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Legião de Mamon

BIOSOFIA

Para uma nova compreensão da Vida, do Universo e do


Homem.

O SOM E O NÚMERO

O Som Criador

Todas as Escrituras Sagradas, de Oriente a Ocidente, se referem a um Som inicial,


fazedor de Mundos. No Ocidente, a versão bíblica nos diz que “No princípio era o
Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com
Deus. Todas as coisas foram feitas por meio dele” (João, 1:1-3).
Igualmente nas Cosmogonias mais orientais, o som (sabda, em sânscrito) é o
construtor da Manifestação (Sabda Brahman). No sistema Vedantino, esse Som
criador ou Palavra é Vâch. E mais a Ocidente, os Gregos antigos tinham o
designativo Logos para este mesmo conceito. Contudo, Verbo, vocábulo de
etimologia latina, é um termo sumamente feliz para significar, precisamente, esse
acto da Criação.

Gramaticalmente, Verbo é uma palavra com a qual afirmamos a existência de uma


acção, de um estado ou de uma qualidade que atribuímos ao sujeito. É, pois, algo
como uma extensão (activa) do (de um) sujeito. Infere-se, daí, que o sujeito
permanece abstracto e imanifestado sem essa acção, que então o representa e torna
manifesto. Assim, de facto, o Verbo é a primeira expressão da Manifestação e o que
permite que ela se desenvolva.
O Verbo, neste sentido místico, metafísico, veio a antropomorfizar-se e a integrar a
tríade de figuras deíficas da Tradição Cristã – as três “Pessoas” da Trindade (ou
Unidade trina, de três aspectos) “Pai, Filho e Espírito Santo” – fazendo-se
corresponder ao “Filho” ou “Cristo”.
O mesmo sucedera nas outras culturas e, assim, segundo a alegoria do Padma
Purâna: “No princípio, Mahâ-Vishnu (o Grande Vishnu)(1), desejoso de criar o
mundo, converteu-se em três: criador, conservador e destruidor. A fim de produzir
este mundo, o Espírito supremo fez emanar Brahmâ do lado direito do seu corpo;
em seguida, a fim de conservar o universo, produziu do seu lado esquerdo o deus
Vishnu; e, por fim, para destruir o mundo, do meio do seu corpo produziu o eterno
Shiva”(2), (3).

O equivalente deste Verbo, em sânscrito, é Vâch, que já mencionámos. Vâch é a


expressão concreta da Ideação Divina e, por conseguinte, a “Palavra”.
Figurativamente é também Sarasvatî, a consorte ou aspecto feminino de Brahmâ, a
deusa da Sabedoria e da eloquência. Nesta conformidade, por sua vez, Sarasvatî é
idêntica à Sophia dos Gnósticos (é ela, nas diversas acepções, o Logos feminino, a
Sabedoria Divina personificada, a Virgem Celestial…). Diz o Mahâbhârata: “Vâch é
a celestial Sarasvatî produzida dos céus”, “uma palavra derivada do Brahmâ sem
fala”.
No sistema vedantino, o Som que origina, permeia e sustenta todo o Universo
desdobra-se em 4 níveis, do mais subtil ao mais grosseiro e material: 1º - Parâ ou
Parasabda [parâ = transcendente, supremo, e sabda = som], o Som Causal e
insonoro; de Parabrahman, além do Númeno e de todos os Númenos; 2º - Pasyantî,
o próprio Logos; 3º - Madhyamâ, a luz de Isvara (a luz do Logos)(4); a Duração, a
Permanência, a Eternidade; 4º - Vaikharî, a linguagem pronunciada ou articulada;
o som material e o Cosmos que conhecemos; o último estado de densificação do
Som causal.

O termo grego Lógos reveste o significado de “palavra”, “razão”, e os antigos


filósofos usaram-no no sentido de “Razão divina organizadora do Mundo”. O seu
equivalente latino é, pois, ratio (razão), oratio, verbum – palavra, linguagem,
expressão do pensamento. Por seu turno, os semitas usaram o termo que lhes
corresponde na sua respectiva língua – “memra” –, neste caso como referente a
Jeová, ou revelador da sua presença. Nos Targums (as versões aramaicas do Velho
Testamento), a Memra (’imrah ou ’emrah) figura constantemente como a
manifestação do Poder divino, ou como Mensageiro divino em lugar do próprio
Deus. Nos Targums da Caldeia, esta Palavra de Jeová representa-o, falando e
actuando: “E eles ouviram a Palavra [Memra] de Deus caminhando no Jardim [do
Éden] na brisa da tarde e Adão e sua mulher esconderam-se da presença da Palavra
[Memra] de Deus, por entre as árvores do Jardim…”. A Memra partilha a natureza
de Deus e, ao mesmo tempo, é o seu mensageiro.(5)

S. João aplicou o termo Logos a Cristo, o revelador do Pai, a imagem visível do Deus
invisível (posto que a Palavra é a exteriorização do Pensamento – Divino e
Universal, como também o individual).

O Som insonoro, o Som potencial


No Princípio, foi o Som que dividiu a Unidade, que produziu o dois ou dualidade
(6). E foi a dualidade que deu início à Consciência reflexa ou de relação.

A consciência (assim entendida) só existe no mundo fenoménico, porquanto a


consciência é uma efusão produzida por fricção. O Um é designado “Nada” ou
“Parâ” porque, não tendo onde se refletir (onde se confrontar), não é essa
consciência – de modo inapreensível para nós, transcende-a, e simplesmente É,
sem apêndices nem atributos (7).

Todo o Universo manifestado e todos os fenómenos são cadeias e “arranjos


peculiares” de vibrações. E é o Universo que é Consciência – consciência
precisamente originada pela efusão, pelo atrito, pela estimulação da infinidade de
vibrações. Tais vibrações são os Filhos monádicos desse Um, seus desdobramentos
incessantes… o Um desdobra-se nos múltiplos.

A Sinfonia do Universo
O termo ‘logos’ igualmente “tomou o seu lugar na linguagem musical grega,
referindo a medida da cítara ou da lira (i.e., os trastos ou travessões) onde a corda
deveria ser pisada de modo a produzir uma nota definida’(8)”. Este parece-nos um
facto muito sugestivo. Os sons puros (as 7 notas musicais, ou o que elas
representam), que integram a escala diatónica, são, na sua matriz, contenções de
arquétipos que no curso da Manifestação se desprendem e combinam
infinitamente. E esse Grande Septenário harmónico (matemático) é o que sustenta
e viabiliza a Manifestação dos mundos, a Lei do Ritmo operando por detrás.

É dito que a escala musical hindu terá evoluído de 3 notas apenas (9) para a escala
de 7. Essas 3 notas detinham a chave da vocalização do AUM, sendo que este
Mantra, o mais sagrado de todos os mantras, sintetiza e representa o poder da
Trindade. As três letras do AUM correspondem ao “Fogo Triplo”, respectivamente
Agni ou Abhimânim (Fogo ígneo) – ‘A’; Varuna ou Vishnu (Fogo aquoso, Águas do
Espaço ou Akasha) – ‘U’; Marut (Fogo aéreo, Espírito de Vida) – ‘M’.

Sendo o AUM o emblema da Trindade na Unidade, as 3 letras de que se compõe


representam ainda os três aspectos do Ser Supremo – Brahman -, ou seja, o de
Criador (Brahmâ – ‘A’), o de Conservador (Vishnu – ‘U’), e o de
Destruidor/Renovador (Shiva – ‘M’). E assim, também, naturalmente, Âtma,
Buddhi e Manas.

Depois, as três evoluíram para sete, Sa – Ra – Ga – Ma – Pa – Dha – Na (ou Ni-sa)


(10), a escala sendo dividida em 22 intervalos ou srutis. O sruti, ou intervalo micro-
tonal, é a mais pequena diferença tonal entre dois sons que pode ser distinguida
pelo ouvido humano.

Cada uma das 7 notas musicais representa cada um dos 7 Rishis (os 7 Filhos
Nascidos da Mente de Brahmâ) que transmitiram o conhecimento sagrado à
Humanidade. Diz a lenda que são os animadores (os espíritos) das 7 estrelas da
Ursa Maior, os quais, descendo à terra em forma de cisnes, ancoraram no lago
Mânasa-Sarovara (nos Himalaias) e aí comunicaram o conteúdo dos Vedas aos
mais merecedores entre os humanos. As notas musicais, no seu substracto, são
pois, cada uma delas, uma potência – um som – subtil e sintético que,
desdobrando-se infinitamente, e concretizando-se em linguagem, constitui os
Vedas e todo o escol de conhecimento superior e sagrado.

A Revelação – As Escrituras Sagradas


Tomemos, de novo, o termo Sruti (literalmente em sânscrito, “o que é ouvido”).
Sruti (11) é um cânon de textos sagrados hindus. Não data de um período estrito
mas atravessa a história inteira do Hinduísmo, começando com alguns dos textos
sagrados mais antigos conhecidos, estendendo-se aos mais recentes Upanishads. É
dito que o Sruti não tem autor humano; que é um registo divino dos “sons cósmicos
da Verdade”, ouvidos pelos santos Rishis em profunda meditação.

Considera-se que o Sruti é composto pelos 4 Vedas: o Rig-Veda (o Cântico da


Sabedoria), o mais antigo dos Vedas e o mais importante conjuntamente com o
Sâma-Veda (dele se diz que surgiu da boca do próprio Brahmâ); o Yajur-Veda
(Sabedoria do Sacrifício), o segundo em antiguidade; o Sâma-Veda (a Escritura ou
Shâstra da Paz), o Veda do canto (no mais alto sentido da potência da música); e o
mais recente, o Atharva-Veda (Sabedoria dos Mantrams ou Fórmulas Mágicas).
Segundo reza o Ocultismo, os Vedas foram ensinados oralmente pelo espaço de
milhares de anos e, só depois, copiados nas margens do lago Mânasa-Sarovara.

O Som e o Número
O Som e o Número caminham enlaçados. Com efeito, os Antigos postulavam que o
Universo fora feito segundo os preceitos de razão e medida. Acreditavam que uma
Trindade Divina fora a matriz e o motor que criara o Mundo. Essa Trindade,
pressuposto comum e fundamental de todas ou quase as religiões, era mais
precisamente uma Unidade-trina, a Unidade sob três aspectos distintos –
criação/expansão; sustentação/equilíbrio; destruição/interiorização/recolhimento.
Naturalmente, essa mesma matriz estava simbolizada na figura geométrica do
triângulo.

Para os antigos hindus, a matriz trinitária original cunhou e impregna tudo o que
existe, sendo o seu padrão director. Para os gregos, e designadamente para Platão,
três eram os triângulos que estariam na base constitutiva dos arquétipos dos 4
Elementos, sendo estes quatro os tijolos arquitectónicos de que fez uso o Grande
Arqueu (o Demiurgo) na Obra da Criação.

