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Projeto Político

Pedagógico Calabriano
Elementos orientadores da ação calabriana
no campo da educação
Projeto Político
Pedagógico Calabriano
Elementos orientadores da ação calabriana
no campo da educação

Elaborado pelo Setor Educação da Delegação


Nossa Senhora Aparecida

Porto Alegre
Maio de 2010
Sumário

Apresentação................................................ 7

Introdução.................................................. 9

I - Resumo Biográfico de São João Calábria............ 13

II - Aspectos Gerais da Obra Calabriana................ 19

III - A Obra no Mundo - A Obra no Brasil.............. 25

IV - Carisma e Missão da Obra.......................... 31

V - A Pedagogia de Deus na Intuição


de São João Calábria............................... 37

VI - Mística............................................. 45

VII - A Mística de São João Calábria................... 49

VIII - Plano Circunstancial............................. 57

IX - Diagnóstico. ....................................... 95

X - Conclusão. ....................................... 101

Referências Bibliográficas................................ 105


Apresentação

É com imensa satisfação que apresento este trabalho, fruto de


muitos processos e desejado há muito em nossa Delegação. O projeto
pedagógico quer ser uma forma de interpretar e enxergar novas
perspectivas de mundo numa dinâmica processual. Por isso, ele não
é fechado, mas passível de acréscimos e contínuo “devir”. Antes, é
necessário que seja continuamente revisado e atualizado.
Sabemos que a escola não é e nem pode ser uma ilha isolada no
oceano social. Não é um lugar para guardar as crianças ou reformá-
las, embora possa ajudar, orientar e até alimentar. A escola não é um
paraíso e nem um inferno. Ela não está ai por acaso. Por isso, ela é este
espaço fecundo de cidadania e geração de vida.
Queremos deixar bem clara a identidade cristã-católica de nossas
escolas e nelas, dentro do princípio do respeito aos diversos credos e às
opções das pessoas, possibilitar o desabrochar do pensamento cristão-
católico e da Doutrina Social da Igreja. Acreditamos que este caminho
seja eficaz na construção de uma sociedade pautada pela justiça e de
homens e mulheres novos.
Desejamos que este instrumento possa ajudar a dar unicidade às
nossas ações dentro do campo da educação e indicar nosso horizonte
de maneira mais clara e objetiva.
Agradecemos ao Setor Educação pelo lindo trabalho realizado e a
todos quantos contribuíram para que ele se tornasse realidade.
Agora é preciso tomá-lo em mãos e fazer com que se torne
instrumento de leitura, reflexão, debates... em todos os nossos
ambientes educacionais.
Que São João Calábria, nosso modelo de educador, seja nossa
força nesta tarefa árdua, desafiadora e sublime.

Pe. Jailton de Oliveira Lino

7
Introdução

O Projeto Político Pedagógico Institucional é a alma de uma


instituição educacional. Quando a Congregação Pobres Servos
da Divina Providência no seu X Capítulo Geral decidiu assumir o
propósito de um retorno às suas fontes, com o tema: “O retorno para a
Galileia”, sugeriu uma revisão de si mesma no seu SER e FAZER. Esse
retorno é uma retomada do seu Projeto Político Pedagógico, mesmo se
não é assim chamado.
A Delegação Nossa Senhora Aparecida, acolhendo esta proposta,
organizando-se em setores específicos, quer facilitar este retorno de
uma maneira comprometida, reassumindo a sua missão de evangelizar
do jeito de Jesus.
Nós, do Setor Educação, no cumprimento de nossa primeira
missão, após ouvir as realidades dos distintos Regionais, apresentamos
o Projeto Político Pedagógico Calabriano (PPPC). Projeto este que
consta de várias etapas. Inicialmente apresentamos um resumo
biográfico de São João Calábria, o fundador da Congregação Pobres
Servos da Divina Providência. Na sequência fazemos referência aos
aspectos mais gerais da Obra (Congregação), sua presença no Brasil.
Uma congregação norteia-se pelo carisma evangélico, inspirado em
seu fundador ou fundadora, no caso dos Pobres Servos, é inspirado
na frase evangélica: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a
sua justiça e o resto vos será dado por acréscimo” (Mt 6,24-32). Deste
trecho da Palavra de Deus, depreende a mística e a pedagogia intuídas
pelo Santo Fundador.
Partindo destas premissas, apresentamos o plano circunstancial,
dividido da seguinte forma: o Marco Referencial, introduzido por
um pensamento de Rubem Alves, “Escolas gaiolas e escolas asas”. Em
quinze pontos, refletimos sobre a atual conjuntura da sociedade, da
Igreja e principalmente da educação, bem como os grandes desafios

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que assolam a vida das pessoas e dos grupos sociais. A situação


socioeconômica, política, religiosa e cultural, que envolve os espaços
pedagógicos onde estão inseridas as nossas escolas e centros de
educação.
A reflexão do Marco Referencial, para dar sequência a uma ação
mais objetiva, exige uma iluminação, o que fizemos a partir do Marco
Doutrinal, que traz luzes à realidade, para que possamos partir para a
operacionalização das utopias. Estruturamos em sete pontos a nossa
via de doutrina, fazendo um sério questionamento sobre o perfil de
pessoa, de sociedade e de Igreja que queremos ajudar a construir. E a
escola? A escola será o retrato destas três dimensões.
Ver, julgar deixando-se iluminar para quê? Para agir. E esta ação
é o nosso Marco Operativo, transversalizado pela doutrina cristão-
católica, pela pedagogia libertadora e transcendente. Definimos a
nossa concepção de educação e a nossa ação pedagógica. A nossa
concepção de escola, fundamentada nos princípios calabrianos de
educar. Estabelecemos também qual deverá ser a metodologia que nos
auxiliará neste caminho de retorno à Galileia. Nossa metodologia está
vinculada à utopia, mas nossa cabeça necessariamente estará sempre
voltada para a realidade.
Todo agir necessita de conteúdos que lhe deem garantia teórica.
Os conteúdos propostos para esse projeto político pedagógico, não são
fantasia, mas realidade. Uma leitura do mundo que antecede a leitura
das palavras.1 Mas como todas as etapas de um processo, o conteúdo
não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhor agir e evangelizar
educando.
Nesta caminhada de busca rumando a uma postura transcendente
se faz necessária uma contínua avaliação, que não deve iniciar e
terminar na sala de aula, mas que deverá envolver todo o projeto e o
seu processo.

1
FREIRE, P. MACEDO, D. Alfabetização: leitura do mundo, leitura da palavra. Rio
de Janeiro: Paz e Terra.
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De toda esta expectativa de ação, surge o perfil de como é o agente


do processo educativo, o educador calabriano. Ele aparece tal como
é: essencialmente cristão, imbuído do espírito do evangelho, integro,
ético e libertador. Da figura do educador, se pode visualizar a imagem
dos educandos, que serão sujeitos e protagonistas de suas próprias
histórias. Antes de fazerem leituras do texto gráfico, lêem o contexto
real onde a sua história acontece.
A escola não educa sozinha, precisa contar com a participação de
toda a comunidade, onde a família ganha maior destaque. Por isso a
família não pode jamais delegar suas responsabilidades aos educadores
e à escola, mas terá uma presença ativa, efetiva e afetiva em todo o
processo.
As escolas calabrianas não só educam, mas evangelizam pela
educação. Nesse sentido, deverão contar com uma pastoral escolar
que se preocupe com o religioso e a espiritualidade. Como presença
evangelizadora da Igreja no mundo, possibilitará, por meio de processos
pedagógicos dinâmicos e criativos, o encontro das pessoas com os
valores do Reino de Deus. Para isso contará com o ensino religioso
como parte indispensável do currículo e navegador que identifica o
processo de compreensão da dimensão da transcendência.
Este projeto não foi elaborado a esmo, contou com um diagnóstico
colhido junto às várias unidades educacionais da Delegação, como
também com a colaboração de religiosos e religiosas Pobres Servos,
que deram sua contribuição, respondendo um questionário enviado
por nós, do Setor Educação.
Deste caminho surgiram projetos concretos para a efetivação
do Projeto Político Pedagógico Calabriano no triênio 2008-2011,
conforme metodologia escolhida para nos organizarmos. Tais projetos
aparecem à parte, haja vista que nos próximos anos outros devem ir
tomando forma e firmando passos a partir deste caminho feito até
aqui. Esses projetos serão como a bússola que orienta os navegadores
a singraem por águas profundas e sempre em direção a um porto cada
vez mais seguro.

11
I
RESUMO BIOGRÁFICO
DE SÃO JOÃO CALÁBRIA
Resumo biográfico de São João Calábria

João Calábria nasceu em Verona, aos 08 de outubro de 1873,


de pais de condições humildes: Luigi Calábria, sapateiro, e Angela
Foschio. A piedade simples da mãe e dos familiares exerceu sobre ele
uma profunda influência.
Depois da escola elementar, foi empregado como garçom em
diversos estabelecimentos para ajudar a família sempre mais indigente
também por causa da morte do pai, ocorrida em 1886.
Pe. Pedro Scapini, reitor da Igreja de São Lourenço e professor
no seminário diocesano, que acompanhou a família nos momentos
mais duros de pobreza, conhecendo já há tempo o desejo do jovem
Calábria de se tornar sacerdote, propor cionara-lhe com a ajuda de
alguns voluntários, um curso intensivo do ensino fundamental com a
duração de três anos, ao fim dos quais, depois de ter prestado exames
privados em novembro de 1892, foi admitido ao ensino médio.
Frequentou o seminário nos dois primeiros anos do ensino médio
(1892-1894), como estudante externo. Teve que interromper o
terceiro ano do ensino médio para prestar o serviço militar. Foi posto
na 5ª. Companhia de Saúde junto ao Hospital Militar de Verona; ali se
distinguiu pela sua grande caridade na assistência aos doentes e pelo
comportamento heróico ao oferecer espontaneamente assistência
aos doentes de tifo. Durante o serviço militar, encontrou Pe. Natal de
Jesus ODC, que foi por quase quarenta anos o seu iluminado diretor
espiritual.
Terminado o serviço militar, em 1896, João Calábria apresentou-
se no seminário para retomar os estudos. Transcorrido o ano escolar,
1896-97, e tendo sido aprovado, o clérigo Calábria pôde frequentar
a teologia junto ao seminário diocesano. Mas o fazia como aluno
externo, seja porque era pobre, mas, sobretudo porque era muito frágil
de saúde. Durante aqueles quatro anos de estudo, encontrou tempo
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também para instituir, com a bênção do bispo, o Cardeal Luigi di


Canossa, a “Pia união para assistência aos doentes pobres”.
Foi ordenado sacerdote no dia 11 de agosto de 1901, e em setembro
daquele mesmo ano Pe. Calábria recebeu também a nomeação de
vigário cooperador de Santo Estevão e foi escolhido como confessor
do seminário.
Em fevereiro de 1907, foi nomeado reitor da Igreja de São
Benedito no Monte, sempre em Verona. O seu confessor, Pe. Natal,
vê nisto um sinal da Providência. E assim, aos dois ou três meninos
dos quais cuidava já em Santo Estevão, se juntam outros três, no
início, todos hospedados em sua casa, depois, na “Vicolo Case
Rote”, em 26 de Novembro de 1907; e mais tarde, 06 de novembro
de 1908, a casa dos “Bons Meninos” torna-se aquela de São Zeno
no Monte, atual Casa Mãe da Congregação Pobres Servos da
Divina Providência2.
A obra de caridade de Pe. Calábria encontrou imediatamente
pessoas zelosas, que se ligaram ao sacerdote e aos meninos
pobres e abandonados. Em 1911, o bispo o liberou de todos
os encargos diocesanos, permitindo-lhe assim dedicar-se
plenamente à sua instituição. Tentado muitas vezes a fugir do
peso e da responsabilidade da Congregação, foi constantemente
sustentado e encorajado pelo seu confessor e diretor espiritual
para que desse continuidade àquela que era a vontade do Senhor.
E dali em diante, a história pessoal de Pe. Calábria seria sempre
mais ligada às atividades da Congregação. Em 1932, o bispo Dom
Girolamo Cardinale eleva a Obra dos “Bons Meninos” ao nível
de Congregação de direito diocesano, com o nome “Congregação
Pobres Servos da Divina Providência”. Ao lado do ramo masculino,
nasceu, em 1910, o ramo feminino da Obra: as “Pobres Servas da
Divina Providência”, com os mesmos objetivos dos Irmãos.

2 Para maiores aprofundamentos históricos ler: PEGIMI A., San Zeno in Monte,
Verona, 1967
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Devido a alguns contrastes surgidos dentro da Congregação


referentes à paridade e e participação dos Irmãos Leigos no seu governo,
em 1935, ocorreu a intervenção do Vaticano na pessoa do Visitador
Apostólico, o abade beneditino Emanuele Caronti, que juridicamente
permaneceu até 1947.
A saúde de Pe. Calábria esteve relativamente boa até 1949, ano
em que começou um período que se pode chamar a “grande prova”,
que durou até a sua morte. Foram cinco anos de sofrimentos, mas
também cinco anos de uma intensa vida espiritual, em união ao Cristo
sofredor. A doença de Pe. Calábria, em todas as suas manifestações,
foi um mistério também para os médicos mais especializados. Foram
os cinco anos mais fecundos de todo o apostolado de Pe. Calábria.
Foi aí que intensificou de maneira notável as relações epistolares e os
colóquios pessoais com os homens mais empenhados na renovação da
sociedade e da Igreja. De fato as suas correspondências neste período
se intensificaram sempre mais, como também aumentaram seus artigos
em várias revistas italianas. E os argumentos eram sempre os mais vitais
para a Igreja e para o mundo.
Em 1950, a sua enfermidade tornou-se tão aguda, que o levou a
dar ao seu vigário, Pe. Luigi Pedrollo, “a delegação de representá-lo no
governo da dileta Congregação”.
Na festa de Pentecostes de 1951, a saúde de Pe. Calábria teve
improvisamente uma notável melhora, tanto que pôde retomar, em 03
de março de 1952, o governo da Congregação que manteve até o dia de
sua morte, ocorrida em 04 de dezembro de 1954.
Foi beatificado pelo Papa João Paulo II em Verona, no dia 17 de
Abril de 19883. E em 1999, no dia 18 de Abril, o mesmo João Paulo II,
canonizou-o em Roma.

