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psicose
organizador
Joel Birman
organizador

Sobre a psicose

,.
Copyright{) dos autores, 1999

Capa, projeto gráfico e preparação


Contra Capa

Sobre a psicose - Joel Birman (org.) -Contra Capa Livraria,


1999.
148 p.; 14 x 21 cm
ISBN: 85-86011-21-5
Inclui bibliografia.

1. Psicanálise. 2. Psicose. 1. Título. li. Série

CDD 150.195
CDU 159.964.2

1999
Todos os direitos desta edição reservados à
Contra Capa Livraria Ltda.
<ccapa@casynet.com.br>
Rua Barata Ribeiro, 370 - Loja 208
22040-040 - Rio de Janeiro - RJ
Tel (55 21) 236-1999 / Fax (55 21) 256-0526
Sumário

Apresentação - Joel Birman ....................................... 7

A psicose e a feminilidade: uma releitura


do caso Schreber de S. Freud ......................................... 11
Joel Birman

Em busca de uma metapsicologia da melancolia .......... 29


Teresa Pinheiro
As estruturas freudianas da psicose e
sua reinvenção lacaniana ........................................... .45
Tania Coelho dos Santos
A 'psicose lacaniana': elementos fundamentais
da abordagem lacaniana das psicoses......................... 7 5
Joel Dor

A psicose e o discurso da ciência ................................ 89


Waldir Beividas
Prova de realidade e/ou rejeição:
psicose e ciência ..................................................... 115
Ana Beatriz Freire
Equilíbrio psicótico, praticável e
metáfora delirante .................................................. 13 1
Ginette Michaud

Bibliografia ............................................................ 141


Apresentação

Repensando a psicanálise
Este livro é o resultado de um trabalho conjunto de pesquisa
estabelecido entre o Programa de Pós-graduação em Teoria
Psicanalítica, do Instituto de Psicologia da Universidade Fe-
deral do Rio de Janeiro, e o Laboratoire de Psychopathologie
Fondamentale et Psychanalyse, da Universidade de Paris VII.
Este intercâmbio científico foi firmado pela CAPES, do lado
brasileiro, e pela COFECUB, do lado francês. O acordo de co-
laboração científica teve a duração de cinco anos; durante
este perído, foram realizadas a cada ano atividades tanto no
Rio de Janeiro como em Paris, que consistiram fundamen-
talmente na apresentação das investigações conduzidas pelos
diferentes pesquisadores, cm conferências e seminários para
os cursos de Mestrado e Doutorado. Além disso, bolsistas
brasileiros e franceses, que realizaram o doutoramento em
psicanálise, tiveram a possibilidade de permanecer um ano nas
instituições citadas, a fim de aprofundarem os seus projetos
de pesquisa.
A problemática central desta pesquisa bilateral foi a psicose.
Era esta a questão crucial que interessara aos dois centros de
pesquisa em colaboração, posto que a psicose por si própria
condensa uma série de indagações que põem cm questão os
sujeitos e os pressupostos da teoria psicanalítica. Assim, além
do interesse clínico e teórico que a psicose sempre represen-
tou para psicanálise - esta desde os seus primórdios procu-
rou realizar uma leitura original sobre a experiência das psi-
coses, assim como uma direção para a sua cura - ela nos
seduzia como tal ao apontar para os limites do discurso psica-
nalítico.
Isso não quer dizer, bem entendido, que nos conforma-
mos com a suposta impotência da psicanálise ante as psicoses.
Não é disso que se trata, pois não cremos nesta impossibilida-
de e impotência terapêutica da psicanálise. Longe disso, aliás.
Joel Birman (org.)

A leitura psicanalítica das psicoses em muito contribuiu para


o avanço das novas modalidades de assistência e de terapêuti-
ca das psicoses, retirando-as do limbo asilar e de sua alocação
nos desertos concentracionários dos ditos hospitais psiquiá-
tricos. Dito de outro modo, a interpretação psicanalítica das
psicoses permitiu a construção efetiva de um outro olhar so-
bre elas, humanizando o sistema de cuidados.
Porém isso não é tudo. A psicose indaga de maneira tão
fundamental a teoria psicanalítica, que cem anos após a sua
invenção, não temos absolutamente o direito de ignorar esse
fato. Isso é o mínimo que hoje temos de reconhecer sobre as
psicoses, se há a intenção de entreabrir novas sendas criativas
em sua pesquisa. Não reconhecê-lo é girar no vazio, correndo
atrás do próprio rabo, isto é, repetindo as velhas te_ses sem
avançar um só milímetro no que diz respeito à obscuridade e
às incertezas que elas impõem à psicanálise. Ora, isso quer
dizer que incorporamos aquilo que nos foi legado das investi-
gações de Freud, Abraham, Ferenczi, Melaine Klein, Winnicott,
Lacan e outros, mas reconhecemos que é preciso continuar
nas trilhas que estes nos ofereceram com a abertura de novos
campos, possibilitados pelo que as psicoses continuam a causar
e ante o que não podemos ficar cegos e surdos.
Foi esta a nossa intenção na pesquisa conjunta, na qual
encontramos nos dois lados do Atlântico não só as mesmas
perplexidades, çomo também os mesmos ecos. Não obstante
a distância que nos separa, de diferentes ordens, aliás, partici-
pamos das mesmas dúvidas e indagações a respeito dos
impasses gerados pelas psicoses. Em outras palavras, o que
aqui nos reúne é uma tentativa de começar a repensar a psica-
nálise a partir da problemática das psicoses. Isso quer dizer
que, para todos nós, as psicoses nos fazem trabalhar e fazem
trabalhar a teoria psicanalítica. É este o maior reconhecimento
que podemos fazer a uma questão fundamental, teórica e
clínica, à medida que nos deixamos interpelar por sua obscu-
ridade e assumimos as nossas incertezas frente a isso. Acre-
ditamos que assim estaremos colaborando para avançar um pouco

8
Sohre a psicose

mais na pesquisa sobre as psicoses e na indagação crítica do


discurso psicanalítico.
Em seqüência a este livro de abertura de uma série sobre
psicanálise, o Programa de Pós-graduação em Teoria Psicana-
lítica da UFRJ organiza a publicação nos próximos dois anos
de mais ttês tírulos, que serão constituídos a partir de sua
produção científica. Os seus temas serão os seguintes: psica-
nálise e histeria; metapsicologia clínica; e psicanálise e novas
subjetividades. Esperamos assim tornar pública parte de nos-
sa produção científica e colaborar para a renovação da psica-
nálise no Brasil.

Joel Birman

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A psicose e a feminilidade
uma releitura do caso Schreber de S. Freud

Joel Birman

Não deixa de ser perturbador ainda retomar para uma outra


leitura as Memórias de um neuropata (1903) de D. P. Schreber
e a interpretação genial e inovadora deste ensaio autobiográ-
fico realizada por Freud em suas "Notas psicanalíticas sobre a
autobiografia de um caso de paranóia" (1911a). Perturbador
para mim, evidentemente. Por que perturbador? Porque muita
água já rolou sob esta ponte. Vale dizer, desde que a autobio-
grafia de Schreber foi publicada em 1903 e os comentários de
Freud apareceram para um público especializado em 1911,
muitas páginas foram escritas sobre ambos os textos em
questão.
Estes trabalhos apresentam diferentes ordens de grande-
za, revelando diversas intenções teóricas. Em todos, contudo,
pretendeu-se contrastar a leitura da autobiografia do ex-pre-
sidente da Corte de Apelo da Saxônia com a interpretação
tecida por Freud. Com isso, é bom que se recorde, nem sem-
pre se pretendeu criticar a leitura freudiana. Ao contrário,
procurou-se cm geral retomar fragmentos da autobiografia
para enunciar outras hipóteses de trabalho que pudessem com-
plementar ou enriquecer aquelas que já tinham sido realiza-
das, ou seja, a estrutura da interpretação freudiana não foi
colocada em questão de modo decisivo. Como indicarei, as
dissonâncias críticas existem, porém fundamentalmente pre-
valeceu o acordo dos autores com a direção da interpretação
de Freud.
Os teóricos que o fizeram são provenientes de diferentes
tradições psicanalíticas e se inserem em tempos diversos da
história da psicanálise. As primeiras contribuições surgiram
no final dos anos 1940, com a participação de alguns con-
Joel Birman (org.)

temporâneos de Freud (cf. Prado de Oliveira, 1979, primeira


parte). Em seguida, destacaram-se os aurores da tradição in-
glesa, dentre os quais deve-se evocar os nomes de Ida
Macalpine, Richard Hunter (1955) e Ronald Fairbairn (1956).
Nos anos 1950 e 1960, o debate se propagou principalmente
na Inglaterra e nos Estados Unidos, fornecendo-nos um gran-
de número de agudos comentários (d. Prado de Oliveira, 1979,
terceira e quarta partes). Por fim, Lacan iniciou a versão fran-
cesa desses comentários, ao realizar em 1955-6 o seu Seminá-
rio, livro 3: as psicoses. ·
O período que engloba o final dos anos 1940 e o início
dos anos 1960 faz parte de um contexto crucial de reflexão
sobre as psicoses tanto para a história da psicanálise quanto
para a psiquiatria. Iniciava-se então a denominada "revolu-
ção neuroléptica", que transformou inteiramente o entendi-
mento das psicoses. Não só sua forma de ser, como principal-
mente sua evolução deixaram de ser o que eram. Ao mesmo
tempo diversos ensaios de psicoterapia institucional se desen-
volveram, tanto nas tradições francesa e italiana quanto in-
glesa e norte-americana. Portanto, foi neste contexto flores-
cente e incandescente de pesquisas clássicas sobre a clínica
das psicoses que foram forjados os grandes comentários so-
bre a história de Schreber e a leitura de Freud.
Tais comentários apresentam características diversas.
Nem todos têm a mesma densidade e consistência. Não têm
tampouco o mesmo alcance. Enquanto alguns pretenderam
ser apenas complementos e adições à leitura de Freud sobre
Schreber, outros entreabriram linhas originais de pesquisa, por
exemplo os ensaios de Niederland (1951, 1959a, 1959b, 1960
e 1963). Este, como se sabe, vasculhou a constituição da fa-
mília de Schreber, mostrando os efeitos psíquicos dos méto-
dos ortopédicos de seu pai sobre sua descendência. Seus en-
saios estão na base de uma série de estudos subseqüentes que
visaram aquilatar o personagem social e psíquico de Schreber,
lançado em um contexto político. A Alemanha e em particular
o nazismo se destacam aqui como os cenários privilegiados
destas novas modalida~es de interpretação, sua articulação

12
Sobre a psicose

fundamental sendo tecida entre a paranóia, o totalitarismo


político e a modernidade (d. Santner, 1996). Outros comen-
r:\rios fundaram a sua leitura na perspectiva de propor uma
outra teoria sobre a psicose. Nem sempre estas teorias reno-
vadas foram homogêneas às de Freud. Este é o caso de
Macalpine, Hunter e Lacan.

A recusa da feminilidade
Como afirmei, remexer a leitura de Schreber realizada por
Freud é para mim a fonte de uma certa inquietação, pois im-
plica a pretensão de lançar alguma luz nova sobre o que possa
ter passado desapercebido por uma longa tradição de
comentadores de grande corurno; ou então, mesmo que os
tópicos que pretendo destacar não tenham passado em bran-
cas nuvens para tais críticos, não deram no que se quer reve-
lar agora.
É preciso enunciar, contudo, que não se trata de
reinventar a roda. A leitura psicanalítica da psicose já foi rea-
lizada há quase cem anos. Não se trata tampouco de propor
uma outra interpretação para a psicose de Schreber. O que
pretendo é começar a explicitar as categorias de pensamento
valorizadas no discurso freudiano. Evidentemente tais cate-
gorias de pensamento não ficam restritas ao campo das psico-
ses, mas se articulam a outros campos da teoria freudiana.
Ora, o discurso freudiano se ordena segundo diferentes
eixos e pressupostos, de maneira que suas categorias de pen-
samento perpassam a totalidade da teoria psicanalítica, não
ficando regionalizadas em um dado campo temático. Portan-
to o que está em jogo é um trabalho de leitura do discurso
freudiano, a fim de surpreender neste as categorias de pensa-
mento colocadas em funcionamento interpretativo. Estas ca-
tegorias se relacionam, direta e intimamente, com a maneira
pela qual o discurso freudiano concebe o ser da sexualidade.
Sabemos que o pensamento freudiano sobre o sexual não é
nem linear, nem unívoco. Ao contrário, trata-se de uma mo-
dalidade de pensamento que não apenas se transformou ao
longo do percurso teórico de Freud - este teve que inventar

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Joel Birman (org.)

novos conceitos para dar conta do sexual - como também


foi obrigada a se rearticular a fim de interpretar as positividades
clínicas que os antigos conceitos não mais conseguiam deci-
frar. Com isso/quero dizer que certas concepções freudianas
.p iniciais sobre ~ sexualidade fizeram obstáculo para a leitura
da problemática da psicose e que conceitos e categorias forja-
dos posterior"\ente possibilitaram novas janelas para a leitu-
ra de SchreberJEm resumo, o que proponho é uma releitura
do discurso freudiano inicial pela utilização de categorias de
pensamento entreabertas por Freud no final de seu percurso
teórico e clínico.
Nesta perspectiva, o conceito freudiano de feminilidade
ocupa um lugar estratégico, principalmente como enunciado
no ensaio "Análise com fim e análise sem fim" (1937). Embo- e!
ra Freud não tenha forjado um conceito consistente sobre a
feminilidade, ele nos ofereceu alguns signos cruciais para que
o pensemos. Além disso, tais signos descritivos do conceito
de feminilidade não existem em estado isolado; eles se articu-
lam com outros conceitos desenvolvidos por Freud após os
anos 1920. Destaco deste caldeirão da bruxa metapsicológica
os conceitos de sublimação (1932), angústia (1926), maso-
quismo (1924a) e desamparo (1930). Pretendo assim prosse-
guir uma recente linha de leitura em que dou relevo à proble-
mática da feminilidade no discurso freudiano. Vale dizer, a
minha intenção é a de indicar algumas das condições de pos-
sibilidade presentes na interpretação freudiana das psicoses,
em particular da esquizofrenia, quando se coloca positivamente
em pauta o conceito de feminilidade.
Esta leitura tem também o seu viés crítico, bem entendi-
do. A crítica visa o discurso psicanalítico, isto é, a leitura
freudiana da autobiografia de Schreber. Isto porque na leitura
de Freud a categoria de feminilidade está ausente de maneira
direta e essa ausência tem efeitos consideráveis na interpreta-
ção freudiana do "tornar-se mulher" de Schreber. Por este
viés, é possível surpreender tanto a concepção freudiana da
diferença sexual, que marca a interpretação em pauta, como
as figurações do ma,culino e do feminino, que são colocadas

14
Sobre a psicose

cm cena como condições de possibilidade da escritura


freudiana. Rigorosamente falando, estas noções não são da
ordem do conceito, mas do registro do preconceito. Por isso
enunciei que a minha intenção era a de auscultar as categorias
de pensamento que constituem a tessitura da escritura
freudiana. E aquelas são tanto do registro do conceito quanto
do preconceito.
Portanto a crítica da problemática da psicose em Freud
que proporei visa tocar no tópico crucial de sua leitura e in-
terpretação de Schreber construído pela expulsão da catego-
ria de feminilidade. Qual a natureza desta expulsão? Trata-se
de algo da ordem do esquecimento ou, quem sabe, do regis-
tro do recalque? Ou ainda, só posteriormente o desenvolvi-
mento desta problemática se tornaria possível? Não quero
prejulgar a resposta, mas inventariar todas as possibilidades
cm causa. Cabe, pois, questionar a razão deste silêncio e desta
ausência, com a intenção de introduzir a problemática da fe-
minilidade na leitura de Schreber, tal como indicada no final
do discurso freudiano.

Paranóia e homossexualidade
A leitura de Freud das "Memórias de um neuropata" tem como
um de seus alicerces fundamentais a formulação de que a pa-
ranóia é uma forma de defesa do sujeito contra a homosse-
xualidade. Esta tese de Freud é crucial para que se possa interpre-
tar devidamente o que está em jogo na sua construção teórica,
tanto no que se refere à paranóia e à esquizofrenia, quanto no
que concerne ao estatuto do homossexualismo.
Quais são as condições de possibilidade dessa tese de
hcud? Em que lugares o discurso freudiano se inscreveu para
enunciar tal formulação? O que pressupõe esta proposição
teórica?
Antes de mais nada, é preciso reconhecer que essa tese
de Freud não advém primariamente de um convívio clínico
com as psicoses. Sua experiência clínica com as psicoses foi
algo bastante diferente do trabalho de alguns de seus discípu-
los diletos, tais como Jung, Abraham e Ferenczi. Não obstante
Jucl Birman (org.)

a existência de alguns relatos esparsos com pacientes psicóticos


(cf. Freud, 1984: terceira parte; 1896), nos quais se revela o
processo terapêutico e o esforço de teorização metapsicológica,
Freud teve com esta problemática clínica uma experiência efe-
tivamente limitada.
Todavia esse fato não impediu que ele realizasse cons-
truções teóricas não apenas brilhantes mas também inovadoras
sobre a experiência da esquizofrenia (Freud, 1924b; 1924c).
Isto é inegável. Para tal, Freud se baseou antes de tudo nos
relatos clínicos de seus discípulos, valendo-se de sua constru-
ção teórica do psiquismo para pensar a experiência das psico-
ses. Se este fato não invalida ou esvazia as contribuições
freudianas para a clínica das psicoses, revela, no entanto, o
lugar real desta produção de enunciados teóricos, o lugar de
sua enunciação, isto é, as suas condições concretas de possibi-
lidade.
Neste sentido, pode-se supor que a intuição de Freud
sobre a relação paradoxal e defensiva da paranóia com a
homossexualidade advém da maneira pela qual concebeu a
relação do sujeito com a diferença sexual e com o homosse-
xualismo. Dito de outro modo, foi pela consideração desta
concepção de base que o discurso freudiano pôde pensar sua
leitura da paranóia e da esquizofrenia e o que proponho é
uma inversão de perspectivas, já que os campos destas forma-
ções psicopatológicas funcionaram para o discurso freudiano
como os cenários em que se inscreveria como cena fan-
tasmática a intuição da relação do sujeito com a homossexuali-
dade.

Fracasso versus êxito


Quanto a isso, é possível evocar os comentários freudianos
bastante benevolentes sobre a homossexualidade desenvolvi-
dos cm sua leitura de Schreber. É interessante para o início
desta construção. A problemática da homossexualidade se
articula com a da bissexualidade neste contexto; com efeito,
Freud se valeu de sua assunção da bissexualidade inerente à
condição humana, enunciada desde os Três ensaios sobre a

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Sobre a psicose

/t•oria sexual (1905), mas que havia sido criada por Fliess. Em
\lia leitura de Schreber, ele afirma que a potencialidade hu-
mana para o homossexualismo deriva de uma constituição
hissexual originária que, em função da impossibilidade de sa-
tisfação heterossexual por razões de economia libidinal,. pode
Sl' atualizar a qualquer momento (Freud, 191 la). Com isso,
dever-se-ia interpretar a homossexualidade como um destino
possível da economia sexual ante os impasses do sujeito no
exercício da heterossexualidade.
Porém não se trata apenas disso. Esta formulação seria
muito genérica para dar conta dos sofrimentos do sujeito na
relação com as suas tendências homossexuais advindas da
bissexualidade originária. É preciso dar um passo além para
examinar a dimensão da dor e de conflitos que estariam im-
plicados nesta experiência. Retomarei, pois, uma outra dire-
ção de leitura para sair desta generalidade.
Sabe-se que Freud, em algum momento, afirmou que o
paranóico fracassa onde ele teve êxito. Esta formulação é
hastante rica, marcada pelas múltiplas ressonâncias que evoca.
A primeira questão é a de se saber o que são o "êxito" e o
"fracasso" neste registro. Em seguida, o que quer dizer o "ele"
neste contexto, pois presumo aí a existência de diversos sig-
nificados além da figura psíquica de Freud.
Antes de mais nada, Freud quer dizer que a psicanálise,
como saber, é sem dúvida uma construção interpretativa, mas
não é da ordem de uma construção delirante. Vale dizer, na
paranóia o delírio é uma produção psíquica logicamente per-
feita e irrefutável, mas se constrói a partir de uma intuição
originária que é falsa, ou seja, é a presença desta intuição o
que falseia toda a construção, e não a articulação lógica do
sistema, o que não quer dizer, bem entendido, que o delírio
não seja uma forma do sujeito poder dizer uma verdade sobre
a sua história e o seu desejo. Contudo a verdade em pauta é
dita de forma delirante e para apreender o alcance disso é
preciso não confundir a concepção de verdade pensada pela
oposição verdade/erro com a que figura através da noção de
desejo, pois a trama delirante é não apenas permeada pelo

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Joel Birman (org.)

desejo, como também evidencia os traços desejantes que a


impulsionam.
Em conseqüência dessa posição, o discurso freudiano
pôde se contrapor a toda tradição psiquiátrica no que concerne
à psicose e ao delírio em particular. Aliás, a compreensão do
delírio como verdade sobre a história e o desejo do sujeito foi
uma das novidades introduzidas no mundo da psicopatologia
por Freud. Trata-se de uma grande novidade histórica, talvez
uma banalidade nos dias de noje, que representou no início
do século uma transformação radical na forma pela qual se
deveria escutar a construção delirante. Freud o enunciou de
diferentes maneiras e em diversos lugares de sua obra. Em sua
leitura da "Gradiva" de Jensen (1907), pôde indicar com iro-
nia e até mesmo com um certo escárnio o delírio do persona-
gem Norbert Hanold, uma vez que este transformara em ob-
jeto de pesquisa arqueológica o que seria da ordem da paixão
e do desejo. Buscara nas ruínas de Pompéia o estilo de andar
de uma mulher, objeto de seu desejo transvestido na
positividade da descoberta científica. Dito de outro modo,
revela-se aí uma posrura irônica e uma gargalhada estridente
ante os discursos da ciência, em geral, e da psicopatologia,
em particular, já que esses, tendo os olhos vedados pelo
positivismo da ciência, não poderiam enxergar as óbvias peri-
pécias do desejo que perpassam as escolhas do cientista, ain-
da que este último disso não se dê conta.
Em seu ensaio sobre Schreber, ele o indicou de forma
ainda mais radical, elevando a sua tensão crítica em relação
ao discurso psiquiátrico vigente. Não só o delírio seria uma
forma do sujeito dizer a verdade sobre a sua história e o seu
desejo, como seria possível depreender das entrelinhas do
delírio de Schreber a verificação empírica de algumas das
hipóteses fundamentais da psicanálise, em particular as que
concernem à sexualidade (Freud, 1911a).
Entretanto se a formação delirante revela a verdade ur-
dida pelo desejo que o anima, nela existe também uma cons-
trução falsificada e distorcida, pois os objetos e personagens
do sujeito aparecemºfora de lugar e inseridos em uma outra

18
Sobre a psicose

lc'IMICa narrativa porque submetidos aos processos de


l'nndensação e de deslocamento que regulam a formação
11nfrica. Neste sentido, a construção delirante se revelaria pro-
hll'mática já que as figurações retóricas seriam enganosas e a
proximidade existente entre o discurso delirante e o psica-
11,llltico ocorreria pelo viés da interpretação uma vez que ambos
\l"riam construídos por estratégias interpretativas. Talvez por
,·~rc caminho seja possível decifrar o que Freud queria dizer
,111ando afirmou peremptoriamcnte que tivera êxito onde os
p.mmóicos fracassaram.

Mctapsicologia
En, um pequeno artigo sobre a paranóia e o delírio de ciúmes
,,ostcrior ao ensaio sobre Schreber, Freud (1922) procurou
delimitar a fronteira tênue que existiria entre a interpretação
psicanalítica e o delírio paranóico. É interessante sublinhar
que Freud pense ser tênue tal fronteira, pois a figura do ana-
1iP1ta nunca está completamente segura de que a interpretação
que formula não seja da ordem do delírio. De antemão, nun-
..::1 pode estar absolutamente certo sobre isso. Somente a pos-
Nihilidade de duvidar permite a ele se diferenciar do sujeito
delirante, posto que este último é absolutamente tomado pela
terteza. As dúvidas do analista são o que lhe dá o seu potencial
crftico face a si mesmo e ao outro, já que suspendem as suas
certezas e relativizam sua posição de intérprete.
Com efeito, aquilo que está ausente no sujeito paranóico
é a sua impossibilidade de duvidar de seus enunciados, que se
tornam literais como verdades absolutas. Nesta certeza, o
sujeito torna absoluto o seu lugar de intérprete e não pode
criticar a si próprio cm seus enunciados. O eu do sujeito
paranóico é tomado pelo estilo megalomaníaco e disso é
possível depreender sua posição auto-referente e a centra-
lidade absoluta em que se inscreve no mundo. Está aí, pois, a
diferença em relação à interpretação psicanalítica, ou seja, é
pelo aprisionamento do sujeito na lógica do eu e do desejo
que a interpretação paranóica se diferencia radicalmente da
psicanalítica.

19
Joel 8irman (org.)

Como isso poderia ser inscrito na metapsicologia


freudiana? Considerando o ensaio de 1914 sobre o narcisismo,
pode-se afirmar que na interpretação psicanalítica o sujeito
está inscrito no ideal do cu, enquanto na interpretação pa-
ranóica se insere no registro do eu ideal (Freud, 1914b). Mesmo
estando inevitavelmente marcado pelos efeitos do desejo, o
sujeito da interpretação psicanalítica estabelece êom o outro
uma relação de alteridade, .o que não ocorre no delírio
interpretativo. Na paranóia o sujeito está inserido no eu ideal,
instituindo-se como o seu próprio ideal; na interpretação ana-
lítica o sujeito alteritário em questão se submete a um ideal
que lhe transcende e regula, ou seja, neste contexto o discur-
so psicanalítico funciona como lugar alteritário, que torna
relativa a posição da figura do analista na condição de intér-
prete. É esta relatividade da posição do analista o que permite
a ele reconhecer o outro, a quem interpreta, como marcado
por uma diferença em relação a si próprio.
~,(Nós sabemos que a passagem crucial do sujeito, a passa-
gem do registro do cu ideal para o do ideal do cu, se realiza
pela mediação da angústia da castração.\É justamente a expe-
riência desta última o que torna relativa a posição do sujeito
em relação aos seus ideais e lhe confere um outro lugar no
mundo. Ele deixa de crer que pode ser o seu próprio ideal,
reconhecendo um ideal que lhe ultrapassa. Com isso o sujeito
perde a sua onipotência originária e passa a ser permeado
pelos efeitos do Complexo de Édipo e pelo discurso paterno.
Consequentemente, perde a relação privilegiada com a figura
materna que o mantinha até então, relação esta permeada pelo
incesto, ao reconhecer o lugar privilegiado do pai no campo
do desejo daquela e, pela mediação deste conjunto de opera-
ções ,psíquicas, tem acesso à identificação sexuada.
-.JI• Nos termos estritos da economia libidinal o que está em
pauta aqui é a transformação na forma de ser do narcisismo,
a mudança de seu estatuto, que de primário se transforma em
secundário (ibid., capítulos II e III). Com efeito, a economia
do narcisismo primário constitui o sujeira como cu ideal, aves-
so à alteridadc e à identificação sexuada; na economia do

20
Sobre a psicose

11,1rcisismo secundário, o sujeito se ordena como ideal do eu,


111ill'c.mdo-se pela identificação sexuada e pelo reconhecimento
.111 outro como diferença de si mesmo)
É possível ainda enunciá-lo de outra maneira através do
, 11nccito de sublimação. A passagem do registro do eu ideal
p,tra o do ideal do eu é o correlato de uma dessexualização
tdntiva do eu e de uma erotização dos investimentos dos ob-
1,·1os e do outro. É justamente isso o que está no fundamento
ti.a experiência da sublimação, pela qual se daria uma rcla-
11vi1.ação da posição do eu e um reconhecimento efetivo da
posição do outro como diferença.
Considerando estes tópicos em conjunto, pode-se afir-
mar, agora com alguma certeza, que a formulação freudiana
de que a paranóia fracassa onde a psicanálise tem êxito indica
,1uc o fracasso da primeira se deve ao fato de que(o sujeito
,,crmanece aprisionado na trama do eu ideal e de sua conse-
q!lcntc megalomania e não pode realizar um ato sublimatórià,
Como nos disse Freud, a sublimação é uma operação psíquica
que caminha na direção oposta à da idealização (ibid., capítu-
lo li). Assim(o fracasso da paranóia resulta da impossibilidade
de o sujeito de sair do centro da cena, o que ocasiona sua
violência e perseguição diante do outro que se apresenta sem-
pre como diferença) Na interpretação psicanalítica o sujeito
realizaria o ato sublimatório por excelência ao reconhecer o
outro na posição de diferença em relação ao intérprete, justa-
mente porque se submete a um ideal que lhe transcende.

Fliess, Jung e Adler


lalvez agora seja possível compreender melhor o que Freud
denominou recusa da homossexualidade na paranóia. Como
formação psíquica centrada no narcisismo primário e na oni-
potência primordial, a paranóia permanece ancorada em uma
economia libidinal em que a diferença sexual não se coloca.
O sujeito permanece em uma espécie de atividade permanen-
te, pois o reconhecimento da diferença do outro já implica
uma submissão e reverência, isto é, a assunção pelo sujeito de
uma posição de passividade. Dito de outro modo, o sujeito é

21
Joel Birman (org.)

lançado em uma posição homossexual face ao outro que tem


de ser recusada já que seria sexualmente humilhante para ele.
A homossexualidade como horror se coloca, p~is, quando o
sujeito é impelido para a posição de reconhecimento do ou-
tro e da diferença sexual, o que, em um movimento de recuo,
reforça o registro do eu ideal, da onipotência originária e do
narcisismo primário.
Entretanto é preciso evocar ainda dois tópicos para de-
cifrar a afirmação freudiana de que o paranóico fracassa onde
ele teve êxito, considerando, repito, sua limitada experiência
clínica com as psicoses. Antes de mais nada, é preciso recor-
dar a relação de Freud com Fliess. A intuição de Freud sobre
as relações conflitivas da paranóia com o homossexualismo
se revelava em sua relação com Fliess. Esta relação foi marcada
pelo reconhecimento freudiano da mestria de Fliess. Além
disso, conforme nos esclareceu O. Mannoni (1969), a trans-
ferência permeava a relação. Com efeito, se Freud obteve êxi-
to em deslocar-se da posição homossexual em relação a Fliess
através da constituição da psicanálise, este permaneceu apri-
sionado na posição inicial, fracassando. 1
Aliás, é curioso também reconhecer que todas as gran-
des rupturas de Freud com seus discípulos eminentes são
marcadas por traços eivados de angústia homossexual. Esta
pode estar presente de maneira direta ou se revelar de manei-
ra indireta através de uma característica do discurso teórico
do outro, o que é bastante evidente em sua relação com Jung.
Para comprová-lo, basta uma leitura superficial da corres-
pondência entre ambos (Freud-Jung, 1906-1914) e os comen-
tários de Jones (1953-5) sobre o desmaio de Freud diante de
Jung quando viajavam juntos para as conferências da Clark
University. Do mesmo modo, a ruptura com Adler teria ocor-
rido pela ênfase conferida por este último à inferioridade dos
órgãos na gênese das neuroses. Ora, Freud contestou repeti-

'Como se sabe, a correspondência de ambos (Freud, 1887-1902) é


permeada de alusõi=s homossexuais, o que, na atualidade, não é segredo
para mais ninguém.

22
Sobre a psicose

,l,1111cnte esta teoria de Adler ao longo de sua obra (cf. Freud,


, ,, 17) justamente porque via nisso uma forma de recusa da
, ,,~, ração, isto é, a crença e a elegia na onipotência narcísica
, 111110 signo da organização psíquica. A inferioridade dos ór-
1(1\o~ era para Freud, nada mais nada menos, um enunciado
-.1hrc a castração do narcisismo primário recusada por Adler
1• 11 denegação do ato sublimatório implicado no reconheci-
1111·nro da diferença sexual.

