribos da Nova logia de diversas regiões ao mundo, parece confirmar a hipó-
1I1

Guiné consideram suas hortas lugares quase tão íntimos como tese; aparece em muitas fórmulas populares, no Brasil,
I

suas casas, considerando-as, como fazem os Arapesh, o lugar


I

freqüentemente sob forma jocosa; além disso, as revistas por-


apropriado para aE relações sexuais (61, p. 44). Muitos povos nográficas e a imaginação erótica popular brasileiras (graffitti,
consideram que as relações sexuais devem ser entretidas ao
por exemplo) estão cheias de referências às práticas oro-
ar livre e à luz do dia, não sendo necessário, para vários,
escondê-Ias das crianças ou das outras pessoas. Da mesma genitais, sem falar no próprio vocabulário ("comer", "passar

76 77

I!
ii] !
~
~,

na cara", "gostosa", "papar" ... ), na atribuição de elevado


manifestam com referência ao sexo: ambiguamente situado
valor erótico aos seios da mulher (que, evidentemente, estão
dentro do controle social e fora dele, põe em perigo as
associados à alimentação) e à conjunção oral com os mesmos, possibilidades de existência de um universo. simbólico estru-
e, ainda, na valoração das práticas anais, já que ânus é parte Iurado e de uma taxa de natalidade adequada à estrutura
do sistema digestivo.
social.
Entre os Tikopia e os Nuer, diz Lévi-Strauss (55, p. O sexo está entre a Natureza e a Cultura. Em nome da
130), citando Firth e Evans-Pritchard, o marido se abstém de
necessida.de de mantê-Ias separadas, as culturas devem' con-
consumir os animais ou as plantas proibidas a sua mulher, Irol:i-Io - problema para o qual cada uma obteve a sua
temendo que o alimento, que contribui para a formação do
solt'ção. Algumas, encarando-o de frente; outras, como a
esperma, fosse introduzido, por esse meio, no corpo da mulher.
sociedade ocidental, confinando-o a obscuros donlÍnios do
Os Ndembu caracterizam o intercurso sexual como "mel doce",
pensamento, numa tentativa de preservar certas posições social-
consideram "salgados" os fluidos sexuais e pensam que o
mente valorizadas pela tradição (e, portanto, tidas como
esperma é uma espécie de sangue misturado com água; vêem,
particularmente sagradas para serem diminuídas pela submissão
então, uma conexão entre "sangue", "sêmen", "sal" e "inter-
;'1Natureza) do seu contato nefasto (os sacerdotes, os presi-
curso": para os Ndembu, no contexto de alguns rituais, tanto dentes, os reis, não são pensados no ato de copular, e também
o comer sal, como o manter relações sexuais, estão cercados
os próprios pais, cujas relações sexuais admitimos com certas
de tabus (69, p. 234-5), o que, de forma direta e indireta, dificuldades e classificamos como do tipo "papai e mamãe")
de relaçõesa sexuais.
manifesta associação entre a alimentação e a manutenção ou, ainda, afastando-o de seus arredores, empurrándo-o para
detrás das portas fechadas, para o "mato", para as noites
Esta discussão, talvez sob forma não tão específica, apa- (que são períodos intermediários entre um dia e outro, em
receu nos tratados clássicos de Etnologia, envolvida na pro- que o ritmo e a efervescência da vida social diminuem),
blemática das relações entre as proibições alimentares e as referindo-se às relações sexuais como "dormir" (porque quan-
regras de exogamia - fundamentalmente <' mesmo problema do se dorme se está, de certa forma, "fora" da vida social),
a que· nos referimos acima ao narrarmos o episódio dos sobre- ou associando-as a "escuro", "escurÍnho" (o que cumpre
viventes do desastre dos Andes: desde que relações sexuais estruturalmente a mesma função, uma vez que - para uma
e alimentação estão simbolicamente associadas, o comer a sociedade que enfatiza a visão na sua codificação do mundo
carne de seus parentes significaria, num plano simbólico e - onde não há luz, simbolicamente não há informação, e,
inconsciente, para os sobreviventes, o cometimento de uma onde não há informação, as relações sociais obscurecem).
prática incestuosa. Afastado o tabu do canibalismo, a inda-:- Todavia, qualquer que seja a solução que uma sociedade
gação. atual recairia sobre qual seria o último a cêder: o amor
à vida, ·otillorror ao incesto? a dote para-o problema, aqueles que observarem suas fórmulas
tenderão a se considerar "felizes" por seguirem um procedi-
..u----O-se~o-é dupla~~nte ~ocial - por um lado, é o único mento que acreditam "natural" e "justo": como alguém
in$\tinto cujo funcionamento implica no estímulo do outro, ebservou, a mulher vitoriana, que não esperava ter prazer nas
como observou Lévi-Strauss (54, p. 45); por outro lado, é relações sexuais, e que efetivamente não tinha, não era mais
o "aparelho" responsável pela perpetuação do grupo social. frustrada que as suas descendentes que acham pouco satis-
Todavia, como a alimentação, o sexo é fundamentalmente fatórias ·as atividades que elas consideram como capazes de
uma atividade natural, e as leis a que está submetido iludem lhes fornecer prazer.
o esforço social de controlá-Ias. Eis a razão central da preo- De qualquer forma, quer naturalizando a Cultura e
cupação que as sociedades, de uma maneira ou de outra pensando que as normas sociais correspondem objetivamente
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79

li! I
status: em muitas sociedades, os~~ófitos)ecebem novoS nomes,
à "natureza humana", quer culturalizando a Natureza e pen- nu são conduzidos no colo ou pelas mãos, como se fossem
sando que o homem é um ser aprimorado, "racional", "lógico", bebês; outras vezes, aprendem a falar uma língua nova ou
Ilfeito à imagem e semelhança de Deus", pela ação dá Civili- choram como recém-nascidos. Em diversas ocasiões, espera-se
zação - ou realizando simultaneamente as duas operações - dos indivíduos que mudam de posição, que sejam capazes de
as sociedades convencionaram práticas e incutiram crenças que tolerar torturas e castigos que se julgam como situados além
t~m muito menos do que comumente se imagina a ver com o das resistências da catr goria ant~riof: exposição ao frio,
corpo e com o sexo propriamente ditos. picadas de insetos, surras, abandono, jejum ...
Tais ritos tratam de resguardar a sociedade do perigo
Não há dúvidas de que existem fenômenos biológicos que representado pelos indivíduos que nesses estados intersticiais
coincidem com o que chamamos de "puberdade" ou "adoles- se encontram: são, por isso, rebaixados, humilhados, reduzi-
cência". Todavia, umas culturas os ignoram, enquanto outras dos a matérias amorfas capazes de adquirir as formas que a
prescrevem atitude de indiferença' diante _dos mesmos. Para sociedade lhes quiser impingir, ou então, torturados, espan-
certas, a puberdade é importante em relação apenas a um cados, castigados, como punição pela mancha de que são
dos sexos. Em algumas culturas, a primeira menstruação é portadores.
objeto de festividades públicas, ao passo que, para outras, é Entre nós, a adolescência corresponde a uma dessas
um acontecimento íntimo e vergonhoso. Acontece o mesmo, categorias. Representa uma categoria cujo conteúdo é ele mes-
com respeito ao rapaz, em relação à primeira emissão de mo visto como ambíguo, já que o adolescente é aquele que
esperma, em boa parcela das sociedades conhecidas. já não é criança, mas- ainda não é adulto: É claro que muitas
Para as culturas, tudo o que evolui, tudo o que muda, dificuldades que costumamos associar aos adolescentes têm
deve~sêr previsto e enquadrado em categorias, de forma que sua origem exatamente no fato de o seu papel não ser defi-
qualquer mudança seja uma passagem de uma categoria a nido com clareza: ora deve se comportar como adulto, ora
outra. Entre nós, por exemplo, um indivíduo pertence à cate- como criança. E procuramos racionalizar esta atitude de
goria dos que estão sendo esperados mas ainda não nasceram, ambigüidade, recorrendo a argumentos de ordem anatõmica e
passam para a categoria dos homens vivos, são batizados e fisiológica: os problemas dos jovens decorreriam, então, das
incorporados à categoria dos seres sociais (status, religião, mudanças biológicas que têm lugar em seu organismo.
nome etc.), passam a "rapaz solteiro", casam... e, final- Acontece, em primeiro lugar, que a puberdade física é
mente, deixam o mundo dos vivos para ingressar no reino extremamente difícil de ser fixada cronologicamente e os seus
dos mortos. Assim como a sincronill, a diacronia está sob sintomas parecem variar com os diferentes costumes, hábitos
controle .e tudo nela tem o seu lugar. \ alimentares, condições climáticas, profissões, hereditariedade
Contudo, os limites que separariilí'ma categoria da outra, __ entre outros fatores - tanto para os indivíduos do sexo
por não pertencerem completamente nem a uma nem a outra feminino, como para os membros do sexo masculino: apare-
categoria, tendem a desafiar o sistema de classificação e a cimento de barba, secreção de múcus, emissão de esperma,
ameaçá-Io de crise: daí toda sociedade estabelecer procedi- crescimento, aparecimento de regras, crescimento dos seios e
mentos rituais específicos, que são operações destinadas a da bacia _ não podem ser datados consensualmente. Em
exercer um certo grau de controle sobre estes momentos tran- segundo lugar, o que se espera, em cada cultura, dos indiví-
sitórios e intersticiais. duos, durante as diferentes fases de sua vida, não são, absolu-
Circuncisões, subincisões, mutilações, tatuagem, bênçãos, tamente, as mesmas coisas, atividades ou responsabilidade:
são artifícios freqüentemente usados para assinalar a morte entre nós, por exemplo, a idade em que se permite aos jovens
em relação a um estado anterior e o nascimento para um novo
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1'1\
No que diz respeito ao sangue menstrual, muitas vezes
o casamento não coincide com a sua puberdade fisiológica, ao
foi associado a "maldição", determinando sentimentos de
passo que em outras culturas a puberdade se celebra com o
vergonha ou culpa. Associa-se freqüentemente à crença de que
casamento e em algumas o casamento antecede a puberdade.
a comida poderia se estragar ou apodrecer se uma mulher
Portanto, osfél~~_fisl()ló&cos da adolescência sãojnter- menstruada a tocasse, à proibição de praticar ato sexual, a
pretados cuItiü:aTmente, e a cada interpretação coúesponderá, exercícios físicos, a banhos de mar, a lavar a cabeça, a pisar
no espíriLÜ dos indivíduos, uma atitude particular em relação em escamas de peixe, a andar descalço, a comer alimentos
a esta fase da vida orgânica e aos fenômenos biológicos e ácidos, a tomar banho frio, a comer peixe, a tocar em flores,
sociais a ela associados; os dados etnográficos deixam supor, a tomar gelado, a comer ovo, a comer galinha choca. Em
por excLlplo, que são muito reduzidas as possibilidades de muitas sociedades, a mulher menstruada é segregada em
as tral1siurmaçõcs biológicas que operam ao nível do organismo
lugares especiais, e obrigada a se alimentar apenas de âlimentos
serem responsáveis pelas perturbações nervosas e comporta- crus.
mentaiscoIl1qlle~omumente tentamos definir a adolescência. Em certas sociedades, a primeira menstruação é objeto
A \PlllJerdade .. cultural,) portanto, não coincide com a de importantes cerimônias, e, em outras, um acontecimento
puberdaoe .fi~ioi6gicâ;'~e' sJo, pelo contrário, coisas essencial- íntimo que deve ser escondido. A mulher menstruada é -muitas
mentê ..dJerentes,já· que um organismo evolui enquanto as vezes considerada doente e fora de seus juízos normais -
sociedaJt:s classificam. As cerimônias, comportamentos, cren- irritadiça, nervosa, mal-humorada e tendo suas faltas justifi-
ças e emoções ligadas a puberdade, na nossa sociedade como cadas no trabalho. Outras vezes, está formalmente proibida de
em outras, antes de resultarem de determinações do apareluo Irabalhar, proibição que pode também estender-se a seu
natural, l-clebram um fato cultural. marido, e é comum, entre muitos povos, a· mulher definir a I

