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Nota de Aula de Geografia do Brasil A partir da década de 1930, passamos a investir em indústrias,

Prof. Francisco Linha res infelizmente, não tínham os dinheiro, nem máquinas e nem
tão pouco técnicos; tivemos que importar tudo, e pedir
Para 2os anos e Extensivo Pre-Vestibular dinheiro em prestado. A conseqüência de tudo isso, foi que
nos transformamos em um país com uma e conomia
Mercosul ou ALCA? dependente de investimentos externos e de tecnologia de
outros países causando um grande e ndiv idamento externo.
Por uma América Latina forte
Desde o tempo da independência das colônias espanholas na Porém, com todos os endividamentos e a dependência de
América Latina, seus libe rtadores tinham um idea l de um dia tecnologia exte rna, atualme nte mais de 60% das nossas
unir toda a mesma em Estados extensos e fortes exportações são de produtos industrializados e semi-
economicamente, um de seus idea lizadores foi Simón Bolívar. industrializados, e passamos de país exportador de matérias-
primas para importador de produtos com o petróleo, metais,
Mas este sonho ficou esquecido por mais de um século. No carne e trigo. Essa atitude teve reflexos negativos na zona
entanto após a Segunda Guerra Mundial, a socie dade tomou rural, já que se estávamos importando é porque os
consciência da pobreza que e xistia no mundo, e uma das investimentos naquele setor dim inuíram, causando uma
primeiras iniciativas da ONU (Organização das Nações Unidas) grande migração das pessoas pa ra as cidades.
foi cria r a Cepal – Comissão Econômica para a América Latina,
com sua sede em um país subdesenvolvido, o Chile. Mesmo com todas as exportações, os produtos importados,
pelo Brasil, em média, ainda, custam muito caro causando
Muitos intelectuais trabalharam para o desenvolvimento de prejuízos para nosso país. Ainda por cima, os produtos
proje tos econômicos na Cepal, alguns destes, muito bem brasileiros só concorrem no mercado inte rnacional porque são
recebidos pelos países latinos, mas que pouco contribuíram baratos, a custa de péssimos salários pagos aos trabalha dores
para a diminuição das desigualdades s ociais, tornando o e da perda de direitos trabalhistas.
subdesenvolvimento uma condição para um futuro acordo
econômico entre estes países, unindo-os em um grande bloco Outro fator que mudou m uito foi a relação comercial do Brasil
econômico. com os outros países. Anteriormente, por volta da década de
1960, nosso maior parceiro comercial era os Estados Unidos,
Mas por que os países latinos deveriam se juntar em um nossos produtos tinham como primeiro destino aque le país,
grande bloco econômico? E por que o Brasil é alvo de outros depois a E uropa e em terce iro lugar o Japão. Ainda, hoje, estes
países para ser um parce iro comercial? países são importantes nas exportações brasileiras, mas nas
últimas décadas a comercialização com os países
As relações comerciais brasile iras subdesenvolvidos têm crescido bas tante. Países como a
O Brasil participa do comércio internacional, ou seja, num Argentina, o Urugua i, a Venezuela, o Paraguai que apesar de
comércio que envolve todos os países do m undo. Pe rceba que serem nossos vizinhos, tinham pouco relação come rcial com o
alguns países participam deste comércio como fornece dores Brasil, passaram a ocupar lugar de destaque em nossas
de matérias-primas: alimentos, fontes de energia; e os outros relações de intercâmbio comercial.
participam indus trializando estes elementos e exportando-os
para os países de origem ou comercializando em seu mercado Industria lização e subdese nvolvime nto
interno. Nosso país tanto fornece matérias-primas como Atualmente, somos um dos poucos países subdesenvolvidos
industrializa-as, somos um país subdese nvolvido industrializados do mundo, temos bastante importâ ncia no
industrializado. comércio mundia l com parceiros come rciais importantes.