3 SQUIZZATO, Luciano. Una gioa isolita, (a cura di), Milano, 1995, pp. 15-19.

17
II
ASPECTOS GERAIS
DA OBRA
CALABRIANA
Aspectos Gerais da Obra Calabriana

A história da Obra, pelo menos durante a vida do fundador, se


confunde em grande parte com a história de São João Calábria. Mas
nada impede que possamos identificar alguns momentos históricos da
sua vida que tiveram especial impacto no futuro da Obra, acrescentando
a eles os que se seguiram depois da sua morte até o dia de hoje.
A Congregação Pobres Servos da Divina Providência considera
como sua data de nascimento o dia 26 de novembro de 1907.
São João Calábria, depois de haver desempenhado o ministério
sacerdotal como vigário na paróquia urbana de Santo Estevão, foi
nomeado vigário do Oratório público de S. Benedetto ao Monte, em
Verona, no ano de 1907, serviço que exerceu até 1912.
Ainda antes desta data, ele, que se sentia impelido interiormente
por um desejo intenso de ser todo de Jesus, e amar as pessoas com
um imenso amor, assumiu solicitamente o cuidado dos meninos
abandonados que a Providência lhe encaminhava. Além de esforçar-se
de todas as formas para prover-lhes casa e educação, a alguns acolhia
em sua paupérrima casa.
Aumentando continuamente estes casos, aconselhando-se com
pessoas santas e experientes, sentiu-se inspirado a abrir uma casa onde
estes filhinhos de Deus pudessem encontrar alimentação, educação,
instrução escolar e profissional e, sobretudo, amor.
Os primeiros meninos foram acolhidos na casa paroquial de San
Benedetto ao Monte, mas o contínuo aumento de casos necessitados o
levou a procurar uma sede mais ampla. A primeira foi aberta com cinco
meninos, precisamente no dia 26 de novembro de 1907, numa modesta
casa posta à disposição pelas Irmãs da Sagrada Família na Paróquia de
San Giovanni no Valle, em Verona. Auxiliado neste trabalho apostólico
por pessoas generosas, constituiu-se o primeiro grupo de colaboradores,
alguns dos quais, depois de madura reflexão e prolongada oração,
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sentiram-se chamados a estar com ele permanentemente. Ele os chamou


Irmãos e como tais quis que vivessem.
A sua característica haurida do Evangelho devia ser aquela de “se
considerarem como irmãos e como tais amarem-se reciprocamente e
ajudarem-se especialmente na vida espiritual”; “viverem totalmente
abandonados à Divina Providência”; “esforçarem-se de todas as formas
pela saúde dos pobres meninos abandonados, para mostrarem ao
mundo de hoje, tão ateu, tão sem Deus, imerso totalmente na lama,
que Deus existe, pensa e provê as suas criaturas”.
Desde o princípio ele pensava numa nova Família Religiosa “As
virtudes e os conselhos evangélicos estejam bem gravados nos que
desejarem consagrar-se a esta Obra”.
Uma família religiosa “baseada na humildade, no total
escondimento, e que viva inteira e totalmente abandonada nas mãos
Divina Providência; nada pedir, rezar muito, ninguém pague; proibido
todo tipo de propaganda, nada de loterias, nada de agradecimentos
públicos, porque Deus não necessita destas coisas, e quanto a esta
Obra, que é toda Dele, Ele pensará. Nós procuramos as almas, somente
as almas. Se contássemos com a ajuda dos homens, a Obra deixaria
de ser de Deus”. “Os meios terrenos tê-los-emos como acréscimo com
uma única condição: que procuremos o Reino de Deus e a sua justiça”.
A Obra, desde o início, chamou-se “Casa Buoni Fanciulli” pelo
campo apostólico especial em que trabalhava, e assim, continuou a
chamar-se até a fundação da congregação religiosa de direito diocesano,
ocorrida em 1932 com as primeiras constituições aprovadas pelo bispo
de Verona e as primeiras profissões religiosas públicas. A partir deste
momento, a Obra tomou o nome de “Congregação Pobres Servos da
Divina Providência, conservando o nome de “Casa dos Bons Meninos”,
nas suas obras educativas.
Paralelamente ao ramo masculino da Obra, o Pai iniciava o ramo
feminino que, no curso dos anos, foi elevado à congregação religiosa
de direito diocesano no ano de 1952, com o nome de Pobres Servas da
Divina Providência.

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Desde o início, o Pai se ocupou em benefício das vocações


sacerdotais e religiosas pobres a serem cultivadas e ajudadas para depois
oferecê-las à Igreja num espírito de completo desinteresse, abertura
universal e na gratuidade total. “A Obra da Divina Providência, sim, está
fundamentada sobre as criaturas abandonadas, mas isto não é senão um
primeiro elo; a este, outros se unirão. Os instrumentos serão Sacerdotes
e Irmãos, possuindo o mesmo espírito apostólico e vivendo dispostos
a tudo”. Cessando alguns obstáculos, que desde o início impediram o
pleno desenvolvimento deste ramo, nasceram várias casas em épocas
diferentes para acolher aquelas vocações que, de outra forma, teriam se
perdido, por falta de meios materiais ou por outras causas.
Em 1932, através de um convite da Santa Sé para assumir o cuidado
de pessoas em áreas particularmente difíceis de Roma, a Obra reconheceu
um sinal da Providência para abrir-se também ao apostolado paroquial,
contanto que se verificassem as condições exigidas pelo seu espírito.
Em 1933, a Providência mostrou sinais claríssimos de que também
o cuidado com os idosos e doentes pobres estava incluído no nosso
campo de trabalho.
Em 1934, depois de anos de oração e de espera, a Obra abriu-se à
atividade missionária, que tendo sido suspensa depois de apenas dois
anos de abertura, por dificuldades sobrevindas, renasceu em outras terras,
sempre no espírito de abandono, de gratuidade, de abertura à Igreja.
A Congregação depois de dezessete anos de desenvolvimento e
de experiências obteve o “Decretum Laudis” da Sagrada Congregação
para os Religiosos em 1949, tornando-se assim de Direito Pontifício.
Na ocasião, foi redigido e aprovado um novo texto de constituições,
que modificando substancialmente o primeiro texto da autoridade
diocesana de 1932 (pelo qual o pai teve tanto que sofrer na paciência, na
oração e no abandono à vontade de Deus), reproduz substancialmente
as primeiras normas escritas por ele em 1908.
Após outros sete anos de experiência, a Congregação obteve
a definitiva aprovação pontifícia em 1956, com um novo texto de
constituições, fiel aos princípios e atualizado às novas exigências.

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III
A OBRA NO MUNDO
A OBRA NO BRASIL
A Obra no Mundo - A Obra no Brasil

Desde o início da Obra, Pe. Calábria sentiu que ela era grande,
era Obra de Deus, destinada a expandir-se e alcançar os confins do
mundo. Por isso, viveu sempre com espírito aberto aos sinais de Deus,
sem querer ser ele a decidir onde ela deveria se desenvolver. E para sua
surpresa, Deus indicou-lhe canais de atividades não previstos por ele.
Um primeiro grande passo de expansão foi dado em 1932, com
a abertura da primeira paróquia em Roma. Em seguida, em 1934,
partiram os primeiros quatro Irmãos para a Índia. Em 1949 houve um
encontro, que, pelas suas consequências futuras, se revelou histórico:
a visita a Verona de Dom Alfredo Viola, bispo de Salto, Uruguai. Pe.
Calábria sentiu que daquele encontro teria nascido algo de especial
nos projetos de Deus.
De fato, em 1959, foram abertas as missões da Congregação,
precisamente em Salto, Uruguai, por parte de quatro Sacerdotes e dois
Irmãos, enviados oficialmente pela Congregação, a fim de prestar o seu
serviço de evangelização na cidade e no território imenso da campanha
de Salto. Em 1961, dois daqueles sacerdotes e um irmão passaram a
fronteira e chegaram ao Brasil.
Dia 30 de agosto de 1961 é considerada a data oficial da chegada
dos Pobres Servos ao Brasil. A primeira abertura realizou-se em Porto
Alegre, no atual “Calábria”.
Seguiram-se, depois, em ordem cronológica as seguintes
aberturas:

1. Escola de 1º e 2º Graus Pe. João Calábria – Porto Alegre (RS)


1962
2. Seminário Apostólico Nossa Senhora de Caravaggio -
Farroupilha (RS) 1964
3. Paróquia Nossa Senhora da Misericórdia - Restinga (RS) 1967
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4. Paróquia Imaculado Coração de Maria - Nova Andradina (MS)


1968
5. Paróquia São João Batista - Anaurilândia (MS) 1970
6. Paróquia São João Batista - Bataguassu (MS) 1970
7. Noviciado Nossa Senhora de Caravaggio - Farroupilha (RS)
1973
8. Paróquia Santo Antônio - Batayporã (MS) 1973
9. Centro de Orientação Vocacional São João Calábria (COV) -
Porto Alegre (RS) 1975
10. Centro de Promoção do Menor da Restinga (CPM) – Porto
Alegre (RS) 1976
11. Hospital Sagrado Coração de Jesus - Anaurilândia (MS) 1978
12. Paróquia Nossa Senhora Aparecida -Taquarussu (MS): 1979
13. Albergue João Paulo II - Porto Alegre (RS) 1981
14. Centro de Orientação Vocacional Mãe da Igreja (COV) - Feira
de Santana (BA) 1983
15. Lar do Menor Dom Calábria - São Luís (MA) 1983
16. Centro de Orientação Vocacional Rainha dos Apóstolos
(COV) - Nova Andradina (MS) 1984
17. Paróquia Nossa Senhora das Graças - Feira de Santana (BA) 1985
18. Centro Educacional São José Operário – São Luís (MA) 1987
19. Centro de Orientação Vocacional Rainha dos Apóstolos -
(transferido de Nova Andradina) Campo Grande - (MS) 1988
20. Paróquia São João Calábria - São Luís (MA) 1988
21. Quixadá – Bispado (CE) 1988
22. Aspirantado São José - Porto Alegre (RS) 1989
23. Paróquia São Francisco - Quixadá (CE) 1990
24. Centro Educacional e Sanitário - Marituba (PA) 1991
25. Seminário Rainha do Sertão - Quixadá (CE) 1991
26. Paróquia São João Calábria - Campo Grande (MS) 1994
27. Aspirantado São José - Viamão (transferido de Porto Alegre)
(RS) 1994
28. Postulado São João Calábria – Porto Alegre (RS) 1994

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29. Paróquia Santa Teresa - Rio Grande (RS) 1996


30. Centro de Orientação Vocacional (COV) - Marituba (PA)
2000
31. Aspirantado São João Calábria - São Luís (MA) 2001
32. Paróquia São João Batista – Jacundá (PA) 2002
33. Paróquia São Francisco – Erechim (RS) 2006

29
Carisma e Missão da Obra

“A missão especial dos Pobres Servos é a de reavivar no mundo a


fé em Deus, aquela fé viva e operosa que gera confiança nele e na Sua
Paterna Providência; nós precisamos ser faróis acesos na noite obscura
do mundo de hoje”4

a) TEMOS UM DEUS QUE É PAI


“A fé verdadeira e genuína considera Deus não só como Criador
e Senhor, mas, sobretudo, como Pai. Fé, portanto, na paternidade de
Deus, e confiança ilimitada, filial na sua Divina Providência”.
“Deus é Pai, cuida de nós e daqueles que amamos; nada escapa ao
seu olhar, nada pode acontecer de improviso, quase como de surpresa,
tudo é dirigido pela sua infinita sabedoria, poder e bondade”.
“Não há mãe que ame tanto seu filho, como Deus ama todos e cada
um de nós. A tudo Ele chega, até mais e melhor do que a luz do sol, ao
fio da erva ou ao átomo perdido nos espaços. Ele contou até os cabelos
de nossa cabeça e sem sua permissão não cai nenhum; os pássaros do
céu que não ceifam e não enchem os celeiros são quotidianamente
nutridos por Ele, que também providencia uma veste resplandecente
para os lírios do campo”.

b) ABANDONAR-SE À DIVINA PROVIDÊNCIA


“O espírito de nossa Obra quer que tenhamos sempre uma
ilimitada confiança, um terno e filial abandono na paterna, sempre
vigilante e amável Providência Divina”.
“A Divina Providência é uma terna mãe que tudo ordena para o
nosso bem, para o nosso maior bem”.

4 Meus queridos irmãos externos. In: Nosso jeito de ser e de viver, s/d, pág. 22.

33
Projeto Político Pedagógico Calabriano

“Os Pobres Servos “vivam a vida da fé e do abandono em Deus,


sintam-se seguros nele e em sua proteção”.
“A fé na Providência seja sempre o nosso baluarte, e a nossa rocha;
lembremo-nos de que Ela nunca falhará se fizermos a nossa parte”.
“De nossa parte trabalhemos, façamos como se tudo dependesse
de nós e depois deixemos a Deus e à sua Providência”.

c) VIVER A NOSSA FÉ
“A nossa fé seja prática, coerente; nenhum contraste deve haver
entre a fé que professamos e a conduta que temos; a fé deve ser a
norma constante de nossas ações, de nossos pensamentos, de nossos
juízos... No mundo, quer-se muitas vezes conciliar Cristo com satanás,
as práticas de piedade com usos e costumes pagãos, mas em nós deve
resplandecer a pura luz de Cristo”.
“Ó meus caros, fé em Deus e em sua Providência. Esta é a hora da
fé. Num mundo que se afasta cada vez mais de Deus, acendamos em
nós esta chama que ilumina o caminho também para os outros”.
“Vivamos uma vida de fé, conscientes de que estamos aqui de
passagem, que a vida presente não é fim em si mesma, mas preparação
à vida verdadeira na bem-aventurada eternidade, e que para esta tudo
se deve orientar”.

d) RETORNAR ÀS FONTES DO EVANGELHO


“Retornemos à prática do santo evangelho, sem mutilações nem
interpretações arbitrárias, mas procurando penetrar no significado e
no espírito puro e genuíno, para depois, conformar a estes os nossos
juízos e a nossa vida”.
“Existe demasiada dissonância entre aquilo que o Evangelho ensina
e aquilo que nós praticamos. Devemos eliminar esta contradição”.
“Devemos renovar-nos, e nos renovaremos se vivermos na prática
o santo evangelho, sendo evangelhos vivos”.
“Ou se crê ou não se crê; e então, se não se crê, rasgue-se o evangelho.
Dá-se muita importância à palavra dos homens na terra! Tudo bem.

34
Projeto Político Pedagógico Calabriano

Mas muito mais importância deveríamos dar à Palavra do Senhor!


Acreditemos, portanto, no Senhor, tenhamos confiança na sua Palavra”.
“Sejamos evangelhos vivos, e antes de pregá-lo, pratiquemo-lo. O
evangelho seja aplicado por nós ao pé da letra”.

e) AMAR A VIDA DE ORAÇÃO


“Irmãos, oremos, oremos! A oração unida a uma vida santa faz
milagres e agora é mesmo de milagres que se precisa para que tudo volte
à ordem. Irmãos, isto é que nos cabe, coisa grande, nobre, divina: orem e
peçam aos outros que orem”.
“É absolutamente necessária, meus caros e amados Irmãos,
uma vida de íntima união com Deus, orando sem cessar, mas não
com uma oração feita de qualquer jeito, só com os lábios, e sim
com uma oração que parta do coração”.
“Irmãos, deixem tudo, mas não deixem as práticas de piedade;
sejam reservatórios e canais”.
“A atividade exterior é destinada à esterilidade, se não colocar as
próprias raízes no sagrado terreno da vida interior”.
“Se vocês têm algum momento triste, oh, conhecem o remédio:
vão logo a Jesus, que está no sacrário exatamente para nos confortar,
para nos ajudar”.

f) O MANDAMENTO DO AMOR
“Se eu soubesse que um religioso não tem caridade, de joelhos,
pedir-lhe-ia que fosse embora, pois ficando, estragaria a Obra”.
“Gostaria que em todas as paredes das nossas casas estivesse
escrito: CARIDADE!
“Gostaria de poder morrer com esta última palavra nos lábios:
CARIDADE!
“É necessário que os componentes desta Obra (irmãos e
sacerdotes) sejam um só coração e uma só alma, no doce e querido
vínculo da caridade, e que obedeçam a Jesus bendito e a quem no seu
nome governa a Obra”.

35
Projeto Político Pedagógico Calabriano

“Caridade para com todos! Oxalá jamais apareça o mal da


murmuração.”
“Uma característica de nossos religiosos seja a caridade recíproca
e a união fraterna. Os religiosos amem-se entre si fraternalmente, não
fiquem contentes apenas com o nome de irmãos, mas esforcem-se por
sê-lo”.
“Evite-se com todo cuidado a murmuração, sufocadora da caridade
e da paz, semeadora de discórdias...”.

g) OS POBRES: A RIQUEZA DE PE. CALÁBRIA


“Ir aos mais pobres, aos mais humildes, aos doentes, aos mais
abandonados, que são os mais queridos e nos quais Jesus quer ser
representado. Eis a nossa característica: não aos grandes, mas é aos
mais pobres que nos envia o Senhor”.
“Ai de nós se nos votássemos às classes mais ricas! Não é o nosso
campo.”

h) SALVAR A FAMÍLIA
“São, sobretudo, os pais os mestres naturais dos rebentos que a
Providência lhes confia por um gesto de soberana benevolência”.
“Oh, quão necessária a existência de pais dignos de sua missão,
verdadeiros geradores de novas vidas no verdadeiro sentido da palavra:
vida física, vida moral, tudo feito à imagem e semelhança de Deus”.
“Pais cristãos, vivei à altura da vossa missão. Pensai que sois
colaboradores de Deus na grande obra da criação; por meio de vós,
Deus tira do nada novas criaturas destinadas a serem seus filhos”.
“Pais, daí aos vossos filhos os tesouros da educação cristã, através
do vosso exemplo, antes das palavras”.