menstruação como sendo a impossibilidade de penetrar em


um templo.
o sangue está sempre presente na vida social. A ele se
O s:ln&l~C:.menstrual é muitas vezes considerado vene-
reconhec~u, muitas vezes, um misterioso poder de catalisador noso. Eis, por exemplo, um texto surpreendido em umlivrõ
social: mana. Os primitivos trabalhos de Etnologia deliciavam
que se propõe a difundir educação sexual: "Não é totalmente
os seus leitores, desenhando quadros fantásticos de povos que infundada a crença popular de que o sangue menstrual é
se regalavam com a ingestão de sangue ~ especialmente o
tóxico e por isso em tais dias a mulher não deverá tocar em
humanu - como capítulo específico da fascinante história
flores, frutas, etc. O sangue - e não só ele como o suor, o
que a al!tropofagia constituía para os ocidentais. Todavia, a hálito, etc., contêm durante a menstruação um tóxico, a
atitude úiante do sangue é culturalmente variável: os Bororo menotoxina, capaz de danificar flores, frutas, conservas, etc.
se consiueravam poluídos em alto grau, ao mínimo contato Como nem toda mulher elimina uma quantidade suficiente
com elt:, enquanto os Nambiquara consomem suas caças meio
para fazer· mal, deverá sempre experimentar se durante a mens-
cruas e sangüinolentas (53, p. 303-4). Entre os Manus, não
truaçãõ suas excreções corporais são venenosas." Algumas
existe palavra para virgem e o sangramento proveniente da
vezes, é perigoso para algumas pessoas particularmente, e
ruptura do hímen é considerado da mesma forma que a inofensivo em relação a outras.
menstruação. Às vezes, é considerado impuro, e às vezes
Todavia, o pavor pelo sangue, e pelo sangue menstrual
cumpre em ritos de purificação a mesma função que a água.
particularmente, não é universal. Para os Walbiri, o sangue
Em algumas ocasiões se lhe reconhece um valor regenerador
menstrual não precisa ser evitado e não se acredita que o
e o vêem como um princípio vital; noutras oportunidades, o contato com ele possa trazer algum perigo (53, p. 55) ;
têm como portador de destruição e de desgraça.
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algumas sociedades empregam o sangue menstrual como remé- ~~,!~~l.?:i~~s()l?~!~t!~cia~.ta1l!1Jém
variam segundo as culturas. \
dio para determinadas enfermidades. Os Idatsa acreditam que (i'
Em algumas sociedades, as mulheres dão à luz em pé. Em
as mulheres menstruadas exercem benéficas influências na certas sociedades, temperatura, limpeza, luminosidade, são de-
caça às águias e influências negativas em relação a qualquer talhes considerados sem importância. Algumas adotam técnicas
outro tipo de caça (55, p. 73-4). cirúrgicas para apresl'ar ou facilitar o nascimento, outras as
A exemplo da menstruação, a gravidez é também, quase desconhecem. Para alguns grupos, o parto é um momento de
sempre, objeto de atitude ritual. Em Bali, por exemplo, mens- dramática dor e sofrimento físico; para outros, a dor física
truação e gravidez são cerim0nialmente desqualificantes: as não se inclui no problema. Algumas técnicas culturais de parto
m.ulheres grávidas oupuérpéiás) não podem entrar no templo incluem a presença de outras pessoas (médicos, parteiras,
de alguns deuses nempódein chegar perto de um sacerdote curandeiros, parentes, etc.), enquanto outras são exercidas so-
(62, p. 137). Em algumas sociedades, estão impedidas de litariamente pela parturiente, muitas vezes sob a interdição de
trabalhar e devem observar uma alimentação especial. Toda- I' fazer diferente.
via, esses impedimentos são de ordem ritual, uma vez que O parto e o recém-nascido são tidos freqüentemente como
há sociedades que os desconhecem e outras que os invertem, poluídos ou poluígenos - Levítico, 12: "se uma mulher, tendo
prescrevendo aos homens o que algumas esperam das usado ..do niatrimÔnio, parir macho, será imunda sete dias, e
mulheres. estará separada da mesma sorte que nas suas purgações mens-
Da mesma forma, o parto requer uma atitude especial, lfuais. Ao oitavo dia, será o menino circuncidado. E ela ficará
já que, para muitas sociedades, coloca a mulher em estado de ainda trinta e três dias a purificar-se das conseqüências do seu
impureza. Cacla cultura prescreve práticas particulares: no norte parto. Não tocará coisa alguma santa, nem entrará no san-
de Nigéria, a família deve ter consigo a placenta e todo o san- uário, até se acabarem os dias de sua P\l!ifiça,ção. Se ela parir
gue perdido durante o parto, às vezes para queimá-Ias e im- gêmeos, será imunda duas semanas, como nas suas purgações
pedir e\cntuais piáticas mágicas contra' a parturiente e seu menstruais; e ficará sessenta e seis dias a purificar-se das con-
filho. Em alguma:> sociedades o parto deve se realizar em ~.elJ.i.iênciado seu parto". E uma fórmula da liturgia do ba-
lugares pré-determinados (fora da aldeia, na residência do irmão tismo cristão dizia: "Afasta-te, espírito imundo da alma desta
da mãe, ele.) sob pena, às vezes, de a criança não poder ser criança". Mencione-se, ainda, o hábito largamente difundido
aceita como membro da comunidade, ou não poder viver. No de se lavar a criança logo após o parto.
Japão os nascimentos são tão reservados quanto as relações se- Uma das mais significativas invariâncias neste terreno é
xuais, estando as mulheres interditadas de gritar durante o tra- o fato de que talvez em nenhuma sociedade conhecida a criança
balho de parto, para não dar ao ato algum caráter público (5, seja considerada um membro completo da sociedade apenas
p.2T6).Algumas vezes, as mulheres ficam sujeitas a determi- em virtude do nascimento: é necessário incorporá-Ia por pro-
,\
nadas precauções, devendo observar resguardo, enqua,nto, em cedimentos simbólicos e dar-lhe um lugar particular no sistema
\ outras sociedades, ambos, ou apenas o pai, devem fazê-Ia. Os social, aplicando-lhe um nome, atribuindo-lhe papéis, fazen-
partos de gêmeos são festivamente celebrados em algumas cultu- do-a, enfim, nascer socialmente. Trata-se de procedimentos
ras, e considerados de péssimo augúrio em outras. Um parto ~ rituais destinados a promover a sua transição do estado de
múltiplo poderá ser motivo de orgulho para um ocidental e Natureza para o estado de Cultura.
para um Bakundo do vale do Congo,' e de vergonha para uma A exposição da mulher à periodicidade biológica fez com
mulher Murgin, que sentir-se-á como uma cadela. Entre as po- que em muitas sociedades ela fosse considerada como fonte
pulações do delta do rio Níger, a norma é que morram a mãe de poder religioso ou mágico: outras sociedades tornaram-na
e os gêmeos.

84
1 afastada desses poderes e inferior no escalol1amento da dig-
85

1
nidade religiosa. Todavia, todas devem assumir lm relação à '",nais. de um sangue '"mau", que brota do corpo em desafio
mulher uma atitude capaz de dar conta de suas características .1 vontade humana, que comove e amedronta. Por detrás da
biologicas, mesmo que esta atitude seja o desinteresse e a des- dí"linção entre sangue "bom" e sangue. "mau", a distinção
preocupação em relação a estas funções. Fundamentalmente, nJlre Natureza e Cultura, já que o primeiro é culturalmente
a mulher, mais que o homem, tem a potencialidade de funcio- produzido, enquanto o segundo emerge de forças naturais.
'.nar simbolicamente como peI1turbador dos sistemas sociais de Cada cultura tem a sua maneira de resolver o problema
classificação, uma vez que é um ser da Cultura, ostensivamente ,LI dualidade da natureza feminina: algumas exaltam a mulher
submetido a processos naturais que escapam aos esforços que "cssa fase; outras, as proscrevem, enquanto outras ainda es-
o aparelho cultural dispende para controlá-Ios. Nesses períodos, ,olhem uma alternativa intermediária de exaltá-Ias em um nível
a própria mulher coloca-se fora da Cultura e se aproxima da c castigá-Ias em outro. Parece que as culturas de tradição oci-
Natureza (o que se vê nas inúmeras práticas de fazer com que ,knta! escolheram a terceira possibilídade:· exaltar, no plano
a mulher se retire da aldeia, coma alimentos crus. .. etc.). Ideológico, a maternidade como o acontecimento "mais subli",,--.
Nessas oportunidades, seu estado fisiológico e seu estado 1111:" e submetcr, no plano psíquico, a mulher, à tortura de
social são incompatíveis. Às culturas se abrem, para solucionar 'lljiJos, desejos, etc. Já que ·cm muitas culturas o enjôo matinal
o problema, três alternativas básicas: banir a mulher, esconder ilO período da gravidez é desconhecido, resta-nos supor ser
a menstruação, ou desconhecê-Ia, tratando a mulher nessa fase 11111<1 manifestação cultural típica de uma sociedade particular.
como o faz normalmente., Todavia, as três alternativas repre- I' enjôo da gravidez, assim como os distúrbios psicossomáticos
sentam a mesma atilude fundamental, que é o reconhecimento, 'inc associamos a ela e ao estado puerperal (que inclusive pode
por ação ou omissão, desses processos como sendo, em última mwionar como atenuante de penas), pode muito bem ser re-
instância, rebeldes ao controle social e passíveis de serem su- .Idlante dessa conjugação agramatical a que é obrigada a mu-
primidos apenas ao nível da consciência.
lher a se submeter: ser um ser da Cultura, tê-Ia como o má-
A mesma dualidade fundamental aplica-se ao recém-nasci-
'limo valor. e estar escravizada à ação de inarredáveis processos
do, que também está simultaneamente na Natureza e na Cul-
da Natureza.
tura (apenas que a dualidade para a criança se dá na diacronia,
enquanto que para as mulheres se dá na sincronia). Diante
dessa conjunção lógica, não é por acaso que as mulheres são
Feiticeiros, Médicos e Semiólogos
quase universalmente consideradas como indicadas e adequadas
para as tarefas da primeira educação: estando mais próximas
da Natureza que o homem (em virtude de estar mais sujeita Supomos freqüentemente que se uma criança, ou mesmo um
adulto se alimenta diferentemente do que prescrevem as normas
a seus processos), a mulher é o personagem estruturalmente
articulado para a realização, como mediadora, da transição ',(Il'iais, ou se esqui\'a de qualquer outro cuidado corporal
da criança do reino da Natureza para o domínio da Cultura. '1"(' pensamos necessário, isto destruirá sua saúde. Mas, em
Aos homens, estariam reservados os nÍ\·eis mais elevados c muit as sociedades, as crianças recebem alimentos toda vez
sofisticados da tarefa socializadora. que choram. sem que isto lhes traga qualquer prejuízo à saúde.
O sangue é signo da possibilidade de violência, se não se Fnsinamos a nosSOS filhos que os horár~os de comer e de
tomam as precauções devidas. Não é por acaso que muitas dormir, que os hábitos de tomar banho diariamente e de es-
sociedades distinguem o sangue voluntariamente derramado, o covar os dentes após as refeições, ou de lavar as mãos quando
sangue controlado, a que atribuem propriedades vivificantes e se chega da rua, são de fundamental importância para a exis-
benéficas, um sangue "bom", que serve para selar alianças l('neia de uma estrutura biolôgÍl:a saudúvel. Entretanto, muitos
g7
86
,I II

povos atingem graus de saúde comparáveis ou superiores a()s ,kixar as janelas abertas para respirar ar fresco, achando que
nossos através de convenções completamente diferentes. 1:;10 põe em perigo as suas saúdes e as dos seus bebês (28,
É certo que os índices de longevidade variam com as so- p. 219-20). No Japão, a proporção de loucos reconhecidos
ciedades, mas isto não significa que a sociedade ocidental seja nJllIO tais é basicamente a mesma registrada nos Estados Uni-
a que melhores resultados tenha obtido neste terreno. Dentro ,Ios, mas a tolerância é maior e a taxa de internação em hos- '111

dela mesmo, sabemos que a estimativa média de duração da pitais psiquiátricos é muito menor; e se podem constatar va- I
vida varia com enormes discrepâncias entre os indivíduos das I íações nos índices de internamento em diferentes períodos da
classes superiores e das classes populares. Da mes~a forma, Ilistória de uma sociedade (29, p. 90). A mais simples obser-
as doenças' incidem diferentemente sobre os diversos estratos v;u,:aoem torno de nós não deixará dúvidas de que a atitude dos
da população, e existem doenças típicas de determinadas classes familiares de um doente, em relação a ele, difere da dos demais,
e de determinadas sociedades. d~ maneira notável.
Cada sociedade determina, de certa maneira, quanto tem- Sabemos que as culturas valorizaram e tornaram social-
po os indivíduos viverão e de que forma normalmente deverão llI~nte necessários alguns tipos humanos que elas plióprias con-
morrer. As próprias categorias de morte legítima e de causas .;ideravam doentes, mas em que viam, por isso mesmo, um
de morte são entidades construídas culturalmente, e algumas :;igno de especialidade e de importância: corcundas, cegos,
sociedades não acreditam em "morte natural", devendo cada ('piléticos, mudos, etc. Os Xamãs da Sibéria costumam, ao
uma ser atribuída a uma vingança, ou atos de feitiçaria. Não m~nos em certas fases, ser loucos, irresponsáveis, esqueléticos,
obstante, é possível que todas as culturas reconheçam como ;ujeitos a ataques de catalepsia, e visionários (4, p. 176) - e
patológicas algumas mesmas manifestações - o que nos ajuda IWIl1 por isso deixam de ser objetos de honrarias e respeito.
a compreender que, quando divergem, fazem-no por imposição r( 'omo estes atributos variam culturalmente, podemos facilmente
de particularidades de suas estruturas sociais. <,oncluir que o que lhes concede virtudes mágicas não são pro-
Assim como as doenças, a medicina varia através do tem- priamente as suas peculiaridades físicas, mas a atitude da
po e do espaço. Se a nossa medicina nos parece ter atingido coletividade diante delas, assim como aqueles que são consi-
um suce~so que consideramos largamente satisfatório, isto não derados doentes o são por não receberem apoio das institui-
pode, contudo, nos impedir de constatar que outros sistemas çôes sociais para as suas características individuais: são doen-
r médicos possam ter atingido resultados comparáveis, mesmo tes não porque o sejam, mas porque assim são considerados.
porque, a rigor, toda medicina parece amparada pela natureza "Doença" e "doente", portanto, são categorias sociais e u
mesma da doença, já que o destino da maio.ria delas é o de \: de se esperar que cada cultura lhes dê explicações próprias.
serem superadas pela própria reação do organismo: morremos Os indígenas· do sudoeste da América do Nórte compreendem
apenas uma vez e, em geral, de apenas uma doença; as outras, as doenças como resultados de uma perturbação da ordem de
são curadas - pelo organismo, ou pela medicina? relacionamento dos homens com os animais e vegetais: revol-
Não somente variam as doenças e as medicinas, como 1 atlas contra os homens, os animais os atacaram com doenças,
também variam as atitudes dos pacientes e da comunidade em ~nquanto os vegetais aos homens se aliaram, dando-Ihes os
rélação a elas: Enquanto os americanos pensam que estão mal remédios; para eles, cada espécie de doença se deve a um
quando estão doentes, os Navaho acham que foram enfeitiça- lInimal particular e requer um tratamento com uma planta
dos ou que transgrediram algum tabu (33, p. 58); em Quito, específica _ o mesmo acontecendo entre os Pima, do Ari-
Equador, é comum às mulheres criticarem os hospitais, por wna (55, p. 193). Para os Nuer, doenças se devem aqlleb!as
lhes obrigarem a determinadas práticas que consideram pre- de normas sociais, cada uma associada a uma doença: o in-
judiciais, como limpar as unhas, tomar banha diHrial1~:::nte, cesto produz doenças de pele, o adultério provoca dores na