Somos responsáveis por quase 70% das comercializações da
Ao longo do século XX, o comércio exte rior do Brasil se América Latina. Perceba o quanto s omos importantes,
modificou muito, especialmente, nos últimos 50 anos. Até a juntando as econom ias da A rgentina, Paraguai e Uruguai em
década de 1950 a g rande maioria dos produtos e xportados um ano de traba lho ela seria igual ao Estado de São Paulo.
pelo Brasil era matéria-prima (até a primeira metade do Restaria a e conom ia de todos os outros estados brasileiros.
século XX, o café chegou a ser 7 0% das e xportações
brasileiras) éramos um país monoprodutor e Mas, a industrialização e a modernização de nosso país não
monoexportador, ou seja, nossa maior produção resumia-se a conseguiu diminuir as profundas desigualdades sociais, pelo
um produto, assim como nossas exportações também. contrário elas aumentaram. O progresso industrial baseado
em tecnologia estrangeira e capital (dinheiro) emprestado a
Quando houve, em 1929, uma grande crise do capitalism o em juros, privilegiou às elites empresaria is, por pode rem pagar
que os países que nos compravam café resolveram não mais baixos salários, aumentando o desemprego, e a concorrência
comprá-lo, foi então que percebemos que nossa economia por qualque r emprego.
ficaria muito frágil se continuássemos com aquela política
econômica. Frente a todos estes problemas, a Cepal passou a incentivar a
formação de blocos comuns na América Latina, como
tendê ncia que se confirmaria no es tágio atual da O impacto do Mercosul na econom ia brasileira
Globaliza ção econômica. Após a efetivação do Mercosul, houve um extraordiná rio
aumento do inte rcâmbio entre o Brasil, a A rgentina, o Uruguai
Antes do Mercosul e o Paraguai. O volume de comércio entre os países membros
Em 1960 o Brasil com a Argentina, o México, o Paraguai e o saltou de 4 bilhões de dóla res em 1990 para 20 bilhões em
Peru assinaram em Montevidéu, o tratado que dava origem a 1998, a maior parte das trocas come rciais, cerca de 75 por
Alalc – Associação Latino-Americana de Livre Comé rcio com o cento acontece entre Brasil e Argentina. Com isso a Argentina
objetivo de eliminar ce rtas barreiras comerciais entre os passou a ocupar o ca rgo de nosso principal parceiro comercial,
países membros no prazo de 12 anos. Passado esse tempo deixando para trás países como a Holanda, a Alemanha e o
previsto o México, o Brasil e a Argentina não tinham Japão.
abandonado as barre iras protecionistas.
Tudo parecia dar certo, as expectativas para os próximos anos
Em 1980, a organização f oi reform ulada, mas mantendo os eram as melhores, a estimativa era de que o Mercosul
mesmos obje tivos com um outro nome, agora deveria comercia lizasse até 40 bilhões de dóla res em 2006.
chamar-se Aladi – Associação Latino-Americana de
Desenvolvimento e Integração. Os Estados Unidos lançam a idéia da ALCA
Você observou como um acordo de livre comércio beneficiou
No ano de 1982, todos os países da América Latina, inclusive o a comercialização do Brasil com outros países? Ficou ligado,
Brasil, passaram pela crise da dívida externa que elevou como as exportações melhora ram a economia no nosso país?
profundamente a inflação nes tes países, o que comprometeu Pois é, os norte-americanos também. Eles perceberam que o
a integração, já que havia uma profunda diferença econômica Mercosul beneficiava a economia dos países membros,
entre os países membros. principalmente devido aos planos econôm icos impleme ntados
nos dois países que conseguiram conter a alta da inflação
O núcle o formador do Mercosul (desvalorização da m oeda de um país).
Em novembro de 1985, o Brasil e a Argentina passaram a
assinar uma sé rie de acordos bilaterais, que previam a Em 1994, os norte-americanos lançam a idéia de uma Área de
eliminação das barreiras econômicas e ntre os dois países. Essa Livre Comércio das Américas – ALCA, que teria como objetivo
atitude f oi importante porque até e ntão eram dois países a eliminação de todas as barreiras come rciais entre os 34
rivais, e essa rivalidade ainda era a limentada por outros países países americanos, com exceção de Cuba, conside rada pelos
como os Estados Unidos, principalmente, já que sem Estados Unidos como nação não- democrática.
coopera ção econômica Brasil e Argentina se riam f racos.
