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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE– UERN


PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO – PROPEG
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS - FAFIC
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS -
PPGCISH

IATA ANDERSON FERNANDES

A HUMANIZAÇÃO DO DIREITO:
UMA LEITURA DE TRÊS CONTOS DE FRANZ KAFKA

Mossoró/RN
2016
2

IATA ANDERSON FERNANDES

A HUMANIZAÇÃO DO DIREITO:
UMA LEITURA DE TRÊS CONTOS DE FRANZ KAFKA

Dissertação de Mestrado apresentada ao


Programa de Pós-Graduação em Ciências
Sociais e Humanas – PPGCISH, da
Universidade do Estado do Rio Grande do
Norte – UERN, como requisito para obtenção
do título de Mestre em Ciências Sociais e
Humanas, área de concentração o: Sujeitos,
Saberes e Práticas Cotidianas; linha de
pesquisa: Linguagens, Memória e Produção
de Saberes.

Orientador: Prof. Dr. Ailton Siqueira de


Sousa Fonseca.
Coorientadora: Profa. Dra. Karlla Christine
Araújo Souza.

Mossoró/RN
2016
3

Catalogação da Publicação na Fonte.


Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

Fernandes, Iata Anderson


A Humanização Do Direito: Uma Leitura De Três Contos De Franz Kafka – Mossoró,
RN, 2016.

189 f.
Orientador: Prof. Dr. Ailton Siqueira de Sousa Fonseca.
Coorientadora: Profa. Dra. Karlla Christine Araújo Souza.

Dissertação (Mestrado) Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Campus


Central. Programa De Pós-Graduação Em Ciências Sociais E Humanas – PPGCISH
da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte,

1. Humanização do Direito. 2. Kafka. 3. Literatura. I. Fonseca, Ailton Siqueira de


Sousa. II. Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. III.Título.

UERN/ BC CDD 340

Bibliotecário: Sebastião Lopes Galvão Neto – CRB - 15/486


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IATA ANDERSON FERNANDES

A HUMANIZAÇÃO DO DIREITO:
UMA LEITURA DE TRÊS CONTOS DE FRANZ KAFKA

Dissertação de Mestrado apresentada ao


Programa de Pós-Graduação em Ciências
Sociais e Humanas – PPGCISH, da
Universidade do Estado do Rio Grande do
Norte – UERN, como requisito para obtenção
do título de Mestre em Ciências Sociais e
Humanas, área de concentração: Sujeitos,
Saberes e Práticas Cotidianas; linha de
pesquisa: Linguagens, Memória e Produção
de Saberes.

Aprovado em 05 de abril de 2016.


5

Aos meus pais e aos meus filhos.


6

[...]
Não me leias se buscas
flamante novidade
ou sopro de Camões.
Aquilo que revelo
e o mais que segue oculto
em vítreos alçapões
são notícias humanas,
simples estar-no-mundo,
e brincos de palavra,
um não-estar-estando,
mas de tal jeito urdidos
o jogo e a confissão
que nem distingo eu mesmo
o vivido e o inventado.
Tudo vivido? Nada.
Nada vivido? Tudo1.
[...]

1
ANDRADE, Carlos Drummond de. Poema-orelha. In: Alguma poesia. Disponível em:
<http://drummond.memoriaviva.com.br> Acesso em 15/12/2015.
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AGRADECIMENTOS

Ao final de um trecho, da viagem que pretendo seguir por toda a vida, chega a hora
de ser grato. Agradecer à força criadora que nos permite respirar todos os dias para continuar
a nossa jornada cósmica e terrena.

Obrigado aos meus pais, que me deram a vida, dedicaram a juventude a mim e às
minhas irmãs e nos legaram o exemplo de luta.

Sou muito grato à minha esposa pelo companheirismo e paciência. Aos meus filhos
por, na sua inocência, terem entendido a presença física e a ausência mental do pai, que se
encontrava perdido nessa viagem.

Agradecer ao meu orientador Prof. Dr. Ailton Siqueira de Sousa Fonseca, por me
desafiar constantemente e abrir os meus olhos à literatura, à poesia e, principalmente por me
fazer enxergar o meu Eu nos outros. Saibas que transformou um torrão de barro seco e duro,
prestes a quebrar e virar pó, em uma argila que pode ser moldada pela vida e a moldará.

Minha gratidão à Profª. Dra. Karlla Christiane Araújo Souza, pelos conselhos fortes e
serenos; à Profª. Dra. Inessa da Mota Linhares Vasconcelos e ao Prof. Dr. Zéu Palmeira
Sobrinho, pelas contribuições.

Deixo a minha gratidão a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram para


tornar essa viagem possível. Especialmente aos colegas do Grupo de Pesquisa do Pensamento
Complexo – GECOM/UERN.

Mas agradecer já não basta. É o momento de pedir perdão: peço perdão à minha
esposa e aos meus filhos, que suportaram o meu isolamento e os momentos em que os
observava e não os ouvia.

Quero pedir perdão ao meu orientador pela teimosia e eventuais sumiços.

Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada


propósito debaixo do céu:
(Eclesiastes 3:1)
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RESUMO

A Literatura é um modo de expressar todas as características humanas, desde aquelas que são
expostas no meio social até aquelas que tentamos ocultar. Por sua linguagem implicada, a
literatura, berço das relações humanas, pode ser tomada como uma possibilidade de
humanização do Direito. Estabelecemos um ponto de identificação entre a jornada de Kafka -
autor de O Processo - e a nossa. A pesquisa faz uma análise da formação do explorador no
bacharelado em Direito da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Dentro da vasta
produção literária de Kafka, optamos selecionar três contos: Um relatório para uma academia;
Diante da Lei; e O novo advogado. A partir deles, pudemos entrelaçar as falhas dessa
formação excessivamente tecnicista e racional e pensar a literatura como uma forma de
humanizar a Ciência do Direito. Os contos foram escolhidos pela sua íntima relação com o
Direito e pelo conteúdo crítico à ciência jurídica, em razão de serem cheios de imagens que
nos permitem costurar Platão e Kafka; Morin e Pierre Boullé; assim como trabalhar mitos e
contos; prosa e poesia. Tomaremos como norte teórico os pensamentos de Edgar Morin,
Zygmunt Bauman e Lenio Luiz Streck. Nesta jornada do conhecimento e da
autocompreensão, passearemos por outras obras do próprio Kafka, pela escrita instigante de
Clarice Lispector, por Machado de Assis, entre outros autores. Usando os princípios do
pensamento complexo, propomos uma abordagem que concatena os saberes e faz dialogar as
ciências; falaremos sobre Filosofia, Sociologia, Biologia et cetera. O Direito será abordado
por meio da linguagem implicada no texto literário. A pesquisa é um convite a pensar sobre a
condição complexa do ser humano, a tentar entendê-lo, não retendo uma conclusão ou um
fechamento. Aplicando os princípios norteadores do Pensamento Complexo, preferimos
deixar que cada leitor examine as suas próprias compreensões e construa interpretações
particulares. A dissertação finaliza-se com um conto, simbolizando a trajetória do pesquisador
e a própria pesquisa, permitindo ao leitor que as imagens e metáforas o conduzam na viagem
com o seu Eu.

PALAVRAS-CHAVE: Literatura. Humanização. Direito. Kafka.


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ABSTRACT

The Literature is a way to express all human particularities from those that are exposed in the
social environment to those who try to hide. For its implied language literature, the cradle of
human relations, can be taken as an opportunity to humanize the Law. We establish a point of
identification between the journey of Kafka - author of The Process - and ours. The research
analyzes the formation of the discoverer at the bachelor's degree in Law course from the
University of Rio Grande do Norte state. Within the vast literature of Kafka, we decided to
select three tales: A report to an academy; Before the Law; and The New Advocate. From
them, we interweave the failures that excessively technicist and rational training and think the
literature as a way of humanizing the Science of Law. The tales were chosen for their intimate
relationship with the law and the critical content to legal science, being full of images that
allow us to sew Plato and Kafka; Morin and Pierre Boullé; as well as work myths and tales;
prose and poem. We will take as north theoretical thoughts of Edgar Morin, Zygmunt Bauman
and Lenio Luiz Streck. In this journey of knowledge and self-understanding, we will ride for
other works of Kafka himself, the thought-provoking writing Clarice Lispector, by Machado
de Assis, among other authors. Using the principles of complex thinking, we propose an
approach that concatenates the knowledge and makes dialogue sciences; talk about
Philosophy, Sociology, Biology et cetera. The Law will be addressed through the language
involved in the literary text. The research is an invitation to think about the complex human
condition, trying to understand it, not holding a conclusion or a shutdown. Applying the
guiding principles of complex thinking, we prefer to let each reader examine their own
understandings and build particular interpretations. The dissertation concludes with a tale,
symbolizing the trajectory of the researcher and the research itself, allowing the reader that
the images and metaphors the lead on the travel with yourself.

KEYWORDS: Literature. Humanization. Law. Kafka.


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LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1 – O ex-macaco ................................................................................................... 46


FIGURA 2 – Evolução do homem ....................................................................................... 88
FIGURA 3 – Aperto de mãos ..................................................................................... 109
FIGURA 4 – A pedra angular ..................................................................................... 173
11

SUMÁRIO

I - UM RELATO, DUAS JORNADAS ................................................................................. 13


1 Kafka e eu: a desilusão como causa de uma busca ........................................................... 14
2 Franz Kafka – a construção do Ser e o amor como busca ............................................... 24
2.1 Kafka e a construção do Ser.................................................................................... 24
2.2 Kafka – a busca pelo amor e pertencimento ........................................................... 29
3 O meu olhar alinha o meu caminhar ................................................................................. 35
II - METÁFORA DA HUMANIZAÇÃO ............................................................................. 45
1 A lição de Pedro Vermelho ................................................................................................. 46
2 As marcas ............................................................................................................................. 60
2.1 As marcas de Pedro Vermelho ................................................................................ 60
2.2 A primeira marca: o nome ...................................................................................... 61
2.3 A segunda marca: a porção animal ......................................................................... 64
2.4 O Direito Penal como instrumento de estigmatização: a marca no Direito ............ 67
2.5 Na Colônia Penal: a sentença marcada no homem ................................................. 72
3 Jaulas .................................................................................................................................... 80
3.1 A caverna de Platão ................................................................................................ 80
3.2 A jaula de Kafka ..................................................................................................... 82
3.3 O olhar em Pedro Vermelho e a visão dos homens em Platão ............................... 89
4 A jaula disciplinar ............................................................................................................... 92
4.1 Consciência e evolução: uma saída......................................................................... 92
4.2 Enjaulados pelo medo: a metáfora do aprisionamento ........................................... 93
4.3 Falando desse medo e (re)construindo uma saída................................................... 95
4.4 O Direito enjaulado na sua disciplinaridade: uma ciência dotada de despropósito
................................................................................................................................................ 100
4.5 (In)conclusões ....................................................................................................... 105
5 O aperto das mãos ............................................................................................................. 107
III – MAIS HUMANOS ....................................................................................................... 115
1 Nós, Bucéfalos! ................................................................................................................... 116
1.1 O Bucéfalo na narrativa de O novo advogado ...................................................... 116
1.2 Quem foi Bucéfalo ................................................................................................ 118
12

1.3 Nós, os Bucéfalos.................................................................................................. 119


2 Falando das portas ............................................................................................................ 126
2.1 A porta em O novo advogado e outras portas ....................................................... 126
2.2 Por falar nas portas................................................................................................ 130
3 Diante da lei: somos porteiros .......................................................................................... 134
3.1 Diante da Lei, uma narrativa ................................................................................ 134
3.2 Novos porteiros para portas novas ........................................................................ 136
3.3 Todos aspiram à Lei .............................................................................................. 138
3.4 O desafio da racionalidade .................................................................................... 141
3.5 Diante da Lei: Uma (re)forma no pensamento ..................................................... 143
3.6 A condição humana, Direito e a literatura ............................................................ 146
4 O Direito e a literatura, interpretações da vida .............................................................. 151
5 Conhecer apaixonadamente ............................................................................................. 160
5.1 A paixão por Franz Kafka ..................................................................................... 161
5.2 Um olhar apaixonado pelo conhecimento ............................................................. 167
5.3 A paixão pela palavra............................................................................................ 169
5.4 Um convite ............................................................................................................ 170
IV – UM CONTO DO LIVRO DA VIDA .......................................................................... 172
1 O pedreiro e o bacharel .................................................................................................... 173
REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 178
ANEXO A – MATRIZ CURRICULAR ............................................................................. 188
13

I - UM RELATO, DUAS JORNADAS

O outro me desvela
Novelo alinhado
Linha a alinhar
Alinhando em desalinho
14

1 Kafka e eu: a desilusão como causa de uma busca

Nada é mais difícil que a jornada de um homem em busca de si mesmo. É mais fácil
relatar aquilo que observamos, falar em terceira pessoa, indicar as soluções. Discursar sobre a
autoformação, analisar as próprias angústias, expor as perguntas às quais buscamos respostas:
essas tarefas são as mais difíceis, porque nós somos formados por algumas noções de certezas
e muitas dúvidas. É um caminhar à frente, retrocedendo, descobrindo novos caminhos,
olhando as pegadas, antes que estas se apaguem nas areias da memória.
Filho de um casal – o pai, pequeno comerciante e a mãe, costureira – pouco letrado,
sempre estudei em escola pública. Tímido, reprimido pelas dúvidas sobre a minha existência,
temor agravado pela cobrança que recebia do meu pai a ser o melhor: estudante; jogador de
futebol; homem; galanteador.
Essas cobranças me levaram a duvidar da minha capacidade de ser “alguém na vida”.
A expectativa lançada pelo meu pai sobre mim – a qual me oprimia – somada às constantes
mudanças de endereço, resultaram na perda de vários vínculos afetivos. Em consequência
disso, me direcionou a seguir o rumo de um isolamento como alternativa de defesa, para
evitar as perdas.
Reprimia-me a não experimentar o estabelecimento de vínculos afetivos e a posterior
diluição ou quebra deles. A incerteza era a minha única certeza. Então, era melhor não fazer
amizades nem gerar vínculos afetivos, pois pensava que estava condenado a perdê-los. Sem o
sentimento de enraizamento, confiava pouco na solidez das relações afetivas, vivia um
paradoxo: o desejo de construir essas relações e o medo de perdê-las.
Assim fui vivendo, preso às minhas inseguranças, encoberto pela timidez. A fuga era
a minha estratégia de sobrevivência. Assim transcorreu a minha infância. Sou o único filho
homem no meio de quatro irmãs. Fui o objeto de muitas preocupações, cobranças e
expectativas.
A minha adolescência foi o palco dos meus maiores questionamentos, que ao fim não
era mesmo meus, posto que me apropriei da cobrança que os outros esperavam de mim.
Durante esse período da minha vida, tornei-me uma pessoa estranha, reclusa. Não queria
amizades duradouras ou relacionamentos emocionalmente aprofundados, pois me bastavam
os colegas da escola e a minha família. Nela, eu encontrava a segurança para aplacar o meu
isolamento e o meu sofrimento pessoal, assim como as cobranças que me levaram a esse
quadro.
15

Mas retornando ao estabelecimento dos vínculos, depois de chegar ao fundo do poço


- marcado pela síndrome do pânico -, por volta dos quatorze anos, eu tinha verdadeiro pavor
das pessoas: a aglomeração delas me trazia calafrios; o contato físico era impossível. Assim,
depois de procurar entender o meu isolamento, as minhas inseguranças, pensei que amar seria
a minha saída desse quadro depressivo. A partir daí comecei a estabelecer vínculos de
amizade. Aos dezessete anos, dei os primeiros passos buscando confiar nos sentimentos, já
não tinha o medo da perda, por entender que ela é inevitável na trajetória humana. Não podia
mais me furtar ao imenso prazer de me sentir parte da vivência dos outros e me deixar mudar
pela convivência com eles.
Não foi fácil, raras foram as amizades estabelecidas, poucos relacionamentos
amorosos fixos. Aos poucos, a partir dos dezesseis anos, sem condições financeiras de me
submeter a um tratamento especializado, passei a entender que precisava viver, tolerar, me
doar à vida, necessitava amar. Após três noivados, encontrei a minha cara-metade, ou melhor,
a pessoa que me complementa e me torna inteiro, com ela me (re)formei. Com ela construí a
minha família e reencontrei a segurança e a tranquilidade.
Na minha busca, comecei a cursar História contra a vontade e os sonhos do meu pai,
o qual afirmava que aquele não era o curso de graduação sonhado para o seu filho. Para ele,
eu deveria ser médico. As cobranças e o meu vazio ainda me fizeram abandonar parte das
aulas de História, resultando no meu desnivelamento.
Consegui compreendê-lo melhor, após perceber vários fatos difíceis de sua vida: foi
órfão de mãe e abandonado pelo pai, sendo obrigado a trabalhar desde jovem, sem condições
de estudar formalmente; teve que manter uma família, vivendo de pequenos comércios, com a
instabilidade gerada por sucessos e falências; a vergonha que sentia de si, por não poder
acompanhar o nível de escolaridade de muitos dos seus amigos. Tudo isso gerou nele a
necessidade de provar o seu sucesso como pai e como pessoa, projetando os seus anseios em
mim, transformando-me em vetor da sua potencialidade de ascender na vida. Um trecho de
Pais e Filhos, composta por Dado Villa-Lobos e Renato Russo, resume a minha compreensão
sobre o sofrimento do meu pai e o amor que sente por mim: “Você culpa seus pais por tudo,
isso é absurdo! São crianças como você, e o que você vai ser quando você crescer?”2.
Decidi cursar Direito, e depois de me submeter ao Processo Seletivo Vocacionado –
PSV, consegui a aprovação na Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN. A

2
RUSSO, Renato; VILLA-LOBOS, Dado. Pais e filhos. In: Legião Urbana. As Quatro Estações. p. 1989, 1CD,
Faixa 2, 05’06”.
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partir do início das aulas - no segundo semestre do ano 2000 -, encontrei a paixão pela ciência
jurídica. Não seria mais médico como o meu pai sonhara, mas poderia ser um advogado como
eu desejava e ele até aceitava. Nesta época, já percebia que os sonhos do meu pai não cabiam
nos meus desejos, o que não queria dizer que não pudesse realizá-los, me realizando.
Superada a dificuldade de compreender o meu pai, iniciei as aulas no bacharelado em
Direito, conheci novas pessoas, diferentes interações e tive os primeiros contatos com a
formação que a ciência do Direito poderia me propiciar.
Durante a minha formação jurídica – logo nos dois primeiros períodos do curso -,
recebia as lições introdutórias das disciplinas ditas propedêuticas: filosofia, sociologia,
economia, junto com os conteúdos introdutórios ao Direito. A partir do terceiro período, por
imposição do currículo, o nosso contato era somente com o Direito e as suas divisões como
Direito Civil, Direito Penal, Direito Tributário et cetera.
Pelas lições que apreendi, precisava dominar a hierarquia das leis, conhecer as
normas, me apropriar das regras de interpretação destas. Se a norma não prescrevia, havia os
nortes tecnicamente aceitáveis: a analogia, a equidade e os princípios gerais do Direito. Nada
sobre o ser humano ou a compreensão das suas relações, pois só importavam os fatos e os atos
jurídicos.
Cursei diversas disciplinas específicas como: Direito Civil; Penal; Administrativo;
Constitucional – dentro deste um lampejo sobre Direitos Humanos e Fundamentais, Direito
Tributário, Direito Comercial, Direito do Trabalho, Direito Internacional Público, Direito
Ambiental; e por aí seguia a minha matriz curricular. Cada novo conteúdo reforçava a noção
de uma ciência eminentemente técnica e fragmentada, isolada das outras áreas do saber. Por
meio dela, estudava as teorias jurídicas, mas a minha angústia era compreender a vida humana
como objeto do Direito.
O curso de Direito, na minha época, se limitava às aulas da graduação e atividades
avaliativas. Não havia pesquisa, tampouco extensão. Programas formativos como Programa
de Iniciação à Docência - PIBID, Programa de Iniciação à Ciência - PIBIC eram impensáveis.
Tínhamos um Programa Interno de Monitoria – PIM bastante incipiente. O que eu podia fazer
era aprender por intermédio da lei, da doutrina, da pesquisa jurisprudencial, qual era o papel
do Direito: pacificar a sociedade e possibilitar a vida em coletividade.
A lei, por si só, eu sentia que não era capaz de trazer a “pacificação social”. Os
princípios jurídicos não me ensinaram a compreender a sociedade. As regras da interpretação
teleológica adequavam os fatos à lei, sob o argumento de aproximar a lei dos fatos. Essa
17

forma de aprendizagem não me possibilitou compreender a condição humana - algo


fundamental para o exercício ético, humano e justo diante do outro -, o sujeito societal que é
um acontecimento permanente e em constante interação com a sociedade (MAFFESOLI,
1998, p. 177). Essa incompreensão da condição humana implicou em uma formação que, para
mim, estava incompleta e me causou uma desilusão com o papel do Direito.
Na época dos bancos da graduação, me deparei com o real sentido da expressão
“pacificação social” como objetivo, quando cursei a disciplina Prática Jurídica, isso nos
últimos quatro semestres do curso. Esse é um dos poucos momentos, durante o bacharelado
em Direito, nos quais o estudante tem contato direto com a sociedade, ambiente onde são
realizados atendimentos à população e oportunidade de interação com as ditas mazelas
sociais. Terminados os atendimentos, formuladas as peças, fechados os acordos ou enviada a
petição para protocolo junto ao Poder Judiciário, estava terminada a tarefa dos “estagiários”.
Mas, do ponto de vista da compreensão do papel social como o objetivo do Direito, e
sobre o modo de me compreender como futuro bacharel, questionava-me: Como estaria
cumprido o papel da ciência jurídica se a ação permaneceria em trâmite e eu, na condição de
estagiário, tinha a sensação de que o atendimento que prestava não conseguia contemplar a
noção de justiça e não acompanhava o desenrolar do enredo humano?
Sentia que havia conseguido entender a pretensão resistida3, colocá-la no papel,
produzir a peça com a melhor técnica, mas, muitas vezes, não compreendia aquelas narrativas
de vida e qual o sentido de produzir tecnicamente sem me envolver com aquelas histórias, que
eu narrava até com certo sucesso, de forma sucinta na peça judicial.
Não havia tempo para saber o real motivo daquelas pessoas que discutiam questões
pessoais – mas que em algum momento anterior, tiveram um sentimento que as uniu -,
incluindo a vida de crianças, como se fossem grandes desconhecidos, focando sempre nas
questões materiais e com um sentimento de revolta direcionado ao outro.
Compreender as razões: os bancos da faculdade não me ensinaram isso, me detinha
apenas em entender o relator e colocar no papel, buscando uma solução jurídica para uma
situação com a qual o magistrado teria quase nenhum contato. Eu, imbuído do espírito de
enviar o caso ao Judiciário e atender o maior número de pessoas, não podia perder o tempo
em repisar as conversas, perguntar os motivos de tanta discórdia ou ensaiar novas
proposições.

3
[...] consoante Carnelutti, como a função estatal de justa composição de lides, entendidas como o conflito de
interesses qualificado pela pretensão de uma parte e resistência de outra (PINHO, 2012, p. 58).
18

Talvez pela minha origem familiar e social muito próxima daquelas situações, filho
das periferias e dos grotões, com pai e mãe quase sem instrução, eu sentia que não fazia o
correto. Eu reproduzia o que apreendi na academia, me envolvendo muito pouco com os fatos
dos quais era apenas um narrador de razões que não as entendia. Isso não me completava, não
me sentia parte daquilo. Sabia também que as pessoas atendidas por mim não estavam
completamente seguras da minha capacidade compreensiva de suas vivências e da
possibilidade de pôr um fim às suas angústias.
Essas situações me faziam recordar o estranhamento da convivência social expresso
por Kafka (2010, p.15), no conto Cinco Amigos, onde esses amigos viviam juntos, moravam
juntos, conviviam em relativa paz, mas sempre havia um sexto querendo se intrometer. Em
certa parte do texto, fica claro que os cinco se toleram, mas devido às experiências frustrantes
que tiveram, não aceitam e nem compreendem um sexto elemento:

E qual é o sentido, afinal, dessa contínua comunhão, também entre nós cinco
não há sentido, mas agora já estamos juntos e vamos permanecer assim. No
entanto, não queremos uma nova agremiação, justamente devido às nossas
experiências (apud HEIDELBACH, 2010, p. 15).

Como na sociedade de hoje, convivemos com muitas pessoas, toleramos os seus


ditos defeitos, ignoramos o seu sofrimento, temos a tendência a nos fechar em pequenos
grupos que se toleram e repelem pessoas que pareçam diferentes e fora do modelo de
normalidade estabelecido. E eu, durante o curso de Direito na UERN, embora condicionado
ao afastamento e acostumado a conviver com o necessário simbolismo de superioridade do
Direito, me sentia próximo das pessoas desprovidas de recursos financeiros para pagar uma
assistência judicial privada e, muitas vezes, achavam que a justiça, como instituição, não era
local para elas. Essa é a sensação do homem do povo em Diante da lei (1999).
Aquela experiência me parecia a técnica científica colocada em prática e afastada do
objeto de estudo. Esta técnica visava adequar as pessoas às normas pré-existentes. Por se
voltar à formação técnico-jurídica que não compreendia a condição humana, algo que me
causava um sentimento de incompletude; não acreditava conseguir responder àquelas pessoas
que buscavam uma melhoria em suas existências. Sabia, por experiência própria, que elas não
faziam parte daquele mundo de termos e burocracias distantes da vida. Mas não havia tempo a
perder conhecendo os humanos que contavam as suas histórias, pois isso não me foi ensinado
nos bancos da faculdade.
19

Concluído o curso, recebido o grau de bacharel em Direito, continuava com a


impressão de que o Direito estava divorciado da sociedade e do próprio ser humano; que ele
não respondia às expectativas de justiça, equidade e liberdade; que se voltava mais para
formalidade e menos à Humanidade.
Durante o curso de graduação, li algumas obras de Kafka, tais como O Processo
(2013d) e Na Colônia Penal (2013b). Kafka sempre me vinha à mente com a sua leitura do
Direito como instrumento de opressão estatal, sendo o homem a vítima de uma realidade
maior, produzida pelo Estado por meio do uso do seu poder coercitivo. Passei alguns anos
atuando como advogado, mas sempre com a desilusão e a busca pela compreensão do papel
do Direito. Essa busca me levou de volta à Universidade.
Passei a frequentar e participar do Grupo de Pesquisa do Pensamento Complexo –
GECOM da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN, que tem como
objetivo primordial exercitar a religação dos saberes. Nele, alargam-se os limites disciplinares
por meio da dialogia das ideias, privilegiando pesquisas que religuem as ciências com outras
formas de saber - como a arte e a literatura -, tentando construir um conhecimento mais amplo
sobre a condição humana, investindo ainda em pesquisas sobre itinerários intelectuais.
A partir desses diálogos, comecei a ter um maior contato com discussões
aprofundadas sobre humanização e humanidade. Tive acesso às novas formas de visão das
ciências que dialogo e do Direito, como ferramenta de adequação e justiça social. Lá, fui
reapresentado à literatura, à poesia, aos contos, aos ensaios e desenvolvi uma nova forma de
pensar o conhecimento. Por intermédio das obras de Edgar Morin, passei a enxergar a inter-
relação dos saberes, através dos princípios do pensamento complexo que são: o
hologramático; o dialógico; e o recursivo. Todos eles serão explicados posteriormente, na
parte do texto cujo título é O meu olhar alinha o meu caminhar, onde explicaremos também
as estratégias de construção da pesquisa.
Comecei a perceber que o excesso de fragmentação do conhecimento científico e o
tecnicismo exagerado que recebi durante a minha formação, poderiam ser os fatores que me
levaram a ter essa inquietação com a função do Direito, com o seu distanciamento do
humano.
Com essas leituras e tentando olhar com outra forma de enxergar, voltei a ler livros
que fizeram parte da minha vida, como os já mencionados livros do Kafka, George Orwell,
Machado de Assis, entre outros. No GECOM, pude ler livros que não conhecia, descobri
Ernesto Sabato, Otávio Paz, Boris Cyrulnik, me aprofundei um pouco mais na leitura de
20

Edgar Morin, reli O Cortiço, Memória das Minhas Putas Tristes, Dom Casmurro et cetera.
Reaproximei-me da obra de Franz Kafka e me apaixonei por sua forma de fazer análise crítica
da sociedade e do Direito, usando as narrativas e as imagens como símbolos para desenlaçar
um olhar diferente sobre o mundo.
Por meio da obra de Franz Kafka, que eu o conhecia da leitura feita durante a minha
juventude e que foi ampliada - agora aprofundada com um olhar diferente, permeado pelos
princípios do pensamento complexo que adquiri, lendo Morin -, comecei a perceber na
coletânea de contos Um Médico Rural (1999) - este publicado pela primeira vez em 1920 –
que essa obra foi dedicada ao seu pai (KAFKA, 1999, p. 4), que ao recebê-la das mãos do
filho, mostrando a frieza que marcou o relacionamento entre eles, o pai limitou-se a dizer:
“coloque em cima do criado-mudo” (Max Brod apud LEMAIRE, 2013, p. 46).
Na verdade, a própria dedicatória resultava da situação emocional do autor e
denotava quão difícil era o relacionamento deste com o pai. Kafka acabara de escrever a
Carta ao pai (1997) e dizia ao amigo Friedrich Thieberger “[...] esta dedicatória a meu pai, eu
a fiz ironicamente. Acabei de terminar ontem uma carta de cem páginas dirigida a meu pai
[...] na qual de alto a baixo me confronto com ele” (LEMAIRE, 2013, p. 400).
O primeiro nome que Kafka pretendeu dar a coletânea de contos não foi Um médico
rural. Percebendo que os textos eram uma criação muito ligada a ele e a sua forma de ver o
mundo, o autor chegou a propor que a obra se chamasse Onze Filhos e sobre os textos
inseridos nela, costumava dizer: “são onze histórias em que estou trabalhando” (Max Brod
apud LEMAIRE, 2013, p. 346).
Sobre essa obra, Modesto Carone afirma:

Um médico rural não é uma simples coletânea, mas um livro rigoroso do


ponto de vista da organização temática. Vem emoldurado por duas narrativas
(“O novo advogado” e “Um relatório para uma Academia”) em que são os
animais que se transformam em homens, no peculiar estilo de inversão da
fábula praticado por Kafka. A brevidade da primeira serve tanto à iniciativa
de relacionar tempos históricos discrepantes pelo curto-circuito poético,
quanto à necessidade de proporcionar uma abertura lacônica ao conjunto que
culmina no texto mais longo do livro, veiculado na clave da sátira
(CARONE, 1999, p. 103-104).

Da coletânea, trabalharemos com três: Um novo advogado, Diante da Lei, Um


relatório para uma academia. Adiante, nos deteremos sobre eles para verificar como Franz
Kafka faz uma crítica ao Direito e à sua burocratização, à formação tecnicista e à
profissionalização dos bacharéis. Para mim, esse poderia ser o ponto de partida para discutir
21

uma formação teórica/científica diferente da minha, mais humanizada, que restabeleça o


necessário diálogo do Direito com outras áreas do saber, e como seria possível indicar a
literatura como um caminho capaz de religar ciência/literatura, Direito/homem, vida/ideias.
A Universidade foi um campo de transformação do jovem Franz, onde ele começou a
participar de grupos de leitura e palestras, sempre voltados aos universitários alemães. Foi
nela que ele conheceu o seu grande amigo Max Brod – em 1902 – com quem manteria um
vínculo até à sua morte. Do mesmo modo, para mim, a Universidade foi um campo de
transformação, modificação, complementação e redescoberta.
Percebi que o que a ciência dita moderna construiu foi o império da racionalidade
sobre qualquer emoção. A emoção passou a ser vista - em especial no Direito - como uma
forma de contaminar a visão científica e, por isso, o foco do bacharel é a técnica para
interpretar a lei, buscando a chamada “verdade processual”.
Ao inverso dessa visão que predominou na minha formação, percebi que hoje o papel
da emoção, como complemento e condicionante da razão, tem alcançado relevo. Já existem
trabalhos voltados à explicação funcional do cérebro, que demonstram a importância do fator
emocional, de como ele está presente em todos os momentos da construção científica, mesmo
naquelas que primam pela busca da racionalidade:

A questão das circunstâncias é bem ilustrada pelo relato com que Malcolm
Gladwell abre seu livro Blink, publicado em 2005. Os curadores do Museu
Getty, no contexto de seu desejo de adicionar certa escultura grega ao
acervo, concluíram que ela era genuína. Vários peritos internacionais, no
entanto, julgaram que a peça era falsa, baseados em um sentimento instintivo
de rejeição ao verem-na pela primeira vez. Emoções de tipos diferentes
participaram dessas avaliações díspares em etapas distintas do processo de
raciocínio. Para alguns, havia o desejo gratificante e difuso de avalizar o
objeto; para outros, o palpite imediatamente punitivo de que havia algo
errado. Mas em nenhum dos casos a razão atuou sozinha [...] (DAMÁSIO,
1994, p. 7).

A esta aproximação do emocional e do imaginário como complemento da


racionalidade, acreditamos que a literatura possa ser uma forma de conceber essa religação,
pois ela - além de alimentar o nosso imaginário coletivo - fornece imagens e mensagens
capazes de nos fazer rever as alternativas desejáveis ao Direito positivado, desenvolvendo um
importante papel civilizador. Como só explicamos uma mínima parte de todo o desconhecido
que é a condição humana, resta buscar a argamassa que formará a junção entre o racional e o
irracional, entre o objetivo e o subjetivo, entre realidade e imaginário, razão e emoção,
22

animalidade e humanidade. Tal junção pode ocorrer por meio da literatura, como uma forma
de indução do inconsciente, do desejável. A humanização do Direito é uma necessidade
diante do atual quadro de bacharéis recém-formados, que conhecem muito de técnica e pouco
do que é humano. Para Vierne:

Se a ciência [...] todos os conhecimentos que o homem adquire


progressivamente sobre o meio em que vive, bem como sobre si mesmo,
modifica nossa “visão de mundo”, a literatura por seu lado e antes dela, a
tradição oral sempre traduzia as mudanças que ocorrem na concepção do
homem sobre sua relação com o mundo, que é também relação com os
outros e consigo mesmo (VIERNE, 1994, p. 79).

As relações entre ciência e literatura, embora naturais, são marcadas por um


afastamento contínuo entre poetas e cientistas, causado pelo desenvolvimento da ciência em
busca de um purismo. É necessário discutir as afinidades entre essas duas formas de
conhecimento, retomando o diálogo e refazendo uma relação, que às vezes é marcada pela
tempestuosidade e por desconfianças (VIERNE, 1994).
Na perspectiva que esse trabalho investe, a literatura é um dos caminhos à
compreensão da condição humana. Esse trabalho nasce da inquietação diante da análise do
papel do Direito e da ausência do sentimento do dever cumprido, em face das situações
sociais que se apresentavam para mim. A pesquisa segue pela trajetória singrada do
pensamento complexo, religando as ciências para tentar compreender a condição humana:
Segundo Morin:

“O estudo da condição humana não depende apenas do ponto de vista das


ciências humanas. Não depende apenas da reflexão filosófica e das
descrições literárias. Depende também das ciências naturais renovadas e
reunidas, que são: a Cosmologia, as ciências da Terra e a Ecologia.” (2000,
p. 33).

Ele arremata:

“Trazemos, dentro de nós, o mundo físico, o mundo químico, o mundo vivo,


e, ao mesmo tempo, deles estamos separados por nosso pensamento, nossa
consciência, nossa cultura. Assim, Cosmologia, ciências da Terra, Biologia,
Ecologia, permitem situar a dupla condição humana: natural e metanatural”
(MORIN, 2000, p. 35).

A literatura é uma forma de arte que pode ser utilizada pelo estudioso do Direito
para compreender as diversas nuances do humano, do ser social, da vida do ser, do ser na vida
23

em sociedade. Àquele que não pode ser reduzido a uma dimensão, seja ela orgânica,
antropológica ou social.
Os contos escolhidos como ponto de partida à construção crítica da formação jurídica
atual são de fato meros marcos iniciais. Passearemos por outras obras de Kafka e de outros
autores, traremos discussões sobre o papel da literatura e do Direito, como construções
complementares em uma relação que dialoga na procura de uma ciência mais humanizada.
Essa ciência mais humanizada pode contemplar a busca dos bacharéis pelo
conhecimento das histórias humanas dentro dos processos, tentando compreendê-las dentro
do tecnicismo e vislumbrando essa compreensão como necessária à interpretação da norma
diante dos problemas humanos, como nos diz Krishnamurti:

Felizmente algumas pessoas se interessam com seriedade pelo exame dos


problemas humanos, livres dos preconceitos da esquerda ou da direita; mas,
a grande maioria dentre nós não tem o verdadeiro espírito de
descontentamento, de revolta. Quando nos submetemos ao ambiente, sem
compreendê-lo, todo espírito de revolta que acaso possuímos esmorece e
nossas responsabilidades em breve tempo o apagam definitivamente
(KRISHNAMURTI, 1976, p. 8).

Essa formação técnico-jurídica não é objeto de uma crítica quanto à sua aplicação,
pois foi ela que me levou à busca de compreensões que eu não encontrei no Direito, sendo o
elemento indutor de uma jornada pessoal para apreender a noção da condição humana e do
papel da ciência jurídica. Pensamos que é possível unir formação técnico-jurídica com maior
humanização dessa mesma formação. Religar Direito e literatura para uma maior
compreensão do que exige a formação profissional e a vida.
Na verdade, a busca é de percebimento de mim pelo olhar que lanço sobre os outros,
já que somos moldados pela convivência múltipla. Não posso sentir-me humano se
desconheço a condição humana. Assim, a minha busca segue, visando as respostas que
provavelmente não encontrarei, mas sei que o curso da jornada vai me transformar e me
proporcionará uma melhor compreensão da condição do homem como fundamento do
Direito.
24

2 Franz Kafka – a construção do Ser e o amor como busca

2.1 Kafka e a construção do Ser

Há algo sempre oculto em tudo o que somos, em nosso pensar e agir. Enfim, aquilo
que somos não é expressão da mera individualidade e sim de todos os que nos formaram.
Cada pessoa com a qual nos relacionamos vai deixando em nós as suas marcas, depositando
novas formações, nos moldando constantemente. Por isso, compreender Kafka é saber de suas
transformações, ou melhor, quais foram os elementos sociais e humanos que formaram o
autor considerado negativo, depressivo, difícil de ler. Foram muitas influências, várias
construções de um único ser e para compreendê-lo minimamente, é imprescindível conhecer o
seu todo construído e construtor da realidade.
O seu pai, Herman4 Kafka, foi um bem-sucedido comerciante que vivia da
comercialização de roupas e miudezas às pessoas com melhor poder aquisitivo na cidade de
Praga. Filho de um açougueiro em uma pequena cidade ao sul, embora tcheco, educou todos
os seus filhos em escolas germânicas - cursando o seu ensino menor na escola primária alemã
na Fleischmarket5 e depois frequentando o Ginásio Imperial e Real, com aulas em alemão.
Apesar de todo o ar de sofisticação, Herman foi um tirano e deixou, com a sua indiferença,
marcas que perpassam toda a vida e obra do seu filho.
A relação de Franz com Herman foi marcada pelos acertos e desacertos entre pai e
filho. A figura do pai vencedor, imponente, burguês exemplar, oprimia o jovem Franz, mais
ainda porque o pai era incapaz de demonstrar qualquer interesse pelo filho ou por qualquer
coisa que ele gostasse. O contraste era claro, o Franz franzino, de saúde frágil, amante das
pequenas trajetórias, do que havia de mais singelo, observador das coisas pequenas e
desprotegidas, era o estereótipo do fracasso e da vergonha para o pai.
Franz escreveu para Herman a obra Carta ao pai. Escrita em 1919 e nunca entregue
ao destinatário, a obra veio a ser publicada em 1966, na qual o autor buscou exorcizar alguns
dos muitos demônios construídos na relação tumultuada entre ele e o seu genitor:

Querido Pai:

4
A grafia do nome original era Herrmann, mas temendo o ódio dos tchecos ortodoxos aos “alemães, como eram
chamados aqueles que eram educados na língua germânica, o pai de Franz suprimir um “r” e um “n” do nome.
5
Mercado da carne.
25

Você me perguntou recentemente por que eu afirmo ter medo de você. Como
de costume, não soube responder, em parte justamente por causa do medo
que tenho de você, em parte porque na motivação desse medo intervêm
tantos pormenores, que mal poderia reuni-los numa fala. E se aqui tento
responder por escrito, será sem dúvida de um modo muito incompleto,
porque, também ao escrever, o medo e suas consequências me inibem diante
de você e porque a magnitude do assunto ultrapassa de longe minha
memória e meu entendimento.
Para você a questão sempre se apresentou em termos muito simples, pelo
menos considerando o que falou na minha presença e, indiscriminadamente,
na de muitos outros. Para você as coisas pareciam ser mais ou menos assim:
trabalhou duro a vida toda, sacrificou tudo pelos filhos, especialmente por
mim, e graças a isso eu vivi “à larga”, desfrutei de inteira liberdade para
estudar o que queria, não precisei ter qualquer preocupação com o meu
sustento e, portanto, nenhuma preocupação; em troca, você não exigiu
gratidão — você conhece a “gratidão dos filhos” — mas pelo menos alguma
coisa de volta, algum sinal de simpatia; ao invés disso sempre me escondi de
você, no meu quarto, com os meus livros, com amigos malucos, com ideias
extravagantes, nunca falei abertamente com você, no templo não ficava a seu
lado, nunca o visitei em Franzensbad, aliás, nunca tive sentido de família,
não dei atenção à loja nem aos seus outros negócios...
...Curiosamente você tem alguma intuição daquilo que eu quero dizer.
Assim, por exemplo, me disse há pouco tempo: “Eu sempre gostei de você,
embora na aparência não tenha sido como costumam ser os outros pais,
justamente porque não sei fingir como eles”...
Eu teria sido feliz por tê-lo como amigo, chefe, tio, avô, até mesmo (embora
mais hesitante) como sogro. Mas justo como pai você era forte demais para
mim, principalmente porque meus irmãos morreram pequenos, minhas irmãs
só vieram muito depois e eu tive, portanto, de suportar inteiramente só o
primeiro golpe, e para isso eu era fraco demais (KAFKA, 1997, p. 7-8).

Parece haver um sentimento de culpa que permeia a cabeça de Kafka, ele sabe que o
pai criou expectativas sobre ele e, no fundo, sente que não foi capaz de fazer jus a elas. Isso
fez com que a vida toda ele buscasse uma aprovação que, ao mesmo tempo, a evitava, por
saber que para que ela ocorresse, ele teria que assumir a sua parcela de culpa na tormentosa
relação com o seu pai. O próprio Kafka afirmava que o pai era o seu “inimigo” e dizia a Max
Brod “[...] conforme nossas naturezas determinaram, isso tu sabes; [...] minha admiração pela
pessoa dele talvez seja maior do que o medo que ele me inspira (LEMAIRE, 2013, p. 30)”.
Para o autor, o pai era “[...] um homem bom e brando (o que se segue não vai contradizer isso,
estou falando apenas da aparência na qual você influenciava o menino), mas nem toda criança
tem a resistência e o destemor de ficar procurando até chegar à bondade (KAFKA, 1997, p. 7)
Embora acreditasse que o pai o havia vencido nesta batalha, já que a culpa o
acompanhava constantemente, ele continuava lutando para ser sempre “derrotado”
(LEMAIRE, 2013, p.30). Kafka, ao mesmo tempo em que pensava confrontar o pai – como
na Carta ao pai e na dedicatória sarcástica de Um médico rural –, em outros momentos fugia
26

dessa discussão, comportamento que para ele não era “[...] a comprovação de covardia e de
medo, mas, ao contrário, uma demonstração inconsciente de coragem, pois se trata de uma
abertura para a entrega a algo maior e desconhecido[...]” (FONSECA; ENÉAS, 2015, p. 88).
Vejamos o que diz o seu grande amigo, Max Brod, citado por Gerárd-George
Lemaire:

“A veneração que ele tinha pelo pai era infinita, tinha algo de heroico e
podia mesmo conter muitos elementos exagerados àquele cujo olhar, menos
apaixonado, não estava tomado – como era o meu caso – pela atmosfera do
lar. Seja como for, seu exemplo foi essencial para a formação de Franz”
(LEMAIRE, 2013, p. 51).

Na verdade, o próprio Franz sentia que não tinha qualquer atrativo ou ação que
julgasse serem dignas da admiração do pai. Acreditava ser um poço de decepções e falta de
qualidades que o genitor poderia querer em um filho, em especial no seu primogênito,
chegando a afirmar a Max Brod:

Neste caso, o que há para fazer brilhar os olhos de um pai? Um filho incapaz
de se casar, que não pode dar continuidade ao nome da família, aposentado
aos 39 anos, ocupado exclusivamente com seu jeito esquisito de escrever,
cujo único objetivo é sua própria salvação ou danação; desamoroso; alienado
da Fé, e com isso um pai não pode esperar sequer que ele diga as preces pelo
descanso de sua alma; tísico e, como o pai muito apropriadamente julga,
tendo adoecido por sua própria culpa […] (KAFKA apud BEGLEY, 2010,
p. 45-46).

Era uma culpa que o fazia adotar o afastamento e a fuga como estratégias de
sobrevivência, pois a figura poderosa do pai junto à impotência do autor - de fazer frente às
expectativas familiares - foram demais para que qualquer relação pudesse evoluir em uma dita
normalidade de convivência entre pai e filho.
A mãe de Kafka, Julie, provinha de uma família de posição mais alta que Herman, o
pai dela era dono de uma cervejaria. Da união de Julie e Herman nasceram - além do
primogênito Franz - dois irmãos mais novos, que faleceram logo após o nascimento, e três
irmãs: Elli, Valli e Ottla, esta última a confidente do autor. A relação de Franz com a família
é, de fato, indispensável para compreender a obra do autor. Fischer (2014, p. 10) afirma que
“a relação de Franz com sua família moldou a sua futura obra”. Deixemos o próprio Kafka
falar:
27

A família [...] é um organismo, mas um organismo extremamente complexo


e desequilibrado e como todos os organismos, ela se esforça continuamente
em busca do equilíbrio [...]. O egoísmo dos pais – a emoção paternal
autêntica – não conhece limites [...] ele (o pai) encontra coisas no filho que
ele ama em si mesmo ou deseja ardentemente possuir e considera necessário
para a família. Então ele se torna indiferente às outras qualidades do filho.
Ele vê no filho apenas aquilo que ele ama, e fixa nisso, torna-se seu escravo,
ele consome essa coisa por amor (KAFKA, s/d, p. 122).

Franz foi uma criança franzina e doente, o típico sujeito mofino. A sua peleja com a
saúde começou com a primeira internação em um sanatório para tratamento de problemas
respiratórios, em 1912. De 1914 a 1917 lutou contra a tuberculose, com várias internações
que não resultaram na desejada melhora, o que culminou com a sua morte.
Embora fosse tcheco, Kafka e as irmãs foram educados em escolas alemãs. O jovem
Franz também se tornou bacharel em Direito em uma universidade de cultura germânica,
iniciando os seus estudos superiores em 1901, na Universidade Alemã Imperial e Real Karl
Ferdinand, em Praga. A Universidade foi um campo de transformação do jovem Franz, onde
começou a participar de grupos de leitura e palestras, sempre voltados aos universitários
alemães. Em 1902, conheceu na Universidade o seu grande amigo Max Brod, com quem
manteria vínculo até a sua morte.
Profissionalmente, assim como foi no amor, Franz foi um errante em busca de algo.
Sonhava em ser desenhista, ao entrar na faculdade tentou estudar Química, acabando por
abraçar o Direito, curso no qual se formou aos 23 anos. Mas não exerceu por muito tempo
uma profissão ligada à sua formação. Após uma curta passagem pelos tribunais Civil e Penal
de Praga, acabou por abraçar o trabalho burocrático em uma empresa italiana de seguros e,
posteriormente, em uma instituição semiestatal. Ao final, dedicou-se ao cargo no Instituto
Seguros contra Acidentes de Trabalho do reino da Boêmia. A opressão burocrática foi o
objeto de boa parte da sua produção.
Obcecado por traduzir em palavras todas as dúvidas que tinha, toda a representação
onírica do seu ser, Kafka escrevia muito para representar o mundo que o seu olhar
enxergava6. O fazia desde a mais tenra idade, mas o marco de sua escrita foi o ano de 1912,
quando escreveu em uma noite O Veredicto, publicado em 1913. Já desde a primeira grande
obra, estão presentes alguns dos elementos que marcam a obra do autor, como: a opressão, a
descrição realista, o desfecho trágico e inesperado do enredo. No mesmo ano de 1912,

6
O mundo prodigioso que tenho na cabeça, mas como libertar-me e libertá-lo sem ser feito em pedaços. E antes
ser feito em pedaços mil vezes do que retê-lo em mim ou enterrá-lo. Essa é realmente a razão de eu estar aqui,
isso está bem claro para mim (KAFKA apud BEGLEY, 2010, p. 70).
28

escreveu uma das suas obras mais famosas: A Metamorfose. O seu romance de maior sucesso
foi escrito em 1914, O Processo, publicado após a sua morte.
Kafka sofreu algumas influências, que moldaram a sua visão de mundo e os seus
escritos. Algumas das influências mais importantes de Kafka foram Nietzsche, Dostoiévski
(FISCHER, 2014, p. 12). Segundo Borges (1998, p. 78-79) ele também possuía muita
proximidade com textos de Kierkegaard, sofreu grande influência de Robert Browning, entre
outros.
Mas, para a compreensão do autor é preciso perceber - além da interação dele com as
pessoas, com outros autores - quão importante foi o fator geográfico, social e cultural que
constituiu o ser Franz Kafka, sendo necessário delineá-lo em sua época. A importância desse
estudo não é somente retórica, pois o escritor tcheco Jorannes Urzidil disse certa vez que
“Franz Kafka era Praga e Praga era Franz Kafka” (In: JACOB JR, 2012). Eis o homem em
sua época.
O período em que Kafka viveu foi envolto em revoluções. Ele nasceu em uma Praga
que fazia parte do Império Austro- Húngaro e quando da sua morte, a cidade já era a capital
da antiga Tchecoslováquia. Em geral, culturalmente, se dividiam em uma classe dominante
composta de alemães e praguenses, os quais eram judeus culturalmente germanizados. Desta
última composição, fazia parte a família Kafka, vivendo entre os da elite, em um período no
qual o nacionalismo tcheco estava em alta. Existia uma divisão literária e os tchecos deveriam
ler na língua pátria. Por escrever na língua alemã, Kafka foi renegado pelos tchecos. Por ser
tcheco e judeu, foi esquecido pelos germânicos, o que gerou o retardo no reconhecimento da
sua importante obra literária.
A época de Kafka foi de grandes mudanças industriais, sociais e culturais. No seu
tempo “[...] surgiram o automóvel, o avião, o bonde elétrico, o telefone, a gravação mecânica
de som e o cinema” (FISCHER, 2014, p.9). Praga era uma cidade cosmopolita, a qual sofreu
uma onda de higienização e sanitarização, sendo demolidos e reconstruídos os bairros antigos,
em especial os que acomodavam os judeus, maioria das classes mais carentes. Era a busca na
construção de uma cidade que representasse um ideal de nova sociedade, tentando apagar o
passado ligado ao império Austro-Húngaro.
Culturalmente, Praga era uma capital europeia que guardava similitudes com capitais
como Berlim, Viena e Paris. Com cafés, teatros, associações culturais, publicações diversas.
Havia uma intensa campanha pelo direito ao voto, fundada nos movimentos sindicais que
defendiam melhores condições de vida para os mais pobres. De fato, a cidade era dividida
29

entre os tchecos nacionalistas e os germânicos; de um lado toda a tradição eslava e do outro a


presença alemã; entre mundo oriental e mundo ocidental; entre conservadores e progressistas;
entre judeus e não judeus.

