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Copyright © 2017 MAYJO

Título Original: Opostos & Perfeitos


Revisão: Lucilene Vieira
Diagramação digital: MAYJO

1ª Edição Digital [2017]

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta


obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer
forma, meio eletrônico ou mecânico sem permissão por
escrito da autora. A violação dos direitos autorais é crime
estabelecido na lei n°. 9.610/98 e punido pelo artigo 184
do Código Penal.

Esta é uma obra de ficção. Seu intuito é entreter as


pessoas. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos
descritos são produtos da imaginação da autora. Qualquer
semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é
mera coincidência.

Está obra segue as regras da Nova Ortografia da


Língua Portuguesa.
SINOPSE
Ela é irreverente. Ele é frio e mal-humorado.
Lunna Maia é a personificação da irreverência e
da diversão. Nos últimos tempos, seu passatempo
favorito tem sido provocar o sisudo e mal-humorado Luc
Alonzo, que faz questão de mostrar, com sua pose
arrogante, uma visão amarga e cínica sobre as mulheres.
Principalmente sobre aquelas que procuram romance em
um relacionamento.
Os dois vivem em pé de guerra cada vez que se
encontram, mas as trincheiras serão derrubadas quando
todo desejo reprimido, disfarçado de animosidade,
acaba por explodir, e os dois inimigos declarados
passam a ter problemas com “L” maiúsculo.
Luc, por ter que lidar com um segredo que o faz
fugir de problemas, principalmente de se envolver com
uma pessoa como Lunna, que tem o poder de virar sua
vida pelo avesso.
E Lunna, por também descobrir que tem sua
própria kryptonita quando se trata de Luc Alonzo.
Nessa guerra de desejos e de vontades, eles vão
descobrir que são completamente opostos, mas perfeitos
um para o outro.
A todos os pais que lutam na justiça por seus
filhos.
CAPÍTULO 1

LUNNA
Algumas coisas começam muito simples, e
quando você se dá conta, já tomou proporções
gigantescas. Como minha história com um certo sapo
gostoso e filho da mãe metido a besta. A coisa entre nós
era um flerte e implicância gratuita. Tudo era para ser
simples, mas não; tudo virou um desastre... ou quase.
Tudo devia ser apenas provocações bobas que
terminariam como sempre termina: em risos e mais
implicância de minha parte e ele com uma carranca, mas
como tudo na vida tem de mudar, a nossa pegou um rumo
que nós dois não queríamos ou talvez sempre quisermos,
não é?
Eu procurava um relacionamento para casar. Sim, eu
quero casar e ser uma mulherzinha amada por meu homem,
mas não pense que serei uma típica dona de casa, isso
não! Não nasci com essa índole de dona de casa toda
perfeita, longe disso, bem longe. Dondoca? De jeito
nenhum! Mas cada vez mais me vejo invejando minha
amiga Julie e seu lindo marido, Adam. Droga, eles são uns
fofos apaixonados. Não é inveja maldosa, claro que não,
eu só quero uma vida assim para mim. Viver sozinha é
terrivelmente chato, e minha busca incansável pelo meu
grande amor está se provando infrutífera demais. Até
agora.
Como sempre, estivemos jogando farpas durante
todo o jantar, e em certo momento, a conversa girou em
torno da minha vida de solteira e dos meus encontros, que
sempre acabam mesmo antes de começar.
— Você sente inveja das suas amigas por ainda ser
solteirona — afirma o sapo, lançando um olhar
provocador daquele que diz: “segura essa, espertinha! ”
Ele me lê como ninguém. Vai direto ao ponto. Talvez ele
esteja me observando demais. Isso causa um frio na minha
barriga. Saber que ele presta atenção nesse nível. Talvez
eu esteja deixando transparecer que sinto certa invejinha e
nem perceba esse fato.
— Antes solteira resolvida que um eunuco
impotente — retruco e envio o mesmo tipo de olhar para o
outro lado da mesa — Quando foi a última vez que pegou
uma mulher, ancião?
Os risos de Adam e Nicolas explodem ao redor da
mesa. Esses são nossos amigos em comum, eles estão com
minhas melhores amigas, Julie, esposa de Adam, e
Gabrielle, namorada de Nicolas. Estamos sempre nos
encontrando, os seis. Começou com Adam e Julie, no
casamento deles; Nicolas e Gabrielle começaram um
“namoro” e estão até hoje juntos, isso foi dois anos atrás.
Eu... bem, eu sou a única que está sobrando e, lógico, o
sapo.
Luc Alonzo, alto e loiro. Seus olhos pratas estão
fixos em mim agora, fazendo minha barriga doer uma dor
que é bastante conhecida por mim quando ele está por
perto. Ele é amigo de Adam e Nicolas, e o conheço desde
o casamento de Julie. Adam e Julie eram amigos, na
verdade, suas famílias eram amigas, e quando eles
resolveram casar foi quando todos nos conhecemos, e
como Nic e Gaby engataram um romance quase que
imediatamente.
— Eu não lembro — diz Adam sobre minha
pergunta anterior — Na faculdade, lembro de uma garota
que ele pegava e depois, do nada, o cara virou um
celibatário.
— A esfinge do Antigo Egito tem mais sangue nas
veias — Eu sei. Estou provocando além da conta, mas
esse Luc me tira a paciência.
— Lunna, para! — Gaby, com sua índole calma,
tenta me manter na linha, contudo, eu estou farta dele,
sempre me olhando com frieza e superioridade, como se
eu não fizesse nada na vida que não fosse correr atrás de
um homem. — Vocês dois deviam parar com isso.
— Quando a mulher atinge certa idade e não tem um
homem, ela tende a ficar assim — ele baixa a voz e
sussurra, conspirador: — Perturbada. Atacando os
machos no raio de cem quilômetros, afim de terem seus
orgasmos.
— A sua vó — retruco infantilmente, ofendida. Vai
me pagar, meu caro!
Enfio uma garfada de minha suculenta torta de avelã
na boca, para não dizer umas poucas e boas para ele.
Deus, vivíamos a patadas e nesse joguinho há alguns
meses. E cada dia vai ficando pior. Na maioria das vezes
eu o ignoro. Faço de conta que ele não está no mesmo
ambiente que eu, mas eu sinto essa bendita atração por
ele, que é meio inconveniente, por assim dizer.
— Que adulta! — ele realmente não tem amor à
vida. Estreito meus olhos para ele. Mas recebo um
levantar de sobrancelhas de sua parte.
— Bem, tenho de ir, pessoal — digo e pego minha
carteira para pagar pelo meu jantar. Antes que eu tire as
cédulas, a mão de Nicolas impede que eu termine o ato.
— Lunna, você está envergonhado os homens desta
mesa, deixe a conta por nossa conta.
— Obrigada, Nicolas, mas faço questão — solto
algumas notas sobre a mesa. Olho para Luc e digo: —
Posso ser acusada de exploradora, além de perseguidora
de homem.
— Tudo bem, essa será a gorjeta do garçom — ele,
como todo homem macho alfa, acha que mulher deve ser
casta e submissa. Coitado do Andretti, aquela ao qual ele
está tão seguro que é casta e submissa age dessa forma
para mantê-lo na coleira e ele nem se dá conta. Gaby, com
sua personalidade tranquila, é a mais perigosa das três,
pois os homens, quando percebem, já estão apaixonados.
E Nicolas não é diferente. Apesar de eles rotularem seu
namoro como algo banal, ambos se denominando “amigos
de foda”.
Ando ao redor da mesa e paro atrás do sapo Luc,
curvo-me e sussurro ao seu ouvido:
—Tenho certeza que você adoraria ser o cara que
quer ser atacado por mim — digo suavemente — Pena que
só vai ficar na vontade, Matusalém. Hoje tem outro
sortudo fazendo o trabalho sujo.
Ele cheira divinamente bem, um cheiro limpo de
homem, tão gostoso que tenho vontade de lamber seu
pescoço acima da gola da camisa. Ainda fungo
discretamente seu pescoço. Devo ser uma pervertida.
Ele engole em seco, mas não se mexe. Luc tem essa
característica que me irrita sobremaneira. Ele se mantém
como um maldito jogador de pôquer, não dá uma pista do
que ele realmente sente. Dou beijos de despedida nas
meninas, adeus para os outros e saio.
Eu não tenho hoje nenhum gostoso para expulsar
certo tesão do meu corpo, porque vou te contar, essas
farpas com Luc me deixam acesa. Esse ar inatingível dele
é enlouquecedor.
Na verdade, não tenho nada para fazer, a não ser
estudar o caso do meu próximo paciente que tenho
amanhã, nas primeiras horas da manhã. Tenho de ver
minha linha de trabalho de reabilitação para ele. Um atleta
de judô que teve um acidente quando estava treinando. Ele
está com problemas sérios na coluna pela forma violenta
que seu adversário aplicou um ippon que quase quebrou
meu paciente ao meio, ou melhor, sua coluna.
Tratar um paciente que sabe que pode nunca mais
voltar a lutar é um pouco difícil, por isso quero estar por
dentro de todos os detalhes de seu prontuário. Um
trabalho fisioterápico bem-sucedido requer paciência e
dedicação.
Mas amanhã à noite eu tenho um encontro com Leo,
um dos fisioterapeutas da clínica. Ele trabalha há pouco
tempo lá, então é tipo uma caridade que estou fazendo, se
é que entende o que quero dizer. Só para constar, ele é um
lindo adônis de um metro e oitenta de pura gostosura.
Vamos sair depois do plantão, apenas um café. Tudo
inocente. Eu não posso resistir à vontade de fantasiar que
esse será meu príncipe que virá em seu cavalo branco me
arrebatar para vivermos o “felizes para sempre. ”
Depois de tomar um táxi, chego em casa e vou
direto para minha garrafa de vinho que tenho na geladeira.
Sirvo uma taça e volto para a sala, chutando meu sapato
para longe, ficando confortável. Deixo a taça na mesinha e
vou trocar de roupa, vestindo uma camiseta de algodão
folgada. Morar só tem suas vantagens, podemos vestir o
que quisermos, ninguém vai ver mesmo. Meu apartamento
é confortável, não é nenhuma cobertura, mas é grande o
suficiente para mim. Decorado elegantemente, cumpre seu
papel de um teto sobre minha cabeça.
Os papéis com as informações do paciente estão em
cima da mesa de centro, de vidro. Estico-me no sofá
macio e tomo um gole do meu vinho. Pego os papéis e
começo a ler.
No dia seguinte, passo um dia daqueles, onde mal
tive tempo de respirar corretamente. Meu novo paciente é
um caso doloroso, como eu imaginei que seria. Passei a
manhã inteira avaliando seu estado físico. À tarde, tive
mais dois pacientes, por isso, quando saio da clínica às
cinco e meia da tarde, estou apenas o pó. Lembro que
tenho um encontro hoje, e que, portanto, já estou atrasada.
Marquei com Leonardo às sete e meia, e tenho de correr
para estar apresentável. Só tenho tempo para um banho
rápido quando chego em casa. Visto um vestido preto
básico, justo, acima do joelho, para não errar. Escolher
outra roupa levaria uma quantidade de tempo que não
disponho. Calço um sapato estilleto, maquiagem mais
básica possível, mas que destaca meus olhos, e pronto.
Meu cabelo curto é prático, e às sete horas estou saindo
de casa para o pequeno café. Bem, se de lá esticarmos
para outro local, já estou preparada.
O café fica a poucas quadras da clínica onde
trabalhos, e um táxi me deixa lá às sete e vinte. Sento à
uma mesa, esperando meu futuro príncipe, ou não. Na hora
marcada, ele aparece vestido com esmero. Vejo que ele
caprichou em um blazer casual, sem gravata, porém
elegante.
— Lunna, que bom que veio! — ele diz quando
beija meu rosto de cada lado. Quando ele senta à minha
frente, me olha com um leve rubor em sua face, o que eu
acho fofo — Tomei a liberdade de reservar um local para
jantarmos, em vez de apenas tomarmos um café.
Ele deveria ter feito o convite para um jantar, penso
comigo mesma.
Bom, de qualquer maneira posso muito bem ir jantar
em outro local, por isso sou uma mulher precavida. Tirem
o chapéu para mim, pessoal. Eu sou foda! Rindo
internamente de minha própria besteira, digo:
— Claro que sim — sorrio para ele, charmosa.
A noite se revela muito agradável. Leo tem uma
conversa agradável e leve, e em pouco tempo estamos
entrosados e rindo. Bom, isso dura até a metade do jantar,
quando eu olho para o lado e duas mesas adiante avisto
um par de olhos cinzas me fitando, carrancudo, como de
costume. Ele está na mesa com mais duas pessoas e, pelo
visto, homens de negócios. Luc Alonso sabe acabar com a
noite de uma mulher. Droga, eu não sei de onde vem tanta
animosidade entre a gente!
Tento levar o resto do jantar como se nada tivesse
acontecido, mas isso é impossível, estou sempre voltando
meus olhos para o “senhor todo charme” na mesa adiante.
Eu não vou mentir dizendo que não acho Luc um homem
bonito, e ele sabe disso, eu cometi o erro de dizer isso
quando nos conhecemos. Esse lado idiota dele é mais um
acréscimo para seu charme. Devo ser o tipo de mulher que
gosta desses tipos chatos, porque vou contar, ele me deixa
irritada e excitada em nanos segundos. Mas, além de tudo,
me divirto com sua irritação quando estou por perto. Ele
totalmente me acha uma dessas mulheres devoradoras de
homens, ou não. Dependendo da conversa de ontem, ele
pode me achar uma encalhada.
Dou um sorriso discreto para ele, mostrando que
não sou encalhada. “Veja, Lucat, estou acompanhada de
um homem, meu problema de orgasmo não é problema
nenhum.” Isso é o que eu quero que meu sorriso mostre.
Suas sobrancelhas se erguem em desdém óbvio. Olho para
Leonardo, e ele está falando sobre um paciente dele e não
percebe que seu encontro está flertando com o cara da
mesa ao lado. Não sei o que me compele a fazer isso com
Luc.
— Você está distraída — a voz de Leonardo me faz
voltar minha atenção para ele. — Estou entediando você?
— Não, claro que não! — eu estendo minha mão e
seguro a dele, que está repousada sobre o tampo da mesa.
Faço isso mais como show para o gato Luc — É bom
escutá-lo, querido.
Ele fica vermelho mais uma vez e dou um sorriso
sexy à la Lunna para ele. Eu não devia ficar aqui, sentada
com ele, e minha cabeça na outra mesa. Deveria levantar e
dizer que foi ótimo jantar com ele e o deixar seguir seu
caminho.
— Você quer ir embora? Um lugar mais reservado?
— Hein?! Já? Droga de homens, são todos cópias uns dos
outros. Onde já se viu, primeiro encontro e já querer lugar
reservado?
— Bem, eu tenho de acordar cedo amanhã, então
você pode me deixar em casa — digo, nada sutil, e ele
parece constrangido e desapontado por um momento, mas
esconde isso rapidamente e chama o garçom para pagar a
conta. Retiro minha parte do jantar e ele se recusa a pegar,
mas, como sempre, insisto. Tenho o péssimo hábito de não
querer dever nada a ninguém. Sou chata assim. Se
queremos igualdade dos sexos, vamos dividir conta
também.
Quando estamos saindo, Leonardo coloca uma mão
na base das minhas costas. Se fosse outro momento
acharia invasivo para meu primeiro encontro, mas como
hoje tenho um espectador cativo, deixo para lá. Olho para
Luc e vejo seus olhos nos acompanhando. Pisco para ele,
maliciosa.
O deus Thor só parece rosnar de lá da mesa, para
mim. Amo provocar esse homem. Ele é tão pomposo.
Rindo comigo mesma, seguro o braço de Leonardo e
saímos em direção ao carro dele.
LUC
Observo-a sair com o cara do restaurante e faço
uma cara de desgosto. Essa mulher não tem limites. Suas
gracinhas me irritam e tenho vontade de, às vezes, mandá-
la para o inferno junto com os apelidos idiotas com os
quais ela me chama. Apesar disso tudo, eu me pego várias
vezes respondendo a essas gracinhas dela. Dando mais
combustível para ela me irritar.
Essa mania dela de me chamar de eunuco me tira do
sério. Vontade de mostrar para ela o quanto sou um
eunuco. Mas me controlo, porque esse cara descontrolado
não sou eu. Tenho total controle sobre as minhas ações e
vontade. Não sou um homem regido por seu pau.
Mantenho-o dentro das minhas calças, com certeza. E
antes que diga algo, eu não sou gay, apenas estou acima
disso tudo. Eu transo, é claro, mas isso é feito de forma
discreta, com mulheres discretas e refinadas, não o tipo
romântico e atirado, como umas e outras que eu conheço.
Contudo, o pior são as vezes que me pego fantasiando
fodendo-a até a exaustão, até arrancar toda essa tensão
que nos envolve cada vez que estamos no mesmo
ambiente.
Olho para a porta do restaurante, por onde ela sumiu
com o seu sabor da semana — como suas amigas gostam
de apontar — e curiosidade me aperta. O que diabos foi
aquilo ontem à noite, no restaurante? Ela praticamente me
farejou igual a um cão, que tipo de pessoa faz esse tipo de
coisa? Ela fungou meu pescoço, arrepiando até o ultimo
fio de cabelo em mim. Passei uma noite de cão, cheio de
tesão, pensando em sua voz provocadora.
— Conhece a moça? — Hadrian, o alemão que
estou fazendo negócios, pergunta em um sotaque
carregado — Apresente-nos. — Ele aponta para Hainz,
seu sócio, e eu tenho a súbita vontade de dizer para ele
que não tenho vocação para cafetão, mas como quero
fechar negócio com esses caras, então eu digo apenas:
— Não a conheço, estava apenas... olhando. —
resmungo. Esse cara não está cansado de loiras, não? Na
Alemanha, o que mais tem são loiras naturais, e ele quer
conhecer uma que tinge o cabelo?
Droga! Eu estou prestando atenção demais nessa
mulher. Como inferno sei que ela não é loira natural? Eu
sempre a conheci com esse corte de cabelo, curto e loiro.
Estou sendo preconceituoso, melhor esquecer essa
maluca.
CAPÍTULO 2

LUNNA
Depois que Leonardo me deixa na porta da
minha casa, eu fico inquieta e sem sono, mas nada tem a
ver com o homem que acabou de me deixar aqui, não. Tem
tudo a ver com o sapo ranzinza que atormenta minha
mente.
A noite é longa e desejo ter um vibrador aqui,
porque estou excitada demais com nossa interação no
restaurante, ou a falta dela da parte dele, claro, mas sei
que ele estava me notando, como sempre.
Reviro na cama às duas da manhã e me pergunto:
por que eu não tenho um vibrador? Vou amanhã mesmo
mudar esse fato, vou ser sócia do clube das mulheres que
se resolvem por si mesmas.
Acho que dormi, pois quando o despertador toca eu
estou grogue e levanto para dar um tapa nele, que está no
criado-mudo.
Uma hora e meia depois, estou na clínica para mais
um dia de trabalho. Verifico minha agenda do dia e
percebo que tenho almoço com as meninas às treze horas.
Almoçamos juntas de duas a três vezes por semana. Isso
vem diminuindo com o tempo, já que Julie tem uma filha
agora e Gabrielle está em um estágio que mal dá uma hora
de almoço para ela. Porém, ainda assim nos encontramos
quando dá.
A manhã passa voando, e às onze e meia meu
telefone toca ao receber uma mensagem. Pego meu
telefone e verifico que é Julie, em nosso grupo de
conversa. Digito uma mensagem de volta e pego minha
bolsa. No corredor da ala fisioterápica encontro
Leonardo, que vem em direção oposta.
— Oi — ele diz quando para à minha frente. Droga,
isso é estranho, esbarrar com seu encontro da noite
anterior e a quem não mandamos nem um oi nessa manhã.
— Tudo bem? — dou um sorriso como sempre,
porque sou a pessoa do sorriso constante. Alguém que me
vê sisuda certamente saberá que algo está errado comigo.
“Sou dona Maria Toda Sorrisos”
— Tudo sim. Eu... — ele era tímido assim antes?
Não notei isso — Foi muito bom sair ontem.
Foi?
— Sim, realmente, gostei muito — E quando fui
dormir não foi em você que eu pensei, meu amigo. Penso,
e acrescento em minha mente que seria interessante lhe
dar uma segunda chance. Está difícil achar um homem que
goste da fruta fêmea. Oh, meu Deus! Estou em devaneios
aqui. Reprimo uma gargalhada — Seria bom marcarmos
outro dia. Tem um show da Maria Gadú que gostaria de ir.
Ele sorri, feliz, ao saber que tem mais uma chance.
Eu também estou feliz por isso, eu gosto dele, apesar de
não sentir como se minha calcinha estivesse pegando fogo
quando penso nele. E nem me imagino gemendo seu nome
como já fiz com você sabe quem.
— Claro, só dizer quando!
— Certo. Agora tenho de ir, estou atrasada para o
almoço — dou um aceno e passo por ele.
Chego no restaurante, e Julie e Gabrielle já estão lá,
carrancudas
— Hey, não demorei tanto assim — digo, quando
me sento.
— Você sabe que não tenho muito tempo. Meu chefe
pode ter um enfarto se eu chegar atrasada um milésimo de
segundo. — Gabrielle diz — Não vejo a hora desse
estágio terminar. Como posso passar metade do meu dia
reclamando da vida?
— Então não reclama, minha flor de estufa — rio —
Gaby, você devia abrir seu próprio escritório. Pede ajuda
ao seu amor milionário.
— Esquece que não posso fazer isso? Quero minha
especialização primeiro. — ela diz, teimosa.
— Tudo bem, mas ainda acho que você é boba
demais — pegando o cardápio, verifico minhas opções.
— E seu encontro ontem? — Julie pergunta. Elas
sabem do meu encontro, pois digo para elas minhas
peripécias amorosas.
— Foi bem — digo, lacônica, e isso aguça a
curiosidade das meninas, ao que parece.
— O que houve? – as duas falam ao mesmo tempo,
se inclinando para frente.
— O que não houve, essa seria a pergunta certa —
digo, rindo — Leonardo é um fofo, mas não acendeu a
chama.
— Ah... Lunna, você vai com muitas expectativas
nos homens, achando que eles são seu príncipe em um
cavalo branco — Julie me olha, severa — Vá aberta!
Eu estouro em uma gargalhada, chamando a atenção
de nossos vizinhos de mesa.
— Eu vou aberta, querida — balanço minhas
sobrancelhas para cima e para baixo, maliciosa —
Contudo, temos outro encontro.
— Ah, menos mal — diz Julie, voltando a sentar
corretamente, e acena para o garçom vir anotar nosso
pedido. Opto por uma salada de funcho e camarão e
molho cítrico, e para não ficar com a consciência pedindo
algo gordo, peço minha coisa favorita para sobremesa,
torta de chocolate e avelã. Um pedaço dos grandes.
— Isso ainda vai te deixar uma baleia — Gabrielle
diz, quando escuta meu pedido. Mas inveja, pedindo a
mesma coisa.
— Isso que é viver perigosamente — brinco.
— Não esqueçam de deixar para comer as coisas
gordurosas na festa de aniversário de Adam, daqui a dois
dias. — Julie lembra.
— Querida, nada que uma sessão de treino de cinco
horas não resolva. — rio.
— Você é uma exagerada, quem treina cinco horas
por dia? O Usain Bolt? — Gabrielle replica.
— Bem, nos conte os detalhes desse encontro —
elas pedem, quando já estamos comendo.
Quero contar sobre meu encontro com Luc, mas eu
não consigo falar dele com elas. Não sei a razão do
retraimento, já que conto tudo para elas da minha vida.
Elas são mais que amigas; são irmãs para mim. Mas falar
da atração indesejada com Luc não é um assunto que tenho
vontade de expor. Por isso enrolo, falo apenas sobre o
meu encontro sem sal, de ontem.
— Tenho umas compras para fazer — digo, de
repente — Tenho de ir ao sex shop comprar um dildo!
O vinho que Julie estava bebendo pula de sua boca
com o riso, porque eu falei isso alto e a senhora da mesa
ao lado está me olhando com olhos arregalados. Ela
balança a cabeça em desaprovação óbvia.
— Você é louca? — Julie sussurra, enxugando o
vinho derramado, e acabamos caindo na gargalhada. — O
quê? Os homens não estão dando conta?
— Oh, não! Reparei que não tenho um — faço cara
de inocente. — Por isso tenho de reparar essa falha.
— Lunna, ninguém é mais louca que você. Eu não
tenho um desses — Gabrielle fica vermelha quando fala.
— Gabrielle, por que teria um dildo se você já tem
um animal sexual disponível para você, dia e noite? —
ela é uma sortuda, isso sim.
Droga, estou ficando amarga. Será que o gato Luc
tem razão? Estou com inveja das minhas amigas?
Claro que não. Bom, talvez um pouquinho. Minhas
duas amigas têm homens deliciosos, prontos para os
serviços sujos. E eu? Estou em busca ainda, e isso causa
uma tremenda frustração.
— Temos de ter essa conversa aqui? Estamos em
um restaurante, pelo amor de Deus! — Julie diz,
exasperada. Dou um sorriso mau e assinto, fazendo-a
gemer baixo — Você me mata de vergonha.
Logo depois terminamos o almoço, e Gabrielle
corre de volta para o estágio, deixando Julie e eu ainda na
mesa, conversando, mas ela recebe uma ligação e também
tem de ir, afinal ela é mãe, nossa farra tem de ser limitada,
agora.
— Às sete, na minha casa, e não precisa levar nada
— ela diz, quando beija meu rosto em despedida —
Temos tudo organizado.
Claro que tem, ela é a mulher mais organizada que
conheço. Bem, Isadora veio para mudar isso um pouco.
Dois dias depois, estou na casa de Julie e meus
olhos estão inquietos. Avisto Adam e Nicolas, e nada de
Luc, mas quem disse que vou perguntar a alguém por ele?
De jeito nenhum! Nem gosto dele, apenas gosto de
implicar com seu jeito almofadinha inabalável.
— Você está com alguma coisa coçando em algum
lugar impróprio? — Gabrielle, que está junto a mim,
pergunta — Você está inquieta.
— Oh, não, é nada de mais, acho que esses canapés
podem estar estragados — disfarço.
— Como é, Lunna Maia? Meus canapés estão o
quê? — Julie se materializa do nada atrás de nós.
— Oh!
— Sim, oh, explique-se, mocinha — ela está
disfarçando seu sorriso — Eu contratei o melhor buffet e
você diz que os canapés estão ruins?
— Então deve ser outra coisa — merda, isso não
melhora em nada — Desculpa, estou bem, amiga, de
verdade.
— Você está com problemas? Você não é assim,
toda inquieta — não mesmo, eu sou um espírito livre e
sem maiores preocupações, mas quando estou prestes a
responder, eu o vejo. Ah, chega atrasado para a festa do
amigo. Ele é uma presença máscula. Ele é muito alto, seus
cabelos loiros escuros são de uma textura macia que tenho
vontade de puxar com força, e sem falar nos olhos
cinzentos, misteriosos e sérios. Eu acho que homem bonito
atrai outros homens igualmente bonitos para andarem
juntos, porque aquele trio me deixa quente. Mas Luc é
diferente. Apesar do corpo musculoso das idas à
academia, ele é forte na medida certa e eu nunca o vi sem
roupas, mas seus ternos caem tão bem que eu tenho a
certeza de que não é decepcionante seu corpo nu.
Droga, está quente aqui!
— Estou bem mesmo — reforço e sorrio para elas
— Preciso de uma taça de champanhe para refrescar.
Eu saio ziguezagueando pelos convidados e consigo
uma taça de champanhe rosé, meu favorito, de um garçom,
e olho ao redor para encontrar um par de olhos cinzas
cravado em mim. Eu pisco maliciosa para ele e recebo um
erguer de sobrancelha irônico.
A festa continua, e eu me divirto dançando tudo que
eu posso dançar na pista improvisada. Eu fico me
perguntando por que eles não têm um salão de festas, já
que adoram dar festas. Dancei com todos, menos com Luc.
Bem, mas agora vou fazer meu movimento. Procuro até o
encontrar em pé, conversando com outro cara. Caminho
até parar ao seu lado.
— Luc, querido, não vai me apresentar ao seu
amigo? — digo e encosto até uma posição que minha mão
errante esteja protegida do homem bonitão à nossa frente.
Estou certa, homem gostoso atrai homens gostosos ao seu
círculo de amizade.
— Olá, sou Lunna — estico minha mão direita para
ele e com a esquerda aperto a bunda de Luc — Prazer.
— Jason Lewis — o amigo dele diz, e se não fosse
pela cor de cabelo diferente diria que são irmão, os dois
têm olhos cinzas, lindos. Minha mão esquerda entra em
ação mais uma vez e aperta firme o bumbum durinho dele.
Luc está tenso ao meu lado, e ele olha firme para
mim, mas eu não o olho de volta. Ele se afasta um pouco
de mim e eu vou junto. Cristo! Que vontade de rir.
Olho disfarçadamente para seu rosto e não seguro o
riso; sua cara é impagável. Ele está furioso e chocado
com minha ousadia.
— Por que vocês homens lindos só têm amigos um
mais lindo que o outro? — dou um sorriso avassalador
para Jason — Estou pensando seriamente sobre isso.
— Você é engraçada, Lunna — porra, eu não quero
ser engraçada, quero ser sexy.
— Você nos dá licença, Jason? — a voz cortante de
Luc vem, aborrecida.
— Claro. Vejo você por aí — Ele diz e se afasta.
Luc agarra meu braço e me arrasta para um corredor
vazio, a meia-luz dando um toque íntimo ao local. Ele
praticamente me bate na parede e avança sobre mim.
— O que diabos acha que está fazendo? — ele diz,
letal, baixo e furioso — Mantenha essas suas garras
maliciosas longe de Jason, ele é um homem casado!
O quê? E quem aqui está pensando em Jason?
— Gato Luc, você é tão mente suja — olho para
minhas unhas, displicentemente.
— E nunca mais toque em mim assim! — Ele não
levanta a voz um segundo, mas é como se fossem gritos
ferozes saindo de sua boca sexy. Sua postura exala esse
poder magnético que me atrai. Quero provar sua boca,
como imaginei ontem na escuridão do meu quarto. Hoje
provavelmente irei usar meu novo vibrador. Maldito
homem!
— Nem sei do que está falando — olho inocente
para ele.
—Mulher irritante! Não querendo ser grosseiro —
as palavras contradizem sua expressão quando ele arrasta
o olhar por toda extensão do meu corpo. —você não faz
meu tipo, querida. Gosto de minhas mulheres o oposto de
você.
— Quem disse que eu quero você, Matusalém? —
chego bem perto de sua boca — Só gosto de fazer você
imaginar que eu quero alguma coisa com você. — lambo
meus lábios lentamente e sussurro, provocante: — Gosto
dos meus homens quentes e deliciosos, não icebergs
congelantes como você, querido.
Afasto-me e me encosto à parede de novo. Vejo suas
narinas dilatar quando ele avança para mim. Sua mão forte
e grande agarra minha garganta, me prendendo firme. Eu
solto um pequeno gemido. E quando penso que ele vai me
beijar, ele para e dá um sorrisinho odioso. Estou
tremendo? Oh, meu Pai!
— Se eu tocasse em você agora, apostaria um
milhão que estaria molhada para mim, encharcada. — ele
abaixa até estar praticamente me beijando — Se eu
beijasse você agora, você gozaria de tão desesperada por
atenção que está, Lu.
Minha respiração falha na tentativa de me controlar.
Oh, merda. Ele está certo, eu estou excitada além da conta
agora, se ele me tocasse eu teria um orgasmo em menos de
um minuto. Me contorço quando raios de desejo correm
por minhas veias. Quero morder seus lábios sexy até ele
gemer em minha boca. Quero que ele me toque agora. Por
que ele não faz isso?
— Mas eu não estou desesperado — ele continua,
quando eu me mantenho calada. Nojento! Ele se endireita
e alisa seu terno — Cace outro, querida.
— Porco! Nunca disse que queria suas mãos
imundas em mim! — vocifero, indignada.
— Nós dois sabemos a verdade. Tenha uma boa
noite, Lunna — ele diz e vai embora.
Eu fico lá, na parede, até me acalmar. Eu juro que
ele vai engolir cada maldita palavra!
LUC
Eu observo Lunna voltar para a festa e continuar
com seu show, dançando e bebendo champanhe como se
fosse água. Deus, o que vou fazer com essa mulher? Pegar
em minha bunda em uma festa? Ela está passando dos
limites do caralho!
Meus olhos estão em sua bunda quando ela rebola
em seu vestido curto. Ela devia ser proibida de andar com
roupas tão curtas. Se ela fosse minha daria um maldito
ultimato, para não sair na rua com esse vestido, que não
deixa muito para a imaginação dos homens aqui. Ajeito-
me no sofá, desconfortável.
— Você devia disfarçar — Adam diz, ao meu lado
— Está ficando óbvio. E nós pensando que você não
apreciava a coisa.
— Do que está falando? — tomo um gole de minha
água. Parei de beber depois do segundo whisky, tenho de
dirigir e não dirijo quando bebo mais que um copo de
álcool. E tenho pavor de quem faz esse tipo de coisa,
imprudência não faz meu feitio.
— Você sabe que nós pensamos que você é gay —
Adam continua se referindo a ele e Nicolas. Amigos de
merda! — Se for não precisa se preocupar, não vamos te
julgar. Eu e Nicolas te conhecemos há muito tempo,
saberíamos respeitar sua preferência.
— Já disse que não sou — olho para meu melhor
amigo e dou um sorriso — Qual é? Não podemos ter uma
vida privada? Sem tantas mulheres em volta?
— Ela pode resolver seus problemas ou complicar
mais ainda — ele aponta Lunna, que está rebolando seu
traseiro ao som de uma batida sexy. Aliás, as mulheres
estão dando um show à parte lá na pista improvisada.
Metade dos convidados já foi embora, e elas estão
aproveitando — Lunna é vibrante, e você poderia trazer
um pouco de cor para sua vida, meu amigo.
— Não estamos tento essa conversa —digo e
levanto do sofá onde estive assistindo a dança das
meninas.
— Eu vejo que você a deseja, só um cego que não
percebe, isso entre vocês dois é pura tensão sexual — ele
diz alto.
— Esquece!
— Viva, cara!
Eu já vivo, só que à minha maneira, e não preciso
de nenhuma mulher, que vê romance até nos galhos das
árvores, em minha vida. Gosto dela assim, sem
complicação, e Lunna estaria fazendo planos de nosso
casamento uma semana depois, se resolvêssemos foder
com o outro. Não, estou completamente fora. Já tenho
coisas maiores para me preocupar.
— Você não vai para casa sozinha — diz Julie para
Lunna. Nós somos os últimos a sair da festa, como
sempre. Nicolas e Gabrielle já estão esperando fora da
casa, e Lunna está meio bêbada, querendo ir para casa
dirigindo — Não vai dirigir, mesmo! Não assim. — ela
aponta quando Lunna se encosta na parede. — Luc, você
devia deixá-la em casa.
— Acho que não — digo, direto. Essa louca pode
fazer alguma merda no caminho até seu apartamento.
— Sim, Lucat, eu vou com você — ela diz, com
aquele tom malicioso que usa para me provocar. — Você
pode fazer isso, não é? Sei que você é um cavalheiro.
Inferno que ela me acha um cavalheiro. Já disse
para todo mundo ouvir que sou esnobe, pretencioso e
almofadinha. Olho para ela, e vejo seus olhos dançando
com divertimento.
— Definitivamente não vai — reitero minha
decisão, hoje não estou no clima para nossas implicâncias
habituais. Na maioria das vezes eu até gosto desse duelo
sem o menor sentido, mas hoje, não. Eu simplesmente
quero distância dela. Mulher que vê romance em tudo? Eu
quero correr milhas e milhas em sentido contrário.
Hoje eu sinto que meu limite está por um fio. A
sensação de sua mão em minha bunda ainda me deixa
duro.
— Não posso dormir aqui — ela diz, agora soando
séria — Tenho que estar muito cedo amanhã no trabalho.
Não vou atacar você, Lucat.
Eu definitivamente não devia fazer isso, mas quando
abro minha maldita boca, me vejo dizendo:
— Tudo bem. Vamos!
CAPÍTULO 3

LUNNA
Fingir que estou bêbada poderia me colocar
em apuros, mas, naquele momento, quem disse que me
importo?
— Sua cara feia não vai mudar o fato que vou com
você — digo rindo, quando ato o cinto de segurança no
carro de Luc — Devia sorrir mais, caro chofer. Ah, a
propósito: sua bunda é muito sexy.
Digo só para provocar, mas tenho uma reação? Não!
Ele permanece duro no seu lugar e não dá uma
demonstração que se importa com minhas provocações.
Se um belo dia a empresa dele falir, ele vai ganhar
dinheiro como estátua humana, porém, posso dizer que
elas ainda têm mais expressões que Luc Gostoso Alonzo.
E eu quero deixá-lo maluco, hoje. Está me pagando por
ofender as mulheres isentas de orgasmos. Não somos
desesperadas, como ele disse. Algumas de nós, mulheres,
gostamos de estar com alguém, isso é algum pecado?
— Você devia falar menos e beber menos também
— ele resmunga, quando dá partida no carro. Tenho
vontade de acariciar sua coxa, só para ver sua reação,
mas como tenho medo de morrer jovem, retraio o ato. Mas
dou um sorriso, provocando um olhar frio dele.
— Você fica tão gostoso assim, mal-humorado —
cantarolo — Gostaria de saber se toma, a cada três horas,
um copo de limonada com tamarindo — pergunto, com
falsa curiosidade.
Ele finge olhar pelo retrovisor, e sua mandíbula está
pulando, isso quer dizer que estou irritando-o. Isso é tão
excitante. Ele acelera o carro nas ruas desertas, como se
tivesse pressa de se livrar de mim.
— Pressa para chegar? — cutuco sua coxa
musculosa. Ele é um pecado maldito, embrulhado para
presente. E não via a hora de ter minha chance com ele,
apenas para provar um ponto.
— Lunna, quando vai agir como uma mulher adulta
de trinta anos? Parece até que tem seis — ele diz, e viro
para olhá-lo de frente.
— Como é? Não tenho trinta anos! — digo,
ultrajada.
— Não? Me desculpe — a voz dele sai cínica e
debochada — Essas rugas são o que, então?
— Seu joguinho não terá êxito, eunuco. E nunca diga
esse tipo de coisa para uma mulher — retruco —, pois
pode ficar sem suas bolas. E desde quando uma mulher de
trinta, obrigatoriamente, tem de ter rugas? Nunca ouviu
falar de antirrugas, Múmia?
— Não estou preocupado com isso, velha senhora
— ele ri, e eu fico olhando para ele como uma boba. Ele
nunca ri para mim, sempre estamos nos alfinetando, e
como já percebi, isso já não é mais implicância normal
entre pessoas diferentes, como nós dois somos. Ele é sem
emoção, contido, e eu cheia de emoção e não paro quieta
no lugar. Quero encontrar meu príncipe encantado e viver
feliz para sempre, e ele quer coisa totalmente distinta,
segundo Adam e Nicolas.
Nós temos um mal disfarçado anseio, e qualquer
hora dessas vai explodir em nós. Ele liga o som do carro,
e me pergunto se é para que eu não puxe assunto. Mas isso
só aguça minha vontade de conversar.
— Então, você tem problemas com sua mãe? —
começo. Ele vira a cabeça na minha direção, meio
confuso com minha pergunta.
— E por que eu teria problemas com minha mãe,
Lunna?
— Ora, não dizem que homens com problemas de
relacionamento têm problemas com suas mães? — sorrio.
— Acho que você bebeu demais, e para sua
informação, tenho um ótimo relacionamento com ambos os
meus pais — ele aumenta o som, e sou obrigada a ficar
calada.
Pouco depois, ele para o carro na frente da minha
casa e não faz menção de descer do carro. Sério?
— Seria cavalheiro você abrir a porta para mim —
digo, ainda sem fazer nenhum movimento para sair.
— Lunna, não estou com paciência para isso hoje,
apenas desça do carro — Nossa! Grosso! Estúpido!
— Obrigado — ele diz, e percebo que não estive
apenas xingando-o mentalmente, mas em alto e bom som.
Melhor ainda. Ele suspira, frustrado, quando eu continuo
lá sem me mexer para ir embora. — Você enlouquece
qualquer pessoa.
Ele desce e vem abrir a porta do carro para mim. —
Senhora.
Estou rindo quando me agarro na frente de seu terno
e olho para cima, encontrando seus olhos.
— Você é tão gentil, Luc. Agora me leve até a porta
— segurando seu braço, tento arrastá-lo comigo, mas ele
nem se mexe do lugar.
— Lunna, não. — Ele diz, sério — Eu não tenho
tempo para essas molequices com você. Chega. Essa
porra acaba aqui, não vou tolerar esse tipo de
comportamento mais de você, seguiremos nossos
caminhos sem esse tipo de criancices. — Ele me encara e
retira minha mão de seu braço. — Apenas nos falaremos
quando isso for estritamente necessário.
O que deu nele? Será que o ofendi, pegando em seus
glúteos?
— Você entendeu? — Ele exige, quando eu apenas o
olho. Nossa!
— Tudo bem, eu não ia estuprar você lá na minha
casa, sabe — aponto. — Só acho que deixar uma mulher
bêbada na rua é, no mínimo, grosseiro.
— Jesus Cristo!
— Tudo bem, já vou, apenas se amanhã aparecer
morta, diga às minhas amigas que as amo — cambaleio na
direção da entrada e o deixo lá. Moro no primeiro andar
do prédio, que a essa hora não tem alma viva acordada.
Eu já fiz esse caminho várias vezes antes, mas eu quero
irritar Luc. Droga, ele está certo, estamos sendo infantis
com nossas trocas de farpas.
A brisa da madrugada me faz estremecer com o frio.
Onde está meu casaco? Acho que bebi demais, mesmo.
Brutus era mais gentil com Olivia Palito. Estúpido,
sem um pingo de cavalheirismo nas veias frias dele.
Neandertal e...e...
Meu cérebro ferve com todos os tipos de
xingamentos pela segunda vez nesse pequeno intervalo de
tempo que ele me trouxe, isso é para lembrar por que não
gostamos um do outro.
— Espera! — o escuto dizer, porém não paro. Aí
que ando mais apressada para alcançar o elevador. Estou
praticamente correndo quando entro e bato o dedo no
botão para subir. Vejo-o vindo, e seus olhos estão
nublados. A porta está fechando quando ele entra, furioso.
Eu bato minhas costas na parede do fundo do elevador
quando ele vem em minha direção.
— Você... – ele grunhe as palavras — Você fez um
drama para que eu te levasse até a porta...
— Não preciso de você, grosso! — Empino meu
queixo, e nossos olhos se encontram, e as coisas mudam
entre nós. A próxima coisa que sinto são os lábios dele
nos meus.
Arrepios começam nas minhas costas e se alastram
por meu corpo. A boca de Luc não é gentil, ele beija como
se me devorasse. Suas mãos enormes agarram minhas
coxas e me erguem do chão. Minhas pernas estão em volta
dele, minhas mãos em seus cabelos e...
As portas se abrem no meu andar e nós nos
separamos. Engulo em seco para depois lamber os lábios,
e os olhos cinzas acompanham o movimento da minha
língua. Droga, estamos parados, ainda no elevador.
Firmando-me nos meus próprios pés, passo por ele e sigo
para minha porta.
— Obrigada pela carona — digo, com a respiração
entrecortada — Boa noite.
Abro minha porta e o deixo no corredor, e pela cara
dele, o deixo muito frustrado. Encosto na porta e lembro a
mim mesma por que não estamos agora na cama,
arrancando a roupa um do outro.
Isso seria terrível!