88 89
illl

Entre os Fipa, existem dois modelos fundamentais, segun-


região lombar (18, p. 93); para os Ponapê, a violação dos
tabus alimentares acarreta distúrbios fisiológicos semelhantes do os quais se tenta compreender as causas das doenças. O
às reações de alergia (55, p. 123). primeiro modelo, que existe de um modo gerªl. entre as pes-
~oas ordinárias, é o a que ele chama de' modelo "leigo;~~ou
As diferentes culturas lançam mão diferentemente das di-
lcoria de falkj O segundo é particular a uma pequena classe
versas formas de banhos, fumigações, desinfecção, massagens, II il

de especialista, pessoas que adquiriram a habilidade de exercer


purgantes, vomitórios, práticas sanitárias e preventivas, técnicas
:1. medicina, mediante alguns anos de aprendizado com um
de cir.urgia, de curativos, de anestesia, de ritos mágicos, etc. IIIcstre renomado. A medicina destes últimos está para a dos
Os Navalha têm cerca de sessenta cantos aplicáveis em ritos
primeiros como uma espécie de paradigma, a fornecer modelos
de cura, segundo fórmulas prescritas para alguns tipos de doen-
ças físicas e mentais, mediante a associação delas com deter- (Ie problemas e de soluções para uma comunidade de prati-
c'antes (72, p. 369). A teoria dos leigos é uma versão con-
minados personagens de seu universo cosmológico (31, p. 19).
dcnsada e simplificada desse paradigma, embora ambos se
Os Ndembu não conhecem causas naturais para as doenças,
1.'(lIlstruam sobre alguns pressupostos comuns acerca da vida
acreditando-as produzidas por fantasmas punitivos ou feiticei-
ros; seus diagnosticadores,então, são "advinhos" e seus tera- humana e do universo que permeia o pensamento e as emoções
I:lllto dos "doutores", quanto dos leigos (72, p. 377).
peutas "mestres de cerimônia", como expressou Victor Turner
Para os leigos, a doença resulta geralmente da contami-
(69, p. 361); por estes procedimentos, procuram corrigir im-
perfeições biológicas, como a frigidez, os problemas menstruais, nação proposital da comida e da bebida, por um pequeno
a esterilidade, supondo que estes males decoffqffi da desobe- J',rupo de seus companheiros, que eles consideram Aloasi
1 feiticeiros). Os especialistas propõem um modelo que elabora
diência às normas sociais e culturais (70, p. 88). I
i.·~lc primeiro da diversas maneiras: a pessoa é vista como um
('entro do qual se irradiam diversos "caminhos" que são iden- li I

Iificados com as diversas modalidades de relacionamento social


As doenças, suas causas, as práticas curativas e os diag-
nósticos, portanto, são partes integrantes dos universos sociais que pode ter um homem e uma mulher na sociedade Fipa.
e, por isso, indissociáveis das concepções mágicas, das cos- Para os "doutores", quaisquer distúrbios em alguma dessas
modalidatles de relacionamento social se manifesta como a
mologias e das religiões. Não fazem mais do que traduzir,
intromissão, na pessoa, de forças injuriosas - identificadas
às suas maneiras, o conjunto das relações sociais e os princípios
estruturais que as governam. Quem reflete sobre os crucifixos, com os espíritos ancestrais, no caso de perturbações no rela-
cionamento com descendentes, com os espíritos territoriais, no
sempre presentes, nos nossos hospitais, na especialização dos
hospitais segundo classes de pessoas, na cruz simbolizando caso de abalo das relações com co-residentes, e com a feitiçaria,
no caso caso de distúrbios das relações entre um indivíduo e
hospital, nas muletas, e nos órgãos de cera que enchem as
salas de milagres de muitas igrejas, não pode deixar de consta- outro indivíduo que interage com ele (72, p. 370).
tar essa associação, mesmo que sustentemos que possuímos A interpretação dos especialistas e suas reações à doença
uma medicina "científica". em SliUS pacientes são moldadas por sua concepção do corpo
WilIis em um interessante artigo denominado Pallutian humano como sendo ele o ponto de interseção do processo
de vida da sociedade humana com o mundo da natureza sel-
and paradigm (72), analisa a concepção de doença dos Fipa
e põe de manifesto o caráter expressivo de suas práticas médicas, vagem. É no corpo concreto, tangível, das pessoas, que os
em alguns pontos semelhantes às que observamos na sociedade doutores agem, aplicando uma força que tem por objeto a
ocidental, em que costumamos estabelecer uma distinção entre consecução de algumas transformações desejáveis no ambiente
medicina "científica") e medicina "popular". natural e cultural. Nesse corpo, associam a parte superior do

90 91
\

tronco, e mais particularmente a cabeça, às forças intelectuais


lepresente, para todos, a sua condição ritualmente desqualifi-
dominantes que caracterizam a sociedade humana em relação •·ada - razão pela qual ele deve ser mantido à distância. Em
à natureza selvagem. A parte inferior do abdômen e a região algumas sociedades, é cOxnum que os portadores de certas
genital formam uma área moralmente inferior, sede de forças ,Ioenças, e aqueles que a sociedade considera condenados,
poderosíssimas que o intelecto deve ter o propósito de contro- ::ejam mortos, ao invés de se tentar tratá-Ios e salvá-Ios.
lar e. de explorar racionalmente. O ~oração ocupa uma posição
Tais práticas, a que não faltam paralelos com o que se
intermediária, pertencendo ambiguamente às duas regiões opos-
tas. Como em nossa sociedade, é concebido como sede da !lCllsa e se faz (talvez inconscientemente) entre nós mesmos,
Icpresentam o contínuo esforço que as sociedades desenvol-
emoção e seus conteúdos são normalmente inacessíveis ao
vem para lidar com as forças invisíveis que as ameaçam, for-
intelecto. O coração dos feiticeiros é negro, cor associada com
a parte baixa do corpo (72, p. 371). ,as estas que - sem querer eliminar totalmente, pelas razões
Porque o corpo se encontra ligado por "caminhos" ao ::I;',llificacionais que consideramos no capítulo anterior - toda
.;,H:iedade tem um certo interesse em minimizar.
resto do. cosmos, as ações sobre o corpo são também ações
sobre o cosmos. E a direção dessas ações, ou seja, as intenções Portanto, as tentativas de compreensão do patológico como
terapêuticas, são tomadas pelos "doutores" a partir de sUas knilmeno exclusivamente biológico e individu·al estão fadadas
percepções do corpo humano como estruturas e processos cós- " um sucesso bastante relativo: a capacidade de pensar, ex-
micos (72, p. 371). Os "remédios", por eles escolhidos, são imir e identificar as mensagens corporais está subordinada
11'1 I

significados simbólicos que expressam estas intenções. uma linguagem, o que faz dela um fato eminentemente social,
I
II

A partir dessa estrutura conceptual, o "doutor" está mu- IMiável com as diferentes taxionomias das sociedades e das II

nido do instrumental necessário para diagnosticar e tratar as dasses sociais.


doenças, e classificá-Ias como graves ou leves, e, direta ou Lévi-Strauss (50, p. 228) compreendeu bem a logicidade
indiretamente, de controlar as relações sociais. O corpo é, illtcrna dessa linguagem que as crenças e práticas médicas cons-
então, entre os Fipa, uma espécie de mãpa cosmológico, en- tituem: "mas a doente, tendo compreendido, não se resigna
volvido diretamente com as relações da Cultura com a Natureza apenas: ela sara. E nada disso se produz em nossos doentes,
- em que a sociedade se arvora em posição cultural e domi- <Juando se lhes explica a causa de suas desordens, invocando
nante, controlando e explorando os ilimitados domínios da :;ccreções, micróbios ou vírus. Acusar-se-nos-á talvez, de pa-
natureza exterior (72, p. 371); não há pensamento sem modelo radoxo, se respondermos que a razão disso é que os micróbios
de pensamento, sem um sistema de traduçÕes do desconhecido existem e os monstros não existem. E não obstante, a relação
para o conhecido, e o pensamento médico dos Fipa, como entre micróbio e doença é exterior ao espírito do paciente, é
qualquer outro, não pode escapar a esta regra. lima' relação de causa e efeito, ao passo que a relação entre
O temor da doença, a razão de ser socialmente vista llIonstro e doen~a é interior a este mesmo espírito, consciente
como perigosa, está no ser ela - para a nossa sociedade e 011 inconsciente: é uma relação de símbolo à coisa simbolizada,
muitas outras - uma categoria. de posição intermediária, am- 011, para empregar o vocabulário dos linguistas, d~<§ignifi~anle
biguamente situada entre a condição de vida e a condição de a significado. O xamã fornece à sua doente uma linguagem
morte. Por isso, é comum as sociedades se cercarem de pro- lia qual se-podem exprimir imediatamente estados não formu-
teções simbólicas, não somente para proteger o doente, como lados de outro modo informuláveis. E é a passagem a esta
para protegerem-se a si próprias: freqüentemente se lhe proíbe expressão verbal que provoca o desbloqueio do processo fisio-
lavar-se ou barbear-se e se o obriga a permanecer sujo e re- lógico, isto é, a reorganização, num sentido favorável, da se-
pulsivo, numa tentativa de fazer com que a sua impureza física qüência cujo desenvolvimento a doente sofreu".
92
93
Para além das discussões sobre o caráter científico ou IniCia de putras, o que deixa bastante nítida a verificação de
'lHe a semiologia dos médicos, neste terreno, não é essencial-
não científico dos sistemas médicos não ocidentais, existem mente diferente da semiologia dos semiólogos.
fatos que dificilmente poderão ser negados: os casos dos doen-
tes não ocidentais cujos estados se agravam nos nossos hospi-
tais e que, de retorno a suas comunidades, encontram alívio e
cura nas mãos dos seus feiticeiros, casos não diferentes essen-
o Corpo: Denotação e Conotação
cialmente do papel que reconhecemos à sugestão nos processos I I ma das mais notáveis características do homem como animal,
terap~uticos (placebos, etc.) - quer positivamente, pela cren-
e que o caracteriza de certa forma, é a plasticidade de seu
ça do doente nos poderes do médico e da medicina, quer ne-
gativamente, pela descrença dele nessas instituições. organismo, capaz de permitir a ele as mais diversas adaptações.
<;;\0 poucos os animais que conseguem sobreviver em desertos
Então, as etiologias das doenças fazem park de um sis-
l" montanhas, em climas secos e úmidos, em temperaturas ge-
tema coerente do qual participam, em pé de igualdade, o doente,
o curador e a comunidade, e que se relaciona com determi- ladas e abrasadoras. Vários povos consomem alimentos com-
pletamente diferentes uns dos outros, e, mesmo perto de nós,
nadas concepções acerca da existência humana, - o que sig-
nao é difícil encontrar indivíduos que se alimentam de carne
nifica que os debates em torno da cientificidade/acientificidade
das práticas médicas estão, de muitas maneiras, deslocauos. em decomposição, de terra, ou de quantidades praticamente
Na realidade, não é necessário, nesse trabalho, determo- insignificantes. Nenhum animal transforma voluntariamente,
como o homem, o seu próprio corpo: extraindo os dentes,
nos na consideração dos substratos químicos e biológicos que
estão presentes na desorganização de comportamento que ca- amputando os membros, perfurando órgãos, derramando o
racteriza a doença: basta nos limitarmos a seu caráter expres- sangue, deformando o crâneo. Sabemos que cada cultura apro-
veita diferentemente a energia muscular e que alguns homens
sivo e observarmos, por exemplo, que o transe, pelo menos em
alguns de seus aspectos somáticos, não se dá da mesma ma- são capazes de vomitar deliberadamente, verter lágrimas e
neira em todas as religiões e que as sociedades são capazes de assumir posturas que outros considerariam impossíveis. A res-
levar, por meios puramente simbólicos e conceptuais, à morte, piração, os gestos, a voz, a fome, apresentam-se com fisionomias
os seus integrantes: incutindo-Ihes a perda da vontade de viver, particulares em cada povo.
fazendo-os deprimidos, abalando-Ihes de toda forma o sistema A respiração, como alguns povos europeus e americanos
nervoso, consumindo-lhes, até o fim, as suas energias físicas a praticam, em ambientes fechados e enfumaçados, não satis-
pela ausência que provoca de apetite, inculcando-Ihes a idéia faria absolutamente a um camponês, acostumado à vida ao ar
de condenação, marginalizando-os socialmente, privando-os de livre. A hora e o lugar para a realização das neces~idades fi-
todos os pontos de referência intelectuais e afetivos, desinte- siológicas, e também para a alimentação, v.ariam largamente
grando-os de tal forma que num determinado ponto a morte no tempo e no espaço. 0_ ql!eé sexualmente excitante e esti-
passa a ser apenas um simples detalhe biológico. Como diz mulante aqui é repelente e vergonhoso em outro lugar. In-
Lévi-Strauss (50, p. 194), "a integridade física não resiste à
divíduos nascidos em uma sociedade, e socializados em outra,
dissolução da personalidade social".
apresentam os costumes e os hábitos corporais da segunda. As
Aos argumentos de que estes fatos são inexistentes ou
maneiras de andar, de nadar, de saltar, de dormir, são tão
raros em muitas sociedades, lembramos que - exatamente
convencionais como as regras de etiqueta ou os códigos ju-
por serem verdadeiros - estes argumentos demonstram que
rídicos, o mesmo acontecendo com as danças, as ginásticas, as
a presença da morte. por sugestão da coletividade depende da
existência de determinadas instituições, assim como da inexis- lutas, as marchas, as posições de micção e defecação, coito, ete.

