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Anais do SEFiM, Porto Alegre, V.02 - n.2, 2016.

A vida do compositor Elpídio Pereira e a normativa paulista da


Primeira República (1890-1930)

The life of Brazilian composer Elpídio Pereira and legal norms from
São Paulo in the First Republic (1890-1930)
Palavras-chave: Normativa; Primeira República; Concertos.
Keywords: Legal norms; First Republic; Concerts.

Rafael de Abreu Ribeiro


Universidade de Brasília
rafaelribeiro@ymail.com

Durante uma pesquisa sobre a relação entre música e poder público ao longo da Primeira
República na cidade de São Paulo, foram encontradas diversas normas versam sobre a
atividade musical. Tais atividades podem ser atividades fim, como realização de concertos,
ou mesmo atividades transversas que afetam a área, como impostos sobre instrumentos ou
outras relações comerciais. Nesta pesquisa, a música é sinônimo de “arte como segmento
econômico”, precisamente por meio da “sedimentação do universo cultural como atividade
econômica estável” (MORAES, 2013, p. 28). Das 133 normas encontradas, apenas dois
músicos são explicitamente relacionados com a atividade fim. São eles João Gomes de
Araújo, contratado para realizar uma montagem de sua ópera “Maria Petrowna”, e Elpídio
de Britto Pereira, um compositor contratado para realização de três grandes concertos em
São Paulo. A partir dessas normas referentes ao compositor Elpídio Pereira, decidiu-se in-
vestigar a vida do próprio compositor para tentar estabelecer uma relação sua com o poder
público. Nascido em Caxias, cidade do Maranhão, em 1872, Elpídio foi enviado a Paris
pela família para completar seus estudos musicais. Por causa de dificuldades financeiras,
ficou apenas três anos, retornando em 1893. Durante cinco anos, realizou concertos em
Belém-PA, São Luís-MA e Manaus-AM, onde se estabeleceu mais firmemente. Em 1898,
seu amigo Raul de Azevedo, chefe do Gabinete do Governador, ofereceu-lhe uma pensão
do estado para continuar os estudos em Paris. Elpídio prontamente aceitou. A pensão foi
renovada durante a estada em Paris; o compositor só retornou ao Brasil em 1903, realizan-
do alguns concertos na capital do Amazonas como forma de agradecimento. A partir daí,
seguiu em turnê pelo Brasil, ficando uma temporada no Rio de Janeiro. Passou, por volta
dos anos 1904 ou 1905, algum tempo em São Paulo, a fim de organizar um concerto. En-
tretanto, segundo seus próprios relatos, São Paulo não possuía uma orquestra permanente;
contaria apenas com músicos de uma orquestra do Teatro Santana que viajariam numa
data próxima. Elpídio antecipou o concerto, patrocinado por amigos, juristas e outros
empresários da cidade. Assim o classificou: “meu concerto foi um fracasso: orquestra in-
diferente, quase sem ter sido ensaiada, e a assistência regular, mas não suficiente...” (PE-
REIRA, 1957, p. 61). Novamente, retornou para mais o Rio de Janeiro e, após uma nova

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temporada, seguiu para Manaus. Lá, o governador Constantino Nery lhe prometeu um
auxílio de cinquenta contos de réis para terminar seus estudos em Paris. Com o passar dos
anos, Elpídio desconfiou que esse auxílio não vingaria e procurou o Barão do Rio Branco.
Este lhe orientou a enviar um projeto ao Congresso Nacional. Em fim de 1912, o projeto
foi aprovado, a lei foi sancionada em janeiro de 1913 pelo Marechal Hermes da Fonseca.
A pensão lhe fora garantida até o fim de 1915. Ao retornar ao Brasil, o compositor diz
que passou uma temporada difícil. Em suas palavras: “ora em São Paulo, onde realizei três
concertos populares subvencionados pela Prefeitura, ora no Rio sempre lutando contra
aperturas financeiras... decepção de toda maneira” (PEREIRA, 1957, p. 84). É aqui neste
ponto que sua vida se cruza com a normativa paulistana. Segundo a Resolução n. 156, de
20 de agosto de 1920, a prefeitura de São Paulo destinou 9:000$000 para a realização de
“três grandes concertos sinfônicos e vocais, devendo a orquestra ser composta de mais de
cinquenta figuras”, além de cederem gratuitamente o Teatro Municipal com luz e pessoal
(SÃO PAULO, Publicados originalmente entre 1892-1930). O Ato. 1.523, de 23 de de-
zembro de 1920, autoriza o pagamento daquela quantia ao compositor. Nota-se que El-
pídio nomeou a empreitada de “três concertos populares subvencionados pela Prefeitura”,
ao passo que a própria Resolução n. 156 chama-a de “três grandes concertos sinfônicos e
vocais”. Infelizmente, não há qualquer menção ao repertório interpretado nas ocasiões,
nem mesmo menção à data específica. Note a distância entre a Resolução n. 156, agosto de
1920, e o Ato 1.523 que autoriza o pagamento da mesma, de dezembro de 1920. Como
uma conclusão, fica evidente que o compositor abraçou muitas oportunidades oriundas do
poder público. Primeiramente, aceitou uma bolsa de estudos oferecida pelo estado Ama-
zonas. Esta bolsa, originalmente concedida em 1898, foi renovada, vindo a durar até o fim
de 1903. Logo após, o compositor teve uma segunda bolsa prometida pelo mesmo estado,
mas não vingou. Procurou uma alternativa junto ao Congresso Nacional que aprovou o
envio do compositor à Europa. Quando retornou, teve algumas apresentações parcial ou
completamente patrocinadas pelo poder público, como foi o caso daquelas três apresen-
tações na cidade de São Paulo. Este foi o fim de sua carreira como músico profissional e
compositor no Brasil. A partir daí, seguiu como auxiliar no consulado brasileiro em Paris,
ainda mantendo atividades musicais paralelas à sua carreira diplomata naquele país, onde
ficou até se aposentar. São poucas as informações obtidas no material analisado capaz de
delinear uma relação precisa entre um homem e o estado, mas é inegável que houve uma
participação do poder público, utilizando-se dos dinheiros de impostos, para patrocinar
atividades musicais e mesmo bancar os estudos e carreira de um músico.

Referências
MORAES, Julio Lucchesi. São Paulo: capital artística: a cafeicultura e as artes na belle époque
(1906-1922). Beco do Azougue, 2013. 241 p.
PAULO, São. Normativa da Câmara Municipal de São Paulo. Disponível em: http://www.camara.
sp.gov.br/atividade-legislativa/legislacao/leis-e-outras-normas/: Acessado em: jan. 2015. Publicados
originalmente entre 1892-1930.
PEREIRA, Elpídio de Britto. A música, o consulado e eu: memórias de Elpídio Pereira. Rio de Ja-
neiro: 1957.

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