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A EDUCAÇÃO SEXUAL NAS PÁGINAS DO JORNAL “O COMÉRCIO”:

UMA BREVE ANÁLISE SOBRE SEXUALIDADE NA DÉCADA DE 1930

Vanessa Cristina Chucailo1

RESUMO

Este artigo buscou analisar de que forma algumas questões relacionadas a


educação sexual e a sexualidade eram abordadas na década de 30 no Brasil,
através de colunas sobre o tema publicadas nas páginas do Jornal “O Comércio”, de
Porto União, Santa Catarina. Essas publicações faziam parte do “Boletim de
Educação Sexual”, tabloide criado nos anos 30 pelo Círculo Brasileiro de Educação 1
Sexual (CBES), com intuito de divulgar artigos, notas e informações sobre a cultura
e a educação sexual brasileira, tendo como diretor-redator chefe o Dr. José de
Albuquerque. Era comum que as edições do Boletim, circulassem por todo
território brasileiro, especialmente nas redações dos jornais da época. Dessa
forma, notas extraídas do “Boletim de Educação Sexual” acabaram publicadas em
várias edições do Jornal “O Comércio”. A partir dessas publicações foi possível
perceber a mudança no padrão do comportamento dos indivíduos e da sociedade,
bem como os saberes gerados quando a sexualidade passa a ser constante nos
discursos educacionais e médicos no início do século XX. Não pretende-se julgar
tais discursos como adequados ou inadequados. Afinal, revelam costumes e
mentalidades do período podendo ou não serem semelhantes às relações humanas
e sociais vividas hoje. Para desenvolvimento da pesquisa e fundamentação da
escrita sobre conduta moral, a relação com o corpo, a sexualidade e a educação
sexual na História, além das fontes extraídas do Jornal, foram consultados autores
como Norbert Elias, Anthony Giddens, Mary Del Priore, Magali Engel, David Le
Breton, entre outros.
Palavras-chave: História. Educação Sexual. Sexualidade.

1
Mestranda em História - UNICENTRO
INTRODUÇÃO

Curiosidades que envolvem as questões sexuais sempre pairam


sobre a sociedade e sobre o indivíduo. A sexualidade e tudo que se liga
a ela podem parecer um tema irrelevante, algo essencialmente privado.
Ou, pode ser considerado como um fator permanente, uma vez que o
sexo é um componente biológico essencial para a continuidade das
espécies.
Com o advento do cristianismo, criaram-se princípios de uma
educação moral sexual na qual se privilegia a relação monogâmica
2
entre homem e mulher, onde o sexo tem função reprodutiva,
desqualificando o prazer. Quaisquer desvios sexuais
(homossexualidade, ninfomania, histerismo) eram tidos como
abominações. O cristianismo neste caso aparece como um mecanismo
de poder, repreendendo a sociedade de sua natureza.
Hoje o sexo parece escapar aos poucos de uma repressão
forçadamente imposta pelas mais diversas instituições da sociedade, e
o que antes era algo teoricamente privado, aparecendo cada vez mais
no domínio público. Embora saibamos, por exemplo, que no Brasil, nos
primeiros séculos da colonização a ideia de privado inexistia, público e
privado estavam intimamente ligados.
O que se diz é que durante as últimas décadas
ocorreu uma revolução sexual; e as esperanças
revolucionárias têm conduzido à reflexão sobre a
sexualidade muitos pensadores, para os quais ela
representa um reino potencial da liberdade, não
maculado pelos limites da civilização atual
(GIDDENS, 1993, p. 9).

Não se pode negar que houve uma abertura, ou melhor, uma


evolução no que diz respeito aos estudos sobre a sexualidade, ao sexo e
as questões de gênero. O que durante muito tempo foi considerado um 3
tabu, aos poucos foi adquirindo seu espaço, despertando o interesse
principalmente da ciência médica, que assumiu um papel fundamental
no estudo e na divulgação das questões relacionadas a educação
sexual. Embora se fale em uma maior liberdade em se tratar das
questões sexuais, isso não ocorreu repentinamente. Essa “liberação”
durante algum tempo ainda esteve atrelada a certas repressões e
vigilâncias.
Este texto buscará analisar, ainda que forma superficial, um
pouco sobre a maneira como a educação sexual era conduzida nos anos
30 no Brasil através do Círculo Brasileiro da Educação Sexual (CBES)
conduzido pelo Dr. José de Albuquerque. Criado em 5 de julho de 1933
no Rio de Janeiro, o CBES reunia vários intelectuais da época,
interessados em estudar, discutir e principalmente divulgar questões
ligadas a educação sexual e a sexualidade. Através do “Boletim de
Educação Sexual”, editado de 1933 a 1939, buscava-se publicar e
divulgar artigos, informações e notas para o público em geral. O
tabloide circulou por grande parte do território nacional, sendo
disponibilizado para aqueles interessados no assunto.

