Você está na página 1de 56

Quattuor - Formação para Lideranças JS

Índice

PARTE 1
Compreendendo o Estilo de Vida e a Obra JS
Compreendendo o Estilo de vida JS...................................................................................... 05

Diagnóstico Atual da Obra Jovens Sarados......................................................................... 06

PARTE 2
Liderança e Mentalidade Discipuladora
A exemplo de Paulo................................................................................................................. 07

5 fases da Missão JS - Do início à maturidade..................................................................... 18

Lideranças Saradas e Mentalidade discipuladora................................................................. 23

Compreendendo as Lideranças Saradas e sua estrutura.................................................... 29

Lideranças Regionais................................................................................................................ 30

Liderança de Missão................................................................................................................. 31

PARTE 3
Discipulado – Conceito e implantação.

Implementação do discipulado – passo a passo.................................................................. 35

Projeto de discipulado – vida de oração................................................................................ 38

Discipulado e pequenos grupos............................................................................................. 45

Projeto de discipulado – primeiros passos............................................................................ 51

3
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Quattuor - Formação para Lideranças JS


Conceito e Implantação

Coordenador Geral de Formação


Danilo de Santana Bezerra

Coordenador Geral de Missões e Novas Missões


Erick Eiji de Souza Tabuchi

Núcleo Geral de Missões


Willams Messias

Diagramação
Erick Eiji de Souza Tabuchi
Patricia Zequeto Bozoni

Contatos para dúvidas, sugestões e esclarecimentos.


formacao@jovenssarados.com
Danilo: (79) 99989-1920
Erick: (11) 95351-5262

www.jovenssarados.com.br
@jovens.sarados

4
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Compreendendo o Estilo de vida JS


Para compreender o que é verdadeiramente o estilo de vida JS, recomendamos que antes de iniciar a leitura
deste texto que se faça a leitura do livro Até Sermos UM - Danilo bezerra, que para nós um guia de espiritualidade
e missão para uma juventude apaixonada por Jesus e pelas almas alinhado devidamente com nossa regra de vida
expressa na cartilha, com um conteúdo simples, mas eficaz. O capítulo primeiro do livro traz para nós a linguagem
do que é o estilo de vida, compromisso, voto e aliança. Esse estilo de vida gera santidade.

É impossível viver bem um chamado sem entender bem sua finalidade imediata, em quê esse chamado consiste
em: COMO corresponder a ele, o que ele exige de nós e qual natureza. O JS nos convida a ser um missionário
de tempo integral. A vivência do estilo de vida nos faz comunicar algo ao mundo. Ela é capaz de transformar
um geração, é o mapa para o cumprimento da missão. Essa experiência se dá com o Compromisso JS (Voto). O
voto é uma promessa deliberada e livre feita a Deus de oferta de um bem possível e melhor. A vida cristã nasce
de promessas a Deus (CIC 2101). A finalidade desse compromisso é dupla: a busca pela santidade de vida e pelo
resgate de almas jovens. Esse comprometimento se realiza na prática com o engajamento em uma missão como
servo. Essa posição de servo nos conduz a uma disposição em conhecer, apreender e colocar em prática os 7
tesouros, é de fato abraçar o desafio de se dispor a fazer a experiência de formação e serviço. Toda essa dinâmica
conduzida pela graça do Espírito Santo é fazer cumprir o compromisso feito com Deus.

A regra de vida nos conduz a gerar paixão por Deus e pelas almas, que consiste dentro de dois elementos: 1º
salvar almas e o 2º a luta pela santidade, gerando uma aliança com Deus dentro dessa regra de vida. A regra de
vida é a nossa fonte de água e o leito de um rio que flui em direção ao cumprimento da promessa da multiplicação.
São João da Cruz diz que para chegarmos até Deus temos três inimigos: o mundo, o demônio e a carne. O
Estilo de vida (regra de vida), tem um propósito de proteger a pessoa e nos conduzir a luta real conformar nossa
vida com todo o molde que o Estilo de vida propõe. O servo precisa entender que se ele não acolher o Carisma
como forma concreta de vida, ele nunca chegará a ser aquilo que Deus o chamou a ser, simplesmente por que
não obedece ao caminho que foi suscitado pelo próprio Espírito. Precisamos ser fiel à regra de vida. Ela requer
humildade, abnegação e amor.

A humildade se manifesta na fidelidade, pois é o reconhecimento de que a regra é boa para mim, é um dom
de Deus. A fidelidade ao Estilo de vida gera humildade e a humildade é a condição indispensável para o progresso
espiritual. A humildade é a virtude preferida de todos os santos, pois ninguém se santifica sem ela. Santa Teresa
D’Ávila “enquanto vivemos nesta terra não há coisa que mais importa para nós do que a humildade”. Ser humilde
é não viver para si, mas para Deus e para os outros. São João da Cruz “ Visões, revelações, sentimentos celestes e
tudo quanto se pode imaginar de mais elevado, não valem tanto quanto o menor ato de humildade”. A humildade
é grande virtude, o que mais caracterizou Jesus “manso e humilde de coração” MT 11,29.

Abnegação é justo que muito custe o que muito vale, dizia Santa Teresa D’Ávila. A obediência a uma regra de
vida exige que cada um negue-se a si mesmo e tome sua cruz a cada dia em seguimento de Jesus.

Amor só se sustenta por amor a Jesus e as almas. A fidelidade humilde, abnegada e amorosa ao estilo de vida
faz com que o que nasceu como atração torna-se cada vez mais realidade encarnada em nossas vidas.

A finalidade da regra de vida é produzir em nós uma experiência contínua até o ponto dela se tornar parte
de nós, carne de nossa carne. A santificação passa por duas grandes fases: ascético(esforço) e mística(união mais
profunda com Deus). Logo de forma providencial nossa primeira definição é “A academia para sua alma”. É
exatamente isso que uma regra de vida se propõe a ser: um plano de exercícios espirituais que vão predispondo a
alma para um amor mais interior, enraizado, profundo.

5
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Diagnóstico Atual da Obra Jovens Sarados


Sarados No Brasil (Agosto/2019)

185 Missões
21 Regionais (divisão territorial)
4934 participantes nas missões
4432 servos comprometidos com a obra
62% do público é feminino
40% faixa etária de 18 a 23 anos
35% faixa etária de 24 a 30 anos
99% são batizados
97% tem a 1ª eucaristia
87% são crismados
45% dos jovens estão engajados entre 1 e 3 anos

Ao contemplar números tão expressivos para uma obra que irá completar 12 anos, nosso coração se enche de
alegria, ainda mais por saber que no dia em que aconteceu a primeira reunião a palavra narrava o posicionamento
de Gamaliel diante do Grande Conselho cf At5,34. Visando sempre a vivência daquilo que para nós é caminho
de Salvação (estilo de vida) identificamos nos últimos 2 anos juntamente com a implantação dos núcleos regionais
que existe uma falta de compreensão do estilo de vida e por consequência a vivência do mesmo.

Diagnostico ATUAL:
A grande maioria das missões se resumem em realizar grupos / maranathas, esse é o seu grande objetivo,
por consequência os jovens que adentram a obra logo são conduzidos a replicarem as ações já existentes sem
as compreenderem, assim levando a uma superficialidade de vivencia do estilo de vida. Existe sim o desejo pela
salvação das almas, mas voltado ao engajar na estrutura ministerial da missão.

Objetivo
Conduzir e formar lideranças (novas e já existentes) para que compreendam de forma clara que: Salvar
almas dentro do estilo de vida JS vai além de proporcionar grupos e maranathás, é formar discípulos de maneira
intencional para serem o instrumento da graça do batismo no espírito, e capacitados a discipular novos jovens. É
necessário para isso que cada membro assuma uma responsabilidade particular em discipular cada jovem que entra
na obra, para que assumam com autonomia de vida as suas ações e assim livremente façam a opção por Cristo.

Realidade Atual X Onde queremos Chegar


Ações Valores
Grupos / Eventos Pessoas
Sem Consciência Consciente
Rotatividade Comprometimento
Curto Prazo Longo Prazo
Superficial Enraizada
Caricatura do Ser JS Vivencia profunda
Desânimo Não desanima
Inconstância Constante
O JS precisa de mim Eu preciso do estilo JS para vida

6
Quattuor - Formação para Lideranças JS

A exemplo de Paulo
O caráter missionário do JS é uma realidade desde sua gênese no coração do padre Edmilson. Sonhado
por Deus para resgatar “almas jovens”, fruto do carisma Canção Nova que nasceu com uma marca fortemente
evangelizadora, a providência divina foi nos levando, pelos próprios fatos e portas que Deus abriu e fechou, a
adquirimos um alcance missionário além do que o padre sequer imaginara quando iniciou a missão. Deus está
sempre além dos nossos pensamentos: “Com efeito, meus pensamentos não são os vossos pensamentos e os vossos caminhos
não são os meus caminhos” (Is 55,8).

Nesse sonho de levantar uma geração apaixonada de ressuscitados, Deus levou o JS a chegar a locais e abrir
missões onde nunca imaginaríamos chegar. Suscitou pessoas e moveu corações onde nossa mente não pensaria e
onde nossos cálculos não nos levariam. Diante de tudo isso, só podemos afirmar que é a graça de Deus que nos
levou e leva e que ela tem se derramado poderosamente sobre nós. Sem qualquer orgulho de nossas obras – na
verdade reconhecendo nossas misérias e insuficiências –, nós podemos dizer que a graça de Deus superabundou
para conosco e se derramou de maneira copiosa.

Isso nos impõe, por gratidão e fé, o dever de corresponder a essa eleição e misericórdia manifestada em nós
e através de nós. A cada graça derramada, Deus espera de nós uma correspondência, para manifestar ainda mais
graça. “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas Ele que nos amou e nos enviou seu
Filho como expiação de nossos pecados” (1 Jo 4,10). Portanto, a resposta é corresponder para receber mais amor:
“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e o que me ama, será amado por meu
Pai, e eu o amarei e manifestar-me-ei a ele” (Jo 14,21).

Essa é a essência da relação de Deus para conosco: derramar graça e manifestar Sua glória através do que faz
em nós, por nós e através de nós, como está escrito que “Nele [em Cristo] nos escolheu antes da fundação do mundo (...),
nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, conforme a benevolência de sua vontade, para louvor e glória
de sua graça” (Ef 1,4a.5.6a). E Ele faz isso de maneira abundante, em todas as esferas da nossa vida. É por isso
que a Bíblia nos diz tantas vezes que toda a criação está cheia da glória de Deus. Essa glória se manifesta cada vez
mais quando correspondemos à sua primeira manifestação. Cada sim do coração humano à glória manifesta de
Deus acarreta em mais glória manifesta, de maneira tal que é de glória em glória que somos transformados (2 Cor
3,18) e pelo reflexo dessa glória outras pessoas são alcançadas.

O propósito dessa reflexão é dar um sim e corresponder a uma das formas como Deus quis manifestar sua
glória através de nós: pela abertura de novas missões Jovens Sarados. Deus nos levou além sem planejarmos
e apesar de nossa insuficiência, para mostrar que Ele é o autor da obra. Mas cabe a nós agora dar uma nova
resposta: se Deus quis manifestar assim Seu poder, amor e misericórdia, nós queremos contemplar ainda mais.
Nós fomos chamados a participar desse processo e queremos criar o ambiente favorável para que a glória de Deus
se manifeste ainda mais. Precisamos nos alinhar com os propósitos de Deus e Sua forma de agir.

Por isso, se coloca para nós o desafio de, sob o impulso e poder do Espírito Santo, com grande zelo pelo
evangelho da graça de Jesus Cristo e pelo carisma que nos foi confiado, avançar no processo de abertura e suporte
de missões, correspondendo com nosso viver, com nossos recursos e com nossas capacidades à grande vocação
que o Senhor nos confiou.

Missões JS, novo testamento e batismo no Espírito Santo


O Jovens Sarados nasce do carisma Canção Nova (CN), que por sua vez é uma expressão maravilhosa da
corrente de graça que Nosso Senhor derramou sobre a Igreja a partir da experiência da Renovação Carismática
Católica (RCC). Partir desse ponto é fundamental porque coloca para nós que a experiência de Pentecostes,
experiência fundante da Igreja nascente e experiência fundante da RCC, é constitutiva de nossa identidade. Ou nós

7
Quattuor - Formação para Lideranças JS

somos jovens de Pentecostes ou não somos Jovens Sarados.

Isso significa algo mais profundo do que nossa cartilha de servos já traz de maneira explícita. O ser carismático
não é só parte “natural” de nossa vida de oração, mas parte de nossa identidade. “Somos, por natureza,
carismáticos. Não por mérito, mas por graça. Dentro dessa dimensão, vivenciamos com alegria e naturalidade
os dons do Espírito, sem omitir em nada as manifestações da Sua presença”¹. A experiência de Pentecostes, de
avivamento, de batismo no Espírito Santo, é parte de nosso DNA enquanto Sarados. Se perdermos isso de vista,
limitaremos nossa missão, porque essa experiência contínua de Pentecostes tem consequências que vão muito
além da forma como vivemos nossa vida pessoal de oração.

A experiência de Pentecostes está completamente associada com a conversão, o testemunho a ponto de levar
ao martírio e o impulso missionário dos primeiros cristãos. O batismo no Espírito Santo têm um duplo efeito na
vida do crente: 1) um grande impulso de conversão/santificação, uma graça atual poderosa que se derrama sobre
a pessoa despertando nela um desejo de santidade genuíno e profundo e 2) uma capacitação com poder para o
testemunho e a evangelização (carismas). O primeiro aspecto é muito evidenciado por Paulo, enquanto o segundo
é fortemente notado em Lucas.

A experiência deflagrada em Pentecostes, o derramamento do Espírito Santo sobre o coração dos apóstolos,
teve um impacto profundo para a Igreja nascente e foi necessário para que ela se tornasse o que se tornou.
Pentecostes não se transformou somente numa geração de corações novos, mas desencadeou uma dinâmica
missionária e um testemunho capacitado pelos dons do Espírito, infusos (de santificação) e efusos (carismáticos),
que permitiu a expansão do Evangelho entre judeus e pagãos.

Além disso, Deus também se utilizou da providência dos acontecimentos para levar os cristãos judeus a locais
que eles não imaginavam. As perseguições e fuga dos cristãos espalharam a Boa Nova que eles acreditavam estar
destinada somente aos judeus como povo da promessa messiânica. Os diversos casos relatados em Atos dos
Apóstolos, culminando com o de Cornélio, mostram como circunstâncias inesperadas espalharam os cristãos e os
fizeram ir muito além do que suas próprias ideias e projetos humanos conceberiam².

Correlacionando com os Sarados, é interessante notar essas duas semelhanças: o JS nasce de uma experiência
profundamente carismática, que recebemos da Canção Nova. A experiência do batismo no Espírito Santo é tão
fundante para nós, que ela é relatada como nossa missão prioritária, nos termos da cartilha de servos: “a missão
de um jovem sarado é evangelizar almas jovens, sendo instrumento para que aconteça o batismo no Espírito
Santo”³. O uso dos dons, a imposição de mãos, o papel culminante que o momento da Efusão do Espírito Santo
tem em nossos Maranatha, a insistência na importância de promover os momentos de efusão em nossas reuniões
de oração mostram que, por termos feito a mesma experiência que os apóstolos, também temos uma missão
semelhante à deles e uma preocupação parecida (ou pelo menos deveríamos ter). É paradigmática a postura de
Paulo em Atos 19,1-7: a sua primeira preocupação ao visitar a comunidade de Éfeso é saber se eles fizeram a
experiência do batismo no Espírito Santo, e sabendo que não fizeram, levá-los a essa experiência.

Além disso, como os cristãos judeus, não compreendíamos o alcance do que Deus estava fazendo e a amplitude
daqueles que Ele queria alcançar, e o processo de multiplicação foi surgindo sem ser pensado a priori como algo
planejado. Pelo contrário, foi movido pelas circunstâncias em que Deus nos colocou e pelas pessoas que Ele
mesmo levantou, dentro de seus desígnios eternos.

Essa semelhança não deve ser tomada por nós como algo banal, mas acolhida e refletida com muito carinho. É
preciso fazer memória da nossa história e escutar o que Deus nos fala através dela. As semelhanças dela com fatos

¹ Cartilha de servos JS, bloco 2, página 22.


² O apedrejamento de Estevão foi o fato detonador da primeira perseguição sistemática e mais atroz contra os primeiros cristãos (ver At 8,1). Foi assim
que começou a evangelização da Samaria: “Entretanto, os que haviam sido dispersos iam de lugar em lugar, anunciando a palavra da Boa Nova. Foi assim
que Filipe, tendo descido a uma cidade da Samaria, a eles proclamava o Cristo” (At 8,4-5).
³ Cartilha de servos JS, bloco, página 13.

8
Quattuor - Formação para Lideranças JS

e acontecimentos da igreja primitiva indicam que o padrão bíblico de expansão da Igreja, a forma de vivência
dos primeiros cristãos, sua vida de oração e seu exemplo, para nós, ganham uma dimensão ainda mais especial.
A comunidade carismática dos primeiros tempos é nosso modelo de missão e, dos princípios bíblicos e apostólicos por
eles vividos, nós devemos extrair e fundamentar nossa forma de ser missão e de ser servo.

Mais que isso, a forma da nossa multiplicação deve ser aquela que está esculpida nas Escrituras pelos primeiros
cristãos. Se as Escrituras são fonte de vida e Palavra de Deus para todos os cristãos, para nós, JS, cujo carisma
nasce dessa atualização da experiência de Pentecostes, ela ganha relevo ainda mais especial, porque se atualizou para
nós não só na experiência do batismo no Espírito, mas na forma de ser missão e na forma de levar o Reino e manifestar a glória
de Deus através da evangelização e na salvação das almas, em especial as jovens. O novo testamento é nosso manual de
como abrir, fundar e formar servos, discípulos e missões.

Dos primeiros apóstolos a São Paulo: do impulso difuso à uma estratégia impulsionada pelo Espírito
para a expansão do Reino e a salvação das almas

Como afirmamos de maneira breve, a experiência do Batismo no Espírito operou no coração dos apóstolos
e discípulos um duplo efeito: um impulso para a santidade de vida e uma capacitação para missão. Essas duas
realidades podem ser resumidas numa só palavra: testemunho. Não é a toa que essa é a palavra usada por Jesus
em At 1,8: “Mas recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém,
em toda a Judeia e Samaria e até os confins da terra”.

Nessa passagem, Jesus resume de maneira magistral a importância do envio do Paráclito. O primeiro ponto
desse testemunho se dará pela vida daqueles que recebem o Espírito. É interessante notar o que Jesus, após
prometer o envio do Espírito em Jo 16,7 4, afirma em sua oração ao Pai: “Não rogo somente por eles, mas pelos que, por
meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um. Como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, que eles estejam em
nós, para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17,20-21). Esse testemunho com a vida, de unidade e comunhão
com o Pai e o Senhor Jesus e de comunhão e amor fraternos que resulta na unidade visível da comunidade só é
possível porque o fundamento dela é a promessa de envio do Espírito Santo. O segundo ponto se manifesta
pelos dons que eles operam na força do Espírito, que testemunham que a palavra que proclamam é digna de fé e
verdadeira 5.

Essa experiência levou à inquietação dos apóstolos e ao testemunho público audacioso, mas não alterou por
completo todas as suas convicções, nem abriu os olhos ao pleno alcance do que deveriam fazer: a evangelização de
todos os povos. Exemplo claro é que o próprio Pedro, chefe dos apóstolos, não está consciente da total implicação
disso, apesar do mandato claro do Senhor ao final dos evangelhos6. Só a visão clara diante do caso de Cornélio,
pagão simpatizante do judaísmo 7, que recebeu o Espírito sem sequer ser batizado, levou Pedro a compreender
que o mandato do Senhor antes de sua ascensão incluía não só os judeus ou pagãos convertidos ao judaísmo, mas
qualquer pessoa, de qualquer nação.

Assim, o Espírito foi forçando a compreensão dos apóstolos através de fatos sucessivos, em vista de sua visão
limitada do cristianismo como um desenvolvimento do judaísmo, realizado pela vinda do Messias, mas ainda assim
dentro do círculo estreito do judaísmo.

4 “No entanto, eu vos digo a verdade: é de vosso interesse que eu parta, pois, se eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas, se for, enviá-lo-ei
a vós. Quando vier o Espírito da verdade, ele vis guiará na verdade plena. Ele me glorificará, pois receberá do que é meu e vos anunciará”
(Jo 16,7.13a.14).
5 Após a prisão de Pedro e João, a comunidade primitiva ora assim: “Agora, pois, Senhor, considera suas ameaças [dos judeus perseguidores] e
concede a teus servos que anunciem com intrepidez sua palavra, enquanto estendes a mão para que se realizem curas, sinais e prodígios, pelo nome do teu
santo servo Jesus” (At 4,29-30). A resposta a esta oração está no versículo seguinte: “Tendo eles assim orado, tremeu o lugar onde se achavam
reunidos. E todos ficaram repletos do Espírito Santo, continuando a anunciar com intrepidez a palavra de Deus” (At 4,31), demonstrando a vinculação
evidente entre testemunho eficaz pelo anúncio da palavra, dons carismáticos e ação do Espírito Santo. Ver ainda 1 Cor 12.
6 “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos” (Mt 28,19a), “Ide por todo mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura”
(Mc 16,15), “Assim está escrito que o Cristo devia sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e que, em seu Nome, fosse proclamado o
arrependimento para a remissão dos pecados a todas as nações, a começar por Jerusalém” (Lc 24,46-47).
7
Ver At 10.

9
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Ainda que com o episódio de Cornélio e a revelação do Espírito, Pedro e a Igreja de Jerusalém tivessem
compreendido que aos pagãos também se dirigia a boa nova do Evangelho, essa revelação extraordinária não
foi suficiente para mudar o paradigma de missões e implantação de igrejas em locais não alcançados. A
expansão do Reino continuou ditada pelo ritmo imposto pelas circunstâncias, mas Deus queria mais.

É dentro desse propósito que está a eleição de Saulo/Paulo por Deus. A afirmativa que Paulo faz aos coríntios
é interessante: “Pois sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus. Mas,
pela graça de Deus sou o que sou: e sua graça a mim dispensada não foi estéril. Ao contrário, trabalhei mais do que todos eles;
não eu, mas a graça de Deus que está comigo” (1 Cor 15,9-10). Paulo pôde afirmar que a graça de Deus operou mais
que em todos os outros apóstolos porque ele alcançou uma maior clareza da visão de ministério que Deus
tinha lhe proposto e sob a inquietação poderosa do Espírito Santo traçou uma estratégia de alcance dos perdidos,
de implantação e consolidação de igrejas locais. Paulo organizou seu ministério de maneira consciente e
intencional para os fins a que se propunha, e por isso o Espírito Santo operou de maneira tão grande em/
através de Paulo.

Não é à toa que Paulo se tornou o grande paradigma de plantador de Igrejas e o NT seja em grande parte
paulino: além de suas inúmeras cartas, dois de seus colaboradores, Marcos e Lucas, foram escritores do NT. Ainda
a Carta aos Hebreus tem o pensamento paulino como seu fundamento, apesar de hoje sua autoria não ser atribuída
a esse apóstolo pelos estudiosos.

Isso faz de Paulo, de suas experiências e de seus ensinamentos um grande modelo de missionário e plantador
de missões. Hoje, nós somos chamados ao desafio de ultrapassar a fase inicial em que a expansão de
missões se dava apenas pelas forças das circunstâncias. Com isso, não se nega a ação da providência divina.
Pelo contrário, o que se quer é que, orientados e em plena sintonia com o Espírito, despertemos de uma atitude
meramente passiva ou pouco proativa para sermos instrumentos dóceis ao que a Providência Divina deseja
executar. Ao invés de opor obstáculos ou ser inertes à ação do Espírito, queremos remover barreiras, aplainar vales
e montanhas e preparar um caminho aberto e plano, naquilo que está ao nosso alcance, para a vinda do Senhor.
Tudo isso é obra da graça de Deus.

