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RELIGIÃO E MAGIA NO ANTIGO EGITO: A MUMIFICAÇÃO NO

TERCEIRO PERÍODO INTERMEDIÁRIO (1070 Á 712 A.C)

Maricleia Grossklaus

Introdução

O presente artigo tem por objetivo o estudo da antiga civilização


egípcia, em especial no que concerne a sua religião, a magia e a
mumificação. Mostrando um panorama da mumificação e as formas de
mumificação ocorridas antes do Terceiro Período Intermediário (c.
1070 á 712 a.C), e após como ocorreram no período mencionado, 1
quanto ao processo de mumificação e as técnicas empregadas nele.
Além disso, é possível observar como ocorreram essas modificações, e
como as crenças atuavam junto dos rituais, pois é de grande
importância entender como essa antiga civilização pensava sua relação
com a morte.

Utilizaremos, como base, o Livro dos Mortos, traduzido por Wallis


Budge (1993), e através das formulas contidas nesses papiros,
buscaremos mostrar como as crenças religiosas e a magia atuavam na
vida desse povo, e como estes construíram suas concepções. Essas
fórmulas nos informam como o povo do antigo Egito pensava cada
passo que deveria ser tomado para que eles pudessem alcançar a vida
eterna, assim como se prevenir das várias necessidades que pudessem
surgir no caminho que teriam que percorrer na vida além. Junto disto,
analisaremos a teoria das partes que compõe o corpo, explicada no
livro As ideias dos antigos egípcios sobre a vida futura, do mesmo autor.
Assim, temos a explicação de como os antigos egípcios articulavam
suas idéias, as fórmulas mágicas e rituais e assim, entender como os
antigos egípcios concebiam a morte, e como se preparavam para ela.

Quanto à mumificação, a explicação vem do autor Moacir Elias


dos Santos (2002), que além de nos fornecer os dados sobre como
ocorria o processo, também nos oferece a explicação acerca das
mudanças do Terceiro Período Intermediário, complementadas pela
obra de Rosalie David (2011). Nesse caso, veremos como a
mumificação era entendida, e qual o propósito de mumificar os corpos.
O Terceiro Período Intermediário traz uma analise diferenciada da
mumificação, que nos permite compreender que ela modificou-se das
primeiras formas de mumificação existentes no Egito. A magia, que faz 2
a ligação entre religião e ritual funerário, tem sua explicação no livro
de Christian Jacq (2001), que nos dá uma ideia de como ela era
importante para os antigos egípcios, e como ela era entendida segundo
seu poder. Nesse sentido, pensar na magia, para articular a crença e o
ritual, que se fazia em torno da morte.

Essas são as principais fontes do trabalho, que buscam entender


a mumificação junto com a religião e os rituais mágicos, e que também
nos fornecem informações de como era feito o ritual funerário no
Terceiro Período Intermediário. A pesquisa busca entender como
pensavam os antigos egípcios no que se refere à morte, mas, além
disso, perceber como eles pensavam em seu tempo e suas crenças.
Religião e Magia no Egito Antigo

Ao olharmos para o Egito na atualidade, pensamos o quanto foi


fascinante seu passado, mas a imagem que vemos agora não é a mesma
de uns cinco mil anos atrás. O que restou da antiga sociedade egípcia
nos dá a impressão de que eles viviam para a sua religião e para sua
morte:

“Também é essencial compreender que os egípcios


não eram obcecados pela morte e pelas
observâncias funerárias. A preponderância da
informação em relação às praticas funerárias reflete 3
meramente o desequilíbrio na preservação da
evidência dos sítios de sepultamentos e
assentamento”. (DAVID, 2011, p.42).

Mas o que restou são as fontes de estudos sobre seu passado,


sobre sua cultura, dizendo muito sobre como eles viviam. Para
entender melhor o que eles produziram, e o próprio olhar que os
egípcios tinham acerca de sua terra na antiguidade, e da vida que
levavam Budge (1993, p.118), nos apresenta os princípios sobre as
crenças religiosas desse povo,

I. Crença na imortalidade da alma e no


reconhecimento de parentes e amigos após a morte.
II. Crença na ressureição de um corpo espiritual, em
que a alma vivia após a morte.

III. Crença na existência continua da alma-coração,


do ka (o duplo) e da sombra.

IV. Crença na transmutação de oferendas e na


eficiência dos sacrifícios e presentes funerais.

V. Crença na eficácia das palavras de poder,


incluindo nomes, fórmulas magicas e religiosas, etc.

VI. Crença no julgamento, quando os bons serão


recompensados com a vida e a felicidade eternas, e 4
os maus punidos com o aniquilamento.

Talvez esses princípios possam explicar o porquê de vermos na


paisagem do Egito túmulos e templos, pois estes refletem uma ideia de
vida após a morte, na qual elementos como religião e magia auxiliavam
nessa passagem. Sabemos que o Egito antigo foi administrado por
faraós, que eram também representantes religiosos. Eles eram
considerados filhos dos deuses, ou associados a eles, como vemos
nesse trecho:

A rainha foi elevada não obstante


momentaneamente à condição de consorte do deus
supremo, numa intimidade além do alcance do
próprio faraó. O deus Amon manifestou-se
precocemente numa ligação calculada com Mut-em-
wiya, com o propósito de gerar um futuro regente
para controlar o Egito em seu nome. (HART, 1992,
p.28).

Assim se justificava a origem divina de um governante. Mas, ao


pensarmos na religião egípcia, também pensamos no equilíbrio entre
homens, natureza, e os deuses, pois tudo tinha seu curso natural,
através da observação da natureza que os cercava, desde o nascimento
até a morte, e todo o ciclo que tinha começo, meio e fim. Quanto a isso, 5
afirma Rosalie David (2011, p.34) que:

“Os antigos egípcios devem ter tido profunda


consciência de que, em seu ambiente físico mais
próximo, a vida e a morte se encontravam sempre e
intensamente em contraste e justapostas. Isso era
muito bem representado pela estreita relação entre
o deserto e o cultivo, lembrando-os do equilíbrio e
da proximidade entre a vida e a morte”.

