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LUZ, CÂMERA...

GÊNERO NA HISTÓRIA: CONSIDERAÇÕES SOBRE


FEMININO, MASCULINO E O “QUEER” A PARTIR DOS FILMES
“SHREK I & II”

Zuleide Maria Matulle

No “Programa de Pós-Graduação latu sensu do Curso de História


da Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de União da
Vitória”, campus da UNESPAR, área de concentração Cultura, Memória e
Patrimônio, no módulo denominado “Do protagonismo da História das
Mulheres ao Gênero como categoria de análise”, realizado no mês de
maio de 2012, uma das primeiras discussões apontadas foi a 1
necessidade de desconstruir a ideia de que quem pesquisa Gênero
estuda apenas a História das Mulheres1. Isso ficou entendido logo no
início do módulo, pois quem se dedica aos estudos de gênero analisa o
feminino e o masculino construídos socialmente, como define a
socióloga Ann Oakley em 1972, cuja frase encontra-se no estudo de
Tilly (1994, p. 42), a qual apresenta, diferenciando sexo de gênero, que
gênero é um “[...] termo que remete à cultura: ele diz respeito à
classificação social em ‘masculino’ e ‘feminino’ [...]”. Portanto, gênero
se preocupa com as masculinidades e feminilidades.

Mais que isso, é possível, e imperativo, devido ao preconceito da


sociedade no presente, valer-se do gênero para desenvolver reflexões
sobre o diferente, sobre os indivíduos que não se encaixam dentro
desse quadro normativo do feminino e masculino. É o que a
historiografia chama de “queer”, isto é, aquilo que é considerado fora
1 Agradeço a Prof. Ms. Dulceli Tonet Estacheski, do Colegiado de História da
FAFIUV, pela brilhante condução do módulo sobre Gênero e pelas correções no
presente texto.
dos padrões - a homossexualidade, os travestis, os travestis
performáticos, as marchas, a parada gay, e verificar o que pensam
esses indivíduos e o que conseguem com suas manifestações, por
exemplo. É necessário considerar que esse campo de interesse é
extremamente novo na historiografia, pois foi somente nos anos 1990,
que a temática ganha força, que a temática vem a público, apesar de a
homossexualidade ser uma invenção do século XX, e o diálogo com a
intensidade necessária ainda está por ser feito.

O presente texto é uma tentativa inicial nessa direção, isto é,


através de um exercício de revisão da bibliografia utilizada no módulo
e as discussões realizadas, construir um diálogo sobre o feminino, o
masculino e o diferente. Como material de análise escolhemos duas
produções cinematográficas que apresentam riquíssimas discussões 2
do masculino, feminino e do “queer”, objetos da disciplina de gênero na
História. Estamos falando dos filmes Shrek I e II. Além da possibilidade
de discutir gênero a partir desses filmes, a escolha pelo cinema como
fonte de análise se justifica por considerá-lo uma área do
conhecimento em si, formador de opinião, entretenimento e indústria.

Antes de adentrar as questões de gênero que os filmes


apresentam é mister lançar olhares à historiografia com o objetivo de
entender como se chegou ao conceito de gênero como categoria de
análise, questão apontada por Joan Scott. Nesse exercício, percebemos
que gênero surge da história da mulher, no singular. Na década de
1970, o feminismo ganha força, momento denominado de segunda
onda feminista, já que no início do século XX houve manifestações que
buscavam igualdade de direitos políticos e econômicos. Nessa segunda
onda feminista buscou-se demarcar um espaço político, o direito ao
corpo, ao prazer, ou seja, combater a hierarquia sexual. Porém, tratava-
se de manifestações realizadas por mulheres de um determinado
grupo social, isto é, de uma elite branca heterossexual.
Na década de 1980, as discussões se ampliam porque dentro
desse quadro as mulheres negras, pobres, lésbicas, etc., não se viam
representadas e a partir desse momento passa-se a escrever sobre a
história das mulheres, no plural, pois entende-se que não há a mulher,
e sim, as mulheres. Parênteses em aberto, é oportuno exemplificar,
ainda que em contexto diverso, a “Casa de Sinhara”, museu localizado
em Castro, no estado do Paraná que mostra o modo de vida e os
costumes do século XIX. Quem visita aquele espaço de memória não
pode tomá-lo como espaço representativo das mulheres de Castro. A
“Casa de Sinhara” representa o espaço de um determinado grupo de
mulheres da sociedade de Castro no século XIX, a mulher do tropeiro,
do fazendeiro local, ou seja, a esposa de um homem de posses. Na
sociedade de Castro havia mulheres pobres, trabalhadoras, mulheres
que circulavam nas ruas, e que aparecem nos processos crimes como 3
vítimas de defloramento. Podemos dizer que essas mulheres são as
mesmas mulheres que viviam na “Casa de Sinhara”, sob a proteção e o
provimento do homem de posses? Não, entre a mulher da elite e a
mulher pobre do século XIX há inúmeras diferenças. É nesse sentido
que o debate sobre a história das mulheres se desenvolve.

