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IN: ARNOLD, Dana. Introdução à história da arte. São Paulo: Editora Ática, 2008.

Transcrição parcial do capítulo 2.

Histórias da arte machistas

Desejo agora falar sobre o viés tendencioso da história da arte escrita para uma interpretação masculina do
assunto - mesmo que muitos patronos e temas tenham sido ou sejam mulheres. Complementar a isso é o impacto do
trabalho de historiadores da arte, como Griselda Pollock e Linda Nochlin. Foi há mais de uma geração que os primeiros
textos femininos começaram a aparecer delineando uma maneira diferente de ver e entender a produção cultural e as
relações sociais aí expressas. Griselda Pollock e Rozsika Parker em Pode mistreisses (1981), identificaram o paradoxo
crucial sobre a postura em relação às mulheres na elaboração das histórias especialmente quanto a criatividade.
Ao lado de Griselda e Rozsika, Linda Notchlin contribuem de forma significativa para essa para nossa
compreensão desse problema, e seu ensaio "Por que não houve grandes mulheres artistas?" permanece um texto de
referência sobre o problema, ainda que tenha sido escrito em 1971. Vale lembrar que linda o redigiu no auge do
movimento pela liberação da mulher - mais ou menos na mesma época em que Judy Chicago produziu O jantar seu
ensaio se baseia em uma série de conjectura acerca do que consiste a "grande arte" e nas pressuposições históricas e
machistas que existem por trás da ideia do artista. Linda argumenta que a arte não é uma atividade autônoma de um
indivíduo "superdotado". Ao contrário, a "realização artística" ocorre em uma situação social e é um elemento essencial
dessa estrutura social intermediada por coisas como academias de arte, sistemas de patronagem e o artista, seja ele um
machão ou pária da sociedade. Em outras palavras, a sociedade cria seus mitos em torno da ideia de arte e de artista, os
quais endossam o status quo nessa sociedade. A história da arte, até às intervenções das feministas, era parte desse mito,
ou o que podemos chamar de discurso. Ao fazermos perguntas diversas sobre as condições da produção de arte,
podemos muito bem chegar a uma série de novas idéias sobre sua natureza, a prática artística e os " grandes artistas".
Embora preocupada principalmente com a mulher, a história feminista da arte chamou a atenção para a questão
da diferença, seja ela sexual, social ou cultural. Em consequência disso, hoje vemos as obras de arte e escrevemos sobre
elas e seus modos de representação de diferentes perspectivas históricas e estéticas. Não há dúvida quanto à tendência
de aceitar o que quer que seja tido como natural, tanto no que se refere à investigação acadêmica quanto aos nossos
sistemas sociais. Mas a história feminista da arte nos fez refletir, pela primeira vez sobre o cânone da história geral da
arte e fornecem os meios para pensarmos sobre as obras de diferentes maneiras. Retomarei essa questão no capítulo 4.
Nos últimos anos, vários estudos ampliaram a questão do controle do material visual, abrangendo não só a
relação entre homens e mulheres, mas também a relação entre a homossexualidade e a arte, às vezes chamada de "teoria
gay", e a relação entre colonizador e colonizado em um mundo pós-colonial. Essa ruptura ou questionamento das
diferentes relações de poder existentes entre a arte e seus usuários e produtores constitui parte essencial da disciplina.

