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Por Carlos Eduardo Rios do Amaral

O Art. 101, VII, do Estatuto da Criança e do Adolescente  prevê


o acolhimento institucional, o conhecido abrigamento, como
medida de proteção a ser imposta pelo juiz nos casos de
ameaça ou violação dos direitos de menores.
O próprio ECA reputa o acolhimento institucional como um
mal na vida do menor, cercando este instituto de diversas
diretivas e preceitos legais expressos que nocauteiam a sua
prolongada subsistência jurídica no processo e,
principalmente, na vida da criança ou do adolescente.
A começar pelo Art. 99 do ECA que sinaliza que as medidas de
proteção poderão ser substituídas a qualquer momento. Ou
seja, o juiz deverá substituir o acolhimento institucional por
outra medida menos dramática na vida do menor, de modo que
lhe provoque um menor dano.
O Art. 100 do ECA, por si só, debela o acolhimento
institucional quando determina ao juiz que leve em conta as
medidas que visem o fortalecimento dos vínculos familiares do
menor. E, é evidente, não existe fortalecimento de vínculos
familiares de sangue quando restringido o direito de ir e vir do
menor, quando determinado que sua família esteja
obrigatoriamente alijada de sua vida.
O § Único, I, do Art. 100 do ECA prevê que toda e qualquer
medida de proteção leve em consideração a condição da
criança e do adolescente como sujeitos titulares de direitos
previstos nas leis e na Constituição Federal. O direito à
convivência familiar e comunitária, fora dos muros de um
abrigo, é garantia fundamental de assento constitucional,
previsto no Art. 227, caput, da Carta da Republica, sob o pálio
do super-princípio da absoluta prioridade.
Crianças e adolescentes não são meros objetos da avaliação
judicial ou do Conselho Tutelar, nem reféns de frios e
reservados laudos psicossociais. Todos eles possuem o direito
de ter os genitores e seus familiares em suas vidas. O respeito à
titularidade do direito à família atende ao princípio do superior
interesse da criança.

O § Único, X, do Art. 100 do ECA também prescreve que toda


medida de proteção deverá ater-se à prevalência da família.
Devendo ser dada prioridade à medida que mantenha ou
reintegre o menor à sua família natural ou extensa. Perceba-se
aí a aversão e ojeriza da legislação infanto-juvenil ao
acolhimento institucional.
Os pais, o guardião ou outro responsável têm o sagrado direito
de serem ouvidos pelo juiz e, ainda, de participar dos atos e da
definição da melhor medida de promoção dos direitos e de
proteção da criança. Certamente, a privação da convivência
familiar através do acolhimento institucional será uma intrusa
a ser repudiada por todos, não podendo ser jamais o propósito
da intervenção judicial.

O ECA qualifica o acolhimento institucional como medida


provisória e excepcional, antevendo-o como forma de transição
para a reintegração familiar do menor (Art. 101, § 1º, do ECA).
Não se pode perder de vista aqui a lúcida doutrina de NUCCI
(ECA, 2015, págs. 330/331) quando leciona que “retirar a
criança ou adolescente de sua família natural ou extensa,
colocando-a num abrigo ou numa família estranha, é a mais
drástica medida tomada pelo Estado para solucionar o drama
vivido por esses menores em situação de perigo. (...) Juízes e
promotores devem se conscientizar que um único dia no abrigo
é um elevado custo para a infância e juventude”.
Destarte, nenhum acolhimento institucional poderá gozar de
contornos asilares, de definitividade ou de primazia na vida da
criança e do adolescente. É expediente judicial que já nasce
com seus dias contados, a bem da reintegração e da
convivência familiar do menor.

Todas as crianças e adolescentes somente poderão ser


encaminhados às instituições que executam programas de
acolhimento institucional por meio de uma Guia de
Acolhimento, expedida pelo juiz, na qual obrigatoriamente
conste os nomes dos parentes e familiares interessados em tê-
los sob sua guarda.

A Guia de Acolhimento representa a formalização do


acolhimento do menor, de modo que a Vara da Infância
encaminhe o caso a uma solução. A Guia deve captar os dados
da família natural ou extensa interessados em ficar com o
menor.