2.2 Kafka – a busca pelo amor e pertencimento

A vida e o legado de Kafka devem muito ao seu maior e mais famoso amigo, Max
Brod. Ele foi o responsável pela preservação da obra de Franz, ao receber do amigo uma
grande parte do que tinha escrito, além de instruções para recuperar o que estivesse nas mãos
de terceiros, com a recomendação expressa do que poderia ser mantido:

De todos os meus escritos, os únicos livros que podem ficar são: O


veredicto, A metamorfose, Na colônia penal, Um médico rural e o conto Um
artista da fome. As poucas cópias de Contemplação podem permanecer. Não
quero dar a ninguém o trabalho de macerá-las; mas que nada desse volume
torne a ser publicado. (KAFKA apud BEGLEY, 2010, p. 5).

Mas o amigo o desobedeceu e não se limitou a manter intactos os escritos, mas os


editou ao longo de anos. Também no círculo literário, foi amigo do escritor Oskar Baum, que
era cego desde uma briga na infância e com quem Franz sempre estava acompanhado quando
ia à Praga, não negando o seu encantamento com a convivência com o amigo:

Na residência de Baum, onde escutei tão lindas coisas, eu, sempre tão fraco
como antigamente, como há pouco. Ter a sensação de estar preso e ao
mesmo tempo, a sensação de que se estivesse desligado seria pior (KAFKA,
1964, p. 32).

Outro grande amigo de Franz foi o médico Robert Klospstock, que o acompanhou
até o dia da sua morte, em 1924, em Kierling e com quem manteve uma correspondência,
demonstrando a sua condição de saúde e o sofrimento físico causado pelo avanço da
tuberculose:

Querido Robert,
Estou sendo transferido para a Universidade Clínica do Prof. Dr. M. Hajek,
Lazarettgasse 14, Viena. Parece que minha laringe está tão inchada que não
posso comer; eles precisam (dizem) me dar injeções de álcool no nervo e
provavelmente também uma cirurgia. De modo que permanecerei em Viena
algumas semanas (KAFKA, s/d, p. 175).
30

O escritor teve poucos amigos, mas mostra uma dedicação extrema a essas amizades,
uma enorme capacidade de amar a todos, escrevendo longos e poéticos textos a eles, como
mostra a coletânea Carta aos Amigos. Em várias passagens ele usa de uma escrita leve, que
não apresenta os traços de obra como O Processo e A Metamorfose.
No que se refere à vida amorosa, Kafka foi, ao modo dos poetas, o homem que amou
muitas mulheres, mas nunca encontrou o que buscava. Suas cartas e diários são cheias de
descrições de encontros amorosos e eróticos. Embora se enamorasse perdidamente, nunca
conseguiu estabelecer vínculos duradouros. Recorreu mesmo a muitas prostitutas como meio
de satisfazer a sede do corpo, mas nunca conseguiu aplacar o sofrimento da sua alma,
expressa em vários excertos, como neste trecho de carta enviada à Milena Jesenská:

O oposto aconteceu. Houve três cartas. À última carta não pude resistir. Eu a
amo até onde sou capaz disso, mas o amor jaz enterrado a ponto de sufocar
debaixo de medo e de autocensuras […] (KAFKA apud BEGLEY, 2010, p.
138).

Em 1907, enamorou-se pela primeira vez pela estudante de filologia Hedwig Weiler,
com quem se correspondeu de forma constante e com linguagem apaixonada: “A decisão a
meu respeito, a decisão final, chega amanhã, mas esta carta é impaciente; logo que eu escrevo
‘amor’ ela toma vida e não que mais esperar” (KAFKA, s/d, p. 15).
Em 1913, conheceu a comerciante de Berlim, Felice Bauer, o que aconteceu no
apartamento dos pais de Max Brod. Com ela, o autor ficou noivo, pela primeira vez, em 1914.
O compromisso durou trinta dias, reconstituindo o noivado com a mesma mulher três anos
depois, para rompê-lo em dezembro do mesmo ano.
A primeira visão de Franz sobre Felice foi de estranhamento, ele chegou a fazer uma
descrição pouco animada da nova amiga:

Srta. F. B. Quando cheguei à casa dos Brod, ela estava sentada à mesa e
pensei que fosse uma criada. Não tive curiosidade alguma de saber quem ela
era, e de imediato deixei de prestar-lhe atenção. Um rosto ossudo e vazio que
usava a vaziez abertamente. Garganta desnuda. Uma blusa jogada por cima.
Parecia muito caseira no vestir-se, embora, como depois se evidenciou, não
o fosse absolutamente. Alieno-me dela um pouco por inspecioná-la tão
atentamente. Em que estado me encontro agora, com efeito, alienado de tudo
o que é bom, e ainda não acredito […] Nariz quase quebrado. Loura, cabelos
um tanto lisos, desgraciosos, queixo forte. Enquanto eu me sentava,
observei-a de perto pela primeira vez, e assim que me sentei eu já tinha uma
opinião inabalável (KAFKA apud BEGLEY, 2010, p. 149).
31

Na verdade, a visão de Felice foi perturbadora e que resultou em um relacionamento


que custou caro, como nos diz Salfellner (2011, p. 193) “Carta após carta foi se enredando um
complicado relacionamento com a elegante berlinense”, o sentimento de posse e a pretendida
inaptidão para o casamento foram minando o sentimento que os unia:

Pedirei agora um favor que parece um tanto louco […] é o seguinte: escreve-
me apenas uma vez por semana, de modo que tua carta chegue no domingo
— pois não consigo suportar tuas cartas diárias […] Por exemplo, respondo
a uma de tuas cartas, depois me deito na cama em aparente calma, mas meu
coração bate no corpo inteiro e tem consciência apenas de ti. Pertenço-te:
realmente não existe outro modo de expressar isso, e esse não é
suficientemente forte (KAFKA apud BEGLEY, 2010, p. 156).

Depois dela, ficou noivo com Julie Wohryzek, rompendo o compromisso após
algumas semanas.
Em 1920, conhece Milena Jesenská, tcheca, casada e radicada em Viena. O contato
teve como pano de fundo o fato de Milena ter se oferecido para traduzir O foguista para o
autor. Começam a trocar cartas, daí surgindo a sua obra Cartas à Milena, que relata do
começo da amizade ao relacionamento amoroso, o qual durou até 1923. No mesmo ano,
conhece o último amor da sua vida, Dora Dyamant, moça judia, do leste europeu, com quem
viveu junto e que o acompanhou até a morte.
O fato é que todos conhecem o Kafka atormentado pela presença opressora do pai,
conhecem o autor que, na visão da psiquiatria moderna, reproduzia em seus textos cenas de
autodestruição, mas poucos notam que para Franz sobrava aquilo que resta aos poetas em
momentos de dor: a fantasia, o devaneio, a busca do pertencimento e do amor. A vida deste
autor foi marcada por tentativas, fracassos, desilusões humanas, as quais somadas ao seu
corpo em perecimento pelo problema de saúde que o atingia, produziam a angústia, cuja fuga
era usar a mente para encontrar refúgio fora daquela realidade.
A face menos conhecida de Kafka é a sua poesia. Como ele não publicou em
compêndios ou obras, é preciso acessar os seus diários, as suas cartas, as descrições dos seus
sonhos. De resto, não é possível rotular um autor como se ele fosse pessimista. O ser humano
é inclassificável e alguém negativo – esquizofrênico, como diria alguns - jamais escreveria
textos amorosos:

[...] Milena; você se queixa de algumas cartas, diz que lhes dá volta por
todos os lados e nada cai delas, e, contudo, são essas, justamente essas, se
não me engano, nas quais eu me sentia tão próximo de você, tão subjugado
32

em meu sangue, tão subjugado do seu, tão profundamente no bosque, tão


repousado na calma [...] (KAFKA, 2000, p. 37).

Meu anseio por ti é tamanho que me oprime o peito como lágrimas que não
podem ser choradas (Carta à Felice Bauer, KAFKA apud BEGLEY, 2010, p.
182).

Milena foi um dos seus grandes amores, o que tiveram foi arrebatador para ambos,
experimentaram tudo o que o amor pode trazer aos amantes. É interessante o trecho do
prefácio de Cartas à Milena, feito por Torrieri Guimarães (In: KAFKA, 2000, p. 10), onde ele
relata o envolvimento da amada de Franz:

Ela entrega-se às delícias de seu amor com tanto arrebatamento, de uma


maneira total e tão íntima, que passa a sentir as dores que ele sente, passa as
noites de insônia com ele e, por um fenômeno de autossugestão ou que outro
nome tenha, adquire a sua doença, ou imagina que a adquiriu, a ponto de
escarrar sangue. Tal o seu desejo de identificar-se intimamente com seu
amante.

É a história do amor desmedido, como o que foi descrito por Shakespeare em Romeu
e Julieta. Nela, os amantes vão ao céu da paixão, até caírem no fundo de uma relação
impossível, castrada pelos demônios de ambos, obstada pela construção social conservadora.
Franz Kafka não era um homem negativo, a sua obra traz muito da crítica e da
sobrelevação das dores físicas e emocionais que sentia, por isso alguns de seus escritos são
pouco compreendidos. Foge ao senso comum o escritor amante das coisas simples, textos
devotados aos amigos, aos amores, à família, relatos de viagens. Acima de tudo, o autor amou
a literatura, tanto que fez dela uma fotografia do seu tempo e do seu ser, como ele mesmo
disse:

Visto da perspectiva da literatura, meu destino é muito simples. O impulso


de representar minha vida onírica deslocou todo o resto para um plano
secundário. Não mais poderá me satisfazer, nunca (KAFKA, 2008, p. 86).

Kafka não teve medidas na construção dos seus livros. Assim, como as desconhecia
no seu viver, escreveu como viveu e buscou uma escrita provocativa - ligada aos seus
devaneios, às suas alegrias, dúvidas e tristezas -, uma forma de escrever que o levou ao
patamar de um dos escritores mais importantes do Século XX. Não teve meias verdades ou
rodeios em sua obra, se entregou por inteiro. A obra desse autor é sempre uma amostra de
evolução humana, aquela pela qual passou o próprio Kafka, segundo a compreensão desse
33

processo com uma modificação complexa do ser, como o próprio definiu “Kafka acreditava
que a evolução significa mais do que a mutação das espécies, pois inclui as mudanças da
mente e do espírito de cada pessoa” (PERCY, 2012, p. 33).
No entanto, o mesmo autor que se desnudou nos seus textos e que buscou o amor por
toda a sua vida, foi tolhido pelo medo, pelo temor do fracasso. Sentia que não conseguiria ser
o filho que Herman sonhava, não, não tinha a força pessoal do pai. Temeu ainda mais por não
ser capaz de manter uma relação duradoura e suas dúvidas iam desde a condição de ter e dar
prazer a uma mulher:

Meu único temor — sem dúvida nada pior pode ser dito ou ouvido — é que
eu nunca venha a ser capaz de possuir-te. Na melhor das hipóteses eu estaria
restrito, como um cão impensavelmente fiel, a beijar tua mão
displicentemente oferecida, o que não seria sinal de amor, mas do desespero
do animal condenado ao silêncio e à separação eterna (KAFKA, apud
BEGLEY, 2010, p. 169).

Também duvida da possibilidade de ser um marido à altura dos amores que teve:

A perspectiva de casar com um homem respeitável, alegre, sadio, ter belos


filhos sadios […] No lugar dessas perdas incalculáveis ganharias um homem
doente, fraco, insociável, taciturno, formalista, quase imprestável, que
possivelmente tem uma virtude, a de te amar (KAFKA apud BEGLEY,
2010, p. 178).

Kafka sempre amou, mas teve dificuldade de viver os seus amores, se é que estes são
realmente vivenciados em sua totalidade por alguém:

Depois de ter sido fustigado em períodos de insanidade, comecei a escrever,


e esse escrever é a coisa mais importante do mundo para mim (de um modo
que é horrível para todos à minha volta, tão indizivelmente horrível que não
falo a respeito) — assim como o delírio é importante para o louco (se ele o
perdesse, “enlouqueceria”) ou como a gravidez é importante para uma
mulher. Isso não tem relação nenhuma com o valor de escrever — conheço
bem demais esse valor, assim como sei o valor que tem para mim […].
Portanto, trêmulo de medo, protejo a escrita de todas as perturbações, e não
só a escrita, mas a solidão que faz parte dela (KAFKA apud BEGLEY,
2010, p. 244).

A trajetória de Kafka, a formação do ser, é marcada pela busca pelo amor, desde o
amor do pai, que lhe foi negado e cujas atitudes deste foram o fato gerador de muitas das
inquietações do autor. A segunda busca é pela identidade sociocultural de um homem que era
34

tcheco, judeu, mas que foi formado na língua e cultura germanas. Rejeitado pelos
nacionalistas e desrespeitado pelos germânicos.
A terceira e mais difícil busca é pelo amor verdadeiro, frustrada por toda a dor e
sofrimento que Kafka trazia em si, mas que não o proibiu de amar, de ter esperanças e ver a
parte mais bela da vida. O autor se entregou à vida, viveu em sua plenitude, sentiu as dores
físicas e humanas, provou do amor desmedido, sofreu o abandono, escreveu tudo o que
esperavam e aquilo que até hoje causa estranhamento. Todas essas buscas sofriam avanços e
retrocessos em razão dos medos do autor, que construiu uma trajetória de interação entre a
busca pelo amor e o medo do que isso poderia trazer. Kafka foi demasiadamente humano e
como humano morreu sem sentir a completude, foi esquecido em vida e segue admirado após
a morte.
35

3 O meu olhar alinha o meu caminhar

Escrever relatos é um meio de apresentar algo ao leitor, uma descrição, narrativa ou


diálogo, um texto que busca levar a uma compreensão dos conceitos científicos, formulados
ou apreendidos pelo pesquisador. Essas discussões não são temas comumente apresentados
em forma de ensaio, mas a pesquisa que ora iniciamos não segue a linha de uma metodologia
tradicional. Discutir Direito e humanização, falar sobre literatura - do seu papel interligado ao
Direito -, esses objetos são abordados aqui pelo olhar do pensamento complexo. Para tanto,
optamos por iniciar com a apresentação da trajetória do pesquisador e mostrar como ela foi
fundamental para a escolha da abordagem da literatura. Das dúvidas à descoberta da crítica ao
Direito presente nas obras de Kafka, expor como as duas jornadas se cruzam, construindo
uma dissertação. Esta que é uma mesma jornada, uma viagem pelo diálogo dos saberes, pela
humanização de uma ciência que estuda o homem, mas que tem se voltado à análise tecnicista
das situações fáticas e das relações sociais.
Optamos pela escritura do texto no formato ensaístico a partir do segundo capítulo, o
que possibilitará a leitura de cada parte para entender o todo, e do todo para entender cada
parte, pois como Pascal afirmava “o conhecimento das partes depende do conhecimento do
todo, como o conhecimento do todo depende do conhecimento das partes” (MORIN, 2003, p
87). Os textos são autônomos, mas estão ligados pela discussão da dialogia Direito e
literatura, da possível humanização do Direito, da importância de literatura para a
compreensão do saber científico, da crítica presente na Obra de Kafka. Mais especificamente
trataremos dos três contos: Um relatório para uma academia, O novo advogado e Diante da
lei, inseridos na coletânea de contos Um médico rural, que juntos serão o ponto de partida à
interpretação de outras obras do autor. Em algumas partes repetiremos algumas discussões,
especialmente no início de alguns ensaios, para situar o leitor na discussão, sem que ele
necessite de uma introdução geral para esta dissertação.
Para que não restem dúvidas ao leitor quanto à abordagem de conceitos científicos
apresentados nesta pesquisa, esclarecemos que não estamos tratando de um conceito de
ciência ou de uma forma de entender ciência, e sim, da abordagem das ciências enquanto
sinônimo de conhecimento, dos conhecimentos humanos, desde aqueles mais inatos e
instintivos até aos que foram determinados e reconhecidos pela evolução histórica da ciência
tradicional, empírica e cartesiana.
36

O texto que se escreve agora é focado na noção de que toda a experiência humana é
válida, em especial, quando queremos discutir humanização, não havendo uma
preponderância de saberes e estes não sendo tratados por meio de conceitos ou práticas que se
fecham em uma disciplina ou ramificação de ciência. Na perspectiva desta pesquisa, os
saberes convergem à busca do seu objeto, que é discutir a humanização do Direito por meio
do uso da literatura.
Entendemos que não é possível tratar da complexidade humana abordando o seu
objeto pelo olhar disjuntivo. Nesta pesquisa preferimos a junção, a aproximação, a religação
dos saberes e conhecimentos. Para isso, recorreremos à literatura como o fio que ligará as
várias partes do saber científico em uma teia, pois assim como as pessoas evoluem pela
interação das individualidades, as ciências serão mais completas pela convergência das suas
construções, conceitos e ramificações.
Iniciamos a pesquisa por um relato de trajetórias cruzadas, que têm em comum uma
formação tecnicista, depois pela busca das respostas para as inquietudes humanas, utilizando a
análise de três contos de Frank Kafka, repensando o papel do Direito por meio da literatura,
tomando esta como o elo entre a ciência jurídica e a condição humana.
Para demonstrar quão profissionalizante foi a minha formação, a minha matriz
curricular tinha um carga horária total de 3.560 horas de atividades curriculares e
extracurriculares, das quais apenas Sociologia Geral, Fundamentos de Filosofia, Metodologia
do Trabalho Científico, Prática Jurídica I – componentes do primeiro período –, Prática
Desportiva II – no segundo período –, e Introdução à Economia – no terceiro período –,
fugiam do currículo duro do Direito, totalizando 240 (duzentas e quarenta horas) de
componentes que possibilitavam algum diálogo com saberes de fora da ciência jurídica7.
Morin diz que é na literatura que encontramos a condição humana de forma ativa,
levando a uma compreensão da nossa própria vida (MORIN, 2003a, p. 47). Ele mesmo,
citando François Bom, diz que fomos separados da literatura como autorreflexão do homem
para sublimá-la à serviço da língua veicular (MORIN, 2003a, p. 42). De fato, as artes
exprimem o que há de mais humano, chegando a propor que se dispense à literatura de um
dízimo epistemológico, como pressuposto de saberes e possibilidades comunicantes (MORIN,
2003a, p. 84).
A literatura com uma forma de arte é capaz de religar o bacharel em Direito ao
conhecimento sobre o homem e a sociedade. Repensar essa formação, torna-se pertinente para

7
Conforme matriz curricular no Anexo A.
37

ampliarmos e aprofundarmos as discussões sobre o objeto da ciência jurídica, de modo que


ela possa responder aos novos desafios impostos pela realidade e pela própria vida do homem
moderno. Desafios estes que propõem soluções cada vez mais complexas e
multidimensionais.
Um dos desafios de uma pesquisa como esta é a necessidade de subverter a lógica da
metodologia do trabalho científico, fragmentado e fundado nas técnicas, por meio das quais
passamos anos aprendendo a produzir um texto com o mínimo de subjetividade possível.
Entretanto, a utilização dos princípios do pensamento complexo abre as possibilidades para
uma escrita ensaística e constroem horizontes para a escritura com a inclusão do “eu” no
texto.
Não pretendemos falar de humanização acreditando que o pesquisador e sua
subjetividade não importavam para a discussão e que seria anticientífico qualquer
aproximação deste com a pesquisa.
Felizmente, descobrimos que se a intenção é contribuir para tornar mais humana a
ciência jurídica, deveríamos iniciar quebrando as barreiras pessoais do pesquisador. Para isso,
escrevemos a primeira parte do texto tratando sobre jornadas, cujo objetivo é cruzar a minha
jornada com a de Franz Kafka. Pretendemos demonstrar como - por caminhos diversos, às
vezes muito próximos -, transformamos a nossa desilusão com o papel tradicional da ciência
do Direito em uma busca por respostas, por complementação da compreensão do papel a ser
desenvolvido frente às relações humano-jurídicas.
O ingresso no curso de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Humanas é uma
tentativa de me encontrar, como a crítica humana e social foi o motivo da escolha do Kafka e
da sua obra como nascedouro da proposição do diálogo entre Direito e literatura.
O problema reitor da pesquisa é demonstrar a importância da literatura, qual o seu
papel como um instrumento de humanização do Direito, utilizando a obra de Franz Kafka de
forma especial, mas não exclusiva. Para tanto, elaboramos algumas questões que a pesquisa
pretende abordar: é possível, a partir da análise da obra de Franz Kafka, construir uma crítica
sobre a formação jurídica, tomando por base a minha própria formação, e apontar qual a
alternativa complementar poderia ser visualizada para pensarmos na ampliação da
compreensão e da relação entre a norma e o ser humano, entre Direito e humanidade? A
literatura, em especial a obra de Franz Kafka, será capaz de aproximar o bacharel da
complexidade humana, religando os saberes e levando a um Direito mais humanizado e
menos preso ao tecnicismo e à fragmentação?
38

Os objetivos desta pesquisa são vários, entre eles pretendemos discutir a necessidade
de humanizar o Direito e a pertinência de uma abertura na formação teórico-científica e
humana do bacharel. Pretende-se, ainda, reconhecer o conhecimento implicado da literatura
kafkiana e as bases necessárias ao diálogo entre homem, formação jurídica e Direito, fazendo-
as dialogar com outras áreas do saber. A partir disso, demonstrar a importância da literatura
como um caminho capaz de religar ciência/literatura, Direito/homem; como um instrumento
unificador entre o tecnicismo racional e o Direito desejável, cumpridor do seu papel de
pacificação social.
Temos a consciência de que em um texto construído na ótica do pensamento
complexo não encontraremos respostas determinantes. Buscaremos trilhar uma estrada que
possa complementar a minha formação, me dar algumas explicações e ser capaz de apontar
uma possibilidade a repensar o papel do Direito e da formação jurídica que temos. Esse texto
é um convite para o caminhar em construção, iniciando uma jornada que terá como final um
ser humano mais integrado.
A escolha da literatura com um meio para buscar a aproximação da condição humana
com o Direito, se fundamenta no fato de que a arte é o campo das experimentações humanas.
Construída com paixão, ela não se deixa contrariar por métodos e conceitos científicos que
subvertam a sua finalidade, sendo uma produção da vivência humana a fazendo livre para
ousar. A produção artística nunca é individual porque o artista, ao preparar a sua obra, deixa
de ser dono dela. Cada pessoa que tem acesso a uma obra de arte constrói os seus próprios
entendimentos, carrega-a de subjetividade. Poucas criações da humanidade são tão próximas
da condição humana como as artes.
Não se pode querer limitar o conhecimento humano somente às ciências. A literatura,
a poesia e as artes não são apenas meios de expressão estética, mas também meios de
conhecimento (MORIN, 2012, p. 17).
Nas palavras de Ost (2013, p.2) a literatura é capaz de alimentar o nosso imaginário
coletivo, encontrar as alternativas desejáveis ao Direito positivado, tendo claro papel
civilizador. Dentro dessa via de ligação ao arracional8, ao imaginário, podemos perceber a
fina relação entre a crítica feita em alguns contos escritos por Kafka no livro Um Médico
Rural (1999) e a falta de humanização da ciência jurídica atual. Também é inegável a

8
Arracional é utilizado como conceito do que transcende a racionalidade, noção derivada da física utilizada para
designar o conceito do tempo acronométrico ou acrônico. Para Koellreutter (In Brito, 2001, p. 49). Dá a ideia de
infindável, multidirecional e multidimensional.
39

presença da crítica à ciência jurídica na obra de Kafka, especialmente em livros como O


Processo (2013d), Na Colônia Penal (2013b), além de outras obras.
No caso de alguns contos do livro Um Médico Rural, adotados como ponto de
partida para este trabalho, Kafka mostra o Direito como meio de opressão, como o
instrumento para imposição do poder do Estado, como o ser humano se sente preterido pela
máquina coercitiva estatal. Diante disto, é de se pensar a busca de uma evolução do Direito
por meio da sua humanização. Teceremos uma análise crítica ao Direito ensinado e aplicado;
buscaremos, dentro das obras estudadas, os diálogos entre o Direito tradicional, a crítica
realizada por Kafka e a literatura como meio de humanização da ciência jurídica. A visão de
Kafka sobre o Direito - positivado, normativo – também denuncia a falta de humanização do
próprio Direito, a necessidade deste se aproximar do ser humano em sua vivência e nas
vicissitudes cotidianas.
Cientes de que o que explicamos é a mínima parte do desconhecido, nos resta buscar
a argamassa que formará a junção entre o racional, o irracional e o arracional. Entre o objetivo
e o subjetivo, entre realidade e imaginário, razão e emoção, animalidade e humanidade. Tal
junção pode ocorrer por meio da literatura como meio indutor do inconsciente, do desejável.
Foi a literatura, como uma expressão da arte, um elo condutor da evolução social, da
construção da linguagem. Ela apresentou o humano em suas diversas nuances, desde as
figuras humanas consideradas normais até àquelas condutas socialmente reprovadas, como as
chamadas perversões sexuais e de caráter.
A literatura é livre e fornece ao leitor a possibilidade de criar as mais diversas
interpretações. Umberto Eco afirma que “o texto [...] é um mecanismo concebido para
suscitar intepretações” (2013, p. 34) e que após concluída uma obra, os autores “lançaram
seus textos no mundo como mensagens em garrafas” (2013, p. 10), por isso não podem
controlar as intepretações feitas pelos leitores. Eis uma das qualidades do texto literário.
Lendo obras como as do Marquês de Sade, vieram à luz as mais diversas aventuras eróticas
que, embora praticadas, não eram reconhecidas ou aceitas socialmente. Foi também a
literatura que expôs a força do amor idealizado nas obras de Shakespeare; possibilitou a
expansão do chamado realismo de Machado de Assis; e, ainda, foi ela que trouxe enormes
contribuições para o conhecimento e evolução do Direito nas obras de Cícero, Rousseau,
Weber, Foucault, Philip Dick e muitos outros.
A literatura é um meio de exploração do social e do humano, do uno e do múltiplo.
Por isso é integrativa e complexa. Como afirma Fonseca (2013, p. 11) ao citar Calvino: “há
40

coisas que somente a literatura com seus meios específicos pode nos dar”. As ciências em
geral e as sociais, especialmente, podem se beneficiar da literatura, de duas formas citadas
pelo autor:

Uma é usar os textos literários como fonte de consulta às reflexões


sociológicas, políticas, antropológicas. Neste caso, a obra literária não é o
foco principal da investigação e sim um documento a mais para ajudar a
reflexão compreensiva. A outra maneira é recorrer à literatura como fonte
primordial, como objeto de estudo, de pesquisa, assim como o fez
Benjamim, por exemplo. É pertinente ressaltar que mesmo já estabelecida a
relação entre literatura e sociedade, entre literatura e Ciências Sociais, esta
relação ainda não é bem compreendida por áreas especificas dessas ciências.
Ainda existe um certo pensamento que considera o estudo da literatura nas
Ciências Sociais como algo não cientifico (FONSECA, 2013, p. 11).

Llosa (2013, p. 3) falando Em Defesa do Romance, exprime com clareza a


importância da literatura para a formação e evolução do ser humano e da sociedade:

Nenhuma outra disciplina, nenhum outro ramo das artes, pode substituir a
literatura na formação da linguagem com que as pessoas se comunicam. Os
conhecimentos que nos transmitem os manuais científicos e os tratados
técnicos são fundamentais; mas eles não nos ensinam a dominar as palavras
nem a exprimi-las com propriedade: pelo contrário, amiúde são mal escritos
e revelam certa confusão linguística porque os autores, às vezes eminências
indiscutíveis em sua profissão, são literariamente incultos e não sabem se
servir da linguagem para comunicar os tesouros conceituais de que são
detentores. Falar bem, dispor de uma linguagem rica e variada, encontrar a
expressão adequada para cada ideia ou emoção que se queira comunicar,
significa estar mais preparado para pensar, ensinar, aprender, dialogar e,
também, para fantasiar, sonhar, sentir e emocionar-se.

Não restam dúvidas de que o que nos faz humanos é a complexidade da nossa
essência. Somos racionais e também impulsivos, cuidadosos e imprudentes, mentalmente
fortes e psicologicamente fracos, sapiens-demens, faber-ludem (MORIN, 2000, p. 58). Uma
das melhores formas de expressar a condição humana foi o que os literatos fizeram nas suas
obras. A leitura - seja de clássicos, poemas, ensaios, contos ou romances - nos aproxima da
realidade vivida e da vida subjetiva, nos apresentando o descortinar das angústias e dos
sonhos que nos fazem humanos. O ser humano se apresenta em sua totalidade, em sua
natureza ambígua, incerta, contraditória e complexa nas obras literárias:

Seja na literatura ou na ciência, a apropriação da realidade se dá por meios


específicos da linguagem que decodifica a própria realidade, codificando-a.
41

A linguagem se apropria do mundo que, por sua vez, se apropria da


linguagem, numa relação dialógica (FONSECA, 2013, p. 12).

Kafka usou parte da sua obra como meio para apontar as mazelas sociais e fez
também focando o Direito, apontou para o perigo do poder e da coercibilidade do Estado
contra o cidadão sem direito de acesso à lei e sem poder exercer a ampla defesa. Tais críticas
estão presentes nos textos que servem de base às discussões desta pesquisa, quais sejam: os
contos Um relatório para uma academia; Diante da lei; e O novo advogado, todos inseridos
na obra Um médico rural, publicado em 1920.
No livro Um Médico Rural, especificamente no conto Um relatório para uma
academia, o autor faz o retrato anacrônico de uma sociedade que impõe um padrão de
comportamento a todos, como pressuposto para a aceitação, esclarecendo que a adesão às
convenções sociais leva a uma saída, mas jamais conduz à liberdade plena. Essa negação de
acesso à liberdade pode ser interpretada como o problema do afastamento do Direito da
condição humana, presente nos conflitos sociais. Por meio desse dilema, podemos discutir
meios a alcançar uma maior humanização da ciência do Direito.
Para essa humanização é preciso compreender os afetos, os desejos expressos nas
contradições sociais. É preciso se envolver com a realidade e as necessidades sociais por meio
do sentimento de justiça (FONSECA; PALMEIRA SOBRINHO, 2010). Este último
pressupõe as subjetividades, a compressão da realidade social e, por fim, a percepção das
necessidades humanas. Para atendê-lo é necessário sair da esfera racional, transcender o
irracional, partir para o arracional, e isto pode ser feito plenamente por meio da compreensão
e interpretação do texto literário.
A condição humana e a realidade na qual ela se constitui entrelaçadamente são cheias
de paradoxos e ambiguidades, certezas e incertezas, limites e possibilidades, racionalidades e
paixões, objetividades e subjetividades. A pesquisa aqui proposta encara o desafio de
trabalhar e admitir essas ambiguidades como necessárias à compreensão da condição humana.
Investindo na perspectiva de uma pesquisa à luz do pensamento complexo - que religa
fronteiras, saberes e métodos -, de um pensamento que se pensa para compreender o que é
pensado, a análise aqui proposta adota não uma metodologia - como tradicionalmente é
apresentada em projetos -, mas sim, um “método”. Como esclarece Morin, “As metodologias
são guias a priori que programam as pesquisas, enquanto que o método derivado do nosso
percurso será uma ajuda à estratégia” (1999, p. 39).
42

A metodologia é um programa elaborado para orientar a postura do pesquisador diante


de seu objeto. O método é uma estratégia que o pesquisador adota para conhecer seu objeto,
dialogar com ele, apreendê-lo compreendendo-o e compreendê-lo apreendendo-o. Diria, como
Morin, que “o objetivo do método, aqui, é ajudar a pensar por si mesmo para responder ao
desafio da complexidade do problema” (1999, p.39).
O que define o método é a natureza do objeto. Para dialogarmos e compreendermos a
natureza do objeto aqui proposto, serão empregados como estratégia alguns procedimentos.
De imediato, a natureza do “objeto” pesquisado não nos permite fixá-lo em uma metodologia
pré-definida, fechada e racionalista. Talvez, a postura mais pertinente diante do mesmo, seja
aquela adotada por Fonseca em seu trabalho como guia de sua pesquisa: “o método de não ter
método rígido, construído ou eleito antes da experiência” (Fonseca, 1998, 14) (Destaque
presente no original). O método será uma construção pari passu, porque, assim, ele estaria à
altura da natureza do seu objeto.
Esse método escolhido é aquele que, por não ser rígido, será transformado durante o
curso da pesquisa, fluindo como um rio ao contornar uma enseada, olhando a pesquisa de
forma aberta, sem preconcepções, é o método como caminho. O método será a bricolagem
das experiências vividas na pesquisa e será influenciado pelo amadurecimento e
aprimoramento dela. O objeto será o prumo e a régua do nosso método, e este será o esquadro
e o cinzel da pesquisa, os dois se influenciarão de forma recursiva. Essa escolha é possível
porque a pesquisa será norteada pelos princípios do pensamento complexo, o que difere a
adoção do método como caminho da mera improvisação, como nos ensina Morin em Educar
na era planetária (2003b, p. 21):

Longe da improvisação, mas também buscando a verdade, o método como


caminho que se experimenta seguir é um método que se dissolve no
caminhar. Isso explica a atualidade e o valor dos versos de Antonio
Machado, que sempre nos acompanha e nos dá força: “Caminante no hay
camino, se hace camino al andar” [Caminhante não há caminho, o caminho
faz-se caminho ao andar].

A escolha do “método” não exclui a possibilidade de adotarmos, a priori, alguns


passos já definidos. Inicialmente pode-se afirmar que essa pesquisa será de revisão
bibliográfica e que terá como guias do pensamento e análise interpretativa os três princípios
do pensamento complexo, apresentados por Morin (2000; 2003a; 2005): o princípio
hologramático, que tenta perceber/reconhecer a relação entre todo e parte, entre o objeto
43

pesquisado e sua relação com a ciência de forma geral; o princípio dialógico, que percebe a
relação entre as partes, que dialoga com as diferenças, no intuito de construir uma unidade
discursiva em torno do objeto estudado; e o princípio recursivo, que compreende as coisas de
forma inacabada, como em reconstruções constantes.
A literatura - e especificamente nesta pesquisa, os contos de Kafka citados - será vista
aqui não como um conhecimento explicado e sim, como conhecimento implicado. Tal
implicação requer estratégias de pensamento, leitura e compreensões igualmente específicos,
pois se apresenta como um saber no qual todos os saberes se comunicam. Lugar da polifonia
de vozes que falam em uma só narrativa ou voz com o sujeito.
Uma pesquisa dessa natureza não considera um saber mais importante do que outro e
sim, como complementares: ciência e literatura; razão e paixão; sujeito e objeto; Direito e
poesia. Como estratégia, o que se verá doravante será um diálogo aberto e metafórico que
bricola diferentes tipos de discursividades, de modo a produzir uma unidade do texto.
Consciente de seus limites e possibilidades de conhecimento, a produção será uma tentativa
de construção de uma “ciência com consciência”, nos termos de Morin (2005).
Para alcançar os objetivos da pesquisa, optamos pela linguagem ensaística, que
adotaremos a partir do segundo capítulo, para dar a leveza e flexibilidade que um estudo sobre
literatura, humanização e Direito possa requerer. Almeja-se que o texto possa fluir com uma
construção aberta à transdisciplinaridade e permita o diálogo entre as diversas formas de
pensar.
A pesquisa que apresentamos inicia como um esboço, e neste ponto de partida
repleto de incertezas, definiremos a primeira parte como Um relato, duas jornadas. Nesta
parte, far-se-á a introdução da pesquisa e a apresentação dos seus objetivos, da sua abordagem
metodológica, relatando a vida e obra de Franz Kafka, apresentando a minha jornada de busca
e demonstrando onde essa minha jornada se encontra com a do Franz Kafka.
A segunda parte, que se pretende denominar de Metáfora da humanização, é onde
será feita a interpretação do conto Um Relatório para uma Academia e, a partir dele,
teceremos uma abordagem sobre as marcas que a humanidade imprimiu em Pedro Vermelho.
Verificar-se-á como o nome, as marcas físicas e a relação destas com uma possibilidade de
vida em coletividade restringem a nossa liberdade animal. Abordaremos como a nossa porção
animal é uma marca da nossa ancestralidade e como esse é um caractere inafastável de nós.
Por fim, usando a marca como metáfora, abordaremos como o Direito Penal é uma forma que
a sociedade tem de marcar as pessoas que não vivem de acordo com as regras estabelecidas.
44

Nesta parte, utilizaremos o símbolo presente em Na colônia penal, onde a sentença é marcada
fisicamente no corpo do acusado, levando-o a morte, e analisando qual seria a função deste
estigma, se o estigmatizado morre ao final da aplicação da pena.
Na terceira parte, Mais humanos, faremos uma leitura dos contos O novo advogado
e Diante da Lei. Sobre o primeiro conto, ressaltaremos como a nossa postura elitista e vaidosa
nos aproxima do advogado que Kafka identificou, utilizando o mesmo nome do vaidoso e
irascível cavalo de Alexandre de Macedônia. Não teríamos nós a culpa pela dificuldade de
acesso às portas da justiça, que parecem - cada dia mais longe e mais altas - como as portas da
Índia era para os macedônios? Na abordagem do segundo conto, partiremos da ficção de
Kafka sobre um porteiro, que guarda a entrada da lei para mostrar como não atuamos da
forma que deveríamos, como guardiões do acesso à justiça. Qual a serventia de uma porta se
ela não for uma passagem, uma possibilidade de acesso? Nós não estamos facilitando o
alcance da justiça - como instituição e como valor pelo homem comum - porque adotamos
uma postura de afastamento para com este último. A passividade do bacharel frente ao
tecnicismo e a racionalização excessiva do Direito, levam o bacharel ao obscurecimento da
sua visão sobre o papel do Direito, causando o distanciamento deles da realidade social e
levando a uma busca da mera satisfação profissional.
A parte final, Um conto do livro da vida, apresentaremos um conto que será um
diálogo entre um pedreiro e um bacharel, partindo da metodologia do uso de uma pedra
angular para a construção de casas, como um conhecimento do qual a própria ciência da
construção partiu e evoluiu, apresentando o bacharel à necessidade de outro olhar sobre outros
saberes ao desenvolvimento da sua ciência jurídica. Nele, a vida dialogará com a ficção e a
ficção representará a vida.
45

II - METÁFORA DA HUMANIZAÇÃO

Um homem e um animal se entreolham


Reluzem a dançar na vivência
Vivenciam juntos uma jornada terrena
Cósmica, una. Diversa, diversos, juntos
46

1 A lição de Pedro Vermelho


Receio que os animais vejam o homem como
um semelhante, que perigosamente perdeu
sua sadia razão animal - como o animal
delirante, o animal ridente, o animal
plangente, o animal infeliz (NIETZSCHE
apud MACHADO, 2014, p. 01).

O que o ex-macaco Pedro Vermelho - personagem criado por Franz Kafka - que foi
convidado por uma academia científica a relatar aos seletos membros a história da sua
hominização, pode nos legar para a compreensão do homem? Melhor dizendo, o que Pedro
Vermelho representa, enquanto imagem metafórica, para o homem atual?
Pela ótica da ciência como experiência racional e fundada na superioridade da
espécie humana, a resposta quase sempre seria: nada. Seria, muito provavelmente, a
compreensão sobre o devaneio de um autor que foi marcado por seu realismo crítico, e que
utilizava metáforas pouco compreendidas para discutir seus próprios traumas e fantasmas,
relatando a sociedade como a compreendia.
Para contextualizar o leitor que ora se aventura neste ensaio, temos que informar que
Pedro Vermelho é o personagem do conto Um relatório para uma academia (1999), inserido
na obra Um médico Rural, de Franz Kafka. Escrito no início do século XX, o texto apresenta
a história de um símio que foi capturado na floresta de forma violenta por humanos, retirado
da natureza e aprisionado em uma caixa (cela).
Decidido a encontrar uma saída para o seu aprisionamento, Pedro Vermelho passa a
copiar comportamentos dos humanos que observava na prisão e, após atingir um nível de
reprodução dessas condutas, passa a ser aceito pela sociedade e pela academia, conseguindo
viver entre os homens, embora não seja considerado humano:
Figura 1 – O ex-macaco9

9
HEIDELBACH, Nikolaus. Franz Kafka: oportunidade para um pequeno desespero. Tradução: Renata Dias
Mundt. São Paulo: Martins Fontes, 2010. p. 9.
47

Após ficar famoso por ter se integrado na sociedade humana racional,


metaforicamente representada pela academia, nosso narrador é convidado por esta última para
apresentar um relatório da sua jornada, como teria deixado de ser símio, e como e por que
teria sido aceito entre os homens. A primeira coisa que Pedro Vermelho esclarece no início da
sua fala é que já não é mais um macaco, mas tem a consciência de que não é um humano, no
máximo é um ex-macaco:

[...] me apegar com teimosia à minha origem e às lembranças de juventude.


Justamente a renúncia a qualquer obstinação era o supremo mandamento que
eu me havia imposto; eu, macaco livre, me submeti a esse jugo. Com isso,
porém as recordações, por seu turno, se fecharam cada vez mais para mim. O
retorno, caso os homens o tivessem desejado, estava de início liberado
através do portal inteiro que o céu forma sobre a terra, mas ele foi se
tornando simultaneamente mais baixo e mais estreito com a minha evolução
(KAFKA, 1999, p. 78-79).

No sentido mais restrito, entretanto, posso talvez responder à indagação dos


senhores e o faço até com grande alegria. A primeira coisa que aprendi foi
dar um aperto de mão; o aperto de mão é testemunho de franqueza; possa eu
hoje, quando estou no auge da minha carreira, acrescentar àquele primeiro
aperto de mão a palavra franca. Não ensinará nada essencialmente novo à
Academia e ficará muito aquém do que se exigiu de mim e daquilo que,
mesmo com a maior boa vontade, eu não posso dizer — ainda assim deve
mostrar a linha de orientação pela qual um ex-macaco entrou no mundo dos
homens e aí se estabeleceu [...] (KAFKA, 1999, p. 80).

O texto chama a atenção para algumas similitudes entre nós e o símio relatado por
Kafka. O macaco hominizado é aceito por adotar práticas que seriam exclusivas dos que
vivem em sociedade, seria o ônus a suportar para viver em coletividade, a perda da sua
liberdade. Entendemos a história como uma provocação, principalmente pela época na qual
foi escrita, uma ponderação que ficou à posteridade e pode ser bem aproveitada, se for
compreendida pelo homem da atualidade.
Não à toa, o ex-macaco estranha que os humanos - tão racionais - copiem
comportamentos dos primatas, relatandoa como seria cômica a visão dos trapezistas por parte
dos macacos:

Muitas vezes vi nos teatros de variedades, antes da minha entrada em cena,


um ou outro par de artistas às voltas com os trapézios lá do alto junto ao teto.
Eles se arrojavam, balançavam, saltavam, voavam um para os braços do
outro, um carregava o outro pelos cabelos presos nos dentes. “Isso também é
liberdade humana”, eu pensava, “movimento soberano.” Ó derrisão da
48

sagrada natureza! Nenhuma construção ficaria em pé diante da gargalhada


dos macacos à vista disso (KAFKA, 1999, p. 86).

Esse trecho representa uma metáfora de como a nossa animalidade continua presente,
mostrando como – aos olhos de um animal – algumas práticas nossas parecem demonstrar que
a nossa animalidade é parte do nosso ser. Kafka nos mostra, na sua ficção, que o macaco
percebe que alguns dos nossos atos – dotados de perícia e técnica humana – são cópias de
práticas que há séculos são comuns aos primatas. A arte de um trapezista é feita de
movimentos executados pelos símios, pendurados nos galhos do alto das árvores. Imitamos os
primatas, como eles nos imitam com facilidade e Pedro Vermelho chega a enchergar o
homem como um macaco evoluído:

Era tão fácil imitar as pessoas! Nos primeiros dias eu já sabia cuspir.
Cuspimos então um na cara do outro; a única diferença era que depois eu
lambia a minha e eles não lambiam a sua. O cachimbo eu logo fumei como
um velho; se depois eu ainda comprimia o polegar no fornilho [...]O que me
custou mais esforço foi a garrafa de aguardente. O cheiro me atormentava;
eu me forçava com todas as energias, mas passaram-se semanas antes que eu
me dominasse (KAFKA, 1999, p. 89-90).

Retomemos o Kafka como alguém que soube relatar aquilo que enxergava no seu
tempo: todas as crises que viu recaírem sobre a humanidade; os regimes de exceção; a sua
própria exclusão por não se encaixar em um perfil de comportamento desejado a alguém da
sua origem, com a sua formação e idade. O Kafka judeu, tcheco, que falava alemão, solteiro
com mais de trinta anos, obcecado pela escrita, tinha uma dificuldade de adequação social que
pode ser entendida sob o mesmo prisma daquela experimentada por seu narrador, não
pertencendo a nenhum dos grupos que formavam a sociedade de Praga. Do mesmo modo,
Pedro Vermelho não pertence ao mundo dos homens, jamais será um humano, e não é mais
um macaco; como ex-macaco ele não é pertencido pelos primatas, tampouco pelos homens. A
vida em meio aos humanos é apenas uma saída para o cárcere físico que experimentara após a
sua captura na selva.
Como interpretar essa narrativa cheia de imagens, muitas metáforas e algumas
lições? Para Adorno, o modo de interpretação da obra do autor de A metamorfose tem que
observar algumas condições, sendo a maior delas o desprezo às classificações e aos rótulos
(1997, p. 239):
49

Do que se tem escrito sobre ele, pouca coisa conta, o resto é existencialismo.
Kafka é enquadrado em uma corrente de pensamento estabelecida. Em vez
de se insistir nos aspectos que dificultam o enquadramento, [...] requerem
interpretação (Destaque inserido).

Caro leitor, escolhemos, ao modo sugerido por Adorno, uma interpretação da história
em forma de ensaio. Sem definir ou enquadrar o autor, divagaremos, pois, pela metáfora da
história do ex-macaco, tecendo uma crítica à nossa certeza de superioridade que adviria da
nossa racionalidade.
Hoje acreditamos firmemente que o nosso avanço como espécie superior se deve à
nossa capacidade, pretensamente exclusiva, de viver em sociedade de forma harmônica.
Racionalizamos a nossa convivência, como se nada nela remontasse aos indivíduos que
compõem a sociedade, pois eles são parte dela, como ela é uma representação deles.
Possuímos, por isso, uma noção de superioridade fundada nas teorias da racionalidade e, por
meio delas, passamos a entender que nos distinguimos das outras espécies. Tal distinção se dá
pela nossa condição de único animal que pensa e que, em decorrência disso, foi capaz de
desenvolver uma forma de vida coletiva mais complexa.
Esse conceito foi evoluindo de forma que, nos dias atuais, nos sentimos mais
próximos da racionalidade e a animalidade nos parece algo muito distante, pois nós a
repelimos! Rejeitamos qualquer similitude com um animal dito inferior, se ele não é capaz de
pensar e sentir, agindo somente por meio do instinto de sobrevivência. Certamente, tal animal
não tem qualquer contribuição ao modelo de evolução que a espécie humana desenvolveu,
jamais servindo como uma possibilidade de nos aceitar como animais dialogicamente sapiens
e demens.
A abordagem que fazemos da narrativa escrita por Franz Kafka no conto Um relatório
para uma academia, será uma análise sobre o ser humano, a partir de uma hominização. Não
estamos tão distantes da nossa essência primata, apesar de preferirmos nem pensar na nossa
animalidade. Temos mais em comum com os primatas que o mero percentual de DNA que
compartilhamos, somos animais regidos pela necessidade de manutenção da espécie e da vida.
Com essa discussão feita por Kafka no início do século XX - por meio da linguagem
metafórica da obra literária, permitindo essas ligações e inter-relações -, percebemos que pode
haver uma proximidade com o estudo antropológico. Interpretado pelos princípios do
pensamento complexo, feito por Edgar Morin na sua obra O paradigma perdido: a natureza
humana (s/d), o autor inicia por relembrar a nosso gene comum com os primatas:
50

Todos sabemos que somos animais da classe dos mamíferos, da ordem


dos primatas, da família dos hominídeos, do gênero homo, da espécie
sapiens, que o nosso corpo é uma máquina com trinta bilhões de células,
controlada e procriada por um sistema genético que se constituiu no
decurso de uma longa evolução natural de 2 a 3 bilhões de anos, que o
cérebro com que pensamos, a boca com que falamos, a mão com que
escrevemos, são órgãos biológicos, mas este conhecimento é tão
inoperante como o que nos informa que o nosso organismo é constituído
por combinações de carbono, de hidrogênio, de oxigênio e de azoto
(MORIN, s/d, p. 2).

O autor francês nos lembra que a ligação advinda de um ancestral genético nos será de
pouca valia, se não entendermos que a natureza humana sempre foi construída,
constantemente alterada e moldada pela cultura e pela história:

Paradigma inexistente de Pascal, paraíso perdido de Rousseau, a ideia da


natureza humana ainda havia de perder o núcleo, tornar-se protoplasma
informe quando se adquiriu consciência da evolução histórica e da
diversidade das civilizações: se os homens são tão diferentes no espaço e no
tempo, se se transformam de acordo com as sociedades, nesse caso a
natureza humana não passa de uma matéria-prima maleável que só adquire
forma por influência da cultura ou da história (MORIN, s/d, p. 3).

Edgar Morin arremata, como uma explicação para o princípio hologramático, aquilo
que este texto procurar articular, a costura dos saberes:

Como um ponto num holograma, carregamos, em nossa singularidade, não


apenas toda a humanidade, toda a vida, mas também quase todo o cosmo,
inclusive o seu mistério que jaz no fundo de nossos seres (MORIN, 2012, p.
49).