Ora, e porque os norte-americanos tão ricos, maior potência
Depois da assinatura do acordo as relações comerciais entre econômica do mundo manifestariam o inte resse de compor
os dois países intensificou o volume do comércio e as relações um bloco com pa íses latinos tão pobres? A resposta aparece
diplomáticas. Com o fim da ditadura militar nos dois países, os quando percebemos que no ano de 2000 eles acumularam
dois puderam introduz ir projetos de desenvolvimentos muito uma queda em seu comércio maior do que o PIB de muitos
semelhantes, apoiados na reformulação da participação do países pobres, cerca de 480 bilhões de dólares. Com uma área
Estado na e conom ia e de uma f utura ampliação do me rcado de livre comércio e ntre os países das Américas eles poderiam
para outros países. suprir todo o comércio com seus produtos e re cupe rar em
cima de nós suas perdas comerciais. Você percebeu, meu caro
De fato, isso ocorre u em 26 de março de 1991, com a leitor? Nós seriamos recolonizados, ficaríamos responsáveis
assinatura do Tratado de Assunção entre Brasil, Argentina, pela recuperação da economia dos Estados Unidos.
Paraguai e Uruguai dando início ao Mercosul – Mercado
Comum do Sul baseado no modelo de integração da UE – Só para você ter uma idéia, a econom ia norte-americana é tão
União Européia. Primeiramente houve uma cobrança de grande que se entrarm os na ALCA como os Estados Unidos
tarifas de importações pa ra poste riormente reduzi-las até a querem, seria muito provável que os produtos deles
total e liminaçã o. entrassem em nosso país mais baratos, e quebra riam as
nossas empresas nos fazendo voltar a ser uma nação agrícola,
Depois, deveria se constituir uma união aduaneira, ou seja, os o que causaria uma onda de desem prego e miséria terríveis a
compone ntes do tratado deveriam possuir uma Tarifa Externa todos nós.
Comum (TEC) para o comércio com outros países. Na terceira
fase deveria ser cons tituído um me rcado comum de circulação Por todas essas razões nós brasileiros nos opomos a idéia de
de pessoas, serviços e capitais. Seria assim: você não entrar na ALCA, já que o Mercosul com todos os problemas
precisaria de passaporte para ir para a Argentina, ou para que tinha estava dando certo e, ainda por cima, o Brasil
qualque r país do Mercosul e as moedas seriam unificadas. começou a procurar apoio com a UE – União Européia. Os
norte-ame ricanos não gostaram, sentiram-se ameaçados e, aí
começa a desintegração do Mercosul.
A Crise do Mercosul negociação – a que trata de proteção de investimentos – e a
Devido a nossa grande dependência fina nceira, as crises do divulgasse pela Internet no dia 18 de abril de 20 01.
México em 199 5 e a dos países asiáticos em 1997 (...)
praticamente faliram nosso país, tivemos que pedir muito Um dos capítulos mais importantes é o que trata de
dinheiro empres tado ao FMI – (Fundo Monetário investimentos (...) Ele define que o governo não pode
Internacional) e houve uma desvalorização muito grande do diferenciar empresas estrangeiras de nacionais. Mais que isso.
