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3/18/2021

Orientação Profissional
Teorias Psicológicas em Orientação Vocacional
Abordagem psicanalítica:
Estratégia clínica de Rodolfo Bohoslavsky

Prof. Me. José Luís Costa


Centro Universitário Estácio de Sergipe
Aula 4a Curso de Psicologia

Objetivos da Aprendizagem

No final desta aula, o aluno deverá ser capaz de:

1. Identificar os avanços da clínica de orientação vocacional.


2. Compreender a abordagem Psicanalítica como uma importante teoria da vertente
clínica da orientação vocacional.
3. Interpretar a abordagem clínica na perspetiva de Rodolfo Bohoslavsky.

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Avanços na Clínica Vocacional (1)

A clínica vocacional já foi considerada uma estratégia de atendimento influenciada


pela psicanálise – tendo como uma das suas grandes referências Rodolfo
Bohoslavsky.

(1997) Levenfus enfatizava que a referida estratégia de atendimento não era de uso
exclusivo do psicólogo, nem tampouco se restringia ao trabalho no consultório,
podia estender-se às escolas e a outros âmbitos.

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Levenfus (2016)

Avanços na Clínica Vocacional (2)

Na altura, no que diferia a prática clínica de orientação vocacional de um


atendimento escolar?

• De acordo com Levenfus (2016), dependendo do orientador, em nada diferia!


• Chamava-se “clínica” pela abordagem técnica, através da qual o orientador
ascendia à compreensão da conduta do orientando e facilitaria, ao mesmo, o acesso
à sua própria compreensão;
• O que isto quer dizer é que o orientador vocacional anunciava a entrevista clínica
como principal instrumento para ajudar o jovem a chegar a uma decisão autônoma
(BOHOSLAVSKY, 1982 apud LEVENFUS, 2016, p. 99).

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Avanços na Clínica Vocacional (3)

O que mudou desde então?

A resposta é que foi a psicologia.

• Nos últimos anos, a ciência psicológica tem avançado, de forma acentuada, no


contexto da avaliação psicológica e neuropsicológica;
• p. ex., no Brasil, o surgimento da terapia cognitivo-comportamental, trouxe técnicas
com resultados baseados em evidências;
• Tal, permitiu a evolução da clínica vocacional.

Avanços na Clínica Vocacional (4)

Se já havia uma escuta diferenciada, o que mudou na clínica (no Brasil)?

A qualidade e a oferta de novos testes psicológicos, validados e adaptados à


população brasileira:
• Não apenas os focados no campo da OP, p. ex., a EMEP, AIP, EAE-EP, SDS;
• Mas também os que avaliam, com consistência, a personalidade e as funções cognitivas:
• Para a personalidade, p. ex.:PMK, Palográfico, Rorschach, Neo-PI, etc.;
• Para a cognição, p. ex.: e Wisconsin, WISC-IV, WAIS-III, SB, etc.
• Também mudou a clínica psicológica, com as expressivas descobertas no campo da
neuropsicologia.

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Mudança de Paradigmas no Contexto da


Orientação Vocacional (1)

• É no período próximo à adolescência que as preocupações relacionadas ao


desenvolvimento de carreira despertam nos adolescentes;
• É nesse período de desenvolvimento, que pela 1ª vez os jovens são
confrontados com a tarefa de tomar decisões importantes relacionadas ao seu
futuro profissional:
• Essa tomada de uma decisão vocacional, inclui uma gama de valores, desejos
e incertezas quanto ao sucesso dos passos a seguir.

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Levenfus (2016)

Mudança de Paradigmas no Contexto da


Orientação Vocacional (2)

A tarefa de tomar uma decisão vocacional, por parte dos consulentes, poderia ser
simples, caso o psicólogo de orientação vocacional apenas considerasse:
• Que os interesses que levam a definições profissionais se estabilizam a partir dos 15-
16 anos;
• Ou que se cristalizam por volta dos 14 aos 18 anos.

