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A TRANSFERÊNCIA EM OS ARTIGOS SOBRE A TÉCNICA1

Tânia Mara A. Fernandes Carvalho2

Ao escutar pela primeira vez em uma aula de teoria psicanalítica, no curso de


graduação em Psicologia da Universidade FUMEC, a palavra “transferência”, perguntei-me
se a mesma não estaria correlata ao conceito de transferir, transportar... Uma vez que o termo
“transferência”, abordado na perspectiva psicanalítica naquela aula, ultrapassava minhas
referências conceituais e suscitava discussões polêmicas, consultei o “Vocabulário da
Psicanálise”:

Designa em Psicanálise o processo pelo qual os desejos inconscientes se


atualizam sobre determinados objetos no quadro de um certo tipo de relação
estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica.
Trata-se aqui de uma repetição de protótipos infantis vivida com um
sentimento de atualidade acentuada.
É a transferência no tratamento que os psicanalistas chamam a maior parte
das vezes transferência, sem qualquer outro qualitativo.
A transferência é classicamente reconhecida como o terreno em que se dá a
problemática de um tratamento psicanalítico, pois são a sua instalação, as
suas modalidades, a sua interpretação e a sua resolução que caracterizam
este. (LAPLANCHE. PONTALIS, 2004, p.514)

Posteriormente, matriculada no Curso de Psicanálise do Instituto de Psicanálise e


Saúde Mental de Minas Gerais, deparei-me com estudos mais aprofundados sobre o tema da
transferência e, também, com referências bibliográficas que tratam do assunto. Destaco, aqui,
“A Transferência de Freud a Lacan”, conferência proferida por Jacques-Alain Miller
publicada em “Percurso de Lacan: uma introdução” (1988).

1
Trabalho de conclusão do Módulo II do Curso de Psicanálise do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de
Minas Gerais – 2º sem. 2015.
2
Psicóloga formada pela Universidade FUMEC; aluna do Curso de Psicanálise do Instituto de Psicanálise e
Saúde Mental de Minas Gerais. Tel: (31) 9615-7372.
Segundo Miller (1988), a transferência é um dos poucos pontos de consenso entre os
psicanalistas, uma vez que, todos os que se autorizam a trabalhar com a clínica psicanalítica,
entendem que o estabelecimento da transferência é necessário para que uma análise aconteça.
Ainda segundo Miller, a “conceituação da transferência sofreu uma transformação de Freud a
Lacan” e, por mais que a perspectiva lacaniana do conceito de transferência seja “estritamente
freudiana”, há uma novidade na teoria de Lacan sobre o tema: o fundamento da transferência
é a função do sujeito suposto saber (MILLER, 1988, p.55).

A fim de conhecer a concepção de Freud sobre a transferência, reportei-me aos textos


escritos e publicados no período de 1912 a 1915, conhecidos como artigos sobre a técnica, e
me atentei para os trechos destes trabalhos em que a perspectiva freudiana da transferência é
exposta. Entendo que a leitura destes textos freudianos sobre a técnica psicanalítica é
importante para os praticantes da Psicanálise, pois, neles, princípios fundamentais do
tratamento são apresentados.

Inegavelmente, cada ser humano possui uma maneira peculiar de vincular-se


afetivamente e envolver-se com os outros. De forma geral, este modo característico de cada
sujeito relacionar-se com os outros carrega as marcas de satisfações pulsionais específicas e
de uma história de vida (FREUD, 1912/2010, p.134). A transferência é um fenômeno da vida.
Contudo, na clínica psicanalítica, o estabelecimento da transferência, bem como seu manejo,
possui especificidades que a caracteriza como condição para que uma análise aconteça.

Assim, como a transferência se instala na clínica psicanalítica? De acordo com Freud


(1913/2010), para que a transferência propícia ao tratamento psicanalítico se estabeleça é
necessário que o psicanalista demonstre interesse por aquilo que o paciente diz; que saiba
esperar e conceder tempo para que a atualização de determinados clichês relacionais do
paciente ocorra e, principalmente, que não se aproprie de um papel julgador.

No entanto, é possível desperdiçar esse primeiro sucesso se adotamos já no


início uma outra postura que não a de empatia, uma atitude moralizadora,
por exemplo, ou se nos portamos como representante ou mandatário de uma
parte interessada, do outro cônjuge, etc. (FREUD, 1913/2010, p.187)
No início do tratamento, para que a transferência seja estabelecida, o analista deve
evidenciar seu compromisso com o desejo. A transferência uma vez instalada, é função do
analista sustentá-la e manejá-la, saber utilizá-la, tornando-a sua matéria-prima de trabalho.

