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Introdução

à bioquímica clínica
veterinária

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Reitor
Rui Vicente Oppermann
Vice-Reitora e Pró-Reitora
de Coordenação Acadêmica
Jane Fraga Tutikian

EDITORA DA UFRGS
Diretor
Alex Niche Teixeira
Conselho Editorial
Carlos Pérez Bergmann
Claudia Lima Marques
Jane Fraga Tutikian
José Vicente Tavares dos Santos
Marcelo Antonio Conterato
Maria Helena Weber
Maria Stephanou
Regina Zilberman
Temístocles Cezar
Valquiria Linck Bassani
Alex Niche Teixeira, presidente

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g
Introdução
à bioquímica clínica
veterinária
Félix H. Díaz González
Sérgio Ceroni da Silva

Terceira Edição
Revisada e ampliada

Colaboradores
Álan Gomes Pöppl
Gonzalo J. Diaz
José Joaquín Cerón
Rómulo Campos

g SÉRIE GRADUAÇÃO

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© dos autores
3ª edição: 2017

Direitos reservados desta edição:


Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Projeto gráfico: Carla M. Luzzatto


Revisão textual da 2a edição: Anna Pinheiro e Magda Collin
Revisão editorial: Lucas de Andrade
Editoração eletrônica: Janaína Horn
Editoração eletrônica complementar: Luciane Delani

Autores Colaboradores

Félix H. Diaz González possui graduação em Medicina Veterinária (Uni- Álan Gomes Pöppl possui graduação em Medicina Veterinária pela Univer-
versidad Nacional de Colômbia, 1979), mestrado em Fisiologia Animal sidade Federal do Rio Grande do Sul (2004). Prestou Residência em Clínica e
(Universidad Nacional de Colômbia, 1985), doutorado em Bioquímica e Cirurgia de Pequenos Animais no Hospital de Clínicas Veterinárias da UFRGS
Fisiologia Animal (Universidade Federal de Viçosa, 1991) e pós-doutora- (2006), onde atualmente atua como endocrinologista. Obteve o titulo de Mestre
do em Bioquímica Clínica (Universidade de Murcia, Espanha, 2007 e Uni- em Fisiologia com ênfase em Endocrinologia pelo Laboratório de Metabolismo
versidade de Santiago de Compostela, Espanha, 2012). Foi professor de e Endocrinologia Comparada do ICBS/UFRGS (2008). Foi Professor Substituto
Bioquímica e Fisiologia Veterinárias da Universidade Nacional da Colôm- de Bioquímica e Hematologia Clínica Veterinária na UFRGS (2007) e de Clíni-
bia - sede Bogotá (1983-1995) e desde 1996 é professor no Departamento ca de Pequenos Animais na UFSM (2010). Realizou doutorado no Programa
de Patologia Clínica da Faculdade de Veterinária da UFRGS. É também de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias da UFRGS, na área de Endocri-
professor orientador do Programa de Pós-graduação em Ciências Veteri- nologia e Metabolismo Animal. Tem experiência na área de Endocrinologia de
nárias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre), atu- pequenos animais, atuando como pesquisador prinicipalmente nos seguintes
ando nas áreas de bioquímica clínica e doenças metabólicas, endócrinas e temas: receptor de insulina, resistência à insulina, diabetes, insulinoma, hipera-
carenciais em animais domésticos. drenocorticismo, hipotireodismo e outras endocrinopatias.
Sérgio Ceroni da Silva possui graduação em Medicina Veterinária pela Gonzalo J. Diaz é médico veterinário, especialista em Análise Instrumental
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestrado em Bio- de Showa-Sangyo Co., Chiba, Japão, M.Sc. em Toxicologia e Patologia e Ph.D.
logia Molecular pelo Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia em Toxicologia e Nutrição da Universidade de Guelph, Canadá, onde também
Molecular (UFRGS) e doutorado em Biologia Molecular pela Universi- realizou pós-doutorado em proteômica. É professor titular de Toxicologia da
dade de Glasgow (Reino Unido). Desde 1987 é professor de Bioquímica Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Nacional da
Clínica Veterinária e Biologia Molecular Aplicada na Faculdade de Vete- Colômbia. Suas publicações, em torno de cem, estão conformadas por artigos
rinária da UFRGS, tendo atuado também como professor orientador no científicos, livros e patentes. Seus interesses em pesquisa estão focados à bio-
Programa de Pós-Graduação em Ciências Veterinárias e como pesqui- transformação in vitro de micotoxinas e os compostos tóxicos de origem natu-
sador no Centro de Biotecnologia do Rio Grande do Sul, dessa mesma ral, especialmente as micotoxinas e aqueles presentes nas plantas tóxicas.
universidade.
José Joaquín Cerón é médico veterinário da Universidade de Múrcia (Espa-
nha), especialista em técnicas analíticas biossanitárias e doutorado em Vete-
D542i Díaz González, Félix H. rinária pela mesma Universidade. Atualmente leciona Patologia Clínica Ve-
Introdução à bioquímica clínica veterinária / Félix H. Díaz terinária na Faculdade de Veterinária da Universidade de Múrcia, onde está
González [e] Sérgio Ceroni da Silva; colaboradores Álan Gomes envolvido em pesquisas sobre biomarcadores sanguíneos em veterinária.
Pöppl, Gonzalo J. Diaz, José Joaquín Cerón [e] Rómulo Campos. –
3. ed. rev. e ampl.– Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2017. Rómulo Campos é médico veterinário formado pela Universidade Nacional da
538 p. il. ; 21x25cm Colômbia, mestre em Ciências Veterinárias pela mesma Universidade e Doutor
em Ciências Veterinárias pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atu-
(Série Graduação) almente leciona Fisiologia Animal e Reprodução na Universidade Nacional da
Inclui figuras e tabelas. Colômbia, campus de Palmira.

Inclui referências.
1. Bioquímica clínica veterinária. 2. Medicina Veterinária. 3.
Metabolismo. 4. Bioenergética. 5. Fotossíntese. 6. Equilíbrio hi-
droeletrolítico ácido-base – Alteração. 7. Proteínas – Compostos
nitrogenados – Bioquímica clínica. 8. Lipídeos – Bioquímica clí-
nica. 9. Glicídeos – Bioquímica clínica. 10. Minerais – Bioquímica
clínica. 11. Bioquímica hormonal. 12. Perfil bioquímico sanguí-
neo. 13. Bioquímica toxicológica. I. Silva, Sérgio Ceroni da. II.
Pöppl, Álan Gomes. III. Diaz, Gonzalo J. IV. Cerón, José Joaquín.
V. Campos, Rómulo. VI. Título. VII. Série.
CDU 577.1:619
CIP-Brasil. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação.
(Jaqueline Trombin – Bibliotecária responsável CRB10/979)
ISBN 978-85-386-0285-9

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À Laura, minha amada filha
À Renildes , minha amada companheira
(FHDG)

Aos nossos alunos, cujo espírito crítico


tem moldado a edição deste livro
(SCS)

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Prefácio à terceira edição

A bioquímica clínica é uma área da me- O presente livro, revisado, atualiza-


dicina veterinária que vem crescendo em do e ampliado em relação à anterior edição,
importância no Brasil e no mundo. A 1a edi- mantém a sua proposta original de revisar
ção deste livro foi publicada em 2003 como aspectos de bioquímica fundamental e meta-
uma ferramenta de apoio didático à discipli- bolismo de tecidos, ao tempo que aborda os
na ministrada na Faculdade de Veterinária conceitos dos transtornos metabólicos mais
da Universidade Federal do Rio Grande do comuns em veterinária. Pela aceitação da
Sul (UFRGS). Desde então, a contribuição obra, os autores perceberam a importância
dos seus leitores, principalmente alunos de de oferecer um texto em temas tanto básicos
vários cursos de Medicina Veterinária e de quanto aplicados, que possam servir de fun-
pós-graduação brasileiros, foi determinante damento na hora de aplicar conhecimentos
na publicação da 2a edição em 2006 dentro na clínica, na fisiologia e na nutrição animal.
do projeto Série Graduação instaurado pela Agradecimento aos nossos colabo-
Editora e a Reitoria da UFRGS. radores que nos acompanham desde a 2ª
Esta 3a edição da obra ganha conteúdo edição, os professores José Joaquín Cerón,
da Universidade de Múrcia (Espanha), e
nos aspectos clínicos dos principais trans-
Rómulo Campos, da Universidade Nacional
tornos metabólicos, endócrinos e carenciais
da Colômbia – campus Palmira.
dos animais domésticos. Nesta ocasião teve
fundamental participação o endocrinolo- Agradecimentos são necessários tam-
gista Álan Gomes Pöppl, da UFRGS, nos te- bém a todos aqueles leitores que enviaram
mas de transtornos endócrinos. O toxicolo- seus comentários sobre a obra, o que contri-
gista e professor da Universidade Nacional buiu para melhorar a edição atual. Também
da Colômbia – campus Bogotá – Gonzalo à Editora da UFRGS, que sempre acreditou
Diaz colabora também com um capítulo so- na importância de oferecer livros didáticos
bre bioquímica toxicológica, onde aborda aos alunos em tempos em que a leitura do li-
os mecanismos de desintoxicação e de ação vro impresso vem perdendo adeptos para os
de alguns tóxicos que operam no metabolis- meios cibernéticos.
mo animal.
Os autores

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Sumário

PREFÁCIO / 7
Capítulo 1
Conceitos básicos sobre metabolismo
BIOENERGÉTICA / 13
Energia livre / 13 • Leis da termodinâmica / 13 • Entropia / 14 • Fluxo da energia na biosfera / 15
• Relação entre energia livre e constante de equilíbrio de uma reação / 16 • O ATP e a transferência de energia química / 17
CICLOS DA MATÉRIA NA BIOSFERA / 20
Ciclo do carbono / 20 • Ciclo do oxigênio / 21 • Ciclo do nitrogênio / 21
METABOLISMO INTERMEDIÁRIO / 23
Função do ATP e do NAD no metabolismo / 25 • A divisão do trabalho no metabolismo / 26
ENZIMAS / 32
Classificação sistemática das enzimas / 32 • Cinética enzimática / 33 • Medida da atividade enzimática / 36
• Inibidores da ação enzimática / 36 • Regulação enzimática / 39 • Isoenzimas / 40
COFATORES ENZIMÁTICOS / 40
Nucleotídeos piridínicos / 41 • Nucleotídeos flavínicos / 42 • Tiamina-pirofosfato (TPP) / 42 • Coenzima A (CoA) / 44 • Piridoxal-fosfato / 45
• Coenzima B12 / 46 • Biotina / 49 • Ácido Fólico (Folacina) / 49
FOTOSSÍNTESE / 50
A clorofila / 51 • Características da energia solar / 52 • Reação geral da fotossíntese / 53
• Reações lumínicas dos cloroplastos / 53 • Reações obscuras da fotossíntese (ciclo de Calvin) / 54 • Plantas C4 / 55
REFERÊNCIAS / 57

Capítulo 2
Alterações do equilíbrio hidroeletrolítico e acidobásico
A ÁGUA NOS ORGANISMOS ANIMAIS / 59
Propriedades físico-químicas da água / 59 • Os produtos de ionização da água / 61
ÁCIDOS E BASES / 61
SOLUÇÕES TAMPÃO OU BUFFER / 62
SISTEMAS TAMPÃO NOS ORGANISMOS ANIMAIS / 64
O sistema tampão fosfato / 65 • O sistema tampão bicarbonato / 66 • Outros órgãos que interferem no equilíbrio acidobásico / 69
EQUILÍBRIO HÍDRICO / 71
O sistema renina-angiotensina / 72 • Vasopressina (Hormônio Antidiurético) / 74
EQUILÍBRIO ELETROLÍTICO / 74
Diferença aniônica (DA) / 75 • Excesso de base (EB) / 76 • Osmolalidade / 76
ALTERAÇÕES DO EQUILÍBRIO HÍDRICO / 77
Desidratação / 77 • Sobreidratação / 80 • Poliúria e polidipsia / 80 • Diabetes insípida / 84
ALTERAÇÕES DO EQUILÍBRIO ELETROLÍTICO / 87
Distúrbios do sódio / 87 • Distúrbios do potássio / 90 • Distúrbios do cloro / 92

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ALTERAÇÕES DO EQUILÍBRIO ACIDOBÁSICO / 92
Acidose metabólica / 93 • Acidose respiratória / 95 • Alcalose metabólica / 96 • Alcalose respiratória / 97 • Acidose láctica
ruminal / 98 • Alcalose ruminal / 104 • Abordagem laboratorial dos desequilíbrios acidobásicos / 107 • Gasometria / 108
REFERÊNCIAS / 110

Capítulo 3
Bioquímica clínica de proteínas e compostos nitrogenados
INTRODUÇÃO / 113
Os aminoácidos como unidades básicas das proteínas / 113 • Classificação dos aminoácidos / 113
• Propriedades químicas dos aminoácidos / 115 • Aminogramas / 116 • Peptídeos e proteínas / 117
• Classificação das proteínas / 117 • Níveis de organização estrutural das proteínas / 118
• Solubilidade das proteínas / 119 • Funções das proteínas / 119
DIGESTÃO E ABSORÇÃO DAS PROTEÍNAS / 120
Animais monogástricos / 120 • Animais ruminantes / 121
CATABOLISMO DAS PROTEÍNAS / 122
Catabolismo dos aminoácidos / 122 • Ciclo da ureia / 124 • Vias catabólicas dos esqueletos carbonados
dos aminoácidos / 126
BIOQUÍMICA DO GRUPO HEME / 128
Biossíntese do grupo heme / 128 • Degradação do grupo heme / 129 • Metabolismo da bilirrubina / 131 • Bioquímica
da respiração / 136 • Transtornos relacionados com compostos nitrogenados / 139 • Icterícias / 144
• Intoxicações que comprometem a função do grupo heme / 148 • Intoxicação por ureia (amônia) / 151
PROTEÍNAS SÉRICAS: QUANTIFICAÇÃO E INTERPRETAÇÃO DE SUAS ALTERAÇÕES / 154
Proteínas totais / 154 • Eletroforese de proteínas / 158 • Proteínas de fase aguda / 161
REFERÊNCIAS / 166

Capítulo 4
Bioquímica clínica de lipídeos
INTRODUÇÃO / 167
DIGESTÃO E ABSORÇÃO DOS LIPÍDEOS / 168
Animais monogástricos / 168 • Animais ruminantes / 169
ÁCIDOS GRAXOS: A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DOS LIPÍDEOS / 170
Ácidos graxos essenciais / 170
OS TRIGLICERÍDEOS: MAIOR FONTE DE ENERGIA / 171
Rancidez dos lipídeos / 172
LIPOPROTEÍNAS: TRANSPORTE DOS LIPÍDEOS NO SANGUE / 172
LIPÓLISE: MOBILIZAÇÃO DE TRIGLICERÍDEOS / 174
Obtenção de energia a partir dos ácidos graxos: -oxidação / 175 • Corpos cetônicos / 179
A BIOSSÍNTESE DOS ÁCIDOS GRAXOS / 181
Ação do complexo ácido graxo sintetase (AGS) / 182
LIPOGÊNESE: A BIOSSÍNTESE DE TRIGLICERÍDEOS / 185
IMPORTÂNCIA DO COLESTEROL / 186
A síntese do colesterol / 188 • O colesterol como precursor dos hormônios esteroidais / 189
AS PROSTAGLANDINAS / 189
Biossíntese das prostaglandinas / 191
TRANSTORNOS DO METABOLISMO DOS LIPÍDEOS / 192
Introdução / 192 • Cetose das vacas leiteiras / 192 • Cetose dos pequenos ruminantes / 201
• Lipidose hepática / 203 • Anormalidades das lipoproteínas plasmáticas / 205 • Hiperlipidemias em animais / 205
• Obesidade / 206
REFERÊNCIAS / 210

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Capítulo 5
Bioquímica clínica de glicídeos
INTRODUÇÃO / 213
DIGESTÃO E ABSORÇÃO DOS GLICÍDEOS / 213
Animais monogástricos / 213 • Animais ruminantes / 215
METABOLISMO DOS GLICÍDEOS / 218
Armazenagem da glicose: o glicogênio / 218 • Metabolismo da glicose / 221 • A oxidação total
do acetil CoA é realizada no ciclo de Krebs / 229 • Gliconeogênese: biossíntese de glicose nova / 237
• Biossíntese de lactose / 242 • Fructose como fonte de energia / 243
O METABOLISMO DOS GLICÍDEOS E OS HORMÔNIOS DO PÂNCREAS / 243
Insulina / 244 • Glucagon / 246 • Somatostatina / 247
TRANSTORNOS DO METABOLISMO DOS GLICÍDEOS / 248
Introdução / 248 • Hipoglicemia / 248 • Hipoglicemia dos leitões / 252 • Insulinoma / 252
• Síndrome da vaca caída / 258 • Laminite / 259 • Deslocamento de abomaso (DA) / 264
• Diabetes mellitus / 268 • Distúrbios de estocagem de glicogênio / 299
• Transtornos congênitos em enzimas do metabolismo dos glicídeos / 299
REFERÊNCIAS / 302

Capítulo 6
Bioquímica clínica de minerais
INTRODUÇÃO / 307
MACROELEMENTOS / 310
Cálcio / 310 • Transtornos do metabolismo do cálcio / 319 • Hipocalcemia (Febre do leite) / 321 • Eclâmpsia puerperal / 326
• Osteoporose / 329 • Raquitismo e osteomalácia / 330 • Hipercalcificação / 331 • Fósforo / 331
• Hemoglobinúria puerperal (Hipofosfatemia aguda) / 334 • Potássio / 335 • Enxofre / 336 • Sódio / 337 • Cloro / 338
• Magnésio / 339• Hipomagnesemia (Tetania dos pastos) / 340
OLIGOELEMENTOS / 341
Ferro / 341 • Zinco / 343 • Cobre / 345 • Iodo / 347 • Manganês / 350 • Cobalto / 351 • Selênio / 352
• Molibdênio / 353
REFERÊNCIAS / 355

Capítulo 7
Bioquímica hormonal
INTRODUÇÃO / 357
CLASSIFICAÇÃO QUÍMICA DOS HORMÔNIOS / 358
CARACTERÍSTICAS DA ATIVIDADE HORMONAL / 361
MECANISMOS DE AÇÃO HORMONAL / 363
O cAMP como segundo mensageiro / 364 • O cGMP como segundo mensageiro / 366
• O cálcio como segundo mensageiro / 366 • Derivados do fosfatidil-inositol como segundos mensageiros / 367
• Outros segundos mensageiros / 369 • As proteínas-quinases como intermediários da ação hormonal / 369
• Ação hormonal mediada por receptores nucleares / 369
TRANSTORNOS DA SECREÇÃO ENDÓCRINA / 370
MÉTODOS DE MEDIÇÃO DA CONCENTRAÇÃO DOS HORMÔNIOS / 372
HORMÔNIOS HIPOTÁLAMO-HIPOFISIÁRIOS / 373
Hipotálamo / 374 • Hipófise / 377 • Transtornos do hormônio do crescimento / 385
HORMÔNIOS DA GLÂNDULA ADRENAL / 392
Hormônios do córtex adrenal / 393 • Transtornos do córtex adrenal/ 403 • Hormônios da medula adrenal / 425
• Transtornos da medula adrenal / 429 • A glândula adrenal e o estresse / 432

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HORMÔNIOS DA GLÂNDULA TIREOIDE / 434
Estrutura da tireoide / 435 • Biossíntese dos hormônios tireoidianos / 436 • Transporte e metabolização dos hormônios
tireoidianos / 436 • Funções dos hormônios tireoidianos / 438
• Mecanismo de ação dos HT / 440 • Regulação da função tireoidiana / 440 • Transtornos da função tireoidiana / 442
• Distúrbios relacionados aos hormônios sexuais / 455
REFERÊNCIAS / 460

Capítulo 8
Perfil bioquímico sanguíneo
INTRODUÇÃO / 463
VALORES DE REFERÊNCIA DO PERFIL BIOQUÍMICO SANGUÍNEO / 463
COLETA E MANEJO DE AMOSTRAS SANGUÍNEAS / 464
Coleta de amostras / 465 • Anticoagulantes / 466 • Determinações de bioquímica clínica / 467
• Determinações de hematologia / 468 • Determinação do estado acidobásico / 469
PRINCIPAIS METABÓLITOS SANGUÍNEOS E SUA INTERPRETAÇÃO / 469
Ácidos graxos livres / 469 • Ácido úrico / 470 • Ácidos biliares / 470 • Albumina / 470 • Amônia / 471
• Bilirrubina / 472 • Cálcio / 473 • Cloro / 474 • Colesterol / 474 • Corpos cetônicos / 475 • Creatinina / 475
• Dióxido de carbono / 477 • Ferro / 477 • Fructosamina / 478 • Fósforo / 478 • Glicose / 479 • Globulinas / 480
• Hemoglobina / 481 • Hemoglobina glicosilada / 481 • Lactato / 482 • Lipídeos totais / 482 • Magnésio / 482
• Potássio / 483 • Proteínas totais / 484 • Sódio / 484 • Triglicerídeos / 484 • Ureia / 485
PERFIL ENZIMÁTICO / 486
Aldolase (ALD) / 488 • Alanina aminotransferase (ALT) / 489 • Amilase (Amyl) / 489 • Arginase (Arg) / 490
• Aspartato aminotransferase (AST) / 490 • Colinesterase (ChE) / 491 • Creatina quinase (CK) / 491
• Fosfatase ácida (AcP) / 492 • Fosfatase alcalina (FA) / 492 • -Glutamil transferase (GGT) / 493
• Glutamato desidrogenase (GLDH) / 494 • Glutation peroxidase (GSH-Px) / 494 • Lactato desidrogenase (LDH) / 494
• Lipase (LIP) / 495 • Sorbitol desidrogenase (SDH) / 495 • Tripsina (TR) / 495 • Outras enzimas / 496
PERFIS BIOQUÍMICOS ESPECÍFICOS / 496
Perfil bioquímico no exercício / 496 • Perfil bioquímico no crescimento / 500 • Perfil bioquímico
no diagnóstico e prognóstico de doenças / 500 • Perfil bioquímico na avaliação da fertilidade / 502
• Perfil bioquímico no diagnóstico de problemas nutricionais / 503
ANÁLISES PARA MONITORAR A FUNÇÃO RENAL / 505
Ureia e creatinina / 505 • Estimação da taxa de filtração glomerular com provas de clearance ou depuração renal / 507
• Cálcio e fósforo / 507 • Potássio / 507 • Hematócrito / 507 • A urinálise como ferramenta para avaliar a função renal / 508
• Caracteristicas organolépticas / 508 • Caracteristicas físico-químicas / 509 • Exame do sedimento / 513
REFERÊNCIAS / 515

Capítulo 9
Introdução à bioquímica toxicológica
INTRODUÇÃO / 517
METABOLISMO E ELIMINAÇÃO DE XENOBIÓTICOS / 517
Metabolismo fase I: citocromos P450 / 517 • Metabolismo fase II / 521 • Fase III: excreção / 526
MECANISMOS BIOQUÍMICOS DE AÇÃO DE TÓXICOS RELEVANTES EM MEDICINA VETERINÁRIA / 529
• Tóxicos que bloqueiam a cadeia respiratória / 529 • Tóxicos que alteram o DNA / 529
• Tóxicos que bloqueiam o ciclo de Krebs / 529 • Tóxicos que interferem com o transporte de oxigênio / 531
• Tóxicos que causam inibição reversível de enzimas / 531 • Tóxicos que causam inibição irreversível de enzimas / 531
REFERÊNCIAS / 534

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Capítulo 1
Conceitos básicos sobre metabolismo

BIOENERGÉTICA Nos animais, a energia é obtida a partir da


oxidação de compostos orgânicos. Segundo
A parte da física que estuda as trocas de Lavoisier, um dos pioneiros no estudo da bio-
energia entre os sistemas materiais é conhe- energética, “[...] os animais que respiram são
cida como termodinâmica. O mesmo estudo, verdadeiros corpos combustíveis que se quei-
quando realizado nos seres vivos, recebe o no- mam e consomem a si mesmos [...]; poder-se-
me de bioenergética. As leis físicas da termodi- -ia dizer que [...] a tocha da vida se acende pela
nâmica são aplicadas de igual forma aos seres primeira vez no momento em que se nasce e
vivos e aos sistemas materiais. Os seres vivos somente se extingue com a morte”.
precisam produzir energia para poder manter
o equilíbrio de sua estrutura, para se locomo-
verem, para a reprodução, e para manterem as Leis da termodinâmica
funções normais nos diferentes processos, tais
como crescimento, gestação, lactação, ovipo- Em termodinâmica, um sistema, do
sição e ciclicidade reprodutiva. Essa energia ponto de vista físico, é definido como uma
é obtida a partir de processos químicos que parte limitada do universo, caracterizada por
ocorrem no interior das células. um conjunto finito de variáveis que o identi-
ficam. Um sistema pode ser um organismo,
uma célula, uma organela citoplasmática ou
Energia livre os componentes de uma reação química. O
sistema é considerado “aberto” quando está
A energia capaz de produzir um trabalho em contato com um meio com o qual tem tro-
é denominada energia livre. Existem várias ca de matéria e energia, como é o caso dos sis-
formas de energia, as quais podem ser inter- temas vivos. Estes nunca estão em equilíbrio
convertidas entre si: energia potencial, cinéti- com seu meio, pois o nível de organização in-
ca, térmica, elétrica, radiante, química, nuclear, terna dos sistemas é maior do que o do meio.
calórica, hidráulica, eólica. No processo de A primeira lei da termodinâmica é o
interconversão de uma forma de energia a ou- princípio da conservação da energia, a qual
tra, sempre há uma perda de energia útil. Nas estabelece que, em qualquer mudança física
máquinas, é aproveitável até 25 % da energia ou química, a energia do sistema mais a ener-
contida em um sistema em uma intercon- gia do meio, isto é, a energia do universo, per-
versão, enquanto, nos processos biológicos, a manece igual. Em outras palavras, a energia
eficiência de conservação da energia em uma pode transformar-se de uma forma a outra,
interconversão é da ordem de 38 %. mas não pode ser criada nem destruída.

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A segunda lei da termodinâmica assi- A entalpia é definida como o conteúdo
nala que todas as mudanças físicas ou quí- calórico de um sistema. Em sistemas quími-
micas tendem a se realizar, de forma espon- cos, refere-se ao número e ao tipo de ligações
tânea, naquela direção que leve a energia entre os átomos de uma molécula, de forma
do universo a se degradar para uma forma que, quanto mais ligações tiver a molécula e
mais dispersa. Portanto, as reações físico- quanto maior for a energia dessas ligações,
-químicas que acontecem na natureza ten- maior é a entalpia do sistema.
dem ao aumento da entropia.
Quando uma reação química é termodi-
Em todos os processos, a entropia do uni- namicamente favorável, isto é, quando ela pode
verso (sistema + meio) tende a aumentar até ocorrer espontaneamente, a reação se realiza até
atingir o equilíbrio, isto é, até que a energia do atingir o seu ponto de equilíbrio, aumentando a
sistema seja igual à energia do meio. De certo entropia do sistema. Isso significa que toda rea-
modo, a entropia pode ser interpretada como ção com tendência a ocorrer de forma espon-
a tendência à desordem ou à aleatoriedade tânea terá uma variação de entropia (ΔS) com
dos processos. A segunda lei da termodinâmi- valor positivo, isto é, a entropia do sistema au-
ca estabelece, portanto, que o direcionamen- menta quando a reação se realiza.
to dos processos físico-químicos no universo Ora, segundo a equação de Gibbs, con-
está determinado pela tendência para atingi- comitante com o aumento da entropia há
rem um valor máximo de entropia. diminuição da energia livre do sistema, ou
seja, ΔG (variação de energia livre) terá um
valor negativo. Por outra parte, numa reação
Entropia termodinamicamente favorável, o sistema
diminui a sua energia interna (entalpia), pois
A entropia é uma forma de energia não- perde organização interna. Dessa forma, au-
-utilizável, ou seja uma energia “inútil”. As menta a “desordem” do sistema, isto é, au-
mudanças de entropia em um sistema ou em menta a entropia. Em compensação, a reação
uma reação química podem ser medidas a libera energia que pode ser aproveitada em
partir da variação de energia livre, definida algum trabalho (energia útil). Se a energia li-
segundo a equação da energia livre de Gibbs: vre não for utilizada para um trabalho, pode
ΔG = ΔH - TΔS ser dissipada na forma de calor.
onde: Como exemplo, podem ser citadas as rea-
ções de oxidação da glicose, que são a forma
ΔG = variação da energia livre do sistema
como os animais superiores tomam energia
(em J/mol)
do meio. No processo, uma molécula de gli-
ΔH = variação da entalpia do sistema (em J/mol) cose (C6H12O6) e seis de O2 são convertidas
T = temperatura na qual é realizado o proces- em 6 moléculas de CO2 e seis de H2O, com
so (em oK; 0 oC= 273 oK) produção de energia livre. Essas reações
são termodinamicamente favoráveis, pois a
ΔS = variação da entropia do sistema (em J/oK). energia contida na glicose (entalpia) é maior
Portanto, a variação de energia livre de que a energia do CO2 e da água. As reações
um sistema está determinada pela variação acontecem com maior velocidade nas células
da entalpia, pela temperatura do meio e pela por ação das enzimas, que são catalisadores
variação da entropia. biológicos. A energia produzida no processo

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de oxidação é utilizada para sintetizar bio- Essa reação é possível devido às eleva-
moléculas complexas e para realizar outros das temperaturas presentes no interior do sol
trabalhos biológicos. Ou seja, no processo de (milhões de oC). A energia liberada no pro-
oxidação, a glicose aumentou sua entropia, cesso de fusão termonuclear sai na forma de
pois sete moléculas foram transformadas em fótons (quanta de energia luminosa).
doze, mas o organismo ganhou energia para
(b) A energia luminosa é absorvida pelas célu-
manter a sua organização estrutural ao sinte-
las fotossintéticas, presentes nos organismos
tizar biomoléculas (diminuiu sua entropia).
autotróficos, representados por 90 % dos mi-
Conforme a segunda lei da termodinâ- crorganismos do mar e pelas folhas verdes das
mica, a tendência ao aumento da entropia plantas, para formar glicose:
no universo é o que direciona os processos
físico-químicos. Por isso, os organismos vi-
vos (sistemas) podem manter sua estrutura
organizada, pois é a partir dessas reações que
obtêm a energia necessária para os processos
requeridos na manutenção da sua organiza-
ção, embora isso ocorra às expensas do au-
mento da desordem do meio.
Quando os produtos de uma reação são Essa reação tem uma variação de ener-
menos complexos ou mais “desordenados” gia livre altamente positiva (ΔGo´ = +2.870 kJ/
do que os substratos, a reação ganha entro- mol), ou seja, deve absorver grande quanti-
pia, isto é, libera energia. Nesse caso, trata-se dade de energia para que possa ocorrer.
de uma reação exergônica, que sempre terá
(c) Utilização das moléculas produzidas nas
um ΔG negativo, pois o sistema libera ener-
células fotossintéticas por parte dos organis-
gia. Uma vez que, conforme a segunda lei
mos heterotróficos; carboidratos, gorduras e
da termodinâmica, a tendência natural dos
proteínas são oxidados para produzir energia
processos é de ganhar entropia, as reações
química (na forma de ATP), necessária para
termodinamicamente favoráveis são aquelas
os trabalhos biológicos.
que têm ΔG negativo.
Os trabalhos biológicos que demandam
Por outro lado, as reações com ΔG posi-
energia incluem:
tivo devem ganhar energia para que possam
ocorrer, isto é, devem perder entropia, não (a) Os trabalhos químicos, tais como a bios-
sendo termodinamicamente favoráveis, a me- síntese de moléculas complexas como polis-
nos que ocorra entrada de energia no sistema. sacarídeos, lipídeos, DNA, RNA e proteínas.
Estas são as chamadas reações endergônicas. (b) Os trabalhos osmóticos, como o trans-
porte ativo através de membranas e a ativi-
dade elétrica na condução de impulsos ner-
Fluxo da energia na biosfera
vosos. O trabalho de transporte intermem-
O fluxo da energia biológica tem três fases: branal é um dos que mais consome energia,
sendo a bomba de Na-K ATPase em todas as
(a) Numa primeira fase, a energia é liberada a células do organismo responsável por man-
partir da fusão nuclear que ocorre no sol: ter constante a concentração desses íons
4H → He + 2eo (pósitron) + energia radiante (Na+ está mais concentrado no exterior das

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células, enquanto K+ está mais concentrado ΔG0´ = - RTlnK’eq
no interior).
onde:
(c) Os trabalhos mecânicos, como a contração
ΔG0– = variação de energia livre sob condições
muscular e a movimentação de cílios e flagelos.
padrão (pH 7, temperatura de 25 oC, pressão
Os processos energéticos realizados de 1 atm e concentrações do substrato e do
para efetuar os trabalhos biológicos citados produto de 1 M)
são processos irreversíveis, uma vez que pro- R = constante universal dos gases (8,3 J/mol/oK)
vocam aumento da entropia, causando dissi-
T = temperatura-padrão (298 oK=25 oC)
pação da energia para o meio.
K’eq = constante de equilíbrio da reação.
Na Tabela 1 é apresentada a relação nu-
Relação entre energia livre mérica entre a constante de equilíbrio de uma
e constante de equilíbrio de uma reação reação e a variação de energia livre padrão.
O sinal de ΔG0– indica a direção do pro-
Em toda reação química, a velocidade
cesso. Uma reação que proceda para a direita
da reação depende da sua constante de equi- (A → B) terá sinal negativo, indicando dimi-
líbrio. Por exemplo, na reação: nuição da energia livre do sistema, sendo
AB termodinamicamente favorável. Uma reação
que proceda para a esquerda (B → A) terá si-
a constante de equilíbrio é: nal positivo, indicando que o sistema deve
ganhar energia para que a reação ocorra.
[B]
Keq = As condições existentes na célula são
[A] diferentes das condições-padrão, mas, por
convenção, todas as reações são calculadas
Conforme a segunda lei da termodinâ- como variação de energia livre padrão (ΔG0–),
mica, para que uma reação espontânea seja mesmo sabendo que a variação de energia
energeticamente possível, deve ter uma ΔG0´ livre real (ΔG) é geralmente maior do que a
negativa, ou seja, deve ocorrer diminuição ΔG nas condições-padrão.
da energia livre do sistema. A quantidade de A variação de energia livre real (ΔG), isto
energia liberada no processo pode então reali- é, aquela que ocorre sob as condições da cé-
zar um trabalho quando a reação exergônica lula, está determinada pela seguinte equação:
está acoplada a outra reação que requer ener-
gia (reação endergônica). ΔG = ΔG0´ + RT lnK’eq
Se a constante de equilíbrio da reação for
maior que 1, a reação tende a se realizar es- Para visualizar a diferença entre a varia-
pontaneamente na direção A → B, tendo ΔG0´ ção de energia livre padrão e a real, pode ser
negativo (reação exergônica). Se, pelo con- considerado o exemplo da reação da hidróli-
trário, for menor que 1, a reação tenderá a se se do ATP no eritrócito:
realizar no sentido B → A, e o valor de ΔG0´
deverá ser positivo (reação endergônica). ATP + H2O → ADP + P
A relação entre o valor da constante de
equilíbrio e a variação de energia livre da rea-
ção está definida por uma relação matemáti-
ca expressada na seguinte equação:

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TABELA 1 – RELAÇÃO ENTRE CONSTANTE gia. Durante o catabolismo, a produção de ener-
DE EQUILÍBRIO (KEQ) E VARIAÇÃO
DE ENERGIA LIVRE (ΔG0–) gia livre obtida mediante a oxidação dos subs-
tratos disponíveis é conservada na formação de
Keq ΔG0– (kJ/mol) ATP a partir de ADP + Pi (reação de fosforila-
ção do ADP). Depois, no anabolismo, quando
10-3 +17,1
energia é requerida para os diferentes trabalhos
10-2 +11,4 biológicos, o ATP é hidrolisado em ADP + Pi,
sendo transferida a energia desta reação para
10-1 + 5,7 as reações acopladas que assim o requerem.
1 0 Entretanto, esses dois processos (produção e
consumo de energia) ocorrem de forma conco-
10 -5,7 mitante, isto é, o ATP não se pode armazenar,
mas pode apenas transferir energia desde a via
102 -11,4
catabólica para a via anabólica.
103 -17,1 A reação de hidrólise do ATP possui
10 4
-22,8
uma variação de energia livre altamente ne-
gativa (ΔG0´ = -30,5 kJ/mol), o que significa
105 -28,5 que tem uma alta tendência a se realizar, fato
que é favorecido por vários fatores:
106 -34,2
(a) O ATP possui, em média, 3,5 cargas ne-
Considerando um valor de -30,5 kJ/mol gativas no pH celular (7,4) em seus grupos
para ΔG0´ e as seguintes concentrações intra- hidroxila dissociáveis, e os produtos da hi-
celulares dos reagentes e dos produtos: drólise tendem a se repelir por causa de suas
cargas (Figura 1):
[ATP] = 2,25 mM (0,00225 M)
ATP4- + H2O → ADP3- + HPO42-
[ADP] = 0,25 mM (0,00025 M)
[Pi] = 1,65 mM (0,00165 M) (b) Os produtos, especialmente o íon fosfato,
tendem a se estabilizar como híbridos de res-
e substituindo-se estes valores na equação, sonância (dupla união com caráter de sim-
teremos que ples e vice-versa) contendo, portanto, menos
energia livre (maior estabilidade).
 0,00025 0,00165 
G  -30500  8,3 298  ln  (c) Os complexos de Mg2+, cofator partici-
 0,00225 
pante da reação, têm maior afinidade pelo
ou seja, ΔG = -51,8 kJ/mol. Isso significa que a ATP do que pelo ADP.
energia livre produzida pela hidrólise do ATP A energia contida na união fosfato não
no espaço intracelular do eritrócito é maior está determinada pela quebra desta união fos-
(-51,8 kJ/mol) do que a produzida sob condi- fato, e sim pela diferença entre a energia livre
ções-padrão de laboratório (-30,5 kJ/mol). dos produtos e a energia livre dos substratos.
O ATP, entretanto, não é o composto
O ATP e a transferência de energia química fosfatado de maior energia, ocupando um
lugar intermediário entre eles (Tabela 2).
O ATP constitui o vínculo entre as reações Aqueles compostos fosfatados cuja energia
produtoras e as reações consumidoras de ener- livre de hidrólise seja menor que -25 kJ/mol

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Figura 1 – Reação de hidrólise do ATP.
Os diferentes grupamentos fosfato do ATP estão indicados pelas letras gregas correspondentes.

TABELA 2 – VARIAÇÃO DE ENERGIA LIVRE


DA HIDRÓLISE DE COMPOSTOS FOSFATADOS DE ALTA ENERGIA

Composto fosfatado ΔG0– (kJ/mol)

fosfoenolpiruvato -61,9

1,3-difosfoglicerato -49,4

fosfocreatina -43,1

ATP -30,5

glicose-1-fosfato -20,9

frutose-6-fosfato -15,9

glicose-6-fosfato -13,8

glicerol-3-fosfato -9,2

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são considerados de baixa energia, enquanto gia livre desta hidrólise é aproveitada para di-
que aqueles com maior valor são considera- recionar a reação endergônica acoplada. Isso
dos de alta energia, como é o caso do ATP. implica que as enzimas participantes neste
O ATP e o ADP são reagentes obrigató- tipo de reação tenham sítios de união tanto
rios em quase todas as reações enzimáticas de para o ATP quanto para os demais substratos.
transferência de grupos fosfato. O ADP serve Como exemplo de reação acoplada, pode
como o intermediário receptor do grupo fos- ser citada a conservação da energia de oxida-
fato que provém dos compostos fosfatados de ção do gliceraldeído sob forma de ATP (Fi-
alta energia e o ATP como doador do grupo gura 2). Na primeira reação, a energia obtida
fosfato para compostos de baixa energia. pela oxidação do gliceraldeído-3-fosfato é
As reações endergônicas ou consumi- utilizada para fosforilar o produto no C1, con-
doras de energia, as quais estão relacionadas, vertendo-o em um composto de alta energia.
principalmente, com os processos de síntese, Na segunda reação, o composto energizado
podem ser realizadas no metabolismo de- transfere o grupo fosfato de C1 para o ADP,
vido a estarem acopladas com reações exer- conservando a energia sob a forma de ATP. O
gônicas, como a reação de hidrólise do ATP. valor de ΔG0–, consideradas as duas reações,
Dessa forma, as reações acopladas servem é de -49,3 kJ/mol, sendo, portanto, favorável
para conservar a energia da oxidação, que se para que a reação total ocorra.
encontra sob a forma de ATP. O ATP não é armazenador de energia,
As reações acopladas representam pro- mas um intermediário (transmissor) de ener-
cessos de duas etapas. Na primeira, o grupo gia entre compostos. Já a fosfocreatina, com-
fosfato é transferido a um substrato, mediante posto formado no tecido muscular a partir da
união covalente, conservando a alta energia creatina, é um armazenador de energia, quan-
da união fosfato. Na segunda etapa, o grupo do a concentração de ATP no músculo se en-
fosfatado é deslocado para formar Pi, e a ener- contra elevada:

Quando a concentração de ATP dimi- lise no grupo fosfato β ao invés do grupo γ,


nui, durante a contração muscular, a reação como na hidrólise comum. Com isso, é gerado
é deslocada para a esquerda, a fim de regene- AMP e um grupo pirofosfato (PPi: H2P2O72–).
rar o ATP necessário. Posteriormente, o PPi é desdobrado em duas
Existem algumas reações que conso- moléculas de Pi (HPO42–). A reação de piro-
mem mais energia do que a gerada com a hi- fosforólise produz uma quantidade de energia
drólise simples do ATP. Nesses casos, o ATP livre maior (ΔG0– = -43,1 kJ/mol) do que a hi-
pode sofrer pirofosforólise, reação de hidró- drólise normal (ΔG0– = -30,5 kJ/mol).

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Figura 2 – Síntese de ATP em nível de substrato pela oxidação do gliceraldeído.

CICLOS DA MATÉRIA NA BIOSFERA Ciclo do carbono


O fluxo de energia na biosfera é de via A vida na biosfera depende do sol e dos
única. Assim, a energia solar é captada pelos organismos autotróficos, os quais utilizam
organismos autotróficos, os quais a aprovei- a energia luminosa para, a partir do CO2 da
tam para realizar a fotossíntese e a transferem atmosfera e da H2O, sintetizar compostos or-
para os organismos heterotróficos. Nestes, em gânicos, únicas fontes de carbono utilizáveis
cada uma das reações químicas, parte da ener- pelos seres vivos heterotróficos. Exemplos
gia é aproveitada para produção de trabalho e de organismos autotróficos são as bactérias
parte é dissipada, especialmente em forma de fotossintéticas e as folhas verdes das plantas.
calor. Dessa forma, a matéria (C, H, O, N) é Esses organismos reduzem o CO2 para sinte-
reciclada, sendo a energia livre degradada. Em tizar carboidratos.
outras palavras: C, O, N e H2O são reciclados
Os organismos heterotróficos não podem
na biosfera entre os seres autotróficos e os
utilizar o CO2 da atmosfera, devendo utilizar,
heterotróficos, sendo a energia solar a força
como fonte de energia, os compostos sintetiza-
direcional destes processos. Os ciclos bio-
dos pelos organismos autotróficos, oxidando-
geoquímicos envolvem a retirada e o retorno
-os graças ao oxigênio atmosférico. Neste pro-
dos elementos químicos na biosfera.
cesso o CO2 e a H2O são liberados para o meio.
O CO2 é reciclado, sendo reutilizado pelos or-
ganismos autotróficos. Esse evento constitui-
-se no ciclo do carbono na biosfera.

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Aproximadamente 3,5 x 1011 toneladas pelos organismos marinhos; e outra grande
de CO2 são liberadas anualmente na atmos- parte, pelas florestas.
fera pelos organismos heterotróficos, a maior
parte do qual é reciclada pelos organismos
autotróficos. Muito do C pode ficar retido por Ciclo do nitrogênio
longos períodos de tempo na forma de com-
bustíveis fósseis (carvão, petróleo), havendo, O nitrogênio é o maior componente atmos-
férico (78 % do ar). Entretanto, o nitrogênio em
portanto, uma troca demorada de C na biosfe-
forma solúvel, isto é, na forma biologicamente
ra, diferente da troca rápida que existe entre o
útil, é escasso na natureza. Sua forma mais abun-
CO2 utilizado na fotossíntese pelas plantas e o
dante é como nitrogênio molecular (N2) presente
liberado na respiração pelos animais.
no ar e, a partir dele, deve ser incorporado nos
A combustão completa dos compostos seres vivos. Alguns microrganismos podem
orgânicos libera dióxido de carbono (CO2), utilizar esse nitrogênio volátil através do pro-
enquanto que a combustão incompleta, cesso denominado fixação biológica do nitro-
como a que ocorre nos motores de combus- gênio, no qual o N2 atmosférico é reduzido a
tão interna, libera monóxido de carbono amônia (NH3). Entre esses organismos estão as
(CO), o qual é tóxico para os animais. A con- bactérias dos gêneros Nitrobacter e Rhizobium,
centração de CO2 na atmosfera aumentou este último associado às raízes de legumino-
em 33 % na última década, e deve ter atingi- sas e às algas cianofíceas.
do valores próximos de 0,04 % no ano 2000. Um número relativamente abundante
Para que este excesso de CO2 possa ser reci- de bactérias do solo, como aquelas do gêne-
clado mediante fotossíntese, seria necessário ro Nitrossomonas, as quais obtêm sua energia
aumentar em 8 % o número de plantas. mediante a oxidação de NH3, assimila a amônia
oxidando-a para formar nitritos (NO2–). Pos-
teriormente as bactérias do gênero Nitrobacter
Ciclo do oxigênio
oxidam os nitritos a nitratos (NO3–).
O oxigênio representa 21% da atmos- O processo de oxidação da amônia até
fera, estando principalmente como O2, CO2 nitrato é conhecido como nitrificação, cons-
e H2O. Outras fontes são nitratos (NO3–) e tituindo a forma pela qual praticamente toda
sulfatos (SO42-). O mais importante processo a amônia (NH3) presente no solo é conserva-
formador de O2 é a fotossíntese. O ciclo do da, que, de outra forma, se volatilizaria.
oxigênio está diretamente relacionado com o Outras fontes de nitratos no solo são a
ciclo do carbono. Os animais e vegetais fixam combinação direta de N2 com O2 pela ação de
diretamente o O2 da atmosfera, mas os vege- descargas elétricas (raios), a decomposição
tais, diferentemente dos animais, também li- de matéria orgânica e os fertilizantes nitro-
beram O2 no processo da fotossíntese (fotóli- genados. Contudo, a fixação biológica do ni-
se da água). No caso dos animais, o oxigênio trogênio contribui com cerca de 90 % do N2
é liberado sob a forma de CO2, e não livre, fixado na biosfera.
como é o caso dos vegetais.
Os nitratos e nitritos produzidos pelas
A fotossíntese e a respiração, por serem bactérias nitrificantes são captados pelas
cíclicas, se contrabalançam, não havendo al- plantas, as quais os reduzem de novo a NH3
teração na quantidade de O2 na atmosfera. A por ação das enzimas nitrato-redutase, no
maior parte do O2 atmosférico é produzido processo conhecido como desnitrificação. A

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NH3 dentro das células vegetais é utilizada para manter baixos os níveis de O2, o qual é
para a biossíntese de aminoácidos e de pro- inibidor do processo de fixação de N2.
teínas. Estas proteínas vegetais são depois
O processo de fixação de nitrogênio é
usadas pelos animais para cobrir as deman-
bastante complexo e é realizado pelo siste-
das de aminoácidos. Com a morte dos ani-
ma enzimático nitrogenase. Nesse processo,
mais, suas proteínas são degradadas, geran-
ocorre redução de uma molécula de N2 para
do como produto nitrogenado a NH3, que é
produzir duas moléculas de NH3:
devolvida ao solo para ser convertida nova-
mente em nitratos e nitritos, pelas bactérias N2 + 3H2  2NH3
nitrificantes, fechando assim o ciclo do ni- Esta reação é bastante exergônica (ΔG0–
trogênio planta-animal-atmosfera. = -33,5 kJ/mol), estando direcionada para
O nitrogênio pode ser excretado nos a direita sob condições-padrão. Entretan-
animais na forma de ureia (mamíferos), áci- to, a forte ligação covalente entre os dois N
do úrico (aves e répteis) ou amônia (peixes). da molécula de N2 (N  N) representa uma
De qualquer forma, o produto final da de- grande barreira energética de ativação (ener-
composição sempre é a amônia. gia de ligação de 942 kJ/mol), a qual pode
ser superada pelo sistema nitrogenase e pela
O nitrato também pode ser reduzido a energia de hidrólise do ATP. O ATP também
amônia pela ação das bactérias desnitrifican- tem uma função catalítica, além de termodi-
tes (Pseudomonas spirilium) e o N2 retornar à nâmica, no processo, pois se une à enzima,
atmosfera por volatilização do NH3. É estima- causando uma mudança conformacional
do que 80 milhões de toneladas de N2 circu- que contribui para diminuir a energia de ati-
lam entre a atmosfera e a biosfera anualmente. vação do sistema. Os átomos de H são doa-
dos pela coenzima NADPH através da ferre-
Os organismos fixadores do nitrogênio
doxina, uma proteína (ferrossulfurada) que
podem ser de vários tipos:
transfere os elétrons ao N. Os H iniciais são
(a) cianobactérias e algas verde-azuis presen- obtidos pela oxidação do piruvato. A reação
tes no solo e nas águas doces e salgadas; completa da fixação do nitrogênio atmosfé-
rico é mostrada na Figura 3.
(b) Azotobacter ou bactérias presentes em
forma abundante no solo; O complexo nitrogenase está formado
por duas enzimas. A primeira delas, a dini-
(c) bactérias em simbiose com plantas legu- trogenase redutase, é um homodímero com
minosas. peso molecular total de 60 kD que possui um
Entre estas últimas, são importantes as centro ferrossulfurado (Fe4-S4) de redução-
bactérias do gênero Rhizobium, as quais se -oxidação. A segunda, é a dinitrogenase, um
localizam nos nódulos das raízes das legumi- tetrâmero que contém duas subunidades dife-
nosas. Rhizobium fixa o nitrogênio para sua rentes repetidas (peso molecular total de 240
multiplicação e para uso da planta, recebendo kD) e um centro de Fe e Mo de oxidorredução.
em troca compostos necessários para o pró- Os oito elétrons necessários na reação
prio processo de fixação de nitrogênio, que a (seis para reduzir o N2 e 2 para produzir H2
planta pode sintetizar mas não utiliza em seu como parte obrigatória do mecanismo da
metabolismo. Assim, a planta sintetiza a por- reação) são transferidos pela dinitrogenase
ção heme da leghemoglobina, proteína de alta redutase em etapas sucessivas:
afinidade pelo oxigênio, que a bactéria precisa

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diminuindo assim o uso de fertilizantes quí-
micos. Os estudos de biologia molecular e as
técnicas do DNA recombinante tratam de
identificar e caracterizar os genes relaciona-
dos com o complexo nitrogenase para incor-
O sistema nitrogenase é muito lábil na porá-los em bactérias e plantas (organismos
presença de oxigênio. Assim, as bactérias aeró- transgênicos) que naturalmente não podem
bicas têm mecanismos para evitar o aumento captar o N2 atmosférico. O desafio é conse-
de O2 em seu interior, tais como paredes mais guir também incorporar os mecanismos
grossas que dificultam a difusão, desacopla- para evitar a ação inibitória do O2 no siste-
mento da cadeia de transporte de elétrons ma, bem como os mecanismos de regulação
para consumir rapidamente o O2 e a ação da da expressão desses genes.
leghemoglobina nas bactérias simbióticas
com leguminosas. A leghemoglobina é uma
proteína de alta afinidade por O2, levando-o METABOLISMO INTERMEDIÁRIO
diretamente a seus receptores no sistema de
transporte eletrônico da bactéria, impedindo O metabolismo corresponde ao total de
que fique solúvel e aumente sua concentração. reações químicas que ocorrem em uma célu-
la ou em um organismo, reações que são rea-
Graças à fixação do nitrogênio atmos- lizadas em forma perfeitamente coordenada
férico pelas bactérias Rhizobium em simbio- e que levam à troca de matéria e de energia
se com as leguminosas, os solos podem ser entre a célula e seu meio, para a manutenção
enriquecidos mediante a utilização dessas dos processos vitais do organismo. Nas dife-
culturas (feijão, alfafa, trevo, amendoim) rentes vias metabólicas, existem, geralmente,

Figura 3 – Reações químicas da fixação biológica do nitrogênio atmosférico.