Na década de 1990, Joan Scott, feminista militante, faz surgir o


gênero como categoria de análise. Scott (1994) escreve que no
seminário do Pembroke Center de Docência e Pesquisa sobre Mulheres
da Brown University, foi obrigada a levar a sério a teoria pós-
estruturalista. Para Scott, precisa existir uma teoria para discutir
gênero e o caminho é o pós-estruturalismo, ou pós-modernidade. Esse
momento para Scott marca uma mudança de postura, uma vez que ela
critica a história social, mesmo depois de ter se pautado nela durante
uma boa jornada acadêmica, afirmando que ela somente descreve, não
analisa o objeto de pesquisa. Scott (1994) vê no pós-estruturalismo,
que tende à radicalização e a superação da perspectiva estruturalista,
ou seja, a superação do excesso de objetividade, o caminho para uma
visão não determinista da história e uma visão das mulheres como
sujeito da história.

Concordamos com Scott (1994) quando aponta a necessidade


de historicizar os conceitos, de desconstruir os conceitos dominantes,
mas isso não quer dizer que é impossível historicizar utilizando-se da
história social, ela não é descartável como afirma a autora. Nesse
embate a história social é defendida por Tilly (1994, p 52), a qual
afirma que uma história analítica marcada pelo gênero que coloque
“[...] problemas, descreva e analise os dados disponíveis, e explique.
Uma história que trate das grandes questões históricas e contribua
para resolver problemas já inseridos na agenda da história”, já existe.
Ou seja, quando Scott (1994) defende que é necessário desconstruir 4
conceitos dominantes, romper com o gesso estruturalista e critica a
história social por não dar conta disso, Tilly (1994) escreve que
diversas “[...] historiadoras das mulheres deram prova de
engenhosidade em descobrir a experiência das mulheres no passado e
em oferecer uma interpretação crítica”.

Alias, é possível estudar gênero utilizando diferentes vertentes,


como as sensibilidades, política, econômica e também a cultural, como
é o caso do presente texto. Traçado, parcialmente, o debate
historiográfico podemos passar a análise dos filmes com mais
segurança. Utilizar uma película como material de análise implica em
decodificá-lo. Buscamos suporte teórico em Nova (19--), pois a autora
destaca que na primeira etapa da leitura de uma película o pesquisador
deve se concentrar na crítica externa do filme, ou seja, recolher
informações sobre o período de produção e de lançamento do filme,
levantamento da equipe técnica de produção, as fontes financiadoras,
verificar a biografia do produtor do filme, que tipo de filme já produziu
e quais as características mais gerais dessas produções.
Fomos buscar informações sobre os filmes Shrek I e II, e
verificamos que se trata de duas produções cinematografica norte-
americana, lançada em 2001 e 2004, do gênero animação
computadorizada, dirigido por Andrew Adamson e Vicky Jenson e
estrelando as vozes de Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz, e
John Lithgow. Os filmes foram produzidos pela DreamWorks
Animation, baseado no conto de fada Shrek! de William Steig. Shrek foi
o primeiro filme a ganhar o Oscar de melhor filme de animação, uma
categoria introduzida em 2001.