É sabido, mas mal compreendido, que na Antiguidade todos estes conhecimentos


matemáticos e muitos outros se regiam pela regra do segredo. Refira-se que a
Aritmética, a Geometria, a Música e a Astronomia eram precisamente as ciências
obrigatórias dos pitagóricos (designadas Quadrivium) e consideradas os “quatro
últimos Caminhos das Sabedoria”. Na verdade, a regra do segredo tinha como
fundamento a percepção de que a Matemática sagrada veiculava um imenso Poder,
revelando as Leis Ocultas da Natureza e da Psique individual e colectiva, sendo por
isso imperativo preservá-la da posse dos profanos…(12). É assim que as Cidades-
Estado da Caldeia tiveram à frente dos seus governos Reis-Sacerdotes (ou Reis-
Magos) detentores desses arcanos, bem como a linhagem “divina” dos primitivos
faraós os utilizou para fundar o seu reino.

Muitos desses conhecimentos dos antigos, com efeito, parecem ter sido
verdadeiramente extraordinários. É o caso do Schem Hamaphoras. Schem era uma
fórmula de poder que insuflava vida ou o “pleroma”. Jesus foi acusado pelos judeus
de ter roubado este nome do Templo, valendo-se de artes mágicas, e de empregá-lo
para a produção dos seus milagres.

Assim, o Tratado da Sinceridade do Rabino Moisés Takko (séc. XIII) diz: “… E


todos estes magos do Egipto, que haviam criado esses seres [‘artificiais’],
estudavam junto dos dáimones [génios] (13) ou por meio de uma espécie de arte
mágica, a Ordem das Esferas… e criavam o que queriam. Pois bem, os Rabinos, que
deles aprenderam e conheciam os Mistérios, podiam criar um homem ou um
bezerro: pegavam em terra… pronunciavam sobre ela o ‘Schem’, e o ser era criado.

(…) Já no século X, corre a lenda da criação de homúnculos com recurso à Séphèr


Iétzirah mediante “grandezas geométricas” expressas em letras retiradas dos Schem
Hamaphoras (os nomes divinos do triângulo sefirótico(14))”(15). Homúnculos são
pequenos seres, réplicas ou projecções da anatomia e psiquismo humanos, criados
pelo homem por meio de métodos espagíricos. Estes seres receberam também o
nome de Golem, herdado das lendas cabalísticas. Golem é uma derivação da
palavra “gelem”, que significa “matéria prima”. Na Bíblia, é empreque no sentido de
“embrião”, “pré-homem”, “substância incompleta”. O salmo 139:16 usa a palavra
“gal’mi”, significando “a minha substância ainda informe”.

“(…) Da fase babilónica data, aliás, a obra “Schim Koma” (Medida da estatura de
Deus, tratando sobre medidas, formas precisas do corpo e do rosto divinos…), mas
o livro mais notável desta época é o Séphèr Iétzirah (Livro da Criação), escrito em
hebraico (na Síria, provavelmente) cerca do século VI ou VII. (…) A influência
gnóstica e neopitagórica é patente: Deus criou o mundo por intermédio das dez
Potências ou Verbos chamadas Séphiroths e as vinte e duas letras do alfabeto
hebraico”(16).

A imitação da obra de Deus – a Criação


O poder do uso da Palavra é um facto incontornável. A Palavra (o som) sabiamente
direccionada (alicerçada e dirigida pelo Conhecimento Oculto) é um extraordinário
veículo de poder, inclusive o poder de animação, tanto a seres naturais quanto a
seres artificiais.

Segundo a crença judaica, do mesmo modo que Deus criou o universo e o homem a
partir do substrato (da alma) das vinte e duas letras hebraicas, os homens podem
replicar o acto criador se conhecerem as combinações adequadas. Nas palavras do
filósofo e cabalista Augustín Izquierdo, citadas na obra O Ritmo do Tempo, de
Patrick Mimran: “… ao princípio, a criação do Golem parece que apenas tinha um
carácter ritualista: acontecia como a coroação do estudo da Séphèr Iétzirah
empreendido por um grupo de pessoas. O ser artificial assim criado não tinha
nenhum objectivo prático. A sua realização destinava-se a pôr em evidência o poder
das palavras sagradas; o ser criado, a partir do barro, era imediatamente destruído.
Só mais tarde surge o Golem como um ser independente, a que se atribuem funções
utilitárias, e que pode representar um perigo para os que o rodeiam. Da lenda à
ficção literaria, designadamente ao Romantismo alemão, foi um passo…”.

Lê-se na Doutrina Secreta, de Helena Blavatsky: “Os homúnculos de Paracelso são


um facto na Alquimia e, muito provavelmente, sê-lo-ão na Química”. E, em Ísis sem
Véu, escreveu a mesma autora: “Existem relatos circunstanciados da produção de
alguns homúnculos, entre outros os do famoso conde Kueffstein, camareiro da
imperatriz Maria Tereza, da Áustria. Este conde e o abade Geloni fecharam-se num
laboratório de convento na Calábria e, durante cinco semanas, dia e noite,
estiveram trabalhando com fornos acesos. Ao fim desse tempo, conseguiram criar
nada menos que dez homúnculos. O modus operandi é descrito por Paracelso no
seu tratado De Natura Rerum.”

O Espaço Vivente
Efetivamente, a Natureza é o grande Laboratório da Vida manifestada. Nele fervilha
a Consciência. O homem é um aprendiz de feiticeiro, mesmo nos seus mais ínfimos
empreendimentos. Tateamos no aparente invisível para sorvermos, gota a gota,
algo da grande Sabedoria, porque sabemos que ela ali se encontra. A evolução é
uma imitação progressiva de Deus.

Nesse aparente vazio, o Akasha, a Alma Universal, encontramos o alimento


espiritual que dá o ser a tudo o que é – do mais ínfimo grão de pó ao deva mais
grandioso, da pequena flor campestre ao sábio mais elevado, das estrelas às
galáxias… Nele estão ou rudimentos (os princípios) de todas as coisas que são, que
foram e que hão-de vir. Nele estão os números de tudo o que é. Como dizia Platão,
no Timeu, “a Alma do Mundo é a matriz a partir da qual a composição de todas as
proporções matemáticas é repercutida no Mundo Sensível por acção da inefável
providência de Deus”.

Esta mesma realidade os Pitagóricos reverenciaram e simbolizaram na figura


fundamental da Tetraktys. “O diagrama de pontos da Tetraktis foi para os membros
da Confraria Pitgórica um símbolo esotérico tão importante como o pentagrama,
que era a sua ‘contra-senha’ secreta. Evocando a Tetraktis, os membros prestavam
juramento solene de não divulgar nunca os seus segredos matemáticos. Jâmblico
reproduziu a fórmula do juramento: ‘Não, juro por Aquele que transmitiu a
Tetraktys à nossa alma, em Quem se encontra a fonte e a raiz da eterna Natureza’. E
estes são os termos da oração pitagórica dirigida à Tetraktys: ‘Abençoa-nos,
Número Divino, tu que engendraste os deuses e os homens! Oh, santa, santa
Tetraktys, tu que encerras a raiz e a fonte do fluxo eterno da criação! Pois o número
divino se inicia pela unidade pura e profunda, e alcança em seguida o Quatro
sagrado; depois engendra a mãe de tudo, que une tudo, o primogénito, o que não se
desvia jamais, que não se cansa jamais, o Dez sagrado que detém a chave de todas
as coisas.” (17)

“Os resultados do estudo dos intervalos musicais foram as matemáticas pitagóricas,


especialmente a teoria das proporções, posteriormente desenvolvida por Platão.
Com efeito, os gregos não comparavam as frequências vibratórias das cordas, que
eles não haviam medido, e sim os seus comprimentos, o que equivalia ao mesmo
(frequências e comprimentos são inversamente proporcionais); a teoria resultante
dos intervalos musicais e das suas proporções podia depois transferir-se
directamente ao estudo de proporções entre quaisquer magnitudes lineares.
Voltamos a encontrar aqui a Tetraktys e uma das razões da sua importância no
facto de que a progressão 1, 2, 3, 4 traduz as principais relações dos intervalos da
gama diatónica: o de 4 a 2 ou de 2 a 1 a oitava, o de 3 a 2 a quinta, e a presença do
número 5 = 3 + 2 ou Pêntada, sublinhando a importância da quinta da qual deriva a
gama diatónica pitagórica. Cabe, pois, dizer, com Delatte que: ‘A Tetraktys é o
conjunto dos quatro números cujas relações representam os acordes musicais
essenciais’”(18).

Por outro lado, a Tetraktys encontra uma curiosa equivalência com o esquema da
Árvore da Vida (o Ootz Chim hebraico) ou Árvore das dez Sephiroth (de sephira =
número) uma vez que esta evoca o desdobramento da Década, do Um do Absoluto
ao 10 da Manifestação. Segundo o já referido Séphèr Iétzirah (Livro da Criação):
“Dez são os números saídos do Nada, e não o número nove; dez e não o número
onze. Compreende esta grande sabedoria, entende este conhecimento, investiga-o,
reflecte sobre ele, torna-o evidente, e reconduz o Criador ao seu Trono”.

Assim se desdobra em Quatro Planos ou Mundos a Trindade ou Tríade superior.

A Tetraktys, compreende, ainda, três triângulos menores, simbolizando os níveis do


Ser, 1+2, 1+3, 1+4, nestas cifras se contendo a chave do triângulo da Criação, o
famoso Triângulo Perfeito (ou Triângulo Áureo), dito “de Pitágoras”, de proporção
3, 4, 5. Contudo, os Egipcios, já anteriormente o haviam eleito como o triângulo da
perfeição. Conta-nos Plutarco, na sua De Iside et Osiride: … os Egípcios
representavam a natureza do Todo Universal como o mais belo triângulo. (…) Esse
triângulo apresenta a parte vertical, como tendo três comprimentos, uma parte de
base de quatro comprimentos e uma hipotenusa de cinco comprimentos (…).
Poderá comparar-se a linha vertical ao elemento masculino, a linha de base ao
feminino, e a hipotenusa ao que deles nasceu, e assim, ter-se Osíris como a origem,
Ísis como a concepção, e Hórus como o nascimento [ou o Filho]”. Com efeito,
também para os Pitagóricos, os números 3, 4 e 5 – cuja soma é 12 (o número das
Hierarquias Criadoras) – teriam presidido à formação do Cosmos e da Criação (19).