Nos dias seguintes não o vi, o que achei bom, pois a


memória viva do beijo, no elevador do meu prédio, só me
faz ter vontade de finalizar o ato de outra forma.
— Tem certeza que pode ficar com ela? — Julie
cruza os braços e me encara — Porque, se for demais, eu
e Adam podemos enviar um pedido de desculpas por
nossa ausência.
— Está tudo bem— respondo, enquanto tento
segurar uma inquieta Isa nos braços.
— Nossa babá adoeceu e não pudemos chamar
outra a tempo. E como Adam acertou esse jantar de última
hora, então...
— Está tudo bem, vamos nos divertir, não é,
querida? — recebo um sorriso de Isadora e beijo sua
bochecha rosada.
Ela se distrai com meu colar, e caminho para a
saída da casa de Julie, onde Adam já espera pela esposa
ao lado do carro.
— Tudo bem, qualquer coisa sabe onde me
encontrar.
— Tchau, mamãe! — seguro a mão de Isadora
quando acenamos para seus pais. — Agora, querida,
somos apenas eu e você! O que acha de testarmos a
maquiagem da mamãe em você? — digo, rindo para ela.
Eu não tenho a mínima experiência com crianças, mas
adoro a Isadora, ela é tão fofa!
Passo a próxima hora no tapete do quarto dela,
tentando alcançar suas fugas para fora do quarto. Nossa,
por que as crianças não têm botão de desligar?
Porém, como um bom bebê, ela dorme por volta das
nove, e eu fico na casa sem saber o que fazer. Nem
testamos a maquiagem.
Procuro uma garrafa de vinho na cozinha e me sirvo.
Tomo o primeiro gole, quando a campainha toca e corro
antes que o som acorde o bebê.
Abro a porta e quase caio de surpresa quando vejo
Luc. O que diabos ele faz aqui?
Ele está com roupas casuais, jeans e camisa azul-
marinho de manga comprida, puxada até os cotovelos,
deixando à mostra os antebraços fortes com pelos
dourados, sexy, à mostra.
Ele coloca as mãos nos bolsos da calça jeans e me
dá um arremedo de sorriso.
— Devo me preocupar por estar em todo lugar que
vou?
— Acho que é o contrário, Matusalém, acho que
você anda me seguindo, deve ter gostado de nosso último
encontro. — digo, me encostando no limiar da porta — O
que quer aqui?
— Sinto desapontar você, mas não foi com você que
vim falar.
— Sabe que Adam não está, logo, é a mim que veio
ver — sorrio, maliciosa. Sei que não é isto que ele veio
fazer aqui, porém, não vou perder uma chance de alfinetá-
lo.
— É verdade, vim vê-la. — Ele se aproxima, seu
rosto bem perto do meu. Ele baixa o tom de voz para um
sussurro rouco — Penso, a cada minuto do dia, como vou
domá-la. Fazê-la gritar com cada toque meu.
Merda! Prendo a respiração, esperando que ele me
beije bem aqui, mas isso não acontece. Ele se endireita
novamente, com um sorriso, seus olhos cinzentos com um
brilho de humor neles. Engulo em seco e percebo o que
ele está fazendo.
— Você acreditou, Lunna? — ele parece
sinceramente divertido com a ideia de que eu acreditei
que ele passava o dia pensando em me devorar.
Idiota!
— Eu acreditaria se você tivesse sangue nas veias,
Múmia — replico e cruzo meus braços — Bem, o que
quer?
— Falar com você é que não é, querida — ele tenta
passar por mim, mas impeço que ele entre — Sério?
— Adam e Julie não estão aqui, melhor ir embora.
— E o que você faz aqui, então?
— Estou de babá, não que isso seja de sua conta.
— Está de babá?
— Sua audição está afetada, senhor Alonzo?
— Quero me certificar de dizer a Adam, quando o
vir, que a babá que eles arranjaram bebe em serviço —
ele agora consegue entrar, porque estou paralisada com
sua audácia.
— Eu não bebo em serviço — praticamente grito
quando vou atrás dele. Oh porque estou me justificando?
— Sinto o hálito de álcool daqui — ele para na sala
de estar onde deixei a taça de vinho — Isso é vinho, se
não estiver enganado.
Como ele é odioso!
— Sim, mas isso não quer dizer que esteja bêbada.
— Se fosse a babá de um filho meu, despediria
você imediatamente.
— Ainda bem que não tem filho, e para sua
informação, nunca seria babá de um filho seu!
Ele me olha sério e frio, sem replicar como de
costume. Um músculo pula em sua mandíbula.
— Ainda bem. — diz, por fim.
— Luc, adoraria passar a noite aqui trocando farpas
com você, mas não estou afim hoje — pego a taça de
vinho, tomando um gole teatralmente.
— Onde está Isadora? — Pergunta, olhando ao
redor.
— Dormindo — Será que Julie e Adam o mandaram
aqui me vigiar? Sério? Eles não confiam em mim com Isa?
— Se não se importa, melhor ir.
— Talvez eu queira ficar aqui. Talvez seja preciso,
pelo teor de álcool em seu sangue.
Sorrio e caminho para ele.
— Talvez o motivo seja outro, Matusalém — paro à
sua frente, invadindo seu espaço pessoal — Você quer
uma repetição da outra noite? É isso? Só precisa pedir.
Ele me olha demoradamente, e toda a diversão some
da minha mente quando mergulho nos olhos intensos dele.
Pareciam que iam me consumir toda. A eletricidade
estática entre nós é intensa e espessa. Contudo, ele quebra
isso e caminha para o sofá, onde se acomoda.
— Vou esperar Adam, tenho um assunto urgente a
tratar com ele, e não sabia que ele não estaria aqui — diz
e me olha como se me desafiasse a contestar.
Eu tenho a leve impressão de que ele mente. Para
que serve os celulares hoje em dia? Ele poderia muito
bem ter ligado para Adam antes de vir.
— Como quiser — replico e sento no outro sofá, de
frente para ele. Beberico da minha taça e ficamos lá,
calados, porém, nossos olhos presos um no outro.
A faísca, que é tão peculiar quando sempre estamos
no mesmo ambiente, parece mais intensa e palpável.
Não sei por quanto tempo ficamos assim, mas em
certo momento o olhar dele desce por meu corpo,
lentamente. Eu sinto como se ele estivesse me tocando,
cada centímetro de minha pele, que formiga em comichão
arrepiantes. Ele volta lentamente a fixar seus olhos nos
meus. Suas pálpebras parecem pesadas e preguiçosas, e a
sala de repente está mais quente, apertada. Fico
desconfortável, e os arrepios se intensificam, com seu
olhar fixo em mim.
Bebo o resto do vinho da taça de uma vez e levanto.
— Você quer uma taça? — Pergunto, para desviar
sua atenção de mim.
— Não quero vinho... — diz, e fico com vontade de
perguntar o que ele quer, contudo, minha irreverência
pediu folga hoje e estou desconcertada.
— Como quiser — saio da sala, e tenho a leve
impressão que ele dá uma risadinha baixa. — Múmia! —
resmungo.
Passa das dez quando, enfim, Adam e Julie
retornam. Dou um suspiro de alívio. Se eles demorassem
mais, teriam encontrado eu e Luc agarrados no sofá deles,
porque estávamos simplesmente nos encarando por horas.
Salvo por alguma conversa sem sentido que trocamos.
Sabemos que não é o lugar nem a hora para o que
queremos, porque é óbvio que está se construindo algo
entre nós dois. E é algo terrivelmente quente.
— Salvo pelo congo! — digo, quando escuto a
porta abrir e os donos da casa entrarem.
— Luc, não sabia que estava aqui. — Adam diz e
nos olha com expressão divertida, expressão essa que se
reflete no rosto de Julie — Perdi alguma coisa?
— Eu passei para falar com você e encontrei a
senhorita Maia um pouco indisposta — O quê? Não
acredito que ele vai mesmo falar que estava bebendo uma
taça de vinho. Pelo tom, ele fala apenas porque sabe que
vai me irritar.
— Você está bem, Lunna? — Julie pergunta,
preocupada — Devia ter nos ligado.
— Estou bem. Eu já estou indo então, querida. —
digo, sem muitas delongas, quero sair de perto desse...
desse... Argh!
— Lunna, fique mais um pouco, me faça companhia
enquanto esses dois conversam. — Julie agarra meu braço
e praticamente me arrasta escadaria acima. — Venha,
preciso tirar esses sapatos.
— Julie, preciso ir — protesto.
— Quero saber o que está havendo entre você e
Luc.
— O de sempre.
— Ainda acho que tem algo entre vocês.
— Sim, tem, minha vontade de socar aquele nariz
perfeitinho. — sorrio, porque o nariz dele é “perfeitinho”;
é elegante, afilado e muito bonito. Aristocrático.
Pergunto a ela sobre o jantar e tento desviar do
assunto sobre Luc, e ela não insiste. Pouco depois, dou
uma desculpa sobre acordar cedo e me despeço, não
quero ter de cruzar com Luc.
CAPÍTULO 4

Lunna
Não acredito!
Definitivamente, ele está me seguindo. Hoje é noite
de sábado, eu e os outros fisioterapeutas da clínica
estamos confraternizando em uma boate, e faz uns dez
minutos que o notei aqui. Ele está sozinho e não parece
nada satisfeito, sua testa tem uma ruga de preocupação, e
parece irritado também. Eu não me contenho e,
imprudentemente, vou até ele.
— Não sabia que frequentava esses ambientes,
Múmia — digo, quando paro ao lado dele. O bar da boate
é no centro, em um estilo redondo com os banquinhos ao
redor, e é onde ele está, com um copo entre os dedos. As
cores dentro da boate são multicoloridas e o deixa
parecendo um deus nórdico, requintado e misterioso. Ele
está vestindo um terno cinza e destoa dos demais
frequentadores daqui.
Ele ri, sem graça, antes de voltar sua cabeça em
minha direção.
— Lunna, hoje não!
— Ora, ora, de mal humor? Grande novidade.
— Hoje não! — ele rosna as palavras, seus olhos
estão tempestuosos. — Não vai gostar das consequências
de me deixar mais irritado.
— O que vai fazer? Hum?
— Lembre-se, você está pedindo por isso — seu
tom meu deixa quente em todos os lugares.
Ele se levanta e segura meu braço, firme, porém eu
sei que, se quisesse, eu me soltaria. Ele me arrasta para
fora da boate, agora com a mão em volta da minha cintura.
— Vamos ver até onde vai essa sua ousadia — fala
quando abre a porta do carro dele e eu entro. Meu coração
está batendo feito um louco e minha respiração está um
pouco entrecortada de ansiedade.
Ele não fala nada, mas sinto sua tensão irradiando
em minha direção; ele está realmente de mau humor. Vejo
que ele me trouxe para casa e fico um tanto decepcionada.
Acho que ele mudou de ideia sobre o que iria fazer
comigo. Promessas!
Quando ele para o carro, eu me adianto e vou logo
descendo.
— Obrigada por ter me trazido, apesar de que nem
queria estar em casa agora.
— Não tão depressa, temos algo para terminar. —
ele desce e dá a volta no carro — Venha, vamos ver o
quando é corajosa.
— Você...
Ele me cala quando me beija. Não é gentil, e sim
cru e com fome, devora minha boca. O beijo termina
rápido demais, contudo, ele segura minha mão e me puxa
para dentro do prédio.
É ridículo estar extremamente atraída por ele, um
homem rude e nada parecido comigo, mas meu corpo tem
vontade própria, porque estou latejando por toda parte.
Aperto as coxas quando o desejo inflama com o
pensamento do que pode acontecer hoje, se ele não estiver
apenas brincando comigo. Abro a porta do meu
apartamento e entro.
Sinto-o atrás de mim, e mal entramos, estou sendo
devorada viva por ele. O vestido curto que estou vestindo
agora está amontoado na minha cintura e o cume grosso do
pau dele está fazendo sérios danos nos meus neurônios.
Ele come minha boca com a dele. Agarro seus
cabelos com força, trazendo-o mais perto, se possível.
Nenhum de nós diz nada, apenas sentimos o calor do
momento. Estou louca de tesão. Os músculos sólidos dos
ombros dele, por baixo do terno, flexionam, e eu quero
suas roupas fora, mas temos pressa. Minhas mãos vão
para o cinto, que desafivelo em tempo recorde, quero
sentir tudo dele em mim. Assim que minha mão ganha
acesso para dentro da sua calça, ela avidamente entra na
sua cueca para libertar seu pau, que parece reagir ao meu
toque. Afasto-me um pouco para olhar a sua virilidade,
que pulsa com desejo por mim, e fico boquiaberta com o
que vejo.
Luc é um cara grande, eu sei disso, mas o homem é
grande em todo lugar. Jesus! Estou fodida. Ou vou ser
pelo mostro do lago N...
— Seu queixo caiu no chão — ele sussurra em
minha orelha, como se isso fosse engraçado, mas só faz
essa sensação de vazio aumentar na minha pelve.
Volto meus olhos para os dele, mas não enxergo
suas feições, já que minha sala está com apenas a luz da
rua entrando pelas cortinas abertas da minha sala de estar.
Mas as sombras do seu rosto só têm um intuito: me levar à
loucura. Seus olhos estão famintos, e não é por comida,
posso ver; suas pupilas estão dilatadas e cheias de algo
pecaminoso dentro delas. Eu sou a porra do prato
principal dele hoje e sou a presa mais disposta para ser
devorada pelo gato Luc. Tigre, agora.
— Isso é fichinha, querido — digo, e deslizo
minhas mãos fechadas em punho para cima e para baixo
em seu comprimento, duro e aveludado. Ele me
surpreende quando me vira para a parede, e eu gemo,
empurrando minha bunda em sua virilha para provocar seu
membro duro.
— Você quer isso, não é, atrevida? — ele rosna em
meu ouvido, seu hálito quente me causando arrepios.
Oh, ele não alivia quando me enche com... Oh,
Deus! O que é isso, Senhor? Grito com luxúria, recebendo
tudo que posso do homem mais odioso do planeta
Nunca me senti tão preenchida na vida, e é tão bom.
Sim, por favor...
— Vou tão profundo dentro de você que nunca
esquecerá meu nome, Lu — estremeço ante o tom sombrio
de sua voz rouca. Essa promessa grunhida, enquanto ele
me penetra forte contra a porta da minha casa, me deixa
mais excitada do que já estou. Aliando isso aos
movimentos firmes de seus quadris, eu entro em parafuso
e perco o controle.
Enquanto ele enfia seu pênis em mim de forma
vigorosa, uma das suas mãos se solta do meu quadril,
onde segurava firme, e percorre o meu corpo até chegar
aos meus seios. Ele segura forte meu seio direito e
intensifica suas estocadas, me excitando ainda mais.
Quando o orgasmo está se aproximando, sua mão
desliza mais uma vez pelo meu corpo até chegar ao meu
clitóris, e o movimento dos seus dedos quando o
encontram são iguais aos do seu pau me fodendo:
enlouquecedores, me levando ao ápice.
— Luc —gemo alto quando gozo, tão intenso que
vejo estrelas coloridas através dos meus olhos fechados.
Isso é mágico, surreal, esse calor e necessidades
que ele está despertando é muito mais do que imaginei que
seria. Ele morde entre o meu ombro e o pescoço quando
enfia em mim profundamente, também alcançando sua
liberação dentro de mim. Eu amoleço como se estivesse
desossada, mas nem tenho tempo de pensar; ele sai de
mim como se eu tivesse lepra.
Quando me viro, ele já abotoou as calças. Jesus,
nem usamos preservativo! Esse é o primeiro pensando que
vem à minha mente. Meu Deus! Que loucura foi essa? O
segundo pensamento é: ele já está indo embora? Fecho
meus olhos e me dou um soco mental, bem no meio da
cara. Droga, amanhã mesmo irei fazer exames. Homens
não são confiáveis. Porque, veja bem, ele acabou de
transar comigo e já está indo...
— Percebeu que não usamos preservativo, Múmia?
Pergunto, porque ele não disse nada e já está
pegando seu paletó no chão. A única sugestão de que ele
me escutou é o aperto que suas mãos dão no terno em sua
mão.
— Não se preocupe com alguma doença do mal,
Lunna — ele diz e segura a maçaneta, fazendo nossos
corpos quase se tocarem, já que continuo apoiada na
porta. Minhas pernas estão bambas, o que posso fazer? —
Espero que daqui até a sua cama o bicho papão não pegue
você.
— O quê?
— Você planejou isso, não é? Trazer-me aqui? Para
isso acontecer? — ele rosna as perguntas como se eu
fosse uma criminosa. Ele aponta entre nós, mostrando o
quanto estamos desalinhados.
— Querido, por mais maravilhosa que eu seja, não
tenho poderes mentais de deixar os homens duros —
sussurro — Foi seu tesão por mim que fez isso, Lucat,
sabia que você me queria muito.
— Essa merda não poderia ter acontecido, e é
melhor eu ir embora.
Eu me afasto da porta.
— Está livre, senhor Alonzo, tenha uma boa noite
— digo. Ele sai, e quando estou prestes a fechar a porta,
eu digo: — Devia praticar mais para aperfeiçoar sua
técnica, Múmia. Nota 6 para você.
Bato a porta em seu rosto sem esperar sua
retaliação. Estou rindo quando vou para meu quarto.
Humm, ainda não preciso inaugurar meu novo amigo que
comprei. Ele vai permanecer na gaveta. Gato Luc vai
voltar aqui, dia menos dia.
— Idiota, odioso, imbecil, gostoso — resmungo,
quando vou para o banheiro me preparar para uma noite
de sono tranquila.
LUC
Saio da casa de Lunna me estapeando mentalmente.
Que merda foi essa que fizemos? Ela é complicada
demais para não pensar que poderíamos ter um
relacionamento. Deus! Luc Alonzo, você hoje bateu
recorde em fazer merda. Parece que não aprendo com
meus erros.
Eu tenho apenas uma regra para jogos amorosos, e é
não fazer sexo com mulheres que estivessem em nosso
ciclo de amizades ou que fossem amigas próximas dos
meus amigos. Ou seja, hoje foi o suprassumo da idiotice.
Ela vai achar que teremos alguma coisa igual aos nossos
amigos. Tenho certeza.
Quando entro na minha própria casa, meia hora mais
tarde, estou me sentindo eu de novo. Sempre funciona
comigo, analisar as coisas e manter a cabeça fria, para
não gerar descontroles desnecessários. Tomo banho, me
jogo na cama e fico olhando para o teto.
Nota 6 para você.
Rio e coloco as mãos atrás da cabeça. Ela sabe
como mexer comigo.
Essa história não merece tanta preocupação, afinal,
podemos continuar como sempre fomos, nem amigos nem
inimigos; apenas nos tolerando para que nossos amigos
em comum não se sintam mal por não gostarmos um do
outro. O sorriso travesso que ela sempre tem para mim é
contagiante, eu me via sempre compelido a retribuir como
um idiota toda vez que ela sorria e piscava, maliciosa.
Transar com ela pode não ter sido uma boa ideia. Posso
ter meu pau arrancado por suas amigas quando ela contar
para elas que fiz sexo e saí como se nada tivesse
acontecido. Droga.

— Senhor Luc — minha secretária, Tatiana, me


chama, tirando minha concentração dos contratos que
estou analisando — A primeira arquiteta que o senhor
solicitou está aqui.
— Mande-a entrar — digo — E nos sirva um café.
Aliás, pergunte o que ela quer.
Ela sai, e eu tiro os óculos de grau e esfrego os
olhos. Estou cansado. Olho para meu celular e estranho
não ter um monte de ligações ou mensagens das amigas de
Lunna. Era o que eu esperava, meus amigos me enchendo
porque peguei a amiga das mulheres deles. Mas faz três
dias que não tenho nenhuma notícia dela, nem de ninguém.
Bem, então Lunna não contou para as amigas. Daí eu
lembro que ela vive entrando em relacionamentos a todo
instante. Fui apenas o sabor da semana. Essa conclusão
não é nada bem-vinda. Que droga, desde quando quero ser
importante para alguém? Não, a outra noite nem existiu.
— Senhor? — a voz de Tatiana me chamando, pelo
segunda vez em menos de dez minutos, me faz pensar que
estou com problemas.
Ela está acompanhada de uma mulher vestida de
preto e usando um batom preto, e que imagino ser a
arquiteta. Levanto e cumprimento a recém-chegada.
Depois de meia hora, estou franzindo o cenho para o
portfólio dela. Que porra gótica é essa?
— Senhorita, seu trabalho é fantástico, mas
realmente não é meu estilo e nem o que quero para
reformar minha casa.
— Oh, claro. Mas posso adequar...
Ofereço uma desculpa e encerro a reunião. Cinco
minutos depois, eu a sigo para fora e paro na mesa de
Tatiana.
— Verifique os trabalhos deles antes de marcar uma
reunião comigo — digo, apontando o elevador por onde a
arquiteta foi embora. — Você já foi à minha casa, sabe
muito bem que gótico heavy metal não é bem meu estilo.
— Sim, senhor.
— Estou saindo — aviso e caminho para fora.
Preciso relaxar. E cavalgar sempre tem esse poder. É no
clube onde eu, Nicolas e Adam passamos nossos sábados,
mas hoje eu preciso.
CAPÍTULO 5
LUNNA
No nosso encontro de amigos semanal, eu
vim determinada a ser um exemplo de mulher centrada,
nada de liberdade com meu parceiro de FNP*, porque,
puxa vida, até que ele podia ter perguntado por mim
durante esses dias que não nos vimos. Mas Luc não, ele
sabe ser o cara idiota que ele sempre foi. Como sempre,
eu sou a última a chegar, quando todos já estão sentados
batendo papo.
— Lunna, já é bela o suficiente para demorar tanto
se arrumando — comenta Adam, quando eu sento depois
de cumprimentar quase todos.
— Querido, uma mulher nunca é bela o suficiente —
pisco para ele. Droga, já quebrei a regra de ser uma
mulher séria, hoje. Não resisto, essa sou eu — E minha
beleza é notável, sei disso.
Não olho para onde o macróbio gélido está sentado.
Seus olhos estão em mim, eu sei. Não o cumprimentei,
quando fiz isso com os outros. Fiz de propósito, é claro.
A noite segue como de costume, ou melhor, não há
nenhuma implicância de minha parte, mas Luc deve gostar
de me ver provocativa, porque em certo momento da
noite, quando recuso minha sobremesa predileta, ele
comenta:
— Deveria comer, Lu, homem gosta de ter em que
pegar — ele diz e leva o copo à boca, para encobrir a
sugestão de um sorriso.
— Oh, sim, querido, porém meu encontro de amanhã
é vegetariano, não gosta de carne — Hein? Eu disse isso?
Matem-me agora. Jesus!
Ele devolve o copo à mesa, já sem seu sorriso, e eu
não dou mais atenção a ele quando as meninas começam a
me provocar com meu suposto encontro.
— Lu, Leonardo de novo? Isso é um recorde! — diz
Julie, sorrindo — Vai ser namoro sério agora, com o
fisioterapeuta?
— Provavelmente — assinalo, porém nem tive o
segundo encontro com ele ainda, mas o vetusto não
precisa saber disso. Deixe-o pensar o que quiser, quem se
importa? Não eu. — Leo é superdivertido, simplesmente
um dos homens mais educados que conheci, um
verdadeiro gentleman, coisa muito rara nos dias atuas.
— Certamente é, para ter sua atenção — Gaby fala,
do outro lado da mesa.
Depois do jantar, vamos todos dançar em uma
danceteria. Estou cansada do dia exaustivo, mas nunca
rejeito diversão. Ainda mais quando posso ter a chance de
provocar Luc. Ele passa a noite me observando, como
uma ave de rapina, e dou mais do que motivo para ele
ficar ligado. Em um certo momento, enquanto danço, o
encaro com um olhar que diz: "Sou toda sua", e ele deve
ter entendido, porque vem na minha direção, e o que faço?
Fujo entre os dançarinos. Estou rindo quando entro no
banheiro feminino e fico lá um bom tempo, me
refrescando e imaginando se ele me seguiu até aqui.
Você pensa que colocará esse grande instrumento
em ação comigo novamente, senhor Alonzo?
Se acha que sim está certo, mas quando eu quiser.
Quando volto, estou com um sorriso cínico nos lábios e
ele está com uma carranca, e não me olha diretamente
mais. Melhor assim, não tenho tempo para homem
quente/frio, que muda a cada intervalo de um minuto.
Quando deixo meus amigos essa noite, não imagino
que a mente de Luc esteja em mim tarde da noite. Estou
deitando quando o beep do celular anuncia uma
mensagem. Achando que é de uma das meninas, abro sem
me preocupar e um número desconhecido aparece com a
frase mais imatura que já vi.

“Troca de parceiro muito rápido, deve ser por isso a


solteirice, além de ser uma provocadora. ”

