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Artigo 75

Retórica antiga e nova retórica:


Chaïm Perelman e os sofistas

Vieille rhétorique et nouvelle rhétorique: Chaïm Perelman et les sophistes

Regina Yara Martinelli da SILVEIRA


Doutora em Filosofia pela UERJ

Resumo

O presente trabalho tem por objetivo destacar a importância do estudo das técnicas argumentativas na formulação dos diversos
tipos de discursos. Para isso, vamos considerar os elementos de persuasão retomados por Perelman da retórica antiga e
reformulados de acordo com as situações contemporâneas, ressaltando que muitas destas técnicas persuasivas derivam dos
pensadores sofistas, em especial, Protágoras e Górgias. Ao retoricizar os saberes, a discursividade dialógica possibilita a
instauração de uma filosofia retórica, que admite o pluralismo e a controvérsia como parte intrínseca da racionalidade.
Palavras-chave
Palavras-chave: Perelman, retórica, sofística.

Résume

Ce travail a l’objectif de mettre en relief l’importance de l’étude des techniques argumentatives dans la formulation de divers

RETÓRICA ANTIGA E NOVA RETÓRICA: CHAïM PERELMAN E OS SOFISTAS


types de discours. Alors, nous allons considérer les éléments de persuasion repris par Perelman de la rhétorique ancienne et
reformulés selon les situations contemporaines, en soulignant que beaucoup de ces techniques proviennent des penseurs sophistes,
particulièrement Protagoras et Gorgias. Au moment de transformer les savoirs em rhétorique, la pensée discursive dialogique
rend possible l’instauration d’une philosophie rhétorique, qui admet le pluralisme et la controverse comme partie intrinsèque de
la rationalité.
Mots-clé
Mots-clé: Perelman, rhétorique, sophistique.

A reabilitação da retórica antiga proposta bólica. É com base nas pesquisas sobre os fundamen-
pela Teoria da Argumentação de Chaïm Perelman tos da Logística moderna que Perelman busca uma
(1912-1984) não significa um interesse imediatista justificativa racional para a elaboração de uma lógica
pelos discursos persuasivos da retórica. Na verdade, dos juízos de valor, que vai encaminhá-lo para o
as investigações perelmanianas acerca do estudo das estudo das técnicas argumentativas da retórica antiga.
técnicas retórico-argumentativas constituem um des- Assim, se num primeiro momento o exame da
dobramento natural de sua tese de doutorado (Études discursividade retórica – formulada com raciocínios
sur Gottlob Frege – 1938), dedicada à Lógica Sim- verossímeis e não-formais, a partir de proposições pro-

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váveis e contingentes – pode causar estranheza ao na condição de se seguir as regras do mé-