No entanto, o psicólogo de OV terá de ter em conta uma enormidade de variáveis internas e


externas, como p. ex.:
• O contexto socioeconômico, as expectativas sociais, a dinâmica familiar, as competências
cognitivas, o estabelecimento de uma identidade suficientemente integrada com justa
percepção de autoeficácia e autoconceito, traços de personalidade, etc.

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Mudança de Paradigmas no Contexto da


Orientação Vocacional (3)

Importa também salientar que é preciso considerar aspetos relacionados com a


neuropsicologia:
• A maturidade neuronal do lobo frontal atinge a sua maturação por volta dos 16
anos, i.e., no momento em que ocorre a transição do ensino médio para o superior
– não esquecer que essa maturação está intimamente ligada aos processos de
resolução de problemas e tomada de decisão.

Mudança de Paradigmas no Contexto da


Orientação Vocacional (4)

Tendo em conta os fatores elencados anteriormente

O psicólogo de OV, sempre que receber um jovem com a demanda de OP, deverá
avaliar com fins diagnósticos, o motivo que leva o consulente à indecisão:
• Esse ponto de partida é essencial, não apenas no delineamento de estratégias de
atendimento, mas na definição de encaminhamentos que se tornem necessários;
• Esta etapa, é considerada por Bohoslavsky (1982) como diagnóstico de
orientabilidade.

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A Abordagem Psicanalítica na OP

Ao longo do séc. XX, várias teorias foram fundamentando as práticas vinculadas à


relação homem-trabalho, como é o caso das teorias psicodinâmicas:
• Estas teorias contribuíram para a criação de uma visão contextualizada do indivíduo e
são alicerçadas:
• Na psicanálise; na teoria de satisfação de necessidades (Maslow) e no
pensamento estrutural, tendo como base tipos de personalidade.

De acordo com Bohoslavsky (1996), as referidas teorias são guiadas por uma abordagem
estática, entendem que as profissões requerem aptidões específicas impossíveis de ser
mensuradas.

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A Abordagem Psicanalítica na OP

▪ A psicanálise constitui-se como uma fonte teórica do trabalho em OP na clínica:


▪ Conceitos de instâncias psíquicas: ego, id e superego;
▪ Ideia do inconsciente atuante, dinâmico, que se expressa:
▪ Em sonhos, atos falhos, sintomas;
▪ Mas também em todo o sistema de percepção do mundo e expressão pessoal,
mediante a busca de objetivos que colocam em jogo motivações e desejos profundos.

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O processo clínico de OP (1)

Ao se utilizar a perspetiva clínica, acredita-se que se está a enriquecer o processo de OP,


na medida em que nele o consulente pode perceber-se como centro do trabalho a ser
desenvolvido e da escolha que será (ou não) realizada;

Na abordagem psicométrica (modelo de ciência que toma como verdade tudo aquilo que possa
ser observável, medido, categorizado e repetido por qualquer outro “cientista”, em qualquer lugar
do mundo), p. ex., é esperado que haja uma conclusão e de preferência satisfatória;

Dentro da perspetiva clínica, a resposta pode ou não acontecer, dependerá da construção


e desenvolvimento seguido pelo consulente, que pode reconhecer-se num momento que
seja inviável optar por uma profissão ou curso.

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Torres (1998)

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O processo clínico de OP (2)

▪ O método clínico recebeu influência:

▪ Da psicanálise (Escola Inglesa e da Psicologia do Ego);

▪ Da teoria desenvolvimental de Donald Super;

▪ Das técnicas de cunho não diretivo preconizadas por Carl Rogers.