O CBES foi uma entidade de características


filantrópicas que possuía como objetivo máximo 4
promover uma reforma sobre a educação/cultura
sexual da população brasileira, de forma a instruir
cuidados com a higiene dos corpos, da raça e
sobretudo da moral da população brasileira
(FELICIO, 2011, p. 1 - 2).

Era bastante comum que essas publicações circulassem nas


redações de jornais da época, e foi desta forma que algumas notas
extraídas do Boletim da Educação Sexual foram publicadas entre 1933
e 1939 nas edições do Jornal “O Comércio” de Porto União, Santa
Catarina.
Neste contexto, por questões de acessibilidade e disponibilidade
de material, serão utilizadas como fonte de análise e pesquisa, algumas
das notas publicadas no Jornal “O Comércio”, sobre a Educação Sexual
entre 1933 e 1939.
Não caberá ao texto julgar os padrões ou as condutas
apresentadas. Afinal elas revelam como as relações humanas no que
diz respeito ao sexo e a educação sexual se desenvolviam no período, e
no que se assemelham ou se diferenciam das relações vividas hoje.
A primeira parte do texto se concentra numa análise da conduta
moral imposta sobre o corpo, a regulamentação dos costumes e a
etiqueta corporal. A segunda parte buscou abordar mais diretamente a
sexualidade, e a problemática das fontes consultadas. Na terceira, a
5
verificação de como se desenvolveu e quais eram os interesses da
educação sexual na década de 30 no Brasil. O quarto tópico, através de
uma breve seleção de notas publicadas pelo Jornal “O Comércio”,
atendendo aos pedidos de divulgação dos artigos produzidos pelo
Serviço Especial do CBES, objetivou a averiguação da forma com que a
educação sexual era tratada entre 1933 e 1939, por quem e por quê. O
quinto e último tópico discute rapidamente as questões que se
relacionam com a educação sexual para as mulheres e para os homens.
Para auxiliar na escrita e desenvolvimento do texto foram
consultados autores como Norbert Elias, Anthony Giddens, Marcel
Mauss, Mary Del Priore, Magali Engel, David Le Breton, entre outros.
A CONDUTA MORAL, O CORPO E A ETIQUETA CORPORAL

Em “O Processo Civilizador” (1994), Norbert Elias nos coloca a


reflexão acerca do processo de civilidade, ou seja, como fomos
civilizados a ponto de repugnar certas atitudes que não são comuns em
nossa sociedade? Por que nos tornamos civilizados a ponto de
condenar outras tradições como inadequadas ou grosseiras? Até que
ponto nossas atitudes foram sendo moldadas para viver em sociedade?
Ao abordar os manuais de conduta e os costumes que foram
sendo modificados, Elias buscou analisar essas práticas cotidianas se
6
desprendendo das tradições com o intuito de entender o que levou os
costumes a se tornarem os quais conhecemos e praticamos hoje. Não
cabe como dito anteriormente, julgar as atitudes sociais, mas apenas
estabelecer um padrão de comparação. O que evoluiu e o que conduziu
ou motivou as mudanças de hábitos e costumes.

Às vezes, uma pequena frase mostra como esses


costumes estavam enraizados e deixa claro que
devem ser compreendidos não apenas como algo
“negativo”, como “falta de civilização” ou de
“conhecimento” (como é tão fácil supor do nosso
ponto de vista), mas como algo que atendia às
necessidades dessas pessoas e que lhes pareciam
importante e necessário para eles exatamente dessa
forma (ELIAS, 1994, p. 81).