pensamento lógico, observamos que as técnicas dos todo cartesiano, eliminando a influência da
discursos retóricos passam a ser uma complementação imaginação e das paixões, dos preconcei-
indispensável para a compreensão da lógica, segun- tos e das prevenções, da má educação
do a Nova Retórica. e do mal uso da linguagem, e evitando
É especialmente sob influência aristotélica que as fraquezas de nossa memória.
o Traité de l’Argumentation perelmaniano sustenta o (PERELMAN, 1963, p. 95-96)
resgate filosófico da retórica clássica, muito embora, No que diz respeito ao exame das investiga-
devemos salientar, não tenha sido esta a intenção de ções da Logística, observamos que Perelman desta-
Aristóteles, em sua obra dedicada ao estudo dos ra- ca, em sua crítica, que o empenho formalista na busca
ciocínios retóricos. Acrescente-se ainda que, diante de um alicerce seguro para a formulação exata do
do posterior antagonismo entre a Lógica Clássica da raciocínio requer um evidente rigor conceitual, livre
Antigüidade e a Logística moderna, Perelman tam- dos equívocos e das ambigüidades da linguagem na-
bém faz questão de assumir a defesa da lógica de tural, a fim de produzir conclusões inquestionáveis,
Aristóteles, enfatizando a relação mais precisa unívocas e intemporais. Este repúdio à linguagem co-
desta última com a realidade que serve de funda- mum é, então, justificado pela exigência de se obe-
mento para o seu Tratado. decer aos cânones normativos estruturais, os quais não
Não devemos esquecer, entretanto, que o podem sofrer alterações. Conforme explica Perelman:
confronto entre a lógica aristotélica e o formalismo Estas prescrições estritas, às quais nenhuma
moderno acarretou para a primeira severas críticas, in- língua natural se amolda, são inspiradas
tensificadas em especial pelo desenvolvimento das pelo ideal formalista, que gostaria que de
matemáticas no século XIX, quando lógicos e mate- qualquer seqüência de signos se pudesse
máticos pretenderam, inspirados no método dos dizer, sem contestação possível, se consti-
geômetras e em construções algébricas de precisão tui ou não uma expressão significativa (ou
indiscutível, assegurar a formulação dos raciocínios seja, bem formada) e, de qualquer seqüên-
evidentes, evitando qualquer menção à linguagem cia de expressões, se constitui uma prova.
natural. Ou seja, a prioridade outorgada à estruturação (1963, p. 185)
formal do discurso impediu o uso de nossa linguagem Como ciência rigorosa de estruturação do
cotidiana, ambígua e incerta, nas construções lógico- pensamento correto (independente de conteúdos
-matemáticas. Esta inspiração matemática resultaria, específicos), a lógica busca alcançar a validade uni-
de acordo com a teoria perelmaniana, da profunda versal, utilizando-se de regras unívocas, as quais per-
influência do racionalismo clássico cartesiano, da cria- mitem atingir a certeza evidente e, assim, chegar a
ção de um método seguro de conhecimento capaz uma conclusão indiscutível. O ápice desta conclusão
de vislumbrar a verdade absoluta e imutável, e do inquestionável é a ultrapassagem de toda e qualquer
conseqüente afastamento das idiossincrasias humanas. dúvida com relação à estrutura formal do sistema,
É a geometria que fornece a Descartes o desprezando as particularidades associadas a conhe-
modelo destas idéias claras e distintas, cimentos sem comprovação exata, que não têm com-
destas proposições eternamente verdadei- promisso com uma metodologia que possibilite al-
ras, cuja evidência se impõe a todo ser cançar uma verdade plena e imutável. Portanto, a
racional. (...) A deliberação e a discus- lógica modela sua aplicabilidade com base em prin-
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são são somente a manifestação da incer- cípios racionais rígidos que possam reproduzir e cir-
teza, que resulta de um conhecimento im- cunscrever expressões absolutas, preliminarmente defi-
perfeito; mas essa imperfeição é evitável, nidas, para consolidar a validade do sistema formal:

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o formalismo lógico pretende ultrapassar as possibili- Daí a proposta de se considerar a possibilidade de


dades interpretativas das argumentações dialógicas, uma lógica argumentativa, que ultrapasse os limites
empenhando-se, por isso, em elaborar raciocínios vá- constringentes da razão formal, para fundar novos pres-
lidos, ao abrigo de contextos sócio-históricos, propri- supostos no âmbito do saber. Esta lógica, assentada
amente humanos. sobre proposições não-formais, se sustenta na matéria
Segundo Perelman, os sistemas formais se apro- do raciocínio argumentativo, nos valores do discurso
priaram da racionalidade e da prerrogativa da cons- comunicados pela nossa linguagem.
trução de raciocínios consistentes e perfeitos, atrelan- Nesse ponto, vemos a necessidade de
do seus elementos constitutivos a um modelo de ra- explicitar a distinção feita por Perelman entre os ter-
zão absoluta e intemporal. No entanto, acreditamos mos demonstração e argumentação; isso porque sua
que, para além do âmbito do formalismo, existem teoria estabelece que a demonstração exige a
variados campos do conhecimento onde, com igual univocidade de seus elementos e se situa no campo
rigor, se desenvolve a busca do saber, num espaço- de dedução das proposições necessárias, evidentes e
tempo determinado, e que não podem ser rotulados absolutas, ao passo que a argumentação, ao contrá-
de irracionais apenas por não priorizarem comprova- rio, não é constringente nem limitada, pois as discus-
ções inquestionáveis e por necessitarem, como base, sões argumentativas estão sempre em processo, aber-
de nossa linguagem natural, mesmo que as conclusões tas à interpretação, e sua construção jamais será previ-
apresentadas sejam sempre provisórias e não refratári- amente elaborada.
as a dúvidas e questionamentos. Mas, alijar como Se a demonstração libertou-se do tempo
irracional ou ilógico um raciocínio que não possa ser isolando do contexto um sistema, tentou
“cientificamente” comprovado é desconsiderar a pró- também libertar-se da influência do tempo
pria formulação discursiva, pois toda argumentação sobre os instrumentos utilizados. Todo o
pressupõe uma lógica determinada com elementos seu esforço, no sentido de univocidade, é
concatenados entre si, dos quais resulta, sempre, uma uma maneira de cristalizar o tempo. O que
conclusão coerente. Não podemos deixar de salien- equivale a dizer que a demonstração se
tar que a racionalidade humana se desenvolve em um liberta da linguagem. (...) A argumenta-
meio sócio-político específico e depende da interação ção, pelo contrário, é essencialmente um
discursiva entre os indivíduos – o que impede a restri-