As reflexões provocadas por tais obras são importantes à compreensão da sociedade


atual e articulam uma similitude entre a lição que nos legou o ex-macaco Pedro Vermelho ao
abordar - em forma do relato para a academia - a proximidade do homem com os seus
“irmãos inferiores”, como afirmado por Morin?
Vejamos o que nos diz Kafka, após fazer o seu narrador/macaco contar como, com
muita dificuldade, aprendeu a beber aguardente, detalhando todos os atos que foi aprendendo
com um dos membros da tripulação do barco onde seguia capturado. Arremata uma frase que
não deixa dúvida quanto à proximidade entre racionalidade a animalidade, na mesma forma
descrita por Morin:
51

E para honra do meu professor ele não ficava bravo comigo; é certo que às
vezes ele segurava o cachimbo aceso junto à minha pele até começar a pegar
fogo em algum ponto que eu não alcançava, mas ele mesmo o apagava
depois com a sua mão boa e gigantesca; não estava bravo comigo, percebia
que lutávamos do mesmo lado contra a natureza do macaco e que a
parte mais pesada ficava comigo (Kafka, 1999, p. 92).

Por isso, a partir do cruzamento das obras Um relatório para uma academia, de Franz
Kafka, e O paradigma perdido, de Edgar Morin, podemos refletir sobre a vida em sociedade.
Assim como os primatas, estabelecemos estratégias para tornar possível a vida em grupos,
dentre elas: abrimos mão de uma parcela da nossa liberdade; dividimos tarefas; designamos
competência.
Mas, apesar dessas estratégias análogas, somos induzidos a acreditar que os seres
humanos produziram uma vida em sociedade avançada, sem paralelo no reino animal. Ainda
somos levados a crer que - por intermédio da racionalidade e do afastamento da nossa parte
primeva - vamos chegar a uma sociedade que respeite as individualidades, que as contemple e
insira-as no seu projeto de convivência, como condição para a sua própria existência.
A relação entre a nossa humanidade e a animalidade associada às nossas origens é
que nos faz humanos. Conceber uma humanidade sem a animalidade é desacreditar que
espécie, individualidade, sociedade, e outras construções que hoje experimentamos não
surgiram como uma exclusividade da ciência tradicional. Esta última se apropriou do que a
natureza pratica sem definir e a antropologia opôs o homem à sua porção natural, o isolou e
transformou-o em uma ilha, como dito por Morin (s/d, p. 5):

Ainda que objeto de ciência e dependente dos métodos próprios às outras


ciências, o homem permanece insular e a filiação que o liga a uma classe
e a uma ordem naturais – mamíferos, primatas - nunca é concebida como
afiliação. Pelo contrário, o antropologismo define o homem como oposto
de animal; a cultura como oposto de natureza; o reino humano, síntese de
ordem e de liberdade, opõe-se tanto às desordens naturais (“lei da selva”,
pulsões não controladas) como aos mecanismos cegos do instinto; a
sociedade humana, maravilha de organização, define-se por oposição aos
ajuntamentos gregários, às hordas e aos bandos.

A ciência teria criado o “homem sobrenatural” (MORIN, s/d, p. 4), alheio a qualquer
traço da animalidade ou de ancestralidade primata e fundado nas teorias antropológicas, que
afirmam a oposição natureza/cultura (MORIN, s/d, p. 4).
Kafka, na mesma linha da crítica feita por Morin, fazendo-a por meio da sua
literatura e da narrativa do símio hominizado, volta a provocar:
52

Esses meus progressos! Essa penetração por todos os lados dos raios do
saber no cérebro que despertava! Não nego: faziam-me feliz. Mas também
admito: já então não os superestimava, muito menos hoje. Através de um
esforço que até agora não se repetiu sobre a terra, cheguei à formação média
de um europeu (KAFKA, 1999, p. 95).

A animalidade da humanidade implica percebemos que a nossa porção animal é


fundamental à renovação dos nossos laços sociais e à evolução da espécie humana, a qual é
fadada ao enraizamento cósmico, como o são todas as espécies animais. Somos construídos e
construtores de relações coletivas entre animais. A consciência de que não podemos nos
afastar disso, representa o pertencimento do homem na natureza e a apreensão desta porção
natural como construtora e condicionante de um ser humano, o qual sempre se renova e
modifica, assim como é modificador do próprio mundo em que vive.
Pensar em um homem mais próximo da natureza, reconhecendo que a nossa
animalidade é uma condição de possibilidade à evolução do homem como ser social, é o que
está intrínseco na narrativa fabulada de Kafka em Um relatório para uma academia. Se Kafka
criou o símio, transformou-se em ex-macaco e que jamais será humano, de acordo com os
ditames da academia científica e como ele mesmo se entende; se Morin percebeu que a nossa
forma de vida em sociedade evoluiu da organização social dos primatas; se estes continuam a
sua evolução natural e nós também experimentamos as nossas próprias evoluções e crises, não
seríamos mais próximos do que tenta fazer crer a ciência?
Não custa lembrar que as teorias científicas que optaram pela superioridade humana
como alicerce epistemológico - como o nazi-facismo, a eugenia e outras - levaram o homem
às guerras e à divisão, à segregação e à desagregação. Não legaram nada de novo na forma de
vida em sociedade e nem resultaram, diretamente, em evolução social.
Utilizar a obra de Kafka é importante porque, pela narrativa de Pedro Vermelho, ele
nos lembra que somos seres imperfeitos - em busca de uma saída à nossa incompletude -,
passionais, furiosos, racionais, românticos, pacíficos, autoritários e com a consciência da
nossa precariedade, como Pedro tinha noção da sua:

Não ensinará nada essencialmente novo à Academia e ficará muito aquém


do que se exigiu de mim e daquilo que, mesmo com a maior boa vontade,
eu não posso dizer — ainda assim deve mostrar a linha de orientação pela
qual um ex-macaco entrou no mundo dos homens e aí se estabeleceu. Mas
sem dúvida, não poderia dizer nem a insignificância que se segue, se não
estivesse plenamente seguro de mim e se o meu lugar em todos os grandes
53

teatros de variedades do mundo civilizado não tivesse se firmado a ponto de


se tornar inabalável (KAFKA, 1999, p. 80).

Ser humano é ser único e múltiplo, ser diverso em nossa singularidade. Não existe
homem racional sem homem animal. Não compreenderemos algo multifacetado separando as
suas múltiplas faces. As ciências sociais e humanas têm primado por esse erro, conforme nos
lega Morin no seu O paradigma perdido. Nesta obra, o autor francês estabelece uma reflexão
sobre o fato de, embora o discurso mais comum tenha dissociado o homem da sua
ancestralidade animal, nós somos animais, somos demens, somos dotados de consciência, mas
isso não nos retira do reino animal. Morin já apontava o erro dessa concepção que disjunta:

No entanto, esta dualidade antitética homem/animal, cultura/natureza,


esbarra contra toda a evidência: é evidente que O homem não é
constituído por duas camadas sobrepostas, uma bionatural e outra
psicossocial, é evidente que não transpôs nenhuma muralha da China que
separasse a sua parte humana da sua parte animal; é evidente que cada
homem é uma totalidade biopsicossociológica (MORIN, s/d, p. 4-5).

Algo ainda nos relaciona aos primatas dos quais evoluímos, e é esse o norte
apresentado, sob a forma de conto por Kafka e através um estudo antropológico de Morin.
Apesar de ter invertido a relação de dominação primata/homem, O Planeta dos Macacos - de
Pierre Boulle10-, conta uma história de dominação do planeta pelos macacos. Estes
escravizam os humanos, passam a praticar a política de alianças para se manter no poder,
aplicam a privação das liberdades individuais, a discriminação para com a maneira de ser e
viver dos humanos. O texto traz uma crítica irônica à racionalidade que acreditamos nos
tornar superiores, ao apresentar primatas que praticam o mimetismo11 como forma de alcançar
a supremacia sobre a raça humana, impondo a esta as suas próprias construções sociais de
dominação, a inferiorizando à posição do animal.
A ironia da história é que apesar de acreditarem que os humanos são seres inferiores,
os macacos copiam a forma de vida em sociedade dos seus prisioneiros e é no desejo
mimético que reafirma a sua complexidade humana/animal. Pierre Boulle nos provoca à
percepção de que, ao copiar o nosso modo de viver, os macacos estão refazendo a nossa
própria jornada racional. A forma de organizar a vida em sociedade tem a base reproduzida
10
Confio este manuscrito ao espaço não com a finalidade de conseguir socorro, mas para ajudar, talvez, a banir o
pavoroso flagelo que ameaça a raça humana. Deus, tende piedade de nós...! (BOULLE, 2008, p. 10).
11
Entendemos o mimetismo como a possibilidade ou desejo de parecer com o outro, trazendo em si uma
aceitação mútua que resulta é uma perda de algo – individualidade, liberdade, et cetera – para sua realização
(GIRARD, 2009).
54

pelos humanos da forma como vivem os primatas, embora tenhamos a certeza da


exclusividade e da superioridade da vida coletiva que temos, exatamente como os macacos
“dotados de racionalidade”12.
Nossos olhos parecem cerrados pelos tempos modernos. As maravilhas tecnológicas
certamente são as amostras de que deixamos a nossa fração primata na poeira da evolução das
espécies, o darwinismo já nos ensinou isso, mas fomos além. O homem moderno construiu
algumas certezas que se fundam exatamente na superioridade racional, como se esse homem
tivesse surgido de repente e a sua existência se justificasse somente pela capacidade de
racionalizar tudo à sua volta. Constroem maravilhas modernas que servem como símbolos da
sua superioridade, sempre achando que é a racionalidade a sua saída evolutiva. Essa lógica é
combatida por De Wall (s/d, p. 233) “Celebramos a racionalidade, mas em momentos
decisivos a racionalidade sai pela janela. Qualquer pai ou mãe que tenta incutir sensatez em
um adolescente, sabe que o poder persuasivo da lógica é surpreendentemente limitado”.
Kafka percebeu isso e construiu um texto provocativo que retrata um período em que
o mundo vivia sob o império de guerras e regimes totalitários, da pureza da ciência e da
superioridade das raças. Neste ambiente o autor provoca, afirmando que não somos mais que
primatas, e os primatas estão muito próximos do que somos, do que queremos aceitar. Na
época histórica em que as teorias racionalizantes atingiram o seu apogeu, o conto de Kafka
abre uma possibilidade de reflexão que ainda hoje possui sentido e importância. Na fala de
um ex-macaco, faz uma ponderação tipicamente humana sobre a diferença que a ciência
estabeleceu entre a animalidade e a racionalidade. Para o autor, a animalidade estará sempre
presente como a verdade do símio, mesmo que às vezes precisemos renegá-la para encontrar
uma saída:

Sobrevivi a esses tempos. Surdos soluços, dolorosa caça às pulgas,


fatigado lamber de um coco, batidas de crânio na parede do caixote e
mostrar a língua quando alguém se aproximava — foram essas as
primeiras ocupações da minha nova vida. Em tudo, porém, apenas um
sentimento: nenhuma saída. Naturalmente só posso retraçar com palavras
humanas o que então era sentido à maneira de macaco e em consequência
disso, cometo distorções; mas embora não possa mais alcançar a velha

12
A racionalidade dos macacos de Pierre Boulle é exatamente a mesma que ostentamos em defesa da nossa
superioridade e para afirmar que possuímos a forma de vida social mais igualitária. Embora pratiquemos o
preconceito, o desrespeito às individualidades, lutemos pela ascensão ao poder, ainda conseguimos achar que
temos algo de nobre e superior em relação aos “irmãos inferiores”. Impressiona como o autor descreve
exatamente os mecanismos de dominação que usamos, que na história são utilizados para que os símios
dominem os humanos.
55

verdade do símio, pelo menos no sentido da minha descrição ela existe


— quanto a isso não há dúvida (Destaque inserido) (KAFKA, 1999, p. 83).

[...] na firma Hagenbeck o lugar dos macacos é de encontro à parede do


caixote — pois bem, por isso deixei de ser macaco (KAFKA, 1999, p. 84).

As obras literárias são a nossa fuga desse labirinto, nossa forma de sair do
aprisionamento científico, do dualismo racional/irracional. Se não temos a sensibilidade dos
literatos, que usemos a interpretação das suas obras para que nossos olhares se abram e a
nossa consciência alcance uma nova concepção do humano.
Assim como o Pedro Vermelho, somos ex-macacos e - embora a humanidade tenha
se desenvolvido e estabelecido formas de convivência social - também fomos nos
hominizando, até construir o conceito de humanidade com a decorrente humanização. Não
nos dissociamos daquilo que os nossos irmãos inferiores sempre fizeram para tornar possível
a vida em coletividade. Há muito tempo eles não são simples hordas fundamentadas na
violência, como bem observou Morin (MORIN, s/d, p. 32):

O estudo dos grupos de símios e de antropóides em liberdade renovou a


visão da respectiva vida social e até simplesmente da sua vida (Carpenter,
De Vore, Washburn, Itani, Chance, Kawamura, Tsumori, etc.). O grupo dos
babuínos, dos macacos resos, dos chimpanzés, já não é a horda submetida à
tirania desenfreada do macho polígamo, mas sim uma organização social
com diferenciação interna, intercomunicações, regras, normas, proibições.

Tais condutas são formas de respeito às individualidades, inserindo-as em uma


possibilidade de vida em coletividade. Desta forma, ambas - coletividade e individualidade -
se justapõem, se influenciam e resultam na evolução da espécie:

Sociedade e individualidade não são duas realidades separadas que se


ajustam uma à outra, mas existe um ambissistema em que, complementar e
contraditoriamente, indivíduo e sociedade são constituintes um do outro, ao
mesmo tempo em que se parasitam entre si (MORIN, s/d, p. 38).

Apesar de todos os avanços sociais que o homem foi capaz de conceber, ousamos
dizer como o poeta Affonso Romano de Sant´ana que “nada mudou em essência”
(SANTANA, 2008, p. 1) entre as eras primitivas e os ditos tempos modernos, no que pertine à
porção animal que nos é intrínseca.
Rousseau em seu Discurso Sobre a Origem da Desigualdade nos Homens já
afirmava um axioma de organização social que apresenta uma característica do homo sapiens,
56

onde o autor entende ser a vantagem dos homens sobre outras espécies animais: “[...]Vejo um
animal menos forte do que uns, menos ágil do que outros, mas, afinal de contas, organizado
mais vantajosamente do que todos” (ROUSSEAU, 2013, p. 73).
O fato de ter uma característica que pode se sobressair frente aos outros animais não
significa que apenas nós organizamos a vida em coletividade, porém não nos distancia da
nossa animalidade. Já se sabe que os símios tem algum grau de organização social e esta é
bem mais complexa do que aquelas experimentadas pelos demais animais. O
desenvolvimento de novas discliplinas - como a Ecologia - fez entender que o homem está
contido na natureza, assim como ela está presente no homem:

A natureza não é desordem, passividade, meio amorfo: é uma totalidade


complexa. O homem não é uma entidade isolada em relação a essa totalidade
complexa: é um sistema aberto, com relação de autonomia/dependência
organizadora no seio de um ecossistema (MORIN, s/d, p. 11).

A Etologia que foi estudar os comportamentos animais no seu meio natural - e não
dentro de laboratórios, com condições controladas -, podendo percebê-los na sua
complexidade. O animal na Etologia não é um experimento, pois ela modifica a própria ideia
de animal ao mostrar que eles interagem entre si, possuem códigos comunicacionais que vão
desde a sonirização ao gestual, do comportamental ao institivo. O animal possui uma
complexidade interacional que não é prioridade do homo sapiens. Essas relações são tão
diversas e diversificadas que a sociabilidade animal tem práticas que:

[...] já abrangem um campo semiológico complexo e, ultrapassando muito a


relação sexual, dizem respeito a uma grande variedade de relações
interindividuais: submissão, intimidação, acolhimento, rejeição, eleição,
amizade. Além disso, também dizem respeito a fenômenos organizacionais
básicos, como a regulação demográfica, o arranjo e a proteção do território
(MORIN, s/d, p. 12).

Muitos ainda dizem que somos os únicos animais capazes de amar. A própria
afirmação traz em si uma presunção que a torna incapaz para constituir um critério que nos
afaste dos primatas. Em visão contrária a esta, outros dizem que somos os únicos que
matamos sem um objetivo ligado à sobrevivência da espécie, enxergando nas guerras apenas a
luta pelo acúmulo do capital.
O termo amar - como definição de sentimento - também é uma criação humana, por
isso não temos como estabelecer critérios comparativos, utilizando algo que nenhuma outra
57

espécie ousou nominar. Embora o vernáculo seja humano, não podemos confundir os
conceitos e ter a pretensão de acreditar que os sentimentos possam ser exclusividade da nossa
espécie. A ciência já tem demonstrado que os animais sentem - em sentido amplo - e não
podemos dizer que não consigam amar, porque nós mesmos não sabemos - na maior parte do
tempo - o que isso realmente significa.
Há uma outra concepção, segundo a qual o homem se diferenciaria dos demais
animais porque saberia viver politicamente. Considerando o fato de viver politicamente não
como uma necessidade para sobreviver em coletividade, e sim, como um meio de viver com
felicidade (WOLFF, 2009, p. 40), esta seria uma diferença entre o homem e os outros
animais. Mas será que podemos dizer que os animais não são felizes? Sob qual argumento,
exceto o da apropriação do significado da palavra - conduta tipicamente humana -, podemos
conceituar a felicidade como algo inatingível àqueles que não racionalizam o significado do
termo?
Pensando de forma complexa, a nossa animalidade não foi suprimida pela
racionalidade. Somos animais e precisamos dessa porção para sermos mais humanos, vez que
a condição humana só é possível se reconhecemos a nossa estreita ligação com a genética
natural. Estamos em constante confronto com a nossa porção animal:

[...] é certo que às vezes ele segurava o cachimbo aceso junto à minha pele
até começar a pegar fogo em algum ponto que eu não alcançava, mas ele
mesmo o apagava depois com a sua mão boa e gigantesca; não estava bravo
comigo, percebia que lutávamos do mesmo lado contra a natureza do
macaco e que a parte mais pesada ficava comigo (KAFKA, 1999, p. 92).

Ainda somos primatas, diversos em nossa unidades e ligados por nossa diversidade
animal/racional. Necessitamos dessa relativa diferença, mas devemos lançar um olhar sobre o
que nos aproxima, somos fortalecidos por essa relação porque somos naturalmente
imperfeitos. A imperfeição é uma necessidade à manutenção da espécie. Para evoluir
socialmente, precisamos reconhecer a importância do que é imperfeito, como nos ensina Boris
Cyrulnik (1997, p. 191-192):

A imperfeição torna-se fonte de evolução biológica e de representação


mental. [...] Um organismo imperfeito que percebe um sinal não absoluto
inventa novas estratégias de sobrevivência [...] o sofrimento e o medo
oferecem-lhe a sobrevivência.
58

Na na sua forma de viver em sociedade, os primatas construíram ferramentas


interessantes - tal como a divisão dos grupos por características -, possibilitando que as
individualidades fossem contempladas, ajudando na manutenção e evolução da vida coletiva.
No reino animal, algumas imperfeições são entendidas e absorvidas. Para Morin, o ser
humano não deve achar que é o centro de tudo o que acontece, pois surgimos marginalmente,
sendo parte de um todo natural:

O ser humano apareceu marginalmente no mundo animal e seu


desenvolvimento marginalizou-o ainda mais. Somos os únicos, na Terra,
entre os seres vivos, a dispor de um aparelho cerebral hipercomplexo, os
únicos a dispor de uma linguagem de articulação dupla para a comunicação
entre os indivíduos, os únicos a dispor de consciência (MORIN, 2012, p. 49-
50).

Ainda em Edgar Morin, o homem passeia pela tríade comum a outros seres vivos,
possuindo o mesmo enraizamento cósmico que os demais animais, estando ligado à natureza e
animalidade. Afirma que “pela morte, participamos da tragédia cósmica, pelo nascimento,
participamos da aventura biológica; pela existência, participamos do destino humano”
(MORIN. 2012, p. 48).
O que Pedro Vermelho ensina é que ele – primata -, observando a forma de viver em
sociedade, consegue reproduzir tais condutas com meio de ter inserida a sua individualidade
na vivência coletiva dos humanos, assim como percebe que muitas condutas humanas são
típicas reproduções do que já existe na vida selvagem.
A metáfora do trapézio nos lembra de que até atividades que pensamos exigir certo
grau de perícia, são feitas – até com vantagem! - por primatas, dito inferiores. Ou seja, o
agora ex-macaco deixa clara uma relação que há muito tempo nós temos esquecido. Toda a
nossa evolução tem como nascedouro a capacidade que os nossos irmãos inferiores tiveram
de adaptar a vida, de modo a respeitar as individualidades, entendendo que estas são
imprescindíveis para que nossa espécie continue sua saga neste planeta. Saga esta, marcada
pela imperfeição, pelas crises, pela harmonia, pela divergência e por todos os caracteres que a
dualidade animal/racional consegue produzir.
Aqui provocamos a reflexão sobre obras que interligaram homem e primata, O
planeta dos macacos, Um relatório para uma academia e O paradigma perdido. São três
exemplos, entre os muitos, nos quais literatos antecipam e se unem à ciência para nos lembrar
da nossa porção cósmica, do nosso pertencimento natural, da nossa necessária animalidade.
59

Se Kafka concebeu um primata capaz de viver em sociedade e se apropriar de


práticas dos seres humanos, é porque o autor de Um relatório para uma academia percebeu
que os nossos irmãos inferiores estão muito próximos de nós. Pedro Vermelho já nos legou de
forma provocativa um lembrete à ciência:

Falando francamente - por mais que eu goste de escolher imagens para estas
coisas - falando francamente, sua origem de macaco, meus senhores, até
onde tenham atrás de si algo dessa natureza, não pode estar tão distante dos
senhores como a minha está distante de mim. Mas ela faz cócegas no
calcanhar de qualquer um que caminhe sobre a terra - do pequeno chimpanzé
ao grande Aquiles (KAFKA, 1999, p. 48-49).
[...]
No mais, não quero nenhum julgamento dos homens, quero apenas difundir
conhecimentos; faço tão-somente um relatório; também aos senhores,
eminentes membros da Academia, só apresentei um relatório (KAFKA,
1999, p. 97).

Não à toa, Frans De Wall (s/d) começa o primeiro capítulo do seu livro - Eu,
primata - com uma frase que poderia substituir o trecho “falando francamente, sua origem de
macaco, meus senhores, até onde tenham atrás de si algo dessa natureza, não pode estar tão
distante dos senhores como a minha está distante de mim” (KAFKA, 1999, p. 48), tendo o
mesmo sentido do trecho, quando De Wall diz: “podemos tirar o primata da selva, mas não a
selva do primata. Isso também se aplica a nós, primatas bípedes” (DE WALL, s/d, p. 11).
Os saberes estão presentes, tanto em um livro de cunho acadêmico como o escrito
por De Wall, quanto nas ficções literárias como as que Kafka e tantos outros literatos nos
legaram. Portanto, difundir conhecimento passa, também, por valorizar o que a ciência mais
tradicional acredita não ser científico: um poema; um relato; uma ficção em texto; uma
imagem fotográfica; uma pintura; um cordel. O valor disso é nos lembrar que somos humanos
e como humanos devemos aceitar a diferença. Rotular ou separar, disjuntar é como marcar, e
essa é uma prática comum no nosso processo civilizacional. A ficção literária cuidou das
marcas e as inseriu como imagens que podem simbolizar algo mais. Esse é um dos encantos
da literatura e que será o ponto de partida para discutirmos essa temática, em seguida.
60

2 As marcas

2.1 As marcas de Pedro Vermelho

Algumas imagens decorrentes de experiências literárias nos fazem estabelecer


uma linha interpretativa, a qual busca associar as imagens às reflexões e fazer a dialogia dos
conhecimentos, à procura de uma compreensão nossa sobre o texto. Considerando que Kafka
é um escritor conhecido por sua criatividade, pensamos na linha de Umberto Eco (2013, p.11)
que “os escritores criativos pedem a seus leitores que arrisquem uma solução; não oferecem
uma fórmula definida”.
Nesta linha, proporemos uma interpretação para a metáfora das marcas que Kafka
inseriu no conto Um relatório para uma academia, salientando que tentamos encontrar uma
solução à nossa angústia interpretativa e não para o próprio texto. Pensamos que, ao tentar
pensar sobre o significado e as razões das marcas descritas pelo autor, estamos almejando
uma interpretação nossa, parcial e incompleta.
Alicerçados nos princípios do pensamento complexo, discutiremos as marcas como
uma espécie da retirada do macaco do meio comum aos símios – uma sacralização dele pelos
humanos - e, também, como um ritual de passagem à aceitação deste pela sociedade. Lendo o
conto Um relatório para uma academia de Franz Kafka (1999), conhecemos a história de um
macaco capturado na floresta que, após ser preso em uma jaula, começa a enxergar na sua
hominização uma saída da clausura em que se encontrava. Após ser aceito entre os humanos,
o – agora - ex-macaco é convidado a apresentar uma narrativa da sua jornada de hominização
a uma seleta Academia. No relato das suas agruras, Pedro Vermelho - esse é o nome do
narrador - tenta explicar a razão do nome que lhe foi colocado pelos humanos e informa que,
devido a dois tiros que haveria tomado quando da sua captura, carrega duas cicatrizes, uma no
rosto e a outra nas nádegas:

Atiraram; fui o único atingido; levei dois tiros. Um na maçã do rosto: esse
foi leve, mas deixou uma cicatriz vermelha de pêlos raspados, que me valeu
o apelido repelente de Pedro Vermelho (KAFKA, 1999, p. 80).
[...]
O segundo tiro me acertou embaixo da anca. Foi grave e a ele se deve o fato
de ainda hoje eu mancar um pouco (KAFKA, 1999, p. 80).
61

Não foi por acaso que Kafka descreveu as marcas em duas partes diametralmente
opostas do corpo do primata, assim como do homem, o rosto e as nádegas. Com essas
imagens em forma de cicatriz, o autor nos legou possibilidades de interpretação.

2.2 A primeira marca: o nome

O personagem afirma que possui duas cicatrizes, duas marcas, dois estigmas. A
primeira marca está localizada na maçã do rosto, decorrente do tiro que lhe rasgou parte da
face e lhe deixou como resultado um local sem pelos, com uma cicatriz vermelha bastante
exposta. Teria sido essa marca a responsável pelo seu batismo como Pedro Vermelho, junção
do nome de um macaco de circo - morto há pouco tempo - chamado Pedro, com a cor da sua
marca facial.
Importa notar que Kafka usa de um jogo interessante ao se utilizar das marcas como
um símbolo para traçar um paralelo entre a hominização sofrida pelo seu personagem, e
talvez como metáfora da nossa humanização. A primeira marca que o símio recebe é aquela
que corresponde ao seu nome dado pelos humanos, é como se fosse uma condição para a
aceitação dele na sociedade organizada, o seu nascimento para a humanidade coincide com a
definição do nome, é um elemento cultural. “A cultura inscreve no indivíduo o seu
imprinting, registro matricial quase sempre sem volta, que marca desde a primeira infância o
modo individual de conhecer e comportar-se [...]” (MORIN, 2012, p. 272). O nome é um
requisito e, ao mesmo tempo, uma concessão de possibilidade de hominização. E isto está
marcado no rosto do personagem.
Não tratamos aqui do nome no sentido de palavra, empregado pelos gregos e
pensado por Platão - em seu Crátilo ou Sobre a Correção dos Nomes (2014) - como uma
reflexão sobre a língua e a linguagem, muito embora o eixo da discussão filosófica possa ser o
ponto de partida do que aqui escreveremos, vislumbrando o diálogo abaixo que inicia a obra:

Personagens: Hermógenes (H), Crátilo (C) e Sócrates (S).


H. Você quer compartilhar a nossa fala com o Sócrates aqui?
C. Se for essa a sua opinião…
H. Sócrates, o Crátilo diz existir uma correção dos nomes inerente à natureza
de cada um dos seres. Um nome não seria isto que alguns, pronunciando
partes de seu idioma, convencionaram usar para chamar. Haveria sim uma
correção inerente aos nomes, a mesma para todos, gregos ou
estrangeiros. Diante disso, eu lhe pergunto se “Crátilo” é mesmo o seu nome
verdadeiro. Ele confirma. “E qual seria o de Sócrates?”, eu digo. “Sócrates”,
62

segundo ele. “Logo, para todos os outros seres humanos, o nome com o qual
chamamos cada um é o nome de cada um deles?” Aí ele me vem com essa:
“O nome ‘Hermógenes’ não é o seu, nem se todos os seres humanos lhe
chamam com ele”. Mas quando eu, apetecido por alguma especificação,
pergunto-lhe o porquê da sua fala, ele nada me esclarece. E mais, ainda me
ironiza, sugerindo ter no intelecto uma especificação através da qual, caso
quisesse me declarar claramente, faria-me confirmar e falar o mesmo que ele
fala. Por isso, se você tiver como completar a lição de Crátilo, eu o ouviria
com prazer. Ainda mais prazeroso seria pesquisar consigo a sua própria
opinião acerca da correção dos nomes, se assim você quiser (PLATÃO,
2014, p. 41-42).

Refletindo de forma inicial sobre a correção ou justeza dos nomes podemos dizer que
o macaco Pedro não nasceu com qualquer nome que o definisse ou delimitasse a sua
existência, era naturalmente livre na sua animalidade. Assim também acontece com os seres
humanos, nascemos naturalmente e se desejássemos viver na natureza, exercendo somente a
nossa porção animal, não precisaríamos de um nome.
O nome nos reduz, nos aliena de nós mesmos, como dizia Clarice Lispector em Um
sopro de vida, quando a autora, falando por intermédio do personagem narrador, esclarece
que o texto é sobre ela e a sua vida, “esse livro é sombra de mim” (LISPECTOR, s/d, p. 10).
Por fim, mostra como o nome é um instante, uma estigmatização, que tira do ser a capacidade
de se definir, alienando-o: “Eu tenho tanto medo de ser eu [...] Me deram um nome e me
alienaram de mim” (LISPECTOR, s/d, p. 17).
A vida na sociedade exigiu do símio que ele fosse marcado por um nome, fator de
determinação da sua existência no mundo humano e também renúncia à animalidade total,
alienando-o de si mesmo. Por isso, Kafka usa da metáfora da marca na face, para lembrar a
escolha de viver na civilização e que tal escolha importa uma determinação do ser, que deve
estar visível a todos como uma prova de adequação. Ao passo que define a personalidade, o
nome controla os instintos, fazendo do símio um animal em processo de hominização, cujos
desejos primitivos do ser à vida são reprimidos.
Do mesmo modo nós, por escolha dos nossos pais e, posteriormente, por nossa
aceitação, precisamos ser definidos por um nome, por esse nome ou patronímico, somos
marcados para o resto da vida. O nome que nos é imputado ao nascer é um imprinting e
funciona com uma comprovação de que iremos viver em sociedade, portanto, aceitamos ser
definidos e determinados como civilizados.
63

O nome tem uma importância tão grande que o legislador, ao elaborar o Código Civil
vigente – Lei nº 10.460/2002 –, reservou 0413 artigos para a regulação do nome, definindo-o
em seu Capítulo Segundo como um Direito de Personalidade, portanto, como inalienáveis e
irrenunciáveis:

Art. 11. Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos da


personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu
exercício sofrer limitação voluntária.

A Lei nº 6.015/1973, a Lei dos Registros Públicos, obriga o registro em cartório de


todas as pessoas nascidas no território nacional14 e ainda impõe a obrigatoriedade da definição
do nome civil15, que compreende o prenome (o chamado prenome) e o nome (conhecido
como sobrenome ou patronímico), sendo este último o que determina a sua hereditariedade e
a família à qual estará vinculado, para ser reconhecido como membro da sociedade.
Há uma profunda similitude entre a marca da cicatriz - que está ligada diretamente ao
nome que batizou e definiu o protagonista de Um relatório para uma academia - e o nome
como imprinting ,que nos determina e define como seres que vivem em sociedade. A cicatriz
do ex-macaco e o nome que recebemos são marcas da nossa humanidade, assim como são
reafirmações de que renunciamos a liberdade individual e a animalidade, com o intuito de
receber a aceitação social e viver em coletividade.
Esse imprinting também pode ser traços de memórias ou símbolo de algo
constitutivo do que somos e que permanece oculto por um processo de evolução, como a que
passamos na trajetória ao surgimento do homo sapiens/demens.

13
São eles os artigos 16, 17, 18, 19 do Código Civil, abaixo:
Art. 16. Toda pessoa tem direito ao nome, nele compreendidos o prenome e o sobrenome.
Art. 17. O nome da pessoa não pode ser empregado por outrem em publicações ou representações que a
exponham ao desprezo público, ainda quando não haja intenção difamatória.
Art. 18. Sem autorização, não se pode usar o nome alheio em propaganda comercial.
Art. 19. O pseudônimo adotado para atividades lícitas goza da proteção que se dá ao nome.
14
Art. 51. Todo nascimento que ocorrer no território nacional deverá ser dado a registro no cartório do lugar em
que tiver ocorrido o parto, dentro de quinze (15) dias, ampliando-se até três (3) meses para os lugares distantes
mais de trinta (30) quilômetros da sede do cartório.
15
Art. 55. O assento do nascimento deverá conter:
4º o nome e o prenome, que forem postos à criança;
64

2.3 A segunda marca: a porção animal

Como esse animal conquistou a dominância sobre


todos os demais, é ainda mais importante que ele se
olhe com honestidade no espelho para conhecer
tanto seu arqui-inimigo como seu aliado, pronto
para ajudar a construir um mundo melhor (DE
WALL, s/d, p. 291).

Mas Kafka parecia não acreditar em um ser humano sem qualquer traço de
animalidade, completamente racional. Em razão disso, criou a história centrada em um
primata - que faz um relato para uma importante Academia - para que pudesse entender o
processo de hominização enfrentado pelos humanos, há milhares de anos. O animal com
características humanas é uma constante na obra do autor, o ex-macaco, o chacal falante, o
cavalo advogado. Eles são marcas de uma “transitoriedade homem-animal, animal-homem”
(MACHADO, 2014, p. 1), presente na obra do autor e que pode ser encontrada na obra de
Clarice Lispector, conforme Fonseca e Enéas (2015, p. 93): “Nas narrativas clariceanas, os
bichos não são humanizados” ao passo que em Kafka, muitas vezes, os animais são
hominizados – Um relatório para uma academia, O novo advogado, Chacais e Árabes
(2001b) – ou os homens se transmutam em bichos e insetos – A metamorfose. Na obra de
Kafka parece ressaltar um “devir-animal” (DELEUZE; GUATTARI, 2014, p. 26) e esses animais
kafkianos:

[...] não remetem jamais a uma mitologia, nem a arquétipos, mas


correspondem somente a gradientes ultrapassados, a zonas de intensidades
liberadas em que os conteúdos se fraqueiam de suas formas, não menos que
as expressões dos significantes que as formaliza (DELEUZE; GUATTARI,
2014, p. 27).

Nesta narrativa, por exemplo, a todo o momento, ele forma imagens e utiliza
metáforas que relembram a animalidade, aposta nas formas e não se preocupa em amarrar o
seu significante. Nas falas de Pedro Vermelho - quando ele informa que nossa animalidade
está nos nossos calcanhares ou quando usa de outra metáfora interessante presente no seu
texto -, as formas sobressaem para dar voz ao narrador e abrir ao intérprete a possibilidade de
múltiplos olhares.
O ex-símio começa a dizer que mostrar as suas marcas lhe soa aprazível:
65

Li recentemente, num artigo de algum dos dez mil cabeças-de-vento que se


manifestam sobre mim nos jornais, que minha natureza de símio ainda não
está totalmente reprimida; a prova disso é que, quando chegam visitas, eu
tenho predileção em despir as calças para mostrar o lugar onde aquele tiro
entrou (KAFKA, 1999, p. 80-81).

Eu — eu posso despir as calças a quem me apraz; não se encontrará lá nada


senão uma pelúcia bem tratada e a cicatriz de um — escolhamos aqui, para
um objetivo definido, uma palavra definida, mas que não deve ser mal
entendida — a cicatriz de um tiro delinquente (KAFKA, 1999, p. 81).

Esse trecho é interessante: após informar que possui uma marca no rosto - que,
vermelha e aparente, fica à mostra e foi inclusive o motivo do nome que recebeu o nosso
narrador -, afirma que sempre que chega uma visita, ele tira as calças e tem prazer de mostrar
outra cicatriz vermelha que possui nas ancas, isso para alguns seria prova de que sua
animalidade não foi reprimida.
O símio não possui a vergonha do seu corpo, nem a moral sobre o que pode ou não
ser exposto. Esta compreensão do certo e errado é um traço que a civilização e a moral
construíram como uma condição de humanidade à vida em coletividade.
Aí está Kafka deixando mais uma imagem a desafiar metáforas e interpretações: se o
macaco já possuía em sua face uma cicatriz - que definiu o seu nome -, por que ele ao receber
uma visita a cumprimentava descendo as calças e mostrando a cicatriz que estava nas suas
ancas, oculta ao primeiro olhar do visitante?
O conto parece demonstrar que o processo de humanização e a racionalidade jamais
conseguiram extrair de nós a nossa porção animal, nem poderiam, porque ela é a nossa
essência primitiva e a base sobre a qual evoluímos como seres. Como Pedro Vermelho,
podemos dizer que a “natureza de símio ainda não está totalmente reprimida”. O relatório de
Kafka é a ficção nos lembrando do que somos, usando as palavras de um macaco.
Kafka nos lembra, mais uma vez, que nossa porção animal não desapareceu por
completo, ela está presente na complexidade da condição humana e desconsiderá-la é um erro
propenso a ser cometido. A marca da animalidade do macaco humanizado fica nas suas ancas,
portanto, ele não pode vê-la diretamente com os olhos, oculta sob as roupas não fica visível e
se oculta durante a maior parte do tempo. Na sua ausência, a marca que definiu o seu nome
humano no rosto é a que todos veem.
A marca (imprinting) é o símbolo das nossas vivências humanas, sociais e
educacionais. A aprendizagem também nos marca para sempre, não se sai - de um processo
de construção de conhecimento - a mesma pessoa do início dessa viagem. Assim ocorre nesta
66

jornada, na qual me lancei desprendido de conceitos e buscando a mim e em mim aquilo que
não entendia no Direito.
O processo educativo, em decorrência da sua própria complexidade e feito por seres
humanos e para eles, é composto pelo falar, sentir, marcar e relacionar. Tais sensações
humanizam o valor do aprender, através de vínculos que vão sendo criados no instante em que
se marca o corpo (DOWBOR, 2008). A já citada autora dizia sobre o seu pai: “Paulo Freire
costumava dizer que o que nos torna seres programados para aprender é uma característica
fundamental do ser humano: o fato de sermos inacabados” (DOWBOR, 2008, p. 59) e o
esforço de educar “através do outro e para o outro” deixa marcas nas pessoas que ensinam e
nas que aprendem. Assim também ocorreu ao ex-símio, marcado por sua aprendizagem no
caminho da hominização, deixando marcas nos responsáveis pelo seu treinamento:

A natureza do macaco escapou de mim frenética, dando cambalhotas, de tal


modo que com isso meu primeiro professor quase se tornou ele próprio um
símio, teve de renunciar às aulas e precisou ser internado num sanatório.
Felizmente saiu logo de lá.
Mas eu consumi muitos professores, alguns até ao mesmo tempo. Quando já
havia me tornado mais seguro das minhas aptidões e o público acompanhava
meus progressos, começou a luzir o meu futuro: contratei pessoalmente os
professores, mandei-os sentar em cinco aposentos enfileirados e aprendi com
todos eles, simultaneamente, à medida que saltava de modo ininterrupto de
um aposento a outro (KAFKA, 1999, p. 95).

No mesmo conto, logo que chega uma visita, Pedro Vermelho tem “predileção em
despir as calças para mostrar o lugar onde aquele tiro entrou”, e esta marca fica parcialmente
oculta. Podemos apontar três motivos para isto: o primeiro é que ele só pode enxergar essa
sua porção oculta por intermédio do olhar do outro, nunca diretamente. É o olhar dos outros
que nos revela e mostra o que procuramos deixar nas sombras, pois muitas vezes não
queremos ver, damos as costas para não voltar a ver ou lembrar.
O segundo motivo é que a cicatriz, por ser uma lembrança da época na qual o
macaco vivia a sua animalidade plena - com a liberdade que desfrutava na floresta -, é a
marca da nossa porção natural (animal). Ela lembra aos que a veem a sua própria parte
primata, o traço que nos remete ao nosso ancestral comum no reino animal. A cicatriz é uma
imagem metafórica, a qual lembra aos homens que todos têm como parte constitutiva do
humano a animalidade oculta.
O terceiro motivo está relacionado à ausência de vergonha do corpo advinda do
símio. Sobre a ausência da própria nudez no animal, Derrida assevera que:
67

“O animal, portanto, não está nu porque ele é nu. Ele não tem sentimento de
sua nudez. Não há nudez ‘na natureza’. Existe apenas o sentimento, o afeto,
a experiência (consciente ou inconsciente) de existir na nudez. Por ele ser
nu, sem existir na nudez, o animal não se sente nem se vê nu. Assim ele não
está nu (DERRIDA apud MACHADO, 2014, p. 3-4).

Por não estar nu - no seu total desconhecimento sobre a nudez -, o macaco não possui
vergonha e isso ocorre mesmo depois do processo de hominização que durou “quase cinco
anos” (KAFKA, 1999, p. 77). Isso demonstra que Pedro Vermelho não se humanizou e
evoluiu pelo mimetismo, sendo que em razão da necessidade de sobreviver fora da sua prisão
primeva, manteve-se como ex-macaco, relegando parte da sua animalidade e abraçando
parcialmente as características humanas. Como Derrida esclareceu, após a queda do Jardim do
Éden o homem não seria nunca mais nu, porque ele tem o sentido da nudez, ou seja, o pudor
ou a vergonha (DERRIDA apud MACHADO, 2014, p. 14). Deste modo, o personagem
compara a sua condição à daquele que escreve criticamente sobre o seu hábito de expor as
nádegas, dizendo à academia:

Se, ao contrário, aquele escrevinhador despisse as calças diante da visita que


chega, isso sem dúvida teria um outro aspecto e quero considerar como sinal
de juízo se ele não o fizer. Mas então que me deixe em paz com os seus
sentimentos delicados! (KAFKA, 1999, p. 81).

Não queremos impor uma interpretação, essa é a nossa e dela não fazemos
homenagem e nem pensamos em exclusividade. Apresentamos uma ponderação para desafiar
o leitor a pensar, para que ele use da dialogia dos saberes para interpretar o que o texto
literário nos apresenta, sabendo que a literatura tem a indefinição como uma das suas
características. Ao leitor fica o desafio de compreender o texto com o seu olhar, um olhar que
reúna os saberes e que compreenda as imagens literárias por meio do pensamento complexo.

2.4 O Direito Penal como instrumento de estigmatização: a marca no Direito

Lembro quando comecei a crescer como pessoa, digo comecei porque não terminei a
minha jornada e sei que o fim biológico chegará sem que eu tenha atingido a chamada
maturidade da vida adulta. Pois bem, na infância e até a alguns anos atrás, acreditava que as
marcas da vida eram sempre físicas. Meus pais me falavam das marcas da sua luta e do seu
68

sofrimento e eu logo enxergava os cabelos brancos, as rugas, o olhar triste. Para mim, tudo o
que existia era o que eu via.
Nessa minha jornada, por experiência própria, senti e percebi que muitas marcas, as
mais fortes delas, não ficam expostas ao olhar. Não são físicas ou aparentes. Aquilo que está
oculto em nós é a nossa essência e dela fazemos segredo, procuramos manter as marcas no
mais profundo de nós para que ninguém as veja, e nós mesmos evitamos enxergá-las. Como a
marca nas ancas de Pedro Vermelho, algumas cicatrizes estão ocultas no ser.
O Direito Penal é o conjunto de normas que regem as condutas tidas como proibidas
e reprováveis, em razão de sua capacidade de ofensa ao interesse social coletivo de
pacificação. São as determinações produzidas pelo legislador e geridas pelo Estado - para que
a vida em coletividade tenha um regramento - que devem tentar harmonizar as relações:

Quando as infrações aos direitos e interesses do indivíduo assumem


determinadas proporções, e os demais meios de controle social mostram-se
insuficientes ou ineficazes para harmonizar o convívio social, surge
o Direito Penal com sua natureza peculiar de meio de controle social
formalizado, procurando resolver conflitos e suturando eventuais rupturas
produzidas pela desinteligência dos homens (BITENCOURT, 2012, p. 49).

Pensando em como o Direito Penal foi construído na história brasileira e como


funciona o sistema criminal no Brasil – com carências e dificuldades enfrentadas pelo
apenado -, notaremos que todo esse emaranhado estatal tem o potencial para marcar as
pessoas. Os apenados ou condenados levarão consigo uma marca que jamais será apagada,
porquanto o sistema não é feito para ressocializar, muito disso porque a nossa sociedade não
está pronta para perdoar.
O delito não ocorre somente em algumas sociedades, mas sim, em todas elas. Como
um fenômeno social ele está ligado à sociedade. Para Durkheim, “o delito não só é um
fenômeno social normal, como também cumpre outra função importante, qual seja, a de
manter aberto o canal de transformações de que a sociedade precisa” (BITENCOURT, 2012,
p. 46).
Hodiernamente, o Direito Penal e a execução das penas têm muitas funções, entre
elas: determinar quais condutas são reprováveis na vida em sociedade; reafirmar a força do
Estado - que usa o Direito como um instrumento - para a efetivação da pacificação social;
passar uma sensação de segurança à sociedade, a qual acredita que afastando o condenado do
convívio social, estar-se-á reduzindo o risco de viver coletivamente; e marcar o condenado
69

como alguém que não é totalmente confiável ou que não pode ser considerado um ser humano
igual aos que jamais delinquiram. A sociedade não está preparada para perdoar.
Quando o Direito Penal se debruça para regular as condutas reprováveis, o faz por
meio da atuação dos legisladores que estabelecem o que não devemos fazer através das
normas, estas elaboradas em códigos de conduta.
O Estado foi criado para prevenir os delitos e repreender aqueles que o cometem. Ao
usar o seu poder de polícia ou as ferramentas coercitivas permitidas pela própria lei, reafirma
o seu papel de pacificar as relações humanas, visando a harmonização da sociedade como
instrumento eficaz de ordenação social, na concepção de Rousseau (SANTOS, 2002, p. 131).
Uma vez estabelecidos os mecanismos de força à repressão ao crime e após a
instrumentalização da pena - que pode ser aplicada sob a forma pecuniária, restritiva de
direitos e restritiva da liberdade -, a sociedade entende cumprido o papel do sistema penal,
formado pelo Direito e pelas instituições ligadas ao gerenciamento dessas penas. No caso
especial do aprisionamento dos que descumprem a letra da lei criminal – através do
recolhimento dos condenados às cadeias e presídios, privando-os da sua liberdade -, aparecem
dois efeitos imediatos: a sensação de segurança e tranquilidade, assim como o afastamento do
preso da convivência social.
Na verdade, a sociedade atua muitas vezes de forma a pressionar o Poder Público a
construir estabelecimentos prisionais distantes dos aglomerados sociais, crendo que os presos
são delinquentes contumazes e mantê-los distantes das pessoas que são consideradas “de
bem”, é a melhor forma de garantir a tranquilidade social. O Direito Penal tutela bens
jurídicos que não interessam ao indivíduo, mas sim à sociedade, e se esta deseja o degredo
social do apenado, é isso que persecutio criminis acaba por realizar.
O condenado, mesmo após cumprir anos de pena, ficará marcado perpetuamente
como alguém que infringiu as normas exigidas para viver no meio social, transformando-se a
penalidade cumprida em uma cicatriz invisível e eterna. O ex-apenado penalizado pela
sociedade, será objeto de olhares desconfiados e discriminantes, tolhido na sua opção de vida
pelo preconceito e considerado como pessoa predisposta a reincidir na prática delituosa.
Embora esse não seja um resultado determinado legalmente ou esperado pela
regulação da pena, a aplicação penal acaba por atender a uma ânsia de justiçamento que
cresce na sociedade, na medida em que se intensifica a incapacidade preventiva do Estado ou
70

as afrontas aos bens jurídicos caros à sociedade. Portanto, o Direito Penal subjetivo16 acaba
por marcar para sempre uma pessoa apenada, relativizando a sua humanidade e a tratando
como um ser humano incapaz de viver em coletividade.
Essa marca é tão forte que são raros os ex-condenados que são tratados como
deveriam ser, ou seja, considerados como seres humanos que erraram e cumpriram a sua
pena, estando assim aptos a retornar ao seio social. Muitas vezes é como se alguém que
pratica um delito fosse portador de um defeito, um pré-disposição do ser a desrespeitar
condutas exigidas e, por isso, deveria ser condenada a não mais viver no meio social.
Esse é um erro que temos cometido, porque marcamos os seres humanos para tirá-los
da possibilidade de vida em comum, e a praticamos a marcação de alguém para,
estigmatizando-o, diferenciá-lo das outras pessoas:

Enquanto a pena possui o caráter de reinserir o criminoso na comunidade


através do castigo e da aplicação da lei, a marca tem o objetivo de reafirmar
a exclusão escolhida por ele no momento em que violou a lei (SILVA, 2013,
p. 179).

Por isso apenamos as pessoas em clausuras desumanizantes e desejamos que os


estabelecimentos prisionais fiquem o mais distante possível do que consideramos ser
civilização. Essa marca é como a que foi suportada pelo Pedro Vermelho, para sempre levará
consigo as marcas da prisão na qual foi lançado pelos homens, para lembrar que ele não é
humano, pois como diz o próprio Kafka (1999), ele é um ex-macaco. Esse exemplo não é
encontrado apenas no ex-macaco de Kafka, a Bíblia Sagrada também nos lega o exemplo de
Caim que matou o irmão e levou para sempre a mancha desse pecado, conforme Silva (2013,
p. 179):

Caim é marcado por Deus para que os homens não o matem. Sua marca o
torna imortal, sua imortalidade o torna inumano não cabendo mais no mundo
dos homens, Jesus é forçado a carregar a coroa de espinhos sobre a fronte.