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os compostos precursores, vários metabóli- No anabolismo, também conhecido
tos intermediários e os produtos finais. como fase biossintética ou redutiva, ocorre a
biossíntese enzimática de moléculas comple-
O termo metabolismo intermediário é
xas a partir de unidades simples. Neste pro-
frequentemente utilizado para referir-se a
cesso é consumida energia química, a qual
todas as reações intermediárias das diferen-
é fornecida pelo ATP, e ocorrem reações de
tes etapas que compõem as vias metabólicas.
redução, para o que são utilizadas as coenzi-
As funções específicas do metabolismo são: mas reduzidas NADH e NADPH.
(a) Obtenção de energia química a partir de As etapas múltiplas presentes nas vias
moléculas combustíveis, no caso dos organis- metabólicas são necessárias para fazer mais
mos heterotróficos, ou a partir da absorção de flexível e versátil o metabolismo intermedi-
luz solar, no caso dos organismos autotrófi- ário e realizar interconversões. Se as rotas
cos. Os primeiros requerem formas reduzi- ocorressem em uma única etapa, o meta-
das de carboidratos, como a glicose, como bolismo seria muito rígido e irreversível.
fonte básica de energia, enquanto que os úl- Também, através destas etapas, é possível
timos requerem somente CO2 como fonte de maximizar a produção de ATP com a energia
carbono exógeno, além da energia solar. específica requerida em cada estágio. De ou-
(b) Conversão das moléculas exógenas (nu- tra forma, se ocorresse uma etapa só ou umas
trientes) em unidades estruturais das biomolé- poucas etapas, energia excessiva seria libera-
culas componentes do organismo animal. da em poucas reações, produzindo-se muito
calor e ocorrendo grande perda de energia.
(c) Montagem destas unidades para formar
biomoléculas mais complexas, como as pro- As vias metabólicas podem ser lineares,
teínas, os ácidos nucléicos, os lipídeos e os cíclicas ou ramificadas. Estas últimas podem
polissacarídeos. ser convergentes (catabolismo) ou divergen-
tes (anabolismo).
(d) Formação e degradação de biomolécu-
las funcionais, como as enzimas, os hormô- O metabolismo, de forma global, com-
nios, os receptores, os transportadores e as preende a integração de três fases:
coenzimas. (a) Degradação e/ou síntese de moléculas
O metabolismo, apesar de sua aparen- complexas a partir de unidades simples.
te complexidade de vias e reações, pode ser (b)Produção de biomoléculas simples, que
resumido em duas fases: catabolismo e são compostos intermediários comuns das
anabolismo. rotas metabólicas, tal como o acetil-CoA.
O catabolismo também é chamado de (c) Oxidação completa dos compostos inter-
fase degradativa ou oxidativa. Nas vias ca- mediários comuns até CO2 e H2O.
tabólicas, as moléculas exógenas ou as mo-
Esta última fase também fornece as mo-
léculas de reserva são degradadas mediante
léculas precursoras necessárias para as rotas
oxidação, resultando em moléculas mais
biossintéticas, recebendo o nome de fase an-
simples, tais como acetil-CoA, lactato, CO2
fibólica, ou seja, esta fase pode ter reações
e NH3. Esse processo está acompanhado de
degradativas ou biossintéticas, dependendo
produção de energia química mediante rea-
das necessidades metabólicas.
ções oxidativas que levam à conservação da
energia na forma de ATP e de coenzimas re- As rotas catabólica e anabólica geral-
duzidas (NADH e NADPH). mente têm diferentes enzimas, embora, às

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vezes, compartilhem caminhos (enzimas) (c) De que forma os níveis de controle do
comuns. No controle do metabolismo, é metabolismo que atuam sobre essa via em
observado que as vias degradativa e de sín- particular contribuem para manter o equilí-
tese têm rotas diferentes, o que é necessário brio do organismo?
porque: (a) o reverso da rota catabólica é
um impossível energético; (b) a regulação
do anabolismo e do catabolismo é diferente Função do ATP e do NAD no metabolismo
e independente, o que significa que se uma
A grande maioria da energia livre obtida
rota estiver ativa, a outra deve estar inter-
pela oxidação dos nutrientes durante o cata-
rompida; e (c) as rotas ocorrem geralmente
bolismo é conservada mediante reações aco-
em diferentes compartimentos celulares. Por
pladas à síntese de ATP a partir de ADP e de
exemplo, a oxidação dos ácidos graxos ocor-
fosfato inorgânico.
re na mitocôndria, enquanto que sua a sínte-
se ocorre no citossol. Tanto ATP quanto ADP e Pi estão presen-
tes em todos os seres vivos e servem universal-
As vias metabólicas são reguladas em mente como sistemas de transmissão de energia.
três níveis:
A energia presente no ATP é utilizada
(a) Pela ação das enzimas alostéricas, as quais posteriormente nos processos celulares que
controlam vias metabólicas por modificação requerem energia (biossíntese, contração e
das suas atividades, através de moduladores motilidade, transporte ativo e transmissão
estimulatórios ou inibitórios. da informação genética), pois o ATP trans-
(b) Por meio dos hormônios, os quais são men- fere sua energia quando ocorre a perda (hi-
sageiros químicos que regulam o metabolismo drólise) de seu grupo fosfato e quando esta
de órgãos, tecidos e, em ocasiões, de aparelhos e reação é acoplada com aquelas reações que
sistemas; este nível de controle pode ter efeitos de demandam energia.
maior alcance do que as enzimas alostéricas. O ADP resultante da hidrólise do ATP
é fosforilado novamente em reações acopla-
(c) Pela velocidade das etapas metabólicas, a
das do catabolismo, que produzem energia
qual está em função da concentração das enzi-
suficiente para regenerar ATP (fosforilações
mas correspondentes, isto é, da taxa de síntese
oxidativa e em nível de substrato). Dessa for-
e degradação dessas enzimas, o que depende
ma, é gerado um ciclo de energia na célula,
do controle da expressão gênica nas células. no qual o ATP serve de transmissor de ener-
Diante da grande quantidade de reações gia, que liga as reações produtoras de energia
químicas existentes no metabolismo e a fim com as reações consumidoras de energia.
de encontrar sentido em determinada reação Uma segunda forma de transferir a ener-
ou via metabólica, é necessário perguntar: gia química do catabolismo para o anabolis-
(a) Que vantagem tem para a célula e para o mo, simultaneamente com a fosforilação de
organismo a realização dessa reação ou via ADP, é mediante o transporte de átomos de
metabólica? H ou de elétrons. Os hidrogênios (ou os elé-
trons) são obtidos a partir da oxidação dos
(b) Que relação existe entre essa reação ou substratos alimentícios por desidrogenases
via com outras vias metabólicas e como elas específicas, que os recebem dos substratos
favorecem o crescimento e/ou a manutenção reduzidos e os transferem às coenzimas oxi-
das funções do organismo? dadas NAD+ e NADP+:

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NAD+ + 2e- + 2H+ → NADH + H+ Os principais tecidos do organismo ani-
mal e o trabalho que eles desempenham se-
NADP+ + 2e- + 2H+ → NADPH + H+
rão discutidos a seguir.
Essas coenzimas, ao ficarem em forma
reduzida (NADH e NADPH), servem de O fígado
transportadores de elétrons energizados, os
quais são transferidos das reações catabóli- O fígado exerce um papel centralizador
cas às reações de síntese que demandam elé- no metabolismo, sintetizando e distribuindo
trons nos processos redutivos. nutrientes aos órgãos periféricos pela circula-
A concentração total de NAD+ + NADH ção sanguínea. A importância do fígado como
na maioria dos tecidos está por volta de 10–5 órgão centralizador fica claramente expressa-
M, e a de NADP+ + NADPH é de 10-6 M. da no fato de os outros órgãos e tecidos serem
chamados de extra-hepáticos ou periféricos.
Quando a relação NAD+/NADH é alta na
célula, são favorecidos os processos oxida- Durante a digestão, no trato gastroin-
tivos para obter a transferência de elétrons testinal, as 3 principais classes de nutrientes
para NAD+ e assim aumentar a concentração (glicídeos, proteínas e lipídeos) sofrem hi-
de NADH. Inversamente, quando a relação drólise enzimática para serem convertidos
NAD+/NADH é baixa, são favorecidos os em seus monômeros básicos. Essa quebra é
processos redutivos, isto é, a transferência de necessária porque as células do epitélio in-
elétrons a substratos oxidados. testinal somente podem absorver moléculas
pequenas (monossacarídeos, aminoácidos,
São conhecidas mais de 200 enzimas oxi- ácidos graxos, monoglicerídeos). Os rumi-
dorredutases ou desidrogenases que reque- nantes absorvem ácidos graxos voláteis e
rem NAD+ ou NADP+ em reações de oxida- amônia no rúmen.
ção de substrato, ou NADH ou NADPH em
reações de redução de substrato. Outras co- Depois da absorção, a maioria dos mo-
enzimas que participam em reações de trans- nossacarídeos e aminoácidos, bem como al-
ferência de elétrons são os nucleotídeos flaví- guns triglicerídeos, são levados pelo sistema
nicos FMN e FAD, derivados da riboflavina, portal hepático ao fígado. Alguns triglicerí-
deos vão via linfática à circulação sanguínea
cujas formas reduzidas são FMNH2 e FADH2.
e alcançam o tecido adiposo.
No fígado, os nutrientes absorvidos são
A divisão do trabalho no metabolismo transformados em combustíveis ou em mo-
léculas precursoras que serão requeridas em
Cada célula, cada tecido e cada órgão no outros tecidos periféricos. O fígado ajusta
organismo animal têm uma função específi- seu metabolismo de uma forma flexível e rá-
ca, fato que é refletido em sua anatomia e sua pida, em função do tipo de nutriente que o
atividade metabólica. O músculo esquelético organismo recebe.
usa a energia metabólica para o movimento,
o tecido adiposo armazena e libera gorduras, Na Figura 4 é apresentado um esquema
simplificado do metabolismo hepático, com
que servem como combustível nas outras cé-
as rotas metabólicas numeradas que serão re-
lulas do organismo, e os neurônios do sistema
ferenciadas no texto a seguir, entre colchetes.
nervoso utilizam o transporte de íons e neu-
rotransmissores através da membrana para A glicose que chega ao fígado é fosfori-
propagação de informação. lada e convertida em glicose-6-fosfato pela

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Figura 4 – Esquema do metabolismo hepático de lipídeos, glicídeos e proteínas.
Os nomes dos metabólitos estão em retângulos, e os nomes das rotas metabólicas estão em retângulos
de bordas arredondadas. Os números correspondentes às diferentes rotas estão referenciados no texto.

enzima glicoquinase [1]. Outros monossa- (b) Se não houver necessidade de glicose no
carídeos, como fructose, galactose ou mano- sangue, a glicose-6-fosfato é convertida em
se, são convertidos em glicose-6-fosfato por glicogênio hepático e armazenado [4].
vias metabólicas alternativas [2]. (c) Pode ser oxidada para a produção de
A glicose-6-fosfato está em um cruza- energia via glicólise [5], descarboxilação do
mento de caminhos das rotas dos carboidratos piruvato [6] e ciclo do ácido cítrico [7 → 8].
no fígado. Ela pode tomar cinco possíveis ro- No entanto, no fígado, o combustível prefe-
tas, dependendo das necessidades metabólicas rido para a produção de energia são os áci-
do organismo. Essas rotas estão controladas dos graxos.
por enzimas reguladoras (enzimas alostéricas) (d) Quando há um excesso de ingestão de
ou por hormônios que controlam a atividade carboidratos, não sendo necessário repor a
de certas enzimas. As possíveis rotas da glico- glicose sanguínea, e quando o fígado satura
se-6-fosfato no fígado são as seguintes: sua capacidade de armazenamento de gli-
(a) Pode ser defosforilada pela enzima glico- cogênio, a glicose-6-fosfato é degradada via
se-6-fosfatase, gerando glicose livre, a qual glicólise até acetil-CoA [5 → 6]. Este é usado
é exportada para manter a concentração de para sintetizar ácidos graxos [9], os quais são
glicose no sangue [3]. Tal concentração deve incorporados aos triglicerídeos [10], fosfo-
estar sempre constante (4-5 mM) para que o lipídeos [11] e colesterol [12]. Esses lipídeos
aporte de energia ao cérebro e a outros teci- são levados para outros tecidos mediante as
dos seja mantido. lipoproteínas [13].

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(e) Finalmente, a glicose-6-fosfato pode en- Os ácidos graxos que chegam ao fígado
trar na rota das pentoses-fosfato [14] para podem ter diferentes destinos metabólicos:
produzir a coenzima reduzida NADPH [15],
(a) Oxidação até acetil-CoA (através da
necessária para a biossíntese de ácidos gra-
β-oxidação) para a produção de energia [21].
xos e colesterol, e ribose-5-fosfato, necessá-
O acetil-CoA, por sua vez, pode entrar no ciclo
ria para a biossíntese de nucleotídeos.
de Krebs para produzir mais energia [7 → 8].
Nos animais ruminantes, geralmente não
(b) O excesso de acetil-CoA produzi-
ocorre excesso de glicose, pois os carboidratos
do na oxidação dos ácidos graxos pode
da dieta são convertidos, no rúmen, em áci-
gerar corpos cetônicos (acetoacetato e
dos graxos voláteis. Tais ácidos são absorvidos
β-hidroxibutirato) [22], os quais podem ir
pelo epitélio do rúmen e transportados pelo
aos tecidos periféricos [23] para servirem
sangue ao fígado (principalmente propiona-
de combustível via ciclo de Krebs. Os corpos
to e acetato) ou ao tecido adiposo (principal-
cetônicos podem constituir uma importante
mente butirato e β-hidroxibutirato). A ma-
fração da energia utilizada pelos órgãos pe-
nutenção dos níveis de glicose sanguínea nos
riféricos (30 % no coração; 70 % no cérebro)
ruminantes está principalmente determinada
especialmente em situações de jejum prolon-
pela conversão do propionato em glicose via
gado, quando a glicose encontra-se deficitá-
gliconeogênese.
ria, e a fonte de energia provém da oxidação
Os aminoácidos que chegam ao fígado dos ácidos graxos.
têm várias rotas metabólicas:
(c) Parte do acetil-CoA proveniente dos áci-
(a) Podem atuar como precursores de proteí- dos graxos ou da glicose é utilizado para sin-
nas, dentro do próprio fígado ou para formar tetizar colesterol [12], o qual é essencial para
proteínas plasmáticas [16]. a estrutura das membranas, e como precur-
(b) Podem passar à corrente sanguínea e ir sor dos ácidos biliares [24] e dos hormônios
aos órgãos periféricos, onde são utilizados esteroidais.
como precursores de proteínas. (d) Podem fazer parte dos fosfolipídeos e dos
(c) Podem servir de precursores de compos- triglicerídios das lipoproteínas do plasma
tos não-proteicos, tais como nucleotídeos e [10 → 13 e 11 → 13], as quais transportam li-
hormônios. pídeos ao tecido adiposo para seu armazena-
mento (na forma de triglicerídeos).
(d) Quando não são necessários como pre-
cursores de proteínas ou de outros compos- (e) Podem seguir para o sangue, sendo trans-
tos, são desaminados e degradados para pro- portados pela albumina sérica [25], podendo
duzir acetil-CoA [17] e intermediários do ser captados pelas células musculares cardía-
ciclo de Krebs [18]. Os intermediários desse cas e esqueléticas (por difusão passiva), onde
ciclo podem ser utilizados para gerar glicose são utilizados como fonte de energia. A albu-
via gliconeogênese [19]. O acetil-CoA pode mina é a proteína mais abundante no sangue.
ser utilizado para gerar energia mediante sua Uma molécula de albumina pode transportar
completa oxidação no ciclo do ácido cítrico até dez moléculas de ácidos graxos.
[7 → 8], ou pode servir como precursor para a Além de servir como órgão centralizador,
biossíntese de ácidos graxos [9]. O grupo ami- processador e distribuidor de nutrientes, o fí-
na, na forma de amônio (NH4+), é convertido gado também serve como órgão detoxificante
em ureia [20] para ser excretado, pois é tóxico. de compostos orgânicos exógenos, tais como

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drogas, aditivos de alimentos, agentes preser- glucagon estimulam sua atividade, enquanto
vativos e outros agentes daninhos sem valor a insulina a inibe.
nutricional. No processo de detoxificação,
está envolvida uma hidroxilação do compos-
O tecido muscular
to, com ação do citocromo P-450, o qual torna
o composto mais solúvel para ser excretado.
O tecido muscular consome cerca de 50 %
do oxigênio que entra no organismo sob condi-
O tecido adiposo ções de repouso ou de exercício leve e 90 % sob
condições de trabalho muscular intenso.
O tecido adiposo, composto pelas célu-
O metabolismo da célula muscular é
las adiposas ou adipócitos é um tecido amor-
especializado em gerar ATP como fonte ime-
fo distribuído amplamente por todo o orga-
diata de energia. Está adaptado para fazer seu
nismo: sob a pele, ao redor dos vasos sanguí-
trabalho mecânico de forma intermitente, ou
neos maiores e na cavidade abdominal. Em
seja, trabalho intenso em curto período de
condições normais, forma até 15 % do peso
tempo (como numa rápida corrida) ou traba-
de um animal adulto.
lho lento durante um intervalo maior de tem-
Os adipócitos são células metabolica- po (como numa longa caminhada).
mente muito ativas, que respondem a estí-
O músculo pode usar ácidos graxos, cor-
mulos hormonais, interatuando com o fí-
pos cetônicos ou glicose como combustíveis,
gado, o tecido muscular esquelético e o co-
dependendo do grau de atividade muscular.
ração. As células adiposas podem realizar a
Durante o repouso ou em trabalho muscu-
glicólise, o ciclo de Krebs e a fosforilação oxi-
lar leve, a fonte primária de combustível
dativa. Também podem secretar substâncias
são os ácidos graxos provenientes do tecido
com atividade hormonal (adipocitocinas),
adiposo e os corpos cetônicos provenien-
como a leptina.
tes do fígado. Eles entram no ciclo de Krebs
Quando a ingestão de carboidratos é na forma de acetil-CoA para sua completa
abundante, os adipócitos podem converter a oxidação até CO2 e para a produção de ATP
glicose em acetil-CoA, via piruvato, para sin- mediante a fosforilação oxidativa. Em traba-
tetizar ácidos graxos e, depois, triglicerídeos, lho muscular moderado é utilizada a glicose,
os quais são armazenados em grandes glóbu- além dos ácidos graxos e dos corpos cetôni-
los de gordura no interior dos adipócitos. cos. A glicose sofre glicólise gerando acetil-
-CoA, o qual entra no ciclo de Krebs para a
Os adipócitos também armazenam os
produção de energia (ATP).
triglicerídeos provenientes do fígado e do
trato gastrintestinal, que chegam pelo san- Quando a atividade muscular é intensa, a
gue transportados nas lipoproteínas de den- demanda por ATP é muito alta, e o oxigênio e
sidade muito baixa (VLDL: Very Low Density os combustíveis que chegam ao músculo pelo
Lipoproteins). Quando necessário, os trigli- sangue são insuficientes para produzir, so-
cerídeos armazenados nos adipócitos são hi- mente mediante respiração aeróbica, a quanti-
drolisados por lipases, que liberam os ácidos dade de ATP requerida. Sob essas condições, o
graxos, os quais passam à circulação sanguí- glicogênio armazenado no músculo é metabo-
nea e vão para o músculo esquelético e o co- lizado à glicose, a qual é degradada via glicólise
ração. As lipases dos adipócitos são sensíveis anaeróbica gerando duas moléculas de lactato
à ação de alguns hormônios: a adrenalina e o e duas moléculas de ATP para cada molécula

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de glicose. O uso de glicogênio muscular como O músculo cardíaco difere do músculo
combustível de emergência para produzir esquelético nas seguintes características:
ATP no músculo é favorecido pela adrenali- (a) O músculo cardíaco está continuamente
na, a qual estimula a degradação do glicogênio ativo em um processo permanente de con-
hepático, para liberar mais glicose no sangue, tração e relaxamento.
e do glicogênio muscular, para gerar glicose no
próprio músculo. (b) O coração tem um metabolismo comple-
tamente aeróbico.
Como o tecido muscular não contém a
enzima glicose-6-fosfatase, não pode con- (c) O tecido cardíaco possui um número
verter a glicose-6-fosfato em glicose livre muito maior de mitocôndrias, as quais ocu-
para que esta última possa ser usada para pam mais da metade do volume das células.
manter a glicemia. Em outras palavras, o gli- Os combustíveis usados para o funcio-
cogênio muscular é utilizado na produção de namento cardíaco são uma mistura de glico-
energia exclusivamente para o músculo. se, ácidos graxos livres e corpos cetônicos,
Entretanto, a quantidade de glicogênio provenientes do sangue. Similarmente ao
no músculo é limitada, no máximo 1 % do músculo esquelético, o músculo cardíaco
peso total da massa muscular, para que possa tem pouca capacidade de armazenamento de
glicogênio e tem algumas reservas de energia
ser usado indefinidamente. Por outro lado, o
na forma de fosfocreatina.
acúmulo de lactato, produto final da glicólise
anaeróbica, e o consequente decréscimo do O coração é estritamente aeróbico, ob-
pH, reduzem a eficiência da atividade muscu- tendo sua energia da fosforilação oxidativa.
lar. Depois de intensa atividade muscular, a fre- Qualquer falha que impeça o O2 de alcan-
quência respiratória continua aumentada por çar uma porção de músculo cardíaco, como
mais tempo. Isso ocorre porque o oxigênio é numa obstrução dos vasos sanguíneos do
usado para a obtenção de ATP, mediante a fos- coração por depósitos graxos (aterosclerose)
forilação oxidativa (respiração celular), sendo ou por coágulos (trombose coronária), causa
este ATP usado para a síntese de nova glicose a a morte daquela região do coração na qual
partir do lactato produzido durante o exercício. faltou oxigênio, evento conhecido como in-
farto do miocárdio.
O lactato deve ser levado, através do
sangue, desde o músculo até o fígado, para
que seja realizada a via gliconeogênica. A O cérebro
glicose assim sintetizada retorna ao múscu-
lo para repor o glicogênio gasto e completar O metabolismo do cérebro apresenta al-
assim o chamado ciclo de Cori. gumas peculiaridades em relação aos outros
órgãos. Nos mamíferos adultos, o cérebro
O músculo esquelético também possui
usa, normalmente, glicose como combustí-
grandes quantidades de fosfocreatina, com-
vel e tem um metabolismo respiratório mui-
posto armazenador de energia graças a sua to ativo. Quase 20 % do oxigênio consumido
capacidade para transferir grupos fosfato. pelo organismo é gasto no cérebro sem que
Quando não há necessidade energética no este gasto tenha muita variação durante a vi-
músculo, a creatina é fosforilada às custas da gília ou durante o sono.
transferência do grupo fosfato do ATP. Em
períodos de intensa atividade muscular, o sen- Como o cérebro contém muito pouco
tido da reação é invertido, produzindo ATP. glicogênio, é dependente da glicose sanguí-

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nea. Se ocorrer um decréscimo no nível de do na respiração celular desde os tecidos até
glicose sanguínea, podem ocorrer danos ir- os pulmões.
reparáveis na função cerebral.
Pelo sangue, são transportados os hormô-
O cérebro não pode usar diretamen- nios de um tecido para outro e, assim como o
te ácidos graxos como combustíveis. Porém, tecido nervoso, serve de regulador e integrador
em ocasiões de jejum prolongado, usa das atividades entre os diferentes órgãos.
β-hidroxibutirato, o qual é formado a partir
O sangue constitui 8 a 10% do peso de
de ácidos graxos no fígado. O cérebro pode
um animal. Quase metade deste volume é
oxidar o β-hidroxibutirato via acetil-CoA,
ocupado por três tipos de células sanguíneas:
evitando que sejam gastas proteínas muscu-
(a) os eritrócitos, que constituem a grande
lares, as quais são usadas como fonte de ener-
maioria e que contêm hemoglobina, sendo
gia por outros órgãos, durante períodos pro-
especializados em transportar O2; (b) os leu-
longados de jejum. O cérebro pode realizar
cócitos, que estão em menor número do que
glicólise aeróbica e ciclo de Krebs para obter
os eritrócitos, sendo de vários tipos e tendo
o ATP necessário para sua atividade.
funções de defesa contra as infecções; e (c) as
O ATP é necessário para criar e manter o plaquetas (trombócitos), que contribuem no
potencial elétrico através da membrana plas- processo da coagulação sanguínea.
mática dos neurônios, durante a transmissão
de impulsos nervosos. A membrana plasmá- A fração líquida do sangue está cons-
tica das células nervosas possui um trans- tituída pelo plasma sanguíneo, que contém
portador antiport dependente de ATP, o qual 90 % de água e 10 % de solutos. Entre os solu-
leva íons K+ para o interior e íons Na+ para o tos do plasma estão:
exterior do neurônio. Para cada molécula de (a) Proteínas plasmáticas (70 % do total de
ATP hidrolisada, 3 íons Na+ são transporta- solutos), entre elas a albumina, as lipopro-
dos para fora do neurônio e 2 íons K+ entram. teínas VLDL, as lipoproteínas de baixa den-
Com isso é gerada uma diferença de poten- sidade (LDL: Low Density Lipoproteins), as
cial elétrico através da membrana do neurô- lipoproteínas de alta densidade (HDL: High
nio, que tem o lado interior negativo em re- Density Lipoproteins), as imunoglobulinas
lação ao exterior. As mudanças de potencial (anticorpos), o fibrinogênio, a pró-trombi-
transmembranal constituem sinais elétricos na, as proteínas transportadoras e os hor-
transitórios que passam de um neurônio a mônios peptídicos.
outro e são a principal forma de transferência
de informação no sistema nervoso. (b) Moléculas orgânicas pequenas (20 % dos
solutos), como a glicose, os aminoácidos, o
lactato, o piruvato, os corpos cetônicos, o ci-
O sangue trato, a ureia e o ácido úrico.

A corrente circulatória é o meio de in- (c) Compostos inorgânicos (10 % dos so-
ter-conexão entre todos os tecidos. Através lutos) tais como o NaCl, o íon bicarbonato,
dela, são transportados os nutrientes desde o o íon fosfato, o CaCl2, o MgCl2, o KCl e o
trato gastrintestinal até o fígado e deste para Na2SO4. Os solutos de baixo peso molecu-
o tecido adiposo e demais órgãos. Também lar presentes no sangue estão em constante
são transportados os produtos de excreção fluxo entre este e os outros tecidos. A en-
de todos os tecidos para o rim, o oxigênio trada de íons inorgânicos pela alimentação
desde os pulmões até os tecidos e o CO2 gera- é equilibrada com a eliminação através do

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rim. Alguns dos íons têm um estado dinâmi- Depois, Sumner, em 1926, isolou a enzima
co estável, isto é, são trocados entre sangue urease em forma cristalina e propôs que era
e tecidos, mas sua concentração não variam uma proteína. Um conhecido bioquímico da
muito. Assim, os níveis de Na+, K+, e Ca2+ no época, Willstäter, rejeitou esta tese, alegando
sangue são mantidos em torno de 140 mM, as enzimas serem moléculas de baixo peso
5 mM e 2,5 mM, respectivamente, através de molecular. Finalmente, Northrop, em 1930,
um controle exercido pelo rim, onde partici- trabalhando com pepsina e tripsina, mostrou
pam mecanismos endócrinos. evidências contundentes de que as enzimas
eram proteínas. Hoje são conhecidas e classi-
A concentração de glicose também é
ficadas, cerca de 2.000 enzimas, praticamen-
mantida constante. Em animais monogástri-
te todas elas sendo proteínas, com exceção
cos está em torno de 80-110 mg/dL (4,5-6,0
de um pequeno grupo de ácidos nucleicos
mM), e em ruminantes, em torno de 60 mg/
(RNA) com ação catalítica (ribozimas).
dL (3,3 mM). Uma queda do nível de glico-
se sanguínea (hipoglicemia) leva a falhas na A função catalítica das enzimas depende
função cerebral, causando confusão mental. de que sua estrutura esteja intacta. Agentes
Abaixo de 40 mg/dL ocorre letargia, coma, físicos ou químicos, tais como calor ou extre-
convulsões e morte. O nível de glicose no mos de pH ou agentes desnaturantes causam
sangue é controlado endocrinamente pela perda da ação catalítica das enzimas. O meta-
insulina, a qual tem ação hipoglicemiante, e bolismo depende da ação direta das enzimas e
pelo glucagon e a adrenalina, que têm efeito do seu controle através de diferentes mecanis-
hiperglicemiante. mos que envolvem os hormônios, a expressão
gênica e o autocontrole a partir dos próprios
metabólitos resultantes da ação enzimática.
ENZIMAS
As enzimas possuem as seguintes caracte-
As enzimas ilustram a grande varieda- rísticas: (a) alto grau de especificidade (mode-
de de proteínas existentes na natureza. Gra- lo “chave-fechadura”), determinado pelo sítio
ças às enzimas são possíveis todas as reações ativo da molécula proteica enzimática, onde a
químicas que ocorrem nos seres vivos e que ligação substrato-enzima é específica, podendo
permitem a manutenção da vida. haver especificidade absoluta (a um composto)
ou relativa (a um grupo de compostos); (b) são
O processo enzimático mais antigo que
catalisadores que não geram subprodutos, ou
se conhece é o da fermentação da glicose até
seja, não sofrem alterações durante a catálise,
etanol, feito pelas leveduras, tendo sido des-
e sua eficiência catalisadora é de 100 %; e (c)
crito por Pasteur, em 1850. O termo enzima
atuam em soluções intracelulares, isto é, em so-
(do grego “na levedura”) foi proposto pelo
luções aquosas sob condições de temperatura e
próprio Pasteur, em 1877, pois acreditava-
pH moderadas (37 oC e 7,4, respectivamente).
-se que as enzimas não podiam atuar fora
das células. Entretanto, o grande aconteci-
mento que marcou a história da enzimologia Classificação sistemática das enzimas
e da própria bioquímica foi o isolamento de
todas as enzimas que participam no proces- Além dos nomes genéricos com que são
so da fermentação da glicose, realizado por conhecidas as enzimas (baseado geralmen-
Büchner, em 1897, provando que as enzimas te na adição do sufixo -ase ao nome de seu
podiam atuar em forma isolada das células. substrato ou a uma palavra que descreva sua

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atividade), existe uma nomenclatura dentro ma de aumentar a velocidade de uma reação.
de um sistema internacional, elaborado pela As enzimas atuam diminuindo a energia de
Comissão de Enzimas da IUB (International ativação da reação devido à formação de um
Union of Biochemistry). Este sistema está ba- complexo com o substrato que causa mudan-
seado no tipo de reação catalisada, estabele- ças conformacionais e facilita a passagem do
cendo seis classes de enzimas, as quais têm estado transicional para a geração do produto.
subclasses e sub-subclasses. Cada enzima
A catálise ocorre no sítio ativo da enzi-
tem designado um código de quatro dígitos.
ma, onde somente se liga o substrato especí-
As seis classes, que correspondem ao primei-
fico, mediante interações que são, geralmen-
ro dígito, são as seguintes:
te, de tipo não covalente. As enzimas podem
1. Oxidorredutases: transferem elétrons. aumentar a velocidade da reação, mas não
2. Transferases: transferem grupos funcionais. afetam o equilíbrio termodinâmico da rea-
ção. Assim, a reação obedece a mudanças de
3. Hidrolases: participam em reações de hi- energia livre do sistema, ou seja, é realizada
drólise (transferem grupos funcionais à água). caso seja energeticamente possível. A velo-
4. Liases: adicionam grupos a ligações duplas, ou cidade da reação pode aumentar, devido à
formam ligações duplas pela remoção de grupos. ação catalítica da enzima, de 107 vezes (como
na anidrase carbônica) até 1014 vezes (como
5. Isomerases: produzem formas isoméricas
na urease). Este evento é possível porque o
mediante a transferência de grupos.
sítio ativo da enzima é complementar com
6. Ligases (sintetases): condensam grupos o estado energético de transição do substra-
em reações acopladas com a hidrólise do to (depois de superar a energia de ativação),
ATP, formando uniões C-C, C-S, C-O e C-N. isto é, a interação ótima entre o substrato e o
Os demais dígitos correspondem a sub- sítio ativo da enzima é obtida no estado ener-
grupos específicos de ação da enzima. gético de transição, e não no estado basal.
A cinética enzimática é estudada in vitro
com as enzimas purificadas, identificando o
Cinética enzimática
efeito de vários fatores, como a concentração
Para que uma reação ocorra, ela deve do substrato e as mudanças de pH e tempe-
vencer a energia de ativação dessa reação, ratura, sobre a velocidade da reação.
isto é, aquela quantidade de energia aplicada
ao substrato da reação necessária para supe- Efeito da concentração do substrato
rar a barreira energética a fim de gerar um na velocidade da reação enzimática
produto. Uma forma de superar a energia de
ativação para aumentar a velocidade de uma A velocidade da reação enzimática, ex-
reação é aumentando a temperatura do sis- pressada como velocidade inicial (Vo), au-
tema, obtendo assim maior interação entre menta com o incremento na concentração
as moléculas. A velocidade da reação é dupli- do substrato [S], quando é mantida constan-
cada a cada 10 oC de aumento na temperatu- te a concentração da enzima. Este aumento
ra do sistema. No entanto, nas células, onde continua até um ponto no qual é obtida a ve-
as condições são isotérmicas e as condições locidade máxima de reação (Vmax). Esta velo-
de pH são quase neutras, as enzimas atuam cidade máxima corresponde ao ponto de sa-
como catalisadores, isto é, como outra for- turação da enzima, isto é, quando o número

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de moléculas do substrato excede o número que a enzima tem por seu substrato. Esta cons-
de moléculas da enzima. A partir desse pon- tante de Michaelis-Menten (Km), é definida
to a velocidade da reação é mantida constan- como a concentração de substrato, em con-
te. Em baixas concentrações de substrato, a centração molar, necessária para que a meta-
Vo aumenta em forma linear à medida que de da velocidade máxima (½Vmax) da reação
a concentração do substrato aumenta. Po- seja atingida. A relação entre a concentração
rém, depois de determinada concentração de substrato e a velocidade da reação pode
do substrato, a velocidade fica cada vez mais ser expressada matematicamente a partir da
lenta até chegar a zero, isto é, quando não equação de Michaelis-Menten:
há mais aumento de Vo, atingindo a Vmax. A
Vmax [S]
curva correspondente a esta reação descreve V0 
uma hipérbole retangular com uma assíntota K m  [S]
em Vmax (Figura 5).
onde:
Michaelis e Menten, em 1913, estuda-
ram a cinética que têm as reações catalisadas Vo = velocidade inicial
por enzimas com um substrato. A reação Vmax = velocidade máxima
pressupõe a formação de um complexo da
Km = constante de Michaelis-Menten
enzima com o substrato, que posteriormente
libera o produto e a enzima livre: [S] = concentração do substrato (em mol/L).


k1

k2


Quando a velocidade de reação (Vo) é a
E  S  ES  E  P metade da velocidade máxima, ou seja, quan-
k 1 k 2

do Vo = Vmax/2, a equação será


As duas reações são reversíveis e têm
suas próprias constantes de velocidade: k1 Vmax V [S]
 max
(k -1 no sentido inverso) e k2 (k -2 no sentido 2 K m  [S]
inverso) que determinam a velocidade da re-
ação. A segunda reação é mais lenta, limitan- e, dividindo ambos os termos por Vmax, fica:
do a velocidade da reação, a qual está deter-
minada pela concentração do complexo ES. 1

S
A enzima pode estar em forma livre (E) 2 K m  S
ou unida ao substrato (ES). Quando há baixa Portanto,
[S] a maior parte da enzima está em forma
livre (E). Assim, haverá pouco [ES] e a velo- Km + [S] = 2[S]
cidade da reação será baixa. Quando aumen- Logo,
ta [S] há maior [ES] disponível e a reação in-
Km = [S].
crementa sua velocidade, até o ponto em que
toda a enzima está como ES, isto é, quando A dedução anterior explica a definição da
atinge o ponto de saturação. Quando [ES] é constante de Michaelis-Menten, isto é, a con-
constante, a velocidade da reação também se centração de substrato necessária para obter
mantém constante (plateau da curva). metade da velocidade máxima da reação.
Michaelis e Menten deduziram uma A equação de Michaelis-Menten é útil
constante que é indicadora da velocidade da para determinar Vmax e Km de uma enzima.
reação e, por extensão, do grau de afinidade No entanto, pelo fato de corresponder a uma

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y = 1/Vo
x = 1/[S]
a = Km/Vmax
b = 1/Vmax
Esta linearização é muito útil para calcular
a Km de uma enzima, de forma mais confiável.
A Km pode ser aplicado àquelas enzimas cuja
cinética mostra uma curva hiperbólica (ci-
nética Michaelis-Menten). Os valores de Km
e de Vmax são característicos de cada enzima
e podem variar para os diferentes substra-
tos da mesma enzima (Tabela 3). Nas rea-
ções enzimáticas, onde participa mais de um
substrato, existe uma Km para cada substrato.
Figura 5 – Cinética em enzimas alostéricas e não- Assim, na reação de fosforilação da glicose
-alostéricas. pela hexoquinase, onde o doador do grupo
fosfato é o ATP,

equação hiperbólica é difícil de calcular, sen- glicose + ATP → glicose-6-fosfato + ADP


do mais fácil trabalhar com uma transforma-
ção linear. É o caso da equação dos duplos a Km da hexoquinase é de 0,05 M para a gli-
recíprocos ou equação de Lineweaver-Burk, cose, e de 0,4 M para o ATP, indicando que a
enzima tem maior afinidade pela glicose do
a qual está baseada na inversão da equação
que pelo ATP.
de Michaelis-Menten:

1 K m  [S]
 Efeito do pH e da temperatura
V0 Vmax [S] sobre a velocidade da reação enzimática

transformando-a, separando os termos do As enzimas possuem valores ótimos


lado direito da equação, temos: de pH e temperatura, isto é, aqueles pontos
nos quais sua atividade é maior. O grau de
1 Km [S] ionização dos grupos ionizáveis da enzima,
 
V0 Vmax [S] Vmax [S] o qual depende do pH, influi na interação
do sítio ativo da enzima com seu substrato.
e, simplificando, temos a equação de Linewea- Assim, em nível intracelular, o pH do meio
ver-Burk: controla a atividade da enzima, pois o pH
ótimo não é necessariamente o pH do meio.
1 K 1 1
 m   Diferentes enzimas podem ter diferen-
V0 Vmax [S] Vmax tes valores de pH ótimo, em função do pH do
meio onde atuam. Assim, na pepsina do suco
Esta equação pode ser considerada como gástrico, o pH ótimo é de 1,6 (pH do estôma-
a equação de uma linha reta (y= ax+b), onde: go: 1-2); na glicose-6-fosfatase do hepatócito,

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TABELA 3 – CONSTANTES DE MICHAELIS MENTEN (MM) DE ALGUMAS ENZIMAS.

Enzima Substrato Km
catalase H2O2 25
hexoquinase glicose 0,05
hexoquinase frutose 1,5
hexoquinase ATP 0,4
AST aspartato 0,9
AST -cetoglutarato 0,1
AST oxaloacetato 0,04
AST glutamato 4
anidrase carbônica HCO3- 9
-galactosidase lactose 4
quimotripsina Gly-Tyr-Gly 108
quimotripsina N-benzoiltirosinamida 2,5

é de 7,8 (pH do hepatócito: 7,2); na fosfatase expressada em unidades internacionais (UI).


alcalina do epitélio intestinal, é de 10 (pH in- Uma UI é a quantidade de enzima necessá-
testinal: 7,0). Uma vez que nenhuma célula ria para transformar 1 μmol de substrato por
do organismo tem um valor de pH tão alca- minuto, a 25 oC, sob condições ótimas de tra-
lino, neste caso, como em alguns outros, é balho. A atividade das enzimas de uso em clí-
presumido que o pH do meio seja um fator nica é expressa em U/L.
de controle sobre a atividade enzimática. A atividade específica de uma enzima
O aumento da temperatura, quando corresponde ao grau de atividade e de puri-
ficação da enzima, sendo expressado como
as enzimas são analisadas in vitro, até certo
UI/mg de proteína, isto é, tem maior valor
ponto provoca um aumento da atividade en-
quanto mais purificada estiver a enzima.
zimática, mediante a diminuição da energia
de ativação da reação. No entanto, como a A atividade enzimática também pode ser
maioria das enzimas são proteínas termo- medida pelo número de turnover ou número
lábeis, são desnaturadas quando expostas a de conversão, também expressado como kcat
altas temperaturas, perdendo sua atividade. (constante de catálise). Essa constante equi-
vale ao número de moléculas de substrato
transformadas por uma molécula de enzima
Medida da atividade enzimática por segundo, quando a enzima está saturada
com este substrato. O número de turnover é
A atividade enzimática pode ser medi- medido com a enzima purificada e com um
da conhecendo as seguintes variáveis: (a) os substrato específico (Tabela 4).
substratos, os produtos e os cofatores da rea-
ção enzimática; (b) um método para anali-
sar quaisquer das substâncias anteriores; (c) Inibidores da ação enzimática
a estequiometria da reação; e (d) os valores
O estudo dos inibidores da ação enzimá-
ótimos de pH e temperatura da atividade da tica tem proporcionado importantes contri-
enzima estudada. A atividade enzimática é buições ao conhecimento da especificidade

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TABELA 4 – NÚMEROS DE TURNOVER (KCAT) DE ALGUMAS ENZIMAS

Enzima Substrato nº de turnover


catalase H2O2 40.000.000
anidrase carbônica HCO3- 400.000
colinesterase acetilcolina 140.000
fumarase fumarato 800
-galactosidase lactose 208
fosfoglicomutase glicose-6-fosfato 20,7
ATPase ATP 0,4

dos substratos enzimáticos, da natureza dos de diminuir a velocidade da reação e aumen-


sítios ativos nas enzimas, dos mecanismos da tar a constante de Michaelis. A Vmax pode ser
atividade enzimática, e das vias metabólicas e atingida depois que altas quantidades do
seu controle. Sua aplicação farmacêutica é tam- substrato desloquem a totalidade do inibidor
bém relevante. Assim, importantes inibidores unido à enzima.
têm sido utilizados, como a aspirina, que inibe Um exemplo de inibidor competitivo é
a enzima prostaglandina sintetase, evitando a o malonato, que inibe a succinato desidro-
formação de prostaglandinas, substâncias as- genase (enzima do ciclo de Krebs), por com-
sociadas com o processo inflamatório. petir com seu substrato natural, o succinato,
Os diferentes tipos de inibição enzimáti- evitando a geração do produto normal, o fu-
ca podem ser divididos em dois grandes gru- marato. A reação normal é:
pos: reversível e irreversível.

Inibição reversível

Existem dois tipos de inibição reversível:


a competitiva e a não-competitiva. Na inibição sendo que a presença de malonato inibe a reação.
reversível competitiva, o inibidor compete
Outro exemplo de inibição competitiva
com o substrato pelo sítio ativo da enzima, de-
ocorre pela ação das sulfas, cujo efeito bac-
vido a sua similaridade estrutural. Enquanto o
teriostático está baseado na inibição da en-
inibidor estiver ocupando o sítio ativo, o subs-
zima que tem como substrato o PABA (áci-
trato não pode se ligar à enzima. A inibição
do p-aminobenzóico), evitando a síntese de
é revertida quando suficiente quantidade do
ácido fólico nas bactérias, o qual é essencial
substrato desloca o inibidor do sítio ativo. As
para seu crescimento. A semelhança estru-
reações podem ser expressadas assim:
tural entre substrato e inibidor é evidenciada
E + IEI quando comparadas as estruturas do PABA,
na Figura 14, com a da sulfanilamida, abaixo:
EI + S ES + I
O complexo enzima-inibidor (EI) não
gera nenhum produto. O efeito do inibidor
competitivo sobre a cinética enzimática é o

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Na intoxicação por metanol, ocorre oxi- Nas condições intracelulares, este tipo
dadação desse composto por ação da enzima de inibição é utilizado por certos modula-
álcool desidrogenase, com formação de for- dores da ação enzimática, que se unem às
maldeído, o qual causa dano sobre o nervo enzimas controladoras de diferentes vias me-
óptico, provocando cegueira. Nesses casos, é tabólicas. Estes moduladores alostéricos se
usado etanol para competir com o metanol, ligam ao sítio alostérico da enzima, sítio este
favorecendo a formação de acetaldeído, o diferente do sítio ativo. Como exemplo, pode
qual é excretado pela urina, inibindo a for- ser citada a inibição da treonina desidratase
mação de formaldeído. pela isoleucina, a qual se une à enzima de
forma reversível. A modulação depende do
Na inibição reversível não-competitiva, o estado metabólico da célula; neste caso, da
inibidor se liga a um sítio diferente do sítio necessidade de metabolizar a treonina.
ativo da enzima, mas também afetando sua
atividade, embora não exista similaridade
estrutural entre o substrato e o inibidor. A Inibição irreversível
união do inibidor à enzima induz uma mu-
dança conformacional na enzima, reduzindo Ocorre com aqueles compostos que se
a taxa de formação de complexo enzima- unem irreversivelmente a grupos funcionais
do sítio ativo da enzima, em ocasiões median-
-substrato (ES) e/ou reduzindo a taxa de de-
te ligações covalentes, formando complexos
gradação de ES para formar o produto.
inativos. Como exemplo deste tipo de inibi-
O inibidor não bloqueia a união do ção, estão os compostos organofosforados,
substrato com a enzima, mas o complexo ES os quais são frequentemente usados nos
não forma nenhum produto enquanto o ini- animais domésticos como antiparasitários.
bidor estiver unido à enzima. A inibição, en- Estes compostos, inicialmente derivados do
tão, não pode ser revertida com aumento da diisopropil-fluorofosfato, inibem a enzima
concentração do substrato. O inibidor pode colinesterase, a qual catalisa a reação apre-
se ligar à enzima livre ou ao complexo ES: sentada mais abaixo.

E + IEI A acetilcolina é um neurotransmissor nos


animais superiores e insetos, sendo a colines-
EI + S ESI ou ES + IESI terase a enzima encarregada de sua hidrólise,
Inibidores que se unem somente ao controlando, assim, a transmissão dos impul-
complexo ES são definidos como acompe- sos nervosos. Os compostos organofosforados
titivos. A Vmax não é alcançada mesmo com se unem de forma irreversível a resíduos de
o aumento na concentração de substrato. A serina no sítio ativo da colinesterase, mediante
afinidade da enzima por seu substrato não ésteres fosfóricos, impedindo sua ação catabó-
varia, pois o sítio ativo está livre e, portanto, lica e causando paralisia. Os compostos orga-
não é alterado o valor da Km. nofosforados atuam também como inibidores

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sobre outras enzimas que possuem resíduos sítio ativo da enzima: é o sítio regulador ou
de serina em seu sítio ativo, como a tripsina, alostérico (do grego “alos”, outro, e “stereos”,
a quimotripsina, a elastase e a fosfoglicomu- sítio). Este sítio é específico em cada enzima
tase. Mediante este inibidor foi descoberto alostérica para o respectivo modulador.
que a serina formava parte do sítio ativo des-
Via de regra, as enzimas alostéricas são
sas enzimas.
grandes e complexas, com várias subunida-
Nos inibidores irreversíveis não se apli- des e não obedecem à cinética de Michaelis-
ca a cinética de Michaelis-Menten, já que a -Menten. A cinética destas enzimas mostra
reação não é reversível: um padrão de tipo sigmoidal, ao invés de
hiperbólico típico (Figura 5). Podem tam-
E + I→ EI bém existir moduladores positivos, isto é,
Outros inibidores irreversíveis são os metabólitos da via metabólica que aumen-
agentes alquilantes iodoacetato (I-CH2-COO–) tam a atividade da enzima. Geralmente, tais
e iodacetamida (I-CH2-CO-NH2), que se moduladores são os próprios substratos da
unem a grupos sulfidrilo (-SH) presentes nos enzima. Em alguns casos, a enzima pode ter
sítios ativos de algumas enzimas, alquilando- simultaneamente dois sítios alostéricos: um
-as e inibindo-as de forma irreversível for- para um modulador positivo e outro para
mando o complexo enzima-S-CH2-COO-. um modulador negativo.
Existem alguns inibidores irreversíveis que
Se a enzima tiver o mesmo substrato da
são substâncias que inicialmente reagem
reação como modulador positivo (enzima
com a enzima, mas cujo produto de reação
alostérica homotrópica), tem vários sítios
é um inibidor que se une irreversivelmente à
ativos e ocorre um aumento na velocidade
mesma enzima. Recebem o nome de inibido-
catalítica por cooperatividade positiva, isto
res “suicidas”.
é, a união do substrato ao sítio ativo favorece
a união de mais moléculas do substrato aos
Regulação enzimática outros sítios ativos. Em enzimas cujo mo-
dulador é diferente do substrato da reação
As enzimas reguladoras são aquelas (enzimas alostéricas heterotrópicas), a velo-
enzimas que controlam vias metabólicas, cidade catalítica pode aumentar ou diminuir,
encontrando-se geralmente no início das conforme seja modulador positivo ou nega-
rotas metabólicas. O efeito regulador ou mo- tivo, respectivamente, mediante alterações
dulador pode ser exercido mediante união em sua Km ou em sua Vmax.
não-covalente de moduladores (no caso das
enzimas alostéricas), ou por modificação co-
Enzimas reguladas por modificação covalente
valente da enzima.
Estas enzimas geralmente são modifi-
Enzimas alostéricas cadas em sua atividade catalítica por proces-
sos reversíveis de fosforilação (adição de um
Comumente estas enzimas são inibidas grupo fosfato em resíduos de serina, tirosina,
pelo produto final da via metabólica, even- treonina ou histidina), adenilação (adição de
to conhecido como inibição por feedback. O um AMP a um resíduo de tirosina), uridilação
metabólito inibidor (modulador negativo) se (adição de um UMP em um resíduo de tiro-
une reversivelmente a um sítio diferente do sina), ADP-ribosilação (adição de ADP-ribose

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a resíduos de arginina, glutamina ou cisteína), de tipo A4, A3B, A2B2, AB3 e B4. No músculo
ou metilação (adição de um grupo metila a um esquelético, predominam as isoenzimas com
resíduo de glutâmico). maior número de cadeias A, enquanto no co-
ração predominam as que têm cadeias B.
São enzimas que contêm várias subuni-
dades. A glicogênio fosforilase, enzima que A distribuição das isoenzimas de uma
degrada o glicogênio no fígado e no músculo, mesma enzima depende de diversos fatores,
é ativada por duas fosforilações nos grupos tais como (a) as características metabólicas
-OH de duas serinas (forma ativa ou fosfori- do tecido, como no caso da glicogênio fosfo-
lase a) e inativada pela desfosforilação (forma rilase presente no fígado ou no músculo, (b)
inativa ou fosforilase b). O contrário ocorre diferente localização intracelular e o papel
com a glicogênio-sintetase, enzima que forma metabólico realizado, como na isocitrato de-
glicogênio: é ativada por desfosforilação e ina- sidrogenase mitocondrial ou citosólica, (c) a
tivada por fosforilação. Ambas as enzimas, por diferenciação do tecido, e (d) o controle so-
bre as vias metabólicas, como ocorre com a
sua vez, estão controladas por hormônios que
glicoquinase e a hexoquinase no fígado ante
induzem mecanismos de fosforilação ou des-
diferentes concentrações de glicose.
fosforilação (adrenalina, glucagon e insulina).
Outros tipos de regulação enzimática in-
COFATORES ENZIMÁTICOS
cluem:
(a) proteínas separadas que se unem a enzi- Os cofatores enzimáticos são compo-
mas para inibir ou estimular sua atividade, nentes requeridos por algumas enzimas para
como a proteína inibidora da tripsina e a a1- sua atividade catalítica. O cofator é o com-
-antiproteinase que inibe a elastase; (b) cliva- ponente não-proteico da ação enzimática,
gem proteolítica de certas enzimas com in- podendo ser íons metálicos ou moléculas
dução da sua atividade, como na conversão orgânicas (coenzimas). As enzimas que ne-
de protrombina em trombina e na ativação cessitam cofatores para exercerem sua ação
dos zimogênios digestivos tripsinogênio e são chamadas holoenzimas, termo que inclui
quimotripsinogênio. o complexo catalítico enzima-cofator. Estas
enzimas, quando encontradas sozinhas, são
denominadas apoenzimas ou apoproteínas.
Isoenzimas
As enzimas que precisam de íons são
São diferentes formas moleculares da chamadas metaloenzimas, e o íon pode atuar
mesma enzima, que podem estar presentes de várias formas:
no mesmo indivíduo, no mesmo tecido ou na (a) Como centro catalítico primário, no sítio
mesma célula, porém, em um compartimento ativo da enzima.
diferente. Cada isoforma pode variar em sua
(b) Como complexo de coordenação ou gru-
cinética, sua regulação, no cofator que usa ou
po de união entre o substrato e a enzima.
na distribuição subcelular. Geralmente são
muito similares na sequência de aminoácidos. (c) Como estabilizador da conformação da
Assim, a lactato desidrogenase (LDH) tem enzima.
cinco isoenzimas, cada uma com 4 subunida-
Exemplos de metaloenzimas e seus cor-
des. Estas subunidades podem ser do tipo A
respondentes íons são anidrase carbônica
(ou M) e B (ou H), podendo haver isoenzimas
(Zn2+), fosfotransferases (Mg2+ ou Mn2+),

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citocromos (Fe2+ ou Fe3+), citocromo oxida- Nucleotídeos piridínicos
se (Cu+), piruvato quinase (K+, Mg2+), ATPase
(Na+, Mg2+), urease (Ni2+), dinitrogenase As formas coenzimáticas dos nucleotí-
(Mo) e glutation peroxidase (Se). deos piridínicos são o NAD (nicotinamida-
-adenina-dinucleotídeo) e o NADP (nicoti-
As coenzimas são geralmente derivadas
namida-adenina-dinucleotídeo-fosfato). Es-
de alguma vitamina hidrossolúvel, princi-
ses nucleotídeos são derivados da nicotina-
palmente do complexo B, atuando como
mida, amida do ácido nicotínico (niacina),
transportadoras intermediárias de grupos
vitamina do complexo B (Figura 6).
funcionais, átomos ou elétrons. A coenzima
incorporada à estrutura da enzima recebe o No sentido exato da palavra, a niacina
nome de grupo prostético. não é uma vitamina (composto essencial que
precisa ser incorporado na dieta), pois ela
Entre as principais coenzimas encon- pode ser sintetizada no organismo a partir de
tram-se os nucleotídeos piridínicos (deriva- triptofano (Trp). Porém, a conversão de Trp
dos de nicotinamida) e flavínicos (derivados em niacina é relativamente ineficiente e só
de riboflavina), a tiamina-pirofosfato (deri- acontece depois que os requerimentos de Trp
vada da vitamina B1), a coenzima A (deriva- estão cobertos. Por outro lado, a biossíntese
da do ácido pantotênico), o piridoxal-fosfato de niacina necessita de tiamina, riboflavina e
(derivado da vitamina B6), a biocitina (deri- piridoxina. Assim, em termos práticos, tanto
vada da biotina), a coenzima B12 (derivada da a niacina quanto o Trp são essenciais e preci-
cianocobalamina ou vitamina B12) e a lipoil- sam estar na dieta. A deficiência de niacina
-lisina (derivada do ácido lipóico). causa glossite. A deficiência moderada causa

Figura 6 – Estrutura do NAD e do NADP.


O grupo fosfato, presente exclusivamente no NADP, bem como a nicotinamida, estão circundados por linhas tra-
cejadas. No quadro menor, é mostrada a forma reduzida do grupo nicotinamida. AMP, adenosina mono-fosfato;
NMN, nicotinamida mononucleotídio.

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pelagra em humanos, doença caracterizada xima absorção (260 e 340 nm), enquanto que
pelos três Ds: dermatite, diarreia e demên- o NAD+ apresenta absorção apenas a 260 nm.
cia. No cão, a deficiência de niacina causa
a doença chamada “língua preta”, devido à
glossite. Os sinais neurológicos são devidos à Nucleotídeos flavínicos
degeneração do sistema nervoso. A avitami-
nose está associada a dietas pobres em pro- As formas coenzimáticas dos nucleotí-
deos flavínicos são o FAD (flavina-adenina-
teína, alcoolismo crônico e síndrome de má
absorção. A niacina é encontrada nas carnes, -dinucleotídeo) e o FMN (flavina-mononu-
nas leguminosas e nos cereais. cleotídeo). Ambas as formas são derivadas
da riboflavina ou vitamina B2 (Figura 7).
Os nucleotídeos NAD e NADP são cha- Sinais clínicos característicos da deficiência
mados também nucleotídeos de piridina, de riboflavina incluem glossite e dermatite
pois a nicotinamida é um derivado da piri- escamosa (especialmente nas dobras naso-
dina. Estes nucleotídeos atuam como coen- labiais e na área escrotal). Esta vitamina é
zimas de muitas enzimas oxidorredutases, encontrada no leite, na carne, nos ovos e nos
as quais atuam como receptoras de elétrons cereais. A deficiência severa está relacionada
de substratos específicos. NAD+ e NADP+ com subnutrição e alcoolismo crônico.
(formas oxidadas) sofrem redução reversível
em seu anel nicotinamida, devido à oxidação Pode-se dizer que as coenzimas flavíni-
de um substrato, que doa um par de átomos cas não são nucleotídeos verdadeiros, pois,
de H. O nucleotídeo oxidado recebe um íon ao invés de pentose como açúcar, eles contêm
hidreto (H–), equivalente a um próton e dois ribitol. Os flavonucleotídeos estão unidos
elétrons, e transforma-se em NADH ou NA- fortemente à enzima, atuando como gru-
DPH (formas reduzidas). As formas reduzi- po prostético (flavoproteína), podendo esta
das, por sua vez, podem doar H para reduzir união ser covalente, como no caso da succi-
outros compostos e, assim, voltar à forma nato desidrogenase. As formas oxidada (FAD
oxidada. A união do NAD à enzima é fraca e FMN) e reduzida (FADH2 e FMNH2) po-
(não-covalente). O nucleotídeo se movi- dem ser diferenciadas por espectrofotome-
menta através da superfície de uma enzima tria, pois a forma oxidada tem dois pontos de
a outra, atuando como um transportador de máxima absorção, a 370 e a 450 nm, enquan-
elétrons entre um metabólito e outro. to que a forma reduzida somente tem o pico
de absorção a 450 nm. As flavoenzimas atu-
Existem aproximadamente 200 desi- am como oxidorredutases em muitos proces-
drogenases identificadas: as desidrogenases sos oxidativos, como do ácido pirúvico, dos
NAD-dependentes participam da transfe- ácidos graxos e dos aminoácidos, bem como
rência de elétrons em processos oxidativos na cadeia de transporte eletrônico.
(catabólicos), enquanto as desidrogenases
NADP-dependentes participam da trans-
ferência de elétrons em processos redutivos Tiamina-pirofosfato (TPP)
(biossintéticos ou anabólicos). Os estados oxi-
dado (NAD+) e reduzido (NADH) podem ser Também é conhecida como tiamina-
diferenciados por espectrofotometria ultra- -difosfato (Figura 8). É derivada da tiamina
violeta, pois o espectro de absorção do NADH (vitamina B1). O grupo ativo da TPP é o tia-
apresenta dois comprimentos de onda de má- zol, e necessita também do Mg2+ como cofa-

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Figura 7 – Estrutura do FAD e do FMN.
As estruturas da riboflavina e do ribitol estão circundados por linhas tracejadas, assim como os átomos
de N onde são introduzidos os H para formar FADH2 (ou FMNH2), que são as formas reduzidas. AMP,
adenosina monofosfato; FMN, flavina mononucleotídio.

Figura 8 – Estrutura da tiamina pirofosfato.

tor. A TPP funciona como coenzima em dois voso: a coenzima se localiza nas membranas
tipos de reações: periféricas dos neurônios, sendo requerida
na biossíntese de acetilcolina e nas reações de
(a) Na descarboxilação-oxidação do piruva-
translocação de íons na estimulação nervosa.
to, com sua conversão em acetil-CoA, e do
α-cetoglutarato no ciclo de Krebs, formando O conhecimento da ação bioquímica da
succinil-CoA. TPP não explica ainda claramente todos os
sinais clínicos decorrentes da deficiência de
(b) Nas reações das transcetolases, na via das
tiamina: perda de apetite, constipação, enjoo,
pentoses-fosfato.
depressão, neuropatia periférica, irritabilida-
Por outro lado, a TPP parece ter impor- de e fadiga. Deficiência de moderada a severa
tante papel na transmissão do impulso ner- causa confusão mental, ataxia (andar camba-

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leante e disfunção motora) e oftalmoplegia da porção fosfopanteteína da proteína trans-
(perda da coordenação ocular). Deficiência portadora de grupos acila (ACP: Acyl Carrier
severa causa beribéri em humanos e poli- Protein) que atua na biossíntese de ácidos
neurite em aves, doenças caracterizadas por graxos. Pelo menos 70 enzimas utilizam a
acúmulo de fluidos (edema) no sistema neu- coenzima A ou a ACP, sendo uma coenzima
romuscular, dor, atrofia e debilidade muscu- importante no metabolismo de lipídeos, pro-
lar, paralisia e morte. Também pode ocorrer teínas e no ciclo de Krebs. É difícil observar
falha cardíaca congestiva. deficiência de ácido pantotênico devido a sua
A deficiência de tiamina é observada ampla distribuição nos alimentos naturais.
em desnutrição avançada, em alimentação A coenzima A atua como transportador
exclusivamente à base de arroz polido e em de grupos acila em reações de: (a) oxidação e
alcoolismo crônico. Em aves, é frequente biossíntese de ácidos graxos; (b) oxidação do
quando ocorrem tratamentos prolongados piruvato; e (c) acetilações (a letra A no nome
com amprólio, um composto anticoccidial, da coenzima é devido a sua participação em
antagonista da tiamina. O café e o chá tam- reações de acetilação).
bém contêm substâncias antitiamínicas, mas
que não representam problema com consu-
mos normais dessas bebidas.

Coenzima A (CoA)

A coenzima A é derivada do ácido pan-


totênico. É um nucleotídeo de adenina que
contém β-mercaptoetilamina (Figura 9).
O ácido pantotênico também é componente

Figura 9 – Estrutura da coenzima A.


O grupo tiol (SH) ativo da coenzima A está circundado por linha tracejada. ADP, adenosina difosfato.

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O grupo ativo da coenzima A é o tiol (a) Reações de transaminação entre asparta-
(-SH), o qual é esterificado com um grupo to e oxalacetato, α-cetoglutarato e glutamato,
acila (R-COOH) gerando um tioéster, du- e alanina e piruvato (Figura 11).
rante o transporte do grupo acila.
(b) Reações da glicogenólise, nas quais a piri-
doxina é componente essencial da glicogênio
Piridoxal-fosfato fosforilase e se une a resíduos de lisina, esta-
bilizando a enzima.
É a forma coenzimática da vitamina (c) Biossíntese das aminas serotonina, nora-
B6. Pode estar como piridoxamina, pirido- drenalina e histamina.
xina, piridoxina-fosfato ou piridoxal, sendo
estas duas últimas as formas ativas. No orga- (d) Formação de niacina a partir de triptofano.
nismo, todas as formas são convertidas em (e) Biossíntese do ácido δ-aminolevulínico
piridoxal-fosfato, coenzima requerida para (ALA), precursor do grupo heme.
a biossíntese, catabolismo e interconversão
dos aminoácidos (Figura 10). (f) Biossíntese de esfingolipídeos, compo-
nentes da mielina.
São muitas as reações que dependem de
piridoxina. Entre os processos mais impor- A deficiência moderada de piridoxina
tantes nos quais há participação desta coen- pode causar irritabilidade, nervosismo e de-
zima, podem ser citados: pressão, bem como anemia sideroblástica (por

Figura 10 – Estrutura das diferentes formas da vitamina B6 e do piridoxal-fosfato.