Real em relação ao dólar, prejudicando os nossos parceiros do Permite que as empresas exijam indenizações caso alguma
Mercosul, especialme nte a Argentina. ação governamental leve à perda de lucros. A empresa não
precisa te r obtido lucro é ter perdido pa ra pode r pedir
Como a nossa moeda ficou mais baixa que o dólar, o produto compensações. Ela pode processar o governo pe la perda de
brasileiro passou a entra r na Argentina mais barato, causando “lucros estimados”, ou seja, dos lucros que iria ter. Uma
uma grande quebrade ira das empresas, e forçando o governo medida governamental que trate, por exemplo, de meio
argentino a erguer barreiras comerciais contra o Brasil ambiente, re duzindo a á rea permitida de corte de madeira, ou
temendo haver uma invasão dos produtos brasileiros naquele demarcando uma terra indígena, pode provocar processo de
país. indenização a uma empresa madeire ira que comprou terras
no país e se sente atingida nos seus “lucros estimados”. Assim,
Em 2001, o Mercosul sof re um duro golpe com o colapso da o governo pode se r obrigado a dar à empresa o lucro que ela
economia na Argentina, o que provoca uma queda nas teria com a exploração da área. O processo não corre ria pela
exportações brasileiras para aque le país combinado com Justiça dos países, mas em comissões indicadas pela empresa
instabilidades políticas no Paraguai e dificuldades financeiras processante e pelo governo processado. Correriam de forma
no Uruguai. secreta, sem obedecer a prece itos jurídicos, pode ndo criar
“fábricas” de process os viciados, arrancando indenizações em
Em setembro de 2001, os norte-america nos sof rem um duro série de governos.
golpe em sua economia quando o atentado de 11 de (Extraído e adaptado de CHRISPINIANO, José. Revista Caros
setembro, do mesmo ano, abala a economia daquele país e, Amigos Especial, março de 2002.)
conseqüentemente do mundo globalizado. A partir daí, os ALCA é s uicídio
norte-americanos passam a investir pesado contra a economia
brasileira procurando forçar a e ntrada do Brasil na ALCA. “Na Roma antiga, só votam os romanos. No capitalismo global
moderno, só votam os americanos, os brasileiros não votam”,
ALCA – “Área de Legitimação da Colonizaçã o da A mérica”? diz o especulador George Soros (Folha de S. Paulo, 8/6/2002).
A ALCA é reduzida a um assunto meramente comercial pela A declaração tem o indiscutível mérito de explicar o sentido
maioria da imprensa nacional. Deveríamos nos pe rguntar se estratégico dos Estados Unidos para a América Latina e para o
existe alguma comissão pertencente a ALCA responsável por Brasil, em particular. Trata-se da “recolonização” do
estudos que diminuam a pobreza, as desigualdades sociais, de hemisfério, segundo um process o que tem três grandes
como se rá feita a dis tribuição das riquezas ou da diminuição vertentes: econômica (com a implantação da Área de Livre
da concentração de renda tão gritante na América Latina. Comércio das América – ALCA); milita r (com a ocupação da
Podemos antecipa r a resposta: NÃO. A Área de Livre Comércio Amazônia); e cultural (com a destruição dos ce ntros de
das América é meramente comercial não e xistirá estudo de pesquisa e de ensino superior público). Esse processo, já
diminuição das desigualdades nem tão pouco da livre bastante avançado, foi ainda mais ace lerado a pós o atentado
circulação de pessoas. Para os norte-america nos os brasileiros de 11 de se tembro. (...)
não são pessoas, são apenas números, consumidores.
O PIB (Produto Inte rno Bruto) dos Estados Unidos soma cerca
A participação brasileira é tão importante, já que deixamos de 11 trilhões de dólares, equivalente a 22 PIBs do Brasil... e
claro pa ra eles que não queríamos entrar na ALCA, se as quase quatro vezes os PIBs somados dos outros países das
regras só privilegiarem os norte-americanos, que eles (os Américas, incluindo o Canadá. A ALCA signif icaria a anexação
norte-americanos) insistem em nossa participação. E por quê? dos mercados das Américas aos Estados Unidos... seria como
Por que somos o país mais importante da América Latina, e promover uma disputa de boxe entre um peso-pesado e um
atualmente todos os países subdesenvolvidos enxe rgam no peso-leve, sem dar qualque r vantagem ao “peque no”. O
Brasil, o seu maior representante. Resta a nós brasileiros [resultado] seria um [verdadeiro] massacre.
cruzar os braços e dize r não a ALCA e reafirmar a nossa
independência. O detalhe é que todas a estratégia da ALCA, do ponto de vista
da Casa Branca, está pa rticularme nte e ndere çada a “capturar”
ALCA NÃO o Brasil. Basta soma r dois mais dois.(...)