Não respondo, mas deito com um sorriso. Ele que


fique curioso.
O dia na clínica passa rapidamente, pois tive um dia
exaustivo com meu atleta com humor "urso pata
quebrada", além de outro cliente na parte da tarde. Não
tive tempo para nada, nem pensar em Luc ou quem quer
que seja. Saio às seis da tarde e vou direto para casa da
mamãe.
O jantar uma vez por mês é suficiente por uma vida,
e a conversa é a mesma.
— Quando irei conhecer um namorado seu? — sim,
começa bem assim, e minha resposta é a mesma.
— Quando tiver um, mãe — rindo, enfio uma
colherada de sopa na boca, talvez assim não fale o que
não devo. Algo como, “cadê o papai que você não
segurou em casa e ele, por isso, formou outra família?
— O tempo está passando, filha, não seja tão
exigente — ela continua.
— Não sou, mamãe, agora, cadê minha sobremesa?
— respondo, rindo.
Meu encontro com Leo acontece no sábado, e em
uma tentativa de tirar Alonzo da cabeça, tento dar mais
uma chance real ao sujeito. Quando saímos do show onde
fomos, vamos direto para minha casa.
— Quer tomar uma bebida antes de ir? — ofereço.
Se eu não estivesse com outro cara na cabeça, hoje seria o
dia que tiraria o atraso, contudo, ainda posso tentar, afinal
Luc e eu não temos nada, pois tudo é apenas “fogo de
palha” entre nós.
— Obrigado, Lunna, aceito, sim — diz, quando
caminhamos para dentro.
Sirvo-nos uma bebida e sentamos no sofá. Escondo
um sorriso quando Leonardo fica sem saber onde colocar
as mãos. Deus, ele é terrível!
— Pode me beijar, se quiser — facilito.
— Eu... Claro — sorrio quando o vejo colocar o
copo na mesa em frente, com parcimônia. — Não é que eu
não queira muito beijá-la, mas é que você deixou claro
que não espera que possamos seguir depois de alguns
encontros...
Inclino-me e o beijo, cortando seu discurso
exacerbado. Não é lá essas coisas, pensei que só o
primeiro beijo que era sem sal, mas esse também segue a
mesma linha...
O toque da campainha nos interrompe, fazendo-me
tirar minha boca da dele. Quem pode ser a uma hora
dessas?
— Acho que tenho visita — digo o óbvio e levanto
rapidamente para a porta. Abro sem nem verificar quem
está lá fora, e fico surpresa quando vejo quem é.
Luc está parado na minha frente, e eu juro que estou
tendo um ataque do coração ou os porcos começaram a
voar e o trouxe à minha porta outra vez. Eu devoro cada
parte dele, vestido em uma camiseta preta colada aos
músculos magros do seu tórax, os braços de pelos
dourados expostos. Ele tem uma barba por fazer deixando
seu rosto ligeiramente áspero, e eu quero sentir isso na
minha mão. Ele me olha faminto também, e vejo
claramente sua fisionomia mudar quando ele percebe que
não estou sozinha. Caramba!
— Luc! — digo, porque estou surpresa de vê-lo, e
acrescento baixo, distraindo-o de Leo que veio atrás de
mim: — O que faz aqui?
— Acho não foi em uma boa hora — ele não tira os
olhos das minhas costas — Não sabia que estaria com
visita.
— Ah... Em que posso ajudá-lo? — ele está
claramente chateado. A mandíbula dura dele diz que meu
grande homem de gelo está a um passo de entrar em
erupção. Homens adoram demarcar território, mesmo
quando nem têm o direito de fazê-lo. Viro de lado para
que possa ver Leo parado, logo atrás — Esse é Leonardo,
um amigo.
Eles apenas se cumprimentam com um aceno de
cabeça, e claramente estão medindo um ao outro.
— Bem, de qualquer forma... Melhor eu voltar outra
hora — Luc se vira para ir, todavia para, fazendo minha
respiração falhar. Ele vira outra vez para nós — Para
falar a verdade, Lu, eu preciso falar com você. A sós.
Precisa? Desde quando? Ele é tão presunçoso e
confiante, achando que vou dispersar Leo.
— Não acho que seja... — começo, mas ele me
corta.
— É muito importante. — garante, e olha outra vez
para Leo — Você não se importa, não é, amigo?
— Bom, eu já estava de saída — O quê? Viro para
Leo quando ele vem em direção à saída e para ao meu
lado — Te vejo amanhã.
Amanhã? Talvez não, amigo!
Ele passa por Luc, que tem a sombra de um sorriso
nos lábios. Deve estar pensando que tipo de homem é
esse, que nem luta um segundo para impor sua presença.
Estou me perguntando a mesma coisa. Leo acabou de
assinar a sentença “jamais tirará a calcinha da Lu.”
Quando ficamos a sós, a Múmia está com um
sorriso de esfinge para mim.
— Luc, você acabou de estragar a minha noite —
não o convido para entrar.
— Você poderia tê-lo impedido de ir, não é? Talvez
estivesse querendo que ele fosse embora de vez. — diz,
como se tivesse conhecimento de causa.
— O que quer aqui, Luc? — ignoro sua alfinetada.
— Não é óbvio?
— Não, não é.
— Precisamos acabar com essa... — ele faz sinal,
apontando entre mim e ele — coisa entre nós, Lunna.
— Não há nada, Luc — dou as costas para ele e
caminho para a sala. Escuto o som da porta se fechando
atrás dele e depois sinto sua mão segurando meu braço.
Ele me gira de frente para ele e bato em seu peito.
— Você me provocou além da razão, Lunna — ele
segura meus cabelos na nuca, fazendo minha cabeça
inclinar e eu poder olhá-lo nos olhos. — Um homem tem o
seu limite. — O escuro e sensual tom de voz que ele usa
bate direto entre minhas pernas, e eu tenho que apertar os
dentes com força para não cair na tentação de novo. Isso é
louco, porque eu também o quero, porém tudo pode se
complicar. Eu sei que vivo o provocando mais como uma
brincadeira por ele ser tão metido a besta, pois sou uma
romântica e ele um homem que não vive com ninguém –
não que eu saiba – e jamais esperei esse desejo intenso
entre nós.
— Luc, melhor não — nem termino de falar e ele já
está pressionando sua boca na minha duramente, fazendo a
luxúria me dominar quando mais preciso me manter sã.
— Você não consegue admitir que me quer, Lunna?
Mas quer, sabe disso! — ele fala, com a boca junto da
minha, nossos fôlegos se misturando, e não resisto por
muito tempo; eu o beijo, faminta. Que se dane, é o que
realmente quero! Quero e vou pegar o que puder desse
homem.
Chupo seus lábios com vontade, nossas línguas
tomam conta da boca um do outro, e nós dois gememos
juntos com a onda de tesão. Isso é tão bom!
— Me fode, Luc, mas faz isso rápido! — peço,
ofegante. Não conseguimos ir muito longe, caímos no
tapete, rasgando nossas roupas fora dos nossos corpos.
Nos beijamos sofregamente, meus lábios doem com a
força que nossas bocas pressionam uma na outra, nossas
línguas se enroscando, e eu poderia muito bem gozar
apenas por esse beijo quente e cheio de tesão, pecado e
ânsia. Parece que nosso tempo de provocação está
explodindo agora em nós.
Gemo em protesto quando ele arranca sua boca da
minha, e tento puxá-lo de volta, segurando-o pelos
cabelos. Mas Luc apenas lambe meus lábios de forma
provocativa e desce sua boca pelo meu queixo, pescoço,
fazendo um caminho de beijos e pequenas mordidas
vorazes até chegar aos meus seios. Primeiro ele brinca
com a língua em meu mamilo túrgido, de forma
provocadora, fazendo-me ansiar pela sua boca quente.
Depois ele o suga. Com força e intensidade, na mesma
medida de paixão que o fez se descontrolar e vir à minha
casa, extravasar esse desejo intenso que há entre nós.
Meu corpo arqueia enquanto ele chupa meu mamilo
com fome, querendo mais do seu toque. Sua boca libera o
bico com um estalo, como se relutasse em largá-lo, e se
dirige ao outro seio para se fartar com ele, assim como fez
com o primeiro.
Meu corpo arde, preciso senti-lo dentro de mim
outra vez, me preenchendo, me fazendo completa, me
dando todo o prazer que ele pode arrancar do meu corpo.
— Me fode, quero você dentro de mim. — suplico,
ofegante.
Cego de tesão, ele alinha nossos quadris e me
penetra de forma intensa, selvagem, fazendo-me gritar de
prazer. A primeira vez foi bom, mas agora? É delicioso
sentir o corpo dele em cima de mim. Luc avança duro em
minha vagina, que se contrai em volta do seu pau duro, e
meu aperto no seu membro está deixando-o louco,
percebo isso pelos seus gemidos ofegantes. Ele puxa e
entra novamente com voracidade, e não aguento. Fortes
contrações e sucessivas convulsões orgásticas ganham
força dentro de mim. Arquejo buscando ar, e sei que não
posso lutar contra o prazer selvagem que ele desencadeia
dentro de mim. Quero prolongar essa noite. Ele está aqui,
profundamente enraizado, tocando profundamente dentro
do meu corpo, porém a busca para a satisfação de nossos
corpos é urgente. Dois fortes empurrões, e Luc rosna
rouco, empalado completamente em mim... e gozamos.
Forte, muito forte. O jato quente me faz sentir esquisita.
Quente, pegajosa. Querendo mais, mais...
Ele não para. De repente, estou de quatro no tapete,
recebendo outra vez ele de volta, mais duro que nunca.
Suas mãos seguram firmes meus quadris e seu corpo
impulsiona tão forte contra o meu que minha sala é
preenchida com o som dos nossos gemidos ofegantes e de
nossos corpos de chocando. Uma onda de energia e calor
forte e potente me golpeiam, como se houvesse recebido
um choque elétrico, sacudindo nossos corpos como uma
explosão, deixando-nos sem ar, como se meu prazer
irradiasse para o dele ou vice-versa.
— Deus Luc, isso é... — digo, gemendo sem me
reconhecer, sem controle. Levanto meu corpo e cruzo
minhas mãos em seu pescoço, minhas unhas cravadas em
sua nuca. Os braços dele me abraçam forte enquanto
nossos corpos dançam juntos, perfeitos, em sincronias
frenéticas. Minhas entranhas apertam mais uma vez,
estrangulando o pau de Luc, e somos levados para uma
nova dimensão de prazer. Viro minha cabeça e nos
beijamos. Empurrando com força, ele começa a bombear,
acelerando os movimentos. Nessa posição é tão apertado,
tão delicioso senti-lo, tão bom... Se não fosse pela força
com a qual me sustenta, as suas fortes investidas
desenfreadas poderiam me afastar para longe do seu
corpo, mas parece que nada pode nos desconectar. As
mãos dele estão fazendo um trabalho extra em meus
mamilos, torcendo-os e apertando-os, e o prazer
misturado com a dor me deixa mais louca... e gozo
descontroladamente.
— Lunna! — ele diz o meu nome quando goza,
derramando seu prazer mais uma vez dentro de mim.
Pouco depois, caímos em uma massa de braços e
pernas suadas no tapete da minha sala. Nunca mais
sentarei aqui sem lembrar que meu mundo se desintegrou
em trilhões de fragmentos com a múmia em pessoa. Rindo,
viro para olhá-lo. Eu sinto nossos corações batendo,
tão vivos. Deus, ele é gostoso demais!
— Nada mau. — digo, provocando.
— Essa sua boca devia ser melhor aproveitada,
Lunna!
— Sim?
— Me dê dois segundos e verá! Você é... deliciosa
demais para resistir.
Retirando seu peso de cima de mim, ele se sustenta
nos braços musculosos, fazendo chover beijos por meu
rosto, descendo por meu pescoço, meus seios que estão
pedindo por sua boca avidamente.
— Posso fazer isso durar muito, Lunna. — fala,
antes de fechar os lábios em meu mamilo, sugando ávido,
enquanto torce forte o outro. Ele está malvado hoje.
Bastardo!
— Por Deus!
LUC
Eu tenho de lembrar dos meus motivos de manter-
me longe de qualquer coisa que pudesse dar motivos para
que tudo que fiz até agora não tenha sido em vão. Lunna
não estava facilitando as coisas com essas provocações. E
agora estou tento dificuldade de sair de seu apartamento.
Mas vim hoje para encerrar as coisas em definitivo com
ela. E agora, nós dois devemos seguir como antes, sem
transas aleatórias.
— Vai embora? — Ela pergunta, incrédula — Sei
que não tem nada entre a gente, mas você está correndo
depois de fazer sexo comigo, mais uma vez?
— Precisamos conversar, e não estou indo embora
— minto, porque eu estou indo mesmo, mas ainda bem que
ela não tem medo de falar o que pensa. E tem razão, não
devo sair como um fugitivo. — Por que não senta aqui,
perto de mim? — digo, sentando no sofá, e a espero vir
sentar junto a mim.
Nós tínhamos tomado um banho no chuveiro dela,
onde batizamos o lugar, e agora estávamos na sala outra
vez, onde estive me vestindo.
— Estou bem aqui — diz de onde está, em pé atrás
do sofá — Diga o que tem de falar, Luc.
— Minha vinda aqui hoje foi para que isso tivesse
um fim, Lunna — olho seus olhos, firme — Nossas
provocações terminam hoje.
— Não está sendo um pouco radical com isso? Não
é grande coisa, Luc — ela dá meia-volta, sai de trás do
sofá e senta ao meu lado agora — Por que essa bobagem
toda?
— Não posso permitir distrações, e você tem sido
uma das grandes — não me sinto bem falando disso com
ela — Nosso joguinho pode tomar um rumo que nós dois
não queremos. Eu não quero complicações de nenhum
tipo.
— Você é paranoico? De onde tirou que quero
complicações com você? — ela agora está parecendo
ofendida. Merda!
— Você vai querer que isso mude, Lunna, está em
seu DNA, é mulher, vai querer estar na minha vida apenas
porque estamos fazendo sexo. — Levanto, incomodado.
Odeio esse tipo de conversa, porém sei que é necessário.
— Acabou, nada de sexo mais, ok?
— Pelo menos devia dizer a razão de tanta besteira!
— Melhor deixar as coisas nesse nível — pego as
chaves do carro e paro em frente a ela, fazendo-a levantar.
Seguro seu queixo delicado, trazendo seu rosto para cima
— Se tudo fosse diferente, eu não abriria mão de ter você.
De me sentir mais uma vez perdido em seu calor, Lunna,
mas eu não posso.
Ela permanece com seu rosto neutro, fico surpreso
por ela não ser dessas mulheres que implora e chora
quando percebe que o cara está indo sem o pensamento de
voltar. Isso não me deixa lá muito satisfeito. Deus, eu a
espero pedir que eu não vá?
Melhor eu ir.
— Tudo bem. — Lunna diz — Sem sexo, sem
remorso, sem neura. Ok!
— Certeza? — Pergunto, desconfiado. Ela balança
a cabeça, confirmando. Lunna sempre me deixa com a
sensação que sou o maior babaca do planeta. Devo ser
mesmo, mas um babaca que não pode falhar outra
vez. Estou muito perto de finalmente ter uma pessoa
importante em minha vida, por que estragar isso por um
capricho do meu pau?
— Acompanho você até a porta, Luc — a voz sai
animada, mas noto a nota falsa em sua animação.
— Te vejo por aí — digo, antes de baixar e plantar
um beijo em seus lábios macios.
CAPÍTULO 6
LUNNA
Com minha respiração acelerada, encosto na
porta depois da saída de Luc, desapontada comigo mesma
por me sentir decepcionada. Esse é exatamente o modo de
agir dos homens. Transam e depois vêm com a conversa
que tudo foi errado. Alguns aliens venham aqui na terra,
informar a esses babacas que essa moda está
ultrapassada? E avisar às mulheres como eu, que
permitem isso, que elas são piores que eles?
Mas sabe o que mais? Que Luc se dane! Serei uma
condenada se permitir esse joguinho com ele. Eu não
espero nada dele, mas é a velha desculpa que me irrita. Eu
só queria transar e pronto, mas não, ele tinha que vir e
estragar com aquele papo, depois correr. Típico!
Minhas mãos estão tremendo e meus joelhos
praticamente batem um no outro. Por mais que não queira
admitir, ele me causa um frenesi excitante que me aquece
de dentro para fora. É duro sentir esse tipo de coisa por
um cafajeste, sabendo que serei uma na sua listinha
secreta.
Promessa que seguirei à risca de hoje em diante.
Luc está morto e enterrado. Fim.
Prometer é mais fácil do que cumprir, porque nos
próximos dias eu me mantenho longe dos encontros com
os outros que envolva encontro com Luc. Saio com as
meninas quando sei que não vai haver a possibilidade de
encontro com ele. Passo a semana pensando que os
homens não gostam de receber o mesmo tratamento que as
mulheres, e os de egos grandes bajulados são os piores.
Então, senhor Alonzo, se prepare para o pior.
Mas diante de tudo isso, meu encontro com
Leonardo, depois da noite de sexo com Luc, foi meio
constrangedor. Só que não me apego a essas besteiras, ele
já está no passado por nem tentar ser um pouco mais
homem e tentar impedir Luc de invadir minha casa.
— Lunna! — ele cumprimenta quando chegamos os
dois ao mesmo tempo, na cantina da clínica. Ele olha para
todos os lugares, menos nos meus olhos. Ouch!
— Leonardo — digo de volta, dou um aceno, e já
estou indo embora quando ele fala.
— Podemos conversar? —Sério? Sim, ele tem
razão, não gosto de coisa mal-acabada com homem
nenhum. Por isso essa coisa com Luc me deixa inquieta,
estamos muito mal resolvidos.
— Sim, claro. — digo, caminhando para pegar meu
lanche. Almoço hoje será impossível, tenho um paciente
daqui a meia hora, e a única coisa que dará tempo de
comer vai ser um sanduíche, então daria tempo de dar um
basta com Leo. Brincar com dois homens não estava nas
minhas coisas favoritas a fazer. — Espere-me na mesa.
Quando me sento à sua frente, ele começa a falar
como se tivesse pressa em esclarecer.
— Espero não ter atrapalhado alguma coisa, no
sábado à noite — O quê? Esse homem existe? Eu que
devia pedir desculpas por termos sido interrompidos, mas
não, ele é doce demais para minha diabetes. Sei que
muitas mulheres ficariam felizes com um cara assim,
porém, euzinha morreria de tédio. Talvez alguém me
pergunte por que estou prestes a mandar ele para a lista
negra se eu vivo à caça do homem perfeito. Digo, em
minha defesa, que comeria esse cara no café da manhã.
Dou meu sorriso educado.
— Tudo bem, Leo, na verdade queria dizer que nós
não daríamos certo — disparo tranquilamente. — E que
sua saída naquela noite me disse muito, então podemos ser
apenas colegas de trabalho, ok? Nem temos química para
namorar.
Ele parece espantado por eu admitir isso, mas digo
mesmo.
— Se notou, nosso beijo não foi lá essas coisas —
me curvo para frente e baixo a voz — Desculpe falar
assim, mas é a verdade.
— Você realmente sabe como baixar o ego de um
cara — ele não parece assim tão arrasado — Mas está
certa, não temos essa química que todos falam.
— Estão estamos acertados — estico minha mão
por cima da mesa — Amigos?
— Amigos — ele devolve, apertando minha mão —
Mas ainda me sinto curioso com você. É tão vivaz.
— Querido, isso é parte do meu charme
avassalador, você vai superar — digo, rindo — Leva
tempo, mas supera.
— Você é terrível — diz, balançando a cabeça
como se não acreditasse nessa conversa maluca.
— Certeza? — Julie pergunta de onde está sentada,
na frente da minha mesa — Marquei com Gabrielle hoje à
noite, precisamos colocar um pouco de juízo naquela
cabecinha louca.
Sim, Julie esteve me contando que Nicolas quer que
Gabrielle tenha um filho com ele, mas isso não seria tão
estranho, se não fosse o absurdo de ela ser apenas mãe de
aluguel do bebê. Deus, eu odeio esse pomposo do
Nicolas, homem mau! Por isso que Julie veio me ver hoje,
para irmos pôr alguma coisa substancial naquela cabeça
de vento. Ela é apaixonada pelo amigo da
múmia. Esqueça essa múmia, Lu!
— Certeza, sim — respondo à pergunta anterior —
Tenho uma sessão de fisio daqui a pouco, esse paciente
está na intensiva e não posso deixá-lo com outra pessoa.
— Tudo bem. Vou deixar você trabalhar, então—
ela diz, levantando, e levanto junto e caminho para abrir a
porta para ela.
— Dê um beijo na Isa por mim — refiro-me à minha
afilhada Isadora, a linda e fofa filha de dois anos dela
com Adam.
— Claro. Vejo você depois, querida. — diz, quando
sai — Cuide-se e não trabalhe demais.
Quando saio da clínica, são quase oito da noite e
vou direto para a academia, para uma aula de zumba. Saio
de lá revigorada, mas ainda me sinto inquieta. Termino a
noite na minha banheira cheia de espuma e com uma taça
de vinho. Isso é para relaxar, mas me vejo tensa quando
deito mais tarde. Meus pensamentos têm destino certo. E
tento mudar o rumo dele com a reprise da minha série
favorita no momento da Netflix: The Fall está no
penúltimo episódio da primeira temporada. Jamie é
melhor que o antipático Luc para sonhar.
Mas para minha surpresa eterna, recebo uma visita
logo cedo na manhã seguinte. Estou indo tombando de
sono para a cozinha, pois fui dormir tarde depois de
finalizar a primeira temporada de The Fall, e agora estou
caminhando igual a um zumbi, quando o som estridente da
campainha me faz pular.
Olho pelo olho mágico e vejo um desconhecido com
uma roupa de uma empresa de floricultura. Abro a porta.
— Senhora Lunna Maia? — O rapaz fala, e quando
aceno a cabeça, porque estou operando em nível
baixíssimo, ele continua: — Bom dia. Entrega para a
senhora.
Senhora é a sua mãe, meu rapaz. Penso.
— Humm...
— Assine aqui — ele me estende uma prancheta, e
eu assino um meio rabisco do meu nome e ele me entrega
uma caixa comprida branca com um laço azul lindo.
— Tenha um bom dia, senhora! — ele dá um aceno,
já indo embora.
— Hummm...
Fecho a porta e olho para a caixa, curiosa, mas
primeiro preciso acordar. Cinco minutos depois, estou
esperando minha pequena cafeteira trabalhar no meu elixir
e meus olhos correm para a caixa em cima do balcão onde
a coloquei. Ok, eu ia esperar tomar meu café, mas não sou
forte o suficiente. Puxo o laço e abro o volume para me
deparar apenas com um único botão de rosa azul. Fico
olhando para ele um tempo enorme, porque o apito da
cafeteira avisando que o café está pronto me tira do
transe. Quem diabos mandou isso?
Vejo um cartão dentro da caixa e abro, curiosa. Será
que deixei algum ex apaixonado? Ou é um admirador
secreto?
Descubro rapidamente que nem uma coisa, nem
outra. Diz apenas:
“Pela outra noite. ”

Nossa, Luc, nossa noite só vale a droga de um único


botão de rosa? Muquirana esse homem, além de
idiota. Umazinha de nada?
Filho da mãe, mesquinho!
Pego meu café e tomo um gole grande. Pego o
celular depois de achar o telefone de uma floricultura e
pegar o endereço dele. Faço minha ligação. Filho da mãe!
Isso depois de dias passados sem um oi sequer.
LUC
— Seu Luc?
Levanto minha cabeça das planilhas que estou
analisando e olho para Marta, minha governanta. Ela está
com...
Aquilo são rosas? Não uma rosa ou duas, ou até
mesmo um buquê, mas deve ter umas cinco dúzias de
flores ali. Os braços dela estão cheio.
— O que é isso?
— Chegou para o senhor. Tem alguma mulher muito
apaixonada por aí, hein? — ela está rindo, cheia de
expectativa esperançosa. Ela, que vive dizendo que devo
casar e encher essa casa de filhos — palavras dela, não
minhas — deve estar agora imaginando alguma besteira.
— Quem mandou isso? — pergunto, sem me mexer
do lugar. Quem mandaria isso? — Tem um cartão?
Marta vem com aquela coisa vermelha em minha
direção, e o cheiro forte de rosas invade meu escritório.
Ela me estende um cartão simples e pego, abrindo-o em
seguida.
“Pela outra noite, muquirana idiota!”

O quê? Por que diabos ela me mandou isso? Ela


está brava porque enviei uma rosa? Quem entende as
mulheres?
— O que faço com elas? — Marta, que ainda está
parada com as benditas rosas nos braços, pergunta.
— Faça o que quiser, não quero esse cheiro aqui —
guardo o cartão e sorrio. Mas é impertinente! Obviamente
ficou brava com a quantidade de flor enviada. Ela mandou
um recado claro com essa quantidade de flores. Lunna,
Lunna, o que vou fazer com você?
Eu sei que não devo mexer mais com ela, porém
Lunna mexe comigo mais do que eu quero admitir. Nossas
trocas de farpas sempre me deixam excitado. Contudo, sei
que não devo continuar, ela não vai aceitar um
envolvimento secreto comigo. Melhor deixá-la com raiva
e, sendo assim, longe de mim. Será melhor para nós dois.
A tentação de tê-la me provocando pode ser demais para
me manter frio e no controle. Ela me exaspera de uma boa
maneira.
Amanhã tenho de viajar para o Rio, e isso que
interessa agora. Quem sabe um dia, quando tudo na minha
vida for como eu desejo e ela ainda estiver solteira, nós
então poderíamos continuar com isso? Ela me instiga e é
gostosa, ainda por cima. Mas somos o completo oposto
um do outro, e isso nunca acaba bem.
Hoje é um dos dias mais difíceis para mim. Cada
vez que venho aqui eu saio como se o mundo tivesse caído
sobre mim. Mas eu luto para o dia que sairei daqui com
um sorriso feliz e levando meu bem mais precioso
comigo.
Saí de São Paulo para o Rio logo cedo, querendo
passar o resto do dia todo aqui com ela. O táxi para em
frente a um prédio na Tijuca, onde tenho um apartamento,
e desço. Na verdade, o comprei para que ela morasse
aqui, mas ela jura que é de sua avó. Não tem noção que
pago todo o gasto de sua pequena vida. Amélia alimenta
esse pensamento, com o único intuito de nunca perder a
boa vida que leva. Vou em direção ao elevador, e o guarda
que está aqui todas as vezes me cumprimenta pelo nome.
— Seu Luc — diz, levantando o boné azul da cor de
seu uniforme. — Faz um tempo que não o vejo por aqui.
Na verdade, eu venho apenas uma vez no mês, é o
que eu era permito a fazer, se quebrasse essa regra eu não
a veria mais. Meu advogado parece uma ave de rapina em
cima de mim, para manter minha vida tão exemplar quanto
eu puder, para que Amélia não tenha motivos para
denegrir ainda mais minha imagem diante da juíza que era
responsável pelo caso. Tive a infelicidade de ter logo uma
juíza cuidando do caso, e junto com a advogada maldita
dela, conseguiam distorcer qualquer deslize. Eu já perdi
duas vezes, e essa terceira vez tem de dar certo, estive me
mantendo longe de qualquer coisa que pudesse arruinar
tudo. Eu tenho uma teoria sobre como ela tem informações
sobre minha vida. Tenho convicção que parte do dinheiro
que envio a cada mês é gasto com um detetive, para
manter um olho em cada passo meu. A obsessão de
Amélia por minha vida amorosa beira à insanidade,
porque ela já jurou a mim que nunca serei feliz nessa parte
da minha vida.
— Estive há exatamente um mês, João — respondo
o comentário do guarda. O elevador fecha as portas e
sobe para o décimo andar.
Toco a campainha e espero. Não demora muito, e a
própria Amélia abre a porta. Ela é uma mulher elegante
com seus cinquenta e tantos anos, e meu dinheiro deve
estar fazendo muito bem para ela, pois sempre a encontro
muito bem vestida cada vez que venho aqui.
— Ora, se não é meu genro. — a voz dela tem o
poder de invocar toda minha vontade de xingar. Me irrita
sobremaneira essa mulher.
— Como vai, Amélia? — pergunto, educado, o que
é para mim umas das coisas mais difíceis de fazer, ser
educado com ela.
— Estarei melhor no dia que não tiver que recebê-
lo em minha casa — é a resposta dela antes de virar sem
nem me convidar para entrar, mas isso é normal, cada dia
que venho aqui esse tipo de conversa e atitude se repetem.
E isso ainda não é o pior. Sim, o pior ainda está por
vir.
Selene consegue ser pior que sua avó em me
ofender.
Eu suspiro e entro no apartamento. Dia longo, Luc.
Carpe Diem.
CAPÍTULO 7
LUC
Quando entro na sala, não encontro Selene
me esperando. Isso é normal por aqui, tanto ela, quanto
Amélia, fazem questão de deixar claro que sou
indesejado. Minha filha tem nove anos e me odeia, mas
sei que esse ódio foi embutido em sua cabecinha por
Amélia, desde que ela começou a andar e a falar. Conheci
a mãe de Selene, Nádia, quando ainda era muito jovem e
não fiz o que alguns homens fazem quando descobrem que
vão ter um filho: eles casam. Não, eu tinha um futuro
planejado por mim, e casamento não fazia parte desse
futuro, não em um tão próximo.
Eu não sou avesso a isso, claro que não, mas era
algo que, naquela época, eu não queria. E quando Nádia
disse que estava grávida, eu simplesmente deixei claro
que faria tudo, menos casar. Eu propus apenas cuidar dela
e do bebê, mas ela na casa dela e eu na minha. E isso foi o
início do porquê eu estar aqui hoje, sofrendo as
consequências das minhas atitudes.
Não contei para meus pais, eu queria resolver meus
problemas sozinho. Nádia e eu ficamos juntos até ela estar
com seis meses de gravidez, e depois Amélia veio morar
com ela. Foi quando tudo desabou. Ela exigia que eu
casasse com sua filha, e Nádia, que já estava antes
aceitando minha decisão, começou a ser levada pela ideia
da mãe e exigiu casamento. Eu, teimoso, não cedi. Selene
nasceu e mal vi minha filha. Tanto Nádia e Amélia fizeram
questão disso. Elas foram morar no Rio sem meu
conhecimento, e quando Selene tinha um mês de nascida,
Nádia se suicidou. Segundo o médico dela, o motivo foi a
depressão pós-parto. No entanto, Amélia fez questão de
deixar isso fora das acusações que fez quando pedi a
guarda de Selene.
A advogada dela me pintou diante da juíza como um
espancador de mulheres, que Nádia se suicidou porque eu,
além de a agredir física e psicologicamente, eu não
assumi minha filha porque não a queria. E como uma boa
avó, Amélia ficou com a guarda de Selene. Apesar dos
meus esforços de tentar desmentir toda história, até hoje
não pude ter minha filha de volta. Amélia faz questão de
manter Selene me odiando. Acusando sempre que ela não
tem mãe por minha culpa, que matei Nádia.
— Soube que entrou de novo com outro recurso na
justiça, Luc. Pois fique ciente que vai perder outra vez.
Que juiz, em sã consciência, daria a guarda a um homem
violento, que levou a namorada ao suicídio?
— Chega, Amélia, estou farto de você! Vim ver
minha filha e não escutar a podridão que sai cada vez que
abre a boca — digo e olho ao redor da sala. — Onde está
Selene?
— Saiu com alguns amiguinhos — ela informa,
como se isso não fosse nada. — Não sabia que viria.
Desde quando Selene tem amiguinhos? Até onde sei,
ela não faz amigos com facilidade.
— Sabia, sim, e fez questão de atrapalhar meu dia
com ela. — sento no sofá e cruzo a perna no estilo mais
relaxado que consigo. — Pois então vou esperar. E desde
quando a deixa sair sozinha?
— Selene que pediu para sair, porque não queria
vê-lo. Ela não saiu só, tem um adulto com elas — ela
esclarece. Pode até ser verdade, mas eu ainda duvido
disso — Quando vai perceber que ela não quer contato
com você?
— No dia que você não estiver a envenenando,
nesse dia tenho certeza que Selene vai entender que a
única pessoa que a ama de verdade sou eu e você a usa
para me ferir — faço sinal para o apartamento — Que a
usa para garantir sua boa vida, Amélia. No fim, você
conseguiu se manter com meu dinheiro, mesmo eu não
casando com Nádia, não é?
— Não diga o nome da minha filha. Você a matou, e
Selene tem de saber disso! — ela brada, com tanto ódio
que é como se não quisesse deixar dúvidas do quanto ela
não me suporta. Bem, eu também não gosto dela, então
estamos quites.
Não retruco, não tenho energia para isso hoje, só
preciso ver Selene e ir embora. Vendo quanto as suas
palavras não tinham efeito sobre mim, ela sai da sala.
— Se eu fosse você não esperaria muito — diz
quando vai.
Estou há quase meia hora sentado lá, quando ouço
vozes baixas em algum lugar dentro do apartamento.
Levanto e vou verificar, e minha raiva é tão grande que
meu primeiro instinto é de jogar Amélia por umas das
janelas do apartamento.
Sentadas à mesa da cozinha estão Amélia e Selene.
Maldita mulher mentirosa! Ela sabe que nunca invado o
quarto de Selene, e por isso mentiu, dizendo que ela
estava fora, sabendo que não iria verificar. Bem, de agora
em diante não vou ser tão tolerante com as vontades de
Selene.
— Vejo que nunca perde a oportunidade de me fazer
de idiota, Amélia — entro e puxo uma cadeira de frente
para minha filha. Ela não me olha, como sempre. Seus
cabelos loiros, lisos, estão cobrindo parte de seu rosto.
Ela se parece tanto com Nádia.
— Oi, princesa — cumprimento. Meu coração
aperta quando ela abaixa ainda mais a cabeça. Como uma
criança tão linda pode nutrir sentimentos tão feios dentro
de si? Como odeio Amélia por isso. — Como você está?
— Quero que vá embora. Não quero falar com você
— a voz dela sai abafada.
— Quero levar você comigo e passar o dia longe
daqui, pode ser? — insisto — Pode ser legal.
— Não quero fazer nada junto com você! — ela
grita e sai correndo para fora da cozinha. — Odeio você!
Fecho meus olhos e ouço o riso de Amélia.
— Se eu fosse você iria embora, Luc. Não é bem-
vindo aqui.
— Eu vou acabar com você, Amélia, eu juro. —
rosno as palavras — Não vou ter misericórdia, pode
acreditar. Vou deixar você na miséria, sem ter onde dormir
à noite. Porque você não terá Selene para a vida toda.
— Você nunca conseguirá a guarda dela, não
enquanto eu estiver viva! — ela late cruelmente.
— Não me dê ideias — digo e me arrependo
imediatamente. Que merda estou fazendo? Dando
combustível para ela me acusar de ameaça de homicídio?
Levanto e vou atrás de Selene, essas birras dela são
de costume, e não vou me dar por vencido.
O dia se prova pior do que eu imaginei. Apesar dos
protestos e birras de Selene, consigo tirá-la do
apartamento e a levo para um passeio no qual ela não me
dirige a palavra
No fim da tarde, quando sentamos para lanchar, ela
ainda não deu uma palavra comigo.
— Você está bem na escola? — puxo assunto pela
milionésima vez.
Diante do seu silêncio, insisto:
— Selene, você é grande o suficiente para entender
que tudo que sua avó fala não é verdade, então, filha...
— Não sou sua filha, e quero ir embora — ela me
olha pela primeira vez hoje, nos olhos — Odeio você.
— Mas eu amo você, Selene, e não sabe quanto me
fere por ouvir você falar assim — digo — Mas sei que
não é culpa sua.
Ela me ignora o resto de nosso dia juntos, e quando
a deixo em casa nem recebo um olhar ou um adeus,
quando ela vai direto para seu quarto.
Conquistar essa garota vai ser o desafio da minha
vida. Primeiro eu tenho de tirá-la de perto da fonte de
veneno que ela vive. Como vou convencer um juiz a me
dar a guarda, quando não consigo o afeto da minha própria
filha?
LUNNA
"Posso ver você?"

Apenas isso, sem nome, sem nada. Lucat não tem


limites.
A mensagem chega uma semana depois de eu ter
gasto uma fortuna com as rosas para ele. Estou à mesa
com minhas amigas, em mais uma discussão boba sobre a
arrogância de Nicolas e a ainda não gravidez de Gaby,
quando meu celular apita uma mensagem dele.

"Não tenho vontade, Múmia"

Coloco o celular na mesa e esqueço um momento


dele. Estamos no pub Apollo, rindo sobre Nicolas,
quando o telefone de Julie toca.
— Sim, querido, estamos no Appolo, como sempre
— ela diz, com um sorriso bobo — Aguardo, então.
Beijos, querido. — Ela desliga o celular e nos olha —
Adam está vindo para cá.
— Julie, essa é a noite das meninas!! — Gabrielle
diz, indignada, mas eu fico curiosa. Aqueles três estão
sempre juntos, será que Luc também virá? — Mande seu
marido ficar em casa como um bom menino. A ideia é uma
noite longe dos homens de nossas vidas.
— Oh, eu não disse a outra parte. Ele vem com seu
deus de apadravya e o soturno Luc a tiracolo — Julie
toma um pouco da bebida que ela pediu, e fico eufórica.
Sim! Ele vem! — Eles devem estar aqui em cinco
minutos.
— Ah, essa noite vai ser muito interessante para
mim —Digo, levantando — Estou indo ao banheiro,
senhoras, estou entrando em uma missão. Lucat está
vindo? Isso merece um batom renovado. Esse sapo em
forma humana precisa de uma visão celestial para sair da
frieza que vive. — gracejo.
As duas gemem juntas, e eu rio, deixando a mesa.
Vou ao banheiro e, incomumente, ele está vazio. Retoco
meu batom e dou um jeito no cabelo, deixando sexy.
Depois paro, me encarando no espelho. Que droga estou
fazendo? Não disse a mim mesma que ele está morto e
enterrado? Mas ele tem um poder fora do comum sobre
minhas emoções. Deus, eu quero me divertir enquanto meu
príncipe encantado não surge para me resgatar da vida
pregressa de solteira. Respiro fundo, dou um sorriso
malicioso para mim mesma e volto para a mesa. Droga,
eles ainda não chegaram? Pensei que teria um encontro
triunfal com Luc.
— Lucat ainda não está aqui? Oh, minha volta
triunfal não teve graça. — Jogo-me na cadeira,
desalentada.
— Você devia parar de provocar o bendito homem,
sabe que ele não gosta tanto assim de sua personalidade
esfuziante. — Gabrielle diz com cara de aflição, e eu rio.
— Exatamente por isso que não o deixo sair por
cima. Afinal, o que nós mulheres fizemos de tão mal assim
para que nos odiasse? — digo, fazendo beicinho. Ele
finge que odeia, isso sim. Por que ele quer me ver, afinal?
Só para fazer sexo e ir embora de novo, sem dizer nada?
— Ele é apenas na dele, e, segundo Adam, ele é gay
— Julie diz, rindo. — Então não é nada pessoal, querida,
apenas questão de gosto mesmo.
— Ele não é gay! — digo, enfática. Tenho prova de
como ele fode gostoso.
— Não é? E como sabe disso, dona Lunna Maia? —
Gabrielle pergunta, com suspeita — Como pode afirmar
isso com tanta segurança?
Humm, e agora? Sempre conto tudo para elas sobre
meus namorados, mesmo que às vezes até aumento que
durmo com todos, mas sobre Luc não consigo falar, algo
me trava. Talvez seja porque estou com receio de elas me
julgarem, porém nunca dei importância a essas besteiras,
fiz sempre o que me dá vontade. Acho que vou para o
inferno por pensar isso delas.
— Sim, querida, está nos escondendo algo? — a
outra abelhuda reitera.
— Apenas sei, está bem? Ele não é — estou ficando
quente, e sei que, se não tomar cuidado, vou falar que
ando fazendo sexo com a múmia. Então desconverso —
Ele deve ter um motivo bobo qualquer para aqueles
ataques de mau humor dele.
— Quem tem mau humor? — a voz de Adam faz nós
três pular. Olho para ele, divertida.
— Ninguém em particular, gostosão. — pisco para
ele, maliciosa, e ele abre um sorriso, e invento uma
desculpa, já que a causa de nossa discussão está em pé, ao
lado dele — Apenas meu sabor da semana, você quer os
detalhes sujos?
— Sim, claro, não deixe nada de fora — Adam
entra na brincadeira — Só corte as partes onde envolva
paus, por favor. — Ele se inclina para beijar Julie na
boca.
— Mas essas são as melhores partes — rio,
divertida — Posso dar tantos detalhes deliciosos — digo,
como se tivesse passado a semana com dezenas de
homens. Bom, Luc nunca saberá se é verdade ou não.
Meu coração dá pulos quando sinto os olhos dele
sobre mim, e encarno meu lado mala para atormentá-lo.
Quero tratá-lo como sempre fiz. Ele, com certeza, não
saberá como agir comigo.
— Lucat, há quanto tempo! — Provoco-o com esse
apelido. Ele me olha agora de mau humor. Seus olhos
cinzentos frios.
— Lunna! Como sempre é um prazer — resmunga
para mim — E para você é senhor Alonzo.
Ai!
— Oh, sim, gato Luc! Prazer é algo que você
desconhece — Digo, com entusiasmo — Devia passar
mais tarde na minha casa, lhe daria umas lições de prazer,
tenho certeza que você amanhã teria um sorriso radiante.
— Ainda não entrei em desespero, minha senhora
— Como disfarça bem, meu garanhão. Sorrio para ele e
recebo um levantar de sobrancelha desdenhoso.
Está com raiva? Ele é ridículo.
— Realmente, Lunna? Deixe o homem — Gabrielle
diz, gemendo com nossas farpas. Isso porque ela não viu
as faíscas que quase incendeiam minha sala de estar.
Acabamos saindo da nossa mesa e indo para outra,
com seis lugares. Dou um jeito de sentar ao lado de Luc.
Não demoro para escorregar minha mão e pousar em sua
coxa musculosa.
A conversa na mesa rola solta. Sei que estou
falando com meus amigos, porém não lembro de nada.
Estou concentrada nas minhas peripécias manuais.
Escorrego os dedos para a ereção monstro de Luc e o vejo
se contorcer na mesa. Acaricio o cume duro até que ele
retira minha mão sem que os outros percebam nossa
interação. Ele se inclina na minha direção.
— Não respondeu minha mensagem — sussurra —
Então por que não se mantém longe?
— Gosto de provar que sou irresistível — devolvo,
no mesmo tom.
— Talvez eu vá resistir...
Estou excitada além da conta, quando vejo Nicolas
levar Gabrielle embora.
— Talvez nós devêssemos ir também, amor —
Adam diz para Julie — Nossa garotinha deve estar
acordada, nos esperando.
— Sim, melhor irmos — Julie se vira para mim —
E você, vem?
— Eu a levo para casa — diz o bom samaritano ao
meu lado. Disfarço um sorriso. Vai resistir, hein? Duvido.
Julie franze a testa para mim.
— Luc, outro dia você quase nos esfolou vivos
quando pedimos que desse uma carona para Lunna. — ela
diz, voltando-se para ele. — Não sei não, você dois
podem matar um ao outro.
— Tudo bem, Julie, dou conta da fera aqui — bato
minha mão em seu braço — O senhor Alonzo pode sair
nos jornais amanhã, mas não se preocupe.
— É disso que tenho medo — ela fala, porém se
despede e vai embora, nos deixando na mesa. Pego minha
bebida e tomo um gole lento. Não começo a falar, deixo
isso para ele.
— Agora vai me ignorar? — Luc começa.
— Senhor Alonzo, você é bipolar? — pergunto, me
virando para ele, e agora não estou a fim de brincar,
afinal, ser descartada não tem graça nenhuma.
— Quero me desculpar por aquilo — ele diz —
Você tem razão de estar chateada. Causo isso na maioria
das mulheres. E pare de me chamar de senhor.
Ele pediu, não foi? Então...
— Não estou chateada, estou puta da vida com
você, e se acha que vou dormir com você de novo,
garanhão, pensou errado. — digo.
Sou tão categórica que até eu mesma acredito em
mim.
— Não estou pensando nisso — ele nem consegue
disfarçar a decepção. — Mas adoraria.
— Não, obrigada — pego minha bolsa. — Tenho de
ir. Tenho compromisso logo cedo amanhã.
— Lunna — ele suspira — Eu não posso ter um
relacionamento normal, não por enquanto.
— Eu não quero um caso com você, Luc. Se pensa
que estou fazendo algum tipo de jogo com você nesse
sentido, não ache. Homens como você eu quero distância
— ele aperta sua boca em uma linha fina, sua raiva não
me comove — Só queria saber como era ter o grande Luc
Alonzo correndo atrás de mim.
Dou um sorriso falso para ele e deslizo meu dedo
indicador pelo seu antebraço — Foi divertido. Mas, além
de tudo, você é muquirana. Enviar um botãozinho de rosa,
Luc? Que vergonha! Perdeu de ter outra noite de sexo só
por causa disso.
Estou brincando com ele, mas no fundo isso tem um
pouco de verdade.
— Aquele era especial — ele diz, sorrindo agora.
— Um botão de rosa azul pedido exclusivamente para
você.
— Jura? — finjo espanto, ele não consegue me
enganar.
— Humhum.
— Você devia me levar para casa.
— Se é isso que quer — ele levanta, estendendo a
mão.
— É, sim.
O caminho até minha casa é feito em silêncio. Não
soltamos gracinhas com o outro nem tampouco temos uma
conversa adulta para variar, e quando ele para em frente
ao meu prédio, não fazemos nenhum movimento.
— Obrigada pela carona — digo e pego na
maçaneta para abrir a porta. Ele segura meu braço.
— Desculpe pela outra noite, eu sei que não ajo
coerentemente com você, mas tenho motivos para manter-
me afastado de qualquer mulher.
— E que motivos no mundo seriam esses? Tem um
casamento secreto? — agora ele aguçou minha
curiosidade.
— Quase isso — ele me choca.
— Você é casado?
— Não, mas tenho uma pessoa em minha vida que é
muito importante para mim — ele fala isso com tanta
calma que me tira o chão. Estive tendo um caso com um
homem comprometido.
Meu Deus!
— Eu preciso entrar — estou tão envergonhada.
Que merda! Ele tem uma mulher e dorme com outras? E
onde diabos ele a esconde?
— Só me diga uma coisa, senhor Alonzo. Onde
esconde sua mulher? — estou magoada? Não acredito
nisso.
— Disse que tinha uma pessoa, não uma mulher.
— Pare de falar em enigma, Luc, por favor, seja
claro! — grito, perdendo a calma com ele.
— Jesus! Não devia ter dito isso a você, eu não
quero falar disso com você ainda, nem para meus amigos
de longa data eu converso sobre isso, Lunna, entenda! —
ele segura meu rosto entre as mãos — Eu juro que não é
outra mulher, eu não faria algo assim. Deixe as coisas
melhorarem que tudo se esclarecerá. Eu simplesmente não
posso falar disso. Eu guardei por tanto tempo, que falar
agora parece impossível. Eu queria que as coisas fossem
diferentes, acredite, queria poder fazer as coisas do meu
jeito, mas tenho medo de cometer um erro e...
Se não fosse pelo tom angustiado dele, tão
incomum, eu teria descido daquele carro e não estaria
dando a mínima para toda essa meia conversa. No entanto,
seus olhos estão enevoados de dor, e eu me acalmo.
— Tudo bem, Luc. — digo e retiro suas mãos de
mim — Eu entendo.
— Não entende — fala, frustrado. Ele desce do
carro e vem abrir a porta para mim. — Vou levar você até
sua porta.
Desço e caminhamos juntos para meu apartamento.
Pouco depois, quando eu abro a porta, ficamos parados
outra vez. Que diabos!
— Boa noite — digo e gracejo para quebrar o clima
chato: — Você devia revolver suas coisas, sabia? Homem
complicado é tão chato!
Ele não ri, apenas me olha, sério.
— Vejo você por aí, Lunna. Se cuide. — ele dá
meia-volta e vai embora.
Eu entro chateada, odeio esse sentimento.
Então, qual é a sensação de saber que você estragou
tudo? E tudo já não estava mesmo estragado? Luc e eu
não temos nada em comum, forçar algo seria pior.
CAPÍTULO 8
LUNNA
Nas semanas seguintes, Luc e eu nos tratamos
como sempre, com alfinetadas, quando acontecia de estar
no mesmo lugar, mas sabemos que isso é fachada e o que
queremos realmente é encontrar uma superfície plana e
acabar com o tesão crescente que nos consome.
Infelizmente, temos uma vida social em comum e isso
dificulta as coisas para nós. Não tenho saído com outros
caras, coisa anormal, porque sempre estou saindo com
alguém. Hoje estou indo com Gabrielle e Julie para um
dia de compras, e enquanto esperamos Julie chegar, deixo
escapar para Gabrielle que Luc e eu tivemos uma noite de
sexo. Digo que foi há séculos, mas ela quer detalhes e eu
desconverso, como sempre. Odeio esconder as coisas
delas. Mas isso é diferente, não sei dizer a razão, porém
quero manter isso entre mim e ele, apenas.
Recebo uma ligação dele quando estou conversando
com Gabrielle, e foi assim que acabei contado um pouco
sobre nós. Ele ligou com a desculpa nada convincente de
querer saber como eu estava passando. Quem acredita
nisso? Não eu. Não sei o que ele quer de mim. Ou talvez
saiba, pois ando querendo a mesma coisa.
Passo o dia com as meninas e chego em casa tarde,
no sábado, e encontro em minha porta uma caixa parecida
com aquela que recebi outro dia, do Luc. Entro com ela e
não perco tempo para abri-la. Lá estão agora dois botões
de rosas azuis, com um cartão sem assinatura, apenas um
rabisco elegante:
"Estou melhorando, admita"