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Figura 11 – Reação de transaminação.

deficiência de hemoglobina), caracterizada xiadenosil (Figura 12), o qual se une ao Co


por anemia microcítica com alta concentração mediante um ATP, devido à hidrólise de todo
sérica de ferro. Deficiência mais severa causa seu grupo trifosfatado. Somente existem dois
neuropatia e convulsões. Fontes de piridoxina casos desse tipo de hidrólise trifosfatada: na
podem ser encontradas nas carnes, verduras, formação da coenzima B12 e na formação de
cereais e na gema dos ovos. A gestação e a lac- S-adenosilmetionina. A união do grupo ade-
tação aumentam os requerimentos de pirido- nosil ao Co é fraca e fotolábil, o que explica o
xina em pelo menos 30 %. Algumas drogas fato de as plantas não o conterem.
(isoniazida usada na tuberculose e penicila- A vitamina B12 está presente nos alimen-
mina usada na artrite reumatoide) se unem às tos de origem animal, sendo também produ-
formas coenzimáticas da piridoxina inibindo zida por algumas bactérias do trato gastroin-
as enzimas correspondentes. testinal. A cianocobalamina está unida a uma
proteína e para ser utilizada deve ser hidroli-
sada pelo ácido do suco gástrico, onde se com-
Coenzima B12
bina com uma glicoproteína secretada pelo
É a forma coenzimática da vitamina B12 próprio estômago, chamada “fator intrínseco”
(cianocobalamina), caracterizada por ter (o “fator extrínseco” é a cobalamina). Essa
em sua molécula um átomo de cobalto, um proteína transporta a cianocobalamina até o
microelemento essencial. A porção orgâni- íleo onde é absorvida. A deficiência de ciano-
ca da cianocobalamina é um complexo for- cobalamina provoca dois tipos principais de
mado por um anel corrina, similar ao anel sinais clínicos: hematopoiético e neurológico.
porfirínico do heme, ao qual está unido um As reações em que participa a coenzima B12
nucleotídeo (dimetil-benzimidazol ribonu- tornam relativamente fácil a explicação sobre os
cleotídeo) e um grupo cianeto (CN-) que está mecanismos da deficiência de cianocobalami-
unido ao cobalto. Na coenzima B12, o grupo na. O derivado 5’-desoxiadenosil é requerido na
cianeto é substituído por um grupo 5’-deso- reação da enzima metilmalonil-CoA mutase:

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Figura 12 – Estrutura da coenzima B12 (5' desoxiadenosil-cobalamina).

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Nessa reação o grupo -CO-S-CoA do C2 Na deficiência de B12 ocorre deficiência
do metil-malonil é transferido ao C3, sendo de derivados de H4folato, necessários para
trocado com um H que estava neste último. a síntese de purinas e dTMP (e portanto de
Esta reação faz parte do metabolismo dos DNA). A deterioração neurológica deve-
ácidos graxos e de alguns aminoácidos. Nos -se à desmielinização progressiva do tecido
animais ruminantes, é uma reação indispen- nervoso. Na deficiência de B12 ocorre interfe-
sável para a conversão do propionato (prove- rência com a formação de mielina devido ao
niente do metabolismo dos carboidratos no acúmulo de metil-malonil, o qual é inibidor
rúmen) até succinil-CoA, fonte de glicose competitivo do malonil-CoA, intermediá-
(rota da gliconeogênese). rio na síntese de ácidos graxos, interferindo,
portanto, na síntese de esfingomielina.
O derivado metil da coenzima B12 é re-
querido na conversão de homocisteína em O metil-malonil pode também substituir
metionina. A deficiência de vitamina B12 pro- o malonil na síntese residual de ácidos graxos,
voca anemia perniciosa, uma anemia megalo- causando a produção de ácidos graxos rami-
blástica associada com deterioração neuroló- ficados, os quais afetam a estrutura normal
gica. A anemia é devida ao efeito da B12 sobre das membranas nervosas. Nos ruminantes,
o metabolismo do folato, no qual ela participa é difícil encontrar esta deficiência devido à
da formação de tetrahidro-folato: produção de cianocobalamina pelos micror-

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ganismos do rúmen, a menos que a dieta seja Ácido fólico (Folacina)
deficiente em cobalto.
Esta vitamina está envolvida com os
A vitamina B12 apresenta-se distribuída
processos da hematopoiese. Está amplamen-
amplamente nos alimentos, especialmente
te distribuída nos alimentos, especialmente
nas carnes. As reservas de B12 no fígado po-
dem durar até seis anos. As deficiências são nas carnes. Possui de um a sete resíduos de
raras e estão relacionadas com falhas na se- glutamato em sua estrutura (Figura 14). De-
creção de HCl gástrico e do fator intrínseco, pois de ser absorvido no intestino, o ácido fó-
com a síndrome de má absorção ou com die- lico é reduzido a tetra-hidrofolato (H4folato)
tas vegetarianas de longa duração. nos lisossomos, pela enzima H2folato-redu-
tase. Na circulação, a vitamina encontra-se
como N5-metil-H4folato. Dentro das células,
Biotina o H4folato aparece na forma poliglutâmica, a
qual é biologicamente mais potente, sendo,
Constitui o grupo prostético de várias en- dessa forma, armazenado no fígado.
zimas que participam em reações de carboxi-
lação (Figura 13). As mais importantes dessas O H4folato participa de reações biossin-
enzimas são a piruvato carboxilase (que cata- téticas como carregador de unidades de 1
lisa a conversão do piruvato em oxalacetato), carbono. Assim, participa da biossíntese da
participando na via da gliconeogênese, e a colina, serina, glicina, metionina, purinas e
acetil-CoA carboxilase (que catalisa a conver- dTMP. As duas últimas são as reações mais
são do acetil-CoA em malonil-CoA), partici- significativas, pois tanto purinas quanto
pando na biossíntese de ácidos graxos. A bio- dTMP devem ser sintetizados, enquanto os
tina é encontrada no amendoim, no chocolate outros compostos podem ser fornecidos pela
e nos ovos, sendo também sintetizada pelas dieta. Portanto, o efeito mais notório da defi-
bactérias intestinais. A deficiência de biotina ciência de H4 folato é a inibição da síntese de
pode ser observada em tratamentos prolon- DNA, devido à baixa disponibilidade de pu-
gados com antibióticos via oral ou em consu- rinas e de dTMP. Isso leva à detenção das cé-
mo excessivo de ovos crus, os quais contêm a lulas na fase S do ciclo celular, o que provoca
avidina, uma proteína presente na clara, que uma característica mudança megaloblástica
se une à biotina e impede sua absorção. na forma e no tamanho das células de divisão

Figura 13 – Estrutura da biotina.

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Figura 14 – Estrutura do folato.
Os átomos de C e N, onde são introduzidos os dois hidrogênios para formar dihi-
drofolato, estão delimitados por um quadrado tracejado. Dois átomos de hidrogê-
nio adicionais são introduzidos nas posições marcadas por uma elipse tracejada
para a formação do tetrahidrofolato. PABA, ácido p aminobenzóico.

rápida. Observa-se também redução na ma- química na forma de ATP e compostos or-
turação dos eritrócitos com aumento do seu gânicos reduzidos. Esse processo, que pode
tamanho e maior fragilidade das membra- ser considerado como oposto ao processo da
nas, provocando anemia macrocítica, típica respiração realizada pelos animais, é a fonte
da deficiência de folato. A deficiência de fola- primária de energia de todos os seres vivos.
to, embora difícil de acontecer, pode ser cau-
Considera-se como o descobridor da fo-
sada por ingestão ou absorção inadequadas,
tossíntese o físico holandês Jan Ingenhousz,
ou por aumento na demanda (na gestação e
que em 1779, baseado nos experimentos de
na lactação) desta vitamina.
Priestley (o descobridor do oxigênio), en-
controu que as plantas produziam oxigênio
FOTOSSÍNTESE na presença de luz solar. Senebier, em 1782,
adicionou que, além da luz do sol, o dióxido
A formação de energia química, que faz de carbono era necessário para que a fotos-
possível a vida na Terra, é originada a partir síntese pudesse realizar-se.
da energia solar, fato que foi postulado pela
Os seres autótrofos e os heterótrofos es-
primeira vez pelo físico alemão Von Mayer
tão em equilíbrio na biosfera. Assim, os seres
em 1845. Uma vez que essa transformação
autótrofos captam a luz solar para formar ATP
de energia só pode ser realizada pelos orga-
e NADPH, moléculas que usam para pro-
nismos fotossintéticos, a vida na Terra só é
duzir compostos orgânicos a partir de CO2 e
possível devido à fotossíntese.
H2O e liberando O2 na atmosfera, enquanto os
A fotossíntese é um processo quími- seres heterótrofos consomem os compostos
co realizado pelas plantas, as algas e certos orgânicos produzidos pelos seres autótrofos,
microrganismos, mediante o qual a energia para obter energia mediante a oxidação des-
solar é capturada e convertida em energia ses compostos utilizando o O2 atmosférico e

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liberando CO2 ao meio. O CO2 é utilizado de e estava composta de anéis pirrólicos. Fischer,
novo pelos organismos autótrofos, fechando na década de 1930, esclareceu que a estrutura
o ciclo. Calcula-se que a quantidade de ener- da clorofila estava composta por quatro anéis
gia livre capturada na fotossíntese durante um pirrólicos muito similares ao anel heme da he-
ano é 10 vezes maior que a energia gasta em moglobina (Figura 15).
combustíveis fósseis (petróleo, carvão, gás na- A fotossíntese pode ser realizada nas
tural) pela humanidade. plantas devido à capacidade que têm as clo-
rofilas e outros pigmentos de absorver a
energia solar. As clorofilas são os pigmentos
A clorofila
que mais absorvem luz nas plantas, havendo
Em 1817 Pelletier e Caveton isolaram o outros compostos que também absorvem luz
pigmento verde das folhas das plantas e o cha- e, em geral, são chamados de pigmentos cro-
maram de clorofila (do grego, folha verde). Em móforos, entre os quais estão o beta-carote-
no, a ficoeritrina e a ficocianina.
1872, Sachs demonstrou que o produto ime-
diato da fotossíntese era a glicose. Em 1906, A clorofila encontra-se nos cloroplastos,
Willstätter purificou a clorofila e descobriu que organelas das células das folhas similares às
estava composta por duas partes, com diferen- mitocôndrias, no sentido de que têm dupla
tes características de absorção da luz, chaman- membrana e possuem seu próprio DNA, em-
do-as clorofila a e clorofila b. Também encon- bora sejam muito maiores. A membrana ex-
trou que a molécula de clorofila continha Mg2+ terna dos cloroplastos é permeável a íons e a

Figura 15 – Estrutura da clorofila.

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pequenas moléculas. A parte corresponden- A energia da radiação eletromagnética
te à matriz contém o estroma, espaço fluido (Tabela 5) é expressada como quanta (e) em
que contém as enzimas das reações obscuras elétron-vóltio (eV), sendo diferente para cada
da fotossíntese, nas quais o CO2 é reduzido a frequência, a qual depende do comprimento
glicose. Fazendo parte da membrana interna de onda. Por exemplo, a energia da luz verme-
dos cloroplastos existem muitas estruturas lha, a luz de menor frequência na faixa visível
membranais planas e discoidais chamadas do espectro eletromagnético, é de 1,65 eV e a
tilacoides, que, empilhados como moedas, da luz violeta, a de maior frequência, é 3,3 eV.
formam unidades chamadas grana. Os grana A clorofila absorve fortemente a luz
estão interligados por extensões de tilacoides vermelha e a violeta refletindo comprimen-
chamadas lamelas. Embebidos nas membra- tos de ondas intermediárias cuja mistura
nas tilacoides estão os pigmentos fotossinté- dá a cor verde, característica das folhas das
ticos e as enzimas requeridas para as reações plantas. A fotossíntese realiza-se a partir das
de luz da fotossíntese. porções visível e infravermelha próxima do
espectro eletromagnético, fato que tem uma
clara conotação evolutiva, pois é justamen-
Características da energia solar
te essa a faixa do espectro que chega à Terra
A energia solar provém da fusão de áto- desde o sol com maior intensidade.
mos de H causada por efeito das enormes
temperatura e pressão presentes no sol para
formar átomos de He na seguinte reação:
4H → He + energia (26,7 x 106 eV)

TABELA 5 - ESPECTRO DA RADIAÇÃO ELETROMAGNÉTICA

Tipo de radiação Comprimento de onda


Raios gama 0,01-0,1 nm
Raios X < 30 nm
Ultravioleta < 400 nm
Luz visível 400-700 nm
Violeta 415 nm
Azul 465 nm
Vinho 500 nm
Verde 535 nm
Amarelo 580 nm
Laranja 615 nm
Vermelho 680 nm
Infravermelho 700-1000 nm
Micro-ondas <1m
Ondas de rádio > 1000 m

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Reação geral da fotossíntese madas reações obscuras. A formação de O2,
que ocorre somente com a luz, e a redução
Arnon, em 1954, foi o primeiro a poder do CO2, que não requer luz, são processos di-
realizar fotossíntese a partir de cloroplastos ferentes e separados embora ambos ocorram
isolados. A fotossíntese não somente produz nos cloroplastos.
carboidratos como fonte de energia para os
animais, mas também é a via por meio da
qual o carbono entra de novo na biosfera, Reações lumínicas dos cloroplastos
sendo também a principal fonte de oxigênio
da atmosfera. A reação geral do processo da Os pigmentos presentes nas membranas
fotossíntese, na qual é aproveitada a energia tilacoides dos cloroplastos podem conver-
solar, revela um processo de oxidorredução ter a energia da luz solar em energia quími-
em que a água doa elétrons (como H) para ca, pois suas moléculas podem ser excitadas
reduzir o CO2 e convertê-lo em glicídeo com os fótons (quantos de luz). A energia de
(CH2O)n, ou seja: 1 “mol” de fótons (6 x 1023 fótons = 1 eins-
tein) é de 170 a 300 kJ, dependendo do com-
nCO2 + nH2O ---(LUZ)→ (CH2O)n + nO2 primento de onda da luz. Quando ocorre ab-
sorção de luz, os elétrons das moléculas dos
O oxigênio livre produzido provém da pigmentos passam para um estado excitado
água, e não do CO2, o que significa que a (os elétrons passam para um orbital mais
água é o agente redutor no processo, como externo), ficando em situação instável. Ao
foi predito desde 1930 por Van Niel e com- voltar para seu estado basal (estável) emitem
provado depois mediante a utilização de CO2 parte da energia absorvida (fluorescência), a
e H2O marcados com o isótopo 18O2. Entre- qual pode ser utilizada para realizar um tra-
tanto, a H2O não reduz diretamente o CO2. balho químico. A excitação das moléculas
A energia solar produz a oxidação (saída de por um fóton e sua fluorescência são proces-
elétrons) fotoquímica da H2O devido à exis- sos muito rápidos, entre 10-15 e 10-12 segun-
tência de excelentes doadores e receptores de dos, respectivamente.
elétrons, e o receptor final deles é o NADP+, o
Na fotossíntese existem dois fotossiste-
qual é reduzido a NADPH, e o O2 é liberado.
mas que funcionam de forma independente
A fotossíntese agrupa dois processos: (1) e complementar. Um deles absorve luz de
as reações lumínicas, que ocorrem quando a comprimentos de onda de 700 nm ou mais
planta está iluminada; e (2) as reações obscu- (fotossistema I) e o outro absorve luz de
ras ou reações de fixação do CO2 (ciclo de Cal- comprimentos de onda de 680 nm ou menos
vin), que ocorrem tanto em ambiente de luz (fotossistema II). Ambos os fotossistemas
quanto de escuridão. No processo lumínico os são necessários para que a fotossíntese possa
pigmentos fotossintéticos absorvem a energia funcionar eficientemente.
solar, a qual é utilizada para fosforilar ADP e
O primeiro evento é a transferência de
produzir ATP, no processo conhecido como
elétrons excitados pela luz desde os centros
fotofosforilação, descoberto pelo grupo de
de reação (chamados P680 e P700 para os fo-
Arnon, bem como para produzir NAPH.
tossistemas II e I, respectivamente) para uma
Tanto o NADPH quanto o ATP produzi- cadeia de transporte de elétrons. Os centros
dos nas reações lumínicas são utilizados para de reação são um complexo de moléculas de
a síntese redutiva dos carboidratos nas cha- clorofilas unidas a proteínas e de quinonas,

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moléculas que podem ser oxidadas ou redu- durante o dia. As rotas metabólicas desses
zidas recebendo ou doando elétrons. A fon- processos foram esclarecidas pelo bioquími-
te de elétrons é a água (fotólise da água) e o co Melvin Calvin durante a década de 1950.
receptor final deles é o NADP+, que resulta O ciclo de Calvin é realizado nos cloroplas-
reduzido a NADPH. tos e pode ser estudado como se estivesse in-
A fotólise da água ocorre no fotossiste- tegrado por duas partes. Na primeira parte,
ma II, podendo ser resumida assim: ocorre a fixação do CO2 pelo composto ri-
bulose-1,5-difosfato (RuDP), mediante ação
2H2O ___(LUZ)→ 4H+ + 4e- + O2 da enzima Rubisco, etapa que culmina com a
formação de glicose. Na segunda parte, ocor-
Essa reação é conhecida como a rea- re a regeneração do RuDP.
ção de Hill (por Robert Hill, que em 1937
estudou as reações de luz da fotossíntese).
Durante a transferência dos elétrons (e-), os 1) Fixação de CO2 e síntese de glicose
prótons (H+) são enviados para o interior dos
tilacoides, através de suas membranas, pro- A fixação do CO2 é realizada pela enzi-
duzindo um gradiente de energia. Este gra- ma Rubisco (ribulose 1,5-difosfato carboxi-
diente eletroquímico gera energia suficiente lase/oxigenase), a enzima mais importante
para fosforilar ADP e produzir ATP, de for- e mais abundante na natureza, pois ela é a
ma similar à fosforilação oxidativa que ocor- responsável pela produção de toda a biomas-
re na mitocôndria. sa na Terra a partir de CO2. Calcula-se que
existem 40 milhões de toneladas da enzima
No fotossistema I completa-se a trans- Rubisco na biosfera (quantidade equivalente
ferência de elétrons para o receptor final, o a quase 7 kg/pessoa). Esta enzima carboxila
NADP+. A reação global do fotossistema I (introduzindo um CO2) e reduz a molécula
pode ser resumida assim: de ribulose-1,5-difosfato (RuDP). Também
4e- + 2H+ + 2NADP+ → 2NADPH cliva a molécula resultante (uma hexose)
Desse modo, os produtos finais das rea- para dar duas moléculas de 3-fosfoglicerato.
ções lumínicas são ATP e NADPH. A soma- A reação global catalisada pela enzima Ru-
tória das reações globais dos fotossistemas I bisco pode ser escrita assim:
e II, eliminando os intermediários, pode ser
RuDP + CO2 + H2O → 2 [3-fosfoglicerato]+
resumida assim:
2H+
2H2O + 2NADP+ ___(LUZ)→ 2H+ + O2 +
2NAPH Essa reação é irreversível devido à alta
energia liberada no processo (ΔGo’= -51,9 kJ/
mol). Depois, cada molécula de 3-fosfoglice-
Reações obscuras da fotossíntese rato é fosforilada no C-1 às expensas de ATP
(ciclo de Calvin) pela enzima fosfoglicerato quinase para pro-
duzir 1,3-difosfoglicerato (1,3-DPG), o qual
Nas reações obscuras da fotossíntese, é logo reduzido para formar gliceraldeído-3-
também chamadas de ciclo de Calvin, o CO2 -fosfato pela enzima gliceraldeído-3-fosfato
atmosférico é fixado pela planta para produ- desidrogenase tendo o NADPH como agente
zir carboidratos (glicose e amido). São cha- redutor. O gliceraldeído-3-fosfato pode en-
madas obscuras porque nelas não intervém tão entrar na via glicolítica para gerar glicose
a energia solar, embora ocorram também nova (gliconegênese).

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Até este ponto, por cada molécula de Sabendo que a variação de energia li-
CO2 fixada são gastas 2 moléculas de ATP e 2 vre dessa reação é de 2.840 kJ/mol, pode-se
de NADPH para produzir as duas moléculas calcular o grau de eficiência de captação de
de gliceraldeído-3-fosfato e, portanto, uma energia do processo, considerando os se-
molécula de glicose. guintes fatos:
Para fixar 6 moléculas de CO2 a fim de (1) São captados 2 fótons (1 por cada fotos-
ter a síntese líquida de uma molécula de gli- sistema) para causar o fluxo de um elétron
cose, são necessárias, portanto, 12 moléculas desde H2O até NADPH.
de ATP e 12 de NADPH, produzindo-se 12 (2) Para gerar uma molécula de O2 é necessá-
moléculas de gliceraldeído-3-fosfato. Dessas ria a transferência de 4 elétrons (duas molé-
12 moléculas, 2 vão formar uma glicose e as culas de H2O).
restantes 10 voltam para regenerar 6 molécu-
las de RuDP. (3) São produzidos 6O2.
(4) O total de fótons necessários no processo
2) Regeneração da ribulose-difosfato (RuDP) são: 2 fótons/elétron x 4 elétrons/O2 x 6O2 =
48 fótons.
Das 10 moléculas de gliceraldeído-3- (5) A energia de 1 “mol” de fótons (1 eins-
-fosfato geradas no processo anterior, 4 mo- tein) no intervalo de luz absorvida no pro-
léculas ficam como tal, 2 moléculas são oxi- cesso de fotossíntese (400 a 700 nm) está
dadas a di-hidroxiacetona-fosfato e 4 molé- entre 170 e 300 kJ.
culas são transformadas em 2 de fructose-6-
-fosfato. Estas moléculas combinam-se para Então, para 48 fótons a energia absor-
dar 6 moléculas de ribulose-1,5-difosfato vida é de 8.160 a 14.400 kJ, a qual é gas-
mediante a ação de várias transcetolases e ta para sintetizar 1 mol de glicose, o que
transaldolases, de forma similar aos arran- significa uma eficiência de conservação
jos e combinações que ocorrem na via das da energia de (2.840/8.160) = 38,8 % a
pentoses-fosfato. O produto final é ribulo- (2.840/14.400) = 19,7 %, dependendo do
se-5-fosfato, composto que é fosforilado pela comprimento de onda de luz absorvida.
ribulose-5-fosfato quinase às expensas do
ATP, para dar RuDP. Assim, para completar Plantas C4
as 6 moléculas de RuDP são gastas 6 molé-
culas de ATP adicionais às 12 necessárias na Algumas plantas chamadas C4 (cana-
fase de fixação e síntese de glicose. -de-açúcar, milho, sorgo) sob as condições
A reação global do ciclo de Calvin, sem in- do trópico, isto é, alta luminosidade, alta
cluir os intermediários, pode ser escrita assim: temperatura, baixos níveis de CO2 e altos
níveis de O2, fixam o CO2 através do fosfoe-
6CO2 + 18ATP + 12NADPH + 12H2O → nolpiruvato (PEP) para produzir oxalacetato
C6H12O6 + 18ADP + 18Pi + 12NADP+ + 6H+ (OAA), composto de 4 carbonos. A via de
Incluindo as reações lumínicas e as obs- captação de CO2 pelas plantas C4 foi propos-
curas, a reação global da fotossíntese pode-se ta por Hatch e Slack em 1966.
escrever assim:
A enzima que realiza essa reação, a PEP-
6CO2 + 6H2O --(LUZ SOLAR)→ C6H12O6 + -carboxilase, é mais eficiente do que a Rubis-
6O2 co para fixar CO2. Mediante esse processo as

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plantas C4 evitam ou diminuem a fotorres- As folhas das plantas C4 têm uma dis-
piração, evento que ocorre em todas as plan- posição celular diferente das plantas C3, pois
tas, quando os níveis de CO2 atmosféricos além das células mesófilas, próprias de todas
são baixos, e consiste na oxidação da RuDP as folhas das plantas C3, as plantas C4 pos-
devido à ação oxigenase da própria enzima suem grupos de células vizinhas e interliga-
Rubisco, consumindo O2 e ATP e liberando, das com elas, chamadas células da bainha.
em vez de fixar, CO2. O processo da fotorres-
O processo de fixação do CO2 pelas
piração não tem utilidade conhecida.
plantas C4 é realizado nas células mesófilas
A proporção de O2 no ar é de 20 % e a de (onde também se realiza nas plantas C3),
CO2 é de 0,04 %, portanto facilmente as plan- mas, nas plantas C4, o CO2 é indiretamente
tas podem fazer fotorrespiração. O aumento enviado para as células da bainha, vizinhas
da temperatura causa diminuição da afinida- das mesófilas, de forma a manter níveis sem-
de da Rubisco pelo CO2, de forma que aumen- pre altos de CO2, evitando a fotorrespiração
taria a fotorrespiração. No trópico, as plantas e, no caso de ela acontecer, o CO2 liberado é
C4 conseguem contornar esse problema. coletado nas células mesófilas.

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Capítulo 2
Alterações do equilíbrio hidroeletrolítico
e acidobásico

A ÁGUA NOS ORGANISMOS ANIMAIS Propriedades físico-químicas da água


A água é a substância mais abundante nos Apesar do pequeno tamanho da molé-
seres vivos, compondo 60 % a 75 % do peso cula, a água tem altos valores dos pontos de
corporal. Nos animais domésticos adultos, fusão (0 oC) e de ebulição (100 oC). O calor
este valor está próximo de 60 %, enquanto que de vaporização, definido como a energia ca-
nos neonatos é de 75 %. Todas as reações quí- lórica necessária para converter 1g de água
micas do organismo são realizadas em meio em vapor sob condições de temperatura de
aquoso, e o equilíbrio de tais reações depende ebulição e pressão atmosférica, tem tam-
da concentração dos produtos de ionização da bém um valor relativamente alto na água
água, isto é, dos íons H+ e OH-. A água nos ani- (2,26 kJ/g). A água também tem um alto
mais está localizada em dois compartimentos: calor específico (energia calórica necessária
(a) o compartimento intracelular, que contém para aumentar a temperatura de 1g de água
55 % a 60 % do total da água do organismo; em 1oC) quando comparado com moléculas
e (b) o compartimento extracelular, que con- de peso molecular similar. As características
tém 40 % a 45 % do total da água. anteriores revelam que a molécula de água
A água ingressa no organismo através possui uma grande força de atração entre
dos alimentos e da água bebida e é elimina- suas moléculas. Isso é devido ao caráter di-
da por quatro vias diferentes: pele, pulmões, polar de sua estrutura, onde os átomos de
rins e intestino. Apesar das variações no hidrogênio compartilham um par eletrônico
consumo e na perda de água e de eletróli- com o átomo de oxigênio, e os pares de elé-
tos no organismo, as concentrações desses trons do oxigênio não compartilhados ge-
compostos nos diferentes compartimentos, ram uma carga parcial negativa (δ-). Por sua
é mantida de forma relativamente constan- vez, a força de atração eletrônica do átomo de
te. O volume de água no compartimento ex- oxigênio, elemento mais eletronegativo
tracelular num animal adulto corresponde, (eletronegatividade = 3,5) que o hidrogênio
dependendo da espécie, a 15-30 % do seu (eletronegatividade = 2,1), origina uma car-
peso corporal. O fluido extracelular inclui ga parcial positiva (δ+) sobre os átomos de
(a) o plasma, (b) o fluido intersticial, (c) a hidrogênio, resultando em uma molécula di-
linfa e (d) os fluidos transcelulares. Entre polar, porém eletricamente neutra.
estes últimos, está o fluido gastrointestinal, O caráter dipolar faz com que uma molé-
que tem especial importância nos grandes cula de água possa realizar pontes de hidrogê-
animais, atingindo 30-45 L nos equinos, e nio com até outras quatro moléculas de água.
30-60 L nos bovinos. É considerado que, em estado líquido, cada

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molécula de água se une mediante pontes de (b) compostos orgânicos polares (açúcares,
hidrogênio a 3 ou 4 moléculas vizinhas, en- álcoois, aldeídos, cetonas, ácidos) devido à
quanto que em estado sólido o faz com quatro formação de pontes de hidrogênio com os
(Figura 1A). O grande número de pontes de grupos hidroxila ou carbonila;
hidrogênio entre as moléculas da água causa
(c) substâncias anfipáticas (fosfolipídeos, pro-
uma grande coesão entre elas, embora a água
teínas, ácidos nucleicos), com as quais a água
seja bastante fluida devido à meia-vida curta
forma micelas, interatuando com a porção hi-
de tais ligações (10–9 segundos). A energia da
drofílica e repelindo a porção hidrofóbica.
ponte de hidrogênio, definida em termos da
energia necessária para romper uma ligação, As propriedades coligativas da água, ou
é bem menor (20 kJ/mol) do que a da ligação seja, os pontos de congelamento e ebulição,
covalente (460 kJ/mol). a pressão de vapor e a pressão osmótica, po-
dem ser modificadas pela interação de alguns
A água é um líquido polar, por sua ten-
solutos dissolvidos na água. Os solutos ten-
dência a atrair eletrostaticamente outras mo-
dem a romper a estrutura normal da água, ou
léculas. Ela pode realizar pontes de hidrogê-
nio com outros átomos eletronegativos, tais seja, suas pontes de hidrogênio, diminuindo
como o oxigênio e o nitrogênio. As pontes de o número e a força dessas ligações, causando
hidrogênio também podem ser formadas en- menor interação entre as moléculas de água
tre moléculas diferentes da água: o hidrogê- e mudando assim suas propriedades. Essa
nio unido com oxigênio ou com nitrogênio, modificação pode ser favorável para alguns
mas não com carbono, pode ter ligação com organismos animais, impedindo o conge-
N ou O (Figura 1B). lamento do sangue dos peixes que habitam
águas com temperaturas abaixo do ponto
Devido a suas características polares, a de congelamento, já que a concentração dos
água pode dissolver: solutos presentes no sangue diminui a tem-
(a) sais cristalinos (exemplo, NaCl) por inte- peratura de fusão da água. Por outro lado, a
ratuar com os íons que unem os átomos do presença, no sangue, de proteínas, as quais
sal entre si (Figura 1C); são substâncias que não podem atravessar os

A C
Figura 1 – Interações por pontes de hidrogênio. Em A é mostrada a interação en-
tre moléculas de água, em B, entre moléculas orgânicas, e em C, entre moléculas
de água e íons.

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capilares, dá maior pressão osmótica ao plas- Quando as concentrações de H+ e OH–
ma dentro dos capilares do que ao fluido ex- são iguais, como ocorre com a água neutra,
tracelular, fazendo com que a água flua para a concentração de H+ é de 1 x 10–7 M. Se a
o interior dos capilares. concentração de H+ for alta, a concentração
de OH– diminui, e vice-versa. Dessa forma, o
produto de ionização sempre será igual a 1 x
Os produtos de ionização da água 10–14. No caso de uma solução de NaOH 0,1
N, sabendo-se que [H+][OH–] = 1 x 10–14, a
A água tem uma leve tendência a ioni- concentração de [H+] será:
zar-se de forma reversível, conforme a se-
guinte equação: [H+] = 1 x 10-14/1 x 10-1
 H   OH 
H 2O  [H+] = 1 x 10-13 M

A 25 oC, somente uma pequena propor- Para designar a concentração de H+ em


termos mais práticos, é usada a escala de pH,
ção das moléculas de água estão ionizadas,
para soluções entre 1,0 M de H+ e 1,0 M de
mas, apesar disso, os produtos de ionização OH–. A escala de pH foi proposta pelo quí-
(H+ e OH-) têm um profundo efeito biológi- mico dinamarquês S.P.L. Sørensen com base
co. Quantitativamente, o grau de ionização na seguinte equação:
da água pode ser expresso mediante a cons-
tante de equilíbrio da reação (Keq): pH  log
1
 
H
 
ou pH  log H 

K eq =
H OH 
+ 
Os valores de concentração de H+ e OH-
H 2 O derivados da ionização da água explicam
porquê a escala de pH vai de 0 a 14. Assim, o
A concentração de H2O é alta, comparada valor do pH para uma solução neutra é:
com os produtos [H+] e [OH-]. Como a densi-
dade da água é de 1 g/mL, em 1 litro haverá pH = log [1/(1 x 10–7)]
1.000 g ou 55,5 moles de água (peso molecular
pH = log (1 x 107)
da água = 18 g). Isso significa que a concentra-
ção molar da água é de 55,5 M, concentração pH = log1 + 7 log10
esta que pode ser considerada estável devido pH = 7
a sua pouca ionização. Também é conhecido,
por medições de condutividade elétrica, que o e o pH de uma solução de HCl 1,0 M é:
valor da constante de equilíbrio (Keq) é de 1,8
x 10-16 M a 25 oC. Então, substituindo na equa- pH = log 1/1
ção da constante Keq, teremos: pH = log1

1,8x10-16 
H  OH 
+  pH = 0
55,5
ÁCIDOS E BASES
Ordenando, é obtido o produto de ionização
da água: Conforme o conceito de Brönsted-
-Lowry, os ácidos podem ser definidos como
H OH   1x10
  -14
M2 aquelas substâncias que doam prótons (H+),
enquanto que as bases são aquelas substân-

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cias que aceitam prótons. Numa reação de Os ácidos fortes têm maior Ka do que os
doação de prótons (ionização), sempre há ácidos fracos porque a sua força de dissocia-
um par ácido-base conjugado, ou seja, para ção é maior (maior o numerador). Outra for-
cada doador de prótons há sempre um re- ma de expressar a força de dissociação é me-
ceptor de prótons. A capacidade de doação diante o pKa, o qual é definido pela equação:
dos prótons está determinada pelo grau de
1
ionização do ácido em uma solução aquosa. pK a  log ou pK a   log K a
A ionização é alta nos ácidos fortes, como Ka
HCl, H2SO4 e HNO3, enquanto que a ioniza-
A Tabela 1 mostra as constantes de dis-
ção é baixa nos ácidos fracos, como nos áci-
sociação e o valor do pKa de alguns ácidos de
dos orgânicos acético, propiônico e láctico.
amplo uso em bioquímica. Quanto menor o
Tomando, como exemplo, o ácido acético, a
valor do pKa, maior a força de ionização do
reação está composta pelo ácido doador de
ácido (maior Ka) e, portanto, mais forte o
H+ e pelo acetato, base conjugada receptora
ácido. Ao contrário, um maior valor de pKa
de H+, numa reação reversível:
(portanto menor valor de Ka) é observado
 CH 3 COO   H 
CH 3 COOH  num ácido fraco. Existe uma relação entre o
pKa e o pH, de forma que o valor pKa pode
A força de ionização ou dissociação de um ser definido como aquele valor de pH no
ácido é expressada mediante a constante de dis- qual 50 % do ácido se encontra dissociado.
sociação (Ka). Por exemplo, na reação geral:
 H   A 
HA  SOLUÇÕES TAMPÃO OU BUFFER
a constante de dissociação é:
Se a um ácido fraco em solução aquosa

Ka 
H A 
+ - for adicionada uma quantidade equivalente de
base, como NaOH, o comportamento da so-
HA lução em termos de pH determina a curva de

TABELA 1 – CONSTANTES DE DISSOCIAÇÃO


(Ka) E pKa DE ALGUNS ÁCIDOS E BASES A 25 OC

Ácido ou Base Ka (M) pKa


Fosfórico (H3PO4) 7,25 x 10–3 2,14
Fórmico (HCOOH) 1,78 x 10 –4
3,75
Carbônico (H2CO3) 1,70 x 10–4 3,77
Láctico (CH3CHOHCOOH) 1,38 x 10 –4
3,86
Acético (CH3COOH) 1,78 x 10–5 4,76
Propiônico (CH3CH2COOH) 1,35 x 10 –5
4,87
Fosfato monobásico (H2PO4–) 1,38 x 10–7 6,86
Amônia (NH )4
+
5,62 x 10 –10
9,25
Bicarbonato (HCO3–) 6,31 x 10–11 10,20
Fosfato dibásico (HPO 4
2–
) 3,98 x 10 –13
12,40

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titulação. À medida que aumenta o pH com a frente e atrás dos vagões para amortecer os
adição de OH-, o ácido passará por diferentes choques. Anos depois, Sørensen traduziu este
estados de ionização. Tomando como exem- termo ao alemão –puffer– e depois ao inglês
plo o ácido acético (Figura 2), ele passará desde –buffer– e, dado seu prestígio internacional, a
CH3COOH, em pH ácido, até CH3COO-, em difusão deste último ficou garantida.
pH alcalino. Quando o pH for igual ao pKa,
Um sistema tampão está constituído por
isto é, aquele pH no qual estão dissociados
um ácido fraco (doador de prótons) e por
50 % de CH3COOH (pH 4,76 neste caso), a
sua base conjugada (receptor de prótons),
relação ácido/base é igual a 1:
em meio aquoso:
CH 3 COOH HA A– + H+

1
CH 3 COO No sistema tampão, se ocorrer adição de
OH-, e considerando a dissociação de HA,
Perto do valor do pKa existe menor varia- forma-se água. Da mesma forma, se ocorrer
ção dos valores de pH, isto é, ocorre um efei- adição de H+ ao meio, a base (A-) aceita os
to amortecedor ou tampão (buffer), embora prótons para formar de novo HA:
estejam acontecendo mudanças na concen-
tração de H+ ou de OH. Costuma-se atribuir
o termo buffer a Sørensen. Entretanto, é pro-
vável que os primeiros a referir este conceito
tenham sido os franceses A. Fernbach e L.
Hubert, quem usaram o termo “tampon”, em Dessa forma, a adição de H+ ou de OH–
1900. Fernbach e Hubert usaram o termo para não afetará notoriamente o pH da solução,
fazer analogia entre esse tipo de solução e o principalmente no intervalo onde a ação-
topo (tampon) do trem, dispositivo metálico -tampão é mais eficiente, isto é, quando o
montado sobre molas e colocado em pares na pH = pKa ± 1.

Figura 2 – Curva de titulação


do ácido acético.

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Uma forma adicional de relacionar o pH A equação de Henderson-Hasselbalch
de uma solução que contenha um ácido fra- também serve para calcular: (a) o pKa de um
co, conhecendo seu pKa, é mediante a equação ácido, conhecendo o pH e a relação molar
de Henderson-Hasselbalch, a qual expressa a ácido-base; (b) o pH de uma solução, conhe-
constante de dissociação de outra forma. Par- cendo o pKa do ácido e a relação molar; e (c)
tindo da equação da constante de dissociação: a relação molar, conhecendo o pKa e o pH.

Ka 
H A 
+ 

HA SISTEMAS TAMPÃO NOS ORGANISMOS ANIMAIS

Os sistemas tampão reduzem as varia-


resolvendo [H+], teremos: ções no pH de soluções nas quais ocorrem

H   K HA  mudanças na concentração de ácidos ou de


A 
a 
bases. No organismo animal, o pH do meio
pode afetar a interação iônica entre as biomo-
léculas, devendo, portanto, ter mecanismos
aplicando o inverso em todos os termos:
rigorosos de controle. De especial importân-
1

1

A-   cia é a interação iônica que possam ter as pro-
 
H K a HA
teínas, já que sua atividade pode ser afetada
em função do pH, principalmente quando se
aplicando logaritmos a todos os termos da trata da ação catalítica das enzimas, da ação
equação: biológica dos hormônios ou dos anticorpos.

 
O pH também pode afetar o equilíbrio das re-
1 1 A- ações de oxidorredução nas quais há transfe-
 
log
 
H
log
Ka
log
HA rência de H entre as coenzimas.
O pH do plasma arterial mantém valo-
substituindo os dois primeiros termos da
res estreitos entre 7,35 a 7,45, sendo que o pH
equação por pH e pKa, respectivamente, te-
compatível com a vida é de 6,8 a 7,8. O pH
mos a equação de Henderson-Hasselbalch:
intracelular varia em função da célula. No

pH  pK a  log
A  eritrócito este valor é de 7,2, enquanto em
outras células é 7,0. As células musculares
HA constituem uma exceção, pois, sob exercício
A equação de Henderson-Hasselbalch prolongado, o pH pode cair para 6,0, devido
pode ser expressada como: ao acúmulo de ácido láctico.

pH  pK a  log
receptor de H   Os fluidos do organismo mantêm cons-

doador de H 
tante seu pH pela ação de vários tipos de

controle. Primeiro, pelos sistemas tampão e,
complementarmente, por eventos equilibra-
Considerando essa equação, fica claro que dores em nível pulmonar, mediante a troca
o pKa corresponde, numericamente, ao pH no gasosa de O2 e CO2, e em nível renal, através
qual ocorrem 50 % de dissociação do ácido, ou da excreção de H+ e reabsorção de HCO3–.
seja, quando [HA] = [A+], uma vez que:
No fluido intracelular os tampões mais re-
pH = pKa + log 1 levantes são o fosfato e as proteínas. A atividade
pH = pKa tamponante destas últimas é consequência da

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presença de grupos dissociáveis contidos em Como pode ser observado, os valores de
resíduos de aminoácidos ácidos (glutâmico, pKa da primeira e da última reação de disso-
aspártico) e básicos (lisina, histidina). Também ciação indicam que, por estarem distantes do
colaboram alguns nucleotídeos, como o ATP, pH normal, tanto o ácido fosfórico quanto o
que têm grupos fosfatos dissociáveis. Nos flui- íon PO43- não estão presentes em quantida-
dos extracelulares, o sistema tampão mais im- des apreciáveis, nas condições fisiológicas.
portante é o bicarbonato (Tabela 2). Assim, o sistema tampão fosfato opera com
os fosfatos monobásico (H2PO4-) e dibásico
(HPO42-), sendo o primeiro o ácido fraco, e o
O sistema tampão fosfato segundo, a base conjugada do tampão. Esse
sistema tem um limite para sua capacidade
Considere a equação de dissociação do tamponante, determinado pela exaustão de
ácido fosfórico: um dos componentes.

TABELA 2 – CONCENTRAÇÃO (mEq/L) DOS PRINCIPAIS


COMPONENTES DOS FLUIDOS CORPORAIS

Componente Plasma sanguíneo Fluido intersticial Fluido intracelular

Na+ 152 143 14

Cl– 113 117 5

HCO3– 27 27 10

Ca2+ 5 5 0,005

K+ 5 4 157

HPO42– 2 2 113

Proteína 16 2 74

Mg2+ 3 3 26

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Sendo o pKa deste sistema de 6,86, sua ção de água no plasma é virtualmente cons-
atividade tampão mais eficiente está localiza- tante, a reação e sua constante de equilíbrio
da nos pHs entre 6,1 e 7,7, o que é adequado ficariam assim:
para o pH intracelular (7,0-7,4).
CO2H+ + HCO3–

O sistema tampão bicarbonato A Keq dessa equação corresponderá a:

No espaço extracelular funciona como K eq 


H HCO   7,95x10
 
3 7

tampão o sistema ácido carbônico/bicarbo- CO 2 


nato, conforme a equação:
Dessa forma, o valor do pK para o sis-
H2CO3  HCO3– + H+ tema bicarbonato é modificado para 6,1,
tornando-se mais efetivo no pH de 7,4, valor
Este par ácido-base, de forma isolada (in
que prevalece no plasma sanguíneo dos ma-
vitro), tem um pKa de 3,7, o que o faria pouco
míferos. O valor de referência de HCO3– no
eficiente como tampão nas condições do pH
plasma é de 20-24 mM, e o valor de referên-
do sangue. Entretanto, in vivo, este tampão
cia de pCO2 é de 40 mmHg. A conversão da
tem como importante característica que um
pressão do gás (em mmHg) para concentra-
dos seus componentes, o ácido carbônico
ção do gás dissolvido (em mM) é feita pela
(H2CO3), é formado a partir de CO2 e H2O,
numa reação reversível pela ação da enzima multiplicação pelo fator 0,03. Assim:
anidrase carbônica, a qual se encontra prati- pCO2 (mmHg) x 0,03 = [CO2] (mM)
camente em todas as células do organismo:
Mediante a equação de Henderson-Has-
CO2 + H2OH2CO3 selbalch aplicada para o sistema HCO3–/CO2,
pode ser calculado o pH do sangue:
O CO2 é um gás dissolvido no sangue
que tem troca nos pulmões com o ar que está pH = 6,1 + log {[HCO3–]/pCO2}
nos alvéolos: pH = 6,1 + log 24 - log (0,03 x 40)
CO2 (ar)CO2 (sangue) pH = 6,1 + 1,38 - 0,079
pH = 7,4
A nova equação do sistema será, então:
Assim, no sistema tampão bicarbonato,
CO2 + H2O H2CO3H CO3– + H+ podemos considerar como componente ácido
o CO2, o qual não é propriamente um ácido,
suprimindo o H2CO3, resulta na seguinte mas um anídrido ácido, enquanto que o íon
equação: bicarbonato corresponde à base conjugada.
CO2 + H2OH+ + HCO3–
Controle respiratório do tampão bicarbonato
Essa equação é mais realista, já que o
equilíbrio da reação CO2 + H2O  H2CO3 Embora o sistema HCO3–/CO2 atue como
está mais inclinado para a esquerda, porque tampão na faixa de pH entre 5,1 e 7,1, confor-
o valor da relação H2CO3/CO2 no sangue é me é deduzido do seu pKa (6,1), ele é efetivo
de 1:200. A proporção normal de HCO3–/ numa faixa mais ampla devido à remoção do
CO2 no sangue é de 20:1. Como a concentra- componente ácido (CO2) na respiração.

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Em um sistema tampão típico O sistema HCO3–/CO2 é complementa-
(HA ↔ H+ + A–), quando ocorre aumento do, ainda, por outros sistemas. No caso de
de H+, a reação é deslocada para a esquerda, um aumento de CO2 (acidose), o excesso de
aumentando a [HA] e diminuindo a [A–]. H+ produzido é removido pelo sistema das
Portanto, a relação [A–]/[HA] diminui. Con- proteínas ou do fosfato. Nesse caso, o HCO3–
forme a equação de Henderson-Hasselbalch, aumenta mais do que o H+, pois este último
a diminuição nessa relação causa diminuição é removido, favorecendo o aumento de pH.
do pH (acidificação). No entanto, se a fração Por outro lado, se ocorre uma diminuição de
[HA] estiver sendo constantemente removi- CO2, a reação compensatória no sentido H+ +
da, a relação [A–]/[HA] permanecerá está- HCO3– → CO2 é favorecida pelo aumento de
vel, e o pH sofrerá menor alteração. É o que H+ fornecido com a dissociação dos grupos
acontece no sistema HCO3–/CO2, no qual o H- proteínas e H2PO4–.
CO2 (equivalente à fração HA) é removido
pela respiração. Portanto, a relação HCO3–/ O equilíbrio do sistema bicarbonato
CO2 muda pouco e o pH é menos altera- não depende somente da concentração de
do. Esta remoção de uma fração do sistema HCO3–, mas também da concentração de
significa que o sistema é aberto. A Figura 3 CO2, a qual, por sua vez, determina a con-
mostra uma representação esquemática da centração de H2CO3.
inter-relação entre o transporte de O2 e CO2 e A concentração plasmática de CO2 de-
o sistema tampão bicarbonato. pende da frequência e da intensidade da res-
Quando ocorre adição de base (OH–), piração, a qual é regulada pelo sistema ner-
esta é neutralizada pelo ácido carbônico, o voso central, no centro respiratório, e por
qual é convertido em bicarbonato. A concen- outros centros dos grandes vasos (corpos
tração do bicarbonato é controlada pelo rim. aórticos e carotídeos). Esses centros são sen-

Figura 3 – Inter-relação entre o transporte de O2 e CO2 e o sistema tampão bicarbo-


nato. As rotas de transporte de CO2 e O2 estão indicadas pelas setas espessas.

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síveis a variações no pH sanguíneo e na pres- H2O nas células tubulares, pela ação da anidra-
são parcial de CO2 arterial (pCO2). Quando se carbônica. O H+ é excretado na luz tubular,
o pH tende a diminuir (acidose), é estimu- em parte de forma passiva por gradiente ele-
lada a respiração, diminuindo a pressão troquímico, e em parte de forma ativa na troca
alveolar de CO2 e, portanto, diminuindo a pelo íon Na+ (sistema antiport), enquanto que o
concentração de H2CO3 extracelular. Quan- bicarbonato segue para o espaço intersticial e,
do existe tendência à elevação do pH (alcalo- posteriormente, para o sangue (Figura 4).
se), a frequência respiratória diminui, com o
Substâncias com ação inibitória sobre a
consequente aumento da pCO2 alveolar e da
anidrase carbônica, como as sulfonamidas, re-
concentração de H2CO3.
duzem a formação de CO2, a partir do H2CO3,
Adicionalmente, o sistema bicarbonato na luz tubular, bem como a formação do
aumenta sua eficiência em manter o pH cons- H2CO3, a partir do CO2, no interior da célula
tante no sangue devido à presença dos eritróci- tubular. Dessa forma, a reabsorção do íon bi-
tos, já que o H2CO3 pode entrar neles e reagir carbonato fica comprometida, causando uma
com a hemoglobina (Hb), na seguinte reação: acidose de tipo metabólica, por perda de base.
H2CO3 + HbHCO3– + HbH+ O íon H+ presente no fluido tubular pode
reagir com: (a) o bicarbonato para formar
Nos eritrócitos, a hemoglobina funciona H2CO3, o qual é convertido em CO2 e H2O
como tampão em forma seis vezes mais efe- (nesse caso ocorre reabsorção de CO2, ou
tiva que as outras proteínas, devido a sua alta seja, reabsorção de bicarbonato); (b) o HPO42–
concentração nessas células e a seus 38 resídu- para formar H2PO4–, o qual é excretado como
os de histidina. Para captar H+, a hemoglobina ácido titulável; ou (c) o NH3, o qual provém da
deve estar desoxigenada, forma na qual é en- desaminação da glutamina na célula tubular,
contrada nos capilares venosos que recebem o para formar amônio (NH4+), composto que
CO2 proveniente dos tecidos. não é reabsorvido e é excretado pela urina.
Os carnívoros têm urina mais ácida (pH
6,0 a 7,0) do que os herbívoros (pH 7,0 a 8,5),
Controle renal do tampão bicarbonato
em função da maior excreção de H+ prove-
Além dos controles mencionados, o pH niente da maior quantidade de aminoácidos
extracelular também pode ser regulado via re- proteicos na dieta. A excreção de ácido titulá-
nal, mediante a excreção de íons H+ e a reabsor- vel requer a reabsorção do cátion correspon-
ção de HCO3-. Esse evento pode ser realizado dente (Na+) para manter a neutralidade. Em
por três mecanismos inter-relacionados, nos casos de acidose, a concentração de Na+ pode,
quais estão envolvidos três compartimentos: contudo, estar diminuída devido à excreção
o sangue, a célula tubular renal e a luz tubu- de K+. No entanto, a excreção deste cátion é
lar. Os mecanismos incluem (a) reabsorção de muito regulada e logo deve funcionar o me-
HCO3–/excreção de H+, (b) excreção de ácido, canismo de excreção de amônio, para evitar
e (c) excreção de amônio (NH4+). uma hipocalemia, o que acarretaria conse-
quências fatais (falha cardíaca). Na alcalose, a
A reabsorção de bicarbonato envolve a reabsorção renal de HCO3– está diminuída en-
formação de H+ e HCO3– a partir de CO2 e quanto que a excreção de H+ está aumentada.

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Figura 4 – Esquema geral da reabsorção de bicarbonato e excreção de
H+ nos túbulos renais. A rota de reabsorção de bicarbonato e de excre-
ção de H+ estão indicadas pelas setas espessas.

Outros órgãos que interferem para síntese de glicose (gliconeogênese). A


no equilíbrio acidobásico glicose resultante poderá, então, ser estocada
sob forma de glicogênio hepático ou, caso a
Fígado demanda energética requeira que a glicemia
seja reposta, colocada novamente em circu-
Durante o exercício extenuante, a neces- lação para ser captada pelo tecido muscular.
sidade de produção de energia pelas células Também no músculo, a glicose poderá ser
musculares é maior que o aporte de O2, não utilizada para estocagem, sob forma de gli-
permitindo que toda a glicose seja metaboli- cogênio ou metabolizada para suprir a de-
zada no ciclo de Krebs. manda energética.
Assim, pelo menos parte da energia ne- Esta interconversão cíclica de lactato em
cessária deverá ser produzida pela metaboli- glicose é chamada de ciclo de Cori (Figura 5).
zação anaeróbica da glicose, com produção Este ciclo foi identificado pelos bioquími-
de lactato. Este excesso de lactato produzido cos tchecos, naturalizados estadounidenses
nos músculos é transportado pelo sistema Gerty Theresa Cori e seu esposo Carl Ferdi-
circulatório até o fígado, onde será utilizado nand Cori (ganhadores do prêmio Nobel de

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Figura 5 – Ciclo de Cori.

Fisiologia e Medicina em 1947). Dessa forma, pelo fígado ou por diversos outros tecidos e
o fígado é responsável por remover um ácido metabolizado para produção de energia.
orgânico em circulação e convertê-lo numa
substância neutra (glicose), reduzindo a acidi-
Estômago
ficação sanguínea provocada pelo exercício.
Sob o ponto de vista fisiológico, é pro- O pH do suco gástrico normalmente é
vável que o ciclo de Cori, assim descrito, so- inferior a 2,0. O ácido clorídrico responsável
mente ocorra em períodos de jejum, situa- por este pH extremamente ácido é secretado
ção na qual o metabolismo hepático está di- pelas células parietais da mucosa gástrica.
recionado para a gliconeogênese. Em con- Num mecanismo de transporte ativo,
dições normais, o lactato pode ser captado íons H+ são bombeados para o interior da
por diversos outros tecidos e metabolizado cavidade estomacal contra um gradiente de
para produção de energia. concentração de aproximadamente 10–7 M,
Em condições normais, o lactato também no interior da célula parietal, para 10–0,4 M,
é produzido de forma maciça pelas hemácias, no lúmen do estômago. A fonte imediata
células que por não possuírem mitocôndrias destes prótons H+ é o ácido carbônico, que,
são obrigadas a fazer glicólise anaeróbica. ao dissociar-se, gera também o íon bicarbo-
O lactato assim produzido pode ser captado nato, o qual será transportado para o fluido

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intersticial (e, posteriormente, para o san- bonato), constituindo-se na chamada vaga
gue), com a concomitante entrada de um íon alcalina que sucede às refeições.
Cl– na célula parietal. Um desenho esque-
mático dos eventos envolvidos na produção
EQUILÍBRIO HÍDRICO
e secreção de ácido clorídrico na mucosa
estomacal é apresentado na Figura 6. Neste
A capacidade dos animais para manter
modelo proposto, o ácido clorídrico não é
constante a composição dos fluidos intra e
secretado como tal, mas, sim, num processo
extracelulares é um grande avanço evolutivo,
onde os íons H+ e Cl– são transportados por
pois permite uma grande independência com
processos diferenciados para a cavidade do
relação às mudanças do meio. Os mecanismos
estômago. O Cl– , que difunde passivamente
de controle estão basicamente localizados nos
do interior da célula parietal, é ativamente
rins, no sangue e nos pulmões, tendo como ob-
transportado do fluido intersticial para esta
jetivo manter o volume, a composição iônica e
por dois mecanismos: troca pelo íon bicar-
o pH desses fluidos, para que possam ser reali-
bonato (sistema antiport) e entrada acoplada
zadas as reações enzimáticas do metabolismo.
junto com o Na+. O ácido carbônico (que irá
gerar H+ e bicarbonato) é originado do CO2 Aproximadamente 60-75 % do peso cor-
e da água, numa reação catalisada pela ani- poral é água. Do total de água, 2/3 estão locali-
drase carbônica. No processo de produção zados dentro das células constituindo o fluido
de suco gástrico ácido, há uma alcalinização intracelular. O fluido existente fora das cé-
associada do plasma sanguíneo (pelo bicar- lulas, ou seja, o fluido extracelular (restante

Figura 6 – Produção de ácido clorídrico pe-


las células parietais do estômago. Os principais
processos de transporte de íons através de mem-
branas estão representados usando a seguinte
convenção: (X) sistema antiport, ( ) transporte
acoplado, (]) transporte ativo e () difusão. As
setas espessas indicam as rotas de excreção de
H+, HCO3 e Cl.

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1/3), está em vários subcompartimentos: 2/3 (a) Desidratação celular, cujos receptores
estão no fluido intersticial, que banha as cé- neurais estão localizados nas áreas laterais
lulas, e 1/3 constitui o plasma sanguíneo. A pré-ópticas do cérebro e respondem a uma
principal diferença entre o líquido intersti- diminuição hídrica de 1-2 % nas células. Per-
cial e o plasma é que este último contém pro- das de água maiores a 4 % do total corporal
teínas. No fluido extracelular também estão leva a sintomas de desidratação, enquanto
incluídos a linfa, o líquido cerebroespinal e o que perdas de 10 a 20 % (dependendo da es-
líquido transcelular, isto é, aquele contido no pécie) são fatais.
trato gastrointestinal. (b) Diminuição no volume extracelular detec-
A chamada água metabólica é uma das tado através de barorreceptores localizados
fontes de água e provém dos processos de oxi- nos grandes vasos sanguíneos. Estes últimos
dação. A oxidação total de 1g de gordura, car- receptores também estimulam a liberação de
boidrato ou proteína, resulta na produção de renina e a produção de angiotensina II, a qual
1,07, 0,06 ou 0,41g de água, respectivamente. estimula diretamente o centro da sede. O sis-
tema renina-angiotensina estimula a síntese
Como a água passa livremente através das
e secreção de aldosterona no córtex adrenal.
membranas, o volume em cada compartimen-
Este hormônio aumenta a taxa de reabsorção
to está determinado pelos solutos que caracte-
de Na+ nos túbulos renais, aumentando, por-
rizam cada espaço. No plasma são as proteínas
tanto, o volume do fluido extracelular, e pro-
e o Cl– , no fluido extracelular é o sódio, e no
movendo, também, a excreção de K+ e de H+
espaço intracelular é o potássio (Tabela 2). nos mesmos túbulos.
As mudanças no espaço extracelular afe- A excreção de água é regulada pela ação
tam os outros compartimentos, e seu controle da vasopressina, cuja secreção na neuro-hi-
constitui a regulação homeostática. O con- pófise é estimulada por aumentos de 1-2 % na
trole é realizado basicamente sobre o volume osmolaridade plasmática, através de osmor-
e sobre a pressão osmótica do fluido extrace- receptores localizados na região supra-óptica
lular, mediante a ação hormonal do sistema do hipotálamo. No entanto, o volume do plas-
renina-angiotensina-aldosterona, como pon- ma está regulado de forma mais rígida pelo
to primário, e da vasopressina (VP) ou hor- conteúdo de Na+, mediante sua excreção e sua
mônio antidiurético (ADH). Outros pontos reabsorção em nível renal. O aumento no vo-
de controle incluem sinais neurais, como, por lume do fluido extracelular leva ao aumento
exemplo, o centro da sede. da excreção renal de Na+, provocando uma
As mudanças no volume efetivo circulan- maior perda de água na urina para diminuir
te (líquido extracelular no sistema vascular) o volume extracelular. Os mecanismos que
produzem mudanças na pressão sanguínea regulam a excreção de Na+ são a taxa de filtra-
e na osmolaridade do plasma. O controle da ção glomerular e a taxa de reabsorção tubular
pressão osmótica do fluido extracelular, por controlada pelo sistema renina-angiotensina-
sua vez, está determinado pela regulação do -aldosterona, principalmente (Figura 7).
volume sanguíneo, ou seja, pela ingestão e
pela excreção de água.
O sistema renina-angiotensina
A ingestão de água está controlada pelos
mecanismos da sede, que respondem a dois Este sistema tem um importante papel
estímulos diferentes: na manutenção do volume efetivo circulante.