Guia de Acolhimento institucional sem os nomes, qualificações


completas e dados dos parentes e familiares interessados em
ter o menor sob a sua guarda, é nula de pleno direito. O que
contamina toda a medida de acolhimento institucional, nos
termos do Art. 101, § 3º, III, do ECA, juntamente com todos os
atos processuais ulteriores.
Regra geral, sempre haverá um familiar ou parente interessado
na guarda do menor, a preterir a manutenção do acolhimento
institucional. Ignorar essa preponderância dificulta e retarda o
encerramento deste paliativo legal de exceção.

Também será cominada a pecha de nulidade da Guia de


Acolhimento e, assim, da própria medida de proteção de
acolhimento institucional se o juiz não declinar expressamente
as suas razões da não reintegração imediata do menor ao
convívio familiar (Art. 101, § 3º, IV, do ECA). Não podendo o
juiz, como em toda e qualquer decisão, se valer de conceitos e
expressões abstratas e genéricas para fundamentar sua decisão
extrema.
Imediatamente após o acolhimento institucional da criança ou
do adolescente, a entidade responsável pelo programa de
acolhimento institucional ou familiar, o abrigo, elaborará um
plano individual de atendimento (PIA), visando à reintegração
familiar do menor. É o que determina o § 4º, do Art. 101,
do ECA.
A meta primária do PIA é promover a reintegração familiar do
menor (NUCCI, pág. 333), afastando o caráter de
definitividade do abrigamento.

A ausência do PIA, ou PIA que não contemple a reintegração


familiar, viola o disposto no ECA e os princípios que regem a
sua aplicação. Sua nulidade é absoluta de pleno direito,
inquestionável, tornando o acolhimento institucional
verdadeira afronta e violação à garantia fundamental do menor
à convivência familiar (natural ou extensa).
Insiste o ECA, no § 5º seguinte, estabelecendo que o PIA será
elaborado sob a responsabilidade da equipe técnica do
respectivo programa de atendimento e levará em consideração
a oitiva dos pais ou do responsável pelo menor.
A não oitiva dos pais ou do responsável pelo menor pela equipe
técnica do abrigo na elaboração do PIA é causa de vício desse
instrumento de reintegração familiar.

E o ECA vai além, deverá o PIA contemplar os compromissos


assumidos pelos pais ou responsável e a previsão das
atividades a serem desenvolvidas com a criança ou com o
adolescente acolhido e seus pais ou responsável, com vista à
reintegração familiar (Art. 101, § 6º, do ECA).
Por meio de entrevistas e conversas informais, extrai-se o
compromisso assumido pelo pai e pela mãe (ou responsável)
para rever seu modo de agir e entrelaçar-se de maneira correta
com o filho (NUCCI, pág. 336).

O acolhimento institucional de todo menor deverá ocorrer no


local mais próximo da residência de seus pais ou do
responsável, para facilitar e estimular o contato com a criança
ou com o adolescente acolhido, visando o fortalecimento dos
vínculos familiares.

Extrai-se daí que um dos fatores da reintegração familiar do


menor concentra-se na viabilidade de se estimular as visitas
dos pais aos filhos.

A estimulação do contato com a família talvez seja o maior e


mais decisivo elemento do desejado processo de
desacolhimento pronto e imediato do menor (Art. 101, § 7º). Aí
reside essencialmente o direito de visitação da família ao
menor no abrigo aonde se encontra. Vedar a visitação dos
familiares, ou dificultá-la, vai de encontro aos princípios que
regem os objetivos de toda e qualquer medida de proteção,
notadamente o direito à convivência familiar.

Durante a execução da medida de acolhimento institucional a


família do menor deverá ser encaminhada pelo juiz a
programas oficiais ou comunitários de orientação, apoio e
promoção social, devendo obrigatoriamente ser elaborado
relatório judicial no qual conste a descrição pormenorizada das
providências tomadas pelo juiz em sua tentativa de promoção
da reintegração familiar do menor (Art. 101, § 9º).

Destaca-se neste ponto a importância das políticas públicas


sociais que devem ser desenvolvidas por União, Estados e
Municípios para a reestruturação das famílias, principalmente
das famílias carentes. O conhecido drama do crack e de outras
drogas em geral, o alcoolismo e a fome destroem com
velocidade famílias inteiras, comunidades vêm se tornando
reféns de traficantes armados até os dentes.

