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POLÍTICA, VIOLÊNCIA E EDUCAÇÃO: NOVOS DESAFIOS E

COMPROMISSOS

SCHLESENER, Anita Helena (anita.schlesener@utp.br)


Universidade Tuiuti do Paraná
FERREIRA, Naura Syria C. (naura@utp.br)
Universidade Tuiuti do Paraná
PANSARDI, Marcos Vinicius (mvcps@hotmail.com)
Universidade Tuiuti do Paraná
STIVAL, Maria Cristina Elias Esper (cristinaelias@terra.com.br)
Mestranda na Universidade Tuiuti do Paraná
VALÉRIO, Dulce de Oliveira (Dulcevalerio3@hotmail.com)
Mestranda na Universidade Tuiuti do Paraná

1. Introdução

A contemporaneidade se afigura, cada vez mais complexa e “inatingível” pela


“notável” expansão da ciência e da tecnologia, fazendo com que o que era próximo
fique distante e o que parecia acessível se torne inatingível. A complexidade
surpreende pela irrealidade e pela invisibilidade de seu conteúdo. A complexidade
está para a complicação como a entropia está para a energia: uma espécie de avaliação
do “valor de mercado”, determinado pelo observador, de um lingote de língua
metálica com certo peso e imposto a esse observador” (LE MOIGNE, 1999, p. 48). O
“simples” e o “complicado” se confunde obnubilando a realidade que se torna irreal.
Aprender “a viver em conformidade com o logos, mas sem esquecer que as
paixões continuam sendo a matéria de nossa conduta – e que só a propósito de seres
passionais se pode falar em conduta razoável. Paixão e razão são inseparáveis, assim
como a matéria é inseparável da obra e o mármore da estátua” (LEBRUN, 1987, P.22).
Por isto, nada mais oportuno para refletir sobre a ética (ou a falta de) e a cidadania (ou
a falta de) na formação humana de profissionais, na complexidade do mundo
globalizado, do que através da palavra repleta de sentimento e paixão que só o poeta é
capaz de expressar (FERREIRA, 2003, p.16). Afinal, o erro do intelectual consiste em
acreditar que se possa saber sem compreender, e principalmente, sem sentir e estar
apaixonado, não só pelo saber em si, mas também pelo objeto do saber (GRAMSCI,
1981).
XV Colóquio AFIRSE – Complexidade: um novo paradigma para investigar e intervir em educação?
Política, Violência e Educação: Novos Desafios e Compromissos
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Ora, constatar e pensar a conjuntura atual enquanto deserto e desertificação, é


também pensar a produção de um tipo de ‘sujeito humano’ que somente monologa
num universo mudo e destituído de sentido, vivendo um “solilóquio” que passa a se
desenvolver, a partir da infância atingindo a idade adulta e aí permanecendo de forma
brutal, isolando as mentes e corações nos seus “mundos” vividos, que cada vez se
tornam mais “carentes”, e, conseqüentemente cada vez mais insatisfeitos, com um
maior número de necessidades1 “produzidas” (FERREIRA, 2003, p.18).
Está-se caminhando para ao caos no emaranhado de informações, culturas
díspares e antagônicas que aturdem todas as mentes e corações humanos. Urge
enfrentar essa complexidade que se apresenta repleta de fetichismos. O que não se
consegue entender e muito menos explicar, nem a custa das mais complicadas
exposições, deveria agora nos afligir pelo seu aparente absurdo?
A compreensão do movimento histórico de instituição do Estado e de sua
natureza no contexto das relações sociais contemporâneas é de fundamental
importância para o entendimento da educação como instância de formação do homem
para a vida na sociedade e para o enfrentamento da complexidade em que essas
relações acontecem.
Tal é o propósito deste trabalho que apresenta algumas reflexões oriundas das
pesquisas desenvolvidas no Grupo de Pesquisa “Políticas Públicas e Gestão da
Educação”, com o intuito de participar do debate que se faz necessário sobre a
complexidade do mundo e das relações, assim como alternativas de enfrentamento.