As pessoas passam a viver em uma sociedade onde os códigos


tornam-se mais rigorosos e o grau do que se espera uma das outras,
aumenta. Observa-se uma sociedade em que as pessoas moldam-se as
outras e tornam-se mais conscientes do que acontece a sua volta,
aumentando sua sensibilidade e percepção do que é ou não aceitável
ou ofensivo. As normas de comportamento assumem nesse período
uma forma de controle social. 7
Em todas as sociedades, ao longo de sua história, foram criadas
regras e princípios com o objetivo de orientar as relações entre grupos
e pessoas. Nem sempre essas condutas provinham do Estado, mas
muitos desses princípios reguladores eram impostos como regras que
se não fossem seguidas implicariam em penalidades, desde a
desaprovação até a exclusão daqueles que não as respeitavam. A
história das boas maneiras relaciona-se diretamente às regras de
comportamento social. Não diz respeito apenas a questão da etiqueta,
mas também a moral, a ética, o valor interno dos indivíduos e os
aspectos externos revelados a partir de suas ações e interações com os
outros.
As normas, as formas de conduta estão em movimento, às
mudanças sociais também. Mas elas estão ocorrendo de uma forma
muito lenta. Esses “manuais” de comportamento apresentados por
Elias, nada mais são do que instrumentos indiretos de modelação e
condicionamento do indivíduo em uma estrutura social em que esses
padrões são essencialmente necessários para uma boa convivência,
além de demonstrar a evolução do que foram em diferentes épocas,
boas ou más maneiras.
São essas construções ou representações sociais que indicam ao
corpo uma determinada posição dentro do simbolismo geral da
8
sociedade. O corpo é, sem dúvida, um manifesto do estilo de vida que
cada indivíduo assume. As diferenças que cada sociedade apresenta no
que diz respeito à forma com que usam o corpo, apenas reforçam seu
fundamento cultural (LEITÃO, 2004). É importante ressaltar que o
corpo não pode ser tomado apenas pelo seu caráter biológico, ao ser
abordado pelas ciências humanas, toma para si a função de produtor
de valores culturais.
As técnicas corporais ao longo do tempo, na concepção de Marcel
Mauss (2003), acabam por impor ao indivíduo uma educação rigorosa
na forma com que se utiliza o corpo. “Tudo em nós todos é imposto [...].
Temos um conjunto de atitudes permitidas ou não, naturais ou não”
(MAUSS, 2003, p. 408). É através da imposição de um conjunto de
técnicas corporais, de uma série de atos montados no indivíduo pela
estrutura social na qual está inserido que podemos identificar um
“sistema de montagens simbólicas”. Ainda que variem de uma
sociedade para outra, esses atos são explicados por Mauss a partir da
noção do habitus, ou seja, como produtos de uma “razão prática
coletiva e individual” que envolvem elementos biológicos, psicológicos
e socioculturais, mesmo que seus agentes nem sempre tenham
consciência disso. O corpo como primeiro e mais natural instrumento
que o homem dispõe, acaba servindo como objeto técnico para sua
9
construção social e cultural dentro dos limites possíveis e impostos
pela comunidade humana.

Las representaciones del cuerpo y los saberes


acerca del cuerpo son tributários de un estado
social, de una visión del mundo y, dentro de esta
última, de una definición de la persona. El cuerpo es
una construcción simbólica, no una realidad en sí
mismo. [...] El cuerpo parece algo evidente, pero
nada es, finalmente, más inaprehensible que él.
Nunca es un dato indiscutible, sino el efecto de una
construcción social y cultural 2 (LE BRETON, 2002,
p. 13 - 14).
2
“As representações do corpo e do conhecimento sobre o corpo são tributários de um estado
social, de uma visão de mundo e, dentro desta última, de uma definição da pessoa. O corpo é
É do corpo que surgem as significações que fundamentam a
existência, individual ou coletiva. É através da corporeidade que o
homem faz do mundo extensão de sua experiência, produzindo
sentidos num dado espaço social e cultural.
Mas de que corpo estamos falando? Parece tão desnecessário e
incontestável definir o que é “corpo” que por vezes não o fazemos. Para
David Le Breton (2007) isso acaba gerando uma ambiguidade que
consiste em evocar a noção de um corpo que só mantém relações
aparentemente supostas e implícitas com o sujeito. Bem mais do que
10
uma estrutura física ou tudo aquilo que possui extensão e forma, “[...]
Qualquer questionamento sobre o corpo requer antes a construção de
seu objeto, a elucidação daquilo que subentende” (LE BRETON 2007, p.
24) Não se pode conceber um estudo sobre um termo sem antes
apreender sua genealogia, suas conotações, sem levar em conta os
imaginários sociais que o definem e que agem sobre si.
A etiqueta corporal aparece como uma forma de controlar a
imagem que se dá ao outro, esforçando-se para evitar gafes, ou colocar
o indivíduo em situações de constrangimento, dificuldade ou confusão.