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A renina é uma enzima proteolítica produzi- A renina converte o angiotensinogênio,
da pelas células juxta-glomerulares das arte- proteína que circula no plasma sanguíneo, em
ríolas aferentes dos glomérulos renais. angiotensina I, um decapeptídeo com limita-
ção da ação biológica. A angiotensina I é con-
A secreção de renina pode ser estimu-
vertida enzimaticamente no pulmão e nas célu-
lada por:
las endoteliais dos vasos sanguíneos em angio-
(a) decréscimo na pressão arterial, tensina II, octapeptídeo biologicamente ativo.
(b) diminuição na concentração de sódio, A angiotensina II atua em vários níveis:
(c) estímulo β-adrenérgico, (a) Estimulando a biossíntese de aldosterona
(d) prostaglandinas, no córtex adrenal.

(e) hipovolemia. (b) Causando vasoconstrição e estimulando


a liberação de catecolaminas, que também
Os eventos que inibem a secreção de re- causam vasoconstrição e aumento da pres-
nina são: são arterial.
(a) hipervolemia, (c) Induzindo sede para, mediante a inges-
(b) aumento da pressão arterial renal, tão de água, elevar o volume e a pressão san-
guíneas.
(c) hipernatremia,
A angiotensina II também é encontrada
(d) estímulos α-adrenérgicos,
no cérebro, constituindo um possível neuro-
(e) angiotensina II. transmissor.

Figura 7 – Principais processos de reab-


sorção de Na+, Cl– e H2O no néfron. Os
processos com interferência de aldos-
terona ou vasopressina estão indicados
por um A ou V, respectivamente, junto
da seta correspondente.

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A aldosterona é produzida na zona glo- a permeabilidade das células tubulares (Fi-
merular do córtex adrenal por estímulo da gura 7). Quando a ingestão de água é pouca,
angiotensina II, sendo o hormônio mais po- o aumento na tonicidade dos fluidos corpo-
tente que atua na reabsorção do sódio no rim. rais induz a secreção de vasopressina, e o rim
A aldosterona também pode ser secretada por elabora urina hipertônica (concentrada e em
estímulo direto do aumento na concentração pouco volume). A perda de volume extrace-
plasmática de K+ , obedecendo a pequenos lular (como hemorragias) também estimula
aumentos (da ordem de 0,1 mEq/L). a secreção de vasopressina.
O mecanismo de ação da aldosterona é O ADH atua extrarrenalmente como
mediante a indução da formação de proteí- vasoconstritor arterial, aumentando a pres-
nas que incrementam a permeabilidade da são sanguínea. A ação do ADH permite
membrana apical (luminal) para o sódio, le- manter a osmolalidade do plasma em inter-
vando este íon da luz do túbulo para a célula valos normais relativamente restritos (270-
do túbulo de forma passiva, e desta para o es- 300 mOsm/kg H2O).
paço intersticial por transporte ativo, através
da bomba Na-K ATPase. A aldosterona es-
timula a síntese de várias enzimas mitocon- EQUILÍBRIO ELETROLÍTICO
driais, levando à formação do ATP necessá-
rio para que a bomba funcione. O Na+ é o principal cátion extracelular,
enquanto que o K+ e o Mg2+ são os principais
cátions intracelulares. O Cl– e o HCO3– são os
Vasopressina (Hormônio Antidiurético) ânions que predominam no espaço extracelu-
lar, ao passo que as proteínas e o HPO42– são os
A vasopressina ou hormônio antidiuréti- principais ânions intracelulares (Tabela 2). O
co (ADH) tem função importante na regula- NaCl contribui principalmente para a pres-
ção da osmolalidade dos tecidos. Ela é sinteti- são osmótica do plasma. O Ca2+, o Mg2+, as
zada no hipotálamo e armazenada na neuro- proteínas e os fosfatos contribuem para a
-hipófise. A secreção de ADH está relacio- pressão osmótica do fluido intracelular.
nada com a concentração de sódio no plasma,
As concentrações de Na+ e K+ são manti-
pois este cátion é o determinante primário da
das pela bomba Na-K ATPase das membra-
osmolalidade plasmática. Um aumento da
nas plasmáticas, a qual transporta de forma
osmolalidade plasmática é detectado por sen-
ativa o Na+ para o exterior das células e o K+
sores do hipotálamo, e a resposta é estimular
para o interior. A membrana plasmática tem
tanto o centro da sede, para aumentar o con-
uma permeabilidade muito limitada para os
sumo de água, como a secreção de ADH.
fosfatos orgânicos e para as proteínas.
O ADH também é liberado quando di-
O rim é o órgão mais importante na regu-
minui o volume efetivo circulante, porém o
lação do volume e da composição dos fluidos
sistema renina-angiotensina exerce o contro-
corporais. As unidades funcionais do rim, os
le primário sobre mudanças neste volume.
néfrons, realizam três processos: (a) ultrafil-
A vasopressina aumenta a reabsorção tração, através dos capilares glomerulares; (b)
de água nos túbulos contorcidos distais e nos reabsorção seletiva de fluidos e de solutos nos
dutos coletores, utilizando o AMP cíclico túbulos proximais, alça de Henle, túbulos dis-
(cAMP) como segundo mensageiro, o qual tais e dutos coletores; e (c) secreção seletiva de
ativa proteína-quinases que atuam alterando solutos no lúmen dos túbulos proximal e distal.

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O volume total do filtrado glomerular di- da por (a) o K+ intracelular, (b) a aldosterona
ário no humano é de 180 L, e a reabsorção é de (por favorecer a reabsorção ativa de Na+), (c)
179 L, produzindo aproximadamente 1 litro a taxa de fluxo urinário (maior fluxo, maior
de urina. Em torno de 75 % do Na+, do Cl– e da excreção) e (d) o estado acidobásico, em que
água do filtrado glomerular são reabsorvidos a alcalose provoca saída de prótons H+ e en-
nos túbulos proximais. O restante é reabsor- trada de K+ nas células, levando a um aumen-
vido ao longo da alça de Henle, túbulos con- to do K+ intracelular e uma diminuição do K+
torcidos distais e dutos coletores. A reabsor- plasmático (hipocalemia), ocorrendo maior
ção de sódio nos túbulos é realizada por três excreção de K+ renal devido ao aumento des-
mecanismos: (a) o sódio é transportado do te íon nas células tubulares.
lúmen para o interior da célula tubular devi-
do ao gradiente químico presente, sendo logo
enviado, de forma ativa, para o espaço inters- Diferença aniônica (DA)
ticial, mediante a bomba Na-K ATPase, pro-
cesso favorecido pela aldosterona; (b) troca A diferença aniônica (DA) ou anion gap
de Na+ presente no líquido luminal do túbulo se refere à diferença entre o cátion mais impor-
pelo H+ do interior da célula tubular, median- tante (Na+) e os ânions mensuráveis (Cl– e
te um transportador de membrana antiport; e HCO3–). Ao Na+ pode-se adicionar o K+, em-
(c) ingresso do sódio impulsionado por íons bora este não acrescente mais do que 4 mmol/L:
Cl–, os quais estão na luz do túbulo com gra- DA = ([Na+] + [K+]) – ([Cl–] + [HCO3–])
diente favorável para que sejam transportados
para a célula tubular. Os ânions (Cl–, HPO42–)
Na verdade, a DA dá uma idéia dos cha-
são reabsorvidos passivamente devido ao
mados ânions não-mensuráveis, quais sejam,
gradiente elétrico preestabelecido pela trans-
as proteínas plasmáticas carregadas negativa-
ferência de Na+. A água passa também passi-
mente (albumina), ácidos orgânicos (láctico
vamente com o soluto (Na+). O ajuste restante
e cetoácidos) e ácidos inorgânicos (sulfatos e
é realizado pelos hormônios vasopressina e
fosfatos). A DA normal na maioria das espé-
aldosterona (Figura 7).
cies está por volta de 10-20 mmol/L.
A homeostase do K+, o principal cátion
A DA pode estar diminuída quando au-
intracelular, é regulada de forma diferente do
menta a concentração de Cl–. Isso pode ocor-
Na+. O mecanismo renal está mais orientado
rer na hipercloremia em acidose metabóli-
para a prevenção da hipercalemia (aumen-
ca compensada, quando há diminuição de
to da concentração plasmática de potássio),
[HCO3–] com aumento de [Cl–], ou quando
a qual pode gerar problemas cardíacos, e
aumentam as proteínas com carga positiva
menos orientado para a prevenção da hipo-
(aumento de IgG no mieloma múltiplo).
calemia. O K+ é secretado no túbulo distal,
embora 85 % a 90 % do K+ filtrado sejam re- Aumentos de DA são observados em aci-
absorvidos no túbulo proximal por mecanis- dose metabólica por ácidos orgânicos (cetose,
mos de transporte ativo. O processo de secre- aumento de lactato, diabetes) e em acidoses
ção é passivo, obedecendo a um gradiente, já urêmicas ou em intoxicações (salicilato, pa-
que a luz tubular encontra-se eletronegativa raldeído, metaldeído, metanol, etilenoglicol).
devido à reabsorção ativa do Na+. Também Nesses casos, os ânions dos ácidos provocam
pode haver excreção ativa de K+ nos dutos a diminuição de [Cl–] sanguíneo. Assim,
coletores. A secreção tubular do K+ é regula- numa acidose metabólica com alta DA, há

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suspeita de acúmulo de ânions (ácidos), en- Osmolalidade
quanto uma acidose com baixa DA pode es-
tar relacionada com uma hipercloremia. Por A principal força que influi na distribui-
outro lado, quando a mudança de DA não ção de água nos espaços intra e extracelulares
acompanha a mudança da concentração de é a pressão osmótica, a qual depende dos so-
bicarbonato, pode estar relacionada a um de- lutos dissolvidos, principalmente eletrólitos,
sequilíbrio acidobásico misto, no qual coe- compostos orgânicos de baixo peso molecu-
xistem acidose e alcalose. Em distúrbios aci- lar (glicose, ureia, aminoácidos) e proteínas.
dobásicos primários, o bicarbonato e a pCO2 O papel das proteínas na distribuição
desviam-se na mesma direção. Se esses dois (entrada e saída) de água é de especial im-
parâmetros se desviarem em direções opos- portância nos capilares, uma vez que a con-
tas, trata-se de uma alteração mista. centração de eletrólitos e compostos de bai-
xo peso molecular é praticamente a mesma
Excesso de base (EB) entre o plasma e os fluidos tissulares, uma
vez que ambos são espaços extracelulares.
Geralmente os valores de pH e pCO2 não O plasma tem uma pressão oncótica (pres-
refletem os desequilíbrios acidobásicos primá- são osmótica devida às proteínas) maior que a
rios, mas representam as respostas compensa- dos fluidos tissulares, o que resulta na mobili-
tórias. Assim, o excesso de base (EB) indica o zação de água para o interior do plasma. Essa
desvio da base-tampão dos valores de referên- força é contrária à pressão hidrostática do san-
cia. Base-tampão se refere à soma de todos os gue, que tende a forçar a saída de líquidos para
ânions no sangue, em condições-padrão. o espaço tissular. Assim, nos capilares arteriais,
O EB é interpretado como o desvio na a pressão hidrostática é maior que a oncótica,
concentração de referência do bicarbonato. Em ocasionando a saída de líquidos. Nos capilares
um animal com acidose metabólica, o valor de venosos e linfáticos, a situação se inverte, pois a
EB indica a quantidade de bicarbonato reque- pressão hidrostática é menor do que a oncótica,
rida para corrigir o equilíbrio acidobásico. e os líquidos entram nos capilares.
Para calcular esse valor, pode ser usada a A albumina é a principal proteína que
seguinte fórmula: contribui com a pressão oncótica. Para que
ocorra formação de edema, a concentração
EB (mEq/L) = PC (kg) x 0,3 x [25 - BP (mEq/L)] de albumina deve cair pelo menos em 50 %.

onde PC equivale ao peso corporal e BP Como o Na+ é o principal cátion pre-


corresponde à concentração plasmática de sente no plasma, e a concentração de cátions
bicarbonato. A constante 0,3 representa o deve estar equilibrada com a dos ânions (Cl-,
volume do espaço extracelular onde está lo- HCO3-, proteínas, sulfato, fosfato), o total de
calizado o bicarbonato (30 % do peso cor- eletrólitos pode ser calculado multiplicando
poral). Assim, em um animal de 20 kg com a concentração de Na por 2. Assim, a osmo-
concentração plasmática de bicarbonato de lalidade (em mOsm/kg H2O) pode, então,
15 mEq/L, o bicarbonato requerido para vol- ser calculada pela seguinte fórmula (onde
tar ao normal será de: todos os valores são fornecidos em mmol/L):

20 x 0,3 x 10 = 60 mEq de HCO3– Osmolalidade = 2 x [Na+] + [glicose] + [ureia]

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ALTERAÇÕES DO EQUILÍBRIO HÍDRICO exemplo, na sudoração excessiva em cavalos,
em vômito, diarreia aguda, choque hipovolê-
mico, sequestro de fluidos no trato gastrintes-
Desidratação tinal, febre prolongada, queimaduras exudati-
vas, ferimentos abertos e hemorragias.
A desidratação é uma alteração do equilí-
Quando ocorre perda excessiva de Na+
brio hídrico em que a perda de líquidos do orga-
com queda na osmolaridade de plasma,
nismo é maior que o líquido ingerido. A conse-
como na administração inapropriada de diu-
quência é uma diminuição do volume sanguí-
réticos ou na insuficiência adrenocortical
neo circulante que leva a mudanças tisulares.
para produzir aldosterona, há uma desidra-
tação hipotônica.
Etiologia
Implicações metabólicas
Existem duas causas principais de desi-
dratação: por consumo insuficiente de água
A capacidade de sobreviver sem água
e por perda excessiva de líquidos, sendo esta
é nula. Alguns animais podem manter um
última a mais comum. A perda de água pode
equilíbrio hídrico em circunstâncias adversas
ser devido a vômito, diarreia, sudoração ex-
(camelo, carneiro Merino). Porém, essa capa-
cessiva, poliúria, hiperventilação, hemorra-
cidade não é ilimitada e depende da possibi-
gia, ingestão excessiva de carboidratos em
lidade de armazenamento de água no rúmen
ruminantes e patologias gastrointestinais
e nos espaços extracelulares, da possibilidade
(peritonite, obstrução). O baixo consumo
de ajustar as concentrações de eletrólitos e do
deve levar em consideração a qualidade e a
funcionamento renal. Quando ocorre falha
quantidade de água, especialmente em ani- nos mecanismos reguladores do equilíbrio
mais de alta produção. hídrico, a morte ocorre por acidose, desequi-
Quando a perda de água ocorre sem per- líbrio eletrolítico, toxemia e septicemia.
da ou com pouca perda de eletrólitos, como na Na desidratação ocorre declínio na con-
respiração ofegante por estresse, por calor ou centração de líquido nos tecidos com altera-
por exercício intenso, ou na restrição de água, ção do metabolismo tissular e diminuição do
a osmolaridade e a concentração de sódio ten- volume circulante. A resposta fisiológica ini-
dem a aumentar. Nesse caso ocorre desidrata- cial é a desaparição de líquido dos tecidos e a
ção hipertônica, na qual a perda de água ex- conservação do volume sanguíneo, mediante
cede à perda de Na+ + K+. As perdas de água a extração de líquidos do espaço intersticial.
são compartilhadas pelos espaços intra e ex- Os órgãos essenciais (coração, tecido nervoso)
tracelulares. Portanto, a hipernatremia (au- aportam pouco líquido, ocorrendo mais per-
mento da concentração plasmática de sódio) das nos tecidos conectivo, muscular e cutâneo.
produzida pela perda de água é caracterizada A resposta secundária é a diminuição do con-
por contração do volume intracelular e redu- teúdo líquido do sangue (volume circulante),
ção do volume das células. com aumento da concentração dos solutos
Quando a perda de água vem acompa- plasmáticos, levando à viscosidade do sangue
nhada de perda de cátions (Na+ e K+), o volu- que afeta a dinâmica circulatória e aumenta
me total diminui, ficando, no entanto, isotôni- a insuficiência circulatória periférica. Inicial-
cos os líquidos do organismo. Isso ocorre, por mente o rim se encarrega de manter o equilí-

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brio hídrico por diminuição da produção de moconcentração, queda da produção de lei-
urina, que fica mais concentrada. Esse meca- te, perda marcada de peso, perda da função
nismo é controlado pela vasopressina (ADH) renal, uremia e morte.
e pela aldosterona. Em nível de trato digesti- Considera-se uma desidratação leve até 6 %
vo, diminui a umidade e o volume das fezes. de perda de líquidos; moderada, 6 a 8 %; seve-
No metabolismo tisular, a desidratação ra, 10 a 12 %; e choque, mais de 15 % de perda
ocasiona aumento do catabolismo de gordu- de água corporal (Quadro 1). Uma forma de
ra, glicídeos e proteínas para produzir água avaliação laboratorial do grau de desidrata-
metabólica. As condições anaeróbicas em ção é através do hematócrito e da concen-
função da diminuição do volume circulante, tração de hemoglobina e de proteínas totais
que causa pouca irrigação sanguínea, favore- no plasma (principalmente a albumina), as
cem a apresentação de acidose (pelo aumento quais aumentam proporcionalmente o nível
de lactato), enquanto a diminuição da filtra- de desidratação. A ureia também se encontra
ção renal permite o acúmulo de ureia e crea- elevada na desidratação (Tabela 3).
tinina (azotemia pré-renal). Também há leve A diarreia é uma frequente manifestação
hipertermia, pois não existe líquido suficiente clínica em múltiplas doenças, a qual afeta de
para manter a dissipação do calor corporal. forma dramática animais jovens, prejudicando
o equilíbrio hidroeletrolítico e acidobásico. Na
diarreia, existe perda de líquidos, o que causa
Sinais clínicos
desidratação, perda de bicarbonato de sódio,
que leva à acidose metabólica, perda de ele-
Os sinais clínicos da desidratação apare-
trólitos (Na, K, Cl) e alterações no metabo-
cem quando a perda representa mais de 8 %
lismo energético, principalmente levando a
do peso corporal, o que em um bovino equi-
hipoglicemia. As principais manifestações
vale a aproximadamente 40 litros de água.
clínicas da diarreia envolvem anorexia, he-
Em animais confinados e em clima cálido, é
matócrito elevado, acidose metabólica, hipo-
necessário manter água fresca para consumo natremia, hipocalemia, hipoglicemia, oligú-
suficiente, considerando que, em condições ria e azotemia (Quadro 1).
normais, um animal consome pelo menos
12 % do peso vivo em água e perde 62 % da
água corporal em manutenção (sudoração) e Tratamento
38 % na respiração, perda que aumenta em
situação climática desfavorável (umidade No tratamento, deve considerar-se a
e temperatura ambientais excessivas). Em composição, quantidade e via das perdas de lí-
pequenos animais, configura-se polidipsia quidos para repor e para eleger a rota de admi-
um consumo de água superior a 100 mL/kg/ nistração mais adequada. O volume a ser apli-
dia, e uma poliúria, uma produção de urina cado deve assegurar a restauração do líquido
maior do que 50 mL/kg/dia. perdido, mais o necessário para retomar as
funções normais, e o equilíbrio acidobásico.
Os principais sinais clínicos de desi- Na medida do possível, a via de reidratação
dratação são ressecamento e perda de elas- deve ser oral, e o ritmo de hidratação deve
ticidade da pele, pulso fraco, taquicardia, inicialmente calcular-se para 24 horas, a
diminuição na produção de saliva, oligúria, fim de permitir a compensação intracelular
afundamento do globo ocular, debilidade e evitar um possível edema pulmonar. No
muscular, perda de apetite, convulsões, he- Quadro 2 estão relacionadas as principais in-

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QUADRO 1 – SINAIS CLÍNICO-LABORATORIAIS DA DESIDRATAÇÃO EM BOVINOS

Sinais clínicos Grau da desidratação


Leve Moderada Severa
Afundamento dos olhos (mm) 1-2 2-4 >4
Tempo de preenchimento capilar (s) 1-2 3-5 >5
Mucosas úmidas, quentes anêmicas, quentes secas, frias
Reflexo de sucção (lactantes) + – –
Estado físico normal prostrado extremidades frias, coma
Temperatura normal normal hipotermia
Perda de peso corporal (%) 4-6 6-8 >8
pH sanguíneo 7,3 7,25 <7,15
Excesso de base (mmol/L) -5,0 -10,0 <-15,0
HCO (mmol/L)
3

20 15 <10
Hematócrito (%) 40 45 >50
Fonte: Bouda et al. (1997).

TABELA 3 – VALORES LABORATORIAIS ANTES E DEPOIS


DE REIDRATAÇÃO ORAL EM BEZERROS COM DIARREIA

Parâmetro Antes da reidratação (n= 29) Depois da reidratação (n= 27)

pH 7,284 7,366

Excesso de base (mmol/L) -5,86 +0,3

HCO3 (mmol/L 18,9 24,6

pCO2 (mmHg) 39,3 43,2

Hematócrito (%) 38,9 32,0

Ureia (mg/dL) 55,5 27,2

Glicose (mg/dL) 65,2 81,6

Proteína total (g/L) 62,1 59,0

Cálcio (mmol/L) 2,82 2,58

Cloro (mmol/L) 102,7 99,5

Potássio (mmol/L) 5,23 4,47

Sódio (mmol/L) 132,6 138,1


Fonte: Bouda et al. (1997).

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dicações terapêuticas em casos de alterações excreção renal de água. A sobreidratação tam-
hidroeletrolíticas para pequenos animais. bém pode levar a hemólise por alteração da
osmolaridade do plasma.
Um protocolo sugerido em caso de desi-
dratação leve por diarreia em bezerros pode
incluir reidratação oral, administrando bi- Poliúria e polidipsia
carbonato, sais e glicose. Uma fórmula bási-
ca pode incluir NaHCO3 (36 g), NaCl (38 g), A síndrome poliúria/polidipsia se obser-
KCl (10 g) e glicose (200 g) em 2 L de água va frequentemente associada a uma gama
para administrar três vezes ao dia. Recomen- de distúrbios hormonais ou não-hormonais.
da-se não administrar leite e aplicar a reidra- Define-se poliúria como um volume exage-
tação oral por dois dias, no mínimo. rado de urina por dia, ao passo que polidip-
Para desidratação moderada e severa em sia é definida como uma ingestão excessiva
bezerros, recomenda-se usar soluções intra- de água por dia. O consumo de água diário
venosas isotônicas de NaCl (18 g), NaHCO3 de cães e gatos normalmente varia entre 20
(17 g) KCl (2,2 g) e glicose 10 % para 4 L de e 90 mL/kg/dia, considerando a ocorrência
água. O primeiro litro da solução deve admi- de polidipsia quando a quantidade ingerida
nistrar-se via IV durante 20 a 30 minutos, e de água diária for superior a 90-100 mL/kg/
os seguintes três litros, durante as seguintes dia em cães ou for superior a 45 mL/kg/dia
duas horas. Depois pode continuar-se com em gatos. Uma densidade urinária menor ou
reidratação oral com 6 L por dia, divididos igual a 1.015 sugere a ocorrência de poliúria,
em três doses, a cada 24 h por 36 a 48 h. definida classicamente por uma diurese su-
Na Tabela 3 mostram-se valores bioquí- perior a 50 mL/kg/dia tanto para cães quanto
micos no plasma antes e depois de uma tera- para gatos. O volume urinário normal para
pia de reidratação. ambas as espécies fica entre 20-45 mL/kg/dia.

Etiologia
Sobreidratação

A sobreidratação é rara nos animais, mas Na maioria dos casos, existe uma doença
pode ocorrer iatrogenicamente quando é ad- de base que provoca poliúria por mecanismos
ministrado excesso de fluidos em pacientes distintos e polidipsia compensatória. Contu-
com função renal comprometida. Nesse caso, do, algumas condições clínicas estão associa-
a retenção de sódio é o problema primário, das a polidipsia primária e poliúria compen-
enquanto o excesso de fluidos (numa tentativa satória. As principais causas de poliúria/poli-
de diluir os eletrólitos) é secundário. A hipo- dipsia estão listadas no Quadro 3.
natremia (redução da concentração plasmáti- Em geral a ocorrência de polidipsia psi-
ca de sódio) e a hiposmolalidade subsequen- cogênica está associada a uma alteração com-
tes levam à expansão do espaço extracelular portamental, muitas vezes para chamar aten-
com aumento de volume celular, aumento ção do proprietário (especialmente cães), e
do volume plasmático e do espaço extracelu- comumente animais com esse tipo de distúr-
lar. Com isso, ocorre sobrecarga cardiovas- bio vivem em ambientes restritos. Contudo,
cular que pode levar à formação de edema pode haver distúrbios idiopáticos no centro
pulmonar e generalizado. Em geral, o animal da sede causando uma ingestão excessiva de
compensa a sobreidratação com aumento da água. De qualquer forma, nesses casos ocor-

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QUADRO 2 – ALTERAÇÕES HIDROELETROLÍTICAS E INDICAÇÕES TERAPÊUTICAS

Perda
Alteração Alteração metabólica Alternativas de terapia
hidroeletrolítica

estresse, exercício solução de glicose 5 %;


água desidratação hipotônica
intenso, febre solução hipotônica (NaCl 0,45 %)

desidratação isotônica, solução isotônica Ringer-lactato + KCl


anorexia K+
acidose metabólica + glicose

desidratação iso ou hipertônica, solução isotônica Ringer-lactato;


vômito água, K+, Na+, Cl–, H+
alcalose metabólica solução hipotônica (NaCl 0,45 %)

água, K+, Na+, Cl–, desidratação isotônica, acidose


vômito crônico solução isotônica Ringer-lactato
H+, HCO–3- metabólica

água, K+, Na+, Cl-, desidratação iso ou hipertônica, solução isotônica Ringer-lactato;
diarreia
HCO–3- acidose metabólica solução isotônica NaCl 0,9 % + bicarbonato

água, K+, Na+, Cl–, desidratação isotônica,


diarreia crônica solução isotônica NaCl 0,9 % + bicarbonato
HCO–3- acidose metabólica

obstrução intestinal água, Na+, Cl-, HCO–3- acidose metabólica solução isotônica Ringer-lactato

desidratação isotônica, alcalose solução isotônica NaCl 0,9 %;


hiperadrenocorticismo água, K+
metabólica leve solução isotônica Ringer-lactato + KCl

solução isotônica NaCl 0,9 %;


hipoadrenocorticismo água, Na+, retenção de K+ acidose metabólica, hipercalemia
solução isotônica Ringer-lactato

diurético (glicose 20 %, manitol, furosemida,


insuficiência renal HCO–3-, retenção desidratação iso ou hipertônica,
dopamina);
aguda oligúrica de K+, Na+, Cl-, acidose metabólica
solução hipotônica NaCl 0,45 % + bicarbonato

insuficiência renal água, K+, Na+, Cl–


acidose metabólica solução isotônica Ringer-lactato
aguda poliúrica HCO–3-

insuficiência renal água, K+, Na+, Cl–, desidratação iso ou hipertônica,


solução isotônica NaCl 0,9 % + bicarbonato + KCl
crônica HCO–3- acidose metabólica, hiponatremia

hiponatremia, hipocalemia, solução isotônica NaCl 0,9 % + glicose


insuficiência hepática K+, Na+, HCO–3-, HPO=4
hipofosfatemia, acidose metabólica + bicarbonato + KCl; fosfato, proteína

insuficiência cardíaca retenção de água e Na+ acidose metabólica solução de glicose 5 % evitar Na

desidratação iso ou hipertônica,


obstrução uretral Na+, Cl–, retenção de K+ solução isotônica NaCl 0,9 %
acidose metabólica

solução isotônica NaCl 0,9 % + KCl + fosfato;


solução hipotônica 0,45 % se osmolaridade
diabetes mellitus tipo I água, K+, Na+, Cl–, HCO–3- acidose metabólica
plasma >350 mOsm/L; bicarbonato
se concentração plasma < 13 mEq/L

hiperglicemia, hiperosmolaridade, solução isotônica 0,9 % + KCl; solução


diabetes mellitus tipo II K+ acidose metabólica, desidratação hipotônica 0,45 % quando densidade
hipertônica urinária estiver normal

Fonte: Montiani e Pachaly (2000).

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QUADRO 3 – PRINCIPAIS CAUSAS DE POLIDIPSIA PRIMÁRIA COM POLIÚRIA SECUNDÁRIA
E DAS PRINCIPAIS CAUSAS DE POLIÚRIA PRIMÁRIA COM POLIDIPSIA SECUNDÁRIA.

Causas de polidipsia primária Causas de poliúria primária


Polidipsia psicogênica Diabetes insípida central
(compulsão por beber água) (falta de ADH)

Diabetes insípida dipsinogênica Diabetes insípida nefrogênica primária


(distúrbio do centro da sede) (congênita ou familiar)

Transtornos metabólicos Diabetes insípida nefrogênica secundária


(hipertireodismo, insuficiência hepática) (acromegalia, insuficiência renal crônica, dro-
gas, doenças hepáticas, hiperadrenocorticismo,
hipercalcemia, hipertireodismo, hipoadrenocor-
ticismo, hipocalemia, diurese pós-obstrutiva,
pielonefrite, piometra)

Diurese osmótica
(diabetes mellitus, glicosúria renal primária,
diurese pós-obstrutiva, falência renal, hipoadre-
nocorticismo – natriurese,
uso de diuréticos, dietas pobres em proteínas)

re uma supressão da secreção do ADH em nos túbulos renais reduz a absorção desses
decorrência da ingestão excessiva de água. solutos, provocando uma menor concen-
Essa incapacidade pode estar associada a tração deles na medula renal (washout me-
alterações congênitas ou a lesões adjacentes dular). O resultado final é uma diminuição
aos neurônios secretores do hormônio. na força osmótica para absorção do líquido
tubular, resultando em mais poliúria.
A diabetes insípida nefrogênica primá-
ria refere-se a uma condição rara na qual os Condições como a diabetes mellitus,
túbulos renais são irresponsivos ao ADH, síndrome de Fanconi (glicosúria renal pri-
apesar de esse ser secretado de forma nor- mária) ou períodos pós-obstrutivos, nos
mal. Essa alteração pode ser funcional ou es- quais uma grande quantidade de solutos
trutural, ocorrendo uma insensibilidade do está presente na luz tubular, resultam em
néfron aos efeitos antidiuréticos do ADH. diurese osmótica, uma vez que esses solutos
impedem a reabsorção adequada de água.
A forma mais comum de poliúria pri-
Da mesma forma, no hipoadrenocorticis-
mária observada na clínica é o que pode ser
mo ocorre uma deficiência da secreção da
chamado de diabetes insípida secundária ou
aldosterona, resultando numa reabsorção
adquirida. Nessa situação, uma desordem
de sódio inadequada com consequente au-
renal, metabólica ou hormonal promove
mento na carga de sódio no fluído tubular
uma insensibilidade renal ao ADH. Essa
(natriurese). Esta maior carga de sódio no
insensibilidade geralmente é reversível se
túbulo distal promove um efeito osmótico,
a causa do problema for identificada e tra-
inibindo a reabsorção de água com conse-
tada (por exemplo, piometra, pielonefrite).
quente diurese osmótica.
A ocorrência de poliúria e polidipsia pode
agravar ainda mais o problema por causar a Muitas vezes fica fácil identificar o pro-
perda excessiva de solutos do interstício re- blema quando a doença que está causando
nal (sódio, ureia). A taxa de fluxo aumentada poliúria/polidipsia apresenta uma manifes-

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tação clássica. Por exemplo, uma fêmea em sociada à polidipsia psicogênica, diabetes
diestro com secreção vaginal purulenta e insípida central total ou hipertireoidismo
abdômen dolorido e distendido (piometra), em gatos. Ocasionalmente pacientes com
um cão de meia-idade a idoso com rarefação hiperadrenocorticismo podem apresentar
pilosa bilateral e abdômen pendular (hipera- hipostenúria. Uma densidade específica da
drenocorticismo), um felino com queixa de urina entre 1.008 e 1.029 está associada com
emagrecimento, agitação e tireoides palpá- formas de diabetes insípida nefrogênica,
veis (hipertireodismo) ou um paciente com embora ocasionalmente casos de polidipsia
poliúria/polidipsia, polifagia, perda de peso psicogênica e deficiência parcial na secreção
e surgimento abrupto de cataratas bilaterais de ADH possam resultar em densidade es-
(diabetes mellitus). A presença de andar pecífica nessa faixa. Pacientes com diabetes
plantígrado em um gato com poliúria e po- mellitus devem obrigatoriamente apresentar
lidipsia é extremamente sugestivo de diabetes glicosúria, o que costuma causar densidade
mellitus. Os linfonodos do paciente devem superior a 1.035. Uma densidade específica
ser avaliados em busca de linfadenopatia, que da urina superior a 1.030, sem glicosúria,
pode indicar linfoma com hipercalcemia se- descarta a existência de poliúria.
cundária. A presença de um tumor perianal No exame químico da urina, a presença
(adenocarcinoma de saco anal) também pode de proteinúria pode indicar desde processos
estar associado a hipercalcemia, com poliúria/ patológicos glomerulares até infecção do tra-
polidipsia concomitante. Contudo, animais to urinário inferior, mas a avaliação do se-
com diabetes insípida ou polidipsia psicogê- dimento urinário é útil nesta avaliação. Por
nica apresentam-se alertas e ativos, não costu- exemplo, a bacteriúria, assim como a piúria,
mando apresentar alterações no exame clíni- podem indicar pielonefrite, embora diversas
co. Nem mesmo desidratação é visível nesses doenças que cursam com poliúria/polidip-
pacientes, uma vez que eles só desenvolverão sia predisponham o paciente a infecções do
esse sinal se tiverem restrição de água. trato urinário sem existência de pielonefri-
te. É indicada a realização de cultura e anti-
biograma de amostras de urina com baixa
Exames laboratoriais em casos de poliúria
densidade específica da urina, uma vez que
A urinálise é o exame mais simples e im- o sedimento urinário pode estar diluído no
portante a ser solicitado ante a queixa de po- grande volume urinário. Da mesma forma a
liúria/polidipsia. A hipostenúria (densidade presença de cilindros hialinos, celulares, gra-
específica da urina menor que 1.008), isoste- nulosos ou céreos pode fornecer boas pistas
de processos patológicos do trato urinário
núria (entre 1.008 e 1.012) ou uma densidade
associadas à poliúria/polidipsia.
inferior a 1.025 devem estar obrigatoriamen-
te presentes. A avaliação da densidade espe- O hemograma pode indicar desidratação,
cífica da urina é importante, porque permite pelo aumento do hematócrito, infecções ou
uma boa diferenciação entre causas para o anemia (hipoadrenocorticismo, insuficiência
problema. Por exemplo, a hipostenúria per- renal crônica, neoplasias). Cães com síndro-
sistente geralmente afasta a possibilidade de me de Cushing ou gatos com hipertireoidismo
insuficiência renal, uma vez que demonstra tendem a apresentar hemograma de estresse
que os rins ainda são capazes de reabsorver (neutrofilia com eosinopenia e linfopenia). Um
solutos, diluindo ainda mais o filtrado glo- perfil bioquímico completo adicional permite
merular. A hipostenúria persistente está as- uma melhor avaliação do paciente, permitin-

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do, na maioria das vezes, firmar um diagnós- Diabetes insípida
tico presuntivo. O Quadro 4 apresenta as prin-
cipais causas de anormalidades bioquímicas O termo diabetes é originário do grego (dia-
observadas em cães com poliúria/polidipsia. baino = passar através) e foi usado pela primeira
A avaliação da natremia é interessan- vez por Areteo di Capadoccia, no século II para
te por auxiliar na investigação de polidipsia designar pacientes portadores de um mal asso-
primária e de poliúria primária. Animais ciado a poliúria e polidipsia e emagrecimento
com polidipsia psicogênica ingerem volumes progressivo, que acometia pessoas jovens que
excessivos de água e acabam diluindo o meio morriam muito cedo ou pessoas idosas e obe-
extracelular que se torna hiposomótico, re- sas. Esse mal relatado por Areteo referia-se à
sultando em hiponatremia. Animais que diabetes mellitus, porém o termo latino melli-
apresentam distúrbios associados a maior tus (mel, doce) só foi adicionado ao nome da
perda renal de água, tendem a apresentar di- doença no século XVIII com objetivo de dis-
ferentes graus de desidratação, concentran- tingui-la da diabetes insípida (sem cheiro, sem
do o meio extracelular que se torna hiperos- gosto), uma vez que os pacientes com diabetes
mótico com consequente hipernatremia. mellitus apresentavam urina adocicada que
atraía moscas e outros insetos.
Tratamento A diabetes insípida refere-se a uma con-
dição patológica associada a intensa poliú-
O tratamento da polidipsia primária ria e polidipsia decorrente da deficiência na
(psicogênica) pode ser realizado através de produção de hormônio antidiurético (ADH)
mudanças ambientais e comportamentais, (diabetes insípida central) ou decorrente da
como aumentar a rotina de exercícios, man- reduzida sensibilidade renal ao ADH (diabe-
ter o animal em um ambiente mais espaçoso, tes insípida nefrogênica).
aumentar o contato do animal com pessoas,
bem como introduzir um novo animal para ADH é um neuropeptídeo formado por
fazer companhia. Essas medidas podem ter 9 aminoácidos (Cys-Tyr-Phe-Gln-Asn-Cys-
êxito, uma vez que a maioria dos cães com po- -Pro-Arg-Gly-NH2), sendo secretado pelos
lidipsia primária são cães sedentários que vi- neurônios hipotalâmicos dos núcleos supra-
vem em ambientes pequenos e isolados. A re- óptico e paraventricular, perante situações
dução gradual da ingestão de água do animal de aumento na osmolaridade plasmática ou
para valores de referência (< 100 mL/kg/dia) redução no volume sanguíneo. Em circula-
pode ser forçada ao longo de 2-4 meses ofe- ção, o ADH apresenta uma meia-vida extre-
recendo-se uma quantidade fixa de água para mamente curta (1 a 3 minutos) e pode atuar
o cão suficiente para atender sua necessidade sobre diferentes tipos de receptores. O alvo do
diária (60-80 mL/kg/dia) e dividida em várias ADH com relação ao controle hídrico são os
pequenas porções. Em longo prazo, esse pro- receptores V2 localizados nas paredes basal e
cedimento pode quebrar o ciclo de polidipsia lateral das células que formam o néfron distal.
e poliúria, e restabelecer espontaneamente a Uma vez ativados, esses receptores estimulam
ingestão de volumes adequados de água. a maior absorção de água pela formação de

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QUADRO 4 – PRINCIPAIS ANORMALIDADES BIOQUÍMICAS OBSERVADAS FRENTE
A DIFERENTES CAUSAS DE POLIÚRIA/POLIDIPSIA EM PEQUENOS ANIMAIS.

Anormalidades na
Causas que cursam com poliúria/polidipsia
bioquímica sanguínea

Azotemia pré-renal Hipoadrenocortcismo


Azotemia renal Insuficiência renal, hipercalcemia

Baixa concentração de ureia Diabetes insípida central, insuficiência hepática

Aumentos na atividade Doenças hepáticas, insuficiência hepática, hiperadrenocorticismo,


das enzimas ALT e FA hipoadrenocorticismo, diabetes mellitus, uso de fenobarbital

Diabetes mellitus, hiperadrenocorticismo,


Hiperglicemia
uso de glicocorticoides
Hipercalcemia maligna, linfoma, adenocarcinoma
Hipercalcemia de sacos anais, hipoadrenocorticismo,
insuficiência renal, hiperparatireodismo primário
Hiperlipidemia Diabetes mellitus, hiperadrenocorticismo
Diabetes mellitus, hiperaldosteronismo,
Hipocalemia
insuficiência renal, perdas gastrintestinais
Hipercalemia Hipoadrenocorticismo, insuficiência renal crônica

Hiponatremia Hipoadrenocorticismo, polidipsia primária, insuficiência renal

Diabetes insípida central ou


Hipernatremia
nefrogênica primária ou secundária

canais de água (aquaporinas) para passagem tímulos como aumento da osmolaridade ou


de água da luz tubular para o interstício re- redução do volume circulante/pressão arte-
nal hiperosmótico. O ADH apresenta distin- rial. Essa incapacidade pode estar associada
tas funções, porém a sua deficiência acarreta a alterações congênitas ou a lesões/trauma-
drásticas consequências em face da sua ação tismos adjacentes aos neurônios secretores
sobre os receptores V2, uma vez que outros do hormônio. Contudo, na maior parte das
estímulos e hormônios são capazes de contro- vezes, a origem do problema é idiopática. A
lar o tônus dos vasos e a secreção do ADH. DIC também é frequentemente associada a
neoplasias hipofisiárias (macroadenomas ou
tumores com mais de 1 cm de diâmetro) ou
Etiologia outras neoplasias intracranianas em animais
idosos. A ocorrência de DIC é uma compli-
A diabetes insípida central (DIC) é uma cação observada após hipofisectomia (cirur-
desordem extremamente rara, estando asso- gia para retirada de tumores hipofisários).
ciada à incapacidade total ou parcial da neu- No caso de uma deficiência parcial na produ-
ro-hipófise em secretar ADH em face de es- ção do ADH, uma deficiente concentração

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da urina será observada, porém com menor podem estar presentes, evidenciando indire-
volume urinário e polidipsia do que é obser- tamente a origem do problema.
vada perante o DIC total.
O diagnóstico de DI é baseado na exclu-
A diabetes insípida nefrogênica primária são de outras causas de poliúria e polidipsia.
(DINP) refere-se a uma condição rara em que A grande maioria dos animais apresenta
os túbulos renais são irresponsivos ao ADH, densidade urinária inferior a 1.008 (hiposte-
apesar de este ser secretado de forma normal. núria). Alguns animais poderão apresentar
Essa alteração pode ser funcional ou estrutu- densidade um pouco mais elevada nos casos
ral, contudo ocorre uma insensibilidade do de DI parcial, conseguindo concentrar um
néfron aos efeitos antidiuréticos do ADH. pouco a urina, mas não se esperam valores
Esse tipo de patologia é congênita e pode es- superiores a 1.012 (isostenúria). Isso acon-
tar associada desde a ausência de receptores tece porque ante a deficiência de ADH não
de ADH, presença de receptores de ADH de- ocorre concentração da urina, fenômeno ca-
feituosos, falha na ativação dos mensageiros racterístico do néfron distal, no qual o ADH
intracelulares pós-ativação do receptor V2, estimula a reabsorção de água, porém não de
até falha nos mecanismos de translocação das solutos. Dessa forma o ultrafiltrado presente
aquaporinas para a membrana intracelular. na luz tubular perde água para o interstício, e
a concentração dos solutos na luz do túbulo
aumenta. Um organismo saudável reabsorve
Diagnóstico da diabetes insípida
diariamente cerca de 98 % do volume diário
filtrado, urinando somente 1 a 2 % de todo o
A principal razão da consulta de um cão
volume filtrado ao longo de 24 horas. Cerca
com DI é a incontrolável poliúria e polidip-
de 30 % dessa reabsorção ocorre no néfron
sia. A sede desses pacientes é insaciável e os
distal sob influência do ADH, e na ausência
volumes de ingestão de água e produção de
desse hormônio, a desidratação severa, coma
urina são excessivamente elevados. Queixas
e óbito são uma questão de tempo, se não
dos proprietários com relação a noctúria e
houver água à disposição do indivíduo.
incontinência urinária são comuns e não
há outra queixa ou sinal clínico exceto a po-
liúria e polidipsia, uma vez que os pacien- Tratamento
tes se apresentam ativos e alertas. Contudo,
sinais neurológicos podem estar presentes Em animais com DIC, a administra-
em decorrência de neoplasias hipofisiárias ção de ADH ou seus análogos restabelece a
ou cerebrais que possam estar comprimin- hipertonicidade medular e a capacidade de
do outras estruturas além da neuro-hipófise, adequada concentração da urina. O aceta-
tais como andar em círculos, desorientação, to de desmopressina (DDAVP) tornou-se a
cegueira, comportamentos bizarros, déficits droga de escolha para essa terapia. A desmo-
nos nervos cranianos, entre outros. Nos ca- pressina está disponível em três formas. A
sos secundários a traumatismos cranianos, apresentação oral em comprimidos de 0,1 a
sequelas do trauma podem estar presentes, 0,2 mg, apesar de ter concentração bem su-
especialmente se o histórico do paciente su- perior à preparação intranasal (5 μg/gota), é
portar ocorrência de trauma. Sinais clínicos menos eficaz no controle dos sinais clínicos.
de outras doenças associadas a problemas hi- A preparação injetável é eficaz administrada
pofisários como nanismo, hiperadrenocor- por via subcutânea, porém seu custo é até
ticismo pituitário-dependente, acromegalia 20 vezes superior ao da preparação para uso

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intranasal. Apesar de não ser própria para casos o paciente deve viver no pátio ou canil
administração parenteral, a apresentação de higienizador, onde a poliúria não venha a
uso intranasal, contendo 100 μg/mL pode causar transtornos.
ser filtrada antes da aplicação por via sub-
cutânea, ou pode ser aplicada via saco-con-
ALTERAÇÕES DO EQUILÍBRIO ELETROLÍTICO
juntival, obtendo uma resposta adequada
na maioria dos animais, reduzindo a inges- Para efeitos de discussão, convém sepa-
tão de água e produção de urina em 50 % ou rar os desequilíbrios hídricos dos eletrolíti-
mais. A administração diária da preparação cos. Entretanto, na prática é mais comum
intranasal por via conjuntival na dose de 1-4 observar a combinação de alterações hídri-
gotas a cada 12 ou 24 horas é suficiente para cas, eletrolíticas e acidobásicas (Quadro 2).
eliminar totalmente os sinais de poliúria e Os dados clínicopatológicos costumam es-
polidipsia. A desmopressina apresenta uma tar afetados não somente pelos problemas
meia-vida de 8 a 24 horas e é segura para uso primários e suas respostas compensatórias
em cães e gatos, apesar de que intoxicação secundárias, mas também pela terapia apli-
por água e hiponatremia possam ocorrer cada. É importante considerar a presença de
durante o tratamento. No caso de adminis- doenças renais, uso de diuréticos ou drogas
tração uma vez por dia, a aplicação ao entar- nefrotóxicas, consumo de água e alimento,
decer pode prevenir a noctúria e garantir um transtornos que impeçam o consumo normal
bom controle da ingesta hídrica. de água (transtornos neurológicos, lesões na
Pacientes com DINP podem beneficiar- cabeça, no pescoço, na boca, língua ou farin-
-se do uso de diuréticos tiazídicos. Apesar ge), obstruções no trato gastrintestinal ou,
de soar antagônico, esse tipo de medicação simplesmente, erros de manejo (tubulações
de água quebradas ou deficiência de bebe-
provoca maior reabsorção de sódio no túbu-
douros). Também são importantes as causas
lo contorcido proximal e consequentemente
de perdas de fluidos, como vômito, diarreia,
maior reabsorção de água. O resultado é a li-
poliúria, sudorese excessiva por exercício em
beração de um volume menor de fluido para o
equinos, ferimentos e queimaduras.
néfron distal, o que pode auxiliar no controle
da poliúria. Clorotiazida na dose de 20-40
mg/kg a cada 12 horas ou hidroclorotiazi- Distúrbios do sódio
da (2,5-5 mg/kg a cada 12 horas) podem ser
úteis. Contudo, alguns animais podem não Hipernatremia
apresentar resposta alguma a essas medica-
ções. Restrição dietética de solutos urinários A hipernatremia está quase sempre as-
(sódio, proteínas) pode reduzir a carga de so- sociada à elevação da osmolaridade no plas-
lutos que precisa ser excretada diariamente, ma. Ocorre em animais desidratados quando
reduzindo indiretamente o volume urinário. as perdas de água excedem as perdas de ele-
Por questões financeiras, muitas vezes trólitos, como nos seguintes casos:
pode-se optar por não tratar o paciente, (a) estágios iniciais de vômito, diarreia e do-
desde que ele tenha acesso ininterrupto à ença renal;
água, uma vez que a simples poliúria e poli-
dipsia não representam neste caso um pro- (b) queimaduras cutâneas;
blema ou risco à saúde do animal. Nesses (c) causas iatrogênicas:

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- uso exagerado de diuréticos, xia, mioclonia e coma. Esses sinais aparecem
quando a concentração plasmática de Na
- nutrição parenteral,
atinge níveis superiores a 170 mmol/L (refe-
- administração de solução salina hi- rência = 132-155 mmol/L) e ocorrem devi-
pertônica ou bicarbonato de sódio, com res- do à desidratação neuronal (água se desloca
trição de água de beber, para o espaço extracelular).
- intoxicação com sal combinada com A dosagem de Na plasmático ajuda no
falta de água; diagnóstico. A urina também dá informação
(d) respiração ofegante por calor ou exercí- valiosa: a densidade urinária pode estar au-
cio físico intenso; mentada (>1.035) porque a hipernatremia
causa liberação de ADH, que aumenta a reab-
(e) diabetes insípida, se ocorrer restrição de sorção tubular de água, concentrando a urina.
água;
O tratamento da hipernatremia envol-
(f) falta de água de beber; ve a correção da causa primária e, eventu-
(g) diabetes mellitus; almente, o uso de soluções hipotônicas de
NaCl (0,45 %) + dextrose 2,5 %, de forma
(h) excesso de mineralocorticoides (hiperal-
lenta para evitar a morte por edema cerebral
dosteronismo por tumor adrenal).
(manifestado por convulsões). O edema ce-
O excesso de sódio no plasma vem acom- rebral ocorre por translocação do fluido ex-
panhado de aumento na água corporal, pro- tracelular ao interior do neurônio quando a
vocando uma sobreidratação isotônica que administração de fluido é rápida. O objetivo
causa hipertensão e edema generalizado. O do tratamento é restaurar o volume extrace-
problema primário, nesses casos, é a reten- lular na hipernatremia com desidratação se-
ção de sódio. Secundariamente, o excesso de vera, podendo usar-se solução salina (0,9 %)
água, retida ou ingerida para diluir o sódio, para expandir o volume plasmático. A do-
resultará em problemas, tais como insufici- sagem de Na no plasma é útil para avaliar o
ência cardíaca congestiva, hipoalbuminemia sucesso do tratamento: se a hipernatremia
e fibrose hepática. Antes que o edema seja persistir, pode ser calculado o déficit de água
visível, deve ocorrer uma expansão do volu- mediante da seguinte fórmula:
me extracelular de pelo menos 30 %. A tera-
pia de fluidos com sódio em pacientes com D = 0,6 x PC x [1- (Na+d / Na+ p)]
dano renal é causa iatrogênica de hipernatre-
mia, que pode levar ao edema. onde D corresponde ao déficit de água (em li-
tros), PC corresponde ao peso corporal (em kg),
A intoxicação com sal pode acontecer Na+d corresponde à concentração de sódio de-
em animais que pastam perto de pântanos sejada e Na+p, à concentração de sódio presente.
de água salobra ou em alimentos contamina-
dos, sempre que não for fornecida água doce. Contudo, a correção oral é preferível em
Na intoxicação com sódio aparecem sinto- caso de déficit de água, caso seja possível.
mas neurológicos devido ao edema do cór-
tex cerebral por aumento do fluido cérebro- Hiponatremia
espinhal, quadro mais observado em suínos.
Outros sintomas observados são fraqueza, O sódio mobilizável está localizado no
letargia, sede, irritabilidade, depressão, ata- espaço extracelular, o qual contém aproxima-

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damente 2/3 do sódio do corpo. O restante do (d) Consumo excessivo de água devido a pro-
sódio está nos ossos de forma não-mobilizável. blemas psicogênicos (polidipsia primária).
Uma falsa hiponatremia pode ocorrer (e) Doença renal com deficiente reabsorção
em quadros de hiperlipidemia e hiperprotei- de Na+.
nemia. Lipídeos e proteínas, quando em altas
(f) Deficiente secreção de vasopressina
quantidades, ocupam um espaço significativo
(ADH), não ocorrendo reabsorção de água e
no plasma. Uma vez que a medição dos ele-
de Na+.
trólitos é feita na fração aquosa do plasma,
nesses casos, apesar de a quantidade total de Conhecer a concentração de sódio na
sódio estar normal relativamente ao volume urina é útil para ajudar a diferenciar os vários
de plasma, sua concentração estará diminu- tipos de hiponatremias. Nos casos de perdas
ída. Da mesma forma, observa-se falsa hipo- de fluidos, como na diarreia e no vômito, a
natremia na hiperglicemia, pois a glicose em resposta renal compensatória mantém uma
excesso provoca aumento na osmolaridade adequada reabsorção de sódio e a urina tem
do plasma e induz o deslocamento de água uma baixa concentração de sódio. Na insufi-
do espaço intracelular para o plasmático, ciência adrenal, a diminuição de aldosterona
diluindo-o. O sódio plasmático diminui 1,6 provoca redução na reabsorção de sódio e na
mmol/L para cada aumento da concentração excreção de potássio, ocorrendo hiponatre-
de glicose de 100 mg/dL. mia com hipercalemia, ao mesmo tempo que
a urina tem uma concentração de sódio ele-
As mudanças no equilíbrio hídrico são
vada. Na deficiência de vasopressina, a hipo-
as principais responsáveis pelas mudanças
natremia vem acompanhada de altos níveis
na concentração de sódio. Assim, a hipona-
de sódio na urina, pois não ocorre reabsor-
tremia (Na < 140 mmol/L) pode ser consi-
ção. Na polidipsia psicogênica, a hiponatre-
derada como um excesso relativo de água.
mia está acompanhada de urina com baixa
Entre as causas de hiponatremia estão:
concentração de sódio. A hiponatremia pode
(a) Perdas no volume efetivo circulante: nes- causar sinais clínicos, como anorexia, letar-
te caso, inicialmente ocorre hipernatremia gia, taquicardia e transtornos musculares
quando há perda significativa de água devido (mioclonias, cãibras e convulsões).
a vômito, diarreia, sudorese excessiva (equi-
Em casos de hiponatremia com volume
nos), dermatite esfoliativa, queimaduras, te-
circulante diminuído, uma alta concentração
rapia diurética ou insuficiência adrenal (bai-
de sódio na urina pode indicar insuficiência
xa aldosterona). Porém, a desidratação induz
renal, enquanto Na urinário baixo pode re-
respostas neuro-hormonais que resultam em
velar perda de Na por vômito, diarreia, he-
aumento do consumo de água, via aumento
morragias ou queimaduras. Em casos de hi-
da sede e a conservação renal de água, resul-
ponatremia com volume circulante normal,
tando em hiponatremia compensatória.
um Na urinário baixo pode indicar polidip-
(b) Hemorragias, compensadas por aumento sia primária, e Na urinário aumentado pode
no consumo de água. indicar problemas de ADH ou falha renal.
(c) Sequestro de fluidos que contenham só- A deficiência de sódio é rara na dieta
dio em cavidades: como resultado de ascite, normal dos animais monogástricos, pois
peritonite, obstrução intestinal, efusão pleu- a suplementação com sal é prática comum.
ral ou ruptura da bexiga. Nos ruminantes, em função de os vegetais

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serem baixos em sódio, pode eventualmen- Esse equilíbrio mantém a excitabilidade neu-
te ocorrer deficiência. Em vacas lactantes de romuscular e cardíaca mediante a manuten-
alta produção ocorrem perdas de sódio no ção do potencial de membrana das células. As
leite e, em dietas baixas de sal, pode aconte- alterações na concentração de potássio têm
cer deficiência de sódio com hiponatremia. profundos efeitos neuromusculares causados
Nas mastites também aumentam as perdas
por mudanças no potencial de membrana das
de sódio no leite.
células. Em geral, a hipocalemia (diminuição
O tratamento da hiponatremia envol- da concentração plasmática de potássio) au-
ve fluidoterapia com soluções isotônicas de menta o potencial de membrana, produzin-
NaCl (0,9 %) em quantidade que permita re- do um bloqueio por hiperpolarização, que
por uma concentração plasmática de sódio de resulta em debilidade muscular e paralisia.
130 mmol/L ou uma osmolalidade de > 290 Na hipercalemia (aumento da concentração
mOsm/kg. A dosagem de Na no plasma per- plasmática de potássio), diminui o potencial
mitiria adequar a quantidade a fornecer me- de membrana, causando hiperexcitabilidade.
diante a seguinte fórmula:
A concentração de potássio no plasma
QNa = 0,6 x PC x DNa (referência: 3,5-5,5 mmol/L) pode revelar
tanto fatores internos de equilíbrio do potás-
onde QNa é a quantidade de sódio a ser repos- sio através das membranas celulares entre os
ta (em mmol), PC é o peso corporal (em kg) fluidos extra e intracelulares quanto fatores
e DNa é o déficit de sódio (em mmol/L). externos de equilíbrio entre o consumo e a
excreção de potássio.
O tipo de fluido usado vai depender
da causa e da severidade da hiponatremia: Entretanto, as respostas compensató-
em casos severos, solução salina (0,9 %) e rias às mudanças no volume circulatório
em casos moderados, solução de Ringer ou e o equilíbrio acidobásico podem mostrar
Ringer lactato. quadros confusos ou até contraditórios. Por
exemplo, no caso de bezerros com diarreia
O cálculo da osmolalidade do plasma é
aguda, existe perda de fluídos e de eletróli-
útil para diferenciar hiponatremia falsa ou
tos, entre eles o potássio. Porém, a concen-
verdadeira, utilizando a seguinte fórmula:
tração plasmática de potássio nesses animais
Osmolaridade plasma (mOsm/kg) = pode estar normal ou até aumentada, como
(2 x [Na]*)+ [glicose]* + [ureia]* resultado da desidratação e da acidose, por
* em mmol/L sua vez causadas pela perda de sódio e pela
deficiência renal para excretar H+. O aumen-
Na hiponatremia verdadeira, a osmolali- to de H+ provoca acidose, havendo uma ten-
dade é < 280 mOsm/kg (referência = 290-310). dência a que o H+ em excesso entre no espaço
intracelular com a equivalente saída de K+, o
qual é mobilizado para o espaço extracelular.
Distúrbios do potássio
O tratamento nesses animais inclui terapia de
Aproximadamente 95 % do potássio mo- fluidos e eletrólitos (Na+, K+), embora a con-
bilizável está no espaço intracelular. A relação centração de potássio esteja normal ou eleva-
K+intracelular/K+extracelular é mantida mediante a da, pois a interpretação clínica deve avaliar o
bomba Na-K ATPase, a qual permite a saída consumo e as perdas de fluidos, bem como o
de sódio e a entrada de potássio nas células. estado renal e o equilíbrio acidobásico.