O exemplo de Paulo para a implantação de missões


“Sede meus imitadores, como eu mesmo sou de Cristo” (1 Cor 11,1). Na providência divina, Deus inspirou a Paulo
que escrevesse essa ordem em sua carta aos coríntios para que sua imitação se tornasse um imperativo não só
para aquela comunidade, mas para os cristãos de todas as épocas e lugares. Ser imitador de Paulo é ser imitador
de Cristo.

Sabendo que a “grande comissão” – o mandamento para fazer discípulos entre todas as nações – é dirigida a
todos os cristãos, talvez a melhor forma de cumprir esse mandamento seja colocando em prática a ordem de Paulo
na sua carta: ser seu imitador, como ele o é de Cristo.

O primeiro ponto a chamar atenção nisso consiste em saber como Paulo se via como imitador de Cristo. O
contexto anterior da passagem lança luz sobre essa afirmação: “Portanto, quer comais, quer bebais, quer façais qualquer
outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus. Não vos torneis ocasião de escândalo, nem para os judeus, nem para os gregos,
nem para a Igreja de Deus, assim como eu mesmo me esforço para agradar a todos em todas as coisas, mas os do maior
número, a fim de que todos sejam salvos” (1 Cor 10,31-33).

É após essa exortação que Paulo convida os coríntios a serem seus imitadores, assim como ele é imitador de
Cristo. O contexto dessa passagem indica que ser imitador de Paulo, e, portanto de Cristo, implica em duas coisas:
1) fazer tudo para a glória de Deus e 2) buscar o interesse (salvífico) de todos em todas as coisas, visando à salvação
das almas.

Isso de fato pode resumir o ministério de Cristo: uma vida obediente em amor para a glória de Deus Pai,
expressando a imensidão de Seu amor e justiça morrendo a morte de cruz, e uma vida obediente ao Pai em amor
10
Quattuor - Formação para Lideranças JS

e serviço para com os homens, em tudo Se entregando e fazendo de Sua vida uma oferenda sem mancha. Em Jo
8,50, Jesus afirma: “Não busco a minha glória”. Defendendo diante dos judeus que contestavam seu ministério,
Jesus demonstra que o fato de buscar não a Sua glória, mas a do Pai, era o seu selo de autenticidade: “Se alguém
quiser cumprir a vontade de Deus [reta intenção do coração que santo Agostinho chama de busca da Verdade],
distinguirá se a minha doutrina é de Deus ou se falo por mim mesmo. Quem fala por própria autoridade busca a
própria glória, mas quem procura a glória de quem o enviou é digno de fé e nele não há impostura alguma” (Jo
7,17-18). Em sua oração sacerdotal, antes de sua morte, Jesus diz: “Pai, é chegada a hora. Glorifica o teu filho, para
que teu Filho glorifique a ti. Eu te glorifiquei na terra, terminei a obra que me deste para fazer” (Jo 17,1a.4). A vida
inteira de Jesus foi, primariamente, a busca da glória de Deus: revelando-A aos homens e fazendo Sua vontade.
Por isso, no Evangelho de São João, a cruz, aparentemente o momento da maior humilhação, do esvaziamento 8
por excelência, é o momento ápice da glorificação: a vontade de amor do Pai se realizou no Filho em obediência
perfeita, e o rosto amoroso do Pai visibilizou-se no Filho de maneira infinita, até chegar às últimas consequências9.

Paulo encarnou o estilo de vida de Jesus. É por isso que ele podia afirmar aos gálatas: “Já não sou eu que vivo, mas
é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20a). Isso pode ser resumido no que Paulo diz na carta aos coríntios: “Tornei-me tudo
para todos, a fim de salvar alguns a todo custo” (1 Cor 9,22b).

Viver para a glória de Deus e em tudo buscar a salvação das almas não são duas realidades paralelas, mas duas
faces da mesma moeda: não existe uma vida vivida de maneira genuína para a glória de Deus que não reflita num
compromisso de dar a vida pela salvação das almas no estado de vida a que Deus te chamou. É porque Paulo de
fato vivia para a glória de Deus e era consumido por essa paixão por quem Deus é para ele em Jesus Cristo que
sua alma se inflamava pela salvação dos perdidos.

Esse é o ponto de partida fundamental, porque, sem ele, todas as outras atitudes do apóstolo a serem imitadas
não passarão de ativismo estéril, que uma hora se tornará um fardo do qual pretenderemos nos livrar.

Consumido pela glória


Ser consumido pela glória de Deus significa ter um coração devorado por uma fome e sede de Deus tão intensa
que leva a um anseio de conhecê-lo cada vez mais. A passagem mais emblemática desse deixar-se consumir pela
glória de Deus, na vida de Paulo, é Filipenses 3. Nela, Paulo expressa realidades importantíssimas.

A primeira, é que não é possível ansiar por uma experiência da glória de Deus sem ter sido alcançado antes
por ela. A glória de Deus é a manifestação de quem Deus é, a Sua revelação, a revelação de seu caráter e de seus
atributos. Em uma expressão, a glória de Deus é Deus se revelando ao homem com Seu amor, buscando-o e o
impactando com a Sua beleza e a beleza do que é capaz de fazer por nós. Essa experiência da glória de Deus nasce
de um encontro pessoal, que Paulo expressa ao dizer “fui conquistado por Cristo” (Fl 3,12), num contexto em que
diz que se empenha em conquistar a ressurreição dos mortos. A passagem significa que uma vez que Cristo me
alcançou (“fui conquistado por Cristo”), agora cabe a mim me empenhar para alcançar esse mesmo Cristo que me
buscou, me tocou com sua graça, passou por mim com Sua Vida escondida nEle e me impele agora a buscá-lO.
“Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Por
que estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,1.3).

Esse toque da graça de Deus, quando nós somos conquistados por Cristo através da experiência pessoal que
consiste em conhecer experiencialmente Seu amor e Sua beleza pela ação do Espírito Santo (manifestação da
glória), gera em nossa alma um movimento de busca. Nós fomos despertados para Cristo, mas não provamos
sequer o começo do que Deus tem para nos proporcionar nEle.

Em Cântico dos cânticos, a alma esposa, que foi ferida de amor pelo Amado, expressa essa dinâmica de
busca quando é despertada para o amor pelo Esposo: “Abri ao meu bem-amado, mas ele já se tinha ido, já tinha

8 Fl 2,6-11
9 Jo 13,1.

11
Quattuor - Formação para Lideranças JS

desaparecido; ouvindo-o falar, eu ficava fora de mim. Procurei-o e não o encontrei, chamei-o e ele não respondeu”
(Ct 5,6).

A segunda realidade, que deriva da primeira, é que a cada vez que alma mergulha no conhecimento experiencial
de Cristo, crescem nela os afetos pelo Senhor e diminuem os afetos ao pecado e ao mundo. “Mas todos nós, que
com o resto descoberto refletimos como num espelho a glória do Senhor, somos transformados nessa mesma
imagem de glória em glória, pelo Senhor, que é Espírito” (2 Cor 3,18). Mais que isso, por ter experimentado o
Senhor, a alma começa a compreender a necessidade de renunciar àquilo que é capaz de lhe afastar do Senhor.
Por isso Paulo diz “o que era para mim lucro, tive como perda por Cristo. Na verdade, tudo considero perda, em
comparação com esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho
em conta de esterco, a fim de ganhar a Cristo e estar com ele” (Fl 3,7-9a).

Isso, no entanto, só é possível quando o conhecimento inicial de Jesus, a primeira manifestação da glória de
Deus na nossa vida, que nós chamamos de primeira conversão, é continuado, sucedido por outras experiências
contínuas de intimidade com Ele, outros momentos de oração íntima com Ele nas quais o Espírito, através da
Palavra, me revela Cristo e através da contemplação de Cristo, eu conheço mais o Pai. “Porque Deus que disse:
das trevas brilhe a luz, é também aquele que fez brilhar a sua luz em nossos corações, para que irradiássemos o
conhecimento do esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo” (2 Cor 4,6)¹0. São porções novas de revelação,
não no sentido de um conhecimento novo, adicional, diferente do evangelho, mas sim de um conhecimento mais
profundo e de compreensão de realidades do mesmo Evangelho¹¹ que permaneciam escondidas porque ainda
estávamos em níveis superficiais. Isso não é uma característica especial dos iluminados, mas a evidência de vida
espiritual verdadeira de qualquer cristão. O autor do livro a alma de todo apostolado diz que “se a minha sede de
viver de Jesus deixar de aumentar, é porque não possuo o grau de vida interior que Ele exige de mim”.

Ser consumido pela glória é fazer a experiência de relacionar com Jesus em intimidade, entrar no local onde
o Espírito nos dá a conhecer Cristo. Glória não significa prosperidade material, sucesso ministerial, saúde plena.
Glória é conhecimento de Deus cada vez mais íntimo pela revelação de Jesus Cristo em nosso espírito pelo
Espírito. E como São João compreendeu bem, o ápice da Glória é a cruz, o local onde Deus manifesta-se com
absoluta intensidade e plenitude. Quanto mais você experimenta a glória de Deus, mas Ele te leva pelo caminho da
cruz, que é onde Ele se revela em máxima intensidade. A glória de Deus, portanto, não tem a ver com bem-estar,
consolações, sentimentos, mas com renúncia e sacrifício que a busca de Sua presença exige.

Esse conectar-se a Deus pela experiência de intimidade com Cristo inflama de amor o coração do homem a
ponto de deixá-lo a apaixonado. No entanto, isso só é possível pelo Espírito e pela Palavra, pois Deus se usa da
Palavra e do Espírito, de maneira indissociável, para revelar-Se.

Foi a partir da experiência da glória em si mesmo, que nasceu em Paulo o desejo de que essa manifestação de
Deus chegasse aos outros. Aqui entra a terceira realidade manifestada em Filipenses 3: quem foi alcançado por
Jesus – que se revela a nós manifestando Sua glória – e entrou na dinâmica de um amor cada vez mais profundo
e de um anseio por um conhecimento cada vez mais claro desse Jesus, é impelido por um fogo de amor a fazer
com que essa glória ultrapasse os limites estreitos de sua própria intimidade e alcance aqueles que ainda não foram
por ela alcançados. A verdadeira experiência da glória de Deus não leva ao intimismo, mas ao amor sacrificial pelo
bem das almas¹². Por isso Paulo faz questão de, através do ministério, “participar nos sofrimentos de Cristo, para
tornar-se semelhante a Ele na morte”. Em 1Cor 9,23, ele diz que “tudo isso faço por causa do Evangelho, para
dele me fazer participante”.

¹ Jesus, em resposta
0
ao pedido de Filipe de lhe mostrar o Pai, responde “Aquele que me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai?” (cf.
Jo 14,9)
¹¹ “Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o queira revelar” (Mt 11,27). “A Deus, ninguém
jamais O viu. O próprio Filho Único, que está no seio do Pai, é que O deu a conhecer” (Jo1,18).
¹² “Nesta Palavra definitiva da sua revelação [Jesus, a Palavra encarnada que se deu em sacrifício na cruz], Deus deu-Se a conhecer do modo mais pleno:
Ele disse à humanidade quem é. E esta auto-revelação definitiva de Deus é o motivo fundamental pelo qual a Igreja é, por sua natureza, missionária. Não
pode deixar de proclamar o Evangelho, ou seja, a plenitude da verdade que Deus nos deu a conhecer acerca de Si mesmo” (Encíclica Redemtoris Missio,
n. 5, São João Paulo II).

12
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Visão clara do chamado e ministério e foco no propósito


No ministério apostólico de Paulo, um ponto importantíssimo a se destacar é sua clareza e compreensão
de seu chamado. A todos os apóstolos foi dada a missão de evangelizar as nações, mas foi Paulo quem rompeu
conscientemente a barreira cultural e étnica do judaísmo e até enfrentou outros cristãos (chamados judaizantes)
que, por não compreenderem claramente a natureza e o chamado que o Evangelho encerra, queriam colocar
obstáculos à evangelização dos pagãos.

No entanto, Paulo só pôde ter essa tenacidade de enfrentar os obstáculos que se levantaram no seio da própria
Igreja porque, dócil ao Espírito e aferrado a viver para a glória de Deus a qualquer custo, Paulo tinha clareza de
qual era o seu chamado e de que ele provinha de Deus.

Jesus revela a Ananias: “Vai, porque este homem é para mim um instrumento de escol para levar meu nome diante das
nações pagãs, dos reis e dos israelitas” (At 9,15). O próprio Paulo testemunha isso perante o rei Agripa, durante o
processo movido pelos judeus de Jerusalém contra ele: o apóstolo diz que em Damasco, o Senhor falou que o
constituiu servo e decidiu enviá-lo aos israelitas e às nações pagãs, “para abrir-lhes os olhos e assim se converterem
das trevas à luz, e da autoridade de Satanás para Deus. De tal modo receberão, pela fé em mim, a remissão dos
pecados e a herança dos santificados” (At 26,18).

As introduções de suas cartas são ainda mais claras. Em Romanos, por exemplo, Paulo inicia se intitulando
“servo de Cristo Jesus, chamado para ser apóstolo, escolhido para anunciar o Evangelho de Deus” (Rm 1,1). Na
carta aos coríntios, diz ser “chamado a ser apóstolo de Cristo Jesus por vontade de Deus” (1 Cor 1,1) o que repete
na segunda carta. Na carta aos gálatas, afirma que esse ministério não se dá da parte dos homens, mas “por Jesus
Cristo e Deus Pai que o ressuscitou dentre os mortos”. Na epístola a Timóteo, diz ser apóstolo “por ordem de Deus”.

Mais que isso, Paulo compreendia a especificidade de seu ministério: ele era chamado a evangelizar os
pagãos. Em Gálatas, o apóstolo afirma que própria Igreja de Jerusalém viu que a ele fora confiado o evangelho aos
incircuncisos, ou seja, aos pagãos, como ministério prioritário, ao passo que a Pedro, a missão aos circuncisos¹³.
Isso, evidentemente, era mais uma divisão geográfica. (incluir Rm 15,18) No entanto, esta divisão não exclui o
fato de que o ministério de Paulo suscitou polêmicas justamente por seu apelo aos pagãos sem exigir que eles se
tornassem judeus. Na final da carta aos romanos, Paulo afirma que “não ousaria mencionar ação alguma que Cristo
não houvesse realizado por meu ministério, para levar os pagãos a aceitar o Evangelho, pela palavra e pela ação”
(Rm 15,18). Ele só pôde fazer isso porque tinha claro o chamado de Deus para ele.

A primeira premissa fundamental do ministério de Paulo, portanto, é viver para glória de Deus e para salvação
das almas, compreendendo isso como uma coisa só, inseparável, os dois lados de uma mesma moeda. A segunda
premissa é a clareza cristalina e o foco consciente de Paulo. Essas são as duas colunas que fizeram de sua
vocação algo tão frutuoso e impactante. Consumido pelo desejo de viver para a Glória de Deus e consciente
do que isso significava concretamente na sua vida, Paulo não foi um evangelista meramente intuitivo, que não
pensava seu ministério e ia simplesmente carregado pelas ondas das circunstâncias externas. Pelo contrário, o
apóstolo dos gentios foi um líder proativo, com uma visão de longo alcance e estratégias definidas, com tenacidade
e objetividade. São Paulo conseguiu romper uma barreira e abrir caminho inclusive para os outros apóstolos, que
viriam a pastorear Igrejas que ele fundou, liderou ou visitou, como São Pedro em Antioquia e Roma, e São João
em Éfeso.

Talvez essa seja uma grande singularidade de Paulo em relação aos outros apóstolos: todos viviam a partir da
primeira premissa (ser consumido pela glória de Deus e salvação das almas), mas a segunda premissa (clareza, visão,
estratégia e reflexão sobre o que quer alcançar com a missão) é muito mais marcante nele que em qualquer outro.
Sem essa característica de Paulo, evidentemente dom de Deus, mas que encontrou nele grande colaboração, o
cristianismo não seria o que foi. É por isso que muitos estudiosos chegam a afirmar que Paulo cunhou o cristianismo
primitivo. É um exagero, mas com certeza ele foi fundamental para dar a face que conhecemos à Igreja primitiva.

¹³ Ver Gl 2,7-9.

13
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Isso traz para nós uma pergunta fundamental: qual a especificidade do meu chamado? Para quem Deus me
constituiu Seu servo? Porque Deus me plantou nesta realidade, com estes dons, com estas pessoas, me chamando
a partir desta história que vivi? Para que serve tudo que experimentei e aprendi até hoje, até mesmo quando estava
fora de Deus?

Muitos servos e missões padecem por falta de clareza no tocante a seu ministério e chamado. E a razão disso
é que não vivem ainda o sentido fundamental da sua vida, que não é o chamado em si, mas ser consumido pela
glória. É sintomático que o Evangelho de São João coloque sempre como motivo primordial da ação de Jesus a
glorificação do Pai. A identidade da missão de Jesus não estava fundamentada nos homens e suas necessidades, de
maneira prioritária. Isso era importante, mas estava em segundo lugar. Jesus veio, primeiro, para glorificar o Pai,
demonstrar quem Ele é. A conseqüência disso é a salvação do homem, porque Deus é amor e misericórdia infinita.

Da mesma forma, quando vamos sendo consumidos pela glória de Deus, Deus purifica nosso coração para
que compreendamos seu chamado e tenhamos clareza dEle. Isso não significa que teremos clareza do chamado
no primeiro encontro com Ele. Muitas afirmações de Paulo nesse sentido são retrospectivas e indicam que, com o
passar do tempo, Ele foi percebendo para onde Deus o conduzia. Da mesma forma, conosco, se aprofundamos o
relacionamento com Deus e nos pomos a caminho, Deus vai purificando a nossa visão para que contemplemos o
projeto dEle para nossa vida. Entrar nesse caminho de compreender o propósito dEle para nós é fundamental e
devemos transpor isso para o ministério e missões das quais fazemos parte. Só quando você é imbuído dessa visão
você poderá contagiar os outros.

Com certeza Paulo foi capaz de contagiar outras pessoas porque tinha uma visão muito clara e um coração
consumido pela glória. Para termos uma missão semelhante precisamos ser dóceis às primeiras moções do Espírito,
àquelas intuições que Deus nos coloca e que são confirmadas pelos irmãos, em oração, ou pelos fatos cotidianos.
Deus nunca nos dará a visão completa de uma só vez. Ele sempre nos revelará um pouco mais a medida que
correspondermos às primeiras moções dando os primeiros passos. Tudo isso, porém, dentro de um coração que
queima por Ele. Deus nos concede o que o nosso coração deseja verdadeiramente, quando isso está alinhado com
Sua vontade. Muitas vezes algo é da vontade de Deus, mas nosso coração não deseja isso de maneira profunda
e verdadeira. Quando entramos na fornalha da contemplação da glória de Deus, Ele começa a purificar nosso
coração e alinhá-lO com o dEle. Isso gera em nós sentimentos, motivações e formas de ver a realidade cada vez
mais semelhantes à dEle, e aí que a visão de Deus começa a ser gestada em nosso ministério. Quando Ele começa
a gestar essa visão e nós damos os primeiros passos a partir das primeiras moções, Ele nos revela mais dessa visão.
Essa é a dinâmica do apóstolo como Paulo: a cada vez que você se lança, você atinge uma compreensão mais
profunda e uma visão mais aguçada.

Outro elemento importantíssimo é o foco a partir da visão que Deus proporciona ao nosso ministério e
chamado. A ausência de uma visão de Deus para o nosso ministério nos impede de focar na Sua vontade ou
propósito. Mas, às vezes, apesar de estarmos imbuídos de uma visão dada por Deus, nós não mantemos o foco.
Não alinhamos nossas ações de maneira a conectá-las completamente à visão que Deus nos propõe. Paulo sabia
que seu foco era fundar Igrejas que fossem centros irradiadores do Evangelho para alcançar os pagãos. Sabendo
disso, ele agia focado nessa visão. Tudo que ele executava em seu ministério a partir dessa visão e não saia dela.
É sintomático quando ele diz ame sua carta aos coríntios “Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o
Evangelho”¹4 .

A importância do foco é que, compreendendo qual o meu propósito, eu organizo tudo em função desse
propósito. Sabendo que Deus me inspira algo para o meu ministério ou missão, tudo que faço deve ser avaliado
na seguinte perspectiva: isso que faço me aproxima do propósito de Deus, ou me afasta dele? Contribui para o
propósito, fortalece-o, ou é irrelevante? A partir disso, é possível simplificar diversas missões e ministérios porque
muitas coisas que estamos fazendo não tem a ver com o propósito de Deus, não estão focadas nesse propósito.

¹ 1 Cor 1,17.4

14
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Muitas coisas que fazemos na missão ou ministério dispersam e tiram a energia daquilo que realmente nos leva ao
propósito.

Se Deus me dá uma visão para o ministério (por exemplo, fazer do meu ministério de música uma forte
expressão de adoração), tudo que eu penso, planejo e faço deve estar voltado para esse foco. Eu preciso avaliar
duas coisas: o que eu estou fazendo é relevante para a visão e o propósito de Deus? Além disso, como eu estou
fazendo é relevante e contribui para consolidar e concretizar a visão e o propósito de Deus?

Porque Paulo tinha visão estratégica, ele organizou seu ministério para atingir os fins a que se
propunha
À clareza de visão vocacional e ministerial de Paulo, estava unida uma compreensão que ele tinha da Igreja
como corpo de Cristo e de sua missão. O sentido teológico profundo e o sentido prático disso, para São Paulo,
eram indissociáveis. Da compreensão teológica da Igreja como corpo de Cristo, com toda a carga semântica da
palavra corpo, Paulo estruturou sua missão. É possível, inclusive, que tenha sido no decorrer do exercício da
missão Paulo fosse intuindo a Igreja como um corpo: a experiência prática da missão, com cada um exercendo seu
papel de forma a potencializar o todo, ajudou Paulo a perceber como Deus constituía a Igreja para que nenhum
membro se tornasse auto-suficiente, mas que todos fossem interdependentes entre si e dependentes da Cabeça
que é Cristo.

Se Paulo tinha uma estratégia, ele montava sua equipe ministerial de acordo com essa estratégia. Essa, inclusive,
foi uma das razões por que Paulo rompeu com Barnabé, seu principal companheiro de missão, uma vez que não
admitia a inclusão de Marcos na sua equipe ministerial. Paulo não tinha receio de criar sua equipe a partir de dons e
características pessoais, aliadas obviamente a uma intensa paixão por Deus, dos membros da Igreja, que estivessem
vinculadas às necessidades da estratégia de evangelização que ele traçara.

Essa é uma dimensão fundamental para a evangelização: Deus constitui a Igreja, através de seus membros,
com variados dons e carismas, e todos eles têm uma função na sua edificação e no alargamento das fronteiras do
Reino de Deus através do alcance dos perdidos. A liderança eficaz no Reino é aquela que, sob a moção do Espírito,
identifica esses potenciais (que são como os talentos confiados na parábola de Jesus) e os leva ao desenvolvimento
através do impulso, do investimento e da designação.

O impulso implica apoiar ativamente, encorajar a pessoa no exercício do(s) seu(s) dom(ns). Paulo impulsionava
pessoas que inclusive poderiam ser incompreendidas por outros membros da Igreja, como Tito, que era pagão
e despertou a crítica e desconfiança dos cristãos judaizantes15. Paulo simplesmente não se importava com essas
críticas, porque ele era capaz de ver o potencial escondido em cada pessoa16 e vislumbrar, a partir desse potencial,
o papel que ela poderia desempenhar no avanço do Reino17. Deus nunca nos dá dons por acaso. Os Seus dons
inatos e os adquiridos ao longo de nossa história (que também são fruto de Sua providência) estão profundamente
conectados com aquilo que Deus sonhou que nós faríamos em Seu Reino. Nós assassinamos vocações e retardamos
o avanço do Reino toda vez que limitamos, sufocamos, colocamos limites desnecessários ao florescimento desses
dons, ou quando, por omissão, não promovemos, impulsionamos, encorajamos as pessoas que os portam.