Newton, um pontífice da Sabedoria dos Antigos


A despeito do seu grande e incontestável valor, Isaac Newton pouco mais fez do que
(meritoriamente, sublinhamos) ressuscitar e interpretar a Ciência dos Antigos.
Todo o seu trabalho foi fundado no estudo minucioso do legado daquyeles sábios.
No Manuscrito de Portsmouth, conservado pela Royal Society de Londres, diz ele:
“‘Que a matéria consiste de átomos era uma muito antiga crença. Este era o
ensinamento de uma multidão de filósofos que precederam Aristóteles,
nomeadamente Epicuro, Demócrito, Ecfanto, Empédocles, Xenócrates, Asclépidos,
Diodoro, Metrodoro de Quios, Pitágoras e, previamente a estes, Moschus o Fenício,
de quem Estrabão declara ser mais velho do que a guerra de Tróia. Pelo que eu
penso do mesmo modo, fundado nessa mística filosofia que chegou aos gregos do
Egipto e da Fenícia, porquanto átomos são por vezes designados mónadas, pelos
místicos. Porque os mistérios dos números. bem como do restante dos hieroglifos
se inserem na mística filosofia” Newton prossegue dizendo que são estas ‘sementes
imutáveis’ que asseguram que ‘as espécies e os objectos estejam conservados na
perpetuidade’.

(…) Por que proporção a gravidade decresce por distanciamento dos Planetas, os
antigos não deixaram suficientes indicações. Contudo, a ela parecem ter aludido
através da música das esferas celestes, designadamente o Sol mais os seis Planetas,
Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, relacionando-a com Apolo e a sua
Lira de sete cordas (20) e medindo o intervalo das esferas em função do intervalo
dos tons musicais. Assim, eles alegavam que ‘sete tons’ foram trazidos à existência,
a cujo conjunto chamaram o diapasão da harmonia, e que Saturno foi movido pelo
som [phthong] Dório (21), ou seja, o grave (-pesaroso), e os restantes planetas por
mais agudos [como Plínio relata, de acordo com Pitágoras], e que o Sol vibra, faz
soar, as cordas (22).

Por esta razão, Macróbio diz: ‘a Lira de sete cordas de Apolo provê o entendimento
dos movimentos de todas as esferas celestes acima das quais a Natureza colocou o
Sol como regente’. E Proclo, [no seu Memorandum] sobre o Timeu de Platão: ‘… O
número sete, eles dedicaram a Apolo como aquele que abarca todas as sinfonias e,
assim, eles costumavam chamá-lo Deus o Hebdoma’getes, o que significava
Príncipe do número Sete. Semelhantemente, na Preparação do Evangelho, de
Eusébio, o Sol é chamado pelo oráculo de Apolo, o rei da harmonia dos sete sons.
Mas, por meio deste símbolo, eles indicavam que o Sol, pela sua própria força de
tensão, age sobre os Planetas naquela proporção harmónica das distâncias, segundo
a qual a força de tensão actua sobre cordas de diferentes comprimentos, ou seja,
inversamente na razão dobrada das distâncias. Pois a força pela qual uma mesma
tensão actua numa mesma corda de diferentes comprimentos é a recíproca do
quadrado do comprimento da corda. (…) já que Pitágoras, como Macróbio admite,
esticou intestinos de carneiros e tendões de bois, neles pendurando variados pesos
e, a partir daqui, estabeleceu as proporções da Celeste Harmonia”. De forma muito
clara, num testemunho de Conduitt, seu amigo e biógrafo, Newton confirma a sua
plena rendição à sabedoria de Pitágoras e revela, inequivocamente, a fonte das suas
inspirações: “‘… e eu pensei que a música das esferas de Pitágoras tinha a intenção
de tipificar a gravidade e que, assim como ele faz os sons e as notas dependerem da
medida das cordas, assim a gravidade depende da densidade da matéria…’”(23).

Janelas para o infinito…


Também a Ciência moderna tende a regressar ao Pitagorismo. Com efeito, em
múltiplas áreas vem ela debruçando-se, com nova atenção e respeito, para
elementos e factos, legados pelos Antigos, que antes desprezava como sendo parte
de uma mística inconsistente, própria da “infância” da humanidade.

No âmbito da Geometria, uma exploração recém encetada são os fractais,


complexos modelos gráficos “com implicações inestimáveis em domínios tão
diversos como a compressão de imagens, a arte visual, a música, até aplicações
financeiras…(24)”. Tais modelos, frequentemente de uma estética belíssima,
constituem poderosas janelas que nos revelam um mundo de possibilidades
arrebatadoras, orientando-nos para universos insondados cujas fronteiras, à
semelhança das velhas mandalas, apenas místicos e ioguis haviam logrado transpor
e contemplar. Para o vulgo, é hoje mais acessível perspectivar a coerência de um
Universo em que o Infinitamente Pequeno (25) é réplica perfeita do Infinitamente
Grande… e verificar o alcance do velho axioma “Como Em cima, assim Abaixo”.

Na actualidade, deleitamo-nos com estes maravilhosos fractais, que nos acenam


com sugestivas promessas… No entanto, os seus protótipos pitagóricos e platónicos
ainda permanecem como os mais reveladores, designadamente o assim chamado
“Triângulo Sublime”, tão caro a Pitágoras, de que aqui nos socorremos. Neste
triângulo, o factor 1,618 – dito “Número de Ouro” ou “Divina Proporção” (26) – é o
elemento director (Ver Diagrama 4).

O Triângulo Isósceles dito “Sublime” e a sua espiral logarítmica de


pulsação radial 1,618.
Entre os primitivos hindus, figurativamente, o 3 [através de Brahmâ, o Construtor]
projecta-se nas 4 direcções do Espaço [plasmando o Septenário cósmico] e dá
origem às 12 Hierarquias Criadoras (27).

Na figura podemos apreciar como, tendo como ponto de partida um minúsculo


triângulo, desabrocham e se foram construindo mais triângulos, idênticos ao
primeiro – mantendo sempre a “razão áurea” entre os seus lados (já que a base do
primeiro se converte na base do seguinte, e assim sucessivamente…). Podemos
entrever a espiral – que cresce e se delineia, por entre os vértices dos triângulos
sucessivos (28). Esta é a famosa espiral de Fibonacci, que se verifica ser uma chave
ordenadora e multiconstrutora na arquitectura da Natureza. Sobre ela, já nos
detivemos em anteriores ocasiões em artigos de edições anteriores desta Revista
(29).

Este triângulo é o instrumento-modular que integra o “Pentagrama Estrelado” ou


Estrela de 5 Pontas pitagórica. Por outro lado, a sua base é o lado de um decágono
(D) inscrito num círculo que, por seu turno, tem por raio (E) o seu lado maior, o
que compreende e revela, de novo, a “Divina Proporção”, E/D=1,618. Para os
pitagóricos, o “Número de Ouro” rege a chamada “Harmonia das Esferas”, em cujos
fundamentos a ciência renascentista, em especial Johannes Kepler, ancorou,
reabilitando a antiga ciência da mecânica celeste.

O Triângulo Sublime é o símbolo da Evolução humana – do homem para Deus, do


homem rumo à sua condição divina.

A espiral
A espiral assenta numa estrutura trinitária (no início da Manifestação, o primeiro
impulso terá gerado o triângulo). Na alegoria do Rig-Veda, Vishnu é descrito
cruzando aos saltos as sete regiões do Universo em três passadas [configurando o
primeiro impulso trinitário] e permeando todas as coisas com a essência dos seus
raios de luz.

Vishnu (o símbolo do curso da Manifestação) é a personificação da qualidade Sattva


(30) (Sattva tem numerosas acepções: estabilidade, duração, equilíbrio, ritmo…).
Nesta conformidade, outra imagem iconográfica representa-o descansando sobre a
serpente Ananta (“sem fim”), símbolo da eternidade (31). Deve-se notar que a
serpente é também a espiral – do tempo e do espaço infinitos.

No que a este último concerne, a Física admite e reconhece, hoje, a propriedade


ondulatória do espaço. Assim, o próprio som se propaga em sentido espiralado: a
sua viagem é “ondulatória”. De novo, Vishnu [a Voz do Pai, Brahmâ] é representado
exibindo numa das mãos uma concha; a concha – a espiral – que contém a potência
(e esquema virtual) do Manvantara.
Diz-se em A Doutrina Secreta que “o Akasha é o Espaço Universal em que está
imanente a Ideação eterna (…) e do qual procede o Logos, ou seja, o ‘Verbo’ ou
‘linguagem’ no seu sentido místico” (32). O Akasha é o upadhi (i.e., o veículo, a
forma externa, manifestada) da Mente Divina e é, sob outro aspecto, Kundalinî –
assim, de novo, a imagem serpentina…

Curiosa, no mínimo sugestiva, é a própria constituição do sistema auditivo. No


ouvido interno, a cóclea é uma espiral (muito semlhante a uma concha de caracol
ou do náutilo) constituída por um tubo ósseo enrolado sobre si próprio. Este tubo é,
por sua vez, estrutural e funcionalmente trino (tri-seccionado e trifásico). A própria
anatomia externa do aparelho auditivo humano conforma uma estrutura
espiralada, o pavilhão (as orelhas).

No Universo físico, as formas – quaisquer formas – não são aleatórias. A sua


configuração obedece a padrões internos de ressonância (relembremos que o
Akasha é o continente dos arquétipos de todas as coisas e de todas as
possibilidades). A Geometria não é mais do que a forma visível do alinhamento de
números… No incomensurável universo dos números, cada função, cada propósito,
na Natureza, configura uma série restrita, específica, de números. Um ser
organizado (uma pedra, um animal, um homem…) é, pois, um aglomerado
vastíssimo de complexos desses números. Na imensa variedade de espécies animais
existentes, por muito que aparentemente divirjam entre si, não é decerto fortuito
que (por exemplo) praticamente todos tenham os olhos, o nariz, a boca, os ouvidos,
na mesma disposição relativa; a cabeça num extremo do corpo; os órgãos
respiratórios, de nutrição, de reprodução, dispostos equivalentemente, etc.. Na vida
orgânica, tudo o que tenha um ou mais elos comuns, propósitos similares,
percursos evolutivos partilhados, parece ser regido por definidas leis estruturantes
(morfológicas, psicológicas, funcionais, etc) igualmente comuns. Entretanto, a
dissemelhança existe – é absolutamente necessária – neste universo em que os
contrastes geram consciência; mas estas assimetrias vivem dentro de grandes
Simetrias, cujo acorde, lenta mas inexoravelmente, as conduz, as afina, as eleva a
patamares superiores de consciência comungante, a novas identidades comuns. O
ritmo está para o tempo assim como a simetria está para o espaço, e nesta grande
Sinfonia Cósmica tudo converge para o UM.