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Hipercalemia Na hipercalemia, observam-se arritmias
cardíacas e fraqueza muscular. O aumento
Pode ser observada uma falsa hiperca- de K causa diminuição do potencial da mem-
lemia em amostras hemolisadas, especial- brana muscular, afetando a sua repolarização
mente em espécies com alta concentração de e diminuindo a excitabilidade do músculo. A
potássio nos eritrócitos (vaca, cavalo, porco, dosagem de K no plasma (referência = 3,8-
ovelha). Considera-se hipercalemia quan- 5,0 mmol/L) e o eletrocardiograma ajudam
do a concentração de K plasmático é > 5,5 no diagnóstico.
mmol/L. As causas de hipercalemia podem
agrupar-se em: O tratamento na hipercalemia (com K
no plasma > 7 mmol/L), além de revisar a
(a) Translocação de K entre espaços: causa primária, pode envolver fluidoterapia
- acidose metabólica ou respiratória, adicional, dependendo da causa. Assim, em
acidoses pode ser fornecida solução de bicar-
- deficiência de insulina,
bonato de Na, e na obstrução urinária reco-
- drogas beta-bloqueadoras (propanolol). menda-se a aplicação de insulina (0,5 U/kg)
(b) Comprometimento da excreção renal de K: e de solução de glicose 5 %.
- falha renal aguda,
- insuficiência renal crônica, Hipocalemia
- hipoadrenocorticismo,
A hipocalemia é relativamente frequen-
- obstrução uretral, te nos animais domésticos como resultado
- ruptura da bexiga. da perda dos depósitos de potássio ou da
(c) Iatrogênicas: redistribuição de potássio entre os espaços
extra e intracelulares. Configura-se quan-
- fluidoterapia com K em excesso ou em pa- do a concentração plasmática de K é < 3,5
cientes com função renal comprometida, mmol/L. Entre as principais causas de hipo-
- diuréticos poupadores de K, calemia estão:
- inibidores da enzima conversora de an- (a) perdas de origem gastrintestinal por vô-
giotensina (cartopril), mito e diarreia;
- inibidores das prostaglandinas (indo- (b) perdas renais por alteração da função tu-
metacina), bular renal;
- digitálicos, (c) deficiência de potássio na dieta, a qual é
rara pois o potássio está em concentração re-
- agonistas alfa-adrenérgicos (fenilpropa- lativamente alta nos alimentos para animais,
nolamina). entretanto, a compensação renal diante de
(d) Comprometimento muscular: uma deficiência alimentar ou uma perda de
potássio não é muito eficiente;
- necrose de tecidos,
(d) movimento de potássio do espaço extra-
- lesões musculares,
celular para o intracelular em alcalose aguda:
- exercício exagerado. o H+ intracelular tende a sair das células para
compensar, devendo entrar potássio para
manter o potencial de membrana;

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(e) uso exagerado de diuréticos; de sódio, as quais estão relacionadas com o
equilíbrio acidobásico.
(f) excesso de mineralocorticoides (hipera-
drenocorticismo);
(g) tratamento inadequado de insulina em Hipercloremia
pacientes diabéticos.
A hipercloremia (excesso de concentra-
Uma falsa hipocalemia pode ocorrer em ção plasmática de Cl–) com aumento propor-
hiperlipidemia, hiperproteinemia, hipergli- cional de sódio é observada na desidratação.
cemia e azotemia, principalmente em dosa- A hipercloremia sem aumento proporcional
gens por método seco. de sódio é observada na acidose metabóli-
A hipocalemia pode causar, além da ca e na alcalose respiratória compensada.
alteração (aumento) no potencial de mem- Para entender essas alterações do cloro, deve
brana, diminuição no volume intracelular e considerar-se que a sua concentração varia
alteração do pH intracelular, o qual é acidi- inversamente à concentração de bicarbonato
ficado pela entrada de H+ para compensar a (HCO3–). Assim, na alcalose respiratória há
saída de K+. Também há alterações da ativi- diminuição da pCO2 e a compensação inclui
dade de enzimas dependentes de K+. Os si- a excreção renal de bicarbonato, a qual está
nais clínicos incluem debilidade muscular, associada com o aumento da reabsorção de
arritmias cardíacas, rabdomiólise, altera- Cl–. A acidose metabólica hiperclorêmica
ções renais (poliúria) e cãibras. Em miopa- pode estar associada com uma diferença ani-
tia hipocalêmica há aumento da atividade ônica normal ou baixa e pode ser vista como
de creatina quinase (CK) plasmática. uma resposta compensatória a uma alcalose
O tratamento da hipocalemia envolve a respiratória primária.
correção da causa primária e, eventualmen-
te, correção com soluções de KCl (variam Hipocloremia
de 7,5 % a 20 %) administradas de forma
muito lenta para evitar arritmia cardíaca. O Casos de hipocloremia com diminui-
tratamento com fluidos é indicado quando a ção simultânea de sódio são observados na
concentração de K no plasma é < 3 mmol/L sobreidratação. Quando não há diminuição
ou dependendo dos sintomas. A dosagem proporcional na concentração de sódio, a
de K plasmático ajuda na quantidade de KCl hipocloremia está associada a uma alcalose
a ser fornecida, a qual não deve exceder 0,5 metabólica (aumento de bicarbonato se rela-
mmol/kg/hora. A suplementação oral de K ciona com diminuição de Cl–) ou à compen-
é preferível quando possível. As bananas são sação de uma acidose respiratória. Na acido-
uma boa fonte de K. se respiratória há aumento da pCO2, e a com-
pensação é feita pelo aumento da retenção de
bicarbonato, com perda de Cl–.
Distúrbios do cloro

Entre as causas das alterações da con- ALTERAÇÕES DO EQUILÍBRIO ACIDOBÁSICO


centração de cloro estão aquelas associadas
ao sódio, em função da estreita relação des- As alterações acidobásicas do sangue po-
ses dois eletrólitos. Entretanto, existem al- dem ocorrer em razão de um de quatro possí-
terações no cloro independentes dos níveis veis estados: acidose respiratória, acidose me-

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tabólica, alcalose respiratória e alcalose meta- ção em ovelhas e cabras com gestação dupla
bólica. Em ruminantes, erros no manejo ali- avançada;
mentar podem provocar situações que com-
3. perda de HCO3– devido a falhas renais que
prometem o equilíbrio acidobásico, como na
levem a uma menor capacidade para sua reab-
acidose ruminal láctica e na alcalose ruminal.
sorção ou para a excreção de H+;
O principal ácido do sangue está representado
pelo CO2, e a principal base, pelo bicarbonato 4. perda de HCO3– em diarreia severa;
(HCO3–). A acidose pode ser um excesso de 5. ingestão de salicilatos, paraldeído, meta-
ácido ou uma deficiência de base, enquanto a nol ou etileno-glicol.
alcalose pode ser um excesso de base ou uma
deficiência de ácido. As principais alterações Em ruminantes é frequente a apresen-
do equilíbrio acidobásico, os respectivos pa- tação de acidose láctica ocasionada pela
râmetros alterados e as respostas compensa- rápida fermentação de glicídeos solúveis
tórias são mostradas na Tabela 4. (concentrados) ingeridos subitamente por
animais adaptados ou não. A produção de
lactato no rúmen pode aumentar em mais de
Acidose metabólica 200 vezes comparado com dietas de pasta-
gem. O pH do rúmen pode estar abaixo do
A acidose metabólica é o problema mais valor de referência (6,0-7,0) para valores in-
frequente de desequilíbrio acidobásico em feriores a 5,0. Em condições experimentais, o
veterinária e está caracterizada por uma que- pH do sangue venoso pode diminuir de 7,35
da no pH e na concentração de HCO3–. Pode para 7,0, exaurindo os teores de bicarbonato
ser causada pelo aumento de íons H+ ou pela de 25 para 10 mM.
perda de bicarbonato. Entre as principais
causas podem contar-se: Endogenamente, o lactato pode surgir
de quadros que levem ao desencadeamen-
1. acúmulo de ácido láctico em casos de exer- to de processos fermentativos anaeróbicos
cício exagerado ou estados hipóxicos; para a produção de energia. No choque hi-
2. aumento de corpos cetônicos (ácidos ace- povolêmico, devido a um avançado quadro
toacético e beta-hidroxibutírico) no jejum de desidratação, como acontece nas diarreias
prolongado, na diabetes mellitus, na cetose intensas em especial em neonatos, o orga-
de vacas em lactação ou na toxemia da gesta- nismo diminui a circulação sanguínea peri-

TABELA 4 – DESEQUILÍBRIOS ACIDOBÁSICOS E RESPOSTAS COMPENSATÓRIAS


ACIDOSE ALCALOSE
Metabólica Respiratória Metabólica Respiratória
Parâmetro Valor normal NC C NC C NC C NC C
pH 7,4

=

=  =  =
[HCO3]/[CO2] 20  =  =  =  =
[HCO3] (mEq/L) 24 a 27 = =

pCO2 (mmHg) 40 = =

As setas indicam os aumentos ( ) ou as diminuições ( ) nos respectivos parâmetros. Aqueles não alterados

são indicados por (=). As setas correspondentes aos parâmetros alterados pela causa primária do transtor-
no acidobásico estão indicadas por ( ) ou ( ), enquanto aquelas correspondentes às respostas compensa-
tórias estão indicadas por ( ) ou ( ). NC, não compensada; C, compensada.

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férica para órgãos não-vitais (musculatura no processo de tamponamento. O efeito com-
e pele), gerando ácido láctico em excesso. pensatório rápido será feito pelo pulmão. O
Outra situação que pode levar a um quadro decréscimo do pH é captado pelos quimiorre-
moderado de acidose láctica é a intoxicação ceptores dos grandes vasos, estimulando uma
por amônia (ureia), por afetar a eficiência do hiperventilação que causa uma diminuição
ciclo de Krebs, aumentando a fermentação da pCO2 (de 40 mmHg para 15 mmHg). Esse
anaeróbica. Neste caso haveria uma altera- efeito, contudo, é de curta duração e o efeito
ção mista que envolve alcalose e acidose. compensatório em longo prazo requer a ação
A menor eliminação de íons H+ pelos do rim, que responde aumentando a excreção
rins, como acontece em certas lesões tubu- de íons H+ pela urina, tornando-a ácida, e au-
lares ou na desidratação, colabora decidi- mentando a reabsorção de bicarbonato pelos
damente para a instalação de acidose meta- túbulos renais. A compensação de uma acido-
bólica. Quadros diarreicos agudos causam se metabólica pode estar comprometida em
perda considerável de bicarbonato. Além de mau funcionamento renal.
bicarbonato e outros eletrólitos importan- Na acidose, o excesso de H+ extracelular
tes, como sódio, potássio e cloretos, as fezes invade o espaço intracelular, deslocando o K+
diarreicas causam depleção de água no or- de dentro para fora da célula (troca catiôni-
ganismo, que invariavelmente provoca de- ca). Este evento ajuda a prevenir o aumento
sidratação. Animais com lesões bucais crô- excessivo de H+ extracelular. Essa troca pode
nicas que cursam com sialorreia continuada causar hipercalemia, mesmo que as reservas
podem ter acidose metabólica por perda de de potássio no organismo estejam diminuí-
bicarbonato salivar. das devido a perdas no rim ou no intestino.
O quadro clínico resultante de uma aci- Para uma identificação de acidose meta-
dose metabólica é muito variável de acordo bólica é útil o cálculo do anion gap. Ele pode
com a causa primária. Em geral, ocorre de- estar normal em casos de acumulação de clo-
pressão, apatia e menor resposta aos estímu- ro como efeito compensatório (diarreia) ou
los. Nos quadros iniciais o animal tende a pode estar aumentado por acúmulo de áci-
elevar a frequência respiratória. Toda vez que dos orgânicos (cetose, acidose ruminal, insu-
diminui o pH sanguíneo, existe um estímulo ficiência renal, desidratação, choque).
ao centro respiratório para aumentar a ven-
tilação, incrementando a frequência respira-
tória. Porém, quando a acidose metabólica é Tratamento
muito intensa, (pH< 7,1) o centro respirató-
rio é inibido, desencadeando uma hipoventi- O animal somente deve ser tratado
lação, que muitas vezes antecede à morte. em condições extremas de pH sanguíneo
(< 7,2) e deve-se observar a causa primária
do problema. Na maioria dos casos esse qua-
Resposta compensatória dro vem acompanhado de desidratação, de
forma que o clínico deve decidir se o estado
A resposta compensatória inicial a uma de desidratação é mais grave que o desequi-
acidose metabólica é feita pelos sistemas tam- líbrio acidobásico para adotar providências.
pão extracelulares, especialmente o tampão Como na acidose metabólica ocorre perda de
bicarbonato. Os sistemas tampão intracelula- bicarbonato ou aumento de ácidos orgânicos,
res (proteínas e fosfato) também contribuem é necessário administrar substâncias alcalini-

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zantes. Na determinação do estado acidobási- A segunda causa é por depressão do sistema
co, o valor de excesso de base (EB) serve para nervoso central (centro respiratório) em ca-
implementar a terapia com bicarbonato de só- sos de:
dio mediante a seguinte fórmula:
– transtornos neuromusculares,
Quantidade de NaHCO3 (mmol) = peso cor- – infecções,
poral (kg) x 0,3 x EB (mmol/L)
– traumatismos,
A quantidade infundida deve ser suficien-
te para elevar o pH do sangue até um mínimo – drogas (anestésicos) ou tóxicos,
de 7,25. No cálculo, o valor 0,3 corresponde – inalação de CO2 em excesso (menos co-
ao líquido extracelular (20 % do volume total) mum em animais).
mais 10 % por causa do intercâmbio entre lí-
quidos extra e intracelulares (LIC e LEC). Não De especial importância é a anestesia geral
é adequado calcular com base na água corpo- com agentes voláteis em sistema fechado. Nes-
ral total (60 %), porque o intercâmbio entre tes casos a pO2 mantém níveis elevados, porém,
LIC e LEC é lento e acarretaria uma super- se a absorção do CO2 no sistema de anestesia
dosagem. É mais seguro administrar metade estiver ineficiente, há um acúmulo deste gás
da dose e monitorar os valores de CO2 e pH com consequente acidose respiratória.
do sangue. Se o tratamento for eficiente, não
é necessário continuar a terapia com o bicar- Resposta compensatória
bonato. Neste caso, prefere-se que o próprio
paciente normalize o desequilíbrio. A resposta compensatória de curto pra-
zo na acidose respiratória está inoperante de-
vido ao comprometimento pulmonar, sen-
Acidose respiratória do, portanto, dependente dos mecanismos
compensatórios renais de longo prazo. Essa
A acidose respiratória está caracteriza- resposta compensatória será feita mediante
da por diminuição do pH e por aumento na a retenção de HCO3– e o aumento da excre-
pCO2. Ocorre devido a uma hipoventilação ção de H+. Nesses casos não é aconselhável
pulmonar que leva ao acúmulo de CO2 no fornecer bicarbonato exógeno, pois ele será
sangue. Essa hipoventilação pode ser oca- excretado sem afetar a concentração final de
sionada por dois tipos de problemas básicos. HCO3– sanguíneo.
O mais comum faz referência a bloqueio dos
mecanismos respiratórios que provoquem O aumento da pCO2 no plasma causa
falhas na troca de gases nos alvéolos, tais vasodilatação, aumentando o fluxo sanguí-
como nas seguintes situações: neo cerebral e causando sinais neurológicos
(letargia). Valores superiores a 70 mmHg de
– obstruções do trato respiratório, CO2 causam narcose. Também pode ocorrer
– pneumonia, pneumotórax, enfisema, edema taquicardia, sudorese, aumento da tempera-
pulmonar, hemotórax, hidrotórax, botulismo, tura corporal, vasodilatação periférica e arrit-
mia. Animais com acidose respiratória mui-
– drogas (organoclorados, organofosforados), tas vezes assumem atitude ortopneica, com
– fraturas nas costelas. o pescoço distendido, as pernas anteriores e
as narinas bem abertas, podendo ser acom-
panhado de dispneia, respiração superficial

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e taquipneia. Em algumas situações pode ser – ingestão excessiva de álcalis, como no uso
verificada congestão ou cianose das mucosas. excessivo de bicarbonato de sódio (como
antiácido);
Tratamento – perda anormal de ácido do organismo no
vômito prolongado (perda de HCl);
O tratamento deve considerar a causa
– administração de diuréticos (perda de áci-
primária. Os casos de transtornos respirató-
do na urina);
rios crônicos são complicados pois podem
ser irreversíveis. Em casos de pneumonias – perda renal de H+ associada com excesso de
ou obstruções do trato respiratório podem mineralocorticoides e baixo consumo de Cl–.
ser usados broncodilatadores e antibióticos. A administração excessiva de bicarbo-
Convulsões e arritmias cardíacas são com- nato pode ser uma causa de alcalose meta-
plicações das modificações rápidas da pCO2. bólica, especialmente quando há déficit no
A hiperventilação deve ser usada apenas em
volume efetivo circulante ou déficit de K+,
casos agudos, para não inibir o estímulo da
ou de Cl–, casos nos quais o bicarbonato não
hipóxia. Nunca usar bicarbonato em trata-
poderá ser excretado pelo rim de forma nor-
mento de acidose respiratória, uma vez que
mal, criando condições para a manutenção
pode elevar a pCO2 causando narcose. Em
da alcalose. A diminuição do volume efetivo
alguns casos pode ocorrer acidose metabó-
circulante favorece a manutenção da alcalo-
lica concomitante, devido a menor oxige-
se, pois na hipovolemia ocorre liberação de
nação nos tecidos periféricos e formação de
aldosterona com aumento da reabsorção de
ácido láctico; esses casos devem ser tratados
Na+ para ajudar no restabelecimento do vo-
com pequena quantidade de tampões.
lume plasmático normal. A manutenção da
eletroneutralidade requer que a reabsorção
Alcalose metabólica de Na+ nos túbulos distais esteja associada
com a excreção de um cátion, geralmente
A alcalose metabólica é caracterizada H+, ou, em menor quantidade, o K+. Uma vez
por uma elevação no pH e na concentração que a excreção renal de H+ está diretamente
de bicarbonato. Em ruminantes este quadro relacionada com a reabsorção de bicarbo-
se apresenta associado a: nato, não seria possível a eliminação do bi-
carbonato em excesso, tendendo a alcalose a
– distúrbios digestivos com perda excessiva
continuar ao tempo que a urina ganha mais
de líquidos, como no sequestro de fluidos
H+. Essa é a razão da chamada urina parado-
nos pré-estômagos;
xal, uma urina ácida produzida por pacientes
– administração oral de bicarbonato de só- com alcalose metabólica e hipovolemia.
dio em excesso (usado como tamponante
A hipocalemia também contribui para
ruminal);
a manutenção da alcalose metabólica. Na
– intoxicação com ureia; hipocalemia ocorre aumento da concentra-
– deslocamento de abomaso. ção intracelular de íons H+ (que entram para
manter o equilíbrio eletrolítico intracelular).
Em outros animais, pode ser devido a: Com isso, o aumento de H+ no interior das
células tubulares renais provoca um aumen-

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to na excreção de H+ e, portanto, na reabsor- do chegar até 9,2 devido à maior eliminação
ção de bicarbonato. renal de bicarbonato. Em casos de alcalose
metabólica com hipovolemia, a apresentação
de urina paradoxal pode ocorrer até quatro
Resposta compensatória
dias após tratamento. Nesses casos, embora
o pH sanguíneo esteja elevado, o pH urinário
A resposta compensatória na alcalose
pode estar ainda ácido, atingindo até 5,4.
metabólica é feita pelo pulmão, reduzindo
a taxa de ventilação. Esse efeito é controlado
pelos quimiorreceptores do centro respira- Alcalose respiratória
tório e dos corpos carotídeos, os quais cap-
tam o valor elevado de pH, com o efeito fi- A alcalose respiratória está caracterizada
nal de aumento da pCO2 (de 40 mmHg para por aumento no pH e diminuição da pCO2.
55 mmHg). O quadro clínico é muito variá- A pCO2 pode cair do valor de referência de
vel dependendo do grau de alcalose, podendo 40 mmHg até 20 mmHg ou menos. Pode ser
ocorrer oligopneia e respiração superficial, devido a uma hiperventilação pulmonar, que
depressão no estado geral e intensa apatia. pode ocorrer nos seguintes casos:
– compensação respiratória (hiperventi-
Tratamento lação) em uma hipoxemia associada com
doenças pulmonares, como as que ocasio-
Deve ser tratada a causa primária para nam a acidose respiratória, nas falhas cardía-
não perpetuar a descompensação da alcalo- cas ou em anemias severas;
se. Solução salina (NaCl 0,9 %) ajuda na ex-
pansão do plasma e pode diminuir o pH. Em – distúrbios psicogênicos ou neurológicos
casos de hipocalemia, acrescentar cloreto de que estimulam o centro respiratório da me-
potássio nas soluções intravenosas. dula; febre (septicemia);

Diferentemente da acidose metabólica, – intoxicação por salicilato;


a alcalose tem um prognóstico mais reser- – ventilação artificial exagerada;
vado, pois o organismo tem mecanismos
– ansiedade, dor intensa ou estresse;
compensatórios menos eficientes para a au-
tocorreção do problema e a terapia tem re- – super-aquecimento em cães, gatos e outros
sultados mais incertos. Devem ser utilizadas animais que não suam e utilizam a ventilação
na correção da alcalose soluções de sais que como forma de perder calor;
contenham ânions tais como cloreto de só- – anidrose nos equinos;
dio, cloreto de potássio ou cloreto de amônia.
Estes dois últimos sais têm o inconveniente – diminuição da pressão atmosférica (baixa
de poderem trazer efeitos colaterais se apli- pO2) como a observada a grandes altitudes
cados em demasia. Assim, recomenda-se a (acima de 3000 m acima do nível do mar).
aplicação de 100 a 150 mL/kg PV de solução
isotônica de cloreto de sódio (0,9 %). Resposta compensatória
Em casos de alcalose metabólica causa-
da por intoxicação iatrogênica por bicarbo- A resposta compensatória inicial na al-
nato, ocorre elevação no pH urinário poden- calose respiratória é feita por meio do tampo-
namento pelo sistema bicarbonato (há deslo-

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camento de HCO3– para formação de CO2). Em 1998, foi proposto por Garret o
O efeito compensatório posterior é feito pelo nome de SARA (Acidose Ruminal Subagu-
rim, onde ocorrerá diminuição tanto da ex- da) para descrever um conjunto de sinais as-
creção de H+ como da reabsorção de HCO3–. sociados com situações ocorridas no rúmen
A diminuição na concentração plasmática do que usualmente são derivadas do manejo
bicarbonato é equilibrada pelo aumento na alimentar em animais alimentados com altas
retenção de Cl–, para manter a eletroneutrali- quantidades de grãos. Geralmente os sinais
dade, levando a uma hipercloremia de com- clínicos da enfermidade não são aparentes e
pensação. A hipercloremia também pode ser suas consequências aparecem tempo depois
observada na acidose metabólica compensa- de ter acontecido o distúrbio. A SARA cons-
da, pois a concentração de Cl– tende a variar titui um problema responsável por significa-
inversamente à concentração de bicarbonato. tivas perdas econômicas no rebanho.
O limite de compensação renal na alcalose
A acidose ruminal aguda é uma doença
respiratória é atingido quando a concentração
que ataca principalmente vacas leiteiras de
de bicarbonato chega a 12 mmol/L (concen-
alta produção ou novilhos em fase final de
tração de referência de 20-25 mmol/L).
engorda. As necessidades de energia para a
produção de leite ou carne precisam de uma
Tratamento fonte alimentar adicional que, quando é
oferecida de maneira súbita ou em excesso,
A causa primária deve ser tratada. Em pode levar à acidose.
calor excessivo, reduzir a temperatura cor- A causa principal da SARA é a mudança
poral; em lesões do SNC é recomendado alimentar no padrão normal dos ruminantes.
oxigênioterapia; em casos de ansiedade e dor A queda no consumo de fibra junto ao con-
tentar tranquilizantes e analgésicos. No caso sumo de glicídeos rapidamente fermentáveis
de hiperventilação, o animal deve ser tratado (GRF) gera um profundo desarranjo na popu-
com um sedativo que provoque a diminui- lação bacteriana, que, por sua vez, altera a pro-
ção da frequência respiratória. Alem disso, dução de ácidos graxos de cadeia curta (AGV).
recomenda-se colocar o animal temporaria- Assim, quando as mudanças acontecem, a pro-
mente em um ambiente fechado com pouca dução de AGV sobe e o pH cai. O valor limite
renovação de ar, rico em CO2 para aumentar do pH considerado de risco é 5,5. Abaixo desse
os teores desse gás no sangue. valor, os sinais clínicos são evidentes.
É frequente a SARA se apresentar em
Acidose láctica ruminal animais com baixo consumo de fibra ou
quando há mudanças no sistema alimentar
A acidose ruminal clínica ocorre por sem que tenha sido feito um período prévio
erros no manejo alimentar de ruminantes de adaptação, em especial no início da lacta-
alimentados com fontes de carboidratos ção ou quando ocorre mistura inadequada
rapidamente fermentáveis que levam a um nos sistemas com ração totalmente misturada
aumento súbito da concentração ruminal de (RTM). Duas são as alterações principais que
ácido láctico, rápida diminuição do pH do ocasionam o problema. Em primeiro lugar, a
fluído ruminal e, se não tratada, morte do rápida fermentação dos glicídeos, que afeta a
animal em 24 horas. população de bactérias celulolíticas por causa
da queda do pH. Em pH < 5,5, a flora bacteria-

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na do rúmen vira amilolítica, os protozoários Na acidose ruminal subclínica ocorre
morrem e sua função de diminuir a quantida- um aumento na população de Streptococcus
de de amido no rúmen perde-se. Adicional- bovis, o pH do fluido ruminal fica abaixo de
mente, o Streptococcus bovis prolifera afetan- 6,0, o que compromete a viabilidade dos pro-
do outras cepas da microflora ruminal neces- tozoários, inibe a degradação da celulose,
sárias para manter todas as funções ruminais. pois as bactérias celulolíticas tem o pH ideal
Em segundo lugar, ocorre perda da estrutura para crescimento em torno de 6,7, e favorece
das papilas ruminais pela ação conjunta do a multiplicação das bactérias amilolíticas. Na
baixo pH e das endotoxinas e sustâncias infla- maioria das vezes os animais ainda não apre-
matórias liberadas. Com a perda das papilas, sentam sinais clínicos evidentes e passam des-
a capacidade para absorver os AGV diminui. percebidos. O rúmen do animal pode retornar
ao pH fisiológico, horas após, sem tratamento
A acidose ruminal clínica ou subclínica dependendo do alimento disponibilizado. Na
pode acometer qualquer rebanho que utilize forma subclínica, por exemplo, o animal di-
na dieta grandes quantidades de concentrado minui a ingestão de matéria seca, consequen-
rico em carboidratos facilmente degradáveis. A temente diminuindo a fermentação ruminal e
forma subclínica da doença costuma acometer elevando o pH do fluido; mas isso poderá não
uma porcentagem maior dos rebanhos confi- acontecer pelo fato de o animal ter ingerido
nados (em torno de 20 %), quando comparado grandes quantidades de carboidratos.
à forma clínica da enfermidade (5 %). Na for-
ma subclínica, os sinais clínicos da doença não A forma clínica ocorre geralmente quan-
são evidentes, dificultando o diagnóstico. do o animal recebe abruptamente grandes
quantidades de concentrado altamente degra-
A quantidade de alimento necessária dável. Quando aumenta a sua concentração,
para desenvolver a acidose ruminal é variável, sem a prévia adaptação, desencadeia-se um
dependendo da capacidade de adaptação da quadro mais agudo. Inicialmente a patogenia
flora ruminal de cada animal, da velocidade é da mesma forma da subclínica, mas como a
de fermentação do concentrado oferecido, da fermentação é maior, o pH do fluido ruminal
quantidade ingerida pelo animal, podendo a diminui mais rapidamente e o quadro começa
forma clínica ter uma morbidade variável de a se tornar mais grave. Quando o pH fica abai-
10-50 %, e de mortalidade de até 90 % dos ani- xo de 5,0, as bactérias lactolíticas (Megasphera
mais não tratados, ao passo que, para os trata- elsdenii e Selenomonas ruminantium) não
dos, a mortalidade diminui para 30-40 %. resistem ao baixo pH e morrem; com isso
Inicialmente, um aumento na concen- aumentam ainda mais as concentrações do
tração de carboidratos altamente degradáveis ácido láctico, pois o ambiente está favorável
associado com a redução da fibra na dieta ao crescimento das bactérias produtoras des-
propicia um ambiente adequado para o cres- se ácido (Lactobacillus spp). Quando a con-
cimento de bactérias gram-positivas produ- centração do ácido láctico está muito eleva-
toras de ácido láctico (Streptococcus bovis e da, esse é absorvido pelas paredes ruminais,
Lactobacillus sp.). Em condições fisiológicas, podendo levar a uma acidose metabólica.
o ácido láctico no fluido ruminal é um inter- Quando o animal está nessa fase da doença,
mediário minoritário do metabolismo, sendo se o quadro não for revertido rapidamente
metabolizado no rúmen, principalmente pela mediante tratamento, pode vir a óbito.
bactéria Megasphera eldesnii.

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Sinais clínicos – taquipneia, associada com a sua diminui-
ção de amplitude respiratória;
Os animais que apresentam a forma clí-
– diarreia, podendo ter a presença de grãos;
nica da doença apresentam vários sinais ca-
racterísticos de comprometimento ruminal e – desidratação, que em casos graves pode
sistêmico de acordo com a gravidade do qua- chegar a 10-12 % do peso vivo do animal;
dro clínico (Quadro 5), entre os quais estão: – apatia, tremores musculares, ranger de
– anorexia; dentes;
– diminuição abrupta da produção leiteira e – cólica e timpanismo;
do teor de gordura do leite; – aumento de líquido no rúmen, devido ao
– diminuição ou ausência dos movimentos aumento da osmolaridade do fluido;
ruminais; – incoordenação;
– aumento da frequência cardíaca (FC), po- – claudicação associada à laminite;
dendo estar acima de 140 bat/min;
– prostração dos animais e decúbito.

QUADRO  5 – ACHADOS CLÍNICOS E SELEÇÃO DE TRATAMENTOS


NA ACIDOSE LÁCTICA DOS RUMINANTES.
Grau da doença
Parâmetros
Hiperaguda Aguda Subaguda Moderada

depressão severa, depressão, ataxia, alerta, pode cami- come e bebe nor-
Estado geral
decúbito lateral anorexia nhar e comer malmente

Desidratação1 8-12 % 8-10 % 4-6 % não detectável

Distensão abdominal proeminente moderada moderada a nenhu- nenhuma


ma

Freq. cardíaca2 110-130 90-100 72-84 normal (72-84)

Temp. corporal 35,5-38 oC 38,5-39,5 oC 38,5-39 oC normal (38,5-39 oC)

Estado do rúmen distendido com distendido com moderada disten- sem distensão,
fluido, estase, fluido, estase, são com fluido, contrações
pH menor que 5,0 e pH entre 5,0-6,0 e contrações fracas, abaixo do normal,
sem protozoários sem protozoários pH entre 5,5-6,5 e pH 6,5-7,0 e proto-
alguns protozoários zoários normais

rumenotomia ou
hidróxido de
rumenotomia, lavagem gástrica, fornecer feno,
magnésio (500 g)
bicarbonato de só- bicarbonato de observar presença
Tratamento direto no rúmen,
dio 5 % endoveno- sódio 5 %, solução de anorexia (por
solução isotônica,
so, solução isotônica isotônica, fornecer 48 h)
fornecer feno
feno
1
Percentual de líquidos perdidos relativamente ao peso corporal. 2 Valores em batimentos por minuto.

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Diagnóstico nas concentrações de lactato e fosfato inorgâ-
nico e uma redução de bicarbonato.
Para um diagnóstico efetivo de acidose
ruminal, deve-se levar em consideração o Na avaliação da urina de ruminantes, que
histórico do animal, os sinais clínicos e exa- em condições fisiológicas é alcalina (pH entre
mes complementares como a avaliação do 7,7 a 8,4), o valor será inferior aos limites consi-
fluido ruminal, da urina e do sangue. A for- derados fisiológicos, podendo reduzir de acor-
ma subclínica da doença não apresenta sinais do com a gravidade da enfermidade, chegando
clínicos e uma das formas para o diagnóstico até 5,0. A urina se apresenta mais concentrada
definitivo é a avaliação do fluido ruminal. O e com diminuição de volume e o animal na fase
Quadro 6 mostra as diferenças nas caracte- terminal pode apresentar anúria.
rísticas do fluido ruminal entre a forma clíni- Devem ser considerados alguns indícios
ca e subclínica da acidose ruminal. em uma propriedade que podem ser indi-
Na avaliação do leite em animais com cadores da presença dessa enfermidade no
acidose clínica e subclínica, observa-se uma estabelecimento, entre elas, a presença dos
redução no teor de gordura, assim como a seguintes indicadores:
diminuição na produção de leite, sendo na
– alta percentagem de animais que apresen-
forma clínica uma queda abrupta.
tam deslocamento de abomaso,
No sangue, quando o comprometimen-
– mais de 10 % do rebanho com caso clínico
to ruminal é grave, pode-se ter uma redução de laminite,
do pH sanguíneo para 7,0-7,2. O animal pode
apresentar um hematócrito elevado devido a – infertilidade das vacas pós-parto,
sua desidratação pelo sequestro de líquidos – abscessos hepáticos,
para o rúmen, acompanhado de uma redução
– rumenite micótica,
na pressão sanguínea. Tem-se um aumento

QUADRO 6 – CARACTERÍSTICAS DO FLUIDO RUMINAL


EM ANIMAIS COM ACIDOSE CLÍNICA E SUBCLÍNICA.

Parâmetros avaliados Acidose Ruminal Acidose Ruminal


do fluído ruminal Clínica Subclínica

Cor leitoso, amarelado marrom claro

Odor ácido, repulsivo levemente ácido

Consistência viscoso, aquoso levemente aquoso

Sedimentação e flutuação Ausente tempo elevado

Atividade Redutiva prolongada ou ausente levemente aumentada

Movimentos de Protozoários Ausentes reduzidos

pH Abaixo de 5,2 5,2 – 6,0

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– trombose da veia cava associado com he- – Agentes alcalinizantes intrarruminais:
morragia pulmonar. em casos moderados de acidose, pode-se
optar pelo uso de carbonato de magnésio ou
de hidróxido de magnésio (1 g/kg de PV),
Tratamento ou 150 g de bicarbonato de sódio; esses tam-
ponantes devem ser diluídos em 10 litros de
Para o tratamento dos animais aco-
água morna (para um animal de 450 kg de
metidos deve ser verificada a gravidade do
peso vivo); essa solução deve ser depositada
quadro clínico, de acordo com os sinais clí-
no rúmen através de uma sonda ororrumi-
nicos e dos exames complementares, em
nal, tendo o cuidado de não provocar falsa
especial pela avaliação do fluido ruminal.
via, depositando o conteúdo no rúmen; o clí-
Em quadros de acidose ruminal subclínica,
nico poderá fornecer doses menores repeti-
muitas vezes apenas com a correção da die-
das a cada 6-12 horas. Pode-se optar por não
ta (proporção de concentrado x volumoso),
utilizar bicarbonato de sódio em casos de
e se necessário, associado com a retirada do
animais com rúmen em atonia, pela possibi-
concentrado por um a dois dias, os animais
lidade do desenvolvimento de meteorismo/
retornam ao pH fisiológico do rúmen.
timpanismo leve a moderado em função da
Em casos clínicos de acidose, o cuidado liberação de dióxido de carbono.
deve ser maior, levando em consideração o
– Rumenotomia: utilizada em casos graves,
estado geral do animal e o tempo transcorri-
com depressão do animal, hipotermia, dis-
do após a ingestão da quantidade exacerbada
tensão ruminal devido aos sequestros líqui-
do concentrado. Os animais devem ser man-
dos, taquicardia (110-130/minuto), pH do
tidos em observação por um período de 24
fluído ruminal abaixo de 4,5. Deve-se retirar
horas, porque, às vezes no momento da ava-
do rúmen uma quantidade relevante do con-
liação, podem não apresentar sinais clínicos
teúdo, em especial do material que provo-
evidentes e, devido à fermentação dos car-
cou a acidose; após faz-se a transferência de
boidratos prosseguir, estes animais podem
10–20 litros de fluido ruminal de um animal
apresentar sinais clínicos posteriormente.
sadio; se realizada com eficiência, dispen-
O primeiro passo para o tratamento sa a utilização de agentes alcalinizantes no
dos animais acometidos é retirar totalmente rúmen. Para a realização da rumenotomia,
o contato com o concentrado, sendo ofere- deve se considerar que quando um grande
cido feno de boa qualidade, com restrição número de animais apresenta o quadro gra-
hídrica (pois a água irá solubilizar o carboi- ve de acidose na propriedade, existe um alto
drato presente no rúmen e favorecer ainda custo da cirurgia e pode não haver tempo de
mais a sua fermentação), e fazer também reversão do quadro clínico, podendo optar-
com que os animais se movimentem a cada -se por um abate de emergência dos animais;
12 h para que seja estimulada a motilidade em vez de ruminotomia pode-se propor uma
do sistema digestório. lavagem do rúmen via sonda ororruminal, se
Devem-se providenciar os seguintes as circunstâncias permitirem.
cuidados: – Correção sanguínea: quando a acidose
1. Corrigir a acidose ruminal e quando ne- se torna sistêmica, há a necessidade de ad-
cessário a sistêmica, evitando a continuação ministrar soluções intravenosa de alcalini-
da formação do ácido láctico, mediante as zantes; pode-se utilizar solução de bicar-
seguintes alternativas: bonato a 5 %, na média de 5 litros (para um

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animal de 450 kg), devendo ser adminis- Prevenção
trada em um tempo superior a 30 minutos;
nas 6 a 12 horas seguintes, deve-se aplicar Quando optar por uma dieta rica em
soluções de bicarbonato isotônico (1,3 %), concentrado para aumentar a produtividade
150 mL/100 kg de peso IV. do sistema de produção, a fração concentra-
da da dieta deve ser utilizada de forma gra-
2. Restaurar o equilíbrio hidroeletrolítico dual, para promover uma adaptação da flora
da corrente sanguínea levando em consi- ruminal e das papilas do rúmen. Pode-se ini-
deração o grau de desidratação do animal, ciar com 8-10 g/kg de peso vivo, aumentando
administrando soluções Ringer e também a cada dois a quatro dias em quantidades de
de glicose a 10-20 % IV, a fim de fornecer, 10-12 %. A adaptação completa da microbiota
no caso da glicose, substratos energéticos ruminal à grande quantidade de carboidrato,
para o paciente. assim como a qualquer outro suplemento a
3. Fazer com que a motilidade do pré-es- ser empregado leva em torno de 21 dias. As-
tômago e do intestino retornem ao estado sim, deve-se observar também a frequência
fisiológico, por meio da oferta de uma dieta e a rotina de fornecimento de alimento, evi-
rica em fibras, associada com a movimenta- tando mudanças bruscas no ambiente rumi-
ção dos animais. nal. Também deve-se formular dietas que não
predisponham a uma produção excessiva de
4. Tratamento auxiliar, de acordo com avalia- ácidos no rúmen, mediante a adição de for-
ção do clínico, que pode incluir: ragens que estimulem a contração ruminal,
– parassimpatomiméticos para estimular a aumentem a taxa de passagem da fase líquida,
motilidade intestinal; promovendo assim a remoção de ácidos do
rúmen, e aumentem o contato do conteúdo
– antibióticos via oral (penicilinas e tetraci-
ruminal com o epitélio, favorecendo a absor-
clinas), para auxiliar no controle do crescimen-
ção de AGV; por exemplo, vacas em lactação
to das bactérias produtoras de ácido láctico; devem receber dietas com, no mínimo, 28 %
– antibióticos de amplo espectro via sistê- de FDN (18-22 % de MS deve ser FDN).
mica, para controlar eventuais septicemias, Em relação ao processamento de grãos,
em caso de acidose ruminal grave; considerar que partículas muito pequenas
– administração de carvão vegetal (2 g/kg melhoram a digestibilidade do amido e por
PV), a fim de inativar endotoxinas liberadas isso aumentam a produção de ácidos e partí-
pela destruição dos microrganismos gram- culas muito longas e mal misturadas favore-
-negativos do rúmen; cem a seleção dos alimentos. Assim o tama-
– utilização de probióticos via oral; nho ideal das partículas é de 8 mm em 50 %
da forragem. Outro aspecto ligado ao manejo
– utilização de anti-histamínicos, para con-
alimentar é fornecer forragem antes do con-
trolar a laminite que ocorre em alguns casos;
centrado (diminuindo a chance de exposição
– aplicação de corticosteroides como terapia do ambiente ruminal a pH baixo) e fornecer
para reverter os quadros de choque; alimentos de 3 a 4 refeições por dia, de acordo
– administração oral de tiamina ou levedura com a conveniência e logística de manejo.
de cerveja para aumentar a utilização ruminal Vários suplementos vêm sendo utilizados
de lactato. para evitar a acidose ruminal subclínica e clí-
nica, dentre eles o mais difundido atualmente

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é o uso de ionóforos, como a monensina sódi- eliminar o risco de resistência microbiana
ca, que age inibindo o crescimento de bactérias aos antibióticos, além de não deixarem resí-
gram-positivas, como Streptococcus bovis, pro- duo na carne e no leite.
dutora de lactato, que é um dos ácidos res-
Utiliza-se também como prevenção de
ponsáveis pela acidose clínica. Os ionóforos
acidose ruminal tampões como o bicarbo-
modificam a produção de ácidos graxos volá-
nato de sódio, misturado na fração concen-
teis (AGV) no rúmen, por meio da diminui-
trada da dieta. Esse suplemento se mostra
ção da proporção molar de acetato:butirato,
eficiente, mas possui fatores negativos como
da produção de gás metano e do aumento na
um aumento na incidência de cálculos uri-
produção de propionato. A monensina sódi-
nários, meteorismo e deficiências de vitami-
ca deve ser utilizada na dose de 30 mg/kg
nas. Em caso de utilização de bicarbonato de
de dieta com base na matéria seca a fim de
sódio (NaHCO3), fornecer 0,5-1 % na maté-
reduzir o crescimento de bactérias Gram-
ria seca; em casos de confinamento, utilizar
-positivas, no caso de gado de corte em con-
de 2-3 % nas 3 primeiras semanas.
finamento e 10-22 mg/kg no caso de vacas
leiteiras. Deve-se ter precaução, pois quanti-
dades acima de 30 mg/kg podem influenciar Alcalose ruminal
negativamente também as bactérias Gram-
-negativas. Uma outra forma como opção A alcalose ruminal é uma enfermidade
para evitar a acidose ruminal, evitando o pouco estudada no meio científico, sendo
uso de antibióticos em sistemas de produ- de frequente ocorrência nos sistemas pro-
ção, é a utilização de probióticos, como as dutivos de ruminantes. A fonte proteica na
leveduras (Saccharomyces cerevisiae); essas dieta de um animal é de grande importân-
leveduras removem o oxigênio que chega ao cia para que se alcancem bons índices pro-
rúmen através do alimento e da saliva, pro- dutivos, mas quando ocorre um desequi-
porcionando aumento no número de bacté- líbrio na formulação da ração por excesso
rias celulolíticas viáveis. Dessa forma, o pH de proteína e/ou falta de energia suficiente,
do fluido ruminal torna-se mais estável, a tem-se grande risco de o animal apresentar
metanogênese e a proporção de ácidos gra- quadros de alcalose ruminal.
xos voláteis são alteradas e a concentração
de ácido láctico diminui. Há vários estudos O transtorno ocorre devido à alta con-
abordando a utilização de probióticos nas centração de amônia no rúmen. As causas,
dietas, proporcionando o incremento na que podem ser diversas, variam desde um
produção leite e no ganho de peso em bovi- erro na formulação da dieta pelo excesso
nos de corte. Este aumento no desempenho de proteína degradável no rúmen associado
produtivo é atribuído ao equilíbrio da flora com baixa de energia até casos acidentais
ruminal, favorecendo as bactérias celulolí- pelo consumo exacerbado de ureia, quando
ticas e as consumidoras de lactato, promo- utilizada como substituto da proteína na for-
vendo um aumento na digestão das fibras e mulação de rações, e ainda em casos de in-
o aumento de proteína microbiana no rú- gestão de alimentos deteriorados, tais como
men, o que é benéfico aos animais em sis- silagens pútridas, água contaminada com
temas de confinamento que ingerem dietas fezes ou urina, subprodutos de cervejaria
ricas em grãos. Outro aspecto de extrema e restos industriais, assim como o farelo de
relevância é o fato de os probióticos, sendo soja que possui a enzima urease que facilita a
microrganismos vivos, terem a vantagem de degradação da ureia e formação de amônia.

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Com o sistema de produção dos rumi- e pela veia porta vai ao fígado. No fígado é
nantes cada vez mais intensificado, no qual transformada em ureia, que não é tóxica ao
se exige alta produtividade em pouco tem- animal, podendo dessa forma ser eliminada
po, com o custo de produção cada vez me- pela urina e pelo leite. O excesso de amônia
nor para que o produto se torne competitivo no rúmen (maior do que 80 mg/dL) alcali-
no mercado, o animal está sendo submetido niza o seu fluido (pH acima de 7,0), e quan-
a uma dieta com altos níveis de proteína e to mais elevado o pH do ambiente ruminal,
energia. Quando a ração não é bem formu- maior é a taxa de absorção da amônia pelas
lada, ou quando ocorre erro de manejo, pode paredes ruminais, uma vez que essa é absor-
ocorrer um desequilíbrio na flora ruminal e vida na forma não ionizada (NH3). A eleva-
acarretar a alcalose ruminal. A gravidade da ção do pH ruminal desequilibra sua flora,
alcalose ocorre de acordo com a velocidade acarretando em morte de microrganismos,
de liberação de amônia dentro do rúmen. tornando o fluido ruminal pútrido. O que se
Esse transtorno pode ocorrer em um grande torna tóxico ao animal, além do comprome-
lote de animais, quando se trata de erro de timento ruminal, é o excesso de amônia na
manejo, ou em poucos, quando acidental- corrente sanguínea, pois o fígado não con-
mente têm contato com alimentos pútridos segue transformar toda a amônia em ureia.
ou ricos em proteínas altamente degradáveis. Em casos graves, pode levar a uma alcalose
metabólica, elevando os níveis sanguíneos
de amônia, e à elevação do pH do sangue,
Patogenia
podendo levar o animal à morte.
A amônia presente no rúmen é origina- Em casos de ingestão de alimentos dete-
da na degradação da proteína verdadeira da riorados, incluindo água de baixa qualidade,
ração, do nitrogênio não proteico (NNP) da ocorre a putrefação do ambiente ruminal, mor-
ração (ureia), do nitrogênio reciclado para te da flora e elevação do pH do fluido ruminal.
o rúmen na forma de ureia e da degradação
das células microbianas mortas. A ureia ao
entrar no rúmen é degradada pelas bactérias Sinais clínicos
ureolíticas com ação da enzima urease em
O animal apresenta uma diminuição de
amônia, a qual, em altas concentrações, é tó-
ingesta alimentar, sendo mais severa de acordo
xica ao animal. Deve-se ter o cuidado quan-
com o grau de seu comprometimento ruminal,
do se formula a ração, pois ocorre um pico de
hálito pútrido, diminuição dos movimentos
amônia no rúmen de acordo com a dieta que
ruminais e da ruminação, apatia e, na pecuária
o animal recebe. Em um animal com ureia na
leiteira, há redução da produção de leite.
sua dieta, o pico de amônia ruminal ocorre
em torno de 1 a 2 horas após a alimentação, Em casos mais agudos de alcalose rumi-
enquanto no animal alimentado com pro- nal, pode ocorrer um aumento na concentra-
teína verdadeira o pico é de 3 a 5 horas. Para ção sanguínea de ureia e amônia, podendo
ocorrer uma eficiente utilização da amônia acarretar um aumento do pH sanguíneo e
pelos microrganismos, o ambiente ruminal do trato reprodutivo, podendo reduzir a fer-
deve estar com energia disponível, caso con- tilidade espermática, e assim diminuindo a
trário o seu uso é ineficaz. Quando não uti- fertilidade do rebanho. Essa elevação do pH
lizada para a síntese microbiana, a amônia é sanguíneo decorrente da alcalose ruminal,
absorvida pela parede ruminal por difusão, também pode desencadear a ocorrência de

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outra enfermidade, como a hipocalcemia, na Tratamento
sua forma clínica ou subclínica, que ocorre
devido à redução da mobilização do cálcio O tratamento em cada animal pode ser
ósseo derivado do pH elevado do sangue que de uma forma diferente, levando em consi-
inibe a ação da paratireoide. deração a severidade do seu quadro clínico.
Deve-se acidificar o ambiente ruminal, para
fazer com que a amônia fique na forma io-
Diagnóstico nizada (amônio: NH+4); com isso dificulta-se
a sua absorção pela parede ruminal, pois ela
Para se ter um diagnóstico preciso, de- não é absorvida na forma iônica.
ve-se levar em consideração o histórico do
animal ou do rebanho (quantidade de prote- Para tratamento de alcalose ruminal
ína bruta na dieta, se possui ureia na compo- deve-se:
sição da ração, restos de cervejaria, se ingeriu – corrigir a dieta do animal;
alimentos pútridos, qualidade da água, entre
outros). Além dos sinais clínicos descritos, – tratar com ácido acético/vinagre: 2 mL/kg
levar em consideração o exame do fluído ru- de peso corporal via oral;
minal, de urina, e se possível de marcadores – avaliar a possibilidade de uso de oxitetraci-
bioquímicos sanguíneos. clina para diminuir a população de micror-
A avaliação do fluido ruminal pode ganismos indesejáveis;
apresentar os seguintes resultados, de acordo – fornecer fluido ruminal de um animal sadio;
com a gravidade:
– terapia de suporte de acordo com a condi-
– pH: 7,0–8,5 ção clínica do paciente.
– cor: marrom Em relação ao uso de fluido ruminal
– odor: pútrido deve-se, preferencialmente, coletar de ani-
mais adaptados à mesma condição alimentar
– consistência: aumentada do animal acometido. Essa estratégia pode
– tempo de sedimentação e flutuação: au- ser adotada, sempre que o fornecimento de
mentado fluido ruminal for escolhido como alterna-
tiva para tratamento de transtornos de trato
– atividade redutiva: > 10 minutos digestivo em ruminantes. O fluido ruminal
– movimento de protozoários: diminuídos deve ser administrado ao animal imedia-
ou ausente tamente após a coleta do animal sadio (ou
mesmo de amostras de abatedouros), po-
– ácidos graxos voláteis (AGV): diminuição
dendo permanecer até 9 horas à temperatura
de propiônico e aumento de butírico.
ambiente ou 24 horas sob refrigeração.
Na urina é observado um aumento do
Um animal adulto deve receber um mí-
pH, que pode chegar a 8,5-9,0. Na avaliação
nimo de 3 L, preferencialmente de 8 a 16 L,
do leite, é observado em animais acometidos
repetindo de acordo com a resposta do pa-
com alcalose um aumento nas concentrações
ciente, em dias sucessivos.
de ureia e na contagem das células somáticas.
No perfil bioquímico sanguíneo observa-se O uso de preparações probióticas, pode
um aumento nas concentrações de ureia, ser utilizado caso não seja possível obter flui-
amônia e glicose. do ruminal, sem substituí-lo completamente

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por possuir um número menor de espécies Abordagem laboratorial
microbianas. dos desequilíbrios acidobásicos
Nos casos mais graves pode-se recomen-
Como princípio geral da compensação
dar antes do fornecimento do fluído ruminal,
acidobásica, deve-se considerar que na alte-
que seja realizada uma rumenotomia para a
ração de um dos termos da relação HCO3–/
retirada do conteúdo pútrido, fornecendo uma
CO2, o organismo causa uma alteração
quantidade maior de fluído ruminal. Deve-se
compensatória do outro termo. A compen-
levar em consideração o estado geral do ani-
sação não tende a restabelecer as concen-
mal, se ele resistirá a uma cirurgia, e também a
trações normais de HCO3– e de CO2, mas
viabilidade econômica do procedimento.
sim a manter a relação constante, isto é, a
Havendo necessidade (animais com compensação é uma alteração secundária
prolongada anorexia ou em que presume-se que tem o efeito de equilibrar a alteração
deficiência de eletrólitos), pode-se adminis- primária. Mudanças na concentração de
trar 20-30 L via oral de soluções isotônicas à HCO3– são compensadas com mudanças na
base de sais de sódio e potássio. concentração de CO2 na mesma proporção.
A medição de HCO3– no sangue é da
Prevenção maior importância na clínica, porque indica a
capacidade do organismo em manejar quan-
Recomenda-se sempre ter um balan- tidades adicionais de ácidos orgânicos. Como
ceamento nutricional da dieta dos animais, escreve Baggott (1992), “[...] medir somente o
visando às exigências proteicas, uma vez pH é como caminhar sobre uma fina camada
que um excesso de proteína encarece o sis- de gelo: podemos observar se ainda estamos
tema de produção, além de causar no animal ou não na superfície, mas não podemos ter
maior gasto de energia para liberar o exce- uma ideia de quando pode ocorrer o afunda-
dente de proteína. mento”. O conhecimento da [HCO3–] dá uma
Deve-se conhecer a qualidade do ali- informação equivalente a conhecer quão perto
mento e da água que estão sendo fornecidos se está da ruptura do gelo e quão profunda está
ao animal. Quando for utilizar ureia na ração, a água embaixo. Valores de HCO3– muito dis-
implementar de forma gradual para a adapta- tantes da normalidade com valores anormais
ção da flora ruminal, juntamente com alimen- de pH e CO2 indicam que os mecanismos com-
tos que ofereçam energia disponível para que pensatórios não estão acionados, o que pode
ocorra a completa utilização da ureia. acontecer, por exemplo, em quadros de acidose
ou alcalose mistos, respiratórias e metabólicas
Cuidar para que os armazéns fiquem (Quadro 7). Nesses casos, a avaliação clínica é
bem fechados, evitando que os animais aci- fundamental para entender a causa primária
dentalmente entrem, ingerindo alimentos do transtorno. Algumas vezes o problema pode
que possam trazer prejuízos a sua saúde ou ocorrer pela resposta compensatória. A con-
causar desperdício. centração de bicarbonato e de pCO2variam na
mesma direção em desequilíbrios acidobásicos
primários. Nos transtornos mistos, eles se afas-
tam em direções opostas. Nos desequilíbrios
mistos é útil determinar o anion gap [(Na+ +
K+) – (Cl– + HCO3–)]. Quando a mudança no

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QUADRO 7 – PRINCIPAIS QUADROS PATOLÓGICOS QUE CURSAM
COM ALTERAÇÕES DO EQUILÍBRIO ACIDOBÁSICO E HIDROELETROLÍTICO.

Quadro patológico Tipo de alteração

desidratação, hipo ou hipercalemia, hiponatremia, acidose metabólica


Diarreia
(perda de bicarbonato e redução na excreção de H+), azotemia pré-renal
hipocloremia (sequestro de Cl– no abomaso), hipocalemia, alcalose
Torção de abomaso (bovinos)
metabólica (aumento de bicarbonato, com urina ácida), desidratação

Acidose láctica (ruminantes) acidose metabólica, desidratação

Anestesia em sistema fechado (equinos) acidose respiratória

Obstrução intestinal (equinos) acidose metabólica, desidratação

Exercício extenuante acidose metabólica (acúmulo de lactato)

desidratação (com isostenúria), acidose metabólica (redução na excreção


Insuficiência renal
de H+ e na reabsorção de bicarbonato), hipercalemia, hiponatremia

desidratação, alcalose metabólica (por perda de ácido), hipocalemia,


Vômito
hipocloremia
acidose metabólica (cetoacidose), hiponatremia (por diurese),
Diabetes mellitus
hipercalemia (com hipocalemia após correção da acidose)
Diabetes insipida desidratação

Insuficiência adrenal (Síndrome de Adisson) hipercalemia, hiponatremia, hipovolemia, desidratação

Choque hipovolêmico acidose metabólica (por hipóxia tissular, com acúmulo de CO2)
Insuficiência cardíaca congestiva desidratação (por aumento de fluido extracelular com hipoproteinemia)

Anorexia desidratação com tendência à acidose metabólica

anion gap não vai no mesmo sentido que a mu-


laboratório em um período de até 3 horas. Os
dança de bicarbonato, há suspeita de um dese-
aparelhos de gasometria, em geral, fornecem
quilíbrio acidobásico misto.
os seguintes dados: pH, pO2, pCO2, HCO3–,
excesso de base (EB), hemoglobina, anion gap,
Gasometria sódio, potássio e cloreto. Uma limitante deste
exame é o custo do equipamento e do exame.
A coleta para provas de gasometria deve Valores de referência para várias espécies são
ser em tubos heparinizados. Em veterinária, mostrados na Tabela 5.
é melhor coletar sangue arterial (artéria fe- O cálculo da diferença aniônica (anion
moral em cães), levando em conta que anes- gap) se usa para classificar os desequilíbrios
tesiar o animal altera o estado acidobásico do como acidose metabólica devida à perda de
sangue. Entretanto, pode-se utilizar sangue HCO3– ou ao excesso de ácidos orgânicos,
venoso, pois a diferença de pH entre sangue alcalose metabólica ou transtornos acidobá-
arterial e venoso é pequena. A amostra de san- sicos mistos. O valor de anion gap normal
gue deve estar livre de ar, acondicionado em (10-20 mmol/L) pode aumentar em acidose
isopor com gelo e enviado imediatamente ao metabólica (cetósica ou láctica), no choque

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TABELA 5 – VALORES DE REFERÊNCIA DE GASOMETRIA
EM SANGUE PARA VÁRIAS ESPÉCIES.