Ainda estou rindo feito uma boba enquanto tomo um


banho e deito. Pego meu telefone e escrevo uma
mensagem, mas não envio. Deixo-o no vácuo um pouco.
Mas estávamos no jogo de vontades aqui.
Três dias depois, estou na clínica quando recebo
outra caixa, agora com três botões de rosas azuis e mais
uma vez um cartão sem assinatura.
"Jante comigo, tenho um assunto para falar com
você"

Dessa vez eu pego meu celular e ligo para ele,


curiosa. Ele atende imediatamente.
— Pensei que só ligaria quando enviasse duas
dúzias de flores — diz assim que atende, seu tom é
levemente descontraído.
— Minha curiosidade feminina levou a melhor —
respondo.
— Jante comigo. Eu preciso falar com você, Lunna
— ele diz, deixando minha curiosidade mais aguçada. —
Pego você às sete, esteja pronta.
A ligação cai e fico olhando o aparelho,
boquiaberta
Ele desligou?
Deus, o homem é grosso demais para mim, tenho
vontade de ligar de novo e dizer umas poucas e boas para
ele.
— Ah, esse eunuco precisa de treino. — resmungo
para mim mesma.
Às sete horas ele chega, e eu, como não sou uma
boa menina, ainda preciso terminar de me arrumar. De
propósito, claro, gosto de viver perigosamente. Apenas de
lingerie e salto stiletto, abro a porta para ele. Vejo quando
seus olhos cinzentos se abrem, surpresos, e eu
inocentemente digo:
— Oh, entre, entre, ainda não terminei de me
arrumar, sabe como são as mulheres. — dou as costas
para ele e caminho para o quarto em um rebolado sensual
— Fique à vontade! Volto já.
— Lunna — o resmungo dele me faz rir. Estou em
problema?
— O quê? — Paro e o encaro.
Ele vem devagar em minha direção — Queria uma
desculpa para ver você, mas essa recepção é... — ele
pausa, olhando ao longo do meu corpo com cobiça —
incentivadora. Ainda assim, quero propor algo para você.
Mas podemos falar disso no jantar.
— E desde quando precisa de um jantar para isso,
Luc? — ele para a apenas um passo de mim, posso sentir
seu perfume suave e limpo daqui. Mordo os lábios,
excitada com sua proximidade.
— Acho que você vai precisar de ajuda com o zíper
— sua voz máscula sugestiva causa sérios danos aos meus
pobres neurônios. Ele pega uma mecha fina do meu
cabelo, que está todo ondulado em um estilo sexy, que
gosto. — Está vestida assim para me tentar, sua pecadora?
— Jamais — digo, ofegante, antes que a boca dele
caia sobre a minha. Sou tomada por uma descarga de
adrenalina e pura tensão sexual, e não demoramos muito
para estar tirando nossas roupas, ou melhor, a dele,
porque estou praticamente nua.
— E nosso jantar? — digo, teimosa, mas não tenho
fome de comida, não mesmo.
— Temos a noite toda para comer — ele me enlaça
pela cintura, me puxando forte de encontro a seu peito
largo. E languidamente me agarro em seu pescoço,
voltando a beijá-lo.
— Sério? Não vamos a um restaurante? — Pensei
que iríamos a algum restaurante, mas, para minha
surpresa, estamos parando em frente a uma casa que
imagino ser a dele. — Fez com que me arrumasse toda e
não vamos sair?
Ele ri baixo.
— Outra mulher adoraria a ideia de jantar na minha
casa — ele diz, desligando o carro.
— Jura? Pois não sou as outras mulheres, e se me
arrumei preciso mostrar isso ao mundo. Devia ter
avisado. — empino meu queixo, fazendo-o rir mais — E
tire esse sorriso idiota do rosto, Múmia.
— Realmente não é como as outras, é pior; uma dor
no traseiro — ele sai do carro e vem abrir a porta para
mim, mas já estou descendo — Mas eu preciso de
privacidade para falar com você.
Eu desconfio que não é isso, talvez ele tenha
vergonha de sair comigo.
— Lembre-se que essa é sua última chance comigo.
Não repito muito caso de uma noite — invento e vejo o
humor em seus olhos mudar para algo primitivo, feroz. Ele
prende meu corpo na lateral do carro e seu peso fica todo
sobre mim.
— Cuidado com essa língua impertinente — rosna,
segurando meu cabelo.
— Adoro quando vem todo no modo macho alfa
sobre mim — agarro as lapelas do terno preto dele e o
puxo mais perto do que ele já está — Me deixa tão
quente!
Ele corta as palavras roubando meu fôlego com um
beijo, e me inclino exigindo mais, meus braços ao redor
de seu pescoço forte, minhas pernas indo para sua cintura.
A lembrança de mais cedo surge forte em minha cabeça. A
forma que fizemos sexo foi mágica, espetacular, só em
pensar sinto uma dor gostosa se alastrando por minhas
entranhas, e aperto minhas pernas em torno dele com
força. Seu pau de encontro ao meu centro úmido só torna
isso melhor. Gemo contra sua boca como se tivesse dor, e
é como jogar combustível em palha seca e tocar fogo.
Nosso beijo é voraz, úmido, cheio de tesão, como se
fizesse anos que nos beijamos, e não há pouco menos de
uma hora. Quando penso que ele me possuirá ali mesmo,
Luc se afasta, ofegante:
— Deus, Lunna, você é uma ninfomaníaca — ele
morde com força o lóbulo de minha orelha antes de levá-
lo à sua boca quente. Arrepio de puro prazer me
atravessa. Fecho meus olhos quando olhos cinzas
nebulosos surgem em minha cabeça enquanto ele mete
forte dentro de mim, e quero fazer tudo de novo, aqui e
agora.
Certamente ele tem outros planos, porque segura
minha bunda em suas mãos e se afasta do carro, e
caminha comigo nos braços em direção à casa.
— Sinto, mas terei de satisfazer sua fome mais tarde
— sussurra, cheio de promessas em minha orelha —
Marta está esperando com nosso jantar.
— Temos a noite toda para comer, Múmia — repito
suas palavras de mais cedo.
— Não temos mais, esqueceu que gastamos parte
dela na sua casa, querida? — ele me coloca no chão
quando chegamos à porta. A casa dele é linda. A estrutura
de cores claras e amplas janelas de vidro permitem
contemplar a vista externa. Duas escadas de mármore
luxuosas com um corrimão dourado levam para o segundo
andar, e estou embevecida com a arquitetura, quando uma
senhora aparece com um sorriso largo.
— Seu Luc, demorou, tive de esquentar o jantar de
vocês — ela vem ao nosso encontro e estende a mão para
mim. — Sou Marta, bem-vinda, querida.
— Obrigada.
— Lunna, essa senhora que não espera
apresentações é minha governanta. Marta, esta é Lunna,
minha convidada — Luc dá um sorriso sincero para Marta
e vejo que ele não é tão mau assim, ele parece gostar
bastante de Marta. — Tenho certeza de que o jantar vai
estar perfeito.
— Prazer, Marta!
— Venham, vou servi-los.
Ela é simpática, e quando Luc me puxa pela mão
dou uma olhada pela casa, gosto muito desse estilo
moderno. Ele deve ser muito bem-sucedido para possuir
uma dessa.
Sentamos em uma sala de jantar, que tem uma
decoração seguindo a mesma linha de luxo da casa,
equilibrada e requintada, com lustres pendendo do teto e
quadros nas paredes. A mesa está posta com sofisticação,
e me pergunto se ele mandou preparar isso especialmente
para nós. Deve estar querendo me impressionar, mas dou
conta da bobagem dos meus pensamentos. Para que ele
quer me impressionar, já fomos para a cama mesmo.
Depois de Marta nos servir ela nos deixa a sós.
Bebo um gole do vinho que Luc serviu e olho para ele
com curiosidade.
— Então, vai me contar por que me trouxe aqui em
vez de me levar a um restaurante? — insisto. — Quer
esconder das pessoas que temos algo, senhor Alonzo?
Ele tem a decência de ficar vermelho. Então é
verdade o que desconfio? Estou ficando nervosa, e isso
não é recomendável para o homem sentado à minha frente,
amanhã ele pode ter as bolas em um saquinho indo para o
lixo.
— Lunna...
— Só responda, por favor. — exijo, toda séria.
— Como já deve ter notado, temos uma atração
forte um pelo outro. Quero levar isso adiante, mas já disse
antes que não poderia ter no momento nenhum tipo de
envolvimento e, portanto, trouxe você aqui hoje para que
possamos ter uma conversa aberta sobre isso — ele diz, e
eu não sei se estou gostando desta "conversa". Ele
continua: — Você já deve ter observado que não apareço
em público com mulheres, isso tem um tempo, já.
— E pode me dizer por quê?
— Teria que te matar — ele graceja, mas eu não rio
de sua tentativa de piada. Porque isso só mostra que ele
não quer me dizer a verdadeira razão.
— E o que queria me propor? — pergunto, mas
minha mente já imagina os cenários que esta conversa está
seguindo.
— Nós temos de explorar nossa atração, mas em
particular, sem expor isso para o mundo, entende? — o
quê? Eu até contei algumas coisas para Gabrielle e Julie
sobre nós, e ele agora vem com isso? Manter um caso em
segredo? Nos dias de hoje? Em que mundo esse eunuco
vive?
— E por que diabos acha que irei aceitar isso, Luc?
— Levanto da mesa, deixando claro que estou indo daqui
— Acha que sou uma garotinha que precisa esconder do
mundo que ando transando com um homem?
— Lunna, escuta — ele começa, e eu o interrompo.
— Escute você, Luc! Ou me dá uma forte razão para
essa atitude infantil ou não temos mais nenhuma conversa.
O que é tão terrível assim, que temos de manter isso em
segredo?
— Não me pressione demais, Lunna — ele também
levanta — Eu não posso ainda dar esse passo com você,
envolvê-la nisso.
— Me leve para casa, Luc — céus, quando acho
que dei um passo para frente com ele, dou dois para trás
— E quando você resolver confiar em mim, talvez a gente
possa conversar.
— Me dê um tempo — ele pede — Direi a você
quando estiver pronto.
Olhamos um para o outro, e pela primeira vez eu
cedo à vontade de um homem, e, com isso, estou
arriscando me perder nesse relacionamento com Luc. Eu
sinto que, se não tomar cuidado, posso me apaixonar por
ele, e isso não vai ser nada bonito de se ver.
— Duas semanas, no máximo — sou taxativa quanto
a isso, e prossigo, séria, olhando-o nos olhos: — Não terá
outra chance, a não ser com a verdade, Luc. Eu posso ser
muito maluca, mas se eu sei de uma coisa, é me valorizar
como mulher. Sempre vou ser a favor de mim mesma.
Lembre-se disso.
Ele assente, mas percebo claramente que ele está
lutando para aceitar minha condição. Acho que ele está
mesmo querendo me "pegar", esse safado. Sinto-me toda
alegrinha com este pensamento.
— E lembre-se, seu pau não é de diamante —
sorrio, na tentativa de quebrar o clima tenso — Apesar
de, quando está rígido e pronto para o combate, é tão duro
quanto.
Ele balança a cabeça como se não acreditasse que
fui do modo séria a cheia de piada em nanos segundos.
— Você é impossível, Lunna! Mas eu não poderia
pedir mais a você. Duas semanas, então.
— Agora podemos comer, senhor Alonzo? — estou
morta de fome aqui, e essa conversa chata me deixou mais
faminta.
O resto do jantar volta ao clima ameno, porém, no
fim da noite, nós estamos rolando na cama espaçosa do
quarto principal.
LUC
Está se findando o prazo que Lunna deu para que
possa contar para ela o porquê de não querer expor nossa
“vida amorosa". E ainda não tive certeza se vale a pena
trazer meus problemas para essa coisa entre nós. Nos
damos bem quando não queremos matar um ao outro.
Estou distraído, enquanto Nick e Adam falam sobre
o novo negócio de Nicolas com Jason Lewis. Minha
cabeça está longe daqui. Tenho de ir amanhã visitar
Selene, e isso me desgasta.
— Luc? — a voz de Adam me faz olhar para ele, do
outro lado da mesa do clube, onde acabamos de cavalgar
e sentamos aqui como de costume, para um drink.
— O quê? — digo, distraído.
— Qual o problema com vocês dois? — ele aponta
para Nicolas, depois para mim.
— Do que está falando? — pergunto.
— O problema de Nicolas já sabemos, é Gabrielle,
e você? Que diabos tem? — ele continua.
— Nada, estou caçando um arquiteto para uma
reforma e não encontrei um ainda — digo de improviso,
apesar de ser verdade.
— Tenho uma arquiteta louca para trabalhar, bem
debaixo do meu teto. — Nicolas diz, rindo — Devia
contratá-la. Anda muito inquieta, precisando tirar o foco
da gravidez.
— Preciso de um experiente — esclareço.
— Ela dará conta, ela foi a melhor de sua turma. Já
viu o projeto final de Gabrielle? — Ele defende, todo
eriçado.
— Ok, papai coruja, mande ela falar comigo. — me
rendo rindo, porque, pelo jeito, estou correndo sérios
riscos de perder uma amizade de anos.
— Ah, assim é melhor — Adam está dando risada,
olhando para Nicolas. — Você está se apaixonando pela
Gabrielle, cara, admita — ele bate com força no ombro de
Nick.
— Cala essa boca! — Nick retruca carrancudo.
— Vai viajar? — A pergunta vem da minha cama, na
manhã seguinte. A cabeça loira surge através dos lençóis,
e eu volto minha atenção para ela. — Vai aonde?
— Rio — digo, apenas.
— Tem negócios lá? Oh, que pergunta a minha, o
trio fodão tem negócios em todos os lugares — Lunna
puxa os lençóis para cima, e fico vendo apenas seus olhos
e cabelos — Posso dormir mais? São apenas cinco da
manhã.
— Fique à vontade. — vou até ela e beijo-a em
despedida — Volto amanhã.
— Tchau.
Saio em seguida. Meu prazo com ela está acabando,
estivemos fodendo essas semanas e nunca permiti que
outra viesse aqui, mas quem disse que Lunna tem limites?
A mulher consegue sempre o que quer de mim. Quando
voltar amanhã, direi tudo sobre Selene para ela.
LUNNA
Eu vago na casa de Luc, depois que Marta me mima
com um café da manhã digno de uma rainha, e já era para
eu ter saído, mas estou curiosa para conhecer o resto da
casa. Não tive tempo para exploração antes, às vezes que
vim aqui foi para me manter ocupada com outro tipo de
exploração. O último lugar que entro é uma sala, que
imagino ser o escritório de Luc. Ele tem uma parede
repleta de livros, títulos clássicos, e me pergunto se Luc
tem um lado geek. Ele tem também um aparelho de som, e
mexo nele até colocar uma música. Sintonizo em uma
rádio local, que está tocando Meghan Trainor, All About
That Bass. Amo essa música. Satisfeita, levanto para
olhar ao redor. Não devia estar mexendo nas coisas do
Luc. Isso é feio, mas eu quero descobrir mais dele, já que
ele é uma barreira impenetrável.
Tem um ditado popular que diz que "a curiosidade
matou o gato." Até hoje eu não acredito nisso.
Rebolando e cantarolando baixinho a música, ando
até a mesa e bisbilhoto seus papéis, abrindo uma gaveta
aqui e ali. Sua agenda está na mesa, e eu abro, curiosa
para saber o que ele faz quando não está me imprensando
em alguma parede.
Vou para a data de hoje e corro os olhos até bater
em uma frase:
Rio, visitar Selene.
Engulo em seco. Quem é Selene?
Capítulo 9

LUNNA
Fecho a agenda de Luc e vou até o aparelho
de som, desligando-o, em seguida caminho para fora da
sala. Não sei o que pensar sobre isso. Ele me disse que
não tem uma mulher em sua vida. Mas quem é Selene? Os
pais dele vivem aqui, em São Paulo, pelo pouco que sei
sobre eles. Eu realmente não procurava saber de sua vida.
Porém, agora desejo mesmo saber mais. Pergunto-me o
que essa múmia tem escondido em sua tumba, porque sei
que tem coisa aí.
Eu sou uma pessoa curiosa e sei que não vou ficar
quieta sobre isso, e quando ele voltar irei perguntar quem
é essa. Se for uma mulher, ela estará fora da vida dele em
breve.
Selene, minha querida, você acaba de encontrar
sua opositora nível estelar.
Caminho pela casa e sigo sons de movimentação.
Deve ser Marta. A encontro nessa cozinha dos deuses, de
tão linda. Se eu fosse outra mulher já estaria me vendo
aqui, dona do lugar, mas eu tenho juízo; não parece, mas
tenho. Acredite se quiser!
— Lunna, quer alguma coisa? — pergunta a
governanta assim que me vê chegar. Ela limpa as mãos em
um pano e me dá um sorriso cordial. Ainda bem que ela
não é uma megera enjoada.
— Sim, quero saber quem é Selene! — Oh, não,
minha boca é terrível.
— Quem?
— Selene — repito — Acho que é do Rio. — fico
na expectativa enquanto ela pensa um pouco.
— Nunca ouvi falar dessa pessoa — Ela faz um
aceno — Venha, sente aqui e me conte por que está me
fazendo este tipo de pergunta. Vou servir algo para você
enquanto conversamos.
— Oh, não, não! Estou bem, na verdade, estou indo
— pelo visto ela não sabe quem é essa mulher. Talvez
seja uma empresária lá do Rio e ele tem negócios com
ela. Não irei me abalar com isso. — Obrigada, Marta.
Quando volto para casa, o nome não sai da minha
cabeça. Tento esquecer, mas isso insiste, martelando em
minha mente. Vou para a clínica apenas na parte da tarde,
onde fico trabalhando até as seis. Tenho de jantar com
mamãe hoje e não tenho muito ânimo para isso. Eu a amo,
mas ela consegue fazer o nosso jantar semanal muitas
vezes insuportável. Minha mãe é muito jovem ainda, ela
tem apenas quarenta e cinco anos, quando me teve tinha
apenas vinte anos, mas você não diria que ela tem só essa
idade.
A amargura dela por causa do meu pai é maior que
ela. Ele saiu de casa para morar com outra mulher, eu
tinha menos de dez anos, e nunca, durante esses anos, ela
conseguiu largar essa ilusão que ele um dia voltará para
ela. Mas o que me deixa intrigada é: por que mamãe ainda
acredita em relacionamentos? Ela só fala que estarei bem
quando encontrar um homem e casar com ele. Se eu
tivesse passado por uma situação que ela passou, sendo
abandonada por outra, eu nunca mais acreditaria no amor
romântico. Mas ela insiste em esperar pelo meu pai.
Quando paro o carro em frente à casa dela, respiro
fundo e desço. Vamos lá, Lu, você consegue, mais uma
noite.
— Oi, mamãe — Digo, quando entro com minha
chave da casa, mas incomumente ela não grita de volta —
Cheguei!
Tudo silencioso. Olho primeiramente na cozinha,
que é o lugar onde ela passa grande parte do tempo. Nada.
Por que ela não ligou para mim? Vejo um bloco de notas
na mesa e pego para ler.
"Precisei sair, filha, sinto pelo nosso jantar".

Ela saiu? E não ligou para avisar? O que diabos


está acontecendo, mamãe?
Olho ao redor e vejo que ela começou a fazer o
jantar, pois tem uma tigela de legumes picados em cima do
balcão. É como se ela tivesse saído às pressas.
Isso é tão fora do comum. Estou imersa em um mar
de preocupação e não sei se vou embora ou a espero
voltar.
Seria um milagre ela começar a sair com alguém,
esquecer o passado com meu pai. Eu não o vi mais desde
o dia que ele foi embora e nem tenho vontade de ver. Se
eu não fui importante quando era uma criança, por que
seria importante para ele agora?
Deixando esses pensamentos de lado, resolvo voltar
para casa, porém, antes de sair, rabisco um recado para
mamãe, pedindo que me ligue quando chegar.

Não tive notícia de Luc durante o dia, mas isso é


comum, nós só mandávamos mensagens ou nos
telefonávamos quando queríamos algo um do outro, coisa
que vem acontecendo muito desde aquele jantar. Enrosco-
me no sofá com a televisão ligada em qualquer coisa e
entro no bate-papo com Gabrielle e Julie.
São nove da noite, quando quebro o hábito e ligo
para Luc.
— Alô — ele diz, distraído, quando atende.
— Hei, Múmia! O que está fazendo?
— Lunna, não posso falar agora. Quando voltar nos
falamos. — sua voz é impaciente, e ele desliga em
seguida, sem esperar resposta de minha parte.
Grosso! Estúpido!
Bem feito para mim, não devia quebrar as regras e
ligar apenas para conversar. Não temos esse tipo de
relacionamento, e percebo que estou indo no mau caminho
para o amor não correspondido. Levanto do sofá, desligo
a TV e ligo o som alto, mas não alto para que o vizinho
dispare um tiro na minha porta.
E começo a dançar. Nada abalará minha alegria de
viver, nem aquela esfinge saída do sarcófago. Para
melhorar, peço uma pizza. Se tivesse afim de me arrumar
iria sair e dançar a noite inteira fora. Só porque eu posso.

Estou no meio de um passo sensual de quizomba,


quando recebo uma ligação de mamãe. Ah, a Cinderela
voltou para casa.
— Mãe, aonde você foi? — vou direto ao ponto.
— Deixe sua mãe ter um pouco de vida social,
Lunna — ela responde, e eu caio de bunda no sofá.
Alguém abduziu minha mãe? Essa criatura falando do
outro lado deve ser uma impostora. — Saí com algumas
amigas, nunca saio, você sabe.
Amigas? Desde quando? Ela está mentindo para
mim.
— Ah, que bom, mãe! — finjo um tom alegre, pois
ela prefere mentir que falar a verdade para sua única
filha. Ela vive em casa e não tem amigas. Se ela tiver
seria apenas a Luiza, que mora ao lado. — Saiu com a
Luiza?
— Filha, desculpe pelo jantar, acabei esquecendo
de avisar mais cedo — ela não me responde e ainda por
cima diz que esqueceu? Quando na verdade deixou o
jantar iniciado na cozinha? Deixo quieto, afinal, se for
importante ela me dirá, não?
— Tudo bem, fica para outro dia — amenizo e
conversamos por alguns instantes antes de desligarmos.
— Ele está viajando. — diz Adam, quando Julie
pergunta por Luc. Sim, dois dias e ele não voltou e nem
ligou, e eu tampouco repeti minha gafe da outra noite.
Estou com saudade dele, quer dizer, do sexo com ele.
Ontem, andando de volta do trabalho, fui fazer algumas
compras de necessidades básicas no shopping e entrei em
uma perfumaria. Acabei na ala masculina e borrifei Bleu
de Channel no meu pulso apenas para sentir o cheiro dele.
Doente isso, eu sei... mas amo o cheiro gostoso dele.
— Negócios? — pergunto a Adam,
despreocupadamente, tentando não demonstrar interesse,
mas não tenho sucesso porque Julie ri, maliciosa.
— Acredito que sim — ele responde.
— Você não sabe? — desconfiada, tento escavar.
— Nunca discutimos nenhum negócio dele lá — ele
franze a testa e seus olhos verde jade se fixam em mim —
Pode ser pessoal. Mas por que a curiosidade, Lunna?
Vocês não são arqui-inimigos?
Dou um sorriso doce para ele.
— Estou apenas com vontade de xingar alguém, e
ele é sempre meu favorito.
— Ela mente tão mal — a abelhuda Julie se
intromete. — Ouvi dizer que tem outro tipo de xingamento
por trás de todo esse ódio.
— Sabe de nada. — Pego Isadora, que anda em
passos trôpegos à minha frente, e sufoco a fofa com
beijos, tirando o foco dessa conversa chata. — Sua mãe é
uma abelhuda, sabia disso, amor? — sussurro para Isa,
que abre um lindo sorriso banguela para mim.
LUC
O cenário repetitivo de sempre no Rio sofre uma
mudança. Ao chegar ao prédio, o segurança que sempre
está lá vem ao meu encontro.
— Senhor — ele cumprimenta — A dona Amélia
não está em casa.
Ah, Amélia e sua capacidade de me irritar assim
que chego.
— Obrigado, João, vou esperar — digo. Não
querendo ficar lá, dou meia-volta acenando para ele, mas
suas palavras me fazem parar, em choque.
— A dona Amélia foi para o hospital.
Hospital?
— O que houve? — pego meu celular e ligo para
Amélia, sem esperar a resposta do porteiro. Ela não
atende. Insisto, e o aparelho toca e toca.
— Pelo que ouvi de dona Amélia, a menina Selene
foi atropelada na frente da escola.
O quê?
— Sabe dizer para qual hospital ela foi? Isso foi a
que horas? — Rosno para ele. O coitado não deve saber
de nada. Eu agradeço e entro em um táxi. Na escola, sim,
saberão me informar o que fizeram com minha filha. Dou
o endereço ao motorista e digo:
— Faça esse carro chegar em cinco minutos e ganhe
seu dia de trabalho e um extra — ele me olha pelo
retrovisor, já colocando o carro em movimento. E cinco
minutos depois, estou em frente à escola de Selene. Tudo
bem que não é tão longe, mas ele foi rápido. Mandei o
motorista me esperar, já indo para dentro do edifício.
A diretora da escola me recebe e diz para qual
hospital ela foi levada. Depois explicou por que uma
criança foi permitida a sair e ser atropelada na rua.
— Não foi tão grave, mas Selene tem tido um
comportamento estranho, além do normal. Ela já é muito
quieta para uma criança de sua idade, mas ultimamente
tem se comportado mais quieta.
— Isso não explica por que ela foi atropelada hoje,
quando era para a escola ter responsabilidade sobre a
integridade física da minha filha! — esbravejo.
— Ela hoje estava tentando fugir da escola, por isso
saiu correndo para a rua quando devia entrar — ela
explica — O senhor devia procurar saber, senhor Alonzo,
do motivo de Selene querer fugir.
— Sim, fugir de sua escola, por que a senhora não
me diz? — sei que minha preocupação está me fazendo
ser injusto, porque o problema de Selene é conhecido: a
convivência com Amélia.
A caminho do hospital, eu ligo para meu advogado,
porque estou prestes a fazer a maior burrada da minha
vida. Vou levar Selene daqui, nem que seja à força.
Exponho para Andreas Durval, e ele fica furioso
com minha decisão.
— Não faça nada ilegal, Luc, não estrague sua
chance de ter sua filha! — ele está berrando do outro
lado.
— Talvez esteja na hora de ter um novo advogado,
Andreas, porque deixar em suas mãos não está tendo
resultado. — Retruco e desligo. E vou fazer exatamente
isso, contratar o melhor advogado de família que tiver.
Ligo para minha secretária e dou uma missão para
ela: encontrar o melhor advogado que ela conseguir
encontrar para eu contratar.
Eu perdi a pouca paciência que tenho, esperando
agir dentro dessa lei que não favorece um pai.
Assim que chego ao hospital, sou levado por uma
enfermeira para o quarto de Selene, e procuro por ela.
Encontro-a dormindo, com curativos na testa e no braço.
Ela sofreu apenas escoriações pelo corpo, mas ficará aqui
até amanhã, segundo a enfermeira que me atendeu. Preciso
falar com o médico, mas, antes, precisava vê-la.
Amélia, que está sentada no sofá em um canto, solta
a revista que está lendo e me olha com raiva.
Eu a ignoro e vou até Selene. Ela parece frágil e
pequena nessa cama. Sua respiração suave é rítmica.
Seguro seus dedos minúsculos e meu coração aperta. Eu
poderia tê-la perdido hoje sem nunca ter tido a chance de
ser pai. De ter o amor dela. Mas isso vai mudar em
breve.
CAPÍTULO 10