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J\.s culturas determinam as posições que devemos adotar o social se faz presente nas menores ações humanas. Em
I
para dormir, ficar de pé, sentar e descansar. Da mesma forma, l ;Ida caso, para cada cultura, essas práticas, na aparência in-
dita as maneiras de utilizar ferramentas e de movimentar o 'ognificantes (a ponto de muitos cientistas sociais delas não
corpo durante o trabalho - direta ou indiretamente, pois, as I, 1I1larcm conhecimento), traduzem mensagens, normalmente
dimensões do cabo de uma enxada podem determinar toda lIll"onscientes - sobre o que é certo e o que é errado, o que
uma disposição do aparelho ósseo e muscular. Quando pensa- I próprio dos homens e o que é "coisa de hichos", o que é I

mos que o deitar-se para dormir é algo universal, estamos I)',nal ao "nós" e o que dele difere, o que é respeitoso e o que
bastante afastados da verdade. As crianças pequenas dormem ,o profanação, o que é nobre e o que é indigno -- e cujos
nos braços da mãe em algumas culturas, penduradas nas costas dcitos conotativos vão muito além do quc se poderia esperar
dela em outras e em berços em outras; há pessoas que dor- do seu fraco poder denotativo.
mem em trouxas, em redes, em bancos e em cadeiras. Há Todavia, não' é apenas involuntária e conotativamentc
povos que dormem agachados, como alguns bosquímanos, e 'lHe o corpo cumpre sua função signifieacional: o repeltório
óutros que dormem em pé, acreditando muitas vezes que deit,ªI ,k gestos cujos conteúdos são manifestadamente denotativos,
é assumir a posição dos mortos. No Japão, diz Ruth Benédict Jamais teria fim em um inquérito etnográfico geral. Os ociden-
(5, p. 225), "o pudor na posição da mulher dormindo é tão Iais afirmam com um aceno vertical da cabeça, os turcos sa-
forte quanto o de andar nos Estados Unidos ... a menina tem ,odem a cabeça, os abissínios atiram suas cab~ças para trás
de aprender a dormir estendida, de pernas juntas, embora " levantam simultaneamente as sobrancelhas, os Dayaks levan-
o menino tenha maior liberdade". Há povos que dormem mais o supercílio, e os neozelandezes elevam a cabeça e o queixo.
I :lIH
e povos que dormem pouco, povos que dormem prepondera- ) mesmo gesto, muitas vezes, indica coisas diferentes; e coisas
damente de dia e povos que dormem de noite. Da mesma for- Rdênticas são, muitas vezes,' como a afirmação,' referidas por
ma, variam as posições consideradas adequadas para descançar. gestos diferentes.
No Brasil mesmo, enquanto em algumas regiões o descançar
A utilização" do corpo como sistel118 de ,expressão não tem
'é sentar-se em cadeiras, em outras é agachar-se sobre as pontas limitesc A palavra corm;ãoáparece na Bíblia niais de mil vezes,
dos pés, erguendo os calcanhares, e, em outras, permanecer mas raramente com o seu sentido fisiológico. Para alguns, o
em pé sobre uma só perna, encostando a sola de um pé no coração representa a sede da vida intelectual; para outros, da
lado do joelho da perna de apoio. ,~ todas essas posturas vida emotiva. A raiva, o ódio e a cólera já foram atribuídos
devem ser aprendidas, da mesma fonita que nós, ocidentais, ao fígado; a inveja já esteve associada ao baçó. Quem não
aprendemos a não cair da cama.
tem entranhas é perverso ou mau. As pessoas ficam com "nó
Há regras especiais para tossir, para espirrar, para cuspir, na garganta", "perdem a fala", precisam "ter estômago" para
para o asseio corporal, para a estética corporal, para a prática ,'uportar alguma coisa, FaJamos em "amigo do peito", em pes-
de esportes, para o lazer corporal, para a infância, para a ,uas dc "coração moI c", em pessoas de "fibra", em "sangue
adolescência, para a velhice, para a dança, etc. Tais práticas, quentc", em "ter garra", em lutar "com unhas e dentes", em
a que Mauss (60) denominou "técnicas do corpo", oferecem pessoas de "pé frio" ou que alguém é "dedo duro", Ajudar
ao cientista social um campo de trabalhoáinclà.Hliâà explorado, ~ "dar a mão", pessoas bobas são "babacas", corajosas são
cuja capacidade de produção de conhecimento é similar aos "peitudas", Fugir é "dar no pé", ser teimoso é ser "cabeçudo",
sistemas de parentesco, aos sistemas políticos e às religiões _ invejar é ter "olho grande". Um bom professor "mastiga. a
porque em cada uma delas está presente uma confluência de matéria", enquanto um mau professor "vomita a matéria'\" Coi-
forças sociais, em relação às quais a base física do corpo não sas caras custam "o olho da cara"; persuadir é "salivar';. Ser
é senão a matéria sobre que se aplicam. indiscreto é "bater com a língua nos dentes", dormir é "tirar

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uma pestana" Tais expressões são exemplos de um repertório ",Iamática de vital importância para o convívio social: não basta
vocabular que dificilmente poderia ser concluído. ',abermos bem a língua pátria, é preciso que saibamos a dicção
I ()ueta e a altura apropriada.
A saliva, durante m\lito tempo, foi usada nas cerimônias
do batismo, quando o sacerdote molhava os dedos com ela e Explícita ou implicitamente, no comportamento corporal
tocava o nariz e os ouvidos dos batizandos. Em muitas socie- h<Í muita expressão: botões, alavancas, pedais, manivelas, cé-
lulas foto-elétricas, expressam silenciosamente uma sociedade.
dades, o proprietário de um objeto, a fim de torná-Io tabu para
(-alo dos meus pára-brisas, dos meus pneus, dos meus vidros, do
as outras pessoas, costumam cuspir no mesmo - prática que
fIIl u volante: legitimo no meu próprio corpo um sistema político.
presenciei muitas vezes em um internato para adolescentes, por
parte daqueles que queriam garantir para si o melhor quinhão Penso geralmente que meus gestos e posturas são universais e
da comida. naturais (tanto que "falo" por gestos quando não conheço o
Idioma de meu interlocutor): legitimo a cultura no meu pró-
Observar os gestos da cabeça, das mãos, dos braços, do
corpo inteiro, enfim - seria um interessante trabalho socio- prIO corpo.
Na realidade, quando nos comunicamos socialmente situa-
lógico: as maneiras de chamar alguém, de cumprimentar, de
mo-nos simultaneamente em diferentes planos, nem todos igual-
indicar objetos, de mandar alguém embora, de ofender, de in-
Illcntê conscientes. Recebemos signos verbais e não-verbais,
dicar intimidade, de expressar desconfiança, de expressar ami-
zade, de exprimir aborrecimento e raiva. .E: claro que cada i;Icteis, visíveis e audíveis: contatos corporais de diferente~ tipos,
cultura o fará segundo o seu próprio estilo: os Maori usam posturas, aromas, aparência física, expressões faciais, movi-
mentos das diferentes partes do corpo, posição das mãos, di-
como expressão de amizade o dobrar o indicador e colocar
a saliência da segunda junta na ponta do nariz; a mãe cqinesa reção do olhar, tom emocional, altura da voz, timbre - enfim,
empurra para a frente e para trás a cabeça do filho, querendo um complexo de informações que tendemos a considerar na-
com isto dizer que está zangada; em certas tribos da África, mrais, mas que estão altamente codificadas e que variam de
apontar com o dedo um objeto é amaldiçoá-Io; beijar a mão "ociedade para sociedade: uma linguagem, tão coletiva como
em algumas sociedades é obediência para alguns e não para qualquer outra.
outros; apertá-Ia por muito tempo pode ser pacto de amizade
para nós, e provocação para outros; pôr a mão na boca é
pedir segredo para algumas culturas, e outra coisa para outras;
o trabalho mais importante, nesse terreno, ainda é, cer- II

colocar a mão nos bolsos da calça não é de bom tom, e as pes- tamente, La p,ééminence de Ia main droite, de Robert Hertz II