Aprofundando a análise Nova (19--, S.p) recomenda o exame do


que, no filme, está presente de maneira “[...] implícita, isto é, todo o
conteúdo existente nas suas entrelinhas, tudo aquilo que os produtores
queriam que chegasse ao espectador, mas não o fizeram, por algum 5
motivo”. O diretor do filme, Andrew Adamson, em entrevista destaca
que "O filme fala sobre ser forte o bastante para ignorar o julgamento
dos outros e ser capaz de definir o seu próprio 'final feliz'. É isso o que
realmente espero que as pessoas apreendam: o sentimento de
independência e a liberdade de criar a sua própria felicidade… com
muitas risadas"2. Muito bem, pela análise do filme e a declaração do
diretor é difícil de acreditar que há alguma coisa implícita nos filmes
do Shrek, a mensagem é clara, “ignorar o julgamento dos outros e ser
capaz de definir o seu próprio 'final feliz'”, que outros? Os
preconceituosos? Aqueles que vivem de acordo com as normas de uma
sociedade excludente?

Sem demora vamos aos filmes. O primeiro conta a história de


Shrek, um ogro que vivia “feliz” e sozinho num pântano, em meio à
floresta, em uma terra chamada Duloc. Repentinamente ele vê sua
solidão, imposta pela sociedade, ameaçada quando o governante de

2 Entrevista disponível em www.omelete.com.br/cinema.


Duloc, Lord Farquaad, decide expulsar todas as criaturas mágicas para
a floresta, criaturas consideradas fora do padrão. Shrek fica muito
aborrecido e oferece um pacto com Lord Farquaad: ele iria buscar a
mulher dos sonhos de Lord Farquaad, a princesa Fiona, que vivia
adormecida, aprisionada num castelo vigiado por um dragão, e
Farquaad tiraria todas as criaturas mágicas do seu pântano. Shrek
parte em sua missão, seguido por um burro falante, que se une a ele
por gratidão, pois Shrek salvou a sua vida. Shrek e o Burro obtêm êxito
e libertam a princesa do castelo mas, no caminho de volta a Duloc,
quando os dois começam a se conhecer, Shrek e Fiona acabam se
apaixonando e ele tenta impedi-la de se casar com Lord Farquaad que
é morto pelo Dragão. No final do embate entre os dois pretendentes,
Shrek vence e se casa com a princesa Fiona.
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Explorando as cenas da referida produção nos perguntamos
que estereótipos são edificados para as mulheres e para os homens
nesse filme, tendo como norte a Princesa Fiona e do ogro Shrek? No
início do filme Fiona é uma mulher presa no quarto mais alto da torre
mais alta de um castelo ardendo em chamas à espera do príncipe que
irá salvá-la. Fiona, nesse momento da película, é uma mulher doce,
frágil, perfeita e romântica. Ela apresenta os estereótipos da
feminilidade construídos socialmente. Quem nunca ouviu as seguintes
frases: a mulher sexo frágil, a mulher sensível, a mulher que não tem
competência para trabalhos administrativos, a mulher que sabe cuidar
das crianças, da casa, do marido, etc. São estereótipos pré-
estabelecidos que determinam o que é ser mulher, por isso,
concordamos com Simone de Boauvoir (1967) quando destaca que a
mulher não nasce mulher, mas torna-se mulher.

No entanto, Fiona não é assim tão frágil como parece no início


do filme, pois a película apresenta cenas, como por exemplo, a cena em
que a Princesa luta com Robin Hood e seus amigos, em que a figura da
mulher está associada a atributos ditos “masculinos”, força, técnicas de
luta, etc. Ao ser raptada por Robin Hood, Fiona, defende-se
distribuindo vários golpes, ela salta e fica parada no ar, com a imagem
congelada. A câmera se movimenta ao redor dela, mostrando a imagem
em todos os ângulos, numa clara referência à cena mais impactante do
filme Matrix, interpretada por um homem. Essa cena ainda tem uma
pausa para Fiona arrumar o cabelo e acontece logo depois de Fiona
cantar uma canção e fazer ovos assados a Shrek. Quer dizer, em um
determinado momento ela está cozinhando e no minuto seguinte está
se defendendo de um elemento agressor. Como espectadora
entedemos que essa cena mostra que a força tradicionalmente
atribuída a figura masculina também pode ser uma característica da
figura feminina, e Fiona, assim como qualquer mulher, não deixa de ser
mulher por isso. 7

Imagem 01: Princesa Fiona lutando com Robin Hood e companheiros.