O Direito Penal e a sua consecução, por meio do cumprimento da pena privativa de


liberdade, deveriam ser o último ônus suportado por alguém que praticou um ato em descordo

16
O Direito Penal subjetivo emerge do bojo do próprio Direito Penal objetivo, constituindo-se no direito a
castigar ou ius puniendi, cuja titularidade exclusiva pertence ao Estado, soberanamente, como manifestação do
seu poder de império. O Direito Penal subjetivo, isto é, o direito de punir, é limitado pelo próprio Direito Penal
objetivo, que, através das normas penais positivadas, estabelece os lindes da atuação estatal na prevenção e
persecução de delitos (BITENCOURT, 2012, p. 59).
71

com a lei, quitando o chamado débito que, supostamente, teria para com a sociedade. Na
prática, o sistema penitenciário não serve para recuperar - marcando o preso pelo isolamento e
estigmatizando-o com as péssimas condições estruturais e assistenciais -, mas atua como um
dispositivo que marca, infere cicatrizes nos presidiários. As cadeias e presídios são como
ferros em brasa que marcam para sempre o condenado e o afastam do conceito de homem
comum, aquele que pode viver entre os outros. É como se ele, ao descumprir uma norma do
chamado Direito Criminal, não mais tivesse condições de viver em respeito às normas
estabelecidas à convivência em sociedade.
Como Pedro Vermelho, essas pessoas possuem uma cicatriz oculta, que elas mesmas
gostariam de esquecer e, após este esquecimento e um tipo de perdão social, retomar uma
nova vida sem marcas que relembrassem os seus erros. Porém, toda vez que se veem no olhar
dos outros são lembrados do estigma que carregam, são rotulados como pessoas diferentes das
outras e que não podem, como aquelas, viver em sociedade. A prática da ilicitude penal é uma
escolha que gera uma pena ao indivíduo - sem prazo para terminar -, uma responsabilidade
para a qual ele não se preparou, vivendo em uma segregação humana. A cicatriz com a qual o
apenado é marcado torna-se perene, o olhar do outro a expõe sempre e continuamente, assim
como fazia com a marca que o ex-macaco carregava nas ancas – conforme narrou Kafka.
Retomando a discussão do nome, nós seguimos na vida com a marca do nome a nos
definir e delimitar, determinando de onde viemos, onde vivemos; somos codificados,
numerados, seriados pelos documentos e cadastros sociais que as normas nos impõem, como
uma prova de que somos seres sociáveis.
O papel do Direito deveria ser o de restaurar as pessoas, torná-las capazes de viver
sob o crivo da lei, aceitando as regras da vida em comum com outros seres humanos:

O Direito, por sua vez, não oferece graça ou redenção, mas restaura o
criminoso ao convívio entre os homens, único lugar onde as dádivas podem
ser encontradas (SILVA, 2013, p. 181).

É de ser perguntar onde estão as dádivas que o Direito promete ao homem, como
instrumento de restauração? Viver entre os homens pode não ser uma dádiva. Certamente os
ex-apenados que não encontram empregos e não são aceitos em todos os locais da sociedade –
sobrevivendo em subempregos, em “submoradias”, em alegrias parciais, e em sub-
humanidade - não devem achar tão proveitosa a vida em sociedade.
72

Se pensamos que somos marcados pelo nome, pela vida, pelas penas et cetera não
teremos, como decorrência dessa reflexão, uma obrigação de buscar uma solução mágica ou
definitiva. Podemos com certeza tecer uma pergunta fundamental: Seria possível viver sem
marcas, sem cicatrizes?
Olhando para nós mesmos através do melhor reflexo que é o olhar do outro, veremos
que todos nós carregamos marcas – sejam elas físicas, psíquicas ou emocionais -, mas
evitamos ver a nossa imperfeição representada por elas. Tentamos escondê-las em um local
onde ninguém as veja, pois sabemos que o outro, ao vê-la, acaba por nos revelar as nossas
cicatrizes, mesmo as mais ocultas. Por isso nossas marcas não são nossas, apenas estão em
nós e entender isso é o primeiro passo para mudar a realidade da aplicação das penas
privativas de liberdade no Brasil.
Entender que as marcas são uma parte do ser humano - e que muitas delas são
adquiridas como um preço a pagar pela vida em sociedade - é um primeiro passo para perdoar
aqueles que nos marcaram, perdoar a nós mesmos, em razão de não sabermos localizar ou
lidar com nossas marcas. A capacidade de perdoar é importante também para construir uma
sociedade mais justa, na qual o Direito desempenhe o seu papel de instrumento secundário de
pacificação das relações humanas. Quem primeiro deve pacificar a relação humana são os
próprios homens.
Pessoas marcadas por suas próprias desconfianças, pelo medo, pela insegurança, não
são capazes de perdoar quem afronta uma das suas cicatrizes. Alguém que pratica um delito
está atacando cada indivíduo, afrontando a sua segurança e a própria existência em sociedade.
Por isso os estigmatizamos, marcando-os para a vida toda com uma condição que lhes retira a
possibilidade de uma boa convivência social, entre os que se consideram normais. A
sociedade precisa marcar o criminoso para que ele seja excluído da comunidade dos homens:

[...] é preciso marcar o criminoso para excluí-lo da sociedade dos homens,


“pois” ao violar a lei, o criminoso se separa da comunidade dos homens
(SILVA, 2013, p. 179).

2.5 Na Colônia Penal: a sentença marcada no homem

Não foi somente em Um relatório para uma academia (1999) que Kafka se utilizou
da metáfora da marca. Em outra obra magistral sua, Na colônia penal (1998), o autor fez uso
73

da marca para discutir o sistema penal, o poder coercitivo do Estado e a conformação da


sociedade com o abuso do aparelho público. A história se inicia com a chegada de um
explorador , o qual aceita o convite do oficial comandante para conhecer uma colônia penal.
No texto, Kafka descreve uma máquina que funciona de forma engenhosa e que tem como
objetivo a aplicação de uma penalidade sobre o corpo dos prisioneiros:

— É um aparelho singular — disse o oficial ao explorador, percorrendo com


um olhar até certo ponto de admiração o aparelho que ele, no entanto,
conhecia bem.
O explorador parecia ter aceito só por polidez o convite do comandante, que
o havia exortado a assistir à execução de um soldado por desobediência e
insulto ao superior (KAFKA, 1998, p. 3).

O equipamento possui um mecanismo formado por três partes principais: a cama, o


desenhador e um rastelo. Assim esclarece o oficial encarregado de apresentar a máquina ao
explorador:

Como se vê, ele se compõe de três partes. Com o correr do tempo surgiram
denominações populares para cada uma delas. A parte de baixo tem o nome
de cama, as de cima de desenhador e a do meio, que oscila entre as duas, se
chama rastelo.
– Rastelo? – perguntou o explorador (KAFKA, 1998, p. 32).

A máquina servia para desenhar - por meio de cortes feitos por esse rastelo, ajudado
pela vibração da cama - a sentença no corpo do próprio condenado, infligindo nele sofrimento
físico para que compreendesse qual era o seu erro.
O oficial segue com a sua descrição minuciosa do maravilhoso invento do ex-
comandante da colônia penal, quando o explorador, assustado com o funcionamento daquela
coisa, indaga se existia mesmo um rastelo na máquina. O oficial afirma com tranquilidade:

— É, rastelo — disse o oficial. — O nome combina. As agulhas estão


dispostas como as grades de um rastelo e o conjunto é acionado como um
rastelo, embora se limite a um mesmo lugar e exija muito maior perícia
(KAFKA, 1998, p. 33).
[...]
Quando o homem está deitado na cama e esta começa a virar, o rastelo baixa
até o corpo. Ele se posiciona automaticamente de tal forma que toca o corpo
apenas com as pontas [...] Vibrando, eles ficam suas pontas no corpo, que
além disso vibra por causa da cama.
– O senhor está vendo dois tipos de agulhas, em disposições variadas – disse
o oficial. – Cada agulha comprida tem ao seu lado uma curta. A comprida é a
que escreve, a curta esguicha água par lavar o sangue e manter a escrita
sempre clara (KAFKA, 1999, p. 40).
74

E passa a explicar, minuciosamente, o funcionamento das partes de cima e de baixo


da máquina:

No desenhador há uma engrenagem muito gasta, ela range bastante quando


está em movimento, nessa hora mal dá para entender o que se fala [...]
(KAFKA, 1998, p. 33).

[...]como eu disse, esta é a cama. Está totalmente coberta com uma camada
de algodão;...o senhor ainda vai saber qual é o objetivo dela. O condenado é
posto de bruços sobre o algodão, naturalmente nu; aqui estão, para as mãos,
aqui para os pés e aqui para o pescoço, as correias para segurá-lo firme. Aqui
na cabeceira da cama, onde, como eu disse, o homem apoia primeiro a
cabeça, existe este pequeno tampão de feltro, que pode ser regulado com a
maior facilidade, a ponto de entrar bem na boca da pessoa. Seu objetivo é
impedir que ela grite ou morda a língua (KAFKA, 1998, p. 33).
[...]
Assim que o homem está manietado, a cama é posta em movimento. Ela
vibra com sacudidas mínimas e muito rápidas simultaneamente para os
lados, para cima e para baixo (KAFKA, 1998, p. 35).

O oficial então revela que naquela localidade o comandante é o detentor da jurisdição


e acumula-a com a responsabilidade de executar a pena. Seria o comandante a figura que
simbolizava todo abuso da força e o poder do estado:

– E o que diz a sentença? – perguntou o explorador.


[...]
– Não fui cientificado disso, a culpa não é minha. Seja como for, aliás, estou
nas melhores condições de esclarecer nossos tipos de sentença, pois trago
aqui – bateu no bolso do peito – os desenhos correspondentes, feitos pelo
antigo comandante.
– Desenhos feitos pelo próprio comandante? – perguntou o explorador –
Então ele reunia em si mesmo todas as coisas? Era soldado, juiz, construtor,
químico, desenhista? (KAFKA, 1998, p. 35-36).

O sistema penal a que o explorador tinha acesso era uma máquina de tortura, feita
para flagelar os presos. Ao acusado não era dado saber qual o crime que o havia levado à
condenação, tampouco tinha qualquer noção sobre a sentença que lhe foi imputada e que seria
desenhada no seu corpo. Somente quando da execução da pena, depois do aviltamento do seu
corpo, ele tomará parte na imponente máquina estatal de fazer justiça. Passará a compreender
qual a sentença que lhe fora imposta pelo comandante da colônia penal, como resposta a uma
falha sua, que ele mesmo desconhece até a execução da condenação:

[...] O explorador queria perguntar diversas coisas, mas à vista do homem


indagou apenas:
75

– Ele conhece a sentença?


– Não – repetiu o oficial e estacou um instante, como se exigisse do
explorador uma fundamentação mais detalhada da sua pergunta: depois
disse:
– Seria inútil anunciá-la. Ele vai experimentá-la na própria carne. (KAFKA,
1998, p. 36)

[...] o explorador, que já tinha se recostado, inclinou-se de novo para a frente


e ainda perguntou:
– Mas ele certamente sabe que foi condenado, não?
– Também não – disse o oficial e sorriu para o explorador, como se ainda
esperasse dele algumas manifestações insólitas.
– Não – disse o explorador passando a mão pela testa – Então até agora o
homem ainda não sabe como foi acolhida a sua defesa?
– Ele não teve oportunidade de se defender – disse o oficial, olhando de lado
como se falsasse consigo mesmo e não quisesse envergonhar o explorador
com o relato de coisas que lhe eram tão óbvias (KAFKA, 1998, p. 37).

Como se vê, o relato do autor - que usa o diálogo entre o oficial e o explorador -
apresenta um processo de penalização do corpo do condenado, sem que este saiba por qual
crime foi condenado, sem ter o direito de se defender e com o total desconhecimento sobre os
termos da sentença condenatória que lhe a aplicou tão intenso martírio. O objetivo do aparato
penal do Estado será alcançado porque o condenado terá gravada na pele a sua sentença para
sempre, como marca e estigma. A sentença é a prova da ação e do enorme poder coercitivo do
Estado que, por meio de um único agente - o comandante -, acusa, julga e aplica a pena aos
homens que praticam os delitos.
Kafka usa uma marca física como estigma ao condenado, o qual jamais será uma
pessoa dita normal. A sentença desenhada pelos rastelos na pele serve como uma prova do
cumprimento do dever do Estado, que é impingir a pena e satisfazer a sociedade em sua sede
por justiça. Salta aos olhos que não há indignação pelo conhecimento do aparelho, o próprio
explorador fica intrigado com esse sistema penal.
Neste texto, novamente, Kafka fala sobre a marca em forma da cicatriz que cada
homem carrega, sejam as que determinam e identificam o ser, ou aquelas ocultas na alma
humana. No caso do texto, é a cicatriz imputada pelo Estado - em especial no uso do Direito
Penal - como instrumento de reafirmação que os seres humanos vivem em sociedade e abrem
mão de uma parte da sua liberdade. Por isso, o autor constrói a imagem de uma punição que
materializa o estigma apontado, sendo um dos resultados da sede de justiçamento da
sociedade a ser imputado ao condenado pela máquina infernal, concebida por Kafka:
76

Na Colônia Penal Kafka concebe uma máquina infernal para marcar no


corpo do criminoso o texto da lei (SILVA, 2013, p. 179).

O autor faz mais uma análise e também uma provocação sobre o excesso de poder
estatal e a que ponto a sociedade pode chegar para trazer para si a sensação de justiça,
inclusive dando contornos legais e legitimando o suplício do corpo de outro ser humano. Isto
se dá em uma época na qual os judeus - berço cultural e religioso sobre o qual se firmou a
família Kafka - sofriam segregação e perseguição, sendo uma prévia do que viria a ser o
holocausto e a eugenia que se espalhou pela Europa, lançando no mundo a Segunda Grande
Guerra. Acreditamos que o autor representava, na sua literatura, o desespero e a angústia que
experimentou em seu tempo, usando a arte como uma fuga ou um meio pelo qual ele
consegue exprimir todo o horror das suas incertezas:

[...] em um tempo de crise total, somente a arte pode expressar a angústia e o


desespero do homem, pois, diferentemente de todas as demais atividades do
pensamento, é a única que capta a totalidade de seu espírito, especialmente
nas grandes ficções que consegue adentrar o âmbito sagrado da poesia
(SABATO, 1998, p. 69).

Kafka relatava com tintas fortes - como é comum na literatura e, em especial, na


kafkiana - como o Estado é dono e tutor das liberdades e ao usar o seu poder coercitivo pode
dispor até da incolumidade física dos cidadãos. Na narrativa, fica claro que a sociedade sabe
da existência da máquina de suplício, conhece o seu funcionamento e aceita como válida a
marcação da letra da lei no corpo dos presos, dando pouca atenção a existência de um
aparelho tão estranho:

Pelo menos aqui no pequeno vale, profundo e arenoso, cercado de encostas


nuas por todos os lados, estavam presentes, além do oficial e do explorador,
apenas o condenado, uma pessoa de ar estúpido, boca larga, cabelo e rosto
em desalinho (KAFKA, 1999, p. 29).

Aqui entendemos a literatura como uma representação da realidade, e como


representação também invenção ou representação imaginária. Conforme nos ensina Otavio
Paz (1993, p.42), ela é capaz de fazer o homem escrever de forma a demonstrar e descrever -
por meio de imagens e metáforas - o seu próprio ser, os detalhes da sua vida e do seu tempo,
como fez Kafka.
A marca representada pela sentença desenhada no corpo com agulhas é a forma que
foi encontrada a cumprir o papel regulador do Direito Penal. Foi o modo como Kafka pode
77

representar todo o império do aparelho burocrático do Estado que recaia - e ainda recai - sobre
os seres humanos.
Percebe-se que o texto descreve o ser humano como alguém alienado e que não
compreende o seu papel como ser social. Para tanto, Kafka faz com que todos os seus
personagens estejam desorientados ou desinformados, cada um fazendo o que acha que tem
que feito, sem indagar o porquê ou para quê: o comandante exerce várias funções estatais,
mas desconhece o funcionamento da máquina, tanto é que pede um relatório do que ocorre
com o aparelho ao explorador; o explorador se lança em uma jornada pela colônia penal, sem
saber o que vai relatar ou o que vai encontrar; o oficial impinge uma pena degradante aos
condenados, mas não sabe o motivo ou o objetivo da pena, pois apenas cumpre a sua
obrigação; e o prisioneiro não sabe por qual crime foi condenado e nem qual o teor da sua
sentença.
O homem criminoso, na obra de Kafka, não é capaz de decifrar a sentença e entender
qual o papel da penalidade. Somente após seis horas de suplício – das doze previstas para
durar a execução da pena – começa a decifrá-la, pelos ferimentos no corpo. Por senti-la, passa
a compreendê-la.

O entendimento ilumina até o mais estúpido. Começa a volta dos olhos. A


partir daí, se espalha. Uma visão que poderia seduzir alguém a se deitar junto
embaixo do rastelo. Mais nada acontece, o homem simplesmente começa a
decifrar a escrita. O senhor viu como não é fácil decifrar a escrita com os
olhos; mas o nosso homem a decifra com os seus ferimentos (KAFKA,
1998, p. 44).

A pena - representada por Kafka - não é apenas um instrumento de aplicação da


norma ao condenado. Ela é mais uma reiteração do conteúdo normativo e do poder coercitivo
estatal às outras pessoas, ficado estas cientes de que não devem afrontar o Estado e as suas
normas. A aplicação não busca a recuperação do condenado para que volte a viver em
sociedade. Tanto é assim que o condenado não sobrevive, portanto, o seu sofrimento não
servirá como remissão dos pecados ou preparação para ser reintegrado à sociedade. O seu
suplício físico e a morte posterior servem apenas para manter e satisfazer o aparelho estatal:

Seja como for exige muito trabalho; ele precisa de seis horas para completá-
lo. Mas aí o rastelo o atravessa de lado a lado e o atira no fosse, onde cai de
estalo sobre o sangue misturado à água e o algodão (KAFKA, 1998, p. 44-
45).
78

Além disso, ele fica marcado para sempre, mesmo morto, para que as outras pessoas
o vejam como exemplo e tenham medo da força do Estado, respeitem as suas normas e a sua
autoridade. O Estado passa a ter, pela estigmatização e morte do apenado, o controle sobre a
vida das outras pessoas, fazendo uso do medo que impõe a elas como um instrumento de
regulação.
Ao final da história, o oficial da colônia penal - responsável pela manutenção da
prisão e operação da máquina de impingir torturas - acaba sendo vítima da sua própria
criação. Ao ver que não conseguira convencer o explorador da validade do procedimento,
vendo-se na iminência de apresentar um relatório ao comandante, no qual o explorador
afirmaria a desnecessidade do uso do equipamento, o que de certo levaria à sua desativação;
ele coloca uma das folhas com um desenho na máquina, que significava uma sentença. Em
seguida, se despe e se insere dentro do aparelho, passando, ele mesmo, pelo processo de
gravação da sentença na pele. Depois, pela morte certa, põe fim ao seu desespero frente a
iminência de desligamento do equipamento, que era a razão da sua vida.
Mas qual seria o motivo da autoimolação da pena pelo oficial? Seria o medo de
perder o seu posto? O simples temor de ver desativado o equipamento? O desenho
apresentado ao oficial, antes da inserção na máquina, dá a pista do que teria desesperado o
destemido oficial, após ter decifrado o significado da seguinte sentença: Seja justo!
Ser justo foi tudo o que ele tentou, na sua noção parcial de justiça, por meio da
imposição da força da máquina estatal. Ao ver que com toda a sua dedicação, mesmo
aplicando a pena na forma designada pelo comandante, ele não tinha alcançado o objetivo de
ser justo, percebendo que era tão criminoso quanto aqueles que ele castigou. Deixando de ser
justo e cometendo um ilícito, só lhe restou aplicar o mesmo mecanismo de pena que utilizara
nos outros, porque aquela era a única justiça que ele conheceu. O oficial e todos os outros
personagens presentes no texto são reféns da máquina burocrática, pois: “no cerne da máquina
burocrática, existe apenas um vazio, o nada: a ‘burocracia’ seria uma máquina louca que
funciona sozinha” (ZIZEK apud ROSA, 2012, p. 12).
Quem entre nós não é refém desta máquina infernal, quem não se submete aos seus
mecanismos? Será que o nosso aparelho estatal que detém a coerção sobre o condenado e
sobre a sociedade é justo?
O fundamento da máquina - de aplicar castigos e marcar as pessoas - é o mesmo das
marcas impingidas no ex-macaco Pedro Vermelho: a sociedade o marcou fisicamente; de
forma coercitiva o capturou; deu-lhe um nome; impôs regras de aceitação para que ele saísse
79

da natureza e pudesse viver em sociedade. No caso de Na colônia penal, a sociedade - através


do Estado a quem delegou o poder de coerção - prende o acusado, o classifica como
condenado e por não ter respeitado regras estabelecidas a viver em sociedade, aplica-lhe um
suplício físico que o leva a morte.
Quando o sentenciado morre, a sociedade - por meio do Estado - reafirma a
imposição das normas, a obrigatoriedade de adequação e o abandono da liberdade natural por
uma liberdade social, a qual está longe da plenitude, como a de Pedro Vermelho estava dele.
Nem todas as jaulas são físicas e algumas são construídas em função de quem ou do que se
deseja aprisionar.
80

3 Jaulas

3.1 A caverna de Platão

Em A alegoria da caverna, Livro VII de A República (2011), Platão conta o diálogo


entre Sócrates e Gláucon, que versa sobre a história de homens presos desde a mais tenra
infância em uma espécie de caverna subterrânea, iluminada apenas por uma fogueira. Seus
corpos, pernas e pescoços estão acorrentados de modo que não podem contemplar outra visão,
exceto a representação dos objetos pela sombra projetada, vendo apenas vultos das coisas e
pessoas que passam, umas em silêncio outras não, produzindo sons que eles escutam. Esses
homens sequer conhecem uns aos outros, somente tiveram à vista dos olhos às suas próprias
sombras, projetadas pela luz da fogueira. Portanto, tudo o que é real para eles são as sombras
que viam e os sons que entendiam sair delas:

Sócrates — Supões ainda que a prisão tivesse um eco vindo da parte da


frente. Cada vez que falasse um dos passantes, não creriam eles que quem
falava era a sombra que viam passar?
Os prisioneiros tomam as sombras pela realidade.
— É indubitável.
— Para eles, pois — disse eu —, a verdade, literalmente, nada mais seria do
que as sombras dos objetos fabricados.
— Também é forçoso (PLATÃO, 2011, p. 441-442).

Mais adiante, Platão afirma por meio de Sócrates à Gláucon o que aconteceria se
esses homens que viveram reclusos fosse postos em liberdade:

— Torna a olhar agora e examina o que naturalmente sucederia se os


prisioneiros fossem libertados de suas cadeias e curados da sua ignorância. A
princípio, quando se desate um deles e se obrigue a levantar-se de repente, a
virar o pescoço e a caminhar em direção à luz, sentirá dores intensas e, com
a vista ofuscada, não será capaz de perceber aqueles objetos cujas sombras
via anteriormente; e se alguém lhe dissesse que antes não via mais do que
sombras inanes e é agora que, achando-se mais próximo da realidade e com
os olhos voltados para objetos mais reais, goza de uma visão mais
verdadeira, que supões que responderia? Imagina ainda que o seu instrutor
lhe fosse mostrando os objetos à medida que passassem e obrigando-o a
nomeá-los: não seria tomado de perplexidade, e as sombras que antes
contemplava não lhe pareceriam mais verdadeiras do que os objetos que
agora lhe mostram?
— Muito mais — disse ele.
— E se o obrigassem a fixar a vista na própria luz, não lhe doeriam os olhos
e não se escaparia, voltando-se para os objetos que pode contemplar, e
considerando-os mais claros, na realidade, do que aqueles que lhe são
mostrados?
— Assim é — respondeu.
Em presença do Sol, ficarão deslumbrados pelo excesso de luz.
81

— E se o levassem dali à força, obrigando-o a galgar a áspera e escarpada


subida, e não o largassem antes de tê-lo arrastado à presença do próprio Sol,
não crês que sofreria e se irritaria, e uma vez chegado até a luz, teria os olhos
tão ofuscados por ela que não conseguiria enxergar uma só das coisas que
agora chamamos realidades? (PLATÃO, 2011, 442-443)
[...]
— E, se entre os prisioneiros vigorasse o hábito de conferir honras, louvores
e recompensas àqueles que, por distinguirem com maior penetração as
sombras que passavam e observarem melhor quais delas costumavam passar
antes, depois ou junto com outras, fossem mais capazes de prever os
acontecimentos futuros, pensas que aquele sentiria saudades de tais honras e
glórias e invejaria os que as possuíssem? Não diria ele, como Homero, que
era preferível “lavrar a terra a serviço de um homem sem patrimônio” ou
sofrer qualquer outro destino a viver semelhante vida?
— Sim, creio que preferiria qualquer outro destino a ter uma existência tão
miserável.
Se voltassem à caverna, porém, veriam com muito mais dificuldade que os
que ali ficaram.
— Atenta agora no seguinte: se esse homem voltasse lá para baixo e fosse
colocado no seu lugar de antes, não crês que seus olhos se encheriam de
trevas como os de quem deixa subitamente a luz do Sol?
— Por certo que sim (PLATÃO, 2011, 445-446).

Na superfície, o homem que experimenta um mundo de luz e liberdade - assustado


com coisas que entende serem irreais - prefere a certeza conhecida das sombras, optando por
retornar à caverna subterrânea e sentando no lugar onde viveu por toda a sua existência, até
ser liberado. O seu mundo é aquele representado pelas sombras e sons, esse é o único que ele
compreende.
Nesta alegoria, Platão esclarece que o homem fora do seu mundo não é o mesmo
homem. Mesmo aprisionado, a realidade de sombras que ele conhece é mais confortante do
que o sofrimento representado pela nova persperctiva de mundo que a liberdade lhe propiciou.
Tendo a visão da diversidade, o homem não a compreende e fica desconfortável com o mundo
iluminado pela luz e pelas cores que desconhecia, tanto assim é que o homem se sente melhor
à noite, contemplando a lua e as estrelas, porque esta é dominada pela penumbra. É durante a
noite que sons e sombras adquirem preponderância sobre as cores e a claridade.
O homem - com uma visão de mundo pré-definida pelos anos de aprisionamento
tomado - passa a não mais desejar a liberdade ao voltar à sua caverna subterrânea, pois lá está
o seu mundo e a realidade que ele compreende, sentindo-se representado. A prisão é
apresentada como algo que mantém inalterada e segura a evolução humana fora dos seus
limites, tolhendo-se a capacidade de olhar pela perspectiva iluminada da liberdade.
A caverna, como toda prisão, também pode significar um conforto para os que nela
estão e que não buscam uma evolução que a liberdade pode trazer, pois temem os riscos das
82

suas escolhas. Com a liberdade vem o desconhecido, aquilo que não compreendemos ou o Eu
que ignoramos, porque estando preso o indivíduo, ele só se desenvolve como prisioneiro. A
liberdade do novo indivíduo causa medo e por isso é possível preferir o conforto e a
mesmerização da caverna.

3.2 A jaula de Kafka

Nossa vida é de fato um campo de experimentações. As relações e construções


diversas que estabelecemos na nossa jornada nos fazem entrelaçar as histórias, construir
relatos. Nos construímos ao construir a vida. Essa (trans)formação se faz história, torna-se
jornada. Essa jornada não é uma exclusividade do eu, tampouco pode ser referida por uma
individualidade como se fosse tecida distante das influências mais múltiplas possíveis. Nós
precisamos do outro e da sua jornada para conseguir trilhar a nossa própria.
Dentre as formas de compreender a dinâmica e complexa jornada humana, a leitura
de textos literários é um caminho que pode ser visto como uma ponte entre o conhecimento
técnico e fragmentado da ciência moderna e toda a diversidade dessa odisseia humana. Os
literatos empregam metáforas, imagens, símbolos e, por meio deles, nos transmitem a
condição humana de uma forma que a língua ou as linguagens puramente técnicas não
conseguem alcançar.
A liberdade criativa e imaginativa da literatura eleva o nível de entendimento sobre o
que temos de mais humano, fazendo-nos enxergar os outros e neles nos vemos com melhor
definição. A literatura pode ser empregada como uma forma de linguagem para que se
construa uma ponte interdisciplinar, possibilitando a formulação de uma interdisciplinaridade
caminhante, aquela que se constrói e se transforma, à medida que vai sendo desenvolvida e
praticada. De Orwell a Machado de Assis, o traço sem amarras da literatura permite conceber
a realidade vivida e a dimensão dos sonhos, que chegam até a antever construções sociais
futuras.
Dentro dessa forma provocativa e criativa de pensar e compreender a vida, há uma
metáfora usada por Frank Kafka, na coletânea de contos Um médico rural (1999), que chama
a atenção a uma abordagem que a literatura pode dar ao leitor: a análise crítica sobre a
imagem imaginária da jaula - citada no conto Um relatório para uma academia -, local de
83

aprisionamento do narrador Pedro Vermelho, que após se humanizar e se tornar um ex-


macaco, foi autorizado a viver entre os homens.
Analisaremos como seria a liberdade vivida por Pedro Vermelho, de forma
consentida pelos homens civilizados. Ele encontrou uma saída da sua jaula física e sobrevive
entre os humanos, já não lembrando da época em que era macaco, embora saiba que jamais
será humano. No relato do ex-macaco, as imagens metafóricas representam a vida
aprisionada. O texto de Kafka nos leva a perceber um enclausuramento físico e psicológico,
podendo verificar que a busca pela saída de Pedro Vermelho não é tão animal e que a
animalidade não está tão distante de nós, como queremos acreditar.
Kafka descreve, em seu Um relatório para uma academia, a jaula onde fica preso
Pedro Vermelho:

Depois daqueles tiros eu acordei — e aqui, aos poucos, começa a minha


própria lembrança — numa jaula na coberta do navio a vapor da firma
Hagenbeck. Não era uma jaula gradeada de quatro lados; eram apenas
três paredes pregadas num caixote, que formava portanto a quarta
parede. O conjunto era baixo demais para que eu me levantasse e
estreito demais para que eu me sentasse. (Destaque inserido) Por isso
fiquei agachado, com os joelhos dobrados que tremiam sem parar, na
verdade voltado para o caixote, uma vez que a princípio eu provavelmente
não queria ver ninguém e desejava estar sempre no escuro, enquanto por trás
as grades da jaula me penetravam na carne. Consideram vantajoso esse tipo
de confinamento de animais selvagens nos primeiros tempos e hoje, pela
minha experiência, não posso negar que seja assim do ponto de vista humano
(KAFKA, 1999, p. 83).

Usando a descrição feita pelo próprio ex-macac,o a sua jaula é formada por três
paredes pregadas em um caixote, e este formaria a quarta parede. O piso é o lastro do próprio
navio, mas não há no texto qualquer menção ao teto. Essa descrição simples, nos faz lembrar
que uma jaula é mais que isso. A jaula é feita, em uma visão tradicional, de ferro, aço ou
madeira. Sempre que falamos em jaula, pensamos sempre em algo sólido, intransponível. A
imagem fixada na mente é a de uma gaiola onde aprisionamos o outro.
Uma jaula é montada, parte por parte, em um entrelaçamento que resulta em uma
construção, geralmente quadrangular. Não há uma forma obrigatória ou passo a passo para
construir uma jaula, pois de onde quer que se inicie, o que resulta é um instrumento de
repressão e formação. Podemos começar por uma parede, continuar pelo teto, finalizar o
piso, ou terminar por outra parede. Ao final teremos a nossa jaula, para territorializar e
transformar o ser.
84

Ela não é apenas um receptáculo para se prender algo ou alguém. Ao ser construída
ou montada, leva em conta a junção de diversas peças que se complementam para conter e
formar. O primeiro objetivo é conter, impedir a fuga, o escape daquele que contesta ou
infringe. A segunda missão, ao se colocar alguém ou algo em uma jaula, é moldar a sua
forma de ser, transformar o seu agir, adequando-o e limitando as suas condutas dentro do que
é esperado, aceito e desejado. Para quem está fora, a jaula tem a função de enclausurar o sem
padrão, o inesperado, o incompreendido. É melhor retê-lo do que permitir que ele venha a
delinquir ou transgredir o que esperamos dele.
Do ponto de vista de quem está dentro, a função e o objetivo da jaula são outros. O
seu elemento constitutivo pode ser o medo. Medo do que pode vir de fora, do que
desconhece. O desejo de encontrar uma saída se mistura ao medo de perder a sensação de
segurança, porque o homem anseia a liberdade e deseja a segurança e elas, algumas vezes,
são antagônicas.
Essa aparente prisão também pode representar segurança para quem está dentro
dela, como na caverna da Alegoria de Platão, é possível que o aprisionado opte por
permanecer em uma realidade controlada e que ele conhece bem.
Importante lembrar que a jaula física não é a única forma que podemos
experimentar de enclausuramento de nós mesmos, pois há também a jaula imaginária, na
qual somos inseridos e nos inserimos. Na jaula imaginária, aprisionamos tudo o que é
diferente, o que não entendemos. Como não entendemos a nós mesmos, construímos jaulas
onde nos privamos da liberdade de ser, queremos ser livres e não aceitamos abrir mão da
segurança que a jaula representa.
Dentro da jaula, a nossa forma de olhar o mundo ganha novos contornos, é limitada
física e psicologicamente. A sensação de privação da liberdade é acompanhada pelo medo de
jamais sair da jaula, de nunca encontrar a liberdade. A sensação de aprisionamento aprisiona
a forma de pensar e faz com que o enjaulado tenha como objetivo reconstruir a sua liberdade.
O conforto da jaula importa e a busca pela liberdade pode significar uma perda de
segurança. Desejamos a liberdade, mas temos medo de jamais encontrá-la, e se a
encontramos, às vezes tememos o desconhecido que está fora dos limites seguros da jaula,
seja ela física ou imaginária. Essa é uma contraposição e possibilidade que Kafka apresenta
na fala do ex-macaco.
Pedro Vermelho vive a angústia de sentir necessidade da liberdade a dizer “Tivessem
me pregado, minha liberdade não teria ficado menor”, mas saber que a sua busca significa
85

abrir mão da segurança da sua jaula e ele “macaco livre” se submete ao “jugo” (KAFKA,
1999, p. 78) da perda da liberdade, mesmo não estando em uma jaula completamente fechada.
Sua jaula é incômoda, “[...] era baixo demais para que eu me levantasse e estreito
demais para que eu me sentasse”, por isso o ex-macaco ficava “agachado, com os joelhos
dobrados que tremiam sem parar” (KAFKA, 1999, p. 81), observando a liberdade vivida
pelos homens civilizados que o aprisionaram, sofrendo com o cárcere:

Sobrevivi a esses tempos. Surdos soluços, dolorosa caça às pulgas, fatigado


lamber de um coco, batidas de crânio na parede do caixote e mostrar a língua
quando alguém se aproximava — foram essas as primeiras ocupações da
minha nova vida (KAFKA, 1999, p. 83).

O ex-macaco que em liberdade “tivera tantas saídas, [...] estava encalhado [...], mas
precisava arranjar uma, pois sem ela não podia viver (KAFKA, 1999, p. 84). A saída
encontrada foi observar “aqueles homens andando de cima para baixo” (p. 89), até que um
“objetivo” clareou na mente de Pedro Vermelho: foram as “observações acumuladas” que o
fizeram entender que “Era tão fácil imitar as pessoas! Nos primeiros dias eu já sabia cuspir.
Cuspimos então um na cara do outro [...]. O cachimbo eu logo fumei como um velho [...]. O
que me custou mais esforço foi a garrafa de aguardente” (KAFKA, 1999, p. 89-90). Imitando
os comportamentos e a forma de viver humanos, Pedro Vermelho passou a viver entre eles,
aprendeu o “aperto de mão” (KAFKA, 1999, p. 78), acrescentado da “palavra franca”
(KAFKA, 1999, p. 80).
A fuga da jaula não é a liberdade desejada por Pedro, mas sim, a saída da jaula que é
a liberdade possível. O que os homens civilizados lhe concedem é um livramento, limitado
nas práticas, reprimido nas condutas. O narrador/ex-macaco diz isso claramente:

Da perspectiva de hoje me parece que eu teria no mínimo pressentido que


precisava achar uma saída, caso quisesse viver, mas que essa saída não devia
ser alcançada pela fuga. (KAFKA, 1999, p. 87).
[...]
Se eu fosse um adepto da já referida liberdade, teria com certeza preferido o
oceano a essa saída que se me mostrava no turvo olhar daqueles homens
(KAFKA, 1999, p. 89).

Dessa vizualização surge a dúvida: como um símio ficaria preso em uma jaula
pequenina, desconfortável, repressora da sua liberdade animal e sem teto e dela não fugiria,
que mesmo sem teto, permanece o tempo todo agaixado na jaula?
86

A resposta para que o macaco não conseguisse sair da jaula é a necessidade de passar
por uma evolução, ter uma nova consciência para superar os seus limites e assim transpor os
limites da sua prisão.
Quando Kafka constrói, narrativamente, uma jaula incompleta mas que consegue
manter na clausura o símio. Ele apresenta um jogo muito sutil de imagens que se
complementam, de forma que o leitor possa entender que o texto fala de uma evolução que
não está concluída, estando em curso entre uma relação metafórica da hominização do
macaco à humanização dos seres humanos. Para aprisionar um ser incompleto - o primata não
hominizado -, Kafka construiu uma prisão incompleta.
Por não ter a correta compreensão do mundo e nem conhecer uma liberdade entre os
homens - visto que só a reconhecia no meio selvagem -, Pedro Vermelho não pensa em fugir e
desdenha do demasiado valor que damos à liberdade que temos, ao falar da saída que buscou:

Emprego a palavra no seu sentido mais comum e pleno. É intencionalmente


que não digo liberdade. Não me refiro a esse grande sentimento de liberdade
por todos os lados. Como macaco, talvez eu o conhecesse e travei
conhecimento com pessoas que têm essa aspiração. Mas no que me diz
respeito, eu não exigia liberdade nem naquela época, nem hoje (KAFKA,
1999, p. 84).
[...]
Dito de passagem: é muito frequente que os homens se ludibriem entre si
com a liberdade. E assim como a liberdade figura entre os sentimentos mais
sublimes, também o ludíbrio correspondente figura entre os mais elevados
(KAFKA, 1999, p. 84).

Ao buscar a saída para viver entre os homens, sem a liberdade que conhecia, o
personagem criado por Kafka nos dá a lição de que a tão propagada liberdade - que os
homens dizem ter experimentado com o fim da barbárie - foi uma saída da vida primitiva.
Porém, se comparado a um conceito de liberdade anterior - aquela que tivemos na natureza -,
muitos homens poderiam, se possível fosse, desejar essa liberdade primeva e enchergar na
vida atual uma saída, uma meia liberdade, como a perceceu Kafka com o seu macaco
hominizado.
O ex-macaco também afirma à ciência que o processo de evolução (a sua
hominização) não tem mais retorno, uma vez que buscou a saída da convivência com os
homens e jamais será um primata novamente, mas a sua porção animal está sempre ali, como
um ar a esfriar os seu calcanhares:

O retorno, caso os homens o tivessem desejado, estava de início liberado


através do portal inteiro que o céu forma sobre a terra, mas ele foi se
87

tornando simultaneamente mais baixo e mais estreito com a minha evolução,


empurrada para a frente a chicote; sentia-me melhor e mais incluído no
mundo dos homens; a tormenta cujo sopro me carregava do passado
amainou; hoje é apenas uma corrente de ar que me esfria os calcanhares
(KAFKA, 1999, p. 78).

Esse ar a esfriar o calcanhar do narrador que se diz ex-macaco, assim como nós
humanos acreditamos que somos, parece ser mais uma metáfora usada pelo autor para deixar
claro que a nossa animalidade jamais se afastou totalmente do que somos. O traço que nos
liga à natureza estará sempre presente em nossos passos, marcando as nossas pegadas, da
mesma forma que marca a dos animais. Não por acaso, a metáfora do calcanhar aparece mais
de uma vez no conto. Kafka a retoma mais à frente:

[...] até onde tenham atrás de si algo dessa natureza, não pode estar tão
distante dos senhores como a minha está distante de mim. Mas ela faz
cócegas no calcanhar de qualquer um que caminhe sobre a terra - do
pequeno chimpanzé ao grande Aquiles (KAFKA, 1999, p. 48-49).

Importa notar que, por ser inserida em uma narrativa feita à academia - local da
prática e evolução da ciência –, a metáfora do calcanhar é proposital para lembrar que embora
evitemos ver - por isso Kafka situa a animalidade às nossas costas e na parte mais baixa do ser
- as ciências, em especial as humanas, não evoluíram ao ponto de afastar a nossa porção
animal e nada produziram que não seja com a presença desse traço primitivo. O ar que esfria
os calcanhares de Pedro Vermelho é o mesmo que faz cócegas em nós e nos lembra que
somos feitos de uma parte racional (sapiens) e outra animal (demens) (MORIN, 2012). Esse
ar está nos nossos calcanhares para marcar todos os passos que damos na nossa jornada com a
nossa animalidade.
O calcanhar permite ao homem ficar em pé e ao herói caminhar, ambos não
conseguem evoluir sem ele. O calcanhar seria então o nó górdio da civilização. Ao passo que
representa a nossa evolução é, também, um traço da nossa animalidade. A ciência já
descobriu que um humano em cada treze tem o pé flexível17, portanto, não podemos excluir
de nós a importância e fisiologia do calcanhar que sempre nos acompanhará.
É a literatura kafkiana em essência: imagens metafóricas que nos provocam a
reflexão e a busca de uma compreensão. Não é à toa que a narrativa do primata é feita para
uma academia, estando o animal em dialogia com o racional, interagindo com ele como

17
1 em cada 13 humanos têm pés flexíveis. In: Diário da saúde. Disponível em:
http://www.diariodasaude.com.br> Acesso em 26/01/2016.
88

proposto pelo pensamento complexo. É a animalidade lembrando à ciência que jamais deixou
de ser parte do ser humano ou mostrando a esta última a importância de um “pensamento
selvagem”.
A jaula com três grades, com um caixote ao fundo - “em linha reta diante de mim
estava o caixote, cada tábua firmemente ajustada à outra” dizia Pedro Vermelho (KAFKA,
1999, p. 83) - sem limitação no teto e que, ainda assim, impossibilita o macaco capturado de
ficar em pé ou fugir é uma imagem que busca nos lembrar da evolução humana, e que o ser
humano só passou a ficar com o tronco ereto no curso da hominização do primata, como
mostra a famosa escala evolutiva:
Figura 2 – Evolução do homem18

O macaco passaria a ficar em pé sobre os membros inferiores depois de avançado o


seu processo de hominização. Até lá, permanecerá sentado como um ser incompleto, detido
por uma prisão que não impede de fugir, mas ao qual ele está atado por ser um animal. A
jaula do Pedro Vermelho é sua total animalidade, a saída está franqueada para ele, como
afirmado no texto da sua narrativa:

O retorno, caso os homens o tivessem desejado, estava de início liberado


através do portal inteiro que o céu forma sobre a terra [...] (KAFKA, 1999, p.
78).

Esse portal inteiro que o céu forma sobre a terra é a saída por cima da jaula, na
direção do céu, que mesmo conhecida não pode ser usada pelo ex-macaco por não ser
possível, já que ele não pode ficar em pé, não evolui na sua hominização ao ponto de ser
bípede. A hominização, que passa pela contrução de uma nova consciência, é a única saída

18
Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com> Acesso em: 29/11/2015.
89

que lhe resta. Ao escalar na evolução, Pedro encontrará a sua saída da jaula e do mundo
animal que o aprisionava.
Como um traço de estudo psico-social, o símio é usado como a imagem a demonstrar
o próprio crescimento do homem, tanto assim que, se antes ele nem podia deitar e muito
menos ficar em pé, ao final da sua jornada em busca da possibilidade de viver entre os
homens, o personagem esclarece que já pode ficar em pé e deitar de forma natural:

Se abranjo com o olhar minha evolução e sua meta até agora, nem me queixo
nem me vejo satisfeito. As mãos nos bolsos das calças, a garrafa de vinho
em cima da mesa, estou metade deitado, metade sentado na cadeira de
balanço e olho pela janela. Se vem uma visita, eu a recebo como convém
(KAFKA, 1999, p. 97).

3.3 O olhar em Pedro Vermelho e a visão dos homens em Platão

Detalhe importante que passa desapercebido é o posicionamento do símio,


personagem de Kafka, quando é enjaulado: ele fica em uma posição que não permite a
movimentação e segue, o tempo todo, de costas para as grades e de frente para a parede do
caixote, conforme se depreende dos trechos abaixo:

Por isso fiquei agachado, com os joelhos dobrados que tremiam sem parar,
na verdade voltado para o caixote, uma vez que a princípio eu
provavelmente não queria ver ninguém e desejava estar sempre no escuro,
enquanto por trás as grades da jaula me penetravam na carne (KAFKA,
1999, p. 82-83).

De modo que não tinha a plena visão do que acontecia em sua volta, exceto por uma
fresta que existia entre as tábuas do caixote:

É verdade que por entre as tábuas havia uma fresta que ia de lado a lado e,
quando a descobri, saudei-a com o uivo bem-aventurado do animal
irracional, mas nem de longe essa fresta bastava para deixar o rabo passar e
mesmo com toda a força de um macaco ela não podia ser alargada (KAFKA,
1999, p. 83).

O macaco saúda a existência dessa fresta porque ela representava o único contato
com o mundo externo que tinha, logo nos primeiros momentos do seu confinamento. Exceto
por essa fresta, nada mais era alcançado por sua visão, restando uma perspectiva reduzida do
mundo, entre fragmentos da realidade que enxergava e pelos sons que ouvia, como os passos
90

dos homens, suas bricandeiras e sons estranhos, como arrulhar uns aos outros (KAFKA, 1999,
p. 84-89).
A todo momento, Pedro Vermelho, agora parcialmente hominizado e se
considerando um ex-macaco, esclarece que não deseja a liberdade mas sim, uma saída. A
liberdade que o ex-macaco sabe impossível é aquela que exigiria dele uma comprensão do
mundo que não pôde experimentar, tendo visto o mundo apenas por uma fresta, essa é a única
perspectiva de vida conhecida por ele, e o texto magistralmente faz a diferença: uma
percepção tolhida da realidade é um mera saída, a liberdade exige o olhar liberto. Como no
início Pedro tinha a visão do mundo à sua volta apenas por meio de uma fresta, a sua própria
noção da realidade era reduzida e, por isso, não podia enxergar a vida com o olhar livre e
iluminado.
O mundo que o personagem experimentava a partir da sua prisão era aquele possível
aos olhos encobertos pelo caixote, limitados pela impossibilidade de se movimentar dentro da
jaula. Assim, a narrativa avança e quanto mais o macaco se hominiza, mais lhe é dado
conhecer dos hábitos e da vida humana. A sua saída do cárcere vai se estabelecendo, o seu
olhar encontra uma saída a uma nova realidade que estará sempre longe de ser livre. A vida
que conhece agora é a dos homens.
Do mesmo modo que Platão, Kafka cria um protagonista que não almeja a liberdade
porque só pode conhecer um mundo parcial, limitado por um olhar reduzido e redutor,
estando condicionado a uma saída. O homem de Platão não consegue viver em liberdade
plena porque esta realidade que desconhecia lhe parece fantasiosa. O ex-macaco de Kafka
sabe que a sua retirada da vida selvagem o fez deixar de possuir a liberdade animal. Agora ele
tem que experimentar a liberdade escolhida pelos homens, a vida em coletividade, as práticas
sociais, as condutas exigidas. Isto para ele não é liberdade, é uma saída da prisão a que a sua
animalidade está condenada:

Emprego a palavra no seu sentido mais comum e pleno. É intencionalmente


que não digo liberdade. Não me refiro a esse grande sentimento de liberdade
por todos os lados (KAFKA, 1999, p. 84).

Em Platão, a liberdade experimentada é ao homem condicionada à visão da realidade


pelas sombras, muito diferente do que ele almeja. Toda a claridade e a diversidade lhe são
estranhas e ele não consegue processar tal realidade e a compreende como algo fantasiado.
Para ele, a vida real é aquela que ele conhecia pelas sombras na caverna subterrânea. Assim,
no diálogo com Glauco, Sócrates afirma que o homem prefere o conforto de um mundo que já
91

conhecia e deixa a liberdade da superfície, para se sentar no seu velho local de clausura. O ex-
macaco de Kafka inicia com um visão condicionada da realidade e do mundo, mas de modo
diverso, ele procura a vida em semi-liberdade, mesmo que na condição de não humano e ex-
macaco.
Eis a grande questão: será que a nossa concepão de liberdade não é condicionada?
Podemos almejar a liberdade “por todos os lados” de Pedro Vermelho, em sua época de
macaco selvagem? E se experimentássemos essa liberdade total, saberíamos conviver com
ela? Parece que estamos vivenciando uma liberdade possível – uma saída – que é uma
escolha, que pode significar a perda de algo (esse algo pode ser a liberdade animal, que assim
como Pedro, deixamos para viver em sociedade).
Esse é o mote que no nosso entender liga a narrativa invertida de Kafka, por
intermédio do aprisionamento e do sofrimento do Pedro Vermelho ao Mito da Caverna de
Platão. Ambos souberam enxergar que não conhecemos a liberdade plena, não sabemos como
ela é. O que acreditamos ser a liberdade é um conceito que construímos pelo olhar
condicionado pela reacionalidade, represado pela necessidade de viver pacificamente em
coletividade, aceitando a Lei, a coação moral que atua para nós, como o caixote da narrativa
de Kafka ou como as correntes no mito de Platão.
Vivemos o enjaulamento da nossa compreensão sobre o mundo e sobre nós mesmos.
Por isso, precisamos de uma evolução marcada por uma nova consciência, que leve à
compreensão de que muitos conceitos que nos envaidecemos por ter criado, estão sob o
domínio dos animais há milênios. Sonhamos com a liberdade idealizada, plena, mas, como
nota o ex-símio, o homem ao escolher viver em sociedade, abriu mão de uma parcela de
liberdade:

Dito de passagem: é muito frequente que os homens se ludibriem entre si


com a liberdade. E assim como a liberdade figura entre os sentimentos mais
sublimes, também o ludíbrio correspondente figura entre os mais elevados
(KAFKA, 1999, p. 84).

A liberdade que um dia experimentamos, antes da nossa própria hominização, está


distante de nós, assim como estava de Pedro Vermelho e do homem de Platão.
Experimentamos uma liberdade que acreditamos ter, se interpretarmos de forma a juntar o que
Kafka e Platão nos legam como metáfora, nos parece que essa busca pelo ser livre pode ser
uma forma de nos lubridiarmos.
92

4 A jaula disciplinar

A noção de prisão representada por Kafka, no conto Um relatório para uma


academia, será tomada para discutir os limites de uma ciência pragmática que não alça o voo
necessário à contemplação da realidade multifacetada e complexa, que envolve e desafia o ser
humano.
Para alcançarmos nossos objetivos, delimitamos a análise a uma leitura/interpretação
bibliográfica do conto de Kafka e usamos para ampliar nossa análise alguns autores, tais
como: Lenio Luiz Streck, para discutir a relação entre Direito e literatura; Zygmunt Bauman,
discutindo a noção de medo; e fazemos toda a abordagem a luz dos princípios do pensamento
complexo, apresentados por Edgar Morin. Nossa intensão é, portanto, estabelecer um diálogo
entre ciência e literatura, a ampliar os saberes acadêmicos disciplinares e ensaiarmos uma
interdisciplinaridade tão necessária à compreensão das novas realidades e à formação do
humano:

Desolado, percebendo-se alienado com um conjunto sistêmico, porém


amorfo de normas, ele começa a olhar ao seu redor. Essa é a ocasião de
maior relevo da interdisciplinaridade para o Direito [...] na relação que ele
tem inevitavelmente com as demais ciências e com a filosofia (CASTRO,
2008, p. 99-100).

A literatura será vista aqui como uma forma de conhecimento implicado, metafórico
e poético, capaz de ampliar as lentes de leituras da realidade, da condição humana e do
mundo. Ela contribui à formação cognitiva e humana do bacharel em Direito, sendo capaz de
vencer a prisão disciplinar que a formação jurídica constrói em nosso olhar.

