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Da lojinha para a logística

Jornal Valor Econômico


Por Daniela D'Ambrosio

Em uma mesa de jantar bastante ampla, em um apartamento de decoração clássica no


coração dos Jardins, Lourenço Chohfi acomoda-se na cabeceira. Aos 86 anos, ele não ocupa o
lugar apenas por gentileza dos filhos e netos. O empresário continua, ativa e
inquestionavelmente, no comando dos negócios da família. A perfeita figura do patriarca é
revelada não apenas por sua atitude firme e determinada - que persiste, apesar da saúde
debilitada - como também pelo olhar e comportamento respeitoso da esposa, dos filhos e dos
netos.

Conservador, Lourenço Chohfi não aceita parceria com fundos de investimentos e nunca recorre aos bancos: "Meu
pai me ensinou a compra tudo à vista

A memória quase não lhe trai, mas Lourenço prefere a segurança e a certeza dos fatos
registrados em documentos e recortes antigos para relembrar a história da família. Pede,
algumas vezes, pelos papéis e, mesmo enquanto não chegam, começa a contar, com
propriedade, a trajetória dos Chohfi. Com a dedicada atenção de sua esposa - dona Beatriz não
sai de seu lado - de dois filhos, quatro netos e alguns assessores, Lourenço volta no tempo.
Dispensa ajuda e, quase sempre, interrompe quem cruzar suas palavras. No que é,
invariavelmente, acatado.

Lourenço Chohfi, com ajuda dos filhos e netos, se reinventou no mercado imobiliário. A
Sociedade de Armazéns São Lourenço surgiu quase naturalmente por conta dos imóveis,
terrenos e armazéns. Um deles era uma antiga fazenda de seis milhões de metros quadrados,
na zona leste de São Paulo. Uma parte foi vendida para a construção de residenciais e outra
transformou-se em uma área de galpões, alugadas para indústria. Foram visionários ao
explorar um setor que, atualmente, é um dos mais procurados e disputados por investidores.
O bom e velho armazém ganhou a grife de condomínio logístico.
E tanto Lourenço pai, como o filho mais velho - também Lourenço - e netos sabem disso. A
empresa imobiliária da tradicional família de ascendência síria prepara uma tacada mais
ousada. Pretendem investir R$ 480 milhões em um empreendimento que fica em um terreno
de 1 milhão de metros quadrados na cidade de Nova Odessa, no quilômetro 118 da Rodovia
Anhanguera - o Parque São Lourenço II. Capaz de abrigar 100 empresas, a primeira fase do
projeto prevê entrega de 100 mil metros quadrados de área bruta locável. Bem diferente dos
antigos armazéns, o empreendimento de galpões logísticos tem todas as especificações que a
nova nomenclatura exige: pé direito alto, piso com maior resistência e módulos de galpões.

O imigrante sírio Ragueb Chohfi chegou ao Brasil em 1904, foi mascate e montou uma das primeiras lojas na rua 25
de Março. Foi com o pai que Lourenço aprendeu a fazer negócios.

O terreno foi comprado pelo senhor Lourenço, depois de mais de quatro anos de pesquisa.
"Íamos todas as semanas para o interior para procurar área", afirma Lourenço Chohfi Filho. A
situação agora é outra. Os condomínios de galpões estão, sim, em evidência, mas a
concorrência - sobretudo nesse eixo rodoviário - também é muito maior. Trata-se de um
negócio cada vez mais profissionalizado no mercado imobiliário, com empresas de grande
porte, como MRV e WTorre. Segundo estudo da consultoria Herzog, 71% dos condomínios
logísticos estão no Estado de São Paulo e boa parte na região de Campinas.

A família conta com a ampliação de Viracopos, o trem-bala e o desenvolvimento do polo


industrial de Campinas e região para viabilizar o negócio. "Os terrenos estão muito caros em
São Paulo", diz Lourenço Chohfi. "Haverá um deslocamento importante para o interior",
emenda o filho. O neto é mais direto "Queremos atrair os fornecedores da Replan, maior
refinaria da Petrobras e da Hyundai, em Piracicaba", diz Bruno Chohfi.