soas nervosas "não sabem onde por as mãos". Há toda uma (36), a quem devemos a maior parte das observações que se-
simbologia envolvendo os pés, as mãos, o bocejo, o sopro, o ,'ucrn. Hertz começou por se interessar por um novo método
sono, O sonho, os cabelos, as barbas, a calvície, os beijos. Em pcdagógico que desenvolvia as habilidades de ambas as mãos
c terminou por demonstrar que a predominância de uma das
muitas sociedades, o beijo é substituído por atrito de narizes,
mãos é um aconteCimento sobre o qual a atuação da sociedade
toque de nariz nas faces, atrito das faces, beija-mão apenas,
não é das menos importantes.
ou é permitido somente entre certas pessoas e em determinadas
situações. Comecemos pela consideração dos valores atribuídos à
direita e à esquerda: à primeira, retidão intelectual, bom senso,
Entre nós, uma pessoa que não saiba se portar, sentar,
h:lm caráter, integridade moral, norma jurídica; à segunda, as
quando e onde tocar o seu interlocutor, é uma pessoa "sem
modos" e tendemos a discriminá-Ia. É claro que o desconheCi- idéias contrárias: caráter mau, erro, esquisitice, etc. Empre-
mento dos limites do seu corpo, e das condições de controle }!amos freqüentementc expressões como "entrar com o pé di-
a que ele deve ser submetido, é o desconhecimento de uma rcito", "acordar com o pé esquerdo", falando de nossa boa
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ou má sorte. Cumprimentar pessoas, ou receber presentes, com nesse hemisfério está também a sede da capacidade de lin-
a mão esquerda não é de boa educação. Não devemos levar guagem articulada e dos centros que presidem os m0vimentos
o alimento à boca com a mão esquerda, mas devemos pegar voluntários do corpo. Aceita, então, inicialmente, o pensamento
com ela os feitiços das esquinas, pois assim obtemos proteção. de Broca de que "somos destros da mão, porque somos ca-
Na língua portuguesa, "sinistra" é o sinônimo de "mão es- nhotos do cérebro". Mas questiona em seguida: não há dúvida
querda", ao passo que consideramos a mão direita a nossa de que existe uma correlação regular entre a predominância
mão melhor. Os Y oruba, usam a mão esquerda apenas para da mão direita e o desenvolvimento superior do cérebro es-
manipular alguma coisa suja, porque a mão direita é usada querdo. Mas, destes dois fenômenos, qual é a causa, e qual é
para comer e as pessoas imaginam que correriam o risco de o efeito? O que é que nos proíbe de retomar à proposição de
serem contaminadas, ou de contaminar a comida, se este pro- Broca e dizer "nós somos canhotos do cérebro porque somos
cedimento não fosse observado. Na Turquia e em outros países, destros da mão? (36, p. 85). "Assim, não é necessário negar
a mão esquerda foi associada à limpeza corporal, pois era con- a existência de tendência orgânica para a assimetria; mas, ex-
siderada impura em relação à mão direita. Há notícias de ceto alguns casos excepcionais, a vaga disposição para a di-
uma firma americana que procurou introduzir determinado pro- reita, que parece difundida na espécie humana, não bastaria
duto alimentício na índia e obteve pouco sucesso, porque havia para determinar a preponderância absoluta da mão _direita, se
no cartaz de propaganda uma pessoa que segurava o produto influências estranhas ao organismo não a viessem fixar e refor-
com a mão esquerda: os indianos não tocam os alimentos çar" (36, p. 86).
senuo com a mão direita. Os Árabes também utilizam uma mão Hertz (36, p. 87) observou que alguns povos tinham o
para comer e outra para realizar suas abluções. A oposição entre hábito de amarrar o braço esquerdo de suas crianças, para que
direita e esquerda é freqüel)temente associada respectivamente dele não se pudessem servir; que, quando especialmente trei-
com a fortuna e com o infortúnio, o macho e a fêmea, o forte nada, a mão esquerda era de rendimento similar à destra,
e o fraco, e o seu significado cultural é tão forte que a palavra como no piano, em cirurgia, em datilografia, etc; quando um
"educação" pode ter como sinônimo a palavra "adestramento". acidente priva uma pessoa da mão direita, a esquerda aprende
Segundo a opinião corrente, a predominância da mão di- a substituí-Ia adequadamente, adquirindo a habilidade, a força
reita deveria resultar diretamente da estrutura do organismo e e a rapidez que lhe faltavam; portanto, nada impede que a
nada deveria ter a ver com as convenções e crenças sociais. mão esquerda seja "adestrada".
Entretanto, até aproximadamente a idade de oito meses, a Diante disso, concluiu que a mão direita é obrigatória,
criança é ambidestra, servindo-se, para pegar um objeto, in- .imposta pela coerção, garantida pela sanção. Ao contrário, uma
diferentemente de qualquer das mãos, e, em geral, de ambas verdadeira interdição pesa sobre a mão esquerda e a paralisa.
ao mesmo tempo. Alguns atribuem a predominância da mão A diferença existente entre os valores e funções dos dois lados
direita a particularidades da acuidade visual, outros à influência do nosso corpo apresenta as características de uma verdadeira
da posição pré-natal da criança dentro do útero, à assimetria instituição social, e o estudo do fenômeno pertence ao campo
anatômica do corpo, a diferenças de estrutura do sistema ner- da Sociologia (36, p. 88).
voso, a diferenças das maneiras de a criança ser segurada no Para ele, a mutilação que sofre a mão esquerda, sob a
colo por sua mãe.
ação das sociedades humanas, exprime, como outras mutilações,
Hertz admite que, de todas as explicações, uma só parece a vontade que anima o homem de fazer prevalecer o Sagrado
resistir à prova dos fatos: a que liga a predominância da m30 sobre o Profano, de fazer predominar os desejos e interesses
direita ao maior desenvolvimento, no homem, do hemisfério ja coletividade sobre os desejos e interesses dos indivíduos, e
cerebral esquerdo, que governa os músculos do lado direito, de espiritualizar o corpo, inscrevendo nele as oposições de va-
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lores e os contrastes violentos do mundo moral (36, p. 107-8). considerar as maneiras pelas quais os homens aprenderam a
Como o corpo humano, este microcosmos, escaparia à lei da interpretar suas experiências.
polaridade que rege todas as coisas? A sociedade, o universo 11 fácil descobrir as conotações culturais dos sentidos:
inteiro, tem um lado sagrado, nobre, precioso e um outro um provador de vinho, um controlador de qualidade de pro-
profano e comum, um lado masculino, forte, ativo e um outro dutos, um afinador de pianos -capazes de perceber, porque
feminino, fraco e passivo, ou, simplesmente, um lado direito e para isto foram treinados, as menores diferenças do gosto, as-
um lado esquerdo (36, p. 92-3). Se o lado direito se associa pecto visual e som. As pessoas que moram perto de fábricas
ao Fasto, ao esquerdo não resta senão o Nefasto, o domínio de cigarros, de papel, de farinha de osso, de matadouros, etc.
em que a mão esquerda reina. A mão esquerda seria, então, acabam por conviver normalmente com cheiros que, a outros,
o signo de uma natureza contrária à ordem, de uma disposição agrediriam a sensibilidade. Um vendedor de perfume é capaz
perversa e demoníaca. Eis porque a educação se aplica a pa- de identificar diversas marcas por sutis diferença do aroma.
ralisar a mão esquerda, enquanto desenvolve a direita (36, Muitos povos não distinguem entre algumas cores (por
p.l01-2). exemplo o verde do azul, entre os Navaho e os Guarani), por-
Encontramos aqui, então, as principais oposições que con- que, fundamentalmente, suas culturas tornam essas diferenças
figuram a constituição do sistema social ao nível do pensamen- desnecessárias - da mesma forma por que os americanos
to: Sagrado/Profano, Puro/Impuro, Natureza/Cultura, Confor- acham necessário estabelecer uma série de distinções dentro
mista/Desviante, Consciente/Inconsciente. .. oposições univer- do que nós, brasileiros, chamaríamos de "cor de rosa". Há
sais na definição do problema Direita/Esquerda. Todavia, não casos, na literatura etnográfica, de os membros de algumas
podemos acreditar, como nos parece ter queriào Hertz, na uni- sociedades perceberem diferentemente do ocidental a mesma
versalidade semântica e na invariabilidade dos valores respec- forma: pedidos para desenhar, por exemplo, a planta de sua
tivamente associados com a Direita e com a Esquerda. Em aldeia, que o etnólogo havia percebido, suponhamos, como
outros termos, podemos acreditar na universalidade da gra- duas fileiras paralelas de cabanas, desenham uma forma cir-
mática que constitui um espaço dividido em direita e esquerda cular - caso evidente em que a cono.,epção se sobrepõe e
inibe a percepção.
a partir da constituição orgânica, mas não podemos aceitar a
Todas as sociedades se aproveitam dos sentidos para co-
universalidade do vocabulário desse espaço: "0 homem Kaguru.
dificar o mu-:do, não se pode negar. Entretanto, toda sociedade
para os gestos do amor, emprega a mão esquerda, a mulher
codifica esses próprios sentidos. Para nós, por exemplo, os
Kaguru a mão direita, isto é, as mãos que são respectivamente
órgãos sensoriais estão para o pecado assim como o espírito
impuras em cada sexo" (53, p. 171).
está para a virtude, o que está claramente manifesto nos rituais
de extrema-unção em que o moribundo, para obter a salvação,
é convidado a detestar os pecados cometidos por cada sentido,
Os etólogos nos têm demonstrado que cada espécie vive sendo, então, o órgão, lavado, ungido o bento. No dialeto
em um mundo próprio que determina, antes de qualquer coisa, Wintu da Califórnia, diz Lévi-Strauss, há cinco modos verbais,
a natureza de seus órgãos sensoriais, pois o organismo e seu alguns dos quais correspondentes aos sentidos a que se deve
ambiente constituem um campo único. Os membros das diversas atribuir o conhecimento narrado (50, 207).
sociedades humanas vivem também em um universo que lhes Todas as experiências do homem são mensagens percebi--
é próprio, mas as consideráveis diferenças de suas percepções, das por intermédio dos sentidos e devem ser decodificadas de
sentimentos e atitudes com relação ao seu ambiente físico e alguma forma. Todavia, cada mensagem percebida pela cons-
social não podem ser atribuídas a causas fisiológicas: é preciso ciência corresponde a um amálgama de experiências olfativas,
I"
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visuais, táteis, e assim por diante. Cada uma dessas expenen- disso que chamamos de "gosto". Todavia, nem todas as culturas
cias corresponde a uma mensagem particular, capaz de afetar se apropriam conscientemente dessas propriedades.
todas as outras percepções. Portanto, devem existir, além desse A própria identificação é culturalmente variável em rela-
código que nos dá uma única experiência total, códigos que ção às sensações: o cheiro de alguns queijos é considerado
nos podem permitir o acesso a essas experiências específicas: profundamente nojento por diversas populações, o cheiro do
daí ser cada sentido governado por um código especial. corpo do homem branco ocidental, a exemplo de que fazemos
Contudo, cada sociedade atribui, a estes códigos sensoriais em relação a indivíduos de outras procedências, é, por muitos,
especiais pesos diferentes, quer no contexto do código de nossa considerado desagradável. O odor que produz a decomposição
experiência total, quer no contexto de situações ou problemas dos cadáveres é considerado pelos Dayaks, segundo dizem
particulares. Sabemos, por exemplo, que alguns cegos são ca- freqüentemente, particularmente agradável a suas sensibilidades
pazes de ultrapassar parcialmente suas deficiências sensoriais, olfativas, sobretudo se se tratasse da cabeça cortada de um
aperfeiçoando o seu domínio sobre outro código sensorial, inimigo (35, p. 7). Para nós, a concepção de estragado é ba-
quando, por exemplo, se tornam capazes de inferir o valor de sicamente olfativa (o que se expressa no nosso hábito de chei-
uma nota pela simples manipulação tátil da mesma. Os Api- rar os alimentos), o que pode ser substituído, em muitas cultu-
nayé, observou Lévi-Strauss (53, p. 144), codificam a oposi- ras pelo aspecto visual, ou pelo paladar. O cheiro dos órgãos
ção entre vida e morte, ao nível da mitologia, segundo sím- sexuais é tido por agradável e excitante em algumas culturas e
bolos auditivos, enquanto os Krahó o fazem de maneira os- repelente e associado à podridão em outras, como os Tupari,
tensivamente olfativa. O calendário dos Adamaneses baseia-se que acreditam ser o cheiro dos· órgãos sexuais de uma jovem
numa sucessão de perfumes, que as flores e as árvores exalam inofensivo e o de uma mulher velha perigoso. Alguns grupos
nos diversos períodos do ano. árabes tinham por costume o cheirar a noiva, pelo pai do
Algumas culturas enfatizam, de modo global, um sentido, noivo, para dar aprovação ao casamento.
enquanto outras sobrecarregam outros. Todavia, existe sempre Em nossa vida cotidiana, damos enorme importância a
uma espécie de "colaboração" entre os códigos sensoriais espe- determinados signos olfativos. Basta lembrar a nossa classifica-
cíficos "(por exemplo, quando lemos um jornal, estamos tam- ção dos perfumes (fresco, ~ensual, viril, doce, feminino, agres-
bém recebendo mensagens táteis que atuam de maneiras dife- te ... ). Ao olfato está associada uma série de preocupações
rentes) e também a possibilidade de tradução dos termos de sociais: beleza, status, afirmação ... Nossa atitude diante das
um nos termos de outro. Os numerosos paladares, por exemplo, sensações olfativas, dos conhecimentos que por essa via nos
de comidas e bebidas apenas em parte constituem gostos pro- chegam é de desconfiança, suspeita e insegurança, como ex-
priamente ditos: se contrairmos as narinas, de maneira a im- presso no nosso vocabulário "isto não me cheira bem", "estou
pedir que qualquer odor chegue aos receptores olfativos, fica- sentindo cheiro de confusão", "i~to está cheirando mal", etc.
remos impossibilitados de distinguir entre o gosto de café e o É .possível que, do ponto de vista da utilizaç50 cultural
de uma solução fraca de quinina, ou entre suco de maçã e do aparato olfativo e de outros sentidos, nós, ocidentais, es-
suco de cebola - café e quinina têm em comum certo amargor tejamos em situação bastante desfavorável, comparativamente a
e a cebola e a maçã têm certa doçura em comum, o que é outras sociedades. Os esquimós, por exemplo, apoiando-se na
tudo o que recebe um indivíduo de nariz fechado. O interior da direção e no cheiro do vento, fundamentalmente, são capazes
boca é dotado de sentidos da pele e do gosto; um gosto picante de viajar milhas e milhas por um território que, para nós, seria
é, parcialmente, dor e um gosto suave, de alguma forma, uma visualmente indiferenciado (34, p. 55).
sensação tátil; a temperatura de um alimento, bem como a O mesmo acontece com a apropriação cultural da visão.
sua consistência material, contribui também para a constituição Alguns nativos africanos, por não darem grande importância