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ato de comunicação. Implica comunhão
ção aos padrões matematizantes e limitados do de mentes, tomada de consciência comum
formalismo. Assim, mais do que ampliar a possibili- do mundo, tendo em vista uma ação real;
dade de comunicação livre, inexistente em uma cons- supõe uma linguagem viva, com tudo o
trução lógico-formal, a discursividade dialógica e re- que esta comporta de tradição, de ambi-
tórica interfere racional e emotivamente no espírito güidade, de permanente evolução.
humano, em um público predisposto a discutir, parti- (PERELMAN, 1969, p.49-50)
cipar e interagir com seus semelhantes sobre temas
apresentados e contextualmente apreciados, a fim de Assim, enquanto a demonstração é rígida e se
impõe como única via possível, a argumentação é
chegar a conclusões consensuais, sobre as quais se sus-
maleável, flexível, dinâmica, sujeita ao tempo e às
tenta qualquer processo racional.
situações históricas, que se transformam constantemente.
No exame das técnicas dos raciocínios Por isso, o discurso argumentativo só se efetiva através
discursivos, a teoria perelmaniana investiga a impor- das relações interpessoais, e deixa sempre uma aber-
tância dos discursos no revigoramento de uma razão tura para a controvérsia, para a liberdade de pensar.
plural e dinâmica, dando ênfase aos procedimentos Enquanto o discurso lógico-demonstrativo instaura uma
argumentativos como base de todo conhecimento. razão unívoca e imutável como fonte de todo saber, a

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racionalidade argumentativa e dialógica necessita da Clássica e, mais precisamente, à retórica e ao trata-