É nesse novo negócio que a confluência entre as diferentes gerações fica bem clara. Quando o
assunto é o novo empreendimento, o senhor Lourenço sabe ceder a vez. Ouve filhos e netos
mostrarem cada detalhe do projeto. Mas assuntos técnicos não parecem tão interessante para
o negociante nato.
Os netos Lourenço, Bruno e Marcelo - os dois primeiros formados em engenharia civil e o
terceiro em administração de empresas - falam com desenvoltura do negócio. A neta,
Gabriela, filha de Cláudia, responsável pela área financeira, é quem cuida do marketing. Estão
conversando com possíveis clientes para projetos sob medida, o chamado build to suit. Mas a
ideia é atuar também no chamado mercado especulativo e construir galpões modulares,
divididos em condomínios. "Não queremos atuar apenas em distribuição. Vamos usar o
modelo de flex building para a área de tecnologia", diz Bruno.

A mentalidade conservadora da família persiste nas gerações seguintes: segundo eles, foram
assediados por fundos interessados em entrar em sociedade no empreendimento de Nova
Odessa, mas recusaram. "Também não pegamos empréstimos, é tudo capital próprio", afirma
Lourenço Filho. "Meu pai me ensinou a compra tudo à vista", lembra o patriarca.

A participação da família nos negócios vai mais longe. Lourenço, Bruno e Marcelo acabam de
montar uma construtora, cujo primeiro contrato é justamente a obra do Parque Industrial São
Lourenço.

Além dos parques industriais, a família é proprietária e faz a gestão de vários imóveis: dois
grandes prédios na região da 25 de Março - um deles onde está a sede da empresa - um
edifício de escritórios na Faria Lima e vários outros terrenos e imóveis.

Embora tenha participado da compra do terreno e faça questão de comparecer na sede da


Sociedade São Lourenço todos os dias pela manhã, Lourenço Chohfi gosta mesmo é de falar
dos tempos da companhia têxtil.

Sua trajetória começou ainda garoto, aos 16 anos, na expedição e depois como balconista e
gerente da empresa do pai, então uma pequena loja de tecidos na 25 de Março. Conta, com
boa dose explícita de saudosismo, da época em que presidiu a Cia Têxtil Ragueb Chohfi,
atacadista de tecidos.

Nessa fase, a companhia fundada por seu pai em um dos primeiros endereços da rua 25 de
Março chegou a ter mais de mil funcionários. No auge, vendia 13 milhões de metros de tecidos
e reuniu perto de 15 filiais em todo o Brasil, de Porto Alegre a Fortaleza. Vendia tecido a
metro, camisetas, roupas infantis e artigos de cama, mesa e banho e tinha como fornecedores
empresas como Hering, Coteminas, Santista, Vicunha e Cia Cedro Cachoeira. "Éramos grandes
distribuidores de tecidos, tínhamos mais de 50 mil clientes", relembra Chohfi. Não esconde o
ressentimento pelo fim da empresa. "Fomos grande importadores de produtos chineses, mas
quando eles começaram a se estabelecer aqui como lojistas, ficou muito difícil", conta o
empresário 70 anos depois daquele início. "Eles vendiam mercadoria no preço que a gente
comprava, era impossível concorrer." Sobre o momento em que o negócio faliu, ele prefere
calar-se. "Pagamos todo mundo e fechamos as portas", resume.

Além da empresa, também tem especial orgulho em falar do pai. Ragueb Chohfi, falecido em
1983, é um dos fundadores da rua 25 de Março, a mais tradicional do comércio paulistano. Na
gestão Jânio Quadros, ganhou uma praça com o seu nome nas imediações. "Meu pai chegou
aqui sem nada e começou como mascate", orgulha-se. Ragueb Chohfi foi um dos fundadores
do Club Homs, que leva o nome da sua cidade natal, na Síria.

Família influente na comunidade, Lourenço foi presidente do Esporte Clube Sírio por duas
vezes e, durante mais de 40 anos, trabalhou na área financeira do Hospital Sírio Libanês, foi
fundado pela avó de sua esposa. Também foi presidente da Câmara Árabe Brasil por duas
vezes. "Ele sempre fez trabalhos voluntários", faz questão de ressaltar a esposa Beatriz.

Os netos, assim como o filho, não tomam decisões importantes sem consultar o pai.
Renegociações de contrato passam por ele. Aquisição de novas áreas, idem. Até a foto que
ilustra esta página só foi marcada com o consentimento do senhor Lourenço. O cargo de
presidente da companhia, assim como o título de patriarca, cabem-lhe perfeitamente. E o
lugar na cabeceira na mesa também

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