O lugar da arte não ocidental na história

As décadas de 60 e 70 foram, com certeza, a época em que a maneira de escrevemos sobre arte foi reavaliada.
Já vimos como Linda Nochlin e Clement Greenberg apresentam visões do tema completamente diferentes. Está claro
que escrever a história da arte é tanto um processo de exclusão quanto de inclusão, e essas escolhas normalmente são
feitas segundo o cânone da arte ocidental. Desejo me deter na ideia de exclusão e refletir sobre a omissão, da mesma
forma que acontece com as mulheres, dos artistas e da arte de outras culturas em grupos na história da arte. Como é
possível inserir suas obras no campo da investigação?
Talvez eu tenha formulado a pergunta errada eu tenha formulado a pergunta errada. Por exemplo, tanto a arte
africana quanto a chinesa têm uma história que remonta a 5.000 anos - muito mais longa do que a arte do ocidente. As
narrativas ocidentais em geral começam com o mundo grego antigo, de modo que, embora sejam feitas referências ao
antigo Egito e a períodos anteriores, o foco principal está nos últimos 2.500 anos. Mas por acaso pensamos que a arte
da China ou da África possui uma história da mesma forma que arte ocidental? Receio que não, como séculos de
equívoco sobre a natureza sofisticada da arte africana demonstram - ela é sempre descrita como "primitiva" ou
"ingênua", especialmente em relação a arte canônica. Tendemos a esquecer que o Egito faz parte do continente
africano, já que a arte do antigo Egito em geral é discutida à parte. A África subsaariana tem fortes tradições nativas que
ainda perduram - a escultura de mulher da Costa do Marfim data do século XIX. (figura 11). E é importante não só
reconhecer o fascínio visual da arte africana como também considerá-lo no seu contexto social e histórico original. Isso
nos ajuda a entender mais sobre as maneiras como essa arte foi produzida usada e recebida. Em outras palavras,
precisamos escrever (e pensar) sobre ela de um jeito inteiramente diferente.
A Arte da China Abarca uma enorme variedade de imagens, objetos e materiais - objetos de jade (figura 12),
pintura em pergaminho de seda e em leques, pintura com nanquim e com verniz da China (laca), porcelana, esculturas e
caligrafias. Mais uma vez, nossos preconceitos ocidentais entram, é difícil não nos impressionarmos com o enorme
"exército de terracota" com cerca de sete mil figuras em tamanho natural, descoberto recentemente. Da mesma forma, a
delicadeza de uma peça esculpida em jade, no que tem de habilidade artística e de nobreza do material, chama a nossa
atenção. Mas é importante levarmos em consideração a concepção chinesa do que é arte. E talvez seja muito pertinente
ressaltar, em um capítulo sobre as maneiras de escrever a história da arte, que os chineses consideram a caligrafia uma
das mais importantes formas artísticas.
Como nas culturas ocidentais, a arte na China teve uma variedade de funções na sociedade, relacionadas à
morte, à vida palaciana e a religião, sendo também um ritual de riqueza e preeminência e um bem negociável. O
essencial a ser lembrado aqui é que os valores atribuídos por nós a certo objeto podem ser diferentes daqueles
conferidos a ele pela sociedade que o produziu. O mesmo se aplica a importância hierárquica que demos a certos
suportes artísticos em detrimento de outros.
Isso me leva ao terceiro ponto em discussão neste capítulo. Quero refletir sobre o cânone e sua influência no
modo de escrever a história da arte. A ideia do cânone já foi mencionada em nossa reflexão sobre a história feminista e
a história não ocidental da arte, particularmente quanto a preconceitos e preferências que estamos inclinados a ter por
essas formas de arte. Concentro-me agora na maneira de registrarmos o que se descreve como arte primitiva ou ingênua.
Podemos ver a arte primitiva e escrever sobre ela sob dois pontos de vista. O primeiro é o primitivismo, estilo de arte
que faz referência ao reemprego e reinterpretação das formas não ocidentais artistas do Ocidente; podemos traçar a
evolução histórica da noção de primitivo e do fenômeno primitivismo a ela associado desde sua primeira aparição na
arte ocidental, já no século XVIII, até os dias de hoje. O segundo é o uso do termo "primitivo" como um juízo de valor
implicado a arte não ocidental que tende a assumir caráter pejorativo. Em resposta a isso, podemos tentar estabelecer
uma definição teórica de arte primitiva, Concebida como uma manifestação artística autônoma desvinculada dos moldes
culturais do Ocidente. Estou interessada aqui nas contradições implícitas na imposição de nossos valores à arte não
ocidental, quando essas formas de arte têm tradição mais antiga. Na verdade, a arte chinesa ou a africana nos mostra que
a histórias da arte que existem independentemente.
Os pontos de vistas ocidentais sobre a arte primitiva se formaram tanto por meio de artistas como de
historiadores. Fez os mais famosos entre eles sejam Matisse, Picasso e Roger Fry, que fez muito para promover o
primitivismo como estilo artístico na primeira metade do século XX. O encontro entre os artistas e os escritores
ocidentais e o que historicamente tem sido chamado de arte primitiva - a arte tradicional e nativa da África, Oceania e
América do Norte - começou com a "descoberta" dessa arte por artistas e escritores europeus no começo do século XX.
Essas formas de arte foram um catalisador Vital que levou os artistas a repensar sua relação com o mundo.
Podemos comparar esse encontro à descoberta da perspectiva no Renascimento, quando artistas desenvolveram a
capacidade técnica de representar o espaço de forma acurada. É difícil superestimar o profundo efeito da arte primitiva.
Mas devemos um interesse intrínseco em primitivizar as representações na própria arte moderna, já que os artistas
procuravam romper com as normas acadêmicas e canônicas da prática artística.
Há muitas razões para o fato de as obras não ocidentais terem atraído pintores e escultores modernos. E é