Fonte: Filme Shrek I.
É importante mencionar que, como o filme, a historiografia que
se dedica a estudos de gênero busca desmistificar concepções sobre as
mulheres como submissas e dóceis, procurando desconstruir o
discurso padrão da mulher, mostrando manifestações de resistência
das mulheres desenvolvidas no seu cotidiano.

Para demonstrar isso tomamos de empréstimo a discussão de


Soihet (1997, p. 283-284) que arrola algumas dessas produções
realizadas por historiadoras. Uma delas é Natalie Zemon Davis que
mostra como as “[...] mulheres tiravam proveito das imagens de
fraqueza e histeria que lhes eram atribuídas para ampliar seu poder e
liberdade na família e em diferentes situações comunitárias”. Também
Michelle Perrot que focaliza mulheres da classe trabalhadora francesa
no século XIX, e destaca “[...] o papel por elas desempenhado nos 8
motins, nos quais intervinham coletivamente”. O estudo de Monica
Pimenta Velloso sobre as mulheres negras de origem baiana que se
estabeleciam, com seus conterrâneos, no Rio de Janeiro nos fins do
século XIX e início do XX, que se transformaram em “[...] líderes de suas
comunidades numa inversão do esquema dominante que atribuía ao
homem este papel [...]” apelando a inúmeras táticas para garantir a
sobrevivência de seu grupo e de sua cultura, essas mulheres “[...]
terminaram por fazer sentir sua influência também entre os
dominantes, como é o caso do carnaval”, etc.

Parênteses em aberto, é interessante o exemplo as mulheres


camponesas, pobres, e a produção de trigo na Europa, pois essas
mulheres tinham o direito de apanhar no “avental” os grãos de trigo
que ficavam no chão após a colheita. O que dizer da contribuição na
alimentação da família proporcionada por essas mulheres? Que
impacto causavam na economia alimentar produzindo pães com os
grãos de trigo “respingado”?
Soihet (1997, p. 284) lembra ainda das mulheres encarceradas
em conventos e recolhimentos que conseguiam reverter alguns dos
propósitos punitivos e supostamente opressivos destas instituições.
Alerta que não foram “[...] poucas as mulheres que perceberam que ali
se desenhava a possibilidade de uma vida autônoma, frente aos rigores
da família e da sociedade, inclusive permitindo o exercício do poder”. A
autora se refere as mulheres que burlavam o casamento indo para o
convento, por não aspirarem ao casamento, por não desejar se casar
com determinado homem escolhido pelo pai, por fé, e tantas outras
hipóteses.

Falando em casamento, em Shrek I, o filme nos brinda com uma


busca desesperada pelo casamento. A princesa Fiona, dona de um rosto
angelical durante o dia, sofre por conta de um feitiço que a transforma 9
em um ogro fêmea, verde, desengonçada, feia e fora dos padrões
sociais da sociedade de Duloc, assim como Shrek. Percebemos que
Fiona luta para conseguir, não aquilo que ela quer, já que acabou se
apaixonando por Shrek, mas para conquistar aquilo que é padrão, pois
a personagem almeja transformar-se definitivamente em uma mulher
“normal”, aquela aceita pela sociedade de Duloc, e confusa, entende
que o caminho é o casamento com Lord Farquaad. Fiona luta para se
livrar do feitiço e viver dentro da ordem estipulada, ou seja, frágil,
bonita, perfeita, casada, etc.