36
V
A PEDAGOGIA DE DEUS
NA INTUIÇÃO DE
SÃO JOÃO CALÁBRIA
A Pedagogia de Deus na Intuição
de São João Calábria

“Ir lá aonde ninguém quer ir, onde humanamente


nada pode se esperar”

Não é um simples mandado carismático. É um desejo infinito de


amar sem medidas. Esse desejo nasceu de uma experiência, não de
uma fantasia ou de um momento de alucinação. Nasceu da experiência
vivida numa “noite mística”. Ali, onde alguém jamais poderia imaginar
que poderia sair algo de bom, Alguém que vê além das aparências
enxerga um ser humano, desabrochando com uma beleza indescritível.
“Não vim para os que têm saúde, mas para aqueles que estão
doentes”, disse Jesus. Daqui surgem as primeiras inquietações
calabrianas, aliás, um dos aspectos mais profundos do cristianismo.
Ir lá aonde ninguém quer ir. Sem medos. Sem preconceitos. Sem
discriminações. Cada Calabriano (seus seguidores) deveria ser como
o sol que com seus raios penetra nos locais mais imundos, úmidos,
pantanosos, doentios, e sem se contaminar, seca e facilita o surgimento
de novas vidas. Os Calabrianos que se entregaram ou desejam se
entregar a este estilo de vida, são chamados a andar na contramão
da história, por isso os abandonados pela sociedade mas amados
com predileção por Deus são também os nossos prediletos: crianças
abandonadas, prostitutas, doentes, toxicodependentes, idosos
abandonados, sacerdotes feridos interiormente, vocacionados pobres,
homossexuais, lésbicas, contaminados pelo vírus da AIDS.5

5 FOFFANO, Ottorino. Con las raíces en el cielo, pág.184

39
Projeto Político Pedagógico Calabriano

O místico assusta a Igreja, a sociedade, porque propõe um estilo


de vida totalmente novo, e assim quebra todos os paradigmas que não
favorecem a ter mais vida e vida com qualidade e dignidade. Francisco
de Assis descobriu a pobreza, Calábria, setecentos anos depois,
descobriu os pobres; e a Igreja em sua sabedoria, em 2001, na pessoa
do saudoso João Paulo II, desafia os cristãos, o mundo inteiro a fazer
uma experiência profunda: “contemplar o rosto de Cristo na pessoa
do pobre”, recordando a nós Calabrianos que os pobres são os nossos
donos. Somos seus servos e como todo servo, inúteis.
Quando as pessoas morrem sem dignidade, é Deus que morre.
E aqui, Nietzsche talvez tivesse razão. Deus morre a cada dia que um
irmão ou uma irmã morre sem pelo menos um olhar de amor e ternura.
Calábria sabia bem o que é morrer longe de alguém. Não se confirma,
mas fala-se às surdinas que o seu pai morrera numa enxurrada, sozinho,
abandonado, perdido, sem sequer ver estendida em sua direção uma
mão impotente tentando salvá-lo. Ir lá aonde ninguém vai, sem esperar
nenhum retorno; isso não é missão, deve ser mais que vocação, deve
ser uma paixão. Paixão de “pathos”, de patológico, de entrega sem
reservas. Quem se entrega não tem medo de ser tocado, violentado,
contaminado pela ferida purulenta do outro.
A entrega exige não coragem, mas amor, um amor misterioso,
que arrasta para um abismo cada vez mais profundo, o confundir-se
com a vida do outro. O evangelho é a espiritualidade de Jesus Cristo;
Calábria intuiu a dimensão mais profunda e mais espiritual de Jesus,
por ser profundamente humano.
Enxergamos Calábria muito mais aqui, vivendo o agora, que lá em
contato com o infinito. O seu maior sofrimento era viver e estar aqui com os
olhos voltados para lá, mas é exatamente assim que conseguimos entendê-
lo. Estando aqui vivia com a intenção voltada para o Outro, porém com
a consciência de que, mesmo tendo o rumo certo para lá, não chegaria à
meta sem antes experimentar profundamente a dor do outro.
E aqui está o que se pode chamar de o verdadeiro cuidado. O cuidado
que é essencial, sentir o sentimento, sofrer a dor do outro, participar da

40
Projeto Político Pedagógico Calabriano

sua ferida numa atitude inteiramente de alteridade. Quando refletimos


sobre o jeito de amar de Calábria, ficamos um pouco enciumados com
a frase dita por uma outra pessoa sensacional e santa, chamada Teresa
de Calcutá. Respondendo a um grande dignitário do governo indiano
que a interpelou, porque cuidava com tanta ternura de um ser humano
encontrado vivo em fase de putrefação, o que ele jamais faria, mesmo
que lhe dessem um milhão de dólares, ela respondeu: “eu também jamais
faria isso por este valor, mas o faço por um valor bem maior, faço-o por
amor”. Por que ficamos enciumados? Porque Calábria não expressou
com as palavras de Teresa o que ele na verdade fazia como ela na prática.
Por que afirmamos isso? Uma vez seu assessor mais direto, Pe. Luís
Pedrollo, que depois o substituiu no governo da Congregação, escreveu-
lhe, dizendo que a situação estava muito delicada e precisava de dinheiro.
Ele enviou-lhe o último menino de rua, chegado acompanhado de um
bilhete que dizia: “envio-te este milhão”. Não sabemos qual foi a reação
de Pe. Pedrollo, mas analisando friamente é preciso ser muito paciente
para não se zangar. Só o amor é capaz de suprir qualquer valor cobrado.
Optar pelos últimos é uma práxis de Jesus. Aliás, Ele disse isso
abertamente: “eu vim para curar os doentes, dar vistas aos cegos, etc.”.
Muito sinceramente não cremos que teria dito isso por brincadeira ou
para se vangloriar. Quando disse isso, o disse com muita seriedade e
convicção. Em outras palavras, veio para o mundo para dar sentido ao
que parecia sem sentido. Ensinar um novo jeito de viver. Assim passando
pela vida de Madalena, mudou o sentido da sua vida. Do lodo da extorsão
e corrupção onde encontrara Zaqueu, Levi, nasceram discípulos
missionários cheios de vigor e coragem. É assim. Se ele não tivesse tido a
coragem de ir lá onde os fariseus e os doutores da lei não tinham coragem
de ir, por medo de se contaminarem, os relatos do evangelho seriam mais
pobres hoje, estariam sem essas colunas da opção radical de vida. Seguir
Jesus. Pisar as pegadas do Mestre – ir lá aonde humanamente nada se
pode esperar – esse é o desafio calabriano. Recolher da lama o que está
quase sem vida para lhe permitir que viva em abundância. Dar sentido à
vida de quem já não encontra sentido no viver.

41
Projeto Político Pedagógico Calabriano

Segundo Vitor Frankl, “é um sinal de normalidade a inquietude


que cada indivíduo experimenta na busca do significado existencial
pelo qual valha a pena viver, não obstante as situações, às vezes trágicas,
que a vida põe diante de cada um de nós.” Foi exatamente isso que
buscou João Calábria: do inevitável sofrimento pelo qual deve passar o
ser humano, deve-se ter certeza que nascerá sempre uma esperança, e o
dia de amanhã será melhor, basta ter fé naquele que tudo sabe. Assim se
pode entender o que vivia Calábria, quando dizia estar sofrendo. “Não
era a dor em si o seu problema, mas a falta de resposta ao grito: por que
sofre?” (Nietzsche). Que grito? O grito dos pequeninos, dos pobres,
dos milhares de filhos de Deus.6 É deste grito que nasce também em
nós a inquietação de podermos continuar anunciando que Deus é Pai-
Mãe, tudo, convidando e conduzindo os seus filhos para um retorno à
Galileia. Galileia que quebra paradigmas e liberta a pessoa das amarras
do não-saber.
São João Calábria academicamente não foi um pedagogo, mas
isso não tira o brilho da sua intuição e lucidez quando o assunto é
educar.

a) Antes de ensinar ele fez.


A autoridade não vem do poder que se tem, mas do jeito que se faz.
Se analisarmos a trajetória de educador de São João Calábria, logo
perceberemos que ele foi um dos pioneiros da liberdade. Dentro de
uma gama de perfis que são as pessoas, ele sempre se esforçou em que
as casas de acolhimento não rejeitassem ninguém, mas que se fizesse
um trabalho de adaptação da estrutura às necessidades dos acolhidos
e não vice-versa. Rompe-se assim com a rigidez de uma educação
bancária7 e meramente acadêmica. A ação é com liberdade, mas sem-
pre fundamentada na verdade, o que faz da caminhada educacional

6 DA SILVA, Silvio. São João Calábria: santo, místico ou um verdadeiro ser huma-
no? Luanda, 2003.
7 FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 28 ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987.

42
Projeto Político Pedagógico Calabriano

uma experiência essencialmente libertadora, como libertadora foi a


passagem de Jesus pela Galileia, libertando as pessoas das garras do
demônio do silêncio e do medo (Mc 1, 21-28).

b) Conteúdos com qualidade de vida


Os ensinamentos na educação calabriana são inspirados no
evangelho, portanto não podem ser improvisados e muito menos
ajustados segundo a corrente pedagógica da hora. O fundamento é a
filosofia cristã e esta não muda, não se adapta, mas ilumina a realidade.
Isso forja um sistema educativo com um olhar completamente
diferente. Lá onde o currículo vê um aprendiz, o sistema pedagógico
calabriano enxerga uma pessoa. Os conteúdos orientam os educandos
em direção a Deus e ao próximo.

c) Método original
A educação calabriana tem como pressupostos a experiência
pessoal e comunitária de Deus. Por isso revela um método original,
o da confiança inabalável na Divina Providência e uma fé convicta da
paternidade de Deus.
A escola não é apenas uma escola, mas uma Casa do Senhor, onde
os que por ela transitam são identificados como filhos de Deus, irmãos
entre si, membros de uma mesma família. Assim se constrói uma
educação pura sem o espírito de inveja ou de competição. “Se fizeres
o bem a casa vai bem, se fizeres o mal, a casa vai mal” e toda a família
sofre.
Isso exige uma presença contínua, eficiente e eficaz de pessoas que
acreditam neste caminho e agem com o sentimento de paternidade-
maternidade, fazendo do seu exemplo de vida a mola propulsora do
movimento ensino-aprendizagem-ensino. Uma modelo de educação
(apostolado) fotográfica.
A educação é necessariamente um processo de fazer, e de agir. É
importante que haja ações concretas e objetivas no intuito do educando
se projetar na própria vida e se inserir no seu grupo social, buscando

43
Projeto Político Pedagógico Calabriano

ultrapassar sempre mais os limites e dar passos mais qualificados e mais


seguros. Construindo assim uma educação eminentemente familiar.8

d) Educador calabriano
O educador não é um depositador que impõe algo, mas alguém
que tem autoridade que vem do seu jeito de viver na liberdade e com
responsabilidade. Portanto, o jeito de dizer e fazer as coisas deve ser
quase que um sacramento.
A sociedade precisa de um verdadeiro rosto de Deus. E o educador
numa contínua interação com o educando e a sua família é o construtor
deste novo perfil social. Por isso, na sua ação educativa precisa de
atitudes muito concretas e cativantes: falar simples, comportamento
paterno e justo. Chamar a atenção do educando sempre para o que
é mais essencial na vida humana. Isso faz com que seja amado e não
temido pelos educandos
O educador calabriano não julga os atos das pessoas somente
pelas circunstâncias externas, mas tem sempre presente em primeiro
o ser humano. Na construção desta postura, deve haver muito estudo
pessoal e confrontos de verificação.

8 Op. Cit., págs. 31-36


44
VI
MÍSTICA
Mística

Podemos definir mística como uma atitude de profunda busca do


ser humano em conhecer a si, ao outro e ao Outro. Essa busca é feita na
sua relação com todo o universo no desejo de dar um verdadeiro sentido
à sua existência. É aquela força interna que alimenta a esperança para
continuar a sonhar, a resistir e a querer uma sociedade mais humana e
igualitária. (L. Boff)
Isso nos remete à experiência de São João Calábria, quando em
uma das “noites escuras” leu o evangelho e encontrou o caminho que
lhe respondia todas as suas angústias: “viver abandonado nas mãos da
Divina Providência, testemunhando com palavras e a vida que Deus é
Pai e que somos todos irmãos.
A verdadeira mística desemboca num fazer real. E para realizar
este propósito de Deus, Calábria estabeleceu para si e para os seus
seguidores como resposta: os mais pobres, os mais abandonados,
aqueles dos quais nada se pode humanamente esperar. E assim nasceu
o seu jeito de amar:
a) Enxergar: não se fixar nas aparências, mas adentrar na realidade
da pessoa.
b) Inclinar-se (ouvir): sair de si para colocar-se junto ao outro,
no mesmo nível. Abandonar o que se é para reconhecer quem
o outro é.
c) Sacudir suavemente: ajudar a despertar não com violência, mas
com a suavidade de quem respeita o outro com tudo aquilo que
o circunda e mesmo numa atitude de silêncio assegura: “estou
aqui com você para o que der e vier”.
d) Reconhecer: é saber ultrapassar as defesas que nos distanciam
dos outros e reconhecer neles o que têm de mais profundo: são
pessoas, filhos de Deus, nossos irmãos.

47
Projeto Político Pedagógico Calabriano

e) Acolher: é oferecer a oportunidade de olhar a vida com


esperança e construir seus sonhos, na solidariedade de irmãos.9

9 MANGONI, José Antonio. Ousadia de Acreditar. Porto Alegre.


48
VII
A MÍSTICA DE
SÃO JOÃO CALÁBRIA
A Mística de São João Calábria

O místico é aquele irmão marcado profundamente pela graça de


Deus, com dons e talentos, colocados a serviço do próximo. É um
homem totalmente voltado para Deus e para a realidade, com os pés
firmes no chão, com uma grande capacidade de perceber, de um modo
lúcido, os desafios, as exigências e as dificuldades do seu tempo, numa
enorme vontade de superá-las.10
Essa definição de Pe. Geovane casa perfeitamente com as atitudes
de São João Calábria, descritas em sete pontos chaves por Jorge Trevisol
no último capítulo de sua tese de Mestrado: SÃO JOÃO CALÁBRIA:
UM NOVO MODO MÍSTICO DE ENFRENTAR A ANGÚSTIA.11

a) O sentido da presença do Mistério de Deus e da grandeza das


suas obras
Fundamento e razão de toda a sua luta, Pe. Pedrollo afirma: “o
Servo de Deus estava como que imerso numa atmosfera sobrenatural”.12
Esta luta interior era, segundo Pe. Cogo, entre o amor de Deus e o
horror ao pecado: “era ardente na caridade de Deus, corpo e alma,
tudo nele era amor de Deus, somente amor de Deus, sempre amor de
Deus. O horror pelo pecado estava nele, ‘ex adverso’ par e par com o
amor de Deus13. E tinha a certeza que Deus o amava, também quando
o sentimento era de ser abandonado por Ele: “antes senti uma espécie
de esmorecimento, mas depois, olhando Jesus, me reanimei e senti em
mim toda uma força nova: Jesus me ama, Jesus me quer bem, e assim

10 SARAIVA, Pe. Geovane. O místico quem é? Audital, 25 de Setembro de 2008.


11 TREVISOL, Jorge Antonio. São João Calábria: um novo jeito de enfrentar a angú-
stia. (Traduzido por Ir. Silvio da Silva, revisado por Pe. Paulo Salvi): Luanda, 2002.
12 Positio..., Sommario delle Testemonianze, p. 252
13 Ibidem, p. 282

51
Projeto Político Pedagógico Calabriano

iniciei a minha jornada”.14 O sofrimento é vivido por Pe. Calábria na


intimidade consigo mesmo e com Deus, a ponto de escrever o seu
diário sempre voltando-se ao Senhor, geralmente na pessoa de Jesus,
considerando o seu sofrimento em relação àquele do Mestre: “tenho
momentos que parece-me somente Jesus ter experimentado” (10
de junho de 1950). Sabia bem que as obras de Deus requerem um
preço muito alto e repetia com frequência: “as almas, as obras de Deus
custam sangue”15. Era então esta certeza da presença de Deus e da
preciosidade das suas obras que o sustentavam na noite. O abandono
à Providência do Senhor era para ele fonte de confiança, como afirma
Caronti: “nele a esperança era a confiança plena e completo abandono
à paterna Providência de Deus”16.