uma construção simbólica, não uma realidade em si mesmo. [...] O corpo parece algo evidente,
mas nada é, finalmente, mais evasivo do que ele. Nunca é um fato indiscutível, mas o efeito de
uma construção social e cultural.”
Nesse contexto, o corpo aparece como um incômodo. A simples
existência do corpo parece estar sujeito a um peso assustador, atrelado
aos rituais que se devem maquinar para se tornarem em muitas
situações, imperceptíveis (LE BRETON, 2007). Um desconforto é
gerado sempre que ocorre uma ruptura das convenções impostas pela
etiqueta corporal.
A maneira como a ansiedade é despertada nos jovens, a fim de
forçá-los a reprimir o prazer, de acordo com o padrão de conduta
social, muda com a passagem dos séculos. A necessidade de se falar
sobre as questões sexuais para as crianças, jovens e adultos no
11
decorrer do século XX, emerge de uma sociedade em transição,
tornando-se quase em uma ruptura no padrão comportamental das
pessoas.

UM POUCO SOBRE A SEXUALIDADE E O PROBLEMA DAS FONTES

A “sexualidade” é um termo que aparece pela primeira vez no


século XIX. A palavra já existia nos manuais técnicos de Biologia e
Zoologia, mas apenas ao final do século ela veio a ser utilizada no
sentido mais próximo daquele que concebemos hoje, de qualidade de
sexual ou de que possui sexo.
Para Foucault (apud GIDDENS, 1993) a invenção da sexualidade
esteve ligada a processos de formação e consolidação das instituições
sociais modernas. Os Estados modernos dependem de certo controle
da sociedade através do tempo e do espaço. Tal controle foi gerado
pelo desenvolvimento de uma “anátomo-política do corpo humano”, ou
seja, tecnologias de controle corporal que visam o ajuste social, a
otimização e as aptidões do corpo. “A sexualidade é uma elaboração
social que opera dentro dos campos do poder, e não simplesmente um
12
conjunto de estímulos biológicos que encontram ou não uma liberação
direta” (GIDDENS, 1993, p. 33).
A preocupação com a sexualidade, desde a sua invenção, é
resultado do sucesso da vigilância como um meio de geração de poder.
Tal poder esteve anteriormente concentrado no corpo como máquina,
e mais tarde, sobre os processos biológicos que afetam a reprodução, a
saúde e a higiene. Esse desdobramento da sexualidade como poder,
transformou o sexo não apenas em algo misterioso, mas também em
algo desejável, e ao mesmo tempo, um fator importante para
estabelecer nossa individualidade. A sexualidade pode ser entendida
nesse contexto como uma propriedade do indivíduo e um objeto
fundamental das relações humanas em seus mais variados sentidos.
Magali Engel (1997) em “História e Sexualidade” aponta dois
caminhos possíveis para uma história dos discursos sobre o sexo. Um,
pelo qual Foucault representa um marco fundamental, que busca
questionar o caráter repressivo dos discursos. E o outro caminho,
direciona-se para uma história das vivências e do cotidiano da
sexualidade, priorizando os comportamentos revelados a partir do uso
do corpo.
Ambos os caminhos podem revelar pontos de encontro. O que se
13
destaca com essa abordagem é quase uma tendência geral de aliar
tanto a análise dos discursos que normatizam a sexualidade, quanto à
investigação das práticas sexuais vivenciadas.
Talvez o maior problema no que diz respeito aos estudos
relacionados à sexualidade, segundo Engel (1997), encontram-se nas
fontes e na dificuldade de um estudo direto dos costumes. A ausência
ou a escassez de documentos produzidos diretamente por camponeses,
operários, artesãos, homossexuais, pelas mulheres, pelos setores
marginalizados ou dominados pelas diferentes sociedades, apresenta-
se como um primeiro obstáculo para o historiador.