10~ 105
4 códigos visuais a que faltam a dimensão de profundidade, jogo de futebol - embora ambos tendam a enfatizar a VIsao
foram incapazes de decodific~ imagens de televisão, e outros, como principal ferramenta de apropriação do mundo, pois esta
postos a assistir a imagens fílmicas produzidas por movimentos parece ser uma característica da nossa cultura.
de câmara, interpretaram-nas como sendo árvores e pedras se- Tomando por base esta característica da nossa cultura,
moventes; personagens de filmes eram vistos como mágicos, algumas interpretações históricas dela se construíram - do
porque tinham o dom de mudar de tamanho e de roupa ins- que o pensamento de McLuhan pode ser um exemplo recente.
tantaneamente, entre duas seqüências (13, p. 337). Klineberg :Ê claro que não se pode cair nesse reducionismo, mas é ver-
(38, p. 226-7) narra o seguinte acontecimento: "viajando pela dade que as ênfases culturais sobre os diferentes sentidos atuam
Nova Zelândia, certo pintor inglês fez uma quantidade de re- constantemente sobre a vida dos membros dessas sociedades.
tratos de nativos, i lcIusive o de um chefe cuja face estava co- Nós, por exemplo, suspeitamos dos outros sentidos que
berta pela tatuagen em espiral típica de sua qualidade. O não a visão e o tato: precisam0s ver para crer, ou, como São
artista mostrou o retrato ao modelo: esperava sua cordial Tomé, tocar as chagas de Cristo para acreditarmos; precisamos
aprovação. O velho olhou o retrato e devolveu-o com est~ escrever as coisas, para não nos esquecermos delas e para
palavras: "não é isto que eu desejo". Pediu-lhe então o artistl:& firmar compromissos seguros; criamos diferentes sistemas para
que desenhasse o seu próprio retrato. Quando entregou ao nos ajudarem a ver o que ouvimos; chamamos as pessoas de
branco o retrato com estas palavras: ':Ê isto que eu sou', este maior arrojo ou sensibilidade de "visionários" ou "videntes";
não pôde ver mais nada além do feitio da tatuagem do velho representamos a onipotência e onisciência de nosso Deus por
chefe e que significava a sua conexão tribal!". Comenta o um olho; dizemos que os olhos são "o espelho da alma"; os
caso dizendo que, para os Maori, o pensamento ocidental de sábios são "iluminados"; quando cuidamos de algo damos
valorizar o indivídllo é desconhecido, importando fundamental- "uma olhadinha"; em Paris, a polícia é "l'oeil"; quando nos
mente o conceito de comunidade. Nesse caso, a concepção despedimos de alguém, dizemos "até a vista"; quando tomamos
que o chefe tem de si determina a maneira pela qual ele se conhecimento superficial, dizemos que é "à primeira vista";
"vê". Alguns prog"amas de prevenção da saúde, ao exibirem uma pessoa estimada é "bem vista"; quando compreendemos
filmes que mostravam os efeitos daninhos das moscas e das bem, "vemos claramente". Temos "visão da história", "pontos
formigas, a alguns indígenas, receberam a seguinte resposta: de vista"; acreditamos que "no princípio eram as trevas e fez-se
"vocês têm razão :te se preocuparem com estes animais, mas a luz"; damos "uma luz", para solucionar um problema; um
os nossos não são tão grandes!". caso pode ser "obscuro", uma solução "nítida"; um lugar triste
Diante disso, a associação de valores semãnticosa cores é um lugar "sombrio" e já houve quem dissesse que "a luz é
particulares (preto:morte/ branco:limpeza/ vermelho:perigo/ informação em estado puro".
verde:esperança; amarelo:desespero, etc.) se transforma em Aqueles que não acreditam no que a sociedade quer que
um problema baIlal para a Antropologia, em que pesemos acreditemos são "visionários" ou estão "alucinados". Não pode
esforços brilhantes de Victor Tumer (69) de provar o contrá- haver dúvidas de que a visão cumpre uma importan'te função
rio, sustentando qre haveria uma profunda motivação emocio- de controle social, e, por isso, tendemos a considerar as noites
DaI associada às c )res do sangue, das feses e do sêmen. e os lugares escuros como perigosos, castigamos nossos filhos
Na nossa própria sociedade, podemos constatar, como colocando-os em quartos escuros, surpreendemo-nos com um
observou HaU (3·t, p. 65), que hOi:lef'l e mulher habitam crime "em plena luz do dia", relegamos certas práticas para o
universos visuais b lstante diferentes, pois aprenderam a usar a "escurinho" e fazemos com que o ritmo da vida social decresça
vista com atenção a diferentes objetos - basta observarmos à noite. Observemos, por exemplo, o que acontece quando se
os comentários de ambos após um passeio, uma festa, ou um apagam inesperadamente as luzes de uma cidade: as pessoas

106 107
se expandem, como um gás que se visse repentinamente libe- às crianças. Parece claro que as nossas crianças de tenra idade
rado da pressão que o continha, e gritam. Todavia, se a falta não têm pelas matérias eliminadas pelo organismo a mesma
de luz se prolonga, os "mapas" de direcionamento no mundo repelância que os adultos manifestam em relação a elas -
começam a fazer falta e sentimo-nos inseguros: por isso, as do que resulta uma espécie de batalha entre os pais e a criança,
pessoas ficam alegres e gritam novamente quando a luz re- batalha que os adultos acabam invariavelmente vencendo.
toma ... Este processo, pelo qual as mães e babás terminam fa-
Portanto, a crença de que dois corpos humanos subme- zendo com que a criança acabe por abrir mão de sua autonomia
tidos ao mesmo est ~mulosensorial reagiriam da mesma maneira, fisiológica e aceite o controle cultural, representa uma espécie
não pode ser vista sem restrições no atual estágio do desenvol- de "treinamento" em que se manifestam basicamente duas
vimento do conhedmento científico. Na realidade, quando se tendências: por um lado, o reconhecimento da acumulação de
trata de culturas d Jerentes, "mesmo estímulo" é, na realidade, pressões na bexiga e no reto,. como avisos da necessidade de
uma multiplicidade de "dados" e de "informações" que devem inibição do esfíncter automático e para atividades tais como
ser "lidos" e "proc,~ssados" segundo códigos diferentes, capazes pedir ajuda, locomover-se ou controlar-se e, por outro lado,
de atuarem uns sobre os outros conotativamente, de forma a aprender a evacuar a urina ou as fezes somente quando a
produzir um universo novo - infinitamente distanciado das evacuação é pedida pela mãe ou ama. Estes processos, então,
origens orgânicas das experiências sensoriais - em que os não são puramente fisiológicos, mas acontecimentos culturais,
sons têm cores (como na publicidade de um televisor: "todas na medida em que a sua ocorrência passa a depender de si-
as cores do som"), as cores têm cheiro ("o branco com cheiro tuações exteriores ao organismo, e não apenas de necessidades
de limão", como quer o anúncio de um sabão em pó) e em que funcionais, intra-orgânicas. São processos por meio dos quais o
as ações e condições humanas têm cheiros e gostos ("sabor educador incute toda uma visão do mundo e todo um com,·
de aventura", "sabor de loucura" como dizem alguns textos plexo de símbolos.
publicitários) . As funções excretórias cOlfleçam, nesse processo, a ser ob-
Para podermos compreender o homem, é claro que deve- jeto de reservas para a criança, a se indentificar como impuras ill,

mos saber a natureza dos seus sistemas sensoriais, mas devemos - pelas caras-feias, pelas palmadas, pelas alterações de tom I1II

saber também, e principalmente, como é que a Cultura modi- de voz, pelo mistério com que estas funções passam gradativa-
fica as informações que alimentam esses órgãos receptores. mente a ser envolvidas. A criança começa a aprender que os

"111
,li

Como disse Wittgenstein, no seu Tratactus Logicus - Philo- produtos das eliminações são tão ruins que, se permanecerem 111

sophicus, 5634: no corpo por tempo diferente do prescrito culturalmente, po- 11I

derão ocasionar uma série de problemas para a saúde. Qualquer


falha é punida com a ameaça de perda do carinho materno,
1111

"No part of our experience is at the same time a priori IIII

Whatever we see could be other than it is com a lembrança da possibilidade de a criança não vir a ser
Whatever we can describe at alI could be other than it is incorporada pela coletividade.
'111 1I

There is no a priori order of things." Quando já um pouco maior, a criança descobre a ofensi- II

111

vidade potencial dessas matérias. Descobre o caráter pejorativo


das palavras associadas a estas funções. Desacostuma-se a pen- III

Higiene: Mito e Rito sar que as pessoas associadas a posições socialmente importan-
tes possam estar submetidas a estas regularidades, porque o I
Existem bastantes indícios - e a Psicanálise tem insistido sintagma que assim se forma terá por efeito profanar o pri-
meiro termo. Assim, dificilmente imaginamos "aquela" mulher
I111

sobre eles - de que as funções eliminatórias são agradáveis


108 109
em tão antiestética situação, ou os sacerdotes nos mictórios _ Em compensação, os Brâmanes seguem rituais de purifi-
no que Sade parece ter descoberto uma de suas melhores cação muito mais complexos a respeito da defecação, a co-
fontes de inspiração ... meçar pela escolha de lugar apropriado, para 'onde levam um
Tais concepções manifestam-se na arquitetura igualmente: vaso cheio de água - descalçam-se e não devem olhar para
os banheiros devem estar escondidos, separados de outras partes o que fazem, sob pena de cometerem grave falta: depois, lavam
da casa; os banheiros masculinos são mais numerosos que os os pés e as mãos com água do pote, indo depois a um riacho
femininos, porque se espera que as mulheres procurem menos o:lde se purificam do terÍvel ato que praticaram; lim:)ando o
esses lugares; os banheiros públicos são escassos e só existem âms com água e terra e depois os órgãos genitais, terminando
onde há grande concentração de pessoas. por lavarem por diversas vezes as mãos e por fim o rosto e a
Aprendemos a nos referir com discrição a estas funções boca. Também é conhecida a austeridade dos japoneses em
e a usar sempre que possível um pretexto para ir ao banheiro: relação a este assunto.
refazer a maquiagem, lavar as mãos, etc. Contudo, tal dis- n claro que há nessas práticas, para cada uma, uma
crição não é absolutamente universal. Na Melanésia, segundo relação com o conjunto do sistema social. Tomemos·por exem-
informa Mallinowski, (58, p. 43-4), não se pode descobrir plO, os lugares destinados às funções excretórias. Entre m
nenhum traço disso que chamamos de "indecências infantis", Arapesh, por exemplo, toda terra plana é considerada um luga!
com referência às funções excretórias. Para os Hopi, "os bran- bom e todo lugar inculto é considerado um mau lugar; há
cos esperam demais das criancinhas", como observaram fre- uma série de "maus lugares" em volta do povoado, usados
qüentemente a Dorothy Eggan (25, p. 368), e castigavam as para porcos ou para latrinas e onde se constroem cabanar
crianças que urinavam na cama somente quando passavam p,'tra as mulheres· menstruadas ou em parto, de quem o sangue
muito tempo do período considerado normal para se abandonar p~rigoso podcria trazer ameaças para a aldeia, que é plana e
a prática. Para os Arapesh, a excreção não é uma função em b:):1 c está associada com alimentos (61, p. 34). Deuteronômio,
relação à qual se exija recato, indo os adultos até o limite da capo 22: "terás fora do arraial um lugar onde vás satisfazer
aldeia para resolverem os seus problemas. Entre eles, estas as :lecessidadesda natureza, levando um pauzinho no cinto:
funções poderiam estar cercadas de timidez, mas raramente de c tendo satisfeito à necessidade, cavarás ao redor e cobrirás
vergonhà, e as crianças aprendem a observar as regras de hi- com a terra que tiraste".
giene, não por meio dos sentimentos de vergonha, mas através Parece bem clara, nesses exemplos, a associação das
de expressões de nojo, e a associação da excreção com os funções excretórias, como em outras que já examinamos, com
órgãos genitais é pouquíssimo desenvolvida (61, p. 69). Há a Natureza, por oposição à necessidade cultural de afastá-Ias.
culturas em que os pais ignoram o comportamento anal de Nesses .casos, observamos o interesse da comunidade cm mar..,
seus filhos e deixam a cargo das crianças mais velhas levar os ginalizar essas funções, coisa que acontece também entre nós,
pequenos para o mato, a fim de que possam livrar-se de suas expressa pelo nosso antigo hábito de construir o banheiro fora
cargas. de casa (a "casinha"), ou nas partes do fundo da casa, ou
perto da cozinha, e - nas construções mais modernas, longe
Para nós, o organismo precisa ser um maquinismo meca-
da cozinha, mas perto dos quartos.
nicamente bem treinado. Os banheiros públicos existem para Nessas disposições arquitetônicas, parece encontrarmos va-
uma emergência, para aqueles que não souberam planejar, e riações de soluções para um mesmo problema - soluções que
são normalmente lugares imundos, quase punitivos. Enquanto são "variações sobre o mesmo tema", como diria Lévi-Strnuss.
isso, em muitas culturas, as pessoas aliviam-se normalmente Em todas elas encontramos, como invariante, a separação entre
nas vias públicas. Natureza e Cultura, já que, em todos os casos, o banheiro é
110 111
II