O Ministério Público não poderá ajuizar ação de destituição do


poder familiar sem esse relatório judicial, que deverá ainda ser
subscrito também por técnicos da entidade ou responsáveis
pela execução da política municipal de garantia do direito à
convivência familiar, conforme o Art. 101, § 9º, citado.

É importante observar que a lei não se refere ao corpo técnico


da Vara da Infância (NUCCI, pág. 340).

Sem o relatório judicial fundamentado, no qual conste a


descrição pormenorizada das providências tomadas e a
expressa recomendação, subscrita pelos técnicos da entidade
ou responsáveis pela execução da política municipal de
garantia do direito à convivência familiar, para a destituição do
poder familiar, o processo ajuizado pelo Ministério Público
deverá ser extinto por falta de interesse de agir.

A ação de destituição do poder familiar e com muito maior


razão a colocação da criança em família substituta não podem
decorrer da falha ou ausência de políticas públicas municipais
de garantia do direito à convivência familiar.

Como fiscal da lei, o Ministério Público deverá zelar pela fiel


observância do Art. 101, § 9º. Toda família de menor abrigado
deverá ser encaminhada pelo juiz a programas oficiais ou
comunitários de orientação, apoio e promoção social,
confeccionando-se relatório judicial com a participação dos
agentes municipais responsáveis envolvidos com a execução da
política municipal de garantia do direito à convivência familiar.

Caberá ao juiz manter em sua Comarca um cadastro contendo


informações atualizadas sobre as crianças e adolescentes em
regime de acolhimento institucional sob sua responsabilidade,
com informações pormenorizadas sobre a situação jurídica de
cada um, bem como as providências tomadas para sua
reintegração familiar (Art. 101, § 11).

O Art. 19, § 3º, do ECA sentencia que a manutenção ou a


reintegração de criança ou adolescente à sua família terá
preferência em relação a qualquer outra providência. A família
biológica tem preferência sobre o abrigamento e a família
substituta.
Até mesmo se a mãe ou o pai estiver privado da liberdade
deverá a entidade responsável pelo acolhimento institucional
do menor promover a reaproximação familiar, por meio de
visitas periódicas, independentemente de autorização judicial.

Como se vê, a legislação brasileira torna o instituto da adoção


praticamente impraticável, senão impossível, nos casos de
acolhimento institucional decorrente de ameaça ou violação
dos direitos de menores. Pois a opção legal do ECA pela
reintegração familiar a torna imbatível frente a possibilidade
secundária da colocação em família substituta.
Sempre haverá algum familiar habilitado a promover o
desacolhimento institucional e a guarda do menor. É o que nos
revela a prática do diaadia forense. Geralmente são as avós,
tias e irmãos que mais comparecem à Justiça clamando pela
reintegração familiar do menor. Muitas vezes não poupando
esses genitores de severas críticas.

Quanto ao instituto da adoção, com a colocação do menor em


família substituta, suas chances ficam praticamente reservadas
aos poucos e raros casos de entrega consciente pela genitora. E
ainda assim condicionada ao não aparecimento de nenhum
familiar exigindo a guarda da criança.

____________

Carlos Eduardo Rios do Amaral é Defensor Público do


Estado do Espírito Santo

Carlos Eduardo Rios do Amaral


Defensor Público

Defensor Público do Estado do Espírito Santo


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2 Comentários

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Rafael Oliveira Silva


1 ano atrás

Boa noite, Dr. Fiquei impressionado com esse texto! Sou advogado, e
ontem um cliente me procurou pois seus filhos encontram-se na
situação de acolhidos, em virtude de a mãe ter sido autuada no crime
de abandono de incapaz. O pai é separado da mãe, mas sempre
ajudava financeiramente e com visitas aos filhos. Agora ele quer a
guarda das crianças para morarem com ele. E numa parte do texto
que o Dr. escreveu vi isto: "que um membro familiar promover o
desacolhimento institucional e a guarda do menor. É o que nos revela
a prática do diaadia forense". Gostaria de uma ajuda Dr., como entro
com esse pedido de desacolhimento e guarda em favor desse pai?
Como endereço, quem eu qualifico? O sr. poderia me ajudar com um
modelo ou um direcionamento do que fazer. Desde já agr