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Abordagem Clínica

Perspetiva de Rodolfo
Bohoslavsky

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Rodolfo Bohoslavsky

• Bohoslavsky nasceu em 1942, na Baía Blanca, no Sul da


Argentina;
• Estudou na Universidade Nacional de Bueno Aires, onde
terminou o curso de Psicologia (em 1966), tendo sido
convidado para lecionar lá;
• Deu início a um trabalho pioneiro na área de orientação
vocacional, tendo enfrentado muitas resistências na aceitação
dos seus pontos de vista:
• Principalmente das alas mais conservadoras da
psicologia argentina, muito ligadas às tendências
psicométricas;
• Mesmo assim levou avante as suas ideias tendo criado a
abordagem clínica.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (1)

▪ A estratégia clínica de Rodolfo Bohoslavsky (no que concerne à OV):


▪ O autor trás uma visão clínica psicanaítica e crítica (com ênfase na alienação que o
trabalho provoca nos indivíduos);
▪ Foi concebida inicialmente para ser desenvolvida com jovens em situação de
escolha profissional;
▪ Concebe a decisão profissional como uma situação típica que o jovem deve
enfrentar até chegar a uma opção pessoal e responsável;
▪ As entrevistas são os principais recursos a serem utilizados pelo psicólogo, numa
posição não mais diretiva, uma vez que o consulente pode elaborar a própria
decisão, i.e., emerge uma crítica do autor à abordagem estatística.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (2)

▪ Bohoslavsky caracteriza a orientação vocacional como um processo de


colaboração não diretiva com o cliente;
▪ Ajudando-o a estabelecer uma identidade profissional e promovendo o
estabelecimento de uma imagem não conflitiva com a sua própria identidade
pessoal;
A iniciativa do autor abriu caminho para novas concepções acerca da escolha
profissional, além de marcar a adolescência como momento priveligiado para
que essa escolha venha a ocorrer.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (3)

▪ A escolha é um direito do orientando, por isso o psicólogo, além das


competências técnicas e sociais, necessita:
1. Ter uma visão compreensiva e ampla dos problemas da juventude;
2. Estabelecer relações causais entre os diversos fenômenos que ocorrem ao longo
do processo;
3. Distinguir entre problemas vocacionais e demais problemas da personalidade;
4. Investigar/analisar preocupações e temores do orientando: “escolher uma
profissão para o adolescente é viver o futuro no presente”.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (4)

▪ De acordo com Bohoslavsky (1996), o processo de OP, baseado na modalidade


clínica, visa:
▪ Facilitar ao orientando o seu autoconhecimento e conscientizá-lo da
responsabilidade das suas decisões;
▪ Ajudar o orientando na construção de uma identidade ocupacional e
integração de aspetos das identificações que servem à função defensiva,
tornando-as benéficas ao processo de escolha profissional e permitindo a
elaboração de conflitos e ansiedades relativas ao futuro.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (5)

▪ Esta modalidade é denominada de “Modelo de Avaliação Psicológica


Centrado no Processo”;
▪ Valendo-se, sobretudo, de entrevistas psicológicas, facultando o uso de testes
psicológicos;
▪ Quando os testes são adotados, voltam-se para a avaliação de aspetos como:
maturidade vocacional, indecisão, exploração, bem estar psicológico, influência
familiar, dentre outros.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (6)

▪ Bohoslavsky identifica três grandes momentos no processo da orientação


vocacional:

1. O da eleição fantasiada, que vai da infância até à adolescência;


2. O da tentativa da escolha profissional durante a adolescência;
3. O da escolha definitiva e da eleição realista, que se desdobra:
• Na exploração de uma área de realidade profissional;
• Cristalização de um vínculo com uma área de realidade profissional e social;
• Especificação do vínculo com uma área da realidade profissional.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (7)

▪ Principais etapas:
1. Entrevistas abertas;
2. Elaboração de uma hipótese diagnóstica;
3. Elaboração de um prognóstico;
4. Informação ocupacional.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (8)

1. Entrevista(s):
▪ Inicial:
▪ Permite ao psicólogo a compreensão da problemática do consulente e facilitará
o seu acesso a uma melhor compreensão de si;
▪ Possibilita: construir um vínculo; apresentar o enquadre; construir um espaço
que propicia o autoconhecimento e elaborar hipóteses diagnósticas.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (9)