comunhão de mentes, da participação intelectual do mento dispensado à palavra: força viva do discurso
interlocutor, de seu assentimento às teses apresenta- persuasivo.
das. Mesmo que a Teoria da Argumentação esteja
Entre os conflitantes raciocínios que instituem fundamentada no pensamento de Aristóteles,
a razão ou desrazão, Perelman propõe uma terceira Perelman não deixa de reportar-se freqüentemente aos
via: a via da razoabilidade, dos argumentos capazes precursores do estudo das técnicas retóricas de per-
de produzir ou modificar situações, dependendo do suasão e convencimento – os pensadores sofistas, os
grau de persuasão e convencimento que se estabelece primeiros a investigar as condições persuasivas dos
entre o orador e seu interlocutor. É a partir da apre- discursos. As técnicas retóricas dos sofistas, que re-
sentação da via do razoável, do preferível – pois volucionaram o ensino grego, persistem até nossos dias
lidamos com argumentos apenas prováveis – que a em todos os campos da atividade humana, não
Teoria da Argumentação legitima sua proposta de obstante o desprezo de seus detratores; por isso, são
repensar e enriquecer o conceito de racionalidade, considerados os criadores de uma nova consciência
introduzindo-a na práxis discursiva. Por isso, é neces- cultural que se adapta ao contexto sócio-político e
sário reconduzir a razão ao plano dialógico, relacio- atinge intensamente o espírito da juventude ateniense.
nando os discursos retóricos com o questionamento O nascimento da paidéia grega é o exem-
filosófico. Compreendemos então que, diferentemen- plo e o novo modelo deste axioma capi-
te do que asseguravam os antigos filósofos tal de toda a educação humana. A sua
contemplativos, a retórica não é estranha ao conheci- finalidade era a superação dos privilégios
mento e à filosofia. Existe, portanto, total pertinência da antiga educação para a qual a areté só
do uso da retórica no discurso filosófico, pois, se o era acessível aos que tinham o sangue divi-
filósofo não é o arauto de uma verdade única, de um no. (...) O Estado do século V é assim o
discurso monológico que não admite contestação, só ponto de partida histórico necessário do
lhe resta recorrer a argumentos que possam influenciar grande movimento educativo que imprime
e convencer o outro – o auditório – a respeito de o caráter a este século e ao seguinte, e no
suas teses. É preciso que os filósofos exponham qual tem origem a idéia ocidental da cul-
discursivamente suas teses perante um auditório abs- tura. (JAEGER, 1995, p.336-337)
trato e idealizado, que não é perceptível e nem está
assegurado de antemão, a fim de alcançar a adesão Ao substituir o antigo ideal de educação da
desejada. Daí a recorrência ao discurso argumentativo aristocracia, os sofistas criaram condições para um novo
e retórico, e não à constringência da demonstração modelo se saber, especialmente voltado para a vida
formal. social e política da Cidade. Conforme explica
Perelman, este seria o ponto central de confronto en-
É a recuperação da retórica antiga que vai fun- tre os mestres da sofística e seus adversários, já que
damentar a proposta perelmaniana de apresentar sua “representava a oposição entre as duas formas de um
teoria como uma outra via possível para o exame da ideal de vida, a vida ativa e a vida contemplativa.”
racionalidade contemporânea, porque também a ra- (1969, p.219) Ou seja, por serem mestres na
zão grega – e estamos mencionando o século de ouro arte da linguagem discursiva, os sofistas pretendiam
de Atenas, da democracia participativa – era essen- que – para alcançar a areté política – seus ensinamentos
cialmente uma razão retórica, dinâmica e renovável, fossem especificamente retóricos, vinculando a
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que dependia do consenso dos cidadãos da polis. racionalidade dos discursos à ação e à vida prática,
São estas questões que levam Perelman a um mergu- o que, como vimos, se chocava com aqueles opositores
lho na gênese das práticas argumentativas da Grécia que valorizavam a vida contemplativa na busca de

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uma verdade perene. É nesse sentido que haveria um primeira geração dos sofistas, Protágoras e Górgias
embate entre a ação e a contemplação. desempenharam um relevante papel na formação do
Um fato marcante, que também deve ser res- novo homem na pólis democrática, onde o bom ora-
saltado, é que os filósofos sofistas vinham das colôni- dor seria capaz de exercer com eficácia sua atuação
as gregas (da mesma maneira que os pré-socráticos), nas discussões da ágora (Cf. JAEGER, 1995,
onde se desenvolvia outro tipo de conhecimento in- p.340).
fluenciado pelos eleatas, bem como o estudo da his- Considerado o pai da oratória, Protágoras de
tória, e, por conseguinte, observavam minuciosamen- Abdera (c. 489/485-411a.C.), foi um dos mais
te, as mudanças e o movimento evolutivo das socie- célebres sofistas de seu tempo, um dos primeiros profis-
dades. Além disso, um traço comum entre os sofistas sionais da educação voltada para o ensino das
era a oposição entre nomos (a lei, a norma, a con- técnicas do discurso. De seus ensinamentos ficou-nos
venção) e physis (a natureza), o que, politicamente, o famoso fragmento: “O homem é a medida de to-
representava uma luta entre a cidadania democrática das as coisas, daquelas que existem, enquanto exis-
e a aristocracia, a qual mesmo após a instauração da tem, e daquelas que não existem enquanto não exis-
democracia, não tinha nenhuma simpatia pelas outras tem.” (Cf. PERELMAN, 1980, p.16). Esta sen-
classes sociais. Entende-se então que os filósofos so- tença, freqüentemente interpretada como um
fistas, ao se posicionarem a favor das convenções direcionamento à questão do indivíduo, da subjetivi-
sociais, seja no campo da moral, da verdade, ou das dade, fez com que alguns o considerassem como sen-
religiões, vão situa-se ao lado da democracia e da do um individualista. Mas, se levarmos em conta a
mutabilidade de valores, que não seriam absolutos preocupação de Protágoras em integrar o ser humano
nem imutáveis nem tampouco fariam parte de uma ao Estado, o homem como medida da existência das
natureza pré-determinada ou de uma ordenação divi- coisas pode ser relacionado, ao contrário, ao homem
na (Cf. GUTHRIE, 1995, p.57). Por serem mes- social, inserido na vida pública, o que significa a
tres nas técnicas de construção dos discursos persuasi- interação deste homem com os valores de sua socie-
vos da retórica, os sofistas pretendiam que – para dade e, por conseguinte, preconiza uma concepção
alcançar a areté política – seus ensinamentos vinculas- sociológica do conhecimento (Cf. DUPRÉEL, 1980,
sem a racionalidade discursiva à ação e à vida práti- p.27).
ca, o que, mais uma vez, se chocava com aqueles