O investimento significa gastar tempo com a(s) pessoa(s) para que ela cresça(m) em Deus e no ministério que
Deus lhe(s) confiou. Paulo investiu de diversas maneiras: discipulando, pregando e exortando; tomando gente
como companheiro de ministério para ensiná-la na prática a evangelizar; sendo exemplo, de maneira concreta e
real, de como exercer o ministério, na ação e na convivência em comunidade. Investir em pessoas é um elemento
essencial do Reino, porque é por meio de pessoas que o Reino avança. É um valor fundamental que deve ser
cultivado. Muitas missões e grupos religiosos focam em programas, eventos, processos. No entanto, o foco deve
ser sempre o homem. Esse é o sentido da passagem em que Jesus ensina que o sábado foi criado para o homem,

15
Gl 2,1-3.
16
Como não lembrar da exortação de Paulo a Timóteo: “Que ninguém despreze a tua jovem idade. Quanto a ti, sê para os fiéis modelo na palavra,
na conduta, na caridade, na fé, na pureza” (1 Tm4,12).
17
Ainda a Timóteo, Paulo diz: “Exorto-te a reavivar o dom espiritual (carisma) que Deus depositou em ti através de minhas mãos” (2 Tm 1,6).

15
Quattuor - Formação para Lideranças JS

e não o homem para o sábado18 . Uma liderança eficaz como Paulo será aquela que dedicar grande parte do seu
tempo a investir na vida de outras pessoas. Muitos líderes ministeriais parecem muito mais querer brilhar como
estrela solo do que jogar como um time entrosado para avançar a causa do Evangelho. Isso por vezes esconde
um pecado de orgulho e vaidade, quase imperceptível, mas que pode guiar ações e decisões ministeriais com um
impacto doloroso mais à frente.

Designação é desenhar a equipe em função da estratégia de evangelização inspirada por Deus. Todos têm
um lugar no corpo de Cristo19, e um membro paralisado corre o risco de morrer e necrosar. Embora a pessoa
individualmente deva olhar para si, para sua história e para Deus e buscar servir a Deus através da Igreja, a liderança
tem um papel fundamental nesse processo. O líder semelhante a Paulo, por ter uma visão ampla, pode ajudar
aquele que começa a vida cristã a se encaixar no processo de evangelização e dar mais sentido à sua caminhada.

Você impulsiona pessoas que estão à sua volta ou que lhe foram confiadas? Gasta tempo investindo no
crescimento delas, tanto espiritual como ministerial? Tem designado pessoas, encontrando e criando espaços, para
que elas exercitem os talentos que lhes fora confiado e os multipliquem, ou é concentrador? Sua visão é estreita,
fechada nos limites que Deus te confiou, ou sempre está atento ao que Deus fala em oração, nos fatos, através das
pessoas que chegam em sua missão e ministério, percebendo nelas agentes de avanço do Reino?

Faça nascer “grávidos”


Desde o começo da plantação das Igrejas nos locais em que evangelizava, Paulo já implantava também o
DNA do evangelho que pregava e a identidade que lhe correspondia. A estratégia de Paulo a partir de sua missão
ao mar Egeu era estabelecer centros missionários nas principais regiões metropolitanas (Filipos, Tessalônica,
Éfeso, Corinto) para que as Igrejas estabelecidas nesses locais fossem um centro irradiador do Evangelho. Áreas
populosas, que eram também entrepostos comerciais, o que lhes garantia afluxo de gente de diversas regionais,
essas cidades pareceram a Paulo o local ideal para acelerar a expansão do Reino. Estabelecendo bem esses centros
de irradiação missionária, Paulo contava também com uma base multiplicadora, fazendo de cada uma dessas
Igrejas núcleos missionários capazes de gerar novas Igrejas.

Para isso, entretanto, Paulo precisava manter a integridade do evangelho que pregava nessas Igrejas. Não é por
acaso que quase todas as suas cartas começam com a defesa do evangelho20. Por que isso era tão importante? Dois
são os motivos: primeiro, porque a salvação depende da proclamação do evangelho sem adulterações, de modo a
levar o ouvinte a depositar sua confiança em Jesus, somente, e modelar sua vida de acordo com Ele; em segundo
lugar, porque era o evangelho que conferia a identidade das Igreja plantadas por Paulo e só o firme enraizamento
nessa identidade poderia ser o impulso para que as Igrejas continuassem o trabalho missionário e as novas Igrejas
guardassem a identidade das Igrejas “mãe”, que por sua vez receberam a identidade da pregação do apóstolo. Na
sua estratégia de multiplicação, após bem estabelecida uma igreja nesse sentido, Paulo se sentia livre para partir a
outro campo missionário²¹.

Nós também precisamos parir missões e ministérios já grávidos, contendo a identidade da missão que nos
foi confiada e gerando em si o anseio de reproduzir essa identidade. Mas só é possível esculpir em alguém uma
identidade que eu já possuo. A liberdade no evangelho e a confiança plena no sacrifício de Cristo que gera uma
obediência cada vez maior foi primeiro experimentada e radicalmente vivida por Paulo, que perseguia os primeiros
cristãos exatamente por isso. Paulo fez a experiência das amarras à lei mosaica, mas fez também a experiência da

Mc 2,27. 18
“Os ministérios
19
são diversos, mas um só é o Senhor. Há também diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um é dada
uma manifestação do Espírito para proveito comum” (1 Cor 12,5-7).
“É verdade20
que alguns proclamam a Cristo por inveja e porfia, e outros por boa vontade; estes por amor proclamam a Cristo, sabendo que fui posto para
a defesa do Evangelho” (Fl 1,15-16). “Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé” (2 Tm 4,7). Nessa última passagem, Paulo está no contexto
da defesa da sã doutrina (cf. 2 Tm 4,3) e guardar a fé é mais que uma questão de fé pessoal, mas o depósito da fé apostólica pelo qual luta e gastou sua vida.
“E me empenhei por anunciar o Evangelho onde ainda não havia sido anunciado o nome de Cristo, pois não queria edificar sobre fundamento lançado
por outro. Mas
21
agora já não tenho que me ocupar nestas terras; e como há muitos anos tenho saudades de vós, espero ver-vos de passagem quando for à
Espanha.” (Rm 15,20.23). Aqui, o apóstolo demonstra sua intenção de ir à Espanha, “campo virgem”, após ter estabelecido uma igreja como polo irradiador
do Evangelho.

16
Quattuor - Formação para Lideranças JS

remissão em Cristo e da plenitude da nova aliança. Essa experiência foi tão intensa que ele era capaz de forjar nas
comunidades que levantou essa identidade e batalhar por ela.

A partir do momento que, consumidos pela glória de Deus, temos clareza daquilo a que fomos chamados, é
nosso dever gerar filhos, ministérios e missões grávidos dessa mesma identidade. Só uma vivência profunda do
DNA sarado é capaz de capacitar-nos a gerar nos outros também esse DNA. Não porque o faremos por força
própria, mas porque primeiro deixamos que a graça inscreva em nós esse DNA. E quanto mais Deus marca com
fogo esse DNA em nossa alma, mais eu posso transmiti-lo no poder dessa mesma graça.

Forte intencionalidade missionária, paixão pelos caídos (de dentro ou de fora da missão), paixão pelo
Evangelho, por Deus, vivência dos tesouros que são nossa via de santidade (radicalidade do Evangelho, vida
de oração, viver reconciliado, tau, servir, sadia convivência, acolhida), prática das 5 pedrinhas através de uma
espiritualidade adoradora... Essas marcas do DNA JS precisam ser esculpidas em nós para que nós possamos
esculpi-las também nos outros. Só assim, como Paulo, profundamente marcados pela identidade que Deus nos
conferiu, profundamente apaixonados por ela, geraremos homens e mulheres grávidos dessa mesma identidade.

17
Quattuor - Formação para Lideranças JS

5 fases da missão JS – Do início à maturidade

A ideia desse material é dar uma visão do processo de desenvolvimento de uma missão JS. Há um propósito
de Deus claro para nós, manifestado através da inspiração da cartilha de servos, nosso principal referencial, do
coração do padre Edimilson, nosso fundador e voz de Deus para nós, e até nas palavras proféticas que Ele proferiu
para nós ao longo desses 11 anos.

O JS nasceu para expressar, através de uma geração, a alegria e liberdade de ser de Deus e o que nos move é a
loucura por salvar almas jovens. Loucura não quer dizer desorganização, mas um amor que faz sair dos estreitos
limites da razão convencional. A loucura, portanto, nos deve impulsionar à excelência, à estratégia e à organização
necessárias para potencializar nossa missão e dar-lhe eficácia. A busca da excelência, da estratégia e da organização,
quando movidas por um fogo de amor a Deus e às almas, torna-se uma chave importante demais no processo de
evangelização para ser negligenciada.

Esse documento fornece a você uma compreensão de fases pelas quais uma missão passa (ou deveria passar)
até atingir o papel que lhe cabe: ser multiplicadora de uma geração apaixonada por Jesus e pelas almas. Toda missão
precisa almejar ser uma missão multiplicadora, que desempenha de maneira consciente e intencional o seu papel
no crescimento do Reino através do suporte à multiplicação consistente e saudável.

As fases são, simplesmente, maneiras de identificar desafios mais ou menos comuns durante o percurso de
amadurecimento do pleno potencial de uma missão. A realidade é sempre mais complexa que nossas teorias, mas
a teoria ajuda-nos a olhar a realidade com mais clareza e enfrenta-la com maior segurança e coragem.

Por isso, não importa em que ponto esteja sua missão. Busque a fidelidade ao estilo de vida JS e retome o
processo de reconstrução de sua missão encarando de frente os desafios que a realidade lhe impõe hoje. Tudo
pode ser mudado através da oração. E a primeira coisa que precisa mudar é a sua postura de inércia e vitimismo.
Vamos para cima!

1ª Fase – Discernimento e início de missão


A primeira fase de uma missão JS começa antes de seu nascimento e se prolonga um pouco além dele. É a
gestação da missão e, após o nascimento, seus primeiros meses (até 1 ano). Na gestação é que se formam todas as
feições e todo organismo humano com um mínimo de desenvolvimento necessário para que, ao nascer, a pessoa
tenha condições de continuar crescendo de maneira ordenada e saudável.

Assim é com uma missão JS: o período de discernimento que precede a inauguração da missão é um período
de gestar o estilo de vida. Quando uma criança nasce, seus órgãos são frágeis, ela te pouca habilidade motora,
mas tudo está ali para que se inicie o desenvolvimento. Da mesma forma, embora a inauguração da missão não
signifique que temos uma missão madura, todos os princípios estilo de vida já devem estar lá, bem conhecidos e
com algum grau de exercício.

Tanto a gestação/discernimento como o período após o nascimento inauguração precisam se caracterizar por
uma busca de conhecimento e exercício do estilo de vida JS. As principais dificuldades dessa fase se dão porque o
crescimento não ocorre, via de regra, nela. É uma fase que exige perseverança e paciência em Deus, porque muitas
vezes o núcleo inicial, ao invés de crescer, diminui ou fica estagnado. Nesse tempo de prova, a missão precisa
buscar esculpir em si o estilo de vida JS apesar das adversidades. A multiplicação não é visível nesse tempo, porque
a primeira luta é para fincar raízes e sobreviver.

18
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Pontos fundamentais para passar à próxima fase:


1. Busca intensa de conhecer, mergulhar e praticar o estilo de vida na vida diária e nas atividades da missão
– formação e práticas constantes;
2. Manter de maneira constante e fiel as atividades da missão nascente, mesmo em meio às adversidades;
3. Aprofundar os laços de amizade, serviço e fraternidade entre os membros da missão, cuidando uns dos
outros;
4. Desenvolver a missionariedade, a acolhida, o enraizamento na oração e a radicalidade na simplicidade de
início da missão.
5. Desde já, ser intencional em desenvolver discípulos de Jesus: investir no crescimento dos membros da
missão para que cresçam em sabedoria (conhecimento) e graça (intimidade com Jesus). São bons discípulos
que serão os bons líderes do futuro.

Dificuldades e perigos comumente enfrentados nessa fase:


1. Luta pela sobrevivência: como a missão é um brotinho, Satanás vai fazer de tudo para acabar com ela antes
que enraíze e dê frutos;
2. Desânimo: como, via de regra, os frutos demoram a aparecer, a tentação do desânimo e da incapacidade
bate sempre à porta. Não dê ouvidos, esse é um tempo de prova. O bambu primeiro cresce pra baixo (raízes)
para depois crescer para cima;
3. Falta de reconhecimento e críticas. Ás vezes Satanás usará pessoas de fora da missão para bombardeá-la
com palavras e sentimentos negativos. Não dê ouvidos. Não se envolva em intrigas, não seja causa de divisão
no seio da paróquia em que você está inserido. Como Maria, silencie e ore.

2ª Fase – Início da missão e estabilização


Aos poucos, a missão sai da fase inicial para uma fase de “estabilização”, na qual os membros do núcleo inicial
e eventualmente alguns outros que foram se somando já têm uma relativa identificação e algum tempo de vivência
e prática do estilo de vida e missão JS.

Ainda há diversas dificuldades, como o crescimento a ritmo muito lento, mas pode-se observar crescimento
em algumas áreas: uma constância mais enraizada no desenvolvimento dos encontros da missão, crescimento em
algumas áreas do estilo vida JS, uma referência inicial, ainda incipiente, no meio da comunidade/paróquia em que
está estabelecida. Em outras, há luta constante.

O desafio nessa fase é não se fechar numa mentalidade pequena, limitada e conformista, como se o ter fincado
um pouco mais as raízes fosse suficiente e assim a missão se tornasse uma planta nanica eternamente.

Pontos fundamentais para passar à próxima fase:


1. Identificar os pontos positivos e fortalecê-los e os pontos problemáticos e pensar como trabalhá-los:
formação, discipulado, partilhas, vivência da verdade e da transparência com caridade, etc.;
2. Não fechar-se em si, mas começar a pensar estratégias de crescimento da missão: Kairós, Maranatha,
discipulado pós-maranatha. Nessa fase, em que o estilo de vida já é vivido com um pouco mais de clareza,
a missão já deve começar a pensar seu primeiro Maranatha e como fará o discipulado e pastoreio das almas
que virão através deste retiro;
3. Ser criativo no Espírito;
4. Não se deixar absorver, a nível individual (servos) e coletivo (ministérios e missão), pelo ativismo, mas
fundamentar e intensificar a vida de oração e os momentos de oração e formação comunitárias;
5. Começar a capacitar e desenvolver a concepção de liderança dissimuladora entre os servos e, sobretudo,
entre os que começam a exercer função de liderança na missão.

Dificuldades e perigos comumente enfrentados nessa fase:


1. Fechamento da missão em si mesma, como um grupo paroquial sem intencionalidade missionária;
2. Caso não trabalhe os pontos problemáticos, a missão corre o risco de começar a gestar certos vícios em
relação ao estilo de vida que desfigurem sua identidade;
19
Quattuor - Formação para Lideranças JS

3. Ativismo – perder-se nas atividades e esquecer a prioridade: o relacionamento com Jesus;


4. Tornar a missão algo rotineiro, sem criatividade e sem visão estratégica. A ausência de criatividade engessa
a missão e a falta de visão estratégica gera desmotivação a médio prazo.

3ª Fase – Crescimento por adição


Se a missão passar da fase inicial (gestação e primeiros meses pós nascimento) e da segunda fase ( consolidação
inicial do estilo de vida/estabilização) desenvolvendo uma estratégia intencional de crescimento (encontros de
missão, Kairós, Maranathas e o que mais o Espírito suscitar), a manutenção dessa estratégia constante a fará entrar
na terceira fase: o crescimento por adição.

Crescimento por adição significa que a missão já consegue atrair pessoas para irem se somando à missão
através das atividades que ela promove (células, encontros, grupos, retiros, etc.). Essa dinâmica é inaugurada
quando se rompe o isolamento relativo das duas primeiras fases. O(s) primeiro(s) Maranatha(s) geralmente são um
marco para isso. Por isso as duas fases anteriores são importantíssimas: o fundamento que se lança ali indicará a
solidez da missão na terceira fase. É possível, embora mais difícil, romper o isolamento e ingressar na terceira fase
sem lançar um fundamento sólido, mas o crescimento será muito mais problemático.

Pontos fundamentais para passar à próxima fase:


1. A acolhida precisa desembocar necessariamente em discipulado. Se não houver estratégia consciente e
intencional de capacitar para a vida com Cristo e cuidar das almas que vêm ao nosso encontro, aos poucos a
missão vai ficar disforme e gerar problemas que poderiam ser evitados;
2. Desenvolver a mentalidade discipuladora em todos os servos, para que assumam o seu papel em relação
às almas a serem alcançadas;
3. Investir numa formação mais sólida para servos mais antigos;
4. Discipular os novos e envolve-los na dinâmica de serviço da missão (integrá-los em ministérios e demais
iniciativas de serviço e evangelização);
5. Desenvolver a formação das lideranças já constituídas e formar novas lideranças para missão;
6. Manter a estratégia de crescimento e evangelização de maneira consistente;
7. Zelar pelo comprometimento para manter uma cultura sadia – a escuta dos servos precisa ser permanente
e também o discernimento de pertença à missão.

Dificuldades e perigos comumente enfrentados nessa fase:


1. O crescimento sem pastoreio e discipulado pode acabar desfigurando a missão. Evite isso formando
pessoas para o pastoreio e discipulado bem antes dos Maranathas;
2. O crescimento sem a formação das lideranças já constituídas e de novas lideranças. É necessário desenvolver
de maneira intencional essa formação, porque quando o povo aumenta, mais operários são necessários para
colher os frutos da messe;
3. Ativismo - perder-se nas atividades e esquecer a prioridade: o relacionamento com Jesus;
4. Cultura viciada – se a liderança da missão (ministério, formação, discipuladores e coordenadores de missão)
não promover de maneira constante e intencional a formação do estilo de vida (não só teórica, mas prática e
na vivência e partilha cotidianas), a tendência é que se gere uma cultura viciada na missão.

4ª Fase – Crescimento por reprodução


Essa é a fase de transição entre a terceira (crescimento por adição) e a quinta (crescimento por multiplicação
– nossa meta). Aqui há uma tensão clara entre enviar e reter, multiplicar ou crescer por adição. Como a missão já
passou por um processo constante na terceira fase e “não deixou a peteca cair”, ela acaba se tornando referência.
Muitos de seus membros, pela experiência acumulado e pelo aprendizado adquirido no servir, desenvolveram
talentos dados por Deus e começam a ajudar de alguma maneira outras missões. A missão começa a ser chamada
para dar suporte a outras realidades.

Não há, nessa fase, intencionalidade multiplicadora. A missão começa a se envolver no processo de multiplicação
mais arrastada pela dinâmica dos fatos (com a Providência atuando, claro) do que por uma deliberação intencional
20
Quattuor - Formação para Lideranças JS

ou estratégia consciente.

Pontos fundamentais para passar à próxima fase:


1. Continuar o processo de formação de lideranças, tanto no aspecto de capacitação para o exercício da
liderança, quanto no aspecto da mentalidade discipuladora;
2. Continuar o processo de formação de lideranças para desempenhar o discipulado na sua missão;
3. Começar a formar lideranças para assumirem as posições chave da missão, sem pressa, mas sem inércia;
4. Não esquecer da criatividade no Espírito e da estratégia de crescimento e evangelização;
5. Com o crescimento, a liderança precisa cada vez mais se apoiar sobre pessoas chave para alcançar todos
os servos. Quem são essas pessoas chave? Outras lideranças: coordenadores de ministério, discipuladores,
pessoas que são referência sem terem cargo de liderança. Investir na formação dessa rede que alcance toda a
missão é fundamental.

Dificuldades e perigos comumente enfrentados nessa fase:


1. Diminuir ou abandonar a intencionalidade da estratégia evangelizadora, do discipulado e pastoreio e da
mentalidade discipuladora da liderança;
2. Cansaço e desânimo de algumas lideranças – pode ser o tempo de trocar algumas lideranças na missão cujo
tempo já passou ou que não têm mais disposição nem disponibilidade para a função que lhes fora confiada;
3. Ativismo – a missão sempre será tentada a cair o ativismo, sobretudo quando sua eficácia evangelizadora
aumenta;
4. Haverá sempre um combate espiritual pelo esfriamento, mas nessa fase esse combate aumenta. Se a missão
não estiver consciente disso pode correr o risco de uma “pneumonia sem febre”: o crescimento acontece
porque já está no ritmo, mas a situação real é que a missão está ficando enferma e não se percebe pelos frutos a
parentes. Manter a chama acesa da missão é fundamental, e a primeira responsabilidade é das lideranças.

5ª Fase – Crescimento por multiplicação


Essa é fase de plena maturidade da missão. Nela, a missão pensa não só o seu crescimento (crescimento por
adição), mas integra na sua estratégia o suporte a outras missões existentes e ao discernimento/nascimento de
novas missões. A partir do crescimento que Deus lhe deu, medindo bem os recursos que tem, a estratégia da
missão visa conscientemente formar novas missões, por compreender que essa estratégia (bíblica, adotada por
Paulo) é capaz de fazer-lhe alcançar, indiretamente, realidades que ela nunca alcançaria no crescimento típico da
terceira fase, por adição.

É comum, ainda, que o crescimento por adição tenha um teto, um limite, a partir do qual a missão acaba mais
se renovando (saem alguns servos antigos e outros novos) do que crescendo propriamente. Uma missão que
chegou a esse teto sem passar para outras fases tenderá a definhar no médio prazo. Na maioria das vezes, porém,
nossas missões não chegaram ao teto, mas simplesmente estão colhendo frutos do mal plantio nas duas fases
anteriores e da não correção de rumos na terceira fase, em que se encontra.

Pontos fundamentais para atingir a maturidade da 5ª fase:


1. Integrar no seu planejamento o processo de abertura de novas missões. P. ex.: servos que darão suporte
a novas missões, vagas em Maranatha para pessoas de outras localidades ou já interessadas em abrir missão,
realização de eventos fora do local em que estão inseridas para propagar o estilo de vida JS;
2. Além disso, tudo que já realiza na 4ª fase: Continuar o processo de formação de lideranças, tanto no
aspecto de capacitação para o exercício da liderança, quanto no aspecto da mentalidade discipuladora;
3. Continuar o processo de formação de lideranças para desempenhar o discipulado na sua missão;
4. Começar a formar lideranças para assumirem as posições chave da missão, sem pressa, mas sem inércia;
5. Não esquecer da criatividade no Espírito e da estratégia de crescimento e evangelização;
6. Com o crescimento, a liderança precisa cada vez mais se apoiar sobre pessoas chave para alcançar todos
os servos. Quem são essas pessoas chave? Outras lideranças: coordenadores de ministério, discipuladores,
pessoas que são referência sem terem cargo de liderança. Investir na formação dessa rede que alcance toda a
missão é fundamental.
21
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Dificuldades e perigos comumente enfrentados nessa fase:


1. Não equilibrar a realidade da missão com as exigências da multiplicação. Esse sempre vai ser um equilíbrio
tenso, mas precisamos buscá-lo. Haverá pontos em que será preciso perder para ganhar e pontos em que a
prudência em não perder será importante, para não matar “a galinha dos ovos de ouro” no intuito de colher
“mais ovos” (novas missões);
2. Além disso, tudo que já aparece na 4ª fase: Diminuir ou abandonar a intencionalidade da estratégia
evangelizadora, do discipulado e pastoreio e da mentalidade discipuladora da liderança;
3. Cansaço e desânimo de algumas lideranças – pode ser o tempo de trocar algumas lideranças na missão cujo
tempo já passou ou que não têm mais disposição nem disponibilidade para a função que lhes fora confiada;
4. Ativismo – a missão sempre será tentada a cair o ativismo, sobretudo quando sua eficácia evangelizadora
aumenta;
5. Haverá sempre um combate espiritual pelo esfriamento, mas nessa fase esse combate aumenta. Se a missão
não estiver consciente disso pode correr o risco de uma “pneumonia sem febre”: o crescimento acontece
porque já está no ritmo, mas a situação real é que a missão está ficando enferma e não se percebe pelos frutos
aparentes. Manter a chama acesa da missão é fundamental, e a primeira responsabilidade é das lideranças.