2. A política e a violência no mundo globalizado, como elementos de


análise para a complexidade

O processo de transformações que se convencionou chamar globalização e que


atinge tanto a economia quanto a política e a cultura mundiais redimensiona a
estrutura dos Estados e redefine seus compromissos sociais, ao mesmo tempo em que
se acentuam as desigualdades sociais historicamente instituídas; a partir da

1 As necessidades podem ser descritas como sentimentos conscientes de que “falta alguma coisa”
, é “uma falta de..”. Em conseqüência o termo “necessidade” não indica um determinado
sentimento concreto, mas muitos sentimentos distintos na condição de assinalar uma falta. Nem
todos os sentimentos, porém, podem assinalar uma “falta”, mas muitos, e tão diferentes quanto
a fome, a curiosidade, a ansiedade, o amor e inúmeros outros, certamente o fazem.
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homogeneização da economia e do crescimento das possibilidades de acesso à


informação, o processo de globalização revela, ao mesmo tempo, a diversidade e as
especificidades regionais e acentua os contrastes econômicos e culturais que
caracterizam os povos nos vários cantos do mundo. Concomitantemente com a
expansão econômica crescem as manifestações regionais que eclodem em movimentos
nacionalistas. Ao lado da crescente desigualdade social entre Norte e Sul, evidente na
degradação das condições sociais e humanas de grandes parcelas da população
mundial, coloca-se a necessidade urgente de iniciar uma mudança estrutural do
modelo econômico para evitar a iminente catástrofe ecológica. Processa-se a
complexificação da sociedade humana mundial colocando desafios bombásticos a
serem enfrentados.
A política neoliberal desenvolvida no mundo hodierno retirou do Estado
muitas de suas responsabilidades sociais a fim de incrementar o desenvolvimento e a
expansão do modo de produção capitalista, que aprofunda as desigualdades sociais
com efeitos devastadores na vida social e com o aumento da violência. Cabe lembrar
que a globalização e a violência são intrínsecas ao modo de produção capitalista, que se
conserva a medida de sua expansão e da aplicação de inovações tecnológicas, fazendo-
se acompanhar da ampliação e sofisticação dos recursos militares. No curso da
história, as guerras sempre foram instrumentos de conquista e tornaram-se parte
inerente ao processo econômico e político hodierno, por vários motivos, entre eles, a
necessidade de manter as fontes geradoras de energia que mantém e ampliam a
exploração econômica. As guerras mais recentes são decorrências da estrutura do
sistema econômico internacional, no qual as inovações tecnológicas, que renovam
velozmente a produção, também renovam e fortalecem os aparatos militares e a
concentração do poder dos Estados.
A política neoliberal, que visa a instaurar um Estado com funções sociais
mínimas, produz-se no contexto de nova correlação de forças com o objetivo de
constituir alianças que possibilitem manter e ampliar a estrutura hegemônica de poder
vigente. Nesse contexto, as antigas contradições do modo de produção capitalista se
recrudescem à medida que a expansão econômica e tecnológica vem acompanhada do
aprofundamento das diferenças sociais geradas pela concentração acelerada das
riquezas nas mãos de poucos, ao mesmo tempo em que o Estado reduz seus
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compromissos sociais e atribui à sociedade civil a tarefa de resolver os problemas


cruciais de grandes parcelas da população relegadas a níveis desumanos de pobreza. E
se, no âmbito das relações internacionais a estratégia militar assume uma função
preponderante, no âmbito da vida individual as situações de violência que se tornam
freqüentes na sociedade colocam em evidência as condições de miséria e abandono em
que se encontra grande parcela das populações trabalhadoras nos mais variados
recantos do mundo.
O senso comum afirma que a miséria é geradora de violência, mas não se
pergunta pela origem das situações de miséria. Sabe-se que o uso das mais variadas
formas de entorpecentes degradam o indivíduo e geram formas variadas de violência,
mas não se evidencia o sistema econômico que se alimenta desse processo. A maioria
das situações violentas que afloram nas sociedades contempoâneas tem como base a
desigualdade social acentuada pela escandalosa concentração de renda, que se pode
visualizar cotidianamente, na explosão dos centros urbanos, na contraposição entre
áreas centrais e áreas periféricas, na ausência de políticas públicas que atendam
igualmente regiões economicamente desiguais. A violência enraíza-se na estrutura da
sociedade e, assim como gera a miséria, a fome, as doenças, gera também o crime, o
medo, a insegurança e todos os mecanismos de repressão e controle que, por sua vez,
geram outros mecanismos de concentração de renda.
Tal situação afeta diretamente qualquer processo de fundamentação de direitos
ou de construção de uma política democrática: a violência isola os indivíduos, dissolve
os grupos, gera mecanismos de controle, contribui para concentrar o poder.
Implementar políticas públicas, criar condições de expansão de direitos políticos,
depende diretamente da resolução de problemas sociais. A miséria e o desemprego
inviabilizam a participação efetiva de grandes parcelas da população na vida política
de um país. A gestão democrática e a ampliação dos espaços públicos de participação
política precisam ser acompanhados por uma solução efetiva dos problemas sociais
gerados pela desigualdade econômica.
Na experiência cotidiana das sociedades capitalistas modernas o ato de
destruição do outro em sua constituição física e moral insere-se na própria estrutura do
sistema, que determina os limites de sociabilidade nos quais se integra a violência. A
educação como processo amplo de inserção social do indivíduo precisa considerar os
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elementos sociais geradores da violência e a exposição contínua de todos os indivíduos