As fontes disponíveis para estudar as questões relacionadas a
sexualidade, são quase sempre indiretas, ou seja, produzidas pelos
órgãos ou segmentos dominantes ou dirigentes da sociedade,
impossibilitam um estudo, ou um acesso direto aos personagens
históricos. Entretanto, vale ressaltar que não existem fontes objetivas,
afinal qualquer discurso é socialmente produzido (GINZBURG apud
ENGEL, 1997), logo, um obstáculo como este não deve desanimar o
pesquisador. O fato de uma fonte não ser “objetiva” ou direta, não a
torna improdutível ou inutilizável.
Diríamos então, que são estes os principais problemas para a
14
análise das fontes consultadas, afinal trata-se de recortes de notas
publicadas nas colunas do Jornal “O Comércio” entre 1933 e 1939,
originalmente fornecidas pelo Serviço Especial do Círculo Brasileiro de
Educação Sexual. Em sua maioria são textos escritos a partir da visão
médica, política, ou educacional do Dr. José de Albuquerque. Não se
pode afirmar claramente que se tratava de aspectos vigentes e ativos
da sociedade na época. Mas demonstram uma visão interessante sobre
as concepções relacionadas à educação sexual e a necessidade de se
discutir sobre os assuntos relacionados a sexualidade.
O INTERESSE PELA EDUCAÇÃO SEXUAL NOS ANOS 30
O interesse pelo estudo da sexualidade segundo Magali Engel
(1997), pode ser entendida a partir das transformações dos costumes e
a dissipação do que restava das atitudes de pudor herdadas do século
XIX. A proliferação de periódicos, especialmente aqueles destinados a
divulgação das pesquisas e estudos desenvolvidos acerca da
sexualidade, apresenta-se como um indício positivo e significativo que
esse campo de estudo tem assumido no conjunto das ciências sociais e
da história.
O impacto da revolução científico-tecnológico gerado na
mudança do século XIX para o XX tornou-se perceptível nos hábitos do
15
dia-a-dia, e consequentemente nas formas de relacionamento. A crise
gerada no Ocidente pelo pós-Primeira Guerra Mundial, teve como
consequência a necessidade de se reinventar o mundo (DEL PRIORE,
2006).
O corpo ganhou um lugar de destaque, influenciado pelo
aumento das peças teatrais, de festas e exibições públicas, dos
esportes, do cinema. Novas formas de exibição surgiram, estimulando
o desenvolvimento de um culto ao corpo, de novos padrões de beleza e
de higiene, fortemente marcados pelo cotidiano social do início do
século XX. A educação sexual começa a adquirir um papel fundamental
nas mais diversas áreas do conhecimento (biologia, psicanálise,
história natural), bem como na urgência em se gerar indivíduos mais
saudáveis para uma sociedade mais higiênica dentro dessa nova
percepção do corpo, voltada para um estilo mais livre, saudável e
natural.
Partindo dessas colocações, podemos constatar de onde provém
o interesse pelas questões relacionadas à sexualidade e a educação
sexual, especialmente entre a classe médica, além de explicar o
surgimento dos primeiros manuais de educação sexual, a partir de
1930. Surge neste período, à necessidade de se falar de sexualidade
como uma ciência, acima dos preconceitos humanos e das religiões.
16
Em nota intitulada “O que já se fez no Brasil em Materia Sexual”
publicada na Edição 21, de 26 de novembro de 1933, do Jornal “O
Comércio”, José Firmo, elogia a iniciativa do Dr. José de Albuquerque,
ao fundar o Círculo Brasileiro de Educação Sexual, apresentando tal
ação como um avanço nas questões relacionadas à sexologia. “A
questão sexual deixou de ser encarada como imoralidade, para surgir
como um problema scientifico ligado á saude, á inteligencia, á bellesa.
A cultura, representada pela sciencia, tinha de vencer os escrupulos
erquidos pela ignorancia” (FIRMO, 1933) 3.