Desde 1997 a ALCA vinha sendo negociada de mane ira se creta
pelos governos. Para que o assunto se tornasse público, foi Brasil, mesmo após oito anos de [Fernando Henrique
necessário que uma ONG americana, o Institute for Cardoso], ainda tem muito a “ofere cer” à atividade predatória
Agriculturue and T rade Po licy, obtivesse de fonte não revelada das corporações transnacionais. [Por exemplo]: ainda, não
a cópia de uma parte dos documentos refe rentes à foram privatizadas as gigantes como Furnas e Petrobrás. Ainda
existe instalado no país um setor industrial nacional A proposta apresentada não é apenas de cooperação
dinâmico... bancos brasileiros fortes... imensas reservas comercia l e complementação econômica, mas também de
biológicas e minerais, incluindo água potável. (...) Se o Brasil integração da rede de transportes, como a conexão rodoviária
aderir a ALCA, comete ria um “verdade iro suicídio”... Basta transoceânica Atlântico-Pacífico na região amazônica e
olhar para a Argentina [ que des de 1990, cum pria ferroviária na região platina, com os portos chilenos, bem
rigorosamente as orientações do FMI]...atualmente tem mais como hidroviária entre as bacias amazônica, platina e
da metade [de sua] população abaixo da linha de pobreza caribenha (Rio Orinoco). Além disso, haveria a integração
(ganha menos de 1 dólar por dia). Só que estamos falando de energética ( oleodutos, gasodutos e eletricidade, além de
um país que já foi o quarto mais rico do mundo (nos anos 40), empresas mistas) e a coope ração político-diplomática (que
e de uma população relativamente culta (em 1993, só em envolve também uma dimensão com um de defesa).
Buenos Aires havia mais livraria do que em todo o Brasil).
Essa iniciativa decorre da projeçã o da e conom ia brasileira e da
Os Estados Unidos já estão, ostensivamente, ocupando a diplomacia do país, encontrando base no fenômeno de
Amazônia. [Atualmente, os norte-americanos estão regionalização que caracte riza a globalização. De fato, o
construindo] o maior ae roporto da Amé rica do Sul, em Manta, intercâmbio cresceu nos últimos anos especialmente entre
no Equador, no coração da floresta. (...) Enquanto aprimora a vizinhos, e que possuem um semelhante nível de
construção da base da Manta, Tio Sam tenta ins talar a base de desenvolvimento. Este fenômeno cresceu ainda mais com a
Alcântara, no Maranhã o (entrada da Amazônia), [na época] instabilidade financeira e o crescimento do protecionism o,
com total coope ração de FHC. [No acordo] as autoridades que rece ntemente tem ca racterizado a economia
brasileiras nem sequer terã o o dire ito de verificar, por internaciona l, e está presente nas demais regiões do mundo.
exemplo, o conteúdo das caixas ali desembarcadas pelo
americanos [e, não te rão direito de circular na área]... Isso A atitude Argentina decorre, por um lado, de uma forma de
significa que o Brasil está cedendo a sua sobera nia. Além ressentimento pela liderança brasileira, busca de uma
disso, a ins talação da base ameaça a sobrevivência das barganha (mais vantagens come rciais em troca de apoio) e
comunidades de remanescentes de quilombos que há mais de medo de pe rda de importância relativa, na medida em que a
duzentos anos vivem na região [ e que atualmente estão coopera ção com o Brasil se diluirá por um maior número de
sendo expulsos]. países. O problema com o Chile resulta da situaçã o obje tiva
deste país e de sua forma de inserção internacional, mas caso
[As verbas que faltam] para contratar novos professores na a Comunidade Sul-Americana de Nações se consolide, ele terá
Universidade de São Paulo (USP) [ e de todas as universidades de buscar uma acomodação com os vizinhos. O problema
federais no Brasil], não é “acidente”, nem resultado colombiano decorre mais de fatores políticos, como a relação
“imprevisto” ou “indesejável”. Ao contrário: faz parte de uma com os EUA via Plano Colômbia, mas não é irreversível. Os
política deliberada de entrega da riqueza da nação às demais estão de acordo.