Passo por passo, as Grandes Simetrias percorrem um caminho de progressiva


descristalização, porquanto, acreditamos, a verdadeira Harmonia não tem forma…
Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

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1) Em alguns dos Purânas, como este, Vishnu é o Supremo Deus.
2) Nos Vedas, inicialmente, essa trindade era composta por Vâyu, Sûrya ou Savitri,
e Agni, que mais tarde se fizeram correrponder, respectivamente, a Brahmâ, Vishnu
e Shiva. E no Pancavimsa Brahmana é dito, numa sugestiva exposição do acto
divino da Criação, muito semelhante, aliás, à versão Judaico-Cristã: “… Quando as
Águas ficaram maduras [na sua sazão] para a concepção, Vâyu pôs-se em
movimento sobre a sua superfície. E eis que nelas surgiu uma coisa belíssima:
Mitra-Varuna contemplou-se a si próprio, e nelas viu-se a si mesmo, reflectido
[paryapasyat]”.
3) Podemos ler no Glossário Teosófico, de Helena Blavatsky: … Vishnu é o Prajâpati
(criador) e supremo deus. Como tal, reúne em si três condições: 1ª, a de Brahmâ, o
Criador activo; 2ª, a do próprio Vishnu, o Conservador, e 3ª, a de Shiva ou Rudra, o
poder destruidor.
4) Segundo Megasthenes, “os Brachmanes da Índia (precursores dos Brahmanes)
afirmavam que Deus é luz, mas não aquela luz que vemos com os olhos, não aquela
que o sol esplende, mas que era a [energia da] Palavra; porém, que por este termo
não queriam significar a linguagem articulada mas sim a linguagem da Razão, pela
qual os mistérios ocultos do Conhecimento são entendíveis ao homem sábio”.
Diz a Tradição esotérica que os Brachmanes foram os primeiros filósofos, teólogos e
legisladores desta nossa civilização ária. Deles, e dos seus Conhecimentos Ocultos,
os gregos derivaram o Orfismo e respectivos Mistérios – não sendo Orpheu outro
senão Arjuna. Todos os preceitos de inofensividade e vida puríssima predicados por
Orfeu eram os mesmos abraçados pelos Brachmanes. Igualmente de acordo com
Megasthenes, estes santos homens “abstinham-se em absoluto dos sacrifícios
animais e de comer qualquer carne animal, subsistindo apenas de frutos, que não
retiravam das árvores mas esperavam que caíssem no solo; e que unicamente da
água do rio Tagabena [hipoteticamente o Tungabahadra]. Andavam com muito
pouca roupa e diziam que o corpo físico havia sido dado por Deus para revestir a
alma…”.
5) Os targumistas foram ainda mais longe e estenderam o significado deste termo
referindo-o ao Messias que havia de chegar.
6) “Vâch é a personificação mística da linguagem e o Logos feminino, sendo uno
com Brahmâ, que a criou de uma metade do seu corpo, que dividiu em duas partes”
(Glossário Teosófico).
7) Cusiosamente, dizia Clemente de Alexandria: “o Filho [ Verbo] é a Consciência de
Deus. O Pai só vê o mundo conforme este é reflectido no Filho”.
8 ) Josephus Lusitanus, in “Sophia e as Musas”, Biosofia nº 4.
9) Originalmente o Sâma-Veda era cantado em padrões musicais bem definidos,
sendo que, nos seus hinos, eram utilizadas apenas 3 notas.
10) Esta antiquíssima notação passou dos brâmanes da Índia para os persas, e
destes para os árabes e para algumas tribos nómadas, como a dos ciganos. Na
Grécia Antiga, Pitágoras, considerado o Pai da Escala Diatónica de 7 tons no
Ocidente, terá colhido esse ensinamento nos Mistérios dos Brachmanes da Índia,
Mistérios esses que tendiam, sobretudo, à instrução da classe sacerdotal. Sustenta a
Maçonaria que foram os Brachmanes quem legou aos egípcios o conteúdo dos seus
Ritos e Mistérios. Na Índia, Pitágoras ficou a ser chamado Yavanâchâria, “o Mestre
Jónio”. Por volta do ano 1000 da nossa era, Guido Darezzo, um monge italiano,
recuperou e rebaptizou aquela notação septenária (a partir das iniciais de uma
litania cantada em latim pelas crianças do coro da Igreja) na forma que nós
conhecemos: Ut (depois Dó) – Ré – Mi – Fá – Sol – Lá – San (depois Si).
11) A designação Sruti distinguiu os Hinos Védicos e, posteriormente, também os
Brahmanas, de todos as outras obras que, sendo embora consideradas sagradas e
fazendo autoridade para o pensamento hindu, se admite terem sido concebidas por
autores humanos. As Leis de Manu, por exemplo, não são Revelação; não são Sruti,
mas apenas Smriti, Recolecção ou Tradição. Os Brahamanas foram escritos em
sânscrito védico e o período da sua composição é geralmente chamado de idade ou
período Brahmânico. Eles são essencialmente comentários dos Vedas, explicitando
o ritual védico. Cada Brahmana é associado com um dos quatro Vedas e, na
tradição desse Veda, com uma shakha ou escola particular.
12) “O último dos faraós indígenas, Nectanebo (360-350 A.C.) foi, segundo a
tradição grega, o mais versado em ciências ocultas e o mago mais poderoso entre
todos os soberanos do Egipto. Os malefícios mediante figuras de cera, a criação de
seres vivos artificiais, desempenharam um importante papel nos ensaios mágicos
do seu círculo íntimo. O emprego das figurinhas Ushabti, duplos do morto, etc, está
(mas, aqui, como magia benéfica) aparentado com estas práticas; a técnica da
criação de homunculi pela insuflação de pneuma e inserção de uma palavra mágica
escrita no boneco de argila passou tal e qual à Cabala hebraica por meio do Séphèr
Iétzirah ou Livro da Criação, e constituiu a origem das lendas de criação de
homúnculos na Idade Média, especialmente de todo o ciclo do Golem de Praga” (El
Número de Oro, I-II, de Matila C. Ghika, Editorial Poseidon).
13) No passado, por vezes esta designação “Dáimones” tinha mesmo o sentido de os
Chitkala ou Pitris do esoterismo hindu, noutras o de Devas ou da Essência
elemental superior. O “génio” (ou dáimon) de Sócrates era tido como o seu “Eu-
superior”. No Banquete, Platão assim se expressa: “Prenchendo o intervalo que
separa o homem de Deus, os Dáimones unem-no ao grande Todo. É deles que
procede toda a ciência divinatória, toda a arte sacerdotal dos sacrifícios, das
iniciações, dos encantamentos, de toda a alta Magia e de toda a Goécia”.
14) O Triângulo sefirótico é uma década triangular, em escala ascendente, composta
de 10 nomes divinos. É a decomposição mágica do Tetragrama inexpressável, o
Schem Hamaphoras (ou Schem ha mephorasch, literalmente, “o nome divino
inexpressável”), IHVH, condensação da força oculta divina, que os profanos
pronunciam Ia Hvé H ou Ié Ho Va H.
15) El Número de Oro, de Matila C. Ghyka, Editorial Poseidon, Buenos Aires, 1968.
16) Idem.
17) Philosophie et mystique du nombre, de Matila C. Ghyka, Editions Payot &
Rivages, 1952.
18) Idem.
19) Relativamente a esta trilogia, “3, 4 e 5”, também Vitruvius, o mais célebre
arquitecto da Roma antiga, defendia que a arquitectura dos templos deveria tomar
por base a analogia com um corpo humano perfeitamente proporcionado, o qual é
harmónico em todas as suas partes. Nesses termos, ele considerava que o
comprimento de um templo deveria ser o dobro da sua largura, e as proporções do
vestíbulo aberto e da câmara fechada interna deveriam guardar a relação 3 – 4 – 5,
sendo 3 a profundidade do vestíbulo, 4 a largura, e 5 a profundidade da câmara.
20) A Lira da alegoria de Apolo não é outra que a de Orfeu, a célebre Phorminx, a
qual, depois da sua morte, foi levada para o grande Templo da Apolo, onde
permaneceu por largo tempo universalmente admirada. Diz a fábula que um certo
dia foi roubada por Neanthus, com a cumplicidade de um sacerdote. Quando este
quis tocá-la para obter os mesmos maravilhosos prodígios que Orfeu, dela só
conseguiu extrair sons horrorosamente dissonantes. Foi, então, atacado e
despedaçado por cães selvagens que ficaram enraivecidos pelo efeito de tais sons de
pesadelo. Com este episódio os fabulistas quiseram significar que quando o
Conhecimento sagrado cai nas mãos dos profanos e é prevertido, o mal destrói-se a
si próprio e àqueles que o perpetraram. Sobre a phorminx, disse Helena Blavatsky
ser o “Mistério séptulo da iniciação”.
21) Muito sugestivamente é este termo aqui empregue: phthong (som, palavra
verbalizada), de phthalein, pronunciar, criar som pela palavra. O mesmo acontece
com o termo Dório, na acepção de “o dom de Deus” (da raiz grega doron, que
significa “dom”).
22) Ver a alusão, acima, à origem do termo “logos”, para os trastos das cordas dos
instrumentos musicais.
23) In “The Pipes of Pan”, de J. E. McGuire e P. M. Ratta
24) “… Enquanto a geometria euclidiana trabalha com objectos que existem num
número inteiro de dimensões (a linha, numa dimensão; a elipse, em duas
dimensões; a esfera, em três dimensões, etc.), a geometria fractal está relacionada
com objectos (fractais) que existem em dimensões fraccionárias. Um fractal é uma
figura geométrica irregular, gerada por um algoritmo matemático simples e que,
para além de ter dimensão fraccionária, tem outra importante propriedade: as
imagens muito ampliadas dos fractais são essencialmente indistinguíveis da versão
não ampliada. Ou seja, o fractal é invariante relativamente à escala, propriedade
conhecida por auto-semelhança. Como se conclui, essa propriedade da invariância
de escala permite conhecer a estrutura do todo pela ampliação da parte e mesmo
tomar essa parte como unidade de construção do objecto global, embora, à primeira
vista, parecesse que não, pelo facto de a unidade de construção ser muito mais
simples do que a figura final. A geometria fractal põe, assim, em interacção, numa
harmonia que era difícil de adivinhar, o carácter imprevisível e aleatório de um
resultado, e a ordem e simplicidade do algoritmo que o gera! Além disso, mostra
que o simples pode, afinal, gerar o complexo!” (Liliana Ferreira, “Enigmas da
Ciência”, Biosofia nº 20).
25) No âmbito do infinitamente pequeno, novos ramos da ciência, novas
tecnologias revolucionárias, despontam agora. É o caso das Nanociências, nas quais
se estima que para cima de 20 000 cientistas estejam hoje directamente envolvidos
em projectos de pesquisa, e um número igualmente significativo em diversificados
empreendimentos, cujo denominador comum é produzir e controlar, à escala
atómica, novos materiais artificiais sintéticos. Foram já desenvolvidos dispositivos
tão minúsculos como uniões magnéticas, caixas e sistemas de convexidade
quânticos, transístores nos quais se pode controlar o movimento de electrões um a
um… No campo da Biologia, as promessas são infindáveis, como, aliás, se poderá
inferir pelas conquistas já realizadas em torno do ADN. Novas espécies começam
agora a ser produzidas (o que inicia, paralelamente, o levantamento de novas
questões bioétcas), como, no Japão, um sapo totalmente transparente, com a
finalidade de facilitar o estudo e a observação do crescimento de tumores.nsi (Notes
and Records of the Royal Society of London, Vol. 21, Nº 2).
26) Leonardo Da Vinci baptizou-a por “Secção Áurea”, e dela fez uso sistemático na
sua arte. Kepler, no seu escrito Mysterium Cosmographicum, chamou-a “a Jóia da
Geometria”… Trata-se de uma constante real algébrica irracional com o valor
arredondado a três casas decimais de 1,618. Este número está intimamente
envolvido com os processos do crescimento. Phi (e não Pi [π], quociente da divisão
do comprimento de uma circunferência pela medida do seu respectivo diâmetro),
como é designado o “número de ouro”, está presente na arquitectura estrutural de
múltiplos organismos marinhos (conchas, por exemplo, do nautilus, da
architectonia nobilis, do hippopus hippopus), dos seres humanos (o tamanho e a
proporção entre si de determinados ossos do esqueleto), do mundo vegetal (na
disposição das folhas e talos de numerosas plantas, bem como na configuração de
corolas de flores…), etc, etc. No âmbito da Astronomia, para além de se patentear
no posicionamento relativo dos corpos do sistema solar, estamos convictos de que
igualmente determina o tipo de espiral descrita pelo sol no seu movimento sideral.
27) Neste passo, a figura do Dodecaedro – o mais sagrado de todos os poliedros e
que integra todos os outros 4 – é o paradigma da Quinta-Essência (o Akasha), mãe
dos arquétipos dos 4 Elementos. Considerado por Platão como o símbolo da
Harmonia Universal, representa a amplificação, a três dimensões, da simetria
pentagonal e da potência da “Secção Dourada”. Para ele, o 12 é o número radical do
Espaço; o Dodecaedro é o número estrutural do Universo. Entre os Pitagóricos, a
alusão e mesmo a pronúncia do nome do Dodecaedro fora do seu círculo interno,
eram rigorosamente interditos. Muito se poderia acrescentar sobre esta figura
extraordinária. Não caberia, porém, no âmbito restrito deste artigo.
28) Registe-se que os comprimentos dos lados de cada dois triângulos sucessivos se
dispõem sempre na razão áurea.
29) Nomeadamente, os nºs 7, 9 e 10.
30) No equilíbrio da Manifestação, constituído pelos três Gunas (Rajas, Sattva e
Tamas), Brahmâ simboliza a qualidade Rajas (actividade, o arranque, o que
espoleta a Manifestação), e Shiva a qualidade Tamas (contra’acção, recolhimento).
31) Ananta, exotericamente também um epíteto de Vishnu, representa, do ponto de
vista esotérico, o upadhi de Vishnu (seu veículo).
32) Com efeito, a propriedade característica do Akasha é o Som.
para uma nova compreensão da Vida, do Universo e do
Homem.