Conclusão
Esse é um esquema que nos lança luzes. É óbvio que a realidade é mais rica e complexa do que aquilo que se
descreve acima. É possível estar numa fase lidando ainda com debilidades e fraquezas da fase anterior. É possível
estar numa fase com elementos da fase posterior. Não existe um marco que transforme a missão de uma fase para
outra automaticamente, mas tudo se dá num processo gradual. Assim como é possível avançar de fase, é possível
também retroceder. Que esse material possa te ajudar a discernir, em oração e à luz do Espírito, onde sua missão
ou a missão que você acompanha se encontra e levá-la a um outro patamar, mais próximo do sonho de Deus.

22
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Lideranças Saradas e a Mentalidade discipuladora


Deus sempre se movimenta para suprir a necessidade do povo que criou. Essa movimentação parte de um
Deus fiel e justo que, em sua fidelidade e justiça, quer restabelecer o que sonhou para seu povo. E qual o Seu sonho
para o Seu povo? O retorno ao projeto inicial de Deus, que é a relação eterna de intimidade com o próprio Deus.
Toda a história da salvação se baseia na busca de Deus por realizar essa JUSTIÇA e FIDELIDADE: “Se, porém,
o renegarmos, ele nos renegará. Se formos infiéis... ele continua fiel, e não pode desdizer-se” (2 Tm 2,13b). Porque
Deus é JUSTO E FIEL, aconteceram e acontecerão, ainda, inúmeras tentativas da parte de Deus, dando-nos a
oportunidade de adentrar nesta relação eterna de intimidade.

O Jovens Sarados nasceu deste desejo de JUSTIÇA E FIDELIDADE de Deus, da necessidade de um povo
que em 2008 que precisava ser alcançado de uma forma nova, como manifestação do amor que Cristo manifesta
através de Seu corpo, que é a Igreja (“eu vi, eu vi a aflição do meu povo que está no Egito, e ouvi seus clamores por
causa de seus opressores. Sim, eu conheço seus sofrimentos” Ex 3,7). Da mesma forma que esse sonho da justiça
e fidelidade de Deus concretizou-se no Jovens Sarados, nascido em 2008, o número de pessoas que precisava
e precisa deste sonho para ser alcançadas não se completou. Diante disso, surge a necessidade de direcionar
o povo que nos foi confiado por Deus de forma mais organizada para que a proposta, em toda fidelidade e
justiça necessárias para corresponder à fidelidade e justiça de Deus, chegue com eficácia e graça a todos que dela
precisam. Por isso Deus chama e levanta, dentro desse rebanho sarado, “líderes” para sustentar e conduzir o povo
pelo caminho específico traçado por Ele, chegando assim ao cumprimento da sua santa vontade.

O chamado à liderança é uma vocação. Toda vocação, para ser bem vivida e plenamente correspondida,
fundamenta-se em uma só coisa: o AMOR. Do amor à vivência da vocação (chamado), derivam todas as respostas
próprias da vocação: a entrega, o sacrifício, a disposição, a obediência, a benevolência, entre tantas outras.

Tendo o Amor como combustível, é importante saber as outras características envolvidas num chamado. Todo
chamado a liderança traz em si duas vontades, dois presentes e duas questões. Vamos começar com a motivação
de um chamado de Deus a liderança: as duas vontades.

1º Vontade – A salvação de um povo - Deus constantemente se movimenta para buscar um povo que se
encontra perdido (cf. Lc 15). Por isso, sempre intenciona conduzir esse povo de um ponto A a um ponto B, do
local e situação em que hoje está, para uma nova realidade, o lugar onde Deus habita e se revela. Neste lugar é
devolvido ao povo aquilo que é o sonho de Deus para ele: habitar o céu, restabelecendo com Ele uma relação filial
e íntima.

2º Vontade – A própria salvação – quando Deus chama alguém ao exercício da liderança, Ele quer, através
deste chamado, desenvolver suas capacidades, retirar os excessos e revelar o caráter d’Ele escondido em quem
recebeu o chamado. Esse é o maior objetivo da parte de Deus: fazer com que você reconheça que é imagem
e semelhança do próprio Deus. Esse objetivo, mais que qualquer outro, muitas vezes fica escondido dentro da
aparência de “grandeza” que pode ter o exercício da liderança de um povo confiado por Deus. É preciso ter
consciência que Deus quer nos salvar e o ministério é um dos meios escolhidos por Ele para realizar isso em nós,
e não um prêmio derivado na nossa (falsa) excelência. “O que há de superior em ti? Que é que possuis que não
tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias como se não o tivesses recebido?” (1 Cor 4,7). Deus poderia
ter se utilizado de qualquer pessoa em toda a história da humanidade, mas Ele particularmente escolheu Noé,
Abraão, Moisés, Elias, Eliseu, Paulo, Timóteo e você(!), para não só conduzir um povo a salvação, mas também
revelar a você quem realmente você é.

Para realizar suas duas vontades, Deus nos dá dois presentes:


1º Presente: A graça de estado, que é uma graça especial conferida aos que Deus chama a qualquer ministério

23
Quattuor - Formação para Lideranças JS

para edificação da Igreja. Deus não chama alguém sem conferir-lhe antes a graça necessária para que cumpra o seu
chamado, “pois é Deus quem, conforme a sua vontade, realiza em vós o querer e o fazer” (Fl 2,13). Quando o líder
se torna dócil e coopera plena e ativamente com a graça de Deus que lhe é concedida, ela é capaz de conduzir o
povo no caminho de Deus. É como se o líder fosse o representante do próprio Deus: à medida que vivencia esse
chamado de maneira fiel, configura-se cada vez mais ao próprio Cristo.

2º Presente: A autoridade (cajado). É assim que Ele identifica as lideranças de um povo. A autoridade
conferida por Deus é um instrumento é capaz de conduzir o povo, quando reflete o caráter dEle. Na história de
salvação da humanidade, aquele que segura o cajado tem a responsabilidade de conduzir o povo. Neste ponto,
podemos ter um grande problema: a omissão de muitos líderes diante do povo de Deus, não assumindo o seu
cajado, permitindo que outras mãos o ocupem, ou seja, sem exercer a autoridade que lhe fora confiada. Em
determinado momento, outros que não possuem a “graça de estado” assumem o cajado e levam o povo de acordo
com o seu bel-prazer.

Quando e como Deus faz o chamado a um líder? A carta de São Paulo aos romanos traz uma explicação muito
clara a respeito dos caminhos que Deus utiliza para fazer esse chamado a liderança:

“Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram
instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem atraem
sobre si a condenação.” (Rm 13,1-2)

Você viu? Deus não está condicionado a fazer as coisas de determinada maneira. Ele colhe onde não planta
(cf. Mt 25,26), faz brotar água de pedra (cf. Nm 20,8) e o critério para ele conceber uma liderança é unicamente
a sua vontade. Muitas vezes Ele se utiliza das lideranças já constituídas para chamar outros líderes. Entretanto,
independente de como foi feito o seu chamado, somos convidados a assumir a liderança (cajado) que hoje Deus
nos confia, seja ela a liderança geral, regional, de Missão, de Ministério, etc. Creia que a palavra de Deus, o caminho
específico escolhido por Ele, e as pessoas a quem Ele confiou a sua formação serão capazes de te instruir em
relação a como Deus quer que seus líderes se portem e conduzam o povo, que não pertence aos pastores, mas ao
Criador do rebanho (I Pd 5, 2-4).

Antes de adentrar as duas questões, uma liderança sarada precisa reconhecer as duas vontades e assumir
para si o desenvolvimento destes presentes. É ao aprofundar na respostas destas questões que compreendemos
no detalhe “o que” e “como” Deus nos quer. Também é no “o que” e no “como” que nos diferenciamos dos
outros movimentos, comunidades, vocações e lideranças, pois as duas vontades e os dois presentes envolvidos no
chamado não se alteram.

Antes de adentrar as duas questões, uma liderança sarada precisa assumir para si o desenvolvimento destes
presentes. É ao aprofundar estas questões que compreendemos no detalhe “o que” e “como” Deus nos quer.
Também é no “o que” e no “como” que nos diferenciamos dos outros movimentos, comunidades, vocações e
lideranças, pois as duas vontades e os dois presentes envolvidos no chamado não se alteram.

Vamos agora às duas questões:


1º Questão: “O quê?”. Essa questão nos revela a nossa a Missão, o objetivo do chamado, onde Deus quer levar
o seu povo. Nós, como Jovens Sarados, recebemos da parte de Deus uma missão muito clara: salvar almas jovens.
A nossa cartilha nos diz: “nós existiremos enquanto permanecer em nós essa “loucura” por salvar Almas jovens. Se um dia esse
objetivo (o “o quê”) for perdido, certamente não existiremos mais”

Então, para salvar as almas jovens, o que será preciso ser/ter/alcançar a fim de cumprir essa missão que Deus
me confiou? O que em mim pode colaborar para alcançar esse objetivo? Será a minha altura, a minha cor de pele, a
minha idade, a minha etnia, o meu salário, minha faculdade, minhas posses? É absolutamente certo que nada disso
é essencial para realizarmos com graça e eficácia nossa missão.

24
Quattuor - Formação para Lideranças JS

2º Questão: “Como?”. Essa questão nos revela caminho por onde Deus quer que se realize a nossa missão.
Qual é esse caminho? “Sendo instrumento para que aconteça o Batismo no Espírito Santo e Formar os jovens para que
assumam como Cristãos um novo modo de viver o dia a dia”. Para viver o “como”, Deus nos orienta através de um
caminho específico escolhido por Ele, que são os nossos tesouros, valores e estilo de vida, que chegaram até você
através de cartilhas, livros, textos, pregações das lideranças já constituídas, e do dia a dia da missão qual você está
envolvido, essas orientações e experiências são como bússolas a fim de conduzir um povo sarado a um objetivo
sarado.

Claramente diante destas duas respostas podemos afirmar que Deus quer como o resultado do seu chamado,
uma geração de jovens que façam uma experiência pessoal de salvação e de formação/discipulado permanente
para que sejam enviados a outros jovens, que por sua vez também façam a experiência com a salvação n’Ele. Em
outras palavras, Deus, através do Jovens Sarados e das suas lideranças, quer levantar discípulos d’Ele, novos
“Cristos”, discípulos que formem outros discípulos.

Para se formar novos discípulos, é preciso conhecer de maneira experiencial a formação e construção de um
discípulo, entender a estratégia que leva à construção de discípulos, um passo a passo que nos leve a um resultado
conforme a vontade de Deus. Precisamos, mais que nunca, de uma mentalidade discipuladora, uma mentalidade
que reúna todas as orientações recebidas, as organize, e defina o passo a passo e de forma intencional e
estratégica a construção de um discípulo, a lapidação de Cristo no ser humano, quando essa mentalidade
discipuladora for particularmente compreendida e colocada em prática, o resultado final será um verdadeiro
discípulo, um “novo Cristo”, que pense, fale, aja, respire e observe como Cristo, e quem melhor do que o próprio
Jesus Cristo para nos ensinar essa mentalidade discipuladora,

Ao estudarmos e nos relacionarmos constantemente com a palavra que é o próprio Jesus, compreendemos que
dentro do seu chamado, Jesus assumiu 5 convicções, que regiam suas ações.

1. Convicção. Sou apenas um instrumento da mão de Deus


Ele sabia que a vontade d’Ele estava condicionada a vontade do Pai, por isso esvaziou-se de si para que outro,
o Pai, o formasse e o conduzisse.

2. Convicção. Tudo acontece através de pessoas.


Mesmo sendo Deus, Ele não intervém no livre arbítrio de nenhum homem, porque Sua natureza, ser Amor,
respeita o livre arbítrio conferido como dom. Mesmo assim, Jesus iniciou seu ministério e o desenvolveu chamando
pessoas para sua obra e gastando sua vida investindo nelas: os dozes apóstolos, os setenta e dois discípulos, as
mulheres que o acompanhavam, etc.

3. Convicção. Devo Implantar o reino de Deus


E para isso, sem intervir no livre arbítrio, Ele sabia que era preciso conhecer bem a realidade de cada pessoa, e
depois de conhecê-las a partir de sua realidade atual, apresentar-lhes uma nova proposta.]

4. Convicção. Preciso gerar vínculos sólidos e sadios


Sabendo que esse era o caminho (pessoas) de implantar e consolidar o Reino chamou para si 12 homens
para ficarem com ele (Mc 3,13) e destes 12 homens se voltou para 3 (Pedro, Tiago e João) a quem ainda buscou
intimidade maior, e dos 3 escolheu 1 (Pedro) para liderar o seu rebanho.

5. Convicção. Estou de passagem


Jesus tinha consciência que mesmo sendo Deus, Ele não teria toda a eternidade para diretamente implantar o
reino, Ele tinha consciência que era necessário apenas uma oportunidade vivida, um tempo como um instrumento
nas mãos de Deus para que o seu objetivo fosse alcançado, por isso buscou gerar relações profundas e sólidas, e
nestas relações descobrir não somente as qualidades, mas também as dificuldades de cada ser humano. Vendo tudo
isso Ele se responsabilizou, formou, desenvolveu, avaliou, consolidou e enviou os seus.

25
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Ao fim de seu ministério Jesus virou aos apóstolos e disse: “Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome
do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o
fim do mundo.” Mt 28, 19-20

Os apóstolos são o resultado direto e concreto do discipulado de Jesus, assim como Paulo é o resultado
concreto e direto do ministério dos apóstolos (ide e ensinai) e da ação da graça vinda diretamente da intimidade
do próprio Cristo ( eis que estou convosco). Depois de sua “cegueira” Paulo diante da sua realidade no momento
foi conduzido à Tarso (cf At 9,30) e permaneceu ali por anos antes de “sair em missão”, em Tarso foi acolhido,
preparado, discipulado, após esse tempo foi enviado (cf At 11,25) pela própria igreja a levar o evangelho vivo
“testemunho concreto” aos pagãos, para continuar com a construção do Reino Paulo faz um pedido especial a
Timóteo “O que de mim ouviste em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de
instruir a outros.” II Timóteo 2,2

Estes versículos (mt 28 19-20; II Tm 2,2) são essenciais para um líder assumir e compreender o caminho
da construção de uma mentalidade discipuladora, para que as convicções estejam consolidadas nos seus, Jesus
trabalhou em cima de 4 pilares que são importantíssimos para que essa construção da mentalidade seja segura e
sadia.

Estratégia, Proximidade, Constância e Intencionalidade


1º Pilar - Estratégia é o dom de compreender e antecipar as mais diversas situações e alinhá-las com o seu
objetivo, a fim de conduzir o povo de um ponto a outro com maior segurança e garantindo que nesse processo
também haja um amadurecimento de cada pessoa. A estratégia só é possível quando há uma visão, um objetivo
estabelecido num sonho gerado por Deus (o que? e como?). E essa visão só pode ser revelada quando, cultivando
uma intimidade diária e profunda com Ele, passamos a ter os mesmos sentimentos que os Seus (cf. Fl 2,5).
Conduzir o povo sem pensar no amadurecimento que pode ser gerado no caminho só nos levará ao cansaço
físico, espiritual e emocional, pois o caminho terá de ser refeito por muitas e muitas vezes. É preciso capacitar
as pessoas para compreender essa visão, assimilar a estratégia e dar passos cada vez mais autônomos, firmados
nas capacidades e dons que Deus distribuiu a cada uma. Não bastar dar o peixe, é preciso ensinar a pescar. Jesus
foi muito estratégico ao dedicar quase todo o tempo em formar os 12 discípulos, para que após os 3 anos de
ministério pudessem continuar com seu objetivo. Se Jesus tivesse dividido seu tempo de maneira igual a todas as
pessoas que o encontraram, dificilmente os feitos e seus ensinamentos teriam “durado” mais do que duas ou três
gerações. Veja o que diz a palavra em Efésios 2,20: “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo por pedra
angular o próprio Cristo Jesus”. Foi através do testemunho concreto dos apóstolos que a mensagem foi vivenciada e
assim transmitida até os dias de hoje. Também por isso, o mandato de Jesus em Mateus 28 faz sentido quando Ele
nos ordena a ir e “fazer” discípulos. Essa é a estratégia perfeita para a concretização do Reino: homens e mulheres
que sejam colunas e sustentáculos da verdade (cf. 1Tm 3,15) e que se apoiam no Cristo como a pedra angular de
toda boa casa.

2º Pilar – Proximidade. Sabendo que era preciso implantar o Reino, respeitando o livre arbítrio e consciente
de que isso necessariamente se faz através de pessoas e não de edificações materiais, o primeiro passo na estratégia
de Jesus foi se aproximar, sondar, penetrar a realidade de cada um. Jesus conhecia os seus profundamente e Se
dava a conhecer também, gerando com eles um relacionamento de intimidade. Esses relacionamentos que Jesus
construiu permitiam que os seus discípulos e apóstolos se deixassem formar por Ele, mesmo nos momentos em
que o Senhor era mais duro (cf. Jo 6). À medida que se vive o pilar da proximidade, conseguimos adentrar nas
características (detalhes) de cada situação. Quando me aproximo bastante de alguém, consigo compreender, além
seu “estilo”, a motivação do seu estilo. Não somente os seus valores, mas a raiz deles. Reconheço as suas ações,
mas também compreendo de onde elas vêm. Enfim, o objetivo deste pilar é que, de proximidade em proximidade,
consiga-se conhecer a realidade profunda de uma pessoa e/ou situação, podendo desta forma conduzi-la a uma
outra realidade. A proximidade amorosa de Jesus ganhou o coração de seus discípulos: Jesus não era um mestre
frio, distante e impessoal, que dava ordens, mas um rabbi próximo, amoroso, que dava a vida pelos seus e por isso
tinha autoridade para adentrar na vida deles, e até fazer altas exigências, porque Ele dava muito mais do que pedia
e seu exemplo falava por si só.
26
Quattuor - Formação para Lideranças JS

3º Pilar - Constância é o pilar que potencializa a proximidade e que garante que o Reino seja implantado de
forma correta e saudável. Em Lc 14,28, Jesus ensina: “Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para
calcular os gastos que são necessários, a fim de ver se tem com que acabá-la?”. Seria possível construir uma casa sem respeitar
a matéria prima e o processo de cada material?, sem respeitar o tempo necessário para que o tijolo fique pronto ou
o cimento endureça e os dois unidos tenham a sua eficácia? Não! Por mais que tenhamos todo o conhecimento da
construção de uma casa (essa casa somos nós) e as matérias primas para executá-la, é preciso respeitar a matéria
prima (pessoas) e o processo de compreensão e consolidação de cada um.

Fazendo um paralelo com a formação dos apóstolos, Jesus ensinou-lhes muitas coisas, realidades que
muitas vezes os apóstolos nem perceberam de imediato. Foram construídos em pequenas ações dia a dia que se
consolidaram com o tempo. Muitos dos discípulos só tiveram consciência desta formação quando, após o momento
de lava pés, Jesus sentou com eles e durante 3 capítulos (Jo 13,31 a Jo 16,33) falou “às claras”. Mesmo assim, foi
a ressurreição e o batismo no Espírito Santo que tirou o véu de seus olhos e à luz desses dois acontecimentos
decisivos é que tudo que Jesus ensinou em seu ministério terreno ganhou pleno sentido e significado. Nesse
momento, discípulos foram despertados para o verdadeiro sentido de toda vida, obra, ministério e ensinamento
de Jesus. Agora imagine se JESUS quisesse transmitir todos os seus ensinamentos de uma vez só, 3 anos em 3
horas, como um mega intensivo de fé e obras? Com toda certeza a implantação do Reino iria ruir, não por conta
de Jesus mas pela humanidade O ser humano aprende as coisas de maneira gradual, acumulativa. A falta de uma
base sólida impediria os apóstolos compreender o volume de ensinamento e revelação recebidos e a compreensão
da revelação de Jesus e do seu chamado ficaria confusa.

Quer um exemplo mais próximo? Veja como foi com você. Pare e pense: dentro da sua caminhada, o quanto
você já aprendeu? Imagine se todas essas informações viessem de uma única vez, seria uma loucura para organizar
e para entender todo o processo, certamente você iria surtar.

Um líder que reconhece o pilar da constância sabe que é preferível pequenos e até insignificantes experiências
a cada dia do que grandes epifanias eventuais, separadas por uma certa distância de tempo e espaço capazes de
desconstruir o que foi experimentado. Avalie uma construção iniciada e que por alguns meses foi abandonada e
perdeu a constância. Certamente no retorno a obra o empreiteiro terá de desconstruir boa parte do que estava
pronto porque o processo não foi respeitado pelo espaçamento de tempo. Para formar um discípulo é preferível
que ele esteja todos os dias próximo ao mestre mesmo que “não fazendo nada” (convivência), do que viver
em busca de epifanias (retiros). A aprendizagem constante pelo exemplo e pelo compartilhamento de valores é
profundamente eficaz. Só vive bem o extraordinário quem vive bem o ordinário O extraordinário, por si só, gera
admiração. O ordinário, feito com constância, traz a consolidação do que é admirável.

4º Pilar - Intencionalidade é o motor da mentalidade discipuladora. Sem a intencionalidade, todos os outros


3 pilares e as convicções se enfraquecem. A intencionalidade é o pilar responsável por ditar o ritmo. A constância,
a proximidade e a estratégia só têm sentido quando aplicadas a serviço de uma meta, de uma intenção. Caminhar
sem um norte concreto é somente dissipar energia e colher muito pouco benefício ao longo do caminho. De
que adianta a estratégia sem a intenção de executá-la? Ou a proximidade constante sem uma intenção clara e
consciente de fazer a pessoa crescer? Para muitos isso está bem claro, mas precisamos nos aprofundar neste
conceito, tirar as realidades do macro e viver no micro cada situação. É preciso que os nossos valores assumam
a carne de nossa vivência cotidiana. Jesus é o maior exemplo na história da salvação de intencionalidade. Ele não
tem “ações” aleatórias, sem objetivo. Todas elas foram profundamente cheias de intencionalidade. Isso salta aos
olhos nos evangelhos. Tudo o que Jesus fazia era: “a fim de…”, tudo tinha um objetivo muito claro. Jesus curou
os enfermos, “a fim de” mostrar quem era, “a fim de” confirmar a fé daquela pessoa e “a fim de” trazer uma nova
esperança a outros. Por isso, João chama os milagres de Jesus de “sinais”, pois não eram um mero espetáculo,
mas por trás de cada um deles havia uma intencionalidade. Jesus perdoou os pecados “a fim de” revelar a face
misericordiosa de Deus, escolheu os mais fracos “a fim de” confundir os sábios deste mundo. Jesus escolheu
escolheu 72 discípulos “a fim de” enviá-los a outros lugares e escolheu os 12 “a fim de” ficarem com Ele para que
expulsassem os demônios e curassem os enfermos. Dentre os 12, Jesus escolheu 3 “a fim de” mais intimamente os
formar, consolidar e enviar A estes 3 revelou a Sua glória no Monte Tabor e a sua angústia no Getsêmani. Dentre
27
Quattuor - Formação para Lideranças JS

os 3, Jesus escolheu 1 a fim de que fosse o seu sucessor. Jesus, que a Palavra nos revela como o Bom pastor (cf. Jo
10), entrega o seu rebanho a Pedro (cf. Jo 21).

Jesus é intencionalidade pura! Na sua reta intenção (agradar o coração do Pai), viveu nessa intencionalidade
em todas as situações de maneira perfeita, até nas menores. A pergunta que Ele se fazia era: agrado o coração do
Pai, agindo assim com estes? Se sim, Jesus fazia sem reservas, se doando completamente ao momento. Se não
agradasse ao coração do Pai, Jesus deixava de lado.

Até nas suas ações com os fariseus e mestres da lei Jesus se relacionava intencionalmente. Criando um ponto
de reflexão como, por exemplo, a cura aos sábados, Ele atraia até os mais poderosos da época, como fez com
Nicodemos que o procurou durante a noite (cf. Jo 3).

Chegando a este ponto, torna-se urgente uma reflexão:


• As suas ações, como liderança, estão imbuídas claramente de intencionalidade? Intencionalidade a fim de
que você conquiste e consolide o máximo de pessoas? Ou você tem se cansado de tentar executar e suprir
todas as realidades que surgem e você concentrou sobre si?
• Será que a sua liderança tem agradado o coração do Pai? Será que o seu cuidado com o rebanho tem sido
excessivo, sufocante e paternalista, a ponto de atrofiar a musculatura das ovelhas que Deus te confiou,
gerando nelas uma dependência doentia? Ou você age intencionalmente para que a pessoa tenha cada vez
mais autonomia e capacidade firmada na graça de Deus?
• Será que tenho oferecido o peixe pronto, no lugar de ensinar a pescar?