É inevitável relacionar essa trama do filme a períodos


históricos em que o casamento era o destino, ou o objetivo, da maior
parte das mulheres, pois desde o nascimento do bebê, a partir do
momento em que é anunciado que trata-se de uma menina a mãe já
iniciava a confecção do enxoval da futura esposa e dona de casa.
Educava-se a mulher para o casamento.
O que dizer de Shrek! Bem, quem assiste ao filme logo percebe
que Shrek reverte todos os padrões estabelecidos em nossa cultura, ele
é um herói às avessas. Feio, verde, desengonçado, visto pela sociedade
de Duloc como um ser repugnante, mal, violento, que costura sua
roupa com a pele de sua vítima, come o fígado, espreme os olhos e a
devora. Shrek é um elemento fora do padrão socialmente imposto pela
sociedade de Duloc, assim, como todas as criaturas de contos de fadas
que acabaram por parar em seu pântano. Porém, ao longo do filme,
Shrek, em, conversa com o Burro, mostra que é amável, honesto,
corajoso e sincero, que faz tudo para salvar a princesa.

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Imagem 02: Shrek e Burro Falante.


Fonte: Filme Shrek I.

Sobre isso, é importante evidenciar que há diferentes formas


de masculinidades. Estudos sobre masculinidades surgem na década
de 1990, quando historiadores entendem que assim como há
diferentes mulheres, há diferentes homens. Um dos precursores do
assunto no Brasil é Albuquerque Junior (2003) que focaliza o
masculino e a experiência de ser homem numa determinada região do
país, o nordeste brasileiro, e alerta para o problema da imagem
homogênea do masculino, ou seja, a marcação e divulgação do
estereótipo do nordestino macho, não havendo espaço nesta figura
para qualquer característica feminina. Com seu estudo o autor nos faz
perceber que há uma multiplicidade de homens no nordeste brasileiro,
mesmo dentro de uma cultura que define o que é ser homem e exige tal
postura, os modos de exercitar esse gênero são variados.

Portanto, segundo o autor há um padrão de masculinidade


nordestina imposto socialmente, mas que não é vivido por todos os
homens, pois existem brechas entre “[...] o dizer e o fazer, que inventa
um cotidiano diferente daquele que os discursos anunciam”
(ALBUQUERQUE JUNIOR, 2003, p. 26). Vale lembrar que essa 11
perspectiva não se aplica somente aos homens nordestinos, a
afirmação do autor convém a outros espaços, pois há uma infinidade
de homens: fortes, não fortes, violentos, não violentos, etc.

Foi importante o contato com o estudo produzido por


Albuquerque Junior (2003) porque ele faz o leitor perceber que ao
mesmo tempo em que as mulheres são vigiadas e punidas pela
sociedade o homem também é. Se a mulher infringe a norma social, o
pai ou o marido tem sua honra manchada. A sociedade impõe padrões
e trata de vigiar a conduta dos sujeitos envolvidos.

É interessante pensar na chaga que a sociedade causa em


determinados sujeitos. Em uma determinada cena do filme Shrek diz
ao Burro: “não sou eu que tenho problemas com o mundo, é o mundo que
tem problemas comigo”, um mundo ditado por regras que excluem os
sujeitos que não se adéquam a elas, exatamente como em nossa
sociedade em que há sujeitos que vivem na fronteira, sujeitos “queer”.
No filme Shrek II, lançado em 2004, vê-se que após se casar com
a princesa Fiona, Shrek vive feliz em seu pântano. Ao retornar de sua
lua-de-mel Fiona recebe uma carta de seus pais, que não sabem que ela
agora é um ogro, convidando-a para um jantar juntamente com seu
grande amor, na intenção de conhecê-lo. Depois de muito discutir
Fiona consegue convencer Shrek a ir visitá-los. Porém, os problemas
começam quando os pais de Fiona descobrem que ela não se casou
com o Príncipe Encantado a quem havia sido prometida, e enviaram o
Gato de Botas para separá-los.