à violência implícita na própria estrutura social vigente.
Compreender a estrutura do Estado e o projeto político neoliberal aplicado a
países como o Brasil significa salientar as especificidades da instauração do Estado
brasileiro, nascido de um pacto das elites para manter os privilégios das oligarquias
exportadoras, primeiro coloniais e depois industriais, perpetuando um processo de
dominação econômica e ideológica. O Estado brasileiro, monárquico ou republicano,
conservador e positivista, governa e defende interesses de elites, que controlam e
dominam partidos políticos, enquanto educam seus filhos e netos para continuarem
exercendo a dominação. A grande maioria da população trabalhadora não tem
condições para desenvolver uma consciência política nem opiniões formadas e
arraigadas, submete-se passivamente à fragilidade dos partidos políticos, que servem
como mecanismos eleitoreiros, abandonados pelos políticos quando não cumprem
mais seus objetivos. Tem-se uma política historicamente centralizada e paternalista e
uma prática de migração constante, que gera a debilidade histórica dos partidos
políticos e enfraquece a sociedade civil.
A implantação do neoliberalismo vem consolidar as formas tradicionais de
dominação e aprofundar as desigualdades sociais eximindo o Estado de seus
compromissos sociais e reforçando o aparato financeiro e industrial pela aplicação de
uma política econômica que acelera a concentração de rendas e torna precárias as
relações de trabalho. A responsabilidade do Estado é transferida para empresas ou
para instâncias da sociedade civil. O resultado desse processo não altera
substancialmente a correlação de forças política e ideológica vigente, mas debilita
ainda mais a prática política e a participação consciente da população na democracia
vigente. Um país no qual foram raros os períodos de democracia e onde a política se
realiza como troca de favores, atuação que reduz a maioria da população trabalhadora
à passividade política, a escola assume a tarefa gigantesca de formar a consciência
crítica dos indivíduos, gerada pelo conhecimento concreto das relações em processo,
para construir ao menos as bases de uma sociedade na qual prevaleçam os direitos e
não apenas os deveres.
O empenho dos profissionais da educação em alcançar esses objetivos
confronta-se com um Estado que redefine as políticas públicas educacionais e, ao
retirar incentivos, compromete todo o processo de educação, assim como o trabalho
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desses profissionais que, abandonados à sua sorte, não conseguem enfrentar os


problemas que atingem todo o sistema educacional. A concreticidade das relações
pedagógicas internas à escola reflete as condições sociais postas em determinado
momento histórico, assim como a prática educativa escolar expressa e desenvolve
aspectos da vida social e política.
A escola pública recebeu, desde a origem, a função de socializar as novas
gerações adaptando-as ao mundo do trabalho e da cultura. Tal tarefa implica também
trazer para o seu interior os problemas gerados no âmbito da estrutura social, mas não
lhe cabe exclusivamente a tarefa de resolver tais problemas. Dada a complexidade e
amplitude que assumiu a violência na sociedade moderna, à escola muitas vezes se
atribui uma tarefa que não lhe cabe, porque não se trata apenas de educar, mas
resolver cotidianamente os problemas sociais e enfrentar situações que não são de sua
alçada.
Políticas educacionais são diretrizes ou linha de ação que definem ou norteiam
as práticas e lhes dão sentido e gestão da educação coloca em prática os objetivos das
políticas educacionais a fim de concretizar as direções traçadas. É o processo de
coordenação da execução de uma linha de ação que vai gerar novas políticas na
interação com a realidade. O sistema educacional público tem a função de inserir as
classes trabalhadoras no processo de produção e, por trazer para o seu interior as
contradições vividas na sociedade, apresenta também as condições de efetuar a crítica
dessa mesma realidade. A convivência, a formação de hábitos, a disciplina, são
mecanismos que habilitam os jovens a formar-se para a vida de modo crítico e
consciente. Para tanto, é necessário envidar todos os esforços para criar novas relações
democráticas em seu interior assumindo um compromisso com os menos favorecidos
que têm dificuldades históricas e teóricas de apreensão do conhecimento.