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Protágoras foi um jurista e, segundo Perelman,
opositores que valorizavam a vida contemplativa na teria sido ele, e não Sócrates, o precursor da moral
busca de uma verdade perene, ratificando o confron- filosófica, o primeiro a examinar as questões morais
to entre a filosofia da ação e a filosofia da contempla- fora do campo da religião (Cf. PERELMAN, 1980,
ção. p.14). Educador por excelência, Protágoras elege o
Apesar do reconhecido prestígio dos sofistas discurso como o instrumento de ensino, capaz de
em sua época, como precursores de um saber integra- influenciar e, mesmo, modificar as condições de co-
do à vida pública, o que vigorou por muitos séculos nhecimento do aluno, já que o fundamento do dis-
foi a crítica acirrada dos que combatiam ferozmente curso repousa sobre uma lógica contextual, vinculada
os ensinamentos da sofística. Mas nem por isso este a uma verdade histórica e, portanto, mutável (Cf.
ensino foi invalidado, e, mesmo que testemunhos che- DUPRÉEL, 1980, p.27). De suas lições faziam
gados até nós partam de seus próprios opositores, parte os dissoi logoi, isto é, os discursos duplos e
mestres como Protágoras e Górgias são considerados opostos, pois, de acordo com o pensador de Abdera,
verdadeiramente como os primeiros mentores das téc- para cada tema existe a possibilidade de se utiliza-
nicas dos discursos argumentativos, sistematizadas por rem as antinomias, argumentos reciprocamente
Aristóteles e assimiladas por Perelman. Pensadores da conflitantes. Além disso, há também a possibilidade