Segundo Freud (1915/2010), o analista deve atentar-se para as manifestações


transferenciais e, a partir disto, conduzir o tratamento. Na perspectiva freudiana, a
transferência possui duas modalidades: a transferência positiva e a transferência negativa. Por
transferência positiva, Freud nomeia a atualização de sentimentos de estima e afetos
carinhosos na relação do paciente para com o analista, manifestados como amor não-sexual,
que facilitam o trabalho analítico. Quanto à atualização de afetos agressivos e pulsões
destrutivas em suas mais diversas manifestações, como ciúmes, hostilidade, xingamentos ou
ardentes desejos eróticos na relação transferencial, Freud chamou de transferência negativa
(FREUD, 1915/2010).

Entretanto, a experiência clínica possibilitou a Freud constatar que a diferenciação


entre transferência negativa e transferência positiva serve muito mais aos fins de transmissão
e ensino da Psicanálise do quê à prática psicanalítica propriamente dita:

A transferência é ambivalente: ela abrange atitudes positivas (de afeição),


bem como atitudes negativas (hostis) para com o analista, que, via de regra,
é colocado no lugar de um ou outro dos pais do paciente, de seu pai ou de
sua mãe. (FREUD, 1938-40/1996, p.189)

À semelhança do que encontrei no texto de Jacques Lacan (1958/1998) sobre a


condução do tratamento, isto é, o analista é responsável pela direção da análise, a escrita
freudiana, também, não desresponsabiliza o praticante da Psicanálise do exercício de sua
função no manejo da transferência. Ao tratar dos assuntos referentes ao amor de transferência,
Freud é categórico: “A disposição do paciente não faz diferença, apenas coloca toda a
responsabilidade na pessoa do médico.” (FREUD, 1915/2010, p.224). Seja uma transferência
predominantemente positiva, ou predominantemente negativa, transferência é, e, enquanto tal,
possibilidade de trabalho analítico.

Uma vez que a transferência analítica se manifesta no contexto do tratamento por meio
de ações que evidenciam um determinado estereótipo relacional e afetivo inconscientes, o
manejo transferencial sobrepõe-se à interpretação da transferência. Segundo Freud,
é lícito afirmar que o analisando não recorda absolutamente o que foi
esquecido e reprimido, mas sim o atua. Ele não o reproduz como lembrança,
mas como ato, ele o repete, naturalmente sem saber o que faz.
Por exemplo: o analisando não diz que se lembra de haver sido teimoso e
rebelde ante a autoridade dos pais, mas comporta de tal maneira diante do
médico. (...) Não se lembra de ter se envergonhado bastante de certas
atividades sexuais e ter sentido medo de quê fossem descobertas, mas mostra
vergonha do tratamento a que se submete agora e procura escondê-lo de
todos, etc. (FREUD, 1914/2010, p.199-200)

Comunicar ao paciente as hipóteses sobre suas relações afetivas da primeira infância,


associando à vinculação transferencial estabelecida, geralmente não é uma atitude prudente.
Gerir, manejar, dirigir, trabalhar com, são ações analíticas que podem levar à resolução do
problema transferencial, caracterizando o tratamento como um tratamento analítico
propriamente dito.

Julguei proveitoso ler e examinar os referidos textos freudianos sobre a clínica


psicanalítica e, especificamente, a transferência, porque, desta forma, iniciei meu retorno a
Freud – necessário para a apreensão dos avanços propostos por Jacques Lacan.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, S. O uso da interpretação dos sonhos na Psicanálise (1911). In:______. Obras


Completas – Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em
autobiografia (“O caso Schereber”), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913).
Tradução e notas de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v.10.
p.122-132.
______. A dinâmica da transferência (1912). In:______. Obras Completas – Observações
psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso
Schereber”), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução e notas de Paulo
César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v.10. p.133-146.
______. O início do tratamento (1913). In:______. Obras Completas – Observações
psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso
Schereber”), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução e notas de Paulo
César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v.10. p.163-192.
______. Recordar, repetir e elaborar (1914). In:______. Obras Completas – Observações
psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso
Schereber”), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução e notas de Paulo
César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v.10. p.193-208..
______. Observações sobre o amor de transferência (1915). In:______. Obras Completas –
Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O
caso Schereber”), Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Tradução e notas de
Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. v.10. p.210-228.
______. Esboço de Psicanálise (1938-40). In:______. Edição Standard Brasileira das
Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1996.
v.XXIII. p.151-221.
LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958). In:______.
Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. p.591-652.
LAPLANCHE, Jean. PONTALIS, Jean-Bertrand. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo:
Martins Fontes, 2004.
MILLER, Jacques-Alain. A Transferência de Freud a Lacan. In:______. Percurso de Lacan:
uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988. p.55-71.