Parâmetro Bovinos Ovinos Caninos Felinos Equinos

pH 7,29 - 7,40 7,28 - 7,42 7,31 – 7,42 7,24 – 7,40 7,32 – 7,44

HCO3 (mmol/L) 20 – 29 19 – 25 18 - 24 17 – 24 24 – 30

EB* (mm/L) -2,3 a 3,7 -4,0 a 2,0 -3,0 a 2,0 -5,0 a 2,0 -0,04 a 6,4

pCO2 (mmHg) 35 - 44 37 - 46 29 - 42 29 - 42 38 – 46

pO2 (mmHg) 80 – 102 83 - 95 50,97 27-112 31-46,1

Anion gap
13,9 – 20,2 12-24 15 - 25 15 - 25 6,6 – 14,7
(mmol/L)

Osmolalidade
270 - 300 280-300 280 - 305 280 - 305 270 - 300
(mOsm/kg)

*
Excesso de base.

hipovolêmico, em exercício intenso, na dia- de de ácido clorídrico necessário para atingir


betes mellitus e em intoxicações (salicilatos, pH 7,4, a pCO2 40 mmHg e temperatura de
paraldeído, metaldeído, metanol, etileno- 37 oC. O valor de referência de EB (0 e -4,0
-glicol). O anion gap pode diminuir em ga- mmol/L) tem estreita relação com os valores
mapatia policlonal (aumentam proteínas ca- de HCO3–, onde EB de 0 mmol/L equivale a
tiônicas), em hipoalbuminemia (diminuem 24 mmol/L. Valor aumentado de EB indica
alcalose metabólica e valor diminuído indi-
proteínas aniônicas e aumenta Cl– para com-
ca acidose metabólica. O EB indica indireta-
pensar) e na acidose metabólica hiperclorê-
mente a quantidade de tampões existentes no
mica de origem gastrointestinal ou renal sangue. Por isso, os valores de referência são
(perda de fluidos e bicarbonato). em torno de zero. Quanto mais negativos fo-
O excesso de base (EB) é um cálculo que rem os valores de EB, maior a perda de reserva
apoia a identificação de acidose ou alcalose de tampões no sangue, isto é, maior o grau de
metabólica. Trata-se de uma quantificação acidose. Inversamente, valores mais positivos
da proporção de bases no sangue, calculada de EAB indicam quadro de alcalose. O EB é
importante para o calculo da quantidade de
sob condições padronizadas de pCO2 e de
tampão necessário para infundir em um ani-
temperatura. O EB é medido pela quantida-
mal com desequilíbrio acidobásico.

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Capítulo 3
Bioquímica clínica de proteínas
e compostos nitrogenados

INTRODUÇÃO Classificação dos aminoácidos


As proteínas são as macromoléculas Os aminoácidos estão classificados em
mais abundantes nos seres vivos, constituin- cinco grupos, em função da estrutura de seus
do cerca de 50 % do peso vivo (em base seca). grupos residuais (grupos R), de acordo com
São também as biomoléculas mais versáteis a polaridade e a carga, como segue:
quanto à funcionalidade, e essa versatilida- (a) Aminoácidos não-polares (Gly, Ala, Val,
de funcional está determinada pelo número, Leu, Ile, Pro): seus grupos R são alifáticos e
a classe e a sequência dos aminoácidos que hidrofóbicos; a glicina é o aminoácido mais
compõem suas unidades estruturais. simples; a prolina é um iminoácido (grupo
amina secundário), pois o carbono α está
unido com o extremo do grupo R, ciclizando
Os aminoácidos como unidades a molécula e deixando-a mais rígida.
básicas das proteínas
(b) Aminoácidos polares sem carga (Ser,
Todas as proteínas estão constituídas a Thr, Cys, Met, Asn, Gln): são hidrofílicos e
partir de 20 tipos de aminoácidos, unidos sua polaridade pode ser dada pelos grupos
por ligações peptídicas, variando nas dife- hidroxila, amida ou sulfidrila (tiol), que for-
rentes proteínas tão somente o número e a mam pontes de H com a água; asparagina e
sequência dos aminoácidos. Os aminoáci- glutamina são amidas dos ácidos aspártico e
dos são moléculas pequenas, com peso mo- glutâmico, respectivamente; a cisteína pode
lecular médio de 130 Dal; todos têm em co- sofrer oxidação em seu grupo sulfidrila (SH)
mum a presença de um grupo carboxila e de e formar um composto dimérico (Cys-Cys
um grupo amina unidos ao mesmo carbono ou cistina) por união de duas cisteínas me-
(carbono α) e diferem entre si na estrutura diante uma ponte dissulfeto (S-S); essas pon-
do seu grupo residual (grupo R). tes são comuns nas proteínas e contribuem
para estabilizar a molécula.
Além dos 20 aminoácidos que fazem
parte das proteínas (aminoácidos protei- (c) Aminoácidos carregados negativamente
ou aminoácidos ácidos (Asp, Glu): a carga está
cos), existem outros aminoácidos que têm
determinada pelos grupos carboxila ionizados.
funções metabólicas diversas, como, por
exemplo, a ornitina e a citrulina, que são (d) Aminoácidos carregados positivamente
metabólitos intermediários do ciclo da ou aminoácidos básicos (Lys, Arg, His): a
ureia. Os aminoácidos proteicos, com suas carga positiva está determinada pelos gru-
respectivas abreviaturas e símbolos, são pos amina (Lys), guanidino (Arg) ou imida-
apresentados no Quadro 1. zol (His).

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(e) Aminoácidos aromáticos (Phe, Tyr, Trp): (Quadro 2) são aminoácidos essenciais, isto
são relativamente não-polares; tirosina e é, devem ser incorporados na dieta. Sem estes
triptofano têm maior polaridade que a feni- aminoácidos o organismo não pode sintetizar
lalanina; os anéis aromáticos destes amino- as proteínas de reposição e as requeridas nos
ácidos absorvem a luz ultravioleta a 280 nm, processos de crescimento ou aqueles que exi-
constituindo-se na base para a análise de gem síntese proteica (gestação, lactação, etc.).
proteínas, usando a espectrofotometria de
A arginina pode ser considerada como
luz ultravioleta (UV).
um aminoácido não-essencial nos adultos.
Os mamíferos não podem sintetizar to- Porém, durante o crescimento, não são sin-
dos os aminoácidos que formam parte das tetizadas quantidades adequadas deste ami-
proteínas. Dez dos 20 aminoácidos proteicos noácido, tornando-o essencial em animais

QUADRO 1 – AMINOÁCIDOS COMPONENTES DAS PROTEÍNAS

Aminoácido Abreviatura Símbolo

Alanina Ala A

Arginina Arg R

Asparagina Asn N

Aspártico Asp D

Cisteína Cys C

Fenilalanina Phe F

Glicina Gly G

Glutâmico Glu E

Glutamina Gln Q

Histidina His H

Isoleucina Ile I

Leucina Leu L

Lisina Lys K

Metionina Met M

Prolina Pro P

Serina Ser S

Tirosina Tyr Y

Treonina Thr T

Triptofano Trp W

Valina Val V

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QUADRO 2 – AMINOÁCIDOS ESSENCIAIS E NÃO-ESSENCIAIS NOS MAMÍFEROS

Aminoácidos Essenciais Aminoácidos Não-Essenciais


Arginina Alanina

Histidina Aspártico

Isoleucina Asparagina

Leucina Glutâmico

Lisina Glutamina

Metionina Cisteína

Fenilalanina Glicina

Treonina Prolina

Triptofano Serina

Valina Tirosina

jovens. Os requerimentos da metionina au- as cargas fazem mais estáveis e unidas as mo-
mentam se a dieta não incorpora cisteína, léculas entre si. Os α-aminoácidos em forma
aminoácido que é sintetizado a partir da dipolar podem atuar como ácidos ao cederem
metionina. Efeito similar acontece com a fe- prótons e como bases ao aceitarem prótons,
nilalanina, cujos requerimentos aumentam tendo portanto dupla propriedade, razão pela
quando não é fornecida tirosina na dieta. A qual são chamados de compostos anfóteros,
glicina é aminoácido essencial nas aves. isto é, que atuam como ácido ou como base. O
aminoácido em forma de zwitteríon que cede
o H do grupo amina atuaria como ácido:
Propriedades químicas dos aminoácidos

Os aminoácidos podem estar ionizados R-CH-COO– → R-CH-COO– + H+


| |
em soluções aquosas, em pelo menos dois
NH3+ NH2
grupos ionizáveis: o grupo ácido e o grupo
amina do carbono α:
Por outro lado, atuaria como base o ami-
COO- noácido zwitteríon que aceita um H+ no seu
| grupo carboxila ionizado:
H3N+ —C—H
| R-CH-COO– + H+ → R-CH-COOH
R | |
NH3+ NH3+
Por ter duas cargas elétricas opostas,
a forma completamente ionizada chama-
-se íon dipolar ou zwitteríon (íon híbrido). A forma completamente protonada dos
Essa característica influi para aumentar o aminoácidos pode ceder 2 íons H+ e, portan-
ponto de fusão dos aminoácidos livres, pois to, comportar-se como ácido diprótico:

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R-CH-COOH → R-CH-COO– + H+ → R-CH-COO– + H+ (com carga negativa). Mediante a equação
| | | de Henderson Hasselbalch é possível calcu-
NH3+ NH3+ NH2 lar a proporção das formas receptor/doador
de prótons a um determinado pH. O pH do
meio determina o estado de protonação dos
As três possíveis formas de protonação
grupos amina e carboxila dos aminoácidos
fazem com que os aminoácidos tenham uma
e, portanto, determina sua carga elétrica.
curva de titulação típica dos seus dois gru-
Essa característica é importante para os
pos ionizáveis. Nessa curva, há duas planícies
métodos de análise dos aminoácidos, pois
correspondentes às zonas com maior capaci-
cada aminoácido tem diferentes pKs para
dade tamponante. No primeiro estágio, titula-
ção do grupo carboxila, este grupo, em pH= 1, seus grupos amina e carboxila e para aque-
encontra-se completamente protonado (com les grupos susceptíveis de serem ionizados
carga positiva). À medida que se adiciona existentes nos seus resíduos.
OH– (base para neutralizar o ácido) ao siste-
ma, começa a ocorrer perda de prótons (ioni- Aminogramas
zação) do grupo carboxila, o qual é o primeiro
a dissociar-se, até chegar ao ponto médio da Os métodos de análise para aminoá-
titulação (pK1), isto é, quando existem quan- cidos exploram a característica de ter carga
tidades equimolares das formas doadora e re- elétrica em função do pH do meio. Assim,
ceptora de prótons do grupo carboxila: um dos métodos mais usados, a cromatogra-
fia de troca iônica, usa resinas de troca catiô-
nica, isto é, grupos com carga negativa como
R  CH (NH 3 )COOH
1 o sulfonato (SO3–), os quais atraem íons posi-
R  CH (NH 3 )COO
tivos (cátions). Se a solução com a mistura de
aminoácidos a ser analisada está em um pH
É possível continuar com a titulação do ácido (por exemplo, pH 3,0) então a maioria
grupo carboxila até atingir o ponto de com- dos aminoácidos estarão protonados (com
pleta ionização. Nesse ponto, a forma do carga positiva), embora com cargas elétricas
aminoácido é dipolar isoelétrica, e este valor de diferente valor entre os diferentes amino-
de pH conhece-se como o ponto isoelétrico. ácidos. A interação entre os aminoácidos e a
No segundo estágio da titulação começa a resina de troca catiônica será específica para
ocorrer perda de prótons do grupo amina (ti- cada um, sendo mais forte entre os aminoá-
tulação do grupo NH3+): ao chegar ao ponto cidos básicos (com maior carga positiva) do
médio da titulação (pK2) haverá quantidades que entre os aminoácidos ácidos (com maior
equimolares das formas doadora e receptora carga negativa). O tampão usado para eluir
de prótons do grupo amina: os aminoácidos pode modificar seu pH, por
exemplo aumentando e, portanto, modifi-
cando a carga elétrica dos aminoácidos que
R  CH (NH 3 )COO estão interatuando com a resina, para assim
1
R  CH (NH 2 )COO terminar de eluir todos os aminoácidos.
Esse é o princípio do analisador automático
A titulação é finalizada próximo de pH de aminoácidos, o qual usa geralmente três
12, em que a forma predominante do ami- tipos de tampão em sequência de pHs 3,25,
noácido está completamente desprotonada

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4,25 e 5,28. A ordem de eluição dos aminoá- peptídeo é feita da esquerda (extremo amina)
cidos é: Asp, Thr, Ser, Glu, Pro, Gly, Ala, Cys, à direita (extremo carboxila). Existem alguns
Val, Met, Ile, Leu, Tyr, Phe, Lys, His, Arg. Os peptídeos pequenos com atividade biológica,
aminoácidos eluídos são posteriormente principalmente tendo funções de hormônios
analisados fotometricamente ao reagirem ou de transmissores nervosos (como a oci-
com a ninidrina, composto que gera um tocina ou as endorfinas). Alguns hormônios
complexo de cor roxa que é lido a 570 nm e peptídicos de baixo peso molecular incluem
cuja intensidade de cor é proporcional à con- a insulina (51 aminoácidos), o glucagon (29
centração do aminoácido. aminoácidos), o ACTH (39 aminoácidos), o
GnRH (10 aminoácidos), a ocitocina (9 ami-
noácidos) e o TRH (com 3 aminoácidos é o
Peptídeos e proteínas menor hormônio peptídico).

Os aminoácidos podem unir-se entre


si covalentemente através de ligações pep- Classificação das proteínas
tídicas, nas quais o grupo α-carboxila de
um aminoácido se condensa com o grupo As proteínas podem classificar-se pela
α-amina de outro aminoácido, com a saída forma e pela solubilidade:
de uma molécula de água. A união peptídica (1) Pela forma, as proteínas podem ser fi-
é rígida e não pode rotar porque a união C-N brosas e globulares. As proteínas fibrosas
tem um caráter parcialmente duplo, fazendo são insolúveis em água, longas e resistentes,
ressonância com a união C=O. Esta limita- geralmente constituindo estruturas como a
ção para rotar diminui o número de possí- α-queratina do pelo e da lã, a fibroína da seda
veis conformações que as proteínas podem ou o colágeno do tecido conectivo. Em oca-
tomar. Existe um pequeno dipolo na união siões também participam de processos con-
peptídica devido às cargas parciais sobre os tráteis como a miosina e a actina do músculo
átomos de oxigênio (–) e de nitrogênio (+), ou as proteínas dos microtúbulos (tubulina
o que permite a formação de pontes de H en- e dineína). As proteínas globulares são solú-
tre diferentes ligações peptídicas, isto é, entre veis em sistemas aquosos e dobram-se sobre
o H unido ao N de uma união com o O unido si para dar uma forma esférica. A maioria das
ao C de outra união: proteínas são de tipo globular, incluindo as
enzimas, os hormônios proteicos, as proteí-
N-H ||| O-C nas transportadoras, os anticorpos, e as pro-
teínas de membranas e ribossomos.
Os peptídeos têm comprimento variado (2) Pela solubilidade as proteínas podem ser:
em função do número de aminoácidos que (a) albuminas: solúveis em água e soluções
os conformam: podem ser dipeptídeos (2 salinas; (b) globulinas: pouco solúveis em
aminoácidos), tripeptídeos (3 aminoácidos), água, mas solúveis em soluções salinas; (c)
tetrapeptídeos (4 aminoácidos), etc., até oli- prolaminas: solúveis em soluções de etanol
gopeptídeos (10-20 aminoácidos) ou polipep- a 70 %, mas insolúveis em água, sendo ricas
tídeos, os quais têm pesos moleculares de até em arginina; (d) histonas: proteínas básicas,
10.000 (por volta de 90 aminoácidos). Poli- solúveis em soluções salinas; (e) escleropro-
peptídeos maiores com função conhecida po- teínas: insolúveis em água e soluções salinas,
dem considerar-se proteínas. Por convenção, são ricas em glicina, alanina e prolina.
a leitura da sequência dos aminoácidos de um

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Níveis de organização estrutural das proteínas estáveis e rígidas, mantidas por pontes de H.
A formação da estrutura de α-hélice é des-
A organização tridimensional que to- favorecida pelos seguintes eventos: repulsão
mam as proteínas é fundamental para sua ou atração eletrostática entre resíduos de
atividade, sendo dependente das interações aminoácidos carregados, resíduos de amino-
que existem entre os resíduos dos aminoáci- ácidos volumosos e presença de prolina. As
dos. Portanto, essa organização depende dos proteínas também podem estar ordenadas
aminoácidos que conformam as proteínas e em forma de folha pregada (conformação β),
de como esses aminoácidos interagem entre a qual é uma estrutura mais estendida do que
si para dar uma conformação determinada. a estrutura α-hélice, tal como é observada
Uma mudança na conformação geralmen- na fibroína da seda (β-queratina) organiza-
te leva à inatividade da proteína. As proteí- da em forma de ziguezague, e não em forma
nas com sua conformação funcional, isto é, de hélice, também mantida por pontes de H.
aquela necessária para sua atividade bioló- Outra forma de organização é a conforma-
gica, denominam-se proteínas nativas. Exis- ção chamada duplaz β, que consiste em um
tem 4 níveis de estruturação das proteínas: duplaz (giro) de 180o da cadeia envolvendo
aminoácidos ligados a um extremo de uma
1. Estrutura primária: diz respeito ao núme-
cadeia de folha pregada β. As três formas
ro, tipo e sequência dos aminoácidos que
de estrutura secundária podem coexistir na
conformam a proteína, bem como à localiza-
mesma proteína e são igualmente importan-
ção das ligações dissulfeto e às ligações intra
tes na função da macromolécula.
e intercatenárias, as quais podem ser liga-
ções não covalentes, tais como pontes de H, 3. Estrutura terciária: é consequência direta
interações iônicas, interações hidrofóbicas e da estrutura secundária e corresponde à rela-
interações de Van Der Waals. A estabilidade ção estérica total da proteína, ou seja, estabe-
de uma proteína está definida pela soma da lecendo as regiões ou domínios da molécula.
energia livre de formação das ligações. Ape- Dependendo da proporção de formas estru-
sar de as ligações covalentes terem maior turais secundárias, as proteínas podem dar
variação de energia livre de formação (ΔG= estruturas terciárias correspondentes a proteí-
-200 a -460 kJ/mol) do que as ligações não nas fibrosas ou globulares. Mediante estudos
covalentes (ΔG= -4 a -30 kJ/mol) e serem, de difração de raios X foi possível determi-
portanto, mais fortes, a estabilidade estrutu- nar para as proteínas globulares a proporção
ral da proteína está determinada pelas liga- de α-hélice e de conformação β, bem como o
ções fracas formadas entre os resíduos dos número e a posição de duplaz β, e inclusive a
aminoácidos, pois essas acontecem em gran- proporção de regiões dobradas irregularmen-
de número. Em geral, os resíduos hidrofóbi- te ou a proporção de segmentos estendidos.
cos localizam-se no lado interior da proteí- Na conformação da estrutura terciária das
na, enquanto os resíduos hidrofílicos estão proteínas também influi a classe de resíduos
no exterior em contato com a água. dos aminoácidos, os quais se organizam em
função de sua polaridade: hidrofílicos na su-
2. Estrutura secundária: é a relação estérica perfície externa da proteína, hidrofóbicos no
ou espacial que têm os aminoácidos entre interior da proteína e os de polaridade inter-
si, podendo ser em forma muito ordenada, mediária, em ambos os lados da proteína.
como na queratina, orientados em uma es-
piral em forma de α-hélice ao longo de um 4. Estrutura quaternária: esta estrutura é ex-
eixo (α-hélice). Estas estruturas são muito clusiva das proteínas oligoméricas, ou seja,

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aquelas que possuem mais de uma cadeia interações fracas, ou seja, desdobra-se for-
unidas por ligações covalentes. Os protô- mando uma estrutura aleatória e precipi-
meros se inter-relacionam principalmente tando-se, embora sem perder sua estrutura
mediante ligações fracas não covalentes ou primária, isto é, sem ocorrer ruptura das li-
também por ligações dissulfeto. Existem al- gações peptídicas e, portanto, sem perda de
gumas proteínas que possuem grupos quí- suas características nutricionais. Todavia,
micos diferentes de aminoácidos, tais como na desnaturação ocorre perda da ação bio-
lipídeos, carboidratos ou metais, chamadas lógica da proteína, pois essa ação depende
de proteínas conjugadas, sendo seu grupo da estrutura terciária (proteína nativa).
não peptídico o grupo prostético. Exemplos 4. Variação do pH: o pH afeta o grau de io-
de proteínas conjugadas (e grupos prostéti- nização dos grupos dissociáveis nos resíduos
cos) são: as lipoproteínas (lipídeos), glico- dos aminoácidos, isto é, o pH afeta a carga
proteínas (carboidratos), metaloproteínas das proteínas. O ponto isoelétrico (pI) de
(metais), fosfoproteínas (fosfatos), hemo- uma proteína é o pH no qual a carga líquida
proteínas (grupo heme) ou flavoproteínas da proteína é igual a zero. Geralmente nesse
(nucleotídeos flavínicos). pH as moléculas da proteína se agrupam e
se precipitam, pois são afetadas as uniões ele-
trostáticas que mantêm a estrutura terciária
Solubilidade das proteínas
da proteína. As características elétricas das
A solubilidade das proteínas globulares proteínas são uma propriedade que é utili-
está afetada pelos seguintes fatores: zada para separá-las mediante a técnica de
eletroforese. Nessa técnica as proteínas mi-
1. Adição de sais: pode aumentar (salting in) gram num suporte submetido a um campo
ou diminuir (salting out) a solubilidade de uma elétrico, separando-se em função de sua
proteína. No caso do salting out ocorre preci- carga e seu peso, tingindo-as depois para
pitação da proteína pois os íons do sal concor- serem visualizadas.
rem com a proteína pelas moléculas de água
que as rodeiam, permitindo que as partículas
de proteína cheguem perto umas das outras, Funções das proteínas
agrupando-as e precipitando-se. Esta técnica
é usada para fracionar proteínas em solução, As proteínas são as moléculas mais
pois as propriedades de solubilidade variam abundantes e mais versáteis das células; entre
dependendo de cada proteína. suas múltiplas funções estão as seguintes:
2. Adição de solventes orgânicos: os solventes • Estrutura: muitas proteínas servem de su-
orgânicos têm baixa constante dielétrica, isto porte estrutural ou protetor em diversos or-
é, têm pouca capacidade para manter duas ganismos: colágeno em tendões, cartilagens
cargas separadas, permitindo que as molécu- e tecido conjuntivo; elastina em ligamentos;
las de proteína interajam e precipitem. queratina em chifres, cascos, pelo, penas,
unhas e carapaças; fibroína na seda e nas teias
3. Aquecimento: em forma moderada, o
de aranha; resilina nas asas dos insetos.
calor ajuda a dissolver as proteínas, porém
ultrapassando certo limite, o qual varia • Hormônios: grande número de hormônios
conforme a proteína, ocorre desnaturação são proteínas ou peptídeos; os órgãos endó-
da proteína. A proteína desnaturada perde crinos que produzem hormônios proteicos
sua estrutura terciária devido à perda das incluem o hipotálamo, a hipófise, o pâncre-

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as, a paratireoide, o trato gastrintestinal e a DIGESTÃO E ABSORÇÃO DAS PROTEÍNAS
placenta.
• Enzimas: estes compostos exemplificam a
grande diversidade de proteínas existente, já Animais monogástricos
que são catalisadores biológicos altamente
As proteínas que chegam no trato gas-
específicos para cada substrato. Atualmente
trointestinal dos animais monogástricos
existem mais de 2.000 enzimas classificadas.
são atacadas em primeira instância no estô-
• Transporte: as proteínas no sangue são o mago pelo ácido clorídrico (HCl), secreta-
veículo de transporte de muitos nutrientes; do pelas células parietais das glândulas gás-
as lipoproteínas transportam triglicerídeos, tricas, o que causa desnaturação proteica.
fosfolipídeos e colesterol; a hemoglobina Também atua a pepsina, enzima proteolíti-
transporta O2 dentro dos eritrócitos; a trans- ca de 33 kDal de peso molecular, secretada
ferrina transporta ferro; a ceruloplasmina pelas células principais do epitélio gástrico
transporta cobre; a albumina transporta áci- na forma de pepsinogênio (peso molecu-
dos graxos, cálcio e hormônios esteroidais; lar 40 kDal), o qual é rapidamente ativado à
certos tipos de globulinas são transportado- pepsina devido ao meio ácido do estômago
ras de hormônios esteroides e tireoidianos. (pH em torno de 2). A contribuição do estô-
mago para o processo digestivo das proteínas
• Receptores: muitos hormônios atuam atra-
é de 20 %. A pepsina hidrolisa as proteínas
vés de receptores proteicos localizados nas
em seu extremo amino-terminal, onde hou-
membranas plasmáticas, no citosol ou no
ver aminoácidos aromáticos (Tyr, Phe, Trp).
núcleo das células-alvo.
A digestão das proteínas é completada no
• Defesa: as imunoglobulinas ou anticorpos duodeno, onde as enzimas proteolíticas secre-
são proteínas produzidas pelos linfócitos B tadas pelo pâncreas terminam de hidrolisar
especializadas em defender o organismo os peptídeos. Estas enzimas (tripsina, quimo-
de elementos estranhos. O fibrinogênio e a tripsina e carboxipeptidase) são secretadas
trombina são proteínas de defesa que atuam como zimogênios inativos (tripsinogênio,
na coagulação sanguínea. quimotripsinogênio e pro-carboxipeptidase).
O tripsinogênio é ativado à tripsina por uma
• Contração: actina e miosina são proteínas
enzima secretada pelas células intestinais:
que fazem parte da estrutura da célula mus-
a enteropeptidase. A tripsina pode ativar o
cular e são responsáveis pela propriedade de
quimotripsinogênio e a pro-carboxipepti-
contração muscular. A tubulina e a dineína são
dase. A tripsina e a quimotripsina atacam
também proteínas contráteis que atuam em cí-
as uniões peptídicas da proteína com dife-
lios e flagelos, e também na cauda dos esper-
rente especificidade: a tripsina ataca uniões
matozoides para permitir a sua locomoção.
Lys-Arg e a quimotripsina ataca o extremo
• Reserva: a albumina é uma proteína do carboxila onde houver Phe, Tyr ou Trp. A
sangue que serve como armazenadora de carboxipeptidase, junto com outras enzimas
aminoácidos; a ovoalbumina é proteína de secretadas pelas células da mucosa duode-
reserva de nutrientes no ovo; e a caseína tem nal, como aminopeptidase e dipeptidase,
esta função no leite; a ferritina é uma proteí- são exopeptidases, ou seja, atacam somente
na que armazena ferro. uniões peptídicas de aminoácidos terminais.

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A secreção enzimática está controla- placentação epitélio-corial (ruminantes, porca,
da endocrinamente: a atividade secretória égua), nas quais não há mistura de sangue ma-
no estômago é controlada pela gastrina terna e fetal durante a gestação, portanto, não
(17 aminoácidos), hormônio secretado pelas há transmissão placentária de γ-globulinas.
células G da região pilórica do estômago, e
que estimula as células parietais para secretar
ácido clorídrico. O estímulo para a secreção Animais ruminantes
de gastrina é a presença de proteínas no estô-
mago e a excitação do nervo vago. A colecis- As proteínas que entram no rúmen são
toquinina (CCK), hormônio polipeptídico rapidamente degradadas pelos microrganis-
de 33 aminoácidos, é secretada pela muco- mos até aminoácidos, os quais são reutiliza-
dos pelas bactérias para sintetizar suas pró-
sa do duodeno e do jejuno, por estimulação
prias proteínas. Parte dos aminoácidos é de-
vagal e pela presença de peptídeos no trato
gradada até amônia e esqueletos carbonados.
digestivo; este hormônio estimula a secreção
Estes últimos sofrem fermentação até ácidos
enzimática do pâncreas, além de aumentar a
graxos voláteis.
motilidade do estômago e do intestino e de
estimular a secreção biliar e a contração ve- As bactérias do rúmen são especialmente
sicular. A ação da CCK é ajudada pela secre- ativas nos processos de síntese proteica e po-
tina, hormônio intestinal de 27 aminoácidos, dem utilizar como substratos para essa síntese,
que estimula o pâncreas para secretar bicar- além dos aminoácidos, outras fontes de nitro-
bonato e assim elevar o pH intestinal para gênio não-proteico (amônia, nitratos, amidas)
cerca de 7, o qual é o pH ótimo das enzimas como precursores para formar novos aminoá-
proteolíticas do pâncreas. Outros hormônios cidos. Os protozoários suprem suas necessida-
têm função inibitória sobre a secreção gástri- des de proteínas consumindo bactérias.
ca: a secretina, o GIP (peptídeo gástrico inibi- A ureia que ingressa no rúmen, seja com
tório) e o VIP (peptídeo intestinal vasoativo). a dieta ou através da saliva, é rapidamente
Os produtos resultantes da hidrólise enzi- atacada pela urease, enzima de origem bac-
mática das proteínas são aminoácidos, dipep- teriana, que a hidrolisa em duas moléculas de
tídeos e tripeptídeos, os quais são absorvidos amônia, liberando CO2:
nos 2/3 proximais do intestino delgado. A ab-
sorção dos aminoácidos e dos oligopeptídeos H2N-CO-NH2 + H2OCO2 + 2 NH4+
produzidos pela hidrólise dos peptídeos se rea-
liza por um mecanismo ativo. Depois de absor- O amônio (NH4+) no rúmen, em pre-
vidos, na célula epitelial do intestino delgado sença de adequada quantidade de compostos
realiza-se uma hidrólise total para que somente energéticos que sirvam como fonte de esque-
saiam aminoácidos livres no sistema portal he- letos carbonados, atua como substrato para
pático; a única exceção a este tipo de absorção que as bactérias possam sintetizar aminoá-
se observa nos mamíferos neonatos, nos quais cidos, os quais, por sua vez, são necessários
ocorre absorção de imunoglobulinas do colos- para a síntese de proteína bacteriana. O NH4+
tro nas primeiras 48 horas de vida, mediante em excesso no rúmen é absorvido na forma
um mecanismo de pinocitose. Este evento é de amônia (NH3) e enviado via portal para
especialmente importante em espécies com o fígado, onde se metaboliza em ureia, me-

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diante o ciclo da ureia. Esta ureia pode passar Catabolismo dos aminoácidos
à circulação (onde recebe o nome de BUN ou
nitrogênio ureico sanguíneo) e pode ser ex- Os aminoácidos são degradados oxida-
cretada pela urina ou reciclada de novo para tivamente quando estão em excesso, no caso
o rúmen via sanguínea ou via salivar. Os ante- de dietas com um nível de proteínas que ex-
riores fatos permitem que o ruminante possa cede às necessidades do organismo, ou em
economizar compostos nitrogenados e obter situações em que as necessidades energéticas
proteína a partir de fontes de nitrogênio não- obrigam a usar aminoácidos como fonte de
-proteico, como a ureia, a qual é utilizada como energia (esgotamento das reservas de glicogê-
fonte suplementar na dieta desses animais. nio e de triglicerídeos), ou no caso de proteó-
lise intracelular. Pouco se conhece sobre esta
A proteína microbiana é digerida no última; sabe-se que ela se realiza a uma velo-
abomaso e no intestino de igual forma que cidade elevada, a qual está evidenciada pelo
nos monogástricos, com absorção de ami- constante retorno metabólico (turnover) das
noácidos no duodeno e no jejuno. No ceco, proteínas endógenas. As proteínas endóge-
ocorre hidrólise proteica, mas não há absor- nas podem sofrer hidrólise até aminoácidos,
ção de aminoácidos. os quais podem ser reciclados para a síntese
de nova proteína, ou funcionar como substra-
CATABOLISMO DAS PROTEÍNAS tos energéticos. Por outro lado, se o organis-
mo estiver em balanço positivo de proteínas
Os aminoácidos, unidades estruturais (maior ingresso do que gasto), a proteólise
das proteínas, podem oxidar-se para contri- endógena aumenta. Em caso de balanço neu-
buir com produção de energia no organis- tro, a proteólise endógena também ocorre,
mo. As proteínas que se degradam para obter embora a uma taxa bem menor. Nesse caso,
aminoácidos com destino à oxidação podem considera-se que a taxa de retorno metabóli-
provir da dieta (proteínas exógenas) ou do co diário das proteínas está por volta de 0,6 %
próprio organismo (proteínas endógenas). do peso corporal (por exemplo, uma vaca de
O tipo de alimentação influi marcadamente 500 kg degrada 3.000 g de proteína endóge-
na origem destas proteínas: os animais carní- na por dia). Em torno de 25 % dessa proteína,
voros podem obter 90 % dos requerimentos na forma de aminoácidos, é completamente
de energia a partir das proteínas da dieta, en- oxidada para a produção de energia ou é con-
quanto nos herbívoros somente uma peque- vertida em precursores gliconeogênicos para
na fração das necessidades energéticas são a formação de glicose. Os 75 % restantes reci-
cobertas por proteínas exógenas. Também clam-se para formar nova proteína.
ocorre degradação oxidativa dos aminoá-
cidos quando há um excesso de ingestão de A degradação oxidativa dos aminoáci-
proteínas na dieta e para metabolizar parte dos se realiza por rotas catabólicas específicas,
dos aminoácidos produzidos na proteólise in- diferentes para cada um dos 20 aminoácidos
tracelular, a qual ocorre em todos os tecidos proteicos, embora todas as rotas converjam
do organismo. A degradação dos aminoáci- em um dos seguintes metabólitos: piruvato,
dos inclui sua desaminação. O grupo NH4+ acetil-CoA, ou compostos intermediários do
deve ser rapidamente metabolizado devido a ciclo do ácido cítrico. Com exceção dos que
sua toxicidade, seja mediante sua incorpora- convergem em acetil-CoA, os aminoácidos
ção a outros aminoácidos para ser reciclado, constituem substratos precursores da glico-
seja mediante sua excreção na forma de ureia neogênese. O grupo amina dos aminoácidos,
(nos mamíferos) ou de ácido úrico (nas aves). convertido em amônio (NH4+) excreta-se em

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forma de ureia, ácido úrico ou amônia, de- ção é oxidado e desaminado, por ação da en-
pendendo da espécie animal. zima glutamato desidrogenase, numa reação
que acontece na mitocôndria dos hepatócitos
O catabolismo dos aminoácidos tem lugar
(enzima [2], Figura 2).
no fígado, principalmente, e uma menor parte
no rim. A primeira etapa da degradação oxidati- A glutamato desidrogenase é uma en-
va dos aminoácidos é a separação do grupo ami- zima alostérica (peso molecular 330 kd) que
na, a qual se realiza mediante duas rotas integra- tem seis subunidades idênticas, sendo esti-
das: transaminação e desaminação oxidativa. mulada por ADP, GDP e alguns aminoácidos,
e inibida por ATP, GTP e NADH. Requer de
NAD+ (ou NADP+), como receptor dos elé-
Transaminação trons. A ação combinada das transaminases e
a glutamato desidrogenase conhece-se como
As reações de transaminação dos dife-
“transdesaminação”.
rentes aminoácidos são realizadas por enzi-
mas específicas chamadas transaminases ou Quando a célula está precisando de ener-
aminotransferases, que utilizam como subs- gia (maior relação ADP/ATP), a ação da glu-
trato, além do aminoácido, o α-cetoglutarato, tamato desidrogenase aumenta para fornecer
transferindo o grupo amina do aminoácido α-cetoglutarato no ciclo do ácido cítrico. Quan-
para o carbono α do α-cetoglutarato, forman- do há suficiente energia, o GTP produzido no
do o α-cetoácido análogo do aminoácido mais ciclo de Krebs inibe a glutamato desidrogenase.
glutamato. As aminotransferases requerem O NH4+ formado pode ser reutilizado
como coenzima o piridoxal-fosfato (forma para a síntese de novos aminoácidos ou ser
enzimática da vitamina B6), o qual se encon- excretado em forma de ureia, no caso dos ver-
tra como grupo prostético das transaminases. tebrados terrestres (animais ureotélicos), em
Essas enzimas catalisam as reações conheci- forma de ácido úrico nos répteis e nas aves
das como “reações biomoleculares pingue- (animais uricotélicos) ou em forma de amô-
-pongue”: o primeiro substrato (aminoácido) nia nos peixes (animais amonotélicos).
une-se no sítio ativo da enzima e perde seu
grupo amina, produzindo-se um α-cetoácido. O grupo amina de muitos tecidos é trans-
Este grupo é tomado pelo piridoxal-fosfato, o portado para o fígado como glutamina, pela
qual se transforma em piridoxamina-fosfato. ação da enzima glutamina sintetase, em uma
Logo depois entra o segundo substrato (o reação que requer de ATP para ativar o gluta-
α-cetoglutarato), o qual aceita o grupo amina mato e que tem duas etapas:
da piridoxamina, convertendo-se em gluta-
mato. Devido a essas reações, os grupos ami-
na dos diferentes aminoácidos são coletados
em um único aminoácido: o glutamato. As
reações de transaminação são termodinami-
camente reversíveis (ΔGo’ = 0 kJ/mol).

Desaminação oxidativa

Mediante a desaminação oxidativa, o


glutamato que recolhe os grupos amina de vá-
rios aminoácidos nas reações de transamina-

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Na mitocôndria hepática, a amônia se li- é altamente endergônica, requerendo de 2
bera da glutamina para formar glutamato me- ATPs (a forma II da enzima está no citosol).
diante a enzima glutaminase (enzima [1], Fi-
A carbamoil-fosfato sintetase é uma en-
gura 2). A glutamina é o principal transporta-
zima regulatória que tem como modulador
dor de NH4+ no sangue, tendo maiores níveis
estimulatório o N-acetilglutamato, composto
sanguíneos que qualquer outro aminoácido.
produzido a partir de acetil-CoA e glutamato
Sua estrutura, sem as cargas elétricas do gluta-
pela enzima N-acetilglutamato sintetase:
mato, facilita sua passagem através das mem-
branas. O grupo amina também pode ser
transportado desde os tecidos (especialmente
desde o músculo) para o fígado, pela alani-
na, devido à ação da enzima alanina-amino
transferase (ALT), a qual atua reversivelmente
em ambos os tecidos (Figura 1).
A enzima N-acetilglutamato sintetase,
A alanina, sem cargas elétricas em seu
por sua vez, é estimulada pela arginina, com-
resíduo, atravessa facilmente as membranas.
posto intermediário do ciclo da ureia, que se
A anterior reação serve também para remo-
acumula quando o ciclo se torna mais lento.
ver o piruvato do músculo, produzido na
Assim, a arginina estimula a formação de N-
glicólise. O piruvato pode ser levado para o
-acetilglutamato, e este estimula a ação da
fígado, onde serve de precursor de glicose via
carbamoil-fosfato sintetase, para aumentar a
gliconeogênese. A glicose pode voltar para o
velocidade do ciclo.
músculo para servir de fonte de energia (“ci-
clo glicose-alanina”). (b) Formação de citrulina

Ciclo da ureia O aminoácido ornitina entra na mi-


tocôndria para se condensar com o grupo
Os animais ureotélicos sintetizam ureia
carbamoil-fosfato e formar citrulina, através
a partir do grupo amina liberado pelos ami-
da ação da enzima ornitina-carbamil trans-
noácidos, mediante uma série de reações co-
ferase [5], reação facilitada pela hidrólise do
nhecidas como o ciclo da ureia, via descober-
ta por Krebs e Henseleit, em 1932, antes de grupo fosfato do carbamoil-fosfato.
ser elucidado o ciclo do ácido cítrico. Nesse Até aqui as reações acontecem na mi-
processo, que se realiza no fígado, incorpo- tocôndria. Na sequência, a citrulina aban-
ram-se dois grupos amina e um CO2 na mo- dona a mitocôndria para continuar o ciclo
lécula de ureia (Figura 2). As duas primeiras no citosol.
reações do ciclo ocorrem na mitocôndria do
hepatócito, e as restantes, no citosol. As re- (c) Condensação do aspartato com a citrulina
ações do ciclo da ureia são as seguintes (os O aminoácido aspartato (que introduz
números entre colchetes correspondem às outro grupo amina no ciclo) se condensa com
enzimas da Figura 2): a citrulina numa reação que consome energia,
(a) Condensação de NH4+ e CO2 e que é catalisada pela enzima arginino-succi-
nato sintetase [6].
O CO2, produzido na respiração celular
e o amônio se condensam mediante a enzima
carbamil-fosfato sintetase-I [4], reação que

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Figura 1– A reação de transaminação
catalisada pela enzima ALT.

Figura 2 – Ciclo da ureia. As principais enzimas estão indicadas: [1] glutaminase, [2] glutamato desidrogenase, [3] as-
partato aminotransferase (AST), [4] carbamil-fosfato sintetase, [5] ornitina-carbamil transferase, [6] arginino-succinato
sintetase, [7] arginino-succinato liase e [8] arginase.

O AMP produzido na reação anterior (d) Excisão do arginino-succinato


deve ser convertido em ADP mediante a par-
Esta quebra, mediante a enzima arginino-
ticipação de um ATP, o que significa que nes-
-succinato liase [7], origina fumarato, o qual
ta reação são gastos, realmente, dois ATP.

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ingressa na mitocôndria como intermediário Um elevado nível de NH4+ pode extrair
do ciclo de Krebs, mais o aminoácido arginina. demasiado α-ceto-glutarato e, eventualmente,
(e) Hidrólise da arginina e formação de ureia deter o ciclo do ácido cítrico e a cadeia respi-
ratória, sendo especialmente sensível o tecido
Reação catalisada pela arginase [8], a cerebral. Por outro lado, o amônio, por sua for-
qual tem como cofator o Mn2+, para dar ureia ma protonada, se dissocia tendo um pK de 9,5:
e repor a ornitina, fechando o ciclo.
NH4+  NH3 + H+
A ornitina volta à mitocôndria para
reiniciar um novo ciclo, e a ureia pode ir para A pH 7,0, a maioria do amônio se encon-
o rim via sanguínea para ser excretada pela tra na forma protonada (NH4+). Entretanto,
urina. A reação global do ciclo da ureia pode diante de um excesso de NH4+, uma parte
se escrever assim: resulta em amônia (NH3) provocando certa
2NH4+ + HCO3– + 3ATP + 2H2O alcalinidade nos tecidos e causando falhas no
metabolismo celular.

Nos peixes, o amônio se incorpora no
ureia + 2ADP + 4Pi + AMP + 5H+
glutamato para formar glutamina no fígado:
A formação de ureia é um processo en- glutamato + NH4+ + ATP
dergônico, de alto custo energético, no qual 
são gastos 4 ATPs: dois para formar o carba-
moil-fosfato, um para formar o arginino-suc- glutamina + ADP + Pi
cinato e mais um para transformar o AMP, No rim, a glutamina volta a desaminar-se
que se produz na formação do arginino-suc- e libera amônio diretamente pela urina:
cinato, em ADP.
glutamina  glutamato + NH4+
Nos ruminantes, os níveis sanguíneos de
ureia são elevados (32-64 mg/dL) devido à O amônio no sangue dos peixes também
absorção de amônia pelo rúmen. Nesses ani- pode ser eliminado diretamente na água, pe-
mais, a amônia deve metabolizar-se no fígado las brânquias. A excreção do amônio na for-
para dar ureia, a qual se recicla voltando ao rú- ma de ureia é dependente de uma grande dis-
men via sanguínea ou via salivar, o que signi- ponibilidade de água no organismo. Nas aves,
fica uma poupança da energia necessária para cujo peso corporal total tem pouca proporção
a formação de ureia e de água para sua própria de água, a fim de permitir o voo, bem como
excreção. Nos animais carnívoros a concen- nos répteis, que vivem geralmente sob am-
tração de ureia está entre 21 e 60 mg/dL. bientes áridos, o amônio se excreta na forma
de ácido úrico, uma purina que é intermediá-
A compartimentalização, na mitocôn-
ria no catabolismo dos nucleotídeos.
dria, das primeiras duas reações do ciclo da
ureia impede a saída para o sangue do íon amô-
nio, o qual é altamente tóxico. Essa toxicidade Vias catabólicas dos esqueletos
se deve a que o amônio pode se incorporar carbonados dos aminoácidos
no α-ceto-glutarato, composto intermediário
do ciclo do ácido cítrico, para dar glutamato, O catabolismo dos aminoácidos não é uma
mediante a enzima glutamato desidrogenase via tão ativa quanto a glicólise ou a oxidação dos
(enzima [2], Figura 2). ácidos graxos. As rotas catabólicas dos amino-

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ácidos variam em sua atividade, dependendo Em humanos, existe uma falha genética
das necessidades energéticas ou biossintéticas relacionada com o catabolismo da fenilalani-
do organismo. Existem 20 vias catabólicas, uma na: uma deficiência na síntese da enzima feni-
para cada um dos 20 aminoácidos proteicos, lalanina hidroxilase, a qual converte a fenila-
que convergem em cinco possíveis produtos fi- lanina em tirosina:
nais, os quais podem ingressar no ciclo de Krebs
para seguir a oxidação total até CO2 e H2O, ou
para sair como precursores da gliconeogênese,
dependendo do estado metabólico do organis-
mo. Dez aminoácidos podem terminar em ace-
til-CoA, cinco terminam em α-cetoglutarato,
quatro em succinato, dois em fumarato e dois
em oxalacetato; contudo, vários desses aminoá-
cidos podem ter outras rotas.

Via acetil-CoA

Dez aminoácidos podem terminar em A enzima é uma oxidase que utiliza o O2


acetil-CoA, para entrar no ciclo de Krebs: cinco diretamente para oxidar a fenilalanina: um
deles via piruvato, e os restantes cinco podem oxigênio se incorpora como grupo hidroxila
dar acetoacetil-CoA, o qual se rompe para dar (-OH) para formar tirosina e o outro oxigê-
duas moléculas de acetil-CoA. Os aminoácidos nio se reduz para dar H2O, utilizando NADH.
que geram piruvato são alanina, glicina, serina, A enzima requer tetraidrobiopterina como
cisteína e triptófano. Os aminoácidos triptófano, cofator, que funciona como transportador
lisina, fenilalanina, tirosina, leucina e isoleucina dos elétrons desde o NADH até o O2. A defi-
produzem acetil-CoA e/ou acetoacetil-CoA. Es- ciência da fenilalanina hidroxilase se conhece
tes últimos aminoácidos são chamados de “ce- como fenilcetonúria, e consiste na acumula-
togênicos”, embora fenilalanina e tirosina tam- ção de fenilalanina a qual não se pode meta-
bém podem produzir fumarato, triptófano pode bolizar normalmente. A fenilalanina toma
também formar piruvato e isoleucina pode for- uma via secundária na qual ocorre transami-
mar succinil-CoA via propionil-CoA. A leucina nação com o piruvato, e formação de fenilpi-
é o único aminoácido rigorosamente cetogêni- ruvato, metabólito que é descarboxilado para
co, isto é, que só pode terminar em acetil-CoA. produzir fenilacetato, corpo cetônico que dá
um cheiro característico na urina. A fenilce-
tonúria apresenta-se em 8 de cada 100.000 in-
divíduos e pode causar severo retardo mental,
se não for tratada no recém-nascido. O trans-
torno não tem sido descrito em animais.

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Via α-cetoglutarato podem formar glicose via gliconeogênese e
são chamados de “gliconeogênicos”. Quatro
Os aminoácidos arginina, histidina, glu- aminoácidos podem ser gliconeogênicos ou
tamato, glutamina e prolina são degradados cetogênicos, dependendo da rota que sigam:
via α-cetoglutarato e entram diretamente no triptófano, fenilalanina, tirosina e isoleucina.
ciclo de Krebs. As vias catabólicas de todos
esses aminoácidos terminam em glutama-
to, o qual é desaminado e oxidado para dar BIOQUÍMICA DO GRUPO HEME
α-cetoglutarato, mediante a enzima glutama-
to desidrogenase (enzima [2], Figura 2). O grupo heme é um grupo orgânico fun-
cional presente em várias proteínas, como a
hemoglobina ou os citocromos, e algumas en-
Via succinil-CoA zimas, como a catalase. O grupo participa de
reações de oxidorredução ou no transporte de
Os aminoácidos que são catabolizados via oxigênio, graças à presença de um núcleo de
succinato são metionina, isoleucina, treonina ferro em sua estrutura.
e valina. Isoleucina também pode dar acetil-
-CoA. Por esta via os aminoácidos são conver-
tidos em propionil-CoA, e a partir deste em Biossíntese do grupo heme
succinil-CoA, mediante as mesmas reações
da gliconeogênese, que tem como precursor o O grupo heme pode ser produzido prati-
propionato. Essas reações são de vital impor- camente por todos os tecidos dos mamíferos,
tância nos ruminantes, os quais dependem porém sua síntese é mais importante na me-
desta rota para converter o propionato de dula óssea (reticulócitos) e no fígado, devido
origem ruminal em glicose, via succinil-CoA. às necessidades de hemoglobina e citocro-
Uma enzima desta rota, a metilmalonil-CoA mos, respectivamente.
mutase é dependente da coenzima B12. O heme está composto por um núcleo te-
trapirrólico (anel porfirínico) com um núcleo
Via oxalacetato (OAA) de ferro em seu interior. O grupo deriva de
oito resíduos de glicina e de succinil-CoA. Os
Somente dois aminoácidos, aspartato e núcleos pirrólicos estão unidos entre si através
asparagina, são catabolizados via OAA para de pontes meteno. Cada núcleo pirrólico, nas
entrar no ciclo de Krebs. A asparagina é de- posições de 1 a 8, podem ter substituições que
saminada pela enzima asparaginase, geran- podem ser de acetil, propionil, metil, etil e vinil.
do aspartato: Quando o núcleo tetrapirrólico não tem
asparagina + H2O aspartato + NH4+ tais substituições chama-se porfina. Quando
há substituições nas posições 1 a 8 chamam-se
porfirinas, que passam a ter nomes específicos
Depois, o aspartato sofre transaminação
em função dos grupos substitutivos. As porfi-
com α-cetoglutarato para dar OAA, mediante
rinas mais abundantes que se encontram em
a ação da enzima aspartato aminotransferase,
quase todos os vertebrados, são as protoporfi-
AST (enzima [3], Figura 2).
rinas, as quais contêm 4 metil, 2 vinil e 2 pro-
Os aminoácidos que formam piruvato ou pionil, existindo várias formas isoméricas. A
metabólitos intermediários do ciclo de Krebs mais abundante dessas formas é a protopor-

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firina IX (ou heme), presente na hemoglobina doxal-fosfato como cofator. Deficiências des-
(Hb), na mioglobina (Mb) e na maioria dos sa vitamina levarão à diminuição da síntese
citocromos, bem como nas enzimas catalase, do heme e, portanto, de Hb (anemia). Os eri-
peroxidase e citocromo oxidase. Também se trócitos não têm núcleo, mitocôndrias nem
pode encontrar em forma livre como metabó- ribossomos, e, por isso, não podem realizar a
lito intermediário dos processos de síntese e via metabólica de síntese da Hb, a qual é feita
degradação. Os grupos substitutivos em cada no seu estágio de reticulócitos na medula ós-
posição da protoporfirina IX estão relacio- sea. As únicas vias metabólicas que os eritró-
nados na Tabela 1. A estrutura do heme está citos de mamíferos podem fazer são a glicólise
mostrada na Figura 3B. anaeróbica e a via das pentoses-fosfato.
As porfirinas são estáveis porque as
pontes de metileno são oxidadas, o que per- Degradação do grupo heme
mite a ressonância de todos os quatro anéis
pirrólicos. O ferro se liga aos 4 N do núcleo Os eritrócitos têm uma meia-vida que
da protoporfirina IX e mediante 2 ligações varia em função da espécie: pode ser de 30
se une à porção proteica (globina no caso da dias (nas aves) até de 160 dias (nas vacas).
Hb). Portanto, o ferro fica com 6 ligações, Nas outras espécies os valores são de 60-80
sendo 2 delas covalentes e 4 de coordenação. dias no cão, gato, porco e coelho, e de 120-
O ferro na forma reduzida ou ferrosa (Fe2+) 150 dias na cabra, ovelha e no cavalo. A meia-
pode unir-se ao oxigênio. A forma oxidada -vida dos eritrócitos humanos é de 120 dias.
ou férrica (Fe3+) não une O2. Os eritrócitos são retirados da circulação, por
As etapas da biossíntese do grupo heme reconhecimento de mudanças na membrana,
e fagocitados pelas células de Küpffer, do sis-
são apresentadas na Figura 3. O ponto de
controle da síntese do heme é a enzima ALA tema retículo-endotelial (principalmente na
sintetase da mitocôndria, a qual é inibida pela medula óssea, baço e fígado).
hemina (ferri-protoporfirina) e requer piri-

TABELA 1 – GRUPOS SUBSTITUTIVOS


NA ESTRUTURA DO HEME

Posição Grupo

1 -CH3 (metil)

2 -CH=CH2 (vinil)

3 -CH3 (metil)

4 -CH=CH2 (vinil)

5 -CH3 (metil)

6 -CH3-CH2-COO- (propionil)

7 -CH3-CH2-COO- (propionil)

8 -CH3 (metil)

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A

Figura 3A – Biossíntese do heme. As enzimas


envolvidas nesta parte da rota biossintética
são [1] ALA sintetase e [2] ALA desidratase.

Figura 3B – Biossíntese do heme. As enzimas


envolvidas nesta parte da rota biossintética
são: [3] uroporfirinogênio sintetase, [4] uro-
porfirinogênio descarboxilase, [5] copropor-
firinogênio e [6] protoporfirinogênio oxidase,
e [7] heme sintetase (ferroquelatase).

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Kuster, em 1899, foi o primeiro a rela-
cionar a bilirrubina com a hemoglobina. A
hemoglobina (Hb) responde por 85-90 % dos
pigmentos biliares formados. Outras proteí-
nas que contêm o grupo heme em sua estru-
tura, como os citocromos, também produ-
zem bilirrubina. A degradação da Hb se inicia
com a liberação de globina (fração proteica)
da fração heme. A globina sofre proteólise até
aminoácidos, os quais podem ser reutilizados.
O catabolismo do grupo heme da hemo-
globina compreende: (a) a degradação do anel
de porfirina, que implica um sistema de pro-
cessamento dos seus produtos hidrofóbicos; e
(b) retenção e mobilização do ferro, bem com
a sua reutilização.
O grupo heme (protoporfirina IX mais
ferro) é oxidado pela enzima heme oxigenase
(no sistema microssomal), que utiliza O2, li-
berando CO e Fe (única fonte de monóxido
de carbono no organismo). O ferro é oxidado
de Fe2+ a Fe3+. O grupo heme sofre quebra da
ponte α-metene (fonte de CO) entre os gru-
pos pirrólicos que tenham resíduos de vinilo
(-CH=CH2). O anel, agora linearizado e sem
o ferro, se abre, e o produto da reação é a bi-
liverdina IX, primeiro pigmento biliar pro-
duzido na degradação. A biliverdina IX sofre
redução (adição de 2H) pela enzima biliverdi-
na redutase, que utiliza NADPH como coen-
zima, para produzir bilirrubina IX.

Metabolismo da bilirrubina

A Figura 4 mostra uma representação


do metabolismo normal dos pigmentos bi-
liares. A bilirrubina é produzida não apenas
pelos eritrócitos senis, mas pelo catabolismo
das outras proteínas que contêm o grupo
heme. A bilirrubina livre é pouco solúvel no
sangue, sendo transportada pela albumina
e pela α2-globulina até o fígado, onde é con-
jugada pela enzima glicuronil transferase Figura 4 – Degradação do heme e formação da bilirrubina.

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a diglicuronídeo de bilirrubina (Figura 5). sorvido, e o restante é oxidado a urobilina. Do
A bilirrubina conjugada é solúvel no plasma total reabsorvido, 90 % é reexcretado pela bile
e se excreta pela bile e pela urina. No intesti- e somente 10 % entra no sangue e pode ser
no, hidrolases bacterianas reduzem a bilirru- excretado na urina. Portanto, o urobilinogê-
bina para formar urobilinogênio, composto nio presente em condições normais na urina
incolor. O urobilinogênio que fica no intesti- representa apenas 1-2 % do total produzido
no é oxidado a urobilina, um dos pigmentos (Figura 7).
das fezes (Figura 6). Parte do urobilinogênio
No plasma, pode encontrar-se tanto bi-
no intestino é reabsorvido e volta à corrente
lirrubina conjugada ou “direta”, como bilirru-
circulatória a excretar-se via biliar ou tam-
bina livre (de fato unida a proteínas) ou “indi-
bém excretar-se pela urina. Assim, na urina,
reta”. Os termos direta e indireta referem-se a
pode-se encontrar tanto bilirrubina conjuga-
que a bilirrubina conjugada reage diretamente
da quanto urobilinogênio. A bilirrubina livre
com o reagente de Ehrlich (sais de diazônio)
se une fortemente à albumina, de forma que
para render pigmentos azo, ao passo que a bi-
não pode excretar-se pelo rim.
lirrubina livre só reage após a adição de etanol
Do urobilinogênio produzido no intes- para poder romper a sua ligação não-covalen-
tino por redução da bilirrubina, 20 % é reab- te, porém forte, com a albumina (indireta). No

Figura 5 – Conjugação hepática da bilirrubina.