b) Uma luta vivida na fé e por um ideal digno


Em consequência do seu viver no Mistério de Deus, a sua angústia
insere-se num horizonte digno e pleno de sentido. Antes de tudo, o
Santo não se lamenta nunca da sua situação: “abria a alma somente
para dizer que ele havia merecido o sofrimento e que o Senhor lhe fazia
sofrer para uní-lo sempre mais a Si”17, antes, “considerava as provas
uma ocasião extraordinária para sofrer com Jesus pela sua alma, para
Glória de Deus e pelo bem das almas. Jamais pediu para não sofrer, mas
para ter a graça de sofrer generosamente”18. Em seu diário, no dia 26 de
fevereiro de 1950, escreve: “o padecer e o sofrimento iluminados pela
fé, que riqueza para as obras de Deus!”; e em 20 de março: “caro Jesus...
dá-me a graça de entender à luz da fé, o grande dom do sofrimento

14 Palavras referidas ao Abade Caronte uma manhã depois da Missa durante a qual
Pe. Calábria sentiu-se tentado pelo diabo; cfr. Positio..., Sommario delle testemo-
nianze, p. 136.
15 Ibidem, p. 177
16 Ibidem, p.136.
17 Ibidem, p. 138
18 Ibidem, p. 212
52
Projeto Político Pedagógico Calabriano

para a minha pobre alma, para a Obra dos Pobres Servos e para toda
a humanidade...” Escreve ao Cardeal Schuster, em 14 de janeiro de
1949: “sinto na Santa Missa o lamento de Jesus: «a minha Igreja!»
e depois tenho sofrimentos que jamais tive antes...” e em 03 de maio
de 1952: “rezo e ofereço os meus sofrimentos e com toda confidência
lhe digo que sinto repercutir em meu coração o contínuo lamento
que repete «a minha Igreja!»”: não é por nada que foi chamado
“místico da Igreja”! Como é edificante constatar como ele tinha
sabido assumir tanta angústia: acolheu-a e levou-a diante de Deus
para transformá-la em caminho de crescimento pessoal, da Obra, da
Igreja e de toda a humanidade.

c) Consciência do mistério de si mesmo


Como todos os homens de fé, Pe. Calábria, sempre mais imerso no
amor de Deus, aceitou o desafio de sondar o mistério de si mesmo, para
conhecer a profundidade e a amplitude, a “miséria” e a riqueza, e assim
tornar consciente que aquilo que Deus realizava nele, na alegria e na
dor, era somente amor. A sua luta era de fato, antes de tudo, um trabalho
frente à realidade de si mesmo. Era angustiado pelo próprio mistério,
uma ânsia que nasce da impossibilidade de entender e dominar um
drama que se desenrola dentro de si, quase símile a um inimigo que
o habitava e que o poderia ter derrotado a qualquer momento. Assim
escreve no seu diário, em 20 de fevereiro de 1950: “passei uma noite de
quase agonia física e espiritual. Que será que Jesus quer de mim neste
resto de vida?” e em 26 de abril: “estes dias são para mim muito, muito
dolorosos. Só Deus o sabe. O que quererá Jesus de mim pobre zero e
miséria?”. Todavia, o mistério que o envolve não é motivo de desespero,
ao contrário: consciente da sua limitação, confia-se a Deus, sem temer
de se proclamar frágil e instrumento da sua misericórdia: “Jesus vê,
sabe e conhece quanto sou mísero e por isso vem ao meu encontro
com a sua grande bondade e misericórdia. Sou o mais pobre de todos,
zero e miséria, e por isso Jesus me usa” (16 de dezembro de 1949).
Convencido de que experimentar a própria miséria fosse pressuposto

53
Projeto Político Pedagógico Calabriano

necessário para o conhecimento de Deus e para o comprimento das


suas obras, repetia: “zero e miséria”, boas condições”19.

d) Espírito de discernimento
Eis outra sua prerrogativa e meio para afrontar a noite; não
passava por cima das experiências, pelo contrário, ia até ao fundo
para entender o sentido no contexto de Deus. Como já dissemos, ele
estava certo daquilo que acontecia em seu interior, mesmo não sendo
plenamente compreensível, era uma luta entre o bem e o mal, entre
as obras de Deus e aquelas do maligno. Perguntava-se sempre que
poderia estar Deus querendo dele por meio daquilo que ele estava
vivendo. Procurava entender na oração e, quando não via claro e os
tormentos eram atrozes, se dirigia ao seu diretor espiritual20 ou aos seus
filhos mais próximos, frequentemente, para ser consolado21. Mas uma
vez recebido o conselho e intuído que aquela era a vontade de Deus,
se tornava sereno e retomava a estrada. Quando não entendia tudo,
obedecia simplesmente; ele mesmo disse jamais haver desobedecido
ao seu diretor espiritual22.

e) Fidelidade aos valores


Aquilo que nos assegura que a luta de Pe. Calábria era uma luta
digna é a constatação de que ele jamais tenha abandonado os valores
que formavam as linhas mestras do seu viver. Basta ler os poucos escritos
que conseguiu deixar no período da prova mais dura: a oração, os
sacramentos, a caridade, etc. Nota-se que deixou a celebração da Santa
Missa somente quando suas forças físicas não mais lhe permitiram, para
retomar com alegria assim que melhorou23. Irmão Próspero, o irmão

19 Considera este refrão uma inspiração de Dom João Bosco (cfr. Diário, de 07 de feve-
riro de 1953).
20 Positio..., Sommario delle testemonianze del Procuratores Apostólico, p. 468.
21 FOFFANO, Ottorino. Don Giovanni Calábria, p. 306.
22 Positio..., Sommario delle tesmonnianze, pp. 228 e 205
23 Diário, 16 de maio de 1951
54
Projeto Político Pedagógico Calabriano

que o assistiu nos seus últimos anos, nos dá este belo testemunho:
“somente a oração dava-lhe alívio... então era uma sucessão de orações,
terços, jaculatórias, mais invocações, especialmente à Nossa Senhora,
leitura espiritual e conversas ascéticas, tanto que nós que o assistíamos
sentíamo-nos exaustos”24.

f) Abertura de coração
A imagem de Jesus no Getsemani nos ajuda muito bem a entender
a reação de Pe. Calábria na agonia. A sua luta foi uma experiência
vivida, sem dúvida, na mais profunda solidão com Deus, mas ao mesmo
tempo – como Jesus, que de tanto em tanto voltava aos apóstolos em
busca de um pouco de conforto, ainda que eles não compreendessem
nem sequer uma mínima parte da profundidade da sua angústia –
procurava partilhá-la com quem poderia entendê-la de algum modo,
para depois voltar ao Pai. Encontrava frequentemente em Pe. Pedrollo
uma presença de ressonância à sua angústia e, como Jesus com os
apóstolos, pedia-lhe para rezar e vigiar por ele. Quem testemunha é o
próprio Pe. Luis Pedrollo: “... saíam-lhe expressões como estas: «não
aguento mais: meu Pe. Luis, ajuda-me, reza! O que será de mim? É
preciso um milagre que eu não o mereço»”25. A experiência se torna
assim, vivida em todo seu realismo humano, sem fuga ou subterfúgio:
diante de Deus e diante do outro, aceitando beber o cálice do Pai para
o bem da humanidade.

g) Espírito de combate
A vontade firme era outro meio para enfrentar a noite. Pe. Calábria
não só foi protagonista de uma luta na qual malgrado se encontrava,
mas, uma vez ali, decidiu lutar para dar-lhe um sentido, razão pela qual
aquela mesma luta se tornou ainda mais fervorosa. A força de seu Eu
era mais viva que nunca, e o seu espírito de combate era férreo. Só se

24 Positio..., Sommario della testemonianze, p. 157.


25 Ibidem, p. 260.

55
Projeto Político Pedagógico Calabriano

entregava quando percebia que aquela era a vontade de Deus. Pode-


se dizer que a experiência da “noite” foi gerida pela sua forte vontade,
porque, segundo ele, essa tinha uma finalidade na mente de Deus. É
possível, como afirma Dr. Trabucchi, que o problema de Pe. Calábria
não tenha jamais invadido o campo racional, o significa exatamente isto:
a carga afetiva desta luta esteve sempre demais forte, mas não tão forte
que não pudesse ser gerida pela sua vontade. Então se entende porque
tenha permanecido sempre uma tensão de equilíbrio e de criatividade
durante “a grande prova” de Pe. Calábria: durante o percurso daquela
dolorosa experiência, jamais ocorreu nele uma desarmonia entre os
elementos cognitivos, afetivos, conativos e espirituais. Isso confirma
a visão de Trabucchi quando afirma que aquilo que em outros teria
revelado uma angústia egoística, em Pe. Calábria revelou uma angústia
evangélica26.
Quando uma luz é acesa não pode ser colocada embaixo de
uma cama, ela precisa ser exposta na parte mais alta da casa, afirmou
Jesus. São João Calábria até que tentou viver no escondimento e na
insignificância, mas quem acendeu aquela chama aparentemente
pequena, o fez para que a sua luz fosse farol na vida de tanta gente,
um porto seguro principalmente para aqueles mais abandonados,
marginalizados sem voz e sem vez. Como é possível calar a voz de um
profeta? Como se faz para apagar uma luz acesa por Deus? Como não
aplaudir um campeão do evangelho?
São perguntas que só a vida de São João Calábria e as suas obras
puderam responder.

26 Positio..., Sommario-Documenti, p. 389


56
VIII
PLANO
CIRCUNSTANCIAL
Plano Circunstancial

MARCO REFERENCIAL
“Há escolas que são gaiolas e há escolas que são asas.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte
do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu
dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um
dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas
amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para
voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce
dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado.
Só pode ser encorajado.”
(Rubem Alves)

1. Cada geração tem o privilegio de poder contemplar o surgimento de


novos paradigmas. O Século XXI, podemos dizer, o século de nossa
geração, é sem dúvida o século das complexidades, da globalização
do planeta. Somos a geração da comunicação. Nenhuma geração
anterior à nossa teve tanta oportunidade de se comunicar. Somos
uma geração da solidão, mas nunca estamos sozinhos. Mesmo
quando não queremos, estamos conectados a alguém e alguém
está conectado a nós. Estamos vivendo um momento impar da
desprivatização, mas ao mesmo tempo vivemos uma experiência
de completo isolamento. A subjetividade tomou conta de nós.
Competimos, mas não sabemos com quem. Disputamos espaços,
mas não conhecemos o nosso “adversário”. Capitalizamo-nos
de um capital que não é nosso e vemos assim a fragmentação da
nossa individualidade e dos nossos sonhos. Vivemos numa aldeia

59
Projeto Político Pedagógico Calabriano

global onde limites não são paredes, mas “softwers”, “plugs”, o


conhecimento ou não da informática. Vivemos um momento em
que nos sentimos num sem rumo, como se tivéssemos perdido o
eixo.27 A educação é a resposta. Precisamos decidir qual vai ser o
nosso novo paradigma: “asas” ou “gaiolas”?
2. O mundo nunca testemunhou tantos contrastes como nos últimos
anos. Um mundo num processo acelerado de democratização,
mas ao mesmo tempo violentado pela prepotência daquelas que
se dizem ser grandes nações. Genocídios autorizados e aplaudidos
por uma grande parte dos povos do planeta. Nas últimas décadas,
estadistas vindos do proletariado ocupam os mais altos postos
de seus países; num mundo preconceituoso, mulheres se tornam
expoentes mundiais da política e um negro assume a presidência
da dita nação mais potente do globo. Estes contrastes beneficiam
a implantação de um sistema neoliberal que dá as cartas e dita as
regras de como o mundo deve girar. O sentido horário deste sistema
estabelece a direção sociopolítica, econômica e religiosa em uma
fatia muito avultada das nações existentes na terra, principalmente
daquelas mais desiguais. Esse processo que desestabilza toda a vida
humana subscreve a teoria de Karl Marx de que o homem moderno
(pós-moderno) está sendo desumanizado.28
3. A desumanização provocou o que hoje assistimos assustados e ao
mesmo tempo impotentes: a derrocada do poder econômico, a
imoralidade da classe política, a inoperância e atrelamento do
judiciário, consequentemente um mundo mergulhado na exclusão,
no medo e no ódio. Esta realidade não está fora de nós. Somos
parte dela e nela participamos com mais ou menos protagonismo.
A educação, inclusive a calabriana está minada por esta situação de
desrespeito pelo direito e pela dignidade do outro.

27 MAY Rollo. O homem à procura de si mesmo. 13 Ed. Petrópolis: Vozes, 1987,


pág. 47.
28 Ib. Id.
60
Projeto Político Pedagógico Calabriano

4. Somos pela tecnologia, pela complexidade da vida, pela integração,


porém que tudo transcorra na perspectiva da libertação da pessoa
e não no seu aprisionamento. “A ideologia do progresso chegou
à conclusão de que, para haver transformação do homem, este
não podia ter natureza humana”.29 O que desqualifica a condição
da vida e da inteligência humanas. Essa revolução bem-vinda e
necessária não pode perder de vista a questão ética. E falamos de
uma ética da dignidade da pessoa e da valorização da vida. Por
continuidade repudiamos com veemência uma “ética” utilitarista
preconizada pelo sistema capitalista neoliberal que é excludente
e gera competitividade, onde a “qualidade” e “produtividade” se
colocam num patamar de longe superior àquele da defesa da vida
em abundância e com dignidade. Somos seres holísticos e tudo o
que afeta o planeta ou qualquer um dos seus componentes afeta
diretamente a nós. A busca desenfreada pela matéria-prima para
aumentar o lucro está desestabilizando o planeta e pondo em risco
o sonho de bilhões de crianças, adolescentes e jovens que ainda
não experimentaram a grandeza de ser gente.30 A escola, neste
momento, deve se tornar a grande referência no estancamento
deste processo. Não pode uma educação que se diz parceira
da libertação ficar em silêncio diante do desmantelamento do
planeta. Não se pode forçar a situação para que se construa
conhecimento se este não se tornar em um novo paradigma para
os oprimidos e excluídos do poder de decisões.31
5. A nossa história como congregação educadora tem apenas um
século de existência. Mas já atravessou por inteiro o século passado
e ingressou em cheio neste que acaba de se iniciar. Não precisamos

29 MORIN, Edgar. O Paradigma Perdido e a Natureza Humana. 6 Ed Publicações


Europa-América, Mem Martins, 2000.
30 DE CASTRO, Marcos. Dom Hélder - Misticismo e santidade. São Paulo: Civili-
zação brasileira.
31 GADOTTI, Moacir.  Pensamento Pedagógico Brasileiro.  São Paulo: Ática, 1988

61
Projeto Político Pedagógico Calabriano

inventar a roda, ela já existe. O que se precisa é redescobrir o sentido


frontal da sua filosofia. A nova ordem mundial não será feita de
sustentação de situações insustentáveis como a especialização de
mão de obra barata e calada, mas será construída por mãos que
refletem o que pensam as cabeças. Não é suficiente ensinar leitura
de letrinhas, é urgente tomar consciência de que a primeira leitura
tem que ser do mundo.32 Em nossa realidade atual não se pode mais
operar com servidores de PF’s (pratos feitos). Para que se construa
uma sociedade autônoma é preciso que ela decida o que lhe serve
como alimento. A construção de um novo olhar pedagógico passa
necessariamente por uma nova postura diante das propostas
ideológicas de “solidariedades”. Fala-se muito em economia
solidária, bancos solidários, mas pouco em escola solidária.
6. A educação norteia toda a vida. Vivemos hoje uma corrida contra
o relógio da destruição do ambiente. A técnica, sob o impulso
da ciência, não mede as consequências dos seus atos em relação
à sobrevivência do planeta. Não se pode falar de uma educação
que liberta, sem entrar na luta pela preservação da vida. Por isso a
consciência ecológica deve ser não só pauta de discussões, mas se
tornar conteúdos de reflexão e de vivência concreta desta realidade
que assusta somente a algumas pessoas, mas que ameaça a vida de
todos, o aquecimento global. “Precisamos de uma nova experiência,
de uma nova espiritualidade, que permita uma nova religação
de todas as nossas dimensões com as mais diversas instâncias da
realidade planetária, cósmica, histórica, psíquica e transcendental.
Só então será possível  o desenho de um novo modo de ser a partir
de um novo sentido de viver junto com toda a comunidade global.”33
Uma educação que não preconize esta dimensão de olhar o mundo
com o olhar da espiritualidade, não renova e não preserva.