3
Optou-se neste artigo por utilizar a grafia das fontes.
QUEM DEVE ENSINAR SOBRE AS QUESTÕES SEXUAIS? COMO? POR
QUÊ?

Este tópico do texto pretende exclusivamente, apresentar os


conteúdos de algumas notas fornecidas pelo Círculo Brasileiro de
Educação Sexual e publicadas no Jornal “O Comércio” durante os anos
30, sobre questões relacionadas à educação sexual.
Sabendo que o objetivo fundamental da Educação Sexual na
década de 30 era formar indivíduos moralmente educados
sexualmente, capazes de construir uma sociedade organizada,
17
eugênica e funcional, vamos observar como estas questões eram postas
para o público em geral, sob a perspectiva médica, educacional e
política, mas sem ter acesso a recepção dessas informações para
aqueles a qual elas eram direcionadas, como dito anteriormente
quando se falava da problemática das fontes aqui utilizadas.
A partir das notas consultadas, podemos enumerar dois artigos
publicados nas edições 16 de 22 de outubro de 1933 e 32 de 11 de
fevereiro de 1934, ambos escritos pelo Dr. José de Albuquerque, e que
abordam diretamente a educação sexual da criança e como ela deve ser
conduzida.
Segundo o autor dos textos, durante a infância a educação sexual
dever estar condicionada ao fator oportunidade. Isto é, saber
aproveitar certas ocasiões, especialmente àquelas onde o interesse
parte da criança, e seus pais e mestres se veem bombardeados por
perguntas feitas por ela. Nos dois artigos, tem-se claramente descrito
que a educação sexual deve ser minuciosamente ministrada durante a
infância pelos pais e mestres, quando se tratam de meninos, e pelas
mães e mestras, quando se tratam de meninas. Essa separação por
sexos seja talvez por questões de conveniência ou familiaridade com
assuntos sexuais que dizem respeito às mulheres e aos homens. Parece
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até contraditório essa separação entre meninos e meninas sugerida
para uma educação sexual, uma vez quem em uma nota publicada na
edição 117 de 31 de outubro de 1935, o Dr. José de Albuquerque
discute sobre “O Duelo dos Sexos”, afirmando que a educação sexual
nasce para a consciência dos sexos e da compreensão dos deveres e
direitos de um em relação ao outro, e que “o domínio que um sexo quer
ter sobre o outro” só desaparecerá quando a educação sexual for plena.
Mas se continuamos a tratar dessas questões, isolando o ensino
sexual para meninos e o ensino sexual para meninas, estamos apenas
afirmando esse “duelo dos sexos”, inspirado em um falso conceito de
supremacia do sexo, impossibilitando um direito de igualdade. Essas
colocações demonstram que mesmo se tratando de uma evolução nos
costumes e hábitos, certos “modos” ainda permanecem, e a “libertação”
no que diz respeito às questões sexuais ainda não está totalmente
aflorada ao ponto de aceitar qualquer tipo de conduta.
A educação sexual foi aos poucos inserida, discutida e divulgada
nas mais diversas áreas da sociedade. O CBES fazia questão de
apresentar seus resultados e até onde às questões sexuais eram
capazes de chegar. Na edição 114 de 10 de outubro de 1935 do “O
Comércio”, fora publicado mais um artigo do Dr. José de Albuquerque
comemorando um avanço no que diz respeito à educação sexual no
19
país. Ele se referia a um convite recebido do Reverendo Euclydes
Deslandes, da Igreja Trindade, na cidade do Rio de Janeiro, para que se
realizasse na sede da Casa Paroquial daquela Igreja, uma conferência
sobre os problemas da educação sexual, para ser assistida pelos seus
paroquianos, não apenas homens, mas pais e mães de família, e todos
os paroquianos em geral, sem distinção de sexo. Durante a conferência,
Dr. Albuquerque fez questão de ressaltar que a boa compreensão da
educação sexual é de certo modo, uma tarefa complementar da Igreja.
Conclui seu artigo afirmando que tal atitude por parte do Reverendo
Deslandes é um salto no que diz respeito as correntes religiosas
impostas sobre a educação sexual.
Outro passo a ser comemorado, encontra-se em duas notas
fornecidas pelo Serviço especial do Círculo de Educação Sexual,
publicados na edição 127 de 9 de janeiro de 1936, e a outra na edição
136 de 9 de abril de 1936 do Jornal “O Comércio”. A primeira
corresponde a uma conferência sobre o assunto para alunos e alunas
do Externado do Colégio Pedro II. O fato de uma conferência sobre
educação sexual ser realizada em um estabelecimento de Ensino
Secundário, do porte do Colégio Pedro II, renomado em todo o país,
revela que a educação sexual é altamente moral, além de possuir um
importante fundo educativo. A segunda nota traz um elogio ao “Club do
20
Fenianos”, que em seu desfile de Carnaval, incluiu um carro de crítica,
de combate aos preconceitos sexuais.
O que essas publicações têm em comum? Ambas tratam da
divulgação cada vez mais evidente das questões que se relacionam a
educação sexual no país, seja pelas instituições eclesiásticas,
educacionais ou por qualquer outro meio de manifestação social,
cultural ou política da época. O modo como a educação sexual vai ser
tratada parece irrelevante, desde que não se desviem das novas
condutas morais e que possuam um respaldo científico.
Quando a educação sexual não é realizada de uma maneira
conclusiva, eficaz ou satisfatória, acaba gerando uma formação moral
duvidosa, conflituosa e sem conhecimentos específicos, despertando
no imaginário, os tabus construídos em cima da sexualidade.
Não falar sobre o assunto, reprender ou proibir o indivíduo de
falar sobre tais fatos, apenas contribuem para o mistério atribuído em
cima deste tema. Preso em uma curiosidade sem limite, o indivíduo ou
reprime suas dúvidas, ou esforçar-se para saná-las, entregando-se
muitas vezes a inverdades.
Enfim, por que se tornou importante falar sobre a educação
sexual? Como dito no tópico anterior, sobre o interesse pelos estudos
relacionados à sexualidade, podemos concluir que ela é apenas
21
consequência de uma nova consciência por parte dos indivíduos sobre
hábitos e costumes que regulam a vida social. Além disso, falar sobre as
questões sexuais em 1930 era o tema do momento no Brasil. Uma nota
do Dr. José de Albuquerque, “A Hora da Educação Sexual”, publicada na
edição 38, de 25 de março de 1934 do Jornal “O Comércio”, aparece
justamente para confirmar que em todo mundo, os países dedicam
estudos relacionados ao tema, logo, no Brasil não poderia ser diferente.
Discutir as questões relacionadas ao sexo, à sexualidade, a educação
sexual, representam, não apenas um modismo, mas um avanço, uma
evolução do pensamento brasileiro.
EDUCAÇÃO SEXUAL PARA MULHERES E HOMENS