Então, a vida que levavam enquanto vivos era reproduzida após


a morte, de forma que, a projeção da vida futura no outro mundo fosse
uma vida parecida com a que levavam; a diferença é que seria uma vida
eterna, junto com os deuses, e que o morto receberia os melhores
tratamentos possíveis – se o merecesse. Em relação ao plano divino e
ao plano humano, o autor Christian Jacq (2001, p.42), afirma que
“qualquer problema humano que se apresente ao mago foi produzido á
escala cósmica antes de ter uma repercussão terrestre. Eis a razão por
que o mago deve conhecer a genealogia divina, a teologia, os diversos
relatos que dizem respeito à criação do mundo.” Sendo assim, não só a
vida na terra era produzida no além, como a vida na além era projetada
de alguma forma na terra, e eram os magos que eram responsáveis por
esse serviço, como se fossem uma ponte entre os homens e os deuses.

Então a religião egípcia não estava marcada somente pelas


crenças, mas também pela magia, que em todos os casos não se 6
separava dela. A magia era como um auxílio indispensável, e até
podemos dizer que era um aspecto primordial. Para isso Jacq (2001,
p.20) relata que, “o primeiro princípio mágico é a necessidade de
oferenda aos deuses. Graças a esse ato, a criação continua, “Dar Maât (a
harmonia universal) ao mestre da Maât (o criador)”, segundo a fórmula
ritual, é permitir que a vida se prolongue”.

As oferendas são uma forma de agradar os deuses e alimentá-los,


é por isso que os antigos egípcios tinham que manter-se sempre
atentos; as fórmulas que eram recitadas nos momentos das oferendas
servia para que os deuses aceitassem o que estava sendo-lhes ofertado.
Em um ritual para os ancestrais reais, Rosalie David (2011, p.464),
descreve como era uma fórmula em relação às oferendas:
“Vós penetrais neste vosso pão, nesta vossa
cerveja; escolheis a porção de carne de boi e
das aves, em milhões e centenas de milhares,
dezenas de milhares, milhares e centenas. Vós
enchestes vossa casa com todas as coisas boas.

Thoth esta satisfeito com o Olho Branco de


Hórus; que a vossa face seja, portanto branca,
em seu nome de pão.”

A magia era tão importante que ainda, segundo Jacq (2001,p.14)


ela era, “compreendida como força geradora, foi concebida antes da 7
criação que conhecemos”. Ou seja, o próprio ato criacionista foi mágico,
assim como os deuses tinham sua magia, e o mundo em que vivam era
um mundo mágico. A exemplo de um ato criacionista que envolve a
magia, e que de certa forma deu ênfase na magia, temos a teologia
menfita, que David (2011, p.124), nos apresenta da seguinte forma:

Nela os dois princípios divinos da “percepção” e da


“fala criativa” são forças naturais por meio das
quais a criação é atingida, quando o deus criador
percebe primeiro o mundo como um conceito e
depois o cria por intermédio de sua primeira
expressão verbal. Para atingir isso, o criador utiliza
o principio da magia, uma força que, segundo a
crença egípcia, podia transformar um comando
falado em realidade.

É nisso que também se entende a atuação dos mágicos, que


utilizando de rituais, tornavam as palavras contidas nas fórmulas
mágicas algo “real e verídico”. Para Jacq (2001, p.33), “a matéria prima
do mago é essa palavra que, acrescentando-se ao gesto, produz o ato
mágico”. Sendo assim, os magos tinham que conhecer as fórmulas
mágicas e ter o domínio das palavras, pois o conhecimento era uma
etapa essencial da formação dos magos, bem como de sua atuação. A
magia será um dos elementos fundamentais da liturgia funerária 8
egípcia, sendo empregado nos rituais de embalsamamento.

A concepção de vida após a morte

Quanto à teologia egípcia, ela se refere a um único deus criador,


que depois teria criado outros deuses, que no caso seriam inferiores ao
deus criador, mas que estavam ligados a ele, e tinham sua função no
mundo para o qual foram designados. Quanto a isso, cada um tinha
uma função especifica, e dependendo do caso, atuavam segundo a
própria história, como é o caso do deus Osíris, deus do submundo:

“De acordo com os mitos antigos, o deus Osíris


recebeu o governo de seu pai, o deus terra Geb. Seu
papel primordial na terra foi civilizatório,
acompanhado de sua irmã e esposa Isís, ambos
instruíram os egípcios. Mas Osíris era invejado por
Seth, seu irmão, o que queria acabar com sua
hegemonia. Seth fez com que Osíris caísse em uma
armadilha, trancando-o em uma arca e jogando-a no
Nilo. Posteriormente, após alguns episódios que
contam a peregrinação de Isís na busca do corpo do
marido, o deus Seth acabou encontrando o cadáver
do irmão e o dividiu em quatorze partes, as quais
foram espalhadas pelo Egito. Em cada local onde
Isís encontrou restos de Osíris, foi erigido um
santuário. Recomposto por Isís e Néftis, o corpo do 9
soberano foi então entregue ao deus Anúbis, que se
responsabilizou por sua guarda, transformando-o
na primeira múmia. Tal episódio fortaleceu a crença
dos egípcios na imortalidade, pois após ser
embalsamado, Osíris foi ressuscitado através da
magia de Isís. O casal divino então gerou Hórus que,
ao crescer, enfrentou Seth e tomou o lugar que
originalmente era de seu pai”. (SANTOS, 2002,
p.86).

Dessa forma, não é difícil perceber porque os antigos egípcios


procuraram fazer um ritual funerário, que de certo modo, fosse
semelhante ao que Osíris teve. O objetivo era que o morto tivesse os
mesmos benefícios, e pudesse ressuscitar no além. Segundo Étienne
Drioton (1958, p.45), “tal era o paraíso que Osíris reservava aos seus
fieis, aqueles que, tendo-se beneficiado dos mesmos ritos que ele,
tornavam-se osirianos, isto é, seus eternos vassalos”.

Sendo assim, os egípcios acreditavam em uma vida após a morte.


Eles observavam a natureza e a própria vida: quando o sol nascia e
fazia sua jornada durante o dia, se pondo à tarde, e quando caía à noite
e novamente o dia nascia, tal ciclo era entendido como um ciclo de
nascimento até a morte. Por meio dessas analogias, entendiam toda a
natureza como um processo de vida e morte. Mas não era somente
isso: em suas crenças, havia o deus que, depois de morto, ressuscitou
através da magia. Nesse sentido, se observava existia uma busca pelo
equilíbrio natural das coisas, assim como o ciclo natural do Nilo: 10

Essas duas grandes forças de vida – o sol e o rio –


seguiam os padrões de vida, morte e renascimento,
que provavelmente inspiraram nos egípcios a
crença muito clara de que a existência humana de
cada indivíduo refletia esses mesmos ciclos naturais
envolvendo a vida, a morte e a continuação da vida
após a morte”. (DAVID, 2011, p.34)

Mas como ressuscitar, e preservar, o morto?