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Figura 6 – Modificações intestinais da bilirrubina.

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Figura 7 – Circulação êntero-hepática normal de pigmentos biliares. CRE célula retículoendo-
telial; BL bilirrubina livre; BC bilirrubina conjugada; UB urobilinogênio (estercobilinogênio).

laboratório determina-se a bilirrubina total Variações da bilirrubinemia entre espécies


pelo método do metanol, proposto por Malloy
e Evelyn em 1937, e a bilirrubina conjugada O cavalo pode apresentar uma icterícia
(direta), pelo método de Van Der Bergh. A bi- fisiológica devido ao alto teor de bilirrubina
lirrubina livre (indireta) é calculada pela sub- livre em condições normais, especialmente no
tração da total menos a direta. Os níveis san- jejum (até 7 mg/dL) e ao consumo de carote-
guíneos normais das bilirrubinas total e direta noides e xantofilas. Em hepatopatias, o cavalo
em algumas espécies aparecem na Tabela 2. O pode ter níveis de até 25 mg/dL de bilirrubina
limiar renal de eliminação de bilirrubina con- total, sendo que menos de 10 % desse valor cor-
jugada é de 0,4 mg/dL. Uma terceira forma de responde a bilirrubina conjugada. Na anemia
bilirrubina que se une covalentemente à albu- hemolítica e na anemia infecciosa equina, os
mina tem sido relatada em casos de doenças níveis de bilirrubina total podem ir a 70 mg/dL
hepatocelulares. (a maioria bilirrubina livre). A causa da hiper-
bilirrubinemia de jejum nos cavalos deve-se

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TABELA 2 – VALORES DE REFERÊNCIA DE BILIRRUBINA
SANGUÍNEA (MG/DL) EM ALGUMAS ESPÉCIES

Espécie Bilirrubina conjugada Bilirrubina total


Bovinos 0,04-0,44 0,01-1,0
Equinos 0-0,4 1,0-2,0
Felinos 0-0,1 0,15-0,5
Suínos 0-0,3 0-0,6
Caprinos 0-0,3 0-0,1
Ovinos 0-0,27 0,1-0,5
Caninos 0-0,14 0,10-0,61
Macaco 0,03-0,05 0,4-0,5
Humano 0,2 <1,0

à diminuição da excreção pelo fígado, e não a gestação. Em ratos da raça Wibster, tem sido
uma maior produção do pigmento. identificada uma icterícia de origem heredi-
Nos ruminantes, diferentemente dos tária devido a um gene autossômico recessi-
equinos, não há grandes aumentos de bilir- vo chamado w. Os animais afetados (ww) têm
defeito genético na síntese da enzima glicu-
rubina, mesmo em doenças hepáticas. Con-
ronato transferase, que conjuga a bilirrubina
sidera-se que há icterícia quando os níveis
livre, aparecendo altos níveis desta última no
de bilirrubina direta no sangue ultrapassam
sangue, como se fosse uma hemólise.
2,0 mg/dL. Em geral, pode-se considerar
que, se a bilirrubina em excesso for mais de
50 % conjugada, trata-se de icterícia hepáti- Pigmentos biliares na urina
ca, e se for mais de 90 % conjugada, trata-se
de uma icterícia obstrutiva. Níveis proporcio- Normalmente encontram-se níveis mui-
nalmente maiores de bilirrubina livre refletem to baixos de bilirrubina conjugada na urina de
uma icterícia hemolítica. Em bovinos e em cavalos, ovelhas, porcos e gatos. No cão, o li-
equinos é aconselhável utilizar outros indi- miar renal para bilirrubina conjugada é baixo.
Assim, em doenças hepáticas, nesta espécie,
cadores da função/lesão hepática, além da bi-
o nível sanguíneo de bilirrubina conjugada
lirrubina (colesterol, albumina, glicose, ureia,
pode não aumentar muito, mas o nível na
enzimas como AST, GGT, LDH, FA, SDH, ar- urina pode estar bastante elevado (bilirru-
ginase). Considera-se que um aumento muito binúria). Na hemólise, no entanto, os níveis
grande de bilirrubina em bovinos, devido a le- de bilirrubina livre são elevados no sangue,
são hepática, representa um estágio terminal pois ela não pode passar pela barreira renal.
com muito mau prognóstico. Se aumentos da bilirrubina total no cão estão
Em quase todas as espécies, pode aconte- compostos de 50 % de bilirrubina conjugada,
cer icterícia fisiológica nos neonatos, devido é indicativo de lesão hepatocelular.
à destruição de eritrócitos. Icterícia fisioló- Na obstrução hepática (cálculos, tumo-
gica também se pode observar no jejum e na res, parasitos), as bilirrubinúrias são de maior

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dimensão, sendo o teor de bilirrubina na uri- pode-se combinar com Fe ou com Mg, mas
na diretamente proporcional ao grau de obs- também pode combinar-se com Zn, Ni, Cu,
trução. A bilirrubinúria também pode ocor- Co e Ag. Quando se une com Fe, chama-se
rer, além de hepatopatias e obstruções extra- ferroprotoporfirina (Fe2+) ou heme e ferri-
-hepáticas, em situações febris e no bovino em protoporfirina (Fe3+) ou hemin. A Hb unida
reticulite traumática e lipidose hepática. a CO chama-se carboxi-Hb, sendo fotossen-
sível, pois na presença de luz libera o CO.
O nível de urobilinogênio na urina está
A meta-Hb é a Hb com grupo hemin, isto
aumentado na icterícia hemolítica (anemias) e
é, com o ferro oxidado (Fe3+), o qual pode
em problemas hepáticos, bem como em casos
acontecer por agentes oxidantes, como peró-
de insuficiência cardíaca, por estase hepática.
xidos, ferricianeto, nitritos e quinonas.
O nível de urobilinogênio está diminuído na
icterícia obstrutiva, anemia hipocrômica (defi- A meta-Hb, presente em poucas quanti-
ciência de ferro), insuficiência renal e depres- dades sob condições normais do sangue, não
são da flora intestinal por uso de antibióticos. pode unir O2 nem CO. Pode ser reduzida por
ditionito de sódio (Na2S2O4). Quando a Hb
se combina com o íon cianeto (CN–), forma
Bioquímica da respiração a ciano-Hb. Esse íon também pode unir-se à
meta-Hb e formar cianometa-Hb.
O oxigênio no sangue é transportado por
duas vias: (a) como O2 em solução, ou (b) em A cadeia α da Hb tem 141 resíduos de
combinação química com hemoglobina (Hb) aminoácidos; e a cadeia β, 146. As duas ca-
nos eritrócitos. O transporte, na Hb, é bem deias têm 80 aminoácidos homólogos. O peso
mais eficiente porque enquanto a solubilida- molecular total da Hb é de 65.000 Da. Entre-
de do O2 é de 0,3 mL/dL de sangue, a Hb car- tanto, a Hb pode apresentar heterogeneidade:
rega 1,34 mL de O2/g de Hb. Como a concen- (a) Hb fetal-adulta (HbF-HbA): as cadeias α
tração de Hb no sangue em média é de 15 g/ são iguais, mas a HbF tem duas cadeias γ, ho-
dL, são transportados 20,1 mL/dL de sangue, mólogas com a cadeia α da HbA (diferem em
isto é, 67 vezes mais do que com O2. 37 resíduos). No feto, do total de Hb, 15 % é
A Hb tem quatro subunidades proteicas, HbF e 85 % é HbA. A HbF garante a entrega
2α e 2β, cada uma com um grupo heme que de O2 da circulação materna para a fetal por-
pode carregar 1 O2 na união com o íon Fe2+ que tem maior afinidade pelo O2.
(Figura 8): (b) Hb heterogêneas: em 10 % da Hb total do
adulto existe HbA2 (α2δ2). A cadeia δ difere
22 (deoxi-Hb) + 4O2
da β em 10 resíduos de aminoácidos. Não se
 conhece a sua função.
2β2 (heme-O2)4 (oxi-Hb)
(c) Heterogeneidade genética: é anormal,
Essa reação é possível na concentração existindo mais de 300 tipos, quase sempre
de O2 nos alvéolos pulmonares (100 mmHg). funcionais.
Nos alvéolos, também há CO2 (40 mmHg), N2 A Hb se une com o O2 em cooperativida-
(571,8 mmHg) e H2O (47 mmHg). de positiva, isto é, à medida que a oxigenação
A porção heme da Hb é idêntica em aumenta, a combinação do grupo heme das
todos os vertebrados. A protoporfirina IX outras cadeias da Hb com moléculas adicionais

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Figura 8 – Estrutura da hemoglobina. Em A, a molécula tem seus átomos representados como esferas de ta-
manhos correspondentes aos seus respectivos raios de van der Waals (“spacefill”). O grupo heme, visível nas
cadeias α, está indicado pelas setas. As cadeias α e β estão representadas em cores diferentes, conforme indi-
cado. Em B, a molécula está representada esquematicamente conforme a estrutura secundária (“cartoon”).

de O2 fica mais fácil (aumenta a afinidade pelo O2 na 4ª subunidade é 150-300 vezes maior
O2). Esse evento não acontece com a mioglobi- do que a união à 1ª subunidade.
na, pois só tem uma cadeia. A cooperatividade
No sangue arterial, a percentagem de sa-
positiva é explicada porque na forma deoxida-
turação da Hb é de 96 %; no sangue venoso,
da (dissociada) a Hb forma pontes eletrostáti-
esse valor é de 64 %. Isso acontece porque, no
cas entre as subunidades, as quais vão se rom-
sangue arterial, a P50 da Hb é de 26 torrs, e a
pendo à medida que o O2 se une aos grupos
pressão de O2 é de 100 torrs. A mioglobina
heme, o que facilita a união com o O2.
tem uma menor P50, pois esta proteína se sa-
Comparando as curvas de saturação de tura com 40-50 torrs (Figura 9).
O2 na Hb e na mioglobina, observa-se que,
enquanto a curva da mioglobina tem uma
forma hiperbólica, a curva da Hb tem uma
forma sigmoidal. Isso indica que a presen-
ça de O2 em um grupo heme tem efeito na
constante de dissociação do O2 nos outros 3
grupos, na mesma molécula, sendo maior na
4ª dissociação. A facilidade com que se une o

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Figura 9 – Curvas de saturação da mioglobina e da hemo-
globina.

Efeito do CO2 sobre a afinidade Hb-O2 pH = pK + log


HCO  
3
CO 2 
O CO2 existe no sangue:
7,4 = 6,1 + log HCO 3

 
CO 2 

(a) Como HCO no plasma e no eritrócito.
 
3

(b) Unido a proteínas plasmáticas pelos gru- HCO 3


log = 1,3
pos amina formando grupos carbamina: CO 2 
R-NH2 + CO2  R-NH-COO– + H+
HCO  = 20

3

(c) Unido a Hb, formando carbamino-Hb. CO 2 


A Hb deoxidada une CO2 com maior afi-
nidade que a HbO2. A maior proporção do
CO2 está como HCO3– no plasma. Sua con- O CO2 tem efeito sobre a curva de disso-
centração no sangue arterial é de 25,5 meq/L e ciação de O2 na Hb, deslocando-a para a direi-
no sangue venoso, de 26,4 meq/L. ta (Figura 10). Quanto mais à direita a curva
de dissociação da Hb, necessita-se de maior
Pode-se calcular a relação de bicarbo- pressão de O2 para oxigenar a Hb, isto é, o CO2
nato/ácido carbônico no plasma a partir da diminui a afinidade do O2 pela Hb, de forma
equação de Henderson-Hasselbalch, sabendo que também o O2 se libera mais facilmente da
que o pK do ácido carbônico é de 6,1, e o pH Hb. Este efeito é conhecido como efeito Bohr.
sanguíneo é de 7,4:

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Figura 10 – Efeito do pH sobre a curva de
saturação da hemoglobina.

Com Hb pura, o efeito Bohr é atribuível ao centração de 4-5 mM, sob condições normais.
pH, o qual, por sua vez, depende de mudanças Entretanto, quando a pressão de O2 diminui
na concentração de CO2: o aumento na con- na atmosfera (altitudes acima de 2.000 m so-
centração de CO2 aumenta a concentração de bre o nível do mar), o DPG aumenta. Este me-
H+, isto é, diminui o pH: tabólito afeta a afinidade do O2 pela Hb: ele se
une à Hb em um complexo 1:1, e diminui a
CO2 + H2O  H2CO3  H+ + HCO3–
afinidade da Hb com o O2, devido ao que pro-
Assim, nos tecidos periféricos, onde a move a dissociação:
concentração de CO2 é maior, e portanto a
HbO2 + DPG  Hb-DPG + O2
concentração de H+ também é maior, a afini-
dade O2-Hb diminui e o gás é liberado mais fa-
cilmente (facilita-se a oxigenação dos tecidos): Transtornos relacionados
com compostos nitrogenados
H+ + HbO2  O2 + HHb+
No pulmão, onde a concentração de CO2
é menor e o pH maior, aumenta a afinidade Porfirias
O2-Hb:
HHb+ + O2  HbO2 + H+ O termo “porfiria” provém do grego por-
o que permite a saturação da Hb com O2 a firus, que significa púrpura, e foi adotado devi-
uma baixa pressão de CO2. do ao fato de a urina dos pacientes afetados ter
essa coloração. Vários personagens da realeza
O 2,3-difosfoglicerato (DPG) é um meta- britânica (Rainha Maria e Rei Jorge III) e artis-
bólito, produzido na rota da glicólise, que se tas (Van Gogh) sofreram formas de porfiria e
encontra dentro dos eritrócitos a uma con- até é sugerido que a lenda do Conde Drácula,

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na Romênia, é atribuída a uma rara porfi- Classificação das porfirias
ria eritropoiética, cujos sintomas incluem
fotossensibilidade extrema, hipertricose no Existem diversos tipos de porfirias rela-
rosto e nas extremidades e coloração aver- cionadas com a enzima que apresenta o defeito,
melhada dos dentes. levando ao acúmulo do seu precursor imediato
e, consequentemente, desenvolvendo as ma-
A formação de porfirinas está relaciona- nifestações clínicas características (Quadro 3).
da com a biossíntese do grupo heme. Desar- As porfirias são agrupadas em duas catego-
ranjos no metabolismo das porfirinas causam rias principais, baseadas no tecido onde o
porfirias, transtornos em que a biossíntese do problema ocorre: eritropoiéticas (hereditá-
grupo heme está alterada, o que resulta em rias) e hepáticas. A forma hereditária é a mais
acúmulo de precursores tóxicos. É um grupo comum nos bovinos e a forma hepática é mais
de doenças de difícil compreensão por causa comum nos humanos. Cada tipo de porfiria
das consequências fisiológicas, além de pos- produz sintomas diferentes e requer exames
suir manifestações muito variáveis. A maioria específicos para o estabelecimento do diag-
das porfírias são hereditárias e se caracterizam nóstico e de tratamentos individualizados.
pelo aumento na concentração sanguínea de
protoporfirina e na excreção de uroporfirinas
e coproporfirinas. Porfiria eritropoiética congênita

Sete enzimas diferentes participam das É uma doença rara, descrita em bovinos,
etapas da síntese do grupo heme (Figura 3) e a suínos e felinos. Em humanos é conhecida
sua deficiência pode gerar o acúmulo das por- como doença de Gunther. O defeito é here-
firinas nos tecidos, especialmente na medula ditário, sendo autossômico recessivo em bo-
óssea e no fígado. As porfirinas em excesso vinos e autossômico dominante em felinos,
aparecem então no sangue e são excretadas suínos e humanos. Em bovinos o transtorno
na urina ou nas fezes. O excesso de porfirinas foi descrito nas raças Shorthorn, Holandesa e
pode acarretar fotossensibilidade, condição Ayrshire. Como o fator é recessivo simples, os
na qual os pacientes se tornam sensíveis à luz animais heterozigotos são normais.
solar, ou causar lesões nervosas.
As bases metabólicas desta doença se
caracterizam pela deficiência da enzima
Etiologia uroporfirinogênio III cosintetase. Na ausên-
cia dessa enzima, são formados os isômeros
As porfirias podem originar-se de duas uroporfinogênio I e coproporfinogênio I.
causas: (1) marcado incremento da atividade Esses isômeros não são convertidos em pro-
da ALA sintetase ou (2) redução da atividade toporfinogênio e nem sintetizam a porção
da uroporfirinogênio sintetase. O resultado é heme da hemoglobina. Isso se deve à inexis-
aumento na concentração de porfobilinogê- tência da enzima coproporfirinogênio I oxi-
nio no sangue, que pode ser detectado na uri- dase e à alta especificidade do coproporfiri-
na. O aumento dos pigmentos porfirínicos no nogênio III oxidase. O uroporfinogênio e o
sangue causa dermatite devido a sua reação coproporfinogênio oxidados correspondem
com a luz solar. Em humanos, a doença é rara à uroporfirina e coproporfirina acumuladas.
e tem sido subdiagnosticada, situação que é Essas porfirinas se depositam nos tecidos
mais acentuada em animais. e, quando expostas à luz ultravioleta, a pele

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QUADRO 3 – CLASSIFICAÇÃO DAS PORFIRIAS COM SUAS RESPECTIVAS ENZIMAS DEFICITÁRIAS

Tipo de porfiria Enzima deficiente


Porfiria eritropoiética congênita Uroporfinogênio III sintetase
Protoporfiria eritropoiética Ferroquelatase
Porfiria por deficiência de ALA ALA desidrogenase
Porfiria aguda intermitente Uroporfinogênio I sintetase
Porfiria cutânea tardia Uroporfinogênio descarboxilase
Porfiria hepatoeritropoiética Uroporfinogênio descarboxilase
Harderoporfiria Coproporfinogênio III oxidase
Coproporfiria hereditária Coproporfinogênio III oxidase
Porfiria variegate Protoporfinogênio oxidase

reage liberando calor e causando lesões aos solar, ocorrendo formação de radicais livres na
tecidos. Os eritrócitos com quantidade au- célula, com ruptura de mitocôndrias e lisos-
mentada de porfirinas são mais susceptíveis somos, degranulação de mastócitos cutâneos,
à destruição, tendo uma meia-vida menor degradação da membrana fosfolipídica e de
que os eritrócitos normais. Essa diminuição polipeptídeos proteicos e ácidos nucleicos, ge-
da meia-vida está ligada a um processo he- rando inflamação na pele. Devido à deposição
molítico que não está bem esclarecido. das porfirinas nos eritrócitos, estes acabam por
ter uma meia-vida menor, sendo mais sujei-
Os isômeros são oxidados a uroporfirina tos à destruição e acarretando hemólise. Adi-
e coproporfirina que são acumuladas no or- cionalmente, com diminuição na síntese do
ganismo. heme, ocorre também demora da maturação
Os sinais clínicos em bovinos se caracte- dos eritrócitos, o que acentua a anemia.
rizam pela coloração marrom avermelhada Em geral, os suínos não apresentam fo-
de dentes, ossos e urina, exibindo marcada tossensibilização, mas a doença pode ser reco-
fluorescência rósea quando irradiados com nhecida pela coloração dos dentes. Nos felinos
luz ultravioleta. A exposição prolongada à a doença é observada na época da erupção dos
luz solar causa lesões típicas de fotossensibi- dentes primários, quando esses se apresentam
lização, com necrose superficial nas regiões
com pigmentação acastanhada e fluorescência
não pigmentadas da pele. Também ocorre
vermelho-rosada sob luz ultravioleta. Após
anemia caracterizada por normocromia com
a troca para os dentes permanentes, essa pig-
macrócitos e micrócitos, e pontilhado basó-
mentação se torna menos visível. Em gatos não
filo marcante, com eventual esplenomegalia
são observados sinais sistêmicos. Em outros
e fragilidade óssea. O animal torna-se pro-
gressivamente apático e morre. A fotossensi- animais podem ser observados urina cor-de-
bilização é caracterizada por eritema agudo, -rosa, dentes marrom-rosados e anemia seve-
edema e necrose superficial nas partes não ra, além de lesões de fotossensibilização.
pigmentadas da pele. As lesões de fotossen- O diagnóstico é feito com base no his-
sibilização ocorrem em virtude da deposição tórico, nos sinais clínicos e nas alterações la-
das porfirinas nos tecidos expostos à radiação boratoriais. A urina dos bovinos acometidos

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pode conter 500 a 1.000 μg/dL de uroporfi- Protoporfiria eritropoiética
rinas e 356 a 1.530 μg/dL de coproporfirina,
sendo que a urina de bovinos normais con- Esta desordem no metabolismo das por-
tém de 2,05 a 6,15 μg/dL de coproporfirinas firinas ocorre em bovinos (principalmente da
e 0,80 a 1,60 de uroporfirinas. Na necropsia raça Limousine) e em humanos. Possui uma
os ossos aparecem com coloração marrom herança autossômica dominante em huma-
ou marrom-avermelhada. Os pigmentos nos e é recessiva, podendo estar ligada ao sexo
porfirínicos se depositam nos ossos e dentes em bovinos, ocorrendo apenas em fêmeas.
por possuírem afinidade pelos componentes O paciente portador desta doença apresenta
minerais desses tecidos. Além disso, as porfi- fotossensibilidade sem ter anemia, pigmen-
rinas podem depositar-se em outros órgãos tação dentária ou dos ossos nem porfirinúria.
como pulmões, baço e rins. Há um aumento da protoporfirina fecal e no
eritrócito, devido a um defeito na enzima fer-
A porfiria eritropoiética congênita nos roquetalase. Essa enzima é a última enzima da
bovinos deve ser diferenciada de protoporfi- síntese do heme, sendo responsável pela in-
ria eritropoiética, babesiose, intoxicação por corporação de Fe+2 à protoporfirina IX.
Lantana spp e fotossensibilização causada por
Brachiaria spp. A protoporfiria eritropoiética Os sinais clínicos apresentados são ape-
ocorre, geralmente, na raça Limousine e apre- nas lesões de fotossensibilização, não ocor-
rendo anemia, pigmentação nos dentes e
senta apenas lesões de fotossensibilização.
ossos nem porfirinúria. As lesões podem ser
Na babesiose os animais apresentam febre e
observadas de poucos minutos a uma hora de
os demais sinais desta patologia. Os casos de
exposição solar, caracterizadas por ardência,
intoxicação por Lantana spp ocorrem em sur-
prurido, eritema e formação de feridas. Em
tos e a planta é observada na propriedade. Os
casos crônicos a pele se apresenta engrossa-
casos de fotossensibilização por ingestão de
da e com diminuição da elasticidade. A pro-
Brachiaria spp apresentam apenas as lesões de
toporfirina acumulada se deposita na pele,
pele e a presença da planta nas pastagens. A
na medula óssea, nos eritrócitos e no plasma
fotossensibilização por Brachiaria spp é uma
sanguíneo. Os pacientes podem desenvolver
doença provocada pelo acúmulo de clorofila
cálculos biliares e lesões hepáticas devido à
na pele associada à incidência de raios solares,
deposição do pigmento porfirínico no fígado.
problema que se desenvolve quando existem
em conjunto lesões hepáticas, geralmente O diagnóstico desta porfiria é difícil por-
causadas pelo fungo Pithomyces chartarum, que a protoporfirina é insolúvel e não é excre-
presente nessas pastagens. tada na urina. Só é detectada quando em altas
concentrações no plasma e nos eritrócitos.
O tratamento das porfirias consiste em
Para auxiliar na obtenção do diagnóstico, po-
evitar a exposição ao sol. De qualquer forma,
dem ser realizadas dosagem de protoporfirina
os animais de produção que possuam essa
livre, biopsia de pele, dosagem de porfirinas
doença devem ser eliminados da reprodução.
na urina e fezes, hemograma completo, indi-
Em humanos são realizadas, como tratamen-
cadores bioquímicos de função hepática, eco-
to, hemotransfusões e transplantes alógenos
grafia do fígado e vias biliares, radiografias e
de medula óssea. O tratamento tópico com
a eliminação de outras patologias que cursem
antissépticos e pomadas pode ser associado.
com fotossensibilização.

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O tratamento consiste em evitar a expo- nível de protoporfirina IX livre, ficando com-
sição à luz solar e em usar betacarotenos em prometida a síntese do grupo heme. As alte-
quantidades suficientes para a pele adquirir rações levam a uma anemia sideroblástica. A
uma coloração amarelada, tornando-a mais enzima coproporfirinogênio oxidase também
resistente à radiação solar. Em conjunto po- pode estar inibida, levando ao aumento de co-
dem-se utilizar protetores solares e pomadas proporfirina. Em aves aquáticas o saturnismo
com óxido de zinco. é considerado, hoje, uma das doenças mais
importantes, devido à alta taxa de mortali-
dade e à dificuldade de prevenção e controle.
Porfirias hepáticas O chumbo é um metal tóxico que existe em
abundância e é muito utilizado na indústria.
O nome deste grupo deve-se ao fato de
o fígado ser o local predominante do defeito Os principais sinais clínicos estão re-
metabólico. Deficiências de enzimas espe- lacionados com sistema nervoso e gastrin-
cíficas têm sido identificadas para todas as testinal: perda de peso, diarreia e vômito.
formas de porfirias hereditárias. São mais fre- Os sintomas nervosos são manifestados por
quentes em humanos do que em animais. A paralisia das extremidades inferiores, ataxia,
porfiria hepática tem sido dividida em: em alguns casos convulsão, e os animais se
apresentam com debilidade geral. Os sinto-
(a) Aguda intermitente (tipo sueco), com ma- mas neurológicos podem variar de estados de
nifestações neurológicas (tremores) e desar- convulsão epileptiformes até alterações com-
ranjos psíquicos nos humanos. portamentais sutis. Tanto o cérebro quanto os
(b) Mista, que pode ser com manifestações nervos periféricos podem ser afetados. É tam-
cutâneas, com manifestações da porfiria tipo bém observada anemia hipocrómica. Em aves
sueco ou com combinação de sinais clínicos. é observada atrofia dos músculos peitorais,
tornando-as presas fáceis pela dificuldade
(c) Sintomática, que pode ser idiossincrática,
em levantar voo. Pode ser observada também
associada com alcoolismo, doenças sistêmi-
insuficiência renal, fraqueza neuromuscular,
cas ou intoxicação com chumbo, ou adquiri-
ataques de apoplexia e coma.
da, quando induzida com hexaclorobenzeno
ou causada por hepatomas. A confirmação do diagnóstico de plum-
bismo é por mensuração dos níveis de chum-
bo no sangue. Concentrações de chumbo de
Porfiria hepática por intoxicação com chumbo 0,35 ppm ou maiores são indicativas de into-
xicação, e concentrações de 0,60 ppm ou mais
A intoxicação com chumbo (plumbis- são consideradas diagnósticas. As dosagens
mo) pode afetar todos os animais domésticos, de ALA urinária e de protoporfirina no san-
sendo um problema clínico significante, prin- gue também podem ser indicativos. No he-
cipalmente em cães. O chumbo está presente mograma observam-se anemia e hemácias
em tintas velhas, projéteis, peso de pescaria, nucleadas na circulação sanguínea, além de
soldas e outros materiais. Em relação ao me- diminuição da hemoglobina. A presença de
tabolismo do heme, duas enzimas são espe- eritrócitos nucleados na circulação, basófilos
cialmente sensíveis à intoxicação com chum- pontilhados, na ausência de anemia é carac-
bo, a ALA-desidrogenase, mais fortemente terístico de exposição crônica ao chumbo.
inibida, causando um acúmulo de ALA, e a Porém, pode também se desenvolver anemia
ferroquelatase, que quando inibida eleva o microcítica e hipocrômica. A radiografia é

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útil nos casos de ingestão de corpos estranhos Icterícia hemolítica (pré-hepática)
e materiais radiodensos. Podem ser observa-
das linhas de chumbo nas radiografias ósseas, Ocorre por destruição massiva intravas-
que são faixas escleróticas de dois a quatro cular de eritrócitos (anemia hemolítica), por
centímetros de espessura, na metáfise de os- exemplo, na anaplasmose e babesiose dos bo-
sos longos de cães imaturos. vinos ou na malária dos humanos. Nesse caso,
a bilirrubina livre em excesso, diante da libe-
O tratamento consiste na remoção da
ração massiva de hemoglobina, acumula-se
origem da intoxicação e utilização de fár-
no sangue, pois o fígado não pode processá-la
macos quelantes de chumbo, como EDTA
com a mesma velocidade com que se produz.
cálcio e D-penicilamina. O EDTA ao entrar
em contato com o chumbo substitui seu íon A bilirrubina conjugada é excretada no intesti-
cálcio pelo chumbo, ocorrendo a formação no e transformada em urobilinogênio, o qual,
de um complexo não tóxico que pode ser fa- sendo reabsorvido pelo próprio intestino, tem
cilmente eliminado. Em casos de ingestão de altos níveis no sangue e, portanto, também na
corpos estranhos contendo chumbo, a remo- urina. Assim, a icterícia hemolítica se caracteriza
ção cirúrgica é indicada. por ter altos níveis sanguíneos de bilirrubina li-
vre, bem como altos níveis de urobilinogênio no
sangue, nas fezes e na urina. Como a bilirrubina
Icterícias livre não pode ser excretada na urina, encontra-
-se pouca bilirrubina na urina dos animais
O nível de bilirrubina é um índice do com este tipo de icterícia (Figura 11). Numa
funcionamento hepático. O aumento de bi- crise hemolítica pode ocorrer hemosside-
lirrubina no sangue causa icterícia, colora- rose (sobrecarga de pigmentos biliares no
ção amarela na pele e nas mucosas devido fígado), a qual pode levar à lesão hepática
à deposição de pigmentos biliares. Existem secundária. Nesse caso, diminui a excreção
três tipos básicos de icterícias: hemolítica, de urobilinogênio via biliar, devido à lesão
hepática e obstrutiva. O Quadro 4 apresenta
hepatocelular, aumentando o teor de urobi-
um resumo sobre os níveis de bilirrubina nos
linogênio na urina.
diferentes tipos de icterícia.

QUADRO 4 – ALTERAÇÕES NOS NÍVEIS DE BILIRRUBINA


E UROBILINOGÊNIO EM DIFERENTES TIPOS DE ICTERÍCIAS
Icterícia Bilirrubina no plasma Urobilinogênio na urina
Livre Conjug.
Hemolítica   
Hepática   
Obstrutiva = 

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Figura 11 – Circulação êntero-
-hepática de pigmentos biliares
na icterícia pré-hepática.

Várias causas podem levar à hemólise: aumentado no sangue. Por ocasião de hemóli-
congênitas (porfirias, deficiência de enzimas se intravascular, haverá um excesso de hemo-
glicolíticas), virais (anemia infeciosa equina), globina livre que se liga a haptoglobina sendo
bacterianas (leptospirose, hemobartonelose, retirada pelo sistema fagocítico mononuclear.
eperitrozoonose), riquétsias (anaplasmose), Quando a hemoglobina supera os níveis de
protozoários (babesioses, citauxzoonose, tri- haptoglobina, ela é excretada pela urina (he-
panossomíase), induzidas por substâncias moglobinúria). A hemoglobina em excesso
químicas (cebola, propileno-glicol, aspirina, poderá induzir uma nefrose tubular tóxica.
zinco, cobre), imunomediadas (imunocom- Como o mecanismo de secreção de bi-
plexos, isoeritrolise neonatal). Nesses casos lirrubina é dependente de energia, esse con-
mais bilirrubina (pela hemólise) é conjugada sumo estará aumentado nos casos de hemó-
e excretada que o normal, mas a conjugação lise. Como a região centrolobular é a última
está sobrecarregada, de forma que se acumula porção do lóbulo hepático a receber sangue,
bilirrubina não conjugada. No intestino a bi- uma redução acentuada de oxigênio decor-
lirrubina conjugada passa a urobilinogênio, rente de anemia e do consumo aumentado
que é reabsorvido e consequentemente estará pode induzir uma lesão irreversível.

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Se a hemólise for a causa primária de que ocorra hiperbilirrubinemia, tais como
icterícia, as mucosas deverão estar extrema- produção aumentada, depuração reduzida,
mente pálidas. No caso de hemólise há au- problemas na conjugação pelo fígado e co-
mento de bilirrubina conjugada e aumento lestase. A hemólise no hepatopata é causada
mais pronunciado de não conjugada. Tam- pela diminuição da meia-vida das hemácias
bém há aumento de urobilinogênio, não ape- (em cães a meia-vida cai de 60 a 80 dias para
nas por maior liberação de bilirrubina conju- 20 a 40 dias). Neste tipo de icterícia as muco-
gada para o intestino, que é transformada em sas aparecem normais ou levemente pálidas.
urobilinogênio e reabsorvida, como também Na maioria dos casos de doenças hepáticas
pela diminuição da excreção de urobilinogê- com icterícia, há aumento de bilirrubina não
nio sanguíneo através do hepatócito por le- conjugada, embora menos que nos casos de
são da região centrolobular, sendo, portanto, hemólise, e de bilirrubina conjugada direta,
eliminado pela urina. tendo também maior eliminação de urobili-
nogênio pela urina devido à lesão hepática.

Icterícia hepática
Icterícia obstrutiva (extra-hepática)
Ocorre por lesão hepática (por exemplo,
na hepatite, leptospirose, intoxicação com Ocorre por obstrução dos dutos biliares,
tetracloreto de carbono). A bilirrubina livre, por exemplo, nos processos inflamatórios
produzida normalmente pelo catabolismo da causados nos canalículos biliares pela Fasciola
hemoglobina, acumula-se no sangue porque hepatica nos ruminantes e também em casos
o fígado lesado não a processa com rapidez. de tumores, cálculos biliares e pancreatite
Por outro lado, os hepatócitos inflamados extensiva. Neste caso, a bilirrubina conju-
causam obstrução dos canalículos biliares, gada produzida normalmente não consegue
impedindo que a bilirrubina que está sendo sair pela bile e se acumula no sangue. Dessa
conjugada consiga sair pela bile, obrigando-a forma, não se produz urobilinogênio (as fe-
a extravasar-se na circulação, havendo, por- zes são pálidas) e se encontra aumento de bi-
tanto, aumento anormal da bilirrubina con- lirrubina conjugada tanto no sangue quanto
jugada no sangue. A pouca bilirrubina conju- na urina. Este tipo de icterícia é o que produz
gada que consegue sair pela bile é convertida os mais altos níveis de bilirrubina conjugada
em urobilinogênio no intestino e imediata- no plasma e na urina (Figura 13).
mente reabsorvida. Porém, esse urobilinogê-
nio não pode ser excretado pela bile, devido Observa-se uma distensão de ductos
à lesão hepática, e deve, portanto, excretar- biliares próximos à obstrução seguida de
-se pela urina. Assim, na icterícia hepática distensão progressiva no sentido retrógra-
encontra-se aumento dos níveis sanguíneos do nos ductos intra-hepáticos e dentro do
de bilirrubina total (conjugada e livre), bem lóbulo no espaço-porta. O ingurgitamento
como aumento dos níveis de urobilinogênio e dos canalículos e estase da bile no interior
de bilirrubina na urina (Figura 12). do citoplasma dos hepatócitos ocorre mais
tarde. Com a cronicidade da obstrução
A icterícia é a anormalidade específica ocorre extensa fibrose hepática (fibrose bi-
mais frequente em cães e gatos com doença liar), que é centrada no espaço-porta, po-
hepática (20 % dos cães e 30-40 % dos gatos). dendo ocorrer também ruptura dos cana-
Nos casos de doença hepática difusa gra- lículos e extravasamento de bile causando
ve, ocorre uma combinação de fatores para áreas focais de necrose hepatocelular.

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Figura 12 – Circulação êntero-hepática
de pigmentos biliares na icterícia hepática.

Figura 13 – Circulação êntero-


-hepática de pigmentos biliares
na icterícia pós-hepática.

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No cão, a obstrução do ducto comum O CO concorre com o oxigênio pela
nem sempre leva à icterícia, pois existem união às proteínas com grupos heme: Hb,
normalmente ductos supranumerários. Nos Mb, citocromos, catalase, peroxidase. A afi-
gatos, podem encontrar-se problemas hepá- nidade do CO é 200 vezes maior do que a do
ticos e pancreáticos simultâneos quando há O2 pela Hb, 30-50 vezes maior pela Mb e é
obstrução na saída para o intestino, pois os menor nos citocromos. O resultado é que o
ductos colédoco e pancreático se unem antes O2 é impedido de ser transportado para os
de desembocarem no intestino. Essas duas tecidos, causando hipoxia tissular.
alterações associadas com alterações intesti-
Por outra parte, a curva de dissociação
nais formam o quadro denominado triadite.
da Hb é deslocada para a esquerda quando
a COHb chega a 10 % no sangue, isto é, a li-
Intoxicações que comprometem beração de O2 da Hb torna-se diminuída (a
a função do grupo heme pressão de O2 no tecido deve ser maior para
que o O2 seja liberado da Hb), o que pode ser
resultado do fato de o O2 já ligado unir-se
Intoxicação com monóxido de carbono
mais fortemente à Hb quando existem outros
sítios da mesma Hb com CO. A P50 (pres-
O monóxido de carbono (CO) resulta da são de O2 associada com 50 % de saturação
combustão incompleta (ou seja, quando não da Hb) cai no sangue de 26,5 para 21 mmHg.
há suficiente oxigênio para a combustão) dos O resultado é que o CO causa diminuição da
compostos orgânicos, especialmente dos com- entrega de O2 aos tecidos. Além disso, os sí-
bustíveis hidrocarbonados, como, por exem- tios de Fe2+ ainda livres da Hb tornam-se de
plo, nos motores de combustão interna. O CO mais difícil reação com o O2 quando a Hb
é menos pesado que o ar e tende portanto a ir tem outros sítios unidos a CO.
para cima. Considera-se que os níveis de CO A hipoxia tissular causada pelo CO pode
no ar limpo são de 0,02 ppm. Nas ruas das causar necrose nas fibras cardíacas, afetando o
grandes cidades, o nível vai para 13 ppm e, nas ECG, e nas células do cérebro, afetando o com-
ruas mais poluídas, pode chegar a 40 ppm. portamento neurológico. A acidose metabólica
O metabolismo animal produz poucas causada pelo CO é compensada com hiperven-
quantidades de CO a partir do catabolismo tilação, causando alcalose respiratória. O san-
da fração heme (1 mol de CO/mol de heme). gue fica de cor vermelho-brilhante em razão de
A produção endógena de CO leva à formação o oxigênio não poder entrar nas células (dife-
de carboxiemoglobina (COHb), a qual pode renciar de intoxicação por cianeto).
estar no sangue em concentrações de 0,5-3 %. Dentre as diferentes espécies, as aves e,
Quando o nível de COHb atinge 12 %, ini- em particular, os canários são as mais sus-
bem-se os sistemas oxidases de degradação cetíveis à intoxicação com CO. O cachorro é
do heme que levam à formação de CO. Até mais sensível do que o ser humano ao CO.
1-3 % de COHb no sangue não se observam O animal afetado deve ser tratado imedia-
efeitos clínicos visíveis. Com 6-8 % de COHb tamente com O2, de preferência misturado
há certa tontura, e com 20 % há incoordena- com CO2, para deslocar o CO (a mistura re-
ção motora. Com 20-40 % ocorre letargia, comendável é de 94 % de O2 e 4 % de CO2).
dispneia, coma, e a morte acontece com níveis
de 60-70 % de COHb no sangue.

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Intoxicação por nitritos Os animais monogástricos são, em geral,
mais tolerantes ao nitrato, pois não possuem
O íon nitrato (NO3–) é um componente mecanismos para reduzi-lo de forma rápida
do metabolismo das plantas. O N atmosféri- a nitrito, primeiro composto produzido na
co fixado pelas bactérias na forma de amô- redução e bem mais tóxico, como é o caso
nia (NH3) é convertido em nitrato e captado dos ruminantes. Entretanto, são mais sus-
pelas plantas, as quais o utilizam para a sín- cetíveis aos nitritos que aos nitratos quando
tese de proteínas. Os dejetos nitrogenados comparados com os ruminantes (10 a 3).
animais (ureia e amônia) são convertidos
em nitrito (NO2–), que pode ser absorvido e O íon nitrato como tal não é tóxico, mas
utilizado pelas plantas. Tanto nitratos quanto ele pode ser reduzido no trato gastrintestinal
nitritos são solúveis em água, de forma que, dos animais ruminantes e herbívoros para
no solo, são lixiviados, podendo aparecer em íon nitrito, o qual é altamente tóxico e de fácil
reservatórios de água. absorção. O íon nitrito oxida o ferro Fe2+ da
Hb, o qual passa para Fe3+, formando MetHb,
Fontes importantes de contaminação de a qual não pode aceitar o O2, resultando em
nitratos e nitritos são matéria orgânica em anoxia tissular.
decomposição, fertilizantes nitrogenados
(especialmente nitratos de Na, de amônia e Na intoxicação aguda por nitratos, os
de Ca), dejetos animais, resíduos de silagem. sintomas aparecem 1-4 horas após a ingestão
Nas plantas, os nitratos podem acumular-se no alimento ou na água. Os sintomas são
sob algumas condições: (a) solos com altos evidentes quando os níveis de MetHb atin-
níveis de nitratos ou de amônia; (b) solos gem 30-40 % do total de Hb, e a morte acon-
úmidos e ácidos ou com deficiência de Mo, S tece com níveis de 80-90 %. A proporção
ou P; (c) solos arejados; (d) condições de seca normal de MetHb com relação à Hb varia de
ou de frio; (e) tratamento com herbicidas. O 0,6 a 1,4 % (menor no porco, intermediário
nitrato se acumula mais no caule das plantas nas vacas e maior no cavalo). Entre os sin-
e menos nas folhas. tomas mais comuns estão salivação, vômito,
diarreia, dor abdominal e poliúria. A anoxia
A intoxicação aguda por nitratos ocorre leva a dispneia, ataxia e pouca resistência ao
quando as plantas contêm mais de 1 % de ni- exercício, tremores, enfraquecimento, con-
trato, ou quando a água atinge 1.500 ppm. A vulsões, mucosas cianóticas e pulso fraco e
tolerância a nitratos nos ruminantes aumen- rápido. O sangue aparece escuro (cor cho-
ta com dietas de boa qualidade, com bastan- colate) devido à pouca oxigenação.
tes carboidratos solúveis disponíveis, porque
A formação de MetHb pela ação dos ni-
se acelera o processo normal de redução de
tritos pode considerar-se como ação secundá-
nitratos até amônia:
ria. A ação primária dos nitritos é sobre o SNC
NO3–  NO2–  N2O  NH2OH  NH3 e os vasos sanguíneos (pulso rápido e baixa
pressão arterial). Os ruminantes são menos
sensíveis a esse efeito primário que os cavalos,
porém mais suscetíveis ao efeito da MetHb.

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O tratamento está direcionado para vol-
tar o ferro da Hb a seu estado reduzido. Utili-
za-se azul de metileno, o qual atua no sangue
como agente redutor após converter-se em
leucometileno:

Contudo, deve ter-se precaução com metais, em venenos para roedores e em ferti-
dosagem excessiva de azul de metileno, pois lizantes nitrogenados (e.g. cianamida de Ca).
pode reverter-se o processo e aumentar a Muitas plantas acumulam glicosídeos cia-
metemoglobinemia. Sugere-se uma dose de nogênicos que podem hidrolisar-se e liberar
4 mg/kg de peso, administrado intravenosa- HCN, entre outros, sorgo, pasto sudan, milho,
mente, de uma solução de azul de metileno trevo branco, folhas de pêssego. Normalmente a
2-4 %. A administração com sonda de óleo hidrólise é inibida na planta porque há separação
mineral via ruminal alivia a ação cáustica dos compartimental entre a enzima (β-glicosidase)
nitritos formados e facilita sua eliminação. e os glicosídeos. Entretanto, a hidrólise pode
O uso de catárticos salinos e antibióticos, ocorrer após congelamento, murchidão ou por
bem como de água gelada (12-20 L), ajuda falta de desenvolvimento. Também pode ocor-
a diminuir a ação redutora das bactérias (e, rer quando as plantas são maceradas no intes-
portanto, a produção de nitritos) e melhora tino. Os sorgos modernos têm baixo potencial
a eliminação de nitrato. Em cavalos, o efeito cianogênico. A maioria da atividade cianogêni-
primário dos nitritos sobre o SNC e o siste- ca das plantas está nas folhas e nas sementes. As
ma vascular pode tratar-se com adrenalina. plantas da família Cruciferae, principalmente do
O nitrato também pode atuar como gênero Brassica spp. (mostarda, brócolis, re-
composto antitireoidiano, pois interfere com polho, etc.), bem como a Glycine max (soja) e
a captação de iodo pela tireoide. Em vacas, o Linum usitatissimum (linho) podem conter
pode apresentar-se intoxicação crônica por tiocianetos, substâncias que inibem a produ-
nitratos, o que resulta em queda da produção ção de hormônios tireoidianos, resultando
de leite e sintomas similares à deficiência de em hipotireoidismo e bócio.
vitamina A. Os animais toleram poucas quantida-
des de cianetos. O íon cianeto (CN–) reage
Intoxicação com cianeto com o Fe3+ da citocromo oxidase formando
um complexo estável. A cadeia de transpor-
Os cianetos, designação genérica dos te de elétrons para e a respiração celular se
sais do ácido cianídrico (HCN), são tóxicos detém, causando anoxia citotóxica (o O2
de rápida ação. Podem ser encontrados em não pode ser utilizado). Como resultado, a
algumas plantas, em produtos de limpeza de Hb não pode liberar mais O2 para que entre

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no sistema de transporte eletrônico das cé- Nesse tratamento, deve adicionar-se
lulas, pois o tecido está com uma alta pres- tiossulfato, o qual reage com o CN– (com a
são de O2. O sangue fica de cor vermelho- enzima rodanase) para formar tiocianeto,
-brilhante, altamente oxigenado, pois o O2 que é excretado pela urina. A dosagem reco-
não pode ser utilizado pelas células por ter mendada é uma mistura de 1 mL de nitrito
o sistema respiratório bloqueado. de Na 20 % + 3 mL de tiossulfato de Na 20 %.
O CN– atua mais rapidamente naqueles Aplica-se intravenosamente 4 mL da mistu-
tecidos onde a citocromo oxidase é mais con- ra/45 kg de peso.
centrada: SNC e coração. Ocorre uma rápida
depressão da atividade cerebral. Todavia, o
centro respiratório demora para ser atingido. Intoxicação por ureia (amônia)
A intoxicação é rápida, e os sintomas aparecem
A ureia é originária do catabolismo de
poucos minutos após a ingestão: inicialmente
há hiperexcitabilidade e tremores musculares, aminoácidos, ácidos nucléicos e de amônia
polipneia seguida de dispneia, salivação, lacri- endógena ou exógena, proveniente da die-
mação, evacuação de fezes e urina, e finalmente ta. Quanto mais rica for a dieta em proteína
convulsões (pela anoxia) e morte. Por volta de bruta, maior será o teor de ureia plasmática.
40 enzimas podem ser inibidas pelo CN–, mas Em casos de carência de proteína, o organis-
a citocromo oxidase é a mais sensível (50 % de mo reage reduzindo as perdas orgânicas de
inibição reversível com 0,01 mM de CN) e a nitrogênio. A principal via de excreção de ni-
que tem maior repercussão metabólica. trogênio é pela urina, mediante a eliminação
de ureia. Os ruminantes, além da excreção
Geralmente as intoxicações por cianeto
urinária, reciclam a ureia por meio da saliva
em veterinária são agudas. Níveis de cianeto
que chega ao rúmen para fornecer fonte ni-
de mais de 200 ppm em plantas podem cau-
trogenada aos microrganismos ruminais.
sar problemas de intoxicação. Contudo, a to-
xicidade depende de: (a) tamanho do animal, Os rins têm grande capacidade de ex-
(b) velocidade da ingestão, (c) alimento que cretar a ureia, sendo filtrada do sangue pelo
foi ingerido com o cianogênico e (d) habili- glomérulo renal, reabsorvida e excretada nos
dade para detoxificar. O tratamento deve le- vários segmentos dos túbulos renais, o que
var à quebra da união entre o CN– e o Fe3+ da resulta em uma grande concentração de ureia
citocromo oxidase, o que pode ser feito com por volume de urina com relação ao seu teor
nitrito de sódio para provocar a formação de no sangue. O teor de ureia na urina pode ser
metemoglobina (MetHb), a qual concorre centenas de vezes superior à ureia plasmática.
com a citocromo oxidase pelo íon CN– para A concentração de ureia urinária reflete fiel-
formar cianometHb. A MetHb tem maior mente a quantidade de ureia no soro.
afinidade pelo CN– que a citocromo oxidase:
Os ruminantes, no decorrer da evolu-
ção, alimentaram-se com dietas relativa-
mente pobres em proteína, em comparação
com os monogástricos. Isso fez com que de-
senvolvessem mecanismos compensatórios
para economizar o nitrogênio eliminado
na urina, mediante uma intensa reabsorção
de ureia nos dutos coletores, o que resulta
em uma taxa de excreção urinária de ureia

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muito baixa quando recebem dietas baixas normais de digestão e absorção. Entretanto,
em proteína. Por outro lado, semelhante ao se for consumida uma quantidade de ureia
que acontece com os monogástricos, caso os além da que os organismos do rúmen podem
ruminantes sejam alimentados com crescen- metabolizar, a amônia é absorvida a partir
tes quantidades de proteína na dieta, maior do rúmen entrando na circulação sanguínea.
será a excreção de ureia na urina. Compa- Essa amônia é convertida em ureia no fíga-
rando períodos de carência e de abundân- do (ciclo da ureia) para depois ser excretada
cia de nitrogênio na dieta, a concentração pelo rim. Essa rota pode rapidamente ser
de ureia urinária pode aumentar cerca de 25 sobrecarregada e pode ocorrer um excesso
vezes contra um incremento de apenas 9,7 de amônia e de ureia no sangue, caracteri-
vezes no plasma, indicando a sensibilidade zando uma intoxicação. A amônia em exces-
e o potencial diagnóstico da análise na uri- so alcaliniza o plasma e causa bloqueio do
na. Entretanto, em ruminantes com carência ciclo de Krebs, por exaurir a quantidade de
de proteína mantidos em jejum ou anorexia, α-cetoglutarato (metabólito intermediário
ocorre um aumento do catabolismo de ami- do ciclo) para formar ácido glutâmico, na
noácidos, aumentando os teores de ureia sé- tentativa de eliminar a amônia da circulação.
rica e urinária, dificultando a interpretação.
Sinais clínicos
Etiologia
Na intoxicação por ureia ocorre acúmu-
A intoxicação com ureia é muito comum lo de NH3 e CO2 no rúmen, como produtos
em rebanhos de bovinos, nos quais esse com- da hidrólise da ureia por parte das bactérias
posto é usado como fonte de nitrogênio não ruminais. O excesso de NH3 alcaliniza o
proteico (NNP) em suplementação alimentar. meio ruminal, e ambos os gases são absor-
Esta intoxicação apresenta-se principalmente vidos através da mucosa, causando uma in-
de forma aguda, sendo causada quando os ani- toxicação sistêmica. Os animais apresentam
mais recebem grandes quantidades de ureia sinais clínicos que se manifestam entre 30
ou sais de amônia sem permitir uma adapta- e 60 minutos depois do consumo da ureia e
ção adequada para aproveitar essas fontes de caracterizam-se por tremores musculares,
nitrogênio, ou quando são ultrapassados os salivação, respiração acelerada, atonia ru-
minal (timpanismo), apatia, ataxia e sudora-
limites para a sua utilização. O problema é
ção. Em casos mais complicados há também
favorecido quando não se fornecem suficien-
dispneia marcada, timpanismo, prostração
tes glicídeos de fácil digestão. É frequente que
do animal e extensão de extremidades. A
se apresente como acidente por inadequada
frequência cardíaca está aumentada (100-
mistura dos alimentos, ou quando se jogam 160 bat/min), há regurgitação e morte entre
fertilizantes que fiquem facilmente acessíveis 45 e 120 minutos depois da ingestão. Outros
aos animais. Uma vaca pode chegar a morrer sinais podem incluir contração das orelhas e
em pouco tempo ao consumir 100 a 200 g de dos músculos faciais, ranger de dentes, dor
ureia quando não está adaptada. abdominal, micção frequente, andar camba-
Nos ruminantes, o nitrogênio da ureia leante, espasmos violentos e urros. Com fre-
é liberado no rúmen na forma de amônia, quência, os animais são encontrados mortos
podendo ser usado pela microflora ruminal próximos da fonte de ureia.
para a síntese de proteína, a qual pode estar
disponível para o animal pelos processos

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Diagnóstico Na intoxicação por amônia, proveniente
da alta ingestão de ureia dietética, descobriu-
Os melhores indicadores diagnósticos -se recentemente que quando um bovino
são a história de acesso à ureia e os sinais clí- urina com mais frequência, mais resistente
nicos dos animais afetados. Provas de labo- ele é a esta intoxicação, pois mais íons amô-
ratório em amostras de sangue não são mui- nio são eliminados nesse fluido (Ortolani et
to úteis, e poucas alterações pós-mortem são al., 2002). Esses autores detectaram, em bo-
observadas. O manejo alimentar recente é vinos intoxicados, quando do surgimento
muito importante. O gado pode acostumar- de episódio convulsivo, uma grande eleva-
-se a metabolizar a ureia, mas, se não tiver ção nos teores urinários de amônio varian-
um período de alguns dias de adaptação ou do de 3.000 até 25.000 μM. Como a amônia
se consumir mais do que o normal, a intoxi- pode-se volatilizar na amostra, e a ureia pre-
cação pode ocorrer. sente nesta pode-se converter em amônia,
No laboratório, os níveis de amônia san- recomenda-se que a urina seja congelada,
guínea podem ser medidos, porém são úteis ou que sejam adicionadas algumas gotas de
apenas em animais vivos doentes. As proteínas ácido forte (ácido clorídrico ou sulfúrico) na
no sangue se degradam rapidamente no ani- amostra até a determinação laboratorial des-
mal morto e produzem amônia, de forma que sa substância. O amônio pode ser determi-
dosar esse metabólito no animal morto carece nado na urina por meio de kit diagnóstico ou
de valor. A amônia (NH3) é excretada geral- por eletrodo íon específico.
mente em pequenas quantidades na urina, na
forma de amônio (NH4+), sendo secretada, Tratamento
na sua grande maioria, no túbulo contornado
Uma sonda ruminal pode ser passada
proximal e parcialmente reabsorvida na alça de
para aliviar o timpanismo, e pode-se colocar
Henle. Valores de referência de amônio uriná-
volumes grandes de água gelada (45 litros
rio em bovinos variam de 50 a 800 μM. para um adulto), seguidos por vários litros de
Os níveis de amônia no fluido ruminal ácido acético 6 % ou vinagre. Isso dilui o con-
também podem ser dosados, mas as amos- teúdo ruminal, reduz a temperatura no rú-
tras devem ser obtidas logo após a morte e men e aumenta a acidez, que ajuda a diminuir
devem ser congeladas até a dosagem. a produção de amônia. O tratamento deve ser
repetido em 24 horas. Rumenotomia e remo-
Os animais se decompõem rapidamen-
ção do conteúdo ruminal com aplicação de
te após a morte por intoxicação com ureia e
líquido ruminal de uma vaca sadia pode ser
não há sinais específicos de envenenamento. útil em alguns animais. Podem ser aplicados
Na necropsia, pode ser visto timpanismo, via endovenosa 300 mL de ácido acético 1 %,
congestão generalizada da carcaça, excesso 500 mL de glicose 20 % e sais de Ca e Mg.
de fluido no saco pericárdico, edema pul-
monar e excesso de espuma nas vias aéreas A prevenção da intoxicação por ureia, quan-
superiores, bem como hemorragias no cora- do se usa NNP na alimentação, deve incluir:
ção. Há um forte cheiro de amônia quando o - Início gradual da suplementação com ureia
rúmen é aberto. O pH do conteúdo ruminal aumentando aos poucos até atingir 0,1g/kg
fresco pode ser um teste útil em campo. Um peso vivo (35-40 g para uma vaca de 400 kg).
pH alcalino (pH maior que 7,5) sugere into-
- Assegurar que o gado consuma regularmente
xicação com ureia.
(todo dia) a suplementação, depois que iniciou.