4.1 Consciência e evolução: uma saída

A leitura atenta do texto de Kafka traz a percepção da descrição da jaula feita por
Pedro Vermelho. Ele diz:

Depois daqueles tiros eu acordei — e aqui, aos poucos, começa a minha


própria lembrança — numa jaula na coberta do navio [...] Não era uma jaula
gradeada de quatro lados; eram apenas três paredes pregadas num caixote,
que formava, portanto, a quarta parede (KAFKA, 1999, p. 50).
93

A jaula era feita por três paredes pregadas em um caixote que formava a quarta,
montada sobre o navio, e Kafka, certamente de forma proposital, não fala em um teto para
essa “prisão”, não existe menção de que a jaula que aprisionou o ex-macaco fosse fisicamente
inviolável.
Seria fácil para um símio transpor essa jaula por cima e por que o narrador não o fez?
Eis a questão que nos parece ser lançada pelo autor a desafiar a nossa compreensão. Além de
não conseguir passar sobre as paredes do cárcere, o agora ex-macaco não podia ficar em pé,
pois segundo ele, o espaço era pequeno demais para ficar deitado e tão baixo que só lhe
restava permanecer sentado.
Portanto, se não havia teto, por que o protagonista do relato não ficava ereto?
Acreditamos que a metáfora representada por Kafka é que, como primata que estava na base
da evolução para se humanizar, o animal não podia ascender, não ficava em pé, nem poderia
alcançar a saída por sobre a sua prisão. A postura de se levantar passa a ocorrer conforme
Pedro Vermelho evolui para a humanização, até que possa mudar de posição e deixar de se
apertar na cela, encontrando uma saída do cárcere no qual foi colocado pelos humanos.
O ser enjaulado não está pleno, contido por ela com o olhar limitado, ele precisa
buscar uma saída. Vencendo o medo do novo e do desconhecido, cabe a ele fugir das
monoculturas e alçar o voo interdisciplinar que pode transpor a jaula – descrita por Kafka –
porque ninguém se sente inteiro dentro dela. Por isso a literatura é importante, para nos ajudar
a fugir das monoculturas mentais, buscando um conhecimento mais plural, que ligue o
conhecimento local ao global (SHIVA, 2003).
Para isso, precisamos evoluir - como Pedro Vermelho no seu processo de
hominização -, formando uma nova consciência, mais integrativa e que colecione os saberes e
os interlace, fazendo a ciência deixar de ser uma prisão disciplinar para se transformar em
uma saída à evolução do conhecimento do homem sobre o homem.

4.2 Enjaulados pelo medo: a metáfora do aprisionamento

Surge em uma abordagem singrada pelo pensamento complexo, uma representação


de uma das formas de prisão moderna. As nossas prisões - aquelas que angustiam o nosso ser
e nos afastam da nossa condição humana - dizem muito sobre a nossa própria forma de ser e
pensar e são condicionadas pela nossa vida em sociedade. Nestas, estão inclusas tanto a prisão
física, quanto aquelas que usamos para aprisionar o conhecimento, tais como: a racionalidade,
o tecnicismo e a fragmentação do saber em disciplinas que não se comunicam.
94

A sensação de privação da liberdade é acompanhada pelo medo de jamais sair da


jaula, de nunca encontrar a liberdade. A sensação de aprisionamento constrói a forma de
pensar e faz com que o enjaulado tenha como objetivo reconstruir a sua liberdade. E, muitas
vezes, o que queremos é a liberdade, mas temos medo de jamais encontrá-la. Há muitos
esforços, desprendimentos e sacrifícios para se conseguir a liberdade.
Como metáfora, a jaula imaginária representa a nossa prisão ao conhecimento, aos
nossos valores, crenças e educação. A educação formal tem se ocupado em nos domesticar
para vivermos em sociedade, assim como o homem civilizado fez com Pedro Vermelho. A
educação disciplinar tem nos adestrado a vivermos presos a certos conhecimentos
incomunicantes e a cultivarmos as “monoculturas mentais”, como diria Vandana Shiva
(2003).
Na sua obra, Vandana Shiva afirma que os saberes locais, mais próximos dos seres
humanos, são subjugados pelos saberes dominantes e globalizados: “desse modo, o saber
científico dominante cria uma monocultura mental ao fazer desaparecer o espaço das
alternativas locais, de forma muito semelhante à das monoculturas de variedades de plantas
importadas” (SHIVA, 2003, p. 25).
Embora não tratemos de um saber local, a assertiva se aplica a esta pesquisa na
medida em que propomos repensar a forma como encaramos o saber jurídico, tendo a
literatura como instrumento. Nas palavras da autora, “A democratização do saber
transformou-se num pré-requisito crucial para a liberação humana, porque o sistema de saber
contemporâneo exclui o humano por sua própria estrutura (SHIVA, 2003, p. 81).
O que podemos começar a construir é um saber fundado na humanização, nos tirando
da prisão que o saber dominante atual construiu sobre nós. É importante que tentemos
construir uma nova consciência capaz de ofertar saída à monocultura mental. O ideal é
recobrar a forma como a ciência jurídica é estudada e aplicada, para que possamos
democratizá-la, interligando-a com outras ciências e costurando saberes, a encontrar uma
saída para a jaula disciplinar.
A nossa jaula imaginária é uma amostra de que a crise das Ciências Sociais - que
reside na sensação de incapacidade de compreensão do seu objeto, a vida humana –, faz com
que nós nos refugiemos no tecnicismo e na proteção disciplinar, para fugir do que não
controlamos. O que desconhecemos nos assusta!
O tecnicismo e a ciência disciplinar podem ser - para os que pensam e discutem os
problemas do Direito - a nossa jaula imaginária. Assim como a academia e o próprio Pedro
95

Vermelho, sabemos que a ciência jurídica - fundamentada na supremacia da técnica, na razão


e na pureza disciplinar - é um cárcere que nos incomoda e oprime a nossa capacidade de
organizar e fazer dialogar os saberes. Como Pedro Vermelho que sentia o desconforto na
jaula, a segurança de permanecer onde se está nos dá conforto, e por ele abrimos mão da
liberdade de ir além. Segurança e liberdade tornam-se incompatíveis. Sem ir além não se pode
descobrir o novo, viver o indeterminado e descobrir a diversidade da vida.
Esse aprisionamento do pensamento acaba sendo aceito pela academia como algo
necessário. Já não buscamos mais uma saída e por isso é melhor permanecer enjaulados, com
a sensação de segurança que conhecemos, pois não sabemos trilhar outro caminho porque
acabamos “sem saída; ao menos em linha reta” (KAFKA, 1999, p. 83). A jaula do tecnicismo
e do conhecimento disciplinar é o nosso porto seguro. O medo do novo nos prende à jaula,
assim como fazia com Pedro Vermelho, e, paradoxalmente precisamos, como ele, buscar uma
saída em busca da liberdade, mesmo que isso signifique perder a sensação de segurança.
O medo é realmente a maior das amarras, é ele quem nos algema, nos faz ficar onde
estamos. Agimos como um pássaro jovem que, emplumado, sabe que é chegada a hora de sair
do ninho, mas teme a aventura do primeiro voo. Aventura essa que é sempre a mais difícil!
Não tememos a queda, porque ela é uma consequência e seu resultado é certo, o que nos
congela é o medo do voo que representa a aventura, o desconhecido, e este é a fonte de muitas
das inseguranças humanas.

4.3 Falando desse medo e (re)construindo uma saída

Pedro Vermelho procurava uma saída para o seu enjaulamento. Para tanto, se
adequou aos comportamentos humanos, às expectativas que os homens civilizados exigiam
dele. Sentia o desconforto natural por estar aprisionado, a segurança da jaula o fazia perder a
liberdade. A liberdade era o que ele procurava, mas junto dela, existiam o medo e a
insegurança. Medo e insegurança por saber que jamais teria de volta a liberdade da época de
macaco, agora era um ex-macaco.
Pedro precisou construir uma nova consciência - que deixava de ser aquela do símio
para adquirir as características racionais - a ser aceito na sociedade humana. Esse foi o desafio
que se apresentou: teria que ser macaco/humano – demens/sapiens. Não era a saída simplória
da fuga o meio de deixar a prisão, era a saída pelo alto da cela – representada pela necessidade
de evolução do animal –, construindo a sua identidade de ex-símio, hominizado:
96

Da perspectiva de hoje me parece que eu teria no mínimo pressentido que


precisava achar uma saída caso quisesse viver, mas que essa saída não devia
ser alcançada pela fuga (KAFKA, 1999, p. 87).
[...]
Não o fiz. O que teria sido ganho com isso? Teriam me prendido de novo,
mal a cabeça estivesse de fora, e trancafiado numa jaula pior ainda; ou então
poderia ter fugido sem ser notado até o lado oposto, onde estavam os outros
animais, quem sabe até às cobras gigantescas, e exalado o último suspiro nos
seus abraços; ou então conseguido escapar para o convés saltado pela
amurada: aí teria balançado um pouquinho sobre o oceano e me afogado
(KAFKA, 1999, p. 87-89).

O personagem indicava os inconiventes que poderiam resultar de uma saída que


significasse a sobrevivência – “precisava achar uma saída caso quisesse viver, mas que essa
saída não devia ser alcançada pela fuga” (KAFKA, 1999, p. 87) – e ele afirmava que não
tinha muito o que conseguir com uma fuga – “O que teria sido ganho com isso? Teriam me
prendido de novo, mal a cabeça estivesse de fora” (KAFKA, 1999, p. 87). O temor de ser
preso novamente tocava o ex-macaco, além do medo de ser presa fácil na mão de outros
animais ou encontrar a morte diante do poder devastador do oceano. Esses medos fizeram ele
enxergar que era a evolução a sua saída, transformar-se em um ser com essência primata e
costumes humanos. A nova consciência era firmada na necessidade da vida em comum, o
viver juntos como galhos de uma mesma árvore genealógica, partilhando o enraizamento
primata e alimentando-se de um tronco que significa a dialogia, onde a seiva é composta dos
elementos que compõem os grandes primatas.
O autor inseriu o elemento medo no seu narrador, mas será que o medo que atingiu o
personagem kafkiano estava presente somente nele? Não estaria também presente nos seus
mentores, nos homens que o hominizaram? A resposta é dada pelo próprio símio, ele via o
temor no enorme oceano espelhado nos olhos dos humanos:

Se eu fosse um adepto da já referida liberdade, teria com certeza


preferido o oceano a essa saída que se me mostrava no turvo olhar
daqueles homens. Seja como for, porém, eu os observava desde muito
tempo antes que viesse a cogitar nessas coisas — sim, foram as observações
acumuladas as que primeiro me impeliram numa direção definida (KAFKA,
1999, p. 89). (Destaque inserido)

O medo é um sentimento que caminha junto com a incerteza, uma ansiedade, um não
pertencimento, que pode ou não ter um fato gerador específico. Pedro Vermelho temia que
sua busca pela liberdade o levasse ao desconhecido, ao incerto, ao que não poderia controlar,
97

podendo ser capturado por “cobras gigantescas” ou cair no oceano e se afogar, entre tantas
outras coisas que poderiam ocorrer com a sua fuga. O ex-macaco ansiava pela liberdade, mas
temia os resultados da perda de segurança que viria com a liberdade, chegando ao ponto de
dizer:

Não, liberdade eu não queria. Apenas uma saída; à direita, à esquerda, para
onde quer que fosse; eu não fazia outras exigências; a saída podia também
ser apenas um engano; a exigência era pequena, o engano não seria maior. Ir
em frente, ir em frente! Só não ficar parado com os braços levantados,
comprimido contra a parede de um caixote (KAFKA, 1999, p. 86).

A discussão do medo a que se propõe esse texto é aquele que decorre do incerto, do
que desconhecemos, muito bem discutido pelas Ciências Sociais e que precisa ser apropriado
como objeto de estudo pela ciência jurídica. Qual a razão de se temer uma incursão mais
profunda na interdisciplinaridade e se abrir para outras ciências e saberes? Uma resposta pode
ser o temor que os amantes do Direito têm de experimentar o desconhecido.
Por não saber o que esperar, desenvolve-se um receio de dar um passo em busca do
que desconhecemos. O medo que não podemos definir é mais forte do aquele que temos
frente a algo que conhecemos e podemos determinar. Frente ao chamado “perigo real”
(BAUMAN, 2008, p. 8), em geral, reagimos melhor e mais rapidamente e retomamos o
comando das nossas ações, achamos que estamos mais seguros e enfrentar esse medo é mais
fácil.
O medo difuso, desvinculado, sem endereço e nem motivo claro (BAUMAN, 2008,
p. 8) é o que causa a maior dificuldade na reação. É essa a característica percebida atualmente
no Direito dito tradicionalista, que ao se isolar por meio da sua ritualística e se purificar por
sua dogmática, age de um modo a afastar os saberes difusos com os quais não sabe lidar.
Hodiernamente, o exercício da dialogia não é natural na ciência jurídica, ela caminha sempre
em busca do isolamento disciplinar.
Nós somos os responsáveis pela evolução ou formulação da ciência jurídica que
abraçamos e temos a tendência a temer o que não dominamos, ou acreditamos não ter uma
resposta pronta aos questionamentos da própria validade do que acreditamos saber. Receamos
o desconhecido, é como se a abertura a algo diferente e mais humano fragilizasse as certezas
epistemológicas construídas.
Aparentemente pensamos de forma tradicional e a interdisciplinaridade pode ser um
risco capaz de levar o Direito, tal como o concebemos, a uma morte científica. Mas essa
98

morte é transitória e caminha para um renascimento e para uma evolução. Por meio da
aproximação do conhecimento técnico com o objeto humano - que contém o Direito e está
contido na sua razão de existir -, poderá ocorrer o renascimento do Direito diante de uma
aparente crise, como lembra Bauman:

[...] viver num mundo líquido-moderno conhecido por admitir apenas uma
certeza – a de que amanhã não pode ser, não deve ser, não será como hoje –
significa um ensaio diário de desaparecimento, sumiço, extinção e morte. E
assim, indiretamente, um ensaio de não-finalidade da morte, de ressurreições
recorrentes e reencarnações perpétuas (BAUMAN, 2008, p. 12-13).

Da morte presumida renascerá um Direito mais plural, situado dentro de uma


dinâmica social que contém e está contida na condição humana. É o enfrentamento deste
desconhecido que se buscará trabalhar, dialogar o Direito com a Ecologia, com a Sociologia,
com a Filosofia, utilizando o cinema, a literatura etc. É o envolvimento das disciplinas umas
com as outras, se relacionando, influindo uma nos destinos das outras, construindo uma
interdisciplinaridade caminhante. Como ensina Streck (2013, p. 62), a ciência que buscamos
discutir não almeja uma justificativa na saída e nem na chegada da jornada interdisciplinar, e
sim, na travessia pelo conhecimento.
A existência da ciência jurídica com a sua epistemologia, com os seus conceitos e
dispositivos é necessária, o que pode mudar é a forma de perceber o papel deste arcabouço
científico19. Por exemplo, para o Direito o rito não ocorre por acaso, ele tem o papel de
reafirmar o papel da ciência jurídica, de simbolizar os seus dogmas. O rito e o Direito estão
entrelaçados, este pode usar aquele para justificar um isolamento disciplinar, mas também
para se aproximar do mitológico, do religioso, da arte. O rito é uma forma de ruptura no curso
normal da ação social:

A marca ritualística é ponto central na fenomenologia jurídica, mítica e


religiosa, por ser elemento comum e fundamental para as práticas do direito,
narrativas míticas e atos mágico-religiosos. No mundo contemporâneo, o rito
está presente em diversos eventos, ocupando espaços privilegiados,
constituindo-se tipos especiais de acontecimento, formalizados,
estereotipados e aptos a causar uma ruptura no fluxo da ação social, impondo
limitações temporais e definindo papéis e funções aos atores sociais
(OLIVEIRA, 2014, p. 46).

19
[...] cada ramo do conhecimento desenvolve sua linguagem própria e específica, para delimitar seu espaço de
atuação discursiva e cognitiva (REALE, 2007, p. 8).
99

Daí porque o rompimento dessa ritualística própria da ciência jurídica é tarefa de


difícil execução e desnecessária. É possível fazer com que a carga dogmática e os ritos
utilizados no Direito sejam meios para quebrar o isolamento científico, basta lançar um olhar
complexo sobre esses dispositivos.
Manter o que constitui a ciência jurídica, seus dogmas, rituais, formalidades, é uma
necessidade para não a descaracterizar, não é necessário propor um rompimento total com a
disciplinaridade. Os estudiosos do Direito podem trabalhar para instituir uma dialogia entre o
saber dito jurídico, outros saberes e outras ciências como a Sociologia, a Antropologia, a
História, a Psicologia, a Filosofia, entre outras. Essa reaproximação poderá ser útil como um
arejamento da ciência tecnicista, disciplinar, construindo um caminho capaz de sobrepor o
enclausuramento na jaula imaginária, que é a regra atual, por um Direito mais humanizado.
Essa jaula precisa ser confrontada, precisamos de algo novo, pois a segurança das
grades já não nos traz o benefício que acreditamos e esperamos. A ciência isolada para de
evoluir e resta perdida nas suas próprias amarras, presa no labirinto que ela mesma criou,
precisa de uma saída, como a que buscava Pedro Vermelho.
Para isso, precisamos suplantar o medo, (re)construir uma saída ao Direito da sua
prisão disciplinar. O Direito atual como ciência insular já não se basta, não se alimenta das
discussões sobre a busca da verdade real (processual), da correta dosimetria da pena, da busca
pela segurança jurídica formada por decisões padronizadas, por súmulas vinculantes20, por
repercussão geral. O desapreço pelo novo, pela especificidade de cada realidade humana, a
falta de compreensão e aproximação dessa ciência com a condição humana leva ao
empobrecimento do Direito.
O caminho a trilhar é o da ousadia, partindo à aventura do voo em meio ao
desconhecido para um destino diferente, não pior ou melhor, (re)ligando o Direito à condição
humana. O Direito precisa entender qual o seu objeto, tem que se aproximar das relações
humanas e sociais que afirma estudar. Tudo isso é necessário para conseguir cumprir o seu
papel, pacificar a vida em sociedade, entregando uma justiça que compreenda a condição
humana e seja compreendida pelos humanos, como o ideal de justiça enquanto valor.

20
Art. 103-A. O Supremo Tribunal Federal poderá, de ofício ou por provocação, mediante decisão de dois terços
dos seus membros, após reiteradas decisões sobre matéria constitucional, aprovar súmula que, a partir de sua
publicação na imprensa oficial, terá efeito vinculante em relação aos demais órgãos do Poder Judiciário e à
administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder à sua
revisão ou cancelamento, na forma estabelecida em lei (Constituição da República Federativa do Brasil).
100

4.4 O Direito enjaulado na sua disciplinaridade: uma ciência dotada de despropósito

A ciência jurídica contemporânea no Brasil tem sido o berço do isolamento


disciplinar. Montada sobre a dogmática, tem primado pelo conhecimento técnico-doutrinário,
e por essas características não oferece o repouso tranquilo às inquietações da sociedade e dos
próprios estudiosos do Direito, assim como não responde ao seu papel de ciência humana.
Nós nos acostumamos à segurança e à tranquilidade que o conhecimento científico disciplinar
nos permite. Do mesmo modo era a tranquilidade que Pedro Vermelho sentia vivendo entre os
homens civilizados. O ex-macaco afirma: “a tranquilidade que conquistei no círculo dessas
pessoas foi o que acima de tudo me impediu de qualquer tentativa de fuga” (KAFKA, 1999,
p. 87).
Lendo Morin, percebemos que precisamos reformar esse pensamento fragmentado,
que só serve para usos técnicos (2003a, p. 16). Ele precisa ser modificado para que o Direito
(re)conheça a complexidade da condição humana que - dentro das relações trazidas à sua
análise, por meio das pretensões resistidas - dever ser a sua lavra, o seu objeto de estudo. No
linguajar jurídico, esse é o seu mister.
Não é uma tarefa fácil ou simples, mas a permanência da ciência jurídica como
conhecemos hoje, praticando a fragmentação dos saberes em disciplinas, prejudica a sua
própria evolução como ciência social aplicada. A desinformação sobre a humanidade - que é a
matéria-prima do conhecimento jurídico - requer uma integração pelo próprio conhecimento
(MORIN, 2003a, p. 18), que pode ser contemplado com novos paradigmas, os que são
regulados pela interdisciplinaridade e pela prática do diálogo dos saberes. É preciso pensar de
forma a reunir a informação. O conhecimento não é completo ou complexo se é praticado de
uma forma que aparta os saberes em grades estanques e afastadas, como se percebe nos cursos
de graduação.
Uma reforma do pensamento – como a proposta por Edgar Morin - fundada em
novos paradigmas, revendo a capacidade do homem para organizar os saberes, pode resultar
em uma reforma do próprio ensino, como propõe o autor de A cabeça bem-feita: “devemos
reformar o ensino para reformar o pensamento e a reforma do pensamento é o meio de
reformar o próprio ensino” (2003a. p. 19).
Como um postulado feito a priori para regulamentar as condutas a posteriori, a
norma jurídica precisa ser integrada com o fato social por uma hermenêutica que consiga
rejuntar os saberes e a aproxime da complexidade humana. Não é o caso de propor o fim das
101

disciplinas ou abolir qualquer forma clássica de organização do conhecimento. O que deve


ocorrer é uma abertura doutrinária aos diversos saberes técnicos para dialogarem com saberes
ditos ordinários e a ciência se revestir do pó da jornada humana. Os saberes precisam dialogar
para formar pessoas capazes de pensar sobre a condição humana, para compreendê-la.
Por que não dialogar com a literatura como um meio de fazer com que os estudiosos
do Direito possam acessar as diversas formas de conhecimento, tecendo uma integração da
norma por meio de um conhecimento científico mais dinâmico, entendendo o homem pelo
uso de uma linguagem que nos permite acessar facilmente a diversidade da condição humana?
Utilizemos o discurso de Edgar Morin ao falar sobre o papel da literatura no Século XIX:

[...] enquanto o individual, o singular, o concreto e o histórico eram


ignorados pela ciência, a literatura e, particularmente, o romance – de Balzac
a Dostoievski e a Proust – restituíram e revelaram a complexidade humana.
As ciências realizavam o que acreditavam ser sua missão: dissolver a
complexidade das aparências para revelar a simplicidade oculta da realidade;
de fato, a literatura assumia por missão revelar a complexidade humana que
se esconde sob as aparências de simplicidade. Revelava os indivíduos,
sujeitos de desejos, paixões, sonhos, delírios; envolvidos em
relacionamentos de amor, de rivalidade, de ódio; inseridos em seu meio
social ou profissional; submetidos a acontecimentos e acasos, vivendo seu
destino incerto (MORIN, 2003a, p. 90).

O uso da literatura pode, portanto, ser uma ferramenta para sairmos da nossa jaula
imaginária e fazer uma ciência jurídica praticante da interdisciplinaridade, que se constrói
todos os dias pela relação dialógica dos saberes e pelo diálogo das pessoas envolvidas com a
evolução do Direito.
Para o pensamento complexo, a literatura é uma forma de praticar a
interdisciplinaridade nas ciências, porque:

Todas as obras-primas da literatura foram obras-primas de complexidade: a


revelação da condição humana na singularidade do indivíduo (Montaigne), a
contaminação do real pelo imaginário (o Dom Quixote, de Cervantes), o jogo
das paixões humanas (Shakespeare) (MORIN, 2003a, p. 90).

A literatura pode fazer a ciência transcender os seus limites, ela tem esse poder
porque, segundo Morin (2003a, p. 90), “revela o valor cognitivo da metáfora, que o espírito
da ciência rejeita com desprezo”.
Ela funcionaria como as asas, no mito de Ícaro. Segundo o mito, Dédalo – pai de
Ícaro – construiu um labirinto para prender o Minotauro, que era fruto da traição da esposa do
102

Rei Minus (Pasífae) com um touro divino. Após Teseu matar o Minotauro, Ícaro e seu pai
Dédalo são aprisionados no labirinto pelo Rei Minus. A única forma de sair do seu
enclausuramento era por cima. Para tanto, Ícaro e o pai constroem asas de cera de abelha com
penas de gaivota. Em razão do material usado, Dédalo avisa a Ícaro que eles terão que voar a
uma altura prudente, nem tão baixo a ponto de molhar as penas, tampouco alto demais para
não correr o risco de ocorrer o derretimento da cera pelo sol. Ícaro, tomado pela vontade de
voar cada vez mais alto, não ouviu o pai e acabou se aproximando demais do sol. Isto fez a
cera derreter e Ícaro caiu no mar (FERREIRA, 2015, p. 1-3).
A literatura nos possibilitaria sobrevoar acima da barreira disciplinar, com fizeram as
asas para Dédalo e Ícaro, observando o cuidado de construir uma dialogia interdisciplinar que
observe o equilíbrio – simbolizado por Dédalo –, e evite alçar um voo sem os devidos
cuidados que pode frustrar o objetivo final, que é a saída da prisão, como aconteceu com
Ícaro. A literatura nos fará alçar o voo para ver além do ensino técnico e assim, perderemos o
medo dos conhecimentos - que parecem distantes da nossa forma de observar o saber - como
algo categorizado ou catalogável.
E por que a escolha da literatura? Falando sobre os romances, uma das formas de
expressão literária, Edgar Morin diz que:

[...] o milagre de um grande romance, como de um grande filme, é revelar a


universalidade da condição humana, ao mergulhar na singularidade de
destinos individuais localizados no tempo e no espaço (2003a, p. 43).
[...]
Livros constituem “experiências de verdade”, quando nos desvendam e
configuram uma verdade ignorada, escondida, profunda, informe, que
trazemos em nós, o que nos proporciona o duplo encantamento da
descoberta de nossa verdade na descoberta de uma verdade exterior a nós,
que se acopla a nossa verdade, incorpora-se a ela e torna-se a nossa verdade
(2003a, p.48).

A nossa jaula disciplinar começa a se montar dentro do ambiente da formação dos


que deverão compreender a fenomenologia das relações humanas, analisadas pelo Direito. Se
confirma quando precisamos estudar a norma, contrapô-la aos fatos sociais presentes nas
chamadas pretensões resistidas, as quais são levadas à análise do Estado, através do Poder
Judiciário. As relações humanas se apresentam na forma de pretensão resistida e nós, presos
pela dogmática tecnicista, nos limitamos a interpretar os fatos a partir da norma e não de
entender a norma pela compreensão dos fatos. Compreendê-los é descortinar a razão de ser da
ciência jurídica.
103

O conhecimento da ciência jurídica é disjuntivo, a interpretação da norma é montada


sobre os aspectos técnicos e a verdade que impera - embora chamada de real - é aquela
meramente processual, pois como diz o brocardo que vale na ciência jurídica atualmente: “o
que não está nos autos não está no mundo”.
Dividimos uma ciência em princípios e pressupostos; entre doutrina e jurisprudência;
entre norma em sentido estrito e norma com conceito amplo; e o subjetivo das relações
humanas continua a caminhar longe do técnico-jurídico. Chegamos a dividir a ciência jurídica
em “matéria de direito” e “matéria de fato”; estamos realimentando a nossa jaula disciplinar
que aprisiona a própria predisposição dos futuros bacharéis a desenvolver uma ciência
tecnicista e fragmentada; fechamos os seus olhares à possibilidade de formular um
conhecimento científico mais humano, valendo a ressalva já feita por Arantes e Schettini
(2014, p.13):

A insistência (irritante) do ensino jurídico de se constituir dentro da sala de


aula em total dissonância com a realidade contemporânea, incluindo nela as
próprias práticas judiciárias, leva a uma formação precária do aluno que não
consegue compreender a utilização dos conceitos, repetindo a cisão entre
“questões de fato” e “questões de direito” como se fenomenologicamente
isso fosse possível.

O Direito segue sendo uma produção dinâmica e humana. Os desafios do Direito nas
sociedades pós-modernas dotadas de relações precárias e líquidas - como bem definidas por
Bauman -, se instituem no núcleo familiar, representando um grande desafio ao papel da
ciência jurídica, como afirma o autor de Modernidade Líquida, ao citar Ulrich Beck:

Pergunte-se o que é realmente uma família hoje em dia? O que significa? É


claro que há crianças, meus filhos, nossos filhos. Mas, mesmo a paternidade
e a maternidade, o núcleo da vida familiar, estão começando a se desintegrar
no divórcio…Avós e avôs são incluídos e excluídos sem meios de participar
nas decisões de seus filhos e filhas. Do ponto de vista de seus netos, o
significado das avós e dos avôs tem que ser determinado por decisões e
escolhas individuais (BAUMAN, 2011a, p. 18).

Essas relações pós-modernas exigem daqueles que se debruçam sobres os conceitos e


a principiologia21 do Direito, uma nova percepção fundada mais na complexidade de um

21
Princípios Gerais do Direito, que segundo Miguel Reale: enunciados lógicos admitidos como condição ou base
de validade das demais asserções que compõem dado campo do saber (...)podemos dizer que os princípios são
“verdades fundantes” de um sistema de conhecimento, como tais admitidas, por serem evidentes ou por terem
104

conhecimento simplificado (MORIN, 2000), no intuito de buscar uma saída da nossa jaula
imaginária. Esta é formada pela ciência tradicional e pela técnica, reino primaz do
conhecimento fragmentado e disciplinar, ou melhor, na lição acurada de Streck “o domínio da
ciência e da técnica, marca da ‘modernidade’, em vez de libertar o homem, acabou por aliená-
lo, por ‘coisificá-lo’” (2013, p. 62).
Esse homem coisificado é o objeto e o problema que se apresenta a uma nova ciência
jurídica, a qual prepara os estudiosos à formulação de um conhecimento mais focado na
adição do novo, do que na exclusão daquilo que não é tecnicamente válido. É preciso
restabelecer a nossa ligação com a literatura. Direito e literatura foram afastados pelo
juspositivismo e esta separação transformou o Direito na ciência da ritualística rígida, da
simbologia, da linguagem própria, da dogmática ininteligível.
A revisão que se propõe é aquela que reaproxima o reino do fantástico, do complexo,
do inesperado - representado pela literatura -, à ciência jurídica e a sua técnica. É preciso
repensar o Direito e “[...] para se (re)pensar o Direito, na complexidade e com a sensibilidade
que lhe exige, há que se levar em conta a imaginação literária” (CHUEIRI, 2008, p. 63).
Causa alento ver como as novas discussões, a releitura das obras literárias, que
reaproximam o Direito da complexidade humana, têm reconstruído o amálgama que foi
cindido pelo positivismo jurídico. Não é possível conceber como duas faces da verdadeira
humanidade - que podem e devem se comunicar de forma recursiva - resistem completamente
separadas. Hoje o que se experimenta é a religação dessas modalidades da criação humana: a
ciência jurídica com a literatura; a literatura como forma de compreensão do Direito; o Direito
como forma de interpretação da literatura; um interpretado pelo outro; o outro compreendido
no um. Precisamos de Direito e literatura, sem condicionantes, para compreender o homem
contemporâneo.
O homem contemporâneo já não é mais aquele que era liderado pela vontade do rei,
posta dentro da norma. A mera lei em estado bruto já não repercute mais. O homem novo
anseia por um Direito mais ligado ao “pode ser” do que de uma norma prescritiva de condutas
individuais, o “deve ser” já não se impõe.
As normas são a maior representação do poder estatal que se impõe sobre o humano,
é a simbologia representativa de um poder, disjuntiva e excludente (GURGEL, 2013, p. 75).
Nós já não deveremos usar a premissa de interpretar o Direito para compreender os fatos,

sido comprovadas, mas também por motivos de ordem prática de caráter operacional, isto é, como pressupostos
exigidos pelas necessidades da pesquisa e da praxi. (2007, p. 614)
105

precisamos compreender os fatos para sermos capazes de interpretar o Direito (STRECK,


2013, p. 77), voltando-o à humanidade do homem.
Cabe a cada um que adotou a ciência jurídica como paixão, discuti-la como uma
caminhada entre os saberes e as vivências. Deve-se estender a sua compreensão a um nível
em que as realidades vividas sejam mais importantes do que a ciência metodológica,
disciplinar, signatária do tecnicismo exagerado.
Esta forma de enxergar o homem por intermédio da dogmática jurídica - que nos faz
olhar pela janela e não enxergar o que se passa perifericamente, vendo apenas o que a janela
permite - é o desafio a ser vencido pelo Direito. O convite é para utilizar a nossa visão
periférica, sobrevoar além da janela disciplinar da nossa jaula imaginária e percebermos o
espetáculo que se passa além da visão fragmentada. Enfrentemos o medo do desconhecido, do
resultado incerto, valorizemos a caminhada como o mais importante.
O século XXI trouxe muitas inovações e a ideia de ciência que escuta, dialoga e
estuda a parte (o homem) para entender o todo (a sociedade) - compreendendo esta ao
apropriar-se da humanidade do humano -, deve ser exercitada, assim como deve analisar a
sociedade (todo) para atingir a compreensão sobre o homem (parte). Precisamos empreender
o voo interdisciplinar às outras áreas do saber.

4.5 (In)conclusões

Tecer ao final do texto algum tipo de construção conclusiva serve muito mais para
aplacar a nossa necessidade de segurança, sendo um passo de volta à jaula imaginária, porém,
não precisamos de uma(s) resposta(s), preferimos o convite ao desconhecido. Lancemo-nos
na aventura de uma jornada desconhecida pelo saber, a interdisciplinaridade caminhante, para
aproximarmos a dogmática do Direito e a ritualística jurídica da imaterialidade das histórias
literárias.
Precisamos do rocambolesco das comédias. Necessitamos sentir o rejuvenescer das
aventuras da Volta ao mundo em oitenta dias22, dos conflitos humanos e da luta pela
sobrevivência da Guerra dos Tronos23. Nos falta o realismo mágico de Gabriel Garcia

22
A jornada de Phileas Fogg e seu ajudante Passepartout, que largam uma vida comum e regrada para tentar dar
a volta ao mundo em oitenta dias é inspiração para buscarmos o desconhecido (VERNE, 2008, 243p.).
23
Primeiro volume da série Crônicas de Gelo e Fogo de George R.R. Martin, narra o início da jornada da família
Stark, vítima da guerra pelo poder e da lealdade do patriarca Eddard Starck, o Rei do Norte. (MARTIN, 2010,
587p.).
106

Márquez e sua Macondo24, uma dose da inocência provocadora do Pequeno Príncipe de


Saint-Exúpery25. Essas são obras humanas que expõem a complexidade da vida e podem nos
ajudar a ascender o nosso nível de compreensão sobre as relações humanas, as quais devem
ser entendidas para que sejam integradas com a norma pelos que cultuam o Direito.
Um Direito mais aberto à diversidade é um Direito mais humanizado, portanto, mais
propenso à ser compreendido pelos homens que protagonizam os fatos jurídicos, decorrentes
das relações sociais estudadas pela ciência jurídica.

24
É a história da família Buendía, através do olhar da centenária Úrsula, como um clã de solitários cujas
caraterísticas humanas estão intimamente ligadas ao nome dado a cada um deles, e cujos segredos estão
encerrados em pergaminhos que só serão desvendados quando o último membro da estirpe estiver no estertores
da morte (MARQUÉZ, 2009, 447p.).
25
As ponderações e aventuras do Pequeno Príncipe constituem uma narrativa acessível às crianças na mais tenra
idade e são também objetos de teses e trabalhos de pesquisadores em todo o mundo, material discutido da
filosofia ao direito, da cosmologia à ecologia (SAINT-EXUPÉRY, 2015, 96p.).
107

5 O aperto das mãos

O que dizer do ato de apertar as mãos? Em muitas culturas - e no Brasil não é


diferente -, apertar a mão é um sinal de cordialidade, de harmonia e até de franqueza. Deste
ponto de vista, ao apertar as mãos estamos ritualizando um ato mecânico, dando-lhe um
sentido social.
Do ponto de vista da convivência em sociedade, onde este ato é empregado como
símbolo de cordialidade, o ato de negar um aperto de mãos é prova inexcusável de indiferença
ou de má querência. Mas o que Kafka quis ao inserir o trecho destacado abaixo, partindo da
fala do narrador/ex-macaco Pedro Vermelho na sua narrativa?
A história do ex-macaco que narra a sua trajetória desde as selvas até a sobrevivência
entre os humanos, passando pelo mimetismo pelo qual o narrador de Um relatório para uma
academia admite que copiou muitos atos tipicamente humanos, como mascar o fumo,
consumir bebidas alcóolicas e cuspir, com o intuito de achar uma saída para o seu
aprisionamento. Dentre todos os atos “humanos”, o autor joga luz sobre o aperto das mãos,
dizendo que é a primeira prática humana. Kafka afirma, por meio do seu Pedro Vermelho, no
trecho abaixo:

No sentido mais restrito, entretanto, posso talvez responder à indagação dos


senhores e o faço até com grande alegria. A primeira coisa que aprendi foi
dar um aperto de mão; o aperto de mão é testemunho de franqueza; possa eu
hoje, quando estou no auge da minha carreira, acrescentar àquele primeiro
aperto de mão a palavra franca. Não ensinará nada essencialmente novo à
Academia e ficará muito aquém do que se exigiu de mim e daquilo que,
mesmo com a maior boa vontade, eu não posso dizer — ainda assim deve
mostrar a linha de orientação pela qual um ex-macaco entrou no mundo dos
homens e aí se estabeleceu (KAFKA, 1999, p. 78-79).

O autor informa que a primeira coisa que o macaco em processo de hominização


aprendeu a fazer foi apertar as mãos dos seus conviventes. Como não podia falar - em época
pretérita ao relato -, informa que foi esse ato a sua primeira amostra de franqueza, aduzindo
ao final, que o aperto de mão estabeleceu a “linha de orientação pela qual um ex-macaco
entrou no mundo dos homens e aí se estabeleceu” (KAFKA, 1999, p. 80).
Kafka, então, expõe uma das práticas sociais diuturnas, mas cuja importância e
significações nos passam despercebidas.
108

Pensando no ato como uma espécie de ritual de iniciação do ex-macaco na relação


com os humanos, podemos traçar um paralelo e lembrar que em toda a sociedade existem
critérios de aceitação para entrada e manutenção de um indivíduo no seio da coletividade. Em
algumas culturas se pratica o beijo no rosto, como fazem os Árabes; ou o toque feito pelo
contato entre nariz e testa dos interlocutores, comum na cultura maori da Nova Zelândia.
Existem outros povos - inclusive os indígenas brasileiros - para quem o sinal de cordialidade
aparece por meio de outras formas de comunhão. Além da junção das mãos, há outros rituais
como: a dança; o compartilhamento do ato de fumar cigarros ou cachimbos; o oferecimento
da comida; o compartilhamento das esposas.
A sociedade não desdenha, em geral, de certas convenções e dos significados de
alguns rituais. Muito já se escreveu sobre a forma ou uma dita ciência que existe no apertar as
mãos. Entendemos, entretanto, que Kafka quis salientar o quão hominizador para Pedro
Vermelho seria aderir aos ditos rituais sociais. Para este último, o aperto de mãos foi o sinal
de franqueza que enviou aos humanos para que estes entendessem e aceitassem o seu desejo
de encontrar uma saída à prisão na qual foi encarcerado. Pedro buscava a aceitação dos
humanos.
O macaco narrador da obra queria, com o aperto das mãos, demonstrar que estava
desarmado, pronto para aceitar as regras da convivência humana. Há muito tempo, os
humanos estabeleceram esse ritual, pressuposto à conversa harmoniosa entre os que querem
fazer dialogar as vivências. O gesto mecânico assumiu a função de ritual simbólico de
harmonização e prelúdio à troca de experiências, à formação de um diálogo, à disposição a
concórdia. Remontando aos primórdios da nossa evolução, os ancestrais dos homo sapiens
portavam armas e com elas caçavam e duelavam entre si. Quando encontravam outros da
mesma espécie e não queriam lutar, passaram a estender as mãos para demonstrar que
estavam desarmados e prontos a uma aproximação pacífica, sendo o primeiro passo a um
possível abraço.
É aceitação de um pelo outro, a reafirmação por eles da nossa proximidade, como
diz o texto bíblico do Canto dos Degraus de Davi: “Oh! Quão bom e quão suave é que os
irmãos vivam em união. [...] porque ali o Senhor ordena a bênção e a vida para sempre”
(Salmos 133:1-3).
Há a necessidade de união capaz de possibilitar a manutenção da espécie, a
pacificação social, a harmonia entre as pessoas - para evitar as disputas guiadas pela
109

incompreensão e pelo desconhecimento sobre nós mesmos e sobre o outro -, e, por fim, a paz
necessária à “vida para sempre”. Tudo isto está inserido no ritual de apertar as mãos.
Também do ponto de vista do Direito, o ato de apertar as mãos tem significação. Se
vivemos sob o império da formalização ou formalidade dos atos jurídicos, é certo que a Lei26
aceita a existência do contrato verbal, da avença tácita e mesmo de um contrato formal por
meio do gesto. Nesse contexto, o apertar das mãos pode resultar de um negócio, de um acordo
diplomático, de um protocolo de intenções. Essa é uma das formas de selar uma contratação e
é aceita como prova de negócio jurídico, desde os tempos mais antigos.
É também, em algumas sociedades, a forma de selar a paz entre os povos, tendo
como representação final o aperto das mãos. Situação histórica em que o encontro das mãos
assumiu enorme significado foi o célebre aperto de mãos entre o líder palestino Yasser Arafat
e o chefe de Estado Israelense Yitzhak Rabin - que ocorreu em 13 de setembro de 1993 -,
considerado como um símbolo da reaproximação, que culminou com a concessão aos dois do
Prêmio Nobel da Paz daquele ano:

Figura 3 – Aperto de mãos27

Houve quem entendesse que esse ato praticado pelos dois interlocutores, tentando
fazer avançar as negociações de paz - entre povos que historicamente lutam por suas
conquistas, em polos opostos -, simbolizava uma nova esperança de paz, tentando conceber o
relacionamento harmonioso entre culturas diferentes. Outros acreditaram que não ocorreu

26
Adotamos para este ensaio o conceito de lei no seu sentido amplo, para englobar toda norma estabelecida para
tentar regular o encontro das vivências.
27
Disponível em: <http://www.museudeimagens.com.br> Acesso em: 26/11/2015.
110

nada além de uma articulação, resultado de uma ação de marketing - feita pelo então
presidente americano, Bill Clinton - para fazer parecer que o seu país teria liderado um
esforço de paz. Porém, ele era um dos apoiadores e financiadores do governo e do exército
Israelense nas guerras históricas contra o povo palestino. A diversidade de interpretações
sobre esta imagem mostra a simbologia do ato e ainda é uma prova de como o olhar lançado
sobre o ritual é multifacetado. É impresso pelas experiências das pessoas que condicionam
diferentes modos de compreender um aperto de mãos, onde cada ser enxerga o ato sob
perspectivas diversas.
Não fogem aos literatos e às suas narrativas nada do que é humano, do mais simples
ato ao mais solene devaneio. Como nos ensina Todorov, a literatura pode nos propiciar muito:

[...] a literatura pode muito. Pode estender-nos a mão quando estamos


profundamente deprimidos, conduzir-nos até os seres humanos que nos
circundam, faz-nos compreender melhor o mundo e nos ajuda a viver. Não
quer ser um modo para curar o espírito; todavia, como revelação do mundo,
também pode, ao longo do caminho, transformar-nos no profundo
(TODOROV apud VESPAZIANI, 2015, p. 79).

Recorremos à literatura para que ela nos conduza aos seres humanos que nos
circundam e faça com que compreendamos como essas pessoas nos passam mensagens.
Recorremos também para que apreendamos o motivo que levou Kafka a inserir o aperto de
mão como o primeiro ato humano - copiado pelo seu símio humanizado -, o entendendo como
um sinal de franqueza.
Nesse aspecto, a literatura possui similitudes com a imagem. Na verdade, trabalha
com a imagem metafórica, a nos deixar interpretações das mais diversas e despertar a nossa
curiosidade, assim como a necessidade de compreender mais e melhor. Na obra literária, o ato
de juntar as mãos pode corresponder a uma pactuação, como aquela feita por Guiomar e Luís
Alves ao compartilharem a sua ambição em A mão e a luva, de Machado de Assis (2015).
Na obra do Bruxo do Cosme Velho, Guiomar - moça modesta, mas com pretensões
de ascensão social - possui três pretendentes: Estevão, homem simplório, mas com
sentimentos sinceros; Jorge, sobrinho da baronesa de quem Guiomar é afilhada, que tem a lhe
oferecer um amor pueril e lascivo; e Luís Alves, homem resolvido e ambicioso. Embora
chegue a firmar compromisso com Jorge para agradar a baronesa, Guiomar acaba casando
com Luís Alves, que a pedira em casamento depois de Jorge. O motivo da escolha foi a
111

ambição comum de ambos e, para tanto, o casal chega a fechar um pacto. Nele, o encontro
das mãos é requisito, como relatado por Machado de Assis (2015, p. 59):

O destino não devia mentir nem mentiu à ambição de Luís Alves. Guiomar
acertara; era aquele o homem forte. Um mês depois de casados, como eles
estivessem a conversar do que conversam os recém-casados, que é de si
mesmos, e a relembrar a curta campanha do namoro, Guiomar confessou ao
marido que naquela ocasião lhe conhecera todo o poder da sua vontade.
- Vi que você era homem resoluto, disse a moça a Luís Alves, que,
assentado, a escutava. - Resoluto e ambicioso, ampliou Luís Alves sorrindo;
você deve ter percebido que sou uma e outra coisa.
- A ambição não é defeito. - Pelo contrário, é virtude; eu sinto que a tenho, e
que hei de fazê-la vingar. Não me fio só na mocidade e na força moral; fio-
me também em você, que há de ser para mim uma força nova.
- Oh! Sim! Exclamou Guiomar. E com um modo gracioso continuou: - Mas
que me dá você em paga? Um lugar na câmara? Uma pasta de ministro? - O
lustre do meu nome, respondeu ele.
Guiomar, que estava de pé defronte dele, com as mãos presas nas suas,
deixou-se cair lentamente sobre os joelhos do marido, e as duas ambições
trocaram o ósculo fraternal. Ajustavam-se ambas, como se aquela luva
tivesse sido feita para aquela mão. (Destaque inserido )

De fato, a mão atada a do outro pode ser sinal de franqueza, prova de pactuação e
ainda, não menos importante, demonstração de confiança e cumplicidade como aquela
relatada por G.H., no texto magistral de Clarice:

– Dá-me a tua mão. Porque não sei mais do que estou falando. Acho que
inventei tudo, nada disso existiu! Mas se inventei o que ontem me aconteceu
– quem me garante que também não inventei toda a minha vida anterior a
ontem? Dá-me a tua mão:
– Dá-me a tua mão: Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que
sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe
entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e
que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia, por mais juntos que estejam, existe um intervalo de
espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria
primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a
respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de
silêncio.
Não era usando como instrumento nenhum de meus atributos que eu estava
atingindo o misterioso fogo manso daquilo que é um plasma – foi
exatamente tirando de mim todos os atributos, e indo apenas com minhas
entranhas vivas.
Para ter chegado a isso, eu abandonava a minha organização humana – para
entrar nessa coisa monstruosa que é a minha neutralidade viva.
– Sei, é ruim segurar minha mão. É ruim ficar sem ar nessa mina desabada
para onde eu te trouxe sem piedade por ti, mas por piedade por mim. Mas
112

juro que te tirarei ainda vivo daqui – nem que eu minta, nem que eu minta o
que meus olhos viram.
Eu te salvarei deste terror onde, por enquanto, eu te preciso. Que piedade
agora por ti, a quem me agarrei. Deste-me inocentemente a mão, e porque eu
a segurava é que tive coragem de me afundar. Mas não procures entender-
me, faze-me apenas companhia. Sei que tua mão me largaria, se soubesse
(LISPECTOR, 1964, p. 133).

Essa cumplicidade também está presente no apertar das mãos narrado por Pedro
Vermelho, a partir do instante em que ele passa a praticar o ritual do cumprimento pela mão.
Espera reciprocidade não só no agir, mas nos interesses dos humanos. Demonstra a sua
cumplicidade para com a humanidade e aceitação, por parte do ex-macaco, das regras para
viver na sociedade.
O aperto de mãos também pode, pela sua força simbólica, levar alguém a assumir
que fazia parte de um plano de traição, como foi o caso da “donzela virginal” representada no
poema Romance do Pavão Misterioso (FERREIRA, s/d). Nesse texto, em versos de cordel, é
relatada a história de uma condessa que agia com más-intenções para com o homem que a
amava, o Evangelista. A traição havia sido planejada, de forma ardil, pelo pai da moça. Mas
arrependida - sentimento representado e aguçado por um aperto das mãos que lhe foi
franqueado por Evangelista -, a moça pede perdão ao amado, demonstra arrependimento e
este, além de perdoá-la, a pede em casamento (FERREIRA, s/d, p. 26-27):

[...]
Às quatro da madrugada
Evangelista desceu
Creuza estava acordada
Nunca mais adormeceu
A moça estava chorando
O rapaz lhe apareceu.

O jovem cumprimentou-a
Deu-lhe um aperto de mão
A condessa ajoelhou-se
Para pedir-lhe perdão
Dizendo: — Meu pai mandou
Eu fazer-te uma traição.

O rapaz disse: — Menina


A mim não fizeste mal
Toda a moça é inocente
Tem seu papel virginal
Cerimônia de donzela
É uma coisa natural.

— Todo o seu sonho dourado


113

é fazer-te minha senhora


se quiseres casar comigo
te arrumas e vamos embora
senão o dia amanhece
e se perde a nossa hora.
[...]

Na literatura, apertar as mãos também representa o final de uma jornada, a certeza do


fim de algo importante, como ocorre em Uma amizade sincera, onde Clarice Lispector narra
uma amizade que começa com o excesso de palavras, muito a conversar, histórias para
compartilhar; passa pela escassez das conversas, apesar da coabitação física e do
distanciamento emocional; e acaba encerrada em uma viagem de férias, mas havia terminado
muito tempo antes. Os protagonistas o sabiam porque eram amigos sinceros e cônscios se
respeitavam. Neste caso, o aperto das mãos não é o símbolo do fim, e sim o sinal de que,
mesmo distante, estarão ligados para sempre pela amizade:

A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás, ele também ia


ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto.
Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que
não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos
sinceros (LISPECTOR, 2011, p. 2).