1)i!iipersão pulsional e horror


,\~:ora é preciso evocar o outro tópico, de ordem estritamen-
11' 1córica. A construção do narcisismo primário e da organi-
,.,~.\o fálica conseqüente a isso, em que o sujeito se ancora
,ln:1sivamente para não se deslocar para o narcisismo secun-
11.\rio e para o ideal do eu, apenas se justifica por serem eles
11111.1 rígida barragem ante uma condição originária de disper-
\i\O pulsional e de deiscência corpórea. Ai se encontra uma
.t.,s r::izões teóricas de Freud para a interpretação da paranóia
l 111110 recusa do homossexualismo pelo sujeito: a paranóia
1111110 uma defesa cerrada contra a fragmentação psicótica que
,•voca a dispersão pulsional presente no registro de eu real
11riKinário.
Sabe-se que Freud não acreditava na estrutura psíquica
do cu como uma formação originária, como alguns psicana-
listas posteriores, particularmente da escola inglesa (cf. Birman,
1IJ84 ). No discurso freudiano o eu é uma construção secun-
tl1\ria e derivada de um auto-erotismo originário (Freud, 1914b).
A constituição do eu, através da identificação primordial com
11s figuras parentais, é uma formação que se dá contra uma
dispersão inicial e anterior e é justamente essa dispersão o
que é angustiante e perturbador para a subjetividade, pois lhe
rem:1 a crença em seu domínio sobre a sua corporeidade e o
outro, deixando-lhe à mercê do inesperado e do surpreen-
dente.
Ao se firmar rigidamente na construção do narcisismo
1nimário, o sujeito realiza a recusa deste horror, pois assim
,1crcdita rejeitar o poder do outro sobre si mesmo e continuar

23
Joel Birman (org.)

dominando a situação conflitual. Voltar-se para o investimen-


to do outro implica, para o sujeito, o retorno às suas origens
dolorosas, nas quais estaria em uma posição de passívidade.
Daí resulta a postura de excessiva atividade do sujeito na pa-
ranóia, que pode atingir as raias da caricatura, uma vez que
realizar o reconhecimento do outro implica ser lançado ime-
diatamente na passividade homossexual. É justamente isso o
que nos indica o discurso freudiano tanto ao delinear a cons-
trução do eu em seu ensaio sobre o narcisismo, quanto em
seus comentários sobre a metapsicologia da esquizofrenia na
leitura de Schrcbcr. Na esquizofrenia, de maneira diferente
do que na paranóia, o sujeito está imerso na dispersão da
economia libidinal auto-erótica, completamente acéfalo e à
mercê da onipotência do outro em uma espécie de passivida-
de radical. Portanto a paranóia e a construção do delírio
interpretativo seriam maneiras privilegiadas da subjetividade
se proteger da deiscência corporal presente no registro do
auto-erotismo, o fantasma homossexual presente na paranóia
como recusa inscrevendo-se neste movimento psíquico.
Entretanto se tudo isso nos permite caminhar bastante
no campo da questão, não a elucida inteiramente. Algo per-
manece como resto a ser decifrado e é possível ainda interrogar:
o que isso quer dizer, afinal de contas? De que terror para o
sujeito se trata aqui? É isso o que me cabe responder.

A feminilidade e o falo
Vou me deslocar no tempo da obra, indo agora para o final
do discurso freudiano, a fim de encontrar subsídios conceituais
para decifrar este horror da dispersão pulsional pelo sujeito.
O conceito de feminilidade, enunciado por Freud no final do
seu percurso, pode nos esclarecer sobre tudo isso, principal-
mente sobre o que se encontra latente na leitura freudiana da
experiência psicótica de Schreber.
Para Freud, a feminilidade é uma experiência psíquica
permeada pelo horror, tanto para os homens quanto para as
mulheres. Isso porque na feminilidade a subjetividade não está

24
Sobre a psicose

~entrada no registro fálico (Freud, 193 7). É o falo o que pro-


rege os homens e as mulheres da experiência tenebrosa da
feminilidade, o que está no fundamento da construção do eu,
na identificação originária promovida no contexto do
nan.:isismo primário, e que constitui a subjetividade como eu
ideal, fazendo com que esta creia ser o seu próprio ideal.
O discurso freudiano indica com esta tese que tanto a
sexualidade masculina quanto a feminina são falicamente fun-
d.,das. Ambos os sexos desejam o falo, seja este desejo da or-
dem do ser (narcisismo primário), seja da ordem do ter
(narcisismo secundário). Em contrapartida, se o falo é o obje-
10 do desejo por excelência, ele nos permite interpretar que,
para Freud, a sexualidade no processo civilizatório tende para
o homossexualismo, isto é, para o apagamento progressivo
da diferença sexual (Freud, 1914b, terceira parte). Além disso,
o falo seria a moeda sexual propriamente dita uma vez que
está na base do sistema de equivalência estabelecido entre os
diferentes objetos parciais, indo desde a figura da criança até
11 corpo da mãe, passando pelo seio, as fezes e o pênis (Freud,
19176). Pode-se depreender disso portanto que a formulação
de Freud de que o destino fundamental da mulher é o de sua
realização pela maternidade se deve ao conceito de que, atra-
vés desta e pela mediação da figura do bebê, a mulher pode
,10 mesmo tempo ser e ter o falo.
tfJ Deste modo pode-se compreender melhor o que está em
pauta na experiência da psicose para o sujeito. É o horror da
l'cminilidade que está em questão no terror da dispersão
pulsional, já que nesta inexiste a referência à figura do falo.
l,Jma outra modalidade de sexualidade está em funcionamen-
t" neste registro psíquico, realizando-se no campo do auto-
Ç!:.Qtismo. Neste sentido, o horror do sujeito na psicose é de-
rivado da desfalicização. A dispersão auto-erótica das origens
estaria marcada pela inexistência do falo. Em outras palavras,
o retorno a este registro primordial, ainda que o seja no cam-
po do fantasma, é o que provoca para o sujeito algo da ordem
do horror e do terror. Estamos aqui, enfim, naquilo que Freud
denominou "rochedo da castração" (Freud, 1937).

25
Joel Birman (org.)

Desamparo
Porém para entendermos o que está em jogo aqui" é preciso
explorar um pouco mais a experiência da feminilidade e, para
isso, inquirirei o último Freud, lançando mão do conceito de
desamparo. Parece-me que, com a mediação deste, pode-se
vislumbrar com mais precisão o que está no fundamento da
feminilidade para o sujeito, ou seja, a relação deste com aquela.
O conceito de desamparo já está presente no início do
percurso freudiano em seu "Proíeto de uma psicologia cientí-
fica" (1895), todavia Freud só confere a ele um lugar estraté-
gico no funcionamento subjetivo no final de seu percurso teó-
rico (Freud, 1926). Com efeito, o desamparo está no funda-
mento do sujeito como aquilo que o constitui e como aquilo
que ele mais teme. É por isso que o sujeito o recusa, e o faz
com um afeto da ordem do horror e da angústia do real.
A figura do desamparo se identifica com a do trauma, visto
que nessa o sujeito se encontra diante de um excesso pulsional
que não consegue dominar, engolido e afogado que está pelas
intensidades. Para se contrapor a isso, ele busca a figura pa-
terna como proteção. Contudo a figura paterna não pode ser-
vir como uma barreira absoluta, apenas como uma barragem
relativa. Daí a nostalgia da figura do pai a que Freud se refere
no "Mal-estar na civilização" (1930) advinda da não existên-
cia de uma proteção absoluta ante este terror primordial.
Agora pode-se entender melhor que o falo seja o meio
pelo qual o sujeito procura se proteger de tal horror ao ofere-
cer, pela identificação primária, a barragem contra o desam-
paro. Todavia como também o falo não oferece uma proteção
absoluta mas apenas relativa, o sujeito necessita colar-se rigi-
damente a ele para não se perder nas trevas da dispersão
pulsional e da angústia do real. Neste sentido a figura do de-
samparo é o outro nome dado por Freud para o que ele
conceituou como sendo a feminilidade. São estas as duas faces
da mesma moeda, da problemática que está em pauta. Recu-
sar o desamparo e recusar a feminilidade significam a mesma
coisa já que remetem à m_esma experiência para o sujeito.

26
Sobre a psicose

O que o sujeito teme na paranóia é a experiência do


de~amparo e da feminilidade, pois deste modo estaria atrelado
,u, outro que lhe impede de reviver a sua deiscência funda-
mental. Na psicose esquizofrênica, contudo, o sujeito é lança-
do inapelavclmente para as trevas desta condição, para o fundo
de suas origens, o delírio interpretativo esquizofrênico sendo
,1 maneira do sujeito procurar, reordenando-se segundo a ló-
Kk,1 fálica, sair do descalabro deste horror.
Suponho, então, que o efeito sacrificial provocado pela
,angústia de castração, quando se anuncia a diferença sexual
pnra o sujeito, se deve ao fato de que aquela balança a identi-
ficação fálica e evoca para o sujeito os seus terrores funda-
mentais. Estes agora aparecem transvestidos em uma lingua-
~cm sexual, proveniente do código edipiano. Diversas solu-
~õcs podem então se apresentar para a subjetividade coloca-
da nesta situação crucial; tanto a rigidez da aderência para-
nóica à identificação fálica, quanto a fixidez perversa ao falo
e a virilização feminina são soluções perfiladas pelo discurso
freudiano.
No fundo do delírio de Schreber jaz o horror de ser trans-
íormado em mulher, o que faria o sujeito sucumbir ao terror
da feminilidade. Vale dizer, para Schreber se reconciliar com
esse abismo desastroso que se abriu em sua subjetividade atra-
vés da constituição de uma metáfora delirante, tal encontro
com a feminilidade seria possível apenas se fosse alçado a uma
condição privilegiada, isto é, estar como mulher na origem de
uma nova "raça de homens". Em outras palavras, para Schreber
seria impossível conviver com a sua feminilidade pura e sim-
plesmente. Por isso mesmo, ele precisa ser uma mulher ex-
cepcional, reconstruída pela lógica fálica de seu delírio
interpretativo, que está na base de uma nova humanidade.
Enfim, para Schreber se conciliar com a sua feminilidade foi
necessário investir-se como uma mulher do mais alto valor
fálico.

27
Em busca de uma metapsicologia
da melancolia1
Teresa Pinheiro

1-'111 lotem e tabu (1913), Freud encontrou os subsídios para


pt:nsar a onipotência narcísica através da concepção de um
poderoso chefão da horda primitiva. Mas é em "Introdução
,IO narcisismo" (19146) que o conceito é costurado pela pri-
11wirn vez, trazendo não mais o narcisismo conquistado pela
lor~a bruta das "tribos primitivas", mas uma invenção de dois
,1dultos: os pais da criança ou aqueles que dela se ocupam.
Totem e tabu inova por descentrar o pensamento
lrcudiano de uma construção teórica em que o trabalho do
,,parelho psíquico é ditado pela pulsão. Até então o corpo
1t·óricu da psicanálise parecia se ater a uma visão em que a
produção do desejo era quase autônoma, pura exigência
1mbional. Neste texto de 1913, o foco está nas imposições ao
11purelho psíquico exercidas pela sociedade. Lançando o olhar
para os imperativos da cultura, Freud teve que se haver não
mais com o recalque como fait acompli, mas como um longo
e complexo processo de assimilação.
É a imposição social avessa ao princípio do prazer o que
obriga o aparelho psíquico a um complexo trabalho de reor-
i,tanização, cindindo-o em dois e exigindo-lhe a montagem de
um sofisticado aparelho egóico. Este compreenderá uma

1
Algumas das idéias que exponho neste texto foram publicadas
anteriormente (1995a, 1995b, 1998a e 1998b) e mesmo que os aspectos
centrais e necessários para a construção de uma metapsicologia da
melancolia lenham sido trabalhados, a questão está longe de ter sido
totalmente abordada. A relação desses pacientes com o próprio corpo,
a questão da imagem corporal e a relação que estabelecem com o
lempo e a linguagem são pontos fundamentais que pretendo trabalhar
posteriormente.
Joel Birman (org.)

pluralidade de eus que funcionarão como meios necessários à


aceitação da castração. Sejamos mais explícitos: é como se a
partir da invenção do narcisismo - fruro da projeção do
narcisismo dos pais sobre o filho - fosse criada no sujeito
que emerge uma onipotência sem fendas ou falhas. Uma idéia
de completude perdida pelos pais e reeditada na criança.
Os pais se vêem na criança, eles próprios, tal qual gosta-
riam de ser; eles se vêem fora deles mesmos como eles são em
seus próprios fantasmas, em seus sonhos egoístas - grandes
homens, heróis, princesas etc. Não nos espantaremos de en-
contrar a criança no mesmo lugar que a mulher ocupa numa
relação amorosa: o do déspota, His majesty the baby. O par
amoroso e o par pais/criança são do mesmo tipo e induzem
ao mesmo efeito (cf. Borch-Jacobsen, 1982).
Este eu narcísico, portanto, nasce de uma ficção monta-
da na fantasia de um objeto complementar, que traria a pleni-
tude perdida, análoga à fantasia que recobre o objeto da pai-
xão. É a partir da projeção do narcisismo de um adulto que o
infans pode se apropriar do narcisismo deste e se pensar como
completo e não desamparado. Esse modelo imaginário tem
origem na construção fantasmática feita por cada um desses
pais a partir de seu próprio narcisismo, narcisismo este que
será projetado no filho e nele inventará o mesmo modelo de
completude e onipotência.
Podemos então dizer que o sujeito se equipa de um arse-
nal de eus ou instâncias ideais que lhe servirão como condi-
ção mínima para se submeter à imposição de ser faltante que
a castração impõe. A esses eus Freud se refere como eus ideais,
o eu ideal construído imaginariamente a partir da idéia
(narcisismo projetado pelos pais) de uma plenitude perdida,
uma infância como a descrita acima por Freud em que se pode
realizar os votos desses pais, ao menos no antigamente de
cada um, e um ideal de cu que assegura uma plenitude a ser
alcançada. Portanto somente o eu do presente ou do passado
próximo e o do futuro próximo estariam sob a égide da cas-
tração; no passado remoto ela era desconhecida e no futuro
será eliminada.

30
Sobre a psicose

A construção do narcisismo
Sem dúvida a contribuição de Ferenczi foi fundamental para
:i elaboração do conceito de narcisismo por Freud e pode nos
ser de grande valia para sua compreensão atual. Podemos di-
zer sem receio que nessa época estes dois autores trabalharam
11 quatro mãos. Era preciso construir teoricamente uma boa
resposta às questões levantadas por Jung ao descartar a im-
portância da sexualidade na ordenação do aparato psíquico.
O conceito de introjeção (cf. Pinheiro, 1995a) foi colo-
melo como primeiro movimento psíquico e traria o esboço da
formação egóica, sem que esta instância tivesse sido sequer
vislumbrada. A partir do movimento megalômano da libido
de apropriar-se de tudo, de a tudo unir-se, o psiquismo se
111,mifestaria pela primeira vez. Essa força libidinal responde-
ri,1 ou faria frente à questão da própria precariedade humana,
,,parentemente inevitável. Dito de outro modo, diria respeito
,\ luta entre a vida e a morte com a qual se depara o recém-
1111scido, ou seja, o reverso da ação da pulsão de morte.
Somente através da libido a fundação do edifício egóico
p,,rL·cc ser possível. Por conseguinte, por meio de aglutinação,
,1propriação de tudo, homogeneização dos componentes,
t rnnsformação do estranho em familiar. Eliminar diferenças,
turná-las semelhantes, derrubar barreiras, tapar vazios, trans-
lor111ar enigmas em obviedades, assim é a libido, assim é o
11,m:isismo. Fazer do outro cu próprio, do misterioso o mais
, l,1ro, pasteurizando as diferenças. Deste modo roma-se pos-
,1vcl a onipotência tão decantada do narcisismo. Espanta-se o
ilnamparo, a falta, a precariedade humana. É contra isso, afi-
11.II, que o narcisismo se ergue, como a outra face da pulsão
ti,· morte, da agressividade, esta dirigida para fora, para o
1111tro, para o que não aceita ser familiar e igual, isto é, aquilo
q111· insiste na dessemelhança e transforma o estranho em pe-
1 tw,so inimigo.
Em 1909 e 1912, Ferenczi não dispunha do conceito de
1111rci!lismo, introduzido por Freud em 1914, mas já é sobre
,·11° que fala em seus textos. O movimento do processo de

31
Joel Birman (org.)

introjeção é um movimento libidinal de inclusão de tudo aquilo


passível de ser incluído no psiquismo em um determinado
momento; um movimento que em nada se diferencia do
narcísico, um movimento totalizante em que a apropriação
das qualidades do objeto possibilita a apropriação do sentido
que compõe junto com o objeto as bases identificatórias do
que mais tarde formará o aparato egóico como um todo.
Construímos o edifício narcísico a fim de um dia aceitar-
mos a castração. Podemos ler a ppstulação da introjeção feita
por Ferenczi já como funcionamento defensivo ante a castra-
ção, contra o desamparo. Representar, fantasiar, identificar-
se são os dispositivos de que se dispõe para tapar a falta e o
desamparo. Troca-se a coisa pela representação, o horror do
desamparo pela quimera. Em outras palavras, esse aparelho
psíquico de Ferenczi se instaura na ordem da sexualidade,
mas antes de tudo como dispositivo para se arcar com a cas-
tração, na qual o que se inscreve é uma ameaça que jamais
existiu, pura construção imaginária que, no entanto, metafo-
riza o que de fato é ameaçador: a finirude, a impotência, o
desamparo.
A inserção no tempo, a dimensão de passado, presente e
futuro que nos dá a noção de vida como espaço de tempo que
compreende o tempo decorrido desde o dia do nascimento
até a data ignorada da morte, essa temporalidade que traz
embutida a finirude, a impotência, está no duro pacote da
castração, mas é aceita sob a condição de que o passado seja
de plenitudes e no futuro haja a segurança da "felicidade".
A castração teria portanto uma aceitação entre aspas.
O sujeito barrado constrói um arsenal imaginário em que esta
é meramente circunstancial: a ilusão ou a capacidade de se
iludir, a montagem fantasmática, a possibilidade de se repre-
sentar no futuro, a construção imaginária de um passado sem
fendas e falhas, essa miragem de completude que funciona
como colchão nas horas amargas da neurose. Como veremos,
os recursos complexos e sofisticados dessa montagem plural
de eus parecem fracassar na melancolia.

32
Sobre a psicose

A construção do ego
Freud define o ego, por um lado, como "um ego corporal,
1140 somente um ser de superfície, mas ele mesmo uma su-
pcrffcie [... ] a projeção mental da superfície do corpo" (1981
1t 923): 158); por outro, como um precipitado de identifica-
~c">es, ou seja, o resultado ou o conjunto de marcas de cada
investimento objetal abandonado. Para cada investimento
de objeto, a posse de um traço, uma identificação que traz a
marca do objeto. A couraça narcísica, capaz de fazer frente à
,:.,stração, é composta por essas identificações, ou melhor,
pela história dos investimentos objetais abandonados do su-
1cito.
Temos de um lado a unidade corporal dando a projeção
de um limite de superfície necessário. É a representação desta
imagem corporal ou a idéia de limite ou superfície corporal o
que funda o ego. Quem garante a noção de alteridade é a
representação de uma unidade corporal, ou seja, o ego nasce
desta noção de alteridade e investimento das figuras parentais
sobre a imagem corporal. Narcisismo e ego estão portanto
,melados e sem dúvida tudo o que Lacan nos escreveu sobre o
rema é fundamental para a compreensão do assunto.
A idéia do estádio do espelho (Lacan, 1936a) é apontar
para a prematuridade do ser humano, que se reconhece como
unidade corporal antes que a sua motricidade esteja
:1madurecida. Temos aí tanto uma capacidade do bebê humano
de reconhecer no adulto um semelhante, como a faculdade
de antecipação, que será muito importante na função egóica.
'fodavia tanto uma quanto outra podem ser entendidas como
resultado do investimento narcísico dos pais. A primeira pelo
olhar, a segunda pelo projeto de futuro que desde antes de
seu nascimento já lhe estava endereçado. Unidade corporal,
representação desta unidade corporal, alteridade e possibili-
dade de se representar no futuro são os pilares em que esse
ego é capaz de se fundar.
Portanto, já temos aí um esboço das funções egóicas.
Resultado do investimento do olhar dos pais e tendo sua pré-

33
Joel Birman (org.)

história nas fantasias narcísicas reparadoras ou indenizadoras


que eles construíram, o ego se funda na alteridade e por conse-
guinte através da unidade corporal que lhe dá o limite entre o
fora e o dentro. A partir desta imagem de unidade ele povoa a
si mesmo dos laços de investimentos de objetos que, abando-
nados, deixam seu rastro nos traços que compõem a couraça
narcísica ou o precipitado de identificações, como preferirmos.
Esse precipitado de identificações diz respeito às identi-
ficações histéricas cujo modelo está na interpretação do dese-
jo do objeto. É possível dizer que a constituição do aparelho
psíquico em Freud obedece aos preceitos e aos conceitos que
foram necessários para a compreensão da histeria. O modelo
de concepção de constituição do aparelho psíquico é de ma-
neira geral um modelo histérico, e mesmo a construção de
outros conceitos como o de identificação melancólica ou o de
pulsão de morte não alterarão sua concepção geral de cons-
trução narcísica.
Em "Mais além do princípio do prazer" (1920), Freud
assinala como o ego também tem por função o poder de sín-
tese e sobretudo o de ser capaz de antecipadamente represen-
tar para si o futuro. Guardião da vida e do perigo da castra-
ção, o ego se monta contra a surpresa e a ignorância.

A concepção de objeto no luto e na melancolia


Em "Luto e melancolia" (1917a), para compreender a dinâ-
mica melancólica, Freud usa, como paralelo, o trabalho do
luto. Em um primeiro momento, este último em nada se dis-
tingue da melancolia. É somente no final do processo que a
diferença em relação à melancolia se apresenta, pois findo o
trabalho de luto, a libido, seguindo o seu curso, volra a inves-
tir em outros objetos, enquanto o melancólico parece se tor-
nar um prisioneiro do objeto perdido.
O trabalho do luto, tal qual nos é apresentado nesse texto,
consiste na aceitação e reconhecimento da perda do objeto.
O objeto aqui não é entendido como equivalente ao conceito
de das Ding (a Coisa), de absoluto. A concepção de Coisa, de

34
Sobre a psicose

uhjeto absoluto perdido, seria fundadora da subjetividade. No


luto, o objeto perdido tem de ser necessariamente o objeto
rnnstruído pela linguagem. Neste sentido o objeto perdido
no luto nada mais é do que pura cópia falsa de das Ding.
l) objeto absoluto já estava há muito perdido. O trabalho de
luto implica, portanto, a aceitação da idéia de finitude através
dn dinâmica do aparelho psíquico cindido que revela o pro-
«:csso de simbolização.
A concepção do inconsciente proposta por Freud em
A Interpretação dos sonhos (1900), além de todas as novida-
des que apresenta, fazendo deste texto o marco do início da
fl'oria psicanalítica, parte do pressuposto de que a represen-
111ção tem total autonomia com relação a seu referente. Na
concepção de simbólico ali apresentada está subentendida a
noção de assassinato da Coisa ou de objeto perdido - como
preferiu Freud. Perde-se o objeto (objeto entendido como das
/)i11g ou a Coisa) para que se aceda ao simbólico. Entra-se assim
na ordem do relativo e da compensação, troca-se a coisa pela
pi!lavra, aceita-se para si mesmo a condição de ser para o ou-
ll'o, também, um objeto substituível, entra-se no jogo social.
A questão de objeto perdido na melancolia é totalmente
diversa da concepção que apresentamos acima. Ao melancóli-
'º falta justamente essa dimensão de objeto que coloca o su-
1cito assujeitado à ordem simbólica. Para esse objeto ser um
objeto construído pela linguagem, peça essencial do processo
1dcntificatório do modelo histérico, o sujeito deve se colocar
necessariamente como intérprete do objeto, intérprete do de-
Ncjo do outro.

Objeto perdido e identificação


O conceito de objeto perdido está intimamente ligado ao con-
«:cito de identificação, pouco importa de que identificação
L~~tcjamos falando. Assim como o conceito de pulsão exige o
rnnceito de objeto, este último remete quase sempre ao con-
L.:cito de identificação. Não é possível conceber o conceito de
identificação sem o de objeto.

35
Joel Birman (org.)

Mas ao falarmos de identificação, temos que citar ao


menos duas acepções metapsicológicas diferentes: a que se-
gue o modelo histérico e a que Freud chamou de narcísica ou
melancólica. Esta diferença entre as duas concepções de iden-
tificação é peça chave na compreensão da metapsicologia da
melancolia.
O conceito de identificação antes de "Luto e melanco-
lia" tinha por modelo a construção metapsicológica da histe-
ria, calcada na concepção de fantasia histérica. O próprio modo
de funcionamento libidinal do aparato psíquico - seja quan-
do referido à produção fantasmática da histérica, seja na con-
cepção de identificação atrelada à transferência ou ainda na
identificação apontada na interpretação dos sonhos ou no
chiste - era concebido nesse modelo. O que então parecia
evidente era o fato de que o conceito de identificação consti-
tuía-se na própria explicitação do modo de funcionamento
do aparato - obedecendo à norma principal do narcisismo
de tornar semelhante as diferenças.
Aqui narcisismo e ego tornam-se quase a mesma coisa,
pois a função do narcisismo é metabolizar as estranhezas, trans-
formando tudo em semelhanças. Narcisismo, libido e ego
parecem um trio inseparável. O que permanece estranho, aves-
so à pasteurização narcísica, é tido como hostil, feio, ruim, ou
seja, o que é bom, bonito e agradável passou pela peneira
narcísica da familiaridade. As inscrições psíquicas teriam como
possibilidade a circulação libidinal, sob a égide do princípio
do prazer, balizada pelo narcisismo em que o processo de iden-
tificação é a própria condição. Nesse sentido o processo de
identificação é a marca registrada no efeito narcísico egóico
que transforma o diferente e estranho em igual e semelhante,
seja atribuindo ao estranho e diferente qualidades de seme-
lhança, seja tornando o próprio ego semelhante ao objeto atra-
vés do processo de identificação.
A possibilidade de abandono do objeto na identificação
histérica parece ser a marca de toda diferença entre os pro-
cessos identificatórios da histeria e da melancolia. Na primei-
ra, o objeto exerce a função de pretender-se reencontrado e

36
Sobre a psico~

1t"rá portanto sempre faltoso, falho, parcial, substituível, além


de visar uma complementaridade impossível. O sujeito está
mscrido no universo da castração, do ser falante em que o
11lvo da libido sobre o objeto será partilhado pela comunida-
de wmo sendo da ordem do amor. Na melancolia, este obje-
to parece ter uma função inteiramente distinta do processo
,mtcriormente descrito. Nela a perda foi excluída, negada,
loracluída. Há que se manter o objeto a qualquer preço, mes-
mo que seja muito caro. O objeto se mantém como totalida-
de, sem fendas, sem falhas, fixo: ele não é construído e nem
1mdc ser experimentado como faltoso. Ao contrário da iden-
11ficação histérica feita por traços, a identificação melancólica
é, segundo as palavras de Freud, a sombra do objeto que caiu
Kobre o ego (Freud, 1917a).
Neste caso, portanto, é como se a identificação trouxesse
o objeto cm sua totalidade, como cópia fiel, decalque, re-
produção mimética. Na ausência da dialética identificatória
fcita por traços em que o objeto é sempre interpretado e é
desta interpretação que se elege o traço identificatório, na
melancolia o objeto torna-se, por assim dizer, um posseiro
que ocupa o espaço egóico com um projeto mimético ou
metonímico levado ao extremo, ou seja, como se a identifi-
cação perdesse a possibilidade de se apropriar subjetivamente
do objeto, e só o pudesse fazer "objetivamente" (Freud,
1940[1917a]:160). Ora, a eleição de um traço do objeto
como elemento de identificação na histeria e a ocupação do
objeto em sua totalidade na melancolia nos levam a pensar
necessariamente nos dois mecanismos de funcionamento do
sistema inconsciente: condensação e deslocamento. O primei-
ro como algo próprio da histeria e o segundo, da identifica-
ção melancólica. O próprio Freud reconhece que o conceito
de identificação na histeria e na melancolia são inteiramente
diferentes (ibid.:158).
O pressuposto de Freud é o de que a identificação me-
lancólica tem por objetivo a manutenção do objeto perdido.
Essa perda não é localizável como acontece no luto, no qual
ela é datada, falada e explícita; na melancolia, algo foi perdido,

37
Joel Birman (org.)

o que é não se sabe, mas de uma coisa se pode ter certeza: foi
perdida a possibilidade da subjetividade se constituir diale-
ticamente.
Cabe à identificação melancólica manter esse objeto, nem
que seja às custas do próprio ego. É impossível não estabele-
cer aqui a relação com o conceito de das Ding. A idéia de
objeto perdido da neurose parece clara e óbvia, ao passo que
na melancolia o sujeito parece pretender não só atestar a exis-
tência de das Ding como designá-la como único objeto de
investimento. Para o melancólico, a Coisa foi perdida não
por reconhecimento de que ela era pura miragem, inexistente,
indizível. Ele lamenta a perda do que nunca teve e não elege-
rá objetos para substituí-la. Portanto para o melancólico a
noção de perda está presente cm sua concrctude a mais absurda:
trata-se da perda de algo em cuja existência ele crê e o trágico
é que, para ele, a perda de fato ocorreu!

O ego melancólico
Se, como vimos anteriormente, o ego é a projeção mental da
superfície do corpo, ou seja, a representação desta unidade
corporal que o funda, podemos dizer que esta função não é
assegurada pelo ego melancólico. Até aí nada demais, pois se
tomamos a melancolia como uma estrutura psicótica, nesta
estrutura sempre há uma ausência da noção de unidade. No
entanto o problema não é tão simples. A melancolia não se
enquadra nas premissas básicas do modelo da estrutura
psicótica. E mesmo que a noção de unidade corporal fracasse
na melancolia, ela é diferente da ausência desta unidade nas
psicoses em geral. Na melancolia, encontramos a noção de
uma representação corporal que não é capaz de se sustentar
no tempo. É como se em um determinado momento essa re-
presentação falisse e uma enorme angústia ocupasse então sua
função de alarme.
Nossa pesquisa atual tem por hipótese central tomar a
melancolia como uma organização psíquica semelhante à or-
ganização das personalidades narcísicas, dos casos limite, dos
somatizadores etc. Se nossa hipótese é correta, temos nessas

38
Sobre a psicose

patologias soluções para essa representação corporal através


da prática de exercícios corporais em excesso - "até fazer
esse corpo doer e pela dor ter presente os limites corporais"
- ou d.a busca urgente do espelho de um semelhante que
possa devolver a unidade corporal. Na verdade tanto a busca
de exercícios físicos excessivos, em que o contorno deste cor-
po é sentido pela dor ou pela visão dos espelhos das academias
de ginástica, assim como as saunas para alguns homossexuais
masculinos respondem à mesma necessidade de restauração
ou recuperação da representação corporal em falência.
A segunda questão a ser colocada é a concepção do ego
wmo um precipitado de identificações. Em "Luto e melanco-
1ia" Freud apresenta como principal característica da
mctapsicologia da melancolia o fato de que "a sombra do
objeto caiu sobre o ego". É possível questionar se realmente é
11 perda do objeto o que promove todo o dano melancólico,
mas sem dúvida podemos ter certeza de que é a ausência de
investimentos de objetos no plural o que a melancolia nos
,,presenta. Por ser único, o objeto mantém na melancolia um
1•statuto bastante peculiar. O ego não pode ser caracterizado
rnmo um precipitado de identificações; ele é o palco onde se
1lcscnrola permanentemente o drama de uma única relação
uhjcral. Desta identificação com o objeto é possível forjar uma
,111,irência de ego e superego.
Obviamente esta identificação nada tem a ver com a iden-
11lfração por traço da metapsicologia da histeria. A identifica-
~1\0 melancólica não interpreta o desejo do objeto. Este é apre-
1•nd1do não na dialética de interpretação do desejo do outro
11111s na apropriação mimética, isto é, não se trata de um "a
p.irtir do outro eu me faço", mas de um "eu sou o outro".
1 ) objeto deixa de ser incerto, duvidoso, ambíguo para ser
111111,ido cm sua concretude objetiva.

(1m: ideal de eu é esse da melancolia?


1 1 ideal do eu, construção necessária para a aceitação da cas-
11 ,1~:\o, funciona como miragem em um futuro em que a pro-
1111·ss,1 de completude é depositária de toda esperança do su-

39
Joel Birman (org.)

jeito. Miragem que se altera, que está sempre mais à frente,


em um amanhã nunca alcançado. O ideal do eu é a inter-
pretação que o sujeito fez para si do desejo dos pais em rela-
ção a ele. Qual herói ou princesa foi esboçado por esses inven-
tores de seu narcisismo como a imagem de felicidade ou
completude? Como interpretação da fantasia dos pais, esse
ideal pode sofrer modificações ao longo da vida; acertos,
desvios etc.
Com o melancólico, essa ·promessa de futuro completo e
"feliz" parece fracassar. Retomando a questão acima sobre a
representação corporal e a capacidade de antecipação como
fundadoras do ego e do imaginário, creio que todos concor-
dam em que a faculdade de representar para si o que está
ausente é condição sine qua non para a fantasia, e também
que a capacidade de fantasiar, de se iludir, é justamente o que
o melancólico parece não dispor. São luxos neuróticos. Se a
possibilidade de fantasiar está descartada, como se represen-
tar no futuro? Como se projetar adiante?
Na melancolia, o dispositivo egóico de eus ideais parece
estar em falta. Resta a dura verdade da castração: a impotên-
cia humana, o desamparo, a finitude. Sobre o palco, somente
dois personagens - o sujeito e o objeto da identificação - e
toda a dor que isso comporta. Não há espaço para a metáfora,
o deslizamento de significantes, a ambivalência, a dúvida e a
ambigüidade polissêmica. O sentido é único, a palavra não
consola, não protege, não disfarça nem enfeita a castração.
Não há futuro pensável que não o próprio presente. O objeto
idealizado na melancolia tem aí consistência concreta. Encar-
nado, coisificado, corporificado, ele é um existente de fato
onde para o melancólico parece só existir a imitação, a fun-
ção de ser replicante, missão impossível da qual ele sai neces-
sariamente humilhado e vencido.
A possibilidade sublimatória do ideal de ego faz falta no
objeto idealizado, seja ele o da melancolia, o da paixão ou o
dos fenômenos de massa. Na ausência da sublimação, a massa
enfurecida mata e Hncha; o apaixonado transborda adoração
sobre o objeto amado e pode se transformar em um pavão

40
Sobre a psicose

depenado. O melancólico, para preservar o objeto idealizado,


seu único trunfo e patrimônio, e para mantê-lo na condição
de completo e absoluto, pode ter de pagar o preço da própria
vida, pois foi sob esta condição que o objeto ocupou o lugar
do próprio ego e é neste sentido que podemos entender a
frase freudiana "a sombra do objeto caiu sobre o ego".
A perda, a morte e a dor representam a singularidade, a
marca identificatória do melancólico, ou seja, é sob esses
parâmetros identificatórios que o sujeito melancólico se re-
conhece. Se ele não pode ficar com o investimento narcísico
dos pais a que tinha direito, resta a dor da perda do objeto ou
da perda da libido.

