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POLITICA SOCIAL NOS EMBALOS DA CRISE DO CAPITAL.

Ester Taube Toretta1

Resumo: O presente artigo diferencia as políticas sociais numa proposta a reflexão sobre o
formato brasileiro. Apresenta de forma sucinta a reconfiguração do Estado pós 90 e seu
reflexo sobre o modelo de políticas que vem sendo adotado.

Palavra chave: Política Social, Política social brasileira, Crise do sistema capitalista.

Abstract: The present article differentiates the social politics in a proposal the reflection on
the Brazilian format. It presents as a summary of the reconfiguration of the State after 90 and
its consequence on the model of politics that comes being adopted.

Key Word: Social politics, Brazilian social Politics, Crisis of the capitalist system.

1
Assistente Social, Mestre em Política Social e Serviço Social pela Universidade Estadual de Londrina.
ester_taube@hotmail.com
2

INTRODUÇÃO

A temática política social, não é inusitada, muito pelo contrário, tem sido
explorada sob diversos enfoques. Contudo, tem atualmente estado em evidencia por mudanças
contextuais e conjunturais, demandando um olhar atento principalmente das ciências sociais.
Neste artigo trabalharemos com as políticas sociais buscando interpretá-las em
alguns cenários, numa tentativa de compreender como se configura visando subsidiar
perspectivas. Ou seja, a indagação que norteia a reflexão inicial deste artigo surge da
preocupação; o que podemos esperar em políticas sociais perante a atual crise do capital?
Como dificilmente encontramos projeções para a área social e sim análises pós-
acontecimentos político-econômicos é na trajetória dos eventos e das políticas sociais que
vamos buscar uma interpretação que possa nortear a indagação referida.
Partiremos de um conceito de política social e da relação com o Estado e mercado;
apresentaremos as principais alterações iniciadas na década de 90 e finalizaremos com a
conjuntura atual.

O que desencadeia a necessidade por políticas sociais.

Abordar a temática das políticas sociais é um trabalho árduo no campo teórico,


visto que nos defrontaremos com distintas interpretações, advindas de posicionamentos
ideológicos e pelo qual será interpretada a sua função. Contudo, é eixo comum o marco de sua
origem; a sociedade capitalista. Nesta, a premissa fundamental é a acumulação de capital,
advindas de um sistema de produção que gera excedente e transforma o valor em mercadoria.
As políticas sociais denotam como fenômeno a partir do modo de produção
capitalista2. Neste sistema à medida que as relações sociais de produção tornam-se
antagônicas nos interesses das classes, colocando em confronto o próprio modelo, é que se
vislumbra a utilização de políticas sociais. Elas foram gradativamente tornando-se cada vez
mais necessária a manutenção de um modelo de sistema econômico vigente.

2
Modo de produção capitalista surge das ruínas do sistema feudal, ou seja, da contradição entre o senhor feudal
e o servo. No modo de produção capitalista, a relação se faz entre o burguês, que é o detentor do capital, e o
proletário, que vende sua força de trabalho. A produção não é mais focada na subsistência ou na necessidade
humanas o interesse é na acumulação de capital.
3
As políticas sociais serão parte de um conjunto de medidas que estabelecem o
equilíbrio social, pois atenuam as condições de precarização da vida humana e favorecem a
reprodução social.

As políticas sociais são produto concreto do desenvolvimento capitalista, de suas


contradições, da acumulação crescente do capital e, portanto um produto histórico e
não fruto de um desenvolvimento natural. PASTORINI (1997, p.85).

Há consenso entre autores que as primeiras políticas sociais manifestam-se em


torno do final do séc. XIX, com a criação de medidas de proteção social, ainda em base a um
Estado Liberal.
Nesta concepção de Estado, a elaboração e aplicação de regras ocorrem sobre as
relações entre pessoas privadas, sobretudo, na defesa da liberdade e da propriedade. As
questões sociais são interpretadas como demandas individuais, portanto o Estado terá uma
intervenção pontual e restrita.
Cabe destacar que no ideário liberal as políticas sociais são concebidas como
necessárias ao processo social tendo em visto o desenvolvimento econômico. Atuam como
mecanismos de legitimação da ordem e manutenção do sistema capitalista.
Ainda em processo embrionário eram impregnadas de caráter assistencialistas,
favorecendo a ideologização do bem feitor. Para BEHRING (2008, p.51) estas legislações,
pré-capitalistas, tinham caráter punitivo, restritivo e agiam na intersecção da assistência social
e do trabalho forçado. A mesma autora se refere a esta fase como protoformas de políticas
sociais.
As políticas sociais liberais são mecanismos de concessão para o equilíbrio
mínimo social. Apresentam um caráter reducionista, sendo um paliativo as mazelas sociais,
não são suficientes para absorver as demandas e nem estimam promover condições de
igualdade social.
Considerando as pontuadas iniciativas sociais do Estado, a sociedade civil ficava
relegada a própria sorte ou contava com ações assistencialistas sob tutela da igreja, para
atender as necessidades sociais.
A natureza do Estado Liberal sofrerá gradativa mudança, entretanto perpetuará
determinadas características vislumbradas no neoliberalismo em sociedades atuais. O
principal fator desta mudança no Estado é atribuído a mobilização da classe trabalhadora. Ao
assumirem um papel político e revolucionário, questionando as condições advindas do
4
sistema capitalista, tencionaram a relação capital-trabalho, demandando um novo
posicionamento ao Estado, que atendessem aos anseios também da classe trabalhadora.
No Estado Liberal os direitos eram reconhecidos na propriedade privada,
portanto, voltados aos interesses dos detentores do capital. No Estado social, passam a ser
compreendidos na ótica coletiva, o que implica em assumir um papel ativo, organizado, com
caráter de obrigatoriedade para o conjunto da sociedade.