No caso da narrativa de Clarice, a convivência em nada ajudou no fortalecimento da


amizade entre os protagonistas. Inverso disso eles sabiam que a distância era algo necessário
para manter a sinceridade da amizade que estabeleceram, porque a coabitação e a
proximidade fizeram as palavras secarem, porque aquilo que é vivido plenamente tende a
perecer.
A literatura tem sido o aporte para que possamos pensar sobre atos que reproduzimos
de forma mecânica e que, inconscientemente ou não, são tratados como condutas exigíveis
para o trato social. Melhor ainda, como práticas necessárias à pacificação social e que
funcionam como um impulso ao estabelecimento de uma relação social que se inicia.
Retomando o conto, Kafka nos legou a senha para compreender que a hominização
de Pedro Vermelho não foi um ato de passividade. É uma metáfora da aceitação mútua entre
humanidade e animalidade, do uno-múltiplo que é o homem. Para o ex-macaco, o aperto das
mãos funcionou, assim como nas relações entre os humanos, como uma senha para aceitação
e prova do pacto de convivência, firmado entre os homens racionais e o agora ex-macaco.
As mãos são o nosso cartão de visitas à humanização das relações, quando usadas
para, ao se encontrar, demonstrarem franqueza, concordância e o desarmamento das
114

intenções. Somos seres que existimos pela verdade nas nossas vivências e o Direito é uma
forma de ordenarmos esses encontros de vivências, as convivências. O homem estabelece,
portanto, um ritual que simboliza a convivência, que é o pacto de dialogia das vivências.
Versar sobre as significações dos atos ritualísticos que hoje parecem banais é tarefa
que a literatura cumpre, descompromissada com os prazos e as técnicas científicas mais
apuradas, como um meio de representação da nossa vida. A linguagem ensaística do nosso
texto tem exatamente o mesmo desiderato, deixar o leitor livre para interpretar.
Talvez seja pretensão analisar a vida em sociedade a partir do fragmento de uma fala
da narrativa kafkiana, mas o pensamento complexo nos permite fazer isso ao aplicarmos o
princípio hologramático: a parte está no todo e o todo é representado pela parte.
Pedro Vermelho relata a odisseia da sua vida, da captura quando ainda era selvagem
até a aceitação e vida entre os humanos. Essa convivência é representada de forma simbólica
no aperto das mãos.
A sociedade - na sua pressa cotidiana, no cumprimento do grande número de tarefas
que a vida atual nos obriga - tem relegado o significado de certos rituais, transformando-os
em meros atos mecânicos, cuja representação não passa de uma convenção social que muitos
preferem abandonar. O aperto das mãos estaria, portanto, no mesmo patamar do bom dia, do
obrigado, com o acréscimo de ser a representação física do desejo de conviver. O ato marca o
limiar das convivências dos humanos e essa capacidade de conviver é parte do muito que nos
torna humanos.
Esse é o espírito da imagem apresentada pelo autor, o homem se reencontra com o
seu ancestral e o símio aceita pacificamente as regras estabelecidas pela humanidade. O
homem está confrontado com a sua porção animal e esta animalidade é parte da condição
humana, como nos diz Edgar Morin (2012). Humanidade e animalidade selam o seu encontro
por meio da imagem do aperto das mãos entre o símio, agora hominizado, e os homens.
A literatura dos grandes autores tem o poder de legar ponderações que muitos olhos
não conseguem enxergar. Kafka parece a frente do seu tempo por fazer com que a academia
precise de um relato de um primata para entender o processo de hominização e este processo
de hominização é uma metáfora da nossa própria humanização. O aperto das mãos e o relato
do ex-macaco para a academia são o encontro entre o sapiens e o demens (MORIN, 2012).
115

III – MAIS HUMANOS

Dentro de mim há muitos


Em mim eu e os outros convivemos
Ao olhar neles, me vejo por eles
Sou humano, porque somos muitos
116

1 Nós, Bucéfalos!

1.1 O Bucéfalo na narrativa de O novo advogado

Kafka entabula, no conto O novo advogado, uma narrativa na qual ele toma de
empréstimo o lendário cavalo de Alexandre da Macedônia – Bucéfalo -, representando um
advogado. Na obra, o autor chama esse advogado de Dr. Bucéfalo, no que nos parece o uso
proposital de um nome histórico/mitológico de uma figura - marcada por algumas
características, entre eles ser vaidoso, irascível, indomável e imponente - com características
históricas do Bucéfalo de Alexandre Magno (CUSTÓDIO, 2006).
O autor faz a descrição amiúde do seu Dr. Bucéfalo e como o conto é pequeno e
precisamos trazer ao leitor o conhecimento do conto à compreensão deste texto, optamos pela
transcrição total (KAFKA, 1999, p. 7-8):

Temos um novo advogado, o dr. Bucéfalo. Seu exterior lembra pouco o


tempo em que ainda era o cavalo de batalha de Alexandre da Macedônia.
Seja como for, quem está familiarizado com as circunstâncias percebe
alguma coisa. Não obstante, faz pouco eu vi na escadaria até um oficial de
justiça muito simples admirar, com o olhar perito do pequeno frequentador
habitual das corridas de cavalos, o advogado quando este, empinando as
coxas, subia um a um os degraus com um passo que ressoava no mármore.

Em geral a ordem dos advogados aprova a admissão de Bucéfalo. Com


espantosa perspicácia diz-se que, no ordenamento social de hoje, Bucéfalo
está em uma situação difícil e que, tanto por isso como também por causa do
seu significado na história universal, ele de qualquer modo merece boa
vontade. Hoje — isso ninguém pode negar — não existe nenhum grande
Alexandre. É verdade que muitos sabem matar; também não falta habilidade
para atingir o amigo com a lança sobre a mesa do banquete; e para muitos a
Macedônia é estreita demais, a ponto de amaldiçoarem Filipe, o pai — mas
ninguém, ninguém, sabe guiar até a Índia. Já naquela época as portas da
Índia eram inalcançáveis, mas a direção delas estava assinalada pela espada
do rei. Hoje as portas estão deslocadas para um lugar completamente
diferente, mais longe e mais alto; ninguém mostra a direção; muitos seguram
espadas, mas só para brandi-las; e o olhar que quer segui-las se confunde.

Talvez por isso o melhor realmente seja, como Bucéfalo fez, mergulhar nos
códigos. Livre, sem a pressão do lombo do cavaleiro nos flancos, sob a
lâmpada silenciosa, distante do fragor da batalha de Alexandre, ele lê e vira
as folhas dos nossos velhos livros.
117

Feita a transcrição integral da narrativa, convidamos o leitor a uma análise da


conhecida linguagem metafórica do autor de A metamorfose neste pequeno conto, buscando
entender porque Kafka nominou o seu advogado de Dr. Bucéfalo e qual a ligação entre este
personagem e o mitológico cavalo do fundador de Alexandria. Também teceremos uma
comparação entre a figura do Dr. Bucéfalo e como nós temos nos comportado como
verdadeiros bucéfalos na nossa prática cotidiana, como cultores do Direito.
Resta demarcar que o termo bucéfalo foi agregado à nossa língua, tendo o sentido
léxico definido nos dicionários como adjetivo que caracteriza alguém que age em
descompasso com a cortesia e a racionalidade, sendo empregado em diversos textos. Inclusive
usado de modo a ironizar a conhecida vaidade do grande Rui Barbosa, que é uma figura
histórica que primou por usar a língua portuguesa de forma erudita e distante da realidade
social de um Brasil agrário e analfabeto. Reza a lenda que Rui Barbosa, ao chegar à sua casa,
encontrou um ladrão que tentava solapar os seus patos de estimação. O proprietário ofendido,
teria iniciado o seguinte diálogo com o larápio (CASTRO, 2007, p. 1):

- Oh, bucéfalo anácrono! Não o interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes
palmípedes, mas sim pelo ato vil e sorrateiro de profanares o recôndito da
minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso
por necessidade, transijo; mas se é para zombares da minha elevada
prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala
fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te
reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.

E o ladrão, confuso, diz:

- Dotô, eu levo ou deixo os pato?

Apesar de jocosa, o diálogo acima é bem representativo do foço que distancia a


justiça e o Direito do homem comum. Este último não tem acesso aos códigos e às condutas
exigidas, para ser parte do chamado mundo jurídico. São como náufragos em busca de uma
lanterna dos afogados. Difícil é saber se, na realidade atual, quem precisa mais de uma
esperança ou salvação é a pessoa que busca a justiça ou o próprio Direito.
Para que sigamos nessa análise, é preciso situar o leitor no que concerne a quem foi o
cavalo de Alexandre, O Grande; pois esse é um requisito essencial para entender a metáfora e
a genialidade crítica de Kafka.
118

1.2 Quem foi Bucéfalo

Alguns aspectos do conto podem ser ressaltados para a melhor definição do novo
advogado, descrito por ele. Em primeiro lugar, Kafka afirma que o exterior do Dr. Bucéfalo
“lembra pouco o tempo em que ainda era o cavalo de batalha de Alexandre da Macedônia”, já
que externamente ele é um advogado como outro qualquer. Apenas de forma oculta ele
lembra os tempos em que era o cavalo de guerra de Alexandre, O Grande.
Mas quais as características do cavalo de Alexandre Magno? Conta-se que Bucéfalo
foi um cavalo adquirido pelo Rei Felipe II a Telônico da Tessália como presente para o seu
filho Alexandre. Nascido no mesmo dia que o seu dono, Bucéfalo era um cavalo irascível,
muito selvagem e destemido, que não permitia a doma nem a monta. Alexandre, intrigado,
passou a observar o comportamento do equino, até perceber que o animal tinha medo da
própria sombra. Sabendo disso, O Grande levou o animal até o sol, exposto à projeção da sua
figura, Bucéfalo cedeu à doma e à monta do seu proprietário (PLUTARCO, s/d).
Parece-nos então, que Kafka quando diz que o Dr. Bucéfalo externamente não
lembra o seu homônimo cavalo de batalha, o faz para enfatizar que o novo advogado possui a
vaidade e a ferocidade do xará animal. E mais, deixa presumido que, como o cavalo, o
advogado tem medo da sua própria imagem porque construiu uma figura imponente de si
mesmo que não corresponde à sua real condição, permanecendo afastado do olhar dos outros
para que a utopia da superioridade não se desfaça. O advogado Bucéfalo não conheceu
ninguém capaz de mostrar a ele o seu ponto fraco. Vejamos no trecho abaixo:

Bucéfalo está em uma situação difícil e que, tanto por isso como também por
causa do seu significado na história universal, ele de qualquer modo merece
boa vontade. Hoje — isso ninguém pode negar — não existe nenhum grande
Alexandre (KAFKA, 1999, p. 7-8).

Para nós que cultivamos o Direito, existem algumas ponderações que podemos fazer
a partir da narrativa de Kafka. A primeira delas é entender o possível motivo pelo qual ele
nominou o seu advogado com o nome do cavalo de guerra de Alexandre Magno. Para tentar
pensar nisso, devemos atentar ao perfil dos profissionais que o Direito tem formado desde o
século XIX, com a ascensão do capitalismo e do imperialismo e a própria noção do Direito
como uma ciência independente (SANTOS, 2002, p. 124).
119

1.3 Nós, os Bucéfalos

O Bucéfalo de Kafka é um elemento individualizado que representa a sua crítica


permanente às instituições jurídicas, aos bacharéis e aos chamados institutos jurídicos e
normas. Embora não o faça de forma expressa, a crítica ao Direito é uma constante na obra
kafkiana: "Kafka não usa a palavra 'justiça'," escreve Walter Benjamin, "e, no entanto, o
ponto de partida da sua crítica é a justiça" (FELMAN, 2014, p. 39).
Nós, bacharéis, devemos entender isso como uma oportunidade de reflexão sobre o
que somos e o que temos representado dentro de uma sociedade, que clama por justiça e por
um Direito participante das querelas sociais e participado pela humanização da sua trajetória,
capaz de cumprir a sua função de integração social e de regulação das convivências. Temos
um papel importante na reconstrução de uma visão de justiça mais próximo da pacificação
social, na qual o interesse coletivo/público se articula e dialoga com os interesses
individuais/particulares. Uma visão de justiça que fale a língua dos mais socialmente
necessitados e que mantenha a sua tendência ao elitismo dos neologismos e do latim; que
incorpore a humildade e lembre que cabe ao Direito a compreensão da complexidade humana
e social.
As críticas que recaem sobre o profissional formado na tradição jurídica ocidental
versam, quase sempre, sobre o seu isolamento, sobre a vaidade exacerbada e a resistência
destes em se enxergar como parte de um todo social. Neste sentido, a analogia com o
Bucéfalo é provocativa, mas plenamente aplicável e contemporânea, mostrando a capacidade
de Kafka em enxergar as mazelas sociais e jurídicas, propondo reflexões que permanecem
atuais, depois de quase cem anos da sua morte.
Muitos são os bacharéis que se acham acima dos outros membros do corpo social,
com suas roupas bem compradas e cortadas, seus sapatos reluzentes, seu linguajar rebuscado;
pensam ser dissociados da mesma poeira cósmica que os constitui e constitui os demais seres.
Chegamos até a ouvir seus passos imponentes e vaidosos, tão absolutos que, como os do Dr.
Bucéfalo, ressoam no mármore (KAFKA, 1999, p. 7) das escadas dos fóruns.
Seríamos rematados Bucéfalos na medida em que a nossa vaidade e senso de
superioridade nos fazem escravos do nosso isolamento. Tememos a igualdade com os demais
humanos porque sabemos que se estivermos à altura do olhar destes, seremos revelados e
estará à mostra toda a nossa fragilidade e insegurança.
120

Como o Direito não é uma ciência que pode se sobrepor às outras e não se constitui
de fatos isolados, é prudente fazer uma avaliação, ponderar sobre o papel de cada um de nós
na sociedade. Verificar como poderemos contribuir à evolução da própria ciência jurídica
quando nós mesmos pudermos evoluir, na busca da compreensão das vicissitudes humanas.
Hoje vivemos em um mundo de igualdades fugazes, no qual todos tentamos nos encaixar em
conceitos e modelos de “tribalização”, pois apesar de termos acesso as formas de
comunicação mais amplas que a humanidade já experimentou, estamos indefinidamente
solitários; temos a falta, a ausência do outro. Esse é um sentimento que deverá se ampliar, à
medida que criamos novas ferramentas de convivência à distância, temos nos distanciado de
nós mesmos. Repensar uma conduta não quer dizer abandonar essas ferramentas, mas sim,
usá-las para nos aproximar dos que estão longe e não para nos afastar dos que estão perto.
Assim, procuramos ser iguais a alguns para pertencermos e sermos pertencidos por
um grupo, uma coletividade, unida por pensamentos, interesses ou práticas. Mas o que
acontece é que mesmo dentro de uma “tribo”, os iguais são sempre desiguais, ou melhor, os
indivíduos não têm encontrado a segurança e o reconhecimento que esperam. Somos
solitários no meio da multidão, isso é uma das inovações da dita modernidade. Neste ponto, é
interessante transcrever um pequeno relato feito por Bauman no texto Sozinho no meio da
multidão, inserido no seu livro 44 cartas de um mundo líquido moderno (2011):

O jornal Chronicle of Higher Education publicou recentemente em sua


página da internet (http://chronicle.com) a história de uma adolescente que
enviou três mil mensagens de texto num único mês. Isso significa que ela
mandou uma média de cem mensagens por dia, ou cerca de uma mensagem
a cada dez minutos do tempo em que esteve acordada – “manhã, tarde e
noite, dias úteis e fins de semana, tempos de aula, horas de almoçar e fazer
dever de casa, de escovar os dentes”. Assim, a adolescente nunca ficou
sozinha por mais de dez minutos; nunca ficou só consigo mesma, com seus
pensamentos, seus sonhos, seus medos e esperanças. A essa altura, ela deve
ter se esquecido de como uma pessoa vive, pensa, faz coisas, ri ou chora na
companhia de si mesma, sem a presença de outros (BAUMAN, 2011b, p.
17).

O exemplo acima é arquetípico do mundo líquido moderno onde as pessoas se


comunicam demasiadamente, usam ferramentas de interação extremamente avançadas,
contam seguidores nas redes sociais, fazem parte de muitos grupos de aplicativos para
smartphones e estão na mais seca solidão de si mesmas. Por não se compreenderem e nem se
aceitarem, não aceitam e não se sentem compreendidos e por isso recorrem aos agrupamentos,
à chamada tribalização.
121

O homem procura se reagrupar para tentar se encontrar. Se insere em grupos, em


tribos, assim fazem os que cultuam o Direito ao procurar a clausura dos grupos de discussão
jurídica. Raros são os que buscam ler ou discutir Sociologia, Filosofia, Matemática, Física et
cetera. Não entendendo a si mesmo, o Ser contemporâneo não consegue compreender os
outros seres. O homem moderno está desumanizado e:

Se o homem nos parece hoje desumano, quiçá seja por temor perdido a
capacidade de ver a rebaixamento animalesco com que nos submetemos a
sistemas (processuais, por que não?) "bem pensado". Nada mais realista que
as fábulas de Kafka. Espantosa lucidez que descortina a naturalidade com
que coisificamos o homem e o dissolvemos em engrenagens burocratizadas
de vida própria (AMARAL, 2008, p. 240).

Temos que lidar com uma sociedade marcada pelo consumismo voraz em que o
poder de ter, o possuir efêmero, é um bálsamo, ou melhor, um placebo à nossa precariedade,
esta entendida como algo parecido com a dessublimação proposta por Marcuse (1966, p.69)28.
Dentro dessa divisão social e cultural, a tribalização dos costumes e práticas também
chegou ao Direito. O bacharel/homem contemporâneo, distante da sua compreensão sobre a
condição humana, procura o agrupamento, mas se fecha no seu mundo jurídico, é vítima do
consumismo desenfreado que o consome pela sua própria precariedade.
Às vezes nos pegamos a discutir vários temas sobre o papel, qual o objetivo do
Direito enquanto ciência humana, desnovelamos as mais diversas teorias, repassamos muitos
conceitos, contrapomos diversos princípios. O que queremos é um caminho, um início de
resposta às questões jurídicas e sociais que decorrem das vivências humanas e das nossas
próprias precariedades.
Segundo Giddens (2002, p. 39) a primeira premissa é que ser humano é saber. Saber
decorre de uma capacidade reflexiva sobre as diversas situações da nossa vida. O agente
monitora todos os acontecimentos da sua existência. Teria ele, segundo o autor, certo grau de
consciência e reflexão sobre tudo o que ocorre para poder “seguir em frente”. Para ele, a
confiança que possuímos quanto à nossa existência se deve a uma segurança ontológica, a
qual decorre de uma consciência prática sobre os acontecimentos desencadeados em nossa
vida (GIDDENS, 2002, p. 40).

28
Apenas não temos a nós mesmos porque não permitimos a entrado no outro, do novo, do diverso; sem que nos
apropriemos do conceito de uma cultura superior, com propôs o autor, e pensando mais em uma cultura humana
única, esta sim vítima de perda da sua sublimação ante as culturas de grupos, as multiculturas, cyber cultura,
cultura de massas etc., estamos especializando a cultura, dividindo-a em disciplinas, estudando-a por olhares
disjuntivos. A cultura é fruto da existência da humanidade, e deveríamos pensar mais em abordar uma cultura da
humanidade.
122

Se essa segurança ontológica é essencial à nossa existência, podemos afirmar que


atualmente carecemos de segurança ontológica, mas não somente dela. As ciências, entre elas
o Direito, precisam responder à carência de segurança na nossa existência. Abriríamos aqui as
portas a uma possibilidade de ver definhar um pouco do que Giddens chamou de caos que
espreita (2002, p. 40):

Do outro lado das convenções cotidianas ordinárias pode ser concebido


psicologicamente como o terror no sentido de Kierkegaard: a perspectiva de
ser ultrapassado por ansiedades que atingem a raiz própria de nossa sensação
de “estar no mundo” (GIDDENS, 2002, p. 41).

O segredo então é não discutir tanto as construções sócio-históricas e sim falar sobre
o Ser. O Ser do mundo contemporâneo tem experimentado um flagelo que leva à
desintegração do tecido social.
A partir de uma indisposição construída à convivência com o diverso, o evitamos.
Nós estamos muito inseguros quanto à nossa condição humana, não sabemos exatamente o
que somos, o que queremos. Temos sede de vida, mas não sabemos vivê-la, queremos viver a
vida de forma rápida, experimentar tudo. O Direito então envelheceu assim como nós,
envaidecido virou um entrave, “o Direito [...] há tempos se tornou um mero empecilho, um
entrave que impossibilita a tão almejada eficiência imprescindível ao mundo just in time
(AMARAL, 2008, p. 242).
Fomos cientificamente fatiados. Insistimos no erro consistente na prática destas
disciplinas científicas estagnadas, isoladas em seu purismo metodológico. Elas não dialogam,
sozinhas não conseguem responder aos nossos questionamentos, não nos dão confiança frente
às nossas inseguranças. Formam-nos no isolamento, no utilitarismo, assim é a nossa formação
jurídica e a nossa prática do Direito.
Cyrulnik (CYRULNIK; MORIN, 2012, p. 24) já definia que “o homem nasce
primeiro, depois nasce a condição humana”. Isto quer dizer que após o nosso nascimento
biológico, nascemos para o mundo pela nossa condição humana, aquilo que nos faz
conscientes das nossas características enquanto espécie. E a insegurança quanto a essa
condição humana é que tem levado ao surgimento dos fantasmas: temos medo da vida, receio
de viver, terror do outro, nos afastamos do que é diferente. Não aceitamos aqueles que não
conhecemos ou que não se encaixam nos padrões estabelecidos à aceitação. Para os bacharéis,
todos tem que saber a linguagem do Direito, conhecer os seus preceitos.
123

Há muito já sabemos que a construção de muros, a fixação de grades, a instalação de


alarmes, o fechamento dos condomínios, o endurecimento das penas, o encarceramento das
pessoas não conseguem nos deixar mais seguros, seja porque os níveis de criminalidade não
baixam ou porque nos sentimos incompletos e inseguros com todo esse aparato artificial.
Somos vítimas do imprinting cultural tratado por Morin (2012, p. 272-273) que fixa em nós o
prescrito e o interdito, nos fornecendo crenças e ideias, as quais funcionam como imperativos
de verdade.
Esse imprinting, essas verdades imperativas são muito fortes em nós e é difícil
conceber um mundo ou tecer uma análise dos fatos sociais dissociados destas crenças com
prescrições, interdições lógicas e epistêmicas. A própria noção da ciência é contaminada por
estas imposições culturais, fomentadoras dos grupamentos.
Mas isto não acontece só com os bacharéis em Direito, é comum em todas as esferas
de agrupamento: as tribos musicais, as tribos de conhecimento, as grandes e modernas tribos
formadas pelos condomínios.
O que dizer então da tribo dos bucéfalos, magnânimos no seu tecnicismo, praticantes
dos rituais que são comuns nos meios em que gracejam a vaidade e a soberba dos doutores,
símbolos da segregação contra quem não é “entendido” sobre o Direito. Estamos carentes e
inseguros quanto a nós mesmos.
E parece claro que quem não está repleto de si não consegue folhear o livro da vida,
nem ascender ao olhar do outro, não consegue compreender o mundo que o cerca. Isso tem
acontecido conosco, formados para cultuar uma produção eminentemente humana que é o
Direito pelo viés do tecnicismo e do utilitarismo do direito formal: dura lex, sed lex; como
Kafka nos aconselhou de forma irônica no seu conto:

Talvez por isso o melhor realmente seja, como Bucéfalo fez, mergulhar nos
códigos [...] ele lê e vira as folhas dos nossos velhos livros.

A lei é o nosso refúgio, tudo fora dela nos expõe às vivências e não aceitamos a
interação com o diverso, com o múltiplo. Rejeitamos o outro como faz o cavalo de Alexandre
Magno.
A genialidade de Kafka está em nos apresentar uma metáfora que, escrita no início
do século XX, permanece pulsante, provocadora e atual. Quem pode negar que cavalgamos na
nossa própria vaidade e, assim como o Bucéfalo do conto, evitamos ser domados – que exige
um ato de aproximação e intimidade com quem não conhecemos –, expondo a nossa própria
124

imperfeição, clareando as nossas inseguranças. Isso gera muitos problemas aos quais o Direito
não encontrará respostas fora do seu isolamento.
Precisamos nos reconstruir para poder modificar o Direito. Um Direito - mais aberto
ao diálogo e aos olhares - precisa de amantes menos bucéfalos, que não ignorem o outro e
toda a complexidade da vida em sociedade. O renomado título de doutor que nos foi
concedido por decreto imperial29 não tem mais sentido, é mais correto entendermos o Direito
como um instrumento de promoção da justiça social. Precisamos conceber um conhecimento-
como-emancipação (SANTOS, 2009, p. 27):

[...] estamos a entrar num longo período de transição paradigmática em cujo


decurso o paradigma da ciência moderna, ferido de uma crise irreversível e
final, será substituído por outro paradigma de conhecimento ainda por
definir, mas que eu tenho designado como paradigma de um conhecimento
prudente para uma vida decente (Destaque inserido).

O Direito pode deixar de praticar o conhecimento-como-regulação para se reformar,


abraçando a dialogia dos saberes e a abertura às ciências. Pode aplicar uma forma de pensar
que leve os bacharéis a uma evolução, à formação de um conhecimento-como-emancipação,
um Direito que seja instrumento e emancipação social, que trabalhe um conhecimento
solidário, conforme diferença feita pelo mesmo Boaventura de Santos (2009, p. 28):

O conhecimento-como-regulação consiste numa trajetória entre um ponto de


ignorância designado por caos e um ponto de conhecimento, designado por
ordem. O conhecimento-como-emancipação consiste numa trajetória entre
um ponto de ignorância chamado colonialismo e um ponto de conhecimento
chamado solidariedade.

Para transformar o Direito, precisamos revisitar a nossa convivência enquanto


compostos e componentes de uma coletividade que se mantem pela sua diversidade, mas que
evolui pelo respeito à individualidade de cada pessoa. É por intermédio das crises que
construímos o novo. A crise atual pode e deve ser entendida como a oportunidade de
(re)construir a nossa ciência jurídica a uma nova consciência humana de cada um de nós,
sobre todos nós.
Esse homem multidimensional requer uma ciência que dialogue e interaja,
produzindo um conhecimento mais ligado à noção do homem novo. O Direito deve atuar em

29
Lei Imperial de 11 de agosto de 1827.
125

uma dialogia com outros conhecimentos que gerará a crise das velhas dogmáticas e o renascer
dos conhecimentos mais ligados ao homem, sobre o qual devemos nos debruçar.
Esse bacharel, o humano novo, vai encontrar duas portas que levarão à compreensão
da sua jornada cósmica e terrena, consciente de que o que importa são os passos dados em
busca de algo diverso. Porque o mais do mesmo trará as mesmas respostas para as mesmas
perguntas. Ousemos fazer novas perguntas, com novas formas de indagar e as respostas virão
para cada um, de acordo com a própria trajetória.
O Direito é uma ciência voltada à sociedade e que busca o estudo das ações
humanas, da relação dos homens com outros homens - e destes com a coletividade - ou com
as instituições. O Direito tem missões, Miguel Reale expunha esse dilema do Direito,
chamando-o de quarta missão. Em suas Lições Preliminares do Direito, ele refletia:

A quarta missão da nossa disciplina consiste em localizar o Direito no


mundo da cultura no universo do saber humano. Que relações prendem o
Direito à Economia? Que laços existem entre o fenômeno jurídico e o
fenômeno artístico? Que relações existiram e ainda existem entre o Direito e
a Religião? Quais os influxos e influências que a técnica e as ciências físico-
matemáticas exercem sobre os fatos jurídicos? É preciso que cada qual
conheça o seu mundo, o que é uma forma de conhecer-se a si mesmo
(REALE, 2002, p. 41-42).

Para conseguir cumprir esta tarefa, precisamos nos sentir mais humanos, descer do
pedestal da nossa vaidade, nos expor à luz dos conhecimentos que interagem.
Isso seria a nossa luz do sol, aquela que tememos. A luz do sol seria uma amostra de
liberdade ao expor todas as cores, possibilitar a vida, e também projetando a sombra do que
somos, nos expondo. Por isso a evitamos - como o Bucéfalo, de Alexandre da Macedônia -,
porque ela expõe as nossas sombras.
A representação da nossa figura imponente e cheia de fragilidades nos assusta e nós a
evitamos, nos isolamos. Assim como o Bucéfalo de Alexandre da Macedônia, temos medo da
nossa representação simbólica, porque ela demonstrava que ele não era tão forte como
achava. Esse efeito da sombra sobre o Bucéfalo é o mesmo que temos experimentado em
nosso isolamento disciplinar, e é por isso que Kafka nominou o seu advogado de Dr.
Bucéfalo. Porque ele percebeu que os cultores do Direito permanecem mergulhados na ira e
na soberba de um saber isolado, que há muito não responde aos desafios de um mundo líquido
moderno (BAUMAN, 2011b).
126

2 Falando das portas

2.1 A porta em O novo advogado e outras portas

Escrever um ensaio é transitar com certa eloquência sobre as obviedades. Não que
toda obviedade me cative, mas confesso que me interesso pelas obviedades humanas. Talvez
por achar que o ser humano e os conhecimentos produzidos por ele são grandes campos de
estudos para serem revisitados. Aqui, propositalmente, não falo em descoberta porque achar
ter descortinado um novo conhecimento pode ser tão pretencioso como acreditar que
descobriu a condição humana. Esta é tarefa a ser tentada e não encerrada com um objetivo em
si.
Alinhavando o homem com os seus conhecimentos e o conhecimento com os
homens que o constroem - como nos ensinou Edgar Morin e o Princípio Hologramático
(2003a, 2003b, 2012, 2013) -, tentaremos discutir homem, Direito, sociedade, facilitação do
acesso. Enfim, uma sociedade e um Direito mais abertos aos estranhos, aos de fora. Faremos
isso a partir de uma porta, relatada em um conto. Afinal, queremos entender a passagem
simbolizada pelas portas, mais do que o obstáculo que hoje estabelecemos como função delas.
A dita modernidade e suas ressignificações.
Há uma parte do texto de O novo advogado que entendo ser interessante, partindo
para a discussão de um Direito como uma porta de acesso à justiça, por considerar ser esta
última o ideal maior da existência de uma ciência jurídica. Kafka, ao narrar sobre o seu Dr.
Bucéfalo, faz um cruzamento de informações interessante, pois sabendo que Bucéfalo foi o
cavalo de batalha de Alexandre, O Grande - este, conquistador macedônio que dominou todo
o mundo oriental e parte da Europa -, fala na entrada deste na Índia. Penso que ele nos deixa
uma imagem que podemos aproveitar para discutir o Direito atual:

É verdade que muitos sabem matar; também não falta habilidade para atingir
o amigo com a lança sobre a mesa do banquete; e para muitos a Macedônia é
estreita demais, a ponto de amaldiçoarem Filipe, o pai — mas ninguém,
ninguém, sabe guiar até a Índia. Já naquela época as portas da Índia eram
inalcançáveis, mas a direção delas estava assinalada pela espada do rei. Hoje
as portas estão deslocadas para um lugar completamente diferente, mais
longe e mais alto; ninguém mostra a direção; muitos seguram espadas, mas
só para brandi-las; e o olhar que quer segui-las se confunde (KAFKA, 1999,
p. 7-8).
127

Neste ponto cumpre transcrever - nas palavras de Deleuze e Guatarri, o que Kafka
entendia como o jogo de imagens que lançava nas suas obras - como os filósofos citados
entenderam a imagem nas obras dele, para que o leitor nos acompanhe nessa viagem através
de mais uma imagem formulada pelo autor de A metamorfose:

A imagem é este percurso mesmo, ela se tornou devir: devir-cão do homem


e devir-homem do cão, devir-macaco ou coleóptero do homem, e
inversamente. Não estamos mais na situação de uma língua rica ordinária,
em que, por exemplo, a palavra designaria diretamente um animal e se
aplicaria por metáfora a outras coisas (DELEUZE; GUATARRI, 2014, p.
44).

Ao afirmar que as portas da Índia eram inalcançáveis, Kafka faz um jogo de


linguagem interessante, porque naquela época – a vivida por Alexandre, O Grande -
conquistar a Índia era o objetivo dos soberanos do mundo antigo. A Índia era uma terra na
qual se dizia que grassava um misto de magia e bênçãos, além dos relatos de riquezas diversas
e da fauna e flora exuberantes, que encantariam o mais sábio dos sábios. A Índia era uma
espécie de paraíso, onde todos teriam direito a um pedaço dessa fantasia, dessas riquezas.
Conquistá-la era como conseguir acessar algo inatingível.
Mas também era conhecida a dificuldade a que se submeteria qualquer conquistador
que se lançasse a essa tarefa. Para conquistar Indike, a terra do Rio Indo, atual Índia;
Alexandre permaneceu em uma campanha militar por mais de dois anos – do verão de 330
a.C. à primavera de 327 a.C. - na chamada Guerrilha nas Satrapias Orientais, que perfaziam as
regiões da Ária, Drangiana, Sogdiana e Bactriana (BRIANT, 2013, p. 12). Isto ocorria em
paralelo com a oposição dentro da própria Macedônia e à revolta de parte da tropa
alexandrina. Como nos diz Briant, muitos foram os motivos que se imputam à decisão de
conquistar o Vale do Indo:

As expedições à Índia e ao Golfo Pérsico constituem a parte da conquista


que suscitou os comentários mais variados entre os historiadores. Atração
pelo desconhecido, vontade de se identificar com Hércules e Dionísio,
pothos, gosto pela descoberta geográfica, objetivos comerciais: tais são as
explicações propostas com mais frequência. Mas surge o problema de saber
com precisão qual teria sido a motivação determinante. Também seria
preciso indagar até onde Alexandre queria conduzir suas tropas, e desde
quando ele nutria o projeto de conquista da Índia (BRIANT, 2013, p. 20-21).

Após conquistar as Satrapias, com a morte do rei Epitamenes, Alexandre casou com
a sua filha Roxana, objetivando estabilizar e legitimar o seu trono sobre o povo recém
128

conquistado, vivendo uma paixão que foi poetizada e cantada por muitos, embora tenha sido
tumultuada, porque a cada conquista “O Grande” adicionava mais mulheres ao seu harém
(BRIANT, 2013). Alexandre segue então, com a sua tropa à batalha final, cuja vitória
significaria a conquista das Índias. Isso se concretizou em 326 a.C., quando Alexandre chega
às portas da Índia e a toma, firmando o seu enorme império que se estendeu da Grécia ao
Egito, até o noroeste da Índia (BRIANT, 2013, p. 20-26).
É de se entender, portanto, que uma campanha tão demorada e complexa, sobre o
sucesso da qual a própria tropa tinha dúvidas, era considerada como uma utopia por muitos,
inclusive na Macedônia; tomar as Índias era algo inalcançável a homens comuns, somente
alguém que possuísse algum poder ou predestinação divina poderia atingir esse objetivo:
Alexandre da Macedônia. Esse é o ponto de ligação que pensamos existir entre a epifania de
chegar às portas da Índia - que consumiu Alexandre Magno -, a imagem das portas da Índia -
como desconhecidas por todos - e a nossa jornada ufana em busca da justiça.
Os homens têm buscado a justiça desde os tempos mais inaugurais da nossa jornada
terrena. Aqui não falamos da justiça como instituição (os fóruns, as salas de audiência, os
tribunais) e a abordamos como aquele desejo mais profundo e recôndito no ser humano que
quer ver satisfeita a sua ânsia de conhecer a justiça.
O sentimento de justiça é algo muito próprio de cada pessoa, mas a vida em
coletividade consagrou uma noção do que é justo. Noção estabelecida em critérios ou
interesses mais coletivos, entendendo que ao atingir esse desiderato, teríamos – por via de
decorrência – alcançado a justiça para cada um. No entanto, almejar chegar às portas da
justiça é um dos sofrimentos humanos mais densos e complexos. Sofremos para alcançá-la
porque ela parece impossível, assim como eram as portas da Índia para o povo macedônio,
liderado por Alexandre, O Grande.
Mas qual a função das portas? Por que nos apropriamos do relato das portas da Índia
feito por Kafka? Seriam óbices à entrada dos não aceitos em locais que não são feitos para
eles ou seriam as portas pontos de ingresso, instrumentos facilitadores dos desejos e objetivos
dos que estão fora?
Para entender qual o papel das portas, é preciso fazer uma análise sobre os aceitos
(os de dentro) e os estranhos (os de fora). De um lado da porta estão aqueles que já
alcançaram um objetivo e permanecem unidos à manutenção dessa realidade, ou melhor, essa
realidade ou conquista é um traço que os une. Do outro lado, estão os que não alcançaram
129

esse mesmo objetivo, vivem fora do grupo e não fazem parte da realidade que os primeiros
buscam defender.
É comum que aqueles que conquistaram lutem para manter o seu status quo e
dificulte, como regra, o acesso de novas pessoas, porque essas podem representar o
enfraquecimento do grupo ou a ameaça de usurpação de algo conquistado, como esclarece
Bauman:

Só se pode bater numa porta quando se está do lado de fora; e é o ato de


bater na porta que alerta os moradores para o fato de que alguém que bate
está realmente fora. "Estar do lado de fora" lança o estranho à posição de
objetividade: é um vantajoso ponto de vista exterior, destacado e autônomo a
partir do qual os moradores (com sua visão de mundo, inclusive seu mapa de
amigos e inimigos) podem ser observados, examinados e criticados
(BAUMAN, 1999, p. 88).

Então a porta, ou entrada, é sempre uma passagem. Ela sinaliza a mudança de status
e uma nova condição àquele que a transpõe. O estranho se transforma em ex-estranho, se
transmuta em um de nós:

Além disso, a entrada é sempre uma passagem, uma mudança de status — e


esse misterioso evento de avatar mais do que tudo coloca o "estranho de
ontem e nativo em perspectiva" em conflito com o mundo onde deseja
entrar, um mundo que baseia a sua confiança (e, antes de mais nada, sua
atração para o estranho) na suposição de que ninguém jamais é
transformado, de que ninguém jamais sai nem se encontra fora. O episódio
da entrada marca o "ex-estranho" para sempre — como uma criança trocada
ao nascer, uma pessoa que pode optar e escolher, que tem a liberdade que os
"apenas nativos" não possuem, cujo status não pode jamais ter o mesmo grau
de solidez, finalidade e irreversibilidade que o dos nativos (BAUMAN,
1999, p. 88-89).

Mas os tempos atuais nos trouxeram um significado às portas como algo que deve
impedir a entrada, dificultar o acesso, proibir a integração. Muito disto se deve à sensação de
insegurança pública que experimentamos, pelo aumento da criminalidade e de violência
social. Essa significação - dita moderna - transformou a porta/passagem nas portas da Índia de
Kafka, as quais estão sempre mais longe e mais altas. São, hoje, elementos que dificultam a
entrada ou a passagem, ou a formação de uma nova consciência, capaz de possibilitar o
alcance delas por todos os que procuram a Lei.
No texto kafkiano, a porta é uma passagem de um estágio, de uma condição a outra,
facilitando a própria evolução do homem - representado pelo advogado Dr. Bucéfalo - que
precisa buscar o Direito além dos códigos, a justiça acima dos livros. Partir deles para
130

compreender o fenômeno da vida, compreendê-la junto com eles, transcender ao simples


“mergulho nos livros”.

2.2 Por falar nas portas

Essa digressão sobre as portas e passagens serve como um indicativo para que
possamos entender qual a função das portas da Índia - usadas com metáfora por Kafka, para
informar que o Dr. Bucéfalo não sabe onde elas ficam -, e ele, como advogado, deveria ser o
agente franqueador de acesso de todos, a essa passagem.
Essa mesma lógica das portas será usada pelo autor em Diante da lei, conto inserido
– não por acaso – na mesma coletânea Um médico rural. Mas deixemos para abordar esse
outro conto em um momento mais propício. Falemos agora sobre a similitude das utópicas
portas da Índia - para Alexandre e o seu cavalo Bucéfalo, no início da campanha - com o
desconhecimento das portas da justiça, pelo Dr. Bucéfalo de Kafka. Analisaremos como a
crítica de Kafka permanece atual, já que as portas da justiça permanecem distantes para os
homens comuns, tal como as portas da Índia.
Kafka faz uma provocação bem interessante no seu conto, ao afirmar que as portas
da Índia já eram “naquela época, inalcançáveis” - quando Alexandre da Macedônia decidiu
conquistá-las - e que “Hoje, as portas estão deslocadas para um lugar completamente
diferente, mais longe e mais alto; ninguém mostra a direção”. O que ele quer dizer com essas
passagens?
Num primeiro momento, ele insere o leitor na dificuldade de se alcançar tais portas,
para que se entenda que é uma busca longa e constante dos homens - desde a época do
homem que conquistou praticamente todo o mundo conhecido -, e que tão difíceis como as
portas da Índia são as portas da justiça. No segundo trecho, ele nos lega a sua crítica bem
escrita, afirmando que hoje as portas estão deslocadas para um lugar diferente, mais longe e
mais alto e não há ninguém para mostrar a direção. Trazendo isso à sempre presente crítica
feita por Kafka à justiça, vemos que ele trata metaforicamente do acesso que é negado a ela.
Ninguém conhece e ninguém guia até as portas.
Tão inalcançável como a Índia, a justiça é como ideal. Está aí a mensagem que Kafka
nos passa em um conto curto e muito simbólico. Se for verdade que todos almejam a justiça
como uma conquista, também é certo que a toda hora essa busca tem que se redefinir, porque
131

ela – a justiça, enquanto valor – parece se deslocar para mais longe, para mais alto. Torna-se
cada vez mais inalcançável.
O distanciamento deste ideal faz com que as pessoas a confundam com o
justiçamento, aquele desejo de vingança que acomete o ser humano como uma satisfação
individual a uma afronta feita a si por outrem. Voltamos a uma época em que as lições
literárias trouxeram a transição entre tribos ou pequenos grupos para uma sociedade
organizada e que delegou ao interesse coletivo a supremacia e o interesse da justiça.
Desde a Oresteia de Ésquilo, tragédia grega, a literatura narrou uma transição que
temos esquecido, qual seja, o momento em que a justiça se desloca de um valor ligado à
necessidade de vingança individual para um valor no qual prepondera o interesse comum, e
que o cumprimento da justiça foi delegado às instituições (SILVA, 2008, p. 136-138).
O homem busca uma justiça como uma garantia de moralidade, de manutenção de
uma moral coletiva imposta pelo interesse estatal, que deveria ser representativo do interesse
de todos:

A passagem de um sistema de regulamentação social assente na vingança


privada a um sistema de direito instituído, passa por uma transformação a
nível da moralidade: da prevalência de uma moralidade eminentemente
individual, ao domínio de uma moralidade dita social, pública (SILVA,
2008, p. 139).

Essa passagem significou a necessidade de estabelecimento e composição da justiça


– enquanto instituição – que deveria fazer funcionar um sistema de normas e ações
coercitivas, capazes de satisfazer o ideal ao qual a justiça pública/coletiva tornou-se
preponderante sobre a vingança pelas próprias mãos.
No entanto, isso não significou a existência de um sistema judicial que facilitasse o
alcance do seu próprio objetivo, da própria razão de existir do Direito. De modo diverso,
construímos uma máquina burocrática e “burocratizante” que atua como uma porta fechada
para o novo, que impede o ingresso dos homens comuns ao seu círculo. Primando pela
racionalidade, não cumpre o seu papel de passagem entre a era da barbárie e a era da
civilização, conforme lição de Boaventura de Sousa Santos (2002, p. 142):

A dominação jurídica racional é legitimada pelo sistema racional de leis,


universais e abstractas [...] que presidem a uma administração burocratizada
e profissional, e que são aplicadas a toda a sociedade por um tipo de justiça
baseada numa racionalidade lógico-formal.
132

A luta pela mudança nestas portas, abrindo as suas trancas, tentando facilitar o acesso
é uma obrigação de todos que fazem parte do experimento que é a sociedade. É, mais ainda,
um conjunto de ações que deve guiar os que cultivam o Direito, que plantam a semente da
justiça, a regam, e devem cuidar para que a justiça se estabeleça forte, frondosa, sem mazelas.
Não sejamos operadores do Direito, pois esse é um termo que diminui a própria
ciência jurídica e aniquila o nosso papel como agentes transformadores, porque quem opera o
faz sem o conhecimento e descolado de qualquer sentimento de proximidade pelo que opera.
Atua como os ajudantes burocratas nas obras de Kafka, como afirmado por Amaral (2008, p.
246): “Aí os ajudantes, sempre presentes no universo de Kafka, que compõem um aparelho
eficiente e se combinam como peças elementares de burocracia”.
Devemos ser cultores, estabelecer um culto, uma profissão de fé que é firmar e fazer
evoluir o Direito no caminho de uma ciência capaz de agregar as pessoas, transformando a
ciência jurídica em uma porta aberta que signifique a inserção do ex-estranho, como diz
Bauman (2011), no mundo da justiça.
Essa é uma lição que Kafka deixa em seu texto, com o conhecimento de quem era
estranho, tcheco, judeu, dominado, educado em alemão. Ele se sentia como a grande maioria
dos judeus de Kafka, desterritorializado (DELEUZE; GUATARRI, 2014, p. 35-36):

Kafka define nesse sentido o impasse que barra aos judeus de Praga o acesso
à escrita, e faz da sua literatura algo de impossível. [...] A impossibilidade de
escrever de outro modo que não em alemão é para os judeus de Praga o
sentimento de irredutível distância com a territorialidade primitiva tcheca. E
a impossibilidade de escrever em alemão é a desterritorialização da própria
população alemã, minoria opressiva que fala uma língua cortada das massas
[...].

Bauman reforçou o sentimento de exclusão e, por conseguinte, de desterritorialização


que marcou Kafka e o fez se sentir um estranho, tendo o acesso negado no meio dos judeus -
tradicionais, educados na língua mãe - e também pouco compreendido pelos alemães que
dominavam a sua Praga:

Foi a atormentada condição judaica de Franz Kafka, vivida dolorosamente,


que permitiu a Camus e a Sartre ver na obra dele uma parábola do transe
universal do homem moderno. Ela permitiu a Camus ler Kafka como um
insight do incurável absurdo da vida moderna, de "1'étrangeté d'une vie
d'homme" [da estranheza da vida do homem]; permitiu a Sartre ver em
Kafka a própria definição do Estranho: "Uétranger, c'est l'homme en face du
monde ... L'étranger, c'est aussi 1'homme parmi lês hommes ... C'est enfin
moimême par rapport à moi-même."10 ["O estranho é o homem diante do
133

mundo ... O estranho é também o homem entre os homens ... Enfim, sou eu
mesmo em relação a mim mesmo."] (BAUMAN, 1999, p. 96).

Tenhamos o cuidado de saber que a justiça então não é um dado natural, fornecido ao
homem para que ele goze dela. É uma construção, uma conquista humana que deve ser
buscada e reafirmada diuturnamente e se ela parece ser inacessível devemos insistir nessa
procura pelo seu aperfeiçoamento, pela sua aproximação do ser humano. Pela luta diária de
acesso à justiça “Somos lembrados de que a justiça não constitui um fenômeno natural, mas
sim de uma conquista humana deveras frágil” (VIEIRA; ADOLFO, 2015, p. 198).
Podemos trocar partes da narrativa que não alterarão o sentido da crítica. As portas –
o acesso - da justiça já eram naquela época inalcançáveis e hoje essas portas (acesso) estão
deslocadas a um lugar diferente, mais longe e mais alto; ninguém mostra a direção. A justiça
está deslocada, longe das pessoas e ninguém indica ou facilita essa aproximação. Boa parte da
imagem que a ciência jurídica possui hoje está alicerçada na postura de dificuldade de acesso.
Isso tem muita ligação com a nossa prática diária, pois não somos porteiros que facilitam o
acesso, que guardam a porta para o seu destinatário final. Agimos como verdadeiros muros, a
sustentar um afastamento que depõe contra o próprio papel do Direito, enquanto possibilidade
de alcance e efetivação da Lei. Podemos ser novos porteiros às portas que facilitam o acesso
dos homens ao Direito. Construiremos novas portas à medida que nos percebermos e agirmos
como novos porteiros.
134

3 Diante da lei: somos porteiros

3.1 Diante da Lei, uma narrativa

O último dos textos inseridos em Um médico rural e que será trabalhado por nós
neste ensaio é o conto Diante da Lei (KAFKA, 1999, p. 30-33), no qual se relata a sina de um
homem do campo que busca a Lei30, chega diante das portas dela e é proibido de acessá-la por
um porteiro. O personagem principal passa, então, toda a sua vida esperando para ingressar na
Lei - que foi feita exatamente para ele-, mas como ele jamais se encontrou com ela, as portas
da Lei são fechadas e ninguém mais poderá acessá-la. Transcrevemos abaixo o conto de
forma integral:

Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e


pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a
entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode
entrar mais tarde.
— É possível — diz o porteiro. — Mas agora não.
Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe
de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando
nota isso o porteiro ri e diz:
— Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu
sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém,
existem porteiros, cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu
posso suportar a simples visão do terceiro.
O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a
todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de
perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa
barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a
permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao
lado da porta. Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser
admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro
submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua
terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as
que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda
não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas
coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar
o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:
— Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.
Durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem
interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único
obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos, amaldiçoa em voz alta e
desconsidera o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga

30
A partir daqui escreveremos a palavra Lei, com letra inicial maiúscula, empregando-a como sinônimo de
justiça. Sempre que ela aparecer com a inicial em minúscula deverá ser compreendida como substituto para
norma em sentido amplo.
135

consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos
a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o
ajudem a fazê-lo mudar de opinião. Finalmente sua vista enfraquece e ele
não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos
o enganam. Não obstante, reconhece agora no escuro um brilho que irrompe
inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida.
Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua
cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe
um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo
enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a
diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:
— O que é que você ainda quer saber? — pergunta o porteiro. — Você é
insaciável.
— Todos aspiram à lei — diz o homem. — Como se explica que em tantos
anos ninguém além de mim pediu para entrar?
O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua
audição em declínio ele berra:
— Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada
só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.

A porta descrita por Kafka é uma passagem, o meio de acesso colocado à disposição
do homem comum para alcançar a Lei que tanto procurava. O porteiro tem o papel de guardar
a Lei até que o homem, para quem ela foi criada, venha em sua busca, alcançando o resultado
final que é o encontro entre homem e justiça.
Diante da lei é um conto interessante, que possui muitas imagens e das quais
retiraremos o porteiro para mostrar como parece haver um equívoco na compreensão geral
sobre o que compete a alguém que se propõe a cultuar o Direito. Não à toa, como nos
afirmava Modesto Carone, Diante da lei é um fragmento retirado da versão original de O
processo:

A parábola “Diante da lei”, de 1915, é o centro nervoso do romance O


processo e da ficção de Franz Kafka, marcada por paradoxos. Ela aparece no
capítulo 9 do romance, do qual foi extraída pelo autor para ser publicada
isoladamente no livro de contos Um médico rural, de 1919. Kafka declarou-
se satisfeito — o que era raro — com a lenda do porteiro, como denominou
originalmente o texto. Foi esse, provavelmente, o motivo pelo qual ele o
publicou duas vezes em vida (CARONE, 2009, p. 137).
[...]
Em O processo, depois que a “lenda” é contada a Josef K. pelo capelão,
ambos discutem o sentido da parábola e suas implicações. Por meio dessa
discussão, Kafka deixa a critério do leitor a interpretação da narrativa e, em
vez de oferecer a K. alguma clareza sobre sua situação (K., o réu, não sabe
por quem, nem de que é acusado), o relato o deixa mais perplexo a respeito
do processo de que é vítima.
Esta não é só uma das narrativas mais famosas de Kafka: é também uma de
suas preferidas — uma das poucas que, no fim da vida, ele não quis que
fosse queimada.
136

É interessante saber que o romance O processo foi elaborado a partir da


“história do porteiro”, e já no primeiro esboço do romance, datado de 29 de
julho de 1914, aparece um porteiro (CARONE, 2009, p. 139).