Toda ação de intencionalidade exige disposição, disponibilidade, paciência e comprometimento. Sempre será
mais fácil “fazer” o que tem que ser feito do que ensinar alguém a desenvolver-se no serviço do Reino através da
vivência destes pilares: estratégia, proximidade, constância e intencionalidade. É importante saber a hora de suprir
uma necessidade (dar o peixe) e a hora de ensinar alguém (dai vos mesmo de comer).

Ao final de todo esse texto pense bem, se você assumir, para si, os dois presentes (graça de estado e
autoridade), as duas vontades (a salvação de um povo e sua salvação pessoal) se aprofundar nas duas questões
(“O quê” e “Como”), compreendendo e transmitindo através dos pilares (Estratégia, Proximidade, Constância e
Intencionalidade) a mentalidade discipuladora (5 convicções), nós iremos corresponder de forma plena à vontade
de Deus. É por isso que o Senhor diz que o fardo é leve, pois não depende de nós o querer e o executar (cf. Fl
2,12), a nós compete apenas deixar-se conduzir ou não, deixar Deus ser Deus e te salvar através deste chamado,
ou não deixar. E aí, qual você escolhe?

28
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Compreendendo as Lideranças Saradas e sua estrutura

Liderança Geral
• Núcleo Geral de Missões JS
Grupo responsável pela gestão das missões e Regionais
Conselheiro de missões + Conselheiro de Formação + Líder Regional + Sistema/integração
• Conselheiro de Missões
Responsável pelas missões dentro do corpo diretivo da associação JS
• Conselheiro de formação
Responsável pela formação geral e discipulado dentro do corpo diretivo da associação JS
• Líder Regional
Responsável pela gestão de 1 ou mais Regionais
• Sistema/Integração
Grupo de pessoas responsáveis pelas informações da obra e que irá fazer a comunicação entre o núcleo
geral de missões e o núcleo de novas missões.

Liderança Regional
• Núcleo Regional
Grupo de servos responsáveis por uma determinada região (missões/lideranças)
• Regional
Servo inserido dentro de um Núcleo regional
• Líder Regional
Pessoa responsável por coordenar as atividades do núcleo regional e de seus membros

Liderança de Missões
• Coordenador de Missão
Coordenador de uma missão JS
• Núcleo de Coordenação
É o apoio direto de uma missão JS
• Equipe Formativa
Responsável pela formação e discipulado de uma missão
• Coordenador de Ministério
Responsável pelas pessoas e ações de um determinado ministério

29
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Lideranças Regionais
(Líder Regional / Regional)

O regional deve atuar como grande motivador e modelo da liderança da missão local/Regional, promovendo
o alinhamento da missão local com o carisma e a visão da obra JS, consolidando os tesouros e o estilo de vida
e sendo o suporte para as lideranças de missão e demais servos através de uma relação de respeito, constância e
proximidade, fazendo com que as missões sejam verdadeiramente saradas.

O regional precisa ter uma visão estratégica de curto, médio e longo prazo sobre as missões que lhe compete
apoiar, e deve ainda ajudar a desenvolver nas lideranças de missão e servos essa visão estratégica. Essa visão
estratégica precisa estar toda permeada pelo carisma JS.

Muitas vezes, os membros do grupo regional precisarão retirar conceitos vindos de outros grupos/movimentos/
pastorais que não dizem respeito ao nosso estilo de vida ou vícios que não condizem com a identidade sarada de
ser.

Esse é o ponto fundamental dentro da regional. Para isso, o regional deve estar sempre se aprofundando no
Carisma JS, através de uma busca constante por pregações das lideranças JS, documentos, vídeos formativos, e de
vivência profunda dos valores com o seu regional e com as missões JS.

É importante ressaltar, ainda, que a atuação do regional terá, em grande medida, um papel formativo. O
regional atuará esculpindo nas lideranças e nos servos de maneira geral, as dimensões importantes do carisma JS
e dando-lhes a compreensão dos meios de desenvolver, de maneira pessoal e coletiva (nos ministérios e missões),
a identidade e carisma JS.

Metas do Núcleo Regional


1. Ser o suporte para as missões viverem o estilo de vida através da vivência dos tesouros;
• Promover formações dentro do estilo de vida;
• Trazer a consciência de cada ação que envolvam a missão (GRUPO, discipulado, Maranathás, Kairós,
Sarados Day, e etc), integrando-as numa estratégia mais ampla de formação e fortalecimento da identidade
JS, de avanço do Reino e de salvação das almas;
• Promover a unidade entre as missões da região.

2. Implantar o projeto de discipulado nas missões


• Conscientizar e formar as lideranças das missões sobre a importância do projeto de discipulado, e dar o
apoio necessário para a equipe formativa e o suporte no passo a passo de implementação.

3. Conduzir as lideranças das missões a uma mentalidade discipuladora.


• A formação das lideranças é um elemento chave para que o trabalho do regional seja bem sucedido.

4. Colaborar com ao núcleo de novas missões


• Conhecer o trilho de discernimento de novas missões e aplicar de acordo com a realidade específica da
missão em discernimento.

5. Formar novos regionais (pessoas)*


*Responsabilidade direta do Líder da Regional, que deverá envolver, na medida do possível e da conveniência, os regionais já
atuantes.
• A medida que sou discipulado vou discipulando outros, essa mentalidade gera perseverança de ambos,
atraindo cada vez mais pessoas a quererem a mesma experiência que você, pois Deus se revela nos fatos,

30
Quattuor - Formação para Lideranças JS

a cada experiência Deus vai nos moldando conforme sua vontade. Tendo uma certeza, que Jesus é o
maior discipulador entre nós, podemos abrir a visão daqueles que Deus quer para o regional, saindo dos
protótipos e adquirindo a responsabilidade de formar outros ‘Cristos’ em nosso meio.

Qual o Perfil do Regional?


• Vida Interior (busca constante)
• Ter uma mentalidade discipuladora * (doc sobre liderança sarada e mentalidade discipuladora)
• Disponibilidade X disposição
• Líder em potencial (Visão Estratégica, influenciador, Referência)
• Não ser autoritário
• I Pedro 5 (zeloso, generoso, humilde, perseverante, sóbrio, obediente, apaixonado)
• Ser dócil ao Espírito Santo (criativo)
• Ter uma busca constante e consciente pela cura interior

Como irá atingir seus objetivos (papel)?


• O Regional deve compreender os objetivos do núcleo Regional, entender a realidade de cada missão e
garantir que os meios para que esses objetivos sejam alcançados e sejam implementados;
• Estar presente nas ações do regional (reuniões, eventos, convivências e etc);
• As ações do regional tornam-se a sua missão por excelência (PRIORIDADE);
• Ser Constante, Próximo, Estratégico e Intencional* com as Lideranças de Missão
* (doc sobre liderança sarada e mentalidade discipuladora)

Lideranças de Missão
(Coord. de Missão / Núcleo de Coordenação / Coord. de Ministério e Equipe Formativa)

Coordenador de Missão
O coordenador de missão é aquele que recebeu de Deus o cajado de conduzir o rebanho que está em sua
missão. Tem sobre si a graça sobrenatural para exercer essa liderança com simplicidade, humildade e muito amor.
Precisa, acima de tudo, estar totalmente aberto ao querer de Deus, com uma vida de oração e intimidade constante,
desejando levar a missão à vivência profunda da essência sarada. O coordenador é aquele que delega as funções e
coordena o que precisa ser feito, não toma para si a execução de tudo. Ele, entretanto, deve ser um suporte para
ajudar aqueles aos quais delegou uma função na execução de suas tarefas. O coordenador de missão precisa ver
nisso um dos elementos de sua liderança discipuladora: não é só ordenar, mas ajudar a desenvolver o talento de
uma pessoa até que ela caminhe com as próprias pernas. Tem, ainda, o desafio de ser referência para a missão,
uma vez que é observado como exemplo nas atitudes e na postura de sarado. Assim, também precisa viver seu
tempo de coordenação lembrando que é passageira, que não é um cargo definitivo, conduzindo a todos para Jesus.

Metas da coordenação da missão


1. Conduzir a missão a ser verdadeiramente Sarada:
• Apresentar e formar os jovens através dos nossos 7 tesouros;
• Planejar e organizar os encontros, grupos, Maranathá’s e demais eventos;*
• Buscar de Deus, em escuta do núcleo regional, uma visão estratégica geral para missão em geral;
• Buscar desenvolver a visão estratégica geral da missão e dos ministérios de maneira harmónica e alinhada
(qual o papel de cada ministério e como eles podem contribuir para a visão geral)(Ação e Oração);*
• Redistribuir os servos quanto aos seus ministérios. Estar atento e identificar o real potencial de cada um.
Ajudar a identificar e conduzir os novos aos ministérios.*
*É muito importante compreendermos que nestes pontos a necessidade de gerar autonomia nos coordenadores de ministério,
então confie nas decisões e permitem que os mesmos busquem e desenvolvam as próprias estratégias

31
Quattuor - Formação para Lideranças JS

2. Cuidar, na medida do possível, de cada alma que Deus envia a missão. Nas missões em que isso não é
possível por seu tamanho, é dever do coordenador pensar formas para que isso aconteça e dar todo o suporte
necessário, a exemplo do discipulado (acolher, acalmar, ouvir, ensinar, consolidar e enviar);

3. Implantar o projeto de discipulado nas missões de acordo com a realidade local.

4. Conduzir as lideranças da missão a uma mentalidade discipuladora.

5. Formar os servos para que sejam coordenadores de ministérios e líderes servidores do Reino, com o perfil
delineado logo abaixo.

Perfil para a coordenação de missão?


• Buscar constantemente a vida interior;
• Ter paixão pelas almas (amar, amar, amar);
• Ter uma mentalidade discipuladora* (em seguida irei trazer um doc explicando essa expressão);
• Buscar viver a cura interior de suas feridas, para que não machuquem a missão;
• Não ser autoritário, ser humilde a exemplo de Cristo;
• Reconhecer que é preciso viver a entrega (apostolado);
• Ser observador para sempre buscar melhorar e potencializar a missão;
• Deixar-se formar, saber ouvir e ser paciente em tudo;
• Ter disponibilidade e disposição (com uma avaliação contínua, se consigo corresponder ao que a missão
necessita, em caso negativo, de forma consciente abrir mão da coordenação, permitindo que o mover de
Deus continue acontecendo, e vivendo o rodízio dentro núcleo);
• Ser responsável e zeloso com toda a missão;
• Entender que estar na liderança é uma forma de aprender a “viver Deus”, não somente crer;
• Ser organizado com os afazeres e compromissos;
• Buscar sempre a cura interior

Como irá atingir seus objetivos (papel)?


• Estar presente, inserido, não se colocar isolado dos servos por ser coordenador - proximidade;
• Ser unido aos demais coordenadores e ao núcleo de missão, não pensar que coordena sozinho, recorrendo
sempre ao regional como auxílio para tomar as decisões em comunhão com a obra;
• Ser intencional em gerar unidade e comunhão nos relacionamentos com a paróquia, com as atividades e
movimentos dentro da Igreja;
• Construir uma relação de respeito e confiança principalmente com as lideranças da missão que são o seu
“1º rebanho”;
• Reunir os servos, promover convivência, oração e comunhão;
• Participar das reuniões de conselho da Paróquia que os acolhe;
• Priorizar o dia de encontro e as atividades da missão. Estar presente, para que as ovelhas não esqueçam o
cheiro do seu pastor;
• Escutar os servos;
• Organizar reuniões com os servos para escuta e feedback pós-Maranathá ou qualquer outro evento.
• Recorrer ao regional em cada tomada de decisão relevante, não corriqueira, inclusive na preparação dos
Maranathás, para que a essência não se perca, mantendo o foco naquilo que é a Identidade JS;
• Lutar para que a sua vida “Sarada” seja a referência para os demais, que seja o primeiro a acolher, a perdoar,
a amar, a discipular, a inserir na vivência da missão;
• Conscientizar através de cada ação de que sempre teremos um grande povo para conduzir e pastorear (Ide
e fazei discípulos);
• Cuidar para que a superproteção entre os servos e participantes não se transforme em dependência e
apego, que a relação seja de pastor e ovelha, não de pais e filhos;
• Construir uma relação intencional para levar o jovem a uma vivência madura da fé;
32
Quattuor - Formação para Lideranças JS

• Avaliar-se continuamente em relação aos objetivos de coordenador através da sua disponibilidade e


disposição, e se consegue corresponder ao que a missão necessita. Em caso negativo, de forma consciente,
delegar tarefas e repensar a liderança da missão incorporando pessoas que possam suprir as deficiências
ou abrir mão da coordenação, permitindo que o mover de Deus continue acontecendo e promovendo o
desenvolver de outras pessoas dentro núcleo e/ou da missão. Esse discernimento deverá ser feito com o
regional;
• Docilidade às orientações do núcleo regional e do núcleo geral de missões;
• Ter atitude e ser criativo na elaboração e organização das missões;
• Coordenar os ministérios de forma a sincronizá-los no mover do Espírito Santo.

Como preparar um servo para Coordenar o ministério?


• Identificar no servo o perfil de um coordenador, ou o potencial para exercê-lo e a disponibilidade e
abertura em deixar-s formar. Uma pessoa com docilidade e alguns talentos vale mais para liderança do que
o desobediente contumaz e orgulhoso, mesmo que seja muito talentoso. Quem não sabe ser liderado, não
exerce de maneira amorosa a liderança sobre outros;
• Contar com a coordenação da missão para esse discernimento, e, se necessário, com o núcleo regional, não
fazê-lo sozinho.
• Trazê-lo para perto, de forma natural e sutil, para que ele seja envolvido e veja a coordenação como algo
bom, vivido pela graça de Deus;
• Delegar tarefas, para que ele se sinta útil, motivado e também responsável pelo ministério;
• Fazê-lo compreender, em partilhas, convivências e escuta, que não é ele quem faz tudo, que não é o fazer
o que mais importa e que não é um cargo;
• Mostrar com clareza que a coordenação não é para sempre, e que assim que assumi-la, precisa começar a
preparar alguém para assumir no seu lugar, no tempo de Deus.

Núcleo de Missão
Tem como um suporte da missão do coordenador de missão, os mesmos objetivos e perfil deste. É necessário
que os membros do núcleo de coordenação compreendam que são uma extensão do coordenador, como que
“seus olhos e braços”, que chegam onde o coordenador não consegue chegar. Devem promover união, desfazer
divisões e grupinhos sectários e trazer para a coordenação a visão do servo, suas necessidades, suas urgências.
Auxiliam a coordenação na tomada de decisões, planejamento e organização dos encontros, Maranathas e demais
eventos. Devem ajudar, através da oração, intimidade com Deus e partilhas, a construir uma visão geral estratégica
para missão como um todo e para os ministérios de maneira particular, em harmonia com o todo. O núcleo de
missão deve ser um grupo que busque sempre uma renovação, sendo dinâmico e não caindo no comodismo.
Possui perfil de liderança e está sempre disposto e aberto ao querer de Deus para a obra.

Como irá atingir seus objetivos (papel)?


• Se colocar à disposição dos coordenadores;
• Buscar a vida de oração com dedicação, ser íntimo de Deus;
• Participar das reuniões, estar presente e frequente na missão;
• Contribuir com mais influência na prática do “Viver Reconciliado”, promovendo e mediando a reconciliação
e o perdão;
• Auxiliar no planejamento das atividades e executar, delegando a outros servos, caso necessário;
• Assumir seu papel, não fugir das responsabilidades de núcleo.

Coordenador de Ministério
O primeiro chamado de um coordenador de Ministério é servir à Cristo através do ministério que lhe foi
confiado e buscar uma intimidade profunda com Deus para direcionar o seu rebanho em comunhão com a missão
e com o estilo de vida dos sarados, baseado não somente em técnicas e habilidades, mas sobretudo na vivência
profunda do evangelho. É assumir a responsabilidade pela salvação das almas.
33
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Qual o papel/Objetivo do Coordenador de Ministério da missão?


• Identificar pessoas que possam compor o ministério;
• Organizar as atividades e ações próprias do ministério;
• Trazer formações dentro do Carisma para consolidar o servo no Carisma e no ministério;
• Acompanhar cada membro do Ministério;
• Caminhar em unidade com a coordenação de missão

Qual o perfil do Coordenador de Ministério da missão?


• Reconhecer o chamado (identificação);
• Não ser autoritário;
• Reconhece que é preciso viver a entrega e sacrifício (ministerial);
• Observador para sempre buscar melhorar e potencializar a missão;
• Deixar-se formar;
• Disponibilidade e Disposição;
• Ser responsável;
• Estar no ministério é uma forma de aprender a “viver Deus”;
• Buscar sempre formação e ideias para realização das atividades de seu ministério, reelaborando o que colhe
de fora de uma maneira sarada;
• Formar os membros do seu ministério para que compreendam o sentido profundo e específico do seu
servir dentro do carisma JS;
• Se abrir ao conhecimento da própria historia (cura interior)
Como irá desenvolver seu papel? (conduzir a missão)
• Rezar sempre pelo seu ministério;
• Ter consciência que é necessário uma disposição maior diante de um membro do ministério. Encarar-se
como referência e buscar coerência na vida, não porque é melhor, mas porque Deus quis constituí-lo como
liderança;
• Estar próximo dos coordenadores de missão, ter uma intimidade para ser auxílio no que for necessário,
bem como ser ponte entre coordenação de missão e servos do ministério;
• Buscar sempre melhorar e ampliar o conhecimento técnico necessário;
• Promover a proximidade de todos do ministério através de formações e convivências
• Marcar orações em grupo entre o ministério;
• Conhecer a realidade individual de cada servo (o que faz, como chegou até a missão, conhecer a família,
saber TUDO sobre aquela pessoa);
• Buscar sempre ter a visão geral do ministério (ação+oração);
• Usar das ações para sempre formar os servos nos tesouros do estilo de vida JS;
• Redistribuir os servos de acordo com seu Dom e perfil;
• A PRIORIDADE É O SERVO inserido no Ministério: ouvir, acolher, acalmar, ensinar, consolidar e enviar;
• Tem que priorizar o seu ministério - não deixar que as atividades secundárias (dentro da missão) tirem o
seu foco;
• Gerar um ministério que tenha autonomia por si, sem depender e esperar tudo do coordenador de missão.

34
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Implementação do discipulado – passo a passo


A implementação do discipulado em nossas missões não é apenas a aplicação de um conteúdo, mas, sobretudo
a urgente e necessária construção de mentalidade que nos leve a cumprir uma face da nossa missão como Jovens
Sarados: “Formar (discipular) jovens para que assumam como cristãos (discípulos) um novo modo de viver o dia
a dia”.

Uma das grandes ferramentas que Deus nos inspirou neste tempo é o discipulado em pequenos grupos. A
implantação deste discipulado em pequenos grupos, para ser bem-sucedida, precisa ser compreendida por toda
liderança de missão e realizada passo a passo, com o maior cuidado e consciência possível.

Para realizar essa implantação, identificamos 6 passos que precisamos realizar bem, buscando sempre respeitar
a ordem e o tempo de cada etapa. É fundamental que cada etapa seja bem vivida, nem às pressas, nem muito lenta,
para que assimilação ocorra da maneira mais enraizada possível e que possamos avançar a passos decididos. O
apoio do regional pode contribuir de maneira valiosíssima nesse processo.

6 Etapas ou Passos de Implementação do Discipulado numa missão

Marco Zero
A missão não conhece os contornos gerais do projeto de discipulado: não leu os documentos do projeto, nem
assistiu os vídeos de suporte, não conhece a proposta do discipulado em pequenos grupos e vive apenas a realidade
dos encontros semanais

1º Passo – Leitura Inicial


Receba e leia o projeto. Nas missões que vivenciaram esta etapa, o projeto pode ter chegado a missão através do
retiro nacional de lideranças, do contato com algum membro da equipe formativa nacional ou através da proposta
dos núcleos regionais.

Nesse passo, é fundamental a leitura individual e coletiva/partilhada do projeto. Os formadores da missão precisam
assimilá-lo individualmente e partilhar sobre ele, já pensando o projeto à luz da realidade de sua missão. Marque
encontros periódicos e regulares (de preferência, semanais, ou no máximo quinzenais) para fazer a discussão do
projeto.

Um primeiro ponto a ser observado: muitas vezes a missão reconhece no projeto um grande valor e a solução
de muitas das suas dificuldades, mas se não houver alguém para motivar a missão a iniciar a discussão e continuá-la,
a dinâmica já instalada na missão (grupos, maranathas, eventos, ministérios) irá deixar a proposta em segundo plano.
No entanto, deixar para depois por causa das necessidades mais imediatas é um erro que pode custar caro, porque
temos a consciência que a realização eficaz dos grupos, maranathas, eventos, serviço em ministérios, dependem antes
de tudo de discípulos conscientes e dispostos a serem conduzidos por Deus através do estilo de vida JS.

2º Passo – Escolha da Equipe Formativa


Após a leitura inicial pela liderança da missão é hora de escolher a equipe formativa. O documento do projeto
de discipulado contempla as principais características de um membro desta equipe. É importante salientar que acumular
funções de grandes responsabilidades como coordenar a missão e estar na equipe formativa pode não colaborar
para um crescimento constante e forte da missão. A pessoa precisa ter um discernimento muito responsável se quiser
acumular as duas funções, fazendo-o somente se for realmente possível. Convém, então, separar um grupo de pessoas
para assumir essa equipe. Mesmo que hoje não “existem pessoas preparadas”, teremos um tempo após esse passo
para formar bem essas pessoas na proposta e mentalidade do projeto. É preciso acreditar, apostar e investir em
pessoas para que o Reino de Deus avance.

35
Quattuor - Formação para Lideranças JS

3º Passo - Equipe Formativa e Liderança em Formação


A formação da equipe formativa é a primeira célula da missão, e servirá de experiência para a implementação de
pequenos grupos com os servos. Por isso, essa fase é muito importante!

Dentro do “Projeto de discipulado – vida de oração” existe uma etapa formativa a ser vivenciada com a liderança
da missão e equipe formativa antes da divisão em pequenos grupos: (1.) 6 encontros de formação com base em
textos que ajudarão a entender de maneira mais profunda nossa espiritualidade. Depois disso, propomos que a
equipe formativa e a liderança da missão assistam juntos. (2.)os vídeos sobre o discipulado e leiam o documento
“Discipulado em pequenos grupos” para entender a prática do discipulado em pequenos grupos. É importante
buscar o acompanhamento do Regional nesta etapa e a presença do mesmo nos encontros quando possível.

Esse período, reiteramos, já será uma vivência da dinâmica de pequeno grupo e gerará experiência para quando
as células forem implementadas.

4º Passo - Discernimento da divisão em Células


Chegou o momento de transbordar o que está sendo vivido nas lideranças de missão e equipe formativa. A
escolha deve ser feita com muita estratégia, buscando compreender o grupo de pessoas que está sendo trabalhado.
Podemos ter células de servos com o 1º compromisso, células de servos de 2º compromisso ou mais, por exemplo.
Células de jovens que acabaram de sair dos Maranathas, células mistas, células que acontecem durante a semana (para
realidades que o fim de semana já esteja comprometido com atividades), células que aconteçam durante o fim de
semana (para aqueles que estudam durante a semana), enfim... Há uma grande liberdade da missão em reconhecer as
características dos jovens para melhor discipulá-los.

5º Passo – Células já iniciadas


Com as células já iniciadas, é importante não perder o foco e a intencionalidade. O resultado pode demorar um
pouco a aparecer, mas a constância dos encontros, a proximidade dos líderes de células com os servos/discípulos, a
estratégia e a intencionalidade de cada encontro, produzirão um crescimento gradual na obra em graça e sabedoria.