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da construção de discursos breves, concisos, ou lon- zir efeitos narcotizantes e entorpecedores sobre as
gos, mais detalhados, conforme as circunstâncias, e a pessoas.
habilidade de tornar forte um argumento fraco, quer Retomando a Nova Retórica, devemos desta-
dizer, fazer com que um discurso inferior (e sem con- car, ainda uma vez, a influência de Aristóteles nas
sistência) se apresente como superior. Nota-se, en- investigações perelmanianas, porque, como sabemos,
tão, que o método educacional de Protágoras não o Traité de l’Argumentation fundamenta-se na Retóri-
consistia apenas na transmissão pura e simples de um ca aristotélica. Porém, isso não significa que Perelman
conhecimento teórico, mas abrangia a totalidade, ao se limite a reproduzir a estrutura desta obra; na verda-
relacionar a porção intelectual do homem com a sua de, ele a toma como ponto de partida, para ampliar
vida em sociedade, como membro do grupo social, suas pesquisas sobre as técnicas persuasivas e estendê-
promovendo uma educação ampla que atingisse o las à nossa contemporaneidade. De fato, na reelabo-
espírito, na busca da justiça e do bem comum (Cf. ração da retórica antiga, a Teoria da Argumentação
JAEGER, 1995, p.361). mantém seus elementos principais: o orador, o audi-
Mas é em Górgias (c. 485-380 a.C.) que tório e o discurso (ethos, pathos, logos) – que cons-
o poder da palavra alcança toda a plenitude. Para tituem as partes fundamentais de toda argumentação
ele, a ciência do discurso é uma arte suprema; por retórica.
isso, a retórica, a verdadeira filosofia, deve estar aci- Os discursos da retórica clássica eram essen-
ma de todas as artes (Cf. DUPRÉEL, 1980, p.76). cialmente orais e dirigidos à multidão da ágora que,
Neste aspecto, sua retórica se preocupa com a har- de modo imediato, aprovava ou não as palavras do
monia entre a forma e o conteúdo das palavras, de- orador. Atualmente as condições do discurso são
tendo-se especialmente no efeito que estas produ- bem mais complexas, porque ultrapassam limites não
zem sobre o interlocutor, pois a arte de bem dizer, estabelecidos ou sequer imaginados por Aristóteles.
que influencia e seduz o ouvinte, depende desta jun- Para Perelman, não se pode mais considerar como
ção para estabelecer uma adesão eficaz. O entusias- persuasivo apenas o que se expõe oralmente, pois a
mo produzido pelo discurso suscita a retomada Nova Retórica se refere, também, aos textos escritos;
gorgiana do conceito de kairós – momento certo, os quais, igualmente, usam da persuasão e do con-
tempo favorável – que exprime a oportunidade tem- vencimento para se tornarem eficazes.
poral da retórica, unindo, com precisão, o ouvinte
Com relação ao auditório, a teoria
aos interesses do orador. A noção de kairós é, assim,
perelmaniana dá pleno destaque ao auditório, que
indispensável ao discurso retórico, por determinar a
pode ter cinco características: universal, idealizado
circunstância exata, o momento oportuno em que a
amplamente, como o auditório do filósofo, por exem-
eficácia dos argumentos se manifesta: é quando a
plo; heterogêneo, que corresponde a auditórios de
adesão ao tema apresentado se concretiza. Por isso
interesses diversos; especializado, quando se refere a
Górgias admite uma ética do kairós, que considera a
grupos de interesses específicos; de um só interlocutor,
impossibilidade do estabelecimento rígido de regras
que se dirige a um único ouvinte; e de deliberação
morais, e defende uma moral contextualizada, isto é,
íntima, aquele em que o sujeito delibera consigo mes-
uma moral da ocasião, pois uma mesma ação pode
mo a respeito de uma decisão a ser tomada.
ser louvável ou condenável, dependendo do momento
em que se verifica. A palavra é então definida como A posição do orador atual não se limita aos
um phármakon, um remédio poderoso que cura ou discursos orais, como na Antigüidade; ele é aquele
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envenena aquele que o ingere (Cf. PLEBE, 1978, que fala e escreve, pois, como vimos, a persuasão se
p.21), e a persuasão retórica pode não só provocar encontra também nos textos escritos. Mas, segundo
atitudes e gerar transformações, mas, também, produ- Perelman, este orador está em posição mais modesta:

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ele depende de seu auditório, já que a prática a liberdade de escolha – de aceitar ou recusar certas
argumentativa é dialógica e só se efetiva com a parti- normas ou regras (os nomoi) – para, argumentativa-
cipação do outro (mesmo que este outro seja o pró- mente, buscar convencer o outro a respeito das teses
prio sujeito). Desse modo, a superioridade do ora- apresentadas. Nos julgamentos de valor os conteú-
dor é apenas aparente e só existe em função da con- dos são decisivos para se alcançar o assentimento
cordância de seu público. Na verdade, é o auditó- desejado, o que comprova a inseparabilidade entre
rio que ocupa o papel central na argumentação retó- a forma e a matéria do discurso proposta pela Nova
rica: basta que ele se negue a apreciar o discurso do Retórica, e nos remete, ainda uma vez, ao estudo das
orador para destruir qualquer possibilidade de argu- técnicas persuasivas dos sofistas. De acordo com
mentação (Cf. PERELMAN, 1958, p. 18-34). Perelman, quando se trata de valores, os raciocínios
A Teoria da Argumentação conserva ainda a lógico-demonstrativos são insuficientes para nos dar
designação dos gêneros da retórica aristotélica: o uma resposta, pois não é possível explicar formalmen-
deliberativo que diz respeito ao aconselhamento, a te nossa preferência pelo bem, pela justiça. Ao deli-
decisões particulares ou públicas, e se associa ao futu- berar sobre um modo de proceder, sobre uma tomada
ro; o judiciário, ligado à acusação e à defesa, à lega- de posição, as decisões só podem ser justificadas por
lidade ou não de certos atos, e faz parte do já vivi- intermédio de processos argumentativos e retóricos,
do, do passado; e o gênero demonstrativo ou que nos permitem racionalizar, discutir e questionar
epidítico, que objetiva o elogio e a censura, relacio- valores para os quais não existem critérios unívocos
nando-se, por isso, com o presente. O destaque dado de opção. Conforme diz Perelman, um auditório
à temporalidade vem confirmar a estruturação de um não é uma tabula rasa, e já traz consigo os elementos
tempo retórico; quer dizer, os discursos retóricos su- de sua cultura e tradição, admitindo certos fatos e
peram o imediatismo, o aqui e agora, e apontam para valores que não podem ser desconsiderados pelo ora-
a necessidade de um vínculo historicamente determi- dor (1963, p.100).
nado.
Ora, se a atividade retórica se identifica com
Existem ainda variadas provas, lugares, tipos a prática argumentativa contextualizada, podemos
de raciocínio, relacionados à construção dos discur- considerar que todo discurso é retórico, desde que
sos persuasivos sistematizados por Aristóteles e não seja regulado pelo formalismo e nem se proclame
complementados por Perelman, mas é importante res- detentor de uma verdade intemporal. Mas foi exa-