Como surgiu a Mumificação

É difícil rastrear o surgimento do processo de mumificação. Na


verdade, as informações sobre os primeiros enterros falam mais sobre
as características geográficas e sua influência nas práticas funerárias:

“Não havia capacidade extra para os enterros dos


mortos; portanto, mesmo nas primeiras
comunidades, eles eram enterrados em covas rasas
nas margens do deserto. O calor e a secura da areia
preservavam seus corpos e produziam múmias
naturais, como forneciam as condições ambientais 11
ideias para a preservação dos bens funerários
colocados junto aos corpos”. (DAVID, 2011, p.35).

Nota-se então, que os primeiros povos egípcios não tinham a


preocupação de preservar os corpos com a mumificação, ela acontecia
naturalmente. No caso, encontramos nessa época (pré-dinástica, antes
do 4º milênio a.C.) artefatos dentro das sepulturas. “Os egípcios
acreditavam que as pessoas precisavam de vários artigos para serem
usados na existência que continuava após a morte, por isso equipavam
suas tumbas, tanto as dos ricos como as dos pobres, com diversos
bens”. (DAVID, 2011, p.43), lembrando que os artefatos dos primeiros
enterros não eram como os das tumbas reais posteriores, uma vez que,
nas tumbas reais, eram depositados até o mobiliário geral.
Da mesma forma, eram postos amuletos, estatuetas e demais
objetos, e também deixavam nas tumbas textos escritos. “Esperava-se
que o ato da escrita, tido como uma função espiritual, sempre
beneficiasse o escriba e o recipiente do texto”. (DAVID. 2011, p.52).
Esses textos tratavam dos mais variados assuntos, todos relacionados
com o bem estar e o sucesso do morto na sua vida além tumulo.

As formas com que se enterravam os mortos não eram muito


sofisticadas, apesar de constituírem um costume, assim como devem
ter tido um ritual especifico:

“A escavação de cemitérios pré-dinásticos revelou 12


que os habitantes aborígines ou pré-dinásticos do
Egito se desfaziam de seus mortos enterrando-os e
queimando-os; os enterros eram desmembrados, ou
cortados em um numero considerável de
pedacinhos, ou ainda sepultados inteiros, sendo
estes últimos colocados sobre o lado esquerdo, com
a cabeça voltada para o Sul e estendidos, ora em
peles de gazela, ora em esteiras de palha; não se fez
nenhuma tentativa para mumificá-los no rigoroso
sentido da palavra”. (BUDGE,1993, p.14).

Em relação ao desmembramento dos corpos, mais tarde o que


encontramos no Livro dos Mortos, no capitulo XLIII, é uma suplica para
que isso não acontecesse, e vemos isso em favor de um escriba
chamado Ani.

“Sou o Grande, filho do Grande; [Sou o] Fogo,


filho do Fogo, cuja cabeça lhe foi restituída
depois de cortada. A cabeça de Osíris não lhe
foi tirada, e não lhe seja tirada a cabeça de
Osíris Ani. Costurei-me; fiz-me inteiro e
completo; renovei minha juventude; sou Osíris,
senhor da eternidade.” (BUDGE, 1993, p.235).

A evolução das formas de enterro aconteceu conforme passou o 13


tempo. “Veio depois, cronologicamente, a eliminação do cadáver pelo
fogo, quando os corpos só eram queimados em parte, sendo o crânio e
os ossos atirados num buraco relativamente raso” (BUDGE,1993, p.14).
O que notamos é que provavelmente ainda nesse tempo eles não
tinham a preocupação de preservar o corpo para a morada do KA, e
que talvez tivessem uma concepção diferente de vida após a morte,
pois temos poucas informações de como eram as crenças nesse
período:

“É ocioso especular sobre a natureza dessa


percepção com os nossos limitados conhecimentos
atuais, mas não devemos esquecer que o hábito
difundido de enterrar os mortos com a cabeça
voltada para o Sul e a existência de oferendas
fúnebres indicam a presença de convicções
religiosas de um tipo superior, que não são comuns
entre selvagens ou tribos semibárbaras”. (BUDGE,
1993, p.15).

As primeiras tentativas de embalsamamento ocorreram, ainda,


nesse período Pré-dinástico. “Esses primitivos habitantes do Egito
embalsamavam por desejar conservar-lhes os corpos matérias junto
deles, ou por acreditar que o futuro bem estar do morto dependia, de
certo modo, da preservação do corpo que ele deixara na terra”.
(BUDGE.1993, p.15). Mas ainda não podemos afirmar se já existiam, 14
nessa época, as crenças sobre as quais, posteriormente, temos
informações.

Tal consideração é importante: a mumificação dos corpos tinha


um objetivo, pois “o corpo era mumificado para que seu espirito
tivesse um local para o qual pudesse retornar na terra, permitindo que
obtivesse sustento das oferendas de alimentos e do cardápio inscrito
nas paredes da tumba” (DAVID, 2011, p.45). Pois o “túmulo aonde
descia o corpo tornava-se a habitação eterna da alma”. (DRIOTON.
1958, p.44). O desenvolvimento posterior de grandes tumbas, tais
como as mastabas e as pirâmides, estava ligado aprimoramento da
questão do embalsamamento, servindo de abrigo para os sarcófagos.
Essas considerações podem ser encontradas no Livro dos Mortos, que
acompanhava o corpo na tumba, descrevendo como deveria ser feito o
ritual, desde a mumificação, o enterro, e as oferendas feitas ao morto
durante a existência da crença.
Antes mesmo do Livro dos Mortos, porém, alguns outros textos
pareciam ter funções funerárias, tais como os Textos das Pirâmides e os
Textos do Sarcófago. Quanto aos Textos das Pirâmides, David (2011,
p.52), afirma:

No final desse período (V e VI dinastia), quando as


pirâmides foram reduzidas no tamanho e na
qualidade, os reis introduziram conjuntos de
encantamentos em seus enterros, talvez por
fornecer um meio alternativo por meio do qual
pudessem proteger suas tumbas e obter acesso ao 15
céu, onde seriam recebidos e aceitos pelos deuses.
Esses textos mágicos eram inscritos nas paredes do
interior das pirâmides das V, VI e VII dinastia em
Saqqara.