corporações impe riais. Não por acaso, o Ba nco Mundial
“recomendou”, em documento público, a privatização da USP A integração sul-americana tem a vantagem de criar um forte
e de todo o ensino supe rior brasileiro.... mercado regional, que alavancará as economias da área, como
também reforça rá o interesse de outros parceiros, como a
(...) É óbvio que não inte ressa ao imperialismo [norte- União Européia e a Ásia oriental. Especialmente porque cria
americano] o desenvolvimento de pesquisa nacional, nem a um contrapeso à ALCA, cujas negociações se encontram
formação de intelectua is capazes de elaborar um saber estagnadas. Da mesma forma, o novo bloco terá mais poder
histórico, cultural e científico que consiga resistir à dominação nas negociações da OMC e criará um elemento positivo pa ra o
cultural... promovida pe los ce ntros do impé rio. desenvolvimento, pois a região poss ui um enorme potencial
[Será que darem os razão a George Soros?] de crescimento, ao contrá rio de pólos que já atingiram ce rto
(Extraído e adaptadode A RBEX JR, Jo sé. Revista Caros Amigos, julh o de 2 002.)
nível de saturação. Particula rmente chama atenção o volume
de recursos naturais exis tentes.
A Integração Sul- Americana é viável?
Na Reunião de Cúpula Sul-Americana de Cuzco, Peru, foi
Certamente o voluntarismo político é a ma rca do processo,
assinado um ambicioso acordo de integração da América do
que muitos apontam como ponto fraco. Mas pode-se
Sul, impulsionado basicamente pela diplomacia brasileira. conside rar que um problema da diplomacia da década
Embora saudado por alguns como um grande avanço, o
anterior f oi não haver pensado grande e te r de ixado de agir no
acordo é conside rado uma utopia política pelos críticos,
momento certo. Assim, é melhor corre r o risco de ver um
enquanto a Argentina demonstra um comportamento
projeto não se concretizar do que deixar de formular projetos.
retice nte e problemá tico. Além disso, o Chile manifesta uma
Até porque não há, atualmente, maiores e melhores
postura de que, se não é contra, aponta para dificuldades propostas viáveis na mesa de negociações. Por outro lado,
conside radas insuperáveis, como as baixas tarifas que já parcerias estratégicas como a que está sendo articulada com
pratica, que estão abaixo do rebaixamento proposto. Daí
países do porte da China, terão maior ef icácia se promovidas
muitos se perguntarem: a integração s ul-americana é viável?
pela região como um todo, para que não seja
demasiadamente assimétrica. Desta forma, embora tenha
enormes dif iculdades pela frente, a iniciativa lançada em Partes, diversos fatores econômicos e políticos também
atrapalharam o calendário de integração e expansão do
Cuzco também representa um potencial trunfo que não pode
Mercosul. Embora o caminho ainda seja longo, o Mercado
deixar de ser explorado. Comum do Sul continua a revelar-se promissor para o Brasil e
suas empresas. Pode representar também peça chave para
Mercosul completará 20 anos maior integração de todos os países da América Latina. Hoje,
além dos Estados Partes do bloco, e ainda da Venezuela, em
processo de adesão, Bolívia, Chile, Peru, Colômbia e Equador
Passados 20 anos da concepção de um já participam como estados assoc iados; e o México, embora
mercado comum como definir, atualmente, o este não seja um status oficial, entra como estado observador.
bloco econômico?
Fique por Dentro
Quando se fala em Bras il, Argentina, Paraguai O que rege o bloco
e Uruguai, o assunto q ue logo vem à mente é O Mercosul é um amplo projeto de integração regional,
o futebol. Mas além da paixão nacional pelo envolvendo dimensões econômicas, políticas e sociais, o que
esporte, esses países têm muito mais em se pode inferir da diversidade de órgãos que ora o compõem,
comum do que se imagina: um mercado - o Mercado Comum os quais cu idam de temas tão variados quanto agric ultura
do Sul, mais conhecido como Mercosul. Há quase 20 anos, a familiar ou cinema, por exemplo. No aspecto econômico, o
sua semente era plantada, com assinatura do Tratado de Mercosul assume, hoje, o caráter de União Aduaneira, mas seu
Assunção, em 26 de março de 1991. Mas o processo de fim último é constituir-se em verdadeiro Mercado Comum,
integração, de fato, só começou a se concretizar a partir de 1º seguindo os objetivos estabelecidos no Tratado de Assunção,
de janeiro de 1995. por meio do qual o bloco foi fundado, em 1991.