Em uma de suas primeiras cenas, o filme evoca novamente a


temática de gênero. Nela aparece o Príncipe Encantado com seu cavalo
branco, atravessando desertos e montanhas para chegar até o castelo
onde a princesa Fiona estava aprisionada. Seu objetivo é libertá-la para 12
receber, como recompensa, o reconhecimento, o amor e a mão da
princesa em matrimônio; e, como todo conto de fada, viver feliz para
sempre. Numa atitude destemida, o Príncipe Encanto atira uma corda
atada a uma flecha em uma das torres do castelo; e com o arco,
escorrega sobre ela, salta ao chão. Até aqui, trata-se de uma cena
esperada em um conto de fadas. Entretanto, caminhando em direção ao
alto da torre, onde está presa a donzela indefesa, ele tira o elmo,
arranca a toca que prende seus longos e belos cabelos loiros e, em
movimento de câmera lenta, joga-os para um lado e para o outro, como
se estivesse num comercial de shampoo, segundo destacou Britto
(2009).
Imagem 03: Príncipe Encantado.
Fonte: Filme Shrek II.
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Revela-se ai um rosto andrógeno com sobrancelhas bem
desenhadas sobre uma face maquiada, adicionado a gestuais pouco
aceitáveis para uma figura "tipicamente masculina". Movimentos
comumente identificados no estereótipo de alguns sujeitos
homossexuais. Por outro lado, evidencia-se alguns quesitos que
poderiam atrelar a figura do Príncipe Encantado a uma visão
masculina relacionada a nova concepção de masculinidade
denominada "metrossexual", “[...] um homem que vive nas grandes
metrópoles, se interessa pelo sexo oposto e não tem vergonha de dizer
que cuida do corpo, da pele e do guarda-roupa” (BRITTO, 2009, S-p).

Outro personagem do filme Shrek II que instiga discussões


sobre o diferente é a “Irmã Feia”, a dona de uma taberna frequentada
pelos vilões de contos de fadas. Este personagem é o que podemos
denominar de “Travesti”, um homem que se veste de mulher. No filme
a “Irmã Feia” usa um vestido roxo, cabelo com tranças enroladas na
cabeça, maquiagem pesada ressaltando os olhos e a boca. A
personagem “Irmã Feia” seria mais uma mulher na trama do filme se
não fosse sua voz masculina marcante.

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Imagem 04: Irmã Feia, dona da taberna dos vilões dos contos de fadas.
Fonte: Filme Shrek II.

Nesses pontos, o filme revela o que discutimos a partir de Louro


(2001, p. 546), a “Teoria Queer” fortemente apoiada na teoria pós-
estruturalista francesa e na desconstrução como método, defende que
a orientação sexual e a identidade sexual, ou de gênero, são a
consequência de uma construção social e que, portanto, não existem
papeis sexuais biologicamente inscritos, e sim, formas socialmente
variáveis de desempenhar papeis sexuais. Por um longo período queer
foi considerado pejorativo - traduzido como “[...] estranho, talvez
ridículo, excêntrico, raro, extraordinário”, fora do padrão. Mas, o termo
passa de um uso pejorativo, a representar esses sujeitos fora do padrão
socialmente construído e preconceituoso.
O termo, apesar de continuar sendo usado pejorativamente por
uma parcela da sociedade, mudou de significado, alguns homossexuais
tomam para si o conceito, ou seja, “somos diferentes e é assim que
queremos viver”. Um exemplo de mudança de significação de termos é
a da “Marcha das Vadias” que teve início em Toronto, no Canadá, em
2011, e desde então tornou-se um movimento internacional. A “Marcha
das Vadias” protesta contra a crença de que as mulheres que são
vítimas de estupro pediram isso devido às suas vestimentas. Esse
movimento teve início quando algumas mulheres foram vítimas de
abuso sexual na Universidade de Toronto, e o policial Michael
Sanguinetti fez uma observação para que “as mulheres evitassem se
vestir como vadias para não serem vítimas”, ou seja, levaram a culpa
pelos crimes sexuais que sofreram. Esse grupo de mulheres tomou
para si o termo vadias e protestam pelo direito de se vestir como 15
quiserem, fora de um padrão socialmente construído.

É importante que se mencione que para os teóricos queer o


sujeito homossexual não precisa lutar por direitos que a sociedade
heterossexual estipula, a ideia é viver a diferença. O queer não quer
alcançar os direitos estipulados pela sociedade heterossexual, como
por exemplo, o casamento, pois trata-se de uma norma social criada
pela sociedade preconceituosa e excludente, o queer não quer viver
isso, quer se manter na diferença, na fronteira. Ele assume para si o
conceito, coloca-se contra a normalização e pensa as problemáticas
sociais. Portanto, não devemos associar o queer aos adeptos do
movimento gay, este último luta por direitos que não são compatíveis
com as ideias da teoria queer.

