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C) Em quais hipóteses poderão ser consideradas a apresentação do Plano de

Recuperação Judicial pelos credores?

Como se sabe, antes das alterações trazidas pela lei 14.112/2020, a Lei de
Recuperação Judicial e Falência atribuía exclusivamente ao devedor a função de apresentar o
plano de recuperação da Empresa. Contudo, umas das principais novidades introduzidas pela
referida lei, em vigor desde do dia 24 de janeiro de 2021, foi justamente a possibilidade de
apresentação do plano de recuperação pelos credores, observadas as hipóteses descritas na
legislação.

Nessa toada, a primeira hipótese de apresentação de plano de recuperação alternativo


se dá quando encerrado o período de stay períod sem que tenha se dado a oportunidade aos
credores de deliberação sobre o plano apresentado pela recuperanda. O stay períod trata-se do
período suspensão de 180 dias, prorrogável uma única vez por igual período, preconizado no
artigo 6°. Assim, de acordo com os ditames da nova lei, nasce aos credores a possibilidade de
apresentarem plano alternativo, no prazo de 30 dias.

A segunda hipótese que gera aos credores a possibilidade de apresentação de plano


alternativo é a rejeição em Assembleia do plano proposto originalmente pelo devedor. Insta
consignar que, antes da vigência da lei, caso o plano colocado fosse rejeitado pela maioria dos
credores a consequência era a convolação da recuperação judicial em falência.

Agora, há uma nova possibilidade, e ao invés da rejeição significar falência automática


do devedor, permite-se que os credores optem se levarão o devedor a falência ou se
apresentarão plano alternativo, na própria Assembleia. Caso optem pela apresentação do
plano alternativo, abre-se prazo de 30 dias para submeter o novo plano a Assembleia, nos
termos do artigo 56, §4 da Lei.

Contudo, frisa-se que o plano recuperação judicial proposto pelos credores somente
será posto em votação caso observados os requisitos cumulativos dispostos no artigo 56, §6 da
Lei 11.105/05, incluídos pela lei 14.112/20. Vale lembrar que os requisitos específicos do
plano de recuperação devem ser somar aos requisitos comuns do art. 53 da LRJF.

Assim, para ser colocado em votação na Assembleia o plano de credores tem que
demonstrar ter tido a adesão prévia escrita de pelo menos 25% dos créditos totais sujeitos à
recuperação judicial, independentemente da categoria, ou, pelo menos 35% dos créditos dos
credores presentes à Assembleia-geral em que se deliberou pela apresentação do plano
alternativo de credores.

Ademais, o plano não pode prever novas obrigações aos sócios do devedor que não
tenham sido previstas em contratos ou termos anteriores, como também não pode opor
obrigações mais graves e intensas que decorreriam da própria decretação de falência. E, por
fim, uma exigência que vem sido muito discutida pela doutrina é a previsão de renúncia das
garantias pelo credor que apresentar o plano alternativo, aderir previamente ao plano
alternativo ou a ele votar favoravelmente, nos termos do artigo 56, §6°, inciso V. Isto coloca
em dúvida se a possibilidade de apresentação do plano de recuperação judicial pelos credores
vai ter aplicabilidade prática, gerando diversas doutrinárias.

Nesse sentido, oportuno apresentar a crítica feita ao dispositivo supracitado pelos


doutrinadores André Moraes Marques e Rafael Nicolleti Zenedi, citado por Mombach,
Matheus 2020 em seu artigo para o site Migalhas. Vejamos:

Para André Moraes Marques e Rafael Nicoletti Zenedi, um ponto que certamente
deverá ser alterado no Projeto de Lei é a condição para apresentação de plano
alternativo de isenção das garantias pessoais prestadas pelos sócios em relação aos
créditos a serem novados. De acordo com os autores, "o que a LRF prevê é que
tanto em cenário de aprovação como em cenário de rejeição do plano (...), o credor
mantém as garantias pessoais. Nesse sentido, se, até mesmo em um cenário extremo
de rejeição do plano do devedor e conversão da recuperação judicial em falência, o
credor não é obrigado a abrir mão da garantia pessoal outorgada pelo sócio, não é
razoável exigir que, em cenário de apresentação de plano alternativo, lhe seja
imposta tal liberação de garantias pessoais". In: MARQUES, André Moraes;
ZENEDIN, Rafael Nicoletti. Uma análise Comparativa do Direito de propor o Plano
de Recuperação Judicial à Luz das Legislações Americana e Brasileira.
Em Recuperação Judicial: análise comparada Brasil-Estados Unidos (coord. André
Chateaubriand Martins e Márcia Yagui). São Paulo: Almedina, 2020, p. 161 e ss.
Apud. Mombach. Matheus (2020).

Ante o exposto, percebe-se que a nova lei traz uma boa alternativa e importante
inovação em relação a matéria de recuperação judicial, tendo em vista que o plano alternativo
pode até mesmo ser benéfico ao devedor, já que evita a sua convolação em falência,
considerada muitas das vezes precoce. Em contrapartida, também pode ser benéfico aos
credores, possibilitando maior participação no plano de recuperação judicial. Assim, as
inovações trazidas pela lei garantem ao credor maior flexibilidade em rejeitar as condições
apresentadas pela recuperanda, objetando condições agressivas, permitindo-lhes apresentar as
próprias condições - desde que observados os requisitos legais - a fim de evitarem a falência,
que poderia ser um cenário pior e obterem melhor satisfação de seus créditos.
REFERÊNCIAS:

ALMEIDA, Débora Terra Vargas Pivato de. As relevantes inovações societárias trazidas pela nova lei de
falências e recuperação. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/depeso/341597/relevantes-inovacoes-
societarias-trazidas-pela-nova-lei-de-falencias. Acesso em: 21 abr. 2021.

BRASIL. LEI n° 11.101, de 9 de Fevereiro de 2005. Brasilía, Disponível em:


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11101.htm. Acesso em: 30 nov. 2020.

COELHO, Fábio Ulhôa. Comentários à Nova Lei de Falências. 6ª Ed. Saraiva.

LOBO, Murillo. A nova lei de recuperação judicial e falências. Disponível em:


https://www.migalhas.com.br/depeso/340460/alguns-aspectos-relevantes-para-empresarios-e-investidores.
Acesso em: 21 abr. 2021.

MOMBACH, Matheus Martins Costa. A reforma da lei 11.101/05 e a apresentação do plano de recuperação
judicial pelos credores. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/depeso/334953/a-reforma-da-lei-11-101-
05-e-a-apresentacao-do-plano-de-recuperacao-judicial-pelos-credores. Acesso em: 22 abr. 2021

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