LUC
Fico sentando ao lado da cama de Selene por
um bom tempo. Minha mandíbula dói de tanto que aperto.
Amélia, como sempre, soltando seu veneno ao meu lado.
Viro-me para ela, grunhindo cada palavra, porque tenho
vontade de gritar tão alto que seria expulso do hospital.
— Tudo culpa sua, ela o odeio tanto que preferiu
fugir a ter que ver você — Ela está dizendo, e dessa vez
eu não consigo me controlar e ignorar seu veneno.
— Por que não cala a boca um instante, Amélia?
Vou levar Selene comigo quando ela tiver alta; e não há
nada que me impeça quando eu disser a um juiz o quanto
negligente você é com sua neta. O quanto você está
tratando ela como fantoche. Isso está afetando Selene.
Você pode ter a custódia dela agora, mas isso não vai
durar. — digo, em fúria mal contida — Cale essa boca
antes que a jogue daqui e acuse você de maus tratos. E
terá de explicar por que sua neta estava fugindo da escola,
afinal, não é comigo que ela vive.
— Você não se atreveria — ela rosna de volta, mas
vejo que não está tão segura — Acabo com você, Luc, e
exponho tudo isso para quem quiser saber o quanto o
grande Luc Alonzo, com pais conservadores, tem uma
filha secreta, além de ser o culpado da morte de sua mãe.
— Essa história está ficando velha — Aponto a
porta para ela — Saia antes que peça para alguém vir
retirar você daqui, ou mantenha sua boca bem fechada.
Ela me fuzila com um olhar fulminante antes de
voltar a sentar no sofá, no canto da sala. Melhor assim, ou
eu ia ser preso hoje. Não sei por que ainda suporto essa
mulher. Talvez no fundo ela tenha razão, se tivesse casado
com Nádia ela poderia estar viva, porém, como a maioria
dos homens jovens, eu não tive maturidade para assumir
minhas responsabilidades.
Olho para meu celular. Não tenho nenhuma notícia
da minha secretária sobre um novo advogado. Envio uma
mensagem, e pouco depois ela diz que está enviando uma
advogada para me encontrar no Rio de Janeiro. Espero
que ela seja melhor que meu então advogado.
Passo o dia todo no hospital com Selene, que está
um pouco grogue pela medicação, e quando ela acorda
por um momento, pela primeira vez desde que ela era um
bebê, ela sorri para mim, fazendo meu coração falhar uma
batida. Receber um mero sorriso dela tornou-se algo
muito raro ou inexistente. Porém, em seguida, volta a ficar
séria e desvia os olhos de mim. Não fala e nem tento
forçar uma conversa com ela também.
A advogada, Elizabeth Duarte, chega no fim da tarde
e saio para falar com ela na cantina do hospital, não quero
me afastar tanto de Selene. Ela é uma mulher em torno dos
trinta e cincos anos, vestida elegantemente, sua pele
escura brilha, lustrosa e bem cuidada. Ela passa confiança
com seus modos decididos. Sentamos e faço um resumo
da minha situação com Selene. De nunca ter conseguido a
guarda por ser acusado de ser um homem violento e o
responsável pelo suicídio de minha ex-namorada. E ter a
infelicidade de ter uma mulher como Amélia como avó da
minha filha, que tem algum distúrbio psicótico em me
atormentar desde que Nádia faleceu. E como ela, com a
advogada dela, consegue sempre encontrar um jeito de a
juíza, que lida com o caso, não ir com a minha cara.
— Senhor Alonzo — ela começa — o senhor pode
muito bem pedir a guarda provisória de sua filha,
alegando que ela pode estar sendo maltratada pela avó.
Diante de tudo que o senhor me falou até agora, está claro
para mim e será para um juiz sensato o abuso psicológico
que essa criança vem sofrendo. Depois disso, podemos
entrar com um pedido definitivo. E vamos entrar com uma
ação de guarda em São Paulo, não aqui. Um novo juiz
para o caso será bom a seu favor, e claro que vamos jogar
o jogo da avó de Selene. Se ela joga com sua conduta
moral, podemos fazer nosso dever de casa também.
— Quero levar minha filha comigo, amanhã — digo,
resoluto.
— Não vai ser assim tão rápido, senhor Alonzo. —
Elizabeth afirma.
— Posso levá-la sem autorização. E me chame de
Luc.
— Não sairia do estado com ela sem uma
documentação, Luc, tenha calma e não piore mais as
coisas. Sua filha é menor de idade, e como não tem a
guarda, não pode viajar sem autorização.
— Então consiga a maldita autorização!
Chateado e impotente, é como me sinto. Hoje tem
sido um miserável dia de cão. Mas ainda posso ter
esperança.
Não querendo ficar mais tempo longe do quarto
dela, faço uma ligação para meu advogado e peço que ele
marque uma reunião urgente com Elizabeth, para que ele
dê todos os detalhes do caso.
Quando volto para o quarto de Selene, me sinto
mais confiante que terei sua guarda concedida. Encontro
ela à espera e com Amélia do lado.
— Por que não vai para casa, Amélia? — digo,
firme — Eu fico à noite com minha filha.
— Claro que não irei, não vou deixar minha neta
sozinha! — ela retruca.
Pego seu braço e a levo para fora do quarto até o
corredor relativamente vazio, a não ser por alguns
enfermeiros circulando ao redor. Não quero Selene
presenciando mais uma discórdia entre nós.
— Eu aconselho que siga minha sugestão ou irei até
o posto policial que há aqui no prédio e direi por que
minha filha foi atropelada hoje, Amélia — curvo meu
corpo até estar nariz com nariz com ela — Então caia fora
daqui antes que durma na cadeia.
— O que quer provar? Que é um bom pai? Onde
estava quando a mãe dela cortou os pulsos? — ela diz,
veneno destila de sua língua venenosa.
Meu celular começa a tocar, o pego e vejo o nome
de Lunna na tela. Que time perfeito ela tem. Caralho!
— Alô
— Hei, Múmia! O que está fazendo? — ela fala
jovialmente do outro lado.
— Lunna, não posso falar agora. Quando voltar nos
falamos. — digo rapidamente e desligo, não vou dar
combustível à cobra à minha frente. Enfio o telefone de
volta no bolso e aponto a saída para Amélia — Melhor
sair. E mais uma coisa, Amélia. É melhor que esse
acidente não tenha nenhuma complicação para Selene, ou
não respondo por mim.
— Não pense que ganhou essa, Luc — ela caminha
de volta para o quarto, pega sua bolsa e caminha para a
saída — Amanhã logo cedo estarei de volta e levarei
Selene para casa.
Ela sai sem ao menos se despedir da neta, e volto a
sentar na cadeira ao lado da cama. Os olhos cinzentos de
Selene me acompanham, desconfiados. Percebo que
somos como dois estranhos. Ela parece uma pequena
adulta séria, e não uma menina de nove anos que deveria
rir mais; é exatamente o oposto.
— Você está com fome? — me inclino para frente e
tiro o cabelo loiro da testa dela, onde tem um curativo. —
Posso pedir qualquer coisa que quiser comer.
Ela torce a boca como se não se importasse. Ela não
está receptiva, mas também não está me mandando sair
como as outras vezes.
— Então? O que teremos para nosso jantar? —
insisto. Eu tenho noção do que ela gosta de comer, deve
ser como todas as crianças que adoram fast food.
— Qualquer coisa — a voz sai rouca e ela dá de
ombros.
— Ok, princesa, você que manda — pesquiso
rapidamente no celular e faço um pedido de todo tipo de
comida que crianças gostam. E um buquê de flores, não
quero saber se eles não vendem flores.
Não demora muito, e uma pequena tonelada de
comida é trazida por um entregador, fazendo a enfermeira
quase ter uma síncope, porque não poderia ter pedido
comida aqui.
— Ora, tenho uma princesa com fome aqui — digo,
com um sorriso para o pequeno ser nada satisfeito à minha
frente.
— Não é permitido alimentar os pacientes —
levanto minha mão, impedindo-a de continuar.
— Enfermeira, não tenho a menor vontade de
escutar essa ladainha, vou alimentar minha filha e
conversa encerrada — viro para a cama, e vejo que
Selene tem uma sombra de sorriso nos lábios,
provavelmente se divertindo com minha "briga" com a
pequena enfermeira enfezada. Viro outra vez para ela com
outro sorriso, agora um sedutor — Pode trazer um jarro
para as flores?
— Senhor, aqui não é um hotel — ela marcha para
fora da sala, em um raio de bata branca fumegante de
raiva, parando na porta com o dedo em riste antes de dar
as costas mais uma vez e sair— Não somos seus
empregados.
— Acho que ela se chateou. — aponto conspiratório
para Selene, que agora está rindo abertamente. E... droga,
essa merda de discussão valeu a pena.
Depois de comer todas as guloseimas que vieram,
Selene deita de volta na cama. Ela comeu calada, e essa
falta de interatividade entre nós me chateia. Ajudo-a a
ficar mais confortável e a cubro, beijando sua testa. Volto
a sentar.
— Selene —chamo, fazendo-a olhar para mim. —
Por que estava fugindo? — indago suavemente.
Ela vira a cabeça rápido para o outro lado, e
provavelmente não irá responder.
— Não vou ficar bravo com você, querida. Apenas
diga-me por que estava chateada.
Ainda sem resposta. A pequena mão torce o lençol,
e ela está claramente nervosa.
Estou inclinado a ficar no Rio por uns dias, só
assim poderei me conectar com Selene, ou vou perdê-la
de vez. Não temos qualquer tipo de comunicação,
telefonar para ela nunca funcionou. A avó sempre dava um
jeito de Selene não atender, e ela tampouco queria falar
também.
Olho ao redor do quarto e vejo o buquê de flores
ainda sem água. Lembro de Lunna me chamando de
muquirana por enviar apenas uma flor para ela e me sinto
culpado por mais cedo ter sido tão ríspido. Tenho de
comprar agora uma floricultura inteira para me redimir.
Deve estar me chamando agora de todo tipo de nomes.
Além do preferido, "múmia".
— Você gostou das flores? — Selene parece
entediada, mas ainda assim ganho um aceno de cabeça.
Estamos progredindo aqui, hein! Querendo quebrar a
tensão, digo:
— Sabe o que é uma múmia? — pergunto, com um
sorriso. Ela acena, dizendo que sim — Uma amiga diz que
sou uma múmia porque sou assim sério, igual a você.
— Eu não sou uma múmia! — ela diz, parecendo
ofendida, mas tem um brilho suave no sempre olhar
carrancudo dela.
— Claro que não, é uma princesa muito linda, eu
que sou velho e feio igual uma múmia de verdade —
sorrio quando vejo uma sombra de sorriso e o revirar de
olhos dela. Deus, de onde surgiu esse monte de besteira
sobre múmia? Lunna é a culpada disso. — Dizem que sou
igual a um ogro de desenho animado, acha que sou
parecido com ele?
Faço uma pose ridícula, e ela ri, mas seu rosto se
fecha logo em seguida e dispara uma pergunta, fazendo
meu coração sangrar por esse ser tão inocente ser exposto
a tanto veneno.
— Por que você matou minha mãe? — Deus,
quando eu acho que dei um passo na direção certa, tudo
parece regredir.
— Selene, sabe que não matei sua mãe... — Jesus,
como explicar essa situação complexa a uma criança?
— Minha avó diz que você a matou, por isso odeio
você — lagrimas grossas descem por seu rostinho, e eu
estou a ponto de perder a razão e sair daqui e cometer um
crime. — Não tenho mãe por sua culpa.
— Sua avó mente, meu amor. — tento segurar sua
mão, mas ela se afasta, se encolhendo na cama. Sento de
volta na cadeira — Sua mãe... — Deus, o que dizer a uma
criança em uma hora dessas?
Eu olho para o teto em um pedido de socorro
divino.
— Selene, sua mãe estava doente, por isso ela
partiu.
— Por que devo acreditar em você?
— Porque é a verdade, pequena, eu nunca
machucaria sua mamãe, querida. Ela foi meu primeiro
amor e você é fruto desse amor. Eu nunca faria mal à
mulher que me deu um presente tão lindo. — Ela funga e
alcanço seus pequenos dedos — Não pode acreditar em
tudo que sua avó fala, ela só tenta encontrar um culpado
pela doença de Nádia, e ela não tem outra pessoa além de
mim para culpar. Mas eu amava sua mãe, Selene.
Ela não diz nada.
— Por que não dorme um pouco e amanhã
terminamos essa conversa, hein? — eu não devia estar
falando disso hoje com ela. Lunna tem razão, eu sou
mesmo um grosso insensível. — Eu vou ficar aqui no Rio,
até você ficar boa.
— Você vai mesmo? — ela parece interessada, e as
lágrimas estão diminuindo agora.
— Se você quiser...
Ela dá de ombro outra vez, como se não se
importasse, percebo que faz muito isso quando falo com
ela. E se não estiver engando, ela não me odeia tanto
assim.
LUNNA
Enfio a colher com tanta força no pote de sorvete
que bate no fundo. Quero enfiar o punho nas fuças de certo
Matusalém. Estou frustrada enquanto olho Jamie
seduzindo uma adolescente, em The Fall. Safado
psicopata.
Estou cheia de tesão, e aquele projeto de Matusalém
achou de morar no Rio, agora, porque faz quatro dias e
nada de ele voltar. Pego uma colher supercheia de sorvete
e enfio na boca. Quase engasgo com meu exagero. Meu
celular começa a tocar, e eu pulo para agarrá-lo de cima
da mesinha de café.
Múmia!
— Alô, quem é?
— Lunna?
— Quem é? — insisto, porque estou com muita
raiva dele.
— Você não sabe fingir, a raiva denuncia que sabe
que sou eu — ele ri — Desculpe pelo outro dia, era uma
má hora.
— Nada pode justificar uma grosseria com uma
mulher. — digo — Seu compromisso no Rio deve ser
muito importante.
— Tem razão. Não sei quando volto.
E não me controlando, disparo:
— Por causa de Selene?
O silêncio do outro lado da linha é tão estranho que
eu fico pensando se a ligação caiu.
— O que você sabe sobre Selene? — fala baixo, e
sei que ele está furioso. Ai meu Deus, devo ter invadido
demais.
— Nada.
— Lunna... — ele praticamente rosna.
— Está bem, apenas vi na sua agenda que foi visitar
essa mulher — droga, isso soa ruim até para meus
ouvidos! Pareço uma amante ciumenta. Argh!
— Estava invadindo minha privacidade?
Bisbilhotando minha vida? — ele esbraveja.
— Veja bem, eu estava por acaso olhando, não
bisbilhotando, e quem é essa pessoa? Você é tão
misterioso com isso que só me deixa mais curiosa.
— Tinha planejado falar com você quando voltasse
— ele fala — Mas isso só prova que talvez não deva
confiar em você.
— Luc...
— Tenho de desligar agora. — escuto barulho ao
fundo.
— Espera, você não disse quando volta. Você não
diz nada sobre o que está havendo, Luc! — digo,
chateada. Deus, ele é tão frustrante com esses enigmas!
— Não importa. Até mais, Lunna. — ele desliga,
como sempre, muito delicado.
Droga, eu devia ser internada pela minha língua
grande, fazer uma cirurgia e cortar a metade.
Jogo meu celular do outro lado do sofá, mais
frustrada do que antes. Agora minha curiosidade não tem
tamanho.
Luc está me enlouquecendo.
Quase uma semana depois, estou entrando em casa
com sacolas de compras e resmungando igual a uma velha
senhora, enquanto me atrapalho para abrir a porta.
Quando consigo entrar e tento fechar a porta, uma
sacola de tomate cai e os benditos se espalham pelo chão.
Solto todos os palavrões que conheço. Ainda bem que
caíram para dentro de casa.
— Maldição! — rosno.
— Pensei que não chegaria nunca — a voz vem de
dentro da sala escura, e as sacolas que restavam nas
minhas mãos seguem o caminho da outra e minhas
compras se espalham por toda a sala. E meu grito de susto
não é nada bonito.
— Jesus Cristo! — aperto meu peito com as mãos,
caindo de encontro à porta. — Luc, eu vou matar você!
— Acho que não, querida Lunna — A luz acende e
ele aparece no meu campo de visão — Tenho planos para
você. Sabe, não gosto de gente intrometida.
— Sabe, Múmia, eu vou gostar disso! Porque
também não gosto de gente invasora.
Ele ri, e meu coração falha uma batida quando ele
atravessa o mar de compras espalhadas e para à minha
frente.
— Essa sua porta tem algo muito interessante nela.
Vamos rebatizá-la.
Sim, por favor. Depois eu o mato e escondo o
corpo. Agora, quero esse corpo bem vivo...
— Estamos esperando o quê? — agarro sua gravata,
puxando-o para mim.
Como ele não estava esperando o movimento, se
desequilibra em minha direção, mas não hesita em me
agarrar, pressionando seu corpo ao meu, me fazendo senti-
lo rijo contra mim. Ele me enlouquece de desejo.
—Estava com saudades? — ele pergunta, com um
sorriso zombeteiro no canto dos lábios, os olhos
brilhando com desejo e divertimento.
—Cala a boca, Múmia! — respondo, colando meus
lábios aos dele.
Quando nossas bocas se encontram, calor explode
entre a gente de forma intensa. E à medida que nossas
línguas se enroscam uma na outra, travando uma luta de
puro desejo, esse calor gera uma combustão instantânea,
cujo incêndio nós sabemos como conter: com o saciar dos
nossos desejos.
Luc descola sua boca da minha para recuperarmos o
fôlego, e quando olho em seus olhos, a lascívia que vejo
neles me faz arder e umedece meu corpo de antecipação.
Desperta em mim uma ânsia que precisa ser satisfeita por
completo, através da entrega dos nossos corpos.
Ele me beija novamente, pressionando forte seus
lábios nos meus. Logo ele passa a descer pelo meu
pescoço, tomando posse de cada pedaço que beija com
possessividade, como se estivesse tomando posse de mim
através do toque ardente em minha pele. E eu, que nunca
sou passiva, me entrego ao seu contato em minha pele, que
parece me liquefazer por dentro. E quando Luc arranca
minha blusa e meu sutiã em movimentos bruscos,
impacientes, e chega aos meus seios com sua boca voraz,
gemo em antecipação, sabendo do prazer que ele pode me
proporcionar.
Porém, mesmo em meio à sofreguidão dessa névoa
de tesão que nos rodeia, ele se permite me provocar,
dando leves mordidas e lambidas ao redor do meu
mamilo, deixando-me impaciente e mais louca pelo desejo
de senti-lo me tomando. Arqueio meu peito em um convite
explícito para uma carícia mais intensa, e Luc atende ao
meu desejo ao sugar fortemente a ponta enrijecida, como
se estivesse com fome e o meu prazer fosse o seu
alimento. E assim ele alterna entre um seio um outro,
elevando meus gemidos e suspiros.
Excitada, esfrego minha pelve em sua virilha,
sentindo o seu membro duro através das nossas roupas,
frustrada pelas barreiras de tecido que impedem um
contato mais íntimo.
—Roupas demais... — consigo ofegar, em meio ao
turbilhão que me consome.
Como se fosse penoso se afastar, Luc se abaixa
lentamente, deslizando seus lábios em minha pele, até
chegar ao cós da calça. Já ajoelhado, ele abre o botão e
desce o zíper. Apoiando minhas mãos em seus ombros
para me equilibrar, aceito sua ajuda para tirá-la, ficando
apenas de calcinha, enquanto ele ainda está
completamente vestido. Minha Múmia — que na verdade
está bem viva e cheia de tesão — alterna seu olhar entre
meu rosto e minha calcinha.
—Ela está encharcada com seu desejo por mim —
se não fosse sua respiração alterada e o fogo saindo do
seu olhar, diria que essa afirmação poderia ser arrogante,
dada às nossas provocações. Mas os sinais claros da sua
excitação por mim fazem isso soar como algo primitivo,
simplesmente um homem que se sente satisfeito em ter
despertado o corpo da mulher que ele deseja com a
mesma intensidade.
Luc retira minha calcinha lentamente, e sua
respiração se acelera mais quando vê meu sexo úmido,
brilhante. Encostada ainda na porta, o espero se erguer e
me tomar com todo o ímpeto da paixão que leio em seu
rosto, mas ele ergue minha perna esquerda e a apoia em
seu ombro, beijando a parte interna com a boca aberta,
dando uma leve sucção. Prendo a respiração, antecipando
seu próximo movimento, que não demora; Luc chega à
minha boceta ansiosa por seu toque e passa a língua
lentamente pelas minhas dobras íntimas.
Seus olhos fechados e sua expressão de prazer
indicam que ele está me saboreando, me provando,
enquanto estremeço agarrada aos seus cabelos. Finalmente
sua boca chega ao meu clitóris, e após toques leves com
sua língua, ele se torna voraz novamente; o chupa com
ímpeto, ávido pelo meu gozo em sua boca audaciosa. Um
tremor percorre meu corpo, não sei como ainda continuo
ali, em pé, com ele segurando meus quadris enquanto
devora minha boceta.
—Você é tão quente... gostosa — ele murmura,
ainda ajoelhado — Preciso sentir esse calor ao redor do
meu pau.
Dizendo isso, ele se ergue e abre rapidamente a
calça, se livrando dela em seguida, junto com a cueca.
Aproveito e arranco sua camisa, para sentir seu peito
firme e quente em contato com meus seios. Enlaço minhas
pernas em sua cintura quando ele me abraça firmemente e
ergue meu corpo para se alinhar com o seu. Grito quando
ele me penetra de uma vez e começa a impulsionar dentro
de mim, entrando e saindo com ardor, cada impulso do seu
pau me fazendo delirar.
Ali, pressionada na porta, sentindo sua respiração
ofegante no meu pescoço, me encontro receptiva ao seu
prazer enquanto ele estimula cada sentido meu. Agarro-me
a ele com medo de me perder nesse turbilhão de
sensações, nesse momento tão arrebatadoramente perfeito.
Sem sair de mim, Luc nos afasta da porta e caminha
comigo agarrada a ele até o sofá, onde me deita e, por
cima de mim, continua seus impulsos famintos com seus
quadris. Gememos juntos ao sentir o clímax se
aproximando, tomando nossos corpos. Grito, extasiada,
quando o calor que se avolumou em meu ventre se espalha
por mim, me tomando completamente, me incendiando e
me fazendo gritar.
Com um último impulso, Luc se pressiona mais em
meu corpo, como se quisesse alcançar o mais profundo
âmago do meu ser, e goza profundamente dentro de mim,
gemendo o meu nome roucamente. Eu o abraço, enquanto
nossos corpos estremecem juntos, até nossas respirações
se acalmarem. Mas a calma é passageira; logo estamos
buscando o prazer que podemos dar um ao outro.
CAPÍTULO 11

LUNNA
— O que está fazendo? — Luc pergunta,
quando me vê jogando as roupas dele em sua direção.
— Não é óbvio? Mandando você embora. — Paro o
que estou fazendo e o olho — Não devíamos ter partido
para sexo sem antes você me explicar algumas coisas. Eu
sei que não somos nenhum casal, mas devemos respeito
um ao outro ao menos, e não estamos fazendo isso, Luc.
— Eu vim conversar com você como prometi que
faria, mas você estava tentadora e não resisti, e você não
foi exatamente um exemplo de resistência. — ele fala,
rindo. — Estava louca para me agarrar, não é, Lu?
— Quando chegou do Rio? — visto a camisa dele
que está em minhas mãos e vou sentar no sofá onde ele
está sentado, nu, ignorando sua gracinha sobre querê-lo,
pois não sou hipócrita, quero mesmo, mas tenho assunto
sério pendente com ele e quero isso em pratos limpos, já.
— Por que não se veste?
— Perturbo você? — Ele cruza as mãos atrás da
cabeça, evidenciando seu corpo tentador, mas faço cara
feia para sua exibição — Você é a mulher mais tarada que
conheci. Talvez seja por isso que arisco as coisas com
você, pequena bruxa má.
— Falando em mulher, quero saber quem é Selene
— o nome tem o poder de o fazer levantar, vestir sua
calça e o sorriso desaparecer de seu rosto.
— Não devia mexer nas coisas particulares das
pessoas, Lunna— ele repreende, voltando a sentar.
— Certo, mas ainda sim quero saber quem é a
mulher que foi visitar. Nunca falamos de exclusividade,
mas eu não gosto da ideia de dividir homem, querido —
cruzo meus braços e o encaro.
Vejo seu debate interior e me pergunto por que é tão
difícil esse homem se abrir e falar de sua vida particular.
O que é tão escabroso assim que não possa ser falado?
— Selene é minha filha — ele diz, e só o encaro.
Filha? Ele disse filha?
Fico sem ação e sem saber o que dizer, e isso não é
comum, alguém me deixar sem fala.
— O quê? — sussurro, incrédula. Como ninguém
sabe disso? Ele não está mentindo, não é?
— Tenho uma filha — ele repete.
— Já escutei, apenas não entendo como tem uma
filha e ninguém sabe dela! — levanto, pois estou inquieta
demais para ficar sentada lá, perto dele. — Tem certeza
que essa Selene não é uma mulher e você não quer dizer?
— Falar dela para alguém é difícil e você não está
facilitando, Lunna — ele levanta, e vejo que vou perder a
oportunidade de uma conversa franca com ele, então
seguro seu braço, impedindo seu movimento.
— Tudo bem, estou apenas chocada. Não esperava
isso — digo e o puxo para que sente — Me conte sobre
ela, Luc. Por que ninguém sabe dela?
Ele acata minha sugestão e volta a sentar, mas está
tenso. Escorando os cotovelos nos joelhos, ele se inclina
para frente, as mãos nos cabelos louros escuros que agora
estão revoltos de seus dedos.
— Eu conheci a mãe dela quando era muito jovem,
quando mal tinha saído do ensino médio e entrado na
faculdade. Algum tempo de namoro depois, ela surgiu
grávida. Eu não tinha planos de casar e disse isso para
Nádia, então acertamos que eu daria apoio sem que fosse
necessário nos casarmos. Estávamos indo bem, até que a
mãe dela, Amélia, foi morar perto, e como não aceitava
que eu não casasse com sua filha, nosso convívio virou
um inferno. Nádia queria agora casar, pois sua mãe é do
tipo persuasiva, mas não cedi. Quando Selene nasceu, mal
vi minha filha, elas foram embora sem que eu soubesse
para onde. Quando descobri já era tarde demais para
consertar certas coisas, porque pouco depois de elas
terem ido, Nádia se suicidou. Segundo os médicos, ele
teve depressão pós-parto.
Ele para de falar, e eu fico lá absorvendo tudo que
ele disse. Eu não quero acreditar que ele não fez nada
para ter a filha de volta. Não quero julgar, mas deixo a
questão escapar.
— Não tentou a guarda da sua filha?
Ele deixa escapar uma risada amarga e me olha
firme, com seus olhos cinzas nebulosos e cheios de dor.
— Acha que não tento isso há anos? Não fui
qualificado para criar uma garota, segundo a bosta da
juíza que tem o caso amarrado no seu tribunal.
— Mas é o pai, Luc, você tem mais direitos que a
avó.
— E acha que não sei disso? Acha que não luto para
tê-la comigo? A guarda ficou com a avó porque não fui
considerado com condições de criar um filho, pois
Amélia, junto com a advogada, me retratou como um
abusador de mulheres e todas as atrocidades que as duas
inventaram. E havia o suicídio de Nádia para corroborar
com o que elas diziam. Não tive chance de ganhar, e desde
então, tenho tentado em vão ter a guarda, mas parece que
tudo dá errado.
Tudo parece complicado demais para entender.
— Não sei o que dizer, mas ainda acredito que há
alguma coisa errada em não ter sua filha. Ela tem quantos
anos agora? — Pergunto, curiosa.
— Nove anos. — diz, e exala forte quando continua:
— Passei a semana com a nova advogada que contratei.
Selene foi atropelada quando tentava fugir da escola, por
isso passei a semana no Rio. Eu não posso mais deixar
minha filha com Amélia.
— Meu Deus, Luc, e ela está bem? — acaricio seu
ombro. Para ele estar aqui, ela não deve ter se machucado
tanto — Ela precisa de você, Luc. Devia ter ficado lá,
com ela.
— Eu tinha um compromisso aqui e tive de voltar,
mas estou voltando para lá. Elizabeth garantiu que vai
conseguir a guarda provisória, alegando alienação
parental e se embasando no fato que ela, junto da avó, não
está tão segura assim. Amélia faz de tudo para destruir o
vínculo de pai e filha. Selene me odeia, Lunna, e isso me
mata. Ela induz Selene, desde novinha, a me odiar. Isso é
asqueroso, dizer para uma criança que seu pai matou sua
mãe, apenas com o intuito de me punir por Nádia ter feito
o que fez.
— Ah, Luc, que horror, você não devia deixar sua
filha passar por isso! — digo, horrorizada.
— Acha que não quero tirá-la de lá? Mas penso que
trazê-la à força para morar comigo vai fazer mais mal que
bem.
— Ela, quando estiver longe dessa mulher
monstruosa, vai aprender a amar você, Luc — eu não
entendo nada disso, mas eu tenho certeza que a filha dele
não o odiará para sempre. — Só precisa enchê-la de
amor, Luc, não a abandonar lá.
— O que está dizendo? Eu não a abandonei! — ele
levanta, furioso — Nunca a abandonei!
— Talvez seja assim que ela se sinta, abandonada
por você — eu também estou brava e nem sei por que, só
sinto uma dor no peito e meus olhos ardem. Que droga,
nem conheço essa garota, mas sinto sua dor. Porque sei
que ela deve sofrer mais que qualquer outro nessa
história. — Sei bem como é desejar ter um pai perto, Luc,
não deixe sua filha pensar que não a quer, depois pode ser
tarde demais para os dois — Respiro fundo e tento voltar
ao foco que é sua história — O que acontecerá agora?
— Estou voltando para o Rio amanhã, só tenho de
acertar as coisas, e ainda tenho uma reunião com
Gabrielle, sobre a reforma da casa. Agora, mais do que
nunca, devo agregar um quarto de menina lá — ele
começa a calçar seus sapatos.
— É por causa dela que não permite ninguém em
sua vida? — me dou conta que deve ser por isso que ele
vive uma vida quase eremita.
— Uma das acusações de Amélia é que sou um
homem promíscuo, por isso minha casa não é um ambiente
estável e saudável para se criar uma menina, e a juíza foi
na conversa da advogada — ele bufa, furioso — Por isso
deixei de lado muitas coisas e preferi não dar mais
combustível para ela me aviltar.
— Sério? Isso parece novela mexicana— digo,
revirando os olhos — Isso é arcaico, Luc.
— Bem pior. — Ele pausa e me olha por um longo
momento — Lunna, agora talvez não seja o momento de
uma mulher entrar na minha vida — ele fala, não tão
convicto — Eu não permiti que nenhuma mulher se
aproximasse de mim em anos. Tive encontros muitos
discretos, porque não quero prolongar mais o tempo de
minha filha longe de mim. Deixar você entrar na minha
casa foi o passo mais longo que dei em anos. E estou
devendo um pedido de desculpas por ser grosso com você
ao telefone, foi um momento ruim.
Ah, lá vamos nós outra vez.
— Está deixando toda a situação ditar sua vida —
digo, decepcionada.
— Eu não tenho o direito de pedir que fique em um
relacionamento comigo. — Ele segura meu queixo até que
nossos olhos se fixam — Você só aceita se quiser. Mas
tudo que posso oferecer nesse momento é o que já temos.
Apenas para nós.
— Tem razão, não sou obrigada. Mas já pensou na
possibilidade que talvez você, com alguém, mostrando o
desejo de construir uma família, seja o caminho mais
acertado a ter sua filha de volta?
Ele ri e esmaga minha boca com a sua e me beija.
Depois me solta para me olhar atentamente.
— Encontrou uma forma de me pedir em casamento,
Lunna? — ele fala seriamente.
— Não estou dizendo que tem de ser eu a mulher,
seu cabeça de vento! Só quero ajudar — empurro seu
peito largo e nu, lembrando que estou com sua camisa, e
começo a tirá-la, mas paro, colocando minhas mãos nos
quadris e fuzilando-o com meu olhar assassino. — Você
devia perguntar à sua advogada. E outra coisa: devia
deixar seus melhores amigos conhecerem você. Por que
eles não sabem de nada disso? Por que mantém uma filha
como um segredo obscuro? É no mínimo estranho, mas o
que posso esperar de você, Múmia? Só essas coisas
mesmo ou pior. Maldito homem louco!
— Vai devolver minha camisa? — ele aponta, como
se eu não tivesse dito nada.
— Não escutou nada do que disse, não é? Poderia
ajudar a ter sua filha, estúpido. — vocifero, indignada,
jogando sua camisa em seu rosto — Tome, seu idiota
cabeça dura. E para constar, não quero casar com um...
— Obrigado.
— Falo sério, Luc! Devia se abrir mais com todos,
porque mantém tudo para si? — deixando minha raiva de
lado, vou até ele outra vez — Posso conhecer Selene? Vou
para o Rio com você.
Deus, estou me metendo onde não sou chamada, mas
estou curiosa com essa história agora
— Lunna... não.
— Se mostrar que tem medo dessa mulher, ela vai
atacar exatamente aí. — aponto, com raiva.
— Não é medo, pequena bruxa, é cautela, e estou
perto de tê-la comigo. Talvez essa semana ela venha
morar comigo provisoriamente, até ter uma definição da
guarda.
— Se quiser estou aqui, Luc, e falo sério. Lute com
todas as armas por sua filha.
Ele me abraça por um momento, antes de tomar
minha boca com a sua em um beijo exigente.
Eu sei que não devo deixar meu coração amolecer
para Luc, mas estou como uma manteiga derretida com
essa história. Enlaço meus braços por seu pescoço e o
beijo de volta, dando todo meu conforto para ele nesse
beijo. Não vejo muito futuro para nós, e isso não devia me
deixar triste, mas me deixa com o peito pesado.
— Estou desculpado? — ele pergunta, depositando
pequenos beijos ao lado da minha boca.
— Nem em um milhão de anos e de fodas
espetaculares irei desculpar você — exagero.
— E se convidar você para conhecer Selene? — ele
diz, com sorriso.
— Lucat, agora você começou a me conquistar, isso
é melhor que flores — devolvo. — Fala sério?
— Sim, mulher estranha — ele me pega, jogando-
me por cima do ombro, minha cabeça pendurada nas suas
costas, e começa a caminhar para o quarto.
— Você não ia embora? — grito e agarro sua bunda
bem ao alcance de minhas mãos. — Adoro isso.
— Você é a pior tarada de bunda, Lunna.
— Não sou, e você devia ir embora. — digo só por
dizer, não quero que ele vá.
— Você nua na minha frente e nem percebe a
provocação — ele bate na minha bunda nua na altura de
seu ombro — Agora tenho que comer você inteira.
— Oh!
Alcançamos o quarto, e ele me joga na cama,
fazendo-me quicar no colchão. Ele agarra minhas pernas e
me arrasta de volta em sua direção até a beira da cama.
Ele se ajoelha entre minhas pernas, me expondo toda para
ele. Seus olhos cinzas famintos estão na minha boceta, e
isso causa tremores lânguidos por todo meu corpo, e ele
nem me tocou devidamente ainda.
— Quer que te coma, pequena bruxa? — seu olhar
devasso me faz suspirar, excitada.
Ele não espera resposta, coloca minhas pernas por
cima dos braços, de forma que estou bem aperta e fácil
para sua boca gananciosa, quando ele vem para frente e
me devora com sua boca quente, aberta, chupando forte e
suave. Gemo, caindo para trás e elevando meus quadris
para mais. Ele chupa com vontade meu clitóris e intercala
com lambidas lentas de baixo para cima. Estou fora de
controle, minha cabeça roda quando onda após ondas de
prazer me percorrem como pequenos choques.
— Luc — murmuro roucamente, perdendo a pouco
lucidez, emaranhado a mão em seus cabelos e trazendo-o
mais para perto. Ele me devora viva com sua avidez
pecaminosa. E eu gozo em sua língua uma e outra vez.
— Gostaria que te fodesse agora ou posso ir
embora? — ele levanta a cabeça, depois que estou
desossada na cama.
Levanto minha cabeça e olho para ele, que tem o
sorriso mais safado estampado no rosto, seus olhos
famintos brilhando para mim.
— Se sair é um homem morto, Múmia.
Ele sorri e vem sobre o meu corpo.
CAPÍTULO 12
LUC
Empurro Lunna de volta à cabeceira da cama
e enfio meu pau até o fundo, sem dó, e ela grita em êxtase.
— Ah, sim, assim, querido — ela grita enquanto
empurra para trás seu traseiro vermelho das minhas mãos.
— Você é tão gostoso, múm...
Dou uma palmada em sua bunda, fazendo-a engolir
o maldito apelido. Gemo rouco quando os músculos
internos dela apertam meu pau em um aperto de morte,
fazendo-me quase gozar.
— Gosta disso, humm? — Inclinando, mordo suas
costas e ela ofega.
Agarro seus cabelos curtos, segurando-a no lugar
enquanto bombeio dentro dela. Seu corpo começa a se
contorcer, a sua necessidade de se saciar me faz queimar
vivo. Estou vidrado no prazer de Lunna, ela está mais uma
vez galgando seu prazer, e não demoro a me juntar a ela.
Calor se espalha através de mim e explode em jatos
quentes. Dou gemidos roucos e me esvazio dentro dela.
Caio por cima de seu corpo minúsculo e ficamos os dois
ofegantes, lá. Eu deveria ter ido há muito tempo, afinal,
irei voltar para o Rio em poucas horas e tenho muitas
coisas para resolver, mas o dia já está amanhecendo e nós
dois não paramos de provocar e foder um ao outro.
— Você deve ter uns cem quilos, Múmia, vai me
matar — ela reclama debaixo de mim.
— Pensei que você gostasse de ficar debaixo de
mim, senhorita insaciável —rolo de cima dela e caio ao
seu lado. Mas ela é uma espevitada e praticamente pula
em cima de mim, sentando escarranchada em minha
barriga. Ah, merda, eu devia estar morto por hoje, mas
sinto meu pau dar um pulo quando sinto o calor molhado
entre suas coxas em minha barriga. Ela se esfrega
descaradamente em mim, deslizando suave e lento.
— Você já deu tudo que tinha de dar hoje, eunuco?
Ainda não terminamos... — ela apoia seus braços um em
cada lada da minha cabeça e se inclina para frente. Os
bicos duros dos seios roçam meu peito, e me beija
lentamente na boca.
Deixo-a ter seu momento. Meu foco está no deslizar
lento do seu sexo úmido em mim. O beijo lento, sem
pressa que ela me dá, faz os músculos de minha barriga
enrijecerem. Essa pequena mulher faz meu coração
trovejar no peito em um torvelinho de sentimentos
conflitantes.
Quero mantê-la por mais tempo comigo, como
nenhuma outra esteve antes, mas tanto tempo sozinho me
faz duvidar que esse caso entre nós possa ter um futuro.
Tenho de pensar em Selene em primeiro lugar, antes de
mim. Não quero que nada atrapalhe nosso convívio antes
que eu conquiste seu amor, e não quero impor outra
pessoa em sua vida.
E não procuro amor, mas penso nisso toda vez que
estou com Lunna. Parece que ela passa seu romantismo
todo para mim por osmose. Livrando uma das minhas
mãos, agarro seu cabelo e aprofundo mais o beijo.
— Tenho de ir — digo, quando tiro sua boca
sedenta da minha. Lunna é tão sexy, e esse lado moleca
dela me deixa vivo. Ser o alvo do desejo dela é
inebriante. Excitante pra caralho. — Tenho uma reunião
com Gabrielle hoje, mas antes tenho outras coisas na
empresa que precisam de minha atenção.
— Você quer que eu vá para o Rio com você? —
ela oferece. Deus, não quero magoá-la, mas levá-la não
será bom, não com aquela serpente em forma de mulher
que é Amélia.
A semana foi tão estranha com Selene sendo gentil,
ela até riu para mim algumas vezes, mesmo sendo um
sorriso acanhado. Não gritou nenhuma vez dizendo que me
odeia. Se eu levasse Lunna junto, não sei como seria sua
reação. Deus!
— Acho que não seria uma boa ideia, Lunna — digo
por fim, e a sinto enrijecer em cima de mim. — Não sei se
seria saudável envolver você nisso, afinal só estamos
fazendo sexo, daqui a uns dias estará com...
— Não termine isso! Tem razão, Luc, melhor ir
embora. Eu que sou uma idiota, mesmo. Cada vez que
tento algo com você levo uma patada. — ela sai de cima
de mim e vejo quando vai em direção ao banheiro,
batendo a porta com força.
— Lunna?! — chamo, sentando na cama. Levanto
para me vestir e esperar que saia do banheiro, mas ela não
sai. Sem dúvida cometi mais um erro com ela. Abotoo
minha camisa e vou até o banheiro, batendo na porta.
— Lunna?
A porta se abre e ela aparece, furiosa, os olhos
soltando fogo.
— Melhor acabar com isso, Luc. Desejo que
consiga a guarda da sua filha, de verdade, mas para mim
já deu! — ela respira fundo — Não teve nada real entre
nós, estávamos apenas fazendo sexo, mas isso não faz de
nosso caso algo feio e sem respeito. E ainda assim você
não me respeitou agora há pouco com seu comentário.
Sabe por quê? Eu sempre dei a impressão que era fácil
para você. Que era apenas estalar os dedos e estaria
pulando na cama com você.
— Lunna... — tento falar, mas ela não terminou seu
discurso.
— Só que não sou essa mulher insensível que acha
que sou! Eu não transo por aí aleatoriamente, mesmo que
fosse, isso não te dá o direto de dizer que amanhã estarei
com outro cara!
— Porra, Lunna! Você interpreta tudo errado,
caralho! — perco a merda da paciência e berro, furioso
também. — Não distorça o que quis dizer, caramba!
— Distorcer? Mas foi exatamente o que você disse!
"Não vou fazer minha filha conhecer uma mulher que
amanhã estará saindo com outros caras!"
— Deus! Me ajude! — viro de costas para ela,
porque tenho ganas de agarrar esse pescoço delgado dela
e torcer — Que diabos, Lunna! Não quis ofender você
com isso. Só acho que, para apresentar uma mulher à
minha filha, que ainda quero conquistar, por sinal,
deveríamos ter algo mais que sexo.
— E o que impede de fazermos isso? É você quem
dificulta tudo com sua conversa fiada!
— Não é conversa fiada. E por que diabos estamos
brigando às quatro da manhã? Acha que um casal que
briga mais que qualquer outra coisa daria certo, Lunna?
— pergunto, apenas para ver o que ela diria a seguir.
Porque ela sempre tem um argumento.
Ela cruza os braços, petulante.
— Você que é um jumento, eu sou muito sensata e
calma, não sou essa mulher louca que você diz — levanta
o queixo e me olha com olhos entrecerrados. Estou prestes
a rir do seu disparate, quando ela me fuzila com olhos que
prometem vingança — Vai me contradizer? Por acaso me
acha maluca?
— Ah, não. Você tem razão, eu sou o jumento dessa
relação tsunami — digo, prendendo o riso — Eu que sou
meio louco.
— E um homem sem nenhum respeito pela mulher
com quem passou a noite rolando na cama — ela afirma,
ainda de braços cruzados.
— Peço desculpas por isso, estou nervoso com tudo
que aconteceu essa semana, Lunna. Tem razão, estou
desrespeitando você — digo, agora com sinceridade. Ela
tem razão, não meço minhas palavras com ela, talvez seja
porque ela é...
Apenas Lunna. Sem frescuras, sem maldade, alegre
todo o momento. Sabe mexer comigo como ninguém, me
tira da minha zona de conforto, me provoca, e eu estou me
acostumando com isso rápido demais.
Seguro seu rosto entre minhas mãos e beijo sua
testa.
— Irei partir às seis da tarde para o Rio, terá uma
passagem extra. — digo e me afasto para terminar de me
vestir.
— Acabou, Luc — ela diz — Faça uma boa viagem.
— A passagem vai estar lá, de qualquer forma —
Olhamos um para o outro por um tempo que parece uma
eternidade. Ela está vermelha de minha barba por fazer.
De repente, eu vacilo antes de sair. Caminho até a porta
de saída e paro. Deus, eu não quero terminar ainda com
ela. E quebrando as porras das regras de não
envolvimento, volto para o quarto e paro, chocado, na
porta do quarto.
Nunca, durante mais de dois anos que nos
conhecemos, eu a vi chorosa, ou reclamando da vida, ou
de cara feia. Ela sempre brilha com alegria e vivacidade.
Vê-la agora, deitada de bruços na cama, vulnerável, e
ouvir o som do choro sentido dela, me dá um golpe direto
no intestino. Que porra eu fiz com ela?
Atravesso o quarto e sento na cama, fazendo-a se
assustar com minha presença inesperada. Olha-me e
enterra ainda mais seu rosto no colchão, tentando conter o
choro, em vão. Porque seu ombro convulsiona dizendo o
que ela quer esconder. Meu instinto protetor quer prendê-
la nos braços, mas não sei se é a coisa certa a fazer agora.
— Hei, querida, me desculpe, não mereço suas
lágrimas — digo, acariciando suas costas. Retiro meu
sapato e subo na cama. Deixando toda merda de lado,
trago-a para meus braços, embalando-a apertada contra
mim, enquanto murmuro todo tipo de desculpas que eu
consigo pensar. Que merda, eu não sou um cara romântico,
já fui com a mãe de Selene, e veja onde as coisas foram
parar. Mas, de repente, quero demais poder ser esse cara
bom com as palavras e poder retirar as merdas que disse
mais cedo.
Mas ela não demora muito para voltar à atitude que
conheço. Sai de perto de mim.
— Luc, por favor, agora não é o momento — ela
fala com firmeza e aponta a porta. — Preciso dormir um
pouco antes do trabalho.
— Tudo bem, sei que está chateada, por isso irei —
acato, ficando de pé.
Onde essa droga desandou? A noite começou
perfeita e acabou mal.
LUNNA
Não devia ter começado essa brincadeira com Luc,
porque estou fazendo uma das coisas mais abomináveis:
chorar por causa de um homem. Eu nunca, nunca sou a que
chora, mas ele me feriu mais cedo com suas palavras, e
posso estar fazendo uma tempestade em um copo de água,
mas, ainda assim, foi duro ouvi-lo dizer que não posso
fazer parte de sua vida. Eu sou, sim, digna de conhecer
sua filha!
Tento conter o soluço, mas ele escapa por minha
garganta dolorida da força que faço para não deixar o
choro sair livre. Não vou chorar!
Idiota! Isso que sou!
Sinto a cama mexer e dou um pulo de susto ao ver
que ele não foi embora. O que ele faz aqui ainda?
Ele me puxa para seus braços e fico lá apenas uns
instantes, antes de me afastar e pedir que saia. Eu
realmente preciso de um pouco de sono, antes de ir para a
clínica.
— Vai ficar bem? — ele hesita na porta — Não
gosto de vê-la assim.
Tarde demais, Múmia!
Dou um sorriso de boca fechada para mostrar que
estou bem, mas acho que não o convenço muito. Ele me
olha por um momento e sai novamente.
Inferno! Preciso parar de sentir isso por ele. Vou
acabar na fossa, isso sim.