O Estado de Bem Estar e as políticas sociais

A passagem de um Estado liberal para um Estado social3 é um processo que


ocorreu de forma diferenciada entre países em meio ao próprio desenvolvimento do
capitalismo. Entretanto, é na passagem do capitalismo concorrencial para o monopolista, que
se observa a presença do Estado atento a mediação dos confrontos de classes, tendo a
preocupação precípua com a reprodução da força de trabalho.
No capitalismo concorrencial, preponderam as leis de mercado, e o Estado não
interfere nas relações econômicas, somente em situações precisas. Objetiva reduzir para o
capital os custos de reprodução da força de trabalho, implementando com fundos públicos as
políticas sociais básicas, educação, saúde, habitação, entre outra. Responde básica e
coercitivamente sobre as seqüelas da exploração da força de trabalho por conta do confronto
de lutas de classe visando preservar a propriedade burguesa como um todo.
No capitalismo monopolista o Estado tem a função a de propiciar o surgimento de
ramos de produção nos quais o capital encontre possibilidades de reproduzir-se a taxas de
lucro diferenciadas positivamente da taxa média global do sistema. Atua como organizador da
economia transfere recursos sociais e públicos aos monopólios e assegura continuamente a
reprodução e a manutenção da força de trabalho, ocupada e excedente.

Sincronizadas em maior ou menor medida a orientação econômico-social


macroscópica do Estado burguês no capitalismo monopolista, o peso destas políticas
é evidente, no sentido de assegurar as condições adequadas ao desenvolvimento
monopolista. E, no nível estritamente político, elas operam como um vigoroso
suporte da ordem sócio política: oferecem um mínimo de respaldo efetivo à imagem
3
Estado Social - O conceito nasceu para designar o sistema político nascido da democratização do liberalismo
clássico, provocada pelo sufrágio universal, pela universalização da cidadania e pela intervenção das massas na
vida política. Trata-se de uma síntese não isenta de tensões, em que o componente democrático é limitado pelas
liberdades pessoais e políticas (garantias dos direitos fundamentais) e em que a componente liberal é limitado
pelos requisitos democráticos (inelegibilidades, limites dos mandatos, obrigação de democracia partidária,
proibição de organizações racistas, etc.).
5
do Estado como social, como mediador de interesses conflitantes. NETTO (2007,
p.31).

O Estado no capital monopolista passa a desenvolver políticas sociais alicerçado


em um conjunto de fatores oriundos desta nova configuração do capital. As revoluções
industriais, as guerras mundiais, a crise de 1929 consolidam um panorama social aviltante
representando na exclusão social, na miserabilidade, no distanciamento das classes sociais.
“As políticas sociais se multiplicaram lentamente ao longo do período depressivo, que se
estende de 1914 a 1939, e se generalizam no inicio do período de expansão após a segunda
guerra mundial, o qual teve como substrato a própria guerra e o fascismo.” BEHRING
(ibidem, p.69).
Estas políticas sociais presentes em determinados momentos históricos cumpriram
um papel social o que para alguns autores é entendida pela perspectiva de
concessão/conquistas, enquanto para outros simples estratégias que atendem aos interesses do
capital.

As políticas sociais tem como alvo as seqüelas da questão social, ou seja, aquele
conjunto de problemáticas sociais, políticas e econômicas que se gestam com o
surgimento da classe operaria dentro de uma sociedade capitalista. NETTO (1992,
p.13).

As políticas sociais como conquistas tem seu fundamento no confronto de classes,


portanto imbuídas de concepção político-ideológica. Estas serão concebidas como estratégias
de articulação e contraposição a hegemonia da classe burguesa. A concepção perpassa pelo
reconhecimento dos embates onde a sociedade organizada tem condições de inferir sobre o
rumo das políticas.
No Estado de Bem Estar4, as políticas sociais são decorrentes do pacto5 de
compromisso da classe burguesa para com a classe trabalhadora. É a consolidação de um
compromisso negociado. Neste o Estado passa a mediar das relações sociais e prover as
condições de reprodução da força de trabalho.
O Estado de Bem Estar ou Welfare State, tem sua origem na Europa e contou com
a influência da teoria econômica de Keynes. Faz-se necessário retratar o que levou a aceitação

4
Estado de Bem Estar, é regido sob o principio de que os governos são responsáveis pela garantia de um mínimo
padrão de vida para todos os cidadãos, como direito social. Implantado pós segunda guerra mundial.
5
Pacto social representa um acordo dos membros da sociedade, pelo qual reconhecem igualmente sobre todos,
de um conjunto de regras. É entendido a partir do contrato social(ou contratualismo) . O contrato social, ao
considerar que todos os homens nascem livres e iguais, encara o Estado como objeto de um contrato no qual os
indivíduos não renunciam a seus direitos naturais, mas ao contrário, entram em acordo para a proteção desses
direitos. O Estado é a unidade e, como tal, representa a vontade geral.
6
da teoria Keynesiana para compreender a mudança na relação entre Estado mercado e por
conseqüência a perspectiva social.
O processo de acumulação capitalista teve sua maior crise em 1929, conhecida
como crise cíclica6 do capitalismo, denominada por alguns autores como a grande depressão.
A crise econômica do capitalismo instaura uma fase de recessão, desemprego em massa
interferindo nas condições de vida e trabalho da população mundial. Como retratada por
SANDRONI In BEHRING (2000, p.25). “A crise se alastrou pelo mundo reduzindo o
comércio internacional a um terço do que era até então. Com ela instaura-se a desconfiança de
que os pressupostos do liberalismo econômico poderiam estar errados.”
Este cenário força a busca por alternativas que evitem o colapso do sistema. A
teoria de Keynes será amplamente utilizada, superando a compreensão de que o capitalismo é
auto-regulável.