32 FREIRE, op. cit.


33 BOFF, Leonardo. Ecologia: grito da terra, grito dos pobres. São Paulo: Ática, 1995.
62
Projeto Político Pedagógico Calabriano

7. A realidade onde se encontra a maioria das nossas escolas é permeada por


situações de desrespeito gritante no tocante aos direitos mais sagrados
da pessoa, tais como, alimentação, segurança, saneamento, lazer, saúde
e bem-estar em geral. Olhando por este prisma, deparamo-nos com
uma realidade doente. Um bilhão de pessoas vivem em estado de
pobreza absoluta; 3 bilhões têm alimentação insuficiente; 60 milhões
morrem anualmente de fome. O número de pessoas vivendo com HIV
no planeta atingiu seu maior nível, cerca de 40,3 milhões de pessoas.
A África subsariana continua a ser a mais afetada em termos globais –
com 64% de novas infecções ocorrendo nesse continente (mais de três
milhões de pessoas). Um indicativo muito forte de que a pauperização
dos povos contribui em muito para também a sua dizimação, por
catástrofes endêmicas e sociais. A nossa educação se desenvolve
nas periferias do mundo, onde a necessidade de um atendimento
especializado se faz muito mais urgente do que imaginamos.
8. Os grandes desafios que assolam a humanidade devem ser motivo de
nossa preocupação em fazer do mundo que vivemos um espaço melhor
e mais humanizado. O poder constituído passa por um momento de
grande fragilidade. Os estados, pela sua inoperância, perdem espaço
para os poderes paralelos como o narcotráfico, o tráfico de pessoas,
trabalho escravo e infantil, bem como a prostituição infantil. E
quando o poder público se deixa dominar pela ideologia privatista, a
sociedade passa a funcionar como um aglomerado de hordas. Guerra
de todos contra todos, insegurança generalizada. Quando o poder
soberano que emana do povo perde a primazia, tudo é permitido aos
poderes paralelos dos mais variados calibres.34
9. Em relação ao Brasil, vive-se entre a euforia e a depressão do
mercado. Não se tem certeza em quem acreditar hoje. As bolsas de
valores falam de crise na economia, os índices apontam para uma

34 LINCE, Leo. Os grampos do poder paralelo. Correio da Cidadania, 03-Set-2008.


Acessado 14 de Março de 2009.
63
Projeto Político Pedagógico Calabriano

grande redução de produção e consumo. Ainda não resolvemos o


problema da grande concentração de renda, da má distribuição de
terras e recursos sociais. Sobrevive-se da boa vontade política dos
governantes, que criam projetos sociais, que reforçam a dependência
e a subserviência. Ainda somos um país das bolsas e dos vales: bolsa
família, vale gás etc. Todo esse aparato de ajuda sociohumanitária
não passa de uma nova forma de “cabresto” eleitoral e cerceamento
do direito e da liberdade. Mesmo que se propague um índice de
crescimento econômico jamais visto anteriormente, também se
observa um imenso empobrecimento da maioria da população
brasileira. Entre os 177 países avaliados no último Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, o Brasil continua
ainda na 70ª. posição. Observa-se, viajando pelo país ou parado
em alguma esquina. O índice elevado de desempregados ou
subempregados assusta e muito. As desigualdades socioeconômicas
forjam necessariamente atitudes e ações de violências, fomentam a
corrupção nas esferas políticas e sociais.
10. Se o econômico e o social não estão lá grande coisa, mas
continuam na luta para estabelecer padrões mais condignos com
as necessidades do povo brasileiro, na cultura se percebe um
marasmo. Somos uma sociedade de “enlatados culturais”. Não se
sabe se por incompetência ou por falta de habilidades, ainda não nos
firmamos como um país de cultura. Existe uma expressão cultural
regionalizada, mas nada que se possa afirmar como identidade. E
dado o baixo nível acadêmico, nos contentamos com o rótulo do
melhor e único carnaval, o melhor futebol e nos lamentamos do
nosso posto miserável no Índice de Desenvolvimento da Educação
Básica (IDEB). A cultura que se difunde e se apreende é a cultura
dos meios de comunicação, manietados pelo poder que sugerem
violência, pornografia e competição. A falta de uma identidade
cultural faz com que se esboce uma pseudocultura a partir dos
estereótipos com perfis estrangeiros, partindo da hegemonia
do poder das grandes marcas multinacionais. Consumimos o

64
Projeto Político Pedagógico Calabriano

que o mercado financia e decide que consumamos e pensemos,


conforme os interesses deste mesmo mercado.35 “Constitui uma
responsabilidade estrita da escola, enquanto instituição educativa,
destacar a dimensão ética e religiosa da cultura, precisamente com
o objetivo de ativar o dinamismo espiritual do sujeito e de ajudá-lo a
alcançar a liberdade ética que pressupõe e aperfeiçoa à psicológica.
Mas não se dá liberdade ética, a não ser na confrontação com os
valores absolutos dos quais depende o sentido e o valor da vida do
ser humano.”36
11. O ser humano é transcendental. Neste sentido a dimensão religiosa
é intrínseca a todas as suas ações e anseios.37 Talvez esteja aí a
explicação para um sincretismo tão acentuado na sociedade atual.
A perda de referência religiosa leva a pessoa a um vazio sem limites
e provoca medos. Assim todo pensamento contrário à ideologia
corrente assume um papel de ameaça, de um perigo eminentemente
destrutivo. Assim aconteceu na guerra fria entre as ditas maiores
potências, os EUA e antiga URSS. E assim está ocorrendo hoje
em plena “democracia” instaurada no Brasil e na América Latina.
Quem não se insere na mentalidade, na moda corrente, no
fundamentalismo de algumas religiões e em até algumas facções
cristãs é tido como possível demônio.38 É notável também que
no aspecto transcendental, momentos de insegurança se tornam
propícios para o surgimento de movimentos eclesiais de cunho
fundamentalistas, com tendências fortes ao fanatismo.39 A religião
assume um papel fundamental e, se soubermos aproveitar, será
uma grande parceira na difusão de ideologias e espiritualidades.

35 Lei n° 8.313. Brasília: Ministério da Cultura, 23 de Dezembro de 1991.


36 Documento de Aparecida (DA), Nº. 330, pág.150.
37 TREVISOL, Jorge. Educação Transpessoal. São Paulo: Paulinas, 2008, págs. 79-101
38 MAY. Op.Cit., 145-185.
39 LIBANIO, J. B. Jovens em tempo de pós-modernidade. São Paulo: Loyola, 2004.
págs. 90-102
65
Projeto Político Pedagógico Calabriano

12. A educação, no pensamento de Louis Althusser, é um dos


aparelhos ideológicos mais poderosos, canal ideal para fazer
passar desejos, sentimentos e juízos.40 No momento atual,
a educação tem um papel muito importante na definição de
projetos e propósitos para a formação de um ser humano ético.
“A educação humaniza e personaliza o ser humano quando
consegue que este desenvolva plenamente seu pensamento e
sua liberdade.”41 Existem muitas experiências bonitas neste
sentido, mas o que se vê na realidade é uma educação sucateada
e atuando em formas de contemplação de interesses pessoais de
alguns em detrimento da necessidade da coletividade. Temos
uma educação de burocratas, um grupo formado por pensadores
de classe média que vê na educação um caminho firme para a
manutenção do “status quo”, onde a classe menos favorecida não
tem poder de fala. Proliferam por todo o país escolas particulares
na mesma velocidade em que se deteriora a educação pública.
Na Conferência Mundial de Educação, em Dacar, Senegal,
em 2000, que reuniu 164 países, sob o tema EDUCAÇÃO
PARA TODOS (EPT), entre eles estava o Brasil, afirmou-se
que a educação enquanto um direito humano fundamental é a
chave para um desenvolvimento sustentável, assim como para
assegurar a paz e a estabilidade dentro e entre países e, portanto,
um meio indispensável para alcançar a participação efetiva
nas sociedades e economias do século XXI. Não se pode mais
postergar esforços para atingir as metas de EPT. As necessidades
básicas da aprendizagem podem e devem ser alcançadas com
urgência e para isso foi assumido um compromisso de até 2015
atingirem-se seis metas fundamentais:42

40 ALTHUSSER, L. P. Aparelhos Ideológicos de Estado. 7 ed. Rio de Janeiro: Graal,


1998.
41 Documento de Aparecida, n.° 330.
42 http://www.brasilia.unesco.org/areas/educacao/institucional/EFA/objetivosEFA

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Projeto Político Pedagógico Calabriano

a) Expandir e melhorar o cuidado e a educação da criança pequena,


especialmente para as crianças mais vulneráveis e em maior
desvantagem;
b) Assegurar que todas as crianças, com ênfase especial nas
meninas e crianças em circunstâncias difíceis, tenham acesso
à educação primária, obrigatória, gratuita e de boa qualidade;
c) Assegurar que as necessidades de aprendizagem de todos
os jovens e adultos sejam atendidas pelo acesso equitativo
à aprendizagem apropriada, a habilidades para a vida e a
programas de formação para a cidadania;
d) Alcançar uma melhoria de 50% nos níveis de alfabetização de
adultos, especialmente para as mulheres, e acesso equitativo à
educação básica e continuada para todos os adultos;
e) Eliminar disparidades de gênero na educação primária e
secundária até 2005 e alcançar a igualdade de gênero na
educação até 2015, com enfoque na garantia ao acesso e o
desempenho pleno e equitativo de meninas na educação básica
de boa qualidade;
f) Melhorar todos os aspectos da qualidade da educação e as-
segurar excelência para todos, de forma a garantir a todos
resultados reconhecidos e mensuráveis, especialmente na
alfabetização, matemática e habilidades essenciais à vida.
Infelizmente o Brasil figura entre os 53 países que não
conseguiram ainda implementar as metas preconizadas.
13. A educação, não só no Brasil, mas no continente Latino Americano
como um todo, é impulsionada a adaptar-se às leis do mercado e
da produção. Quando se propõe algo a mais, fora disto, traça-se um
perfil de uma sociedade centrada em fatores não muito edificantes,
pois atentam contra a vida, a verdadeira concepção de família e
a sexualidade, gerando assim, mesmo que subliminarmente,
uma mentalidade contrária ao espírito religioso da juventude,
forjando-se uma atitude predisposta à violência, distorcendo-
se o verdadeiro valor da felicidade. É com essa categoria e este

67
Projeto Político Pedagógico Calabriano

modelo de sociedade que as escolas passam a conviver. Neste


sentido as escolas católicas devem se tornar um diferencial, um
divisor de águas. Como diz o Documento de Aparecida, “a escola
católica é chamada a uma profunda renovação. Devemos resgatar
a identidade católica de nossos centros educativos, por meio de
um impulso missionário corajoso e audaz, de modo que chegue a
ser uma opção profética, plasmada em uma pastoral da educação
participativa. Tais projetos devem promover a formação integral
da pessoa, tendo seu fundamento em Cristo, com identidade
eclesial e cultural, e com excelência acadêmica. Além disso, há de
gerar solidariedade e caridade para com os mais pobres.”43
14. Diante de tudo isso, aparece a imagem de uma família completa-
mente alterada na sua configuração. Essas mudanças de paradigmas
já estão forjando situações bastante desafiadoras. O Código Civil
de 1916 definiu a família como sendo um grupo constituído a
partir da instituição casamento entre um homem e uma mulher.
A partir da Nova Constituição de 1988, esta concepção foi
completamente alterada, respaldando de forma legal o que já
acontecia na prática; a família agora tem uma nova estrutura e uma
nova concepção. Segundo a Lei 8.069/90, o Estatuto da Criança
e do Adolescente (ECA), no seu art. 25, “entende-se por família
natural a comunidade formada pelos pais ou qualquer deles e
seus descendentes”. Um pouco mais adiantada está a prática do
direito, que reconhece também o casamento entre pessoas do
mesmo sexo, inclusive para o processo de adoção de filhos, com os
mesmos direitos e deveres de um casal heterossexual. Diante disso
surge uma necessidade urgente de dar-se um novo significado aos
valores éticos e morais familiares. Não podemos esquecer que, com
tudo isso, a família perdeu o seu poder de referência na educação
dos próprios filhos. É muito triste a constatação de que em quase
todas as famílias, sempre há um problema, de drogadição

43 Documento de Aparecida, Nºs. 337 a 153.


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Projeto Político Pedagógico Calabriano

ou de relacionamentos afetivo sexuais não condizentes com o que


sempre se propagou. E isso exige da escola um posicionamento
nem sempre fácil.
15. Diante de toda essa realidade é fundamental se perguntar, com
que tipo de lente é preciso olhar para tudo isto. Qual é o olhar
da Educação para este contexto completamente estruturado em
padrões totalmente diferentes dos padrões que ainda são utopia
do nosso fazer pedagógico? As nossas escolas estão neste contexto.
Que consciência se tem de que é preciso ter-se um novo olhar para
toda esta realidade. Não podemos mais ficar naquilo que éramos
ou que achávamos que deveria ser. O mundo mudou e nós mesmo
sem nos darmos conta, também mudamos, mas nem sempre temos
consciência de que estamos agindo exatamente como o mercado
quer. É preciso que assumamos uma postura crítica diante de
tudo isso e tenhamos claros quais paradigmas assumiremos
como norte do nosso construir pedagógico. Defendemos a visão
de uma instituição cristã-católica. Quais são os valores que nos
impulsionam a agir como educadores de uma nova utopia?

MARCO DOUTRINAL
A causa do homem será servida se a ciência se aliar à consciência.
O homem de ciência ajudará verdadeiramente
a humanidade se conservar “o sentido da transcendência
do homem sobre o mundo e de Deus sobre o homem”44

16. A educação modela as almas e recria os corações. Ela é a alavanca


das mudanças sociais (Paulo Freire). Esta frase traz o sentido
que a Obra Calabriana dá ao projeto educativo calabriano,
como administradora do projeto de Deus. Assim se recorda

44 JOÃO PAULO II. Discurso à Academia Pontifícia das Ciências, Nº. 4, 10.11.1979.

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Projeto Político Pedagógico Calabriano

que a sua primeira finalidade é, e sempre será: antes de tudo, a


nossa santificação pessoal, moldando a nossa vida e de todas
as atividades na vida e nos exemplos de Jesus Cristo. Uma
santidade totalmente comprometida com os desfavorecidos.
Os desvalidos. O projeto educativo calabriano tem a missão de
mostrar ao mundo que a Divina Providência existe, que Deus
Pai cuida de nós, com a condição de que confiemos n’Ele e nos
comprometamos com aquilo que nos cabe, isto é, procurar o
santo Reino de Deus.45
17. Na missão da Obra, desde a sua origem ficou clara a opção feita por
São João Calábria. Nas primeiras regras, aparece explicitamente
a escolha: “devem-se admitir primeiro os meninos que estão
sem pais ou com pais sem fé, sem lei, numa palavra, aqueles
dos quais se tem a certeza moral de que um dia acabarão sendo
vagabundos e cuja alma estará à beira do precipício. Se algum
menino é abandonado, que seja sem dúvida acolhido”46 . Deus
no ato da criação humana fez o ser humano à sua imagem
e semelhança, mas a maldade desfigurou esta imagem, que
aparece hoje tão maltratada nos mais pobres e abandonados.
A missão da Obra é a de restaurar da melhor maneira possível
este rosto de Deus, que perambula pelas periferias do mundo
todo que é Seu. O Calabriano, em especial os Religiosos, têm
uma vocação apostólica especial de sempre procurar e preferir
as pessoas mais necessitadas, as rejeitadas, as fracas, as doentes,
as marginalizadas, as abandonadas, aquelas que carecem da luz
da fé ou que recusam o amor de Deus, vivendo na ignorância, na
desordem moral; as vítimas da opressão e da miséria. E terão um
olhar para eles como filhos e filhas de Deus, verdadeiras pérolas
e riquezas da Obra.47

45 PSDP – Setor Social. Nosso Jeito de Ser. Porto Alegre, pág. 21.
46 GADILLI, Mario. São João Calábria – Biografia Oficial. São Paulo: Paulinas, 2001, pág. 163.
47 CONSTITUIÇÕES PSDP, N.° 19
70
Projeto Político Pedagógico Calabriano

18. Maria de Nazaré, a primeira educadora cristã, ocupa um papel de


destaque na Obra Calabriana, na qual é venerada como a Dona
da Obra. O seu exemplo de Mãe e Mestra define o perfil de quem
deseja viver esta grande experiência humana que é a de educar.
No seu magnificat, declarou abertamente o entendimento que
tinha de Deus e revelou a sua intimidade com o Criador. As
palavras definiram os traços característicos para quem deseja fazer
a experiência do seguimento do seu Filho, Jesus Cristo.
19. “O conhecimento exige uma presença curiosa do sujeito em
face do mundo. Requer uma ação transformadora sobre a
realidade. Demanda uma busca constante. Implica em invenção
e em reinvenção” (Paulo Freire). A Pedagogia Calabriana é a da
presença. Do corpo a corpo. E esta pedagogia se expressa na busca
constante do construir o Reino de Deus. E nesta construção, todos
são chamados a tomar parte. Não existem diferenças de nenhuma
ordem, somos todos iguais, em direitos, deveres e dignidades. Na
construção do Reino não se distinguem qualidades, mas se somam
possibilidades e se potencializam vidas. A utopia do reino no
pensamento de São João Calábria se traduz na sua sede por Deus,
pelas almas, pela Igreja, pela eternidade. “As almas custam sangue.
O sangue de Cristo”. A realidade não muda com palavras, mas
com ações que testemunhem uma coerência entre fé e vida. No
pensamento calabriano, a alma tem o sentido integral da pessoa.
O Reino de Deus não é somente um símbolo utópico no qual só
na esperança responde adequadamente; é também um símbolo
ético que exige mudanças de atitudes e de condutas, e é por
último um símbolo práxico, que exige uma determinada atividade,
em outras palavras, é a pratica da caridade no que tem de prática,
de transformação de injustiça histórica, em relações justas entre
os homens.48 A ação pedagógica calabriana vê no educando não

48 SOBRINO, Jon. Espiritualidade e Libertação – estrutura e conteúdos. São Paulo:


Loyola.