Nesta narrativa está – de forma indireta – a crítica ao Direito e à angústia do autor –


diretamente ligada ao papel do porteiro. Diante do papel desempenhado pelos que deveriam
agir como guardiões da lei, foi feita para ser aplicada como ferramenta de salvaguarda do
homem comum.
Ousaremos discutir algumas mazelas do Direito atual, a partir da sempre pertinente
crítica em forma de fábula, feita por Franz Kafka. Lembramos que a imagem da porta foi
utilizada em O novo advogado, que é um texto de abertura de Um médico rural - obra de
Kafka - onde também está o conto agora em comento. Não negamos que é sempre um risco e
um desafio falar sobre as imagens metafóricas utilizadas por Kafka, assim como é instigante
mergulhar na obra do autor. Empolga-nos a tarefa de pensar o Direito partindo dessa ficção, a
qual exprime a realidade que caracteriza a literatura, apesar da ciência, conforme apontado
por Augusto Jobim do Amaral (2008, p. 239):

Ver a escrita como lugar de abertura, um ter lugar que sujeito e objeto se
(trans)formem um através do outro e em função do outro. Falar em Kafka, de
Kafka, sobre Kafka, a partir dele, parece-me retratar a ousadia de se insinuar
de forma sub-reptícia - a pensar com o texto - de maneira transversal
podendo ser envolvido por ele (AMARAL, 2008, p. 239).

3.2 Novos porteiros para portas novas

A discussão que queremos apresentar com base no conto transcrito acima é: qual o
papel do bacharel em Direito, frente ao caso de ver um homem comum - aquele representante
das camadas mais humildes, sem educação formal -, que busca acessar a Lei? E como deve se
formular um Direito que funcione como algo feito, de fato, para o homem comum?
Para essas pessoas, nós somos o porteiro descrito por Kafka e a nós cabe a escolha da
postura que tomaremos: se proibiremos o ingresso do homem no mundo da Lei - como
ocorreu no conto de Kafka - ou se seremos os facilitadores do encontro entre a justiça e o
homem, o qual busca uma reparação para o abalo a um bem (que neste caso, pode não ser
especificamente um bem jurídico).
Essa discussão permeou a crise que sofri e relatei no início do trabalho, sobre o real
papel do bacharel em Direito e quanto ao objetivo do Direito enquanto ciência. Foi o abalo
137

que sofri quando iniciei a prática jurídica que me levou a questionar o que fazíamos ali,
atendendo a população, fazendo petições e protocolando-as no Fórum. Avaliava se era, de
fato, tudo o que poderíamos fazer.
Nesta época, ainda não havia lido o conto Diante da lei e ao ter acesso a essa
narrativa de Kafka, percebi que ele descrevia, nas figuras do homem do campo e do porteiro,
a situação que me marcou no Núcleo de Prática Jurídica – NPJ da Universidade do Estado do
Rio Grande do Norte – UERN.
As pessoas que eu atendia eram os homens do campo descritos por Kafka, e eu ao
prometer a justiça e fazer uma parte do trabalho, sem compreender aquelas histórias e fazer
com que as pessoas compreendessem o Direito que tinham, era o porteiro criado pelo autor.
Prometia a Lei, as pessoas a vislumbravam com proximidade, aguardavam-na, mas ela não
chegaria.
Essa é a analogia que me salta observando o conto. No texto, Kafka lembra que o
homem do campo vê as pessoas no interior da lei, mas o seu momento nunca chega. O
porteiro se mantém silente, a maior parte do tempo observa o homem e sua eterna espera pela
Lei.
E nós somos exímios observadores da cena daqueles que nunca tem acesso à justiça,
muitas vezes agindo como entraves para o encontro entre homem e Lei. As portas da Lei
estão abertas ao homem e os bacharéis/porteiros que deveriam ajudá-lo a entrar pela
passagem que é a porta, agem a dificultar. Criam-se tecnicismos, são tecidos subterfúgios
processuais, exigem-se os mais estranhos rituais e tudo isso tem a função de afastar, de
impedir.
Se quisermos construir uma nova visão social sobre todos os que cultuam o Direito,
temos que atuar como novos porteiros. Precisamos ser os agentes facilitadores do acesso ao
enorme equipamento burocrático que cerca a justiça como ideal. O Direito tem sido um
instrumento de isolamento e autorregulamentação, como criticou Boaventura de Sousa
Santos: “O Direito é um desses subsistemas, um sistema de comunicações jurídicas que
funciona com o seu próprio código binário: legal/ilegal. O Direito só se regula a si próprio”
(2002, p. 159).
E isso faz com que a ineficácia o marque como uma característica própria. O ideal de
justiça torna-se inalcançável por parecer ser uma autoproteção que os que cultuam o Direito
usam para afastar os não iniciados. Mais uma vez, nos socorremos de Boaventura de Sousa
Santos:
138

A ineficácia é um fenômeno simultaneamente jurídico e extra-jurídico.


Refere-se àquilo que o Direito transforma ou deixa de transformar no
"mundo exterior". O "mundo exterior", tanto numa epistemologia
construtivista, é sempre "outro" relativamente ao Direito (2002, p. 162).

Essa postura de barricada, verdadeiro obstáculo à compreensão sobre o ser humano e


que afasta esse dos bacharéis e da própria justiça, produz um arremedo que não atende aos
objetivos do Direito. Não satisfaz a ânsia do homem comum de acessar à Lei, produzindo:
“uma justiça fugidia, opaca, opressora, claustrofóbica, contraditória, burocrática, da qual
passa a ser um objeto de investigação, sem que saiba do que é acusado, quem o acusou e
como se dá seu processo” (ROSA, 2012, p. 10).
Temos o sentimento de que a justiça é um instrumento de poder, ou melhor, achamos
que ela nos dá poder e que toda a nossa tarefa se refere a uma imposição de vontade de um
sobre o outro. É engano pensar assim, nós temos que explicar que o ideal seria uma
composição em que os dois se satisfazem, e isso requer que se compreenda a renúncia, como
foi cunhado por Vieira e Adolfo. Em verdade, é possível dizer que, às vezes, a justiça não é
sempre sobre exercer o poder de forma ininterrupta; mas, sim, de renunciar a ele (2015, p.
201).
Por tornarmos, com a nossa impressão de superioridade e o nosso isolamento, o
acesso à justiça tão difícil, temos como resultado uma ineficácia no papel do Direito, uma
revolta com uma justiça que não funciona. Isto faz crescer o desejo de vingança, a confusão
no meio social entre justiça e vingança. Precisamos tentar reverter essa ineficácia da justiça e
das instituições. Nós somos pessoas que podemos fazê-la dar respostas eficazes aos seres
humanos, sob perda da sua capacidade de pacificar as relações sociais.
O papel dos bacharéis ou profissionais que se dedicam à ciência jurídica poderá ser
entendido melhor quando compreendermos qual a razão de existir do próprio Direito, pois ele
não é feito para se transformar em um instrumento elitizado ou de imposição coercitiva do
poder do Estado. O Direito existe porque “todos aspiram à lei” (KAFKA, 1999, p. 33) e
precisamos guardá-la ao seu destino último, que é saciar essa necessidade humana.

3.3 Todos aspiram à Lei

Se é verdade - como diz o homem comum de Kafka, ao ver se aproximar a morte


sem ter alcançado-a - que todos aspiram à Lei, mas ninguém tem coragem de pedi-la, isto
139

pode se dar por dois motivos: o primeiro, porque não sabem o que é de fato a justiça; e o
segundo, é o medo de afrontar a nós, os porteiros que trancamos a Lei com um segredo, o
qual só pode ser apresentado a quem entende o “juridiquês”.
No primeiro caso, é possível que muitos não saibam o que é a Lei. É bastante comum
que as pessoas a confundam com um ideal de satisfação pessoal, entendendo que a justiça se
volta à melhoria da condição do indivíduo, uma satisfação mais ligada ao sentimento de
vingança. Esse é um engano que é relatado por Ghirardi (2015, p. 88) “A vingança é uma
espécie de Justiça selvagem” afirma Bacon, em um tratado publicado em 1625: “e quanto
mais a Natureza do homem a ela tende, mais deve a Lei reprimi-la. Pois o primeiro insulto
apenas ofende a Lei”.
E a vingança deve ser evitada com fim em si, porque no passado “a vingança era,
assim, ao mesmo tempo selvagem (vale dizer, contrária ao que exigiam a razão e os bons
costumes) e justiça (vale dizer, em harmonia com uma virtude desejada pela razão e pelos
bons costumes)” (GHIRARDI, 2015, p. 88).
A busca e a prática reiterada do ideal de vingança para satisfazer o indivíduo, além
de ser algo que lembra a barbárie, tem o condão de nos diminuir e relativizar o papel do
Direito, levando a uma justiça corrompida que transforma todos em miseráveis. Esta
miserabilidade vingativa do homem está presente na literatura, como por exemplo em
Shakespeare, de acordo com o próprio Ghirardi (2015, p. 89) “A vingança, como sugerem as
nuances do texto shakespeariano, não é a punição de um homem desonesto por um homem
íntegro, mas, antes, um triunfo momentâneo de um miserável sobre outro”.
Por isso precisamos compreender que todos buscam a justiça, todos almejam a Lei
porque ela é um ideal. Como dizia Derrida, “[...] a justiça sempre fica por vir, ou seja, ela é a
dimensão mesma de eventos irredutíveis ao presente” (CASTRO, 2008, p. 109). Se sabemos
que todos aspiram a essa conquista humana, precisamos repensar a nossa postura. Ser mais
humanos é pensar novamente sobre o Direito e a justiça, reformar o que entendemos como
seu papel e seu objetivo. Podemos ousar em (re)formar o pensamento jurídico atual.
Franz Kafka, no conto Diante da lei, conta a história de um homem comum que
busca a lei, chega à sua entrada e não consegue acessá-la, porque um porteiro impede a sua
entrada. Usaremos a visão metafórica para descrever como Kafka usou o termo lei - no
sentido de ideal de justiça -, como aquilo que é ofertado ao cidadão comum pelo Estado, por
meio da sua função jurisdicional – sendo o Estado representado no conto pelo porteiro –, a
qual é a competência exclusiva de “dizer o Direito” (REALE, 2012, p. 296). O Estado usa a
140

jurisdição ou a capacidade de definir as normas jurídicas para, nas reformas jurídicas atuais,
tornar a possibilidade de acesso mais restrita aos homens não iniciados, fazendo com que o
homem comum fique na porta da lei sem ter coragem de entrar, como no conto de Kafka.

Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e


pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a
entrada (KAFKA, 1999, p. 30).

É preciso entrar na discussão feita por Lenio Streck sobre o papel do Direito e o seu
distanciamento das artes. Como o modelo de hermenêutica jurídica (STRECK, 2014, p. 29)
experimentada prima pelo personalismo e pela demonstração do poder individual do julgador
como agente estatal. Este pratica o chamado decisionismo31, sendo a liberdade interpretativa32
(STRECK, 2014, p. 30) uma arma de afirmação do poder estatal, dificultando a produção de
um ideal de justiça mais próximo do cidadão comum.
Propomos um pensar de forma dialógica, a compreender que as (re)formas do
Direito, em sentido amplo, passam pela mudança a ser aplicada sobre os próprios ditos
aplicadores do Direito. A estes que se entendem superiores, para que entendam que manejam
- e aqui o uso do verbo de sentido instrumental é proposital - uma criação do homem aos
homens, não devendo entender o Direito como um instrumento de imposição da força
coercitiva do Estado. É melhor entendê-lo como um meio, uma técnica formada por
operações objetivas e dotado de subjetividades, porque se desenlaçam sobre as relações
humanas. Se esse não for o papel desta ciência social aplicada, que a porta se feche, como no
conto de Kafka, e passemos a trabalhar todos sobre um espectro de algo inalcançável para o
ser humano.

31
[...] isso se repete no decisionismo de Kelsen, quando este sustenta que a “interpretação é um ato de vontade”.
Na verdade, trata-se da vontade de poder, uma forma de estabelecer “um grau zero de sentido” (STRECK, 2014,
p. 63).
32
[...] na última década: as teorias voluntaristas, que, sob pretexto de superar o “juiz boca da lei”, apostaram na
liberdade interpretativa dos juízes e tribunais. Resultado: o establishment passou a investir em projetos de
vinculação jurisprudencial.
Essas novas questões foram recebendo atenção na presente obra, na medida em que novas edições foram
surgindo. Pode-se dizer, assim, que a presente edição busca reunir os vários elementos da crise que atravessa o
Direito, especialmente nestes vinte e cinco anos de Constituição compromissória e dirigente
141

3.4 O desafio da racionalidade

Antes, na Era Medieval, era o monarca absolutista o titular do poder, possuidor de


delegação divina para instituir regras e normas, exigindo o cumprimento destas. Ele era a
personificação da lei e a justiça era a sua vontade. Mais adiante, com o ocaso do medievo e o
surgimento das ideias iluministas, a prerrogativa que era do monarca se desloca à lei.
A partir deste momento histórico é a norma fixada pelo Estado como ente
despersonalizado que impõe as condutas e limita as ações. Esse mesmo Estado - substituto do
personalismo monárquico - exige o respeito e aplica a sanção aos que descumprem esses
preceitos. A partir de então, ganha força a exclusividade da jurisdição estatal, impondo-se por
meio da força coercitiva, da qual ele é dotado. Tal apropriação do Direito pelo Estado fora
objeto de ponderação de Platão em A República, como demonstra o texto abaixo, do diálogo
entre Sócrates e Trasímaco (PLATÃO, 2011, p. 38-39):

A definição de Trasímaco: a justiça é o interesse do mais forte, ou seja, do


governante.

— Ouvi-me então — disse ele. — Sustento que o justo outra coisa não é
senão o interesse do mais forte. Por que não me louvas agora? Não hás de
querê-lo, por certo.
— Hei de fazê-lo — respondi — quando chegar a entender o que dizes, mas
por enquanto não entendo.
Que significam as tuas palavras, Trasímaco? Sem dúvida não queres dizer
que, pelo motivo de Polidamante, o campeão de luta, ser mais forte do que
nós e de lhe fazer bem o alimentar-se com carne de vaca, esse regime é
também justo e adequado para nós, que somos mais fracos?
— És detestável, Sócrates! Tomas as minhas palavras no sentido mais
prejudicial ao argumento.
— De nenhum modo, meu nobre amigo — disse eu. — Estou apenas
procurando compreendê-las; explica-te com mais clareza.
— Bem — tornou Trasímaco —, nunca ouviste dizer que as formas de
governo diferem entre si; que há tiranias, aristocracias e democracias?
— Como não?
— E que o governo de cada cidade é o que nela detém a força?
— Certamente.

Sócrates obriga Trasímaco a explicar-se.

— E as diferentes formas de governo fazem leis democráticas, aristocráticas


ou tirânicas tendo em vista os seus respectivos interesses. E ao estabelecer
essas leis, mostram os que mandam que é justo para os governados o que a
eles convém, e aos que delas se afastam castigam como violadores das leis e
da justiça. É isso o que quero dizer quando afirmo que em todos os Estados
rege o mesmo princípio de justiça: o interesse do governo. E, como devemos
142

supor que o governo é quem tem o poder, a única conclusão razoável é que
em toda parte só existe um princípio de justiça: o interesse do mais forte.

O diálogo segue com a discordância de Sócrates sobre o princípio de a justiça ser o


interesse do mais forte. No entanto, penso que o trecho acima mostra que a discussão sobre o
princípio da justiça é antigo e falamos aqui de mais uma obviedade. Embora fique claro que o
Estado acabou sendo o tutor da justiça, ousamos seguir na linha de que o seu princípio não é o
interesse do mais forte, e sim o interesse coletivo, tendo a necessidade de tornar viável a vida
em sociedade.
Dentro dessa configuração jurídica e social ainda vigente, a racionalidade é o
paradigma de existência e aplicação da norma, realidade que surge com o Estado Moderno,
palco das relações sociais superficiais e de duração e futuro incertos. O Estado é o detentor de
um mandato para ser o tutor das relações econômicas, culturais, sociais, enfim, das relações
humanas.
Esse modelo estatal se fundou em uma ciência que prima pelo tecnicismo, por um
positivismo que - filosoficamente preponderante na maioria das ciências do chamado período
moderno - teve a sua importância para a afirmação do Direito, mas que não é um instrumento
capaz de fazer evoluir a ciência, a qual ajudou a construir. O Direito adotou o positivismo
jurídico como forma de atender a uma noção de Estado, o qual precisava praticar a
intervenção nas liberdades individuais, em favor de uma chamada convivência coletiva
racional e pacífica.
É neste pano de fundo - no início do século XX - que Kafka vive e tira das suas
experiências, da observação atenta da realidade social, elementos à construção da sua obra.
Usou da linguagem metafórica para tecer críticas às relações humanas, ao Direito, ao
segregacionismo, ao individualismo entre outros apontamentos que, feitos sobre o seu tempo,
permanecem atuais. Dentro desses textos que usam de metáfora - ou realismo fantástico,
como classificam alguns -, destacamos a utilização neste trabalho do conto Diante da Lei.
Este apresenta um quadro de constrangimento de um ser humano diante de um agente
opressor, que dificulta o seu acesso à lei, e como já dissemos, esta é uma simbologia da
justiça. Essa lei, protegida por um porteiro, representa o poder coercitivo da burocracia
estatal. O porteiro da lei é um guardião da supremacia da vontade do Estado sobre as
necessidades humanas.
Para cada um desses períodos, a máquina estatal precisou de um novo suporte
normativo/jurídico capaz de acelerar a sua atividade regulamentadora. Por decorrência, a
143

hermenêutica jurídica tem íntima ligação com as demandas sociais a serem resguardadas pelo
Estado. O Direito não pode primar pela exclusividade da tutela dessas demandas, tampouco
continuar acreditando que a pureza da ciência jurídica apresenta as respostas e é capaz de
entregar justiça aos homens. Como ensina Gurgel, é preciso exercitar a interdisciplinaridade
como meio de (re)formar o Direito e enfrentar o desafio da racionalidade (2013, p. 73):

Em sociedades pós-modernas, absolutamente complexas e plurais, cujos


valores são extremamente variáveis e transportados para o próprio texto da
lei, o Direito não pode ser o soberano, a reinar só e absoluto, sendo a
interdisciplinaridade o caminho viável para uma nova perspectiva da análise
dos seus institutos e da interpretação das suas regras.

Enfrentar a racionalidade exagerada, fugir da noção de um Direito racional que


compreende e integra fato e norma, eis o desafio ao qual devemos nos lançar. A sociedade
formada pelos homens precisa de uma ciência jurídica humanística. Buscar meios de construí-
la é praticar a interdisciplinaridade, a integração entre as ciências, exercitar uma compreensão
dialógica que integre fato, norma, contexto, vivência. Na hora de integrar o Direito com o
mundo dos fatos, interpretando as regras presentes nas sociedades, pensemos se estamos
reaproximando-o do homem comum, ou fazendo uma justiça que se volta contra ela.
A ânsia em acelerar as suas respostas às demandas sociais pode resultar na derrocada
da sua credibilidade. O Direito definhará na medida em que os seres humanos envolvidos nos
fatos sociais se sentem distantes e pouco representados dentro da sua tecnicidade. Os referidos
humanos são produtos e produtores da pretensão resistida - levada à análise do judiciário -,
que nada mais é do que um termo técnico para delimitar as relações humanas, objeto da
análise e razão de ser desta ciência.

3.5 Diante da Lei: Uma (re)forma no pensamento

O papel atual do Direito e as reformas propagadas ultimamente para acelerá-lo -


como a súmula vinculante; o livre convencimento do juiz fundado na propalada verdade
processual; o uso da técnica jurídica apurada; o desencorajamento de qualquer subjetividade
dos seus amantes; e a falta de contato dessa ciência com a complexidade da condição humana
- precisam de outro tipo de (re)forma. O que essas práticas e novos procedimentos causam de
benéfico é uma noção de efetividade - apenas pelo viés da duração do processo -, mas trazem
144

um efeito negativo, que é o distanciamento entre os cidadãos comuns - os homens não


“letrados” no tecnicismo do Direito33 - e a justiça.
A problematização proposta é pensar se esses modelos que primam apenas pela
aceleração da resposta judicial não estariam afastando o Direito - uma obra essencialmente
humana, construção feita por humanos e para os humanos - das pessoas que protagonizam as
relações que são o objeto do Direito. Isto resulta em um cumprimento parcial e imperfeito da
sua função enquanto ciência social aplicada. A sensação de obstáculo ao acesso é também o
fato gerador do isolamento da ciência jurídica - que pretende regular as relações humanas, por
meio da aplicação da técnica como instrumento -, mais preocupada com a eficiência temporal
do que com a eficácia normativa ou o seu papel social.
Essa forma de atuação dos que cultuam a ciência do Direito lembra o mito de Sísifo.
Sísifo presenciou Zeus raptando Egina, filha de Asopo, e em troca de um poço para sua
cidade, entrega o deus do Olimpo. Ao saber da traição, Zeus envia Tânatos para levar o
esperto Sísifo para Hades – o mundo subterrâneo –, onde viviam as almas condenadas.
Pressentindo o seu destino, Sísifo tenta enganar os deuses e pede à esposa que não o
enterrasse após a sua morte. Ao chegar a Hades sem o eídolon – traje solene obrigatório – foi
perguntado por Plutão sobre o motivo do sacrilégio, tendo culpado a sua esposa que não o
teria prestado as honras fúnebres. Conseguiu uma permissão para voltar rapidamente à terra
para castigar a culpada pelo seu infortúnio. Descumprindo a palavra dada, Sísifo passa a viver
normalmente com a esposa. Ao saber que Sísifo tentou enganar os deuses e a própria morte,
Zeus envia Tânatos que o levou definitivamente para o Hades onde, desta vez, recebeu um
castigo terrível: Sísifo deveria rolar uma enorme pedra morro acima, quando chegasse ao final
a pedra se soltaria para que, no dia seguinte, Sísifo tivesse que rolá-la morra acima, repetindo
a tarefa por toda a eternidade (BRANDÃO, 1986, p. 226).
Esse mito demonstra o esforço de alguém para exercer uma tarefa que não tem um
fim, não se exaure e demanda um trabalho que não apresentará um resultado e será repetido
da mesma forma, sempre.
Por esse modelo o chamado operário do Direito, esse ser condenado a laborar sobre a
técnica jurídica repetitiva – como Sísifo –, sem o saber, atua como o porteiro, que a vida toda

33
Neste contexto agrupamos as linguagens próprias, o latim, os símbolos, a dogmática, as ritualísticas próprias
do Direito e que são inacessíveis aos humanos, os quais não dominam essa teia de construções e que servem para
proteger a própria aura de uma ciência de elite.
145

prometeu o acesso à lei – representação simbólica da lei e da justiça –, na metáfora descrita no


conto de Franz Kafka34.
Os agentes estatais - neste caso, os que exercem a função de jurisdicionar - fazem as
vezes do porteiro ao não franquiar o acesso das pessoas comuns à justiça – que parece ser a
única razão da existência da ciência jurídica. Se promover o efetivo acesso à lei e à justiça,
não há razão de se construir uma ciência e nem perde sentido ter pessoas que se debruçam
sobre esse conhecimento.
O guardião da porta de entrada de Kafka - assim como nós, amantes e cultores do
Direito - existe para garantir o acesso à lei e à justiça aos seres humanos. A lei é guardada não
por livros ou códigos, mas por cultores que são os guardiões, os quais abrirão as portas da lei
e da justiça ao cidadão que realmente a deseja. Mas o papel que temos representado é o de
prometer - mas não criar ou usar de meios capazes de garantir o acesso à justiça -, levando o
ser humano à frustração da busca sem fim e à perda da esperança, como o homem do campo
de Kafka35.
Os agentes estatais - magistrados e demais responsáveis pela jurisdição - lembram o
personagem Filoclêon, da obra As Vespas de Aristófanes, que tinha uma patologia, a paixão
pela vida forense. Ele não conseguia viver sem exercer a função de juiz, de tal modo que foi
aprisionado e ficou sob a guarda dos seus escravos Sosias e Xantias. Estes presenciaram a
angústia do mestre ao ser tolhido do seu vício de ser juiz, de exercer uma justiça personalista,
é o decisionismo citado por Streck. O escravo Xantias relata a patologia do seu senhor:

Se vocês estão curiosos por saber, façam silêncio; vou dizer qual é mesmo a
doença de meu senhor: é a paixão pelos tribunais. A paixão dele é julgar; ele
fica desesperado se não consegue ocupar o primeiro banco dos juízes
(ARISTÓFANES, 1996, p. 17).

Filoclêon tinha paixão pela função de juiz, o seu grande prazer era condenar, como
ele mesmo deixa claro, ao bradar pedindo para sair de casa com destino ao banco dos juízes:
que é que vocês estão querendo fazer? Vocês não vão mesmo me deixar julgar? Dracontidas

34
O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde.
— É possível — diz o porteiro. — Mas agora não.
Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para
olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:
— Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o
último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro (KAFKA,
1999, p. 30)
35
O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora (...)
(Kafka, 1999, p. 31).
146

vai ser absolvido! (ARISTÓFANES, 1996, p. 20). Eis o perfil dos que agem ao produzir um
Direito e uma jurisdição que nega o acesso à lei e à justiça como ideal, representado por
Kafka como o porteiro.
Problematizar a atual prática reducionista do acesso à justiça é necessário para que
possamos combater o discurso segundo o qual restringir as medidas judiciais tornam a justiça
mais célere, partindo de uma premissa de que sendo rápida, até uma injustiça(zinha) é
aceitável. Não estamos defendendo aqui uma justiça paquidérmica ou leniente, mas sim o uso
da racionalidade prática, operativa (MAGALHÃES, 2013, p. 106), que é habilidade de “fazer-
fazendo”. Descrita pelo próprio Magalhães, é aquela na qual a consciência atua como
monitoração do ser humano, mas não podem constituir um pressuposto racionalista que
dificulte a integração da norma com as relações humanas, com as vivências.

3.6 A condição humana, Direito e a literatura

A condição humana carece de pertencimento na e pela ciência do Direito. Essa


justiça que entregamos aos cidadãos, mas que eles tem muito pouco, é filha da falta de noção
da complexidade do fenômeno jurídico-humano. Este é gerado pelo reducionismo do Direito,
como nos mostra Streck (2015, p 2): “dia a dia, tento mostrar a complexidade do fenômeno
jurídico, travando uma luta sem fronteiras contra os “direitos mastigados”, ‘twitado’,
‘resumidinhos’, ‘simplificados’, ‘plastificados’ e congêneres”.
A condição humana - como objeto de uma nova compreensão sobre a ciência, focada
na religação - é concebida como um desafio a uma tarefa complexa. Tarefa essa que pode ser
definida nas palavras de Morin (2012, p. 16), quando ele afirma que “[...] todas as ciências e
todas as artes iluminam, a partir de ângulos específicos, o fenômeno humano”. Porém, há uma
sombra que faz com que a nossa “unidade complexa” nos escape e o isolamento da ciência faz
com que “A convergência necessária das ciências e das humanidades para restituir a condição
humana não se realiza” (MORIN, 2012, p. 16).
Os “princípios da redução e da separação” que atingiram as ciências, inclusive as
humanas, acabam por impedir que “se pense o humano” (MORIN, 2012, p. 16). Por isso,
precisamos religar o Direito aos saberes das demais ciências, e a literatura é capaz de permitir
o voo interdisciplinar e levar a condição humana de volta ao centro da discussão jurídica.
O ideal de justiça, que prometemos entregar a todos os homens, requer - dentro de
uma perspectiva humanizada e menos tecnocrata - um judiciário dotado de eficiência, uma
147

justiça que seja entregue dentro de um lapso temporal razoável, mas que preserve a função
primordial de integração entre Direito, fato e relações humanas. Se buscamos uma justiça – a
instituição - que se apresente mais célere, precisamos construir meios para que a justiça – o
ideal – seja acessível ao homem. O preço da celeridade judicial – a do judiciário - não pode
ser o afastamento do Direito do ser humano, sob pena de acabarmos com a ciência jurídica
como atividade humana. Fechá-la em si mesma e transformá-la em um instrumento
burocrático do Estado, terá como único objetivo dizer a lei com velocidade e impor o
resultado por meio da coerção.
Ao criar uma norma ou dizer o Direito, o que se pretende é compor os conflitos e
possibilitar a vida em sociedade, e a ciência do Direito precisa se apresentar e ser aceita como
um instrumento indispensável à possibilidade da vida em coletividade. Foi essa uma das
razões pelas quais as pessoas abriram mão de uma parcela de liberdade, enquanto sujeitos,
para que a vida em sociedade pudesse ser regulamentada pelo Estado - por meio da sua
competência para jurisdicionar - e ter como retorno uma justiça efetiva.
O ser humano, enquanto sujeito de direitos, sabe onde estão os fóruns, pode contratar
um advogado, tem relativo conhecimento sobre os seus direitos básicos, mas continua
contemplando o Direito como algo feito por e para homens superiores. Embora saiba que tem
a garantia constitucional de acesso à justiça - princípio inerente aos Estados Democráticos de
Direito -, nós humanos não nos sentimos parte concorrente ou atendida por essa construção
científica técnica.
Os chamados aplicadores do Direito agem hoje como o porteiro, personagem do
conto Diante da lei, de Franz Kafka, quando confrontados com um homem comum às portas
da Lei – simbologia da justiça – se comprometendo em franquear o acesso, mas operando de
forma a não permitir que homem e justiça se encontrem, objetivo inicial do próprio Direito.
Essa prática no Direito atual é representada pelas decisões judiciais ininteligíveis,
padronizadas, sem qualquer ligação com a realidade social, apresentada pela realidade dos
fatos gerados dentro de uma relação humana.
Uma ciência que usa de silogismos para garantir a sua aplicação e integração com o
mundo dos fatos, instrumentalizada como uma espécie de regra de três jurídica, na qual
mediante algumas variáveis, entregar-se-á um resultado efetivo, certo, rápido, mas que não se
comunica com o ser humano, que se afastar da sua razão existencial.
O Direito se faz ciência por meio da integração com outros conhecimentos, precisa
da interligação com o que há de humano nas pretensões resistidas, precisamos praticar a
148

intersubjetividade inserida no Direito desde o século XX e pouco exercida na sociedade


atualmente. Isso traz como resultado um Direito imposto pelo Estado através dos seus
agentes, pouco democrático. A (re)forma do pensamento sobre o papel e o objetivo do Direito
requer o paradigma da intersubjetividade, como foi proposto por Lenio Streck:

E ter em conta que o paradigma da intersubjetividade, conquista do século


XX, é condição para desenvolvermos um direito democrático. Acreditar em
fatalidades do tipo “juiz decide assim mesmo, não adianta” é entregar-se ao
direito como um mero jogo de poder, em que o jurista-que-não-decide
(porque não é magistrado) não tem qualquer importância. Afinal, se tudo
isso é “assim mesmo”, os estudantes, advogados e doutrinadores são inúteis,
de forma autodeclarada (STRECK, 2015, p. 4).

Ter como objeto de estudo o ser humano, base das relações sociais, e se afastar dessa
condição humana por meio de artifícios técnicos, podem resultar e de fato resultam em: belas
apresentações, gráficos complexos, metas rigorosamente cumpridas, aliado à excessiva
padronização das decisões sem questionamento. Tudo em razão do livre convencimento
imotivado, que é a marca do decisionismo judicial. O que vemos é uma redução das medidas
legais que garantem o acesso do homem comum ao judiciário - o uso da técnica e do
paradigma da racionalidade jurídica -, como meios de afirmação de um Direito que prima
pelo lícito e pouco tem de justo.
Eis a contradição que o amante do Direito precisa enfrentar, pois não podemos nos
conformar com os “destartes” e “dessartes” que ligam a nossa incapacidade de pensar o
Direito de outro modo, exceto a narrativa de fatos que são pouco compreendidos. Pensamos o
Direito como ciência que prima pela técnica racional, não praticando a intersubjetividade,
nem a interdisciplinaridade, desconhecendo as vantagens de pensar dialogicamente.
Pensar complexamente o Direito é simplificá-lo, fazer ver que a condição humana e a
sua complexidade não podem ser apreendidas, assim como as normas não podem ser
integradas com o humano somente pelo conhecimento jurídico, tecnicista e racionalizado. A
(re)forma é pretender construir um conhecimento jurídico que utiliza a intersubjetividade e a
interdisciplinaridade, no intuito de atingir a compreensão do ser humano e suas relações.
Precisamos reformar sim algumas práticas, utilizando a máxima de Rui Barbosa
(2015, p. 01), a qual nunca foi tão moderna: “[...] justiça atrasada não é justiça, senão injustiça
qualificada e manifesta. Porque a dilação ilegal nas mãos do julgador contraria o direito das
partes, e, assim, as lesa no patrimônio, honra e liberdade”. Porém, não podemos - sob o
argumento de agilizar a prestação jurisdicional ou tornar a justiça mais célere - fazer revisões
149

a expensas da perda de identidade do Direito com o homem. Uma ciência que é formada pelas
relações humanas só existe para regular a sua condução e os seus resultados, sendo um meio
de pacificar e tornar possível a vida em sociedade. Não pode trilhar o caminho da disjunção
para com o humano e deixar que esse aguarde às portas da lei por um acesso que o próprio
Direito obstaculiza.
O humano é parte do Direito, o Direito é formado pelo humano. O Princípio
Hologramático36 (MORIN, 2003a, p. 93) já afirma que não podemos conceber um
conhecimento que afaste o todo da parte, sob pena de desconstruir uma retomada de relação, a
qual é necessária à própria reafirmação desta dita ciência jurídica. O Direito precisa se
reencontrar com o homem, precisa se (re)humanizar, para que este volte a se sentir aceito e
representado por ele, reconhecendo-o como sua construção, se sentido pertencido e
pertencente à justiça, que é produzida por aqueles que estabelecem as normas e dizem a lei.
Não podemos deixar que o homem frente ao Direito contemporâneo se sinta como o
personagem de Kafka37: nas portas da Lei, sendo um ser constrangido. Uma vez que ele não
alcançou o seu objeto, o acesso a ela deve ser fechado, desvirtuando o objetivo da ciência
jurídica, impossibilitando o ideal de justiça38. Uma ciência racional e que não integra norma e
ser humano é uma porta cerrada para o homem comum39. “Precisamos de um pensamento que
tente juntar e organizar os componentes (biológicos, culturais, sociais, individuais) da
complexidade humana[...]” (MORIN, 2012, p. 17).
Direito e literatura devem caminhar juntos como uma forma de expor as práticas e
necessidades humanas, e a literatura pode se transformar em uma máquina, capaz de
revolucionar o Direito e as outras ciências:

36
Também denominado Princípio Hologrâmico, segundo o qual o todo está na parte assim como a parte é a
representação do todo.
37
Durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e
este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos, amaldiçoa em voz alta e
desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo (KAFKA, 1999,
p. 32).
38
Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem
na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se
aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele,
já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:
— O que é que você ainda quer saber? — pergunta o porteiro. — Você é insaciável.
— Todos aspiram à lei — diz o homem. — Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu
para entrar? (KAFKA, 1999, p. 33)
39
O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:
— Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e
fecho-a (KAFKA, 1999, p. 33).
150

A máquina literária toma assim o lugar de uma máquina revolucionária


porvir, de modo algum por razões ideológicas, mas porque só ela é
determinada a satisfazer as condições de uma enunciação coletiva que faltam
por toda outra parte nesse meio [...] (DELEUZE; DERRIDA, 2014, p. 37).

Para isso, basta que trabalhemos literatura e Direito em dialogia, como


representações da condição humana e formuladas pelo povo. Direito e literatura são formas de
interpretação da própria vida e a literatura pode levar o Direito à compreensão do humano que
é “rico, contraditório, ambivalente; de fato, é demasiado complexo para os espíritos formados
no culto das ideias claras e distintas” (MORIN, 2012. p. 17).
151

4 O Direito e a literatura, interpretações da vida

Muitos se tem discutido qual a natureza da ciência do Direito, ou mais


detalhadamente, qual o papel da ciência jurídica e o seu objetivo? O Direito no Brasil,
enquanto ciência social aplicada, tem como papel a compreensão dos fenômenos sociais por
meio da apreensão, mediação e regulação dos conflitos. Deve aplicar a norma formal ao caso
prático, ou melhor dizendo, deve harmonizar norma e fato à consecução da vida em
sociedade, de forma pacífica.
Mas como é feita a integralização das normas genéricas, produzidas sob uma égide
social, que não consegue contemplar todas as relações humanas e as pretensões resistidas que
dela surgem? Uma tentativa de explicação, pelo viés do pensamento e da problematização,
abandona logo a noção de uma resposta completa a essa indagação, e passando pela noção
que se tem de qual o objetivo último do Direito e como deve ser abordada a norma, diante das
relações construídas no seio social.
Boaventura de Sousa Santos reporta quatro grandes interpretações sobre as grandes
transformações sociais que o mundo ocidental viveu. Por elas podemos começar e interligar a
evolução social com a própria evolução do Direito:

[...] quatro grandes interpretações da transformação social do nosso tempo.


De acordo com a primeira, o capitalismo e o liberalismo triunfaram e esse
triunfo constitui a maior realização possível da modernidade (Fukuayama e o
fim da história) [...] De acordo com a segunda interpretação, a modernidade
é, ainda hoje, um projecto inacabado, com capacidade intelectual e política
para conceber e pôs em prática um futuro não-capitalista (Habermas,
Jameson) [...] De acordo com a terceira interpretação, a modernidade
soçobrou aos pés do capitalismo, cuja expansão e reprodução socio-cultural
irá, daqui para a frente, assumir uma forma pós-moderna (Daniel Bell,
Lyotarde, Baudrillard, Vattimo, Lipovetsky) [...] de acordo com a quarta
interpretação, a modernidade entrou em colapso como projecto
epistemológico e cultural, o que vem a abrir um vasto leque de
possibilidades futuras para a sociedade, sendo um delas um futuro não-
capitalista e eco-socialista (SANTOS, 2002, p. 166-167).

Tradicionalmente, o entendimento é que a norma é uma produção do passado ao


futuro, ou seja, ela é construída pelos legisladores e deve ser aplicada aos fatos posteriores.
Cabe aos estudiosos do Direito respeitarem a sua aplicação primeira e, buscarem a intenção
do poder legislativo ao aplicá-la, via procedimento interpretativo. Daí exsurge a primeira
problemática a ser discutida, qual seja, o procedimento de integralização da norma ou
interpretação a ser utilizado. Mas não podemos mais interpretar para compreender,
152

precisamos compreender para poder interpretar o objeto de estudo do Direito (STRECK apud
GURGEL, 2013, p. 75).
Nos dias atuais tem prevalecido o tecnicismo que resulta no afastamento do Direito
dos fatos, ou melhor, na adequação destes à objetividade técnica - sob alguns princípios da
ciência jurídica muito ligados à Teoria da Exegese Francesa -, que se funda no Direito Civil e
na noção patrimonialista do Direito. É certo que passamos por um momento de movimentação
do núcleo motor da ciência jurídica, sai do foco o pensamento civilista e se desloca o Direito
Constitucional e a sua principiologia. Este Direito passa ser a mola propulsora de uma nova
forma de compreender o papel da ciência jurídica.
Tal mudança tem reflexos imediatos no surgimento e solidificação de diversas novas
formas de integralizar o Direito, de responder aos desafios da vida em grupo e da
problemática da vida em sociedade. Entre elas, o chamado Ativismo Jurídico (STRECK,
2014, p. 128), que defende a possibilidade do Poder Judiciário suprir a omissão de outros
poderes, muito aplicado no nosso Supremo Tribunal Federal.
Mas é preciso que essas mudanças sejam aceleradas, precisamos trabalhar a
formação jurídica, preparando os novos bacharéis a uma compreensão problematizadora das
relações humanas. Com maior dinamismo trazido pela religação com as outras áreas do saber,
será capaz de interpretar as normas e os fatos, compreendendo o real sentido da pacificação
social. Esta terá papel mais destacado quando os estudiosos do Direito se sentirem mais
próximos da condição humana, quando o ser humano se sentir representado pelo Direito,
sendo parte da justiça como instituição e contemplado pela justiça enquanto valor.
Não acreditamos que possa existir um procedimento para adequar a norma à vida, ou
melhor explicando, não haverá nenhum procedimento capaz de albergar todos os atos da vida,
todas as nuances das relações humanas, todas as idiossincrasias dos conflitos sociais. Eles são
complexos demais a um só caminho ou a uma mesma ferramenta. A exclusão das
possibilidades tem papel claramente desagregador do Direito para com a sociedade. Embora
concordemos com Silvio Rodrigues para quem:

[...] a necessidade da interpretação é indiscutível e, exceto naqueles casos em


que o sentido da norma salta em sua absoluta evidência, o trabalho de
exegese se apresenta continuamente ao jurista (RODRIGUES, 1995, p. 26).

Para que se compreenda a condição humana e com essa compreensão seja possível
construir um Direito que entregue à sociedade a norma aplicada ao caso, a jurisprudência
deverá estar próxima das relações sociais, alcançando como resultado um ideal de pacificação
153

social, aproximando-se de cada jurisdicionado. Isso não depende de um procedimento ou uma


escola hermenêutica específica. Isso precisa bem mais de um estudioso com os olhares
abertos aos fatos, aos conhecimentos, não desprezando a contribuição da vivência humana à
existência do Direito e entendendo que este tem como papel retratar uma época, com as suas
diversas facetas.
Talvez a busca por uma regra interpretativa que limite a abordagem sobre a norma,
venha sendo um instrumento à produção de uma justiça longe do ideal de construção da
regulação dos conflitos e da harmonização social. A mera regra de uma teleologia para
interpretação do Direito não poderá alcançar o real sentido de uma construção do passado à
aplicação a um evento futuro, que é imprevisível e inclassificável:

Releva registrar, desse modo, que a discricionariedade e o positivismo


normativista buscam fechar as lacunas de racionalidade – ou, no limite,
ausência de racionalidade – por uma metodologia teleologicamente
dependente do sujeito que concretiza o ato. Tudo isso não permite que eles
saiam dos braços da filosofia da consciência. É por isso que venho
sustentando que somente é possível superar o positivismo a partir da ruptura
com o esquema sujeito-objeto introduzido pela filosofia da consciência, isto
porque o positivismo está indissociavelmente dependente do sujeito
solipsista (STRECK, 2014, p. 210).

Se as relações das quais decorrem o fato são complexas por excelência, não pode
existir um padrão de integralização de norma capaz de resultar em um futuro regulado pelo
passado. Aí está a grande dificuldade do Direito, permeado pela objetividade e tecnicismo.
Qual seria a utilidade de uma regra interpretativa? Interpretações se operam sobre
fatos ou em constante alteração e não devem, necessariamente, obedecer a fórmulas, regras ou
métodos. Assim o é no caso humano, pois a vida vivida não tolera restrições, a alma humana
toma rumo, floresce e viceja como o odor das flores. Não conseguiremos criar represas
metodológicas capazes de obstar as construções humanas, elas fatalmente escaparão como os
sonhos, sem que possamos ter domínio ou compreensão plena.
Sendo as relações humanas formadas por seres, a condição humana exprime a alma
dos homens. O esforço interpretativo deve se deslocar e ser um esforço para alcançar algo
bastante incerto, por isso não usamos forma, método ou procedimento. O esforço de quem
interpreta é tentar sair do tecnicismo e do utilitarismo e partir da análise da vida, dos fatos,
das pessoas. É o caminho que se faz pela andança e não a caminhada por uma estrada
previamente construída. Na caminhada marcada pela andança, cada pedra demarcará uma
154

nova estrada, cada bifurcação uma escolha, o medo de se perder não pode dominar e
encontrar abrigo na tecnocracia integrativa.
E como o Direito hoje pode alcançar essa percepção humana? Muitos têm utilizado
definições científicas em que prepondera o uso da Sociologia do Direito, surgida no século
XIX (LUHMAN, 1983, p. 20), para se alcançar a complexidade das relações humanas. Mas
que sociologia jurídica pode ser entendida como meio de interpretação do Direito, buscando
uma compreensão da condição humana? Por se tratar de mais uma ramificação do Direito,
buscando explicá-lo pelos conceitos de uma sociologia aplicada, esse caminho não consegue
dar conta da missão de aproximação entre o Direito e o humano. Por ser focado em uma
análise de formações sócio coletivas para explicar a vida, parte de um pressuposto conceitual
e minora a importância do elemento individual, a subjetividade.
Nessa trajetória de busca - menos de um método ou de uma norma interpretativa, e
mais ligada a uma caminhada de compreensão do ser humano -, é preciso estabelecer qual a
ligação do Direito e da literatura como meios de interpretações da vida. Sendo esta uma
construção de interdependências e encadeamento de práticas individuais, das vivências
humanas, seriam literatura e Direito capazes de se interligar, para juntos levar a jornada em
aberto, conseguindo construir um saber mais integrado e próximo da multiplicidade do ser
humano. Apostamos na lição de Olga de Sá (2013, p. 17):

Enquanto houver quem leia e preserve os grandes “clássicos”, sejam pessoas


e/ou instituições, tempos esperanças de que o homem se mantenha humano,
se humanize cada vez mais.
Cada um de nós, enquanto se torna receptivo aos grandes temas da Literatura
– o amor e a morte, a liberdade e o destino, o absurdo e o racional, a
iniquidade e a justiça, a angústia e o medo, o desespero e a esperança, a
beleza e o grotesco - poderá encontrar em si o diálogo com as profundezas
do ser e o silêncio diante do mistério.

“Trata-se, enfim, de demonstrar que, em toda grande obra, de literatura, de cinema, de


poesia, de música, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição
humana” (MORIN, 2003a, p. 44). A literatura é uma porta de acesso à condição humana, pois
estudando-a “o intérprete afina a sua sensibilidade na leitura da realidade, da vida, dos
aspectos particulares da existência, dos valores envolvidos nos acontecimentos humanos”
(VESPAZIANI, 2015, p. 81). A literatura traz em si a história de autores e leitores (SÁ,
2003). Por isso é complexa e múltipla na sua essência, o que pode ser um contributo para o
Direito integrar a vida e ser integrado por quem vive, aproximando-o da condição humana
cósmica, terrena, biológica, social etc. “É, pois, na literatura que o ensino sobre a condição
155

humana pode adquirir forma vivida e ativa, para esclarecer cada um sobre sua própria vida”
(MORIN, 2003a, p. 48). A junção da literatura com o Direito é o que defendemos como uma
possibilidade de fazer uma ciência interdisciplinar, capaz de evoluir e fazer evoluir,
compreendendo uma nova consciência sobre o ser humano e o mundo. Para que a literatura?
Para termos direito ao sonho e a garantia da realidade (SÁ, 2003, p. 17).
Uma boa definição é que Direito e literatura podem se unir em um casamento, do
qual frutificará uma descendência capaz de problematizar o homem e a sociedade, esquecer a
objetividade e o empirismo puros. Essa definição vem sendo construída por muitos estudiosos
do tema literatura e Direito:

A relação entre Direito e literatura pode ser resumida em uma dialética entre
preservar e romper. Entre manter e superar. A dialética entre o cuidado e o
risco. Dos filhos desse casamento poderíamos ter dito bem mais do que
dissemos até agora. Apesar de muitas obras sobre o assunto terem surgido
nos últimos anos, o que presenciamos é uma abordagem ainda muito viciada
pelo tecnicismo jurídico, pouco aberta a problematizações não solucionáveis
por uma simples mirada nos códigos legais (NOGUEIRA; SILVA, 2013, p.
5).

Aparentemente distantes, pelo olhar cartesiano, Direito e literatura são fontes de


histórias e meios de construir narrativas de vida, por isso, podem ser instrumentos de
compreensão dos fatos que utilizam como objeto as referidas narrativas. Pela abordagem
proposta, não há uma hierarquia disciplinar ou científica. São ferramentas de construção
humana e que espelham aquilo que os construiu, divergem e se harmonizam, e dessa relação
nasce um novo olhar sobre a possibilidade de humanização da dita ciência jurídica. Para
Arnaldo Godoy, comentando a perspectiva de Dworkin de aproximação entre Direito e
literatura:

[...] Dworkin apresenta ideia convergente a Gewirtz, na medida em que


propõe que se possa melhorar a compreensão do Direito mediante a
comparação com a interpretação jurídica e a interpretação que se faz em
outros campos do conhecimento, a exemplo da literatura, em particular
(GODOY, 2008b, p. 85).

O escritor de literatura se relaciona com a vida, assim como o estudioso do Direito é


um observador da vida. Por isso ele deve buscar essa relação do escritor para com a vida
vivida, vivenciada nas relações e focada no ser humano, posto que a literatura é um caminho
capaz de trazer ao Direito a dimensão da vida humana:
156

É essa relação do escritor com a vida que faz da Literatura fonte para o
entendimento do mundo, do homem da sociedade. [...]
O escritor, por causa de sua origem e experiência de vida, evidencia o
mundo em que vive; sua experiência é o substrato de um tempo; o escritor
faz a crônica da humanidade. Por isso, a dimensão da vida humana pode ser
buscada na literatura (GODOY, 2008, p. 28-29).

O escritor é um construtor de relatos do seu tempo e da humanidade. Na sua


produção literária está a descrição de uma realidade social, e esse é o mesmo papel do
bacharel em Direito, embora muitos não vejam essa íntima ligação. Na obra jurídica está o
retrato do seu tempo, das relações humanas, das suas relações com o outro; então não há
justificativa para cindir as competências e objetivos do Direito e da literatura, eles se
assemelham no papel de serem formas de interpretação da vida:

[...] ao serem narrados fatos particulares e dramas individuais, que são


perfeitamente compatíveis com situações coletivas, o leitor-juiz consegue
desenvolver a capacidade empática, pois assim pode "imaginar a experiência
do outro" (BOTERO, 2013, p. 32).
[...]
Uma formação moral a partir do compreender (hermenêutica) o livro da
vida, o que inclui os livros sobre a vida (a literatura) (BOTERO, 2013, p.
39).

O papel do Direito em conjunto com a literatura é transcender a racionalidade


científica. A literatura tem o papel de nos levar ao arracional e o Direito precisa descortinar
essa dimensão para cumprir o seu mister como instrumento de compreensão e construção
sócio-histórica. É a era da ciência sem a consciência, sem consciência do homem que marca a
noção da ciência jurídica nos últimos séculos. Nesta evolução marcada por muita involução
humana, sabemos muito das coisas da ciência e compreendemos pouco dos seres. É
importante transpor a indagação de Nicolescu (1999, p.11):

Como se explica que quanto mais sabemos do que somos feitos, menos
compreendemos quem somos? Como se explica que a proliferação acelerada
das disciplinas torne cada vez mais ilusória toda unidade do conhecimento?
Como se explica que quanto mais conheçamos o universo exterior, mais o
sentido de nossa vida e de nossa morte seja deixado de lado como
insignificante e até absurdo?