A afirmação do liberalismo econômico traduz a aspiração ao advento de uma


sociedade civil, sem mediações, auto regulada. Essa perspectiva, apolítica no sentido
preciso do termo, faz da sociedade de mercado o arquétipo de uma nova
representação do social: o mercado econômico e não o contrato político torna-se o
verdadeiro regulador da sociedade e não somente da economia. ROSANVALLON
(2002, p. 08).

Keynes ao propor o pacto estabelecerá a idéia de que é papel do Estado o


restabelecer o equilíbrio econômico. De forma sintetizada suas premissas defendem uma
política fiscal creditícia e de gastos, realizando investimentos em períodos de depressão, a
regulação da economia pelo Estado, o controle dos níveis de poupança e o estímulo a renda e
consumo.

O keynesianismo forneceu os alicerces ideológicos e políticos para o compromisso


da democracia capitalista, e ofereceu a perspectiva de que o Estado seria capaz de
conciliar a propriedade privada dos meios de produção com a gestão democrática da
economia(...). O controle democrático sobre o nível de desemprego e a distribuição
da renda tornaram-se os termos do compromisso que viabilizou o capitalismo
democrático. PRZEWORSKI (1991, p.244).

Antes desta teoria o que se vislumbrava no liberalismo era cortar custos de


produção; ou seja, reduzir salários e gerar demissões, o que resultava em caos social.
Implantar medidas sociais implicava na elevação de custos de produção, ficando a assistência
ao encargo da caridade.

6
Crises geradas pelo sistema pelo descompasso entre a superprodução, superacumulação e subconsumo.
7
A medida proposta pela teoria de Keynes concentrou-se na ampliação de gastos
governamentais7 gerando trabalho sob controle de demanda e na implantação da rede de
serviços sociais. Permitiu ainda um pacto entre classes possibilitando a negociação de
interesses no limites do capitalismo; cuja premissa tinha o foco do pleno emprego e políticas
universalistas.
A nova dinâmica do Estado, em paises industrializados, proporcionou a
universalidade de atenção às necessidades básicas dos cidadãos. Um amplo sistema de
proteção social com caráter universal e redistributivo subsidiaram as políticas sociais.

Em termos gerais representou um esforço de reconstrução econômica, moral e


política. Economicamente, significou um abandono da ortodoxia da pura lógica do
mercado, em favor da exigência de extensão da segurança do emprego e dos ganhos
como direitos de cidadania; moralmente, a defesa das idéias de justiça, solidariedade
e universalismo. Politicamente, o welfare state foi parte de um projeto de construção
nacional, a democracia liberal (...). ESPING-ANDERSEN (1995, p.73).

Contudo, cada Estado Nação8 mesmo que sob influencia de um pensamento


prevalecente na economia capitalista, aplicou o Estado de Bem Estar de forma diferenciada.
Behring (2008, p.98) destaca que a simples instituição e expansão das políticas sociais, não
podem ser interpretadas automaticamente como a instauração do Welfare State. É na adoção
dos clássicos modelos bismarckiano e beveridgiano que se caracteriza do Estado Social nos
sistemas de seguridade predominantes nos países capitalistas da Europa ocidental.
O Estado de Bem Estar se fez presente em nações cuja concepção política de
social democracia pode ser vivenciada; onde verdadeiramente se concretizou o pacto social.
Estes Estados utilizaram de políticas sociais para elevar os níveis de igualdade.
Alguns autores desclassificam o Estado de Bem Estar para determinados Estados
Nações, por uma compreensão ideológica e pela forma reducionista em que foi praticado, não
contemplando um conjunto de características específicas, que o classificariam como tal.
Encontramos ainda na literatura9 os que consideram a existência do Estado de Bem
Estar para um número maior de países, mas utilizam de diferentes terminologias, como
subclassificações do modelo adotado. Para estes os modelos configuram-se como liberal,
conservador e social democrático.