tética e toda uma magia. Cada sociedade os corta de uma quente para secar as mãos, portas que não abrem se não se
maneira e por um motivo: beleza, luto, idade, etc. Para nós, der descarga ...
até pouco tempo, uma cabeleira emplastada' de óleo ou vase- Há todo um aparato "científico" para nos proteger, e acre-
lina representava "boa aparência", e o movimento natural do ditamos que as nossas práticas higiênicas se caracterizam como
cabelo deveria ser evitado pela aplicação de gomas. diferentes das dos outros povos por esta sua cientificidade. De
Dumont (20, p. 71) observa que um Brâmane deverá um manual de educação higiênica podemos extrair a seguinte ci-
praticar severos atos de higiene quando acorda e quando se tação: "todo progresso lU camp0 Jas ci':ncias em geral pro-
alimenta, e que estas práticas devem estar associadas à oração, jeta-se na evolução da Higiene e da Medicina. " o objeto da
para que ele possa recuperar o seu estado de pureza mais Higiene é evitar as doenças, proteger e manter a saúde utili-
elevado; se ele trabalha fora, deve tomar o cuidado de se ba- zando os conceitas que nos fornecem a Física, a Química, a
nhar antes de entrar em casa. Medicina e a própria Engenharia". Os anúncios publicitários
Em certa região da Itália, as populações rurais, colocadas de produtos de higiene conotam-se de cientificidade: "bacté-
em condição de viver em casas modernas equipadas com ba- rias", "vírus", "micróbios", "microorganismos", "flúor", "ioni-
nheiros e com vasos sanitários ~ habituadas •• fazer suas zação", "deosteral", "cloridóxido de alumínio"... termos de
necessidades no campo - usavam os referidos aparelhos para uma linguagem que os espectadores não conhecem, mas em que
realizar a limpeza de azeitonas, que envolviam em uma pequena acreditam como em um mito.
rede presa por um fio e que eram agitadas pela pressão da Entretanto, a observação da implantação dessa teoria na
descarga de água. Alguns povos se opõem violentamente ao vida prática cotidiana não nos deixa acreditar em sua coerência
tratamento e limpeza da água, pois muitas vezes acreditam ter e veracidade. As pessoas usam o banheiro e depois se limpam
ela .caráter sagrado e que ta! ato seria, conseqüentemente, com papel higiênico: em seguida, lavam as mãos e não as
uma proianação; ou que homens viris não devem beber água partes que tiveram contato direto com a matéria que se con-
limpa, e assim por diante. sidera poluída e poluígena; e a crença de que o hábito de
Sabemos como era diferente o conceito de higiene entre lavar as mãos visa proteger a saúde das outras pessoas não
os nossos antepassados medievais. Qualquer atenção para o pode ser verdadeiro, porque as torneiras não são imediata-
corpo poderia ser considerada falta grave. Muitos monges não mente lavadas.
somente não se banhavam, como também não Ihes era permitido Na raiz dessas crenças parece estar a concepção de que
lavar os pés. Conhecemos histórias de alguns santos que, por a Medicina, disciplina principal deste domínio, é, ela mesma,
pudor, só se banhavam de túnica, prática que não havia de- inteiramente técnica, instrumental, e livre de conotações rituais.
saparecido até há pouco tempo em alguns internatos femininos Entretanto, sabemos quantas ritualizações cercam a prática
de orientação religiosa. da Medicina e que não são poucos os médicos que se sentem
Há informações de que a prática de limpar o ânus com pouco à vontade para trabalhar sem os seus "paramentos"
papel é bastante recente, pelo menos cOm o papel especial- brancos. Além disso, um bom número dessas práticas higiê-
mente destinado para esta função, e que entre os romanos as nicas são anteriores à descoberta da existência dos micro-
"privadas" eram públicas, limpando-se as pessoas com as pró- organismos patogênicos.
prias mãos, servindo-se da água que corria por debaixo, de Portanto, não seria deslocado interpretar o hábito de lavar
onde provém a palavra "latrina", corruptela de lavatrina ,_ as mãos após as atividades de eliminação como uma espécie
o que contrasta de certo modo com os nossos esforços de des- de rito que marca uma transição entre domínios diferentes da
cobrir métodos de tornar os banheiros mais privativos e de- vida social, da mesma forma que devemos lavar as mãos
sinfectados: aparelhos de luz ultra-violeta, aparelhos de ar antes das refeições ("para não contaminar os alimentos") e

114 1 115
depois delas (para não ser contaminado pelos alimentos? - mente a mesma e seria portadora de microorganismos qual-
podemos perguntar), ao chegarmos do trabalho (por que quer que fosse a cor sobre a qual se aplicasse. Na realidade,
razão de ordem instrumental?) ou ao chegarmos da rua - o que importa não é o seu caráter im;trumental, mas o que a
para celebrarmos a transição do Público para o Privado, do sujeira tem de expressivo. E, na medida em que se transforma
Sagrado para o Profano,. da Natureza para a Cultura, e assim a sociedade, na medida em que começa a exigir das pessoas
por diante. E, nessa comparação das práticas higiênicas com que produzam em outras áreas, torna inviável o dispêndio de
as práticas rituais; poderíamos arriscar, com um certo arrojo, uma parcela igual de tempo e de atenção nas atividades de
colocar no mesmo pé os instrumentos utilizados para a higiene limpeza. A ,cor que "suja menos" cumpre, então, a mesma
corporal (lenço, toalhas, papéis, algodão, ete.) e os objetos função racionaliza dor a das fórmulas científicas que "limpam
utilizados nos ritos sacrificiais, porque devem, ambos, ser des- profundamente e rápido".
truídos ou purificados, por haverem tido contato com forças
sagradas consideradas impuras. Por outro lado, as regras de
higiene podem ser invertidas e transgredidas em determinadas Um estudo detido do processo de socialização revelaria,
situações, geralmente ligadas à exaltação da emotividade (amor, provavelmente, que as maiores violências praticadas em nossa
ódio, perigo de vida, competições, festejos carnavalescos, etc.), sociedade co.ntra uma criança se ligam à introjeção nelas das
o que também acontece com as normas rituais, em geral, nas regras de higiene: tapas na mão que foi posta em lugares inde-
licenças rituais, nos rituais de "communitas", nos ritos de vidos, pimenta ou esparadrapo nos dedos para a criança não
inversão, ete. chupá-Ias, ridículo à criança que evacua nas calças ("que
Chegaríamos ao mesmo ponto se lembrássemos que vergonha! deste tamanho!") ...
Durkheim construiu a sua teoria dos ritos negativos inspirado Existe aí, fundamentalmente, a necessidade de se incutir
em um modelo que lembra as práticas higiênicas, o que se um sistema de signos que se apóia basicamente na superiori-
manifesta de pronto na própria terminologia que adota: con- dade do Puro sobre o Impuro, mas que contém também muitos
tágio, puro, impuro, purificação, imunização. .. O fato é que outros princípios de diferenciação e de organização social.
nau se trata de dizer que as práticas higiênicas, que a socie- A própria maneira que consideramos "correta" de falar
dade ocidental tem desenvolvido com tanto cuidado, estão do corpo constitui uma espécie de código de "boas maneiras"
completamente desprovidas de fundamentação objetiva e que que abriga em si um instrumento de assimetri~ social, pois
são puras convenções simbólicas, mas de lembrar que são implica, imediatamente, em uma distinção entre quem é
também práticas simbólicas, nem sempre consubstaRciadas "cultivado" - e pode falar em termos "I:1obres", "elevados"
pelas demonstrações científicas - e que, mesrilO quando existe e "científicos" - e quem é "rude" - e só pode se exprimir
por detrás delas uma fundamentação objetiva constatada ou por um vocabulário "baixo", "vulgar" e "indecente".
constatáve! pela ciência, esta fundamentação é, a0' nível do
A inculcação das regras gerais implica sempre uma
pensamento e do comportamento das pessoas, que não são ameaça em termos de higiene e de posição social: "se você
cientistas e que não estão se comportando nesse momento não estudar, vai ser lixeiro". As revistas femininas, ao divul-
como cientistas, de ordem mítica e ritual. A cientificidade é,
garem os produtos de beleza e higiene, difundem também um
então, um instrumento racionalizador.
modelo de vida de classes superiores, e um modelo de com-
Compreendemos, então, porque é possível a substituição portamento, em relação ao corpo, procedente de estratos supe-
da cor branca, tradicionalmente associada à limpeza, nos riores da hierarquia. Por esta via, suscitam vergonha de seus
banheiros, geladeiras e hospitais, por outras cores, que, segun- próprios corpos, naqueles que não se enquadram nas defini-
do os argumentos, "sujam menos". Ora, a sujeira é evidente- ções desses modelos - o que ocorre invariavelmente, pela
116 117
própria diferença de estilo de vida que classes diferentes são ausência do bidê é então um signo de marcação da discre-
obrigadas a observar. Esta vergonha não é senão uma maneira pância social e um signo indicador das posições respectivas.
de se expressar a vergonha de classe, funcionando, então, o Além disso, a higiene separa as mulheres dos homens:
corpo, como mais um dentre outros objetos possuídos - como "tão bonita e cheirando igual a um homem", "o desodorante
um signo de marcação de um sistema de assimetrias sociais que protege a mulher onde ela é mais mulher", dizem as
e de desigualdade de distribuição do poder: o mais íntimo e publicidades de desodorante. Determina-se à mulher que ocupe
o mais importante dos signos, porque nunca pode ser desvin- o seu lugar. Os desodorantes masculinos devem ter nomes
culado da pessoa a que pertence (9, p. 41-2). viris "Brut", "Agreste" ...
A ascenção na hierarquia está constantemente presente É preciso expulsar a sujeira; expulsá-Ia das profundi-
nos textos publicitários: no do dentrifício que tem "gosto de dades, pois ela se infiltra: os sabonetes são "penetrantes", os
vitória" e que "faz de você um vencedor", no do desinfe- cremes 'limpam profundamente", os microorganismos "pene-
tante que "foi criado para você", porque "ninguém gosta de tram" nas pessoas - no que talvez encontremos uma das
limpar vasos sanitários". Recentemente, uma propaganda de razões de ser a boca um dos mais poluíveis pontos do corpo,
papel higiênico narrava uma pequena histórJa: ele era usado pois leva diretamente às "profundezas" - profundezas que
pelo mordomo e pela cozinheira, às escondidas, porque seu são tocas onde se trama uma destruição e que se ligam tam-
uso deveria estar reservado a aristocratas: o mordomo põe um bém à intimidade física pessoal, e um domínio onde operam
rolo do mesmo sobre uma bandeja, para levá-Io ao patrão. poderosas forças naturais.
Exprime-se então: a) que este papel tem a dignidade das Os produtos de higiene não são para todo o mundo, para
coisas que vão à bandeja - aparente agramaticalidade, que qualquer pessoa, mas, no máximo, para você e para a sua
sugere que ele realmente pode purificar; b) que há aí uma família: respeitam a sua intimidade. Com as crianças, discute-se
relação de poder: ele é bom demais para simples empregados, a higiene apenas enquanto elas estão sendo "iniciadas"; depois,
dos quais se supõe deverem se purificar menos eficientemente respeita-se a intimidade delas. A oposição entre público e
e c) o cometimento do ato às escondidas sugere a marcação privado sempre está presente. É preciso considerar a impressão
da relação de poder, pois, se o patrão viesse a saber, imedia- que se causa aos outros, quando se exibe a intimidade: toma-se
mente haveria represálias. banho para ser consultado por um médico, para se encontrar
Esta relação de poder está em toda parte nas regrás de com uma mulher. .. A aproximação do íntimo é a aproxi-
higiene: sujam-se lenços, roupas, banheiros, etc. e as limpezas mação de uma Natureza que deve ser culturalizada, para se
são feitas por pessoas situadas em posições inferiores da hier- preservar o status, a imagem, a representação social, o pres-
quia. Muitas vezes, a prática dessas atividades purificatórias tígio. .. o povo diz "roupa suja se lava em casa" ...
é, ela mesma, símbolo de uma baixa posição: o "lavador de A oposição entre Normal e Patológico também está aqui:
latrina", o "lixeiro", o "estar na merda", o "ser um merda" ... acreditamos que os nossos dentes se estragarão se não forem
O trabalho feminino tem sido quase sempre associado a estas escovados, que os cabelos cairão se não forem devidamente
atividades: os árabes, por exemplo, usam uma mão para comer lavados, que as impurezas são portadoras de doenças. Toda-
e outra para a higiene corporal, mas as mulheres árabes são via, a principal preocupação é com a possibilidade de o indi-
obrigadas a utilizar ambas as mãos para lavar roupas, e limpar víduo se tornar socialmente patológico: as regras de higiene
crianças (41, p. 75-6). E, entre nós mesmos, os banheiros de estão associadas à personalidade sadia. Por isso, os dejetos
empregada doméstica são desprovidos de bidê, o que deixa
crer que há uma suposição quanto a ser o seu organismo ( são jogados para longe: no lixo, no mar ou no fogo - de
maneira a desaparecer dlo nosso convívio, sob pena de nos
diferente, ou, então, ser diferente a sua condição social. A
expulsar do convívio com os nossos. As pessoas de mau-
118 1 1 <)
hálito e de mau-odor são marginalizadas. Pelo contrário, quem é de se temer que sirvam a disfarçar algum defeito natu-
usa Halitol pode casar com um parceiro invejável e quem ral dessa espécie, o que deu aliás origem a estes aforis-
usa Rexona sempre encontra um lugar. Enquanto isso, na mos de poetas antigos: 'é sinal de fedor o bom odor'."
expressão publicitária os bandidos são mal barbeados e os
loucos mal penteados e, na expressão popular, os criminosos
cospem no chão, os negros e portugueses são mal-cheirosos Os Códigos da Emoção
e os mendigos sujos e fedorentos - mecanismos que cumprem
a função de identificar o "nós" como oposto ao "eles" e que Dentre as capacidades fisiológica~ relativamente bem desen-
já serviu para medir o grau de cultura de um povo pela quan- volvidas em crianças de pequena idade está incluída a de reação
tidade de sabão que consumia ... orgânica àquilo que poderíamos chamar de "estímulos emo-
A oposição entre a Cultura e a Natureza também está cionais". O fato social que deixa este ponto relativamente
presente, e é operante em todos os níveis da co.lstituição das claro é o de que no treinamento e educação de criança, desde
mensagens produzidas a partir da utilização deste código. No as mais tenras idades, a punição e a recompensa constituem
filme de Truffaud sobre o "Enfant Sauvage", o primeiro signo importantes instrumentos: violência ou prêmio físicos, senti-
de ausência da Cultura é a sujidade e o primeiro indicador da mento de segurança ou de medo, afeto ou negação de afeto.
presença da Cultura é o aprendizado, ou a submissão às regras E parece que tudo o que diz respeito ao corpo está, de uma
de higiene. Entretanto, não é preciso ir à origem da Cultura, ou de outra maneira, envolvido em emoções.
pois a oposição está aqui mesmo - no out-door que pede Todavia, da mesma forma por que se aproveita da capa-
que você deixe "o banho demorar em você", porque entre a cidade emocional para fazer valer os seus princípios, o pro-
sua Natureza, o seu organismo, e a limpeza existe uma incom- cesso de socialização é também, e de maneira muito impor-
patibilidade, e as forças impuras que emanam do seu orga- tante, um processo inibidor das expressões emocionais que a
coletividade tem por inaceitáveis, e incentivador das emoções
nismo podem ser controladas apenas provisória e precaria-
desejáveis: a ética puritana tendia a inibir a expressão· de
mente; na nossa recusa de designar o papel higiênico pela
alegria e a exaltar a seriedade; entre alguns orientais, sobre-
vinculação da sua função ao órgão a que está associado; no
tudo chineses, a expressão livre da emotividade não é tida
nossO hábito de lavarmo-nos todas as manhãs e todas as noites,
por de bom tom, e, entre nós mesmos, não é difícil ouvir-se
depois ou antes de dormir, para realizarmos mediações entre dizer que "homem não chora".
os estados naturais e culturais (respectivamente, "dormir" e
Portanto, não é difícil concluir que as estruturas neuro-
"estar acordado"); na nossa preocupação de que os perfumes lógicas são, até uma medida considerável, formas vazias que
sejam "discretos", "suaves" e "naturais" (?), porque um as diferentes culturas preencherão diferentemente, e que os
perfume mais eX!lltado cumpriria a função semiologicamente complexos emocionais assim formados estarão a serviço das
inversa da que se deseja, chamando, por contrariedade, a diferentes sociedades, como mecanismos avaliadores e contro-
atenção sobre o cheiro que se quer disfarçar ou banir - o ladores da observância ou não observância das normas com-
que Montaigne percebeu mordazmente: portamentais culturalmente constituídas. De fato, tanto quanto
os sentimentos de vergonha e culpa, ou de desgosto de .:um
"Eis porque Plauto diz - 'O mais delicioso perfume modo geral, que acompanham a transgressão das normas
de uma mulher está na ausência de qualquer odor'. sociais, as satisfações alcançadas pela realização dos ideais
Quanto aos bons odores provenientes de perfumes agre- sociais são também mecanismos de controle social, sediados no
gados ao corpo, há que desconfiar de quem os usa, pois íntimo de cada individualidade.