importante identificar as diferentes correntes dentro do primitivismo. No início o romantismo de Paul Gauguin, cujas
imagens da vida no Tahiti apresentavam a visão idílica de uma sociedade não industrial. Também há o que pode ser
designado como o primitivismo emocional, exemplificado pelos grupos Bracke e Blaue Reuler, na Alemanha, nos quais
formas abstratas eram usadas para expressar estados de espírito. Em contraste, o primitivismo de Picasso e Modigliani
traz consigo citações diretas de arte não ocidental. Em seu Les demoiselles d' Avignon (190?), quase sempre tido como o
pioneiro da arte moderna, Picasso pinta o rosto das demoiselles como máscaras africanas. Finalmente, há a idéia de
primitivismo do subconsciente, encontramos no surrealismo. Nele, os impulsos humanos básicos estão associados à
noção de nosso ego primitivo, reforçando meu argumento sobre as conotações pejorativas do termo.
O primitivismo, então, mais do que um movimento específico ou um grupo de artistas, é uma noção crucial
tanto para a arte do século XX quanto para o pensamento moderno. Mas será ele mais um exemplo de apropriação
colonial pelo Ocidente ou há evidência de influência transcultural? É verdade que o encontro entre o Ocidente e a arte
primitiva se deu no auge do colonialismo. Em consequência, devemos estar cientes de que uma profusão de questões
raciais e políticas e entraram em jogo, seja aberta ou implicitamente, no que se escreveu tanto sobre a arte quanto sobre
o povo que a reduziu. Recentemente, a noção de primitivismo nas artes tem preocupado os historiadores, que
começaram a questionar a influência dos aspectos formais antropológicos, políticos e históricos no estado da arte da
Oceania, da África e das Américas do Sul e do Norte.
Até pouco tempo atrás a tendência no ocidente foi de encarar a arte da Oceania como primitiva. Portanto, é
importante considerar o significado e a relevância da arte para os povos do Pacífico. Essas formas de arte fazem parte
de rituais sociais e de práticas culturais desses povos - por exemplo os entalhes ancestrais dos maoris e as casas
cerimoniais do rio Sepik, ou a decoração corporal na Polinésia; e as formas de arte feminina. Aqui percebemos a íntima
ligação entre a história da arte e a antropologia - com efeito alguns antropólogos vêem a palavra "arte" como um termo
demasiadamente ocidental.
Se deixarmos a arena europeia e examinarmos países como a Austrália para onde um grande número de
europeus migrou, provocando o deslocamento dos povos nativos, constatamos que as tradições da arte local foram
usadas para afirmar a presença dos habitantes originais e seu direito ancestral à terra. A interação entre os aborígenes e
os europeus inclui formas de arte que vão da pintura em cascas de árvore a fotografia, da pintura rupestre à escultura,
tudo isso demonstrando a rica textura da tradição artística australiana.
Vamos agora em inverter a questão da influência transcultural e avaliar o impacto da imigração e da diáspora
que as tradições não ocidentais levaram às sociedades do Ocidente. Penso aqui na escravidão e na arte afro-americana.
Essa última contribuiu vital e crescentemente com a arte dos Estados Unidos, desde as suas origens nas comunidades de
negros escravizados, no começo do século XVIII. Ela inclui artes folclóricas e decorativas como cerâmicas, mobiliários
e colchas de retalhos, e também as belas artes - escultura, pintura e fotografia - produzidas por negros, tanto escravos
como libertos, ao longo de todo o século XIX. A arte afro-americana mostra que, em sua diversidade e síntese cultural,
espelha a sociedade americana como um todo. Precisamos pensar na influência das galerias e dos museus, do novo
movimento negro de 1920, da era dos direitos civis e do nacionalismo negro das décadas de 60 e 70, e do surgimento de
novos artistas e teóricos negros na segunda metade do século XX.
Precisamos examinar com atenção as obras canônicas dos colonizadores e da metrópole e levar em conta como
os indivíduos colonizados foram tratados, tenham sido eles os escravos, os descendentes destes ou aqueles de quem se
tomou a terra. Da mesma maneira que a mulher, esses grupos foram praticamente bandidos da história da arte escrita
como que desprovidos de importância ou influência na arte europeia tida como de grande aceitação. Isso endossou a
ideia de que arte culta a presença de artistas comungando da prática da tradição ocidental, com a noção correlata de
genialidade. Como vimos, tal concepção engloba uma ortodoxia de material, tema e abordagem - e, é claro, requer um
artista branco e do sexo masculino. A arte não ocidental foi a amplamente julgada pelos padrões do ocidente - é
“primitiva”, porém se torna primitivismo quando adaptada por artistas ocidentais.
Contudo, nos últimos anos, tem havido uma mudança de postura, admitindo-se uma história própria - ainda que
essa história seja escrita por ocidentais. Africanos e aborígenes australianos, por exemplo, acreditam que sua arte
moderna tanto se desenvolve com base nas próprias tradições como lhes foi "concedida" pelos ocidentais. Com efeito,
não será possível que a arte ocidental seja ela moderna ou não, possua peculiaridades étnicas próprias? Isso ocorre não
só nas formas como também no tema. Logo no cansaço deste livro examinamos a adoração dos magos, de Gentile da
Fabriano (figura 5). como um exemplo de arte cristã. Essa é uma mensagem benigna, ou da própria crucificação de
Cristo. Para quem olha de fora da cultura cristã ocidental, essas imagens podem parecer, de fato, muito chocantes. O
escrever sobre arte será sempre, inevitavelmente, influenciado pelas circunstâncias do historiador, bem como as do
produtor e as do observador da obra. Também é importante pensar sobre a política e a estética das exposições de
museus de grande porte, que lograram granjear aceitação para a arte que outrora não só fora ridicularizada, mas também
marginalizada - questão que discutirei no próximo capítulo.

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