71
Projeto Político Pedagógico Calabriano

partes, mas um todo integrado, assim como integrada foi a pessoa


de Jesus. Portanto, os educandos devem ser bons cidadãos e bons
cristãos, mas eles não aprendem sozinhos ou só com palavras.
20. O projeto pedagógico não deseja inventar nada, mas sim relembrar
a sua existência. Por isso quase tudo que falamos aqui já foi dito,
talvez de uma outra maneira. Olhando a proposta calabriana de
educar, vemos que não é diferente daquela desejada e sonhada
pela Igreja Latino-Americana e Caribenha. O Documento
de Aparecida em seu N° 334 afirma que “a Igreja é chamada a
promover uma educação centrada na pessoa humana que é
capaz de viver na comunidade. Diante do fato de que muitos se
encontram excluídos, a Igreja deverá estimular uma educação de
qualidade para todos, formal e não-formal, especialmente para os
mais pobres. Uma educação que ofereça às crianças, aos jovens
e aos adultos o encontro com os valores culturais do próprio
país, descobrindo ou integrando neles a dimensão religiosa
e transcendente. Para isso, necessitamos de uma pastoral da
educação dinâmica e que acompanhe os processos educativos,
que seja voz, que legitime e salvaguarde a liberdade de educação
diante do Estado e o direito a uma educação de qualidade para
os mais despossuídos.”
Toda essa reflexão se insere na perspectiva da opção por uma
educação libertadora, como libertador foi Jesus Cristo. Essa opção
não é uma mera fantasia, mas sim, uma intuição carismática,
aprovada pela Igreja Católica Universal, quando aprovou as
Constituições dos Pobres Servos da Divina Providência, em
Roma, no dia 15 de Agosto de 1988. E é dessa opção que nasce a
nossa concepção de Pessoa, da Sociedade e de Igreja.

Como é a pessoa que queremos ajudar a construir?


21. Quando nos referimos à pessoa, temos presente a imagem do
Deus da criação. Quando decidiu criar o ser humano, o criou à sua
imagem e semelhança e o criou homem e mulher (Gn 1,27). Esse

72
Projeto Político Pedagógico Calabriano

projeto de Deus é um projeto de salvação e libertação. Impele-nos


a uma concepção da pessoa em processo na construção de uma
autoconsciência, que como Jesus vai se adentrando no mistério da
própria existência e vai se descobrindo uma com as outras e com
Deus.

Desse pensamento depreende a nossa imagem e concepção de que


a pessoa:

a) É um todo. Única e indivisível. Um filho de Deus, num processo


de construção nas suas várias dimensões;
b) É histórica, situa-se no tempo e no espaço onde está inserida, o
que lhe permite transformar-se e transformar;
c) Por ser dotada de inteligência, vontade e liberdade, vive
construindo relações interpessoais estabelecendo parâmetros e
paradigmas que a ajudam a construir a sua dignidade;
d) É transcendental: não pára num patamar, mas busca transcender
intra e externamente, construindo relações consigo mesma,
com os seus semelhantes e com o transcendente;
e) É um presente de Deus e como tal possui uma identidade própria.
Constitui-se no ser de potencialidades, de possibilidades e de
habilidades;
f) Vive em sociedade e desenvolve as suas relações: sociais,
políticas e religiosas, participando ativamente na construção e
reconstrução de valores éticos, morais e espirituais;
g) Beneficia-se de todos os avanços da técnica e tecnologia sem se
confundir com eles;
h) Tem paixão pela sua existência e para isso permite crescer na
ternura, no cuidado;
i) Não se limita apenas ao fazer, mas desenvolve uma preocupação
em ser mais;
j) Vive intensamente a experiência de fé e razão;
k) É crítica, consciente participativa e respeitadora das diferenças;
l) É solidária, altera e altruísta;
73
Projeto Político Pedagógico Calabriano

m) Cresce a partir da sua capacidade de olhar a realidade e o mundo


com os olhos de Deus;
n) É protagonista na construção da paz e na promoção da justiça
social e da fraternidade.

Perfil da sociedade que pretendemos ajudar a construir


22. A marca registrada da Obra Calabriana é o espírito de família.
Entendemos família como um espaço democrático de crescimento.
Neste sentido, a família é para nós como se costuma afirmar, a
célula da sociedade. Portanto se a nossa concepção de família é
sadia, a sociedade que concebemos também será uma sociedade
sadia. Numa alusão mais espiritualizada, acolhemos a proposta
de Leonardo Boff, que a Trindade é a melhor comunidade. É
na perspectiva do dinamismo da Trindade que nós entendemos
a sociedade como histórica, em contínua transformação. A
sociedade que queremos é uma sociedade que reflita a experiência
dos primeiros cristãos: solidária, igualitária, justa e fraterna. Não
haverá ninguém nem maior e nem menor, mas iguais e irmãos. Por
isso o sonho da Obra calabriana é construir uma sociedade:

a) Que reconheça todo ser humano como sujeito de direitos,


deveres e dignidade;
b) Onde o respeito pelo planeta não seja apenas poesia, mas uma
atitude de fato;
c) Que respeite as pessoas em suas opções, em suas culturas e seus
credos;
d) Que respeite a vida desde o seu alvorecer até o seu declinar;
e) Onde as crianças sejam amadas e não abandonadas e os jovens
sejam uma bênção e não massa de manobra e de consumo;
f) Onde a pessoa idosa seja tratada com uma riqueza de
conhecimento e saber e não como estorvo;
g) Que lute pelo direito à voz e a vez dos mais empobrecidos;
h) Sem discriminação;

74
Projeto Político Pedagógico Calabriano

i) Onde os bens necessários à vida e o bem-estar das pessoas sejam


conquistados pelo direito ao trabalho;
j) Aberta ao novo, sem temer a mudança, a transformação;
k) Que garanta a palavra a todos com a mesma equidade de direitos
e deveres;
l) Em que a família seja o centro das decisões e do acolhimento
com dignidade;
m) Onde o homem e a mulher não sejam diferenciados pelo gênero,
mas reconhecidos pela dignidade de serem pessoas;
n) Com tecnologias em benefício da vida e da sua promoção;
o) Que respeite os direitos políticos de cada um;
p) Sem violência física ou psicológica;
q) Transformadora das realidades, com base nos valores da ética,
da moral e da religião;
r) Livre, democrática e independente;
s) Acima das ideologias e da ditadura dos meios de comunicação
social;
t) De irmãos e amigos construtores de um mundo novo.

Que Igreja queremos ser e ajudar a construir?


23. A Igreja para a Obra Calabriana não se constitui num gueto religioso,
onde têm espaço somente os que comungam da minha mesma
crença. Mas segundo São João Calábria, todo o mundo é de Deus e
todos somos seus filhos. Portanto, a Igreja que queremos construir
tem a marca do ecumenismo, Igreja povo de Deus a caminho da
pátria definitiva, que vive uma tensão escatológica da presença do
Senhor ressuscitado e da fragilidade de sua situação imperfeita em
direção à plenitude.

A Igreja que queremos ser e ajudar a formar:

a) É discípula missionária: que segue os passos de Jesus Cristo e


adota as suas atitudes e ações;

75
Projeto Político Pedagógico Calabriano

b) Tem o rosto de Jesus Cristo morto e ressuscitado, que ainda


continua transfigurado nos rostos de tantos irmãos e irmãs
marginalizados;
c) Tem o perfil das bem-aventuranças (Mt 5, 8-ss);
d) Caminha para a Galileia com uma decidida retomada do
entusiasmo, lá onde tudo começou;
e) Não tem fronteira e nem limite de serviço, é disposta a ir lá
aonde ninguém quer ir;
f) É casa e escola de fraternidade e oração;
g) Abandona-se nas mãos da Divina Providência;
h) Defende a primazia de Deus e a sua paternidade;
i) Conta com a presença ativa dos leigos;
j) Combativa, que defenda o direito à vida, que abomina o
preconceito e a corrupção;
k) Que reza e promove a espiritualidade;
l) Aberta às novidades do espírito;
m) De luta;
n) Obediente à doutrina;
o) Humana, que não condena pecadores, mas os acolhe como fez
seu fundador, Jesus Cristo;
p) Consciente de que antes de si está o Reino de Deus;
q) Profeta e de profetas e profetisas;
r) Promotora da paz, da justiça e da fraternidade entre os povos.

MARCO OPERATIVO
“A gente tem que lutar para tornar possível o que ainda não é possível.
Isto faz parte da tarefa histórica de redesenhar e reconstruir o mundo”
(Paulo Freire)

24. Quem tem um porquê não se preocupa com o como, dizia Nietzsche.
Mesmo tendo a nossa utopia expressa em nossa concepção de
pessoa, sociedade e igreja que queremos relatadas no Marco

76
Projeto Político Pedagógico Calabriano

Doutrinal, é necessário que definamos que passos daremos na


construção desse sonho. O que definimos no Marco Doutrinal é
diametralmente oposto ao que constatamos na realidade revelada
pelo Marco Situacional. E isso pede uma transformação. Partir
dessa realidade dura e cruel, para gradativamente, respeitando o
processo pedagógico da Congregação e dos seus atores, chegar-se
a uma pedagogia ideal com uma configuração libertadora.
25. A caminhada que fazemos não a fazemos sozinhos. São muitos os
parceiros e parceiras desta história que já tem mais de um centenário.
Nossas ações sempre contaram e querem continuar a contar com
muita gente: toda a Família Calabriana: Pobres Servos, Pobres
Servas, Missionárias dos Pobres, os Leigos e Leigas Calabrianos
nos seus vários ramos, a Igreja, as Organizações Governamentais
e Não Governamentais, Organizações Culturais e Educacionais.
A nossa escola não age no vazio ou no isolamento, ela faz parte de
uma sociedade e como tal precisa contar com as forças sociais para
implementar o seu projeto transformador e libertador. O projeto
pedagógico quer ser “uma forma de interpretar e enxergar novas
perspectivas de mundo49, que é sinônimo de libertação do ser
humano”50.
26. O Sonho, a Utopia que sugerimos em nosso Marco Doutrinal,
não nos permite continuarmos caminhando do mesmo jeito.
A nossa proposta utópica exige de cada um de nós, atores e
atrizes pedagógicos calabrianos, uma postura completamente
diferente. Exige um comprometimento efetivo e afetivo com a
transformação de todas e quaisquer formas de injustiças, que dão
suporte a esta sociedade que defende a morte dos pequenos, os
interesses dos mais fortes, a submissão e opressão. O nosso fazer
pedagógico deve ser como se expressa o mestre Paulo Freire:
“não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por

49 RAMOS, Graciliano Ramos São Bernardo. 67ª ed., RJ /SP: Record, 1997.
50 FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 12 ed., RJ: Paz e Terra, 1983.

77
Projeto Político Pedagógico Calabriano

não ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada
de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e
aquilo. Não posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor
de não importa o quê. Não posso ser professor a favor simplesmente
do Homem ou da Humanidade, frase de uma vaguidade demasiado
contrastante com a concretude da prática educativa. Sou professor
a favor da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra o
autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia
contra a ditadura de direita ou de esquerda.”51

Concepção de Educação
27. Nossa concepção de educação é aquela intuída pela mente brilhante
e alma próxima de Deus, São João Calábria, o nosso fundador. E a
sua visão sobre o mundo como família de Deus nos fornece pistas
que deverão pautar a nossa maneira de ser e agir na educação.
Somos agentes de mudança e de transformação, mas ao nosso
olhar cada pessoa representa a imagem de Deus, do Deus vivo. São
João Calábria nos recomenda: “vede Deus em todos e todos em
Deus; vede Deus no pobre que encontrais no caminho, na pessoa
com a qual deveis tratar, nos meninos que deveis educar, nas almas
que a Divina Providência vos fizer aproximar”52 Se atentarmos para
esta exortação, veremos que ela tem muito do “educere”, envolver,
criando pistas para que a pessoa possa por si, valorizada, descobrir
as riquezas que possui interiormente e apontar pistas para o seu
próprio caminhar.
28. A Obra Calabriana em si, é um projeto pedagógico, porque
extremamente pedagógico foi a ação calabriana. Este projeto é
libertador porque, segundo São João Calábria, “foi o evangelho

51 CORTELLA, Mario Sergio. Paulo Freire: Utopia e Esperança. V Colóquio Inter-


nacional Paulo Freire – Recife, 19 a 22 de
52 Nosso jeito de ser. Porto Alegre, pág. 15.
78
Projeto Político Pedagógico Calabriano

que revelou o valor do ser humano como humano. Jesus descobriu


a alma das crianças, das mulheres, dos escravos, que eram postas
em dúvida pela sociedade de então. Ele revelou o amor de Deus”.53
Isso quer dizer que a nossa ação pedagógica necessariamente nos
impulsiona a:
a) Desconstruir esse mundo de competição e reconstruir um
mundo novo de fraternidade;
b) Oferecer a cada pessoa principalmente a oportunidade de
transcender aos limites que lhe são impostos pela sociedade,
possibilitando-lhe desenvolver todas as suas potencialidades de
ser humano filho de Deus;
c) Sermos antes de fazermos, como propunha e viveu São João
Calábria;54
d) Fazermos não como competidores, mas como quem age e nossa
ação se torne uma denúncia do sistema opressor e ao mesmo
tempo um jeito novo de educar;
e) Promover a construção da pessoa de forma integral. Ao mesmo
tempo em que lhe desafiamos a adquirir conhecimento, lhe
desafiaremos também a uma leitura do mundo na perspectiva
da filosofia de Jesus;
f) A agir segundo a fé que professamos, para que não haja contraste
entre o que fazemos e aquilo que acreditamos;
g) Antes de sermos mestres precisamos ser discípulos, porque
o verdadeiro mestre é aquele que está sempre aprendendo
(Guimarães Roas);
h) A fazer da escola um espaço de conhecimentos múltiplos,
possibilitando assim a ampliação do pensamento e o alargar da
consciência;55

53 Ib. idem
54 MARINA, Stefano. Le radici evangeliche della prassi educativa di San Giovanni
Calabria. Verona, 1989.
55 MORIN MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

79
Projeto Político Pedagógico Calabriano

i) Educar para a compreensão humana com uma missão pro-


priamente espiritual da educação;56
j) Ensinar a compreensão entre as pessoas como condição e garan-
tia da solidariedade intelectual e moral da humanidade;57
q) Desencadear o diálogo sobre a relação com o planeta e a ética
do cuidado;
l) Disponibilizar espaços para o discernimento, para a participação
efetiva e crítica na vida socialmente ativa, indo para além dos
clichês bancários;
m) Sensibilizar para a construção e a preservação de uma atitude
sempre voltada para o bem comum;
n) Promover a dimensão do protagonismo juvenil;
o) Promover a formação da pessoa na sua totalidade e liberdade
para autotranscender no amor;58
p) Conduzir as pessoas para a libertação e o conhecimento da verdade;
q) Ser desafiadora e comprometedora;
r) Levar as pessoas a olharem o seu mundo de forma crítica,
encantando-se com o que de belo existe e lutarem para mudar
o que não é belo.