7
”O Estado tem legitimidade para intervir por meio de um conjunto de medidas econômicas e sociais tendo em
vista gerar demanda efetiva, ou seja, disponibilizar meios de pagamento e dar garantias ao investimento,
inclusive contraindo déficit público, tendo em vista controlar as flutuações da economia. Nessa intervenção
global, cabe também o incremento das políticas sociais.” BEHRING (2000, p.26).
8
O Estado Nação fornece a legitimidade institucional da sociedade, considerada em seus aspectos políticos,
econômicos, sociais perante ordenamento jurídico, sob uma territorialidade.
9
ESPING ANDERSEN. Ver comparativo em as Relações de Estado e sociedade e as formas de regulação social.
8
As interpretações sobre o modelo de Estado e práticas sociais adotadas
contribuem para diferenciar as políticas sociais como residuais, conservadoras ou
redistributivas10; todas cumprindo uma função político-econômica e social.
Os modelos destas políticas serão os mais diversos, podendo ampliar ou
consolidar direitos numa ótica universal, consciente das mazelas criadas pelo capital ou
transformar-se em concessões da margem de lucro permitida que possibilite a renovação do
próprio sistema (reprodução social).
Neste sentido as políticas sociais são estratégias de perpetuação ou
enfretamento de um sistema pela contradição por ele gerada. Políticas residuais e
conservadoras atendem ao princípio de contenção de massas que somadas à ideologia dos
aparelhos de Estado soldam a cultura burguesa e a defesa do modelo existente.
Cabe contemplar ainda, que em diferentes modelos de Estado há organização da
sociedade na prestação de serviços sociais em prol das necessidades humanas. Contudo,
estima-se que práticas filantrópicas ou mercadológicas sejam mais intensas em sociedades
cujo Estado não tenha absorvido a proteção social na universalidade.
O que este panorama nos expressa é de que as teorias e modelos presentes no
sistema capitalista, não se configuram como forma única, econômica e politicamente estão
sujeitas a construções históricas dialéticas de cada Estado Nação.

As políticas sociais no contexto Brasileiro

Para a realidade brasileira há certo consenso na academia de que não vivenciamos


o Estado de Bem Estar. As políticas sociais foram conduzidas de modo residual e conservador
não visando a igualdade de direitos. Apresentam ainda um caráter fragmentado, emergencial,
assistencialista.

As políticas sociais desenvolvidas entre as décadas de 30 a 70 foram construídas sob


a égide de uma modernização conservadora. A proteção social estava fundada sob o
princípio do mérito, como definidor seja da relação inclusão/exclusão no sistema,
seja do acesso aos bens e serviços sociais, públicos e privados. Esse modelo

10
Política social compensatórias compreende programas que remetiam problemas gerados por deficiência de
políticas preventivas ou residuais. Política social redistributiva é um modelo de regulação estatal que procura
reduzir a segmentação social criada pelo mercado. Baseia-se na universalização da concessão do benefício, com
fontes de natureza fiscal. Através de programas efetivam a transferência de renda dos patamares superiores a
inferiores da estratificação social.
9
contribuiu para cristalizar formas particularistas e corporativas de clientelismo e
privilégios, segundo uma ética do favor, da doação.” MOTA (2001, p.89).

Ao longo dos anos é possível identificar que a forma em que se consolidaram as


políticas sociais no Brasil atenderam a interesses corporativos e deu legitimidade a diversos
governos. Em sua fundamentação ideológica correspondem mais a uma perspectiva liberal do
que social democrata. Para BEHRING (2008, p.75) “O Estado brasileiro nasceu sob o signo
de forte ambigüidade entre um liberalismo formal como fundamento e o patrimonialismo
como prática no sentido da garantia dos privilégios das classes dominantes.”
Os movimentos sociais existentes e a própria classe trabalhadora industrial não
vivenciou como em países europeus os confrontos da relação capital trabalho. Esparsos
movimentos políticos de classe ocorrem em nossa história, não se configurando em efetivo
pacto social. Constituíram como transferência antecipada de direitos por governos populistas.

Se a política social tem relação com a luta de classes, e considerando que o trabalho
no Brasil, apesar de importantes momentos de radicalização, esteve atravessado
pelas marcas do escravismo, pela informalidade e pela fragmentação/cooptação, e
que as classes dominantes nunca tiveram compromissos democráticos para as lutas
em defesa dos direitos de cidadania, que envolvem a constituição da política social.
(Idem, ibidem, p.79).

Neste ínterim, entende-se o que as políticas sociais brasileiras não tiveram os


embates de classes que as colocassem na relação de concessão conquista, e os mesmos não
subsidiaram a concepção de um Estado social democrata. Não cabe aqui reduzir a
significância dos embates políticos brasileiros, entretanto somados a história de colonização,
industrialização e formação da elite política é possível afirmar que as políticas sociais
brasileiras não foram construídas para proporcionar a equidade.11
Ao mesmo tempo em que se construiu a presença do Estado e a implantação de
leis de cunho social, uma ampla gama de serviços sociais foi organizada e disponibilizada
pela sociedade civil, sob alicerces da igreja e iniciativa privada. Desta pode-se afirmar que a
questão social no Brasil esteve alicerçada em um frágil esquema de proteção social sob
participação público-privado desde seu início.
O período em que o Brasil apresentou maior efervescência de uma consciência
pública, em prol dos direitos e conquistas sociais é evidenciado a partir da constituição de 88.
Esta se torna um marco, pois alterará profundamente a política social, reconhecendo em um
11
Equidade- Se refere à igualdade fundamental entre as pessoas. A equidade pressupõe igualdade em condições
de vida, uma vez garantida à universalidade dos direitos fundamentais, a liberdade e a propriedade; independente
da origem deve ter as mesmas possibilidades de ascensão na sociedade. A busca pela equidade numa sociedade
de classes permite políticas que ampliam as oportunidades a grupos em condições de desigualdade social.
10
conjunto de leis os direitos sociais. As defesas serão por políticas sociais universalistas,
imbuídas da preocupação com a cidadania, empoderamento social, participação político-
social.