As mulheres forma durante certo período da História, divididas


entre virtuosas e “perdidas”. As “mulheres perdidas” existiram a
margem da sociedade respeitável. A virtuosidade de uma mulher
durante muito tempo foi definida pela sua recusa em sucumbir à
tentação sexual. Recusa esta, amparada pelas mais diversas imposições
ou condutas sociais, como o namoro com acompanhante, ou
casamentos forçados (GIDDENS, 1993).
No contexto da década de 30, a mulher começa a adquirir certo
22
domínio sobre o próprio corpo, mas as questões ligadas à sexualidade
e a educação sexual das moças ainda causavam certo desconforto,
talvez um receio ou vergonha. Supostamente, consequência da
profunda repressão sexual sofrida pelas mulheres, uma vez
relacionada com a moral tradicional imposta pela sociedade. A própria
palavra sexo não era pronunciada entre as moças de boa conduta.
Saber alguma coisa ou ter conhecimento sobre as questões sexuais
fazia com que se sentissem culpadas, constrangidas. Esse
distanciamento da realidade sexual acabava por gerar um abismo
entre a fantasia e a vida real (DEL PRIORE, 2006).
Para o Dr. José de Albuquerque em “As Moças e os livros de
Educação Sexual” (1939), educar as moças para uma educação sexual é
a forma mais correta para se criar uma consciência daquilo que se faz.
Segundo ele, entre os romances de amor ou os compêndios de
educação sexual, é evidente que a melhor opção na educação das filhas,
é a segunda opção. Romances são mentirosos, enganadores, uma vez
que os livros de educação sexual trazem advertências ao bom senso e a
razão, não ao instinto.

Ora, entre um livro que promove o despertar do


23
instincto e um ontro que promove o despertar da
consciencia, julgo dever ser preferido o ultimo e
desprezado o primeiro: pois emquanto a voz do
instincto nos pode conduzir á degradação physica e
moral e até ao crime, a voz da consciencia dando-
nos a posse de nós mesmos, nos alcançará aos
pincaros mais altos da percepção e da belleza, tanto
do corpo como do espírito! (ALBUQUERQUE, 1939).