Concepção de escola
29. A escola não é uma ilha isolada no oceano social. Não é um lugar para
guardar crianças, ou reformá-las, embora possa ajudar, orientar e
até alimentar. A escola não é paraíso. Nem inferno. A escola não
está aí por acaso. A escola salvará a sociedade se a sociedade salvar
a escola.59 Essa concepção de escola nos agrada muito, porque

56 MORIN, Edgar - Os sete Saberes Necessários à Educação do Futuro 3 ed. - São


Paulo: Cortez, 2007
57 Ib. Id.
58 Delegação Nossa Senhora Aparecida. Plano de Formação. Porto Alegre, 2006, pág. 15.
59 PERISSÉ,Gabriel. Mas o que é a escola? Correio da Cidadania, 15.04.2008. Aces-
sado em 18 de Março de 2009.
80
Projeto Político Pedagógico Calabriano

é assim que concebemos a escola. Mais que um lugar de impor


conhecimento é um espaço que possibilita o tornar-se na relação
com outros saberes. Assim a nossa escola calabriana:
a) Inclui-se na meta principal de uma escola católica: conduzir crianças
e jovens a Jesus Cristo vivo, Filho do Pai, irmão e amigo, Mestre e
Pastor, misericordioso, esperança, caminho, verdade e vida;
b) Tem como missão fazer aprender aqueles que apesar da escola
não aprenderiam;
c) É uma nova escola para uma nova sociedade, promotora de
justiça, fraternidade, solidariedade e igualdade;
d) Deve ser justa;
e) Humanizadora, onde a pessoa está em primeiro lugar;
f) Combate os erros, mas age com grande caridade para com quem
erra;60
g) Ajuda os seus alunos no processo de conhecimento de si e do
mundo;
h) Proporciona meios de conhecimento, que orientam a pessoa à
liberdade;
i) Desperta nos alunos o desejo pelo saber, mas não o saber pelo
saber, mas o saber para ser e crescer. Um saber que liberta;
j) É verdadeira, transparente e assume as suas limitações, não
como fracasso, mas como uma oportunidade de crescimento;
k) Elabora seu currículo a partir de uma visão sistêmica, rejunta
o todo e impulsiona a razão aberta, pois “conhecer é sempre
rejuntar uma informação a seu contexto e ao conjunto ao qual
pertence”;61
l) Programa seu fazer pedagógico transversalizado por uma fé
integral que leva a comunidade escolar a encontrar Jesus Cristo;62

60 Nosso jeito. Op. Cit, pág. 14.


61 MORIN, Edgar. Problemas de uma epistemologia complexa. In O Problema Epis-
temológico da Complexidade. Portugal: Publicações Europa-América. 1989.
62 Documento de Aparecida, Nº. 338.

81
Projeto Político Pedagógico Calabriano

m) É um centro de evangelização, e como tal assume seu papel de


formadora de discípulos missionários em toda a comunidade
educativa;63
n) Ministra o Ensino Religioso confessional católico, como
disciplina indispensável;64
o) Orienta para observação de limites e corresponsabilidade;
p) Valoriza e promove como espaço pedagógico as experiências
extra-escolares;
q) Oferece aos atores educativos a possibilidade de especialização
em suas áreas de atuação;
r) Reserva-se o direito de avaliar os candidatos a educadores, bem
como o perfil do candidato a educando e a sua família;
s) Promove em todas as suas unidades espaços de formação
humano-espiritual voltados para toda a comunidade educativa.

30. Estamos dentro de um processo de ações coletivas integradas e


interdisciplinares, aonde cada ator vai se construindo como pessoa
e como identidade própria, o que lhe garante mobilidade mesmo
com as suas diferenças e limites. O seu crescimento pessoal e social
vai lhe permitindo delimitar sua área de movimento, que será mais
estreita ou mais ampla, segundo as suas reais necessidades. Na
relação de um coletivo, os atores vão aprendendo a lidar com tudo
aquilo que diz respeito à realidade humana: seus sentimentos, suas
utopias e realidades. Numa troca contínua, fortalecem seus laços
de convivência e assumem efetivamente sua pertença ao projeto.
31. A escola como espaço democrático administra filosofias e
compartilha o poder, mesmo por entender poder não como
status, mas como um serviço. Partindo disso a Comunidade
Educativa não representa uma força tarefa, mas sujeitos que se

63 Id. Ib.
64 Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional, Lei nº 9.394, de 20 de dezembro
de 1996, Art 33º., Inc I.

82
Projeto Político Pedagógico Calabriano

interrelacionam e procuram construir uma realidade utópica num


vir-a-ser libertador, onde um não é mais importante que o outro,
mas a presença e a ação de cada um são vitais para o sucesso de sua
missão transformadora. Assim suas ações são democráticas no seu
todo: metodologia, conteúdos, avaliação e agentes envolvidos no
desenrolar do processo.

Metodologia
32. A palavra metodologia vem de methodós, do grego, e significa
caminhos para chegar a um lugar (meta). Segundo Kosuke Koiama,
teólogo asiático, é difícil adentrar em um método antes de começar
a trilhar o caminho aonde se deseja chegar.65 Estamos vivendo em
cheio esta realidade na experiência que estamos fazendo no retorno
à Galileia. É no caminho que ardem os corações, desvendam-
se os olhos e se reconhece o Mestre. Falando em mestre, Paulo
Freire neste sentido afirma: “a cabeça pensa onde os pés pisam.66
Portanto, a metodologia está relacionada com a Utopia do projeto
e inerente ao Marco Operativo que estabelecemos como proposta
educativa. Mas a nossa cabeça deve necessariamente estar na
realidade.

Nossa metodologia:
a) Preconiza o investimento na pessoa humana, particularmente
naquelas das quais humanamente nada se pode esperar;
b) Dá primazia de Deus sobre as proteções humanas: em
pensamentos, atitudes e ações;
c) Traz a marca da esperança, da valorização, da solidariedade, da
gratuidade, do serviço, da disponibilidade e do trabalho feito
com dedicação e prazer;

65 MUNHOZ, Alzira. Desafios para uma metodologia libertadora, relacional, parti-


cipativa e inclusiva. Catequistas Franciscanas, acessado em 19.03.2009.
66 Id.ib

83
Projeto Político Pedagógico Calabriano

d) Desperta para o desejo do saber e do aprender;


e) Parte do princípio de que a escola deve fornecer os meios
adequados e com qualidade para o exercício da aprendizagem;
f) Baseia-se na prática libertadora de Jesus;
g) Segue o ritual calabriano: ver, inclinar-se, sacudir suavemente,
reconhecer e acolher;
h) É problematizadora, dialógica, oposta à educação bancária, por
isso não trata os alunos como depósitos de conteúdos;67
i) Promove caminhos para que a pessoa seja sujeito e construa sua
autonomia;68
j) Sua pesquisa é temática, e torna assim um esforço comum de
consciência e autoconsciência da realidade, onde o sujeito
reflete e se reflete a partir do seu espaço real, em busca de um
mundo ideal;
k) Dá-se pelo reencatamento do indivíduo por si e pelo processo
em que se encontra;69
l) Aceita a pessoa jovem como ela é e oferece-lhe oportunidade de
expressar-se em todo seu dinamismo e criatividade, não tolhe a
sua iniciativa, não corta sua expansividade;
m) Acredita nas pessoas e nas suas razões;
n) É exigente no que diz respeito aos planejamentos educacionais
participativos;
o) Defende os princípios da Igreja Católica e da Congregação;
p) Exige uma contínua atualização e aperfeiçoamento da comuni-
dade educativa;
q) Prioriza a ternura, o afeto, mas exige firmeza nos combinados.

67 Freire, Op.cit.
68 FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam.
São Paulo: Autores Associados, 1989, pag. 73
69 ASSMANN, Hugo. Reencantar a educação: rumo à sociedade aprendente. Petró-
polis, RJ: Vozes, 1998.
84
Projeto Político Pedagógico Calabriano

Conteúdos
33. Os conteúdos não podem ser fantasias, mas realidade. “A leitura do
mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta,
não pode prescindir da continuidade da leitura daquele (A palavra
que eu digo sai do mundo que estou lendo, mas a palavra que sai
do mundo que eu estou lendo vai além dele). (...) Se for capaz
de escrever minha palavra estarei de certa forma transformando
o mundo. O ato de ler o mundo implica uma leitura dentro e fora
de mim. Implica na relação que eu tenho com esse mundo”.70 Isto
quer dizer que toda e qualquer relação com o mundo é conteúdo
e que apenas se torna necessário estabelecer diretrizes comuns de
ação.

34. O conteúdo, como todas as etapas do processo, não é um fim, mas


um meio para que o processo possa se desenvolver a contento e
segundo a utopia do projeto. Assim ele é indispensável para:
Significar ou ressignificar todas experiências da pessoa;
a) “Para auxiliar na reflexão, na meditação, no voltar-se para dentro
de si”;71
b) Repensar a reforma, reformar o pensamento,72, alargando assim
a consciência em direção a um compromisso sociopolítico e
ético-moral;
c) Resgatar a construção de experiências e saberes num processo
dialógico de igualdade;73
d) Descontruir o antigo que oprime para reconstruir o novo com
novo olhar e novos paradigmas;

70 FREIRE, Paulo. Abertura do Congresso Brasileiro de Leitura. Campinas, Novem-


bro de 1981.
71 CAGLIARI, L.C. Alfabetização & Lingüística, 2ª. Ed. Editora Scipione, São Paulo,
1990.
72 MORIN, Edgar. Op. Cit.
73 ARROYO, Miguel González. Educação de Jovens e Adultos: um campo de direi-
tos e de responsabilidade pública.

85
Projeto Político Pedagógico Calabriano

e) Uma postura de projetualidade e presença nas realidades


hodiernas;
f) A produção de ações que partam dos temas da vida do indivíduo
e se interlaçam, formando redes que contemplem a vida da
sociedade e do planeta;
g) Descobrir na realidade de si mesmo e do mundo o encantamento
do saber unificado, espiritual e místico;74
h) Iluminar de maneira que as disciplinas não se tornem formas de
manipulação da consciência;
i) Fundamentar valores importantes na relação com Deus, com os
outros e com o próprio indivíduo;
j) O desenvolvimento de uma espiritualidade que integra a pessoa
em todas as suas dimensões;
k) Derrubar certezas e consolidar possibilidades;
l) Projetar uma formação além das formalidades;
m) Humanizar as normas e disciplinar o espírito;
n) Promover a liberdade como o lugar da resistência, mas sem
contenção do poder.75

35. Segundo Friedrich Nietzsche, a prioridade da educação é promover


capacidades intelectuais, artísticas, emotivas e físicas de cada
educando; e que a educação é o cultivo e adestramento de si, das
características próprias de cada sujeito e de seu potencial criativo.
Os conteúdos, como dissemos, são um meio para isto. Mas o
que nos move em direção a esta preocupação? A quem servimos
com o nosso empenho? Que tipo de pessoas, sociedade e igreja
fazem parte da nossa utopia? Que avaliação fazemos do nosso ser
educadores e do nosso fazer pedagógicos?

74 TREVISOL, JORGE. O reencantamento humano. São Paulo: Paulinas, 2005.


75 DOSTOIEVSKI, Fiodor Mikhailovitch. Crime e castigo. Editora 34, 2004.
86
Projeto Político Pedagógico Calabriano

A Avaliação
36. A avaliação não começa e nem termina na sala de aula, ela envolve
todo o processo político pedagógico da instituição. Ela se
constitui em uma ferramenta do processo e se torna um elemento
fundamental. Por isso ela:
a) Deve ser progressiva e favorecer o crescimento do educando;
b) Dinamiza o processo de aprendizagem do educando;
c) Exige mais tempo e esforço por parte do educador;
d) Incentiva o estudo e a busca da aprendizagem;
e) Deve ser feita com a participação do educando;
f) Parte dos resultados obtidos considerando principalmente os
aspectos qualitativos;
g) Considera todas as dimensões humanas;
h) Deve ser formativa, continuada, integrada e global;76
i) É fundamentalmente autoavaliação;
j) Atua diretamente nas causas que prejudicam o processo ensino-
aprendizagem;
k) Está a serviço dos princípios e valores do projeto pedagógico;
l) Vincula-se de maneira comprometida com a filosofia da Congre-
gação;
m) Estabelece parâmetros e paradigmas a partir dos ensinamentos
de Jesus Cristo.

Agentes pedagógicos envolvidos no processo


37. O educador Calabriano é agente num processo essencialmente
cristão, e como tal de libertação integral da pessoa. Assim em
suas interrelações e ações, pautará pelos princípios de uma
educação católico-cristã, nos moldes intuídos pelo discernimento
carismático de São João Calábria. E tem em mente que “Não
posso estar seguro do que faço se não tenho como fundamentar

76 HOFFMANN, Jussara. Avaliação Mediadora: uma prática em construção da pré-


escola à universidade. 14 ed. Porto Alegre: Mediação, 1998.

87
Projeto Político Pedagógico Calabriano

cientificamente a minha ação, se não tenho pelo menos algumas


ideias em torno do que faço, porque faço, para que faço. Se pouco
ou nada sei sobre ou a favor de quê e de quem, de contra quê e
contra quem faço o que estou fazendo ou farei”.77
38. Daí depreende que o educador calabriano:
a) Tem como modelo, a pessoa de Jesus Cristo, grande educador e
mestre e a figura de São João Calábria, um homem do evangelho;
b) Como São João Calábria, educa pelo que é e faz;
c) Tem consciência da paternidade de Deus e da sua filiação e age
como uma pessoa em construção;
d) É aberto ao transcendente;
e) Respeita a pessoa como ela é em sua dignidade e não pela sua
capacidade;
f) Tem no amor o ingrediente essencial para o seu ser e agir;
g) Cultiva em si e em seu meio o espírito de família, característica
fundamental da espiritualidade calabriana;
h) Estima e acredita nos educandos;
i) Busca cultivar o autoconhecimento;
j) É ético, orienta suas ações, baseando-se no princípio do respeito
e da solidariedade, do convívio e da realização de um bem
coletivo, principalmente em favor dos empobrecidos;
k) Tem consciência da realidade político–social e direciona o seu
ser e fazer à construção coletiva da sociedade e ao exercício dos
direitos e deveres;
l) Atualiza seu conhecimento didático-pedagógico adequando-se
às novas tecnologias aplicadas à educação;
m) Assume que no exercício da atividade produtiva deve encontrar
possibilidades de empenhar a própria responsabilidade e
aperfeiçoar o próprio ser;78

77 FREIRE, P. Pedagogia do oprimido - Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987


78 JOÃO XXIII, P. Mater et Magistra: Evolução da Questão Social à Luz da Doutrina
Cristã - Curitiba: O Momento, 1961.
88
Projeto Político Pedagógico Calabriano

n) Reconhece-se um instrumento nas mãos de Deus que age por


meio das suas;
o) Promove a coresponsabilidade dos educandos;
p) É consciente de seu papel e assume que “ensinar não é transferir
conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou
a sua construção”, e ainda, que o “ensinar inexiste sem o aprender
e vice-versa”;79
q) Desenvolve em si atitudes reflexivas que são fundamentais para
o exercício da sua missão: abertura para o novo, responsabilidade
e envolvimento;80
r) É alguém com autoridade, que disciplina sem reprimir, mais
pela sua agilidade em ajudar a navegar pelo conhecimento;
s) Interessa-se por tudo o que diz respeito à comunidade educativa;
t) Assume junto com todo o corpo educativo as responsabilidades
em zelar e preservar não só o espaço físico, mas a filosofia e a
espiritualidade da Obra;
u) Tem a mente voltada para a preservação do ambiente e do planeta;
v) Defensor da justiça, da ética e da moral;
w) Não se considera mestre, mas um aprendiz mais adulto;
x) É alguém capaz de estabelecer uma relação diferente com o
conhecimento e com a sociedade;81
y) Vê as pessoas como “corpos conscientes” e a consciência como
consciência intencionada ao mundo e não como depósito de
conteúdos;82
z) Sabe escutar e cria condições e confiança para que os outros
possam falar.