A constituição de 1988 consolidou conquistas, ampliou os direitos sociais,


representando um avanço em direção a ampla, moderna e democrática concepção de
seguridade social. Estabeleceu a cobertura universal na saúde, direito de todos e
dever do Estado. Reafirmou o modelo não mercantil, a gestão publica e o
financiamento através das contribuições sociais, no caso da previdência. Introduziu
o direito a assistência social para aqueles que dela necessitarem, sem exigências de
contribuições prévias, ampliando e reafirmando a importância das ações dos
governos e da sociedade civil na esfera da reprodução social e com um caráter não
mercantil. SILVA (2000, p.66).

A expressão seguridade12 será inserida nesta constituição, definindo um padrão


de proteção social. No Brasil o escopo da seguridade abarcará as áreas da previdência, saúde e
assistência social; sinalizando a possibilidade de expandir ações e consolidar mecanismos de
gestão, financiamento e políticas integradas.
Este período leva a crer na alteração do modelo de proteção social, com políticas
sociais em base a uma social democracia. Visto que, apresentava a preocupação com a
universalidade, redistribuição, a inovação na estrutura administrativa como (descentralização,
participação e responsabilização). Entretanto, é no passar das décadas entre avanços e recuos
de algumas políticas pontuais em diferentes áreas, que nos defrontamos com a percepção de
que a cultura do direito, de um Estado ampliado13 não penetrou na sociedade brasileira.
As condições almejadas ainda na década de 80 fruto de intensos debates é
destituída de concretude. Mesmo que embasadas em princípios universalizantes e de direito,
se defrontaram com a viabilização parcial, decorrentes de diversas amarras históricas do país.
Velhas práticas continuaram a fazer parte do jogo político, mesmo com maior abertura a
participação da sociedade civil pouco se observou sobre a ingerência social.
Contudo, este período possibilitou uma experiência democrática favorecendo a
uma agenda pública, contribuindo a discussão da seguridade social e dos atuais quadros de
exclusão social, envolvendo a sociedade e lideranças políticas. Condição que não se encerrou,

12
Seguridade social – Termo que se tornou conhecido nos anos 40, no mundo desenvolvido o qual expressa à
garantia de segurança as pessoas em situações adversas. É o reconhecimento de que o Estado deve operar em
determinante que impactam na reprodução da vida e das relações sociais.
13
O Estado ampliado é uma teoria de Gramsci que apresenta o equilíbrio entre a sociedade política e a sociedade
civil. A luta de classes têm como terreno decisivo os aparelhos privados de hegemonia, na medida em que visa à
obtenção da direção político-ideológica e do consenso. Neste caso o Estado se ampliou, representado na
possibilidade de embates de luta de classe, numa conquista progressiva ou processual de espaços no seio e por
meio da sociedade civil.
11
muito pelo contrário, abriu a possibilidade cotidiana de novos embates em torno das
expectativas criadas.
Na década de 90 vivenciaremos outro agravante a solidificação das conquistas
sociais, a agenda neoliberal e a concepção do Estado Mínimo14. A agenda neoliberal15 é
proposta por mecanismos internacionais e contempla um conjunto de medidas de ajuste
econômico advindas da crise capitalista gerada ainda na década de 70.
Esta crise do capital terá sérias repercussões, deflagrando a crise fiscal e dos
Estados nacionais. Enquanto crise fiscal evidencia-se a insuficiência de recursos para operar a
máquina pública. Os recursos são provenientes de taxações compulsórias de circulação de
mercadorias, contudo neste período, houve redução das taxas de crescimento de produtos
nacionais e de produtividade das empresas.

A cada nova crise financeira, o receituário do fundo monetário internacional e do


banco mundial é empreendido pelos Estados nacionais com maior energia,
liberalizando a economia dos países, reforçando a dependência financeira através da
dívida interna e externa, com a ajuda de juros extorsivos, limitando os investimentos
governamentais no serviço público, privatizando os bens, serviços e fundos
públicos, desenvolvendo novas formas de investimentos externos diretos e
concentrando nas mãos das transnacionais uma grande quantidade de capital que
antes era de domínio coletivo. MOTA (2008, p.117).

O ajuste neoliberal não terá natureza apenas econômica, influirá sobre a


redefinição no campo político institucional e das relações sociais. Neste sentido o Estado
apresentará perda da capacidade regulatória, estando enfraquecido pelas situações
engendradas em uma economia globalizada. Como parte do processo será adequado, num
campo de forças contraditórias a corresponder as expectativas do sistema predominante.

Para os países onde não existia um Estado de Bem Estar Social constituído, as
políticas de ajuste vieram mais pelo lado econômico, abertura comercial,
deslocalização de indústrias e atividades e desemprego, do que pelo lado da
distribuição de aparelhos de política social. Uma vez que estes não existiam,
dependendo da intensidade do ajuste, vários paises foram obrigados a fazer
programas sociais de caráter emergencial, focalizados, contando com a solidariedade
comunitária. Em todos os casos essas políticas foram manifestadamente
insuficientes para diminuir a desigualdade social e a pobreza preexistentes e,
sobretudo, agravadas pelo próprio ajuste. SOARES (2002, p. 21).