O que podemos concluir com essas informações é que, era


preferível informar as moças sobre as questões ligadas a sexualidade,
do que privá-las de uma educação sexual moral e ética segundo os
padrões da época.
As questões da educação sexual não se estendem apenas as
moças, mas os rapazes também. Mas como discutido anteriormente, a
educação era direcionada e condicionada segundo o sexo, masculino ou
feminino.
Para os homens, as questões que se relacionam a sexualidade
eram em certo ponto mais flexíveis do que para as mulheres. As
necessidades de uma variedade sexual eram tidas como importante
para sua saúde física. Relações íntimas antes do matrimônio ou
extraconjugais eram teoricamente condenáveis, tanto para homens
quando para mulheres. O homem ou a mulher adúltero violava a honra
24
conjugal, logo, para ambos os sexos, o adultério, por exemplo, era uma
falta grave. Porém, o envolvimento de homens em encontros sexuais
múltiplos antes do casamento, era até certo ponto, tolerado.
Mas no que diz respeito ao matrimônio, o Círculo Brasileiro de
Educação Sexual divulgou uma nota publicada na edição 192 de 2 de
abril de 1939 do Jornal “O Comércio”, direcionada aos jovens que
pretendem casar-se e constituir uma boa relação com a sua esposa.
Inicia-se com um questionamento básico e até certo ponto regulador
da vida em sociedade: O que leva o homem a se casar? Para responder
esta questão, o Dr. José de Albuquerque discorre sobre diversos
aspectos que acabam levando o jovem a uma insatisfação matrimonial,
uma vez que a escolha de uma esposa se deu pelos mais diversos
fatores, sem levar em conta o mais importante para um bom
casamento, o amor.
Dr. Albuquerque conclui seu pequeno artigo alertando aos
rapazes para que procurem realizar um casamento ideal, que na sua
concepção, é aquele que equilibra o sentimento e a consciência, o
coração e o cérebro. Tal colocação vem de encontro aos padrões de
comportamento impostos por uma conduta moral sexual vigente. As
relações matrimoniais começam nesse início do século XX, modificar-
se, sendo fundamentado no sentimento recíproco. O casamento por
25
conveniência, vaidade, necessidade entre outros, passa a ser
vergonhoso, e o amor, de uma ideia romântica, passou a se ser o
cimento de uma relação (DEL PRIORE, 2006).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De modo geral, o que todos esses recortes demonstram, é uma


mudança no padrão de comportamento das pessoas, especialmente,
porque vemos uma nova consciência ou uma nova sensibilidade dentro
das relações humanas e de uma convivência social organizada.
Certamente, muitas questões relacionadas a sexualidade, ao sexo,
enfim, a educação sexual, precisam ser mais elaboradamente
discutidas. Coube a este artigo, apenas identificar alguns saberes
gerados a partir do momento em que a educação sexual tornou-se o
centro dos discursos educacionais e higiênicos no início do século XX,
principalmente na década de 30.
Podemos de certo modo, afirmar que para além do caráter
biológico do sexo e da sexualidade, a sexologia como ciência, não foi
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capaz de se desprender da vida social do indivíduo, fazendo parte
direta da evolução biológica, cultural e política das populações,
revelando alguns costumes e mentalidades do seu tempo.

FONTES

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Comércio. Porto União: Edição 16. 22 de out. 1933.
ALBUQUERQUE, José de. Quem deve ministrar a Educação Sexual ás
crianças. Jornal O Comércio. Porto União: Edição 32. 11 de fev. 1934

ALBUQUERQUE, José de. Hora da Educação Sexual. Jornal O Comércio.


Porto União: Edição 38. 25 de mar. 1934.

ALBUQUERQUE, José de. A Educação Sexual e os Arraiaes Religiosos.


Jornal O Comércio. Porto União: Edição 114. 10 de out. 1935.

ALBUQUERQUE, José de O Duelo dos Sexos. Jornal O Comércio. Porto


União: Edição 117. 31 de out. 1935.

ALBUQUERQUE, José de. A Educação Sexual e os Estabelecimentos de


Ensino Secundario. Jornal O Comércio. Porto União: Edição 127. 9 de 27
jan. 1936.

ALBUQUERQUE, José de. O Carnaval a Serviço da Educação Sexual.


Jornal O Comércio. Porto União: Edição 136. 9 de abr. 1936.

ALBUQUERQUE, José de. Maridos. Jornal O Comércio. Porto União:


Edição 192. 2 de abr. 1939

ALBUQUERQUE, José de. As Moças e os livros de Educação Sexual.


Jornal O Comércio. Porto União: Edição 197. 25 de jun. 1939.

FIRMO, José. O que já se fez no Brasil em Materia Sexual. Jornal O


Comércio. Porto União: Edição 21. 26 de nov. 1933.

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VAIFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da história: ensaios de teoria e
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FELICIO, Leandro Alves. Um projeto de Educação sexual para o


Brasil: O Círculo Brasileiro de Educação Sexual (1933 - 1945). Anais
do XXVI Simpósio Nacional de História (ANPUH). São Paulo, julho de
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