COMO SOMOS FEITOS…


COMO SOMOS FEITOS…

“A alma humana é como um lago que se comunica com o mar por meio de um canal
submerso; embora aparentemente o lago esteja cercado por terra, o seu nível de
água
baixa ou se eleva com as marés, por obra dessa conexão oculta. Ocorre o mesmo
com
a consciência humana: existe uma conexão subterrânea entre as almas individuais e
a
alma do mundo, e essa comunicação se processa profundamente, confinada nos
escaninhos mais primitivos da consciência…” (Dion Fortune)

As palavras de Dion Fortune acima citadas constituem uma narrativa pictórica


sumamente feliz para retratar a nossa ligação com o Divino, em termos não só
essenciais e de identidade mas, também, funcionais. Somos feitos à imagem e
semelhança do Divino – Carne da Sua Carne [Substância] e Sangue do Seu Sangue
[Vida]. Temos potencialmente em nós todo o Organismo Cósmico (1) – tal como é
figurado na simbologia fundamental das diversas filosofias e cosmogonias de todas
as latitudes e de todas as eras.
——————————
1) Por muito assombro que esta noção possa provocar, temos impresso em nós o
Propósito ou Plano Divino, de que somos co-obreiros (ou construtores-maçons…).
Temos impressas em nós a Rota e a Missão cosmológicas, o Funcionamento e as
Leis que governam os Mundos, todos os Mundos que existem uns nos seios de
outros…

Natureza Holística do Universo


Tudo se repercute, tudo se comunica no Universo. Num grupo, o avanço evolutivo
(uma habilidade) conquistado por uma unidade de vida é uma conquista
patrimonial efectiva do Todo e transfere-se geneticamente para esse mesmo Todo.
Esta, por incrível que possa parecer, é uma evidência cada vez mais assumida por
grande números de investigadores.

Num trabalho do biólogo Rupert Sheldrake sobre o que chamou de “ressonâncias


mórficas”, citado por Sylvia Cranston (2), podemos ler o seguinte: “… Foi solicitado
a diferentes grupos de pessoas na América do Norte e na Inglaterra que
aprendessem três canções de embalar japonesas, de curta extensão, uma delas bem
conhecida há várias gerações por crianças japonesas. As outras duas canções foram
compostas de modo que se parecessem com a primeira, mas eram desconhecidas no
Japão. A canção tradicional resultou mais fácil de aprender. Outros testes usando
palavras estrangeiras, metade reais e metade alteradas, foram dadas a pessoas que
não conheciam a língua. Novamente, as palavras reais foram mais fáceis de
aprender. Foram feitas experiências semelhantes com o código Morse e no teclado
de uma máquina de escrever, dois padrões aceites e estabelecidos de modo
generalizado há mais de uma centena de anos. Em ambos os casos, as correlações e
sequências já estabelecidas foram mais fáceis de aprender do que as outras que
haviam sido criadas…”.

De igual modo, verifica-se, sem margem para dúvidas, e de modo generalizado, que
as novas gerações – inclusive as crianças pequenas, que ainda não sabem ler
“instruções” – têm claramente uma maior aptidão (em relação à anterior) para tudo
o que diga respeito à informática, a jogos de computadores, ao funcionamento de
telemóveis e quaisquer maquinarias electrónicas. Tal se deve, presumivelmente, à
recente conquista gradual, mas efectiva e massiva, destas tecnologias, dos seus
funcionamentos e dos seus conceitos. Uma aprendizagem inovadora de muitos é
incorporada subjectivamente pela constituição genética da vaga dos que lhes
seguem temporalmente.
———————–
2) … no seu livro “Helena Blavatsky - A Vida e a Influência Extraordinária da
Fundadora do Movimento Teosófico Moderno”, Editora Teosófica, Brasília, 1997.
Rupert Sheldrake foi o descobridor dos campos morfogenéticos.

Estas exposições, se bem que representativas e de enorme relevância, referem


apenas aspectos que se processam horizontalmente, num mesmo Plano de
existência. No Cosmo, não obstante, essas transferências de energia e de
significados percutem-se entre o Macro (o Universo) e o Microcosmo (o Homem),
bem como entre diferentes Planos.

“O Todo contém a parte e a Parte contém o todo”, diz uma consagrada fórmula
ocultista. O homem – o Microcosmo – é o reflexo e a réplica do Macrocosmo, com
os seus Planos (e subplanos) septenários. Também o homem possui sete princípios
ou corpos, cada um deles focalizado e da mesma substância-vida de cada um dos
Planos do septenário cósmico. Os três superiores constituem a “contraparte divina”
no homem, a Trindade imperecível, dita espiritual, Âtman (Espírito), Buddhi
(Sabedoria Intuitiva) e Manas (Mente; neste caso, a natureza superior de Manas, a
Mente Abstracta). Os outros quatro, que conformam o chamado “Quaternário
inferior”, são de natureza (mais) material e corruptíveis (3). Este Quaternário
constitui a nossa, assim chamada, “Personalidade”, e é composto dos princípios
Sthûla-sharîra (o corpo físico); Linga-sharîra (duplo-etérico ou duplo-astral, o
corpo das causas formativas, que modela, energiza e sustém o corpo físico.
Configura uma espécie de estrutura reticular electromagnética que vivifica e provê
coesão às partículas físicas constituintes) e o Prâna, que ele veicula; Kâma-rûpa
(corpo dos desejos, instintos e paixões animais); Manas inferior (veículo da mente
intelectiva, concreta).
—————–
3) Em todas as culturas (e no inconsciente colectivo da humanidade), o quaternário
(o 4) é o símbolo, por excelência, da matéria.

No homem encarnado, esse quaternário está replicado, sintetizado e representado


no 7º (a contar de cima; 1º a contar de baixo) dos chakras, o Mûladhâra (chakra
Fundamental, ou da Raiz). Os chakras são centros de força que afloram no duplo-
etérico/astral e proporcionam a ponte entre o veículo físico do homem e os seus
veículos (e respectivos Planos) superiores. O nome sânscrito “chakra”, que significa
“roda” ou “disco”, é por vezes substituído por “lótus”, pois, na verdade, eles se
assemelham a corolas de flores, com diferente número de pétalas conforme o
chakra, e com um pedúnculo que radica no tronco ou eixo espiritual: o Sushumnâ.
O Sushumnâ é o eixo vivificante de todo o ser encarnado e compreende e percorre o
conduto espinal (que lhe corresponde no Plano Físico). É ladeado, à direita, pelo
nadî (conduto) de energia positiva Pingalâ, e, à esquerda, pelo conduto de energia
negativa Idâ. Cada chakra tem correspondência com cada um dos Princípios do
Septenário.
Para os estritos efeitos que nos ocupam neste estudo, falaremos, em particular, e
somente, do chakra Fundamental. Este, como já dissemos, representa e sintetiza as
qualidades e atributos (bem como as conquistas evolutivas do Homem-colectivo, a
Humanidade) da personalidade reencarnante – o Quaternário inferior. É por isso
que possui 4 pétalas, que mais não são do que (cada uma delas) uma concentração
energética provinda de cada um dos Planos do Quaternário inferior, com a sua
peculiar “nota-chave”. Essas “notas-chave” são os modos como a energia “vibra” e
“ressoa” na passagem da energia Kundalinî,, quando esta percorre
ascendentemente o Sushumnâ (disto, falaremos adiante) e, nessa conformidade,
encontram representação em determinadas letras (sons) que, na língua sânscrita, se
dizem Vam, Sham, Sham e Sam.