14
Estado Mínimo – derivado de um pensamento liberal, cujo Estado tem funções mínimas que assegurem a
ordem social.
15
A agenda de ajustes neoliberais contempla: a) aumento do grau de abertura econômica para o mercado
internacional, b) racionalizar a participação do Estado na economia, c) Estabilizar o comportamento de preços e
variáveis macroeconômicas. d) Redução dos gastos públicos.
12
A política neoliberal instalada neste período também foi conduzida de forma
diferenciada quanto aos impactos sociais proporcionados nos países, contudo na América
Latina e principalmente no Brasil considerando o grau de dependência econômica, os ditames
do ajuste limitarão as perspectivas de outras alternativas que minimizassem os impactos
sociais.
A crise alastrada pela economia permitiu a perpetuação do tradicional
distanciamento de direitos à população brasileira. A busca governamental concentraria seus
esforços na estabilização monetária, ficando os investimentos sociais para um segundo plano.
O Estado intervencionista da relação capital trabalho será alvo de acirradas críticas, sendo
responsabilizado pelo endividamento, pelos déficits fiscais, redução de taxas de lucro e no
âmbito social será considerado paternalista.
Ainda na década de 90 teremos a reforma do Estado 16 sob o aval da incapacidade
da gestão pública e do déficit público. A reforma colocará em pauta novas estratégias na
condução das políticas sociais públicas.

Essas conseqüências, tanto no âmbito social, político institucional e até mesmo


econômico, tem componentes estruturais sérios, cujo horizonte transitório vem
ficando cada vez mais distante. Isto significa que muitas dessas conseqüências são
de difícil reversão, sobretudo se mantidos a atual política econômica e o padrão de
intervenção do Estado no Social de caráter residual. (Idem, p.33).

Neste ínterim será possível identificar medidas de descentralização de serviços


para outras instancias do Estado, a publicização como repasse de responsabilidades a
sociedade civil, a mercantilização, permitindo que o mercado opere em espaços públicos e a
participação dos cidadãos, como medidas de controle. Um conjunto de medidas que a médio e
longo prazo constituíram o modelo de proteção social.

Trata-se de um período em que se estruturam novas diretrizes de orientação, novas


formas de financiamento e novas formas de participação de entidades da sociedade
civil no processo de tomadas de decisões quanto ao uso de recursos públicos.
MOTA (2001, p.86).

O mercado e a sociedade civil organizada passam a ser reconhecidos como de


fundamental importância para operacionalizar um conjunto de políticas que infiram sobre a
condição de vida da população. Parte desta rede social já existia e estava sob gestão de

16
Reforma do Estado- No Brasil, proposto no governo Fernando Henrique Cardoso, tendo como principal
documento de orientação o Plano diretor da reforma do Estado (PDRE/MARE, 1995). Compreende um conjunto
de medidas que interferem no papel do Estado e na forma de gestão da administrativa pública. As reformas têm
impactos sociais uma vez que altera garantia de direitos.
13
organizações da sociedade civil. Contudo, este período será marcado pela expansão do
terceiro setor e de empresas privadas atuando na área social, em tamanha eclosão, ao ponto de
superar o número de trabalhadores empregados no setor industrial.
Com a reforma foi possível adequar e separação instituições públicas de públicas
com interesse privado. As leis sociais mesmo em períodos mais democráticos não
dispensaram estas iniciativas ou regulamentaram o suficiente em torno de políticas públicas.
O que se evidencia a partir da parceria público-privado é a preocupação com a
otimização de recursos do Estado o estabelecimento de alguns critérios para a prestação de
serviços de interesse públicos e sociais.
Não esteve em pauta a implantação de políticas que ampliassem coberturas,
integradas para o desenvolvimento social, parcerizadas para a otimização de resultados
sociais. A reforma transforma em um novo modo de pensar as políticas sociais, destituindo o
caráter público e afirmando o mercadológico e solidário.
Estas entre questões que permeiam a reforma do Estado e a parcial efetivação de
direitos constitucionais geram controvérsias. Entre defensores exaltasse principalmente os
ganhos com a participação da sociedade civil, o controle, a eficiência, aproximação das
políticas a realidade. Entre os críticos a perda de direitos, a refilantropização17 e a
mercantilização do social.
Este embate de contrários, não pode ser analisado como já referenciado dissociado
de um movimento macro societário e nem da história de nosso país; elementos essenciais para
entendermos o rumo das políticas sociais brasileiras.

Crise mundial e perspectivas à política social brasileira.

A partir de 2007 torna-se público a discussão da crise econômica mundial, tendo


como ponto desencadeador a crise mobiliária nos EUA. Esta crise vem sendo interpretada não
como uma crise cíclica do capital, já vivenciado em outros períodos. As crises cíclicas em
geral são de curta duração, são repentinas, tendem a desestabilizar a produção capitalista,
superadas com medidas de ajuste.