A questão da clivagem na melancolia


Um outro aspecto a ser ressaltado na metapsicologia da me-
lancolia diz respeito ao conceito de clivagem. É através de
uma clivagem bastante peculiar que o objeto perdido é insta-
lado no ego como um posseiro. A identificação narcísica em
Freud pressupõe não somente uma metapsicologia diferente
entre a identificação histérica e a identificação melancólica,
como também uma noção de clivagem do aparelho psíquico
Inteiramente distinta daquela até então descrita nos textos
metapsicólogicos freudianos. Quando aparece pela primeira
vez cm "Luto e melancolia", ela é assim descrita: "Nós vemos
nele [o melancólico] como uma parte do ego se opõe à outra,
tem sobre ele uma apreciação crítica, a toma por assim dizer
como objeto" (Freud, 1940[1917a]:155).
A clivagem melancólica, portanto, separa em dois de
maneira radical o campo egóico. Um deles tomando o outro
mm a estranheza de um objeto. Trata-se de uma divisão em
que as partes se ignoram, não se comunicam, nada trocam
1•11trc si, não se influenciam e não são capazes de se afetar
1111111 à outra. A idéia de clivagem que surge na metapsicologia
d11 melancolia de Freud ou na teoria do trauma de Ferenczi
L 0111 o conceito de identificação com o agressor é a de uma
hurrcira tão intransponível, que não permite o surgimento de
lll'nhuma formação do inconsciente. Não há lapsos, nem so-

41
Joel Binnan (org.)

nhos lembrados - só pesadelos - universo fantasmático


colorindo a realidade psíquica, projetos para o futuro ou de-
lírios.
Neste sentido, ou concebemos a melancolia como um
aparelho psíquico em que falta o pedaço principal, o próprio
sistema inconsciente, ou concebemos uma clivagem constituída
de tal forma, que não há passagem de nenhum sinal do siste-
ma inconsciente capaz de dar o ar de sua graça. Enquanto
estivermos no campo da Psicanálise, somos obrigados a ficar
com a segunda opção. Ora, diante de uma clivagem deste tipo,
o superego híbrido apresentado em "O inconsciente" (1915),
articulador do sintoma, responsável pela censura do sonho,
parece não ter lugar.

O superego melancólico
Em A casca e o núcleo (1978), N. Abraham e M. Torok fazem
um paralelo entre a teoria do trauma na obra de Ferenczi e a
metapsicologia da melancolia em Freud e afirmam que a pró-
pria noção de ego deve ser repensada nessas duas propostas
metapsicológicas. Ferenczi fala de uma progressão traumáti-
ca como saída diante do trauma. Esta saída consiste em forjar
para si um ego quando ele ainda é mero esboço, como se o
traumatizado inventasse um aparelho egóico através da "iden-
tificação com o agressor adulto" ou com a apropriação da
"sombra do objeto", e com isso também inventasse um apa-
rente superego.
De todas as definições que o superego ganhou ao longo
da obra freudiana, poucas podem ser percebidas nessa orde-
nação psíquica melancólica. A função de herdeiro do complexo
de Édipo, que insere o sujeito no universo simbólico, parece
no mínimo bastante falha, pois o discurso melancólico pre-
tende ser precisamente um discurso unívoco, sem ambigüida-
des ou ambivalência. Na concepção melancólica, o mundo
pode ser facilmente dividido em compartimentos estanques
cm que o certo, o justo, o belo ou o verdadeiro jamais se
confundem, nem se mis~uram com o errado, o injusto, o feio
ou o falso. Não se pode conceber um superego híbrido ante

42
Sobre a psicose

uma clivagem de concreto que não deixa passar nada e toda


possibilidade de pensar um superego em grande parte incons-
ciente cai por terra.
A ordenação maniqueísta típica do discurso melancólico
surge como consciência moral e parece ser a faceta mais pró-
xima do que Freud chamou de superego cruel, pois há sem
dúvida um discurso de valores morais bastante vigoroso na
melancolia, que ataca tanto os neuróticos ingênuos quanto o
próprio sujeito. Não se trata de uma auto-acusação em que o
sujeito é capaz de fazê-la enunciando a frase em que ele se
denomina; ela sempre é um enunciado de sujeito indetermi-
nado. Jamais um "eu não valho nada", mas sim um "quem faz
isso não vale nada".
O texto é imperativo, cruel, porém também a impossibi-
lidade de afirmação do eu é clara e evidente. Ela funciona
como uma metralhadora giratória e imperativa que está longe
de ter uma função de contraponto ao princípio do prazer ou
do desejo inconsciente. O texto é uma construção de ideal de
completude que se quer possível e é nesse sentido que ftmcio-
nará somente como perseguidor uma vez que exige ser, sem
.1rcnuantes para si e para os outros, o objeto completo e auto-
~uficicnte que atesta ser possível existir.
É nesse sentido que acredito não ser possível falar de um
~upcrcgo ou de um ego na melancolia. Que superego seria
este? Toda a sua função paradoxal de apontar ao mesmo tem-
po para a identificação com o objeto do mesmo sexo no final
da trama edipiana e para a interdição de ser esse objeto está
inviabilizada, visto que a identificação narcísica aponta justa-
mente para o que estaria proibido. Não se trata, ao abando-
nJr o objeto, de fazer uma identificação por traço, mas de
tornar-se o próprio objeto.
O ideal do eu da melancolia não é uma possibilidade de
ilusão de completude. Ele tem antes o caráter de uma imagem
fixa, tangível, que, em vez de servir como promessa de felici-
dade futura, funciona como o que humilha no presente. Se o
incl.incólico não é esse objeto que ele imagina sem fendas e
perfeito, digno de adoração e não de idealização, então ele

43
Joel Birman (org.)

deve ser atacado de todas as maneiras. Dessa forma está ga-


rantido ao objeto o lugar de objeto adorado e não de faltante
e perseguidor. O perseguidor passa a ser o próprio "ideal do
eu" que o melancólico forjou para si. Corresponderia ao
agressor da teoria do trauma em Ferenczi que, não sendo ca-
paz de ser introjetado, deve ser incorporado. A noção de pre-
sente, passado e futuro assegurada pelas instâncias ideais tam-
bém se encontra abalada. O .passado é depositário de toda
decepção, perda e ferida; o presente é vivido sem projetos,
minuto a minuto, e o futuro parece impensável, irrepre-
sentável. O tempo do melancólico só comporta o presente e
o passado como gênese da dor.

44
As estruturas freudianas da psicose
e sua reinvenção lacaniana
Tania Coelho dos Santos

Repensar as relações entre o texto freudiano e a sua retomada


por Lacan é uma exigência de trabalho que se recoloca a cada
vez: é uma questão de método. Já não é possível abordar o
texto freudiano sem adotar, como sugeriu Lacan, o "estilo da
pesquisa freudiana". Trata-se de evitar repetir literalmente o
que Freud produziu, como fazem alguns comentadores mais
fiéis aos enunciados freudianos do que aos enigmas que os
habitam. É preciso retomar os problemas não resolvidos.
Meu trabalho não respeita a sucessão cronológica das
formulações freudianas porque não acredito que ordenem-se
evolutivamente. Penso que o pensamento freudiano, como
no processo de uma análise, retorna aos pontos de partida -
aos obstáculos, aos impasses não resolvidos - superando al-
guns dos seus pontos cegos sem resolvê-los completamente,
acrescentando, a cada volta ao ponto de partida, novas inter-
rogações. Acredito que o percurso freudiano é orientado
logicamente pelas questões que o estruturam. Por essa razão,
admito que os textos freudianos mais iniciais devam ser escla-
recidos, retroativamente, nos pontos onde as questões
retornam abrindo-se para novas interrogações. Isso explica
por que extraio idéias, conceitos, articulações distantes uns
dos outros no tempo e trato-os como contemporâneos.
Quanto a Lacan, estou convencida de que suas interven-
~ôcs no texto freudiano equivalem a atos psicanalíticos. Nesse
~cntido o valor de suas intervenções é sempre parcial; embora
ilêcm lugar a novas metáforas, por vezes deixam restos que só
\Crâo devidamente revistos em um tempo muito posterior.
Seu trabalho é rigoroso mas não é sistemático; consequen-
lcmcntc, não esgota uma questão quando empreende uma
Joel Birman (org.)

discussão. Por essa razão, faço dele um uso seletivo, julgado,


crítico.
Lacan considerava o objeto a sua única contribuição à
teoria psicanalítica (Roudinesco, 1993). Penso que esse passo
deve ser creditado aos seus pressupostos estruturalistas, seu
firme ancoramento no primado da linguagem, que lhe permi-
tiu, a cada volta de seu longo percurso, fazer a partilha - na
trama cerrada dos conceitos freudianos :-- entre as dimen-
sões do simbólico, do imaginário e do real. Este instrumento
foi um poderoso analisador dos conceitos freudianos. Em
conformidade com o acima exposto, não excluo que muitas
formulações lacanianas padeçam da mesma confusão entre
simbólico e imaginário, entre real e realidade, ou entre imagi-
nário e real que habitam importantes formulações freudianas.
Essas notas metodológicas procuram orientar o leitor a
respeito da perspectiva que adotarei para comentar as teorias
freudianas sobre a constituição do desejo e da censura reto-
madas por Lacan. São os pressupostos em que me baseio para
ressaltar que Freud não faz distinção entre estrutura de lin-
guagem e mito edipiano, o que também não foi feito por Lacan
desde o começo. A apreciação deste fato é fundamental para
sublinhar os equívocos que permeiam a tentativa lacaniana de
elevar a teoria freudiana da Verwerfung à dignidade do "me-
canismo psíquico específico da psicose" ou à estatura de um
conceito esclarecido pela noção jurídica de foraclusão. 1
Uma crítica da teoria lacaniana da foraclusão do Nome-
do-Pai é absolutamente necessária uma vez que ela alcançou
um prestígio abusivo entre nós. A maior parte dos pesquisa-
dores ignora os principais passos dados posteriormente por
Lacan, passos que o levaram a tomar distância desta teorização.
Esclarecê-lo é imprescindível ante os numerosos equívocos
que a confusão entre exclusão do mito edípico e exclusão do
campo da linguagem fez vicejar entre nós: é comum a afir-

1
Em francês,/orcfusion, oup,ec/usion, é um termo de origem jurídica
que designa um direito perdido porque não exercido em tempo hábil.

46
Sobre a psicose

mativa de que os psicóticos não fazem metáfora; acredita-se


~1uc eles não simbolizam e até, por incrível que pareça, que
estão fora da linguagem, confundindo-se linguagem com co-
municação e estrutura com processos secundários.
Do mesmo modo muitos desconhecem que Lacan
(1991(1969-1970]:111-23) retificou a idéia de que o sujeito
0

constitui-se a partir de uma r elação dual ou narcísica com um


Outro não barrado. Isso feito, nenhum homem está fora da
linguagem, pois não é o pai edípico o agente da castração.
Lacan será levado a reconhecer que a castração é um fato da
estrutura; logo o Outro, tesouro dos significantes, é barrado
desde sempre, pois ao Outro falta ao menos um significante,
aquele que poderia representar o sujeito. Para a ordem sim-
bólica, o sujeito sempre é uma exceção ou um significante
novo a acrescentar, não advindo ainda ou em vias de advir.
Temos de repensar a psicose distinguindo corretamente
;!_f_;!!!,l (na estrutura da linguagem) de seu mito (a falta edípical.
Avançaremos a hipótese de que Lacan aprofunda as relações
do inconsciente com a falta apoiando-se na psicose paranóica
e cm sua relação com a linguagem. Esclareceremos, entretanto,
que sua teoria da foraclusão do Nome-do-Pai quase aboliu a
dimensão da falta na psicose; por sua vez, a lógica do
~ignificante lacaniana esvazia o inconsciente freudiano de suas
relações com o saber e com os mitos que caracterizam a expe-
riência neurótica, cuja via régia é o sonho, uma formação de
i:ompromisso. A experiência do inconsciente na psicose e seu
laço com os fenômenos elementares (o neologismo e a frase
interrompida) são a via régia para o aprofundamento da di-
mensão da falta, do significante vazio de significado, revelando
o verdadeiro referente da linguagem, o objeto a.
Finalmente, veremos que o axioma do inconsciente
estruturado como uma linguagem, se ele, como queremos de-
monstrar, deve algo à psicose, refunda o dispositivo analítico
.10 redirecionar a cura analítica e desenlaçar o impasse freudiano
íl respeito do final de uma análise e da finalidade da psicanálise;
cm outras palavras, retifica as relações do sujeito da práxis
psicanalítica com o sujeito da ciência e o sujeito da religião.

47
Joel Birman (org.)

Teoria freudiana do recalque: neurose, psicose e


perversão
Em 1914, Freud declara que o recalque (Verdrangung) é a pedra
angular da psicanálise 2 (Freud, 1976[1914a]). Esse termo de-
signa genericamente a autocensura ou a divisão que o sujeito
experimenta quando acolhe, reconhece, admite uma repre-
sentação desprazerosa para si. Freud partiu da noção de que
o sujeito constitui uma primeira representação de si de acor-
do com o princípio de prazer, c;omo um Lust-Ich, para só
secundariamente admitir como próprio uma parecia do que é
repudiado, servindo à constituição da realidade exterior. Logo,
a clínica indica para Freud a relação entre a representação
paterna e a autocensura. O complexo paterno se revela como
o complexo nuclear da histeria, antes mesmo da descoberta
de que se tratava de um proton pseudos: uma fantasia histérica
de sedução pelo pai. Freud não tardou a reconhecer a função
mítica (mentira, ficção) de atribuir ao pai, sedutor ou castrador,
o mal-estar na diferença sexual, a causa do desejo sexual.
Quais as formulações de Freud sobre o destino da cen-
sura na neurose e na psicose e quais suas relações diferenciais
com o complexo paterno? Em "As neuropsicoses de defesa"
(1984a), Freud supõe que as diferenças entre neurose e psicose
devem se referir à intensidade da exclusão de uma represen-
tação (do desejo sexual) e de seu afeto, incompatíveis com o
eu. Em "Novas observações sobre as neuropsicoses de defe-
sa" (1896), esclarece que nas neuroses a idéia incompatível e
seu afeto são substituídos por uma outra idéia mediante uma
"falsa conexão" (obsessão) ou pela conversão do afeto em
uma inervação corporal (histeria). As formações substitutivas
se revelam como maneiras de admitir simbolicamente os pen-
samentos inaceitáveis e as emoções desagradáveis a eles asso-
ciadas. A substituição da idéia incompatível por outra idéia

2
"A teoria da repressão é a pedra angular sobre: a qual repousa toda a
estrutura da psicanálise" (Freud, 1976[1914a]:26).

48
Sobrr :a psicose

equivalente é uma forma de admitir de modo distorcido a


idéia incompatível. Logo, há autocensura na neurose.
Em uma primeira abordagem, Freud considera que na
i,sicose o destino da representação e do afeto é efeito da pro-
u:ção da autocensura no exterior. O processo de defesa na
psicose é nomeado projeção em "Rascunho K" (1976[189561).
Neste é expressa sua convicção de que trata-se de um abuso
de um mecanismo psíquico utilizado na vida normal. Em "Ras-
i:unho K", a projeção tem como efeito a atribuição do
desprazer gerado pela representação incompatível (o desejo
Ncxual) a outras pessoas que se relacionam com o paciente.
Nil psicose, a censura é de um Outro que vocifera, insulta,
i:r_itica ou aterroriza o sujeito. Essa condição parece a Freud
explicável pela ejeção de um processo, que de direito deveria
Ncr mtrapsíquico, para a realidade exrerior: "Portanto o pro-
1,ósito da paranóia é rechaçar uma idéia incompatível com o
ego, projetando seu conteúdo no mundo externo [... ] trata-se,
pois, de um abuso do mecanismo da projeção, para fins de
defesa" (1976[18956):286-7) Em "As neuropsicoses de defe-
~a" (1894a) Freud toma uma posição muito mais radical, es-
forçando-se para distinguir o destino da representação inad-
missível na psicose de seu equivalente neurótico:
Há, entretanto, uma espécie de defesa muito mais
poderos~ e bem sucedida. Aqui, o ego rejeita (Verwirft) a
idéia incompatível juntamente com o seu afeto e
comporta-se como se a idéia jamais lhe tivesse ocorrido.
Mas, a partir do momento em que o tenha conseguido, o
sujeito encontra-se numa psicose, que só pode ser
qualificada de 'confusão alucinatória' (1976[1894a]:71).
Como salientam Laplanche e Pontalis (1976), é somente em
"História de uma neurose infantil" (1918) que as palavras
V,,rwcrfung e Verwerfen aparecem várias vezes. A passagem
mais importante é a seguinte: "Para além da qualquer dúvida,
porém, uma terceira corrente, a mais antiga e mais profunda
que pura e simplesmente tinha rejeitado (Verworfen) a castra-
'-'•'º
e na qual ainda não se tratava de ajuizar da realidade dela,

49
Joel Birman (org.)

era certamente ainda reativável"3 (Freud apud Laplanche &


Pontal is, 1991 [1976):572).
Nesse fragmento, Freud aprofunda as relações da psico-
se com a castração, admitindo que em sua forma mais radj_cal
ela envolveria uma ausência de juízo sobre a realidade da cas-
tração, uma não inscrição primordial que:, entretanto, nãq
advém de uma indiferença absoluta e sim de uma rejeição,
acompanhada de uma atitude de deixar de lado e não fazer
imediatamente um juízo sobre sua existência: "Quando digo
que ele a havia rejeitado, o primeiro significado da frase é o
de que não teria nada a ver com a castração no sentido de
havê-la reprimido. Isso não implicava em julgamento sobre a
questão de sua existência pois era como se não existisse"
(1976[1918]:107). A fronteira que separa a neurose da psi-
cose é bem explícita no trecho que se segue: "Rejeitou o que
era novo (no nosso caso, de motivos ligados com seu medo
da castração) e agarrou-se ao que era velho. [... ] Repudiou a
nova informação e apegou-se à velha teoria. [... ] Uma repres-
são (Verdrangung) é algo muito diferente de uma rejeição
(Verwerfung)" (ibid.:101-2).
Em 1911, Freud já se afastara de sua formulação inicial
sobre a natureza projetiva do mecanismo psíquico da psicose,
apostando em um termo derivado da palavra alemãAufhebung:
"Foi incorreto dizer que a percepção sufocada (Unterdrukt)
internamente é projetada para o exterior, a verdade é pelo
contrário, como agora percebemos, que aquilo que foi aboli-
d o (Aufgehobene) internamente, retorna desde fora"
(1976[191 la]:95). Freud opõe a supressão (Unterdrukung) à abo-
lição (Aufhebung). Como se pode depreender da sintaxe do

1
Esse trecho acompanha a tradução escolhida pelo Vocabuldrio da
psica11álise de Laplanche & Pontalis (1991(1976):572) porque a
rradução brasileira da obra freudiana, em sua primeira edição de 1976
na qual nos baseamos, não inclui a palavra reieição. Vejamos: "uma
terceira corrente, a mais antiga e profunda, que nem sequer levantara
ainda a questão da castração, era ainda capaz de entrar cm atividade"
(Freud, 1976(1918):107).

so
Sobre a psicose

trecho acima, o primeiro mecanismo antecede a projeção. Já


11 segundo e enigmático mecanismo antecede o retorno desde
fora.
O que é uma Aufhebung? De acordo com Garcia-Roza
( 1995), o termoAu(hebung designa para Hegel 4 a negação do
l.l\lC é dado como natural à certeza sensível pelo discurso
(logos), procedimento inerente à razão que supera (portanto,
rnnscrva) aquilo que é negado. Aufheben, em alemão, ainda
•c8undo Garcia-Roza, é uma palavra com o significado
,mtitético de negar e conservar. Concordamos que não é fácil
c-ncontrar uma palavra que a traduza; ainda assim,
11rriscaríamo-nos a promover o verbo sobrestar como seu equi-
v11lenre em português. Sobrestar, de acordo com Holanda
( 1984 ), pode ser empregado no sentido de .. não prosseguir,
1111rnr, deter-se, suspender até segunda ordem, demorar, re-
11udar ", e também no sentido oposto de "perseguir, não ten-
111r abster-se, ameaçar, permanecer iminente".
Na passagem citada do caso Schreber, Freud supõe que
há na psicose uma relação específica com a idéia inadmissível
,, CUJ.t metáfora mais arguta seria, quer nos parecer, "ficar à
opera'', não decidir, manter alguma coisa em aberto, não
rnncluir. Essa longa digressão etimológica deve nos servir para
l'ncaminhar o seguinte raciocínio: o que é negado na psicose
wnscrva-se sem ser superado, podendo retornar como algo
1l11do, natural, uma pura "certeza sensível". Parece-me esse o
rnL:iocínio de Lacan ao conceber o mecanismo psíquico da
pMicosc como uma foraclusão do Nome-do-Pai (não-do-pai).
N11 psicose, a demora em concluir tem o efeito de prescrever
11 direito de servir-se de um álibi, o Nome-do-Pai, que é o
t1·curso ao recalque do desejo inconsciente.
O conceito da foraclusão deve, por conseguinte, ser con-
1n1posto à negação no sentido da Verneinung, tal como foi

' No sentido hegeliano do termo. Cf. a tradusão de Jean Hypollite em


Hcgd (1977(1807)).

51
Joel Birman (org.)

formulado por Freud, em 1925, no artigo de mesmo nome.


Ela é, para o pensamento, a condição para que a representa-
ção insuportável possa irromper na consciência. A Verneinung
é uma suspensão do recalque, no sentido de uma aceitação
intelectual da idéia desagradável. A Verneinung admite a exis-
tência lógica daquilo que é negado. Não significa uma supera-
ção no sentido de uma aceitação do recalcado, no sentido de
uma admissão de que o conteúdo tenha relação com o cu.
O eu na Verneinung mantém-se a salvo da acusação de ser
quem deseja, sente ou pensa aquilo que, entretanto, ele pode
admitir que existe como desejo, pensamento, ou sentimento.
À psicose, ousaríamos concluir, falta esse recurso, falta o exer-
cício desse direito. Logo, aquilo que ele não admite como
existente, ainda que apenas logicamente, por meio da
Verneinung, comparece como existente na realidade, como se
lhe viesse de fora. É bom lembrar que existência lógica e exis-
tência na realidade não são a mesma coisa. Os referentes no
campo da linguagem não são da mesma ordem dos referentes
na realidade.
O mecanismo psíquico específico da psicose será enten-
dido, em momentos posteriores da obra freudiana, pelo viés
da perversão e nomeado Verleugnung - renegação, recusa
ou, mais propriamente, desmentido. As fronteiras da psicose
com a neurose, arduamente estabelecidas, voltam a se con-
fundir; desta vez, com a perversão. Em um pequeno artigo
intitulado "Neurose e psicose" (19246), Freud definiu as di-
ferenças entre neurose, psicose e perversão a partir de um
eixo, como ele mesmo reconhece, extremamente simplificado.
Em toda neurose, o ego toma o partido da realidade contta
um desejo do id. Na psicose, o ego entra em conflito com a
realidade externa. Nas neuroses narcísicas, o conflito se dá
entre o ego e o superego. Ele então retoma os laços com a
realidade como um critério distintivo da neurose e da psicose:
Tanto a neurose quanto a psicose são, pois, expressão de
uma rebelião por pane do id contra o mundo externo, de
sua indisposição ~ ou, caso preferirem, de sua inca-

52
Sobre a psicose

pacidade - a adaptar-se às exigências da realidade,


'Ananké' (necessidade). [... ] Na neurose um fragmento
da realidade é evitado por uma espécie de fuga, ao passo
que na psicose ele é remodelado. [... ) Na psicose a fuga
inicial é sucedida por uma fase ativa de remodelamento;
na neurose a obediência inicial é sucedida por uma
tentativa adiada de fuga. [... ] A neurose não repudia
(Verleugnet) a realidade apenas a ignora; a psicose a
repudia (Verleugnet) e tenta substituí-la" (1976
[1924b]:231).

Como se pode ver, não se trata mais de caracterizar a relação


do psicótico a partir do "que lhe retorna como se viesse de
fora" e diferenciá-la da que caracteriza o neurótico, para quem
"esse algo lhe retoma de dentro", como um pensamento seu.
Entendemos que se trata de pensar como é possível efetuar
11;1 psicose, mesmo assim, uma negação eficaz contra a idéia
insuportável e provocar ativamente uma modificação nessa
realidade. Em contrapartida, trata-se de tornar relativa a ade-
~no à realidade pelo neurótico, evidenciando seus recursos
,,ara dela se afastar.
Como interpretar a aproximação entre psicose e perver-
•nu sugerida pelo uso da palavra Ver/eugnung no contexto da
pKicose? Ao que nos parece, o delírio remodela a idéia insu-
portável, tal qual o fetiche substitui a representação insupor-
11\vcl do desejo (castração) da mãe por outra mais aceitável;
ilcsmentindo-a, afirma sua existência lógica. A confusão
,1l11cinatória do Homem dos Lobos será tomada como índice
do retorno do confronto com a castração, acompanhado da
1·ct1tivação de uma atitude mais antiga de rejeição, no sentido
específico de uma ausência de juízo sobre sua existência.
O retorno à castração sem um juízo, autocensura, percepção
Interna de sua existência, constitui para o sujeito uma exigên-
da de trabalho em razão da intensidade da angústia mobilizada
~ntc essa "ausência" no sentido de realidade. O trabalho do
dcllrio cumpre a função de inscrever simbolicamente a cas-
1rnção; sua estrutura limita os efeitos desintegradores do
desejo sexual.

SJ
Joel Birman (org.)

É possível partir da problematização do seguinte trecho


da análise do Homem dos Lobos:
Em outro trabalho relatei uma alucinação que este mesmo
paciente teve aos cinco anos de idade e à qual preciso
apenas acrescentar aqui um breve comentário. 5 [ ••• ]
Podemos presunúr, portanto, que esta alucinação pertence
ao período no qual foi levado a reconhecer a realidade da
castração e, deve, talvez ser considerada como o
acontecimento que marca verdadeiramente este passo"
(1976(1918]: 108).

Resta responder se o delírio, da mesma forma que o desmen-


tido e o recalque, é uma estrutura cuja sintaxe nega incluindo,
admitindo a existência lógica daquilo que é negado. O delírio
alucinatório indica o retorno, como se viesse de fora, da cas-
tração. Podemos admitir, como Freud o fez, que isso tem re-
lações com uma estrutura psíquica que rejeita a diferença se-
xual como causa do desejo sexual. A remodelação delirante
da realidade comparece nesse caso, pois faz incidir "a fantasia
da castração da mulher" sobre o dedo que subitamente aparece
cortado, ou melhor, pendurado por um fio. Dito de outro
modo, esta alucinação do dedo "pendurado por um fio" nega
a realidade insuporrável da diferença sexual incluindo-a, acei-
tando-a de um modo inusitado.

J Reproduzo o relato da experiência alucinatória do Homem dos Lobos:

"Quando eu tinha cinco anos, estava brincando no jardim perto da


babá, fazendo cortes com meu canivete na casca de uma nogueira que
aparecem no meu sonho também. De repente, para meu inexprimível
terror, notei ter cortado fora o dedo mfnimo da mão (direita ou
esquerda?), de modo que ele se achava dependurado, preso apenas
por uma pele. Não senti dor, mas um grande medo. Não me atrevi a
dizer nada à babá que se encontrava a apenas alguns passos de distância,
mas deixei-me cair sobre o assento mais próximo e lá fiquei sentado,
incapaz de dirigir outro olhar ao meu dedo. Por fim me acalmei, olhei
para ele e vi que estava inteiramente ileso (1976[1918]:108).

54
Sobr" a psicos,e

Isto é o que também se pode depreender da leitura de


"Sobre a introdução do narcisismo" (19146). Freud afirma
que na psicose o delírio é uma tentativa de recuperação.
Concluímos que trata-se de ajuizar sobre a existência da castra-
ção, restituí-la no lugar onde foi abolida, cancelada. O psicótico,
entretanto, em vez de admiti-la simbolicamente, logicamente,
como fazem o neurótico e o perverso, toma o referente de
sua existência no âmbito da realidade. Do ponto de vista da
csrrutura da linguagem há uma literalização; do ponto de vis-
ta dos referentes da realidade, uma metaforização. Estenden-
do o mito freudiano, é possível dizer que o psicórico abole a
dimensão da linguagem quando toma as palavras como coisas
e as torna literais. O deürio, acrescentamos, recupera a dimensão
da linguagem ao tomar as coisas no campo da palavra, isto é,
ele as metaforiza.
Podemos agora fazer a diferença entre o mecanismo da
psicose e o mecanismo específico da perversão. A Verleugnung
foi conceituada assim apenas em 1927, tendo em conta as
relações com o fetichismo como uma perversão. O repúdio
da castração na Verleugnung é também um modo de fazer seu
reconhecimento. A invenção do objeto fetiche simboliza "o
pênis que a mulher não tem". Desmentir implica em aceitar
previamente, ao menos como uma idéia, aquilo cuja
inexistência se trata de provar.
Por fim, verificamos em Freud um esforço em refinar as
diferenças estruturais por meio de uma metapsicologia das
diferentes formas de negação: Verdrangung, Verwerfung e
Verleugnung. A aparente confusão entre as terminologias que
marcam o uso de termos que deveriam designar mecanismos
específicos (negações) é explicada pela exigência de abordar
uma estrutura tomando o mecanismo da outra como metáfo-
ra, o que aponta para as analogias que suturam estas estrutu-
ras para além das diferenças que as demarcam. Para Freud, a
disrinção precisa entre um fenômeno psíquico neurótico e um
fenômeno psíquico psicórico não coincide com uma distin-
ção entre indivíduos neuróticos e indivíduos psicóticos.

ss
Joel Birman (org.)