Por isso, tanto a equipe formativa quanto a liderança da missão devem se reunir para discernirem o conteúdo
a ser vivenciado nas diversas células da missão. É importante aplicar sempre que possível o que é pensado pela
formação nacional. Para servos com alguma vivência, é recomendável seguir os temas propostos no “Projeto de
Discipulado – Vida de oração”. Para os jovens que saíram do Maranatha, recomendamos o cronograma proposto
no “Projeto de Discipulado – primeiros passos”. Lembramos que a base de todo o cristão é relacionamento com Deus,
querigma (anúncio do amor), catequese (conhecimento de Deus) e vida de oração (intimidade contínua com Deus).

Recomendamos fortemente, ainda, que a periodicidade seja quinzenal entre os encontros da célula. Num
primeiro momento, esse “novo tempo” com a introdução do discipulado nas missões será um tempo de ir atrás de
todos os servos, sobretudo os que se afastaram ou andam feridos, para trazê-los de volta. Cada líder de células precisará
se compreender como um pastor de ovelhas e ir atrás de todas aquelas que estão desgarradas: os que fizeram o
compromisso e não estão mais próximas ao rebanho, se extraviaram.

6º Passo – “Rediscernindo” as células


Na fase inicial, é possível que a divisão pensada para células não corresponda ao real: muitas vezes, a
quantidade de pessoas que fez o compromisso não representa quem é servo de fato na missão. Após um primeiro
momento de ir atrás dos extraviados (em um período de duas a três reuniões de células quando faremos de tudo
trazê-las de volta), será possível visualizar aqueles que de fato querem viver o processo do discipulado e do serviço,
comprometendo-se com o estilo de vida, e aqueles que não querem mais.

Nesse ponto, talvez seja necessário reorganizar as células para que elas correspondam ao número real de servos
da missão. Exemplo: uma missão em que 60 pessoas fizeram compromisso pode ter, na realidade, 30 ou 40 pessoas
dispostas a viver as exigências do estilo de vida JS (engajamento na missão, disposição em ser formado através
36
Quattuor - Formação para Lideranças JS

do discipulado, serviço). Então, uma divisão que havia sido pensada, inicialmente, para 60 pessoas, terá que ser
redesenhada para as 30 ou 40 que demonstram correspondência com a proposta da missão.

Cultura viciada vs. Contracultura do Evangelho


É importante entender que nós não estabeleceremos uma mentalidade de discipulado (discipular e deixar
ser discipulado) num terreno virgem, mas em missões que, infelizmente, foram criando uma cultura viciada de
descomprometimento e desleixo com o serviço e a formação. Ter consciência disso é importante, não para nos
desanimar, mas para ressaltar ainda mais a importância da intencionalidade, da constância, do foco e da paixão pelas
almas num cenário que tenderá a ser bastante adverso. As adversidades são a consequência de anos de inércia sem
criar entre nós uma cultura discipuladora. Elas devem ser vistas como desafios e a fé na graça de Deus, que atua em
nós quando damos abertura e nos pomos decididamente a caminho, deve ser nossa motivação e confiança para pagar
o preço da salvação das almas, que inclui o discipulado.

Implementação do discipulado numa missão - passo a passo

1º PASSO – Leitura - Fazer a leitura individual do projeto;


do projeto - Marcar encontros para fazer leitura partilhada,
já refletindo em relação à situação da missão.

- Escolha dos discipuladores;


- Observar perfil e predisposição para o
2º PASSO – Escolha ministério;
da equipe formativa - Não esperar a pessoa perfeita: nós que
devemos formar discipuladores, não esperar
pessoas prontas.

- Marcar reuniões periódicas, semanais ou no


máximo quinzenais, para formação da equipe
3º PASSO – Equipe formativa e das lideranças;
formativa e - Conteúdo: textos indicados pelo “Projeto
liderança em Discipulado - Vida de oração”, vídeos do
formação Youtube, texto “Discipulado e pequenos
grupos”.

- Observar os critérios para divisão em


pequenos grupos que mais ajudem a missão a
4º PASSO – implementar com eficácia o discipulado;
Discernimento da - Possíveis critérios: nível de maturidade (início
divisão em células de caminhada, 1º ou 2º compromisso),
localização geográfica (proximidade de
moradia), disponibilidade de tempo dos servos
(durante a semana, finais de semana).

- Iniciar a implementação do processo;


- Importância da constância, intencionalidade,
5º PASSO – Início estratégia e proximidade: estamos criando uma
das células nova cultura onde já existe uma cultura viciada;
- Etapa de buscar os que estavam perdidos
usando a célula como um meio de
reaproximação;

- Após verificar, pela busca quem pretende


continuar como servo e quem abandonou, será
6º PASSO –
necessário repensar a estrutura de células
Rediscernindo as
(diminuir a quantidade, juntar duas ou mais
células
células, repensar horários);
- Manter o foco e a intencionalidade: os frutos
do discipulados são mais lentos, mas também
mais consistentes.

37
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Projeto de discipulado - vida de oração


A cartilha de servos JS é uma luz de Deus para nos guiar no estilo de vida JS. Logo no início, a cartilha, no ponto
4 do bloco 1, define a missão de um jovem sarado alicerçada em dois pilares: 1. evangelizar almas jovens, sendo
instrumento para que aconteça o batismo no Espírito Santo; 2. formar os jovens para que assumam, como cristãos,
um novo modo de viver o dia a dia. ‘Portanto, vão e façam discípulos de todos os povos.’ (Mt 28,19)

Deus tem nos dado a graça de fazermos relativamente bem o primeiro pilar de nossa missão. Digo “relativamente”
porque precisamos sempre melhorar, sempre colaborar de maneira mais disposta, dócil e intensa, com a graça de
Deus. A evidência disso é o nosso crescimento, tanto em número de missões, como em número de servos. É o
cumprimento da profecia da multiplicação que Deus nos deu ainda no começo dos sarados e que Ele tem cumprido,
levando os sarados a diversos locais.

Esse primeiro pilar da nossa missão é profundamente kerigmático (voltado para a conversão) e é o imenso poder
da mensagem do Evangelho, na sua integralidade, com a efusão do Espírito Santo, associados à acolhida (como
marca concreta desse amor do Pai), que garante o êxito de nossa missão. Profundamente evangélicos, profundamente
carismáticos, profundamente acolhedores: é nossa meta para cumprirmos bem a missão de evangelizar e sermos
canais do batismo no Espírito.

No entanto, ao evangelizarmos, a consequência natural é que aqueles que foram resgatados pelo poder do
Evangelho se tornem discípulos de Cristo. Queremos chamar atenção para três expressões chaves de nossa cartilha,
porque esse segundo pilar de nossa missão, o discipulado, tem sido precariamente desenvolvido por nós, e essas três
expressões chaves são o norte para avançarmos: 1. formar os jovens para assumir 2. uma nova forma de viver a vida,
3. como discípulos.

Se temos levado, com relativo êxito (insisto que podemos sempre melhorar, e ainda há muito campo para isso),
os jovens a fazer a experiência com Jesus através do batismo no Espírito, a formação e o discipulado têm deixado
a desejar.

A primeira coisa a compreender é que o papel formativo e discipulador não é exclusivo do ministério de
formação ou equipe formativa da missão. Esse papel é de todos os servos, assim como a acolhida não é um papel
somente do ministério de acolhida, mas é uma marca dos sarados. Na Sua providência, talvez até sem que tivéssemos
a consciência clara disso quando a cartilha foi redigida, Deus colocou a missão de formar e discipular como uma
missão de todo servo JS. Isso significa que o nosso estilo de vida, dentre outras coisas, é um estilo de vida de alguém
que precisa se compreender como formador de pessoas e de “fazedor” de discípulos. É parte do ser sarado formar
e discipular, como é parte do ser sarado acolher.

Nota-se, ainda, que na versão mais recente da cartilha, as palavras do Papa Francisco tenham sido inseridas,
para que nós de fato tivéssemos consciência desse estilo de vida 1. missionário, 2. formador e 3. discipulador: “Em
virtude do seu batismo, você se torna um discípulo missionário, independentemente da sua função ou de seu grau de
instrução de fé (...) Certamente você é chamado a crescer como evangelizador e deve procurar simultaneamente uma
melhor formação, um aprofundamento do seu amor e um testemunho mais claro do Evangelho. Nesse sentido, você
deve deixar que os outros te evangelizem constantemente, sem renunciar a sua missão evangelizadora...” (Cartilha de
servos, citando a Evangelii Gaudium)

Essas palavras do Papa reforçam o que já é uma missão clara dos sarados, encorajando cada sarado a ser discípulo
missionário, a assumir o seu papel de formador, de discipulador, e a crescer na própria formação, mas sem usar uma
suposta insuficiência de formação para se esquivar dessa exigência do nosso chamado.

38
Quattuor - Formação para Lideranças JS

A insuficiência de formação deve ser um impulso para mergulhar em Deus e na doutrina da Igreja, não
um pretexto para parar ou não começar a fazer discípulos para Jesus.

Portanto, é urgente dar passos rumo a um processo de discipulado sério. Mais ainda, é urgente formar servos com
capacidade de discipular outros servos. Com certeza, Deus tem levantado pessoas em nosso meio com dons claros
para isso. Mas, quando nos alinhamos com intencionalidade aos propósitos de Deus, a ação da graça não encontra
barreiras, produzindo frutos mais fortes e mais abundantes.

Aqui cabe uma consideração fundamental: se todo servo tem o papel discipulador, aqueles que assumem função
de liderança têm esse papel de maneira redobrada. Precisam se esforçar para ser discipuladores através do exemplo e
da palavra. Mas precisam, sobretudo, ser desenvolvedores de talentos e trabalhar em equipe para agregar as pessoas
(e seus respectivos dons e talentos) que Deus lhes confiou e potencializá-los para missão. Um dos principais papéis
de alguém que exerce liderança no JS deve ser esse: fazer desabrochar, apostando e formando, todo o dom que Deus
depositou naquele servo sob sua responsabilidade. O bom líder é aquele que consegue trabalhar em equipe e fazer
com que o potencial do servo encontre um espaço na missão em que está engajado, em seu ministério, em sua célula,
em sua escola de formação.

Com essa compreensão, é preciso desencadear um processo formativo simples, prático, e ao mesmo tempo sólido
e consistente, que levem os jovens que foram alcançados por nós a assumir, “como cristãos, um novo modo de viver
o dia a dia”.

1. Formar novo modo de viver, discipular


Aprofundemos três expressões que são fundamentais para compreender melhor o processo de discipulado.

A primeira expressão chave: formar. Formar é um processo que requer atenção, cuidado, delicadeza, sensibilidade,
persistência e continuidade. Paulo fala: “não vos con-formeis com esse mundo, mas trans-formai-vos pela renovação
da vossa mente” (Rm 12,2a)... Pedro diz: “`À maneira de filhos obedientes, não vos a-molde-is/con-formeis aos
desejos que tínheis antes” (1 Pd 1,14a). Fica claro, por esses versículos, que todo ser humano, toda alma, encontra-
se sempre num processo de formação. A questão é: nesse processo, que forma está sendo esculpida? Que
forma essa alma está assumindo?

A segunda expressão chave, nova (modo) forma de viver a vida, é o resultado de hábitos, pensamentos e
mentalidades diferentes da forma mundana, dos valores, mentalidades e hábitos que o mundo nos ensina. Isso passa
pela mente e pelo ensino para chegar ao coração. Por isso, Paulo diz: trans-formai a vossa mente.

A terceira palavra-chave é discípulo: ser discípulo não é uma coisa que você faz uma vez: é um processo. O
discípulo é alguém que embarca numa jornada de aprendizado, que entrou numa relação permanente com aquele que
escolheu para ser seu mestre. Nós precisamos fazer com que os jovens que tiveram um encontro pessoal com Jesus
queiram ser discípulos, queiram embarcar numa jornada de aprendizado e conhecimento de Deus.

Nesse ponto, é necessário atentar para uma dimensão fundamental: o JS é, ao mesmo tempo, hospital e escola. As
duas coisas estão conjugadas e não podem ser separadas. O processo de cura completo só se dará pelo aprendizado,
pelo conhecimento de Deus, que passa pelo conhecimento de sua doutrina e, sobretudo, pela vivência prática desta
doutrina (cf. 1Pd 1,22- 23).

2. A vida de oração – raiz de todas as coisas


Formar jovens para um novo modo de viver a vida, como discípulos de Jesus: esse é nosso desafio. Qual o
primeiro passo? Estamos convencidos de que o nosso maior desafio, hoje, é levar nossos servos a ter vida de
oração: formá-los, inculcar neles uma mentalidade nova, hábitos diferentes, para que compreendam e exercitem a
vida de oração. Ensinar a orar!

Mas rezar não é algo espontâneo. Rezar se aprende, através do ensino e da prática. Os apóstolos de
39
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Jesus pediram para que Ele os ensinasse a rezar, e Jesus os ensinou (cf. Lc 11). Muitas vezes, os convidou a rezar
junto Consigo, para que aprendessem não só na teoria, mas na prática. Ensinar a rezar é uma das coisas mais
negligenciadas no processo de discipulado cristão atual. Uma das tarefas mais urgentes que temos é ensinar
nosso povo a rezar e levá-los a compreender a absoluta necessidade da vida de oração, bem como a compreender
como Deus quis a nossa (dos sarados) vida de oração.

Isso é tão verdade que as pessoas que não aprendem a rezar, rezam mal e por isso colhem pouco fruto. Muitos
servos têm dificuldades em perseverar porque ainda não compreenderam, na prática, que tudo é graça na vida cristã.
Se tudo é graça, só através dos meios da graça é possível perseverar. Quantas comunhões bem feitas poderiam
ter impedido pecados mortais que arrastaram um servo de volta para vida mundana? Em quantas “lectio divina”
um servo não teria recebido uma iluminação que lhe tiraria da confusão ou daria força para prosseguir? Quantos
problemas seriam evitados se os nossos servos tivessem um contato mais presente e intenso com o Senhor e fossem
transformados pela exposição à Sua presença graciosa?

3. A cartilha da vida de oração


A cartilha da vida de oração tem seu maior sentido em ser um instrumento para o discipulado. Ela, com
certeza, germinará e produzirá alguns frutos. Mas a forma como utilizaremos poderá determinar se dará 30, 60 ou
100.

A formação (o discipulado) bem feita(o) é o arado eficaz que torna a terra mais fecunda. Se deixaremos por
conta própria, ou se trabalharemos – e com que afinco e qualidade trabalharemos – essa cartilha, isso determinará o
potencial de seus frutos.

Isso não quer dizer que discipular para uma vida de oração é o segredo para resolver todos os males! Ainda
encontraremos dificuldades, corações duros, problemas que serão reflexo de nossos pecados e más inclinações! Não
temos a ilusão que a semente lançada encontrará 100% de frutos, mas não nos furtamos à nossa responsabilidade de
cooperar com a seara de Deus para que produza o máximo possível.

4. Busquemos profundidade
Chegamos a um ponto em que ou aprofundamos nossas raízes em Deus, ou retrocederemos. E embora essa
necessidade se dirija a todos os servos, ela é ainda maior para aqueles a quem Deus chamou a um serviço de liderança.
Aqueles que foram chamados a guiar um povo receberam maior misericórdia de Deus, porque é um privilégio e não
um fardo servi-lo. Mas com esse maior privilégio, surge uma maior responsabilidade.

A cartilha de vida de oração foi desenvolvida para dar ao servo o sentido das 5 pedrinhas, bem como ajudá-lo a
fazer delas formas de oração adoradora. O primeiro bloco tem a intenção de trabalhar de maneira geral como se encara
a vida de oração de um servo JS, o que seria nossa marca distintiva na vida de oração. É um bloco importantíssimo
porque todos os demais blocos devem ser trabalhados sob o “espírito” desse primeiro, sob sua ótica. Esse bloco
precisa ser vivamente assimilado por cada servo, e, sobretudo, por aqueles que foram chamados por Deus a uma
função de liderança.

Outros dois blocos que assumem fundamental importância são o bloco 3 e 4 (eucaristia e lectio divina). Temos
percebido em quase todas as missões que essas pedrinhas têm sido negligenciadas e mal vividas, quando vividas. Isso
se dá por 3 motivos: a) compreensão insuficiente de seu valor, b) por não fazer a experiência de seus benefícios, c)
dificuldade prática por desconhecimento da maneira de vivenciá-las (lectio divina) ou vivenciá-las bem (comunhão
eucarística).

Para melhor formarmos nossos jovens, será necessário sermos nós os primeiros a buscar essa formação, e
buscar os tesouros de sabedoria da Igreja e dos seus santos para indicarmos uma via segura e eficaz de conhecimento
e crescimento em intimidade com Deus.

Os formadores e coordenadores não podem se furtar desse aprendizado da Igreja, porque somos os primeiros a
40
Quattuor - Formação para Lideranças JS

ter necessidade de evangelização para transbordar às almas confiadas por Deus a nós.

5. Busquemos aprofundar nossa conversão através da vida de oração


Dessa forma, nós que exercemos função de liderança no JS precisamos encarar seriamente nossa vida de oração.
Essa formação é uma oportunidade para você coordenador ou formador retomar ou intensificar sua vida de oração
e a pratica das 5 pedrinhas, bem como conhecê-las melhor. Dessa forma, você mesmo será um divulgador da vida de
oração através da sua própria vida. Um novo mergulho de conversão através da decisão de assumir com seriedade a
vida de oração que Deus nos propôs, da forma que Ele propôs como JS.

6. Proposta prática
A) O primeiro passo é criar uma equipe formativa ou ampliar a quantidade de servos que trabalham a formação
e o discipulado de maneira mais direta. Apostar em novos servos! Por isso, a coordenação da missão, caso não
haja uma equipe formativa, deverá discernir e convidar servos que demonstrem interesse e aptidão para servir no
processo formativo.

Esses servos devem ser escolhidos entre aqueles que demonstram docilidade em ser formados, abertura a viver a
obediência e não geram problemas de críticas ácidas e murmurações constantes, porque servos dessa natureza geram
mais divisão do que comunhão, mesmo que tenham grande aptidão para o ensino.

É sobretudo necessário que estejam alinhados com o estilo de vida do Jovens Sarados: a loucura por Jesus, a
consequente loucura por salvar almas, a acolhida que transborda da experiência de acolhida do Pai e a evangelização
simples, SEM ESTAR PRESO A ESTRUTURAS, REGRAS, BUROCRACIAS.

Não é o tempo de missão ou grau de formação, mas a sede por almas, disposição em ser formado e vontade de
discipular almas para Cristo! Não pedimos currículo aos sarados!

A grande dimensão que deve ser trabalhada com esses servos é: 1. a importância da vida de oração e sua
preeminência ante a vida apostólica (não para suprimir a vida apostólica, mas para fazê-la dar verdadeiros frutos!),
mais ou menos na linha do que Frei Gilson nos exortou no retiro de coordenadores JS 2017 (ver a pregação “A
heresia das obras”, disponível no YouTube); 2. a importância da vida eucarística e como bem vivê-la; 3. a importância
de rezar bem, e só ora bem aquele que primeiro ouve e depois dialoga com Deus – lectio divina.

Para isso, o ideal é que as lideranças regionais, de maneira conjunta, acompanhem um processo em que as
coordenações de missão (coordenações gerais e de ministérios) e formações de missões se debrucem sobre os textos
que propomos e façam a formação num “esquema EAD”: a leitura e partilha do material feitas por esses núcleos
de missões, com algumas formações presenciais pelas coordenações regionais para ir alinhando e aprofundando o
processo formativo.

O primeiro ciclo formativo, referente ao ponto 1, se dará através da partilha dos três primeiros capítulos do livro
“A alma de todo apostolado”, com cada capítulo podendo ser partilhado em uma reunião. O segundo ciclo formativo,
ponto 2, temos como texto base um capítulo do livro “O mistério de nossa conformidade com Cristo”, específico
sobre a Eucaristia, e um capítulo do livro do Pe. Stefano Manelli, também sobre a Eucaristia. Referente ao ponto 3,
um texto de Enzo Bianchi, fundador do monastério de Bose, explicando o que é oração, a partir de uma compreensão
bíblica. Ao todo, seis textos, seis reuniões.

A dinâmica dessas reuniões deve ser bem participativa: a leitura prévia é fundamental para discussão. É interessante
deixar mais de uma pessoa responsável para esmiuçar cada texto em sua respectiva reunião, também com o propósito
de incentivar o servo a participar e se debruçar sobre o texto. No entanto, os servos responsáveis não devem dar uma
aula, mas sim ser facilitadores de uma discussão em que todos partilhem. Ao mesmo tempo, o sentido prático deve
ser muito ressaltado em todas as formações partilhadas: não estamos nos formandos para acumular capital teórico,
mas para viver melhor o Evangelho e entrarmos em comunhão profunda com nosso Deus.

41
Quattuor - Formação para Lideranças JS

O papel das lideranças regionais é acompanhar esse processo missão por missão e tentar recapitular com esses
grupos de servos de cada missão, através de formações nas missões (presenciais – visitas às missões), o que já vem
sendo partilhado, com a intenção de aprofundar a compreensão na linha do estilo de vida/essência JS.

Nossa ideia, ainda, é que esse processo culmine com um retiro de coordenadores de missão e ministério e
formadores, para fechar esse processo formativo e passar para o processo seguinte, com todos os servos. Pode ser
um retiro de um dia, como num Kairós, mas é preciso que ele aconteça.

É de fundamental importância que esse processo formativo com os servos em geral se inicie o mais cedo possível,
ainda no 1o semestre de 2018. Portanto, o processo formativo com os grupos de servos que exercem papel de
liderança precisa se iniciar em fevereiro/2018.

B) A segunda parte diz respeito a traçar um cronograma claro de formação dos demais servos usando a cartilha
como trampolim. Os textos-base apresentados, a fim de serem estudados pelos formadores, são importantes para
dar um embasamento maior àquilo que a cartilha propõe. É o mandato do Senhor que diz através de São Pedro: estar
sempre prontos para dar a razão da nossa esperança (cf. 1 Pd 3,15). Portanto, a partir do cronograma que cada missão
traçará (com o apoio do seu líder regional), essa equipe de formação irá trabalhar com os servos nossa CARTILHA
DE ORAÇÃO (lançada no último aprofundamento JS). Esse cronograma segue a cartilha de vida de oração pela
própria lógica interna desta.

1a bloco: O estilo de vida de adoração. Esse primeiro bloco dará a visão em que deve ser compreendida a cartilha
de vida oração, por isso ele é importantíssimo. É o alicerce de toda construção. Deve ser bem trabalhado, pois é a
chave de leitura e de compreensão de nossa vida de oração. Se esse alicerce for mal construído, pode inutilizar ou
diminuir os frutos das formações subsequentes. Por isso, o ideal será trabalhá-lo em duas formações. Todas as duas
formações devem ser finalizadas com momentos de oração vinculadas aos temas indicados abaixo.

Precisa ficar claro na formação desse bloco: 1. o sentido de filiação (mais que servos, somos filhos) e todos os
benefícios, toda graça que resulta de sermos filhos e não empregados; 2. o que significa adoração (é preciso ressaltar a
excelência de Deus, a busca de Sua presença pela Sua presença), a importância da adoração como um fim em si, e não
um meio para outras coisas. A vivência de um estilo de vida adorador transformará nossos servos. Os demais blocos
servem para ressaltar: como fazer das cinco pedrinhas o caminho de uma vida de adoração?

Texto base – A alma de todo apostolado (três primeiros capítulos) e o próprio bloco 1 da cartilha

2a bloco: O santo terço. Essa é uma das pedrinhas mais praticadas, pela sua simplicidade. Mas às vezes acaba
sendo muleta para não cumprir outras pedrinhas. Nessa formação, a ideia é fazer os servos compreenderem como
se reza bem o terço, qual o seu sentido profundo. É interessante terminar essa formação com um momento mariano
intenso, com a récita do terço levando à meditação dos mistérios, seja usando as cláusulas do rosário, ou de outra
forma que o Espírito inspirar. Uma formação pode ser suficiente. Texto-base para o formador: Carta Rosarium
Virginae Mariae, de S. JP II

3o bloco: A eucaristia. Nesse bloco, é preciso levar os servos à compreensão da importância e da excelência do
dom da eucaristia, da comunhão eucarística. Ela pode se dividir em duas formações: a primeira sobre o mistério
eucarístico, o que é a eucaristia, trabalhando o que a Bíblia, a Igreja e os santos dizem; a segunda, sobre como
comungar bem, demonstrando como fazer, os benefícios da comunhão bem feita e o que os santos falam sobre isso.
Essa dimensão prática deve ser bem trabalhada, razão pela qual é interessante fazer uma só formação para isso.