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do estamos aflitos ou quando estamos alegres - mas quase
Além disso, é preciso considerar que o "sentir emoção"
sempre associamos a emergência de lágrimas a um impulso
é também algo que se aprende. a tom emocional dos pais,
natural. Todavia, a literatura etnológica registra inúmeros
ao ensinar as crianças a falar, ou no ensinar a analisar os
casos de sociedades que treinam os seus membros a verter
seus comportamentos, são um importante transmissor dos
lágrimas quando têm vontade, e cada uma associa as lágrimas
padrões culturais da emotividade. a fumante neófito de maco-
a fatos particulares. Entre nós, por exemplo, é relativamente
nha - como Becker (3) demonstrou - não sente esponta-
fácil compreender este fenômeno, se resolvermos observar as
neamente as emoções e as sensações que caracterizam o ato
atitudes das pessoas, dentro ou fora da sala em que se vela
de fumar; há necessidade de aprender, de indivíduos com
um corpo; ou, num hospital, se resolvermos comparar as
experiência anterior, a reconhecer os efeitos da droga, e de
reações dos médicos e enfermeiras a mortes naturais de
identificar os sinais que indicam o começo da "viagem", assim
doentes às suas reações a mortes excepcionais (acidentes, por
como de' aprender a conhecer o significado das diferentes
exemplo), ocorridas no interior do mesmo e vitimando os
sensações e emoções que ocorrem "durante a viagem".
próprios médicos, enfermeiros e funcionários.
As próprias rotulações com que designamos as diferentes
Seria oportuno lembrar aqui as palavras de Durkheim
emoções ou as associações que delas fazemos com diferentes
(23, p. 410): "se o cristão, durante as festas comemorativas da
eventos, não podem ser traduzidas com facilidade de um sis-
Paixão, se o judeu, no aniversário da queda de Jerusalém,
tema cultural para outro. atto Klineberg (38, p. 212) observou
jejuam e se mortificam, não é para dar curso a uma tristeza
que entre os Kwakiutl, a morte de um filho ou d~ uma esposa
espontaneamente experimentada. Nestas circunstâncias, o
é ocasião de tristeza, mas, não de uma tristeza acidental,
estado interior do crente carece de proporção com as duras
porque é também um insulto que a natureza dirige aos que
abstinências a que se submete. Se está triste, é, antes de tudo,
permaneCllí:am vivos, o que determina que o seu sentimento,
porque se obriga a estar triste e se obriga a isto para afirmar
nessa oportunidade, seja a configuração de tristeza, vergonha
a sua fé. A atitude do australiano durante o luto se explica
e raiva. A mesma coisa pode acontecer em relação à emoção
da mesma maneira, Se chora, se geme, não é simplesmente
do amor que, em algumas sociedades, estará associada ao
para expressar uma dor individual; é para cumprir um dever
desejo de posse; em outras, separada dele. a próprio amor
que a sociedade circundante não deixa de recordar-lhe quando
"romântico", que celebramos e desejamos, está ausente em
chega o caso". De fato: quando choramos pela morte de uma
muitas sociedades e, mesmo entre nós, é de história relativa-
pessoa e não choramos pda morte de outra, estamos, no pri-
mente recente. Rir, para nós, é fundamentalmente expressão
meiro caso, cumprindo uma obrigação que diz respeito à rela-
de alegria, mas sabemos que, em muitas ocasiões, o riso pode
ção entre o nosso status e o status da pessoa que morreu, e
exprimir outra coisa, como deboche, por exemplo. No Japão,
dispensados dessa obrigação, no segundo caso.
rir nem sempre significa qBe a pessoa está alegre, pois pode
também expressar que ela está passando por uma situação Se estas expressões emocionais respondem efetivamente
embaraçosa. Ensinamos às nossas filhas que não devem rir a sentimentos verdadeiramente sentidos pelos indivíduos, é
em qualquer lugar, muito menos sorrir para qualquer homem, um problema que escapa do domínio da competência do cien-
e deixamos 'que elas sintam que podem chorar em caso de tista social; todavia, podemos dizer que estas expressões de
dificuldades - o que para um homem seria humilhante, sobre- sentimentos que estão relacionadas com diferentes posições e
tudo se em público. com os diferentes papéis sociais, mesmo que não signifiquem
Quando, porque e com que intensidade chorar é algo que tristeza para o indivíduo, significam para a comunidade. Além
deve ser aprendido. a aparecimento de lágrima nem sempre, disso, se o abaixar a cabeça significa socialmente "obediência",
como sabemos, significa tristeza, pois choramos também quan- "respeito" e "humildade", é provável que o indivíduo que

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abaixe a cabeça se sinta também "obediente", "respeitador" que significa que têm sempre uma origem intelectual, baseada
e "humilde". em sistemas de classificação da sociedade.
Uma lista de termos que as pessoas rotulam normalmente
como emoções - medo, ira, furor, horror, terror, angústia,
ansiedade, amor, ciúme, vergonha, perturbação, aversão, pesar, Quando os nossos corpos se sentirem cansados, sentir-
tédio, desânimo, mágoa, tristeza, desprezo, repulsa, desgosto, nos-em os sonolentos e procuraremos dormir. Estaremos
remorso, inveja, frustração, dor, ódio, raiva, orgulho, excita- cedendo a impulsos naturais. Todavia, antes de dormir, pro-
mento, animação, prazer, divertimento, felicidade, alegria, curaremos nossos parentes e desejaremos a eles que tenham
humor, sensação estética, disposição, impaciência, admiração, uma boa noite; escovaremos os dentes; escovaremos os cabe-
exaltação, êxtase, etc. não revelaria elementos cujos domínios los; às vezes tomaremos banho; mudaremos de roupa e,
sejam nitidamente demarcados e, arriscaríamos dizer, univer- conforme o nosso credo, rezaremos ou não; e, pela manhã, ao
salmente presentes segundo as diferentes sociedades e as acordarmos, repetiremos alguns desses atos. Dormir é uma
classes sociais. necessidade natural, mas é também um fato cultural e um
Os próprios psicólogos têm enfrentado uma série de difi- rito. A relação dos homens com suas necessidades naturais
culdades para definir "emoção" e para fazer o conceito dife- não é simplesmente uma relação com a Natureza: sofre a
rente de outros conceitos afins ("sentimento", "sensação",
mediação de uma Cultura que imprime nela as suas próprias
etc.), e observaram que nenhuma das reações envolvidas orga- concepções.
nicamente nas emoções - seja visceral, endócrina, esqueletal
ou nervosa - é específica a determinadas emoções, não Não se pode compreender a Natureza do homem apenas
sendo, então, possível, neste plano, estabelecer uma linha em termos de Natureza, pois na mesma matéria coexistem um
divisória entre as diversas reações emocionais (15, p. 11) _. corpo biológico e um corpo social. A experiência do corpo é
o que sugere que as reações orgânicas, se bem que importantes sempre modificada pela experiência da Cultura. O que cha-
na predisposição e na expressão das emoções., não são, por mamos de "necessidades naturais" só nos é acessível após ser
si mesmas, suficientes para dar conta da questão. traduzido e retraduzido por todo um conjunto de normas e
Portanto, uma análise do fenômeno corporal da emoção valores que constituem a lente sem a qual somos todos cegos
está simultaneamente fora do corpo. Como qualquer sistema e insensíveis. Portanto, a percepção do corpo é função da
de comunicação, as emoções estão submetidas a uma gramá- organização da sociedade e do modo de relação do corpo com
tica, ou seja, a um sistema de convenções 'que ditam a inten- as coisas - e as práticas corporais são atualizações de repre-
sidade, a situação, a razão c a forma delas, por um lado, e sentações mentais. E, consciente ou inconscientemente, expres-
que servem, por outro, para conotar ou para classificar outros sa essas práticas e essas representações, desencadeando um
sistemas de convenções e outras relações sociais, o que acon- processo de redundâncias que as fazem sempre vivas e mais
tece, por exemplo, quando se considera determinado procedi- reais.
mento como "odioso", "triste", "nojento" ...
No corpo está simbolicamente impressa a estrutura social;
Sendo um código conotador e controlador, as emoções
e a atividade corporal - andar, lavar, morrer - não faz mais
não podem ser consideradas, pelo sociólogo, como simples
desordens psicofisiológicas, pois, em graus variáveis de cons- do que torná-Ia expressa. A estrutura biológica do homem
ciência, são parte integrante das relações sociais, e um dos possibilita-lhe ver, ouvir, cheirar, sentir, e pensar, mas a Cul-
níveis de significação delas, - quer como respostas à ordem tura fornece o rosto de suas visões, sentimentos e pensamentos,
das coisas, quer como conseqüência da ausência de ordem, o criando novos cheiros, sons e visões, constituindo novos uni-

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~J'
versos e - novos corpos. Universos e corpos novos, simbó- CAPITULO 111
licos e reais. Reais, exatamente porque simbólicos, porque
todo símbolo se define por um sistema e todo sistema por o NOJO DO CORPO
uma lógica. Lógica que impõe, a todos, os seus pressupostos, OU A MAGIA SEM MAGOS
de forma que, tomando esses pressupostos por verdadeiros e
sendo eles mesmos termos dessa lógica, os homens-crentes "Classifica-se como se pode, mas
confirmam-se reciprocamente as suas interpretações do mundo.
classifica-se" .
Lévi-Strauss

Procuramos apontar, nos capítulos anteriores, alguns princípios


estruturais da organização das sociedades humanas e as ma-
neiras pelas quais as diferentes culturas os expressam simbolica-
mente em S\las apropriações do corpo humano. Mantivemo-nos
a um nível de generalidade capaz de traçar de modo simples o
perfil geral da questão, bem como de esboçar o caráter dos
principais problemas envolvidos. Trataremos agora de voltar os
1I0SS0Solhos para o panorama e5pecífico da apropriação social
do corpo humano na nossa sociedade, objetivando compreender
o significado particular da relação que aqui os homens mantêm
com seus próprios corpos e com os alheios.
Para realizar este trabalho de especi.ficação e aprofunda-
mento, ser-nos-á nece5sário retomar alguns pontos já aborda-
dos: conceitos, teorias e problemas que, burilados, permitirão
a sistematização maior da análise e o aguçamento mais desen-
volvido da nossa percepção do significado social da questão.
Portanto, para progredirmos no nosso trabalho, será necessário
fazermos uma espécie de marcha-à-ré: retrocesso teórico e ana-
lítico cujo escopo é o do enriquecimento da nossa marcha para
a frente. Todavia, ao andarmos para a frente, analisando os
comportament05, pensamentos e sentimentos das pessoas em re-
lação aos componentes do corpo humano que elas consideram
"nojentos", não sairemos do lugar: apenas progrediremos na
compreensão do mesmo problema fundamental, que é o da re-
lação entre a natureza biológica e a natureza social do homem.
:É claro que não chegaremos ao entendimento cabal da
questão - pois ela é o principal desafio com que se defronta
a Antropologia - mas poderemos lançar alguma luz sobre a

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