O desempenho da escola depende tanto das políticas públicas que a integram


ao processo social quando da ampliação de direitos políticos, acompanhada do
questionamento e da busca de soluções para os problemas sociais. A violência na
educação escolar não se reduz à transgressão ou recusa da autoridade, mas remete-se
ao contexto amplo da estrutura social da qual faz parte e na qual cumpre a sua tarefa
de socializar crianças e jovens. A tarefa primordial da escola é tornar-se um importante
mecanismo de questionamento das relações econômicas e sociais e dos objetivos do
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neoliberalismo, de modo a poder criar as condições para o surgimento de novas


identidades individuais e coletivas.

Partindo do pressuposto de ser a escola uma agência socializadora,


comprometer-se com a educação emancipadora, ou seja, tornar-se sujeito de crítica e
transformação, é a tarefa primordial do professor, visto que a sociedade atual minimiza
os problemas da profissão, desqualifica a profissão e não dá respaldo para uma efetiva
atuação do professor como educador. As alternativas que se vislumbram exigem a
mudança de comportamento relacional, tanto de alunos quanto de professores; tais
relações implicam uma prática de companheirismo, de troca de informações, de ajuda
mútua sem descurar da disciplina, que não consiste em coerção, mas em esforço e
empenho de todos para alcançar determinados objetivos.

Novas práticas de relacionamento e aprendizagem, concentradas em projetos


político-pedagógicos que contemplem o conjunto de relações vividas pelos alunos e os
faça compreender a complexidade da realidade que vivem, torna-se uma das
alternativas possíveis de solução, no sentido de recuperar o sistema escolar e gerar
novas condições de aprendizagem com qualidade para todas as camadas da
população, principalmente para as criança e os adolescentes das classes trabalhadoras.
Porque refletir sobre políticas públicas e aplicá-las implica empenhar-se na formação
de alunos conscientes e capazes de decisão autônoma, assim como em profissionais
capacitados para formar para um mundo globalizado, com novas exigências e novos
desafios.

O desafio da educação atual no Brasil não é apenas o de preparar para uma


sociedade em que prevalece a diversidade de culturas, na qual se deve aprender a
exercitar a tolerância e a reconhecer as diferenças, mas é, principalmente, dar o suporte
do conhecimento historicamente produzido aos filhos dos trabalhadores para enfrentar
o quadro perverso que a nova sociedade globalizada lhes apresenta. Uma educação
que resulte em intervenção social, geradora de autonomia e consciência crítica,
seguindo as ricas reflexões de Paulo Freire, pedagogo brasileiro reconhecido
internacionalmente pela importância que atribuiu à dimensão democrática da relação
ensino-aprendizagem, no sentido de formar um novo homem.
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Quando falo em educação como intervenção me refiro tanto à que aspira


mudanças radicais na sociedade, no campo da economia, das relações
humanas, da propriedade, do direito ao trabalho, à terra, à educação, à
saúde, quanto a que, pelo contrário, reacionariamente pretende
imobilizar a História e manter a ordem injusta. (FREIRE, 1996, p. 109)

Nesses novos tempos, a escola pode, sim, interferir no processo social na


medida em que forma as novas gerações e lhes dá o instrumental necessário para
tomarem nas mãos o seu próprio destino. Um trabalho que exige do professor uma
investigação rigorosa, uma dedicação contínua ao conhecimento e explicitação da
realidade atual em permanente processo de mudança e critérios para distinguir os
elementos essenciais para a gestão democrática da educação, para ensinar e aprender
de forma crítica O que se propõe, enfim, é a produção de uma nova concepção da
escola, que se situe no mundo contemporâneo tornando-se um espaço formativo e
transformador.