79 FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia - São Paulo: Paz e Terra, 1996


80 DEWEY, J. How we think - Chicago: Henry Regnery, 1933.
81 FREIRE Paulo & SHOR Ira. Medo e Ousadia: o cotidiano do professor. Paz e
Terra: Rio de Janeiro, 1987.
82 FREIRE, Paulo. Op. Cit.

89
Projeto Político Pedagógico Calabriano

39. Os educandos são sujeitos, protagonistas da sua própria historia.


Articulam o seu conhecimento com o contexto sociopolítico e cultural
em que se encontram. Antes de fazer leituras de textos gráficos, lêem o
contexto real onde a sua história está sendo construída.
a) Comprometidos com o processo de transformação, o educando
calabriano:
b) É uma pessoa aberta ao transcendente. Vive uma experiência
de inquietude sadia em se tornar aquilo que é83, numa relação
construída na convivência com os outros e com o Outro;84
c) Constrói um processo de conscientização da sua missão na
sociedade;
d) É livre, aberto, sujeito de sua própria história e construtor de
sua própria realidade;
e) Tem iniciativas com perspectivas sempre mais amplas de futuro;
f) Está sempre disposto a crescer, não se conforma com a
mediocridade, sempre em busca de transcender os limites dos
obstáculos;
g) Age como ator social consciente do seu papel na transformação
da realidade pessoal e social, política e religiosa;
h) É multiplicador de ideias e ações que vão sendo construídas no
processo ensino-aprendizagem;
i) Experimenta em si e transmite aos demais, valores éticos e
cristãos;
j) É pessoa de diálogo construtivo;
k) Insere-se em projetos que promovam a paz e a justiça social;
l) Desenvolve de maneira cada vez mais profunda a consciência da
sua filiação divina;
m) Adquire métodos pacíficos de administrar os conflitos;
n) Fortalece sempre mais os seus laços familiares;

83 TREVISOL, Jorge. Op.cit. pág. 182.


84 IMODA, Franco. Psicologia e Mistério. São Paulo: Paulinas, 1996.
90
Projeto Político Pedagógico Calabriano

o) Constrói uma autonomia intelectual ampliando a sua capacidade


de sentir, pensar e agir;
p) Vive um processo fecundo de interrelação, no qual não invade,
mas também não permite invasão da sua consciência.

A família que queremos ajudar a formar


40. A expressão Vida de Família é um marco característico da
espiritualidade e do fazer calabrianos. Não se pode conceber um
projeto desta magnitude sem trazer presente não só a imagem mas
principalmente a importância da família e da sua participação na
educação dos filhos.
41. A família não deve e nem pode jamais delegar a sua participação
ativa e efetiva na formação dos seus filhos e neste sentido ela:
a) Necessariamente precisa conhecer o Projeto Político Pedagógico
Calabriano;
b) Participa ativamente na construção do projeto pedagógico da
unidade escolar;
c) Acompanha o desenvolvimento humano e acadêmico dos filhos
numa interação com a os demais segmentos da comunidade escolar;
d) Apóia os projetos de formação extraescolares, principalmente
na vertente solidariedade e justiça social;
e) Não descura a dimensão de transcendência da educação do seu
filho;
f) Age de maneira afetiva e efetiva nas ações promovidas pela
escola;
g) Controla a presença e participação do seu filho em todas as
ações escolares;
h) Desenvolve uma postura crítica e ética diante daquilo que é
propagado como valores nos meios de comunicação social.

Serviço de Pastoral Escolar (SPE)


42. “Em um mundo dessacralizado e em uma época marcada por
uma preocupante cultura do vazio e do sem-sentido, estamos

91
Projeto Político Pedagógico Calabriano

chamados a anunciar o primado de Deus e a apresentar propostas


de eventuais novos caminhos de evangelização”85.
43. A pessoa é essencialmente religiosa. Esta dimensão permeia o DNA
da existência humana. O desejo de responder às três questões
vitais: QUEM SOU? DE ONDE VIM? PARA AONDE VOU?
leva a pessoa a uma busca além da realidade sensível, mergulha-a
num aspecto transcendental. Por isso, um dos elementos mais
importantes no Projeto Político Pedagógico Calabriano é a
Pastoral da Educação.
44. Pastoral da Educação é a presença evangelizadora da Igreja no
mundo da educação, possibilitando, por meio de processos
pedagógicos, dinâmicos e criativos, o encontro das pessoas com
os valores do Reino de Deus.
45. Neste sentido, a Pastoral Escolar:
a) É uma reflexão e ação conjunta, realizadas à luz dos valores
evangélicos;
b) Questiona criticamente a vida e ação dos educadores, pais,
professores, comunicadores, formadores de opinião e outros, pes-
soas que influenciam direta e indiretamente a formação humana;
c) Deve manter um diálogo constante com a Família e demais
pastorais relacionadas à Criança, à Juventude, e Comunicações;
d) Constrói a dimensão de Reino de Deus para que as pessoas
livremente assimilem, reconstruam e assumam a proposta de
Deus no caminho para a felicidade;
e) Dinamiza o processo de reflexão e articulação entre os demais
serviços escolares;
f) Envolve toda a comunidade escolar numa ação mística que
ajudará no processo de discernimento;
g) Ajuda a comunidade escolar a identificar a sua missão profética;
h) Ajuda na iluminação da leitura do mundo e da história a partir
de uma perspectiva evangélica;

85 Bento XVI. VATICANO, 20 Setembro de 2008.


92
Projeto Político Pedagógico Calabriano

i) Articula para celebrar os momentos importantes da vida do


povo, da Igreja e da Congregação;
j) Evangeliza e se deixa evangelizar;
k) Ilumina a interação entre o compromisso fé-política;
l) Promove a entrega espiritual a Deus e a descoberta da vocação
e missão de cada um;
m) Constrói atitudes evangélicas e proféticas;

Ensino Religioso
46. O Ensino Religioso se constitui em um elemento fundamental para
a formação integral da pessoa. A sua importância é tão grande que
a Lei de Diretrizes e Base da Educação (LDBE) prevê em seu art.
33 como obrigatório na educação fundamental, mesmo se a sua
matrícula for de caráter facultativo.
47. O Ensino Religioso é, portanto, uma questão diretamente ligada
à vida, e que vai se refletir no comportamento, no sentido que
orienta a sua ética.86 Tornando-se assim um eixo que norteia
o currículo de uma escola. É como se fosse um navegador
que identifica o processo de compreensão da dimensão da
transcendência.
48. Por isso o Ensino Religioso na escola calabriana:
a) É um dos componentes transversais do seu método e conteúdo
educativos centrados na vida;
b) Torna-se um espaço que favorece aos seus educandos a
descoberta e/ou o aprofundamento da fé;
c) Permite esclarecer posições, e uma autenticidade na busca da
integridade humana, e a colaborar para a construção de uma
sociedade melhor;87
d) Contribui para que se crie na comunidade escolar uma
consciência da relação de filiação divina;

86 TIEMI MAKIYAMA, Matilde. O Ensino Religioso. Acessado 08.04.2009.


87 Ib. Idem.

93
Projeto Político Pedagógico Calabriano

e) Favorece o crescimento da pessoa como alguém voltado para o


transcendente;
f) Estabelece um respeito maior pela opção religiosa de cada um;
g)Proporciona uma maior fraternidade, estabelecida pelo
sentimento e ações ecumênicos;
h) Contribui para o desenvolvimento de um espírito criativo e
livre;88
i) Acredita que há uma vocação da humanidade para transformar
o mundo e há uma vocação de todo ser humano para a vida
divina;
j) É confessional-católico por acreditar que todas as confissões
religiosas têm o direito de comunicar a sua visão cultural às
novas gerações por meio do ensino;89
k) Acredita que um processo pedagógico é sólido quando ilumina
as atividades intelectuais com a luz da fé.90

88 DA SILVA Valmor. Ensino Religioso – educação centrada na vida. São Paulo: Pau-
lus, 2004, pág.124.
89 SANTORO, Filippo. Uma questão de liberdade – Jornal O GLOBO – p.9
–10.11.2003-RJ.
90 JOÃO PAULO II. Encíclica Razão e Fé. 6 ed. São Paulo: Loyola, 1998.
94
IX
DIAGNÓSTICO
Diagnóstico

“... o conhecimento não é impessoal como o dinheiro.


O conhecimento não reside em um livro,
em um banco de dados, em um programa de software;
estes contêm apenas informações. O conhecimento está sempre
incorporado a uma pessoa, é transformado por uma pessoa, é criado,
ampliado ou aperfeiçoado por uma pessoa, é aplicado,
ensinado e transmitido por uma pessoa e é usado,
bem ou mal, por uma pessoa”91
(Peter Drucker)

49. O diagnóstico apresentado aqui parte de uma visão global dos


diálogos com os diretores e coordenadores pedagógicos das
escolas da Delegação Nossa Senhora Aparecida, a partir de uma
visita realizada pelo Setor Educação. O que solicitamos é que
a partir do nosso marco referencial, cada unidade de educação
realize o seu diagnóstico e a partir dele faça o seu Planejamento
Político Pedagógico.
50. A Delegação Nossa Senhora Aparecida possui em suas mãos um
potencial humano imenso na área da educação formal. Só as escolas
de Marituba, no Pará, têm juntas aproximadamente 4.100 alunos.
A escola de São Luis, no Maranhão, tem aproximadamente 1.800
alunos. Todas as famílias destes alunos e mais os colaboradores
atingem um número elevado de pessoas que deveriam ser
evangelizadas e evangelizar-nos.

91 DRUCKER, Peter F. As Novas Realidades: No Governo e na Política, na Econo-


mia e nas Empresas, na Sociedade e na Visão de Mundo. 4.ed. São Paulo: Pionei-
ra, 1997, pág. 165

97
Projeto Político Pedagógico Calabriano

51. Existe uma ação muito grande por parte da Delegação, mas está
faltando um elo que dê uma unidade nos Regionais e no Brasil. Falta
não só para as escolas, mas como para toda a Obra, uma identidade,
o que o SETOR EDUCAÇÃO juntamente com os 100% dos
gestores chamam de uma “MARCA” ou uma “LOGOMARCA”, e
isso ficou bem claro, observando-se que, bem diferente de outras
congregações ou empresas, em nossas unidades (filiais), cada uma
tem uma logomarca própria.
52. Somos uma Entidade Católica, mas infelizmente não nos impomos
como tal. Não estamos aproveitando do espaço que a lei e os
convênios com o poder público nos facultam, que é o de fazer
valer a nossa filosofia (nosso carisma, nossa espiritualidade) na
administração das escolas.
53. Percebe-se nas unidades um forte jogo de poder, inclusive dentro
do próprio instituto.92 O que prejudica enormemente a realização
de uma ação eminentemente evangelizadora.
54. Existem religiosos e leigos comprometidos e preocupados em fazer
acontecer o carisma. Por isso, principalmente em Marituba, é urgente
um religioso para o trabalho exclusivo com a educação, para que possa
nortear principalmente a espiritualidade e a filosofia da obra.
55. Os eventos calabrianos se tornaram bastante superficiais,
enfraquecendo assim a força de evangelização que deveriam ter.
56. Os colaboradores não estão sendo preparados para assumirem com
responsabilidade a missão da obra (vestir a camisa). Sua presença
é mais para o emprego que para uma missão. O projeto educativo
está quase que exclusivamente nas mãos de leigos, que não foram
iniciados no carisma e por isso o desconhece.
57. O Projeto Educacional Calabriano de São Luis precisa urgentemente
de uma revisão (bastante depredado, não só no sentido físico, mas
também no pedagógico).

92 Isso foi relatado nas visitas e também constatado pelos membros do SETOR DA
EDUCAÇÃO, principalmente pelos leigos.
98
Projeto Político Pedagógico Calabriano

58. Estabelecer uma parceria mais eficaz e eficiente com as Irmãs


Pobres Servas no projeto de Feira de Santana.
59. Devido os convênios com o poder público, os professores vivem
uma situação de grande instabilidade, pois a grande maioria não é
concursada, o que acarreta perseguição de caráter político-partidário.
Isso atrapalha em muito o processo ensino aprendizagem e ao mesmo
tempo, a inserção do profissional na espiritualidade da Obra.
60. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), que foi
criado em 2007 para medir a qualidade de cada escola e de cada
rede de ensino, revelou que as nossas escolas não conseguiram
superar o índice estabelecido para 2007, exceto N. S. Rainha da
Paz, no Pará, e São José Operário, no Maranhão, nas séries iniciais.
61. Os educandos ainda não têm uma consciência suficiente sobre o
papel da educação em suas vidas. Isso aparece no pouco interesse
pela educação, o não rompimento com velhos paradigmas que
norteiam seu agir.
62. Vivemos uma experiência do desinteresse da família pela educação
dos filhos, o que acarreta uma grande dificuldade de envolvê-los
no processo educativo, a maioria das famílias delega totalmente
à escola o papel de educar os seus filhos. Outros pais, dada à
situação de empobrecimento, não têm tempo para acompanhar o
desenvolvimento e a presença dos filhos nas escolas.
63. Há que se trabalhar muito por parte da Delegação para uma
efetivação do Processo de Planejamento Participativo, que no
envolvimento de toda a comunidade escolar aumente o interesse
pela educação global e leve à construção de uma verdadeira
abertura para uma ação mais comunitária.
64. A crise de valores que afeta tão violentamente a sociedade não
deixou incólumes as nossas escolas, mas percebemos o esforço
das direções em proporcionar tanto aos alunos como aos
educadores e familiares momentos de reflexão e ação, em busca
da recuperação dos valores por meio de formação e campanhas
ético-pedagógicas.

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Projeto Político Pedagógico Calabriano

65. Os momentos comemorativos, de celebrações e de orações ajudam a


estabelecer uma maior aproximação da sala de aula com os princípios
ético-cristãos que norteiam o projeto pedagógico calabriano.

100
X
CONCLUSÃO
Conclusão

Estamos conscientes que um projeto é um processo, e em


processos não se coloca ponto final. O processo é rico porque permite
que se vá ao longo da caminhada aperfeiçoando ideias, melhorando
estratégias e até suprimindo sonhos irrealizáveis.
O nosso trabalho até aqui foi levantar hipóteses, visualizar
sínteses e apontar caminhos possíveis para uma melhor estruturação
da nossa ferramenta de evangelização chamada educação.
Os caminhos que percorremos para produzirmos este documento
não foram tão árduos, porque encontramos neles pessoas muito bem
dispostas a nos ajudar. Em primeiro lugar, o apoio do Conselho de
Delegação, que nos confiou este trabalho e nos deu plena abertura para
que o realizássemos. Depois a disponibilidade de todas as unidades
por onde passamos buscando informações e sugestões, os diretores e
diretoras de escolas que nos acolheram de portas e corações abertos.
As comunidades religiosas que nos acolheram e nos hospedaram,
fazendo de tudo para que pudéssemos ficar à vontade e realizarmos
o nosso trabalho.
Como se pode ver, este é um trabalho realizado a muitas mãos,
cabeças e corações. Este projeto é o que diz: um projeto, que se
vai tornar realidade a partir do comprometimento de toda a nossa
Delegação, onde cada um, nas suas competências, habilidades e
possibilidades dará o máximo de si, para que o nosso retorno para
a Galileia seja um caminhar que pode até não ser tão tranquilo, mas
que seja consciente e comprometido, principalmente com a causa
dos mais despossuídos.
Não temos um garimpo, mas temos uma multidão de pérolas que
dependem do nosso sentir, pensar e agir. E como calabrianos, estas
nossas atitudes não podem ser diferentes daquelas de Jesus Cristo.

103
Projeto Político Pedagógico Calabriano

Este documento será para a educação calabriana aquilo que a


bússola é para os navegantes: um navegador que orienta a navegação
nas águas mais profundas, mas sempre apontando para um porto cada
vez mais seguro.

104
Projeto Político Pedagógico Calabriano

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