Me encontro com as meninas no Apollo, naquela


noite. Sim, não fui para o Rio com Luc. Sei que ele só fez
isso, me convidar para ir, depois de negar, para se redimir
comigo, mas estou, pela primeira vez, com medo de me
machucar, e isso nunca aconteceu antes. Eu domino minhas
relações, dito as regras, e Luc as quebra tão facilmente.
Fico com vontade o tempo todo de ligar, provocá-lo,
escutar seus resmungos mal-humorados, mas tenho de ser
forte.
Adoraria conhecer sua filha, mas meu coração não
aguentaria pai e filha juntos! Ele mandou uma mensagem
às seis horas, perguntando se eu vou. Não respondi...
— Lunna?
Olho para cima e vejo dois pares de olhos grudados
em mim.
— O quê? —pergunto, confusa.
— Em que planeta ou galáxia estava? — Julie
pergunta com zombaria.
— Ah...
— Talvez com o pensamento em um certo amigo
nosso? — Gabrielle cutuca. Eu nunca confirmo e nem
desminto as coisas para elas.
Dou um sorriso radiante e bebo meu drink de um só
gole.
— Que dama delicada! — Diz uma voz masculina
se aproximando, e reviro os olhos quando Adam e
Nicolas aparecem ao lado da mesa.
— Será que agora as meninas não têm mais noites
só delas?! — pergunto, beligerante. Mas estou um
aguaceiro internamente. Olhando minhas amigas com seus
pares, dou-me conta que sou a única sozinha aqui. Tenho
vontade de chorar pela segunda vez em um dia.
— Acho que estou indo. —anuncio, levantando —
Não dormi bem na noite passada.
— Não imagino por quê. Soube que Luc voltou do
Rio ontem, coincidência, não? — Adam dá uma piscada
maliciosa para mim, e quase mostro o dedo do meio para
ele. Só não faço porque sou uma dama em um local
público.
— Dedo médio duplamente para você, senhor
Sapatine — ele ri abertamente com o trocadilho do seu
sobrenome.
— Lunna, você não envelhecerá jamais, é hilária —
ele diz.
— Ela vai ser uma velha senhora e ainda levantando
a saia no meio da rua — Nicolas diz, o sem graça.
— E você vai morrer um velho asqueroso e sozinho,
porque Gabrielle dará um pontapé no seu traseiro velho e
gordo. — dou a volta na mesa e dou beijinhos de
despedida nas meninas.
— Você está bem, querida? — Gabrielle pergunta.
— Sim. Tome cuidado quando beijar essa cobra
venenosa aí — aponto para Nicolas, o Huno. Ela ri.
Saio do restaurante me sentido péssima, por sentir
um pouco de inveja de minhas amigas. Não quero ser a
segura vela dos dois casais.
Entro em casa, e o vazio me espera. Mamãe tem se
mantido calada esses dias, e ainda não nos encontramos
depois daquele dia. Ela anda inventando todo tipo de
desculpa para não termos nosso sagrado jantar da semana.
Vontade de dar uma de detetive e descobrir, penso,
jogando minha bolsa no sofá. Vou para a cozinha, encho
uma taça de vinho e volto para a sala. Vida monótona.
Meu celular toca na bolsa e eu o procuro até que o
acho no fundo. Vejo uma mensagem de Luc na tela e penso
não abrir, porém, a curiosidade é tanta que acabo fazendo
examente isso.
Tem uma foto de Luc e uma garota na tela. Ela deve
ter uns dez anos. Ah, sim, nove, Luc tinha dito. Seus
cabelos são lisos e loiros, os traços sérios do seu rosto
lembram os de Luc, mas nem tanto, no entanto, os olhos
são idênticos aos dele. Ela é tão linda, mas seus olhos são
tristes. Meu coração aperta por eles. Eles estão em um
quarto rosa e ela está de pijama. Vejo claramente na foto o
quanto ela está afastada dele. Ela não está à vontade,
como uma filha feliz estaria ao lado do seu pai.
"Minha princesa e eu desejamos boa noite" diz a
mensagem que acompanha a foto. Meus olhos enchem de
lágrimas, e eu olho para o teto branco da minha sala, sem
nada ver.
Por que está fazendo isso comigo, Luc, me afasta e
me atrai dessa forma?
CAPÍTULO 13

LUNNA
Acordo no dia seguinte como se tivesse
levado uma surra. Meu corpo dói em todos os lugares.
Acredito que irei pegar uma gripe, ainda assim vou
trabalhar, contudo, meu humor alegre de sempre está com
uma mancha no horizonte. Não respondi às mensagens de
Luc, não tive coragem de falar com ele. Sei que talvez
esteja querendo minha compreensão por ter rejeitado
minha presença junto com sua filha, mas não vou me
impor mais, ele agora tem de tomar uma atitude quanto a
nós. Eu sei que ele, no fundo, está certo. Nós temos
apenas um affair e não cabe minha presença na já tão
conturbada situação com Selene.
Apesar de falar tudo isso para mim mesma, em um
diálogo interno, me pego olhando a foto dos dois que Luc
enviou para mim, ontem. Eu sei que a garotinha ao lado
dele não está feliz, ela é sisuda demais para uma criança.
Meu lado irreverente quer ir lá e fazer essa pequena
sorrir, mas não tenho permissão para isso. Acho que
minha criação sem pai me deu certa experiência para
opinar sobre isso. Ver Selene triste me faz pensar que ela
precisa de Luc mais do que nunca e algo está faltando
para isso dar certo.
Tenho ganas de encontrar essa mulher que se diz
avó, dar uns bons murros em sua cara de uva passa e dizer
umas poucas e boas para ela. Talvez eu um dia faça isso,
nada me impede, não é?
No fim do dia, mudo meus planos de fazer zumba
para ir ver mamãe. A encontro na cozinha, como sempre,
mas dessa vez ela não tem aquele ar melancólico que
passei minha vida toda vendo em seu rosto.
— Lu, filha, que bom que veio, estava pensando em
você! — ela fala quando entro na cozinha e vou até ela
para um beijo — Não temos nos visto tem um tempo,
querida. Está muito ocupada?
Ela está jogando a culpa em mim?
— É sério, mãe? — fazendo-me de sonsa, sento na
cadeira e a observo, depois pergunto casualmente: —
Então, mamãe, qual é o nome do seu namorado?
Ela vira rápido para o fogão, me dando as costas.
— Mãe, não precisa ficar encabulada com isso. É
muito jovem ainda, tem de aproveitar mesmo.
— Não é nada disso, querida, não tenho mais idade
para essas coisas — ela fala, sem me olhar — Estou
apenas distraída ultimamente.
— Exato. Você está sendo evasiva comigo tem umas
semanas — Levanto e me escoro no balcão ao lado dela
— Sabe que pode contar comigo, não é, mãe? Conte-me o
que está havendo.
— Você devia procurar um casamento e ter uns
filhos para parar de se preocupar com sua velha mãe,
filha.
Não a forço mais; ela contará o que anda
aprontando quando estiver pronta. Parece que os papeis se
invertem quando ficamos mais velhos e somos nós que
passamos a cuidar e nos preocupar com nossos pais.
— Não é velha, mãe. — repreendo amavelmente.
Janto com ela, e durante nosso jantar recebo outra
mensagem de Luc, querendo saber como estou. Dessa vez
mando uma resposta.
“Estou bem. Como está sua filha?”
Sua resposta vem imediatamente.
“Ela está bem. Você está bem mesmo?”
Sua preocupação é irritante.
“Que bom que estão bem. Eu estou jantando com
minha mãe, falo depois. Tchau!”
Quando coloco meu telefone na mesa, minha mãe
fica me olhando, curiosa.
— Quem é?
— Gabrielle — minto. Se ela souber que é um
homem, fará mil perguntas. E não sei nem o que dizer a
ela sobre meu não relacionamento com Luc, mas a vontade
de falar com alguém sobre ele é grande.

Se eu pensei que a noite anterior tinha sido ruim,


essa foi pior. Estou com humor de cão na manhã seguinte,
ainda bem que tenho apenas um paciente. Eu não estou me
reconhecendo. Sempre desejei me apaixonar, encontrar um
príncipe encantado, porque convenhamos, por mais que
tenhamos uma carreira bem-sucedida e os melhores
amigos, mas não temos alguém especial em nossas vidas,
ela perde um pouco o brilho. Nem que seja um gato temos
de ter para dividir aquele momento especial.
Eu estive tão cega com minhas brincadeiras com
Luc, que não percebi que ele estava se tornando esse
alguém especial. Ele é complicado, sua vida está
complicada, e eu, como uma boa louca que sou, tinha de
entrar em sua vida justo agora. Eu tenho os melhores
amigos e uma carreira que amo, mas desejar alguém é
coisa do século dezoito? Droga, então sou uma múmia
perfeita para outra múmia! Ele só precisa saber disso.
Sorrio quando entro no meu restaurante favorito de
comida mexicana. Hoje quero me empanturrar de
guacamole e tacos. Sento sozinha em uma mesa. O lugar é
bem pitoresco, mas adoro a comida. Olho ao redor depois
de fazer meu pedido solitário. Eu poderia ligar para uma
das garotas, mas sei que estão com suas famílias. Eu que
preciso fazer algo a respeito. Aviso que meu pedido será
para viagem, e pouco depois estou indo para casa. A noite
bem que poderia ser melhor que isso. E já sei como fazê-
la melhor.

A boate está fervilhando de gente e nem é fim de


semana. Essa gente não trabalha ou o quê? Eu preciso
dançar, extravasar essa melancolia nada comum para mim.
Eu não sou essa mulher cheia de melindres por causa de
um homem, não; eu sou mais que isso! E Luc precisa se
situar se ele quiser me manter em sua cama. Apesar de
entender suas razões.
Aquela bruxa em forma humana é bem capaz de
inventar atrocidades caso ele aparecesse com uma mulher
lá no Rio, todavia, isso não é razão de ele me manter
longe, excluída, e se ele realmente quisesse faria
acontecer.
Então, Múmia, eu não vou ficar chorando pitangas
por você!
Depois de passar meia hora dançando rocks dos
anos sessenta, caio pesadamente em um sofá ao redor de
uma mesa baixa e tomo fôlego.
Travessamente pego meu celular, tiro uma self e
envio para Luc, junto com uma mensagem: Curtindo a
noite, e você?
Estou agindo infantilmente, mas não estou nem aí.
Só quero deixar claro que não estou em casa
choramingando pelo corpo gostoso dele.
Espero sua resposta em forma de mensagem, mas o
que obtenho, dois minutos mais tarde, é uma ligação dele.
LUC
— Luc, acredito que vai conseguir a guarda
provisória de Selene em breve — a advogada diz,
confiante — Essa alegação de alienação parental é o
caminho para tirar definitivamente a guarda da avó, mas
fique ciente de que sua filha passará por uma avaliação
psicológica, e se for comprovado, então você, enfim,
poderá tê-la com você.
Elizabeth está indo embora hoje do Rio. Estamos
almoçando em um restaurante perto do apartamento, onde
estive esses dois dias. Ela tem me mantido informado do
andamento do processo que ela já deu entrada e que
espero sinceramente que acabe logo.
— Não tenho dúvida que isso acontece, a forma que
Amélia induz Selene é clara, ela manipula minha filha
para que ela me agrida gratuitamente. — Conviver perto
de Amélia nesses últimos dias tem sido um purgatório na
Terra, mas está valendo cada esforço. Sei que não posso
ficar aqui até a guarda sair, mas um vínculo, mesmo que
minúsculo com Selene, é melhor que nada.
A única coisa me chateando foi ter vindo para cá
agora, quando essa coisa com Lunna está acontecendo. Eu
sinto essa vontade de falar com ela, sinto falta da forma
irreverente dela me tratar. E ela está chateada, não tem
sido a Lunna que conheço, ela mal responde as
mensagens, e isso está me deixando malditamente
inquieto. E não posso culpar ninguém por ela estar com
raiva, afinal, disse que ela só atrapalharia vindo.
Ela tem razão, estou sem controle da minha vida
pessoal. É irônico que eu seja tão bem-sucedido na vida
profissional e minha vida pessoal seja essa bagunça. Eu
passei os últimos nove anos vivendo pela metade, com
uma vida de merda. Uma das coisas que fiz, antes de vir
para cá, foi sentar com meus pais e contar sobre Selene.
Minha mãe está agora muito chateada comigo, por nunca
ter confiado neles e contado sobre a neta deles.
— Por que não contou sobre isso, Luc? — minha
mãe disse, com lágrimas caindo —Temos uma neta e não
sabíamos, que egoísta tem sido!
— Mãe...
— Acha que faríamos o quê, se ficássemos sabendo
que teria uma filha com uma garota que não era do nosso
círculo social? Acha que nós exigiríamos um aborto?
Acho que fiquei vermelho, porque, sim, na época
que soube da gravidez de Nádia, a primeira coisa que
pensei foi: meus pais vão querer que ela aborte. E o
segundo pensamento : eles vão querer que eu case com ela
se souber que vou ter um filho. E minhas atrapalhadas só
foram aumentando a cada ano. E, no fim, nunca disse para
ninguém sobre Selene. E claro, ela longe só ajudou a
manter isso para mim.
— Sabe quem mais perdeu com tudo isso? Sua filha,
Luc Alonzo. — minha mãe balançou a cabeça,
decepcionada — Espero sinceramente que comece a ser
um pai melhor para essa criança.
Eu tenho tentado, há anos.
Quando volto do almoço, encontro Amélia na sala
com visitas e nem um sinal de Selene. Ela me lança um
olhar mal-humorado, e eu passo direto para o quarto de
minha filha, não tenho a mínima vontade de socializar com
os amigos de Amélia. Não durmo no apartamento, não
tenho paciência com ela, mas passo o dia até a hora de
Selene ir dormir, então depois sempre vou para o hotel,
para passar a noite.
Bato e espero.
— Selene?
Abro a porta, a encontrando já na cama.
Imediatamente percebo que há algo errado. Que diabos
aconteceu para ela estar chorando?
— Selene?
— Eu não quero você no meu quarto! — ela cruza
os braços e vira para a parede, como de hábito.
— Por que está chorando? — mesmo tentando falar
com suavidade, minha voz sai um pouco dura. O que essa
maldita cobra fez agora para ela? Porque eu não tenho
dúvida do dedo podre de Amélia— Filha, por que não me
conta por que está triste?
Ela não responde, e apenas me sento na poltrona ao
lado, deixando-a quieta.
— Você pode contar comigo, Selene, para qualquer
coisa. — reitero.
— Isso é mentira — ele vira, e seus olhos
vermelhos de lágrimas fazem meu estômago doer —
Minha vó está certa, você está querendo ganhar o que,
ficando aqui? Quando no fim vai embora!
— Selene, não quero ir embora, quero ter a chance
de me aproximar de você — levanto e sento na cama,
fazendo-a se afastar mais para o canto — Eu luto para ter
você comigo.
— Não é verdade, você me odeia como odiava
minha mãe! Nunca quis que eu nascesse, me queria morta
também, como à minha mãe! — seu queixo treme, e tenho
vontade de socar a parede de raiva.
— Olhe para mim, Selene — digo firme, e ela me
olha — A única forma de saber que amo você é me
deixando fazer parte de sua vida. Que você confie em mim
e não nas mentiras de sua avó. Querida, eu amo você. —
pego uma lágrima que desce pelo rosto vermelho dela —
Vamos ser uma família um dia, quando for eu e você,
apenas. Quero compensar você por viver achando que a
odeio. Nunca, ouça-me, Selene, nunca poderia odiar
minha única filha.
— Minha vó disse que você nunca vai me querer,
que deve ter outros filhos na sua casa— ela treme — E
que vai me abandonar quando cansar de fingir que se
importa.
— Por que não passa uma temporada comigo, na
minha casa? Verá que lá não tem nenhum outro filho. —
sugiro — Diga que irá e posso mostrar o quanto sua vó
está errada e falando besteiras para você.
— E-eu não quero!
— Pense sobre isso. Sabia que tem outros avós? —
digo esperançoso, camuflando minha raiva. — Eles estão
loucos para conhecer você.
— Vovó disse que não posso ir com você para lugar
nenhum — ela diz, e seu tom decepcionado me dá um fio
de esperança de que ela tenha talvez, no fundo, vontade de
morar comigo — Ela disse que não pode, e se me levar
vai ser preso.
— Podemos dar um jeito nisso. —sorrio para ela —
Tenho uma advogada bem legal.
— Não sei. — como uma criança pode ir da raiva a
essa carinha de esperança em um minuto?
— Vamos ver o que podemos fazer — pego meu
celular e ligo para Elizabeth.
— Luc, o que houve? — fala, quando atende.
— Você já embarcou?
— Não. Acabei de chegar ao aeroporto. Precisando
de mim?
— Convidei Selene para ir me visitar, acha que
consegue uma autorização?
— Luc, que história é essa? Amélia pode entrar com
uma ação de descumprimento da ordem judicial, que
determina que você não pode levar sua filha para São
Paulo.
— Selene tem nove anos, pode decidir isso.
— Claro que não pode!
— A vontade dela não conta? Consiga isso,
Elizabeth!
— Luc...
Mas estou desligando. Ela tem de conseguir essa
autorização. Caramba!
— Pronto, agora é só esperar e nossa primeira
aventura acontecerá em breve! — digo com um sorriso,
olhando para Selene, que tem um olhar esperançoso. As
lágrimas, graças a Deus, sumiram. — Mas isso é segredo,
entre mim e você, pequena.
— Está bem. Não posso dizer para minha vó?
— Claro que não. Só você e eu! — faço sinal,
apontando para nós.
— A vovó disse que se um dia você me levar, sem
ela saber, você iria para cadeia e nunca mais eu o veria—
ela fala baixo, de modo conspirador. E meu coração
tomba por saber que elas têm esse tipo de conversa.
Amélia fez uma verdadeira lavagem cerebral na minha
filha. Ela não fala duas frases que não comece com "minha
vó disse".
Resolvo sair com ela para um passeio, porque se eu
ficar dentro deste apartamento por muito tempo, irei matar
Amélia, de tanta raiva que corre através das minhas veias.
A tarde foi a melhor que tivemos, e eu rezo para que
Elizabeth consiga essa autorização, ou perderei esse
pequeno sinal de confiança.
Deixo Selene dormir e vou para o hotel. Não falo
nada com a cobra quando saio, não poderia falar nada sem
que fizesse algo que irei me arrepender. E acabar de vez
com a chance de ter minha filha. Estaria na cadeia, com
certeza.
Estou inquieto na suíte do hotel, andando para lá e
para cá como um animal enjaulado, quando meu telefone
apita, anunciando uma mensagem. Enfio a mão no bolso e
pego meu celular. Vejo o nome de Lunna e meu coração
abranda um pouco, para em seguida disparar e o sangue
ferver quente outra vez.
“Curtindo a noite, e você?”

Ela enviou uma foto com essa legenda. Está em uma


casa noturna, pelo que posso ver do fundo da foto. Está
suada e vermelha, igual quando estou fodendo-a como um
louco. Mas que diabos! Ela está com outro cara?
Bato meu dedo furiosamente no teclado e ligo para
ela.
— Alô!
— O que diabos anda fazendo, Lunna? — berro,
furioso, minha raiva de mais cedo ganha proporções
gigantescas.
— O que acha, Múmia? Me divertindo — ela fala,
rindo feliz do outro lado — E você?
— Com quem está aí? — não estou com cabeça
para brincadeiras.
— Oh, isso é ciúme? Estou com um monte de gente.
— Lunna...
— Falo com você depois, querido, agora estou meio
ocupada.
Ela desliga. Fico olhando o telefone na minha mão,
sem acreditar.
Ligo outra vez, e só faz tocar e tocar, ela não atende.
Furioso não é como estou agora; estou em ebulição.
Hoje é meu dia de sorte.
Digito uma mensagem digna de um neandertal e
envio. Espero que ela não esteja fazendo nada do que
minha mente ciumenta está projetando na minha cabeça, ou
juro por Deus que o filho de uma cadela que ousar tocar
nela vai ficar sem as bolas. Literalmente sem elas.
“Vá para casa! Ou receberá minha visita em breve
e não vai gostar.”

“Assim você só me faz querer ficar a noite toda.


;)”

Essa reposta só chega depois de uma hora, e eu, que


já estou puto de fúria, me sinto a ponto de explodir de
raiva. Vontade de pegar o primeiro voo e dar uma lição na
pequena megera. Eu desço para a academia do hotel e
passo mais de duas horas socando o saco de pancadas. É
isso ou um voo para São Paulo. Exausto, caio sentado no
banco e bebo de uma garrafa de água. Minha cabeça
clareia mais depois de extravasar minhas frustrações e
raiva no exercício, e percebo que Lunna Maia está
jogando comigo.
CAPÍTULO 14

LUC
Depois que retorno para o quarto, tomo banho e
volto a ligar para ela, mas a ligação vai para a caixa
postal. Jogo o telefone longe, com pura frustração. Eu, Luc
Alonzo, estou correndo atrás de uma mulher que já tive
vontade de esganar seu lindo pescoço de tão irritante que
é. Com seus nomes bobos e riso fácil, sempre soltando
uma piadinha para me deixar irritado. É, quem diria, hein,
Luc? Você caiu no encanto dessa irreverente!
Ela quer me punir por não a ter trazido comigo, mas
caramba, ela sabe que eu a quero! Mesmo que nós dois
fiquemos negando isso para todos, algo está crescendo
entre nós. Sair e ir festejar para que eu fique puto com ela
e faça algo a respeito é o que ela quer, e está conseguindo.
Mesmo sabendo que é um jogo de Lunna, eu, ainda assim,
fico a noite toda remoendo se ela terminou a noite sozinha.
O dia está clareando, eu preciso dormir mais um
pouco, prometi ontem a Selene que tínhamos um passeio
especial hoje.
Algo zumbindo me desperta de vez. Desorientado,
olho ao redor e vejo que é mais tarde do que eu pensei:
são nove da manhã. Faz anos que não levanto às nove da
manhã. Meu telefone está tocando em algum lugar onde o
joguei, no meio das cobertas.
Ele para de tocar e recomeça. O pego e vejo uma
chamada de Selene. Eu pulo da cama para retornar a
ligação. Ela nunca me ligou. Apesar de ter dado um
celular de presente com meu número, algum tempo atrás,
ela nunca usou, não para falar comigo.
— Selene?!
— Você disse que íamos andar de barco hoje... —
ela diz, hesitante. Oh, merda! Agora estou acordado de
vez. Que droga, é isso que dá passar a noite acordado! —
Você não vai mais...?
— Ah, minha pequena, não desistiria nunca. —
Estou falhando com ela, que merda! — Fique pronta, que
chego em poucos minutos.
— Tudo bem, se não quiser ir...
— Selene? Temos uma aventura hoje, gatinha, nada
de desistência, pequena maruja — digo, rindo, e ouço seu
suspiro aliviado do outro lado. Saber que ela quer passar
o dia comigo, por livre e espontânea vontade, me deixa
eufórico.
Eu a pego meia hora depois e seguimos para o
nosso passeio, na Baía de Guanabara. Ela está alegre e
sorridente. O hotel me forneceu uma cesta de piquenique
especial para a minha garota.
— Eu nunca andei de barco, papai — ela diz,
quando estou ajudando-a com o colete salva-vidas e ela
está pulando para cima e para baixo. Eu estou rindo igual
a um tonto, ao vê-la feliz com algo tão banal, mas que
deve ser uma verdadeira aventura para ela. Chamar-me de
papai é novo, e um nó se forma na minha garganta. Estou
prestes a chorar? Caramba, essa garotinha não sabe o que
pode fazer para mim.
— Pequena maruja, hoje você pode ser promovida a
capitã — digo, com voz embargada, quando a pego no
colo e a coloco em pé no barco alugado. Ela ri.
— O que é isso? O que é maruja?
— É um aprendiz de capitão, ele ajuda o
comandante do barco a navegar pelos oceanos — invento,
e ela parece impressionada. Aponto para ela — Como
nunca andou de barco, ainda não pode ser a comandante.
— Você é o comandante?
— Pode apostar, e vou precisar de uma maruja
muito especial para me ajudar. Conhece alguma?
— Eeeu, papai! — ela continua pulando, eufórica.
— Exato. Minha pequena maruja especial.
Acomodo-a sentada para que possa assumir o leme.
O barco alugado tem um nome na lateral: "Big Blue". É
pequeno, mas é perfeito para o que tenho em mente. Não
tenho intenção de ir muito longe, não com uma criança a
bordo.
Navegamos por cinco minutos, quando ouço a voz
ansiosa.
— Papai, posso ajudar agora? Já posso ser
promovida a capitã? — minha pequena maruja pergunta,
balançando as pernas, impaciente.
— Daqui a pouco.
— Papai... — ela chama outra vez, menos de um
minuto depois.
— Sim, querida.
— Você ainda vai me levar à sua casa? — seus
olhos cinzentos me olham com expectativas. Elizabeth não
me ligou, mas eu sei que ela deve estar providenciando
isso.
— Espero que sim, pequenina. Mas saiba que,
mesmo que não tenha autorização de levá-la comigo,
quando voltar para casa, eu amo você. — encontro seus
olhos tristes agora, o brilho anterior um pouco apagado —
Mas estou lutando para que você fique comigo.
Ela não responde. Olha para longe, franzindo sua
testa jovem.
— Hei, maruja! — grito com voz empostada, quero
que hoje ela só se divirta. — Precisando de uma ajudinha
aqui. Venha cá.
Puxo um pequeno banco e coloco diante do leme.
Selene fica de pé sobre ele e assume o leme do barco,
comigo atrás dela. — Vamos lá, maruja, mostre todo seu
talento.
— Como estou indo, papai? — ela pergunta, toda
séria, minutos depois — Estou fazendo certo?
— Você é uma marinheira nata! Só precisa de algum
treino e será a capitã deste navio. — beijo sua cabeça
carinhosamente.
— Este não é um navio, papai, um navio é
enoooorme, bobo — ela explica solenemente.
— Tem razão...
Gostaria que Lunna estivesse aqui, ela com certeza
aproveitaria o passeio. Eu preciso consertar as coisas
com ela. Tenho vontade de falar com ela, mas deixo para
mais tarde, não quero fazer isso na frente de Selene.
Ainda estou muito puto com sua festinha de ontem.
O dia passa rápido demais. Quando atracamos, no
fim da tarde, Selene está saltitante. Ela tem um quepe de
marinheiro na cabeça de sua promoção a capitã. Nossa
brincadeira ofuscou qualquer indício de tristeza que ela
sempre levava em seus olhos claros; agora ela está feliz.
Eu não quero imaginar que ela vai voltar para a casa de
Amélia e esse brilho será apagado.
Isso me faz lembrar de ligar para Elizabeth.
— Luc, que bom que ligou — ela diz quando atende
— Estive querendo falar com você o dia todo. Estou no
apartamento de sua ex-sogra. Precisei conversar com ela
sobre a autorização para Selene viajar, e vejo que você
não a comunicou sobre nada.
Merda, isso é verdade. Saí tão irado ontem de lá
que não me ative a isso. Sair com Selene sem comunicar à
sua guardiã é um erro. Mas Elizabeth está falando — Aqui
no Rio o pai não precisa de uma autorização judicial, mas
como você não tem a guarda legal de sua filha, sua sogra
terá de autorizar a viagem, Luc.
— Mas que inferno! — esfrego meus olhos
cansados e conduzo Selene para o carro. — Irei falar com
Amélia.
— Me desculpe vir aqui sem que você estivesse —
fala — Irei esperá-lo.
Quando entro no apartamento, Amélia começa a
esbravejar todo tipo de merda. A conduzo para falar com
ela longe da presença de Selene.
— Como ousa agir pelas minhas costas, tentando
tirar minha neta?
— O quanto quer para autorizar que Selene passe
uma semana comigo, Amélia? — pergunto sem
preâmbulos, sem ser tocado por sua falsa preocupação —
O que quer?
— Você está disposto a pagar o preço, Luc? — ela
ri.
— Diga seu preço.
— Quero que assuma total responsabilidade pela
morte de Nádia.
— Por que insiste em trazer os mortos para o
presente, Amélia? Você é doente?
— Quero vê-lo apodrecendo na prisão, isso me fará
imensamente feliz — ele debocha — Porém, autorizo que
Selene vá à sua casa, mas direi o que quero depois, tenho
de pensar em algo.
— Faça seu melhor! — talvez eu me arrependa de
garantir isso para ela, mas se Amélia está jogando, eu
posso muito bem mentir sobre dar alguma coisa para ela.
— Cuidado para não vender sua alma ao diabo,
Luc.
Saio, deixando-a lá. Selene está na sala com
Elizabeth, quando volto.
— Diga o que ela tem de fazer para me dar esse
documento, Elizabeth — sento, me sentido velho e
cansado. Essa luta parece interminável. A advogada para
ao meu lado.
— Isso vai acabar mais cedo do que imagina, Luc,
seja paciente — ela fala e segue atrás da cobra da minha
ex-sogra. Olho para Selene, ainda com o quepe, e calada
no canto do sofá.
— Capitã, está com fome? — rio e aponto sua
cabeça — Esse quepe já pode ser tirado, hein.
— Gosto dele — ela ajeita o referido quepe ainda
mais na cabeça loira — Posso ficar com ele?
— Se você quiser. — levanto e dou minha mão para
ela — Vamos lá, vamos fazer seu jantar, pequena capitã.
— Obrigada, papai — ela me olha, curiosa, quando
me segue para a cozinha — Por que você e a vovó brigam
tanto?
Na cozinha, coloco-a em cima do balcão e nivelo
meus olhos com os dela.
— Adultos cometem muitos erros, pequena. Eu e
sua avó queremos muito que você seja feliz — engulo a
raiva, quando sei que falar a verdade só irá magoar
Selene — Ela quer que você more aqui e eu quero que
você more comigo, então ficamos bravos um com o outro.
— Podemos morar todos juntos — ela sugere, com
sua lógica infantil.
— Infelizmente não podemos, princesa — toco a
ponta de seu pequeno nariz empinado — Mas não quero
que fique pensando sobre isso. O que me diz do nosso
jantar?
— Quero espaguete com muito queijo!
— Saindo um espaguete, senhorita Alonzo.
Quando deixo o apartamento naquela noite, junto
com Elizabeth, estou mais calmo. Amélia, mesmo sob
falsas ameaças, assinou a autorização. Amanhã eu volto
para casa, levando, mesmo que por poucos dias, a minha
filha.
A primeira coisa que faço, quando chego ao hotel, é
ligar para Lunna e contar essa pequena vitória.
LUNNA
— Você está me dizendo que tem mantido um
relacionamento com Luc esse tempo todo e não falou para
suas amigas? — Julie está de braços cruzados, com cara
de zangada. Eu contei minha escapas com Luc para ela,
do meu coração abalado por ele e o impasse que fazíamos
dar um passo para frente e dois para trás. — E que está
apaixonada?
— Estou falando com você, agora. Gaby tem muita
coisa acontecendo com ela para que eu a encha com meus
assuntos do coração — Estou um pouco vermelha, porque
nunca fui de esconder nada delas, sempre contei de meus
namorados ao longo desses anos de nossa amizade.
— Vocês não se suportam.
— Supostamente não, mas não conseguimos manter
as mãos longe do outro — digo e bebo minha bebida, que
até estão estava esquecida na mesa. Estamos no Apollo,
hoje sem Gabrielle. — A vida dele não tem lugar para
mim.
— Besteira! Se ele gosta de você o suficiente,
achará um lugar na cama e na vida dele para você — ela
me dá aquele olhar severo dela e franze a testa — Você
está diferente. Está mudando, Lunna, é porque se
apaixonou?
— Quem disse que estou apaixonada? Estou com
tesão desenfreado, é diferente — empino meu queixo em
desafio, e ela apenas ri, balançando a cabeça.
— Definitivamente apaixonada por Luc.
— Ele me enerva, me deixa tão... tão... quente.
— E por que não ficam juntos? O que impedem
vocês dois? São jovens e solteiros e obviamente estão se
pegando igual a dois adolescentes.
— Ele tem alguns problemas — não quero falar da
vida particular dele.
— Os homens problemáticos sempre são os mais
charmosos e irresistíveis.
— Obrigada por escutar. — dou meu melhor sorriso
para ela, e ficamos conversando por um tempo.
Ontem voltei para casa logo depois de falar com
Luc, rindo horrores de sua ligação mal-humorada. Ele
definitivamente estava imaginando todo tipo de sacanagem
que eu poderia fazer com outro. Nada como uma
concorrência para deixar os homens meio loucos, mas eu
fiz um ponto: ele não é tão frio assim. Suas ligações de
madrugada, quando eu já estava na cama, tornou minha
noite melhor.
Pensar nele deve atraí-lo, pois meu telefone vibra
em cima da mesa, com uma mensagem.
“Ainda festejando pelas minhas costas?”
Pego meu telefone e escrevo uma mensagem de
volta, com um sorriso nos lábios. Ele ainda está remoendo
sobre minha noite.
“Tenho muito gás para festejar por dias.”
“Quero ligar para você, vai me atender, festeira?”
“Sempre o atendo, Múmia.”
O telefone toca em seguida
— Essa é minha deixa para ir? — Julie levanta e
beija meu rosto — Vejo você depois, querida. Cuide-se.
Aceno um adeus, e ela me deixa para atender Luc.
— Ei!
— Lunna — a voz profunda me aquece, mas
mantenho uma certa distância quando digo:
— O que precisa falar comigo?
— Volto amanhã para casa. Eu tenho uma novidade
e não via a hora de te contar — ele agora tem um tom
alegre e leve como nunca ouvi.
— É? O quê?
— Selene irá comigo.
— Luc, que notícia maravilhosa! Eu fico tão feliz
por você — eu estou realmente feliz por ele.
— Não é definitivo, é apenas uma visita —ele
continua — Mas estou tão feliz, Lu.
— Sim.
— Quero que venha conhecê-la — ele solta o
convite e me deixa sem ação por um tempo — Se não
quiser, irei entender, querida.
— Eu... eu irei, sim, obrigada por me convidar —
tenho lágrimas contidas nos olhos — Você vai ser um pai
maravilhoso para ela daqui para frente, Luc. E tenho
certeza que ela vai amar você. De quem foi essa ideia?
— Bem, minha, e ela aceitou facilmente. Selene está
começando a me aceitar. — ele ri, feliz, e eu
definitivamente estou chorando igual uma boboca agora.
— Venha jantar amanhã — ele convida.
— Você não quer esperar? — agora estou nervosa
com a reação de Selene — Isso pode deixá-la insegura,
Luc.
E eu também, se for sincera.
— Vou dizer que é um jantar de boas-vindas e que
você é uma convidada especial.
Ele deve estar muito feliz para admitir que sou
especial, isso é um começo. Eu mal posso esperar para
vê-lo com a filha.
— Te vejo amanhã, Múmia. — digo, quando
desligamos.
Olho ao redor, e tudo parece brilhar. Estou tão feliz
por Luc começar uma nova etapa com Selene, que parece
que é comigo.
I Feel It Coming, de The Weeknd feat. Daft Punk,
toca no fundo, e eu quero levantar e dançar.

(...)
Baby I can take my time
(Querida, eu posso esperar)
We don't ever have to fight
(Não precisamos brigar)
Just take it step-by-step
(Vamos dar um passo de cada vez)
I can see it in your eyes
(Eu posso ver em seus olhos)
Cause they never tell me lies
(Pois eles não mentem)
I can feel that body shake
(Eu posso sentir teu corpo tremer)
(...)
CAPÍTULO 15

LUNNA
Estou excitada além da imaginação quando chego
em casa, depois do meu encontro com Julie, para
continuar minha conversa com Luc . Eu não devia, mas
estou louca pela sua volta. Não posso negar, mentir para
mim mesma é muito chato e covarde, eu prefiro quebrar a
cara e tentar do que não tentar e ficar chupando dedo
depois.
E não era bem um dedo que tenho em mente para o
ato envolvendo minha língua e certa parte da anatomia do
Múmia.
Jogo-me no sofá e planejo um ataque a Luc. Sei que
ele deve estar com a filha, esse momento juntos é muito
importante para consolidar esse laço entre eles. Eu, com
certeza, não irei disputá-lo com sua filha de jeito nenhum,
se eu não o ajudar, atrapalhar é que não vou. Saber que
ela vem ficar por um tempo me deixa feliz, como se a filha
fosse minha.
Pego meu celular e digito uma mensagem, antes de
enviar fico preocupada se ele está com Selene. Seria
constrangedor.

“O que você anda fazendo para aliviar o tesão?”

Sua resposta vem logo após.

“Depois daquela foto que me enviou, eu resolvi


aliviar de outra forma, e não é com minha mão.”