17
Refilantropizar, implementação de políticas sociais sob orientação filantrópica. Baseada na noção de dever
moral e na ação voluntária e benevolente, desconsiderando sua natureza de política pública, não implica em
continuidade ou conhecimento técnico científico.
14
18
A crise presente na sociedade capitalista vem configurando-se num processo
global, entrelaçando aspectos políticos e econômicos, o que a caracterizaria como crise
estrutural. Ela tem favorecido o desemprego em massa, o declínio das taxas de crescimento
econômico, a instabilidade monetária internacional e a decomposição do padrão dólar,
favorecendo a impasses de ordem geopolítica.
A crise atual, embora possua muitas características semelhantes à depressão de 30,
expressando as contradições históricas fundamentais do capitalismo, derivadas da forma de
propriedade, da oposição entre produção e consumo e da crescente incompatibilidade entre as
relações de produção burguesas e as forças produtivas modernas, conta com elementos de
uma sociedade moderna.
A sociedade brasileira incorre em outros problemas no enfrentamento desta crise; a
destacar o grave quadro de exclusão social. Numa perspectiva de desenvolvimento este fator
limita as possibilidades uma vez que o capital social não apresenta as condições adequadas a
uma competitividade globalizada.
Apesar de contarmos atualmente com melhor estabilidade econômica, com
inflação sob controle, em muitos setores somos dependentes de relações comerciais
internacionais para operacionalizar no mercado. Entretanto, por não fazermos parte dos países
desenvolvidos que ditam as regras econômicas internacionais, ficamos vulneráveis as medidas
macroeconômicas por estes ditadas.
Perante este breve quadro o questionamento premente refere-se a que políticas
sociais corresponderão a esta nova crise? O que podemos esperar do papel do Estado? O que
fundamentará as políticas sociais?
Estas questões serão mais facilmente processadas se analisarmos na trajetória
histórica das políticas sociais, em que período estiveram no foco da sociedade, que contexto
permeou sua eclosão ou recuo. Para Faleiros “A questão da política social é sempre resultado
que envolve mediações complexas, sócio-econômicas, políticas, culturais, e atores/forças
sociais/classes sociais que se movimentam e disputam hegemonia nas esferas estatal, pública
e privada.” FALEIROS apud (BERHING, 2000, p.31).
O mesmo se aplica as políticas sociais na realidade brasileira. Neste ínterim é
possível identificar que as medidas tomadas perante as crises do capital e por modelos de
desenvolvimento, não alicerçaram as políticas sociais no âmbito da proteção e promoção

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“O termo crise não é utilizado como sinônimo de colapso ou falência, mas na perspectiva de apreender as
transformações no processo de acumulação e nos modos de regulação social, que incidem nas novas
configurações assumidas pelo Estado e pela sociedade e nas relações que se estabelecem entre essas esferas.”
DEGENNSZAJH (2000, p. 61).
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social. Muito pelo contrário, não corresponderam a uma redistribuição tornando muito mais
complexo o enfrentamento da exclusão19 e miserabilidade nos dias atuais.
A tão defendida otimização dos recursos públicos pela gestão, não resultou em
investimentos em políticas sociais públicas de caráter universalizante, promotoras do
desenvolvimento humano. A contenção de gastos sociais implicou na desvinculação de
receitas próprias da política social e optando-se por investir em ações seletivas e focalizadas.
A nova crise defronta-se com um grande contingente de trabalhadores
desempregados ou sub-utilizados; destes alguns semi-qualificados para os novos processos
tecnológicos. Encontra ainda, um Estado neoliberal o que configura um panorama muito
diferente de crises anteriores.
Isto posto, dificilmente veremos a concretização da tão sonhada universalidade. É
mais provável que o novo “excedente”, excluído social, seja mais um concorrente a políticas
focalizadas, dividindo espaço nas tradicionais filas, cotas e legislações restringentes de acesso
a direitos.
Para Soares (2000) o efeito das crises tem outro lado perverso, a naturalização das
desigualdades, onde os sujeitos perdem a identidade coletiva e passam a ser recursos
(mercadoria) regulados pelo mercado.
Nesta lógica, a efetivação de direitos é despolitizada, sobre uma apologia de que os
serviços ofertados pelo mercado são superiores. Neste ínterim obtém-se um consenso de que o
gasto público deve ser reduzido, num movimento contrário ao proposto na teoria de Keynes.
Portanto, um modelo utilizado sob medidas específicas e não numa lógica de Estado.
O esgotamento do Estado de Bem Estar e o foco na administração gerencial
passam a ser discursos de ordem mundial. Porém, será na continuidade de políticas privadas
que serão ofertados os serviços sociais podendo surgir novas iniciativas.

(...) a crise da presença do Estado na sociedade, constrói um discurso em favor do


individualismo pragmático, deixando as pessoas e grupos entregues a sua própria
sorte ou, na melhor das hipóteses, a uma rede comunitária de solidariedade.
Aumenta o descrédito com relação aos serviços sociais públicos, a esta altura já
deteriorados e sobrecarregados. SORES (2000, p.75).

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Exclusão social - “A exclusão contemporânea é diferente das formas existentes anteriormente de discriminação
ou mesmo de segregação, uma vez que tende a criar, internacionalmente, indivíduos inteiramente desnecessários
ao universo produtivo, para os quais parece não haver mais possibilidade de inserção. Poder-se-ia dizer que os
novos excluídos são seres descartáveis.” WANDERLEY (1999, p. 25).
16
Evidencia-se na cooperação público-privado, um crescimento significativo do
terceiro setor e de iniciativas sociais privadas, que mesmo tendo disponibilizado serviços
sociais, pouco tem inferido para alterar o quadro de exclusão social.

A opção pelos mecanismos de auto-ajuda se dá mais pela ausência de impacto


financeiro sobre o setor público do que pelos méritos organizativos participativos da
sociedade. O problema da utilização desses mecanismos está no seu caráter
substitutivo dos serviços públicos e não na sua possível atuação complementar(...)
(Idem, ibidem, p. 80).