Prestes a completar duas décadas, entre avanços e recuos, a Ainda nos dias atuais, ele é um bloco econômico com o
história do bloco econômico revela benefícios para todos os processo de integração em curso, resultado de pelo menos
parceiros, mas, ao mesmo tempo, traz à tona a restas ainda a sete tratados: Além do de Assunção, do Protocolo de Brasília
serem aparadas. Dificuldades internas e externas, que (1991), do Protocolo de Ou ro Preto (1994), do Protocolo de
continuam a por em xeque a consolidação mais rápida desse Ushuaia (1998), do Protocolo de Olivos (2002), do Protocolo
mercado com potencial de expansão. de Adesão da República Bolivariana da Venezuela (2006), e do
Protocolo Modificativo do Protocolo de Olivos (2007).
Novo impulso Obstáculos e oportunidades surgi ram e o projeto foi e é
A questão ganha novo impulso, a partir da visita da presidente modificado.
brasileira Di lma Rousseff à Argentina, na semana passada, o
que deu início ao ciclo de viagens internac ionais de seu Os Estados Partes do Mercos ul são Argenti na, Brasil, Paraguai
mandato. Esta é a segunda maior economia e principal e Uruguai. Atualmente, o Paraguai é quem preside
parceiro comercial do País dentro do Mercosul. A iniciat iva é temporariamente o bloco. A Venezuela é Estado Parte em
apontada pelos especialistas como estratégica para o Brasil, processo de adesão e se tornará membro pleno uma vez que
que sozinho representa 7 5% do Produto In terno Bruto (PIB) esteja em vigor o Protocolo de Adesão da República
dos quatro Países-Membros e concentra quase 80% da Bolivariana da Venezuela ao Mercosul. Já os Estados
população de todo o Cone Sul. Ademais, o País detém ainda a Associados são Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru. Sua
maior influência na política internacional entre seus existência justifica-se em função do compromisso do Mercosul
integrantes. com o aprofundamento do processo de integração regional e
pela importância de desenvolver e intensificar as relações com
Na sua primeira viagem ao exterior, Dilma fechou 15 acordos os países membros da Assoc iação Latino-Americana de
com a presidente da Argent ina, Cristina Ki rchner. Nas Integração (Aladi).
conversas entre as duas, houve destaque para as relações
econômicas, comerciais e de aliança estratégica, dado que os Francisco Linhares
dois países ainda concentram as t rocas de produto s e serviços www.franciscolinhares.com.br
no âmbito da região. A mandatária brasilei ra desembarcou em @fcolinhares
terras portenhas em meio a um clima de preocupação entre os
empresários argentinos pela continuidade de valorização do
real, o que aumentaria ainda mais a vantagem comercial do
Brasil em relação à Argentina.

Objetivos em xeque
Fatos que, embora representem vantagens para u ns, su rgem,
ao mesmo tempo, como perdas para out ros, revelando as
fortes assimetrias nos campos econômico, político e social
entre os parti cipantes do bloco, o que torna árdua a tarefa de
executar os objetivos propostos quando da criação do
Mercosul: livre circulação de bens, serviços e fatores
produtivos, estabelecimento de uma Tarifa Externa Comum
(TEC), adoção de uma política comercial comum, coordenação
de políticas macroeconômicas e setoriais, e ha rmonização de
legislações nas áreas pertinentes.

Passados 20 anos da concepção do projeto de um mercado


comum, como definir, atualmente, o bloco econômico? Os
objetivos propostos foram alcançados? O que ainda falta para
fazer esse mercado decolar?

No balanço geral, segundo os especialistas consultados pelo


Jornal, além das evidentes desigualdades entre os Estados