Daí então, esses textos serem chamados de Textos das Pirâmides,


o que deixa evidente sua relação com a construção de tumbas e com o
desenvolvimento da mumificação. A função era a proteção mágica que
o texto proporcionava ao morto, bem como, as instruções sobre como
agir na vida além da morte. Assim como eles, os Textos dos Sarcófagos,
“eram destinados a assistir o dono em uma passagem segura para o
Além e a assegurar a sua imortalidade e o seu bem estar no reino dos
mortos” (DAVID, 2011, págs. 52-3).
Sendo assim, temos a ideia de que as primeiras manifestações
sobre os rituais funerários tem um caráter próprio de sua época.
Posteriormente, as funções dos Textos das Pirâmides e dos Textos dos
Sarcófagos foram amplamente substituídas e incorporadas aos Textos
Funerários. “Os egípcios chamaram o mais famoso deles, conhecido
atualmente como Livro dos Mortos, de Livro de Sair á Luz do Dia
(DAVID, 2011, p.53).

O Livro dos Mortos trazia uma série de fórmulas mágicas que


tinham seus mais diversos fins. A ideia era auxiliar os mortos na sua
viagem pelo além e na sua vida futura. Eles estavam associados à
mumificação, e para entender como suas fórmulas atuavam no rito
funéreo, é preciso observar como os egípcios entendiam sua própria 16
corporalidade. Quanto a isso, eles formularam teorias sobre as partes
que compõe o corpo humano e sua personalidade, o que justificaria o
ato da mumificação.

A crença em um corpo multiformado

Segundo o autor Wallis Budge (2004, p.125), “o corpo físico de


um homem era chamado KHAT, uma palavra que indica alguma coisa á
qual a deterioração é inerente”. A preservação deste corpo era
essencial e junto deste se tem os acompanhamentos de objetos nas
tumbas inclusive as formulas magicas. Também se tem “o KA, ou
“cópia”, de um homem, ele pode ser definido como uma
individualidade ou personalidade abstrata dotada de todos os seus
atributos característicos, e possuía uma existência absolutamente
independente” (BUDGE, 2004, p.125). A importância deste é que era
ele quem morava no corpo mumificado, e se não houvesse a
mumificação e as oferendas de alimentos, sua existência estava
comprometida.

Outra parte que se refere à alma, “era chamado BA, e as ideias


que os egípcios sustentavam no que concerne a ela são um tanto
difíceis de conciliar o significado da palavra parece ser alguma coisa
como “sublime”, “nobre”, “forte””. (BUDGE, 2004, p.125). Entender
como seria a alma para os antigos egípcios, assim como é para nós,
seria um anacronismo de nossa parte, porque entendemo-la como
nosso “eu” interior, algo que nos dá equilíbrio entre nossa mente e
nosso corpo, é algo intocável por nosso físico, mas atingida por nossas 17
ações. Segundo Drioton (1958, p.53),

“Para os primitivos egípcios, com efeito, como


ainda é para algumas tribos africanas, a alma, posta
em liberdade pela morte e arriscando perecer
miseravelmente de múltiplas maneiras, devia ser
capturada e reintegrada a força no corpo pela
virtude dos ritos mágicos”.

O coração era o “AB, ele era, em alguns aspectos, o lugar de


assento da vida do homem” (BUDGE, 2004 p.126). E para os antigos
egípcios, o coração era o lugar do pensamento e das vontades
humanas, como o intelecto é para nós na atualidade, e ele era pesado
na balança no dia do julgamento final do morto.

Existia também, “a inteligência espiritual, ou espírito de um


homem, era chamada de KHU, e parece ter tomado forma como uma
figura brilhante, luminosa, intangível do corpo” (BUDGE, 2004 P.126).
Entre essas partes que compõe o corpo segundo a crença egípcia, outra
era “o seu SEKHEM. A palavra literalmente significa “ter domínio sobre
alguma coisa”, e como usado nos textos antigos, aquele que permite
que alguém tenha domínio sobre alguma coisa “poder” (p.126). Outra
parte chamada KHAIBIT ou “sombra”, é freqüentemente mencionada
com relação a alma” (BUDGE, 2004, p.126). Pois a sombra é um reflexo
de nós mesmos, e não se tem alguém que não possua uma sombra. E 18
por fim, havia “o REN, ou “nome” de um homem, como uma das mais
importantes partes constituintes” (p.126). Segundo Jacq (2001, p.67),
“pronunciar o nome é modelar uma imagem espiritual, revelar a
essência de um ser.” Isso fazia todo o sentido, porque não se podia
admitir alguém que não tivesse nome. Até mesmo conhecer o nome
secreto dos deuses dava ao morto o poder de se dirigir ao mesmo
pedindo intercessão por ele. A exemplo disso, temos uma passagem do
Livro dos Mortos, do capitulo CXXV, que refere-se ao seguinte:

“Homenagem a ti, ó Grande Deus, Senhor da dupla


Maati, vim ver-te ó meu Senhor, e cheguei até aqui
para poder contemplar tua beleza. Conheço-te,
conheço-te o nome, e conheço o nome dos quarenta
e dois deuses que estão contigo na Sala da dupla
Maati, que vivem como carcereiros de pecadores e
se alimentam do sangue desses últimos no dia em
que as vidas dos homens são tomadas em
consideração na presença do Deus Un-nefer; na
verdade ‘Recti-merti-neb-Maati’ (isto é, ‘irmãs
gêmeas com dois olhos, Senhoras da dupla Maati’) é
o teu nome”. (BUDGE, 1993, p.332).

A passagem acima se refere ao julgamento que era imaginado


pelos antigos egípcios, e que deveria acontecer após a morte e a
mumificação. Antes de chegar à tumba, o corpo era então mumificado – 19
ou seja, preparado para apresentar-se no além. A tumba ou túmulo era
um lugar de passagem, “a porta falsa, inicialmente colocada no meio
leste da mastaba, estabelece a comunicação entre o aqui e o além.”
(JACQ, 2001, p.67).