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- Se houver interrupção da suplementação PROTEÍNAS SÉRICAS: QUANTIFICAÇÃO
com ureia por dois dias, recomeçar com o E INTERPRETAÇÃO DE SUAS ALTERAÇÕES
menor nível de consumo.
De forma rotineira dentro de um perfil
- Prevenir o excesso de consumo de misturas básico para a análise de proteínas, inclui-se a
ou blocos de suplementação mediante uso de determinação no soro ou no plasma, de pro-
sal para regular o consumo. teínas totais e dos níveis de albumina e glo-
- Tomar as precauções devidas quando se usa bulinas. Essas análises são simples de fazer
ureia como fertilizante. e fornecem uma informação clínica muito
valiosa que pode ajudar no diagnóstico de
- Proteger os suplementos da chuva para pre-
vários transtornos. As principais alterações
venir a dissolução da ureia e mesclar perfei-
que podem ser encontradas nas proteínas
tamente os alimentos.
sanguíneas compreendem hiperproteine-
- Ter sempre reservas de vinagre à disposição. mias, hipoproteinemias por diminuição de
albumina e hipoproteinemias por diminui-
Suplementando com ureia ção de globulinas. Adicionalmente, estuda-
-se a eletroforese de proteínas, para obter in-
É prática corrente aproveitar a van- formação complementar sobre as alterações
tagem dos ruminantes de utilizar a ureia das diferentes frações proteicas.
como fonte de nitrogênio para formar pro-
teína ruminal. Contudo, alguns cuidados
devem ser levados em conta para não ocor- Proteínas totais
rer a intoxicação.
Para a determinação das proteínas to-
A ureia é muito solúvel e se dissolve ra- tais, podem ser utilizados dois tipos de aná-
pidamente em poças de água, que podem lises: físico (refratometria) e químico (colo-
formar blocos após a chuva. O gado pode rimetria).
lamber aqueles blocos e consumir ureia em
excesso. A quantidade recomendada de
ureia varia conforme o alimento oferecido Refratometria
e o tempo de adaptação à ureia. A tolerância
diminui com jejum e com dieta baixa em pro- Está baseada no princípio de que, a altas
teína e alta em fibra. Cerca de 35 g de ureia/ concentrações de sólidos dissolvidos (> 3 g/dL),
dia é considerado suficiente para uma vaca o índice de refração de uma solução aumenta
de 400 kg (aproximadamente 0,1 g/kg peso linear e proporcionalmente à concentração
vivo). Recomenda-se que a ureia não for- do soluto. Uma vez que a maioria dos sólidos
neça mais do que 3 % do concentrado, ou dissolvidos no plasma são proteínas, assu-
1 % do consumo total, e não mais do que me-se que o índice de refração do plasma es-
um terço do total de consumo de nitrogênio timará sua concentração proteica. A refrato-
seja de NNP. Em gado bovino, 0,3-0,5 g/kg metria é usada frequentemente devido a sua
(120–200 g para uma vaca de 400 kg) é consi- rapidez, economia (não requer reagentes) e
derado tóxico, e 1,0–1,5 g/kg (400-600 g para facilidade de manuseio, havendo uma boa
uma vaca de 400 kg) pode ser fatal. correlação entre este método e os métodos
colorimétricos. No entanto, é necessário se-
guir algumas recomendações:

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- Utilizar soro claro, com mínima turbidez uma coloração azul. O método é bastante
possível, pois, por ser um método que de- confiável dentro dos intervalos normais para
pende da transmissão da luz, há interferên- os animais. Entretanto, sua exatidão parece
cia com hemólise ou lipemia. diminuir em casos de amostras hipoalbumi-
nêmicas. Adicionalmente, podem ocorrer os
- Calibrar com água destilada frequentemente.
seguintes problemas:
- Fazer a leitura em lugar iluminado.
- Falsa diminuição de albumina com níveis
- Levar em conta que, em concentrações de altos de bilirrubina ou presença de fármacos,
proteína abaixo de 20 g/L ou acima de 100 g/L, como aspirina e anticonvulsivantes, que con-
aumenta a imprecisão do método. correm com a albumina pelo bromocresol.
O método assume que outros solutos - Variabilidade entre espécies, com falsa di-
estão em concentrações normais. Se houver minuição em cães e gatos e falsos aumentos
altos teores de outros solutos (ureia, glicose, em vacas e cavalos, causados pela diferente
colesterol, sódio ou substâncias como dextra- afinidade da albumina pelo bromocresol,
no que podem ser perfundidas em grandes conforme a espécie. Para evitar esse proble-
quantidades quando há hipoproteinemia), mas, recomenda-se usar calibradores pró-
aumentarão de forma fictícia os valores de prios da espécie.
proteínas obtidos no refratômetro. Assim, foi
Com relação às globulinas, os métodos
comprovado que níveis de ureia no plasma
colorimétricos existentes para sua determi-
acima de 112 mg/dL podem incrementar os
nação são pouco precisos e exatos. Assim,
valores de proteínas plasmáticas em 0,6 g/L.
as globulinas são obtidas na prática por sub-
tração do valor das proteínas totais menos a
Colorimetria albumina.

As proteínas totais podem ser determi-


nadas por colorimetria utilizando-se siste- Valores de referência e variações fisiológicas
mas que usam reagentes sobre um suporte
Embora sempre seja recomendado que
sólido em forma de placas ou tiras reativas
cada laboratório estabeleça seus próprios va-
(química seca) ou mediante reagentes em
lores de referência conforme a metodologia
forma líquida (química líquida). O método
utilizada, podem ser considerados os valores
do biureto é o mais utilizado atualmente para
para as diferentes espécies contemplados na
a determinação de proteínas totais no soro.
Tabela 3. Em geral, os valores de proteína to-
A reação está baseada na formação em meio
tal no plasma têm em torno de 5 % a mais do
alcalino de um composto colorido (azul), de-
que os de soro, por causa do fibrinogênio. Es-
vido à ligação das proteínas a sais de cobre
ses valores estão influenciados pelas seguin-
(reativo de biureto).
tes variações fisiológicas:
A albumina pode ser determinada por
colorimetria utilizando sistemas de química Idade
seca ou química líquida. Normalmente, para
determinar a albumina por colorimetria Os animais neonatos apresentam níveis
é usada a técnica do verde de bromocresol. baixos de proteínas plasmáticas devido a
Em pH ácido, o verde de bromocresol fixa-se possuírem pequenas quantidades de imuno-
de forma seletiva sobre a albumina e produz globulinas e albumina. À medida que o ani-

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TABELA 3 – VALORES DE REFERÊNCIA (G/L) DE PROTEÍNAS TOTAIS,
ALBUMINA E GLOBULINAS NO SORO DE ALGUMAS ESPÉCIES ANIMAIS

Espécie
Fração proteica
Caninos Felinos Equinos Bovinos

Proteínas totais 54 - 75 60 - 79 56 - 76 67 - 75

Albumina 23 - 31 28 - 39 26 - 41 25 - 38

Globulinas 27 - 44 26 - 51 26 - 40 30 - 35

mal ingere colostro, aumentam os níveis de Hiperproteinemias


globulinas progressivamente até a maturida-
de. Assim, em animais de menos de 6 meses, Os aumentos de proteínas totais na clí-
os valores se situam no intervalo menor de nica veterinária podem ser produzidos por
referência. De qualquer forma, com exce- aumentos de albumina e/ou de globulinas.
ção dos primeiros dias de vida, as diferenças Esses aumentos são causados por dois moti-
nunca são de tal magnitude que possam ser vos principais: desidratação e inflamação.
confundidas com problemas clínicos.
Desidratação
Gestação e lactação
Vem acompanhada de aumento de albu-
Durante a gestação, a concentração de mina e de globulinas. Os níveis de proteínas es-
proteínas plasmáticas diminui devido a uma tão aumentados por hemoconcentração ao di-
baixa na quantidade de albumina, apesar do minuir o volume plasmático. Essa desidratação
pequeno aumento das globulinas. Contudo, deve ser confirmada mediante exame físico do
ao término da gestação, ocorre um marcado animal e deve produzir outras alterações ana-
aumento das gamaglobulinas, que leva a um líticas, como aumento do hematócrito. Nesses
aumento do total de proteínas. Na lactação, casos, os níveis de albumina estão elevados de
volta a ocorrer uma descida de proteínas forma relativa, pois aumento verdadeiro de al-
causada pela diminuição da albumina. bumina não tem sido descrito. Esse aumento
relativo também se produz nas globulinas.
Hormônios
Inflamação
A testosterona, os estrógenos e o hormô-
nio do crescimento podem causar incremento Vem acompanhada de baixa de albumi-
na concentração de proteínas por seus efeitos na e aumento das globulinas. Nesses casos,
anabólicos. O cortisol e a tiroxina causam o maiores detalhes sobre tipo e causa da infla-
contrário por seus efeitos catabólicos. mação são obtidos por meio do proteinogra-
As principais alterações no valor das ma, que permite estudar as diferentes frações
proteínas são hiperproteinemias, hipopro- de globulinas de forma individual. Em geral,
teinemias por baixa de albumina e hipopro- aumento de globulinas por problemas infla-
teinemias por baixa de globulinas. matórios acompanham baixa concomitante
na concentração de albumina e se enquadra
na resposta de fase aguda.

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Hipoproteinemia por baixa de albumina e graves, pois existe um mecanismo de com-
pensação que consiste na passagem de albu-
Inclui processos onde estão diminuídas mina do espaço extravascular (tecidos) ao
as proteínas totais e que cursam com baixa intravascular. Assim, se observa uma consi-
de albumina, sendo esta a fração que mais se derável perda de proteínas tissulares com mu-
afeta. As globulinas têm uma resposta variá- danças menores das proteínas plasmáticas.
vel, pois podem estar também diminuídas
(casos de hemorragia, má absorção, insu-
Perdas excessivas de albumina
ficiência cardíaca), normais ou aumenta-
das (em caso que houvesse uma inflamação Ocorre na síndrome nefrótica, em alte-
concomitante). As causas de diminuição de rações dos glomérulos renais (amiloidose re-
albumina podem ser agrupadas em três pro- nal ou glomerulonefrite). Nesse caso, a prin-
cessos: síntese ou absorção, perdas e diluição. cipal proteína perdida é a albumina porque
sua molécula é menor, embora, em casos de
Problemas de síntese ou absorção de albumina dano glomerular grave também se percam
globulinas. A hipoalbuminemia pode ser se-
Diminuição de albumina pode ocorrer vera, acompanhada de proteinúria (presença
por insuficiência hepática, caso no qual pode de proteína na urina). Também pode haver
ser de moderada a severa, dependendo do perdas em hemorragias e lesões exudativas
grau de alteração da função hepática. Não por queimaduras ou traumatismos, casos nos
ocorre hipoalbuminemia até que a massa quais diminuem a albumina e as globulinas
funcional hepática diminua em 70-80 %, im- por igual, e a hipoproteinemia ocorre por dois
plicando cronicidade do processo causador. mecanismos: (1) perda de proteínas pelas he-
As provas de funcionalidade hepática esta- morragias ou lesões, e (2) passagem de fluido
rão alteradas nesses casos. Outra causa de extravascular ao sistema vascular para restau-
hipoalbuminemia é por falha de absorção in- rar o volume plasmático, o que gera uma re-
testinal, que pode incluir problemas de: dução na concentração de proteínas plasmáti-
cas. Este último mecanismo é bastante rápido,
- Má digestão por insuficiência pancreática, sendo evidenciado 2 a 3 horas após a ocorrên-
em que a baixa de albumina é moderada e cia do problema. A queda na concentração
apenas em casos sem tratamento por tempo proteica é compensada com albumina da linfa
prolongado. Os animais afetados apresentam e aumento da síntese de albumina no fígado.
perda de peso severa, diarreia de intestino A máxima diminuição ocorre a 24 horas da
delgado e esteatorreia. hemorragia, e os níveis podem demorar uma
- Má absorção (enteropatia com perda de semana para voltar aos valores de referência.
proteínas). Em geral, há suspeita dessas alte- Dentro dos processos hemorrágicos, podem
rações quando ocorrem baixas moderadas a incluir-se o parasitismo intestinal e úlceras do
severas de albumina, com ou sem diarreia, e estômago ou do intestino.
se descartam outras causas de queda de albu-
mina. No diagnóstico de enteropatia com per- Diluição de proteínas sérícas
da de proteínas, recomenda-se realizar exame
Ocorre na insuficiência cardíaca con-
endoscópico e análise de biópsia intestinal.
gestiva e/ou hipertensão portal. Nessas pato-
- Má nutrição proteica: Pode ocorrer baixa na logias, há retenção de água, que produz um
albumina em situações bastante prolongadas aumento da pressão hidrostática e uma dimi-

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nuição relativa das proteínas totais com hipo- largura e altura de cada fração indica a quan-
albuminemia moderada. Além da diluição tidade relativa de cada fração proteica. Com-
pela água retida, nesses processos há outros binando essa informação com a concentração
mecanismos que contribuem à queda de pro- de proteínas totais (determinada por refrato-
teínas, tais como perdas no fluido ascítico, di- metria ou colorimetria), é possível calcular os
minuição da ingesta de alimento, síntese re- valores absolutos de cada fração proteica.
duzida de proteínas hepáticas e síndrome de
má absorção. Na Figura 14 aparece uma guia
Frações proteicas na eletroforese
para ajudar a identificar a causa nos casos de
hipoproteinemia com hipoalbuminemia. Em geral, são diferenciadas, como mí-
nimo, cinco frações proteicas na eletroforese
Hipoproteinemia por diminuição de globulinas (Figura 15).

Esta queda é produzida fundamental- Albumina


mente por problemas de imunodeficiência
devido à ingestão inadequada de colostro e Tendo maior eletronegatividade, a al-
diminuição de gamaglobulinas. Esses ani- bumina migra a maior velocidade e aparece
mais são suscetíveis a infecções e problemas mais próxima do pólo positivo. Esta fração
parasitários. está representada por um pico agudo, inte-
grado por apenas uma proteína.

Eletroforese de proteínas Alfa-globulinas


Fundamento De forma global, as frações alfa (1 e 2) es-
tão integradas por dois componentes: as pro-
A eletroforese é realizada para obter in- teínas de fase aguda e as lipoproteínas (Qua-
formação adicional sobre as diferentes frações dro 5). As proteínas de fase aguda mostram
proteicas. É uma técnica que permite a sepa- variação em sua concentração quando ocorre
ração dos diferentes tipos de proteínas em um qualquer processo inflamatório e, portanto,
suporte (acetato de celulose ou gel de agarose) constituem importantes marcadores da infla-
sob a influência de um campo elétrico. Assim, mação. São diferenciadas em dois tipos:
a pH alcalino, a maioria das proteínas estão
1- Proteínas de fase aguda negativas, que di-
carregadas negativamente e, ao aplicar um
minuem sua concentração diante de uma in-
campo elétrico, migram para o polo positivo
flamação (ex. albumina e transferrina).
com diferente velocidade dependendo de suas
propriedades físicas, obtendo a sua separação 2- Proteínas de fase aguda positivas, que au-
em frações. Para revelar as proteínas separa- mentam sua concentração com a inflama-
das na eletroforese, o suporte é tratado com ção (ex. haptoglobina, proteína C-reativa,
corantes específicos (negro de amido, azul de amiloide A sérica, alfa-1 glicoproteína e ce-
Coomassie ou azul de bromofenol) aparecen- ruloplasmina).
do as frações proteicas como bandas com in-
A magnitude da resposta de cada pro-
tensidade de cor variável, podendo ser quan-
teína varia conforme a espécie. Assim, em
tificadas por um densitômetro. Os resultados
ruminantes a haptoglobina é a proteína que
se mostram no proteinograma ou imagem
mais aumenta, enquanto, no cão, é a proteí-
das distintas frações proteicas (Figura 15). A na C-reativa.

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Queda de proteínas totais e albumina
(descartar problemas de dieta/má nutrição)

antecedentes de administração perda de provas hepáticas proteinúria de nenhuma das


intensiva de fluidos ou fluidos evidentes alteradas origem renal evidências anteriores
evidências de insuficiência
cardíaca ou hipertensão portal

Diluição de proteínas Hemorragias Insuficiência hepática Síndrome nefrótico Problemas de


Exudação por malabsorção/
lesões cutâneas má digestão.
Realizar TLI
ou biópsia intestinal

Figura 14 – Causas de diminuição de proteínas totais e albumina.

Figura 15 – Proteinograma eletroforético


com as diferentes frações.

QUADRO 5 – RELAÇÃO ENTRE AS FRAÇÕES DE ALFA-GLOBULINAS


COM PROTEÍNAS DE FASE AGUDA E LIPOPROTEÍNAS

Fração Tipo de proteína de fase aguda Tipo de lipoproteína


Alfa-1 globulina alfa-1 glicoproteína HDL
alfa-1 antitripsina

Alfa-2 globulina haptoglobina LDL


ceruloplasmina VLDL
amiloide A sérico

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Beta-globulinas Assim, o número e nome dos picos varia nos
diferentes laboratórios, inclusive na mesma
Nesta fração, embora estejam outras espécie animal. Também contribui para essa
proteínas, como a transferrina, destacam-se variabilidade a falta de uma normativa clara
proteínas com função imunológica, como as para separar as diferentes frações, uma vez
imunoglobulinas IgM e IgA. Também nesta que o único claramente definido é a situação
fração, aparece a proteína C-reativa, que é da albumina (mais próxima do polo positi-
uma das proteínas de fase aguda que mais au- vo) e o ponto de separação entre as frações
menta no cão em um processo inflamatório. alfa e beta (ponto médio do proteinograma).
Nas beta-globulinas, incluem-se tam- O resto de frações são separadas com base no
bém compostos que podem produzir inter- aparecimento de vales ou zonas em forma de
ferências ou artefatos, como fibrinogênio “U” no traçado eletroforético.
(importante considerar em amostra de plas- Essa situação faz com que seja reco-
ma) e hemoglobina (importante em amos- mendado que cada laboratório tenha seus
tras com hemólise). próprios valores e traçados eletroforéticos
normais estabelecidos e validados para cada
Gama-globulinas espécie animal, e que o clínico considere esta
variabilidade na hora de enviar amostras
Esta fração está integrada apenas pelas para diferentes laboratórios.
imunoglobulinas, sendo dividida por alguns
autores em duas frações:
Interpretação clínica do proteinograma
- gama 1, integrada por IgM e IgE
- gama 2, integrada por la IgG Para realizar a interpretação do protei-
nograma, convém seguir os seguintes passos:
As diferentes imunoglobulinas estão
distribuídas entre as frações beta e gama. 1. Considerar sempre a anamnese, o quadro
Dessa forma, as IgA e parte das IgM estão na clínico do animal e outros parâmetros analí-
fração beta, enquanto na fração gama estão o ticos do perfil básico. Dentro do quadro clí-
resto das IgMs e parte das IgGs, que, quanti- nico, é importante indicar o grau de hidrata-
tativamente e em condições normais, repre- ção do animal.
sentam 85 % das imunoglobulinas. 2. Considerar a qualidade da amostra, uma
vez que a hemólise e a lipemia podem influir
na interpretação do proteinograma.
Valores de referência do proteinograma
3. Interpretar as proteínas totais e os níveis
O soro contém um grande número de de albumina e globulinas.
proteínas diferentes, e a eletroforese permite
4. Interpretar o proteinograma conforme os
separar essas proteínas em grandes frações
pontos a seguir:
que, por sua vez, estão integradas por um
grande número de proteínas distintas. Em • Características da albumina
função das condições da eletroforese (su-
O pico de albumina permite apreciar a
porte, voltagem e pH do tampão) e do poder
qualidade do proteinograma, porque sempre
resolutivo da técnica utilizada no laborató-
migra ao mesmo lugar e deve ter uma base es-
rio, poderá visualizar-se um número maior
treita. Podem encontrar-se aumentos ou bai-
ou menor de picos com diferente qualidade.
xas de albumina explicados anteriormente.

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• Características de fração alfa Elevação de gama-globulinas: Ocorre
Aumentos de alfa-1 e alfa-2 globulinas: em grande quantidade de processos deno-
ocorrem em vários processos patológicos, minados gamapatias, que podem ser divi-
tais como, problemas inflamatórios agudos, didas em policlonais e monoclonais, dife-
que aumentam as proteínas de fase aguda in- renciadas mediante o proteinograma. Para
tegradas nesta fração, sobretudo a haptoglo- isso, compara-se a fração gama com a base
bina, entre os quais problemas infecciosos e da fração albumina. Se for similar à albu-
parasitários, traumatismos e tumores. Tam- mina (estreita), estará integrada por uma só
bém ocorrem no síndrome nefrótico, que au- proteína (monoclonal). Se o pico tiver a base
menta as lipoproteínas desta fração. Contu- larga comparada com a albumina, conterá
do, esta doença geralmente é diagnosticada diferentes proteínas (policlonal). A gama-
previamente com a presença de proteinúria, patia policlonal está relacionada com pro-
sem sinais de inflamação no trato urinário, cessos inflamatórios de tipo crônico, como
de forma que o proteinograma nesse caso se- infecções-infestações crônicas ou doenças
ria complementar. Também pode haver altas imunomediadas. A gamapatia monoclonal é
concentrações de alfa-2 globulinas em cães produzida por proliferações clonais de célu-
tratados com corticoides. A causa pode ser a las neoplásicas da série de linfócitos B, como
mobilização de lipoproteínas, embora possa em casos de tumores de células plasmáticas
ser mais importante o aumento de haptoglo- (mieloma múltiplo ou plasmocitoma), e em
bina induzido pelos corticoides. leucemia linfocítica crônica de células B fun-
Baixa de alfa-2 globulinas: Este fato cionais ou linfoma de células B funcionais.
pode ser devido a hemólise intravascular, ou
por formação de complexos hemoglobina-
Proteínas de fase aguda
-haptoglobina, que são fagocitados pelos
macrófagos do sistema retículoendotelial, O estudo das Proteínas de Fase Aguda
especialmente no fígado, causando diminui- (PFAs) começou com a descoberta da Proteína
ção de haptoglobina. Isso pode ser confirma- C Reativa (CRP) em 1930. As PFAs partici-
do por outros achados, como queda no valor pam da Reação de Fase Aguda do organismo,
do hematócrito e diversos sinais analíticos e que fora definida pela primeira vez em 1941
clínicos de anemia hemolítica. A baixa desta por Abernethy e Avery como a resposta do
fração pode estar mascarada por um proces- organismo a lesão, infecção ou trauma de um
so inflamatório associado à hemólise. tecido, ou a transtornos imunológicos ou me-
• Características das frações beta e gama tabólicos. A reação de fase aguda compreen-
de uma série de eventos destinados a prevenir
Elevação das beta-globulinas: Com ex- o dano aos tecidos, eliminar os organismos
ceção de aumentos devido à transferrina em infecciosos e melhorar o processo de recupe-
casos de déficit de ferro (anemia ferropêni- ração da homeostase (equilíbrio) no organis-
ca), é raro encontrar aumento isolado da mo. Ela inicia com os macrófagos do tecido
fração beta. Assim, quase sempre, a elevação afetado ou com os monócitos e linfócitos san-
de beta-globulinas está relacionada com au- guíneos que liberam uma série de mediado-
mentos da fração gama. Em ocasiões aparece res químicos, entre eles as citoquinas, as quais
um pico único das duas frações denomina- atuam sobre fibroblastos e células endoteliais
do “bloqueio beta-gama”, produzido por au- vizinhas à lesão causando uma segunda onda
mento de várias imunoglobulinas. de citoquinas, que disparam a reação de fase

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aguda atuando local e sistemicamente. Local- Haptoglobina
mente, as citoquinas medeiam o recrutamen-
to de neutrófilos e células mononucleares A haptoglobina (Hp) é uma glicopro-
para o lugar de inflamação. Sistemicamente, teína tetramérica que tem a propriedade de
atuam sobre o sistema imune, a medula ós- unir-se à hemoglobina. Essa propriedade
sea, o cérebro e o fígado (Figura 16). A reação permite retirar a hemoglobina de circula-
é complementada com a resposta febril, au- ção e levá-la ao fígado para ser catabolizada
mento de ACTH, leucocitose e alteração da a fim de prevenir lesões renais e evitar a sua
expressão hepática das PFAs. perda pela urina quando ocorre hemólise. A
Hp é considerada uma das principais PFAs,
A função das PFAs está refletida nas suas principalmente nos ruminantes, uma vez
atividades atribuídas, tais como retirar restos que, nos animais sãos, a sua concentração sé-
celulares, hemoglobina e radicais livres, unir rica é muito baixa ou indetectável, ao passo
componentes bacterianos, ativar o comple- que em vários estados patológicos ocorrem
mento, fazer redistribuição do colesterol e aumentos consideráveis chegando a até 100
promover a produção de imunoglobulinas. vezes seu valor de referência. O aumento da
As PFAs hepáticas têm sido classifica- Hp é rápido e pode detectar animais infecta-
das como positivas e negativas dependendo dos antes da apresentação de sinais clínicos,
de seu aumento ou diminuição, respectiva- sendo que sua concentração pode ser usada
mente, diante de um estímulo. Entre as PFAs como indicador da severidade da infecção.
negativas estão a albumina e a transferrina.
O achado recente de que a Hp é secreta-
Entre as PFAs positivas estão a haptoglobi-
da pelo leite e de que aumenta sua concen-
na (Hp), a proteína C reativa (CRP), a ami-
tração em casos de mastite confere grande
loide A sérica (SAA), a ceruloplasmina (Cp),
potencial a esta proteína de fase aguda no
o fibrinogênio e a glicoproteína alfa1-ácida
diagnóstico precoce deste problema em ru-
(AGP ou ASG).
minantes, ainda mais com evidências de que
Uma aplicação prática da análise das os aumentos seriam detectados antes de que
PFAs, que inclusive têm sido chamadas de aumentem as contagens de células somáticas,
“termômetros químicos”, é auxiliar no diag- o que era até agora considerado o indicador
nóstico de doenças inflamatórias e infec- mais sensível nesses casos (“gold standard”).
ciosas com bastante sensibilidade. Também
têm sido detectados aumentos em casos de Em suínos, a Hp ajuda na monitoração
trauma quirúrgico, estresse de transporte e do estado sanitário e do nível productivo,
em transtornos metabólicos, como acidose observando-se aumentos em vários tipos de
e lipidose hepática. Em casos de mastite em infecções bacterianas e em situações de es-
vacas, os valores podem aumentar tanto no tresse por transporte ou abate. Em cães, os
sangue quanto no leite níveis de Hp mostram correlações positivas
e aumento em condições inflamatórias e por
As PFAs têm padrões de secreção e com- aplicação de corticoides.
portamento diferentes dependendo da espécie
animal (Quadro 6). Consideram-se PFAs prin-
cipais aquelas que, após um estímulo, aumen- Amiloide A sérica
tam em mais de 100 vezes e PFAs moderadas
aquelas que têm aumentos de 2 a 3 vezes. A proteína amiloide A sérica (SAA) é uma
apolipoproteína associada a proteínas HDL

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reação sistêmica :
sistema imune,
fígado proteínas
de fase aguda

Figura 16. Eventos na reação de fase aguda do organismo.

QUADRO 6 – PRINCIPAIS PROTEÍNAS DE FASE AGUDA EM VÁRIAS ESPÉCIES ANIMAIS.

Proteínas de fase aguda principais Proteínas de fase moderadas


Espécie
(aumentos de > 100 vezes) (aumentos de 2-3 vezes)
glicoproteína α1-ácida, α1-antitripsina,
Ruminantes haptoglobina, amiloide A sérica
proteína C reativa
Caninos proteína C reativa, amiloide A sérica haptoglobina
pig-MAP (major acute phase protein),
Suínos proteína C reativa, amiloide A sérica
haptoglobina
Cavalos amiloide A sérica proteína C reativa, fibrinogênio
Humanos proteína C reativa, amiloide A sérica glicoproteína α1-ácida, haptoglobina

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durante a resposta de fase aguda. Seu nome Ceruloplasmina
se deve à semelhança com a Amiloide A, uma
proteína fibrosa presente na amiloidose sis- A ceruloplasmina (Cp) tem sido estuda-
têmica. Junto com a Hp, essas proteínas têm da como uma glicoproteína de origem hepá-
sido estudadas como as principais PFAs nos tica transportadora de cobre. Seus aumentos
ruminantes. A Hp e a SAA sofrem aumentos após estímulo inflamatório são pequenos,
após transporte de caminhão 24 a 48 h após considerada, portanto, como uma PFA mode-
o início, o que está relacionado com outros rada. Têm sido relatados aumentos em suínos
indicadores de estresse (neutrofilia e linfo- infestados com tênia, em bovinos com me-
penia). A relação entre estresse e PFAs está trite e na involução uterina.
ligada à modulação que os glicocorticoides
exercem sobre a produção hepática destas
Glicoproteína1-ácida
proteínas. O potencial das PFAs em relação a
estudos de bem-estar animal e estresse deve- A glicoproteína α1-ácida (ASG) faz parte
rá ser mais explorado no futuro. das proteínas consideradas como seromucoi-
Em ruminantes também tem sido acha- des, caracterizadas por possuírem cadeias de
do aumento de SAA em casos de mastite. Em oligossacarídeos, principalmente ácido siáli-
suínos ocorrem aumentos de SAA mais rápi- co na sua estrutura. Estas proteínas resistem
dos que os de Hp em casos de infecções por à precipitação com ácidos, sendo a fração que
Actinobacillus. Em cavalos, a SAA é a PFA de fica solúvel após a adição de ácido perclórico.
escolha com grandes aumentos em casos de A ASG é considerada uma PFA moderada.
infecções bacterianas ou virais. Parece que
em bovinos a SAA indicaria lesões inflama-
tórias agudas, enquanto a Hp indicaria pato- Fibrinogênio
logias mais crônicas.
O fibrinogênio, glicoproteína de origem
hepática, participa da reação de coagulação
Proteína C reativa sanguínea (fator I) como o precursor da fibri-
na que é convertida por ação da trombina, na
A proteína C reativa (CRP), a primei- etapa final do processo. Por muitos anos, foi
ra das PFAs a ser descrita em 1930, foi ba- considerada a única proteína de fase aguda
tizada assim porque foi descoberta no soro conhecida, tendo aumentos significativos em
de humanos com infecção pneumocóccica processos inflamatórios agudos e crônicos,
onde havia reação com o polissacarídeo C sendo de maior utilidade nos ruminantes e
do pneumococo. Possui mais importância nos cavalos. A sua determinação por méto-
em caninos, felinos e suínos, e menos em do refratométrico e aquecimento a 56 oC faz
cavalos e ruminantes. Em cães com tumo- dele a PFA mais fácil de determinar. O méto-
res, a concentração de CRP sérica encontra- do consiste na obtenção de duas amostras de
da tem sido maior naqueles com a doença sangue em capilares de micro-hematócrito
disseminada do que naqueles com neopla- centrifugadas e na determinação da proteína
sia localizada ou benigna. no plasma pelo método refratométrico em

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uma delas (P1), seguido de aquecimento Transferrina
a 56 oC por 3 minutos da segunda amostra,
centrifugação e nova determinação da pro- A transferrina é uma glicoproteína plas-
teína no plasma (P2). O valor de fibrinogênio mática transportadora de ferro. Embora ape-
corresponde à diferença de P1– P2. nas 0,1 % do ferro total do organismo esteja
ligado à transferrina, ela constitui o mais im-
portante “pool” desse mineral por sua altíssi-
Albumina ma taxa de troca entre tecidos. A transferrina
liga com grande afinidade Fe3+, mas não liga
A albumina é a principal proteína plas- Fe2+. É considerada, junto com a albumina,
mática, sendo considerada uma PFA negati- uma PFA negativa. Um baixo teor de transfer-
va, isto é, diminui a sua síntese e concentra- rina em casos de infecções pode levar à ane-
ção em processos inflamatórios. O aumento mia, pois ela é necessária para o transporte de
de fibrinogênio, além de outras PFAs, e o de- Fe destinado à síntese de hemoglobina. Con-
créscimo na albumina são causados em par- trariamente, uma anemia ferropriva leva a au-
te por uma mudança brusca da produção de mento no teor de transferrina
proteínas hepáticas com supressão da síntese
de albumina e aumento da síntese de PFAs.
Uma vez que a concentração de proteína to-
tal permanece constante, acredita-se que ou-
tras proteínas como as globulinas e as PFAs
devem preencher o espaço resultante da di-
minuição de albumina circulante.

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Bioquímica clínica de lipídeos Capítulo 4

INTRODUÇÃO glicídeos, devido a sua estrutura menos oxi-


dada formada por cadeias hidrocarbonadas.
Os lipídeos são definidos como biomo- Enquanto a oxidação total de um triglice-
léculas insolúveis em água que podem ser rídeo rende aproximadamente 37,6 kJ/g, a
extraídas das células por solventes orgânicos, oxidação de um glicídeo rende 16,7 kJ/g. Por
como éter, clorofórmio, hexano, acetona, etc. outro lado, por estarem menos hidratados do
Suas conformações e funções são muito va- que os glicídeos, os triglicerídeos podem ser
riadas. Os lipídeos mais abundantes são os armazenados de forma mais concentrada.
triglicerídeos, que têm função armazenadora Devido a sua hidrofobicidade e completa in-
de energia; os fosfolipídeos fazem parte das solubilidade na água, os triglicerídeos ficam
membranas biológicas; o colesterol tem im- limitados no espaço das gotas citoplasmáti-
portantes funções biológicas, sendo precur- cas que não afetam a osmolaridade do citosol
sor dos hormônios esteroidais e dos ácidos e, portanto, não contêm água de solvatação
biliares e também fazendo parte da estrutu- como os glicídeos, o que aumenta o peso e o
ra das membranas; o ácido araquidônico é volume da célula.
precursor de prostaglandinas, tromboxanos
e leucotrienos, compostos que regulam vias A própria insolubilidade dos triglicerí-
metabólicas e processos inflamatórios. Fi- deos faz com que os processos de digestão
nalmente, as vitaminas lipossolúveis têm im- e transporte desses compostos sejam mais
portantes funções metabólicas. complicados, pois eles devem ser emulsifica-
dos no intestino antes de serem absorvidos e
Entre as principais funções dos lipídeos somente podem ser transportados no sangue
no organismo estão as seguintes: mediante as lipoproteínas.
a) Constituir a estrutura das membranas bio- Os lipídeos podem ser classificados em:
lógicas (fosfolipídeos, colesterol).
1. Lipídeos compostos, aqueles que após hidró-
b) Manter reservas de energia (triglicerídeos). lise rendem ácidos graxos; entre eles estão:
c) Fornecer moléculas precursoras dos hor- (a) triglicerídeos: compostos por glicerol e
mônios esteroidais (colesterol) e das prosta- ácidos graxos;
glandinas (ácido araquidônico).
(b) fosfoglicerídeos: compostos por glicerol,
d) Manter o calor corporal e servir de suporte ácidos graxos, grupos fosfato e grupos ami-
e proteção das vísceras (triglicerídeos). no-álcool;
A função de servir como compostos (c) esfingolipídeos: compostos por esfingosi-
armazenadores de energia é exercida pelos na, ácidos graxos e outros grupos (glicídeos,
triglicerídeos de forma mais eficiente que os grupos fosfato e aminoálcoois).

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2. Lipídeos simples, aqueles que após hidró- Animais monogástricos
lise não produzem ácidos graxos; entre eles
estão: A verdadeira hidrólise e emulsificação das
gorduras se realiza no duodeno, devido à ação
(a) esteróis: o mais importante nos animais é dos seguintes fatores: (a) a bile, secretada pelo
o colesterol; fígado; (b) a enzima lipase e seu cofator colipa-
(b) derivados de ácidos graxos com função se, secretadas pelo pâncreas; e (c) a ação mecâ-
metabólica, como as prostaglandinas; nica dos movimentos peristálticos do intestino.

(c) isoprenoides: vitaminas lipossolúveis A, A ação mais importante da bile é a forma-


D, E e K. ção de micelas, a fim de facilitar a digestão e
absorção dos lipídeos no intestino. A bile fa-
vorece a emulsificação das gorduras, ou seja,
DIGESTÃO E ABSORÇÃO DOS LIPÍDEOS causa uma diminuição do tamanho das gotas
lipídicas, as quais entram no intestino com
A digestão dos lipídeos tem como obje- um diâmetro de 50.000 nm e são convertidas
tivo fazer uma emulsão miscível integrada em micelas de 300-1.000 nm. Os componen-
pelos compostos hidrofóbicos, principal- tes da bile (Tabela 1) têm propriedades emul-
mente triglicerídeos e colesterol, dissolven- sificantes por suas características anfipáticas.
do-os para que se possam absorver no intes- Em bovinos e aves, a bile é verde por
tino delgado na forma de ácidos graxos livres causa dos altos teores de biliverdina. O pH
e monoglicerídeos. Os fosfolipídeos, por sua da bile varia em função da espécie animal:
característica anfipática, determinada pelas na vaca é 6,7-7,5; na ovelha, 5,9-6,7; nas aves,
porções polar (grupo fosfato e base nitroge- 5,8-6,0; no cão, 7,4-8,5; e no humano, 7,8.
nada) e apolar (cadeias de ácidos graxos es- Não existe vesícula biliar no cavalo, no rato e
terificados) ajudam na emulsificação e, por- no veado. A gravidade específica da bile está
tanto, na absorção dos demais lipídeos. por volta de 1,01 g/mL.

TABELA 1 – COMPOSIÇÃO E CARACTERÍSTICAS DA BILE

Componente % do total % de sólidos


Água 97 ..
Sólidos 2,52 100*
Mucina e pigmentos1 0,53 21,3
Sais biliares 2
1,93 36,9
Colesterol 0,06 2,4
Ácidos graxos 0,14 5,6
Sais inorgânicos 3
0,84 33,3
1
Bilirrubina e biliverdina. 2 Derivadas dos ácidos taurocólico e glicocólico. 3 Na, Cl, K, Ca, Mg, HCO3–.
* A soma dos componentes não chega a 100% porque os valores são aproximados.
Nota: Sinal convencional utilizado:
.. Não se aplica dado numérico.

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A bile não é absolutamente necessária torácico. A reesterificação dos ácidos graxos
para a absorção de gorduras no cão e no rato, na mucosa intestinal é uma etapa limitante
espécies em que 30-40 % dos triglicerídeos na velocidade de absorção dos lipídeos.
podem ser absorvidos em ausência de bile A absorção dos ácidos graxos de cadeia
após a sua hidrólise. Entretanto, a absorção curta e média é mais rápida que a dos ácidos
de colesterol e de vitaminas lipossolúveis é graxos de cadeia longa, devido aos primeiros
totalmente dependente da bile. Assim, na in- terem maior velocidade de hidrólise e a esca-
suficiência pancreática, pode haver deficiên- parem do passo limitante de reesterificação
cia na absorção de triglicerídeos, mas a pre- após a absorção. Esta observação é de impor-
sença de micelas da bile garante a absorção tância clínica no tratamento de síndrome de
de colesterol e das vitaminas A, D, E e K. má absorção, devido à obstrução biliar ou
A ação da lipase/colipase é hidrolisar linfática ou à insuficiência pancreática.
os triglicerídeos em ácidos graxos livres Os fosfolipídeos são hidrolisados no in-
e monoglicerídeos; estes últimos têm um testino a fosfoglicerato e ácidos graxos, for-
ácido graxo na posição C-2 e, por sua vez, ma como são absorvidos; depois, na célula
constituem agentes emulsificantes graças a epitelial intestinal são reesterificados para
sua condição anfipática, polar pelo glicerol unirem-se aos quilomícrons. Os ácidos gra-
e apolar pelo ácido graxo. Assim, vai se for- xos de cadeias menores de 12 carbonos não
mando uma emulsão cada vez mais fina, o são transportados via linfática depois de se-
que facilita a ação hidrolítica da enzima e a rem absorvidos, mas vão diretamente pela
formação de micelas cada vez menores. circulação portal para o fígado.
As micelas interatuam com as microvi-
losidades intestinais, onde se absorvem os
Animais ruminantes
monoglicerídeos e os ácidos graxos livres.
Os monoglicerídeos com um ácido graxo in- Em geral, a dieta dos ruminantes é baixa
saturado são mais solúveis na micela do que em lipídeos, embora se usem eventualmente
aqueles que possuem ácido graxo saturado. A suplementos de óleo vegetal e sebo animal.
hidrólise dos ácidos graxos de cadeias curta A fonte mais frequente de lipídeos, na dieta
e média (até 12 C) é mais rápida que no caso dos ruminantes, está constituída pelos galac-
dos ácidos graxos de cadeia longa (> 12C). A tolipídeos das forragens, que possuem uma
bile da micela permanece no duodeno para alta proporção de ácidos graxos insaturados.
continuar emulsificando gotas lipídicas, po- Ocasionalmente consomem alguns triglicerí-
dendo também recircular para o fígado atra- deos contidos nos cereais. Altas quantidades
vés de absorção no jejuno ou bem excretar-se de gordura na dieta dos ruminantes podem
pelas fezes. causar diminuição do apetite e da digestibili-
Após a absorção, dentro da mucosa in- dade de outros nutrientes, a menos que sejam
testinal, os ácidos graxos e os monogliceríde- fornecidos na forma de lipídeos “protegidos”.
os se reesterificam para formar triglicerídeos Os bezerros possuem uma lipase salivar
e se combinam com colesterol, fosfolipídeos secretada na base da língua, que hidrolisa
e proteínas para formar os quilomícrons, parte dos lipídeos que ingressam no trato di-
lipoproteínas que constituem a forma de gestivo e que tem importância nos neonatos,
transporte dos lipídeos no sistema linfático, onde a produção de lipase pancreática é bai-
desembocando na circulação geral via duto xa. Os microrganismos do rúmen hidrolisam

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os lipídeos compostos, liberando ácidos gra- Os ácidos graxos podem ter insatura-
xos. Os ácidos graxos insaturados são rapida- ções, ou seja, duplas ligações em suas cadeias.
mente reduzidos (saturados) pelas bactérias As insaturações geralmente estão depois do
do rúmen. O glicerol e a galactose seguem C-9 em direção ao grupo metilo-terminal
processo fermentativo até ácidos graxos volá- (-CH3) sempre separadas por grupos meti-
teis para serem absorvidos no rúmen. leno (...-CH=CH-CH2-CH=CH-...). Geral-
Os ácidos graxos saturados produzi- mente a dupla união tem configuração cis, o
dos no rúmen são absorvidos no intestino que ocasiona uma dobra rígida na estrutura
delgado, junto com outros ácidos graxos de do ácido. A dupla união é especificada com a
origem microbiana, que têm uma alta pro- letra grega delta maiúsculo (Δ) e sua posição
porção de ácidos ramificados e de número com um número sobrescrito.
ímpar de carbonos. No intestino delgado Os ácidos graxos existentes na nature-
dos ruminantes formam-se micelas, embo- za são majoritariamente de número par de
ra com menor quantidade de triglicerídeos átomos de carbono e são lineares, isto é, sem
que nos monogástricos. A maioria dos áci- ramificações (Tabela 2). A exceção está em
dos graxos é absorvida na parte inferior do alguns ácidos graxos bacterianos, que são
jejuno. Apesar de o intestino dos ruminantes ímpares e ramificados, como das bactérias
receber principalmente ácidos graxos livres, do rúmen, cujos ácidos graxos são absorvi-
também opera a absorção de monogliceríde- dos no intestino e aparecem no leite dos ru-
os, como nos monogástricos. minantes. O ponto de fusão do ácido graxo
Nas células intestinais, formam-se lipo- incrementa-se com o aumento do compri-
proteínas que são transportadas pelo siste- mento da cadeia, mas as insaturações dimi-
ma linfático. Diferentemente dos monogás- nuem o ponto de fusão em ácidos do mesmo
tricos, nos ruminantes forma-se maior pro- número de carbonos.
porção de VLDL que de quilomícrons (75
Os ácidos graxos voláteis (AGV) são
e 25 %, respectivamente). Tanto em mono-
aqueles constituídos por 1 a 5 carbonos e, de-
gástricos quanto em ruminantes, a taxa de
vido a seu tamanho, são hidrossolúveis. Têm
absorção dos ácidos graxos é maior para os
importância em animais ruminantes, pois
insaturados e de cadeia curta, do que para
se acham em altas quantidades no rúmen,
os saturados e de cadeia longa.
como produto da digestão dos glicídeos. De
especial importância no metabolismo ener-
ÁCIDOS GRAXOS: gético desses animais são os ácidos acético,
A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA DOS LIPÍDEOS propiônico e butírico, bem como o derivado
β-hidroxibutírico.
Os ácidos graxos formam parte da es-
trutura da maioria dos lipídeos. São ácidos
orgânicos hidrocarbonados, altamente re- Ácidos graxos essenciais
duzidos, com cadeias de variado compri-
mento (entre 1 a 36 carbonos) e proporcio- A essencialidade, isto é, a necessidade de
nam aos lipídeos seu caráter hidrofóbico. ingerir na dieta alguns ácidos graxos insatu-
Os ácidos graxos mais abundantes nos ani- rados, particularmente o ácido linolênico, é
mais são os de 16 e 18 carbonos. conhecida desde 1928, quando Evans e Burr

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TABELA 2 – PRINCIPAIS ÁCIDOS GRAXOS E SEUS PONTOS DE FUSÃO

Ácido Graxo Número de carbonos Ponto de fusão (oC)

Butírico 4 -4,3

Caproico 6 -2,0

Caprílico 8 16,5

Cáprico 10 31,4

Láurico 12 44,2

Mirístico 14 53,9

Palmítico 16:0 63,1

Palmitoleico 16:1 (Δ9) -0,5

Esteárico 18:0 63,1

Oléico 18:1 (Δ9) 13,4

Linoleico 18:2 (Δ9,12) -5,0

Linolênico 18:3 (Δ9,12,15) -11,0

Araquídico 20:0 76,5

Araquidônico 20:4 (Δ5,8,11,14) -49,5

Lignocérico 24:0 86

demonstraram a consequência da deficiên- células de defesa. Entretanto, sua principal


cia deste ácido em ratos. Os animais superio- função está relacionada com a integridade
res não têm a capacidade metabólica de sin- estrutural das membranas biológicas, como
tetizar esses ácidos, que devem, portanto, ser componentes dos fosfolipídeos.
fornecidos na dieta. Existem diferenças nos
requerimentos dos ácidos graxos essenciais,
OS TRIGLICERÍDEOS:
dependendo da espécie animal. Os ácidos li-
MAIOR FONTE DE ENERGIA
noléico, linolênico e araquidônico, adiciona-
dos na dieta corrigem os problemas ocasio- Os triglicerídeos são os lipídeos mais
nados por sua deficiência, tais como eczemas abundantes na natureza e estão conformados
e lesões no aparelho urinário. por glicerol e três ácidos graxos, unidos me-
Os ácidos graxos essenciais encontram- diante ligação éster. São conhecidos também
-se principalmente nos óleos vegetais; sua como gorduras neutras, já que não contêm
função é diversa e não muito bem definida, cargas elétricas e nem grupos polares.
participando na síntese de prostaglandinas, Os triglicerídeos conformam os depó-
substâncias com função hormonal, e de leu- sitos gordurosos no tecido adiposo animal e
cotrienos, substâncias relacionadas com as nos vegetais, principalmente nas sementes,

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mas não fazem parte das membranas bioló- Rancidez dos lipídeos
gicas. A principal função dos triglicerídeos
é servir como reserva de energia. Por serem Os lipídeos podem sofrer rancidez hi-
compostos menos oxidados que os glicíde- drolítica quando existe liberação dos ácidos
os, as gorduras rendem maior quantidade graxos unidos ao glicerol por causa de enzi-
de energia na oxidação celular; também, por mas hidrolíticas, geralmente procedentes de
sua característica hidrofóbica, as gorduras microorganismos; o exemplo típico é o áci-
armazenam-se em menor espaço do que os do butírico liberado da manteiga, que dá um
glicídeos, tendo capacidade praticamente ili- cheiro característico.
mitada de armazenagem. Os glicídeos, pelo Os lipídeos também podem sofrer ran-
contrário, por estarem hidratados têm um cidez oxidativa por oxidação dos carbonos
limite de armazenamento. comprometidos nas duplas ligações dos áci-
A gordura animal armazena-se nas célu- dos graxos insaturados, devido a um ambien-
las do tecido adiposo (adipócitos), embaixo te com alta concentração de O2 ou à presença
da pele, na cavidade abdominal e na glândula de peróxidos ou radicais livres produzidos
mamária e, além de servir de reserva energé- no metabolismo nas células. As membra-
tica, protege os animais contra o frio na for- nas celulares são as mais afetadas com essa
ma de isolante e protege também as vísceras, oxidação, já que esta altera a estrutura dos
amortecendo os movimentos fortes. fosfolipídeos e o próprio funcionamento da
membrana. Para evitar esses eventos, a célula
A característica do triglicerídeo depen-
utiliza mecanismos de redução de peróxidos,
de do tipo e proporção dos ácidos graxos
através do glutation e da vitamina E. A teoria
que o conformam; nas plantas, a proporção
do envelhecimento assinala que este se apre-
de ácidos graxos insaturados C-16 e C-18 é
senta quando os mecanismos antioxidantes
maior que nas gorduras de origem animal;
começam a falhar.
nos derivados lácteos, tem importância a
presença de ácidos graxos de cadeia curta, Os ácidos graxos oxidados dificilmente
os quais provêm do metabolismo ruminal; são absorvidos pelo intestino e podem cau-
na gordura animal, a soma dos ácidos graxos sar disfunções intestinais. Também podem
saturados C-16 e C-18 é um pouco maior do interferir com o metabolismo lipídico cau-
que a dos ácidos graxos insaturados. sando problemas, como fígado gorduroso,
ataxia e distrofia muscular.
Os óleos de origem vegetal são geral-
mente líquidos na temperatura ambiente
(22 oC), devido à maior proporção de ácidos LIPOPROTEÍNAS: TRANSPORTE
graxos insaturados, enquanto que as gordu- DOS LIPÍDEOS NO SANGUE
ras de origem animal são sólidas nessa mes-
ma temperatura, pela maior presença de áci- Após a sua absorção, na célula da muco-
dos graxos saturados. A manteiga tem ponto sa intestinal, os triglicerídeos e fosfolipídeos
de fusão mais baixo (32 oC) do que a gordura reesterificados se combinam com uma pe-
animal (59,6 oC) devido à presença de ácidos quena fração de proteína para formar os qui-
graxos de cadeia curta. lomícrons, lipoproteínas de transporte dos

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lipídeos desde o intestino até o fígado. Além de triglicerídeos pela ação da lipoproteína-
desses lipídeos, os quilomícrons também -lipase, enzima de membrana das células,
carregam ésteres de colesterol, colesterol li- sendo, portanto, ricos em colesterol e mais
vre, ácidos graxos livres e vitaminas liposso- densos que os quilomícrons.
lúveis. O processo de formação dos quilomí-
As VLDL transportam triglicerídeos
crons depende da síntese da fração proteica
do fígado para os tecidos periféricos e são
pela mucosa intestinal.
sintetizadas no fígado. As LDL e IDL são
Nenhum dos lipídeos encontrados no geradas a partir de VLDL no plasma, por
plasma pode circular livremente pela corren- ação da enzima lipoproteína-lipase. As LDL
te sanguínea devido a sua insolubilidade em são as lipoproteínas que transportam maior
meio aquoso, e para seu transporte têm de quantidade de colesterol. As IDL, cuja den-
estar unidos a lipoproteínas plasmáticas es- sidade está entre 1,006 e 1,019 são designa-
pecíficas. Os ácidos graxos livres viajam pelo das como importantes intermediários lipo-
plasma associados à albumina. líticos entre VLDL e LDL.
As lipoproteínas plasmáticas são proteí- As HDL são produzidas no fígado e
nas associadas com lipídeos que servem para transportam fosfolipídeos e ésteres de coles-
transportar pelo sangue triglicerídeos e, em terol desde os tecidos periféricos até o fígado
menor quantidade, fosfolipídeos e colesterol. para sua excreção. As lipoproteínas HDL e
A separação de lipoproteínas mediante ul- LDL transportam cerca de 90 % do colesterol
tracentrifugação divide 6 frações em função e dos fosfolipídeos no plasma.
de suas diferenças de densidade, conhecidas O colesterol plasmático no cão é trans-
por suas siglas do inglês: HDL (lipoproteínas portado igualmente por LDL (colesterol-
de alta densidade), LDL (lipoproteínas de -LDL) e por HDL (colesterol-HDL). Nos hu-
baixa densidade), IDL (lipoproteínas de den- manos, o colesterol é transportado majorita-
sidade intermediária), VLDL (lipoproteínas riamente por LDL, e cerca de 20 % por HDL.
de densidade muito baixa), quilomícrons Essa divisão é importante, porque o aumento
e remanentes de quilomícrons. As diferen- de colesterol-LDL nos humanos tem sido
tes lipoproteínas diferem entre si conforme associado com aterosclerose (acúmulo de
a proporção de lipídeos que contêm (entre gordura nas artérias) e, portanto, com o ris-
50 a 90 %), o que causa diferente densidade; co de sofrer problemas cardíacos, enquanto
quanto maior for o conteúdo de lipídeos, me- que o aumento de colesterol-HDL tem sido
nor é a densidade da lipoproteína (Tabela 3). associado com diminuição do risco de sofrer
As lipoproteínas com maior conteúdo problemas cardíacos.
de lipídeos e também as de maior tamanho As porções proteicas das lipoproteínas
são os quilomícrons, sintetizadas nas cé- chamam-se apoproteínas, das quais existem
lulas intestinais, estando encarregadas de vários tipos e parecem influir na afinidade
transportar triglicerídeos desde o intestino das lipoproteínas por certos receptores celu-
delgado até o fígado. Os remanentes de qui- lares, regulando a distribuição dos lipídeos
lomícrons se referem a partículas derivadas nos diferentes tecidos. As apoproteínas B, C
dos quilomícrons após a remoção parcial e E estão associadas a VLDL. Na conversão

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TABELA 3 – COMPOSIÇÃO PERCENTUAL DOS COMPONENTES
DAS PRINCIPAIS LIPOPROTEÍNAS PLASMÁTICAS.

Densidade Diâmetro
Lipoproteína TG1 FL2 C3 P4
(g/mL) (nm)
Quilomícron 0,92-0,96 50-200 85 9 4 2

VLDL 0,95-1,006 28-70 60 18 15 10

LDL 1,01-1,063 20-25 10 22 45 25

HDL 1,07-1,21 8-11 3 30 18 50


TG: triglicerídeo; F: fosfolipídeo; C: colesterol; P: proteínas.
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de VLDL em IDL e LDL, perdem-se algumas LIPÓLISE: MOBILIZAÇÃO DE TRIGLICERÍDEOS


apoproteínas, de forma que a IDL contém
apo B e E, ao passo que a LDL possui quase No estado de equilíbrio energético, o
exclusivamente apo B. Por outro lado, a apo- nível de ácidos graxos livres plasmáticos da
proteína mais importante na HDL é a apo C. vaca está entre 30 a 100 mg/L, nível que pode
A falha na síntese de apoproteínas no aumentar em estados de deficiência energé-
fígado, devido a intoxicações (clorofórmio, tica, quando ocorre mobilização de lipídeos.
micotoxinas) ou devido a processos patoló- Encontram-se maiores variações da concen-
gicos, leva à acumulação de lipídeos no fíga- tração sanguínea de ácidos graxos em regi-
do, causando fígado gorduroso ou lipidose mes alimentares de refeições separadas (mo-
hepática. Por outro lado, a deficiência de co- nogástricos) do que em regimes de consumo
lina causa o mesmo problema devido à falta permanente (ruminantes).
de fosfolipídeos, necessários para a formação Os depósitos de triglicerídeos no teci-
do complexo lipoproteico. do adiposo estão sofrendo contínua hidró-
A lipoproteína-lipase, enzima presente lise (lipólise) e reesterificação (lipogênese).
no endotélio dos capilares e na membrana Esses dois processos inversos ocorrem por
das células adiposas, hidrolisa os triglicerí- duas vias metabólicas diferentes, cuja relação
deos presentes nas lipoproteínas circulantes determina o nível plasmático dos ácidos gra-
em ácidos graxos e glicerol, cumprindo um xos. A mobilização dos lipídeos (relação li-
importante papel no equilíbrio das diferen- pólise/lipogênese) é um processo controlado
tes lipoproteínas. O glicerol permanece no endocrinamente. Os hormônios que estimu-
sangue e volta para o fígado, onde é meta- lam a lipólise são principalmente adrenalina
bolizado, enquanto que os ácidos graxos e glucagon, que são secretados quando dimi-
entram nas células mediante um transporte nuem os níveis de glicose sanguínea. Outros
passivo facilitado. Dentro da célula adipo-
hormônios que também têm ação lipolítica
sa, os ácidos graxos são reesterificados para
são ACTH, TSH, MSH, GH e vasopressina.
serem armazenados como triglicerídeos; na
Esses hormônios requerem da ação permis-
célula mamária, fazem parte da gordura do
leite e, nas demais células, são oxidados para siva dos hormônios tireoidianos e dos glico-
a obtenção de energia. corticoides para obter um melhor efeito.

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A insulina, por sua vez, antagoniza o Obtenção de energia
efeito dos hormônios lipolíticos, isto é, inibe a partir dos ácidos graxos: β-oxidação
a ação da lipase e estimula a lipogênese por
estimular as enzimas da esterificação dos áci- Nos tecidos periféricos, os ácidos graxos
dos graxos e aumentar os níveis de glicose na sofrem oxidação e produzem moléculas de
célula adiposa. A glicose é necessária para a acetil-CoA, que podem incorporar-se ao ciclo
esterificação dos ácidos graxos, pois consti- de Krebs para a geração de energia. O tecido
tui a fonte de glicerol-3-fosfato. nervoso não utiliza ácidos graxos como fon-
te de energia; esse tecido usa preferivelmente
O mecanismo para que atuem os hormô-
glicose e, no caso de jejum prolongado, cor-
nios estimuladores da lipólise supõe o aumen-
pos cetônicos. O nível de ácidos graxos livres
to de AMP cíclico (cAMP) intracelular. Simi-
no plasma revela o grau de mobilização das
larmente ao mecanismo que desencadeia a
gorduras de reserva, isto é, serve de indicador
degradação de glicogênio, o cAMP ativa uma
do equilíbrio energético do animal. Níveis
proteína quinase, que por sua vez ativa a lipa-
plasmáticos de ácidos graxos livres superiores
se hormônio-sensível. A enzima que catalisa a
a 600 μmol/L indicam uma mobilização anor-
formação de cAMP, a adenilciclase, é inibida
malmente elevada de triglicerídeos.
pelos ácidos graxos livres. Situações de estres-
se e de exercício físico forte causam aumento O acetil-CoA também pode entrar a vias
da lipólise devido ao aumento de adrenalina. anabólicas ou pode originar corpos cetôni-
cos, compostos hidrossolúveis que servem
Na lipólise, os triglicerídeos armazena-
como fonte energética no cérebro e em ou-
dos na célula adiposa sofrem hidrólise pela
tros tecidos dependentes de glicose, quando
ação da lipase hormônio-sensível para pro-
esta se encontra deficitária em certos estados
duzir três ácidos graxos livres e glicerol. O
metabólicos ou patológicos.
glicerol não pode ser utilizado pelo tecido
adiposo e deve sair para o sangue e ir para o Os triglicerídeos fornecem mais da me-
fígado para formar glicose via gliconeogêne- tade dos requerimentos energéticos do fíga-
se ou entrar na rota glicolítica. do e do músculo cardíaco e esquelético. Nos
animais que hibernam e nas aves migrató-
Quando a taxa de lipólise supera a taxa
rias, os triglicerídeos são virtualmente a úni-
de lipogênese, os ácidos graxos se acumulam
ca fonte de energia.
na célula adiposa e saem para o plasma, onde
são transportados pela albumina e levados O processo da β-oxidação dos ácidos
para os tecidos periféricos para servir como graxos até acetil-CoA é realizado na matriz
importante fonte energética. Os mais impor- da mitocôndria, sendo chamado assim por-
tantes desses ácidos graxos são os de cadeia que a oxidação