2. Hipóteses diagnósticas – devem ser considerados aspetos psicodinâmicos, tais


como:
▪ Índice de maturidade, identificações com o grupo familiar, percepções valorativas do
próprio grupo profissional, a problemática vocacional da família, a identificação com
determinados grupos profissionais, mecanismos de defesa utilizados (p. ex., negação
e projeção).
• Diagnóstico:
▪ Tem o objetivo de evidenciar “os fatores intervenientes no processo de escolha, sejam
eles de ordem social, educacional, familiar e/ou psicológica, conscientes e/ou
inconscientes”;
▪ Entrevista Devolutiva:
▪ Tem o objetivo de discutir e integrar todas as etapas do processo.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (10)

3. Prognóstico de orientabilidade:
▪ O enfrentamento do conflito permite ao cliente elaborar perdas, lutos e outras
dificuldades, além de o ajudar na compreensão da situação que enfrenta,
resolvendo as ansiedades subjacentes a fim de estabelecer de maneira autônoma
a sua identidade profissional.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (11)

4. Informação ocupacional (profissional):


▪ Pesquisa desenvolvida pelo consulente e discussão do levantamento com o orientador;
▪ Cabe destacar que, mais importante do que realizar a escolha por uma carreira
específica, é o consulente adquirir ferramentas que lhe permitam realizar as diversas
escolhas ao longo do seu trajeto profissional.

▪ Nesta perspetiva, o trabalho de OP é caracterizado como:


▪ Uma intervenção psicoprofilática, através da qual se pretende promover o
desenvolvimento das potencialidades do consulente, o seu amadurecimento, para
que ele se possa realizar profissionalmente.

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Abordagem clínica:
Perspetiva de Bohoslavsky (12)

▪ A Orientação Profissional contempla três esferas institucionais distintas:


1. Família;
2. Escola;
3. Sociedade.
▪ Para Bohoslavsky o importante seria reforçar a identidade profissional, i.e., a
autopercepção no decorrer do tempo, em termos de papéis ocupacionais, sendo
que:
▪ A atividade profissional seria o conjunto de expectativas do papel assumido;
▪ O papel profissional seria a sequencia pautada de ações apreendidas, executadas pelo
consulente numa situação de interação.

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TPC (sugestão de leitura)

Como prática de estudo autónomo, o aluno deverá ler o artigo de Puertas e Hashimoto
(2015) (a profissão como objeto: apontamentos psicanalíticos sobre o tema da escolha profissional)
e o texto complementar sobre a perspetiva de Bohoslavsky, disponibilizados no Teams pelo
professor da disciplina.

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Referências

BOHOSLAVSKY, R. Orientação Vocacional: a estratégia clínica. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
LEVENFUS, R. S.; SOARES, D. H. P. (Cols.). Orientação Vocacional Ocupacional: novos achados
teóricos, técnicos e instrumentais para a clínica, a escola e a empresa. Porto Alegre: Artmed, 2002, cap.
5.
LEVENFUS, R. S. (org.). Orientação vocacional e de carreira em contextos clínicos e educativos.
Porto Alegre: Artmed, 2016, cap. 6.
PUERTAS, K. C. P.; HASHIMOTO, F. A profissão como objeto: apontamentos psicanalíticos sobre o
tema da escolha profissional. Revista Unifama, Maringá, 2015. Disponível em
file:///C:/Users/jluis/Downloads/silo.tips_a-profissao-como-objeto-apontamentos-psicanaliticos-sobre-o-
tema-da-escolha-profissional-1.pdf. Acesso em 22 jan. 2021.
TORRES, M. L. C. O processo clínico de orientação profissional. Rev. ABOP, Porto Alegre, v. 2, n. 2, p.
29-37, 1998 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-
88891998000200003&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 22 jan. 2021.

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