O quê? Ele está maluco? Eu o mato se colocar certa


parte dele em alguém.

“Tem amor ao seu pau, Múmia? Corto ele fora!”

Sua próxima mensagem tem um monte de carinhas


sorridentes. Estou escrevendo outra, quando o celular
vibra com outra dele.

“Estou guardando todo tesão para quando voltar,


quero passar horas e horas enterrado dentro de você.”
Ele não ajuda meu estado.

“Estarei esperando, Matusalém, imagine agora


como estou pensando no que você fará comigo...”
“Isso não tem graça. Você deveria ser presa por
ser tão devassa comigo.”

Trocamos mensagens sacanas por algum tempo, e


quando vou deitar estou quente e com uma baita insônia.
Não sei como iremos fazer para dar uma escapada sem
que isso afete seus dias com Selene.
O dia amanhece, e não dormi quase nada, e ainda
faço a proeza de perder o horário de ir trabalhar. Saio
meio grogue de casa, de tanto sono. Maldito Luc, culpa
dele por embutir imagens na minha mente e não estar aqui
para apagar o incêndio. Porém, mesmo com sono, eu
começo a pensar que ir lá hoje, conhecer Selene, pode ser
precipitado. É o primeiro dia dela na casa do pai, sei que
nós dois estamos ansiosos, mas não justifica eu ir lá. Irei
amanhã se ele quiser, mas hoje é só ele e a filha em casa.
Talvez esteja errada com relação a isso ou é meu
medo de ela me odiar, porque corro sério risco de ela não
gostar de mim. Se Selene já tem problemas com Luc,
imagina com uma mulher desconhecida, que pode ser uma
ameaça, na cabeça dela.
Eu não sei o que fazer pela primeira vez na vida.
Ah, Múmia, tinha de vir com pacote completo para mim
enlouquecer!
Estou almoçando, quando sinto uma presença ao
lado e me deparo com Leonardo, rindo para mim, ao lado
da mesa.
Ah, ele ressuscitou de onde?
— Oi, Lunna, posso sentar com você? — sim,
somos adolescentes agora para pedir a permissão?
— Claro, Leo, senta aí — dou um sorriso para ele.
Ele senta e me olha meio constrangido. Céus, eu não
acredito que queria namorar este homem. Ele é totalmente
sem graça. — Como tem passado? Faz tempo que não o
vejo.
— Estive trabalhando muito, sabe como é.
— Sei... — depois de uma pausa, como se
estivesse criando coragem, em um só fôlego diz: — Eu
tenho duas entradas para uma peça de teatro e gostaria de
saber se você quer ir comigo — diz, e logo completa: —
Claro, se não quiser ir, tudo bem.
— Quando será? — pergunto para ser educada, mas
não tenho nenhuma intenção de sair com ele outra vez
— Próxima sexta. É um musical sobre a Bela e a
Fera. Para ser claro, ganhei de um cliente e não sei o que
fazer com eles.
— Sinto, mas não posso ir dessa vez com você, eu
estou saindo com outra pessoa — digo, cortando de vez.
— Oh, sinto muito, não era minha intenção ser
inconveniente — ele fica vermelho. Ele não sabe para
onde olhar agora, e tenho vontade de rir.
— Tudo bem.
Ele levanta pouco depois, se desculpando, e me
deixa com vontade de gargalhar de seus modos
atrapalhados.
LUC
Desligo o telefone onde estive falando com mamãe.
Convidei meus pais para um jantar lá em casa, hoje. Marta
está encarregada de organizar. Não sei como será o
comportamento de Selene com os seus avós. Com Amélia
longe tudo pode ser melhor, a forte influência dela está
acabando com o psicológico de Selene. Eu não vejo a
hora de ter Amélia, em definitivo, fora de nossas vidas.
— Pronta para mais uma aventura, princesa? —
pergunto, quando estamos prestes a decolar do Rio para
São Paulo.
— Sim
Se hoje fosse o dia que estivesse trazendo Selene
em definitivo para casa, seria o dia mais feliz que tive em
anos, entretanto, ainda estou feliz de estar com ela ao meu
lado, no voo, indo para o lugar onde vivo. Ela está calada
desde que saímos, eu creio que seja porque nunca fizemos
isso antes. Ela deve estar temerosa e nervosa, tanto quanto
eu. Mas iremos aproveitar esse começo, vou garantir isso.
— Bem-vinda à sua verdadeira casa, filha — digo,
quando chegamos ao apartamento e abro a porta da frente
para ela entrar. Ela acena com um sorriso. Eu não fiz
planos nenhum, já que isso foi tão de repente que não sei o
que fazer. Ser pai em tempo integral é um desafio novo e
totalmente fantástico.
— Papai, você mora aqui sozinho? — Selene olha
ao redor da sala ampla e volta seus olhos curiosos para
mim. — A minha mãe morou aqui com você?
Não esperava esse tipo de pergunta assim, imediata
e do nada, mas entendo sua curiosidade. Amélia
provavelmente nunca teve uma conversa decente com ela.
Culpa minha, que deixei isso acontecer. Bastardo egoísta
que eu fui no passado. Não posso me justificar por ser
jovem, eu devia ter assumido mais responsabilidade.
— Não totalmente sozinho, moro com a Marta, ela
que cuida da casa. E sua mãe nunca morou aqui, eu não
tinha essa casa quando eu e sua mãe namoramos — falo,
cauteloso — Você quer conhecer seu quarto?
— Sim, papai.
Estou guiando-a para a escada, quando Marta
aparece e nos olha, surpresa.
— Seu Luc, não o esperava até à tarde. E quem é
essa linda mocinha aqui? — Ela para na frente de Selene,
abaixa-se e a abraça. Eu fico surpreso quando Selene a
abraça de volta, achei que ela não fosse aceitar o abraço
de uma estranha, mas ela só me surpreendeu esses dias. A
personalidade dela está mudando para melhor, e isso só
me deixa orgulhoso. — Você é linda, querida!
Marta a aperta nos braços outra vez antes que eu a
leve lá para cima.
O quarto que tenho para ela é infantil demais, nessa
reforma agora eu planejei um estilo menos bebezinho, já
que ela caminha para os dez anos em breve.
— É um quarto de bebê, papai — ela ri, quando
olha ao redor do quarto rosa.
— Mas tem uma caminha de princesa — digo, para
me justificar da gafe. Que droga, espero que Gabrielle
termine logo a reforma que pedi para ela. E que quando
Selene vir morar aqui o quarto já esteja redecorado.
— Já sou grande, papai.
— Isso é verdade.
Acomodo-a no quarto, peço que troque de roupa e
venha para baixo, pois vamos passar o resto da tarde
fazendo seja lá o que os pais fazem com suas filhas
pequenas.
Estou saindo do quarto de Selene, quando recebo
uma mensagem de Lunna, que me deixa passando um
tempo olhando para a tela. Isso não é do feitio dela, ser
assim, medrosa. Não a Lunna maluquinha que eu comecei
a conhecer.
“Luc, estou pensando em adiar esse jantar. Outro
dia irei visitá-lo, pois o primeiro dia de Selene em casa
deve ser com você e seus pais.”

— Droga!
Volto para a cozinha onde Marta está ocupada e
peço que prepare o almoço de Selene e o sirva ao lado da
piscina. Eu estou chateado por Lunna não querer vir, e
nem percebi que estava ansioso para que ela conhecesse
minha filha.

Meus pais chegam cedo em minha casa, dá para ver


a ansiedade da minha mãe para conhecer Selene, por fim.
Selene fica um momento tímida, mas isso dura pouco,
tempo depois ela está tratando meus pais com
desenvoltura, chamando-os de avós, como se os
conhecessem desde sempre.
— Por que nunca nos contou sobre ela? — meu pai
pergunta, a voz em um tom de decepção — Ela merece
mais de você, e de nós.
Selene ri de algo que minha mãe diz, e percebo que
meu pai tem razão. Eu fui egoísta e estava pagando por
isso agora. Não apenas eu, minha filha também.
— Vovó?! — Selene pergunta, ansiosa, quando
estamos reunidos à mesa. — Você vai morar aqui
também?
— Temos nossa casa, meu amor. Você pode ir lá
quando quiser — minha mãe responde com um sorriso
carinhoso. Lágrimas contidas brilham em seus olhos
quando ela me olha — Seu pai irá levar você sempre que
quiser ir, e eu também posso vir aqui quando quiser.
Selene balança a cabeça rigorosamente antes de
enfiar uma garfada de comida na boca. Seus olhos
brilham, felizes. Um nó se forma na minha garganta
enquanto vejo a interação dela com os avós ao meu redor.
Eu faria de tudo para que ela continuasse feliz.
LUNNA
Estou ansiosa depois da mensagem que mandei para
Luc, mensagem que ele não respondeu, e fico me
perguntando se fiz bem. Deus, estou com uma confusão de
sentimentos ambivalentes guerreando dentro de mim. O
que faço?
Por fim saio com Gabrielle, que está estranha, suas
dúvidas sobre seu acordo com Nic levando a melhor
sobre ela, e quando volto para casa, por volta das dez da
noite, não tenho tempo de pensar muito sobre a noite que
perdi com Luc em sua casa.
Preparo um banho e deito na banheira por um
tempo, deixando a água acalmar meus nervos à flor da
pele. Meia hora depois de recriminações a mim mesma,
levanto e volto para o quarto apenas de toalha.
— Não sabia que era tão medrosa — uma voz
masculina fala do canto do meu quarto, e dou um grito de
susto antes de reconhecer a voz máscula de Luc.
— Luc! Quase me mata de susto.
Ele sai das sombras, claramente de mau humor, o
rosto sério. E eu sei que devo o ter magoado com minha
recusa em ir à sua casa hoje.
— Não esperava vê-lo por aqui, com Selene em sua
casa — digo, apertando o nó da toalha ao redor do meu
busto. — Não acredito que a deixou sozinha, Luc.
— Por que mudou de ideia sobre conhecê-la,
quando se aborreceu por eu não a ter levado para o Rio
comigo? — pergunta, ainda sério. Tem as mãos dentro dos
bolsos da calça jeans que está usando, combinando com
uma camisa azul-marinho
— Eu pensei melhor e percebi que você tinha razão,
minha presença lá era inconveniente, e hoje à noite era o
seu primeiro dia com ela — droga.
— Eu não ia apresentá-la como madrasta, Lunna,
apenas como uma amiga. Quero que Selene se sinta bem-
vinda aqui, com minha família e meus amigos.
— Talvez Selene não visse assim, e sim como uma
pessoa que iria competir por sua atenção. Temos todo
tempo do mundo, Luc, não precisa interpretar isso como
uma afirmação de não querer ter mais nada com você —
olho-o de cima a baixo — Você está muito bravo comigo?
— Na verdade, decepcionado...
— Ah, por favor, você tem de entender que tenho
razão, tudo tem seu tempo, Múmia. — Caminho até onde
ele está parado, no meio do quarto — Já que está aqui...
Deslizo o dedo pelo peito dele, sedutoramente.
— Não posso demorar...
— Tudo bem, posso ser rápida sob pressão, senhor
Alonzo.
— Lunna, não posso...
Beijo-o antes que ele continue.
CAPÍTULO 16
LUNNA
— Estou excitada desde ontem, Múmia,
faça algo rápido... — sussurro contra sua boca, mordendo
seu lábio inferior, provocativa. Seus olhos são como
mercúrio líquido ligado aos meus. Vejo seu vacilo e desço
mais meus dedos por seu abdome, até o cós de seu jeans.
— Tenho de voltar, Selene pode acordar — sem
convicção nenhuma ele fala, mas também não se move
para sair ou acabarmos logo com essa vontade de agarrar
um ao outro.
— Ela dorme cedo assim? — converso, beijando
sua mandíbula onde a barba desponta, arranhando de
forma sexy meu rosto.
— Sim, mas chega disso, tenho de estar lá caso...
— Depois — sussurro, minhas mãos desfazendo o
cinto e o botão da calça — Você está perdendo tempo.
Esfrego toda sua rigidez por cima da calça, e ele
suspira. Aproveito para colar minha boca outra vez na
dele.
Ele não me beija de imediato, e forço meus lábios
nos dele, persuasiva. Ele resiste apenas alguns segundos,
logo me agarra pelos cabelos curtos e desliza
deliciosamente sua língua devassa entre meus lábios. Ele
me empurra, fazendo-me caminhar para trás, e instantes
depois estou sendo empurrada contra a parede. Ele age
rápido com minha toalha, desfazendo o nó, e fico nua
diante dele
Eu o quero perto, colado a mim, então agarro com
as duas mãos sua bunda até estarmos peito a peito. Ele
devora minha boca. O beijo tira meu fôlego, a saudade de
beijá-lo é tanta que agora esse beijo tem um sabor divino.
Nossos lábios tiram tudo um do outro. Estamos respirando
freneticamente quando ele se afasta para me olhar,
faminto. As íris cinzentas estão cintilantes.
— Está achando que pode me dominar, pequena
duende? — ele reclama, fazendo-me rir de sua tentativa
de me intimidar.
Ele segura minha garganta, fazendo um ofego sair
dos meus lábios. Durante o beijo, eu tinha soltado sua
bunda sexy para segurar seus bíceps, e enterro minhas
unhas neles.
— Por que veio, Luc? Não acredito que foi apenas
para me recriminar. Diga-me, foi para isso que veio?
Em vez de responder, ele desce uma das mãos,
englobando meu seio dolorido, e sou engolfada por ondas
quentes de prazer quando a palma pressiona o bico
eriçado. Gemo quando ele se afasta por dois segundos,
que eu acho que é o tempo de ele baixar seu jeans apenas
um pouco, e ele volta segurando por baixo da minha bunda
e me levantando no ar. Ele entra em mim com firmeza
surpreendente, como se tivesse perdido o próprio
controle.
A pequena dor do impulso se desfaz quando sou
preenchida por seu pau. Oh, céus, senti tanta falta disso.
Dele, do seu corpo magro, musculoso e duro, de nossas
provocações. Eu amo estar assim, completamente cheia
dele. Estou viciada na Múmia, Cristo amado! Estou
derretida, eu mesma me sabotei com essa minha história
com Luc. Apenas uma noite? Duas? Eu disse isso a mim
mesma no início? Ah, essa história, desde o começo, foi
uma furada, mas estou amando cada vez mais tudo isso.
A boca de Luc faz um caminho de beijos em minha
garganta, e tudo acende dentro de mim quando ouço seu
sussurro rouco, cheio de desejo cru. Arrepios de prazer
perpassam por mim.
— Estou tão ferrado por sua causa, querida — ele
recua e me penetra forte outra vez, arrancando um gemido
alto da minha garganta— Estou tão ferrado por você, que
estou arriscando tudo vindo aqui.
Depois dessa declaração ele se torna mais voraz,
penetrando meu corpo com impulsos fortes. Gemo,
enlouquecida, jogando a cabeça para trás, meu corpo
curvando-se de puro prazer. Luc abocanha meus seios
empinados em sua direção, e os acaricia com a boca com
a mesma intensidade que me fode contra a parede.
Estamos só a alguns passos da cama, mas o desejo que
nos consome é tão urgente que optamos por saciá-lo ali,
em pé.
Seguro seu pescoço forte, gemendo, quando sinto o
prazer se alastrar por cada polegada do meu corpo. A
energia sexual que emana dele parece me possuir
completamente.
Luc acelera mais seus impulsos e esconde seu rosto
no meu pescoço, gemendo meu nome. Sua respiração
acelerada, soprando quente em minha pele, me excita e
indica seu descontrole, e já posso sentir seu gozo se
aproximando junto com o meu.
E ele atinge a nós dois como uma violenta onda.
Estremeço quando ele morde meu pescoço no ápice do
seu prazer, pressionando forte seu corpo contra o meu,
como se quisesse entrar mais fundo, e sinto cada pulsar do
seu pau enquanto se derrama dentro de mim.
Luc abotoa a calça, ainda me olhando com ar de
desejo malsatisfeito e fazendo com que eu aperte minhas
coxas uma contra a outra. Acho que gozamos cedo e
rápido demais. Não posso acreditar que irei passar mais
uma noite rolando na cama, desejando esse ogro
delicioso.
Faço uma leve careta de desgosto para ele e recebo
apenas um levantar de sua sobrancelha esquerda. Ele
voltou a ser o cara carrancudo de antes? Que mau humor!
— Venha amanhã, Lunna— ele ordena, com esse
jeito mandão que adota às vezes, me fazendo suspirar
agora, e não é de desejo. Ele sabe me irritar com esse tom
autoritário — Você pediu por isso, agora não corra
quando quero dar um passo a mais no que nós temos —
ele aponta entre nós. Jesus, abduziram Luc Alonzo no
Rio?
— Não estou correndo, estou sendo cautelosa e
sensata com toda a situação que não é fácil para você,
Luc, sabe disso — pego a toalha no chão e me enrolo com
ela de novo. — E assim, do nada, resolveu dar um passo?
— Não é do nada, Lunna. Se minha filha vem morar
comigo, não posso ficar dormindo com você escondido
como criança.
O quê? Eu não estou entendendo essa súbita
mudança. Não estou reclamando, longe disso, mas é
estranho. Isso é!
— Selene vai gostar de você, tenho certeza — ele
acaricia meu rosto lentamente e encosto minha bochecha
em sua palma. Estou uma gatinha ronronando.
— Se você insiste tanto, ok, não gosto de vê-lo
chorando, Múmia — brinco — Gosto de vê-lo fazendo
algo mais quente.
— Tenho de ir — ele beija rapidamente meus lábios
— Não quero que Selene acorde no meio da noite e não
me encontre lá.
— A Marta ficou com ela, não é? — pergunto,
preocupada.
— Sim. Mas Selene dormiu cedo, passar o dia na
piscina a cansou, e a viagem deve ter ajudado. Ela adorou
a piscina, não sabia que Amélia não permitia que ela
fosse à piscina do prédio. — fala, com desgosto.
— Quer mesmo que eu vá? — indago, tentando tirar
seus pensamentos sobre a ex-sogra.
— Faça o que achar melhor, Lunna. O convite está
feito. Durma bem.
Ele não espera resposta e sai fechando a porta
suavemente. Eu fico em pé no quarto, ainda tentando
reunir forças e ir para a cama.
No dia seguinte, trabalho apenas na parte da manhã
e à tarde eu paro o carro na frente da casa de Luc.
Tomando coragem, desço e caminho a passos lentos para a
porta da frente.
Meu receio não se origina de uma possível rejeição
de Selene, isso eu posso administrar. O problema todo da
minha covardia é sair da vida de Luc por causa disso.
Estou gostando do homem, o que posso fazer? Não era
para ser assim, mas sou uma romântica que procura seu
príncipe, igual minhas melhores amigas. E se Selene me
odiar, serei posta de lado por Luc. Ele não vai arriscar a
ter o desafeto da filha por causa de uma mulher, e isso me
afeta tanto que trava minhas pobres pernas, me impedindo
de seguir em frente. Não me reconheço.
Me dou um tapa mental por minha bobagem e toco a
campainha. Por que não me avisaram que se apaixonar te
torna vulnerável e uma vida de confiança em si mesma
pode ser abalada por causa desse amor? Não que eu ame.
Estou apenas sentindo os arroubos da paixão. Sorrio e
sinto-me mais aliviada por caçoar de mim mesma nessa
minha ladainha sem pé e sem cabeça. Lunna louca.
Marta aparece logo depois.
— Ei, Marta! — abraço a governanta.
— Menina, não veio mais aqui — devolvendo meu
abraço calorosamente, ela acena para que eu entre —
Venha, seu Luc está na piscina. Já conheceu a pequena
princesa?
— Não.
— Venha, vamos até lá. Espero que esteja com
fome, fiz almoço e irei servi-lo daqui a pouco. — Ela
toma o caminho para fora, e eu a sigo. Eu paro na sacada
que leva à piscina gigantesca da casa de Luc, quando vejo
os dois ao lado da piscina. Riso infantil e a risada
máscula de Luc enchem o ar. Ele não mentiu quando disse
que ela adorou a piscina. Ele me vê parada, olhando-os, e
abre um sorriso.
CAPÍTULO 17

LUC
Vejo Lunna parada, ainda hesitante, e sorrio,
a incentivando. Ela parece fofa nesse modo inseguro.
Tenho vontade de pegá-la no colo e... Bem, fazer algo
nada fraternal com ela. Posso estar enganado, mas Selene
não vai se opor a ela, Lunna tem esse carisma que atrai,
faz com que as pessoas gostem dela sem nem mesmo se
dar conta do fato. Sou um caso vivo disso. Estou cada dia
mais louco para estar com ela.
Selene segue meu olhar e passa a observá-la
também. Hoje, mais cedo, eu conversei com ela sobre a
possível visita de uma amiga que quero que ela conheça.
Ela não demonstrou nenhum indício de não querer alguém
por perto, apenas disse:
— Só tenho uma amiga — ela disse, pensativa — A
vovó sempre me deixava na casa da Emily, mas aqui não
tenho nenhuma.
Ela cutucou a borda da espreguiçadeira e voltou
aqueles olhos cristalinos e inocentes para mim.
— Sua amiga é legal?
— Ela é, sim, todos os meus amigos são legais, em
breve conhecerá todos, assim como conheceu seus avós
ontem. — disse e puxei levemente uma mexa de cabelos
loiros, molhados pela água da piscina.
— Eu gostei deles — ela falou simplesmente, como
se fosse antinatural gostar de seus avós — Papai?
— Sim, princesa. — ouvi-la falar assim ainda faz
meu coração falhar uma batida.
— Por que a vovó Amélia diz que sou uma
vergonha para você? Que não tinha outros avós porque
você tinha vergonha por eu ser sua filha? — perguntou,
tímida.
— Filha, já não falamos sobre isso? Sua avó
Amélia fala um monte de coisas que não é verdade. — a
trouxe para sentar em meus joelhos, ela ainda não ficava à
vontade quando tento ser carinhoso com ela. Beijei seus
cabelos e envolvi seu corpinho em um abraço. Depois
cutuquei suas costelas até ela estar rindo
descontroladamente e se contorcendo — Você é minha
filha favorita, pequena sereia.
Levantei com ela nos braços e pulei na piscina com
ela. Seu grito alegre me fez rir junto, quando subimos à
tona.
— Amo você, bebê. — a tensão anterior foi
esquecida quando brincamos na água.
Volto à realidade quando vejo Selene apontar em
direção à Lunna.
— Quem é ela?
— Minha amiga, Lunna. Tenho certeza que você vai
gostar dela, ela é mais criança que você, princesa. E ela é
uma amiga especial.
Aceno para Lunna se aproximar. Por que diabos ela
hesita?
— Ei, vocês! — ela fala quando chega perto. Quero
ir até ela e beijá-la até esse medo bobo evaporar.
— Que bom que veio. Venha aqui, conhecer a
princesa de um país tão, tão distante — gracejo, me
referindo a um desenho horrendo que ela me fez assistir
umas cinco vezes no Rio, semana passada — Selene, essa
é Lunna.
— Olá, Selene! — Lunna chega perto dela e toca
nos cabelos loiros, olhando curiosa para ela — Humm,
princesa Fiona, você pintou o cabelo?
As duas se analisam, e o sorriso espontâneo de
Lunna parece encorajar Selene a falar.
— Oi. — sua voz infantil sai tímida.
— Amei conhecer você, Selene. Seu papai queria
muito você aqui — Lunna sorri, e eu aponto para ela
sentar conosco.
— Você tem um maiô? — pergunto, para desviar o
clima sem graça que elas duas estão. Tenho vontade de rir,
elas estão cautelosas. Sei que Selene é tímida demais, mas
Lunna, essa nada tem de tímida.
— Múmia, quem usa maiô hoje em dia? — ela
senta, depois bate a mão na boca, virando-se para Selene
— Desculpe chamar seu pai de múmia, mas ele me
provoca. Não que você seja uma mumiazinha também,
sendo filha dele, longe disso. Você é muito bonita.
— Meu pai é bonito, também — minha filha me
defende das graças de Lunna, fazendo-me sorrir para ela,
orgulhoso.
— Tenho de concordar com isso — ela pisca para
Selene — Está gostando daqui?
Selene me olha e assente. Isso é um bom sinal,
porque quando eu tivesse sua guarda, não haveria uma luta
para trazê-la para cá. Eu olho as duas começando a
conversar. Na verdade, Lunna puxando assunto e fazendo
perguntas a Selene. Meus pensamentos vão para ontem à
noite, quando meus pais vieram e Selene teve o mesmo
comportamento, aceitando as pessoas mais fácil do que eu
imaginei um dia. O que me leva a pensar que ela era
apenas carente de afeto. Meu peito dói de saber que ela
estava sufocando naquela casa e ficando com o mesmo
tipo de personalidade mesquinha de Amélia. Mas bastou
um pouco de minha atenção e ela começou a florescer
como um botão de rosa com os primeiros raios de sol.
Elizabeth me aconselhou a levá-la para um
psicólogo. Sei que tenho de fazer isso, mas olhando-a
desabrochar assim, com meu carinho, talvez ela nem
precise de acompanhamento especializado. Ela é apenas
uma criança precisando do amor das pessoas ao redor, e
sua aceitação aos meus pais ontem só prova isso.
— Você não teve medo? — volto minha atenção à
conversa delas.
— Não, meu pai estava lá — Selene diz — E agora
sou a capitã do navio, quer dizer, do barco — ela se
corrige rapidamente quando diz que nosso barco não é um
navio. Percebo que está contando sobre o passeio de
barco. — Tenho até o chapéu.
— Caramba, eu nunca velejei! Você é uma sortuda,
Selene, de ter um pai capitão de barco, e ainda tem um
quepe? Poxa!
— É. Papai? — Ela vira para mim — Podemos ir
no barco outra vez? A Lunna pode ir junto? Ela nunca foi
capitã.
— Claro, querida, vou levar as duas, um dia. Mas
claro, se forem amigas— conspiro, piscando para Lunna.
— Vamos ser as melhores amigas, não é, Selene? —
Lunna se inclina para frente e cochicha alto o suficiente
para o planeta escutar: — Eu tenho duas melhores amigas,
mas não diga a elas que você vai ser minha preferida.
Você vai gostar da Gaby e da Julie. A Julie tem uma filha,
sabe, a Isa é minha afilhada...
Ela começa a tagarelar, roubando a atenção de
Selene para ela. Eu sabia que ela ia cativar imediatamente
sua afeição, ela é tão natural. Eu apenas fico olhando as
duas juntas, elas poderiam muito bem ser mãe e filha. As
duas são loiras.
Pouco depois, Marta vem empurrando um carrinho
com nosso almoço e começa a colocar na mesa baixa
entre os guarda-sóis, onde estamos sentados, na beira da
piscina.
Levanto e estendo a mão para Lunna e faço que
levante também, quando ela coloca a mão na minha.
— Venha trocar de roupa. Selene, voltamos já.
Marta, fique de olho para que esta pequena sereia não vá
para a parte profunda da piscina.
— Claro, seu Luc. Lunna, querida, acho que você
tem um biquíni esquecido no quarto do...
— Pode deixar que acho — Lunna corta o rumo da
conversa de Marta, e ela cora quando percebe que não
vamos dizer a Selene que somos mais que amigos, não
ainda.
— Oh, claro. Fico de olho em Selene, que vai me
ajudar a colocar a mesa, não é, querida?
— Humhum — ela responde, mas está olhando para
minha mão na de Lunna. Essa minha filha não é tão boba
assim.
Coloco a mão na base das costas de Lunna e a guio
para dentro de casa. Ela deve ter deixando algo dela por
aí, ela já esteve aqui o suficiente para deixar pequenas
coisas. Mas eu não estou sendo cavalheiro à toa, eu quero
apenas prová-la antes que eu a beije na frente de Selene
A primeira coisa que faço, quando bato a porta do
meu quarto para fechá-la, é pressioná-la contra ela.
Empurro-a contra a madeira, agarro seus braços e
pressiono-os acima da sua cabeça. Capturo seus lábios,
mergulhando minha língua em sua boca, impedindo que
ela comece algum discurso sobre o que estamos fazendo,
com Selene tão próximo. Continuo a beijá-la, e sinto
quando seu corpo aceita minha investida dura. Estou
viciado nela. Eu preciso tê-la, mais e mais. E essa
frustração só faz aumentar minha luxúria. Meu sangue
viaja todo para o sul. Ela pertence a mim de todas as
maneiras que importa. Ondas de possessividade me
tomam quando penso nela sendo minha, apenas minha.
— Quero fazer amor com você — sussurro, rouco,
contra sua orelha.
LUNNA
— Luc, pare — protesto, tentando sair do aperto
tentador de Luc, mas meu protesto sai tão sem convicção e
fraco que me causa vergonha.
— Preciso disso.
Então ele se inclina de novo e me beija novamente.
Todo pensamento coerente me deixa, quando sinto o gosto
dele outra vez pressionado contra o meu e seu pau duro
cutucando em minha barriga. Quero me esfregar nele como
uma gata selvagem. Nós temos o péssimo habito de fazer
essas coisas nas paredes, temos o quê? Algum parentesco
com lagartixa? Adoramos as paredes. Gemo e empurro
seu peito duro para longe.
— Vamos voltar — digo, ofegante. Não quero
roubar os momentos de pai e filha me atracando com Luc
pelos cantos, furtivamente. — Vou caçar meu biquíni e já
encontro vocês.
— Posso trabalhar rápido, você sabe — ele
empurra seu quadril para frente, e gemo involuntariamente
quando o sinto longo, grosso e muito duro contra mim.
— Não.
— Não demore muito — ele diz, por fim, se
afastando. Tento passar por ele, mas sua mão me impede
quando segura meu braço, puxando-me outra vez para um
beijo escaldante. Depois sai, deixando-me no meio do
quarto, cheia de desejo não satisfeito.
Saindo da névoa de desejo, abro o closet do quarto
dele. Devo ter deixado alguma roupa de banho por aqui,
penso. Dez minutos depois, estou vestida com um biquíni
e voltando para a piscina.
Meu medo sobre Selene é infundado, ela é um amor,
ao menos até agora, que ela acha que sou amiga de Luc.
E isso é posto à prova uma hora depois que volto à
piscina e nós três estamos almoçando em um clima
tranquilo. Ela é tímida demais e quieta, acho que talvez
seja sua personalidade, igual ao seu pai, ou não; Luc está
me saindo um grande fanfarrão.
Quando estamos quase no fim de nossa refeição,
Luc recebe um telefonema de um dos seus amigos, Adam
ou Nic, não sei, e ele se afasta um pouco para falar,
deixando apenas eu e Selene na mesa. Ela não demora
dois minutos para virar seus olhos cinzentos para mim.
— Você é namorada do meu pai? — de onde veio
isso? Como dizer para uma garotinha que estamos
"papando" seu papai?
— Por que pergunta isso? Somos amigos, querida
— ela me olha atentamente, como se estivesse me
testando. Me inclino para frente, mudando de assunto —
Seu pai é um homem especial, querida, e quer muito que
venha morar aqui com ele. Você gostaria disso?
— Talvez — ela dá de ombro — Acha que minha
avó viria morar aqui?
— Isso preocupa você, deixá-la sozinha lá? — ah,
não, por que estamos indo por esse caminho, já? Meu
Deus, como sou abelhuda e intrometida! Mas esse
pensamento não me impede de continuar. Minha vontade
de ajudar esses dois atropela todo bom senso. — Seu pai
precisa de você com ele, querida.
Ela olha na direção de Luc, que está do outro lado.
— Mas eu não posso morar com ele — ela enfim
diz, cortando meu coração pela voz desalentada. Será que
Luc não percebe o quanto ela quer vir ficar com ele? Isso
para mim é óbvio — Ele seria preso se eu viesse. Minha
vó Amélia que disse.
Um dia conhecerei essa mulher e darei uns bons
sopapos nela.
— Claro que não! Quando o juiz determinar que
venha morar aqui, nada de mal acontecerá ao seu papai.
— toco sua pequena mão — Garanto a você.
Ela não parece acreditar muito em mim. E eu mudo
outra vez o rumo da conversa.
— E sua escola?
— Legal — ela torce a boca e não fala mais nada.
— Não gosta da escola?
— Eu fugi da escola e um carro me atropelou —
conta. Seria esse o motivo ou teria outro?
— Ah, é? Por que fugiu? Ia para onde? — sondo.
Sei que ela não contou para Luc o motivo de ter tentado
fugir naquele dia.
— Eu não queria mais ouvir as brigas da vovó com
meu pai. — Ah, coitada — A vovó disse que meu pai iria
me visitar, e sempre que ele vai tem muitos gritos da
minha vó e do meu pai também, às vezes. Ele grita, e eu
não gosto. Eu não queria estar lá quando ele chegasse.
Ela parece uma adulta falando essas coisas, e fico
tão triste por essa garota. O que sua mãe fez com ela?
Deixar sua filha aos cuidados de uma adulta egoísta que
não tem um pingo de amor no coração pelo seu próprio
sangue.
— Ah, querida, adultos são complicados, mas eu
tenho certeza que você pode confiar no seu pai. — eu não
quero, de cara, ter esse tipo de conversa com ela. Mas
noto a carência nela que chega a ser absurda, afinal, ela
tem uma figura feminina morando com ela, mas parece que
viveu sozinha no mundo em tão tenra idade. — Ele ama
você, Selene.
Ela não diz nada, apenas bebe seu suco que estava
esquecido sobre a mesa. Depois me olha.
— Mas você é namorada dele ou não? — O quê?
Que danada insistente, ela não esquece isso? Seus olhos
estão atentos, curiosos e um tanto sorridentes. Acho que
encontrei a pequena múmia feminina. Bem, não nega ser
filha de quem é.
— Eu até gostaria de namorar — eu digo,
conspiratória. — Mas...
— O que as duas estão falando? — a voz de Luc faz
nós duas pularmos no lugar.
— Nada! — falamos juntas, e acabamos rindo.
— Ah, não! — o gemido de Luc me faz rir mais —
As duas estavam, por acaso, falando de mim?
— Logicamente que não, Múmia! — retruco,
piscando para sua filha.
— Ah, mas eu tenho certeza que estavam, sim. —
Ele se aproxima e coloca o celular na mesa, ficando em
pé na nossa frente. Luc pega na mão de Selene e na minha,
fazendo nós duas ficarmos de pé — Certo, agora eu quero
um abraço coletivo.
Só percebo sua intenção quando é tarde demais. Ele
pega nós duas pela cintura e pula na água. Filho da mãe!
Xingo em pensamento, quase sufocando com a água.
Quando volto à tona, Selene está sendo colocada
sentada na borda e Luc ao lado dela, rindo.
— Isso não se faz! — nado para perto deles e tento
puxar Luc para baixo. Oh, inferno, ele nem se mexe.
— Você é horrível!
Eu irei me vingar, ele que me aguarde.
CAPÍTULO 18

LUNNA
— Múmia sem graça! — resmungo,
furiosa.
Sento ao lado de Selene na borda e fulmino Luc com
meu olhar "me aguarde, Matusalém". Ele ri, conhecedor,
sabe que irei pegá-lo de jeito. Estou pensando em uma
forma de afundá-lo na piscina, quando escuto a vozinha
infantil, totalmente inocente, me tirando da névoa de
vingança.
— Eu gosto da Lunna, ela é divertida — ela me
olha, e seu pai acompanha seu olhar.
— Ela é.
— A Lunna disse que queria...
— Queria empurrar você na piscina — corto. Estou
enganada ou essa danadinha ia fofocar, dizendo que eu
quero namorar seu pai? — Selene, fofíssima, que tal
irmos tomar um sorvete, eu e você, lá na cozinha? A Marta
tem potes enormes lá.
— Oba! — grita, entusiasmada.
Ela levanta tão rápido, que temo que ela caia na
piscina de novo, e segue em direção à casa. Humm, ela
tem uma queda por sorvete, hein!
Começo a segui-la, quando a mão de Luc me para.
— Seu medo era infundado com relação a ela. Ela a
cada dia só melhora comigo — ele aponta, e volto a
sentar.
— Ela é um amor, Luc. E precisa apenas de carinho,
e certamente você está mostrando para ela que se importa,
e ela está apenas revelando a verdadeira Selene, não
aquela garota que parecia odiar você. Ela só queria a sua
atenção.
— Talvez esteja certa. — ele me olha, e seus olhos
suavizam — Você está parecendo uma gatinha molhada.
— Você ainda quer suas bolas? — estreito meus
olhos para ele.
— Ah, não tenho mais, lembra? Eunuco não tem
bolas, gatinha molhada — ele me provoca, subindo a mão
por minha perna. Arrepios acompanham o deslizar dos
dedos dele em minha pele.
—Lunna, olha o sorvete! — Selene vem,
acompanhada de Marta e um pote de sorvete.
— Deus, eu preciso de um quarto — Luc geme,
frustrado.
— Bem feito, eunuco! E vai me pagar por me jogar
na piscina.
— Mal posso esperar!
Passamos o resto da tarde nos divertindo, e quando
estou saindo, um pouco mais das oito da noite, para ir
para casa, sinto a garganta dolorida. Parece que estou
saindo de casa e deixando parte do meu coração aqui.
Esses dois vão acabar comigo.
— Você mora onde, Lunna? — a pequenina, dona do
meu coração, pergunta quando dou um abraço nela em
despedida.
— Não muito distante daqui, querida, mas amanhã a
Lu tem de trabalhar, então tenho de ir. — beijo sua face e
levanto para encontrar o olhar de Luc em nós. Dou um
sorriso sem graça e digo:
— Bom, adorei conhecer você, Selene — mexo no
seu cabelo e recebo um aceno de cabeça.
— Devia ficar no quarto de hóspede — Luc fala, me
surpreendendo, mas declino do convite, eu não teria
forças de ficar toda comportada, dormindo debaixo do
mesmo teto que ele. Certamente fugiria furtivamente para
seu quarto, no meio da noite.
— Tchau, querida.
— Tchau!
Luc me acompanha para fora, deixando Selene na
sala. Caminhamos lado a lado, em silêncio, porque se há
uma coisa que nós dois queremos hoje, é estar em uma
cama gigante, e não precisamos nem falar, isso exala de
nós dois. Ficamos a noite toda trocando olhares quentes
por cima da cabeça de Selene, e isso agora só parece
pior.
— Deveria levar você para sua casa — ele também
parece estar pesaroso com minha ida.
— Não precisa, Luc, está tudo bem — paro ao lado
do carro e viro para ele, que está tão perto que ficamos
praticamente colados. — Vejo você por aí.
— Irei levar Selene a um passeio no aquário de São
Paulo, por que não vem conosco?
— Luc, esse momento é de vocês...
— Quero que venha, será divertido.
— Luc, eu não sei se isso é uma boa ideia, eu me
envolver assim — respiro fundo — Eu não sou tão forte,
vou acabar me apegando demais ao dois e...
— Isso seria ruim?
— Luc! — meu tom sai cheio de reprimenda. Ele
não percebe que isso parece um convite para termos algo
sério?
Só que sei que isso pode não acontecer. Ah, Deus,
isso me deixa louca!
— O quê? — ele dá um passo para frente, e eu
acabo escorada no carro — Você não acha que sirvo para
a grande Lunna Maia?
— Não é isso. Só não acho que seja o momento
para termos essa conversa e Selene precisa de você. —
levanto a mão e acaricio o rosto dele, a aspereza da barba
por fazer me causa arrepios — Tudo bem, vou ao passeio,
mas porque eu adorei sua filha, não por causa de você.
— Claro que sim. Ela, com certeza, gostou de você
também — ele segura meu rosto com as duas mãos e leva
o seu rosto para próximo do meu — Devia ficar no quarto
de hóspede.
— Você está muito interessado nisso — digo, rindo,
desconfiada que não sou a única com o pensamento de se
esgueirar no meio da noite.
— Eu? Estou pensando no seu bem-estar, querida —
ele prende meu lábio inferior entre os dentes, puxando
suavemente — Acho que seria mais seguro ir amanhã.
— Tão cavalheiro!
— E você devia calar essa boca impertinente e me
beijar. — ele fala, antes de tomar minha boca em um
beijo. Estou tremendo quando ele me larga. Entro no carro
e sigo para casa. Hoje seria mais uma noite longa.