No Universo Manifestado a Consciência Divina assume dois pólos ou aspectos:


Shiva, o aspecto positivo, e Shakti, o aspecto negativo (4). Shakti, o pólo negativo e
dinâmico, é a Grande Mãe do Universo, por ela tudo vindo à existência. Nos seres
humanos, essa Energia universal particularizada recebe o nome de Kundalinî; no
entanto, este vocábulo tem frequentemente o sentido cósmico (da Shakti).
Kundalinî, a fonte da geração e da regeneração, pode também, numa certa
perspectiva, ser identificada com a Mente Universal. Com efeito, é a Mente que está
na raiz da Forma.

Assim, no centro do chakra Fundamental radica, adormecida, a serpente cósmica


Kundalinî. Através de práticas adequadas (de que são depositários Grandes Sábios,
que as preservam da leviandade de simples curiosos incautos) e/ou da natural e
consequente expansão da consciência que se produz no homem virtuoso e
“espiritualizado” –, essa expansão pressiona para cima e corresponde ao despertar
da serpente adormecida, que irrompe e se ergue pelo eixo espiritual Sushumnâ até
alcançar o “lótus das mil pétalas”. Desde a mais remota ancestralidade, nas
representações pictóricas do chakra Mûladhâra, figura, então, o Svayambhû, o
lingam de Shiva, com a serpente em seu redor, enroscada três vezes e meia, numa
alusão à segunda metade, ou metade evolutiva da Manifestação Septenária
(composta de Involução, ou descida do Espírito na Matéria, e Evolução, ou subida
da Matéria ao Espírito) (5). Mûladhâra reúne todas as potências recolhidas dos
Planos superiores, que se constituem em impulso para a grande Ascensão
espiritual. É, deste modo, o centro que possibilita a regeneração ou 2º nascimento.
————————-
4) Shiva e a sua Shakti, a Luz e a sua própria sombra (anverso ou contra-imagem,
abhâsa), que Aquela reabsorve, no final dos tempos, promovendo-se a Grande
Unidade.
5) Svayambhû é o Espírito Universal. É um termo que significa o auto-gerado.
É também um epíteto de Brahmâ, bem como um símbolo de todo o Deus ou
Potência Criadora. Assim, Sarasvati é a shakti de Brahmâ (de onde proveio o nome
patronímico de Abraão, com sua esposa Sara). Sarasvati é a energia, emanada de
Brahmâ, que criou os mundos.

Kundalinî fez-se corresponder, em muitos mitos e deambulações imagéticas das


religiões exotéricas, como tentadora (portadora do fruto proibido da Sabedoria), no
mito hebraico-cristão do livro do Genesis; como a redentora, na concepção gnóstica
(a serpente com as “7 vogais” sobre a sua cabeça…); como as numerosas ctónicas-
fertilizadadoras, celtas, escandinavas, eslavas, mediterrâneas, ameríndias,
orientais… (em simbiose e indistinção, por vezes, com as celestes-fecundantes: na
China, por exemplo, profundamente enraizada na mitologia popular, a energia da
vida é figurada na baba do dragão-serpente (6) que fecunda as mulheres). No mito
hebraico, ela eleva-se, sinuosa, percorrendo (em espiral) o tronco da árvore [o
tronco da árvore humana, i.e., o Sushumnâ] até chegar à cabeça do homem para lhe
segredar promessas de “Sabedoria” e “Vida Eterna” [ascendendo ao Sahasrâra, o
chakra coronal, o radioso lótus das mil pétalas, como promessa viva de
“Consciência e Vida Eterna”].

O chakra Fundamental (símbolo do corpo terrestre e da “personalidade,


quádrupla”) reflecte o estado de harmonização de todos os componentes da
“personalidade” encarnante – e apenas quando este “chão” se torna digno, a
semente do Espírito pode brotar e elevar-se nos céus (ao Sahasrâra). A terra do
filósofo, regada pelo alento solar (de Pingalâ) e pelo alento lunar (de Idâ) tornou-se
um terreno fértil, onde os elementos (Terra, Água, Ar e Fogo) se volveram
harmónicos, e em que a árvore Bo (7) deu os seus frutos iluminados.

——————
6) A palavra dragão foi herdada do grego “drako”, que significa serpente.
7) A Árvore Bo foi a árvore sob a qual, segundo a tradição, Buda atingiu a
iluminação.
Os Tijolos da Matéria Física
No lótus Mûladhâra está indelevel e latentemente registada, impressa, a memória
do percurso da Humanidade (não nos esqueçamos que o homem não é apenas o seu
corpo físico, o corpo que se vê…). Entretanto, esta realidade subjectiva transfere-se
e coagula-se na componente física do ser humano. Todo o património de aquisições
biológicas – morfológicas, funcionais, psicológicas e mentais – da Humanidade está
registado no seu “Código Genético”. A estrutura fundamental desse registo, no
Plano Físico, é o ADN – a molécula básica da vida biológica – com os seus quatro
pilares de construção: Guanina, Citosina, Timina e Adenina.(8). Cada um destes
pilares constituintes traz consigo uma semente subjectiva e uma missão
impulsionadora que produz definidos e específicos efeitos no Plano Físico. Cada um
é portador de prolíficos códigos – como se fossem finíssimos e multicoloridos fios
que, de forma exímia e combinada, conformarão o grande Painel animado que
representa cada existência física, pleno de imagens e significados. De forma
integrada, eles dotarão cada ser que nasce de específicas habilidades e qualidades
potenciais. Cada um deles e o seu conjunto propenderão o seu psiquismo, o seu
temperamento, a sua natureza intelectual, as suas características físicas (9).
———————-

Estas, são bases nitrogenadas que se aliam, cada uma delas, a uma molécula de
desoxirribose (açúcar) e a um ácido fosfórico para formar um nucleotídeo, principal
base das cadeias polinucleotídeas que, por sua vez, formam o ADN (ácido
desoxirribonucléico). É a ordenação dessas bases nitrogenadas que define a
informação genética de que o ADN é portador. Os maiores dos genes possuem
100.000 pares de letras mas, em média, eles agrupam cerca de 40.000 pares.
9) Com efeito, cada célula do homem (e dos demais seres vivos) transporta dentro
de si uma incomensurável “biblioteca” – o ADN. Esta biblioteca possui cerca de
30.000 “livros” – os genes –, cada um deles replicando as informações necessárias
para a preservação das características da espécie e para a definição das
características individuais, bem como para o pleno funcionamento biológico. O ser
humano comporta no seu organismo biológico cerca de100 trilhões de células.

Na verdade, as letras Vam, Sham, Sham e Sam são apenas símbolos, as formas
grosseiras de uma realidade mais subtil a que se denomina Mâtrikâ. Sob essa
conformação grosseira, elas são o som positivo, Shabda, detentor de potencialidade
criadora (10). Elas encontram ainda correspondência com os 4 elementos
filosóficos: Fogo, Ar, Água e Terra.
——————-
10) É dito, ainda, que as letras Vam, Sham, Sham e Sam são a essência e as
sementes espirituais dos 4 Vedas - Vam, do Rig-Veda; Sham, do Yajus-Veda; Sham,
do Sâma-Veda, e Sam, do Atharva-Veda -, bem como das 4 Yugas: Satya, Tretâ,
Dvapâra e Kali. “Veda”, no seu sentido original, é a ideação divina no tocante à
criação dos mundos, cujos conteúdos foram parcialmente revelados aos Grandes
Rishis do passado e incarnados nos 4 Vedas.
Por outro lado, e agora no sistema Cabalístico hebraico, todas as atribuições
místicas quádruplas fazem-se corresponder às 4 letras do Tetragrammaton, Yod,
Hé, Vau, Hé, o Nome Sagrado que usualmente se traduz por Jeová, e, ainda, aos
“Quatro Mundos Cabalísticos” (Atziluth, Briah, Yetzirah, Assiah), com toda a
inerente riqueza de correlação de significados e qualidades potenciais.
Como já dissemos, outra síntese representativa que se configura no chakra
Mûladhâra (ao qual corresponde a Sephirah Malkuth) é a do “Quaternário inferior”
(a que correspondem as 4 Sephiroth inferiores: Yesod, Netzach, Hod e Malkuth), e
dele constitui o ponto focal.
E, no Islão, a Palavra Criadora (a equação cósmica divina) é Kalimat Allah. As
quatro consoantes deste mantra – K, L, M, T – simbolizam a manifestação
quaternária da Unidade primeira, sendo esta expressa na tríade de vogais A, I, A
(em que se oculta o nome inefável de ALLAH).

No Plano Físico, estas unidades primárias constituintes (funcionando como pontos


focais de energias específicas) devem, necessariamente, estar imbuídas dos
impulsos fundamentais, geradores e multiplicadores de definidas qualidades.
Certas qualidades agrupam-se formando “pares complementares” ou “pares
funcionais”, cujas unidades são essencialmente representativas de: Energia-Força
(Função) / Forma (Morfologia); Anabolismo/Catabolismo. Deste modo, se
combinam e fazem corresponder:

Vam – Sham = Guanina – Citosina;


Sham – Sam = Timina –Adenina.

Subindo a Escada Espiralada – o Movimento Ondulatório do Espaço


O modo de movimento que subjaz a toda a Manifestação é espiralado. Não existem
rectas no Universo – apenas curvas, que integram espirais.
Esse Movimento Subjectivo Cósmico, Impulso radical ou Alento Divino (o Espírito
Santo, da teologia judaico-cristã), que é a matriz de toda a evolução tanto nos seus
aspectos subjectivos como objectivos, marca e define a orgânica cosmológica
(astronómica), as rotas espirais de todos os astros e galáxias. No Microcosmo, no
homem (designadamente), a expressão básica de vida confirma e alinha-se nesta
predisposição espiral – a matriz da vida biológica é a celebrizada “escada
helicoidal”, o ADN. Com efeito, a molécula do ADN apresenta-se como uma escada
torcida sobre si mesma. Os degraus desta escada são os pares de bases nitrogenadas
guanina + citosina, timina + adenina.

O ADN, na sua estrutura, afigura-se a um andaime objectivo, que se desenvolve e se


escora progressivamente na estrutura íntima da Substância subjectiva (da
Vida/Consciência Universal). No correr deste prodigioso andaime biológico, nós
encontramos, pontilhados, os mesmos marcos simbólicos, veículos da mesma
vitalidade e prenhes dos mesmos e profundos significados. Afigura-se-nos que o
Propósito da Vida não pode deixar de nele estar implícito e progressivamente
assinalável, à medida que nos elevamos nos degraus da Vida/Consciência. O
universo é holístico, por natureza. Os seus fios invisíveis vão, de facto, tornando-se
paulatinamente aparentes, à medida que vamos cumprindo e concretizando na
Forma esse Macro Propósito Divino – como num decalque. “Oculto numa bolota,
existe um carvalho com suas bolotas, e, oculto em cada uma destas, existe um
carvalho com as suas bolotas”, afirmava o cabalista MacGregor Mathers. Numa
Maré ascendente, o Oceano da Vida, Divina e Universal (por obra dos seus actores,
as miríades de seres que povoam a Manifestação Objectiva dos Mundos) é
iluminado progressivamente (evolutivamente) pela Consciência, nela se
subsumindo.