O Direito tem, ao modo das outras ciências tradicionais, relegado ao papel


secundário a consciência do ser, a verdadeira compreensão da condição humana, que é a força
motriz da exigência das ciências e da sua evolução, em especial daquelas classificadas como
157

sociais aplicadas. Neste passo, Direito e literatura tem muito em comum como meios de
expressão da historiografia e das vivências humanas. Em cada narrativa há alguma percepção
humana que pode ser alcançada pelo Direito, que pede pelo usufruto do leitor, porque ao ler
um obra literária “[...] fica evidente que cada leitor é coautor. Porque cada um lê e relê com os
olhos que tem. Porque compreender e interpreta a partir do mundo que habita” (BOFF, 2012,
p. 15).
Do mesmo modo, em cada discussão judicial há uma singularidade humana que pode
ser melhor compreendida pelo uso da literatura, pela interpretação que cada um faz sobre essa
mesma discussão. A singularidade humana que está na literatura - e para além dela - precisa
ser melhor enxergada por quem tem os olhos vendados pelos princípios “purificadores” da
noção de ciência tradicional.
A literatura permite compreender muitas das agruras da alma humana e um dos
papéis da ciência jurídica é atingir um nível de compreensão do ser humano que transborda
nas lides, nas pretensões resistidas. As artes têm esse papel de aumentar a nossa capacidade
de compreender o outro:

[...] as artes cumprem uma dupla função nas escolas e universidades: por um
lado, cultivam a capacidade de jogo e de empatia de modo geral, e, por outro
lado, enfocam os pontos cegos específicos (ou de mal estar social) de cada
cultura (NUSSBAUM apud BOTERO, 2013, p. 23).

O Direito pode beber da fonte da literatura e esta, há muito, vem construindo uma
fonte crítica e conciliadora das relações ditas jurídicas, vem problematizando as pretensões
resistidas e o próprio conceito do Direito. Nas obras de Kafka, de Monteiro Lobato, em
Machado de Assis e nas tragédias gregas de Sófocles e Eurípedes, é possível encontrar
interpretação da vida e das relações humanas, do papel do Direito frente a sociedade e na
história. Compreender tais construções é essencial para interpretar os fatos e adequar a norma
a estes:

Diz-se, de tal forma, que a narração literária fornece ao intérprete do Direito


a "tipologia social" do contexto no qual os fenômenos jurídicos se
manifestam como eventos históricos, enfatizando a dimensão humana e
humanística do Direito, em contraponto à simples técnica exegética,
conceitual ou hermenêutica de aplicação das suas normas (CARDUCCI,
2008, p. 121).
158

Dworkin vem definindo o Direito com um fenômeno interpretativo, desenvolvido e


encadeado como um romance (ARANTES; SCHETTINI, 2013, p. 10), e assim a relação entre
o Direito e a literatura se constrói como algo necessário para que ambos possam alcançar o
seu papel. Esse autor considera que seria bom se os juristas estudassem a literatura e outras
formas de intepretação artística, pois na literatura foram defendidas muito mais teorias do que
no Direito (DWORKIN apud OLIVEIRA, 2008, p. 26). Sá (2013, p. 13), tratando sobre a
ligação entre filosofia e Direito, segue na mesma direção de Dworkin e informa que a
literatura serve para abrir o nosso mundo pequenino ao grande universo das relações
humanas.
São essas relações humanas o objeto sobre o qual se debruça a ciência do Direito e é
na compreensão delas que a literatura se irmana com a ciência jurídica, sem sobreposição nem
instrumentalização. Com o encadeamento marcado pela harmonização dos saberes e
provocação ao novo, traz uma segurança para o Direito tecer a problematização da norma
frente aos fatos e não interpretar e adequar fato e norma. Pelo pensamento complexo, Direito
e literatura não são estudados com o uso de preposições e sim com a conjunção “e”, que
sinaliza a necessária religação e a construção de um conhecimento que unifica esses saberes.
Prática que Leonardo Boff (2012, p. 52) afirma ser a dualidade:

A dualidade, ao contrário, coloca e onde o dualismo coloca ou. Enxerga os


pares como os dois lados do mesmo corpo, como dimensões de uma mesma
complexidade. Complexo é tudo aquilo que vem constituído pela articulação
de muitas partes e pelo inter-relacionamento de todos os seus elementos,
dando origem a um sistema dinâmico sempre aberto a novas sínteses.

Por isso é necessário buscar os livros, a ficção dos literatos, as histórias dentro das
obras e através delas, como meios de expressão da literatura e do Direito. Os poemas, os
contos, as teses jurídicas, os relatos judiciais, todos são formas de exprimir uma realidade e
trazem vivências. Essas relações humanas são capazes de formar uma melhor compreensão da
vida, capaz de gerar uma interpretação mais próxima da complexidade humana. Os livros
devem ser utilizados na forma pensada por Morin (2003, p. 48), enquanto experiências de
verdade:

Livros constituem “experiências de verdade”, quando nos desvendam e


configuram uma verdade ignorada, escondida, profunda, informe, que
trazemos em nós, o que nos proporciona o duplo encantamento da
descoberta de nossa verdade na descoberta de uma verdade exterior a nós,
que se acopla a nossa verdade, incorpora-se a ela e torna-se a nossa verdade
(p.48).
159

Se aceitamos que o Direito foi um instrumento indispensável à formação


civilizacional e humana, então não podemos negar que a literatura esteve presente em todos
os momentos desta mesma evolução societal:

Se pensarmos o Direito como parte fundamental das bases civilizacionais e


humanas do Ocidente, podemos vislumbrar o contributo riquíssimo da
Literatura enquanto Plataforma, que permite contemplar e resgatar uma série
de problemas humanos que o processo de conversão da modernidade em era
técnica acabou por distanciar do bojo dos temas do Direito (SILVA, 2013, p.
174).

O Direito atual, a partir do século XX, passou a se afastar do humano e a se bastar


dentro da sua formalidade e da sua tecnicidade. Tornou-se uma ciência com poucos traços dos
homens que são seu objeto e sua razão de existir:

A desumanização, presente, sobretudo no século XX, fez do Direito um


saber frágil e limitado, ocupado em demasia com problemas formais e pouco
consciente tanto de seus reflexos sociais quanto do seu papel na construção
do conceito de homem ocidental (SILVA, 2013, p. 174).

[...] ignora as inúmeras possibilidades da Literatura, inclusive como fonte de


material epistemológico capaz de fundamentar uma profunda
problematização da própria técnica, como em Kafka, por exemplo, onde o
Direito tautologicamente autorreferente se apresenta como uma imensa
máquina de reduzir vidas humanas a objetos [...] pode a Literatura fornecer
ao Direito substrato para sua própria compreensão (SILVA, 2013, p. 174).

E como experiências de verdade serão unidos às mais diversas formas de


conhecimento para atingir uma compreensão mais completa das relações humanas e, por
conseguinte, do ser humano. É preciso discutir a condição humana, falar sobre a insegurança
que sentimos enquanto seres, utilizar o Direito e a literatura como formas de interpretação da
vida para que possamos nos conhecer, conhecer ao homem e a nós mesmos. É o desafio do
tempo atual, desafio para o qual podemos não nos sentir seguros, mas cujo enfrentamento
urge, para que conhecendo o ser humano e a nós mesmos, possamos compreender melhor o
mundo (ALENCAR, 2002, p.19). Esse é o papel do Direito e da literatura como interpretações
da vida, ter paixão pelo conhecimento é o nosso papel, procurar um saber com sabor é nosso
desafio (BOFF, 2012, p. 82).
160

5 Conhecer apaixonadamente

Esse ensaio retoma um eixo que norteou tudo o que tenho escrito, algumas coisas
aproveitáveis e a grande maioria devaneios e obviedades, dirão alguns. O texto tem vida
própria e eu não me atreverei a definir o norte que perpassou todos os ensaios, mas como o
autor originário – sabendo que cada leitor é um coautor ao propor sua própria interpretação e
criar um novo sentido textual – posso dizer que lancei as palavras em desalinho por um
princípio que perpassou toda a aventura pessoal, literária e científica: a paixão pelo
conhecimento.
Conhecer apaixonadamente foi o desafio a que me lancei e para o qual tentei
convidar quem lê os esboços de ensaios que apresentamos. E esse último ensaio que ora
apresentamos tem como objetivo fazer uma discussão sobre a possibilidade dialógica de
aproximar paixão e conhecimento. Abordamos como o conhecimento científico não é
incompatível com a paixão.
Após se apaixonar pelo objeto de pesquisa, o pesquisador/autor pode discorrer sobre
conceitos científicos, perceber diferenças entre princípios, interpretar a ciência com um olhar
que prima pela transdisciplinaridade.
Mostramos como a paixão deste autor pela obra de Franz Kafka nos faz estabelecer
conexões entre a nossa área de formação e os outros conhecimentos, conjugando-os com o
devaneio que a paixão e a arte permitem na construção do conhecimento.
Para isso, como guia de jornada, mas sem método rígido, utilizamos o referencial
teórico que parte da obra literária de Franz Kafka (2001a, 2008, 2013b, 2013c, 2013d) e
articulamos conceitos da paixão em Rousseau (2013), Clarice Lispector (2013) e outros
autores, mostrando como a interpretação literária, unida à paixão pela palavra, podem levar a
um conhecimento vivido e vivo. Passeamos pela poesia de Manoel de Barros e pela
vivacidade de uma possibilidade de hermenêutica jurídica proposta por Lenio Streck.
Dividimos este ensaio em três partes: na primeira A paixão por Kafka, fazemos um
relato da nossa paixão pela obra do autor tcheco e como conseguimos articular conhecimento
e paixão para discutir os temas do Direito, abordados pela crítica de Kafka, como: a teoria do
Direito Penal do Inimigo, de Gunther Jakobs; e Manuel Mélia (2007), a partir de Na Colônia
Penal (2013b). Cruzamos a obra do autor de O Processo (2013d) com alguns conceitos de
Norbert Elias (1994) e Zygmunt Bauman (2004, 2011). Na segunda parte, Paixão pelo
conhecimento, altercamos como de fato a paixão fez com que os grandes autores produzissem
161

as suas melhores obras e como, por meio de um olhar apaixonado, é possível discutir
conhecimento, tomando por base fenômenos da cultura. Falaremos sobre legitimidade do
poder em A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin (2012).
Por fim, a terceira parte Paixão pela palavra, onde nos apropriamos de uma fala de
Manoel de Barros (2006) para explicar como a paixão pelo conhecimento deve vir alinhada à
paixão pela palavra, ao cuidado com o que escrevemos, onde uma escrita simples mostra que
temos respeito e somos apaixonados pela palavra.
O texto é um convite à junção paixão e conhecimento. Sem paixão não sabemos
fazer nada, ou fazemos muito pouco. Por isso, conhecer é se apaixonar e o olhar apaixonado
permite a apropriação do conhecimento. É possível conhecer apaixonadamente, apaixonar-se
pelo conhecimento, transgredir às discussões do conhecimento racionalizado. Curtir uma
paixão pelo conhecimento, eis o convite que fazemos.
O que precisamos evitar é a paixão que toma conta do apaixonado, que noturna no
seu olhar. Quando ela é a impulsionadora à busca pelo conhecimento, possibilita a construção
de um saber mais aprofundado e afeito ao objeto, sem deixar de integrar outras nuances à
pesquisa. Quando ela atua com excesso, vira o obstáculo a um olhar mais plural. O
apaixonado enxerga e pensa somente no objeto do seu sentimento e deixa passar a
possibilidade de fazer a sua paixão dialogar com a paixão dos outros, com os saberes
diversos.
Mas foi uma paixão, a que me tomou em relação a obra de Kafka, que serve de
motivação para que eu busque mais, compreenda melhor, dialogue mais. É isso que busco
fazer neste ensaio, explicar essa paixão.

5.1 A paixão por Franz Kafka

Estive pensando, o que falar sobre paixão e conhecimento? Da minha paixão eu falo
com mais propriedade: hoje tenho profunda paixão pela obra e pelo ser humano Franz Kafka.
Para uma digressão sobre o conhecimento, a coisa toma outro rumo; fica mais complicado
articular em um texto sobre conhecimento se não me deixar tomar pelas paixões.
Aqui está a ponderação que propomos: conhecer o nosso objeto de conhecimento é,
em grande parte, apaixonar-se por ele. Esse chamamento não é novo, mas a sua efetivação é
muito difícil, principalmente dentro da racionalidade dominante na ciência tradicional.
162

Digo isso porque, eu quando iniciei os meus estudos sobre o autor Franz Kafka
sentia que sua obra era um mistério. Apesar de todas as classificações literárias, do senso
comum do negativismo sobre o autor, eu não conseguia compreender a obra ou fazer a sua
conexão com o Direito, a minha área originária de formação, pois tudo para mim era
incerteza.
Descobri que, embora pesquisasse há algum tempo sobre a obra de Kafka, faltava
algo para a compreensão do que ele escrevia. Para a compreensão de um autor que todos
diziam ser negativo - ícone da chamada literatura fantástica, autor de fábulas invertidas,
transgressor das imagens metafóricas, crítico social mordaz – encontrava dificuldade, algo
que me inquietava. Queria compreendê-lo, entender a sua obra, mas não pensava em abordar
como objeto de conhecimento o ser humano Franz Kafka.
É claro que ler a fortuna crítica sobre Kafka me ajudou, percorrer a sua biografia foi
importante, mas faltava alguma coisa para exprimir o que precisava pesquisar e dar um rumo
à minha própria busca pelo conhecimento. Faltava viver a paixão pelo meu objeto de
pesquisa.
Em diálogos com os colegas do Grupo de Estudos da Complexidade - GECOM,
sempre se falava em uma estratégia de pesquisa que desafiava a minha forma de conceber o
conhecimento de forma objetiva. Nos encontros poéticos e científicos, sempre sobressaia a
máxima: sem paixão não dá para fazer nada. Segundo pude compreender das discussões
vespertinas, regadas à literatura, os apaixonados não sentem fome, não são atacados pelo
sono, adiam enquanto podem a sede e não são vencidos pelo cansaço, até saciar a sua
necessidade de conhecer.
De um início marcado pela desconfiança, das dificuldades que tenho ainda hoje de
soltar as amarras da racionalidade, me desafiei: afinal um pouco de paixão não faria mal à
minha ciência dogmática!
A paixão então me tomou, fui arrebatado pelo envolvimento com o meu objeto de
pesquisa. Isso em perspectiva apaixonada, pois a minha paixão ainda está no auge e ainda não
sei quais os reflexos que sobressaíram sobre o Ser que se esconde no pesquisador. Cada dia
descubro mais sobre Kafka e de forma recursiva sobre mim mesmo, ainda preciso conhecê-lo
melhor para me conhecer e vice-versa.
Nessa jornada de envolvimento, descobri algumas paixões do autor de A
Metamorfose, como a paixão por escrever. O autor chegava a dizer que ele necessitava
escrever, dizia que era a coisa mais importante do mundo para ele. Precisava da escrita assim
163

como um louco necessita do delírio40 para sobreviver. Kafka escrevia sofregamente,


desesperadamente. Se entregar à paixão por escrever era a sua fuga, uma forma de se
expressar e se mostrar mais humano:

Visto da perspectiva da literatura, meu destino é muito simples. O impulso


de representar minha vida onírica deslocou todo o resto para um plano
secundário. Não mais poderá me satisfazer, nunca (KAFKA, 2008, p. 86).

Kafka era, também, um apaixonado pela fantasia, pela capacidade do ser humano de
fugir da vida diária - simplória e racional - e se expressar por meio das metáforas, dos sonhos.
Para o autor de A Metamorfose, o mundo prodigioso que tinha na cabeça precisava ser
libertado e ele não tinha dúvida que só conseguiria essa liberdade quando pudesse expressar o
mundo fantástico que trazia dentro de si:

O mundo prodigioso que tenho na cabeça, [...] como libertar-me e libertá-lo


sem ser feito em pedaços. E antes ser feito em pedaços mil vezes do que
retê-lo em mim ou enterrá-lo. Essa é realmente a razão de eu estar aqui, isso
está bem claro para mim (KAFKA apud BEGLEY, 2010, p. 70).

Kafka também foi um crítico mordaz da desigualdade social, onde os interesses dos
mais poderosos se sobrepunham aos das pessoas mais necessitadas: “Kafka vê na organização
da sociedade a miséria de uns e o poder e riqueza de outros. Ele ataca em suas obras, de
maneira imagética e satírica, os poderosos deste mundo” (LEMAIRE, 2013, p. 8). A fantasia
o encantava, tanto que ele deixou o trabalho no escritório, que consumia todo o seu tempo e
era “[...] um trabalho estúpido, honesto, útil, mudo, solitário, sadio, cansativo” (KAFKA apud
LEMAIRE, 2013, p. 202), para se dedicar à literatura. A paixão do autor por seus textos e a
insegurança decorrente do perfeccionismo eram tão fortes, que o seu principal editor relata
algo inusitado: “Quando despediu-se de nós [...] Kafka pronunciou uma frase que jamais ouvi
novamente [...] ‘Se em vez de publicar meus manuscritos, o senhor me devolvê-los, ser-lhe-ei
mais agradecido’ (KURT WOLF apud LEMAIRE, 2013, p. 123)”.
Essas são algumas das paixões de Kafka, elas mostram que o ser humano precisa se
entregar a uma paixão, ou a várias paixões. No recorte desse texto, a paixão pelo

40
Depois de ter sido fustigado em períodos de insanidade, comecei a escrever, e esse escrever é a coisa mais
importante do mundo para mim (de um modo que é horrível para todos à minha volta, tão indizivelmente
horrível que não falo a respeito) — assim como o delírio é importante para o louco (se ele o perdesse,
“enlouqueceria”) ou como a gravidez é importante para uma mulher. Isso não tem relação nenhuma com o valor
de escrever — conheço bem demais esse valor, assim como sei o valor que tem para mim […] Portanto, trêmulo
de medo, protejo a escrita de todas as perturbações, e não só a escrita, mas a solidão que faz parte dela
(BEGLEY, 2010, p. 244).
164

conhecimento abre a nossa percepção, nos liberta do pensar, cujos únicos instrumentos são o
método e a fragmentação. O conhecimento precisa da paixão, do envolvimento, para tecer
suas discussões. Ser científico e apaixonado não são conceitos que se excluem.
Para ajudar a compreender, trazemos alguns exemplos: o apaixonado por Direito e
literatura enxerga com maior facilidade a relação entre a teoria do Direito Penal do Inimigo,
de Gunther Jakobs41, e a obra Na Colônia Penal de Kafka. Nesta, uma máquina de impingir
castigos físicos42 aos apenados, marcando a sentença na carne dos condenados, mostra como
os que transgridem a norma são tratados como inimigos, sem direito à qualquer garantia. Ao
ponto que o explorador, assustado com a prática do agente estatal, chega a perguntar se o
condenado conhecia a sentença43, e percebe que a máquina estatal não precisa perder tempo
com explicações. O castigo aplicado sobre o corpo é a redenção dos que não são cidadãos, a
redução do ser humano à matéria física é a forma de repressão pelo crime que não é aceito.
Saciar a necessidade de justiça é o papel do aparelho estatal.
A obra é trabalho que, com uma linguagem metafórica, traz uma reflexão sobre algo
que é muito comum atualmente. A sociedade tem a crença geral de que a transgressão da
norma deve ser enfrentada com coerção e repressão estatal. E desde que ela seja rápida e
efetiva, não é preciso discutir a generalidade da lei, a ampla defesa, o contraditório, as
garantias fundamentais. A punição de quem está privado de liberdade é o que a sociedade em
geral deseja, acreditando que a repressão estatal sem limites é capaz de restabelecer a paz
social. Só a mão pesada do Estado pode corrigir os que delinquem e é melhor não conhecer a
realidade do sistema prisional. Eis o suporte teórico da Teoria do Direito Penal do Inimigo. A
sociedade atua, então, em ledo engano.
O envolvimento com o meu objeto de pesquisa, também me permitiu compreender
que, em A Metamorfose, Franz Kafka se vale de uma imagem repugnante, de uma
transmutação inexplicável para prender o leitor na figura do inseto indefinido. No entanto, na
nossa interpretação, acreditamos que o foco narrativo recai sobre as interdependências
conceituadas por Norbert Elias e bem explicadas por Waizbort:

41
A Teoria do Direito Penal do Inimigo entende que todo o indivíduo que tem um comportamento lesivo à
sociedade, cuja recuperação é pouco provável, assume uma posição social diferente da do cidadão no
ordenamento jurídico e deve ser objeto de uma repressão diferenciada em razão da transgressão (JAKOBS;
MÉLIA, 2007).
42
“Sim, rastelo”, disse o oficial. “É um nome bem apropriado. As agulhas são dispostas como um rastelo, e o
conjunto funciona com um rastelo, embora sempre no mesmo lugar e com muito mais arte. Estou certo de que o
senhor logo compreenderá. O condenado será posto aqui no leito (...) O condenado é posto de barriga para baixo
sobre o algodão, completamente nu (KAFKA, 2013b, p. 98).
43
O explorador queria fazer várias perguntas, mas ao ver o homem perguntou apenas: “Ele conhece a sentença?”
[...]“Seria inútil comunicá-la. A sentença será aplicada ao corpo” (KAFKA, 2013b, p. 99).
165

O entrelaçamento das dependências dos homens entre si, suas


interdependências são o que os ligam uns aos outros. Elas são o núcleo do
que é aqui designado como figuração, como figuração dos homens
dependentes uns em relação aos outros. Como os homens são – inicialmente
por natureza, e então mediante o aprendizado social, mediante educação,
mediante a socialização, mediante as necessidades despertadas socialmente
(WAIZBORT, 2001, p. 101).

A narrativa de A Metamorfose é uma amostra de um diálogo constante entre os


conceitos de Elias e a forma de narrar as relações humanas, mantidas por Gregor Samsa e
todos que o circundavam. Kafka usa como ponto de partida uma metamorfose sofrida pelo
protagonista para tecer uma série de relatos, mostrando as mudanças que essa transformação
individual gerou em todas as relações humanas e na própria realidade social da família Samsa.
A transmutação de Samsa modificou a sua família, o seu ambiente de trabalho44,
mudou todos os que estavam à sua volta. Essas pessoas, as suas transformações, as
transmutações das relações mantidas, são exemplos de que a interdependência entre os seres
humanos faz com que uma mudança na teia de convivência altere toda uma rede social
existente. Chegando ao ponto culminante - onde o perecimento final do protagonista é
recebido pela família, que antes amava e cuidava de Gregor - como um grande alívio45 e
marco de uma nova mudança na sua realidade.

44
– Bem – disse Gregor, e estava perfeitamente ciente de que era o único que havia guardado a calma –, eu logo
irei me vestir, empacotar o mostruário e partir. Vocês querem, vocês querem mesmo me deixar partir? Pois bem,
senhor gerente, como o senhor vê, eu não sou teimoso e até gosto de trabalhar; viajar é incômodo, mas eu não
poderia viver sem viajar. Par onde o senhor vai, senhor gerente? Para a firma? Sim? O senhor vai noticiar tudo,
respeitando a verdade das coisas? A gente até pode ser incapaz de trabalhar no momento, mas é justo estar a hora
certa para se lembrar do desempenho passado e ponderar que mais tarde, depois do afastamento do obstáculo, a
gente com certeza poderá trabalhar de maneira tanto mais diligente e concentrada.” (KAFKA, 2013c, p. 50)
45
- Vejam só isso, a coisa empacotou de vez; ali está, mortinho da silva!
O casal Samsa estava sentado sobre a cama, no quarto, ocupado em superar o susto com a chegada da faxineira,
antes de chegar a entender o que ela anunciava. Mas depois disso o senhor e a senhora Samsa, cada um do seu
lado, levantaram da cama o mais rápido possível; o senhor Samsa atirou o cobertor sobre os ombros, a senhora
Samsa saiu de camisolas mesmo e assim entraram no quarto de Gregor. Nesse meio tempo também havia sido
aberta a porta da sala de estar, dentro da qual Grete dormia desde a chegada dos inquilinos, ela estava
completamente vestida, como se nem sequer tivesse dormido; também o seu rosto pálido parecia comprová-lo.
- Morto? – disse a senhora Samsa, e ergueu os olhos de modo interrogativo para a faxineira, embora ela própria
pudesse avaliar tudo e compreendê-lo mesmo sem avaliação.
- É o que parece – disse a faxineira, e para comprová-lo empurrou o cadáver de Gregor com a vassoura mais um
longo trecho para o lado.
A senhora Samsa esboçou um movimento, como se quisesse reter a vassoura, mas acabou não fazendo nada.
- Pois bem – disse o senhor Samsa –, agora podemos agradecer a Deus (KAFKA, 2013c, p. 88-89).
166

No conto O Covil, que é autobiográfico46, Franz Kafka, vai mais longe nas angústias
humanas47. O protagonista se refugia em um covil, construído por ratos, isolado da
humanidade, com o objetivo de se sentir mais seguro48. Depois de estar no seu amado covil, o
protagonista começa a sentir a falta de visitantes, começa a perceber que está reduzido como
ser humano diante da solidão49. Por não ter como se relacionar com outros humanos, sente
uma mitigação na sua condição humana.
No conto, o autor passa a discutir as noções de segurança, solidão e da falta de
confiança na humanidade, como condições que levaram o protagonista a buscar o isolamento.
O personagem chega a dizer que não pode se queixar da solidão, acha até que não perde nada
com ela, pois não pode confiar em ninguém além dele mesmo e no seu amado covil50. Aqui
podemos perceber algumas noções da crise do sujeito, marcada pela negação e pela
culpabilidade do outro, descritas por Bauman51 em Amor líquido (2004). Assim como a falta
de certezas e a insegurança52 quanto ao Eu, discutidas pelo mesmo autor em Modernidade
Líquida (2011), nos leva a um isolamento que, ao fim, não traz segurança alguma.
A sensação de insegurança levou o personagem a buscar um covil, se esconder
dentro de um local no qual experimenta a solidão e o isolamento. A culpabilização do outro
pelas suas angústias e inseguranças faz com que ele prefira permanecer assim. Essa realidade
e as suas motivações parecem muito com os condomínios e a nossa solidão em meio à
multidão, tudo justificado em uma busca por uma falsa sensação de segurança.
A literatura kafkiana possui uma intensidade, muito bem explicada por Camus:

46
Tratava-se de um relato autobiográfico, em que o sentimento de pânico talvez tivesse sido provocado pelo
pressentimento de sua volta para a casa dos pais e o fim da liberdade. Ele me explicou que nesse “covil” eu era o
“coração da cidadela” (DORA DIAMANT apud LEMAIRE, 2013, p. 218).
47
Vivo em paz no mais fundo da minha habitação e entretanto o adversário, vindo não se sabe de onde, abre
lenta e silenciosamente o seu caminho até mim (KAFKA, 2001a, p. 16).
48
Esse túneis foram abertos por ratos da selva(...) Garantem-me a possibilidade de uma ampla ventilação e
concorrem para a minha segurança (KAFKA, 2001a, p. 17).
49
Mas a verdade é que ninguém aparece, e eu continuo reduzido a mim mesmo (...) Se eu tivesse, no entanto,
alguém em quem confiar, alguém que eu colocasse no meu posto de observação, então ser-me-ia mais fácil
efetuar a descida, livre de quaisquer preocupações (KAFKA, 2001a, p. 30).
50
Não, para falar verdade, não me devo lastimar de estar só e de não ter ninguém em que confiar. Não perco,
seguramente, nada com isso, e estou certo de que evito muitos incômodos. Em matéria de confiança, só posso
confiar em mim e no meu covil (KAFKA, 2001a, p. 31).
51
Pessoas desgastadas e mortalmente fatigadas em consequência de testes de adequação eternamente
inconclusos, assustadas até a alma pela misteriosa e inexplicável precariedade de seus destinos e pelas névoas
globais que ocultam suas esperanças, buscam desesperadamente os culpados por seus problemas e tribulações
(BAUMAN, 2014, p. 292).
52
O fenômeno que todos esses conceitos tentam captar e articular é a experiência combinada da falta de
garantias (de posição, títulos e sobrevivência), da incerteza (em relação à sua continuação e estabilidade futura)
e de insegurança (do corpo, do eu e de suas extensões: posses, vizinhança, comunidade) (BAUMAN, 2011a, p.
395-396).
167

Toda a arte de Kafka consiste em obrigar o leitor a reler. Seus desenlaces, ou


suas faltas de desenlace, sugerem explicações, mas que não são reveladas
com clareza e exigem, para nos parecerem fundadas, que a história seja
relida sob um novo ângulo. Às vezes há uma dupla possibilidade de
interpretação, donde aparece a necessidade de duas leituras. É o que
pretendia o autor. Mas não estaríamos certos se quiséssemos, em Kafka,
interpretar tudo minuciosamente. Um símbolo está sempre expresso no
sentido geral e, por mais precisa que seja a tradução, um artista só pode
recuperar, através dela, o movimento: não há literalidade (Camus, 2014, p.
202).

O que chamou a minha atenção à obra de Kafka foi o seu texto construído com
metáforas e imagens – como é comum nas obras literárias em geral – e, especialmente a sua
crítica a um mundo mesmerizado e marcado pelo distanciamento entre as pessoas. A forma
como os seus textos escritos no início do Século XX permanecem atuais, suscitando
interpretações e apontando dramas humanos e sociais, com uma constante crítica ao Direito e
à opressão, representado pela máquina burocrática.

5.2 Um olhar apaixonado pelo conhecimento

Uma pergunta que nos inquieta é quais são as perspectivas do conhecimento nos
tempos atuais, marcados pelo cartesianismo, pela disciplinaridade e pela objetivação do olhar
diante deste mesmo conhecimento? Uma ciência mais integrada e integrativa, que interaja
com as demais, racional – mas que cede espaço à sensibilidade, à espiritualidade, à
criatividade – e capaz de tornar o conhecimento mais próximo dos indivíduos, podendo ser
visto com paixão por ele. Essa perspectiva de um conhecimento que respeite a tecnicidade de
cada ciência, mas que as integre, foi trabalhada pelo Prêmio Nobel de Química Ilya Prigogine,
em seu livro Ciência, razão e paixão (2001).
Essa ciência que rejunta razão e paixão é capaz de entender a volatilidade da
existência, com a certeza da incerteza ou percebendo que o improvável é frequente na história
humana, como dizia o Prigogine, citado por Leão:

“Sabemos que as grandes mutações são invisíveis e logicamente


impossíveis, antes de aparecerem. Sabemos também que elas aparecem
quando os meios de que dispõe um sistema tornam-se incapazes de resolver
seus problemas. [...] Além disso, a metamorfose não é impossível, mas
improvável. Aqui surge um segundo princípio de esperança: frequentemente,
o improvável surge na história humana. [...] É possível, portanto, manter a
esperança na desesperança. Acrescentemos a isso o apelo à vontade face à
grandeza do desafio. Embora quase ninguém tenha ainda consciência, jamais
168

existiu causa tão grande, tão nobre, tão necessária quanto a causa pela
humanidade para poder, ao mesmo tempo e inseparavelmente sobreviver,
viver e humanizar-se (PRIGOGINE apud LEÃO, 2011, p. 161).

“Afirma Prigogine, que a ciência é a expressão de uma cultura, e ‘que é difícil definir
suas fronteiras’; que ‘a natureza não é um dado, implica uma construção da qual nós fazemos
parte (ALMEIDA, 2006, p. 6)”. Se nós fazemos parte dela, a nossa paixão e a necessidade de
fugir da monotonia nos faz buscar, por meio das artes, um olhar apaixonado sobre o
conhecimento, porque: “Um dos motivos mais poderosos que leva as pessoas à arte e à
ciência é o desejo de sair de uma existência monótona com o seu sofrimento e vazio
desesperador, para escapar da escravidão de desejos pessoais que não param de mudar”
(EINSTEIN apud PRIGOGINE, 2001, p. 95). Buscamos a paixão que nos leve a uma fuga da
mesmice que consome a ciência, vista como algo estático e etéreo.
A paixão faz com que enxerguemos discussões, abre a nossa visão para coisas que a
falta de envolvimento com o objeto e a objetividade não permitem, possibilita a compreensão
do caos que cerca a existência humana. As paixões são elementos constituintes do que somos
e determinantes de como vivemos. Nenhum grande autor conseguiu ascender ao auge da sua
produção científica ou artística sem o envolvimento com o seu objeto, com a sua obra, sem a
paixão pelo que fazia.
O apaixonado enfrenta os obstáculos, se permite partir em busca do novo, não teme
o desconhecido. Rousseau, no seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da
desigualdade entre os homens, quando discute a diferença entre a moral do físico e o amor,
diz que a paixão dá força ao ser humano para enfrentar todos os perigos, embora possa ser um
perigo a desafiar alguma regulação:

Entre as paixões que agitam o coração do homem, há uma ardente, impetuosa,


que faz um sexo necessário ao outro, paixão terrível que enfrenta todos os
perigos, derruba todos os obstáculos e em sua fúria parece própria a destruir o
gênero humano que ela é destinada a conservar. Que acontece com os homens
expostos a essa paixão desenfreada e brutal, sem pudor, sem reserva, que disputa
diariamente seus amores ao preço de seu sangue?
É preciso primeiro convir que, quanto mais violentas são as paixões, mais
necessárias são as leis para contê-las. Contudo, além de as desordens, e os
crimes que estas causam diariamente entre nós, mostrarem a insuficiência das
leis nesse ponto, seria bom examinar também se essas desordens não nasceram
com as leis mesmas, pois nesse caso, ainda que fossem capazes de reprimi-las, o
mínimo que se deveria exigir das leis é que detivessem um mal que não existiria
sem elas (ROUSSEAU, 2013, p. 120).
169

Essa paixão pode e deve ser a nossa ligação com o conhecimento, quando nos
envolvemos, chegamos a um conhecimento mais plural, experimentamos uma nova forma de
olhar, conseguimos relacionar os saberes. Gosto de uma definição da personagem G.H., do
livro de Clarice Lispector, que diz que a nossa compreensão deve ser “iluminada de paixão”
(LISPECTOR, 2013, p. 187) para permitir que façamos uma discussão científica ligada ao ser
humano, em toda a sua complexidade.
Mas não é só na literatura que podemos buscar inspiração para, apaixonadamente,
discutir ciência. Outras formas de arte podem constituir possibilidades de acessar os saberes e
discutir conceitos científicos. Podemos usar um fenômeno cultural contemporâneo, a popular
série Crônicas de gelo e fogo, de George R. R. Martin (2012), conhecida pela série televisiva
Game of Thrones, para analisar e tentar compreender o conceito de legitimidade:
A Casa Lannister pode ser entendida com uma monarquia absolutista, que alicerça
toda a pretensão de se manter dominando King´s Landing, por meio do seu poder econômico
e bélico. Embora possamos perceber que eles carecem de legitimidade popular, têm a
legitimidade firmada no poder econômico e no seu exército, lembrando os antigos déspotas
que reinaram na era medieval.
Stannis Baratheon representa um ideário parecido com as antigas monarquias
teocêntricas, cuja justificativa é a sua escolha pelo Deus Vermelho ou Senhor da Luz para
reinar. Com os poderes que lhe foram conferidos, acredita que deve reinar sobre o Trono de
Ferro. A sua legitimidade é basicamente divina.
Daenerys Targaryen tenta construir uma monarquia que lembra alguns dos ideais
iluministas: igualdade e justiça. Ela defende o fim da escravidão, pratica uma certa noção de
justiça, busca um reconhecimento popular, o qual justificaria a sua pretensão de comandar os
Sete Reinos. É um protótipo bem simplificado de legitimidade popular.
Esses são alguns exemplos de diálogos possíveis com a aproximação de paixão e
conhecimento. Mas além de se apaixonar por um objeto, para ter paixão pelo conhecimento é
preciso também escrever com paixão. Para isso, temos que respeitar a palavra, pois a escrita
apaixonada começa pelo envolvimento com o texto e pela paixão pela palavra.

5.3 A paixão pela palavra

Quem pensa em produzir um texto, um poema ou uma pesquisa, deve começar por se
apaixonar pela palavra, cultuar a palavra. O uso da palavra deve transcender o seu sentido
170

literal, sobrepor a sua função linguística. Devemos tentar entender a palavra como a surpresa
e o encantamento do saudoso poeta Manoel de Barros:

Na ocasião eu aprendera em Vieira (Padre Antônio, 1604, Lisboa) eu


aprendera que as imagens pintadas com palavras eram para se ver de ouvir
(BARROS, 2006, p. 14).

Assim como Manoel de Barros, não adianta conhecer a palavra só de nome, a palavra
deve ser olhada com paixão para que tome força e vigor:

Eu conhecia a palavra só de nome. Mas não conhecia o lugar que pegava


abandono. Por antes a força da palavra é que me dava a noção. Mas em vista
do que vi o olhar reforça a palavra. O olhar segura a palavra na gente
(BARROS, 2006, p. 37).

A palavra não pode ser uma mera forma de expressar ideias, não deve ser abortada
ou jogada no texto. Apaixonar-se por ela é cuidar do seu sentido, polir a sua aplicação. A
paixão pela palavra é entender que ela é condição de possibilidade, como bem ensina o jurista
Lenio Streck, ao reafirmar a necessidade de cultuar a palavra:

[...] palavra é pá-que-lavra. Mais do que ferramenta, é condição de


possibilidade (STRECK, 2013, p. 66).

O que esse autor nos ensina é que a palavra é o instrumento que possibilita cultivar o
nosso conhecimento. Escrever com descuido é lavrar mal sobre esse conhecimento, é ser
descuidado com o objeto da nossa pesquisa, é ser desidioso com o nosso texto. Não adianta
pesquisar, conhecer tudo sobre um objeto e não ter cuidado com a palavra. Ela é a condição
de expressão da nossa paixão.
Alguém apaixonado pela palavra poderá alcançar a verdadeira paixão pelo seu objeto
de conhecimento, expressa na escrita. O homem é um ser de paixões e se sente pertencido por
um texto apaixonado. O texto apaixonado captura o leitor, a escrita poética expõe ao leitor o
que somos e nos liga ao que escrevemos. A paixão pelo que conhecemos ou queremos
conhecer, exprimido pela paixão pela palavra, é um respeito ao próprio conhecimento e ao
leitor, que se sente seduzido pelo texto e representado pelas palavras.

5.4 Um convite

Dentro de uma noção científica que prima pela racionalidade muito em voga na
contemporaneidade, não é fácil trazer compreensão sobre paixão e conhecimento, propor um
171

conhecimento apaixonado ou a paixão como forma de conhecer. Não pretendemos apresentar


uma ideia fechada de paixão e conhecimento, pois nossa missão - que se confunde com a
razão de existir dessas discussões - é propor uma tentativa, fazer pensar como conhecer com
paixão não é contrário a produzir ciência.
É aceitar que a paixão faz parte da vida e nós, cientistas sociais, apesar dos objetos
específicos da Antropologia, da Geografia, da História, do Direito, temos em comum a vida e
as paixões por conhecer. Paixão e conhecimento podem estar juntos à melhor compreensão,
produzindo um conhecimento mais complexo.
Os poetas falam melhor em nossa alma, e vamos nos valer de um poeta, Vinícius de
Morais para convidar o leitor a pensar sobre a importância da paixão:

Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai
Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não53

Apresentar a paixão pelo conhecimento é uma forma de demonstrar e aproximar o


leitor à necessidade de ter aquela inquietude que nos tira a fome e o sono, a necessidade de
saber mais e melhor. É esse o papel importante que a paixão exerce sobre o pesquisador e
como ela pode ser elemento importante à própria afirmação e evolução da ciência.

53
MORAES, Vinícius. Como dizia o poeta. In: Com dizia o poeta: Vinícius, Maria Medalha e Toquinho. São
Paulo: RGE, 1971. 1CD. Faixa 2. 3min13.
172

IV – UM CONTO DO LIVRO DA VIDA

Só relatos ao relento
Revejo o vivido, vivo o que vejo
Conto o que vejo, vivo o que conto
Só conto
173

1 O pedreiro e o bacharel
"A pedra que os edificadores rejeitaram, foi posta
como pedra angular" (Salmos, 118:22).

Figura 4 – A pedra angular54

Tito era um bacharel, filho de uma família abastada, que vivia em uma pequena
cidade. O local onde morava não era próximo a Jerusalém e ficava mais para os lados de
Atlântida. Após obter o título de bacharel, ele passara a atuar escrevendo pareceres técnicos,
ganhou muitas causas com o conhecimento que tinha dos códigos e seguiu à cidade onde
nasceu. Lá, a sua família tinha tradição no meio jurídico e, desde a época do seu avô,
mantinham um escritório de advocacia.
O avô havia morrido há alguns anos, seu pai mantivera o escritório, e nele praticava a
advocacia do mesmo modo que o avô do nosso amigo.
A família de Tito tinha muitos problemas, ele não tinha um bom relacionamento com
o pai e a sua mãe era tão omissa quanto poderia se esperar de uma mãe do século XIX. Com
seu pai, as brigas giravam em torno da vontade de mudar a forma como o escritório
funcionava, mas Tito não tinha coragem de enfrentar a sua insegurança e cedia ao primeiro
argumento do pai. O escritório e o Direito que lá se estudava e praticava eram os mesmos
desde o século anterior e assim deveria permanecer. O que estava dando certo não poderia ser
alterado.
Tito não conseguia compreender o porquê de ter uma família desestruturada, a única
irmã que tinha há muito não mandava notícias, desde que se mudou para algum lugar depois
do meridiano.
Ele mantinha a pose confiante e a vaidade no vestir e no tratar. Tinha extrema
dificuldade de relacionar-se com os vizinhos, não tinha amigos e jactava-se de dizer que –

54
Disponível em: < http://www.significados.com.br/pedra-angular/> Acesso em 03/11/2015.
174

isso se devia à sua conhecida inteligência acima da média, que gerava inveja em todos que o
cercavam.
Ele acreditava que no domínio da ciência racional, ninguém poderia duvidar dele.
Dizia ao seu pai:
— Pai, não tenho muitos amigos e sinto pouca falta deles. O que me causa certa
preocupação é que domino a técnica jurídica, conheço os principais conceitos e princípios do
Direito, mas apesar disso, não encontro a satisfação no que faço. De fato, sei responder tudo o
que é de jurídico, mas como ser humano, permaneço incompleto. Poderia mudar a forma
como nós atuamos frente ao Direito, me sinto amarrado pela tradição do escritório, mas sei
que o senhor não aceita isto.
O pai dava a atenção, mas por ser alguém pouco preocupado com tais dúvidas
humanas, acreditava que não podia contribuir muito e apenas dizia — Calma, filho. Uma hora
tudo se ajeita. Mas você tem que entender que a família sempre advogou do mesmo jeito, o
Direito não mudou nada. Não temos motivo para inventar nada.
De fato, em matéria de técnica ninguém subjugava o bacharel. Ele também,
atribulado pelo seu dia-a-dia nos fóruns, não perdia tempo com gente que não fosse da sua
área de conhecimento e detestava jogar conversa fora. Alguém que não tinha como contribuir
às suas infindáveis discussões sobre o Direito e suas teorias fundantes não lhe causava
qualquer interesse.
Caminhava pela vida com os olhos fechados ao que fosse diferente do seu mundo
técnico. Chegava mesmo a falar para sua mãe:
— Mãe, eu acho o Direito a coisa mais linda do mundo. Porém, confesso que não
sou feliz porque tudo me cansa, principalmente essas conversas sobre costumes antigos, da
época em que ninguém podia estudar. O mundo mudou mãe, temos que abrir os olhos para a
ciência formal. Nela estão as respostas que precisamos.
— Meu filho, nada fica no mesmo lugar. Veja as nuvens! Dizia a mãe com
tranquilidade.
Ele se aborrecia com a baboseira que lhe parecia ser a frase da mãe, e dizia
aborrecido:
— Ora mãe, que conversa de nuvem! Eu falando sobre a vida real e o Direito e a
senhora com essas conversas. Não tenho tempo para olhar nuvens. Até mais!
— Que o Senhor o acompanhe! Dizia a mãe de forma complacente.
175

A vida seguia e Tito permanecia na sua solidão e nas suas dúvidas. A única certeza
era a sua infelicidade.
Perto do Natal, ele ia a caminho da casa dos pais. Descendo do bonde, toma a rua na
qual eles moravam e percebe que ali se iniciava uma construção. Parecia um novo palacete de
alguém de posses. Isso chamou a sua atenção, alguém que tinha uma posição social elevada
poderia ser uma amizade que valeria a pena e um cliente em potencial.
Chegando à entrada da construção, ele enxergou um senhor e pelas roupas, parecia
ser um pedreiro. Com não havia mais ninguém, ele logo exclamou — Bom dia!
O senhor respondeu — Bom dia seu moço!!
— Senhor, podes me informar de quem é esse imóvel em construção? Explico, sou
um renomado bacharel e posso conhecer o ilustre proprietário desta bela construção de algum
outro lugar, por isso a minha curiosidade.
— Seu moço, me desculpe, mas acertaram comigo para construir essa casinha e isso
foi feito diretamente pelo meu patrão, ele é quem sabe o nome do dono. Eu não sei dizer.
Disse o homem simples.
O bacharel, já se impacientando com a falta da informação que precisava, se despede
de cara amarrada: — Obrigado, caro senhor! — Vou indo porque não tenho tempo a perder!
O pedreiro, homem simples, estranhou a súbita mudança no comportamento daquele
homem, que pareceu tão cordial e não quis importuná-lo, mas acabou dizendo – Bem sei que
um senhor importante, doutor das letras, não tem tempo para conversar com pessoas simples.
É uma pena, porque começou o meu horário de almoço e eu queria perguntar algumas coisas
para aprender com o senhor. E seu moço, já fico à disposição para o que o senhor quiser saber
sobre construção.
Nesse instante, o vaidoso bacharel se sobressaltou:
— Caro senhor, me desculpe. Se tivesse tempo teria muito o que lhe ensinar, mas
não creio que o senhor pudesse ter nenhum conhecimento que me fosse útil de algum modo.
Não tenho apreço por “causos” do passado e a sua construção simplória em nada pode me
ajudar. Tenha um bom dia!
O bacharel foi logo saindo, quando deu dois passos, ouviu o pedreiro comentar com
voz quase envergonhada — Tá certo moço, eu só ia lhe perguntar se o senhor sabia o que era
uma pedra angular.
De repente, a curiosidade foi maior do que a pressa e o nosso bacharel se voltou para
o homem e disse com ar desdenhoso:
176

— Se o senhor for breve, lhe concederei alguns minutos. O que faço por educação,
porque de fato não gosto de histórias do passado e que não tem qualquer fundo científico, mas
presumo que com esse nome essa pedra deve ter algo de ciência.
O pedreiro então começou a contar:
— Seu moço, eu não sou o primeiro pedreiro da minha família. Meu pai e meu avô
foram pedreiros, inclusive meu avô chegou a ser um renomado mestre de obras. Meu bisavô
foi pedreiro e o pai dele também tinha o mesmo ofício, isso lá pras bandas do sul, porque lá
pagam melhor.
— Desculpe moço! — Vou passar direto por essa conversa de família. Meu pai me
contava que o bisavô dele era um pedreiro muito requisitado e que não existia grande
construção que fosse feita sem ser sob o comando dele. As casas e galpões que ele erguia com
as próprias mãos, tinham um segredo do qual ele não abria mão; sempre se começava a obra
pela pedra angular.
— Esse costume passou do bisavô do meu pai e seguiu até o meu avô, foi quando
meu pai percebeu que por causa da pedra angular as construções eram sempre parecidas, retas
e quadradas, não havia desafio que empolgasse meu pai a ser pedreiro. Não tinha mais sentido
construir sempre do mesmo jeito.
— Até que um dia meu pai desafiou o meu avô e disse que iria construir um palacete
sem usar a pedra angular. Meu avô ficou bravo e disse: – Quem você pensa que é? Um
ajudante de pedreiro querer dar conselho no que não conhece.
Meu pai não ficou por calado e disse: — Eu já não sou mais um ajudante e sim um
mestre pedreiro e vou mostrar que a minha construção será diferente!
O bacharel interveio: — Com certeza a construção tombou, não se abre mão de um
conhecimento experimentado e sedimentado por uma aventura! — E gargalhou.
— Seu moço, não é que meu pai fez tudo sem a pedra angular! O palacete do meu
pai ficou diferente, não precisava ser todo feito em ângulo reto, perdeu a amarra que ficava
feita pela pedra angular. Ficou mais fácil colocar as janelas, o espaço ficou mais bem
aproveitado, mais bonito. Meu pai me ensinou que esse tipo de construção fica mais próximo
da vontade de quem vai morar do que a do pedreiro.
O bacharel curioso perguntou: — E o seu avô? Com certeza não perdoou o seu pai
pela afronta.
— Teve isso não moço! Disse o pedreiro. – Meu avô era um homem velho e sábio,
ele disse ao meu pai que aceitava a mudança, porque o homem que fica preso no seu
177

conhecimento sem aceitar o que é novo e diferente, fica parado no tempo e jamais será feliz.
O desafio é que move um bom pedreiro.
— E tem mais, meu pai disse ao meu avô que sabia que a construção não cairia
porque tinha estudado como os castores amarravam os seus diques e como os pássaros faziam
o seu ninho e viu que nada disso era quadrado e sempre mudava de forma, mas tudo era
entrelaçado. Cada construção da natureza tinha uma forma diferente, igual às nuvens, que
nunca se repetem e sempre se movem.
O pedreiro então criou coragem e perguntou: — Moço, agora é a sua vez de me
ensinar. Me diga como o Direito mudou do tempo do seu avô para cá? Vocês devem fazer
muita coisa diferente do tempo antigo do seu avô! Ah, lembrei que o senhor não gosta do que
é antigo!
O bacharel respirou fundo e naquele instante respondeu com desânimo: — Nada
mudou, eu pratico o mesmo Direito que o meu avô! Nada mudou no Direito e eu também
nunca tive tempo de procurar fora dele coisas novas, porque eu só estudei as leis.
O pedreiro, notando a decepção do bacharel, por educação o reconfortou: — Se
preocupe não moço, é sempre bom valorizar as coisas do passado!
Tito, envergonhado, agradeceu ao pedreiro e se despediu. Chegou à casa dos pais e
começou a chorar. Naquela noite ele começou a ver que as estrelas do céu não tinham uma
linha fixa, piscavam intermitentes, pareciam não guardar lugar, assim como as nuvens que a
sua mãe sempre pedia que ele observasse. Olhando o escuro da noite, ele clareou a sua mente
e entendeu o que a sua mãe lhe dizia. A história das nuvens passou, enfim, a fazer sentido.
178

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ANEXO A – MATRIZ CURRICULAR


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