A discussão clínica do Homem dos Lobos, por exemplo,


J'lre esclarecedora acerca de seu entendimento a respei-
st
é b~ ª t'elações do sujeito com a castração. Freud admite ex-
to __ as fflente que um mesmo indivíduo pode ter ante a castra-
p~ic•~ife:rentes atitudes, que cada uma delas pode coexistir
çao s outras sem ser cancelada. Sempre há recalque da
com a iiº no sentido de "um não querer saber nada disso",
casrraÇ tttº "não querer saber" já é saber alguma coisa disso.
entreta
.. _ querer saber ,, neurot1co,
, · ·, vimos,
como 1a · e• diferente
0
O na ••não querer saber nada disso" psicótico. As diferenças
de urn recalque neurótico, o desmentido perverso e a rejei-
e~rre ':'cótica só são conhecidas por seus efeitos, isto é, a par-
ç~o psi J11 0 do como "isso" retorna e dá lugar às formações
tir d<:>wrivas inconscientes particulares. Estas "negam" e por-
subSt1 .... ciuem, sob um modo particular de aceitação, aquilo
tanto l•• d
ega o.
que é o
. sciente em Freud e Lacan, a perda da realidade
O me011 -
tt~çao pe1o re ai
e a ab evc exposição realizada acima deve nos introduzir no
Essa . r ,:1arnento da teoria freudiana da constituição do sujei-
questI0l1 freud, a castração é uma realidade perturbadora e
to. Pa~rica para todos. Em sua obra, a castração é um termo
traulll bstitui outro mais antigo, a censura, esse índice do enig-
que _su desejo inconsciente, cuja origem Freud será levado a
mánco r através dos mitos sobre a função do pai. Em Freud, o
el~borapresenta no lugar de agente da lei, recobrindo com seu
pai s~ ª campo enigmático, não situável, da origem do desejo.
0
deseJOIllP)exos paternos são mitos que representam o desejo
Os co feito da sedução (proton pseudos-histérico), da proi-
c~~o 1colllPlexo de Édipo) ou da violência (exterioridade
biçao elll relação à castração) - cf. Freud (1913; 1919).
prer~~ a função de ajuizar sobre a sua existência. A falta de

u~ r:ç
E es te O do pai não configura, entretanto, uma ausência ra-
simbolização do desejo por meio da metáfora paterna.
dica Fce1.1d, podem_os concluir, o estatuto de uma não inscri-
P~ra, r or definição localizado: trata-se sempre de uma cor-
çao e P

56
Sobre a psicose:

rente ou estrutura psíquica que repudia a castração, mas que


111\0 tem poder de abolir o seu reconhecimento, que se faz
11rrnvés de outros pensamentos e suas respectivas estruturas
de linguagem.
Entendemos que "a exigência de trabalho feita ao psí-
quico pela pulsão, em conseqüência de suas relações com o
wrpo" (Freud, 1976[1915c]:141-2) eqüivale à "exigência de
trabalho imposta ao corpo pelo significante mestre em conse-
qUência de suas relações com o gozo" (Lacan, 1991 [1969-
701: 27-50). O trabalho do significante é produzir saber ou
metáfora do gozo e metaforizar, elevar o objeto à dignidade
Nimbólica. Se, como Freud sugere, há na psicose um trabalho
Jc remodelar a realidade, então devemos tomar o delírio como
o equivalente da produção de um objeto, de uma metáfora
que garante a incompletude do sujeito.
O desencadeamento da psicose de Schreber tem como
efeito um aprofundamento das relações do sujeito com a cas-
tração. Atração pela falta, interrogando (suspendendo, con-
8crvando e eventualmente superando) sua realidade ou seu
mito: o pai edípico. No delírio persecutório, observamos toda
11 violência do que Freud chama de "retirada da libido dos
objetos e sua introversão no eu" (1976[1914b]:101-3). O cor-
po se converte em uma máquina auto-erótica invadida, reta-
lhada, mortificada pelo significante puro, esse objeto separador
que retorna do exterior. O "eu" para onde a libido retorna
deve ser aproximado do "sujeito do inconsciente", uma vez
que é justamente o significante, e portanto o que não é um
"cu" empírico, de uma individualidade singular.
A atividade inconsciente na neurose limita-se pelo
recalque a formações substitutivas localizadas. Na psicose o
eu submerge ao excesso da proliferação autônoma do
significante, sem poder socorrer-se em uma idéia, uma metá-
fora que possa suportar a divisão do sujeito, representá-lo
para outro significante e barrar o gozo deste último. Em um
segundo tempo, o advento da metáfora do sujeito como a
"mulher de Deus" promove a reconciliação com a função do
pai de suporte da castração do sujeito. A criação de uma sig-

57
Joel Birman (org.)

nificação nova, inusitada, promove por meio do delírio uma


nova ordem, inscreve outra vez a castração, a referência ao
Outro como suporte do desejo do sujeito, e recria, com um
novo mito, a aurocensura perdida.
Entretanto como se especificam em Freud a relação dos
neuróticos e a dos psicóricos com a função paterna e a dimen-
são do inconsciente? Como ponto de partida, façamos uso da
definição do inconsciente (Freud, 1976[1915a]:229-31) na
neurose como uma "clivagem entre palavras e coisas" e na
psicose como "tomar as pala~ras como as próprias coisas".
O recalque opera por clivagem entre palavras e coisas ou en-
tre uma representação e seu afeto (seu sujeito, ou o desejo, o
significado que ela representa). Essa representação recalcada
representa o sujeito como desejo; logo é o objeto originaria-
mente desejado. As representações substitutivas têm a função
de censurar o sujeito mascarando-o por meio de uma identifi-
cação ao pai, ao desejo do pai. Recalcar é interpretar o desejo
como proibido e tomar o pai como agente da lei. O sujeito do
inconsciente, sob o efeito do recalque, substitui o objeto ori-
ginário do desejo por representações paternas; o desejo ma-
nifesta-se então como efeito do recalque, algo que se esquiva,
desvia, contorna o ato de dizer e retorna de uma forma ines-
perada. Ajuizar sobre a existência da castração por meio do
recalque é perder algo de sua "realidade", fixando-se a um
"proton pseudos", uma primeira mentira histérica. Em ou-
tras palavras, recalcar é atribuir ao pai a causa do desejo, isto
é, falsear a origem da censura, da falha, da ausência de saber
sobre o desejo; mentir sobre o mal radical da castração.
Na psicose, o inconsciente não se produz, não se mani-
festa como o retorno do recalcado. Neste sentido, cabe per-
guntar se "tomar as palavras como as próprias coisas" é ainda
um índice do comparecimento do sujeito como inconsciente,
dividido entre saber e verdade, entre desejo e gozo. Quando
Freud rematiza a "perda da realidade" na psicose, ele a com-
para com a neurose e sinaliza para a ausência do investimento
na fantasia, no complexo paterno que caracteriza o ciframento
do desejo na neuro~e, bem como a admissão da autocensura.

58
Sobr~ a psicose

Na falta de autocensura há algo que possa ser dito inconsci-


ente? Tomar as palavras como as próprias coisas significa uma
manifestação mais direta do inconsciente ou, ao contrário, o
índice da ausência do recalcamento e portanto a própria au-
sência do inconsciente como efeito de retorno do recalcado?
Procuramos demonstrar que admitir uma ou outra res-
posta significa definir o inconsciente a partir da experiência
psicótica ou da experiência neurótica. Trata-se de uma deci-
são acerca da natureza do inconsciente como estrutura de lin-
guagem. O que melhor testemunha a pura articulação
significante: a experiência do retorno do recalcado ou a atra-
ção pela falta e a exposição mais radical à castração sem o véu
das fantasias paternas?
Se admiti.mos a idéia de que a psicose é uma manifesta-
ção radical do inconsciente, sem limitar-se pela fantasia de
sedução ou de proibição pelo pai, então devemos redefinir o
mconsciente como não sendo senão a estrutura da linguagem,
cujo sujeito reduz-se aos objetos que se produzem como efei-
to dessa estrutura. A realidade da castração seria então ine-
rente à estrutura da linguagem. Falar ou escrever é aprofundar
o confronto com a falta de um sentido unívoco. Nessas con-
dições, em que sentido é ainda correto dizer, como Freud,
que a "realidade da castração foi perdida na neurose e na
psicose"? Se na neurose o sujeito permanece fixado à fantasia
inconsciente, a castração é indicada para ele de modo velado
através da dúvida, do desejo enigmático do pai. E quanto à
psicose? Na falta de fantasia inconsciente, a castração, impos-
sível de significar, se ausenta do psiquismo ou se impõe como
uma "realidade", uma certeza incontornável? A experiência
da psicose não seria melhor definida como uma exposição à
castração sem autocensura? As palavras tomadas como as pró-
prias coisas, será isso a prova de que a representação do obje-
to para o sujeito psicótico é impossível? Levando nossa hipó-
tese um pouco adiante, afirmamos que tomar as palavras como
as próprias coisas é acreditar que a verdade não se esconde
por meio delas; ao contrário, mostra-se a menos que se tenha
olhos para não ver.

59
Joel Birman (org.)

Situemos então o que nos parece ser o percurso lacaniano


ante essa questão, depreendido, de modo implícito ou velado,
das lacunas do texto freudiano. Orientamo-nos pelo fato de
Lacan ter elevado (no sentido daAufhebung) o mecanismo da
Verwerfung freudiana à dignidade de mecanismo estrutural
constitutivo da psicose: a foraclusão do Nome-do-Pai. Para
isso, foi necessário elevar (ainda no sentido da Aufhebung) o
mito cdípico à dignidade de único índice da castração no
psiquismo. Ao fazê-lo, ele reduziu a função metafórica da lin-
guagem como pura articulação significante à função de mito,
de fantasia edipiana, a de ser uma metáfora.
Para pensar o inconsciente em Lacan é preciso tomar
uma certa distância desse momento de sua teorização em que
a função do significante e sua relação primária com a castra-
ção permanecem obscurecidas sob sua associação com o con-
texto edípico. Nele, a função do Nome-do-Pai é assimilada à
função da interdição paterna do desejo da criança pela mãe,
esta última tomada, de maneira equívoca, como um Outro
não barrado. A introdução do objeto a, significante puro, pre-
sença da ausência, índice puro do desejo do Outro desde o
Seminário, livro 10: a angústia (1962-3) conduz Lacan a
aprofundar o alcance do axioma "o inconsciente é estruturado
como a linguagem". No Seminário, livro 17: o avesso da psica-
nálise (1969-70), há uma partilha entre a função do pai no mito
e na estrutura, cujo verdadeiro nome é metáfora da castração.
Para concluir, admitimos a hipótese de que Lacan acen-
tua a indistinção que há entre a função simbólica e a função
imaginária do pai em Freud. Não se distinguem o estatuto
real impossível de simbolizar da castração e a fantasia acerca
da função paterna, meio através do qual o neurótico inscreve,
limita, recalca o inconsciente. Na teoria da foraclusão do
Nome-do-Pai, Lacan não diferencia adequadamente o simbó-
lico e o imaginário; será preciso desenvolver com mais pro-
priedade a distinção entre o real e a realidade (Lacan, 1959-
60) para que surjam, como conseqüência, as diferenças entre
a castração (falta do objeto inerente à estrutura) e a ameaça
de castração (falta do objeto elaborada pelo mito).

60
Sobre a psicose

Em Freud, o objeto desejado e profundamente recalcado


no inconsciente permanece sendo a mãe. Em Lacan, isso dei-
xa de ser verdadeiro com a formulação do objeto a, objeto
que se define a panir da relação com a falta e que permite
construir a separação entre a mãe como objeto e o objeto
causa de desejo. A partir daí Lacan pode ser tomado como
um intérprete de Freud. A "perda da realidade na psicose"
confina em todo seu rigor com a exposição ao inconsciente
como a pura atividade da linguagem. Para o neurótico, tal
experiência é limitada pela adesão ao mito edipiano, cuja fun-
ção hegemônica no imaginário da cultura ocidental moderna
ele reproduz. O avanço da teoria lacaniana do significante
levou-o a aprofundar a dimensão real inerente à estrutura da
linguagem, realizando o que não é claro em Freud: a diferen-
ça entre imaginário e simbólico, entre real e realidade e entre
imaginário e real. Em outras palavras, o significante lacaniano
retifica as relações do inconsciente com a linguagem, pois não
confunde o que é da ordem do imaginário, da cultura, com o
que é da ordem do simbólico, da estrutura, da linguagem.
Todavia foi preciso que Lacan contornasse o obstáculo de sua
teoria da psicose no período 1955-66. Em seu esforço de ser
rigorosamente freudiano, Lacan tropeça na diferença entre o
seu conceito de significante e o conceito freudiano de repre-
sentação. Em conseqüência disso, ele considera a função pa-
terna no Complexo de Édipo como idêntica à função do
significante, não situando corretamente o lugar da castração
na psicose.
Nesse trabalho, gostaríamos de sugerir a hipótese de que
há um pensamento mais rigorosamente lacaniano em que o
inconsciente se define a partir do significante e em que há a
implicação de elevar o inconsciente na psicose à dignidade do
inconsciente propriamente dito. Nesse sentido, a teoria da
íoraclusão do Nome-do-Pai, tantas vezes denunciada como
não freudiana por aqueles que, acompanhando Laplanche e
Ponralis, sustentaram sua não equivalência com a Verwerfung
freudiana, é o produto de um esforço lacaniano de elevar a
função do pai em Freud à função do significante. Seu fracasso

61
Joel Birman (org.)

teve como efeito contrário a submissão ainda mais cerrada da


psicose à exigência da edipianização; no rastro desse malo-
gro, vimos florescer a convicção de que a ética do psicanalista
diante do psicórico impõe àquele a exigência de renunciar à
estratégia da interpretação, uma regra técnica que, aparente-
mente absurda e paradoxal, não é senão a contrapartida da
crença de que o psicótico não faz metáfora, inevitável toda
vez que a falta da metáfora edipiana (função imaginária do
pai) é tomada como equivalento da ausência da função meta-
fórica (função simbólica do significante) da linguagem.
Devolver à psicose a sua mais correta afinidade com a
linguagem exige rever a tese de que .. tomar as palavras como
as próprias coisas" é o contrário de operar metaforicamente
na linguagem. Fazer metáfora, no sentido da psicose, é elevar
as palavras à dignidade do objeto causa do desejo, conferir-
lhes um valor de metáfora do objeto perdido. Na psicose, a
palavra não remete a um significado inconsciente, recalcado,
mas é inconsciente, uma coisa que se mostra, que se dá aos
ouvidos como o objeto na obra de arte. Em outras palavras, a
psicose realiza o que a neurose obscurece: a revelação de que
o significante não significa nada. Expor, exibir o vazio do
significante é elevá-lo (outra vez no sentido da Aufhebung) à
condição de significante puro, o. mesmo que enaltecer suas
propriedades como puro objeto e revelar suas propriedades
inventadas.
Passemos então a parte final desse trabalho. Nela, trata-
remos dos antecedentes franceses do pensamento estrutura-
lista, caracterizando o pensamento de Lacan como uma
reinvenção francesa da psicanálise e valorizando suas inter-
venções teóricas na obra freudiana como um verdadeiro pas-
so para além dos impasses freudianos ante não só o final da
análise, como também o objetivo, o objeto e a finalidade da
psicanálise.

62
Sobre a psicose

A reinvenção francesa da psicanálise: do impasse


freudiano ao passe lacaniano
Como situar a posição paranóica na teoria lacaniana do in-
consciente ou, como agora podemos declarar, do significante?
Em primeiro lugar, esboçaremos algumas idéias acerca da fonte
da teoria lacaniana do significante (inconsciente) como o que
não é senão um objeto vazio. Em seguida, explicitaremos a
incidência do significante vazio sobre a formulação lacaniana
do final da análise e do discurso analítico como uma nova
modalidade de laço social.
Interessa-nos destacar as condições de possibilidade his-
tóricas e socioculturais do estabelecimento de seu sistema de
pensamento, a panir da particularidade da história do pensa-
mento psicanalítico na França. Como Sherry Turkle (1978)
mosrrou6, é preciso pensar em termos de uma "revolução fran-
cesa da psicanálise". Se a originalidade da psicanálise lacaniana
tem um gênio criador, é preferível atribuí-lo ao "espírito fran-
cês" marcado pelo significante revolução.
De acordo com Roudinesco (1993), o homem Lacan não
tinha um caráter revolucionário. Contraditório, afeito às con-
ciliações ainda que às custas da autenticidade, não é menos
verdadeiro que teria sido pródigo em sentimentos de hostilida-
de para com o seu avô. Sem chegar a reduzir a ruptura entre
Lacan e a IPA (lnternational Association of Psychoanalysis) ao
território dos conflitos de filiação, Roudinesco atribui impor-
tância demasiada ao romance famililar. Este último lhe serve
de explicação para o que seria a grande contribuição lacaniana
à história da psicanálise. Os dissabores de sua relação com o
avô, a decepção com a figura humilhada, conformista e

• Em seu Freud's French Revolution, Sherry Turkle faz uma excelente


análise do movimento psicanalítico francês, destacando a "reinvenção
francesa da psicanáliscn por Lacan bem como a emergência de uma
cultura psicanalrtiea francesa a panir dos acontecimentos de maio de
1968, que manterá com esses uma relação seja de radicalização, seja
de revisão crítica.

63
Joel P.irman (org.)

medíocre do pai, a revolta com a carolice religiosa da família,


tudo isso interessa a Roudinesco à medida que lhe serve para
estabelecer uma ancoragem para as principais formulações
lacanianas acerca da família mqderna, nas quais a função pa-
terna é exercida por um pai humilhado, patogênico e discor-
dante, dividido entre a função simbólica de nomeação e a
impotência de sua realidade biológica. Em suma, l.acan não
teria perdoado seu avô, cujo exercício da paternidade rebai-
xara a condição paterna:

Meu avô é meu avô quer dizer que esse execrável pequeno
burguês que era tal homem, essa horrível personagem
graças à qual cheguei numa idade precoce a essa função
fundamental que é maldizer a Deus, este personagem é
exatamente o mesmo que aquele que consta no estado civil
como sendo demonstrado pelos laços de casamento, como
pai do meu pai" (Lacanapud Roudinesco, 1994[1993):24).

A esse traço da vida de l.acan, Roudinesco atribui, alegação


bastante discutível, a formulação do "nome do pai". Muito
mais relevante, em nosso modo de ver, é a perspectiva da
especificidade da psicanálise francesa como advinda do solo
cultural em que emerge l.acan. D_e certo modo, acreditamos
ter extraído essa idéia das entrelinhas do trabalho de
Roudinesco, não sem uma forte influência da "Roudinesco
americana", a pesquisadora Sherry Turkle, cuja história do
movimento psicanalítico na França antecedeu de vários anos
a de sua sucessora. -
A marca original da psicanálise na França é sua relação
desde cedo com a política. A revolução francesa é uma forte
hipótese histórico-política, considerando-se o "destino inevi-
tável" que dirige os caminhos da psicanálise em território fran-
cês e que se encarna na 'personagem' Lacan. Estaria a psica-
nálise na França destinada a provocar uma revolução, a sub-
verter o legitimismo ipefsta? A especificidade francesa não
adviria precisamente de ter passado ao largo das grandes con-
trovérsias que dividiram a IPA entre Melanie Klein e Anna
Freud?

64
Sobre a psicose

As correntes em disputa na França não eram representa-


tivas de duas leituras contraditórias da doutrina freudiana. O
conflito francês distingue-se por ter incidido sobre a questão
da formação dos analistas, girando em torno do confronto
entre o autoritarismo médico e o liberalismo universitário.
Lacan não tomou o partido nem de uns, nem de outros; ele
considerava catastrófica a rejeição do modelo médico pelos
liberais em proveito da psicologia e desastrosa a adesão a um
ensino esclerosado dos conservadores médicos. Como vere-
mos, a questão da análise didática e portanto da formação
dos analistas será central no percurso lacaniano.
O laço de Lacan com a cultura revolucionária é um laço
mítico na obra de Roudinesco e serve como artifício parares-
1,onder a questão: por que Lacan? A história da família de
vinhateiros iniciada em 1824 com Charles Prosper Dessaux
tem origem graças ao liberalismo econômico instalado após a
revolução e que pôs fim às tradições do Antigo Regime. Até
então estas resguardavam os artesãos dos empresários. Em
um golpe magistral de verossimilhança, Roudinesco pinça um
~aboroso detalhe no cuidadoso inventário da família "l.acan".
Somos informados (Roudinesco, 1994(1993]:19 e 30) que
1.udovic Dessaux, neto do fundador da casa Dessaux filho, a
hm de tornar mais eficaz a comercialização de seus produtos,
,1ssociou-os à Revolução com um rótulo em que afirmava que
,1 casa Dessaux filho fora fundada em 1789, ano da Revolu-
~•'º· No entanto Charles Prosper, o fundador, nasceu em 1790,
11111 ano após a tomada da Bastilha. Esse pequeno detalhe ser-
ve para ilustrar por que artifícios Roudinesco reúne a família
l .11can e o traço da revolução, ao mesmo tempo em que nos
ufcrcce uma descrição sombria do caráter politicamente
, onservador da família Dessaux, empenhada em evitar que
~,·us empregados fossem influenciados pelo messianismo re-
volucionário, cuja expansão era temida desde a Comuna de
l111ris. Paternalismo, culto da ordem moral e religião, regula-
111entos internos bastante rígidos, jornadas prolongadas de tra-
h11lho, monotonia, silêncio, obscurantismo, tal era o universo
, 111zcnto e tedioso em que se encontravam mergulhados os

65
Joel Birman (org.)

antecedentes daquele que se devotaria à causa de uma psica-


nálise a favor da "desburocratização", nada mais nada menos,
do tempo de trabalho com suas sessões de duração variável.
Para os ancestrais de Jacques Lacan, a revolução, entretanto,
não teria sido mais que um rótulo eficaz na busca pelo prestí-
gio de seus produtos.
Na saga criada por Roudinesco, Lacan é uma vítima do
conformismo familiar. Através do dadaísmo e do surrealismo,
ele "recusou" violentamente na adolescência o universo fami-
liar e os valores cristãos em que fora educado. O abandono
da fé e da religião concretizaram-se com a leitura de Nietzsche.
Suas ambições políticas o conduziram ao maurrasianismo bem
como as reuniões da Action Française, afastando-o mais e mais
do meio familiar. Daí a concluir pelas inclinações paranóides
de Lacan não foi senão um passo. A Revolução e a paranóia
ligam-se à originalidade francesa da psicanálise através da
"personalidade" de Lacan. Lacan, ele próprio, seria um grande
reformador paranóico. Sua lógica de sua vida é instaurar a
subversão em um mundo de pequenos comerciantes, a.firmar-se
um intelectual ante um pai cuja única ambição teria sido tê-lo
a seu lado para desenvolver o comércio de mostarda.
Entretanto a releitura da obra freudiana a partir da psi-
cose paranóica de Jacques Lacan não deve ser creditada à per-
sonalidade de Lacan e sim ao significante revolução. A para-
nóia é um método de trabalho, não uma característica psico-
lógica de uma personalidade arrogante. Por exemplo, veja-
mos a descoberta da "Ética" de Spinoza em 1915. Sua leitura
desta obra exemplifica o método paranóico. Em vez de tradu-
zir os conceitos de Spinoza, incorpora-os e a eles confere uma
nova significação. Como reconhece Roudinesco:
Em vez de inspirar-se num modelo ou decifrá-lo, atribuía-
lhe uma interpretação, a sua, e fazia dela a única possível.
Assim, pensava que todo texto contém uma verdade à
espera de uma única interpretação. Lacan recusava todo
método de história das ciências baseado no olhar crítico
e toda historização de textos. Para ele, um corpus não

66
Sobre a psicose

podia tomar-se com o passar do tempo, a soma de todas


as leituras possíveis. Ao contrário, pensava que toda leitura
que não fosse adequada à verdade devia ser rejeitada como
desvio ou interpretação errônea. Atribuía-se face ao corpus
que utilizava uma posição de legislador e de tradutor da
verdadeira verdade. Comentava os textos segundo um
modo de conhecimento que simulava o modo de
conhecimento paranóico" (Roudinesco, 1994(1993]:48).

Em 1930, Lacan tomou conhecimento, através do primeiro


número de Su"ealisme au seroice de la Révolution, de um
texto de Salvador Dalí chamado "I.:âne pourri". Este texto
foi um passaporte para uma nova apreensão da linguagem no
campo das psicoses. Dalí sustentava uma tese original sobre a
paranóia, a paranóia crítica, uma alucinação, uma interpreta-
ção delirante da realidade. A paranóia não era um "erro" do
julgamento ou um "delírio racional". Todo delírio já seria uma
interpretação da realidade, e toda paranóia uma atividade cri-
.1dora lógica. Tratava-se de resolver a contradição entre o so-
nho e a vida material descobrindo as novas terras da ação
política, inventando um modo criativo de conhecimento da
realidade.
O diálogo entre Lacan e Althusser testemunha que é pre-
ciso tratar a paranóia na obra de Lacan como um método e
não como uma característica de personalidade. O grande teó-
rico da "foraclusão do Nome-do-Pai" era avesso a rupturas
revolucionárias e argumentava sublinhando o laço paradoxal
entre "crime" e "lei". Althusser, ao contrário, sustentava que
não é possível fundar uma nova ordem sem enfrentar a vio-
lência de uma ruptura nas relações de filiação. Lacan suspei-
tava que o destino destas cisões fosse a psicose. Ao contrário
de suas afirmações a Althusser, rompe com a IPA por ocasião
das restrições impostas ao ensino e reage de forma exorbitante,
declarando-se "excomungado".
De acordo com Roudinesco, como teórico, Lacan não
justifica o próprio gesto. Toda revolução não é senão o efeito
do desejo de um mestre, Lacan teria argumentado, muitos

67
Joel Binnan (org.)

anos depois, com seu genro maoísta, Jacques-Alain Miller.


Sobre esse mesmo episódio, Rajchman apresenta uma versão
diferente. No tumultuado ano de 1969, depois dos aconteci-
mentos da primavera anterior, Foucault teria ajudado a esta-
belecer uma base para o ensino de Lacan no novo campus da
Universidade de Paris, no castelo de Vincennes. Conforme
registrou-se na transcrição de um debate acalorado, Lacan teria
declarado aos estudantes radicais que "a aspiração tem ape-
nas uma saída concebível, s~mpre, o discurso do Mestre. Isso
é o que a experiência tem provado. Aquilo a que vocês aspi-
ram como revolucionários, é um Mestre. Terão um" (Lacan,
1987:126 apud Rajchman, 1991). Sobre o desejo revolucio-
nário Lacan dirá cm seu Seminário, livro 17: o avesso da psi-
canálise que ele nada tem a ver com a verdade analítica: "Já
falei da ambigüidade deste termo revolução, que pode signifi-
car, no emprego que lhe é dado em mecânica celeste, retorno
ao ponto de partida" (1991[1969-70]:52).
Entretanto, mais uma vez, por ocasião das barricadas de
maio de 1968, rompe com seus pares, dissolve a École
Freudienne de Psychanalyse (EFP). O estopim desta segunda
ruptura, uma espécie de "revolução cultural" no seio do cam-
po lacaniano, é a proposição de um novo laço social entre
analistas, produzido cm torno de um "ritual de passagem",
o passe, cujo efeito seria destituir os analistas didatas da pró-
pria EFP.
Nesta mesma época, Lacan, apresenta sua concepção da
psicanálise como uma práxis. Formula que a finalidade do
processo analítico é necessariamente didática e não terapêutica.
Contra a identificação do paciente ao "bom objeto" que é o
ego do analista e contra a idéia de que a análise possa dar
acesso a alguma realidade "objetiva", Lacan fará do "ato", na
"passagem ao ato", o elemento central à determinação do fi-
nal da análise. Toda análise levada até o final produz um ana-
lista. O advento de um analista é uma Vergreifung (ato falho).
Um ato falho não é um fracasso na execução de uma ação
coordenada. Um ato é falho porque "errando o alvo, acerta
na mosca". O analista é aquele que viu reduzir-se à letra, vazia

68
Sobre a psicose

de qualquer referência material, a verdade da fantasia. É aquele


ainda que foi destituído de toda suposição de saber, que viu o
des-ser do seu próprio analista reduzido a um resto, o objeto a.
O analista em vias de advir vem, contraditoriamente, ofere-
cer-se a um outro como suporte desta mesma função na qual
não mais crê (Lacan, 1966-7).
Tomar-se analista é nesse sentido, conforme Lacan nos
propõe, uma Verleugnung (recusa) em conseqüência de que o
ato analítico não pode ser mais que uma Vergreifung (ato fa-
lho) (Lacan, 1967-8). A psicanálise é antes uma práxis, para
além da religião e da ciência. O mecanismo específico que a
engendra é a Verleugnung. O recalque constitui a religião.
A denegação nos trouxe a ciência e a rejeição do ser do campo
do pensamento. A revolução (retorno ao mesmo ponto) psi-
canalítica comporta, por sua vez, uma nova negação que é o
advento dessa posição subjetiva absolutamente singular que o
analista encarna: "Eu não creio mas, mesmo assim ... ". A posi-
ção do analista o situa de modo singular diante da verdade.
Como veremos, trata-se de recuperar a dimensão da verdade,
do ser, como puramente lógica, não se tratando aí de uma
questão de adaptação à realidade. A verdade em psicanálise
não é exterior à linguagem como para a religião ou a ciência
positivista. A verdade psicanalítica tem estrutura de ficção,
sua existência não é exterior à linguagem pois sua produção é
limitada pelo significante.
A leitura da obra freudiana por Jacques Lacan "teria sido"
marcada pelo surrealismo que lhe forneceu o instrumento que
faltava à teorização da experiência clínica das psicoses: a lin-
guagem. Mas não poderíamos deixar de acrescentar que, lon-
ge de fazer da pesquisa da linguagem um fim em si mesmo,
Lacan, na esteira do surrealismo, faz da subversão da comuni-
cação pela linguagem uma ação política. Seus efeitos compre-
endem a renovação do dispositivo analítico como o lugar de
uma direção paranóica da cura analítica onde o manejo do
tempo vem acossar o "eu" até o ponto de levá-lo a assumir
sua divisão - que é sua dependência da linguagem - des-
prendendo-o de toda suposição de saber sobre si, esvaziando-o

69
Joel Binnan (org.)

de toda a pretensão à verdade e reduzindo-o "a não ser mais


do que o resto" da experiência de análise. O "sujeito" é ape-
nas um resíduo que resiste ao saber.
A queda da crença, da suposição de um saber sobre o
inconsciente, é uma operação correlata da liberação do obje-
to como causa. A disjunção entre S e a vem desmontar a fan-
tasia, provocando um atravessamento do "rochedo da castra-
ção". Como Freud já nos advertia, a fantasia é o véu que divide
o sujeito entre a reivindicação fálica e a ameaça de castração e
serve ao repúdio da feminilidade (Weiblichkeit). Com Lacan,
uma análise levada suficientemente longe deve ser "didática",
deve corrigir em definitivo essa posição por meio da qual o
sujeito faz do falo o véu que encobre sua verdadeira castra-
ção, que é não ser senão "Isso", um objeto de gozo do Outro.
Essa posição subjetiva, argumentaríamos, é acessível no
desencadeamento da psicose.
Essa articulação resignifica o Wo Es war so/1 Ich werden
freudiano. Ao final da análise, onde Isso era, Eu - o Sujeito
- devo advir, devo assumir "não ser senão Isso". A verdade
implica o sujeito em ato de vez que o sujeito, no campo do
saber, será sempre rejeitado, excluído. Não há significante no
Outro que possa representar o sujeito. O sujeito é a barra na
Ordem simbólica, a castração no Outro. O sujeito é esse obje-
to, excluído, dejetado, à deriva no campo do Outro.
Descartes formulou o sujeito como efeito do pensamento:
"Penso, logo sou". Em seu Seminário, livro 15: o ato psicana-
lítico (1967-8), Lacan serve-se da fórmula de Morgan para
deduzir logicamente que, então, "ou eu não penso" "ou eu
não sou". Essa seria a fórmula da denegação. A operação dene-
gatória produz uma disjunção exclusiva entre a gramática
(lógica da fantasia) e a coisa (o referente) radicalmente exclu-
ída dela. O surgimento do Outro (a lógica da fantasia) está
ligado à rejeição da questão do ser, do objeto, da coisa. O des-
tino do ser, rejeitado do simbólico, é retornar no real. O ana-
lista é esse objeto rejeitado que retorna no campo da ciência,

70
Sobre a psicose

interrogando os ideais positivistas que instituíram-se em


torno dela.
A ciência racionalista do século XVII, representada no
pensamento cartesiano, constituiu essa profunda dicotomia
entre corpo e mente, essa Verwerfung do corpo, do gozo, fun-
dadora do inconsciente. A psicanálise, de acordo com o ideal
da ciência, funda o inconsciente como um "saber" (de natu-
reza mítica ou fantasística) que toma o pai como a causa.
O advento da ciência constituiu o saber inconsciente ao recalcar
o significante paterno ou a verdade da religião. A prática analí-
tica, segundo Lacan, levou Freud a retificar essa posição sub-
jetiva. O inconsciente revela-se na experiência analítica como
um saber não advindo ainda, em vias de advir e portanto
impossível de antecipar. Eis por que o fazer, a práxis psicana-
lítica consiste, paradoxalmente, em reduzir, em dissolver esse
inconsciente como "um saber suposto". A função da psicaná-
lise não é a de acentuar a crença neurótica no pai como causa
do seu sofrimento. A função da psicanálise é separar o sujeito
da ilusão de que o pai possa, em qualquer sentido que seja,
dar sentido à sua existência como sujeito.
O dispositivo analítico não é revolucionário, mas vem
introduzir no mundo uma terceira negação. A primeira é a
negação gramatical. A segunda é a denegação. A terceira ne-
gação é o "pas sans" (passant): "isso" não seria possível sem
"aquilo", que institui um inconsciente interpretável, reforçan-
do a suposição de saber sobre o inconsciente. O processo
analítico deve, entretanto, encarregar-se de dissolver essa cren-
ça, conduzindo o sujeito mais além do princípio do prazer, à
relação entre o significante esvaziador e o gozo. Assim, a psi-
canálise institui o sujeito como barrado ao introduzir a fun-
ção do inconsciente como causa: o "isso não seria possível
sem aquilo", para em seguida destituí-lo, revelando o caráter
ficcional da verdade. Ao fazê-lo, o ser, o objeto rejeitado, o
lugar do vazio, da castração, da falta de saber, retorna no real.
O analista é esse objeto rejeitado no real. O analista não é por

71
Joel Birman (org.)

acaso, é a isso mesmo que ele, o sujeito, se vê reduzido quan-


do cai o véu da transferência. Por isso Lacan pode articular:
roda análise termina com o advento de um analista. O sujeito
é o analista, o significante sem significado, significante puro,
um objeto que não significa nada.
Ao final da análise, a questão do ser é reintegrada pela
nadificação do sujeito suposto saber. O sujeito suposto saber
é o referente da crença na verdade na ordem da história. Ele
sustenta a associação livre, a atividade da narrativa. Ao final
da análise, a verdade, liberta do jugo da suposição de um
"Outro que tudo sabe", revela-se em sua afinidade de estrutura
com a invenção. "Eu minto", "eu escrevo", "eu produzo" a
verdade. Essa é a única relação verdadeira com a verdade.
Como queríamos demonstrar: o inconsciente lacaniano
estrutura-se como uma linguagem, onde as palavras são to-
madas como equivalentes às próprias coisas, tal como Freud
distinguiu o inconsciente na psicose. O inconsciente, explica-se,
então, não conhece a contradição. Se a verdade inconsciente,
como o delírio na psicose, é lógica, então, não se limita por
nenhuma exigência de adaptação, de realidade, de existência.
Vemos assim que a tese de que o significante não significa
nada aprofunda a importância do vazio, da castração, do real
e implica em conceber o inconsciente como pura articulação
significante. Isso tem efeitos sobre a direção da cura analítica
e a concepção do final de análise. O dispositivo analítico deve
fazer advir o sujeito que funda, que escreve, que mente, que
inventa à maneira do método da paranóia crítica de Dalí.
O fim da lógica do significante, seu objeto, seu objetivo,
sua finalidade é a exclusão do "sujeito suposto saber". Diría-
mos que é isso que distingue a psicanálise como práxis: redu-
zir o referente à letra, ao significante puro, evidenciando sua
relação ao vazio das origens que ele insiste em incluir, em
representar. A letra é o significante que se repete. O que se
repete escapa à regra de que nenhum significante pode signi-
ficar-se sozinho. A letra é um significante, mas não representa
o sujeito para um outro significante. A letra é aquele ponto
eletivo em que as redes significantes se entrecruzam asso-

72
Sobre a psicose

ciativamentc. Segue-se que não temos saída, pois nesse ponto


nenhuma rememoração é possível. Não há nenhum traço da
origem. Não há rastro da passagem da natureza à cultura,
nenhum resto arqueológico de um tempo anterior à lingua-
gem. É por isso que é preciso passar ao ato. Pelo ato efetuar
essa repetição que subverte o sujeito pois o engaja numa tare-
fa sem fim. Ato que ultrapassa, destitui o eu de sua ilusão de
ser sujeito dos seus atos e consciente dos seus objetivos.
Neste ponto, o sujeito reduz-se à insistência que se repete:
"Onde isso estava, eu não penso". O ato, a produção do objeto,
a criação do novo, é para todo sujeito ao final de uma análise
o destino de sua destituição do campo do saber. À falta de um
saber que dê conta do que somos como sujeitos, podemos,
quando muito, sonhar em incluir o nome do nosso desejo
entre os significantes do Outro.