Como era feita a mumificação

No capitulo I do Livro dos Mortos, temos como era feita a


procissão fúnebre, em que os sacerdotes faziam as recitações de
formulas magicas que acompanhavam o morto. Nesse caso,
encontramos as que foram feitas ao escriba Ani.

“Ó vós que introduzis as almas perfeitas no


Templo de Osíris, fazei que a alma perfeita de
Osíris, o escriba Ani, seja vitoriosa convosco no
Templo de Osíris. Ouça ele como ouvis; veja ele
como vedes; fique ele em pé como ficais em pé;
sente-se ele como vós, vos sentais [lá dentro].”
(BUDGE, 1993, p.143).

Após a morte de uma pessoa, ela era levada a um local especial


onde seria mumificada. “Ali se iniciava um processo que duraria cerca
de setenta dias” (SANTOS, 2002, p.81). Dentro desse tempo, se tinha
por primeiro a extração do cérebro, que era feita por um dos
sacerdotes envolvidos no processo:
20
“Tomando um instrumento feito de bronze, de
forma alongada e com a ponta em forma de gancho,
ele aproximou-se e o introduziu pelas narinas do
cadáver. Com uma pancada, produzida com um
maço de madeira, o referido instrumento perfurou
o osso etmoide atingindo o cérebro em seguida.
Com movimentos circulares hábeis, o especialista
reduziu a massa encefálica a pedaços e, aos poucos,
retirou-os sem danificar o nariz” (SANTOS, 2002,
p.81).

“Algumas vezes o crânio era extraído pela intervenção através da


base do crânio ou através da orbita trepanada” (DAVID, 2011, p.394).
Após isso, os embalsamadores limpavam a caixa craniana para que não
sobrasse nem um resíduo da massa encefálica, ou que pelo menos boa
parte dela fosse extraída. “Em seguida, as pálpebras foram afastadas e
os olhos pressionados para dentro das respectivas cavidades
orbitarias. Um dos “enfaixadores” se aproximou, com dois pequenos
pedaços de tecidos enrolados, e os depositou cuidadosamente sobre as
pálpebras, cerrando-as em seguida” (SANTOS, 2002, p. 81-2). O ritual
se seguia com cada sacerdote realizando sua especialidade em relação
à mumificação.

O próximo passo era a extração das vísceras, feita por um corte


no lado esquerdo do abdômen. Para isso, outro sacerdote era chamado:
21
“Com uma faca de obsidiana, cortou a pele e a carne,
introduzindo seus dedos pela abertura para retirar,
em seguida, os intestinos, os rins, o estomago e o
fígado. Perfurava também o diafragma para
remoção dos pulmões, mas deixou o coração em seu
local original, de acordo com os preceitos
religiosos” (SANTOS, 2002, p.82).

O coração não era extraído porque os egípcios antigos,


“acreditavam que o coração era morada da personalidade, e a
localização do intelecto e das emoções” (DAVID. 2011, p.393). Depois
da extração dos órgãos, era realizada a limpeza de ambos. “Cada órgão
extraído foi igualmente lavado com vinho de palmeira, e em seguida
depositado em pratos de cerâmica” (SANTOS, 2002, p.82). Depois, os
órgãos e o corpo, para que não entrassem em decomposição, eram
cobertos com natrão. “Este é um mineral encontrado em um vale do
deserto conhecido atualmente como Wadi el Natrun; contem
carbonato de sódio e bicarbonato, e algumas vezes inclui pequenas
quantidades de cloreto e sulfato de sódio” (DAVID, 2011, p.393-94). O
corpo tinha que ser totalmente coberto por essa substância para que
pudesse ser dissecado, e “trinta e cinco dias se passariam até que todos
os tecidos fossem desidratados pelo natrão” (SANTOS, 2002, p.82).

Depois de se passarem os dias em que o corpo ficaria envolto no


natrão, o mesmo era removido. Como o corpo ficava desidratado e sem
nada em seu interior além do coração, os sacerdotes tratavam de 22
preenchê-lo, com “pedaços de faixas embebidas em resina, areia, argila
e cebolas. Os lábios da incisão abdominal foram costurados por um
sacerdote que, em seguida, ali derramou mel e resina, depositando
então uma pequena placa de bronze contendo o olho de Hórus, sobre a
região outrora aberta” (SANTOS, 2002, p.82).

O ritual se seguia, enquanto o cadáver desidratado ia ficando


com alguns traços parecidos com o que antes possuía. Como os órgãos
não eram postos dentro do próprio corpo, eles eram depositados, “nos
quatro vasos chamados canópicos, com tampas esculpidas com as faces
dos quatro filhos do deus Hórus” (SANTOS, 2002, p.83). Os quatro
filhos de Hórus eram responsáveis pela proteção dos órgãos do morto.

As resinas, ceras, óleos, ungentos e perfumes utilizados tinham a


finalidade de conservar o cadáver já desidratado, e dar forma a ele e
eram utilizadas também quando se estava enfaixando a múmia:
“Os sacerdotes começaram de envolver
primeiramente os dedos das mãos e dos pés.
Posteriormente um dos “enfaixadores” colocou uma
longa faixa, iniciando no ombro direito, passando
pela face e envolvendo a cabaça diversas vezes. Em
seguida foi à vez dos braços, começando pelas mãos.
Finalmente o torso, envolvido inicialmente pelo
pescoço em direção as pernas. As primeiras
camadas de faixas foram unidas através de
aplicação de resina quente. Logo os sacerdotes
posicionaram os braços ao longo do corpo, 23
enquanto mais faixas foram colocadas em posições
diferentes. Amuletos e outros artefatos foram
depositados entre os tecidos, seguidos de formulas
magicas, pronunciadas pelo sacerdote “leitor”, com
a finalidade de proteger o morto. Por ultimo, uma
grande peça de tecido, chamada mortalha, foi
colocada sobre a múmia, envolvendo-a da cabeça
aos pés.” (SANTOS, 2002, p.83).

O processo como um todo era um ritual. Por fim, se tinha a “Abertura


de Boca”, que a autora Rosalie David (2011, p.169), descreve da
seguinte forma:
“Em seu primeiro formato, a cerimônia era
realizada nas estátuas reais, para capacitar o
espirito do rei a entrar na estátua inanimada e se
beneficiar das oferendas de alimentos e de incenso.
Mais tarde foi estendido para todas as formas
inanimadas sagradas na tumba, o que incluía a
múmia, estátuas, modelos e cenas murais. O
sacerdote funerário usava uma enxó, ferramenta de
carpinteiro para tocá-las na boca, mãos e pés para
que a força vital fosse nelas restauradas”.