Em termos espirituais, a subida da Kundalinî, desde o chakra Mûladhâra até ao


chakra Sahasrâra (no topo da cabeça), replica no Microcosmo (o homem) o que a
Evolução Colectiva (dos Mundos e da Humanidade) consubstancia na Caminhada
peregrina desde este Plano mais inferior (o Universo Físico), percorrendo todo o
Septenário em sentido ascendente até à Reassunção final na Luz do Uno, no termo
do Manvantara. Na aura, ladeando o Sushumnâ (o eixo ou conduto espiritual por
onde se eleva a Kundalinî), de um e outro lado, correm paralelamente dois outros
circuitos. Por eles passam respectivamente as correntes positiva (à direita), e
negativa (à esquerda), as correntes magnéticas designadas “do Sol” e “da Lua”(11).
Na verdade, de forma mais precisa, é todo um hemicilindro (um semitubo) direito
que é carregado positivamente, e todo um hemicilindro esquerdo que é carregado
negativamente. Este factor, importantíssimo, é transferido para a sua
correspondência material: existe uma espécie de tubo virtual por dentro do qual
corre a “dupla espiral” do ADN. Também este campo tubular é carregado
positivamente num dos lados, e negativamente no outro. Nesta conformidade, os
diferentes centros de energia (que as bases ‘G’, ‘C’, ‘T’, ‘A’ representam) situados no
correr de cada extremidade da “dupla hélice” são ciclicamente actuados positiva e
negativamente. Disto deriva que uma dada “potência” essencialmente negativa,
quando se encontra na contraparte negativa do tubo, está, por assim dizer,
“potenciada” nos seus efeitos e consequências; e que, quando se encontra na
contraparte positiva, está “deprimida” – e vice-versa. Por outro lado, na definição
das codificações e instruções genéticas, o seu posicionamento (das unidades de
cada par), ora numa dada orientação, ora na outra (invertidas), ao longo dos dois
“corrimãos” da escada, também as faz assumir uma actuação, ora positiva, ora
negativa, das suas qualidades, no cômputo integrado da leitura global.
————————————
11) Sushumnâ, e as correntes solar, Pingalâ (à direita) e lunar, Idâ (à esquerda) das
filosofias da Índia correspondem, respectivamente, ao Pilar do Equilíbrio, ao Pilar
da Misericórdia (ou da Compaixão) e ao Pilar da Severidade (ou da Justiça) da
Árvore da Vida (ou Árvore Sephirótica), da Cabala hebraica. A filosofia chinesa
igualmente representa esta tríade fundamental: Yin e Yang são, respectivamente, os
princípios negativo e positivo do Universo e das unidades que o constituem, e Tao
(ou Caminho) é o centro de equilíbrio entre eles.

É precisamente o carácter eléctrico dual e alterno do Universo e da Manifestação


que produz o movimento espiral e efusivo, bem como os movimentos de contracção
e expansão.(12) Sem dualidade não haveria Evolução. Sem dualidade não haveria
Manifestação.
———————-
12) À imagem de um eterno Pêndulo Cósmico, a energia de fundo (o Akasha) vibra
e traça diferentes direcções, tornando-se ora positiva ora negativa e determinando a
grande Lei da atracção e repulsão. Esse facto cria as linhas de força da própria
substância (Prakriti). É o grande dinamizador cósmico que anima e faz crescer
tanto uma pedra como um ser humano, e que está na origem misteriosa dos
movimentos de sístole e diástole do coração na vida física animal. Na verdade, o
Akasha é Kundalinî, visto por outro aspecto.

Como assumirmos a nossa Divindade?


No decurso das Idades, diversas foram as metodologias formuladas pela
Humanidade a fim de facilitar e guiar o destemido buscador no desbravamento
desse Caminho. Nos Antigos Mistérios das diversas civilizações – Hindu, Egípcia,
Hebraica, Grega… –, os candidatos à Iniciação no “Conhecimento Sagrado” eram
guiados para conquistar “passo por passo”, “degrau por degrau”, os Altares (o
septenário Altar) do Espírito.

Para a Civilização ocidental, porém, um dos métodos mais habilitados e poderosos,


e que se mantém vivo até aos nossos dias, é o método cabalístico hebreu. Quando
entendido e devidamente vivenciado, ele constitui um Guia rigoroso, de
transcendente iluminação nos Caminhos insondados entre os Véus da Grande Mãe.

A “Árvore da Vida” é um símbolo eloquente, animado e impregnado de Vida


(perdoe-se-nos a propositada redundância). Nele estão representados o Macro e o
Microcosmo, e por seu intermédio é-nos fornecida a possibilidade de realizarmos as
devidas pontes entre ambos – o que, na prática, corresponde à transferência de
fluxos definidos de energia cognitiva –, por um processo efectivo de mapeamento
dos abstractos (e aparentemente vazios) Caminhos, para lá das fronteiras do
Mundo Físico.

A Meditação pelos Caminhos da Árvore


Para o místico investigador, este empreendimento não é uma aventura
inconsequente, sem regras nem condições: implica disciplina, despojamento
material (purificação, purgação) e uma empenhada canalização de esforço e energia
numa direcção aparentemente árida, e não isenta de perigos. É um caminho
solitário – não é necessário dizê-lo. E é nessa solitude que o caminhante peregrino
congrega energia, progressivamente mais e mais energia qualificada e inteligente
(que ele próprio assimila e torna individualizada – cunhada pelo seu próprio
diapasão). Essa é a sua bagagem espiritual, que o legitima e lhe abre
sucessivamente as portas de cada etapa do Caminho Ascendente. É ela a sua
palavra-chave, a sua “palavra-de-ouro”, que leva os Guardiões a franquearem-lhe
cada Secreto Portal.
Isabel Nunes Governo
Vice-Presidente do Centro Lusitano de Unificação Cultural

O caminho para Felicidade

Para uma nova compreensão da Vida, do Universo e do


Homem

O CAMINHO DA FELICIDADE
“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”

Sócrates (470 a.C. – 399 a. C.)

Auto-Conhecimento, Auto-Identificação, Auto-Realização e Auto-Ajuda


Desde o primeiro momento em que o assunto do presente artigo ficou definido, e,
em particular, à medida que reflectíamos sobre ele e sobre o modo como deveria ser
abordado, mais e mais foi ficando óbvia a necessidade de esclarecer, logo à partida,
os conceitos de auto-conhecimento e auto-identificação por um lado e de auto-
realização e auto-ajuda por outro, destrinçando-os claramente uns dos outros.
Porque neles, na sua investigação aprofundada, na correcta compreensão daquilo
que, de facto, significam e das suas diferenças, se encontra uma achega importante
para um melhor entendimento daquilo em que consiste o Caminho da Felicidade,
onde pode ser encontrado e, como e quando, começar a ser percorrido.

Comecemos pelo primeiro par: auto-conhecimento e auto-identificação.

O Que Pensamos Ser … Que Afinal Não Somos


No nível humano, na esmagadora maioria dos casos, aquilo que cada indivíduo
pensa de si próprio, a que vamos chamar auto-identificação – pois que é mesmo
disso, e somente disso, afinal, do que se trata –, tem pouco, ou nada, a ver com o tal
auto-conhecimento (do ser) de que falava Sócrates, aquele que dá acesso à ciência
dos “deuses e do universo”.
O que uma pessoa acha que é, a maneira como se percebe, aquilo com que se auto
identifica – apesar dos denominadores comuns que se constatam –, difere muito de
caso para caso, de acordo com o nível de consciência, cultura, sociedade e
convicções da mente de cada um (1).

A diversidade é total. Uns consideram-se mais de acordo com o género (homem ou


mulher); outros sobretudo pela sua cor, nacionalidade, crença, continente ou região
de origem (branco, preto, português, porto-riquenho, cristão, islâmico, agnóstico,
europeu, asiático, nortenho ou latino); alguns “honram” pai e mãe, uma profissão,
uma dada moral, um qualquer padrão social mais ou menos volátil no espaço e no
tempo ou mesmo uma certa ética mais fraternal e universalista (filho de e de,
médico, engenheiro, bom ou mau, poderoso ou fraco, organizado ou não, perfeito
ou inadequado). Isto ou aquilo, conforme se sintam mais identificados, seguros ou
engrandecidos.

A juntar a isto, todas estas disparidades são, ainda, amplamente multiplicadas pelo
facto de que mesmo a ideia que cada um tem de si próprio pode mudar ao longo da
vida (e muda constantemente, tantas vezes quando menos se espera), à mercê das
transformações que vão ocorrendo. Como disse um grande instrutor dos nossos
tempos: “um desgosto, a perda do trabalho, um insulto, e a sua própria imagem,
aquilo a que você chama uma pessoa, muda profundamente” (2).

E essas coisas, tão diferentes, tão impermanentes e, quase sempre, tão antagónicas
não podem, evidentemente, dar acesso ao tal conhecimento/sabedoria que desvela
os segredos das divindades e dos cosmos, a que se referia o filósofo. Não podem,
pelas mesmas razões, conter nenhuma veracidade plausível.
De facto, as concepções que cada um tem acerca de si próprio, consequência de
ideias puramente pessoais e ilusórias, não correspondem minimamente à realidade:

• São, apenas, fruto de padrões sócio-culturais adquiridos, mentalmente


estruturantes, “impostos” à pessoa de maneira, regra geral, subtil e inconsciente,
que ficam visceralmente entranhadas e, por isso, assumidas pela esmagadora
maioria como verdades óbvias, ou mesmo absolutas – que, na verdade, não são.

• São, além disso, transitórias, mutáveis, meramente subjectivas, reflectindo aquilo


que é a mente da personalidade em cada momento, nomeadamente os seus
conceitos e as suas memórias (3).
Sobre tal, testemunham, lapidarmente, as palavras do Senhor Buda ao afirmar que:
“Todas as coisas são precedidas pela mente, guiadas pela mente e criadas pela
mente. Tudo o que somos hoje é o resultado do que temos pensado. O que
pensamos hoje é o que seremos amanhã; a nossa vida é uma criação da nossa
mente” (4).

Quem somos Nós


Diz a Filosofia Perene que não somos nenhuma das coisas do eu inferior com que
nos identificamos e que, na medida dessa identificação, nos controlam na íntegra,
sobretudo através da mente, impedindo-nos de perceber a nossa verdadeira
natureza.

O ser ilimitado que é cada um de nós, a nossa verdadeira identidade, aquele que
nunca nasce e nunca morre, não pode ser percebido no nível mental. E porque as
palavras são da mente e não vão além dela, esse ser (superior) só pode ser descrito
em termos negativos, ou seja, através daquilo que não é (e que, geralmente, julga
que é) (5).