73
A 'psicose lacaniana'
elementos fundamentais da abordagem lacaniana
das psicoses 1

Joel Dor

A noção de "psicose freudiana" constitui um dito espirituoso


formulado pelo próprio Lacan em circunstâncias que mere-
cem ser lembradas. A anedota é contada por Marcel Czermak
(1992:7-54) a propósito de um caso singular de automatismo
mental "selecionado" para uma sessão da apresentação de
doentes animada por Lacan. Czermak lembra a seguinte his-
tória:
Não tendo jamais encontrado um caso deste tipo, não
tendo achado nenhum sinal dele nas publicações ou nos
tratados, eu havia mencionado o fato a Georges
Daumezon2, de quem era assistente. Sem ao menos
examinar o paciente, ele havia manifestado o ceticismo
irônico que lhe era caro, dizendo: 'Como você é lacaniano,
você o induziu. Todo mundo sabe que os pacientes falam
a linguagem de seu analista. Você fabricou uma psicose
lacaniana' (ibid.:8).

E ele prossegue nos seguintes termos:


Eu estava certo de não ter sugerido absolutamente nada,
a releirura de minhas observações me provava isto. Eu
havia comunicado a observação de Daumezon a Lacan.

1 Conferência realizada em 30 de outubro de 1995 no Instituto de

Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


1
Médico-chefe em psiquiatria no hospital Sainte-Anne em Paris.
Joel Birman (org.)

[... ] Foi assim que no final de uma entrevista, este último


havia dito: 'Quando entramos no detalhe, vemos que os
trabalhos clínicos que são escritos nos tratados clássicos
jamais esgotam a questão. Tinha alguém que eu examinei,
não sei quando, há um mês e meio ou algo assim, a
propósito de quem falara-se em psicose freudiana. Aqui
(Lacan voltara-se para mim com um sorriso nos lábios) é
uma psicose lacaniana ... enfim realmente caracterizada'.
[... ] Desde então esse termo de "psicose lacaniana", que
era uma espécie de piada, está nas ruas, sem que a maioria
das pessoas tenha a menor idéia de sua origem (ibid.: 8-9).
Se a "psicose lacaniana" era uma piada, esta piada se im-
pôs, às vezes com um peso de conseqüências. E incontestá-
vel que a contribuição lacaniana sobre a questão das psico-
ses é capital, mas convém circunscrever seus limites, nem
que seja apenas para retirar a famosa "psicose lacaniana"
dos ramcrrames dogmáticos nos quais certos alunos de
Lacan a instalaram.
O_avanço lacaniano sobre a questão das psicoses é
indissociável de duas séries de referências teórico-clínicas. que
podemos sinteticamente reunir em torno das seguintes linhas
'de elaboração: de um lado, as três categorias Real, Sin;,b6lico
e Imagindrio; de outro, o significante e sua l~giçª= E óbvio
que o estatuto do significante como tal se modifica no decor-
rer da obra de Lacan. Uma coisa é o significante do período
do "retorno a Freud" 1 ; outra, o significante da "lógica do
significante", que tomou corpo a partir dos anos 1960. Sob
vários aspectos, a observação é válida também para as três
categorias citadas anteriormente, incessantemente reela-
boradas por Lacan.
Essas referências são fundamentais, pois se inscrevem
diretamente na continuidade da reflexão que Freud dedicou

1
Período de 1953 a 1960 que cobre a primeira parte dos ensinamentos
de Lacan. "O sentido de um retomo a Freud, é um retorno ao sentido
de Freud" (Lacan, 1966(1956):405).

76
Sobre a psicose

) '
1
1-Hnrc4't;,w. Q.St v-v turo-Q,
ao problema das psicoses. De resto, é de fato este enraizamento
no soclo freudiano que confere à argumentação desenvolvida
por Lacan toda a sua importância.
Freud dispôs as balizas para uma etiologia psicogenérica
das psicoses absolutamente nova. Por um lado, ele abordou/
os processos psicóticos através de uma investigação teórico-
clínica destinada originariamente a dar conta da etiologia das
neuroses. Por outro, ele desde o início assenta tal abordagem '
sobre considerações estruturais, isto é, não apenas quantitati-
vas e diferenciais. Todavia Freud não consei)liP promover uroa
discriminação metapsicológica conseqüente baseada em fun-
damentos estruturais.
A significação freudiana dos processos psicóticos per-
maneceu em parte sobredeterminada elas conce õe
ps1copato ogicas e sua epoca. ara relembrar apenas alguns
de seus aspectos essenciais, pensemos na articulação entre a
noção de "perda da realidade" e a noção de "reconstrução
delirante". De fato, os processos psicóticos evidenciam uma
perda da realidade no sujeito, que parece induzir, por sua vez,
uma reconstrução delirante desta realidade da qual ele está
cortado. Sem sombra de dúvida Freud dá conta destes dois
aspectos da patologia psicótica no contexto de explicações
essencialmente psicanalíticas, porém ele permanece prisioneiro
de uma concepção que tende a associar "perda da realidade"
e "construção delirante", como se houvesse uma relação de
causa e efeito. Aliás, assim como a "perda da realidade", nem
a "denegação da realidade" nem a "clivagem do eu" consti-
tuirão critérios operatórios conseqüentes na discriminação
entre psicoses e neuroses. 4
Na realidade, ao acompanhar a evolução da reflexão
freudiana, assistimos ao surgimento progressivo de uma revi-
ravolta: a construção delirante compensatória tende a mudar

4
Para maiores esclarecimentos sobre os conceitos de "perda da
realidade•, "construção delirante", "denegação da realidade• e "clivagem
do eu•, ver Freud (1924c; 1927; 1938a; 1938b).

n
Joel Birman (org.)

de estatuto. A elaboração delirante aparece cada vez menos


como um efeito compensatório, e torna-se o parâmetro
indutor da própria perda da realidade. É esta mudança na
lógica dos processos que pede uma nova centralização a res-
peito da preeminência da dimensão do Simbólico em relação
à realidade na organização dos processos psicóticos.
Ali onde Freud não consegue isolar um princípio especí-
fico suscetível de discriminar estruturalmente a causalidade
psicótica, Lacan efetua um avanço decisivo, aproveitando ao
máximo certas noções freudianas, particularmente a Spaltung
e a Verwerfung. De fato, com a divisão do sujeito e aforaclusão,
o acento, na compreensão dos processos psicóticos, é defini-
tivamente colocado sobre a função maior desempenhada pe-
las estruturas simbólicas e pelo Real via o Imaginário.
No que diz respeito à divisão do suieito, Lacan articula o
princípio metapsicoló~co desta cm uma reia,ão de depen-
dência explícita à ordem simbólica, mais precisamente, à or-
dem significante, como o demonstra todo o período do "re-
torno a Freud". Ora, esta dependência mostra-se quando
menos irredutível, já que é a estrutura subjetiva como tal que
é dividida pela ordem significante. O sujeito psíquico é um
efeito do significante: "um significante representa um sujeito
para um outro significante" (Lacan, 1966[1960a]:819;
1966[1960b]:840).
Esta preeminência do Simbólico sobre o curso de qual-
quer acontecimento psíquico (patológico ou não) está parti-
cularmente bem especificada pela categoria do grande Outro,
ao menos em uma de suas acepções em que o Outro circuns-
creve o campo da ordem simbólica como tal.
A configuração metapsicológica da estrutura subjetiva
dependente do Simbólico e do Real através da dimensão do
Imaginário já havia sido apresentada na lógica do esquema L.
Neste famoso esquema da comunicação intersubjetiva, temos,
de fato, claramente explicitados, além do sentido da diferen-
ciação entre o ego (mo,) e o eu (je), a relação de separação
entre o sujeito barrado ($) e o Outro pela mediação do ego

78
Sobre a psicose

(a) e de seus objetos (a') - eixo imaginário a-a'-, em razão


do "muro da linguagem" (Lacan, 1978[1954-5):285-6).
Esquema L
(Es) S9t;.:- - · · · · ->· · · - · • · · · @outro

(o cul )ao----t-----<:>. @Outro


(ibid.:284)l

A lógica do esquema L já nos permite apreender a dinâmica


de certas manifestações clínicas específicas presentes nas
patologias paranóicas e esquizofrênicas, pertinentemente
designadas por Ginette Michaud: agenesia do Simbólico e do
Imaginário. Elas são aí elementos de observações corriqueiras:
o paranóico se esforça em simbolizar o Imaginário, enquanto
o esquizofrênico busca imaginarizar o Simbólico.
Na paranóia, o delirante é invadido pelo Imaginário à
proporção que ele é "cortado" do Simbólico. Ele é então cons-
tantemente induzido a simbolizar o Imaginário. Não conse-
guindo fazê-lo, ele constrói sentido com tudo; tudo faz sinal
para ele. Lacan nos dá um notável exemplo deste fato em seu
Seminário, livro 3: as psicoses (1981(1955-6]:55-68), que ilus-
tra com perfeição o circuito da palavra delirante. Tudo se pas-
sa como se o sujeito estivesse "cortado" do grande Outro, ou
seja, do lugar onde chega até ele a autenticação simbólica de
sua mensagem. O circuito da palavra gira entre os três pontos
S, a, a', ou seja, em um registro estritamente imaginário.
A esse respeito, lembremos o comentário feito por Serge
Leclaire em seu trabalho "Em busca dos princípios de uma
psicoterapia das psicoses":

s Ver também para o esquema L, Lacan (1991(1956-7):12), onde Lacan o


chama "o esquema", Lacan (1966[1956bl:53) e Lacan (1966(1958):548).

79
Joel Binnan (org.)

Em nosso esquema, poderíamos figurar este estado de


coisas com uma ruptura entre S e a, e também entre A e
a\__ de sorte que a Úmca via de comunicação resta~fi.
a ➔ a', que constitui, segundo nossa defini7 ão, o eixo
imaginário da comunicação intersubjetiva. E assim que
somos levados a figurar o tipo de relação delirante
paranóica como estabelecendo-se entre dois "eus", entre
dois imaginários, desde então destinados a todos os
excessos de todas as contradições flagrantes inerentes a
esta ordem imaginária, patologicamente separado de seu
necessário correlato a uma apreensão saudável da
realidade, a saber: a ordem simbólica" (1958:401).

Somos forçados a admitir que o delirante não distingue o que


diz; ele não se reconhece como sujeito de seu discurso: Isto
· fala nele. Ele tampouco é capaz de receber as palavras prove-
nientes de um outro como sendo palavras que emanam de
um sujeito autêntico. Sem conseguir situar sua palavra peran-
te o referente simbólico que é o grande Outro, a comunica-
ção se desenvolve em um registro puramente especular, o que
explica a abundância das projeções e das construções caracte-
rísticas do pensamento delirante. Os signos lingüísticos são
deslocados, de modo que os significantes remetem a qualquer
significado. Privado do referente simbólico, o sujeito é leva-
do, contra sua vontade, a introduzir símbolos em toda parte.
Como exemplo, tomemos a produção desenfreada das
simbolizações delirantes do Presidente Schreber em sua "lín-
gua fundamental".
No campo das esquizofrenias, é o eixo a ➔ a' que está
em curto-circuito. O esquizofrênico é prisioneiro de um modo
de comunicação em ligação direta CQlll o grande Outro. É por
este motivo que tudo faz sentido logo à primeira vista e sem
qualquer mediação. Cortado do Imaginário, o esquizofrênico
não mais dispõe de um espaço possível para o jogo dos
significantes. Toda sua relação ao outro é vivida em uma total
ausência de identificação imaginária: ele está, por assim dizer,
"privado de eu", como observa Serge Leclaire:
Sobre a psicose

[... ] é o eixo S ➔ A que é privilegiado em detrimento do


desvio contingente a ➔ a'[ ... ] parece que o esquizofrênico
despreza seu aspecto imaginário e formal para ver em
tudo apenas um valor simbólico. É realmente sob o modo
de uma subjetividade retraída em uma negação primitiva
de toda identificação imaginária domesticada, que o
esquizofrênico vive sua relação ao "outro", que não 1,
merece mais, no seio de sua subjetividade radical, [... ]
nem o nome de outro" (ibid.: 403, grifos do autor)
É neste sentido ue Gisela Pankow su eria que se fizesse "en-
xertos" (Pankow1 1969:10; 1977:44) e imaginário nos es-
quizofrênicos.
Outra configuração esquemática de Lacan mostra do
mesmo modo vários aspectos fundamentais de sua contribuição
para a compreensão das patologias psicóticas: o esquema R.
Este esquema é mais interessante ainda, pois permite
abordar duas direções essenciais do pensamento lacaniano.
Ele não só explicita a articulação dos três registros: Simbóli-
co, Real e Imaginário baseando-se na obra de Freud, como
também evidencia a dinâmica que intervém nas psicoses.

Esquema R
~r------------••---
5

m 'S

A
I p

(l..acan, 1966(19S8):S53)

81
Joel Binnan (org.)

Sem entrar em maiores detalhes a respeito da lógica do


esquema R (cf. Dor 1992:19-31), insistirei principalmente no
fato de que a articulação destes três registros é isomorfa em
relação à dialética edipiana freudiana. De fato, ela evidencia a
maneira segundo a qual o Simbólico e o Imaginário estão li-
gados entre si pela mediação do Real, d~ tal forma que é pos-
sível passar de um ara o outro e do outro ara o um de modo
contínuo. o a a inâmica edipiana, no decorrer da qual o
sujeito se estrutura a partir desses três registros e do signi-
ficante, ilustra esta propriedade. A conquista do Simbólico
reenvia ao Imaginário. Efetivamente, o sujeito mal chega ao
Simbólico, logo se aliena no Imaginário dividindo-se, o que
explica o corte entre "Eu" (moi) e o "Sujeito" (Je).
A lógica do esquema R é sustentada por uma pedra an-
gular: a metáfora do Nome-do-Pai, uma operação simbólica
subjetivamente estruturante sob diversos aspectos. Em primeiro
lugar, ela ordena o acesso ao Simbólico para a criança na con-
dição de sujeito. Em segundo, ela impõe ao sujeito uma estru-
tura de divisão($); o sujeito é dividido pela ordem significante
da qual ele não é senão um efeito, e dessa divisão advém o
sujeito do inconsciente. Por fim, ela institui a criança na posi-
ção de sujeito desejante, rompendo assim com sua situação
anterior de objeto do desejo do Outro. Em seu termo, a metá-
fora do Nome-do-Pai intervém como operador da
simbolização da Lei (proibição do incesto) e, consequente-
mente, da castração simbólica (cf. Dor, 1985:114-22).
O êxito dessa operação simbolicamente estruturante
realizada pela metáfora paterna depende do destino reserva-
do ao significante Nome-do-Pai, que é, propriamente falan-
do, o significante fálico. Por que êxito e destino? Porque da
sorte reservada a este significante parece depender a saída
psicótica inaugurada pela foraclusão do Nome-do-Pai.
A noção de foraclusão deve ser precisada. Para começar,
uma observação terminológica. Lacan não escolheu traduzir
o termo freudiano Verwerfung por foraclusão preocupado
apenas em ser original. Ao escolher esse termo, tomado de
?,.GQ,~o o..o S:V\1kx,'t,c: G ,/
~!i__V,~ ,jo G1~_J· p ~ ,c-l•,r L ,~r
(:.JJ · do e,V,n ,f Q,
-.-
Sobre a psicose

empréstimo ao corpus da terminologia jurídica, ele entendeu,


mais uma vez, acentuar a prevalência da ordem simbólica. De~
fato, a foraclusão estipula uma figura jurídica em que uma r·
determinada disposição não ocorre nos prazos prescritos. No
presente caso, a forac/usão do Nome-do-Pai designa a ocor-
rência em que o significante Nome-do-Pai, chamado a intervir
na metáfora do Nome-do-Pai, não advém: ele não responde
ao apelo.
Em segundo lugar, alguns esclarecimentos devem ser
prestados no que diz respeito ao uso mais geral do termo
foraclusão no campo psicanalítico. A foraclusão do significante
Nome-do-Pai e a foraclusão como tal, ou seja, o caso hipoté-
tico em que um significante pode ser pressuposto (oracluso
uma vez que ele faz falta, são duas coisas distintas. A foraclusão
dos si nificantes não ertence exclusivamente aos processo~
metapsicológicos_: ela existe em todos os sujeitos no senti o
de que ela é um processo inerente à linguagem. Não podemos
considerar a linguagem e o sujeito falante que lida com ela
sem afirmar ao mesmo tempo que essa linguagem não poderá
dizer tudo. Sempre permanecerá um indizível último que as-
sim justifica a foraclusão. É a isto que Lacan se refere ao nos
lembrar que um significante não pode significar a si próprio, ~
e até mesmo que não há metalinguagem.
Em compensação, quando essa foraclusão diz respeito a
este significante particular que é o significante Nome-do Pai,
Lacan observa a marca específica de um processo indutor
psicorizante ou, como ele o formula: "a falha que confere à
psicose sua condição essencial, com a estrutura que a separa
das neuroses" (Lacan, 1966[1958]:553).
Aliás, é exatamente neste ponto preciso que reside a con-
tribuição explícita de Lacan em relação a Freud; dito de ou-
tro modo, quando faz valer o caráter crucial da ordem simbó-
lica e de sua função na etiopatogenia das psicoses. f,
Quando o Nome-do-Pai está foracluso no lugar do Ou- e
tro, a metáfora paterna é posta em xeque porque esse lugar
do Outro é o da autenticação simbólica, o lugar da autenticação

83
Joel Birman (org.)

do pai simbólico - em oposição ao pai real e ao pai imagml\


rio (Dor, 1989:51-65) - ou seja, a instância à qual se refcrr 11
simbolização da Lei a respeito do significante fálico.
A foraclusão do significante Nome-do-Pai estabelece llll•'
a indução dos processos psicóticos permanece então em grand,·
parte submissa à própria dimensão do acesso ao Simbóli1.:o,
ou seja, a consideração do sujeito como sujeito descjant,·,
amarrado à estrutura da linguagem. Qualquer que seja a ver
tente que privilegiemos nesta operação metafórica - quer s,·
trate do domínio simbólico do objeto perdido (Dor, 1985:
114-6), quer se trate da castração simbólica (ibid.: 116-20) -
nós não podemos deixar de considerar a medida exata do
papel principal desempenhado pela função simbólica: prima
zia do Simbólico sobre o advento do sujeito (ou seja, a ex-
sistência7 do sujeito como efeito da ordem simbólica); acesso
à ordem simbólica através da mediação de uma operação sim-
bólica e simbolizante.
A contrário, é isto o que tenra expressar a lógica do es-
quema I (Dor, 1992:173-201) ao representar a transposição
gráfica da dinâmica psicotizante implicada pela foraclusão do
significante Nome-do-Pai.

1
Ex-sisrência: onografia que l..acan introduz para significar que o
sujeito como efeito do dizer tem uma estrutura de puro corte. Encon-
tramos a constatação muito explicita desta ex-sistênâa do sujeito do
inconsciente cujo lugar é colocado "fora de", cujo lugar é "excentrado"
pelo efeito do significante --e está ar, segundo l..acan, o próprio nó
da descoberta freudiana. Cf. Lacan (1955b: 11) "[ ... ) do que nós
havíamos chamado de insistblcia da cadeia significante [.. ] por nós
destacada como correlata da ex-sistência (isco é, do lugar exd!ntrico)
em que convém situarmos o sujeito do inconsciente". Ver também
Dor (1992:173-201).

84
Sobre a psicose

Esquema 1
M

(Lacan, 1966(1958):571)
c}.}-1
Este es uema I evidencia uma ru tura materializada el;
au- e
sência de continuidade entre os três registros Simbó ico, Real
e Imaginário. Na falta de uma simbolização metafórica que se
apoie sobre a substituição do significante do desejo da mãe
pelo significante Nome-do-Pai, um hiato se institui no
ordenamento da estruturação subjetiva por falha na media-
ção simbólica entre mãe e filho. Em outros termos, este hiato
traduz a persistência de uma relação mãe-filho que não está
referida ao pai simbólico, portanto ao significante fálico.
No esquema /, este hiato - ou seja, a descontinuidade
entre os três registros - é expresso pelos dois "furos" (cJ> e P)0

abertos entre as curvas das hipérboles. Esta configuração grá-


fica nos lembra, de um lado, que o sujeito não advém como
sujeito barrado ($) e, de outro, que a referência ao Outro (à
ordem simbólica) é enfraquecida em razão da foraclusão do
significante Nome-do-Pai (Dor, 1989:117-30).
Reencontramos assim o rompimento de uma tecitura
estruturante entre os três registros, tal como a evocamos an-
teriormente a propósito da organização subjetiva patológica
dos paranóicos e esquizofrênicos.

85
Joel Birman (org.)

Que conclusões podemos tirar desses elementos teórico-


clínicos que constituem, quando muito, os prolegômenos
lacanianos dedicados à abordagem das psicoses?
Reconhecer o considerável avanço que devemos a Lacan
não deve nos fazer esquecer que não podemos imputar à
"foraclusão do Nome-do-Pai" um desem enho e uma com-
petência que o próprio Lacan não e atri uía. Essa ipótesc
metapsicológica não deveria ser apresentada como uma pro-
va etiológica única e irredutível, suscetível de explicar radi-
calmente a indução dos processos psicóticos. Porém consta-
temos o importante progresso que ela representa para a com-
preensão desta patologia. De fato, o acento posto por Lacan,
no rastro de Freud, sobre o caráter essencial das estruturas
simbólicas constitui desde então um vetor de surpreendente
fertilidade heurística e clínica. Prova-o não apenas a abertura
das estratégias terapêuticas que daí resultam diretamente,
como também o trabalho de reflexão estabelecido após Lacan
para circunscrever com mais precisão a noção de foraclusão
do N orne-do-Pai.
Como exemplo, mencionarei brevemente duas argumen-
tações significativas, desenvolvidas respectivamente por
Contardo Calligaris e Juan-David Nasio.
Em seu trabalho Para uma clínica diferencial das psicoses
(1991), Contardo Calligaris interroga a problemática lacaniana
nos seguintes termos. Partir do princípio de que a patologia
psicótica é um efeito da foraclusão do Nome-do-Pai significa
l formular uma afirmação negativa no sentido de que seria uma
maneira de falar da psicose como um conjunto, isto é, de uma
maneira universal. Ora, segundo Calligaris, não se pode tta-
::> tar senão de um "universal negativo", já que ele se fundamenta)
no universal da neurose e, consequentemente, se atém à refe-
rência paterna, a qual está precisamente ausente na psicose.
Por outro lado, Calligaris observa que é ante o desen-
cadeamento da crise psicótica que, segundo Lacan, a psicose
aparece como um efeito da foraclusão do Nome-do-Pai, o
que, de uma certa forma, significa submeter o desen-
cadeamento da crise ~ uma injunção feita ao psicótico para

86
Sobre a psicose

que ele se refira a um ancoradouro paterno, aparentemente


impossível já que este nunca foi simbolizado por aquele. Daí a
pergunta de Contardo Calligaris: "O que seria positivamente
a organização de um saber psicótico fora da crise?" (ibid.:27,
grifo do autor}. Essa pergunta sem dúvida constitui uma pista
crucial para a reflexão que devemos elaborar.
Em sua obra Os olhos de lAura (1987),Juan-David Nasio
aborda a problemática da foraclusão do Nome-do-Pai sob um
aspecto inteiramente diferente. Ele insiste no fato de que não
podemos considerar o "Nome-do-Pai" como um ser, mas an- _
tes de mais nada como um elemento que intervém cm uma (-
função. A esse respeito, seria então conveniente distinguir, de
1
um lado, a dinâmica da substituição própria à metáfora pater-
na e, de outro, o lugar em que aparecerá "um significante
qualquer" (ibid.: 123) nessa substituição. Este significante qual-
quer será aquele que carregará o qualificativo de significante
Nome-do-Pai.
Nessas condições, evocar a foraclusão do Nome-do-Pai
não é designar que um significante pressuposto Nome-do-Pai
renha sido rejeitado, porém, mais precisamente, que este
"significante qualquer" não veio responder ao apelo naquele
momento preciso. Em outras palavras, a foraclusão não pode
ser então evidenciada enquanto não houver apelo. Mas o que
é foracluso? Para Nasio, não é nem o significante Nome-do
Pai, o qual não existe como significante único, nem mesmo
este "significante qualquer" que não surge lá onde é esperado;
deve-se ao próprio movimento a sua instalação nesse lugar.
Consequentemente, só a dinâmiaj._ é foraclusa, e não o ele-
mento do movimento. 1
Restringindo-me a esses dois exemplos, já podemos cons-
tatar o quanto a noção lacaniana de foraclusão do Nome-do-
Pai está longe de levar a uma concepção dogmática e imutável
da etiologia das psicoses. Ao contrário, ela abre para inúme-
ros questionamentos teóricos e clínicos. No que diz respeito
às estratégias terapêuticas, os avanços e as iniciativas também
são extremamente significativos. Para concluir, mencionarei
alguns de seus aspectos mais gerais.

87
Joel Birman (org.)

Em primeiro lugar, a abordagem clínica elaborada por


Gisela Pankow, essencialmente baseada sobre a dupla função
simbólica da imagem do corpo (1969:23-4). Trata-se de uma
estratégia que se esforça em restaurar - principalmente nos
esquizofrênicos - uma estruturação dinâmica do corpo
dissociado não só tornando dialéticos os elos simbólicos en-
tre as partes e o todo, como também conduzindo a gestalt do
corpo para que esta encontre uma inserção simbólica no re-
gistro de uma representação.
Em segundo lugar, lembrarei alguns dos eixos principais
que governam a dinâmica da psicoterapia institucional (Oury
1976, 1980, 1983, 1994; Tosquelles 1984, 1995). Neste caso,
trata-se sobretudo de conceber a instituição como uma medi-
ação entre a demanda individual e a demanda do grupo, vi-
sando regular os diversos planos de troca em função do tipo
de "abordagem" e de "endereço". Essas referências possibili-
tam restaurar e manter uma comunicação; daí o caráter
prioritário da função simbolizante da palavra como vetor
terapêutico fundamental das psicoses.
Por fim, mencionarei a noção de instituição rebentada
(éclatée), tal como Maud Mannoni representou seu projeto
em sua Escola experimental de Bonneuil (Mannoni, 1976,
1986). Se a concepção terapêutica desenvolvida nesta insti-
tuição se diferencia da psicoterapia institucional, ela não
deixa entretanto de se basear sobre a restauração de um acesso
à ordem simbólica para os psicóticos.
Em todos os casos, é forçoso constatar a preeminência
concedida à ordem simbólica em relação ao Real e ao Imagi-
nário, tanto na estruturação psíquica do sujeito quanto em
seus percalços psicopatológicos.

88
A psicose e o discurso da ciência
Waldir Beividas

Pois usar a técnica que ele [Freud) institui fora da expe-


riência a que ela se aplica é tão estúpido quanto esfalfar-se
nos remos quando o barco está encalhado na areia
(Lacan, 1966(1958):583)

Quando fazemos uma leitura do que está publicado do


pensamento de Lacan a respeito da paranóia, da psicose, da
loucura ou da crença delirante (não importa aqui uma preci-
são do termo), não é muito difícil perceber que interagiram
em seu pensamento duas concepções de paranóia. Uma, do
psiquiatra que debuta na psicanálise - um Lacan antes de
Freud. Outra, do psicanalista vigoroso e amadurecido no •re-
torno' a Freud - o Lacan com Freud e após Freud. Não tão
fácil é entender os modos de interação entre elas, se por
englobamento, assimilação, superação, distinção ou exclusão.
Porém árduo é compreender e se convencer da extensão glo-
bal dessas duas hipóteses ao discurso científico, a fim de nele
diagnosticar severa e genericamente uma (micro, arqui ou
infra) estrutura de origem psicótica.
Um primeiro Lacan, ainda psiquiatra de formação nos
anos 1930, nos mostrou que sob os efeitos especulares (e
jubilosos) de um estádio do espelho, o comportamento da cri-
ança dos seis aos 18 meses se precipita sob a forma de aliena-
ção. Nessa alienação, ele caracterizou um minimum paranói-
co, matricial, para todo o conhecimento humano. Assim, uma
"estrutura paranóica" do ego antecipa toda a operação de
cognição sob o molde de uma "furiosa paixão": a de "impri-
mir na realidade sua imagem" (Lacan, 1966[1936a]: 116).
Joel Birman (org.)

Como interceptar os traços e os movimentos dessa proto-


estrutura paranóica? É o "drama da loucura" o que oferecerá
os "momentos fecundos", as situações-limite de sua manifes-
tação, e a "crença delirante" o que pode apresentar com re-
quinte o estilo exemplar desta manifestação. Inicialmente
Lacan interpelará a loucura em seu habitat integral, o discurso
delirante. Seu estilo: o "acento de singularidade" a ser captado
na "ressonância de uma palavra", na "transfiguração do ter-
mo", na "fixação da idéia no semantema". Um hibridismo do
vocabulário gerado no "câncer verbal do neologismo" se torna
um sintagma em um "travamento (engluement) da sintaxe".
Mesmo atraveMado por uma "duplicidade da enunciação" exibe
a "coerência que equivale a uma lógica". Esses os traços
estilísticos que estereotipam "cada forma de delírio" (Lacan,
1966(1950]: 165-7).
À medida que o Lacan dos "antecedentes" (antes de
Freud) começa sua aproximação com a lingüística e, através
dela, sua re-leitura de Freud (ou vice-versa), a hipótese sofre
uma torção e ele desloca o acento do 'genetismo' da primeira
hipótese em favor de um 'estruturalismo' da segunda. Aos
poucos abandona também o estilo de superfície do discurso
delirante para mergulhar em suas estruturas fundantes. Aquilo
que o estilo delirante manifesta sob "forma dilatada" no dis-
curso, ele quer examiná-lo nas "coisas microscópicas" da es-
trutura. Esse deslocamento entra "no ponto" durante o Seminá-
rio, livro 3: as psicoses. Aí ele se empenha no que entende por
"esclarecer uma dimensão nova na fenomenologia da psicose"
(Lacan, 1981(1955-6]:94, 116).
Lacan é meticuloso, quer conduzir "metodicamente" o
seminário; procura introduzir "um rigor, uma coerência e uma
racionalidade no que se passa na psicose" (ibid.:73, 95). As obser-
vações clássicas, genéricas e massificadas de que no psicótico
o inconsciente estaria à tona, à flor da pele ou no nível do
consciente, ele as corrige para o novo enfoque. Na verdade o
que ocorre é que em nenhum lugar melhor do que na psicose
o sintoma está tão claramente amarrado à própria estrutura
de linguagem, aos "determinantes mais radicais da relação do

90
Sobre a psicose

homem ao significante" (Lacan, 1966[1958):537). Do mesmo


modo a tendência homossexual ou o clichê que se restringe
ao fator de repressão de uma pulsão homossexual, pela qual a
psicanálise "depois de Freud" (afJres Freud) explica difusamente
a origem dos distúrbios de Schreber e da paranóia em geral,
Lacan a especifica não como algo "pretensamente determinante
na psicose" porém, mais propriamente, como um sintoma a
ser "articulado em seu processo" (ibid.:544). Assim também
nas alucinações verbais de Schreber - como "fenômenos de
código" e "fenômenos de mensagem" que se desencadeiam
no psicótico sob a forma de neologismos inundantes, de re-
petições estereotipadas em estribilho, de mensagens interrom-
pidas e de autonímias em curto-circuito - é necessário pro-
curar o nó de estrangulamento na articulação da linguagem
delirante, isto é, qual {ato de estrutura provoca esses distúrbios
(Lacan, 1981[1955-6]:43-4; 1966[1958):537-40). Enfim, à
manifestação de superfície do estilo do discurso delirante ele
procura impor uma razão de estrutura: "toda a questão é [pois]
de saber como isso fala, e qual é a estrutura do discurso para-
nóico" (1981[1955-6):52).
É com esses anteparos que Lacan começa a cercar o nú-
cleo estrutural que desencadeia a paranóia. As aproximações
se sucedem. Na primeira escama dessa estrutura, o fenômeno
psicótico se deixa ver como uma "significação enorme", mas
que "não tem ares de nada", aparentemente ligado a nada; o
delírio se estabiliza em "um campo Unsinning, insensato, de
significações erotizadas" (ibid.: 159). Na segunda escama, ele
nota que está suspenso um significante que teria por função
inaugurar uma outra marcha para as articulações (a marcha
neurótica):
Tudo o que, no delírio, se orquestra e se organiza segundo
diferentes registros falados, revela no seu escalonamento,
como na sua textura, a polarização fundamental da falta
freqüentemente reencontrada, freqüentemente percebida,
de um significante" (Lacan, 1981[1955-6):331).