Sobre a “Teoria Queer” há muito a discutir, mas é evidente que a


Irmã Feia do filme Shrek II, assim como os travestis da vida real, tem o
direito de vestir-se de mulher, tem o direito de ser queer; o príncipe
Encantando do filme, e os metrossexuais de hoje fizeram uma escolha e
merecem respeito; os homossexuais que vêem a necessidade de lutar
por direitos estabelecidos pela sociedade heterossexual têm direito a
isso, os homossexuais, adeptos da teoria queer, que querem viver na
diferença, tem o direito de fazer da vida e do corpo o que querem.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

Shrek I & II são filmes inteligentes, animações extremamente


comerciais com cenas que incitavam questões relacionadas a temática
de gênero. O filme traz à tona as incoerências vividas por homens e
mulheres frente às normas sociais impostas por instituições superiores
como a Igreja o Estado, à sociedade. Verticalizam-se normas à
sociedade que causam efeitos nos indivíduos produzindo feminilidades
e masculinidades. 16
Shrek, visto como um ser mal, temido e feio, características de
sujeitos fora do padrão socialmente construído, na verdade é um ogro
honesto, amável, sincero que faz tudo para salvar a princesa, uma
forma diferente de ser homem. Fiona mostra outra representação de
mulher: perspicaz, suave, e amigável, mas uma mulher moderna,
atuante, boa de briga e propensa a uma agitação. O personagem
consegue agregar boa parte da multiplicidade de mulheres que
existem.
Imagem 05: Fiona e Shrek. Imagem 06: Fiona e Shrek
Fonte: Filme Shrek I. Fonte:
www.cinemalumiere.com.br

Os personagens Encantado, que podemos associar ao 17


metrossexual, e a Irmã Feia, o travesti, são os elementos queer,
presentes em nossa sociedade. Juntos, os personagens demonstram
que existe um padrão que não é vivido por todos. Não podemos
confundir regras prescritas com as práticas dos sujeitos concretos, pois
há tantas maneiras de ser homem e mulher quantas são as pessoas. No
final do filme o locutor diz “e viveram feios para sempre”, mostrando
que é possível ser feliz portando características fora dos padrões
construídos socialmente, ou optando por elas.

MATERIAL DE ANÁLISE

Filmes “Shrek I” lançado em 2001, dirigido por Andrew Adamson e


Vicky Jenson, produzido pela DreamWorks Animation, baseado no
conto de fada Shrek! de William Steig e “Shrek II” lançado em 2004.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz. Nordestino: uma invenção do
falo, uma história do gênero masculino (nordeste 1920-1940). Maceió:
Edições Catavento, 2003.

BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo: a experiência vivida. Trad.


Sergio Milliet, v. 2. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1967.

BRITTO, José Mário de Oliveira. Shrek 2: mundo da infância, mundo de


transgressões. In: Webartigos, 2009. Disponível em
http://www.webartigos.com/artigos/sherek-2-mundo-da-infancia-
mundo-de-transgressoes/23670/ Acessado em: 21.05.2012

LOURO, Guacira Lopes. Teoria Queer, uma política pós-identitária para


a educação. In: Estudos Feministas. Ano 9, p. 541-553, 2001. 18
NOVA, Cristiane. O cinema e o conhecimento da história. In: Clio
História - Textos e Documentos. [S.l.], [19--].

Disponível em:

http:www.eadmodle.academia.edu/CristianeNova/Papers/253104/0_
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SCOTT, Joan Wallach. Prefácio a Gender and Politics of History. In:


Cadernos Pagu. , n. 3, p. 11-27, 1994.

SOIHET, Rachel. História das Mulheres. In: CARDOSO, Ciro Flamarion;


VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da História. Ensaios de teoria e
metodologia. Rio de Janeiro: Elsevier, p. 275-296, 1997.

TILLY, Louise A. Gênero, História das Mulheres e História Social. In:


Cadernos Pagu, n. 3, p. 29-62, 1994.

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