24
As oferendas de alimentos realizadas para os mortos garantiam
que eles obtivessem seu sustento. Mas quando essas oferendas não
eram possíveis de ser feitas, era realizadas através de cardápios
mágicos, por meio de poderes rituais, que forneciam ao morto quase o
mesmo benefício que as oferendas de alimentos. Assim, vemos no Livro
dos Mortos, várias passagens que dizem respeito as mais variadas
formas de benefícios com os mais diversos tipos de objetos
inanimados. “Os uchebtis, cujo nome significa “os que respondem (ao
apelo do morto para ir ajuda-lo)” são, pelo contrario, suporte de forças
construtivas.” (JACQ, 2001, p.80). No capitulo VI, vemos os benefícios
em relação às estatuetas de Shabit:

“Ó imagem Shabit do escriba Nebseni, filho do


escriba Tena, vitorioso, e da Senhora da casa Mut-
resta, vitoriosa, se eu for chamado, ou condenado a
fazer algum trabalho, seja ele qual for, dentre os que
devem ser executados no mundo inferior – eis que
[para ti] a oposição ali será posta de lado – por um
homem em seu turno, que o julgamento recaia
sobre ti em lugar de recair sobre mim, quando for
preciso semear os campos, encher os rios de agua, e
trazer as areias deste Este [para] o Oeste. [A
imagem Shabit responde], “De fato estou aqui [e
irei] aonde ordenares que eu vá”.” (BUDGE, 1993,
p.155).
25
Assim como Nebseni, muitos outros egípcios antigos devem ter
levado seus pedidos, em fórmulas mágicas, para seus túmulos. A forma
como se mumificava supõe a analogia citada com o mumificado deus
Osíris. No Livro dos Mortos, encontramos ainda várias passagens de
rituais que dizem respeito aos mais diversos fins, mais aqui se destaca
um muito importante por causa de sua ligação com o ritual de
mumificação, e essa ideia de preservar o corpo:

“Homenagem a ti, ó meu divino pai Osíris. Vim


embalsamar-te. Embalsama-me estes membros,
pois não quero perecer e chegar a um fim [mas
quero ser] como meu divino pai Quépera, divino
símbolo daquele que nunca viu a corrupção. Vem,
pois fortifica minha respiração, ó senhor dos ventos,
que exaltas os seres divinos que são como ele.
Consolida-me duplamente, pois, e modela-me com
vigor, ó senhor do esquife. Deixa-me entrar na
região da perpetuidade, segundo o que foi feito por
ti junto com teu pai Tem, cujo corpo nunca viu a
corrupção, e que é o ser que nunca viu a corrupção.
Nunca fiz o que odeias e, mais do que isso, gritei
entre os que amam teu Duplo. Não se torne meu
corpo em vermes, mas liberta-me como tu te
libertaste. Rogo-te, não me deixes cair na podridão,
como permites a cada deus, a cada deusa, a cada 26
animal e a cada réptil ver a corrupção depois que a
alma os abandona após a morte”. (BUDGE, 1993, p.
422).

Sendo assim, entende-se como era importante ter um corpo


incorruptível, para que essa ideia de continuidade fosse palpável. O
surpreendente é que os antigos egípcios davam “vida” aos mortos, pela
continuação do trabalho que envolvia a forte crença e a necessidade de
rituais. E como eles acreditavam que, na vida após a morte, poderiam
encontrar seus parentes e amigos com quem tinham vivido na terra,
eles davam todo o suporte necessário as suas próprias convicções.
Além disso, a vida após a morte parecia para eles uma vida melhor e
mais fácil. Dessa forma, o morto era imaginado em sua vida após a
morte da seguinte maneira:
“Ele passaria o dia na sombra fresca de sua tumba,
alimentando-se das provisões que lhe trariam seus
descendentes ou que lhe proporcionaria a magia; ao
cair da noite iria ao encontro da barca do Sol, detê-
la-ia e tomaria lugar nela para atravessar o
horizonte e penetrar assim com toda segurança nas
regiões inacessíveis e perigosas do além; demorar-
se-ia ali, a seu bel prazer, e passearia pelos campos
de Osíris ou por qualquer outro paraíso onde
pudesse encontrar divertimentos agradáveis; no
momento em que o Sol se dispusesse a deixar esses 27
países fabulosos, deixando-os mergulhados nas
trevas, ele tomaria a nave de Ra e atravessaria o
horizonte oriental para renascer com ela no dia
deste mundo; em seguida, voltaria para sua tumba
sob a forma de pássaro com cabeça humana, que a
tradição emprestava as almas para semelhantes
peregrinações” (DRIOTON. 1958, p.55).

Mas devemos lembrar que nem todos podiam arcar com a


mumificação – um processo relativamente caro, e em muitos casos não
acessível a uma parcela numerosa do povo.

Mudanças no Terceiro Período Intermediário (1017 - 712 a.C.)


O Egito antigo passou por vários períodos ao longo de sua
história, e desde sua formação, várias dinastias se passaram. Dos
muitos períodos históricos do Egito, vamos nos ater ao Terceiro
Período Intermediário; “é um termo aplicado atualmente para a época
compreendida entre a XXI Dinastia e o fim da XXV Dinastia” (DAVID,
2011, p.393). O autor Ciro Flamarion Cardoso (1989, p.28), explica que
o período acima referido “foi uma longa fase de divisão e dinastias
paralelas; em certas ocasiões, vários governantes partilharam ao
mesmo tempo o território egípcio embora nem todos adotassem a
titulatura faraônica”. O que interessa nesse período é saber como eram
as crenças e o processo de mumificação, que representam uma
mudança significativa em relação aos períodos anteriores. Mas antes, 28
temos que entender a situação da religião. Quanto a isso, a autora
Rosalie David (2011, p.393-94), afirma:

No reinado de Ramsés XI, último regente da XX


Dinastia, as áreas norte e sul do país estavam
divididas, e a rivalidade que havia existido entre o
rei e o clero de Amon, desde a XVIII Dinastia,
tornou-se agora uma realidade politica. No inicio do
reinado de Ramsés IX, Amenhotep, sumo sacerdote
de Amon em Tebas, adquiriu grande poder pessoal
por meio do controle da riqueza e dos bens do deus;
nas cenas murais em dois templos, ele enfatizou a
sua posição assegurando que a sua figura fosse de
tamanho igual á do rei. Finalmente, tal posição se
tornou hereditária, confirmando assim que, em
Tebas, o poder do sumo sacerdote de Amon estava
então igualado á posição real em tudo, exceto no
nome.