91
Joel Binnan (org.)

Lacan arrisca o significante da procriação: "o presidente


Schreber carece, segundo todas as aparências, desse significante
fundamental que se chama ser pai" (ibid.: 329-30). Mas en-
contra no Nome-do-Pai o significante faltante. A psicose será
então entendida como uma "posição subjetiva" em que ao
apelo do Nome-do-Pai o que responde ao sujeito não é pro-
priamente uma eventual ausência (vivida) de um pai real: ele
tem como resposta a "carência do próprio significante"
(1966(1958):557). A ausência desse significante se deixa ver
(numa metáfora topológica) como um buraco que impede a
amarração das articulações do discurso, para condená-lo à
deriva delirante: "É ao redor desse buraco onde o suporte da
cadeia significante falta ao sujeito [... ] que se joga toda a luta
cm que o sujeito se reconstruiu" (ibid.:564).
Ora, o que leva o sujeito a se ·cristalizar nessa posição
subjetiva 'em abismo'? Um acidente. Um acidente que -
embora sua cunhagem cm um corpo seja uma questão ('gené-
tica') problemática quanto à compreensão - deve ser expli-
cado no regime de uma 'anterioridade lógica': a ausência da
Bejahung, ou juízo de atribuição, "que Freud põe como pre-
cedente necessário a toda aplicação possível da Verneinnung,
que ele lhe opõe como juízo de existência" (ibid.:558) 1• Essa
ausência não deve ser entendida como algo que, previsto na
estrutura, não sucedeu na ocorrência, mas como algo que, ao
modo de uma espécie de decisão primeira do sujeito, foi re-
jeitado, recusado de antemão. No lugar da Bejahung, uma
Verwerfung : "há portanto na origem, Bejahung, isto é, afir-
mação do que é, ou Verwerfung" (Lacan, 1981(1955-6):95).

1
Aqui o texto de Lacan faz um elo entre a ausência da Bejahung Oufzo
de atribuição) e a Verwerfung (foraclusão) que, confesso, não consegui
entender no seu presumível encadeamento (dialético?, lógico?,
estrutural?). Se a foraclusão "se articula nesse registro como a ausência
dessa Be;ahung" (idem), a foraclusão 'ocuparia' o 'vazio' estrutural
deixado por essa ausência? Isto é, em vn do juízo de atribuição, uma
recusa do Nome-do-Pai? Desse modo, a 'conexão' que apresento a
seguir é por minha conta e risco.

92
Sobre a psicose

Essa recusa preliminar, originária, leva seu nome na estrutura:


(oraclusão. Assim a psicose encontra seu nó estrutural especí-
fico: é no acidente da foraclusão do Nome-do-Pai - como o
significante primeiro que a Bejahung proporcionaria - que a
psicose toma sua matriz de estrutura.

Paranóia: clínica e epistemologia


Vimos acima que havia duas dificuldades na hipótese dupla
de Lacan sobre a paranóia. A primeira era sobre o modo de
convivência e de interação entre as duas. A segunda, sobre
sua extensão ao discurso científico. O exame de uma dará
condições ao exame da outra. Acabamos de ver também que
o Seminário, livro 3: as psicoses deu uma espécie de acaba-
mento à hipótese da paranóia como foraclusão do Nome-do-
Pai, como uma originária decisão do sujeito de vedar a si a
Be;ahung (julgamento de atribuição), sendo pois levado à psi-
cose (e não à neurose). No entanto é curioso observar que,
mesmo dando as pinceladas finais desse acabamento, Lacan
não deixa de retomar nesse mesmo seminário a hipótese an-
tecedente, a da paranóia como matriz do conhecimento hu-
mano. Para quem esperava encontrar aí um engate mais ar-
ticulado entre as duas hipóteses, essa retomada acaba decepcio-
nando um pouco. Sua brevidade só é salva pelo que tem de
estimulante o teor.
De fato, na primeira das (apenas) duas menções que pude
encontrar, Lacan diz que tencionava retomar "sem cessar" a
hipótese do conhecimento paranóico no seminário daquele
ano (ibid.:49), o que, salvo distração minha de interpretação
ou leitura, não ocorreu de modo explícito. A intenção de Lacan
valeria para nós ao menos como signo da necessidade de um
arranjo interpretativo ou explicativo que fizesse as duas hipó-
teses irem juntas. Por isso vale a pena reproduzir as duas men-
ções quase por inteiro, já que breves o suficiente para o que
quero demonstrar:
O que designei assim na minha primeira comunicação ao
grupo da Evolução Psiquiátrica [... ) visa as afinidades

93
Joel Binnan (org.)

paranóicas de todo o conhecimento de objeto como tal.


Todo conhecimento humano surge na dialética da inveja
(jalousie), que é uma manifestação primordial da
comunicação. Trata-se ali de uma noção genérica obser-
vável, behavioristicamente observável {ibid.:49-50, ênfase
minha).

Lacan ilustra o empirismo da observação com o exemplo da


criança que, ao bater no outro, não infere senão que: "o ou-
tro me bateu". A criança não mente, "ela é o outro, literal-
mente", e dessa alienação ele deduz o fato de o mundo huma-
no acabar sendo uma "proliferação de objetos" porque o que
é visado não é o objeto, seja ele qual for, mas o dese;o do
outro: o desejo do outro é o objeto do desejo:

O sujeito humano desejante se constitui em torno de um


centro que é o outro na medida que lhe dá sua unidade, e
a primeira abordagem que tem do objeto, é o objeto
enquanto objeto do desejo do outro {ibid.:50).

É nessa alienação primitiva do conhecimento paranóico que,


penso poder inferi-lo, encontra-se a origem do desejo huma-
no, o desencadear 'histérico' da "coleção incoerente dos de-
sejos" (idem). 2 Por sua vez, a segunda menção que Lacan faz a

2 Devo confessar também que não passou sem incômodo a inferência

acima. Uma paran6ia matricial pode provocar a natureza histérica do


desejo? Não será uma contradição incômoda ver duas estruturas tão
antipodas caminharem tão facilmente juntas? Sem ter encontrado na
literatura pós-lacaniana uma problematização mais cuidadosa sobre
essa espécie de "causação" paranóia ... histerias, apenas posso garantir
que a interpretação do discípulo lacaniano toma-a por resolvida. J.-A.
Miller, em uma de suas conferências em Caracas, assim se exprime
sobre a teoria do estádio do espelho; "Esta teoria explica também a
relação fundamentalmente paranóica do homem com seu objeto. O
que quer dizer que a relação do homem com seu objeto é paranóica?
Quer dizer que o objeto o interessa na medida em que o outro está
disposto a tirar-lhe ... Isto dá conta do carãter bisthico do desejo
humano, que é sempre fundamentalmente desejo do outro" (Miller,
1984:12-3; 1981:39, itálicos meus).

94
Sobre a psicose

essa hipótese é quase uma repetição, com o acréscimo apenas


de que tudo isso se regula no registro do imaginário. Não vai
além destas linhas:

O domínio do conhecimento está fundamentalmente


inserido na primitiva dialética paranóica da identificação
ao semelhante. É daí que sai a primeira abertura de
identificação ao outro, a saber, um objeto. Um objeto se
isola, se neutraliza, e como tal se erotiza de modo
particular. É o que faz entrar no campo do desejo humano
objetos materiais infinitamente mais numerosos do que
na experiência animal (ibid.:200).

A primeira constatação que se pode tirar dessas duas menções


é que parece legítimo deduzir que esses poucos riscos que
Lacan pincela sobre o conhecimento paranóico, dentro do
quadro mais amplo em que desenha a paranóia-foraclusão,
significam que as hipóteses não colidem. Ora, como entendê-lo,
se à primeira vista aparecem como totalmente excludentes?
Como conciliar uma paranóia, a primeira, que na aurora da
cognição do infante faz brotar no homem (até com a paixão
da fúria) o desejo pelo objeto (do desejo do outro) com uma
outra, a segunda, que no juízo a quo da cognição carrega o
acidente de foracluir o primeiro significante (Nome-do-Pai),
o qual justamente lhe abriria as ponas à metonímia do desejo?
Como conciliar uma paranóia que desencadeia o desejo com
outra que o recusa de antemão ("para-não-querer-saber-nada-
disso ")?
A única forma que imagino poder conciliá-las é a de ne-
las entender- ou construir - uma diferença de estatuto. É
certo que Lacan fora buscá-las num mesmo húmus patológico:
o drama da "paranóia de autopunição" de Aimée para a pri-
meira; o delírio psicótico da paranóia do dr. Schreber para a
segunda. É igualmente certo que tanto uma quanto outra fo-
ram captadas a partir de um ponto de vista clínico: a clínica
direta para a primeira, isto é, o corpo de Aimée que sofre de
perto; uma clínica 'indireta' para a segunda, ou seja, um texto
(de Schreber) que diz, à distância. Mas a diferença de estatuto,

95
Joel Birman (org.)

que as torna compatíveis e não excludentes, provém do fato


de que elas não se dão no mesmo registro. A primeira hipóte-
se, mesmo içada da clínica, adquire no meu entender uma
vocação epistemológica. Uma paranóia que se detecta como
matriz do conhecimento humano em geral não pode limitar-
se a um local, o registro clínico. Vai além, e alça um valor
epistemológico. Na elaboração da hipótese, mesmo esta sen-
do buscada por Lacan nos "momentos fecundos" do delírio
pontual, há uma conversão de estatutos: da clínica (do parri-
cular) para a epistemologia (do geral). 1
Por sua vez, em um movimento cognitivo quase inverso,
Lacan explica a segunda paranóia por meio de um estrutura-
lismo calcado na epistemologia lingüística (articulações do
significante na estrutura do discurso psicótico). ◄ Ou seja, em
duas análises textuais - o texto de Schreber conjugado ao
texto interpretativo de Freud - faz-se presente o uso de uma
epistemologia estrutural (o método lingüístico) para detectar
o móbile psicótico de uma particularidade clínica (a paranóia
de Schreber).

1
Basta olharmos para as definições modernas de epistemologia de
Bachelard (1938) ou de Granger para nos convencermos disso. Granger
nos lembra que Bachelard procurava atrãs dos conceitos (científicos)
o 'espectro epistemológico' das "motivações imaginárias" que os
alimentam (cf. Granger, 1985). Ora, como não entender que a hipótese
de Lacan opere exatamente nesse registro, que seja uma dessas
tentativas, na verdade aquela de determinar a primeira das 'motivações
imaginárias' que operam a cognição humana?
• Em seu "Diálogo com os filósofos franceses" Lacan o confirma: "Para
compreender um conjunto de fenõmenos como aqueles que se constituem
numa psicose, essa referência ao significante como tal, à assunção do
significante pelo sujeito, parece-me ser o único ponto de referência que
nos pernúte realmente prosseguir em todos os detalhes as incidências de
uma certa relação particular de carência do sujeito por referência a um
certo significante como tal. [... ] Para concluir, a noção de significante
deve ser tomada na acepção lingüística do termo (1985: 15).

96
Sobre a psicose

Assim se revela um verdadeiro quiasma: uma hipótese


'clínica', a primeira, de alcance imediatamente epistemológico,
frente a uma outra, fundada em uma epistemologia estrutu-
ral, mas de aplicação imediatamente clínica, especificamente
clínica. A 'inversão' poderá parecer brutal pelo aparente pa-
radoxo, mas a meu ver não é nada disso. Ao contrário, sem
qualquer prejuízo da instância clínica, o quiasma permite en-
tender o 'movimento epistêmico' das duas hipóteses, sua con-
vivência compatível. Permite talvez esclarecer ao menos uma
parte da zona de sombras que sempre permanece nas inter-
pretações sobre a paranóia quando se referem difusamente às
duas hipóteses. O movimento inverso delas faz com que ambas
sejam legitimadas em um entendimento mais homogêneo: a
psicose propriamente dita (a segunda paranóia), aquela que
foraclui o desejo, pode ser vista como um acidente, de ocor-
rência localizada (no juízo individual), que veda a paranóia
primitiva (do conhecimento em geral), aquela que instaura o
desejo como tal. Detectar e analisar o acidente daquela é um
'caso' clínico. Pensar nesta a emergência do desejo é uma 'ques-
tão' de epistemologia: da epistemologia do desejo. Esse, o
desafio de fazer o desejo entrar na consideração científica,
um "projeto radical" prometido por Lacan, no qual queria
transformar a questão, medianamente metodológica: "a psi-
canálise é uma ciência?" em uma questão prementemente
epistemológica: "o que é uma ciência que inclui a psicanáli-
se?" (1984:8); projeto radical apenas prometido mas que,
enfim, já prefigurava uma chance, ou melhor, uma 'reserva'
de científicidade que caberia à psicanálise ulterior a tarefa de
cxplorá-la. 5

' Essas são a leitura e interpretação pessoais que posso apresentar sobre
como entendo os eixos fundamentais das duas hipóteses lacanianas e
uma passivei concatenação teórica entre elas. É apenas sob uma base:
interpretativa, digamos assim, reduzida, que me permito entrar no
vivo de minhas indagações.

97
Joel Birman (org.)

Ciência e paranóia
Se a interpretação assim reduzida da(s) hipótese(s) de Lacan
sobre a paranóia pode ser considerada legítima, ela nos leva a
uma série de questionamentos sobre a vinculação da ciência
com a paranóia, com a psicose e com o mecanismo da
foraclusão. Não é fácil conduzir o questionamento sobretudo
quando ele parece se situar num terreno minado. Quero di-
zer: a conexão 'ciência-paranóia', 'ciência-psicose' ou 'ciên-
cia-foraclusão' é de tal maneira maciçamente difundida, enfa-
ticamente clirada e zelosamente repetida na literatura psica-
nalítica pós-lacaniana, que te.m todas as aparências de um dado
adquirido, tornado certo; de uma hipótese confirmada, tor-
nada tese; de uma tese testada, tornada dogma. E, como deri-
vação dessa conexão dogmatizada, qualquer busca de uma
possibilidade científica para a psicanálise ou qualquer tentativa
de nuançar a conexão, tudo isso logo é visto como um projeto
ardiloso de querer levar a psicanálise à morte, desativar o pavio
de sua subversão, impor-lhe um esforço suicida, ou então re-
sistir à verdade da 'coisa freudiana'.
No entanto essa conexão - ciência/psicose - cm todas
as vezes que transita nos argumentos não deixa de decepcionar
a leitura, sobretudo quando esta se nega a deixar-se levar apres-
sadamente por uma suposta 'evidência' que se queira aí impu-
tar pela manobra da repetição, isto é, pelo hábito corriqueiro
em psicanálise de martelar o déjà vu ou déjà dit. São muitas as
zonas de sombra, as passagens 'mágicas' e obscuras que desfi-
lam nos argumentos, só não faltam a ênfase com que a conexão
ciência-psicose é admitida e o caráter anatemático com que ela
é imputada ao discurso científico, o excesso da ênfase assim
como o peso do anátema indo talvez a reboque da explicação
frágil. De modo que tal conexão merece um exame com o
máximo da critica ao meu alcance, vital que ele é para a remo-
ção dos obstáculos que até hoje impedem uma reabertura do
diálogo teórico e metodológico entre a psicanálise e a ciência. 6

6
O leitor interessado no tema psicanálise e ciência pode consultar
também o texto "Psicanálise: entre ciência e miton (Bcividas, 1994).

98
Sobre a psicose

A foraclusão
Convém deixar esclarecido que nenhuma incompatibilidade
entre ciência e psicanálise pode ser deduzida da primeira hi-
pótese de Lacan, a do conhecimento paranóico. Com efeito,
se todo o conhecimento humano é moldado, em sua origem,
por uma matriz paranóica, também a psicanálise não pode
fugir a esse molde matricial. Caso contrário, havendo um ripo
de saber que foge à paranóia primitiva, a hipótese de Lacan
como um todo cai por terra. Assim, por essa primeira hipóte-
se, ciência e psicanálise têm na paranóia inaugural do conhe-
cimento um ponto de simpatia, isto é, sofrem de um mesmo
'pathos' de origem, são compatíveis na alienação primeira.
É a segunda hipótese, a da paranóia-foraclusão, que de-
limita o campo que nos desafia aqui. Uma das constatações
imediatas que mais incomodam o exame desse tema é a ligei-
reza com que o termo foraclusão se desloca da sua acepção
estrutural mais fortemente conceituada em Lacan. Sem en-
trarmos no mérito do uso do termo Verwerfung em Freud,
uso preciso ou não, específico ou não, e não tendo nada a
questionar quanto à tradução que Lacan lhe deu, diria que
rodo o trabalho que este desenvolve no Semindrio, livro 3: as
psicoses parece-me orientado para dar uma definição precisa
à foraclusão. Lacan não só traduziu o termo freudiano,
conceituou-o, isto é, tornou-o um conceito específico,
fundante, para a psicose. No seminário, o conceito de
foraclusão passa a definir, ou seja, impor o limite e a precisão
estrutural da psicose: é a recusa do Nome-do-Pai que, por um
acidente na subjetividade do indivíduo, lhe instaura um vazio
(um buraco) de significante, tornando-lhe ausente a Bejahung
(juízo de atribuição) e levando-o ao desastre psicórico, com
rodas as seqüelas da manifestação delirante do seu estilo.
Porém o conceito não consegue a partir daí preservar o
ralhe. Torna-se cada vez mais elástico. Desloca-se da região
onde firmou o traço estrutural, adquire conotações nem sem-
pre fiéis à sua força conceptual. Através do próprio Lacan a
foraclusão se referirá à recusa pela ciência da "verdade como
causa" (1966[1966a]:874). Cabe então a pergunta: trata-se

99
Joel Birman (org.)

de um segundo tipo de foraclusão, ou então a verdade como


causa é o Nome-do-Pai? Aparentemente não ou, ao menos,
diretamente não, porque a expressão "verdade como causa"
também se desloca. Com efeito, em um momento do Seminá-
rio, livro 17: o avesso da psicanálise em que examina o proce-
dimento da lógica (proposicional), Lacan conclui que ela ex-
clui de seu campo a dinâmica da verdade e, com isso, o saber
mítico que se esconde por trás dela. Ele assim se expressa:
O discurso da Ciência não se sustenta na lógica a não ser
por fazer da verdade um jogo de valores, a elidir seu poder
dinâmico. O discurso da lógica proposicional consiste em
ordenar proposições compostas de tal sorte que elas são
sempre verdadeiras, quer seja verdadeiro ou não o valor
das proposições elementares. Não é isso desvencilhar-se do
dinamismo do trabalho da verdade? (1991 [1969-70] :38).

A que serviria então, pergunta-se Lacan, essa forma de saber


que exclui a dinâmica da verdade? Serve a "recalcar (refouler)
aquilo que habita o saber mítico". O que disso penso poder
entender é que aí a 'verdade como causa' consiste na mitolo-
gia fundante, isto é, em todo o fundo mítico que se encontra
no horizonte de cada hipótese científica (cf. carta de Freud
para Einstein em "Por que a guerra?"):
Talvez o senhor tenha tido a impressão de que nossas
teorias formem uma espécie de mitologia e, nesse caso,
nem ao menos mitologia gratificante. Porém, as ciências
da Natureza não levam todas elas a uma mitologia deste
tipo? Por acaso na física de hoje o senhor se encontra em
situação diferente?n (Freud, 1973(1933):3213).
Ou seja, mesmo sem entrarmos em uma reflexão
epistemológica mais extensa, penso poder inferir que essa nova
foraclusão passa a conotar a rejeição do discurso científico em
dar de cara com a fragilidade de seus gestos míticos de funda-
ção, das aporias fundantes de suas hipótesesab quo. A 'verdade
como causa' seria c:ntão a porção de mitologia que se encon-
tra na base das fundações da ciência e a foraclusão, a recusa

100
Sobre a psicose

de admiti-lo, um 'não-querer-saber-nada-disso' quanto ao sa-


ber mítico que habita a ciência.
Por outro lado, sabemos que Lacan faz uma oposição
entre saber e verdade, como distinção de origem ou divisão
constituinte entre cogito e desidero no sujeito. Essa distinção
nos leva a entender que ele aí homologa a verdade-como-
causa ao desejo. Nessa proposição, a foraclusão conota não
propriamente a recusa do Nome-do-Pai, nem diretamente a
recusa do saber mítico, mas a supressão do desejo no discurso
científico. Trata-se agora de uma nova conotação do conceito
de foraclusão para abranger aquilo que Lacan entende como
um processo de supressão da subjetividade no discurso cientí-
fico. A ciência esquece as peripécias de onde nasceu, menos-
preza os dramas subjetivos do cientista. Entende-se por isso a
foraclusão do sujeito, do drama subjetivo, implicado em cada
descoberta científica, imposto à carne de seu autor e levando-o
por vezes à loucura.
Por fim, teríamos de incluir nesse leque de foraclusões
aquela que não é propriamente do sujeito como um todo,
nem propriamente a do desejo, mas a foraclusão da Spaltung,
qual seja, da divisão do sujeito entre um saber (que é aciona-
do no discurso da ciência) e um desejo (que é aí recalcado),
entre um sujeito cartesiano da certeza (que dá as coordenadas
do discurso científico) e um sujeito freudiano do desejo (que
é rejeitado para fora desse discurso). A ciência, nessa nova
modalidade da foraclusão, negaria a Spaltung, a divisão, e
operaria apenas com o sujeito da certeza, do cogito.
Como se vê, o primeiro embaraço aqui é transitar no
meio dessapolivalência incômoda que o termo passa a conotar,
mesmo no interior da reflexão de Lacan. Foraclusão do Nome-
do-Pai, da verdade-como-causa, do saber mítico, do desejo,
do sujeito, da divisão do sujeito, isto tudo significa a mesma
coisa?
A primeira dedução que sou forçado a fazer é que esse
acúmulo de conotações ocasiona uma perda de precisão es-
trutural do conceito (no próprio discurso de Lacan), abrindo
assim as comportas de levianas e desimpedidas licenças

101
Joel Birman (org.)

analógicas e anatemáticas (no discurso de alguns lacanianos).


A foraclusão é um conceito forte, tão amarrado aos arcanos
da subjetividade delirante, e sua conceituação lapidada com
tal meticulosidade para definir a falta do significante Nome-
do-Pai, a ausência da Bejahung- assim como todo o desastre
subjetivo que daí decorre - , que ela devia limitar-se clínica e
estruturalmente a esse acidente da subjetividade, acidente
psicotizante. Na longa história da l~ucura humana, nas tenta-
tivas - paradoxais, segundo Lacan - de conceituar a psico-
se, desde a medicina e psiquiatria mais antigas à jovem psica-
nálise do século, a foraclusão de Lacan é a tentativa conceptual
de uma hipótese forte. Sem dúvida uma hipótese, e sem meios
de provar ser mais eficaz clinicamente do que outras, mas uma
hipótese que deveria perseguir um arranjo estrutural nítido.
Assim entendida, a foraclusão não me parece um meca-
nismo que possa ser estendido apressadamente para recobrir
o procedimento discursivo de uma instãncia que não é indivi-
dual, mas sim supra-individual por natureza, como é o caso
do discurso da ciência. É um conceito que não deveria pre-
tender galgar um estatuto epistemológico, diagnosticar o proce-
dimento científico. A sua legitimidade no campo da clínica não
pode ser transportada apressadamente para o campo da
epistemologia. Aplicado à ciência, ele mais parece uma extensão
veleidosa, licenciosidade analógica e sobretudo anatematizada, e
não um critério de definição estrutural, epistemológica, seja lá o
que for. De modo que cabe-nos examinar mais de perto se essa
extensão resiste em todas as suas implicações.

Foraclusão do Nome-do-Pai
Pode parecer uma observação ingênua, mas a foraclusão do
Nome-do-Pai stricto sensu esbarra de saída em uma caracte-
rística difícil de ser contestada no que diz respeito ao discurso
científico. Este não pára de convocar seus destinadores. Qual-
quer pesquisa científica na física, na matemática, na lógica, na
lingüística ou na semiótica não faz outra coisa a não ser citar
continuamente a paternidade das hipóteses e das teorias com
que se vai trabalhar ou criticar: 'segundo Frege', 'conforme o

102
Sobre a psicose

diz Thom', 'vemos que para Saussure', 'a teoria greimasiana'


etc., é assim que o discurso científico move suas referências.
Esses destinadores do saber, convocados para dar lastro aos
discursos em construção, não são nada menos do que figuras
metonímicas do Nome-do-Pai. É certo que a ciência, com o
andamento da sua episteme, logo esquece um autor, uma teo-
ria. Mas fica a função. É uma verdadeira e constante invoca-
ção ao Nome-do-Pai. Nesse sentido ele não é um significante
ausente. Ao contrário, a paternidade das idéias é no discurso
da ciência um dado tão precioso que a fidelidade da citação
direta ou a honestidade na modulação das paráfrases indire-
tas são aí mais que esperadas; elas são cultivadas. Parecem
apontar até - se me é permitida uma extrapolação 'clínica'
- para uma espécie de ética 'obsessiva'. Discurso obsessivo,
que labora continuamente pelo Outro, e não discurso
psicótico que o foraclui de antemão, tal é a feição do discurso
da ciência.
Por sua vez, os traços decorrentes da foraclusão do Nome-
do-Pai no discurso da psicose carregam implicações igualmente
difíceis de serem aplicadas ao discurso científico como tal.
Como atribuir ao discurso científico todas as características
foraclusivas correlatas à psicose? Como enquadrar aí a tendên-
cia homossexual que, mesmo não determinante segundo Lacan,
estaria articulada em seu processo como sintoma (cf. atrás: 91)?
Como imputar ao discurso científico uma negação da castra-
ção? E o estilo delirante do discurso psicótico, com todas as
suas especiarias de código e de mensagem vistas acima, seria
ele uma característica definitória do discurso científico?
Parecem perguntas absurdas, risíveis até. Mas se quere-
mos aplicar o conceito de foraclusão ao discurso da ciência
de forma coerente e exaustiva, delas não podemos fugir. Mais
derrisório ainda seria contentarmo-nos de fazer uso de uma
foraclusão que iria 'até ceno ponto', 'em pane', 'de uma cer-
ta maneira'! Quando assumimos uma hipótese estrutural, ou
ela responde pelo seu inteiro teor, ou demite-se. Caso contrá-
rio, ela se libera tão-somente ao jogo anatemizado, selvagem
e sem legitimidade.

103
Joel Binnan (org.)

Quanto a uma tendência homossexual, jamais tive co-


nhecimento de um trabalho psicanalítico que fizesse aí uma
conversão epistemológica para articulá-la no processo-discurso
da ciência. Quanto a uma possível recusa da castração é cos-
tumeiro associar a ela: i) a suposta certeza cartesiana que
modalizaria o procedimento cie,ntífico; ii) a pretensa
postulação da verdade pelo discurso da lógica; iii) a suposta
presunção de determinadas teorias lógico-positivistas de gal-
gar o sentido do sentido. De modo que estar de posse de uma
certeza, ainda que evanescente, ou de uma verdade, demons-
trada que pareça, ou ainda pleitear o acesso descritivo ao sen-
tido, tudo isso estaria conotando no discurso científico a ilu-
são da completude, uma insubmissão (epistemológica) à cas-
tração simbólica, essa lei da condição humana que nos corta a
certeza, a verdade e o sentido.
Ora, a ciência, em sua versão mais moderna, nos dá
mostras de que não se coaduna tão facilmente com o diagnós-
tico. Uma ciência que intentaria mover-se apenas na repre-
sentação da sua certeza não absorveria, como o fez exemplar-
mente a recente física quântica, a incerteza como um princí-
pio de estatuto metodológico de descrição (cf. o 'princípio de
incerteza' de Heisenberg, 1981). Por sua vez, quanto à
postulação de um sentido final ou de uma verdade última ou
absoluta pelo discurso da lógica ou da matemática, os teoremas
de Gõdel - maciçamente citados, e com grande euforia, no
campo psicanalítico - demonstram que, segundo a leitura
que a própria psicanálise faz deles, a matemática consegue
encontrar "precisamente no seu próprio interior, o limite in-
superável de seu sonho" (cf. Fennetaux, 1989:148). O que a
maioria dos psicanalistas ignora (ou prefere foracluir?!), in-
clusive Fennetaux (1989;1994), é que a matemática se cur-
vou a esse limite, independentemente do aviso psicanalítico.
O teorema de Gõdel é um teorema matemático gerado no
mais puro cânone do discurso científico. Portanto, quer o
princípio de incerteza de Heisenberg, quer os teoremas de
Gõdel, parece difícil não entendê-los como advogados, no

104
Sobre a psicose

nível de sua epistemologia, de uma 'castração simbólica' ab-


sorvida pelo discurso científico. 7
Examinemos agora o estilo do discurso psicótico. Lacan
nos fizera ver que esse delírio discursivo está inundado de
neologismos, de repetições estereotipadas. Convivem nele um
rigor parecido ao da lógica, alucinações que se repetem em
estribilhos, autonímias curto-circuitadas, isto é, significantes que
se remetem a si mesmos, travamento da sintaxe, mensagens
interrompidas, duplicidade de enunciação (1981(1955-6]:43-4;
1966(1950]:165-7 e [1958):537-40). Mas o que é mais im-
portante de roda essa especialidade do estilo delirante é que,
como o diz Lacan, o sujeito psicótico ignora a língua que fala
(1981 [1955-6]:20). O sujeito está totalmente encalacrado em
um discurso em que ele ignora o rumo das articulações.
Não é simples aplicar globalmente esse quadro requinta-
do de delírio ao discurso da ciência, nem que seja sob uma
forma, digamos, mais branda. Apenas duas características me
parecem possíveis de ser referendadas: o uso do neologismo
e o rigor (ou coerência semelhante à da lógica). De fato, essas
são duas características que o discurso científico exibe. Só que
o neologismo que o discurso científico cria é um derivado do
aumento de seu conhecimento sobre novos objetos cognitivos
- reais (elétrons, neutrinos, quasares etc.) ou conceptuais
(sema, scmema, mitcma etc.). E o resultado de uma amplia-
ção na apreensão do mundo, ou de um aprimoramento em
sua segmentação. Esses neologismos que passam a fazer parte
da linguagem específica dos discursos científicos, isto é, de

7
É certo que a brevidade com que trato aqui essas noções tão delicadas
em epistemologia (certeza, verdade, sentido) pode parecer um corte
raso na discussão. Penso mesmo que há aí matéria para um extenso
debate que urge se estabelecer entre epistemologia e psicanálise, ainda
que o seja para um ajuste na semãntica das noções. A 'verdade' de que
fala a aritmética pode ser transportada para conotar, sem mais, uma
ilusão de completude em psicanálise? Uma vez que tal discussão não
faz a liga do presente trabalho, só posso esperar que esse breve
comentário seja dado por suficiente para prosseguirmos adiante.
Joel Birman (org.)

sua metalinguagem descritiva, têm porém algo que os dife-


rencia do neologismo delirante: o cientista não ignora a /;11 ·
guagem com que ele fala. Mais do que isso, toda a sua árdu,1
iniciação e demorada formação em uma disciplina é na verd.1··
de a aquisição de competência nessa linguagem, nessa
metalinguagem. Devemos assim acatar que o neologismo é
em si não um subproduto imediato do delírio psicótico mas
uma necessidade de línguaª; é o modo alienante de sua articu-
lação e de sua composição no discurso psicótico que dará a
este essa natureza, não sua simples presença.
Por sua vez, também a questão do rigor deveria ser
nuançada. Lacan diz que em todos os casos de psicose por ele
examinados jamais faltou aí o traço do rigor. Ora, autorizarmo-
nos unicamente desse traço (já que os outros se revelaram
impróprios) para caracterizar com severidade o discurso ci-
entífico de psicótico também não é satisfatório. O termo de
rigor aplicado aos discursos quer sempre evidenciar sua infle-
xibilidade, sua precisão na conduta de suas articulações. Ora,
nesse sentido talvez não seja abusivo afirmar que não é a psi-
cose que é rigorosa. Ou, ao menos, não é só a psicose que é
rigorosa. É o inconsciente como um todo que é 'rigoroso',
isto é, o inconsciente se repete com constância e com um ri-
gor invejável cm cada uma de suas estruturas patológicas de
linguagem. Com a condição de que se saiba lê-la, o histérico
segue rigorosamente em sua fala o curso da estrutura histéri-
ca de seu discurso. Da mesma maneira o obsessivo é rigoro-
so na articulação da estereotipia obsessiva de seu discurso.