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saltar que há também uma diferença considerável en- tamente o desprezo pelas técnicas retóricas, orques-
tre ambos, especialmente naquilo que constitui a base trado por alguns filósofos antigos, que causou danos
da pesquisa perelmaniana: os valores. Enquanto quase irreparáveis ao seu estudo. Acusada de trans-
Aristóteles deixa claro, em sua Retórica, que não pre- mitir um conhecimento superficial e dúbio, a retórica
tende se posicionar com relação aos juízos de valor se viu alijada do âmbito filosófico e reduzida a uma
contidos na persuasão, Perelman sustenta que os va- simples parte da gramática: o estudo das figuras
lores são o fundamento de toda argumentação, indis- estilísticas. Todavia, considerando o discurso retórico
pensáveis até mesmo no campo da investigação dos como processo argumentativo que busca a concor-
saberes (Cf. PERELMAN, 1958, p.99). A dância e a adesão do outro, torna-se legítima a aspi-
valoração pertence ao campo do preferível, do pro- ração da retórica de fazer parte da filosofia, pois as
vável e, para se chegar a um consenso, é necessário teses filosóficas não podem ser formuladas por axio-
que a argumentação exerça sobre o auditório uma mas. Mesmo que Perelman não tenha desenvolvido
função conciliadora, capaz de assimilar e difundir suas investigações com base nos estudos da sofística,
valores comuns. observamos que a ênfase dada aos valores e à
A deliberação sobre os juízos de valor, que mutabilidade da razão o aproxima daqueles pensa-
nos leva a explicar nossa opção por algo, pressupõe dores – cujas pesquisas mantêm uma atualidade sur-

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preendente. A recuperação das técnicas retóricas nos GUTHRIE, W.K. C. Os Sofistas. Trad. João Rezende
mostra, assim, o poder do discurso como capacida- Costa. São Paulo: Paulus, 1995.
de de expor o pensamento, de ordenar e refletir, de JAEGER, Werner. Paidéia – A Formação do Homem
divulgar e transmitir o conhecimento, os costumes e as Grego. Trad. Artur M. Parreira. São Paulo: Martins
tradições da sociedade. Enfim, é o discurso que Fontes, 1995.
propicia o relacionamento humano e a conseqüente MOSSÉ, Claude. Atenas – A História de uma
transformação do mundo; entretanto, ao mesmo tem- Democracia. Trad. João Batista da Costa. Brasília: UnB,
po em que pode promover o advento de uma socie- 1997.
dade harmônica, pode também ser construído visan- PERELMAN, Chaïm & OLBRECHTS-TYTECA,
do a interesses particulares, econômicos ou ideológi- Lucie. Traité de l’Argumentation. Paris: PUF, 1958.
cos, num processo manipulador de mascaramento da Justice et Raison. Bruxelles: Presses
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