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CONTEXTUALIDADE DA VIDA COTIDIANA EM AS NAMORADAS TÊM FOME

(2004), CONTO DE ANTONIO CARLOS VIANA

Elaynne Cristina Costa Rezende1


Emerson Vieira Souza2
Sara Rogéria Santos Barbosa3

EIXO 4 – Interlocuções entre conhecimento e saber no campo das Ciências Humana.

Palavras-chave: Literatura e cotidiano. Antônio Carlos Viana. Gênero conto. Vida conjugal.

1 INTRODUÇÃO

Segundo Aristóteles, a mimese, mímesis ou mimesis, é a arte de imitar situações da


realidade, sendo mais ou menos verossímil, seja escrito, através de filmes ou música (COSTA,
1992). Olhando para as narrativas modernas, podemos perceber que a mimese se faz presente
na representação do cotidiano que os textos trazem e como podemos reconhecê-lo como parte
do que vivemos, ouvimos ou vemos. Esse resumo tem como objetivo principal abordar a
representação do cotidiano presente no conto As namoradas tem fome, de Antônio Carlos
Viana (2004) e como, a partir dos pressupostos apresentados por Aristóteles, como reconhecer
o espelhamento das ações humanas, sejam elas boas ou não.
Os contos de Viana4 apresentam uma abordagem do tema principal de forma
gradativa, envolvendo o leitor aos poucos na narrativa, tratando sobre assuntos difíceis de
lidar. O objeto de estudo em questão traz uma perspectiva em terceira pessoa, sob o ponto de
vista de Carlos; homem, branco, hetero e ensinado a satisfazer todos os desejos da mulher,
desde que fosse para o benefício próprio.

2 O COTIDIANO NO CONTO LITERÁRIO: O ESPELHO DAS EMOÇÕES


O conto em questão nos apresenta o jovem Carlos, alguém que desejava apenas uma
boa noite de sono e que tem seus planos interrompidos quando sua companheira sente uma

1
Graduanda em letras-português na Faculdade São Luís de França. E-mail: crislanny909@gmail.com
2
Graduando em letras-português na Faculdade São Luís de França. E-mail: souzaemerson400@gmail.com
3
Doutoranda em Literatura e cultura pela Universidade Federal da Bahia, Mestre em Educação com ênfase na
História do Ensino de Língua pela Universidade Federal de Sergipe, Especialista em Didática e Metodologia do
Ensino Superior pela Faculdade São Luís de França e Licenciada em Letras Vernáculas pela Universidade
Federal de Sergipe. Endereço eletrônico: sararogeria@gmail.com
4
Antonio Carlos Mangueira Viana (1944-2016) foi mestre em teoria literária pela PUC-RS, doutor em teoria
comparada Universidade de Nice, França e professor na UFS.
fome repentina e seguem em uma jornada à procura de um lugar onde eles pudessem comer.
Eles não contavam com o fato de todos os locais, àquela altura, estarem fechados, exceto a
loja de conveniência. A escolha acaba em desentendimento.
Em uma análise superficial, é possível perceber que Cida possivelmente desejava
passar algum tempo com seu companheiro, pois como ele mesmo relata que passava “um dia
entre projetos” (VIANA, 2004, p. 48). Como pretendemos pontuar os aspectos do cotidiano,
ou melhor, da representação do cotidiano no texto de Viana, temos aí um elemento bem
comum em alguns relacionamentos: a solidão da mulher ainda que não seja sozinha. O único
momento junto do casal seria o horário de descanso e, como forma de distração, ela sugere
saírem para jantar. Primeiro ela cita seu restaurante favorito, após isso ela opta por algo que
foge de suas preferências, por fim ela acaba contentando-se com um “lanche rápido e
simples”. (p. 49).
Durante o percurso do conto, Viana nos mostra um dia comum entre o casal, exceto
pelo amargo sentimento de ódio que Carlos sente por Cida e não o amor que se espera que
exista no seio do casamento. O conto traz a perspectiva de Carlos e é possível perceber que o
protagonista tenta justificar-se pelo tratamento dado a ela, pelo simples fato que ele estava
cansado demais para lhe dar atenção. Ali estava uma mulher com quem ele se relacionava,
que queria dele atenção, companhia, mas ele não lhe devotava o menor sentimento senão ódio
e desprezo. Tal sentimento se materializava de forma extrema quando ele a estuprava violenta
e vingativamente. É a catarse a que Aristóteles se refere, é o momento em que sentimos terror
e temor pelo que passa a personagem, é o momento em que não desejamos que aquele fim se
confirme. (COSTA, 1992). Carlos saciava seu desejo enquanto Cida, nada podendo fazer,
permanecia inerte como uma presa fácil nas garras de leão faminto, afinal precisava retribuir
todo o trabalho que havia dado ao seu companheiro naquela noite na procura por algo para
comer. No fim ele a deixava em casa e seguia para a sua.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esse conto não é fácil de digerir, ele é delicado e duro, a realidade que muitas
mulheres passam dentro de seus relacionamentos que se sentem com medo e acabaram sendo
tomadas pela dor emocional e física sem denunciar, apenas sem força de reagir com essa
situação. No começo pensávamos ser algo leve quando só estavam jantando, porém a catarse
perturbadora que é evidenciada no final deixa o leitor sem reação e triste.
A forma como Viana trabalha em seus contos, de forma mimética, abre espaço para
debates em salas de aula em escolas e universidade. Geralmente, assuntos como esses são
evitados pois são bastante polêmicos, a literatura abre essas portas, contextualizando-o em
histórias, fábulas, crônicas e afins. Segundo Cortázar, “todo conto é perdurável é como uma
semente onde dorme uma árvore gigantesca. Essa árvore crescerá, inscreverá seu nome em
nossa memória.” (CORTÁZAR, 1974, p. 155). A relação entre o autor e o leitor é criada,
quando esses temas são significativos criando uma espécie de ponte com a realidade.
REFERÊNCIAS

COSTA, Lígia Militz da. A poética de Aristóteles: mímese e verossimilhança. São Paulo: Ática,
1992..

GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. 10. ed. São Paulo: Ática, 2004

VIANA, Antonio Carlos Mangueira. Aberto está o inferno. Companhia das letras, 2004

CORTÁZAR, Julio. Valise de Cronópio. In GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do Conto. 10. ed. São
Paulo: Ática, 2004 (p. 147-163).