Essa pedrinha é fundamental e pouco vivenciada. A ideia é que a primeira formação termine, se possível, com
uma adoração eucarística, e a segunda, com uma celebração da palavra ou missa em que as pessoas tenham tempo
para fazer uma profunda ação de graças (para isso, é importante convidar um celebrante receptivo a essa ideia, já que
na Igreja há pessoas que não dão valor ao mistério eucarístico).

42
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Textos-base para formador: capítulo do livro de L.J. Callens sobre a eucaristia; capítulo do livro do Pe. Stefano
Manelli sobre a eucaristia; parágrafos do CIC.

4o bloco: a lectio divina. Na cartilha da vida de oração, nós optamos por incluir o método da lectio divina e não
o do mons. Jonas como proposta para os sarados. Por quê? Muitos sarados encontram dificuldade com o método
do Mons. Jonas. Este método é rico, mas é preferível um método mais simples que facilite a perseverança do que
um mais complexo que se torne fonte desânimo para os que têm dificuldade. A lectio divina é mais simples, e foi o
método de tantos santos e santas.

Aqui entra uma dimensão importantíssima: é pela lectio divina que nós vamos ensinar os servos a orar. O mais
importante não é estudar, mas ORAR COM A PALAVRA, a partir da escuta da palavra. Por isso, embora a lectio
seja simples, nós propomos a divisão em três formações. A primeira como explicação da lectio, e a segunda e terceira
simplesmente para fazê-la em conjunto (a depender do tamanho da missão ou das escolas de formação, dividindo em
grupos). Entre uma e outra, sugerimos dias fixos na semana para fazê-la virtualmente (ou até mesmo todos os dias)
por whatsapp, ou dividir em grupos para que os servos façam em casa juntos, ou ainda as duas iniciativas conjugadas.
A ideia é que a escola de formação, ministério, pequeno grupo ou missão entre num tempo forte de mergulho na
palavra e cada servo seja suporte e incentivo para o outro nesse sentido.

Ressaltamos: é importante aprender a rezar com a palavra. A verdadeira oração nasce da escuta e da contemplação
de Deus por aquilo que Ele revela a nós, e a maioria dos nossos servos não sabe disso, nem sequer imagina! O texto
base desse período será importantíssimo!

Texto base para o formador: capítulo do livro de Enzo Bianchi sobre a oração.

5o bloco: o jejum. Indicar o sentido do jejum e as formas de fazê-lo. É interessante propor para o grupo que estiver
nessa fase da formação um motivo para jejuar juntos, sem definir uma forma de jejum específico, mas estimulando
que cada um ofereça o seu jejum pelos motivos elencados e discernidos em oração conjunta.

6o bloco: confissão. Introduzir os servos na consciência da importância e benefícios da confissão. Como a


confissão pode ser uma arma de santificação? Indicar-lhes o sentido profundo e como se preparar bem.

Texto base para o formador: parágrafos do CIC.

Propomos, ainda, que o processo formativo seja concluído com um Kairós de adoração, com temas que
recapitulem os pontos mais importantes: ser adorador, ser filho, a importância da Eucaristia, da Palavra, da virgem, a
misericórdia (confissão) e a mortificação (jejum). Sejamos livres ao que o Espírito suscitar a cada missão, porque em
cada missão Ele suscitará aquilo que E ele quer arrematar ao término desse período formativo.

O cronograma ficaria assim:


1ª formação: Filiação: somos filhos, não empregados – a vida de oração como relação com o Pai
2ª formação: Adoração: o que significa adoração, o que é um estilo de vida adorador
3ª formação: O Santo terço
4ª formação: A eucaristia: maior tesouro, ápice e centro da vida cristã (término com adoração)
5ª formação: Comungando como verdadeiros adoradores: o segredo dos santos para alcançar a união com Deus
(término com missa ou celebração da Palavra e comunhão)
6ª formação: Oração: iniciativa do homem ou resposta a Deus que fala – a lectio divina
7ª formação: Exercício da lectio divina
8ª formação: Exercício da lectio divina
9ª formação: Jejum, arma de combate espiritual
10ª formação: Deus é um pai misericordioso: o sacramento da confissão
Kairos

43
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Multiplicar e incentivar iniciativas


Durante todo o processo, os formadores de escola de servos ou coordenadores de ministérios, aqueles que
estiverem conduzindo o processo formativo, deverão incentivar, instigar e multiplicar as iniciativas para colocar em
prática tudo que vai sendo aprendido na formação.

Por isso, é importante que o formador/coordenador/condutor tenha sobre os servos um olhar atento para
descobrir seus dons e potenciais e não coloque burocracias às iniciativas dos servos, mas as harmonizem ao conjunto
da missão, SEM JAMAIS SUFOCÁ-LAS.

Iniciativas como grupos de servos que vão juntos à missa durante a semana e convidam outros servos, estudos
bíblicos em casa de servos ou via whatsapp, vigília em casas, tudo deve ser proposto e estimulado, encorajado e
sustentado. A intenção dessa formação não é acumular conhecimento, é ajudar a exercitar a vida de oração, ser um
impulso permanente para isso. Portanto, esse processo formativo terá mais fruto se tivermos a intencionalidade de
levá-lo da teoria à pratica. O mais importante é criar todo tipo de situação para que o servo entre na presença de Deus
e seja estimulado e incentivado a isso. Quando ele entrar nessa presença, o Senhor se encarregará de fazer o principal,
porque Ele é quem nos transforma de glória em glória pelo poder do Seu Espírito (cf. 2Cor 3,18s).

Chamar servos para ajudarem no processo formativo, atribuir-lhes responsabilidades, com criar um grupo de
estudo da palavra, ou delegar a ele a função de ajudar um outro servo, de articular no seu bairro a “missa da semana
dos sarados” naquele bairro (ir todo mundo junto pra missa e conviver depois, p. ex.), fazer dele um “monitor”
numa escola de formação grande: não podemos concentrar tarefas, mas formar times e envolver o maior número de
pessoas possível!

Que Deus nos dê a graça de deflagrarmos um movimento de ajudar outros a rezarem, ser suporte para que
cresçam na vida de oração, e também crescermos nós mesmos... Corramos ao encontro do nosso Deus e levemos
outros!

44
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Discipulado e pequenos grupos


1. O discipulado e o papel dos pequenos grupos para o crescimento espiritual
Um desafio central para os sarados e todos aqueles que se lançam ao desafio da evangelização de jovens, no tempo
presente, é corresponder ao anseio de Deus a nosso respeito de lutar pela salvação de almas através do discipulado,
para “formar jovens que assumam, como cristãos, um novo modo de viver o dia a dia”. Por isso, insistir no conceito
de discipulado e organizar nossas missões ou grupos compreendendo que a missão de salvar almas inclui o dever de
discipular pessoas é fundamental.

A salvação, ao contrário do que intuitivamente somos levados a pensar, é um processo, uma obra de Deus que
tem seu início antes mesmo do encontro pessoal com Jesus, mas que, após esse encontro, se prolonga até o fim de
nossas vidas: “aquele que iniciou em vós a obra, é fiel para levá-la até o fim”. “Operai vossa salvação com temor e
tremor...”.

É interessante notar as palavras que Paulo usa para definir esse processo: crianças (o que implica um crescimento
até a estatura do homem perfeito), lavoura (com a noção de cultivo e todas as consequências inerentes a ela), edifício
(com sua ideia de construção, com alicerce, edificação, acabamento). O uso dessas palavras não é aleatório: todas elas
demonstram a compreensão que o apóstolo do gentio, um louco apaixonado por Deus e pelas almas, tinha sobre a
natureza e o processo da salvação.

Todo aquele que abraça a missão de salvar almas precisa estar fortemente convencido dessa verdade espiritual:
salvar almas não é só levar a pessoa a ter um encontro pessoal com Jesus Cristo, mas levá-la a um itinerário de
crescimento espiritual, um caminho de amadurecimento na fé, capaz de criar nela, progressivamente, um caráter
semelhante ao de Jesus e um conhecimento cada vez mais íntimo de Deus.

Essa missão é de cada cristão individualmente, mas ela precisa se desdobrar na forma como organizamos nossas
atividades evangelizadoras. Trocando em miúdos, se um grupo compreende que sua missão é salvar almas, ele precisa
se organizar não só para promover o anúncio do Kerygma e a experiência do batismo no Espírito, mas também
proporcionar às almas alcançadas o itinerário de seguimento de Jesus, os meios de aprendizagem e amadurecimento
na fé que as levem a se consolidar em seu caminho de conversão: em uma expressão, fazer discípulos.

Essa deficiência de compreensão da natureza da salvação é uma das causas da anemia espiritual de muitos
grupos de oração e missões JS: grupos e missões cheios de bebês espirituais, que não ganham substância porque
são alimentados tão somente com ralo leite espiritual. Na melhor das hipóteses, algumas pessoas buscam em outros
lugares esse alimento desejado. Na pior, por serem bebês espirituais, se tornam presa fácil para ação do inimigo,
e acabam sucumbindo diante de seus contínuos assaltos. O fato é: perdemos gente que foi alcançada para Jesus
porque não compreendemos a necessidade de discipular, de gradualmente oferecer alimento mais sólido num espaço
diferenciado destinado para isso (ou não tivemos a coragem e o sacrifício que exige fazê-lo).

Compreendendo essa questão, a pergunta é, como organizar a missão para atender essa exigência de discipular
pessoas (que é mandamento de Jesus)?

Uma possibilidade a ser evitada é cair na tentação de eliminar os momentos Kerygmáticos de um grupo ou
missão, para atender a essa demanda interna de discipular pessoas. Isso seria ir de um extremo (o Kerygma sem
discipulado) a outro (o discipulado sem Kerygma). O momento kerigmático é importante não só para alcançar os de
fora, como também para reavivar a paixão por Deus e Seu evangelho por aqueles já alcançados pelo anúncio da boa
nova. Suprimir o Kerygma é a solução errada. A solução correta é criar espaços dentro da missão distintos, capazes
de dar alimento mais sólido do que o ralo leite espiritual dado a quem está tendo seu encontro com Jesus.

45
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Esse espaço distinto deve ser organizado tendo em vista a tarefa a que se propõe: o desafio aqui não é levar
as pessoas a ter um encontro pessoal com Jesus para conversão, mas fazê-las crescer na união com Cristo e no
conhecimento íntimo de Deus. Portanto, a forma de conduzir momentos como esse são diferentes: discipular pessoas
requer cuidados e ênfases próprias.

1.1. Os princípios do discipulado


De tudo que foi visto, fica clara a necessidade de ter um espaço específico na missão para a fase do discipulado,
que é diferente da fase do anúncio kerigmático. Uma das metáforas de Paulo, os cristãos como lavoura de Deus,
serve para nos fazer compreender os valores ou princípios essenciais do discipulado.

Uma lavoura precisa ter seu terreno preparado antes da semeadura. Após ter sido cuidadosamente plantada, o
broto resultante da semente precisa de cuidados: alimentação (adubo), rega, limpeza e combate a ervas daninhas.

Na Igreja, não cultivamos plantas, cultivamos almas para Deus. Pela sua importância, esse cultivo merece ainda
maior cuidado: estamos lidando com o destino eterno de pessoas. Temos desde os pequenos brotos quando se
encontraram com Cristo, frágeis, facilmente “arrancáveis”, até árvores que, pela graça, criaram raízes profundas e dão
frutos abundantes, abrigando todo tipo de aves do céu. Entre um estágio e outro, as mais variadas situações: árvores
antigas, mas doentes por diversas pragas, plantas novas e com alguma vitalidade, plantas que precisam de correção
no seu crescimento por causa do desvio, são inúmeros os estados espirituais das plantas que fazem parte da lavoura
de Deus.

Isso demonstra que, para Paulo, o discipulado é um trabalho “artesanal” de cuidado das almas, em vistas de
suas necessidades particulares. A primeira lição que extraímos disso é que o discipulado eficaz precisa se pautar pelo
princípio da pessoalidade.

A formação de um novo cristão não é meramente o despejamento de conteúdo sobre a mente da pessoa, mas a
lapidação, sob o mover do Espírito, do caráter de Cristo na alma.

Portanto, a forma de organizar o discipulado em uma missão ou grupo deve levar em conta sempre essa
dimensão da pessoalidade. Se a identidade da pessoa se dilui na massa, se torna impossível identificar a evolução
de sua caminhada, a forma organizativa do discipulado não corresponde ao seu objetivo. Os meios precisam se
adequar aos fins. O maior discipulador de todos os tempos e nosso modelo não age dessa maneira: “A este [o bom
Pastor] o porteiro abre, e as ovelhas ouvem sua voz; Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz às pastagens”
(Jo 10,3). O bom pastor conhece a ovelha por seu nome, e a trata de acordo com sua individualidade. Quem exerce o
ministério vinculado ao discipulado precisa também assumir a mesma postura do Bom Pastor: conhecer suas ovelhas
e chamá-las pelo nome. Pessoalidade, princípio basilar do discipulado.

O outro princípio que deve nortear o discipulado é que ele deve levar a pessoa a fazer uma experiência com as
verdades reveladas por Deus, e com Deus, que é a própria Verdade. O discipulado serve para que a pessoa cresça no
conhecimento de Cristo. Esse conhecimento passa pelo intelecto, mas não para nele. A formação e discipulado que
atinge somente o intelecto é deficiente: Jesus quer transformar o homem todo, não só sua mente. O conhecimento
de Deus, para o judeu, é mais do que informação adquirida. É verdade comunicada que gera relacionamento e
intimidade. O conhecimento de Deus, portanto, é a revelação do próprio Deus que me leva a mergulhar mais fundo
nEle, a ser mais íntimo dEle pela contemplação dAquilo que Ele é.

São Paulo define esse processo em 2 Cor 3,18: “Todos nós, porém, com o rosto descoberto, refletimos a glória
do Senhor e, segundo esta imagem, somos transformados, de glória em glória, pelo Espírito do Senhor”. Note:
1. o Senhor, pelo Seu Espírito, é quem nos transforma; 2. a transformação é gradual, de glória em glória. Glória
significa manifestação de quem Deus é. Isso significa que somos transformados sempre que fazemos essa experiência
de Deus se revelando a nós e mudando algo em nós. Se o discipulado é um meio usado por Deus para fazer-nos
crescer em conhecimento dEle, mas num conhecimento experiencial, e não meramente intelectual, o discipulado
precisa levar-nos a ocasiões de adentrar na glória de Deus. Discipulado, portanto, não é só falar de Deus, mas
46
Quattuor - Formação para Lideranças JS

sobretudo ensinar a falar com Deus e exercitar esse falar com Deus. Não é só dar um manual de como escalar
uma montanha, mas levar alguém a uma montanha que você já escalou e contemplar juntos a beleza que essa subida
proporciona.

Recapitulando: o discipulado eficaz precisa de pessoalidade e precisa ultrapassar uma compreensão meramente
intelectual. Nós somos seres amantes, criados para adorar, não máquinas de pensar. Somos seres sociais. É preciso
pensar o discipulado nesse sentido, levando em conta esses dois princípios: pessoalidade e mover o discípulo para
fazer uma experiência contínua.

1.2. O que a Bíblia diz sobre o discipulado?


Definindo de outra maneira, discipular pessoas para Jesus é levar um povo do Egito da escravidão do pecado à
Terra prometida da salvação. É percorrer o caminho da escravidão para a liberdade. Compreendendo os princípios
do discipulado, é importante perceber o que a história do povo de Deus nos ensina sobre isso. Como diz São Paulo,
“Estas coisas aconteceram para nos servir de exemplo” (1 Cor 10,6a).

Um dos fatos mais importantes a nos ensinar sobre discipulado está numa passagem do Êxodo:

“No dia seguinte, Moisés assentou-se para fazer justiça ao povo, que se conservou de pé diante dele desde a manhã
até a tarde. O sogro de Moisés, vendo todo o trabalho a que ele se dava pelo povo, disse-lhe: “Que é isso que fazes
com o povo? Por que te sentas só no tribunal com toda essa gente que se conserva em torno de ti da manhã à tarde?”
“É que, respondeu Moisés, o povo vem a mim para consultar Deus. Quando têm alguma questão, vêm procurar-me
para que eu julgue entre eles, fazendo-lhes saber as ordens de Deus e suas leis”. O sogro de Moisés disse-lhe: “Não
está certo o que fazes! Tu te esgotarás seguramente, assim como todo esse povo que está contigo, porque o fardo é
pesado demais para ti, e não poderás levá-lo sozinho. Escuta-me: vou dar-te um conselho, e que Deus esteja contigo!
Tu serás o representante do povo junto de Deus, e levarás as questões diante de Deus: ensinar-lhes-ás suas ordens
e suas leis, e lhes mostrarás o caminho a seguir e como terão de comportar-se. Mas escolherás do meio do povo
homens prudentes, tementes a Deus, íntegros, desinteressados, e os porás à frente do povo, como chefes
de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta e chefes de dezenas. Eles julgarão o povo todo o tempo. Levarão a
ti as causas importantes, mas resolverão por si mesmos as causas de menor importância. Assim aliviarão a tua carga,
levando-a consigo. Se fizeres isso, e Deus o ordenar, poderás dar conta do trabalho, e toda esta gente voltará
em paz para suas habitações.” (Ex 18,13-23)

O discipulado eficaz numa missão, grupo de oração, paróquia, precisa da divisão em pequenos grupos que
permitam que as pessoas sejam cuidadas e atendidas em suas necessidades específicas. Isso preserva o princípio da
pessoalidade do discipulado.

Muitas missões ou grupos padecem justamente por isso: não suscitam, incentivam e formam novas
lideranças para ajudar na tarefa de guiar um povo do estágio de ex-escravos recém libertos do pecado a homens
livres possuidores da terra prometida, de bebês espirituais a discípulos missionários maduros e enraizados em Cristo.
Assim, se quebra o princípio da pessoalidade e a tarefa de levar o povo a um outro estágio espiritual se torna pesado
e menos frutífero, quando não infrutífero.

Um outro exemplo importante é o da Igreja nascida de Pentecostes. Igreja do Novo Testamento teve um
crescimento espetacular nos seus primórdios. A primeira pregação, realizada por Pedro, teve uma eficácia extraordinária:
“Os que receberam a sua palavra foram batizados. E naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número
dos adeptos” (At 2,41).

Imagine o desafio: de algumas dezenas de discípulos medrosos no cenáculo a 3 mil membros no espaço de uma
manhã. Como você daria uma resposta a esse crescimento vertiginoso? Essa foi a resposta dada pelo Espírito naquela
época:

“Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações.
47
Quattuor - Formação para Lideranças JS

De todos eles se apoderou o temor, pois pelos apóstolos foram feitos também muitos prodígios e milagres em
Jerusalém e o temor estava em todos os corações. Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam as
suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração
freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza
de coração, louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros
que estavam a caminho da salvação.”

Os primeiros cristãos se reuniam sempre no templo. A multidão de crentes afluía àquele local para adorar a
Deus, não mais como os outros judeus, mas como seguidores do Messias ressuscitado. Mas a Igreja desde o início
estabeleceu pequenos grupos (princípio da pessoalidade) onde as pessoas cresciam na doutrina dos apóstolos e faziam
uma experiência com o Senhor em oração (se reuniam nas casas para a fração do pão – princípio do experienciar
Deus a partir do que Ele nos revela de si mesmo), tendo uma vida em comum (vida fraterna).

Essa experiência de pequenos grupos possibilitava que eles estivessem atentos uns aos outros, distribuindo os
bens de acordo com a necessidade de cada um. Essa forma de organizar a Igreja possibilitou àquela comunidade se
tornar uma testemunha fiel, capaz de atrair outros – “e o Senhor a cada dia ajuntava outros que estavam a caminho
da salvação” At 2,47) – num contexto tão ou mais hostil ao Evangelho do que o nosso.

Seria impossível discipular diretamente 3 mil pessoas. Numa assembleia de 3 mil crentes, cada pessoa é só mais
um no meio da multidão. É impossível, humanamente, atentar para 3 mil pessoas em suas necessidades específicas.

No entanto, porque aqueles cristãos se reuniam nas casas (e imagine o tamanho das casas na Jerusalém da época
de Jesus, que deviam comportar, no máximo, algumas poucas dezenas de pessoas) para orar, para partilhar a palavra
do Senhor e para ter comunhão uns com os outros, era possível que eles fossem discipulados uns pelos outros.

A verdade é que a resposta aos desafios das nossas missões e grupos não é reinventar a roda. A resposta de Deus
está lá, na Sua Palavra, na história e na Tradição da Igreja. O que precisamos fazer é aplicar o que o Espírito nos
ensina, nos alinhar à sua forma de agir, diante de nossa realidade concreta. Traduzir os princípios eternos da Palavra
de Deus e de Sua sabedoria aos desafios do nosso tempo. Enquanto buscarmos outros meios que não os oferecidos
pela Palavra de Deus, vamos continuar enxugando gelo.

2. Como se organiza um pequeno grupo?


O pequeno grupo em sua missão pode ser uma célula, uma escola de servos, ou qualquer outro formato que você
queira dar. O importante não está no formato, mas nos princípios. Portanto, ele deverá levar em conta, primeiro, o
princípio da pessoalidade.

Nesse princípio, é preciso estar atento a duas coisas. A primeira, que deve haver uma proporção razoável entre o
número de pessoas que assumir a atarefa de formar (conduzir o discipulado) e aqueles que serão formadas. É muito
difícil que uma pessoa que exerça o papel de formador/discipulador consiga acompanhar um grupo de 20 pessoas
ou mais. O mais razoável seria que houvesse uma proporção de 1para 10, ou um para 15 no máximo. Essa proporção
é importante para garantir àquele que exerce o papel de discipular a capacidade de estar atento aos seus. A segunda
coisa, é que mesmo que estejamos respeitando essa proporção, um grupo grande demais acaba tendendo a perder a
dimensão da pessoalidade. Se tivermos uma escola de servos com 90 servos para serem formados e 10 formadores/
discipuladores, nós temos uma proporção de 1 para 9, mas mesmo assim, um grande risco de perder a dimensão
pessoal.

O segundo princípio, o da experiência, requer que conduzamos o pequeno grupo sabendo que não vamos despejar
conteúdo apenas, mas envolver a totalidade da pessoa que está lá: sua dimensão espiritual, emocional, social, afetiva,
física. O ser humano todo, não só seu intelecto. Com isso não queremos cair no erro da experiência sem doutrina, mas
enfatizar o equilíbrio sempre pedido pela Igreja: doutrina e experiência se complementam e se requerem. Adoração
em espírito (experiência) e em verdade (de acordo com a sã doutrina). Tais são os adoradores que o Pai procura, e tais
são os adoradores que queremos encontrar.
48
Quattuor - Formação para Lideranças JS

2. 1. Experiência: iniciando com o louvor e oração


Um pequeno grupo começa geralmente com um louvor, na simplicidade. Mesmo sem alguém com preparo
musical, é importante quebrar o gelo em todo pequeno grupo. Tenha como modelo os primeiros cristãos, que se
reuniam em suas casas e praticavam o que o apóstolo Paulo ordenava: “Enchei-vos do Espírito. Recitai entre vós
salmos, hinos e cânticos espirituais. Cantai e celebrai de todo o coração os louvores do Senhor. 20.Rendei graças, sem
cessar e por todas as coisas, a Deus Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo!” (Ef 5,18b-20).

Use algumas músicas simples, curtas e alegres, de preferência aquelas conhecidas no grupo de oração ou reunião
da missão, ou, se desconhecidas, fáceis de aprender, mas que conduzam ao louvor e oração e estejam conectadas com
aquilo que vai ser abordado. Lembre-se sempre: a simplicidade é um dos elementos chave de um pequeno grupo
eficaz, porque ela deixa os participantes mais à vontade, mais abertos.