O que se percebe é que o poder politico e o poder religioso


podem ter entrado em conflito nessa época, com uma disputa pelo
controle da religião. Isso não implicava necessariamente num
abandono da religiosidade tradicional; contudo, percebe-se que alguns
dos processos relativos à mumificação sofrem alterações, talvez
relacionadas a questões econômicas. Segundo Moacir Elias dos Santos 29
(2002, p.111), “podemos verificar que a técnica empregada pelos
embalsamadores na XXI dinastia, além de conservar o corpo,
procurava reconstruir sua aparência em vida convertendo-o em uma
estatua retrato e devolvendo-lhe também sua individualidade”. Então,
a preocupação agora ficava mais com o lado estético, pois parecia
importante resgatar os traços do defunto novamente, já que a
mumificação deixava o corpo com uma aparência muito diferente, pois
os tecidos estavam todos desidratados. Também temos que lembrar
que as mudanças não ocorreram somente nesse período, elas vem se
modificado com o passar do tempo e conforme tomava rumo à
sociedade egípcia, como explica Drioton (1958, p.54):

No começo da XVIII dinastia, as conquistas da Síria


abriram mais amplamente o mercado egípcio aos
aromas asiáticos. Os embalsamadores
aproveitaram-se disso para aperfeiçoar sua arte até
então bastante rudimentar, e atualizaram seus
processos, cuja tradição foi recolhida ao depois por
Heródoto e Diodoro da Sicília.

Como podemos ver as dinastias do Terceiro Período


Intermediário, foram administradas por diferentes governantes, “a
XXII dinastia foi de líbios (estabelecidos de longa data no país como
mercenários), a XXV de núbios de Napata, que conquistaram a região
de Tebas”. (CARDOSO, 1989, p.28). Então o comercio e os produtos que 30
adquiriam para seus mais diversos fins é que determinavam a
qualidade e a diferença da mumificação dos corpos. O processo de
mumificação dos corpos na XXI Dinastia é descrito por Santos (2002,
p.112), da seguinte forma:

O cérebro era extraído através das narinas e


posteriormente descartado. Verifica-se que em
algumas múmias as membranas que envolvem
o cérebro, e ate mesmo partes deste,
permanecem dentro da caixa craniana. Em
seguida, preenchia-se o interior com linho e
resina.
Notamos que não havia muita diferença na mumificação no que
concerne a extração do cérebro dos tempos anteriores. Apesar de este
período ter passado por algumas turbulências, as crenças continuavam
a existir na cultura dos egípcios. O próximo passo, a extração das
vísceras, “feita pelo abdome, retiravam-se os intestinos, rins, fígado,
estômago e pulmões. O coração deveria permanecer no interior do
tórax” (SANTOS, 2002, p.112). Após esses processos, e de se
completarem os dias em que o corpo ficava no natrão, ele era limpo
novamente para que o restante da mumificação fosse realizado. Até
aqui, pois, os elementos básicos continuavam os mesmos.

Uma diferença muito importante na elaboração de novas


técnicas foi à observação quanto à aparência que as múmias tinham 31
após o processo de desidratação. Uma busca por deixar o cadáver com
melhor aparência, fez com que fosse inventada uma nova forma de
mumificação:

“Para criar “feições naturais” nos mortos, foi


inventada a técnica de estufamento. Esta consiste
em dois métodos: no primeiro há aplicação de
materiais sobre a pele, geralmente enchimentos
com faixas; o segundo requeria maiores cuidados,
pois era efetuado com inserção de substâncias, tal
como argila, linho, areia e poeira, diretamente sobre
a pele” (SANTOS, 2002, p.112-13).
Como os tecidos do corpo ficavam desidratados, era de se
imaginar que a forma que tomava o corpo era bem diferente da de uma
pessoa antes de ser mumificada. A técnica descrita era feita em vários
lugares do corpo, como “braços, as pernas, o pescoço, as costas, a face
e, nas mulheres, as mamas, eram as principais partes tratadas”
(SANTOS, 2002, p.113). Esses são lugares onde os músculos secam com
a desidratação. O maior cuidado dos embalsamadores era com a face,
para a qual empregavam várias técnicas:

“Além das substancias aplicadas ao corpo, a face


recebia uma substancia gordurosa, inserida através 32
da boca ate atingir as bochechas. Todas as incisões
deveriam ser impregnadas com uma pasta resinosa,
cobertas por linho, costuradas ou ocultadas por
pedaços de couro. Os olhos eram deixados no local,
mas recobertos com olhos artificiais feitos de
alabastro e obsidiana, ou pedaços de linho pintados.
Sob a face uma fina camada de resina era aplicada. A
calvície era disfarçada com a colagem de perucas,
mais comuns em múmias femininas, as quais
apresentam longos cabelos trançados” (SANTOS, M.,
2002, p.113).

Esse cuidado maior com a aparência reforçava a crença dos


antigos egípcios de que o KA tinha que reconhecer o corpo para voltar
a habitar nele. Quanto aos órgãos, “voltavam a ser depositados no
interior do corpo, junto a figuras, geralmente de cera, que
representavam os quatros filhos de Hórus” (SANTOS, 2002, p.113).
Nota-se que os vasos canópicos já não eram mais utilizados como
antes, talvez agora porque acreditavam que os órgãos tinham que estar
dentro do corpo:

Após o preenchimento de toda a cavidade


abdominal, onde eram postos as vísceras também, o
lugar onde foi feito a incisão para remover os
órgãos era fechado como o costume mais antigo, 33
onde era posta uma placa de bronze com o olho de
Hórus. Outra técnica empregada foi à pintura da
pele, “pratica existente somente na XXI dinastia, que
representa uma tentativa de distinção de gênero, já
que os homens eram pintados de marrom
avermelhado, enquanto as mulheres era utilizado o
amarelo”. (SANTOS, 2002, págs. 113-14).