Instituições privadas de fins públicos carecem ainda, de serviços de alta


qualidade e de regulação adequada, atentas a perspectiva de proteção social, que assegure uma
operação eficiente ao Estado e aos cidadãos. Sendo prematuro afirmar que este novo modelo
público-privado possa assegurar a eficiência na prestação de direitos sociais. Um dos pontos
favoráveis que poderá nortear o novo modelo é a participação democrática, contudo há
ciência de que temos um longo caminho a percorrer.
Ajustes de dimensões sociais, sem alterar a dinâmica do capital podem ser
utilizados como meio de incrementar o consumo e contarão com o apoio internacional. Nas
crises o capital sempre necessitou adequar-se na relação produção consumo ampliando
fronteiras que permitam o equilíbrio financeiro. Neste sentido o Brasil é um mercado
potencial e interessa que haja melhores condições de consumo inclusive consumo social. Para
NETTO ( 2007, p.26). “(...) o Estado atua como um instrumento de organização da economia,
operando notadamente como um administrador dos ciclos de crise.”
As primeiras medidas do governo brasileiro perante os sinais da crise econômica
foram de estímulo ao consumo. Dentre estas estão as linhas de crédito, liberação de
compulsório, incentivos fiscais, mudança na alíquota fiscal, desconto de imposto para
aquisição de carros. Outras, que favorecem mais diretamente ao capital como o financiamento
a empresas brasileiras.
O consumo aumenta a circulação do capital, gerando a falsa ilusão de que a crise
está sob total controle. A opção pelo investimento do Estado é para o capital financeiro em
detrimento a investimentos estruturantes da sociedade; como obras públicas, habitação entre
outras que geram trabalho e também circulação de capital. Num segundo momento evidencia-
se a liberação de recursos pontuais o que proporciona o aquecimento de alguns setores, a
exemplo da construção civil.
A aprovação de novas alíquotas de contribuição fiscal, beneficiando algumas
classes sociais, será bem vinda a um segmento que compra seus direitos sociais no mercado.
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Ação que atua sob efeito ideologizante de aprovação governamental, pois amortizam a crítica
recolhimento versus investimento.
Assim a população de baixa renda passa a ter o sonho do carro, da TV e da
geladeira, concretizado. Não importa o grau de endividamento, a que custo, a que condição,
por que há circulação de capital, mercadoria um estrago diluído muito mais complexo para ser
demonstrado os efeitos.
Todavia, em uma leitura simplista o cidadão vem tendo acesso a bens de
consumo, num demonstrativo que a condição de vida melhorou. Entretanto este acesso não
ocorre nas vias coletivas, em condições estruturantes. A medida que estas políticas não focam
distribuição de renda, reforma agrária, educação, serviços públicos de infra estrutura, entre
outros, só altera-se o aparente aquilo que está na superfície.
Algumas reformas neste período poderão contar com maior apoio popular, como
a flexibilização da CLT20. Alguns embates neste sentido estão ocorrendo entre força sindical,
trabalhadores e empresários. A aprovação implica no desmonte de conquistas da década de
30, entretanto as reformas são defendidas por possibilitar maior competitividade à indústria
nacional e por conseqüência a garantia de vagas nas empresas.
Estas interpretações podem demonstrar-se equivocadas, cujos recentes fatos não
sirvam para a leitura adequada do rumo das políticas sociais. Entretanto, se olharmos no
retrovisor da história, percebemos a repetição de um conjunto de medidas que favoreceram ao
capital em detrimento a uma estruturação social, um capitalismo de base liberal, com mínimos
sociais, que pouco asseguram a própria reprodução social.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No decorrer deste artigo apresentamos a sujeição das políticas social às condições


econômicas e de contextos que permitiram seu desenvolvimento.

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CLT - Consolidação das Leis do Trabalho é a principal norma legislativa brasileira referente ao Direito do
trabalho e o Direito processual do trabalho. Ela foi criada através do Decreto-Lei nº 5.452, de 1 de maio de 1943
e sancionada pelo então presidente Getúlio Vargas, unificando toda legislação trabalhista então existente no
Brasil. Seu objetivo principal é a regulamentação das relações individuais e coletivas do trabalho
18
Foi possível evidenciar a partir de diferentes referenciais teóricos, que o
movimento por políticas sociais e a própria configuração que elas assumem não estão
dissociado de um processo macro societário.
Os cenários retratados são a expressão da dinâmica de um sistema capitalista, que
em seu movimento deu base as políticas sociais. O novo modelo das políticas sociais nada
mais é que a manifestação desta dinâmica. A renovação do sistema é imbricada com o
movimento da sociedade, favorecendo ou não, a amplitude da perspectiva social.
As políticas sociais podem ser compreendidas como estratégias do e no sistema
capitalista, imbuídas de intencionalidade política. Os avanços e os recuos não estão
vinculados em primeira instância a capacidade financeira do Estado.
A disponibilidade de recursos públicos impacta nas políticas sociais, contudo, a
viabilidade é muito mais dependente da concepção de Estado presente na sociedade. Estados
em base a social democracia, encontrarão melhores possibilidades de assegurar políticas
fundamentais; pela histórica cultura de direitos.
A nova forma em que vem tomando as políticas sociais como focalizadas,
seletivas apresentam-se como perdas, principalmente no que tange a parceria público-
privada. Principalmente no Brasil no saudosismo de uma perspectiva social não efetivada.
Vivemos um novo momento histórico e contamos com novos modelos de políticas
sociais que tecnicamente não corresponderão ao acirramento da questão social. Contudo é
possível reduzir a responsabilização da eficiência destas políticas, elas terão o modelo que o
consciente social coletivo pode conquistar neste período.

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19
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