Ajude as pessoas a orarem, nesse momento. Aqui já se inicia um processo de discipulado, onde a pessoa é ajudada
a dar passos na oração. Com o tempo, você pode delegar a outras pessoas do seu pequeno grupo a conduzirem o
louvor e a oração. O importante é você fomentar a pessoa, sem pressioná-la, a rezar.

2.2. Ensino: perseveravam eles na doutrina dos apóstolos


Os primeiros cristãos se tornaram testemunhas da Verdade, que foi transmitida oralmente nas primeiras
comunidades. Embora o discipulado não seja meramente “conteudista”, ensinar a Palavra de acordo com o Magistério
da Igreja é fundamental. Não de maneira abstrata, mas de maneira concreta, pois a Palavra tem a respostas para os
dilemas de todos os homens, de todas as culturas, de todos os tempos. É expor o que a Palavra fala para os anseios do
homem de hoje. No nosso caso, para os jovens de hoje, que tiveram um encontro pessoal com Jesus, mas conhecem
muito pouco dEle e de sSeu seguimento.

Como manter a chama acesa pelo batismo no Espírito Santo? O que fazer para ser transformado? Como enfrentar
os desafios e tentações que o inimigo lança para os jovens? Como vencer a masturbação, o vício de drogas? Como se
relacionar de maneira cristã? Tudo isso encontra resposta na Palavra de Deus e no magistério da Igreja.

Aqui vão algumas dicas para aqueles que lideram pequenos grupos.

A) Pense a formação com um texto base para orientar toda a discussão. No caso do JS, além da Bíblia,
nossas cartilhas (de Vida de oração ou de Servos), são fundamentais. Mas mesmo que se use a cartilha ou o catecismo,
por exemplo, seria ideal, sempre que possível, partir da Bíblia, usando esses outros materiais como luzes. O texto
bíblico não precisa ser muito longo, mas também não tão curto que não se possa extrair alimento suficiente dele.

B) Prepare a formação com um esboço dos principais pontos a abordar em cada reunião. Destaque de
3 a 5 pontos principais que constituam a essência da formação. Mais que 5 pontos poderia ficar muito disperso. É
melhor digerir bem pouca coisa do que não assimilar muita.

C) Conduza a formação formulando perguntas. As perguntas precisam ser formuladas de tal modo que
exijam da pessoa um raciocínio para descobrir o que o texto bíblico ou o tema da formação quer nos dizer. A tarefa
do líder é guiar a discussão de maneira a eles descobrirem a verdade de Deus e o impacto que aquela verdade específica
tem em suas vidas. É importante gerar a participação do membro do pequeno grupo, fazê-lo se envolver na partilha.

Para isso, não tenha medo dos momentos de silêncio. Uma boa pergunta pode gerar perplexidade, e num pequeno
grupo com pessoas novas na caminhada, é possível que elas se sintam retraídas, como se tivesse que “acertar” as
respostas. Evite fornecer as respostas, ajude-os a buscarem-nas no tema que está sendo trabalhado. Não os deixe cair
na zona de conforto de ter sempre alguém que lhes dê a resposta pronta.

D) Extraia conclusões. Tudo o que foi discutido deve levar a uma resolução prática. Percebeu a importância
da Eucaristia e a sua eficácia? O que fazer após isso? Percebeu como age a tentação no campo sexual, os ardis que o
49
Quattuor - Formação para Lideranças JS

inimigo usa para te fazer cair e como age sua própria carne? Que meios utilizar para exercitar a virtude da castidade?
É assim que a pessoa que está sendo discipulada vai, aos poucos, remodelando sua vida à imagem da vida de Jesus.

E) Descentralize funções e tarefas, forme novos líderes. Nem tudo precisa ser feito pelo líder. O grupo
saudável é aquele em que as pessoas discipuladas vão assumindo também o papel de discipuladores. Delegue a um
membro do grupo a condução inicial, a escolha das músicas par ao louvor, a formação, a formulação de perguntas
para orientar o estudo. Auxilie-os nessa tarefa, se eles têm dificuldades. Atribua funções a partir das potencialidades
que você enxerga. Com o tempo, são esses novos líderes que assumirão outros pequenos grupos, fazendo a missão
crescer sem perder sua essência e a qualidade do discipulado.

2.3. Comunhão: gere vida fraterna


O tempo final do grupo de discipulado deve ser para gerar vida fraterna. É esse tempo que permite que você
esteja atento à vida do outro, em que, às vezes, vem à tona algo que não foi partilhado no momento da formação.
Esses laços de comunhão gerados pela vida fraterna faz com que a pessoa encontre novas formas de se socializar
em padrões diferentes dos mundanos, que ela cultive novas amizades em Cristo que a ajudem a ir para o céu. Essa
também é uma das funções do discipulado. Essas novas relações serão um suporte para quando a pessoa vacilar,
fraquejar ou mesmo desistir. Se o seu pequeno grupo mantém o princípio da pessoalidade, vai ser fácil perceber
aqueles que se afastaram e, pela familiaridade gerada, também vai ser mais fácil se aproximar.

3. Considerações finais
Os pequenos grupos de formação devem ser como que incubadoras, ou melhor, úteros espirituais. Aqueles
que os lideram devem encarar o fato de que exercem (ou pelo menos deveriam exercer) paternidade espiritual: têm
em suas mãos bebês ou crianças espirituais, com a missão de educá-los, alimentá-los, cuidá-los, para que se tornem
adultos na fé e enraizados em Jesus.

Portanto, as missões ou grupos de oração precisam se organizar para isso. Se o pequeno grupo vai tomar o
formato de uma escola ou uma célula p. ex. (embora ache que o ideal seriam células), só a realidade concreta, à luz
da escuta do Espírito, vai dizer. É mais importante estar atento aos princípios do discipulado do que a esquemas pré-
fixados.

O discipulado exige de nós um esforço de redesenhar nossas missões, atentos ao desenrolar do processo de
salvação. Esse esforço é árduo, não porque o discipulado seja complexo, mas porque exige de nós estudo, crescimento
na fé, sacrifício e doação pelas almas, num caminho longo e tortuoso que é acompanhar a jornada espiritual de uma
pessoa. No entanto, é um caminho que dá frutos. Foi esse caminho que levou a Igreja a derrotar o maior império de
sua época, a produzir muitos santos, doutores e mártires. Esse caminho, assumido por nós, pode também produzir
uma geração robusta de jovens adoradores que incendeiem a nossa nação.

50
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Projeto de discipulado – primeiros passos


No primeiro texto do Projeto de discipulado, intitulado “Projeto de discipulado – vida de oração”, identificamos
uma situação que aflige nossas missões hoje: “Se temos levado, com relativo êxito (insisto que podemos sempre melhorar,
e ainda há muito campo para isso), os jovens a fazer a experiência com Jesus através do batismo no Espírito, a formação
e o discipulado têm deixado a desejar”. Esse diagnóstico se dá pela forma como vemos boa quantidade dos
servos encararem a vivência do estilo de vida: de maneira muito descomprometida, relaxada e, até “irresponsável”.
E a conclusão é que precisamos vivenciar o processo de salvar almas como um processo de fato (com o perdão da
redundância), ou seja, como algo que começa com o encontro pessoal com Jesus e o batismo no Espírito Santo, mas
se desenvolve na comunidade cristã (em nosso caso, nas nossas missões a serviço da Igreja), dando à pessoa que volta
para Jesus e para Igreja a possibilidade de aprender a se relacionar com Deus, a crescer na intimidade com Ele e na
compreensão de Sua vontade, através de um cuidado atento e pessoal. A isso chamamos de discipulado.

Nesse sentido, nossas missões iniciaram um esforço de formar equipes formativas que compreendam os
princípios e a prática do discipulado (dois textos e quatro vídeos no Youtube), e sejam responsáveis por implementar
o discipulado de maneira continua como parte integrante e viva de nossas missões.

Nossas missões não pararam e não devem parar o processo da evangelização – levar outras almas ao primeiro
encontro com Jesus (ou ao reencontro com Ele). Isso coloca diante de nós, entretanto, a necessidade de não repetirmos
os erros do passado! Se a ausência de discipulado (ensino, cuidado, proximidade e pessoalidade constantes) levou-nos
a grandes problemas com servos imaturos, inconstantes, cuja vida é quase um contra testemunho, até abandonos,
é necessário pensar o discipulado dos próximos jovens que farão nossos Maranathas ou irão aos nossos encontros.

Para isso, é preciso responder algumas perguntas: qual a especificidade de uma alma que está saindo do mundo
e tendo seu primeiro encontro com Jesus? O que é necessário para fazê-la perseverar? Que tipo de ensinamento ela
precisa receber?

Santa Teresa e o castelo interior


Santa Teresa d’Ávila descreveu de maneira magistral a dinâmica de crescimento no caminho da santidade, a
partir de sua própria experiência. Não por acaso, ela é a primeira mulher elevada ao status de Doutora da Igreja. A
compreensão que o Senhor lhe deu da vida espiritual, muito prática e ao mesmo tempo muito profunda, edificou
muitos outros cristãos (só ver a quantidade de santos inspirados pela espiritualidade teresiana ou as novas comunidades
que surgiram bebendo dessa fonte). Como Doutora da Igreja, tem muito a nos ensinar.

Santa Teresa usa uma metáfora para descrever o caminho da alma no progresso da santidade: ela diz que a alma
é como um castelo, onde a própria alma precisa entrar, e em cujo centro reside o próprio Deus. Nesse castelo há
muitas moradas, que indicam o grau de proximidade e união da alma com Deus. Para uma melhor compreensão de
como avançar nesse caminho de união, ela diz que denomina sete estágios, ou sete moradas, aposentos nesse castelo.

Para compreender o discipulado das almas que tiveram um encontro com Jesus, basta-nos saber as dinâmicas
das primeiras moradas. Compreendendo o movimento da alma nas primeiras moradas e o que a faz avançar para as
moradas seguintes, aprenderemos em que devemos focar para fazer com que a alma se firme, não volte atrás nem saia
do castelo, mas progrida em santidade dando frutos de conversão e serviço. Começar a fazer isso a partir de agora em
nossas missões é evitar repetir os erros que já cometemos para que não aconteçam no futuro.

De fora do castelo para as primeiras moradas


Para Santa Teresa, a alma fora do castelo (que está fora de si mesma) é a alma em pecado mortal, a alma que
não está em estado de graça. E por “fora do castelo”, ela quer dizer justamente aquelas almas que se encantam com
tudo que há no mundo, com as propostas sedutoras dessa vida que nos roubam de Deus e acabam pondo nelas sua

51
Quattuor - Formação para Lideranças JS

esperança. São as almas que vivem um processo de idolatria como algo permanente: tem qualquer criatura como seu
deus. Essas são as almas que o JS nasceu para alcançar, as almas que ainda não entraram no castelo interior onde Deus
habita e por isso vagam fora dele procurando no mundo se preencher¹. Sobre essa situação, a Santa diz que não há
trevas tão medonhas e nada tão escuro e negro como estar em pecado mortal, ainda mais de maneira habitual.

Quando a alma, tocada pela graça de Deus, decide voltar para Ele, uma vez perdoado o pecado mortal (pelo
arrependimento seguido do batismo ou confissão), ela entra nas primeiras moradas. É quando nós tivemos nosso
encontro pessoal com Jesus, decidimos parar de procurar as coisas fora do castelo (no mundo, no pecado) e buscá-lO
porque fizemos uma experiência com Seu amor. No entanto, a alma das primeiras moradas é ainda um bebê espiritual.

Santa Teresa diz que essa alma, quando entra no castelo, entra sempre com boas intenções. Ou seja, quando nos
voltamos para Deus, voltamo-nos com alguma decisão boa de corresponder à Sua vontade, de amá-lO, de guardar
seus mandamentos. Todos que tiveram um encontro real após um Maranatha experimentaram isso. Ocorre que,
assim como a alma entra nesses primeiros aposentos que são o início da vida espiritual, também “o demônio, sempre
mal-intencionado, deve colocar também nesses aposentos muitas legiões de demônios para impedir que passem de
uns para outros. Como a pobre alma não se dá conta disso, ele a engana de mil maneiras”. É o que comumente se diz:
no início da conversão, a alma saiu do mundo, mas o mundo ainda está fortemente presente na alma. A memória do
pecado, as tentações de olhar para trás, para as cebolas do Egito, do tempo da escravidão, são fortes e muito presentes.

Santa Teresa diz que “nas primeiras moradas, as pessoas ainda estão iludidas pelo mundo, mergulhadas nos
prazeres que ele oferece (...). Assim essas almas são vencidas facilmente, embora desejem não ofender a Deus e façam
boas obras”. Nesse estágio espiritual, a alma se encontra ainda muito fraca e muito presa às coisas do mundo. Se ela
não progride, corre o risco de deixar endurecer de novo o coração e voltar para o mundo ou ficar na Igreja vivendo
como um mundano, o que é pior pelo contratestemunho que dá.

“Vocês vão notar que nestas primeiras moradas quase não chega nada da luz que sai do aposento onde o Rei está”
[no centro da alma, a sétima morada]. “Embora a alma não se encontre aqui debaixo daquela escuridão tenebrosa que
a envolvia quando estava em pecado [fora do castelo], é como se ela estivesse, de alguma maneira, anuviada”. Note
que essa alma ainda vê pouco a luz de Deus, o que lhe dá a possibilidade de se encantar mais facilmente, novamente,
pelas coisas do mundo. Esse é o drama que vivemos com muitos jovens após o Maranatha: parece-lhes que a atração
de Deus não é tão forte, e consideram frequentemente voltar para a lama de onde saíram. Por quê? Santa Teresa
responde: “Não por culpa do aposento [das primeiras moradas], e sim porque entraram com a alma muitas criaturas
nocivas, como cobras e outros seres venenosos, que não a deixam reparar na luz. (...) O lugar está iluminado, mas a
pessoa não o vê, impedida por essas feras que lhe fazem desviar os olhos e não enxergar a não ser elas. Assim deve
ser a alma que, embora não se encontre em mau estado [porque não está em pecado mortal], está mergulhada nas
coisas do mundo, em suas ocupações, honras e negócios”.

Note que a estratégia de satanás e a condição da alma nas primeiras moradas é de manter o olhar da alma
excessivamente voltado para as coisas do mundo, sejam as lícitas, sejam as pecaminosas. Embora a pessoa tenha feito
alguma experiência com Deus, essa experiência geralmente não foi forte o suficiente para fazê-la fixar decididamente
o olhar no Senhor. Por isso, ela ainda olha muito para todas as coisas mundanas de que ainda não se desapegou. Esses
apegos são grandes entraves e ao mesmo tempo grandes perigos, porque por eles a alma não só deixa de avançar,
como pode ainda ser arrastada para fora do castelo de onde veio, para o mundo de pecado que decidiu abandonar.

Das primeiras para as segundas moradas


Se nas primeiras moradas estamos em estado de graça, porque é necessário avançar para outras? Porque não
ficar nesta somente? Poderíamos responder de diversas maneiras e dar muitos motivos importantes, mas um bem
pragmático já é suficiente. A alma na primeira morada corre sempre grande risco de voltar para fora do castelo. Esse
risco correrá sempre enquanto estiver viva, mas a alma que permanece na primeira morada e não busca avançar pode
ser comparada à pessoa que, imprudentemente, anda a beira do precipício porque quer, tendo a possibilidade de ir
para um local mais seguro. Qualquer passo em falso pode custar muito caro para essa pessoa. Assim também, a alma
que não se esforça para sair das primeiras moradas, mas vive como cristão de salário mínimo, está colocando em risco
52
Quattuor - Formação para Lideranças JS

sua salvação.

Um projeto de discipulado que pretenda alcançar essas almas necessita ser pensado em consideração à sua situação
específica. Precisa levar em conta: 1. a fraqueza de sua vontade e das outras faculdades em geral (inteligência muito
formada pela mentalidade do mundo e pouco iluminada pela evangelho e memória muito povoada pelas coisas do
mundo e situações de pecado); 2. seu desconhecimento sobre os meios de avançar, sobretudo da oração, que, nas
palavras de Santa Teresa, é a porta de entrada do castelo e é também o meio de tirar o olhar das criaturas venenosas
que entram nas primeiras moradas e voltá-lo para a luz que chega do Rei que está no centro do Castelo.

Tudo que vem a seguir leva em consideração essas realidades.

Santa Teresa diz que a característica das almas que estão nas segundas moradas é que “trata-se de que já começaram
a ter oração e entendem quanto lhes importa não ficar nas primeiras moradas”. 1. “Pessoas que começaram a ter
oração”: são pessoas que desenvolveram o hábito regular e perseverante da oração, mas não qualquer tipo de
oração. Oração para Santa Teresa, aqui, é oração de intimidade. Ou o que ela chama de oração mental: a meditação.
Para Santa Teresa, as almas que desenvolveram regularmente a meditação (não confundir com meditação zen, trata-se
de meditação cristã). A meditação de Teresa é a leitura orante de um texto espiritual (das Escrituras, por exemplo),
que nos leva a penetrar de maneira mais profunda no mistério de Cristo. Para nós, sarados, é a pedrinha da
leitura orante da Palavra. 2. “Entendem quanto lhes importa não ficar nas primeiras moradas”: como essas almas
começaram a olhar com mais frequência, através da oração de intimidade, para o centro do castelo, elas percebem a
necessidade de avançar para uma união mais profunda com Deus.

O que devemos fazer para que as pessoas avancem das primeiras para as segundas moradas?

1. Ser um auxílio para sua vontade enfraquecida. Como essas almas ainda não têm sua vontade robusta, a
nossa proximidade constante é um poderoso auxílio para que não desanimem. O discipulado dessas almas, no
início, precisa de uma presença mais constante, justamente para ser um amparo. Como uma criança aprendendo a
andar precisa de um auxílio mais constante, ao passo que quando ela tem anda mais firme pode ficar mais “solta”,
também o discipulado dessas almas ganha mais eficácia quando estamos próximos a elas com maior regularidade,
porque a possibilidade de quedas é menor. Como faremos isso? Além da atenção particular (lembre-se do princípio
da pessoalidade que é próprio do discipulado), é importante que os encontros de discipulado com a pessoa que saiu
de um Maranatha tenham uma periodicidade bastante próximo. A nossa proposta é que, após um Maranatha, os
primeiros encontros sejam preferencialmente semanais.

2. Ensiná-las a ter oração, primeiramente a mais simples, vocal, porque muitas pessoas vêm dos nossos
Maranathas e não sabem nem isso, mas, sobretudo, a oração de intimidade a partir da lectio divina. Dessa
forma, a nossa proximidade como um auxílio da vontade da pessoa torna-se eficaz porque ela não estará olhando
para nós, mas para o centro do castelo. São João da Cruz dizia que “a finalidade da meditação sobre as coisas divinas
é conseguir um conhecimento mais claro de Deus e mais intenso amor por Ele, por menor que seja”. Amor mais
intenso por um conhecimento mais experiencial.

Tendo isso em conta, passamos a propor um cronograma de formação que alinhado com essa realidade. Repetimos
que ideia é que ele seja semanal, de preferência, ou no máximo quinzenal, para garantir maior proximidade e amparo
a essas almas, durante os 8 primeiros encontros. Ele terá como primeira meta dar os fundamentos para a pessoa
aprender a andar: ensiná-la a orar bem, já que, de acordo com os ensinamentos de Santa Teresa, essa é a chave para
sair das primeiras moradas.

Primeiro, abordará a importância da oração para a perseverança, uma vez que esta é o meio ordinário para
alcançar todas as graças. A pessoa precisa ser convencida de que sem oração é simplesmente impossível ela avançar,
porque tudo depende de Deus. Assim, aproveitaremos e já ensinaremos a rezar o terço, essa oração vocal poderosa e
de grande auxílio a todos os cristãos, ainda mais aqueles que estão começando a vida espiritual.

53
Quattuor - Formação para Lideranças JS

Depois, iniciaremos um bom percurso de exercício da lectio divina, a oração de intimidade com Deus. Os próximos
encontros se destinarão a fazer junto com os jovens do pequeno grupo a lectio divina, de maneira a ajudá-los a ter
familiaridade com a Palavra. Nessa fase, o pequeno grupo e o discipulador serão um auxílio poderoso para que a
pessoa não desanime na leitura orante da palavra. Por isso que o ideal é que os encontros sejam semanais, porque
cada encontro será um novo impulso, seja para perseverar, seja para retomar. Sendo semanais, há maior chance de não
deixarmos a alma num estado de desânimo prolongado e manter a chama acesa das que perseveram bem.

Vamos usar a mesma ordem de leitura proposta pelo Mons. Jonas Abib no livro a Bíblia no meu dia-a-dia.

Cada encontro terá um caráter impulsionador: a partir do primeiro, quando explicaremos a oração do terço,
vamos propor para que rezem de maneira diária, o terço, ou pelo menos um mistério, no ritmo da vida. Da mesma
forma, a partir do segundo encontro, impulsionaremos a que as pessoas façam cada dia a leitura orante de um tracho,
em continuidade, da Sagrada Escritura. É importante que cada encontro aponte para a prática diária da oração, e entre
um encontro e outro o discipulador esteja atento às almas que lhe foram confiadas, ajudando-as e encorajando-as.

O encontro subsequente começará com a partilha dos pontos mais interessantes e dúvidas que cada um
encontrou na sua lectio divina durante a semana. Depois dessa partilha, o pequeno grupo irá fazer a lectio divina de
maneira partilhada: leitura silenciosa, meditação breve sobre o texto, partilha sobre o que cada um considerou mais
importante, as dúvidas, e o que entendeu do texto de maneira geral e para a própria vida, e oração em cima daquilo
que foi partilhado. Renova-se então o compromisso de continuar a lectio divina (e o santo terço) até o próximo
encontro, quando será retomada a mesma dinâmica.

Dinâmica do encontro

LECTIO DA
PARTILHA DE PASSAGEM
DÚVIDAS E DO DESIGNADA P/ O
AC OL HI DA QUE CHAMOU DIA – LEITURA,
E OR AÇ ÃO ATENÇÃO NA MEDITAÇÃO,
LECTIO DURANTE PARTILHA,
A SEMANA ORAÇÃO

CONVIVÊNCIA

Cronograma

1ª Semana – Tema: a importância da oração


Trabalhar:
a) a importância da graça de Deus para a vida cristã e sua relação com a oração.
b) a oração vocal – a importância das orações como pai nosso, ave-maria, e ensinar a récita do santo terço;

2ª Semana – Tema: a leitura orante da Palavra


Trabalhar:
a) A importância da oração de intimidade para conhecer Jesus e crescer na fé;
b) Como fazer a lectio divina (leitura, meditação, oração);
c) Exercitar com a passagem de 1Jo 1-2,17;

54
Quattuor - Formação para Lideranças JS

3ª Semana – Tema: lectio divina de 1 Jo


Trabalhar:
a) partilha dos pontos mais interessantes e dúvidas da lectio divina no decorrer da semana que passou;
b) Exercitar a lectio divina 1 Jo 4,7-5,21.

4ª Semana – Tema: lectio divina do Evangelho de João


Trabalhar:
a) partilha dos pontos mais interessantes e dúvidas da lectio divina no decorrer da semana que passou;
b) Exercitar a lectio divina Jo 3,1-21;

5ª Semana – Tema: Lectio divina do Evangelho de João


Trabalhar:
a) partilha dos pontos mais interessantes e dúvidas da lectio divina no decorrer da semana que passou;
b) Exercitar a lectio divina Jo 8,12-47;

6ª Semana – Tema: Lectio divina do Evangelho de João


Trabalhar:
a) partilha dos pontos mais interessantes e dúvidas da lectio divina no decorrer da semana que passou;
b) Exercitar a lectio divina Jo 13,1-20

7ª Semana – Tema: Lectio divina do Evangelho de João


Trabalhar:
a) partilha dos pontos mais interessantes e dúvidas da lectio divina no decorrer da semana que passou;
b) Exercitar a lectio divina Jo 17

8ª Semana – Tema: Lectio divina do Evangelho de João


Trabalhar:
a) partilha dos pontos mais interessantes e dúvidas da lectio divina no decorrer da semana que passou;
b) Exercitar a lectio divina Jo 21

55
Quattuor - Formação para Lideranças JS

56

Você também pode gostar