É através do entendimento daquilo que não somos, e com que, geralmente, nos
identificamos (e a que nos apegamos): o corpo, a mente e seus objectos –
percepções, conceitos, memórias, pensamentos, desejos, emoções, medos,
associações mentais – e da desidentificação com eles, que despertaremos e
chegaremos ao conhecimento dessa verdadeira natureza que levará à efectiva
compreensão dos “deuses e do universo” (6).

Neste sentido atente-se ao que nos diz, embora de forma algo velada, Helena
Blavatsky, quase logo a abrir o seu livro A Voz do Silêncio: “Aquele que quiser ouvir
a voz do Nada, o Som sem som, e compreendê-la, terá de aprender a natureza do
Dharana. Tendo-se tornado indiferente aos objectos da percepção, deve o aluno
procurar o Raja dos sentidos, o produtor de pensamentos, aquele que acorda a
ilusão. A Mente é a grande assassina do Real. Que o discípulo mate o assassino” (7).

E, sublinhe-se, é mesmo somente através da investigação da pessoa que não somos,


“dos seus motivos e do resultado das suas acções” (2) e da desidentificação com ela,
que é possível chegar à libertação dos desejos e dos medos, ao auto-conhecimento, à
auto-realização, à paz, à alegria e à felicidade que buscamos incessantemente fora
de nós, nos piores sítios, quando, na verdade, só no ser real ela pode ser
encontrada: aqui, dentro de nós, onde, afinal, sempre esteve à nossa disposição. Em
mais nenhum sítio e de nenhum outro modo pode ser descoberta!

Sobre isto, assinala Helena Blavatsky, na sequência do texto acima referido:


“Porque quando para si mesmo a sua forma parece irreal, como o parecem, ao
acordar, todas as formas que ele vê em sonhos; quando deixar de ouvir os muitos,
poderá divisar o Um – o som interior que mata o exterior. Então, e só então,
abandonará ele a região de Asat, o falso, para chegar ao reino de Sat, o verdadeiro”
(7).

Auto realização e Auto Ajuda

Quanto às chamadas técnicas de auto-ajuda, ou mesmo as técnicas de ajuda


psicológica assistidas por terapeutas ou afins, não proporcionam, nem nunca
poderão proporcionar, ao contrário do que algumas vezes se julga, nada de
minimamente semelhante.

Sem embargo de poderem mitigar problemas de “inadequação” ou situações de


stress mais agudas, essas técnicas não têm coisa nenhuma a ver com auto-
realização. São (ainda) outro ponto de vista completamente diferente.

Limitam-se a operar no âmbito da personalidade e dos seus assuntos – onde a


consciência que se vai tendo da realidade é previamente filtrada, medida e pesada
pelas nossas memórias e padrões que, assim, se constituem no factor determinante
do valor e da coloração que damos aos factos (bom ou mau, certo ou errado, feio ou
bonito, etc., etc., etc.). Aqui, neste fervilhar de ideias e conceitos, não se pode ouvir
“a voz do Nada”.

Aquilo que estas práticas de ajuda procuram (e podem) fazer (e estamos a pensar
no seu melhor), é alguma “harmonização” das tensões mais insuportáveis que se
estabeleçam entre os vários conceitos, condicionamentos, desejos intensos,
tendências e modelos que se antagonizam ou incompatibilizam no seio de uma
mesma personalidade que a eles, de uma maneira ou doutra, foi afiliada, e que
tornam difícil, ou mesmo muito angustiante, a vida corrente do sujeito em que o
conflito se instala.

Nessa “harmonização”, no máximo, o que se pode encontrar (e não negamos que


possa ser muito), é a diminuição das ansiedades constituídas e alguma estabilização
da pessoa através do seu encontro com uma nova “verdade” (mental e sócio-
cultural) que a “reprograme” de forma mais “coerente” e a preserve, dentro de
limites que lhe sejam psicologicamente aceitáveis, das contradições, das dúvidas e
das incertezas.

Só que estas “novas verdades”, mesmo que de um patamar superior, são ainda do
nível da personalidade (embora muitas vezes, lamentavelmente, rotuladas de
“esotéricas” ou mesmo “espirituais”) e não pode haver estabilização permanente
neste plano, onde a “felicidade” se procura através do “prazer” do encontro com as
“coisas” de que se “gosta” e do evitar da “dor” do defrontar as “outras coisas” de que
se “não gosta” – incapazes que somos de, serenamente, “deixar que chegue o que
vem, e deixar ir o que se vai” (2).

A este tipo de “felicidade/prazer” sempre estiveram, estão e estarão ligados os


medos e os desejos que trazem consigo, inevitavelmente, o sofrimento. Prazer e dor
são uma parelha que jamais pode ser separada, e a felicidade (que é espiritual) não
pode ser encontrada nos assuntos da personalidade.

O Caminho da Felicidade. Onde, Como e Quando

Onde
Procurar a felicidade no nível da pessoa, faz lembrar a anedota do homem
embriagado que procurava a moeda perdida debaixo do candeeiro de iluminação
pública: não fora ali que a tinha perdido, mas só ali dispunha da luz que, julgava
ele, lhe permitiria encontrá-la.

Esta estratégia não leva, evidentemente, a lado nenhum. Não é possível encontrar a
moeda no sítio onde ela não está. Não é possível encontrar a felicidade na
personalidade, nem através dos seus padrões mentais, nem na satisfação dos seus
desejos, nem em coisa nenhuma do seu campo de acção. Só pode ser achada onde
foi perdida, no nosso ser real, que é paz e que é amor.

E para se encontrar esse ser, que é também consciência pura, eterna, imutável e
vazia de pressupostos, tem de se ir além da pessoa e “além da mente que divide e
cria os opostos [Kama-Manas], permitindo que apareça uma `outra mente´
[Buddhi-Manas – a mente superior ao serviço da Intuição] que una e harmonize”
(2).
Como
E a maneira como se vai além da personalidade e do seu mundo, dizem todos os
Mestres e toda a Tradição, é através da desidentificação com ela. Este é o único
caminho para a evolução espiritual.

Ouçamos o grande instrutor que foi Sri Nisargadatta Maharaj, o que ele diz e
aconselha:

- “ O mundo real está além do alcance da mente; nós vemo-lo através da rede dos
nossos desejos, divididos entre dor e prazer, bom e mau, interno e externo. Para ver

o Universo como ele é, você precisa de ir além da rede…Olhe a rede e as


suas muitas contradições. Você faz e desfaz a cada
passo. Você quer paz, amor, felicidade, e não pára de
criar dor, ódio e guerra. Você quer longevidade e
abusa da alimentação, quer amizade e explora os
outros. Veja a sua rede feita de tais contradições e
elimine-as; o fato de vê-las, fá-las-á desaparecer.”

- “Veja como funciona, observe os motivos e os resultados das suas ações. Estude a
prisão que construiu em seu redor, por inadvertência. Ao conhecer o que você não
é, chegará ao conhecimento de si próprio” (2).

O que é essencial é aquela meia dúzia de práticas que se recomendam e vemos


sempre repetidas pelos mais sábios: Investigar-se, incessantemente, a si próprio;
observar os fatos, o como e o porquê das emoções e dos pensamentos que com eles
vêm e vão – e a artificialidade das suas verdadeiras origens; ser, o mais possível,
consciente e desapegado; ser sério e persistente na busca; e ir, crescentemente,
inserindo os princípios na prática do dia a dia. O resto é com cada um e tem que ir
sendo descoberto pelo próprio. Escreveu Helena Blavatsky que “O caminho é um
para todos os meio de chegar à meta deve variar de peregrino para peregrino” (8).

Não se esqueça de se investigar


Todo dia terá coisas para melhorar

Se você se acha sábio demais

Bom demais

Cheio de beleza, de certeza que esta sempre certo, que


muita sua fé, então está vazio, por que não pode ser, se
estivesse realmente cheio, não teria problema em evoluir.

Quando
No que respeita ao quando começar, estou convicto de que um processo de
desidentificação com a personalidade pode ser iniciado mais cedo do que,
geralmente, se imagina.

Pois se é verdade que a capacidade de desencadear um tal procedimento depende,


pelo menos em larguíssima medida, de uma consciência mental bastante evoluída –
onde se perceba, minimamente, que, no nível da subjectividade em que vivemos,
não há senão verdades possíveis, que “a realidade” é uma construção mental, que
“os significados” dependem dos contextos, e que a cognição não deve privilegiar
excessivamente uma perspectiva única –, é também verdade que, a partir do
momento em que este tipo de consciência esteja disponível, se tornará inútil e
redundante procurar reforçar o grau de compreensão mental das coisas, havendo
que enveredar, em vez disso, o mais rapidamente possível, pela desidentificação
com a pessoa que não se é – a tal única saída do plano da mente, em direcção ao
estrato superior do ser – e nesta tarefa concentrar todos os esforços.

Nesse sentido vai o alvitre que Helena Blavatsky nos faz: “E tendo aprendido a tua
Ajnana, abandona a Sala da Aprendizagem” (7) .

Consideremos seguir a sugestão!

Vítor Martins

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(1) – No texto, a palavra “mente” e suas derivadas são utilizadas no sentido da
expressão sânscrita “Kama-Manas”, que designa o conjunto da mente e das
emoções influenciando-se mutuamente. Este conjunto, em que a Humanidade, em
geral, está focalizada é, usualmente, dirigido pela vertente emocional.

(2) – Sri Nisargadatta Maharaj (1897-1981) – Transcrito do livro “Eu Sou Aquilo –
Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj” – Editora Advaita, Brasil.

(3) – O mundo das pessoas é mental. É, como dissemos, falso, limitado, relativo,
mutável e tem, apenas, a realidade que a mente de cada um lhe “emprestar”. Mas,
apesar disso, em cada plano de consciência esse mundo de ilusão acaba por se
constituir, para todos os efeitos práticos, numa verdadeira “realidade” para as
pessoas que a ele pertencem e dele partilham: a única “realidade” a que têm acesso
enquanto se mantiverem nesse nível de compreensão.

(4) – “Dhammapada (caminho da lei) ” – I-1


Este tratado de doutrina budista, atribuído ao próprio Senhor Buda, está editado
em língua portuguesa (do Brasil) pela Editora Pensamento, em tradução e
adaptação do Dr. Georges da Silva.

(5) – Fique, no entanto, claro que não podendo a nossa verdadeira individualidade
ser experienciada, percebida ou conceptualizada, sem ela, por outro lado, não pode
haver nem experiências, nem percepções, nem conceitos.

(6) – Sendo que, o entendimento daquilo que se não é, vai acabar por ser efectuado,
ainda, no nível mental. É a mente que nos prende, é a mente que nos liberta!

(7) – “A Voz do Silêncio” – Editora Assírio e Alvim, Lisboa (Primeiro Fragmento).

(8) – Obra citada (Terceiro Fragmento).