As faixas eram colocadas da mesma forma dos tempos passados, e


ainda depositavam o Livro dos Mortos entre elas. O costume dos
amuletos também não foi abandonado. “O mago colocava amuletos em
cima da múmia, executa certos gestos, fazendo com que o “morto”
passe do seu corpo humano para seu corpo divino.” (JACQ, 2001, p.66).
Conclusão

Seja em qual for o sentido da vida, a morte sempre esta presente.


Não há animal ou planta, homem ou mulher, que um dia não tenha fim.
Com os animais notamos algumas manifestações, com as plantas
também, mas com o homem notamos um sentido além do sentimento.
Talvez o homem além de entender o sentido da morte tente por
consolo dizer que ela não é o fim. As plantas secam até sumirem, os
animais apodrecem ate não existir mais nada além de uma ossada, e
com o homem não é diferente, mas ele se sente diferente, e acredita
poder existir após não ter mais seu corpo físico.

Na atualidade as mais variadas culturas têm seus costumes em 34


relação à morte, e esta muito ligada à questão da religião. Na verdade
muitas religiões passam a ideia que a vida não termina com a morte. É
com base nesses detalhes que o presente texto foi elaborado.

O Egito chama muita atenção quanto ao que produziu como


cultura antiga. Mas o que a antiguidade do Egito nos mostra é o aspecto
religioso e funerário. Sem contar que muito das atuais religiões tem os
traços da mentalidade dos antigos egípcios, isso no que se refere à
morte.

A ideia que fazemos da morte era diferente da que os egípcios


faziam, mas em muitos aspectos se é comparável. No antigo Egito
observamos que a vida estava muito ligada ao ciclo natural da
natureza, e o que o povo deveria fazer era manter o equilíbrio entre as
coisas. As primeiras formas e manifestações de rituais funerários eram
primitivas, e as pessoas ainda não tinham inventado a mumificação
para preservar os corpos. Contudo, observavam a natureza, e nessas
observações percebem que o clima de onde vivem tinha um efeito
sobre os corpos. O que sabemos é que de alguma forma as crenças
estavam ligadas a própria vida, então os deuses tinham uma história
parecida com a do povo, por isso, quando temos as técnicas de
mumificação, entendemos que o deus Osíris, era a referencia para uma
vida futura, por causa de sua história. Sendo assim, a religião tinha seu
papel de formular as crenças e orientar os egípcios de como deveriam
agir e se comportar diante da sociedade.

Com a mumificação fica clara a importância da magia, pois com a


utilização das formulas magicas se tinha uma garantia de vida futura
melhor. Seja com os cardápios mágicos, com encantamentos e formulas 35
para conduta diante dos deuses, enfim, não só o morto tinha seu
provimento, mas os sacerdotes também realização uma cerimonia. A
magia era essencial para dar “vida”, ou “forma”, as palavras, ela
alimentava um morto e o conduzia a um destino que eles acreditavam
existir.

A preservação do corpo através da mumificação atendeu aos


propósitos da crença de que era preciso manter o corpo intacto para
que o BA o reconhecesse e pudesse dessa forma morar nele. Vemos
para isso, formulas magicas para que o corpo não apodrecesse, pois se
isto acontecesse, o morto estaria condenado a não existir. Sendo assim,
o corpo possuía suas partes, e para existência destas era de extrema
importância que o corpo físico estivesse preservado.

As técnicas de preservação do corpo consistem em disseca-lo.


Dessa forma, ele não entraria em decomposição, e os seus tecidos se
manteriam com a impregnação do natrão, resinas e ceras. As resinas e
ceras eram empregadas na fase final do processo de mumificação, e
serviam mais para restituir às formas do defunto, assim como, as
demais coisas utilizadas para preencher o corpo.

A diferença nas técnicas de mumificação que acontecem no


Terceiro período Intermediário é que, nesse período, os antigos
egípcios procuravam deixar o defunto, o mais parecidos possível com
sua forma anterior à mumificação e para isso desenvolveram a pintura
nos corpos diferenciando o sexo masculino do feminino, empregaram o
uso de olhos artificiais, feito com diferentes materiais. Além disso,
temos o novo costume de inserir dentro do corpo os órgãos
desidratados, que antes eram postos em vasos canópicos. Mas cabe 36
lembrar que essas novas técnicas estavam dispostas a quem poderia
custeá-las, ou seja, da mesma forma como foi desde as primeiras
mumificações, na maioria das vezes foram realizadas em pessoas como
o faraó, sacerdotes e para pessoas com grandes posses. Sendo assim, o
lado financeiro era muito importante no desenvolvimento das novas
técnicas, pois o material utilizado era de melhor qualidade conforme se
podia adquiri-lo.

Percebemos também que a própria politica e religião não se


davam muito bem, mas que nem por isso, as técnicas de mumificação e
as crenças deixaram de existir, pelo contrario havia uma maior
preocupação com o reconhecimento que o BA teria que ter do corpo, e
tanto que a politica, não interferiu nas questões religiosas, e sim a
religião que passou a ter maior atuação junto à politica. Além do mais,
temos que imaginar que desde o começo até os dias em que ocorreu o
Terceiro Período Intermediário, o povo do antigo Egito foi adquirindo
maior conhecimento e evoluindo, assim como a tecnologia é nos dias
atuais. Mas as crenças continuavam existindo, da mesma forma que as
nossas continuam a existir.

Referências

BUDGE, E.A. Wallis. As ideias dos egípcios sobre a vida futura. São
Paulo-SP: Madras, 2004.

________________ O Livro Egípcio dos Mortos. São Paulo-SP: Editora


Pensamento,1993. 37
CARDOSO, Ciro Flamarion S. O antigo Egito. São Paulo: Brasiliense,
1989.

DAVID, A. Rosalie. Religião e Magia no antigo Egito. Rio de Janeiro:


Bertrand Brasil, 2011.

DRIOTON, E. “A religião egípcia”, In: As Religiões no Antigo Oriente.


Rio de Janeiro: Flanboyant, 1958.

GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC,


1989.

HART, George. Mitos Egípcios. São Paulo, SP. Editora Moraes Ltda.
1992.

JACQ, Christian. O mundo mágico do antigo Egito. Rio de Janeiro:


Bertrand Brasil, 2001.
SANTOS, M.E. Da morte á eternidade: a religião funerária no Egito
do Primeiro Milênio a.C. Dissertação de Mestrado. Niterói: UFF, 2002.

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