1
De resto, a busca neológica é também urna característica da linguagem
poética, portanto não-científica. Guimarães Rosa ou os irmãos Campos
são disso exemplos suficientemente re1óricos e próximos de nos
desobrigar a buscá-los mais longe. E não podemos esquecer que se o
neologismo bastasse para caracterizar o discurso psicótico da ciência,
teríamos de incluir nele a teoria de Lacan, haja visto seus abundantes
e genuínos neologismos: ab-sens, joui-sens, ex-sistence, materna,
parlêtre.

106
Sobre a psicose

O perverso, não menos. De modo que o rigor de um discurso


talvez não seja índice de uma patologia específica (a psicose).
Talvez seja mais acertado vê-lo como índice de uma coerência
;nterna que o discurso apresenta em relação a seu traço
cognitivo ou 'patológico'. O rigor é a coerência interna da
verdade 'patológica' que cada discurso encerra. Dito de outro
modo, há um rigor na psicose assim como o há na histeria ou
nas outras patologias. 9

Foraclusão do sujeito
Vimos acima que a paternidade das idéias é um valor sempre
reiterado e levado em alta conta pelo discurso científico.
O discurso científico move-se sob uma representação metonímica
do Nome-do-Pai, o que torna bastante problemático diagnos-
ticar nele uma foraclusão (no sentido forte do termo) desse
significante. Não seria legítimo então retomarmos a foraclusão
e a deslocarmos desse seu solo estrutural fértil, para fazê-la
caracterizar o fato de que na ciência, ou nos enunciados cien-
tíficos, não se leva em conta a subjetividade do homem da
pesquisa? Não seria lícito entendermos por foraclusão o fato
de a ciência, tal como o diz Lacan, não ter memória, esquecer
as peripécias de onde nasceu ou não se dar conta do drama
subjetivo que freqüentemente está por trás de cada descober-
ta sua? Não poderíamos admitir naturalmente como foraclusão
o fato de que a ciência apresenta-se nas comunicações cientí-
ficas sob a roupagem da mulher de César, que não deve ser
suspeitada - tal como Lacan o ironiza (1966[1936b]:86) -

'Observe-se portanto que assim não estou querendo 'salvar' o discurso


científico de uma ou outra patologia. Ao contrário, essa seria uma
interpretação que até aliviaria a psicanálise do incômodo preseme na
contradiç4o de diagnosticar o discurso científico como psicótico e, ao
mesmo tempo, como histérico: "eu concluo que o discurso científico
e o discurso histérico têm quase a mesma estrutura" (Lacan, 1974a:36).
Como poderiam conviver em um mesmo discurso duas patologias tão
contrárias em seu motor estrutural?

107
Joel Binnan (org.)

pura, purificada das categorias intuitivas, isto é, dos movi


mentos subjetivos da inteligência que a cria? Enfim, não po·
demos, a partir das observações de Lacan, imputar imediatil·
mente à ciência uma foraclusão do sujeito sob o matiz de umil
psicose?
Tento construir minha interpretação a esse respeito cm
duas etapas. Primeiramente, devo presumir a legitimidade de
um enfoque não psicanalítico da questão. Extrapolar o con-
ceito de foraclusão da clínica (da psicose) para a epistemologia
(da ciência) exige que ao menos também se dê voz ao que tem
a dizer a parte implicada, isto é, a epistemologia científica
propriamente dita. Nesse aspecto, diria que um eventual uso
do conceito de foraclusão para as observações acima mencio-
nadas não deixa de parecer uma visão um tanto míope, uma
interpretação um tanto 'patética' daquilo que a duras penas a
ciência construiu para si sob o nome de pertinência. Não é
somente uma abstração da subjetividade do pesquisador que
se dá nos discursos científicos, são várias as abstrações.
Tomemos um exemplo como o da física. Se no exame do
átomo ou dos elementos infra-atômicos ela não considera
pertinente avaliar sua realidade, digamos, biológica, isto é, se
lhe é estranho um conceito como o de "célula" ou de "vida",
nem por isso ela nega a biologia ou foraclui a vida. É que para
a construção e explicação de seus objetos, isso não é pertinen-
te. Isso deve ser debitado dos limites de seu estudo, limites
cada vez mais criteriosamente estabelecidos em cada ciência.
Cada ciência é na verdade a construção delimitada de seu
objeto, e essa construção do objeto é tão decisiva que, em sua
práxis descritiva, ela na verdade guia a observação. 10

• 0 Ao menos assim penso poder entendê-lo, por exemplo quando

Heisenberg, em um diálogo científico com Einstein, deste recebe um


dos sentidos fortes da ruptura da física moderna em relação à medi.nica
clássica através da formulação: "só a teoria decide sobre o que se
pode observar" (apuiJ Heisenberg, 1972:80-98).

108
Sobre a psicose

Ora, não parece fazer parte da pertinência da física, como


das ciências em geral, determinar o que quer que seja quanto
à subjetividade psíquica mais íntima do pesquisador. Para re-
tomarmos uma expressão freudiana, defendendo a pertinência
do sexual na sua teoria, a física não pode ser recriminada por
uma 'unilateralidade' qualquer pelo fato de se produzir com
o sujeito-da-ciência (e não com o sujeito do desejo). A subje-
tividade desejante é, ao contrário, o próprio objeto da psica-
nálise. O desejo, ou o inconsciente que mobiliza o sujeito da
ciência, essa é uma pertinência exclusivamente psicanalítica
ou, mais precisamente, uma tarefa aberta a uma epistemologia
psicanalítica ou epistemologia do desejo, o segundo lance do
'projeto radical' de Lacan, acima mencionado. Tarefa no en-
tanto abortada, a meu ver, prematuramente, na medida exata
da fobia à cibtcia embutida na conexão psicose-ciência. De
modo que lamentar na física uma foraclusão do desejo
cqüivalcria ao fato de a física recriminar a psicanálise por uma
'foradusão do átomo', já que não se interessa por ele. A co-
municação científica de um matemático na demonstração de
seus cálculos para a comunidade matemática, se recheada de
toda a sorte de queixas da sua subjetividade, suas angústias,
desavenças com a mulher, mau humor com os filhos, insatis-
fação sexual etc., seria tão derrisória em sua pertinência quanto
a atuação clínica de um psicanalista que, em sessão, atendesse
o mesmo matemático e se dispusesse a escutá-lo a resolver ...
as equações!
Que o leitor entenda que não estou querendo ser
irreverente com Lacan, mas sim com um certo número de
analogias selvagens a que o conceito de foraclusão se presta
quando começa a sair do campo clínico e navegar à deriva em
outros mares (cf. a epígrafe a este trabalho), inclusive porque
Lacan tinha sob a manga o senso de pertinência dessa ques-
tão. Quando ele se pergunta se a questão do desejo do sujeito
pode ser deixada fora dos limites do campo psicanalítico, as-
sim como de fato o é nas ciências, penso que a indagação visa
exatamente estabelecer o desejo como campo pertinente à

109
Joel Birman (org.)

psicanálise. Quando, à guisa de cabeçalho de um texto (cf.


1966[1950]:73), toma Freud solidário a Einstein e diz que a
'relatividade' do objeto da psicanálise está 'restrita' aos fatos
do desejo, ele segue na mesma direção. E igualmente, quando
abre o texto "A ciência e a verdade" advertindo sobre a neces-
sidade de uma "certa redução" - "por vezes longa a se com-
pletar mas sempre decisiva no nascimento de uma ciência"
(1966[1966a]:855) - redução que precisamente definirá o
objeto de uma disciplina, penso poder dizer que Lacan não
faz mais do que pleitear para sua disciplina o conceito de
pertinência, a pertinência do desejo como seu objeto precípuo.
É por isso que, para passarmos agora ao enfoque psica-
nalítico da questão da foraclusão, vale notar que o itinerário
que leva Lacan a conectar a ciência com a foraclusão não se
apresenta como um itinerário reto, apressado ou transparen-
te. Ele é todo pausado, atenuado, cheio de precauções. Lacan
ora avança, ora recua, indagando e tateando a delicada ques-
tão, sem dar jamais um veredicto final. É instrutivo
acompanhá-lo em seus passos.
Se minha busca não estiver em déficit, em uma das pri-
meiras reflexões que faz sobre um possível arranjo estrutural
tríplice - arte-histeria, religião-obsessão e ciência-paranóia
- , Lacan 'bemoliza' por assim dizer o arranjo, isto é, rebaixa
em um semitom as fórmulas assim postas e as mantém em
suspensão: "Eu não lhes digo que as reterei até o fim, quando
tivermos percorrido conjuntamente nosso caminho"
(1986(1959-60]:155). É certo que momentos depois ele diz
expressamente nesse Seminário, livro 7: a ética da psicanálise
que o discurso da ciência é 'determinado' pela Verwerfung
(foraclusão) da 'coisa freudiana'. Mas temos que aduzir que a
reflexão se inicia a partir de uma menção encontrada em Freud,
na qual este "aproxima a paranóia ao discurso científico"
(ibid.:154-5). Ora, sem que tenha encontrado, no decorrer
do seminário, qualquer índice mais direto da seqüência da
reflexão, do 'caminho' prometido, a primeira referência dire-
ta a essa aproximação ciência-paranóia será a de um Lacan
que, a meu ver, se escusa em nome de Freud por ocasião de

110
Sobre a psicose

suas "Respostas a estudantes de filosofia sobre o objeto da


psicanálise" (1966c). Lacan atenua nesse momento o peso da
aproximação e, com um certo desconforto - "porque tudo
isso quase não me agrada" - admite: "Que a filosofia advém
da paranóia, isso se origina da etapa selvagem da ironia
freudiana. Não é certamente um acaso quando Freud a reser-
va ao inédito" (1966c:11).
Nada muito diferente se passa quando, poucos meses
antes, Lacan proferira a aula inaugural do Seminário, livro
13: o objeto da psicanálise (1965-6). Também nessa aula -
"A ciência e a verdade" - ele retomou a fórmula tríplice:
Verneinung (denegação), Verdrangung (recalque), Verwerfung
(foraclusão) para a religião, magia e ciência, pela ordem, e
não se aventurou a estipular um veredicto final para a ciên-
cia: "Para o que se refere à ciência, não é hoje que posso dizer
o que me parece a estrutura de suas relações com a verdade
como causa, pois nosso progresso este ano deve contribuir
para isso" (1966[1966a]:874). Ao contrário, foi aí que o pen-
samento de Lacan mais hesitou, mais se acautelou. Ele reco-
nheceu o quanto o que tinha sido avançado na psicose sobre
a Verwerfung do Nome-do-Pai podia, ao menos aparentemen-
te, se opor à nova tentativa de arranjo estrutural. Ele reconhe-
cia que se a ciência parecia se apresentar em seu fechamento
(clôture) como uma "paranóia bem sucedida" - em um pa-
pel que talvez coubesse à psicanálise representar, já que ela é
que era capaz de introduzir "na consideração científica o
Nome-do-Pai" - , tudo aí apresentava as aparências de um
impasse, embora sentisse que mesmo assim algum progresso
poderia daí se originar (ibid.:874-5).
Portanto, quero sugerir com esses comentários que, mes-
mo de um ponto de vista eminentemente situado no campo
psicanalítico, não é possível obter um respaldo seguro no
pensamento de Lacan para imputar ao discurso científico em
geral o peso estrutural de uma organização psicótica. O me-
canismo da foraclusão (do Nome-do-Pai ou do sujeito do de-
sejo) não parece ter ficado demonstrado em seu pensamento
numa aplicação ao discurso científico. Lacan não dera o passo

111
Joel Birman (org.)

de conversão epistemológica da sua tese clínica da foraclusão.


Estendida ao discurso científico ela apenas constituiria, 11
meu ver, uma sugestão hipotética a abrir e alimentar a refle-
xão.
Mas o discípulo lacaniano o reconhece? Ele interpret.1
com cautela essas tentativas "bemolizadas" do avanço lacn-
niano? Reconhece no campo psicótico a zona de paradoxos e
de impasses que a matéria apresenta e que atormentara a rc -
flexão desbravadora de Lacan?
O discípulo dileto, no ardor da inteligência de juventude,
se antecipa e vai mais longe que o maestro. Toma a partitura
cm moderato de Lacan e a executa em mo/to presto: "a ciên-
cia está estruturada como uma psicose", soa uma voz de tenor
(cf. J.-A. Miller (1968(1964):102). A melodia se quer pontiagu-
da como um staccato, e retine pela reverberação clonada que
toma emprestada da sinfonia maior de Lacan ("o inconsciente
está estruturado como uma linguagem"). Ignorado a partir daí
qualquer andamento, o outro discípulo virá atrás e cantará a
piena voce não só a foraclusão do sujeito, mas uma "foraclusão
necessária" no discurso da ciência, na qual o adjetivo se inclui
gratuita e veletariamente, sem a mínima afinação de qual-
quer instrumento de demonstração: a ciência fica destinada
por preceito a 'dever-ser' psicórica (cf. Roustang, 1976:81). 11

11
Pcrmiro-me cirar quase rodo o parágrafo da única menção que
Roustang faz da foraclusão do sujeito, que supõe como necessária ao
discurso científico. Nesse momento do texro, Roustang discorre sobre
a 'transmissibilidade' da teoria analítica e do papel que ai cabe à
'transferência': "Submeter-se à teoria de um outro já constituída
fazendo-a sua, tentando falar essa teoria, é colar sua própria
fantasmatizaçáo numa racionalidade ou racionalização que corresponde
aos fantasmas e desejos de um outro, ou a outros fantasmas e desejos
que não os seus, é pois ignorar os seus e recalcá-los, mas é mais
radicalmente ignorar que a teoria do outro se funda sobre uma
fantasmatização, mesmo se nessa teoria, ou naquilo que se compreenda
dela, se fale muito do fantasma. Recalca-se então não mais apenas
seus próprios fantasmas e ~esejos, mas até a possibilidade de se dar

112
Sobre a psicose

Eliminadas agora até mesmo as claves, outras melodias virão


juntar-se ao coro e acrescentar aí seu timbre invocando a
ioraclusão não só necessária, mas ainda 'inelutável',
'indefectível', e sem qualquer esecuzione mais virtuosa, ape-
nas apostando na menção (não demonstrada) de Roustang,
adornada de novos adjetivos (cf. Dor, 1988a:19 e 19886:12).
A ciência a partir daí passa a estar danada e condenada a um
'não-poder-não-ser' psicótica.
Uma tentativa esboçada por Lacan, à guisa de estímulo à
reflexão, o arranjo magia-recalque, religião-denegação e ci-
ência-foraclusão, sai do regime de hipótese a ser pensada e,
por um passe de mágica fácil, galga o estatuto de tese confir-
mada e só resta entendê-lo, inspirado no velho adágio 'si non
e vero e bene trovato'. Se a psicanálise de Lacan tivera como
parâmetro um horizonte de ciência, uma 'reserva' de
científicidade - para tentar abrir o registro epistemológico
do seu 'projeto radical': o que é uma ciência que inclui a psi-
canálise? - ela começa a receber nesse crescendo veloz de
adjetivações e anátemas contra a ciência uma aparência de
incompatibilidade e distanciamento cada vez mais inelutável
por relação à mesma. Para retomar aqui a metáfora da epígrafe,
mares navegados sem o rumo de uma bússola mais
criteriosamente ajustada. Convém portanto que o campo

conta da fantasmatização ou daquilo que chamo, num sentido lato, o


dei frio. Recai-se então naforaclusão do sujeito, necessária às produções
científicas" (1976:81, ênfase minha). Talvez possa parecer injusto
atribuir veleidade ou gratuidade na afirmação sublinhada. De fato,
Roustang quer demonstrar aí que um excesso transferencial, uma
transferência cega à teoria de um autor, leva a neutralizar-nos como
sujeitos, como detentores de fantasmas e desejos nossos. Mas se é tal
excesso que leva à foraclusão do sujeito, a gratuidade estaria em insinuá-
la como necessária às produções científicas. Jamais na história da ciência
houve casos de transferências tão mortíferas, e 'funestas', quanto a
que o 'destino' quis premiar a psicanálise de Lacan, tema da reflexão
de Roustang. De modo que a ciência entrou, no parágrafo, como
inocente vítima.
Joel Birman (org.)

psicanalítico pós-lacaniano reavalie as radicalizações e os aná-


temas da conexão ciência-psicose para que não suceda fati-
gar-se ao remo quando o barco está atolado na areia. 12

11
Estas reflexões terão continuidade no próximo volume da presente
série, na forma de uma investigação da genealogia do conceito de
foraclusão, importado por Lacan da teoria lingüística de Damourette
e Pichon, tudo sob o contexto mais amplo de uma perspectiva histórica
dos usos de Lacan dos conceitos estruturais da lingüística.

114
Prova de realidade e/ou rejeição
psicose e ciência 1

Ana Beatriz Freire

Em "De uma questão preliminar para todo tratamento possí-


vel da psicose", Lacan mostra o erro da psiquiatria clássica de
conceber o perceptum em um sentido unívoco e,
consequentemente, a alucinação como um "perceptum sem
objeto" (Lacan, 1966[1958]:352). A análise do fenômeno da
alucinação não pode se resolver nem ao nível de um "sensorium
particular" - como se houvesse um objeto empírico, elemen-
tar em si, para dar origem a uma impressão - nem de um
percipiens entendido como uma função de síntese, responsá-
vel pela unidade desse sensorium. Para ele, o percipiens
unificante é um equívoco, e o que importa é a estrutura da
linguagem; em seus próprios termos, a estrutura como
significante que determina o lugar que este (o objeto percebi-
do) ocupará. Aliás, Lacan assinala que essa crítica se refere à
releitura que os pós-freudianos fizeram do início da pesquisa
freudiana, como se este tivesse postulado como função do eu
o "reencontro do bom velhopercipiens", sublinhando que cm
''A perda da realidade na neurose e na psicose" (1924a) ele
retirara o eu de sua função de síntese ao demonstrar que "o
problema não é o da perda da realidade, mas da mola que
toma o seu lugar" (ibid.:542).
A tradição da investigação psicológica afirmava que uma
dada percepção tem sua identidade garantida pelas faculdades

1
Texto anteriormente publicado cm Freire, A. B., Por que os planetas
não falam? (Rio de Janeiro: Revinter, 1997:169-76). Versão revista
pela autora. Agradecemos à Livraria e Editora Revinter a gentil
autorização para sua inclusão no presente livro.
Joel Birman (org.)

do sujeito que percebe. Em nome de um fato, manifesto, de


que uma alucinação é um perceptum sem objeto, todas as an-
tigas posições subentenderam que o percipiens garantiria a
unidade perceptual do perceptum. Lacan, ao contrário, afir-
ma neste texto que até então a questão não tinha sido consi-
derada em seu ponto crucial, uma vez que tudo na experiên-
cia indicava que não há unívocidade nesta relação entre o
percipiens (o sujeito} e o perceptum (o objeto). A experiência
discordante relatada pelo percipiens, seja um equívoco que
surpreende o neurótico, sejam as manifestações clínicas da
psicose, poderia residir na desarmonia constituinte de suas
faculdades nesta problemática tarefa de síntese dos dados sen-
síveis por um mesmo e único eu.
Em relação à alucinação verbal, um exame preconcebi-
do se equivocaria em considerá-la como um problema de na-
tureza auditiva e sobretudo por considerar as diferentes posi-
ções subjetivas implicadas no ato de ouvir apenas segundo
sua submissão ao mero fluxo sonoro (tonal ou fonético) ou
de acordo com a coerência da cadeia verbal, reduzindo estas
diferentes subjetividades a um nível de objetivação no
percipiens e sem questionar sua identidade. Para Lacan, é "no
nível onde a 'síntese' subjetiva confere seu pleno sentido à
palavra, que o sujeito mostra todos os paradoxos aos quais
ele é submetido nessa percepção singular"(ibid.:533). A ên-
fase neste nível é menos a síntese subjetiva do que o para-
doxo em que se encontra o sujeito. No caso da alucinação
do psicótico, o problema não é, consequentemente, de
uma ausência do objeto no perceptum, mas de umpercipiens
desviado.
É nesse lugar de não síntese, de um eu "não senhor de
sua própria casa", que podemos apreender o campo da reali-
dade. Realidade circunscrita pelas "linhas de condicionamen-
to do perceptum" (Lacan, 1958:552) em que uma falha fun-
damental se introduz no sujeito e neste eu que se quer sintéti-
co, pois este sujeito, segundo Lacan, se constitui de um desejo
que se apresenta como o desejo do Outro.

116
Sobre a p5icosc

Ao retomarmos o esquema R apresentado neste artigo,


vemos que a diferença do desvio no nível do percipiens entre
a estrutura do neurótico e a do psicótico está ligada ao que é
chamado de campo da realidade. Segundo a topologia ílpre-
sentada, este se define entre quatro elementos, que têm sua
origem no cruzamento do campo do imaginário com o cam-
po do simbólico.

Esquema R
~----------------~
15 1

·s

A
I p
(Lacan, 1966(1958]:553)

Do lado do imaginário, há o eu (m)e a imagem (i), ou aquilo


que, no sistema L, representava a relação narcísica entre a (o
ideal ou a imagem especular) e a'(eu) - o plano que se consti-
tui do lado do sujeito na referência fálica, isto é, o <{). Do lado
do simbólico, há o Ideal do eu (1) e o significante do objeto
primordial (M), que têm como terceiro elemento, na posição
do Outro, o Nome-do-Pai (P). Se esse campo da realidade,
devido à referência fálica, "só funciona tapando-se com a tela
da fantasia" (ibid:553, n. 1), no caso do psicótico seria difícil
defini-lo em todas suas funções: com a foraclusão do Nome-
do-Pai, o psicótico perde, no nível do imaginário, a referência

117
Joel Birman (org.)

do falo (tp) uma vez que este se define pela seta que sai, assim
como no esquema L, de A (lugar da lei) ou, no esquema R, do
Nome do Pai, em direção ao sujeito (S).
Na falta dessa dupla referência, o Nome-do-Pai (simbó-
lico) e o falo (imaginário), o que no esquema R formaria
'topologicamente' um quadrângulo da realidade abre-se pela
ausência dos pontos de referência desses cumes. No esquema
R, a metáfora paterna é o que desdobra o lugar do Outro em
M (o Outro primordial, a Mãe) e P (Nome-do-Pai), e o efeito
de significação do falo, o que delimita e mantém o campo da
fantasia (da realidade) com a qual o sujeito se abriga do real.
Em nota de 1966, ano da publicação dos Écrits, acres-
centada a esse texto de 1958, Lacan propõe uma reflexão
topológica sobre este quadrângulo ilustrada pela banda R. Ele
situa o corte do Real no segmento 1-M e a realidade encobre
esse ponto, pois o quadrângulo se estende sobre o triângulo
imaginário. Este encobrimento é determinado por uma estru-
tura, precisamente o que ele procura demonstrar com o triân-
gulo simbólico. O campo simbólico, triângulo homólogo ao
outro, imaginário, pode recobri-lo, projetivamente, ao girar
sobre a base 1-M.
Para Lacan, é este recobrimento o que indica o "privilé-
gio", ou melhor, uma sobredeterminação simbólica sobre o
imaginário e sobre a realidade nele gerada, como se nesse
momento de seu ensino o triângulo simbólico estivesse apon-
tando os limites e as condições estruturais, significantes, do
devaneio, da errância imaginária com que a fantasia ou o cam-
po de realidade encobre o Real. Na suposta ausência do sim-
bólico, seria possível sustentar que toda realidade é mera alu-
cinação de um sujeito que percebe (percipiens) sobre um Real,
entretanto este encobrimento imaginário segue uma estrutu-
ra, uma determinação simbólica e não pode ser concebido
como obra de um percipiens autônomo e indiviso. É assim
que, através dos limites que o delineiam como realidade,
encobridora do corte do Real, aparecem os significantes que
fazem deste pretenso percipiens um sujeito dividido.

118
Sobre a psicose

Afetado pelo pathos, o sujeito se projeta2 em diversas


imagens como "eu" e como objeto, constituindo o campo da
realidade. Segundo a nota de 1966, esse campo da realidade,
ao mesmo tempo que vela o Real, se constitui como quadro
pela extração do objeto a, isto é, pela subtração de uma parte
deste reaP. Para Lacan neste texto, entretanto, a ausência, a
rejeição (o termo freudiano é Verwerfung), ou melhor, a
foraclusáo do Nome-do-Pai no psicótico faz com que esse es-
quema não funcione. Consequentemente, para explicar sua es-
trutura própria, ele constrói um outro esquema: o esquema 1.
Esquema I
M

(Lacan, 1966(1958):571)

No esquema 1, os pontos de referência do Nome-do-Pai e do


falo estão abertos. A realidade deixa de ser fechada no
quadrângulo e passa a ser operada por uma construção do
delírio que tem como função "costurar", reconstruir esse cam-

1 Projeção indicada pelo pontilhado do triângulo 1.


3 Aqui, portanto, entendemos objeto a como inscrição da
impossibilidade do real, isto é, uma certa perda de libido quando se
constitui o campo da realidade como representação ou perda do que
L.acan nomeou gozo.

119
Joel Binnan (org.)

po da realidade, ligando os pontos do esquema R em sua ori-


gem: do lado do falo, o ponto i (as imagens especulares do
esquema) liga-se ao eu do sujeito; do lado do Nome-do-Pai, o
ponto M (significante do objeto primordial) liga-se ao I (ideal
do eu). 4
Embora Lacan tenha mostrado no início de seu
ensinamento que no psicótico o Outro (A) está excluído como
portador de significante (1981 [1955-6): 219), esse Outro não
pode deixar de existir porque, ele já o afirmava, "a partir do
momento em que o sujeito fala, o Outro existe" (ibid.: 52).
Há no psicótico não apenas o outro no nível do imaginário,
como também o Outro "com A maiúsculo" sem o qual não
haveria o problema da psicose "e sua significação inefável, e
eles, os psicóticos, seriam apenas máquinas que falam" (idem).
Aliás, na "Abertura da Sessão Clínica" (1977: 12), vinte e um
anos mais tarde, ele afirma que na psicose o significante re-
presenta um sujeito para outro significante, e que é possível
situar ali não só o objeto a, como também o 'fading', na con-
dição de cisão que se opera como efeito do choque do sujeito
no campo do OutroI. Ora, se ao menos na paranóia os quatro

4
Cf. a conferência "A estrutura psicótica e o escrito" de Sergc André
em que ele mostra o efeito de construção do dcllrio de Schreber nesses
dois planos: do lado do falo ausente há, substituindo-o, as referências
cm relação ao eu (ponto m), ou seja, respectivamente, o sacriffcio, a
Virgem e a beatitude; do lado da falta do Nome-do-Pai, como
substitutos do Outro absoluto (o ponto M), a linguagem, o "deixado
de lado" e o idiota, que se ligam constituindo o ideal do eu (ponto (),
respectivamente por uma Lei, o mediador e a honra viril (André,
1982:34-5).
s Em O Semindrio, livro 11; os quatro conceitos fundamentais da
psicand/ise (1964), Lacan demonstra a impossibilidade de existir um
sujeito puro, sem divisão e, consequentemente, um sujeito que se
sustente no mundo através de uma Weltanschauung, por uma
totalização a priori, original, por uma verdade 101al. Nesse sentido,
ele conclui que quando há um sujeito, há aphanisis; de fato, para que
o sujeito seja representado, é preciso uma perda, uma parte do sujeito
que desapareça. Vale a pena transcrever seu argumento: "Claro, par.a
toda representação, é preciso um sujeito, mas esse sujeito nunca é um
sujeito puro. Se pensarmos que cada sujeito se sustenta no mundo

120
Sobre a psicose

elementos estão presentes no campo da psicose, podemos afir-


mar que, mesmo sob uma forma totalmente particular já que
o campo da realidade está aberto pela dita foraclusão do
Nome-do-Pai, existe a prova de realidade no psicótico, prova
essa entendida como o momento em que o sujeito se divide
diante do campo do Outro.
Se a prova de realidade for entendida como a subtração,
a suspensão (Aufhebung) da afirmação fundamental ou, cm
termos freudianos, a afirmação do objeto "primeiro" de satis-
fação, é difícil defender a tese de que o psicótico se submete a
ela. Dito de outro modo, parece difícil afirmar que existe a
prova de realidade para o psicótico se consideramos, a partir
de uma certa leitura de Lacan, que o Outro se constitui como
completo e, consequentemente, que o sujeito psicótico "se
contenta com o Outro prévio" (Lacan, 1966[1960a]:807). Se
pensamos um Outro previamente completo, o psicótico, ao
menos como entidade ideal, é um sujeito que prescinde da
falta como operador lógico para se constituir em relação ao
Outro (Lacan, 1966[1960):806). Deste ponto de vista, o
psicótico seria comparado, sempre de forma 'negativa, com o
neurótico (cf. Freire, 1997).
Assim, no nível do imaginário, o neurótico, através do
"complexo do próximo", sente no Outro uma alteridadc
irredutível, uma defasagem irredutível entre o que pode vir
do Outro (a imagem unificada) e a imagem do corpo frag-

com sua Weltanschauung original, ou originária, então o caminho da


verdade passa - como nus mostra uma psicologia ou psicossociologia
atrasada - pela pesquisa, a totalização, a estatística das
Weltanschauung. E as coisas poderiam ser assim, se houvesse no mundo
sujeitos, cada um na função de representar cenas concepções de mundo
[... ). Não hã sujeito sem haver em algum lugar aphanisis do sujeito, e
é nessa dialética do sujeito, nessa divisão fundamental, que se institui
a dialética do sujeito" (Lacan, 1973(1964):201). Ponanto, é a panir
dessa impossibilidade de existir um sujeito que não esteja dividido
que chego à conclusão seguinte: os sujeitos, incluindo o sujeito
psicótico, pois existe um, já que os psicóticos não são "máquinas que
falam", são, apesar das suas diferenças de estrutura, sempre divididos.

121
Joel Binnan (org.)

mentado, o que produz um "vacúolo" na imagem especular


unificada. O psicótico, ao contrário, "satisfazendo-se com o
Outro prévio", isto é, com o Outro real em sua alteridadc
irredutível - Outro supostamente completo - , não sente a
insuficiência do que o Outro poderia representar. Em outros
termos, ele não constata a falta no Outro e, consequentemente,
não faz a operação que situa das Ding. Em uma primeira ver-
são, das Ding como a estrutura constante que possibilita com-
parar o suposto estado de desejo com as diferentes percep-
ções para a identidade de percepção; em um segundo lugar,
das Ding como uma fração incomparável da imagem do cor-
po do sujeito com a imagem unificada do Outro (cf. Dreyfuss,
1986; Freire, 1997: 146-86). Em vez de subtrair a coisa (das
Ding), ou melhor, circunscrever o inominável pela nominação,
o sujeito psicótico encarna o inominável como tal e alucina
justamente porque não faz a subtração desse inominável para
constituí-lo em uma alteridade absoluta - alteridade que se
tornaria presente, se ele sofresse a operação de subtração, como
uma imagem do Outro que se oculta; ou então, ao nível do
imaginário, como uma falta, um vacúolo como condição de
possibilidade do simbólico.
Embora haja hipoteticamente para o psicótico uma falta
de subtração do inominável na relação com o Outro, pode-
mos afirmar que em sua condição de sujeito ele não está pri-
vado da relação com o Outro. Aliás, é como uma tentativa de
resposta à ausência dessa prova de subtração da completude
do simbólico que podemos situar o delírio em uma função
equivalente à da fantasia para o neurótico, isto é, uma manei-
ra de abrigar o sujeito em relação ao real, com o "véu" da
realidade 6 •

6
Lacan, aliás, nunca excluiu a fantasia como uma das operações do
psicótico. Em O Semin4rio, livro 10: a angústia (1962-3), ele afirma:
"quer se trate do perverso ou do psicótico a relação da fantasia, S ◊ a,
se institui". (Lacan, 1962-3, aula de 30 de janeiro de 1963).

122
Sobre a psicose

Por sua vez, o neurótico, cuja referência ao Nomc-do-


Pai é estrutural, é aquele que, através da fantasia, consegue
constituir essa realidade psíquica às custas da divisão do sujeito
barrado entre o que essa realidade traz, em termos de repre-
sentação tranquilizadora, e o que ela excluiu para se consti-
tuir. Talvez a função do objeto a constituindo o campo da
realidade, tal como Lacan a apresenta na nota de 19667, im-
plique que a realidade não mais seja definida por sua função
de ligação entre o sujeito e o campo do Outro, a indicação
original deste texto, porém como mero corte. A realidade de
que Lacan trata nesta nota é, consequentemente, a que per-
tence ao próprio campo da fantasia, ao que ele chama de prin-
cípio de realidade, isto é, uma prova de realidade não no sen-
tido da prova do que ocorre como representação do sujeito,
mas a prova do sujeito no próprio ato de sua divisão a partir
do que vem do Outro.
Dessa maneira, naquela nota acrescentada em 1966, onde
as noções de objeto e de real já estão bem estabelecidas por
Lacan, a fantasia e o princípio de realidade ficam sendo a
mesma coisa, isto é, transformam-se na encarnação mais real
daquilo que, topologicamente, Lacan chamou de barra, ou
daquilo que ele denominou, com suas próprias palavras, "o
lugar-tenente da fantasia cujo corte [entre o sujeito e o campo
do Outro] dá toda a estrurura" (Lacan, 1966:553, n. 1).