3. Para compreender a complexidade

A compreensão do existente vai exigir um pensar inteligente que capte as


relações acima expostas onde a miséria e a desestabilização destroem o sonho e as
possibilidades humanas pela desumanização. A dificuldade de alcançar a compreensão
reside no modo fundamental de ser e sobreviver na contemporaneidade: o
individualismo que conduz a compreensão e a inteligibilidade do outro pela
subjetividade, pela expoliação, pela destruição ou pela afetividade desmedida.
Faz-se necessário uma outra forma de inteligível que não as que se guiam pelo
individualismo, mas as que têm como ponto de partida a humanidade e a
solidariedade humana. Nos dizeres de Pena Vega & Stroh:

A compreensão se alimenta de um movimento incessante de


autoreferência que se transmuta em consciência. Compreensão, auto-
interrogação e consciência são elementos interdependentes na formação
do ser humano. Por isso a consciência que o ser humano tem do seu
processo histórico é produzida em sua própria consciência, em sua, em
sua auto-referência, em sua auto-crítica, mas também pela
conscientização de seus próprios limites nesse processo. Limites
revelados pela consciência de suas auto-referências, de auto-críticas
feitas na realidade de ações que podem escapar completamente às
intenções que as motivam. (1999, p. 187)
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De acordo com esta concepção, a compreensão e a inteligibilidade das coisas e


da humanidade se baseia, fundamentalmente na incerteza e na imprevisibilidade que
revelam as incertezas de nossas verdades, de nossos valores, de nossa “ética”, de nosso
mitos e crenças como se fossem os únicos verdadeiros ad eternum. Contra este
autoritarismo intransigente se faz necessário desenvolver a sabedoria
como”capacidade de descobrir estratégias que permitam superar as sujeições” (
MORIN, 2001, p.71)
Assim, compreender o mundo em toda a complexidade vai exigir que as
políticas educacionais, a gestão educativa e a escola desenvolvam a inteligência de seus
alunos entendendo que: “Viver é participar, é conhecer, é trabalhar, é construir, é
dialogar, é conviver, é praticar a bondade, a compassividade, a tolerância, a
fraternidade, a solidariedade a justiça social,como elementos imprescindíveis à
dignidade da vida humana na sociedade humana. São os princípios que devem
nortear os conteúdos da humanização e da formação de todas as pessoas que vivem
neste planeta na conquista da emancipação humana, mais do que nunca, nos dias
atuais (FERREIRA, 2003, p.30).

Estes pressupostos à inteligibilidade do mundo complexo em que vivemos e da


complexidade que permeia as relações vem contemplar o pensamento de Morin que
expressa amor e vida para todos os humanos:

Amar, viver, compreender: a espiral da simplicidade na complexidade.


Procurar com amor – sem medo e sem auto-complacência – a riqueza da nossa vida
interior, a atualização permanente das nossas auto-referências, enquanto nos
esforçamos para compreender a complexidade ( MORIN, 2001).

4. Referências Bibliográficas

FERREIRA, N. S. C. (2003) É possível humanizar a formação no mundo globaçlizado? Sim, é


possível! Rio de Janeiro: DP&A Editores.

FERREIRA, N. S. (2006) Gestão da educação ressignificando conceitos e possibilidades.


In: FERREIRA, N. S. e AGUIAR, Â. M. (Orgs.). Gestão da educação. Impasses,
perspectivas e compromissos. 5ª ed. São Paulo: Cortez.
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Paulo: Paz e Terra.

GRAMSCI. A . (1976) Escritos Políticos. Vol 1. Lisboa: Seara Nova.

LEBRUN, G. (1987) “O conceito de paixão” In: CARDOSO, S. Os sentidos da paixão. São


Paulo: Companhia das Letras.

LE MOIGNE, J. L. (1999) A inteligência da complexidade. In: VEGA, A.P. &


NASCIMENTO, E.P. O pensar complexo: Edgar Morin e a crise da modernidade. Rio
de Janeiro: Garamond.

LIMA, L. C. (2000) Organização Escolar e Democracia Radical: Paulo Freire e a governação


democrática da escola pública. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire.

MORIN, E. Sociologia: a sociologia do microsocala ao macroplanetário. Lisboa: Publicações


Europa-América, Ltda, 1998.

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PENA-VEJA, A. & STROH, P. Viver, compreender, amar. In: PENA-VEGA, A.P. &
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SCHLESENER, A. H. (2002) Revolução e cultura em Gramsci. Curitiba: Editora da UFPR.