' Embora em 1957- 8 Lacan não coloque em evidência no esquema R


a diferença entre o real e o campo da realidade, podemos ver, a partir
da função do objeto a, o real propriamente dito, isto é, o real como
"resposta sintomática" própria de Lacan, assim como ele o define mais
tarde, por exemplo em "R.adiophonie" (1970). A partir dessa nota,
através das análises topológicas de Lacan, percebe-se um real
inominável, ou seja, o real como Um próprio do manuseio das letras,
e não mais como diferença mensurável, pertencente ao campo da
realidade pensável. Pressupondo que em 1966 se estabelece um outro
real, bastante distinto daquele que, na época da redação do artigo,
Lacan chamava de campo da realidade, podemos então reler o esquema
R a posteriori, ou seja, considerando a nota acrescentada em que a
noção do objeto e as conseqüências da noção de real já estão presentes.

123
Joel Birman (org.)

A partir dessas considerações, podemos pensar algumas


questões a respeito do estatuto da ciência frente à relação da
subjetividade, uma vez que, segundo Lacan, ela também se
baseia em uma rejeição, ou em seus termos, uma foraclusão.
Esta foraclusão, no entanto, não é mais a do Nome-do-Pai,
como no psicótico, mas do sujeito e de sua verdade.
A foraclusão operada pela ciência tem algo em comum
com a operação de negação da realidade efetuada pelo
psicótico: assim como o psicótico "ideal" se satisfaz com o
Outro real em sua alteridade irredutível e não faz a subtração
do real inominável, a ciência opera sobre esse real bruto com
suas fórmulas, sem promover para o sujeito da ciência a ope-
ração de subtração desse real. A ciência age a partir da
alceridade que o simbólico produz sobre o real, sem explicar
a falta que essa alteridade produz para o sujeito na imagem
do Outro. Esse real puro, sobre o qual a ciência opera, eqüivale
ao real prévio do psicótíco e, segundo parece, ao que Lacan
chama de Um em seus últimos seminários: "O Um gera a ci-
ência" (Lacan, 1975[1972-3]:116).
Não se trata, porém, da unidade como produto da ope-
ração do simbólico, isto é, "o um da medida" que se colocaria
numa escala de medida, de comparação em relação à
multiplicidade, à alceridade em uma estrutura. Diferentemente
do um da ciência chamada antiga que se fundamentava pela
dialética, "a reciprocidade entre o vovr e o mundo, entre o
que pensa e o que é pensado" (idem), a função do Um da
ciência moderna - fundada, bem entendido, por Descartes
- indica o real. Trata-se de um real puro, absoluto, homogê-
neo, irredutível em sua "solidão" a uma realidade simbolizante,
pensável. Um real que de fato a ciência gera por sua exclusão,
pela operação de foraclusão à qual ela mesma o submeteu.
Nessa operação de foraclusão em que o real se cala atra-
vés das fórmulas, o sujeito e a sua causa são consequentemente
rejeitados, foracluídos. Entretanto, como toda foraclusão, o
que não era simbolizável volta sob a forma de real. No caso
da ciência, o que era foracluído, ou seja, o real puro, volta
para o sujeito cientista, através das suas fórmulas, sob a questão

124
Sobre a psicose

ontológica ou metafísica a respeito do que é o ser ou, em


outras palavras, do que é esse Um, fórmulas, porém, que não
respondem a todas as questões do sujeito em relação ao que
esse Outro Real, seu mistério, espera dele como sujeito.
Este é o caso de todos os cientistas, particularmente de
Kepler, Newton, Einstein (cf. Freire, 1997, primeira parte).
Cada um em busca do seu Deus, de um Outro que pudesse
responder a respeito desse real bruto. Apesar da foraclusão
sofrida através das fórmulas, este real retorna para o sujeito
sob a questão do que o Outro espera dele; consequentemente,
um real que causa o sujeito no próprio ato de manuseio das
fórmulas. A esse propósito, Lacan afirma que:
o próprio da linguagem matemática é que tudo o que é
apresentado, nem tanto no comentário falado quanto no
próprio manuseio das letras, supõe que basta uma letra
cair para que todas as outras não constituam nada que
seja válido com a sua disposição, e assim acabem se
dispersando" (ibid.: 116).
Insistindo, trata-se de um real que consiste na operação de
manuseio própria às fórmulas, às letras e que, apesar de ser
foracluído quanto à significação, diz respeito ao sujeito cien-
tista. Este era o caso de Newton, pois embora quisesse não
forjar hipóteses, ele acreditava, como sujeito, em um Deus
engenheiro das fórmulas, que, aliás, seriam independentes da
questão "imaginária" de como funcionam os corpúsculos. De
rodo modo, é na operação de manuseio dessas fórmulas que
o Um foraclufdo volta, impondo ao sujeito uma altcridade
absoluta que o divide. Por exemplo, por trás de seu projeto
de simbolização, de construir uma mathesis universalis, Des-
cartes constatou a presença de um Outro, suposto saber, que,
em vez de tranqüilizá-lo, como garantia absoluta, sobre o mis-
tério do real, indicava, atrás de seu Saber supostamente total,
a questão da causa do desejo para o sujeito.
Diferentemente do psicótico (ideal), que encarnaria esse
Outro em sua diferença absoluta, a foraclusão do sujeito pela
ciência não traz o sujeito cientista até a encarnação do Outro,

125
Joel Birman (org.)

mas antes a uma espécie de operação de "substituição" por


uma formulação imaginária, uma concepção de mundo qual-
quer que se junte com o real, com o Um das fórmulas. Assim
como a fórmula de trimetilamina indicava no sonho de Freud
uma irredutibilidade do real que o questionava como sujeito
criador da psicanálise, as fórmulas dos cientistas não os colo-
cam em uma relação de adaptação com o mundo da realida-
de, mas sim os levam a responder sobre sua origem, sobre a
causa dos seus desejos diante do real.
Considerando a divisão do sujeito como um nó no final
de "A ciência e a verdade", Lacan faz a seguinte observação:
Devemos nos lembrar onde Freud o descreve: sobre a
falta do pênis da mãe, onde se revela a natureza do falo.
O sujeito se divide aqui, afirma Freud, no lugar da
realidade, vendo ao mesmo tempo abrir-se o abismo
contra o qual ele irá se proteger de uma fobia, isto é, a
existência do pênis como mantida, embora deslocada.
{Lacan, 1966[1966a]: 877).
Lacan mostra que essas duas escolhas {fobia e fetichismo} re-
velam um momento de toda neurose: o momento em que o
sujeito passa de "falta-de" a "falta-de-pênis" e, em última ins-
tância, a "falta-de-saber" inerente à sua estrutura, já que "o
próprio falo representa apenas aquele ponto de falta que ele
indica no sujeito", essa falta em que o neurótico se divide e
"sente" o que chamamos de "prova de realidade". Trata-se,
consequentemente, de um tipo de fantasia que vem substituir,
para o sujeito cientista, a falta de subtração devida à foraclusão
que o sujeito, na condição de real, sofreu pela ciência.
É a panir dessa realidade considerada como fantasia que
ele afirma que o princípio de realidade diz respeito à ciência,
posto que esse princípio implica "na linha de experiência que
o sujeito da ciência sanciona" (ibid.:857). Em outras pala-
vras, se o princípio de realidade é a própria fantasia, o sujeito
da ciência, que opera pelo manuseio das letras através de pa-
res de oposição, caminhos que se bifurcam como em Popper,
torna-se o mesmo que.sanciona a linha de experiência da

126
Sobre a psicose

realidade, isto é, o que, pelas fórmulas, aparece no real sob a


forma de fantasia. Ainda nesse sentido, podemos constatar
que as questões mais misteriosas sobre a origem, por exem-
plo, a gênese da vida, serão circunscritas pela ciência sob a
forma de três letras (ADN). Trata-se, observa Lacan, de uma
fórmula sem significação que circunscreve um realª; este, por
sua vez, não pode ser interpretável, pois como um significante
primordial, uma letra para sempre perdida pelo processo de
recalque original (Urverdrangung), só volta sob a forma de
fantasia.
Como todo sujeito diante do mistério da vida e de seu
acesso pela linguagem, Lacan se questiona: "Onde eu escrevi
ao nível do círculo do real a palavra 'vida'?" Ao refletir sobre
a redução do real feita pela ciência, ele apresenta a seguinte
resposta:
Incontestavelmente, a respeito da vida, com esse termo
vago que consiste em enunciar o gozo da vida, não
sabemos nada mais, e com tudo aquilo a que a ciência
nos induz, é impossível imaginar como pôde iniciar essa
construção química que, com elementos espalhados onde
quer que seja e da maneira que quisermos qualificá-lo
pelas leis da ciência, tivesse começado de repente a
construir uma molécula de ADN, ou seja, algo que já traz
a primeira imagem de um nó, o que é muito curioso; e se
existe alguma coisa que deveria provocar nosso espanto,
é que se levou tanto tempo para perceber que algo no
real - trata-se da própria vida - estrutura-se a partir de
um nó (Lacan, 1974:665).

1
Vale a pena conferir como Lacan comenta essa operação cm "A terceira":
"É aqui, no simbólico [... ] que o saber inscrito da língua que constitui, na
realidade, o inconsciente, se elabora, ganha terreno sobre o sintoma, o
que não impede que o círculo marcado do S corresponda a alguma
coisa que, desse saber, nunca será reduzida; trata-se do que Freud
chama de Urverdriingt, o que do inconsciente nunca será interpretado"
(Lacan, 1974b:664).

127
Joel Birman (org.)

Esse nó, a respeito do qual Lacan nos fala, é aquele qul",


de uma maneira distinta da diferença diacrítica do simbólico,
forma o real como matéria sem alteridade, isto é, como lJ111.
"É por isso que o nó borromeo é a melhor metáfora de tudo
isso, pois só procedemos do Um" (Lacan, 1975[1972-3]:l lH).
Entretanto, após a operação da ciência, esse real puro, cssl·
inominável, esse real foracluído, torna-se uma letra e não Sl'
encontra mais nada igual àquele Um (da fórmula) no mundo
real. É por esta razão que o mundo é impossível, impossívl•I
no sentido de que ele é irredutível, da maneira como a ciência
o formula:
Como deixar de ficar surpreso quando, depois de tudo
isso [depois de perceber que alguma coisa no real se
estrutura a partir de um nó], não encontramos em parte
alguma, nem na anatomia, nem nas planras trepadeiras
que parecem ter sido feitas para isso, nenhuma imagem
de nó natural... Vou sugerir o seguinte: será que não se
trata de um certo tipo de recalque, de Urverdrangt? Na
verdade, não podemos começar a sonhar longe demais,
já temos muito trabalho com nossas marcas" (idem).
É nesse sentido que em seguida Lacan comenta, nesse
mesmo texto, que desde Galileu o real só aparece por "pe-
quenas relações de uma letra para a outra com uma barra no
intervalo", ou melhor, pela lei da gravitação. No entanto, além
desse real excluído e fixo pela fórmula, o sujeito, incluindo o
sujeito cientista, tem uma relação com a realidade. Trata-se
da relação fantasmática que se elabora com um "véu" através
dessa experiência de divisão, de codificação e simbolização
daquilo que provém do Outro absoluto, desse Outro real.
Para finalizar, é graças a essa operação de divisão que,
apesar da foraclusão do real, o sujeito da ciência ratifica, re-
petindo com Lacan de "A ciência e a verdade", o que se define
como princípio de realidade ou, em outras palavras, como
fantasia. Através dos caminhos que se encontram e divergem
entre esta construção "bem sucedida" da ciência (a partir da
foraclusão do real da ciência) e a fantasia delirante do psicótico,

128
Sobre a psicose

caberia ainda nos questionarmos sobre o lugar que este últi-


mo ocupa ante esta dita rejeição da realidade. Ante esse corte
imanente à própria constituição da realidade, com quais sig-
nificações o psicótico pode responder a este Real? Sem dúvi-
da, essas questões nos concernem já que "não podemos recuar"
diante da psicose ou, ao menos, devemos apostar em outras
respostas e fantasias que não a edípica a fim de que um trata-
mento para esta seja possível.

129
Equilíbrio psicótico, praticável e
metáfora delirante 1
Ginette Michaud

Como se estabelece um equilíbrio psicótico quando, antes que


intervenha a "cascata" dos remanejamentos significantes, um
pai é chamado para o lugar da foraclusão do Nome-do-Pai?
Esta função é, por assim dizer, segunda (mas de modo algum
secundária) em relação àquela anteriormente proposta por
Lacan: qual é o elemento que vem romper este equilíbrio,
semelhante à base precária que um banquinho com apenas
três pés ofereceria ao sujeito?
O paradoxo está no fato de que muitas vezes afirmamos
que a metáfora delirante permitiria ao sujeito encontrar -
ou reencontrar - um tipo de equilíbrio precisamente quan-
do este já existe sob a forma de ausência da dissociação, gra-
ças ao que eu chamaria, utilizando de outro modo a expres-
são cunhada por Jean Oury, ou Jacques Nassif, um praticável:
identificação imaginária e operatória de uma função que a
maior parte do tempo estabelece uma relação ao outro para
numerosos pacicntes. 2 Mas como sustentar a identificação
imaginária no praticável, a fim de manter o equilíbrio sem se
perder na confusão? Lacan nos indica o seguinte: "É a uma
certa maneira de manejar a relação analítica, que consiste em
autenticar o imaginário, em substituir o reconhecimento no
plano simbólico pelo reconhecimento no plano imaginário,

1
Do original "Equilibre psychotique, praticable et métaphore
délirante". Texto escrito a partir de uma conferência sobre psicanálise
e clínica das psicoses em novembro de 1994.
2
rala-se também de função de suplência, termo que me parece não
muito apropriado.
Jod Birman (org.)

que devemos atribuir os casos muito conhecidos de


desencadeamento bastante rápido de delírios mais ou menos
persistentes e às vezes definitivos".
De um ponto de vista gramatical, o assim denominado
praticável pode ser considerado como uma hipóstase, ou seja,
uma maneira de substantivar um adjetivo que em geral quali-
fica alguém, algum objeto ou lugar. Tomando por referência
o Littré, o praticável é aquilo que permite que se passe em seu
caminho, que se prossiga, haja o que houver, em sua estrada.
Segundo seu uso nas técnicas cênicas, ele é o suporte
articulado fixo ou móvel cm que o cenário será montado, o
gründ do palco, ilusão de vida com todas as suas característi-
cas, modelo da especularidade em ato e modelo de toda "re-
presentação", o elemento análogo aos espaços de situações:
as portas são falsas portas, mas mantêm a sua função: a de
entrar e sair de cena. Elas se fingem de porta, lugar da passa-
gem entre o fora e o dentro. Tomado como substantivo, o
praticável designa um objeto que não é "apenas pintado". Dito
de outra forma, um objeto cujo sentido não pode ser reduzido
ao de uma mera ilusão.
De um ponto de vista semântico, descobrimos nessas
definições antigas do praticável algo que se ajusta às nossas
próprias concepções. O praticável é em primeiro lugar o qua-
dro do imaginário, e também o lugar da repetição, do mesmo
e do diferente: é o mais-além da cena, "a outra cena", cuja
única existência é aquela conferida pela atuação dos atores.
Este lugar pode ser concebido como aquele de um "vazio de-
limitado", pois habitado pela fantasia (/antasme), lugar pro-
blemático no psicótico, uma vez que o praticável não pode
sustentar representações que não estejam inseriras na cadeia
dos significantes.
Poderia o estabelecimento de um espaço em que se cons-
trói um dispositivo sustentar o sujeito para que ele mantenha
o equilíbrio psicórico fora do delírio e da passagem ao ato?
Não podemos deixar de nos perguntar: já que um traço fun-
damental autenticando o simbólico não pôde se inscrever,
como se fará seja a estruturação do sujeito, seja a sua retomada?

132
Sobre 3 psicose

É aqui, uma vez mais, que nós recorreremos à noção de prati-


cável, a qual nos permite apreender, tanto no espaço do trata-
mento como no espaço institucional, a importância de identi-
ficações imaginárias improvisadas pela introdução de traço
unário. Retomando a expressão de Lacan, identificações que
têm o valor de "bengalas". Bengalas que sustentam o espaço
psíquico e permitem à estrutura do sujeito "funcionar" sem
ter de reenviar para o real todo significante que possa evocar
o significante que falta.
A ruptura de equilíbrio pode sobrevir quando o lugar do
significante paterno é visado, e não somente quando "um pai"
- e que pai? (Pommier, 1993) - aparece, mas quando há
uma colusão entre este lugar e o praticável identificatório in-
troduzido para manter a estrutura sem crise (Calligaris, 1993).
Dentre vários casos, tentei identificar essa oscilação do
equilíbrio a propósito de uma paciente cujo tratamento
correspondeu, em determinados momentos, a uma oscilação
cm torno do significante assassinato do (pelo) pai, que ao mes-
mo tempo fez advir o que estava foracluso: o assassinato do
filho (Henry, 1994) pelo pai assassino, que age não sobre a
casrraçáo simbólica, mas sobre a castração imaginária, a
emasculação ou seu equivalente: mutilação e morte. Na teoria
analítica, o assassinato do filho não tem o peso do assassinato
do pai e esse fato mobilizou alguns pesquisadores, dentre eles
A. Henry, que se interroga sobre a escolha dos mitos funda-
dores na psicanálise, ainda que nos livros de doutrina os parri-
cídios sejam raros e os assassinatos de crianças, inúmeros.
Dito de outro modo, constatei, na oscilação do sentido
em torno do assassinato do pai ou do filho, a aparição desta
representação acompanhada de um estilhaçamento da ima-
gem narósica, um momento de dissociação e temas delirantes
de intrusão ou de aniquilamento, assim como uma metáfora
delirante. Uma vez instalada, esta última trouxe à tona a re-
presentação da morte do filho: lembrança traumática de um
ataque ao filho tendo provocado um episódio autista.
No caso de Josefina, o ataque ao corpo intervém em um
movimento de necessidade de recentragem da identidade e

133
Joel Birman (org.)

da limitação entre o desejo do outro e o seu próprio: momento


em que a solidez do praticável sofre um abalo em seu ponto
de segurança.
No discurso desta paciente, este ataque ao corpo se ma-
nifesta através dos significantes que retomam o movimento
coréico representado inicialmente por um duplo sentido que
não pode ser retomado em um movimento neurótico (hu-
mor) e provoca uma inquietante estranheza, cuja perplexida-
de é uma de suas manifestações.
Josefina desenvolverá uma metáfora delirante em um
momento de sua vida no qual perante sua tia se manifesta a
transgressão relativa a seu trabalho, ttansgressão de uma lei
que não pode mais promulgar o pai morto e resultado de um
contrato em que sua própria palavra é lei: um compromisso
contratual. O "Um pai" é a questão de sua tia que representa
a lei, o contrato: É o "com certeza, não faça aquilo". Obser-
va-se uma colusão do lugar da tia em seu lugar identificatório
no praticável (na sua vida, ela faz como a tia: morando na
casa desta, tem uma mesma profissão ligada à informática) e
seu lugar de onde significa a lei impossível (lugar da foraclusão
do Nome-do-Pai). O que me faz retomar como material este
acontecimento é não só a aparição da "máquina", como tam-
bém lembranças quase impossíveis de serem ditas em que se
encena a tentativa de assassinato do filho pelo pai violento,
ou tomado como tal por ele; algum tempo depois, este aban-
dona o ambiente familiar.

Metáfora delirante: "a máquina"


A "máquina" aparece em um momento particular de uma
ameaça exterior de invasão pela água. Quando de uma pri-
meira inundação, na qual um tapete vermelho desapareceu, o
significante uerme/ho desencadeou uma cascata de associa-
ções que conduziram à lembrança do ferimento do irmão
manchando o tapete, que ela diz ter conservado. Posterior-
mente, na ocasião do segundo acontecimento (o contratem-
po de uma infiltração no meu consultório em que "chovia"

134
Sobre a psicose

pelo teto e havia, no caso de chuvas mais forres, a necessidade


de bacias e panos de chão) o significante infiltração foi toma-
do ao pé da letra e generalizado.3
Antes de descrever os objetos que estavam na máquina
assim como a própria máquina, Josefina insistiu no fato de
que a máquina só poderia ser descrita, e não compreendida.
Em conseqüência, ela a descrevia como ela a via - é o estatu-
to deste "ver" que eu interrogava, é claro que sem poder falar
dele.
Após seus episódios delirantes em sessão, Josefina em-
preenderá uma pesquisa dos significados paternos a partir de
dois sonhos, que lhe serviram de "sinalizadores", e após ter
"abandonado" a lembrança traumática contra a qual a máqui-
na estava dirigida, qual seja, o ataque de seu pai vermelho de
cólera a seu irmão, ter unido a palavra vermelho à cor do
tapete, aquele do sangue sobre o tapete, e mais tarde do san-
gue do irmão, e narrado o episódio traumático com uma an-
gústia muito grande.
Ela pôde, graças à máquina, resistir ao ataque a seu cor-
po vivido representado pelos perigosos significantes introdu-
zidos desastradamente por mim em uma sessão anterior ao
dissociá-los dos objetos, e ao ressurgimento do traumatismo
que as representações lhe evocavam, no momento em que o
contrato reafirmado pela tia evocava a impossibilidade da re-
ferência à lei, e ao contrato, não inscrição para ela do Nome-
do-Pai em sua estrutura provocando a aparição da máquina.
No entanto, é o praticável que funcionava para ela na identi-
ficação a esta tia que lhe permitirá abandonar a máquina e
evocar sua ligação com seu pai - graças aos sonhos (narra-
dos para mim) em que ela pesquisaria os significantes deste
último - pari passu a sua progressiva aceitação do enquadre
da sessão, que, no entanto, devia manter uma certa imu-

1
Os fragmentos das sessões, apesar de sua precisão ilustrativa para os
meus propósitos, não podem ser retomados no texto, pois não guardam
quase nenhuma legibilidade para a publicação.

135
Joel Birman (org.)

cabilidade - em seu decorrer, desapareceram os momentos


limite de passagens ao ato.
O apelo ao Nome-do-Pai faz trauma. Acontecimentos
externos durante o tratamento e sob a transferência podem
evocá-lo. O apelo ao Nome-do-Pai pode ser um apelo à fun-
ção paterna interiorizada "no próprio coração" do sujeito,
ainda que nada venha solicitá-la de fora, nem um Pai real,
nem a aparição de um lugar terceiro, como propõe a teoria.
Por que neste momento a metáfora delirante se desenca-
deia? Por que logo esta, suficientemente operante para lutar
contra a dissociação na vida social, encontra na análise o ter-
reno propício para o seu desenvolvimento, como no caso de
Josefina em que a metáfora delirante intervém exclusivamen-
te no discurso mantido em sessão?
Podemos supor que existe um elo entre esse surgimento
do pai imaginado como assassino e o ataque ao corpo que se
produz quando o significante falo, "propagando-se" a partir
do lugar de sua inscrição imaginária quando da identificação
fusional ao desejo da mãe, executará seu périplo e, com a
resolução edípica, se fixará no lugar do Outro. Em um pri-
meiro tempo, esse falo circulante tem um "tropismo" corpo-
ral, já que, sendo análogo ao corpo, encontra ar um lugar de
fixação sensível - cf. as falofórias (phallophannies), por exem-
plo, a alucinação do dedo cortado e o delírio do câncer do
nariz no Homem dos lobos. Como isso é possível?
Lacan expôs com perfeição o périplo que o significante rp
deve realizar para se inscrever no lugar do Outro e, uma vez
fixado neste lugar, autenticar a inscrição da metáfora do Nome-
do-Pai. O que se passa ao nível do corpo quando o significante
falo não desempenha seu papel de significante circulante? Não
tendo o significante falo deixado o lugar do corpo do filho
para se fixar no lugar do pai, é o próprio corpo que se tornará
o terreno escolhido pelo delírio se a imagem narcísisca
estabelecida por uma relação metonímica com a mãe não é
"sólida".
Detenhamo-nos na problemática avançada por Pommier
(1993) indicando o limite das interpretações psicogenéticas e

136
Sobre a psicose

a função das teorias analíticas em vigor, por exemplo, a


foraclusão do Nome-do-Pai. Ele lembra que o pai é designa-
do não somente pelo lugar do desejo da mãe, como também
pelo triturador edípico que desemboca no assassinato do pró-
prio pai. Ele insiste sobre a importância, retomada de Lacan a
partir do Seminário, livro 3: as psicoses (1956-7), do narcisismo
da constituição da imagem do corpo; acrescentarei: na liga-
ção metonímica à mãe, mãe que limita e instaura o espaço de
jogo interiorizado, espaço metonímico em que os
deslizamentos são possíveis, como no humor, e que é impos-
sível no psicótico. O efeito humorístico provocado pelo
deslizamento dos significantes pode ser experimentado pelo
ouvinte, porém não pelo psicórico, que é sério.
"Aquilo que não foi inscrito no simbólico reaparece no
real", diz Lacan, e isto, sob forma alucinatória ou delirante,
pois isso vem do imaginário, de um espaço que é representa-
do no vivido sob a forma de imagens. Em certos casos, esses
fenômenos aparecem sob a forma de falofórias, delírios, alu-
cinações: imaginário que se inscreve no real e se impõe à rea-
lidade.
Tudo se passa como se o risco da castração - já que ela
não foi administrada no momento oportuno - sempre esti-
vesse lá como ameaça (castração no real, morte, despeda-
çamento etc.). Sendo vivida como uma espera, esta ameaça
de castração não diz respeito a um pedacinho do corpo, mas
antes ao corpo inteiro.
Em certas sociedades, sobretudo africanas, esse aprendi-
zado do luto simbólico de um pequeno pedaço do corpo é
efetuado pelos ritos de iniciação e permite evitar a irrupção
do real sobre o corpo.
O surgimento de "Um pai" no real ou uma mãe não cas-
trada, intrusiva, ameaçadora, fazendo aparecer a imagem do
pai perigoso, do pai assassino (cf. Henry, 1994), do pai ima-
ginário, convoca em seu lugar a ausência do Falo simbólico.
A fantasia de assassinato aparece com o medo de emasculação,
da violência assassina. Para que a psicose não se desencadeie
(quando existe potencialidade psicótica) é preciso que haja

137
Joel Birman (org.)

uma ligação metonímica à mãe, ao mesmo tempo defensora e


constitutiva, assim como uma ligação metafórica ao pai.
Pode ser constatado nos doentes psicóticos um equilí-
brio psicótico entre a ausência dos "Nomes-do-pai" e o esta-
belecimento da imagem do corpo como imagem narcísica una
e limitada. Uma função de praticável é necessária para consti-
tuir ou sustentar este lugar de imagem narcísica, quer dizer,
uma identificação imaginária que sustente a construção
narcísica. Se a metáfora delirante ocorre quando "um pai" ou
uma instância desempenhando sua função aparece lá onde
falta a inscrição de 'P, como se produz a identificação de
Josefina à sua tia? É no momento de vacilação do praticável
que a evocação do assassinato do filho aparece. É ao mesmo
tempo aquilo que faz vacilar. Trata-se da aparição de uma cir-
cunstância em que Um pai surge: imposição da tia para
Josefina.
Em suma, o equilíbrio psicótico indica diversos sinto-
mas evitando a dissociação: colocação em jogo de um contro-
le das palavras para fazer frente ao aumento da angústia.

Conclusão
O equihôrio psicórico pode ser restaurado se o praticável resis-
tir à catástrofe delirante e permitir a continuação da análise.
Em determinados casos, todavia, as identificações do praticá-
vel podem desaparecer durante a análise, para estabelecer uma
estrutura em que os significantes dos Nomes-do-Pai se reco-
loquem; com isso, o sujeito pode aceder a seu desejo, o que
situa a questão da estrutura em um a posteriori. O sujeito era
psicótico ou se apresentava sob um modo psicótico? Há uma
baliza diagnóstica proposta por Lacan: a existência ou não de
neologismos no discurso do paciente. Para Josefina, numero-
sos neologismos brilhavam em sua linguagem, no entanto o
praticável permaneceu em seu lugar, e apesar de sua pesquisa
a respeito dos significantes paternos, a questão da estrutura, a
meu ver, permaneceu evidente.

138
Sobre a psicose

Donde a importância, quando tão pouco sabemos ainda


a respeito da conduta do tratamento no caso dos doentes
psicóticos, de insistir na manutenção do praticável. Permi-
tam-me acrescentar que se trata de ajudar o sujeito a se man-
ter dentro da cena deste teatro, na qual sua única escolha é
confiar no ponto4 que nós somos, que não lhe reenvia senão
o eco estranhamente deformado de uma história que ele po-
deria ter feito sua, caso a língua de seu desejo não tivesse sido
anteriormente abolida.

4
N. do E. No original,souflleur. Em francês, não só 'aquele que sopra',
por extensão, o 'ponto do teatro', como também alquimista.

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Ginette Michaud
Psicanalista. Professora da Universidade Paris VII. Autora de La
Borde... um pari necéssaire (Gauthier-Villar, 1977) e Figures du
réel (Denoêl, 1999).
Joel Dor
Psicanalista. Professor da Universidade Paris VII. Autor de O pai
e sua função em psicanálise (Jorge Zahar, 1991), Introdução a
leitura de Lacan, tomos 1 e 11 (Artes Médicas, 1989, 1995) e Clí-
nica psicanalítica (Artes Médicas, 1996).
Joel Birman
Psicanalista. Professor do Programa de Pós-graduação em Teoria
Psicanalítica (UFRJ) e do Instituto de Medicina Social (UERJ).
Autor de Por uma estilística da existência: sobre a psicanálise, a
modernidade e a arte (Editora 34, 1996), Estilo e modernidade
em psicanálise (Editora 34, 1997) e Cartografias do feminino (Edi-
tora 34, 1999).
Tania Coelho dos Santos
Psicanalista. Professora do Programa de Pós-graduação em Teoria
Psicanalítica (UFRJ).
Teresa Pinheiro
Psicanalista. Professora do Programa de Pós-graduação em Teo-
ria Psicanalítica (UFRJ). Autora de Ferenczi: do grito à palavra
(Jorge Zahar, 1995) e As bases do amor materno (Escuta, 1991).
Waldir Beividas
Professor do Programa de Pós-graduação em Teoria Psicanalítica
(UFRJ). Autor de Inconsciente et verbum: psicanálise, semiótica,
ciência, estrutura (Humanitas, 1999).
lkntrc lh desafios ,ltu,1lmt:ntt·
enfrcnudm pela psica1ülise, ,1s
ps1co,es têm um lugar dcusi,·o: ,1
esse rcspciro, é possín·l n>nsidt:r.ir
11,io sú o de,lo~·amt·nto de Ct-rt.ls
manifestaçües dínicas (1üo é r.1ro
o lamento de que ,1s h1stéric1s de
Freud náo mais existem). ,1 impro-
priedade pm11.:o ,1dn·rtida do-. que
pebs P"in,st's '-t' deix.1111 aÍl'Llr,
como também a "qu.1-..t'" certez,1 de
sua in,1dcqu,11.;.io ,ws procedimento-.
psicanalíti~·o.., (a qut· ,1111or de
transfrrênci,1 o ,m,1lista dt'sej,1
respondtT ~) L' a Pl'l'"'l'nç.1 rcn i rcnre
de um t''>tr.mho sofrimento ,1lhe10
,'is \'OI1r.1dc, do clínico.
St' aparentemente ui, LOll'>l,lla~·út·s
dcscrcn:m com adcqu,1\.io os
resulr ,1do, uhtido-., eh, 11.ill dci·urn
de re\'d,u os imp,1s,t'-.. cotid,anm,
ljlll' .JS p,t(OSL'S l!llpúcm n.io ,ú ,1
seu tr.ltamcnto como 1a111hé111 ao-.
pressupo,ro.., d ,1 tcori,1 p-.ican,1lític1.
Repetida-. vezn e~ úril dnconn·r,,H,
trazendo i1 h.1ib ,1s nTd,1dc,
adquiridas. Por q11c ,iknci,H, e
apn:ndcr, se pode ser comenicnte
- curio-..,1 invcrsáo de 11<>';-;os
credo, - 11,io rt'Lll,H e p.1,s,ir a
limpo os problema-. enfrenudo,
pelos pioneiros?
De modo bre,·t·: 11.10 ,e tr,1u nem
de ,1brir 111.10 do que nos trn kg,1do
por Freud e por todo, .1qt1clt·s que
insiqiram nas conseqüê1h:i,is de ,eu
dizer, nem de ccrr.1r o, pt111hos ,1
beir.1 do j.i s,1b1do no rraumento
das psicoses.
Pois bem, é disto que o presente
livro parte. Resultado de um
trabalho conjunto de pesquisa
estabelecido entre o Programa de
Pós-graduação em Teoria
Psicanalítica, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, e o
Laboratoire de Psychopathologie
Fondamentale et Psychanalyse, da
Universidade Paris VII, os sete
trabalhos aqui reunidos
desenvolvem parte da elaboração
realizada durante os cinco anos
deste acordo. Seus temas principais:
a interpretação freudiana do caso
Schreber, a metapsicologia da
melancolia, a 'psicose lacaniana' e as
relações entre a psicose e a ciência.
Buscando repensar a psicanálise a
partir da problemática das psicoses,
é portanto insistindo na construção
de novos modos de subjetivação que
seus autores tentam avançar um
pouco mais na resposta possível que
ao psicanalista cabe inventar.

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