— Quanto tempo ela pode ficar? — pergunto para


Luc, dois dias depois que conheci Selene. Agora estamos
os três no Aquário de São Paulo, em um dia de diversão
para Selene, que nesse momento tem o olhar vidrado no
urso polar. Ele me convidou novamente na manhã seguinte
para vir com eles, apesar dos meus protestos, porque
acredito que os dois sozinhos se divertindo é o certo, mas,
para ser sincera, estou amando passar o dia aqui com eles.
— Uma semana é o máximo, e ela tem a escola —
Luc responde minha pergunta. A consternação em sua voz
me faz voltar meu olhar para ele. Sua tristeza faz esse ar
soturno dele mais evidente. Eu sempre o achei frio e
distante, e impliquei ao extremo com isso, até pus
apelidos ridículos nele. Agora, talvez, eu compreenda de
onde vem esse ar inatingível e frio.
— Sabe que ela sentirá sua falta quando a deixar lá,
não é? Que vai ser duro para ela?
Ele não responde, mas sua mandíbula aperta tanto
que tenho receio de ter sido invasiva demais com essa
pergunta. Ele apenas olha perdido para Selene, e meu
coração dói por esses dois. Por que a vida tem que ser tão
cruel com eles? Por que a justiça tira de um pai o direito
de ter de viver ao lado dos filhos dessa forma? Selene é a
que mais sofre no meio dessa guerra entre Luc e a ex-
sogra.
— Lunna! Papai — o gritinho feliz de Selene chama
nossa atenção para ela. — O urso é enorme, vem ver! Tira
uma foto, papai!
— Já vamos, amor — digo, sorrindo, deixando um
pouco a tensão de lado.
Depois de sair do aquário, vamos jantar em um
restaurante, e a hiperatividade incomum de Selene é muito
gratificante, ela não para de pular para cima e para baixo,
com entusiasmo.
Estamos na mesa há meia hora, vendo Selene
devorar seus hambúrgueres com ímpeto, como se tivesse
comido há uns cem anos. Sob meus protestos, ela pediu
hambúrguer, e esse pai dela, que não nega nada, permitiu.
Criança não deveria comer isso no jantar. Ou melhor, hora
nenhuma.
— Lunna, você deveria comer um pedaço, está
olhando o de Selene — Luc me provoca, e eu apenas vou
anotando para minha vingança.
Luc está ao meu lado, praticamente colado a mim.
Isso causa um olhar atento de Selene. Ela já me fez corar
dois dias atrás, na piscina, quase dizendo ao seu pai que
eu quero ser a namorada dele. Essa garota vai ser terrível,
no bom sentido, claro. Eu já estou completamente
apaixonada por ela.
Disfarçadamente, deslizo minha mão para baixo e a
coloco na coxa musculosa de Luc. Me inclino na mesa e
chamo a atenção de Selene para mim, enquanto mantenho
meu braço para baixo, longe de sua visão.
— Você quer mais alguma coisa, querida? —
pergunto, amorosa, fazendo-a corar com o carinho. Ela é
tão suscetível a qualquer afago. Minha mão desliza,
acariciando Luc, e ele agarra tão rápido minha mão que
acho que vai quebrar.
— Ai! — gemo exageradamente.
— Está maluca? Me apalpando em público! — ele
esbraveja no meu ouvido, acho que ele não achou muita
graça. Me dá vontade de rir, seu desconforto é grande.
Segura essa, múmia!
— O que vocês estão cochichando, papai? — a
curiosidade de Selene me faz rir, querendo saber como ele
se sairá.
— Nada, filha, estou apenas dizendo para Lunna
parar de cobiçar seu sanduíche.
— Você quer, Lunna? — ela oferece.
— Obrigada, querida, você é um amor.
— Tudo bem.
Quando demos o dia por encerrado, ele me deixa
em casa primeiro. Encontro vários recados de Julie na
minha caixa postal do celular, e percebo que aqueles dois
me fizeram esquecer o celular por um dia inteiro.
Julie quer saber por que não me comuniquei o dia
todo e por que faltei ao encontro semanal no Apollo.
Caramba, eu esqueci!
Ligo para ela e sou atendida imediatamente.
— Lunna, onde estava? Ficamos preocupadas!
— Ah, eu tive que trabalhar e não olhei o celular.
Desculpe, querida!
— Por que não acredito em você?!
Continuamos conversando por um tempo e depois
me despeço, indo tomar um banho e tentar dormir melhor
hoje.
LUC
— E o processo, Elizabeth? Preciso que isso
caminhe rapidamente — estou com Elizabeth ao telefone,
pois depois da conversa que tive mais cedo no aquário,
com Lunna, fiquei inquieto desde então. Selene está me
surpreendendo demais com a facilidade de me aceitar e às
poucas pessoas que eu a apresentei. E quando eu a deixar,
daqui a três dias, com Amélia, vou magoar minha filha
mais uma vez. — O que posso fazer para isso caminhar
mais rápido?
— Luc, estou fazendo tudo que posso, mas só se
passou duas semanas desde que entrei com o novo
processo, tenha um pouco de paciência. Como ela está na
sua casa?
— Melhor do que eu poderia imaginar. Selene
parece que viveu comigo a vida toda. Ela está feliz,
Elizabeth, não quero levar minha filha de volta para viver
naquele inferno.
— Eu sei, mas se você se precipitar pode dificultar
tudo. Amélia é uma pessoa venenosa, percebi pelo pouco
contato que tive. — ela suspira. — Tenha mais um pouco
de calma. Sabe que, no Brasil, a justiça é lenta.
— Não funciona, você quer dizer — digo, irritado
— Poderia não levar mais ela e você poderia alegar maus
tratos, porque é isso que ela sofre enquanto o processo
não anda.
— Vou entrar amanhã com uma ação de tutela
antecipada, mas eu preciso de provas comprobatórias de
que Selene sofre psicologicamente vivendo com a avó.
Um parecer de um psicólogo pode comprovar a alienação
parental, e isso é apenas o começo, Luc.
— Faço o que tiver de fazer, não importa. Eu não
vou levá-la de volta.
— Pense antes de agir, se você der uma razão para
sua ex-sogra, ela não terá escrúpulos e vai usar tudo
contra você.
Falamos por alguns minutos, e quando desligo, estou
precisando de certa espertinha. Ela está em casa, onde a
deixamos na volta do passeio de hoje. Preciso dela. São
nove da noite e tenho certeza que uma visita não fará mal
a nenhum de nós dois. Ela me atormentou o dia inteiro
com toques aqui e ali. Provocadora! Sabia que não faria
nada na frente de Selene, mas minha filha não é boba.
Toda vez que estamos os três juntos, ela tem esse olhar
divertido, parece saber que escondemos algo dela. Acho
que não seria má ideia dizer para ela que somos... O que
diabos somos mesmo?
Caminho até o quarto de Selene e vejo que ela está
dormindo. Sorrio. Ela cansou hoje. Estava eufórica
olhando os animais, não parou um segundo. Fecho a porta
do quarto e volto para a sala de descanso de Marta. Ela
está sentada, vendo tv, quando entro.
— Você precisa de alguma coisa? — ela sorri,
prestativa.
— Na verdade, sim, eu preciso sair por algumas
horas — digo — Você poderia ficar de olho em Selene
para mim?
— Vá tranquilo se divertir, seu Luc, eu tenho certeza
que ela não acordará até amanhã. — ela desliga a TV e
me segue para fora — De qualquer maneira, irei ficar por
perto. Vá, dona Lunna deve estar impaciente.
— Vou apenas me encontrar com os caras para um
drink — minto, e ela ri.
— Sei, sim, senhor. Dê lembranças minhas aos
meninos — ela diz, referindo-se a Nicolas e Adam —
Mas tenho certeza que você não os verá hoje.
Começo a sair, quando ela diz:
— Vocês dois deviam casar e fazer essa criança
feliz. Ela precisa de um lar, seu Luc, e Lunna parece ser
uma mulher muito amorosa, daria uma ótima mãe para sua
filha. Mas essa é apenas uma sugestão de uma velhota
boba romântica.
Casar?
— Você não é velha, Marta. Estou saindo. Qualquer
coisa, ligue.
Saio, e o que ela disse martela na minha cabeça.
Casar? Com Lunna? Que ideia!
Chego em seu apartamento e bato. Um minuto mais
tarde, a porta é aberta por ela, que fica claramente
surpresa por me encontrar ali.
— O que aconteceu?
Escoro meu ombro no limiar da porta, cruzando
meus braços.
— A pergunta não é essa. A questão, minha querida,
é o que vai acontecer.
— Ah!
— Me convide para entrar.
— Você por acaso assistiu Crepúsculo? Só
vampiros que precisam de convite. Além disso, já entrou
aqui antes sem esperar meu convite.
— O que é isso? O único crepúsculo que já vi é o
ocaso e o anoitecer. Fale minha língua. — entro, fechando
a porta atrás de mim. Quero prolongar e torturá-la por ter
me provocado o dia todo, mas não consigo me controlar.
E simplesmente arrebato-a do chão e sigo para a
superfície plana mais próxima, que por acaso é o sofá. Eu
quero memorizar cada detalhe dessa mulher na minha
mente, cada gemido, seu cheiro doce e viciante, para que
eu possa lembrar, sempre que eu precisar, quando estiver
longe dela ou quando não estivermos mais juntos, e esse
pensamento me deixa insanamente louco.
Colo minha boca na dela, em um beijo avassalador
de sentidos. Sua língua é suave, e eu chupo forte, devoro
cada recanto de sua boa delicioso pra caralho. Ela coloca
as mãos suavemente atrás do meu pescoço e me puxa mais
para ela. Lunna é a mulher perfeita para mim. Ela sabe,
como nenhuma outra, me atiçar.
Eu não tenho tempo para ir devagar, e arranco o
pequeno short rosa do corpo dela.
— Você é incrivelmente linda! — sussurro,
deslizando minha mão por sua barriga plana — Eu preciso
tanto foder você.
— Eu amo isso. Luc?
— Sim?
— Me beija!
CAPÍTULO 19
LUNNA

Monto Luc como se ele fosse meu garanhão


favorito. O prazer queima através das minhas veias como
lavas de um vulcão prestes a explodir. Isso quase parece
irreal. Ele, sentado no sofá, me deixando montá-lo em
busca do meu prazer. Do nosso prazer.
Cada golpe lânguido me massageia por dentro de
uma forma que nunca pensei que fosse possível, e isso
apenas cresce mais e mais. Meus sentidos intensificam, o
prazer flui, até eu começar a tremer com a intensidade das
investidas, agora como uma britadeira, do quadril de Luc,
que abraça minha cintura firmemente para me deixar
parada, recebendo os golpes do seu pau dentro de mim.
Gritos arfantes e incoerentes saem de minha garganta
quando ele me abraça e investe poderosos movimentos em
busca do próprio prazer.
Sinto meu corpo tremer, em êxtase. Luc realmente
sabe como me enlouquecer. Deus, ele é tão gostoso que
chega a ser pecado ser tão quente.
Levanto minha cabeça grogue de seu peito e
distribuo beijos pelo peito duro e masculino. Vou
escorregando pelo seu corpo e deslizo minha boca em sua
pele lisa. A cada toque da minha língua, o sinto
estremecer e seu pau sacode levemente, ainda duro,
inclinado em sua barriga. Ignorando esse pedaço de
pecado delicioso, desço por seu abdome, esse V que me
deixa de pernas bambas, e vou salpicando beijos e
mordidinhas na pele dele, meus olhos em seu rosto. Amo
vê-lo perdendo esse ar frio e se rendendo a mim.
Escorrego até ajoelhar-me no chão ao lado do sofá, entre
suas pernas, contemplando seu belo corpo nu. O homem é
realmente sexy, ele exala pecado por cada poro.
— Vocês, homens, fazem isso de propósito, não é?
— falo rouca, traçando com a língua os músculos talhados
— Sabe que isso deixa a mulherada louca.
— A única que quero louca é você, loirinha — ele
fala, me olhando com pura malícia no olhar.
— Se me chamar disso de novo, eu mordo bem
aqui, Múmia. — inclino-me e passo a língua lentamente
ao longo do seu pau grosso e lindo, da base à cabeça
rosada. Lambo olhando sensualmente para seu rosto. Ele
apenas joga a cabeça para trás, gemendo guturalmente.
Safado, ele não tem medo que eu cumpra a ameaça de
mordê-lo. Ele gosta que o ameace, porque seu pau só
parece crescer na minha mão, longo e deliciosamente
grosso. Amo isso. — Loirinha? Sério?
— Caramba, loirinha, continue — ordena, me
provocando, mas o humor permeia sua voz rouca. Eu não
sou muito obediente, mas tem hora que a submissa
incorpora e eu apenas faço o que ele manda. Afinal, a
noite apenas começou para nós.
Inclino-me novamente e passo a língua mais uma
vez por seu pau. O homem nem parece que acabou de
gozar, pois seu pênis desperta ao toque da minha língua,
como se exigisse o calor úmido de minha boca. Ao chegar
à cabeça de seu pênis, a provoco levemente com a língua,
fazendo-o suspirar. Sem afastar em nenhum momento meus
olhos dos dele, envolvo minha mão ao redor do seu sexo e
guio a ponta para minha boca. A chupo levemente,
observando seus olhos emitindo faíscas de luxúria que
aquecem o meu corpo. Sua respiração começa a ficar mais
pesada, mas quero mais; quero fazê-lo perder-se
completamente por mim.
Liberto a cabeça do seu pau da minha boca e desço
mais uma vez, minha língua fazendo um caminho
prazeroso até seus testículos. Depois de um beijo de boca
aberta, sugando levemente a pele sensível, o provoco com
os dentes, raspando bem levemente, apenas o suficiente
para fazê-lo estremecer e grunhir.
—Porra, Lunna...
—O que foi? Devo parar? — Pergunto,
provocativa, massageando seu pau com as mãos.
Não espero sua resposta; guio seu pênis à minha
boca, consumindo-o pouco a pouco, envolvendo-o, meus
lábios se esticando ao seu redor, minha língua fazendo o
percurso mais prazeroso para ele. E para mim. Dar-lhe
prazer é tão prazeroso quanto sentir o prazer que Luc me
proporciona cada vez que nos entregamos um ao outro.
Em uma sucção firme, ergo minha cabeça
lentamente, enquanto minha língua o acaricia, sentindo
cada centímetro daquela carne rija e deliciosa. Luc geme
alto e agarra meus cabelos, descontrolado, guiando os
movimentos de vai e vem de minha boca sobre seu pênis.
Eu o devoro como se estivesse faminta, acariciando seus
testículos levemente com minhas unhas.
Depois de um momento, Luc tenta me puxar para
longe dele, mas uma das minhas mãos agarra firme seu
pau, recusando-se a deixá-lo.
—Lunna, vou gozar... — ele diz, ofegante, e afasto
minha boca só o tempo suficiente para dizer:
—Quero provar o seu prazer... — e volto a chupar
seu pau.
Luc geme, rouco, apertando meus cabelos. Mal sinto
a dor; estou queimando, consumida em chamas, tão
excitada quanto ele. De repente, seu corpo se tensiona e
sinto seu gozo quente inundar minha língua. Continuo a
acariciá-lo até senti-lo relaxar completamente.
Quando ergo a cabeça, o encontro me encarando
languidamente, a respiração ainda um pouco agitada.
Sorrio, satisfeita, lambendo os lábios como uma gata
saciada.
—Você acabou comigo, loirinha. Acho que merece
uma retaliação. — dito isso, se ergue do sofá e me levanta
junto com ele. Dou um gritinho surpreso quando ele me
joga nos ombros e segue em direção ao banheiro, onde
me faz delirar sob o chuveiro. Maldito tesão acumulado,
estamos insaciáveis!
Depois de nos enxugarmos, caímos na cama,
exaustos. Minha múmia me prende entre seus braços e me
aconchego entre eles, sentindo o calor da sua pele firme.
Ele beija meus cabelos e diz:
— Só mais um beijo e vou embora, loirinha — Luc
passou a noite me chamando disso, que chato.
— Luc, você não é original. Loirinha é a minha avó!
Sem beijos para você!
Ele gargalha e me cobre com seu peso, beijando-
me. Ele me enlouquece e excita.

— Não acredito nisso! — a voz de Luc me acorda,


e eu só o vejo pular da cama e começar a se vestir —
Droga!
— Que foi? Onde é o incêndio? — pergunto,
grogue.
— São cinco da manhã, Lunna, eu dormi aqui! —
ele veste a camisa e senta na cama, calçando os sapatos.
Aproveito e o abraço por trás.
— Isso é ruim? Não vi você reclamando ontem à
noite.
— Deixei Marta de olho em Selene e disse que
voltaria logo. Que merda! E ainda estou aqui, às cinco da
manhã! — ele se recrimina, levantando-se.
— Elas estão bem — digo, mas ele já está a meio
caminho da porta do quarto. Ele para com a mão na
maçaneta e vira para mim.
— Lapso meu ter perdido a noção do tempo. Vejo
você depois.
— Tudo bem — ele sai sem nem mais uma palavra
Levanto, pois não tenho mais sono para ficar na
cama. Sento na sala com uma xícara de café, olhando o
vazio até dar a hora de ir para a clínica. Acho que minha
folga acabou.
LUC
Minha volta para casa é cheia de recriminações
pelo meu lapso. Como pude dormir fora de casa quando
deveria ter voltado? Marta não é a babá de Selene. Sei
que quando ela estiver morando comigo vou ter de
organizar toda minha vida para ela, mas agora isso pode
ter a merda de uma consequência. Que caralho!
E se Amélia tem uma pessoa me espionando e usar
isso contra mim? Passar a noite fora, quando tem uma
criança dormindo sozinha, em casa, pode me comprometer
perante um juiz, apesar de Marta ter cuidado dela durante
a noite, mas eu sei como a mente de Amélia funciona.
Maldição!
Encontro Marta já acordada, na cozinha, mexendo
na panela.
— Bom dia, seu Luc — ela fala assim que me vê,
depois sorri — A pequena ainda está dormindo, se isso é
o que ia perguntar antes de dar bom dia.
— Você tem razão. Eu perdi a noção do tempo,
desculpe, você não é babá de Selene. Não tem de passar a
noite...
— Seu Luc, Selene já é uma mocinha, não é nenhum
bebê que precisa de atenção durante a noite e, além de
tudo, ela não acordou nem nada. — ela me olha
atentamente — Não devia estar com essa ruga na testa, o
senhor é jovem e não está acostumado com uma criança
em casa.
— Obrigado, Marta. — aceno — Vou lá em cima.
Ah, tire o dia de folga.
Ela começa a protestar, mas não dou atenção. Subo
e vou direto para o quarto de Selene. Ela ainda dorme, e
vou para meu próprio quarto. Depois de tomar um banho,
pego meu celular e digito uma mensagem para Lunna, me
desculpando pelo modo grosso como agi com ela.
Vou para meu escritório trabalhar um pouco, tenho
toneladas de trabalho acumulado. Deixo a porta aberta, e
nas próximas duas horas fico concentrado lá, até uma voz
infantil me tirar dos documentos que analiso.
— Oi, papai. — ela ainda está de pijama e toda
descabelada, parada na porta.
— Bom dia, anjo! Você dormiu bem?
— Sim.
— Ótimo. —levanto e a pego de surpresa, quando a
seguro nos braços e a jogo nos ombros, levando-a para
tomar café da manhã. Ela solta gritos surpresos com
risadas enquanto a levo pendurada nos ombros.
— Ah, aí estão vocês — Marta diz, quando
entramos na sala de jantar onde a mesa está posta.
— Não dei folga para você? — digo, quando
coloco Selene em uma cadeira.
— Não tem porquê isso, seu Luc.
— Eu e Selene podemos nos virar sozinhos, não é,
princesa? — pisco para ela e sento à cabeira da mesa.
— Sim.
— Resolvido, Marta, você está dispensada e não se
fala mais nisso!
— E Lunna? — pergunta Selene. Ah, ela também
quer certa loirinha aqui também? Acho que vou sempre
chamá-la assim, quando quiser ter uma noite levando seus
castigos. Porra, não foi à toa que perdi a hora, ela me
esgotou totalmente.
Marta me olha, também sorrindo, esperando minha
resposta. Mulheres!
— Hoje Lunna tem de trabalhar, querida. Não pode
ficar aqui todo dia.
— Ah, mas ela é sua namorada! — ela diz, taxativa,
como se isso fosse motivo suficiente para Lunna estar
aqui. E de onde ela veio com essa história? Será que
Lunna disse isso a ela? Ou Marta? Que diabos!
— O quê? Quem disse isso a você, princesa?
— Ninguém. — ela ataca sua comida, abaixando a
cabeça. Estico meu braço e levanto seu queixo.
— Esqueça essa história de namorada, filha —
Outra coisa que saiu do meu controle. — Lunna e eu
somos amigos.
— Ah...
Ela apenas diz isso e volta sua atenção para seu
prato. Ela está decepcionada? Agora tenho complô nessa
casa? Primeiro Marta, ontem, agora Selene parece triste.
E só faz uns dias que elas se conhecem.
— Seu Luc, acredito que o senhor tem um
problemão — Marta diz, rindo, e aponta para Selene —
Alguém parece triste.
— Marta, você não está de folga?!
— Claro, senhor, estou indo — ela caminha para
fora da sala, ainda rindo.
Viro-me para Selene.
— O que quer fazer hoje?
— Não sei!
— Ok, vamos achar alguma coisa para você.
Estamos terminando nosso café, quando meu celular
começa a tocar e vejo o nome de Elizabeth na tela.
— Bom dia, Elizabeth.
— Temos um problema, Luc — ela vai direto ao
ponto — Sua ex-sogra, ela deve odiar você de verdade.
Ela alegou que você a obrigou a assinar o documento para
levar Selene.
— O quê? — Levanto tão rápido que a cadeira cai
atrás de mim.
— Estou contendo os danos. Ela parece achar que
pode brincar com a justiça, só que isso vai custar mais
caro para ela do que imagina. — Elizabeth fala do outro
lado — E isso pode contar a seu favor, Luc!
— Amélia não tem limites! — vocifero, furioso, e
me contenho quando vejo Selene se encolher e me olhar
de olhos arregalados. — O que quer que eu faça?
— Por enquanto nada, mas pode ser que antes de eu
chegar lá no Rio, uma ordem de prisão para você já possa
ter sido expedida. — ela suspira — Estou tentando tudo
ao meu alcance para que isso não aconteça, estou falando
com todo mundo que eu posso pedir um favor, Luc. Tenho
de ir agora.
— Obrigado — é apenas o que consigo dizer. —
Ligue-me.
— Fique calmo.
— Estou calmo, Elizabeth, muito calmo.
Desligo, e a vontade de jogar a porra do celular
contra a parede é contida apenas pela presença de Selene.
— Está tudo bem, querida, desculpe o papai por
gritar. — ela assente. — Por que não troca de roupa e
vamos nos divertir?
Sem falar nada, ela acena com a cabeça e corre para
fora da sala. Agarro meu cabelo com força e olho para o
teto, tentando conter a fúria.
Chega de Amélia na minha vida, destruindo tudo
com seu veneno.
CAPÍTULO 20

Luc
Sento-me na sala esperando por Selene e
fecho meus olhos, angustiado. O que aquela mulher
pretende? Agora entendo por que ela deu a autorização tão
fácil, ela estava simplesmente planejando aprontar contra
mim. Deveria ter tido mais cautela, mas a vontade de
livrar minha filha das garras venenosas daquela mulher foi
maior.
Selene aparece logo depois, vestida, e seu olhar
assustado corta meu coração.
— Venha aqui, querida — chamo, e ela corre para
mim. Seguro-a firme nos braços quando ela se agarra
como se temesse o mundo lá fora. Talvez ela deva mesmo,
se aquela maldita avó dela conseguisse o que queria. Mas
minha confiança em Elizabeth é grande, acredito que ela
dará um jeito de Selene ficar aqui de vez. — Está tudo
bem, querida, papai não está bravo com você. Só fiquei
chateado com o telefonema. — digo baixo. — Você está
bem?
Ela só assente. Fico um tempo com ela, enquanto
solto beijinhos em sua cabeça.
— O papai vai cuidar de você de agora em diante,
querida, não vou permitir que nada magoe você. —
garanto, mas temo que nem tudo esteja em meu poder para
que isso não aconteça.
— Minha avó vem me buscar? — o fio de voz dela
corta a porra do meu coração, e eu aperto mais meus
braços ao seu redor.
— Não se eu puder impedir, mas você sabe que tem
de voltar para casa, no Rio, não é? — eu tenho de ser
realista. Se Elizabeth não conseguir que ela fique agora,
não vou cometer um crime e não devolvê-la para Amélia,
como era o combinado, e assim só piorar as coisas já tão
complicadas, mas não suporto a ideia de deixar Selene
aos cuidados dela.
— Eu não quero voltar, papai, eu gosto daqui, por
favor — o nó na garganta me impede de responder. Ela
vai voltar a me odiar quando eu a levar de volta, sei
disso. Que merda do caralho!
Fúria contra o sistema e contra Amélia cresce como
um gigante dentro de mim. Não é à toa que alguns pais
fazem besteiras quando querem tanto a guarda dos seus
filhos.
— Não quero falhar com você mais do que tenho
falhado, Selene. Eu nunca quis, com minhas atitudes
quando era mais jovem, fazer você sofrer as
consequências dos meus atos — começo a falar. Tenho de
pedir desculpas à minha filha por colocá-la nessa
situação, eu devo isso a ela. Ela já tem idade de
compreender muitas coisas. — Você ainda pode voltar
para a casa de sua avó, mas não vou deixar um segundo
apenas que viva do jeito que viveu durante todos esses
anos. Irei morar lá perto, se for preciso. Não irei deixá-la
sozinha outra vez.
— Tudo bem.
— Acredita em mim, pequena? — encosto meu
queixo no topo de sua cabeça. — Você é a garota mais
forte que conheço, sabia?
Eu resolvo aproveitar esse dia com ela, mas Selene
está se fechando outra vez. Passo a manhã tentando de
tudo para animá-la, contudo, ela só assente, tímida como
antes. A vivacidade que começou a despontar regrediu, e
isso só faz a raiva dentro de mim aumentar.
É quase uma da tarde, quando Elizabeth me liga,
para me manter atualizado do que está acontecendo.
— Luc, ainda não tenho nenhuma notícia boa para
você — ela diz — Estou esperando a decisão da minha
solicitação para falar com o juiz de urgência e seria
interessante que você estivesse aqui.
— Não vou voltar, Elizabeth, só a levo de volta
algemado— digo, resoluto — Não vou magoar Selene
dessa forma. Prometi para ela, Elizabeth.
— Eu sei, mas não será preso, afinal não fez nada
errado, Luc. Ligo para você mais tarde, depois que
conseguir conter os danos por aqui.
— Obrigado.
Desligo e volto minha atenção para Selene, que está
a pouca distância. Provavelmente ela entende tudo que
está havendo, por isso está tão calada.
Mesmo que não seja correto de minha parte
envolver Lunna no meu drama pessoal, eu não penso muito
quando uma ideia surge. Estou fazendo isso por Selene,
vai ser bom para ela ter a vivacidade de Lunna por perto,
porque estou sem saber o que fazer com nós dois. Se eu
estivesse com uma crise na empresa ou qualquer outro
problema, eu saberia que atitude tomar, mas com uma
criança? Com a minha filha, em particular, eu fico sem
rumo.
— Que tal fazermos uma visita à Lunna? — digo,
sorrindo. Ela provavelmente está trabalhando e
certamente não deveríamos ir lá, mas estou precisando
dela, talvez mais que Selene. Eu saí da casa dela como um
lunático, hoje cedo. Pelo que conheço dela, deve estar
brava comigo. Sorrio intimamente com o pensamento.
Gosto quando ela fica brava comigo — Então, que me diz,
mocinha?
— Legal — ela dá de ombros.
Certo; não é a resposta que quero ouvir, mas dada
as circunstâncias, é mais que suficiente. Ligo para ela
tentando saber onde está, porém, a ligação cai na caixa
postal e eu resolvo fazer uma surpresa.
LUNNA
Give me love like never before,
(Me dê amor como ela)
'cause lately I've been craving more,
(Porque, ultimamente, eu tenho desejado mais)
And it's been a while but I still feel the same,
(E faz algum tempo, mas ainda sinto o mesmo)
Maybe I should let you go...
(Talvez eu deva deixar você ir)

Meu dia não foi muito legal. A manhã começou


superatarefada, já que ontem tirei folga não planejada.
Tenho dois pacientes pela manhã e não tenho tempo de
pensar em nada e ninguém, mas, à tarde, quando paro para
um almoço corrido, vejo ligações não atendidas de
Gabrielle e de Luc. Eu não quero retornar, contudo, não
me domino muito quando o assunto é esse homem. Deixo
para ligar quando voltar para minha sala, mas me
surpreendo quando entro na recepção da clínica, pouco
depois, e vejo os dois parados lá. Luc e Selene.
Fico chocada, sem reação, quando Selene dispara
para mim, ao me avistar primeiro que seu pai. Ela envolve
os braços ao redor da minha cintura, enterrando o rosto no
meu estômago. O que está acontecendo? O que eles fazem
aqui?
— Ei, querida! — digo, me abaixando para ficar no
mesmo nível que ela — Tudo bem?
Ela assente, tímida. Seu rosto está triste, sua alegria
de dias atrás parece distante, e lembra muito a Selene da
foto que Luc enviou outro dia para mim.
Vejo Luc se aproximar e levanto para observá-lo
vindo. Sua presença marcante faz meu coração trovejar
quando observo seu andar sexy, a camisa de algodão preta
colada nos músculos e o jeans deixando-o totalmente
diferente de como me acostumei a vê-lo: com terno e
gravata, exalando poder daquele ar frio que ele costuma
exalar. Agora, o gelo derreteu, e tudo por causa dessa
menina linda que voltou a segurar minha cintura. Envolvo
um braço por seu ombro magro e a trago para mais perto
de mim.
— A que devo a honra dessa visita? — pergunto,
quando Luc para à nossa frente.
— Selene estava com saudade — ele diz, todo
sério. — Não é, filha? — Sério? Como é mentiroso!
— Verdade, Selene? — cutuco sua costela, e ela
solta um riso com a cócegas.
— Ele que quis vir — ela denuncia calmamente,
depois que paro de tocar suas costelas.
— Eu sabia! — sorrio para ele, triunfante, e recebo
uma careta sexy de volta.
— Filha, essas coisas não se contam.
— Você não disse que não era para contar a ela,
papai — retruca Selene. Eu já disse que amo essa garota?
— É isso aí, garota! — faço uma pausa, e com o
coração apertado, digo: — Eu sinto muito, mas tenho de
voltar ao trabalho. Amei a visita.
— Tudo bem, estávamos apenas passeando um
pouco — ele me encara nos olhos, e vejo no olhar
cinzento de Luc que algo não está bem.
— Está tudo bem, Luc? — pergunto, agora
preocupada, deixando as gracinhas para outra hora. —
Aconteceu algo?
— Pensei em convidar você para passar o resto da
tarde conosco — ele diz, mas sei que há outro motivo
para a repentina visita. Ele nunca fez algo parecido nesses
meses que estamos tendo um relacionamento.
Eles dois parecem perdidos aqui, chamando minha
atenção. E contra toda lógica, eu anuncio:
— Ok. Só esperem por mim aqui um momento —
beijo o topo da cabeça de Selene e volto para minha sala.
Eu vou acabar perdendo meu trabalho nesse ritmo. Dez
minutos depois de passar meu paciente da tarde para outro
fisioterapeuta com horário vago e prometendo horas
extras depois, volto para a recepção.
— Pronta para a diversão! — Selene segura minha
mão quando caminhamos para fora da clínica. — Aonde
vamos?
— Vocês, garotas, decidem — Luc fala, quando nos
acomodamos no carro.
— O que está havendo, Luc? — pergunto baixo,
para que Selene não escute. Ele me lança um olhar rápido
enquanto manobra para fora do estacionamento.
— Amélia — é a resposta curta, porém, diz mais
que qualquer outra coisa. Essa mulher não tem limites. —
Conversamos depois.
— Claro.
A tarde é para a distração de Selene. Vamos para
um shopping, e ela passa horas se divertindo, enquanto
conversamos. Estou indignada com a ex-sogra de Luc.
Como essa mulher pode ser tão perversa com a neta que
diz amar?
— Você pode ser preso? — digo, com horror. Ele
não fez nada errado, como a justiça pode ser tão cega?
— Não acredito, mas caso isso aconteça, quando eu
sair da prisão darei motivo, eu juro — ele fala, com raiva.
— Ei, querido, não fale assim. Sei que está com
raiva, mas fazer uma loucura pode fazê-lo perder sua filha
para sempre. — seguro sua mão na minha — Tenho
certeza que Elizabeth fará essa mulher mentirosa pagar.
Fico feliz que tenha ido me procurar. Deve compartilhar
tudo isso, sim, Luc. Estarei aqui para o que você quiser.
Inclino-me e beijo rapidamente sua boca
— Tudo?
— Tudo, Múmia.
— Não me dê ideias — ele agarra minha mão e
beija a palma. — Se não estivéssemos em um lugar
público, com minha filha por perto, acho que iria aceitar o
convite agora.
— Você é tão certinho, ancião. — provoco, e fico
feliz, pois isso distrai sua mente das preocupações.
Vejo Selene vir correndo do simulador de carro em
que ela estava entretida e não me afasto de perto. Eu sei
que ela está nem aí para nós dois juntos.
— Estou com sede, papai — ela anuncia.
Após a declaração dela, decidimos procurar um
local para comermos e tomar algo.
— Tenho de atender, é Elizabeth – Luc diz, quando
olha o visor do celular que está tocando.
Ele se afasta de nós duas para atender. Estamos em
uma sorveteria vendo Selene devorar uma taça enorme de
sorvete. Mantenho o ouvido atento na conversa, e não
perco a tensão da voz dele, apesar de não entender o que
ele fala.
— Então, por que você está tristinha, querida? —
puxo assunto com Selene, tirando a atenção dela de Luc.
Ela parou de tomar o sorvete e olha para ele com
expectativa. Deve estar curiosa. Ela volta os olhos para
mim.
— Acho que minha avó vem me buscar. — ela fala,
pesarosa.
— Por que diz isso, querida? — Luc dissera a ela?
Ele não falou nada sobre Selene saber o que está
acontecendo. Ela não deve ser exposta a nada disso.
Como essa criança crescerá em meio a tanta dor? Brigas?
— Porque sim.
— Ela não pode... — começo a falar, mas Luc volta
para a mesa, e tem o maior sorriso que já vi no rosto. Ele
simplesmente levanta Selene da cadeira e a abraça sem
dizer nada. Mas eu sei que ele recebeu alguma notícia
boa. Ele a aperta tanto que ela começa a protestar. Estou
rindo quando ele finalmente a solta de volta na cadeira.
— Lunna — ele diz, antes de me beijar. Beijar de
verdade, e na frente de Selene. Bem, eu só faço retribuir.
CAPÍTULO 21

Luc
Porra! Estou quase enfartando enquanto
espero Elizabeth falar. Engulo em seco quando o medo faz
meus poros transpirarem. Não posso perder Selene agora,
caramba!
— Luc, não quero que fique empolgado — a voz de
Elizabeth, do outro lado da linha, está animada. Ela ri,
isso é um bom sinal. — Estou mentindo, claro que quero
que fique muito feliz! Consegui, por enquanto, que você
fique com Selene. Solicitei ao juiz uma investigação da
conduta da sua ex-sogra, joguei tudo que pude: difamação,
calúnia e tudo que eu pensei. Joguei tudo na mesa. E do
abuso mental que Selene sofre. Ele acatou, e enquanto isso
estiver rolando, você fica com ela. Mas você tem de
trazê-la em algumas semanas, para uma avaliação
psicológica por um psicólogo determinado pelo juizado
de menores. Isso é só o começo do processo, Luc, mas eu
tenho fé que tudo acabará bem dessa vez para você. Tenha
fé!
— Obrigado, Elizabeth, eu sabia que você daria um
jeito! Não sabe o quanto está me fazendo feliz com essa
notícia — estou eufórico, não me contenho dentro de mim
mesmo de tanta alegria. Porra, isso é bom demais!
— Vou continuar aqui por uns dias, Luc, e avisarei
quando você poderá vir — ela faz uma pausa — O ideal
seria se o conselho tutelar conhecesse sua casa, onde
Selene irá viver. Se você tivesse uma vida familiar mais
adequada que sua ex-sogra, você ganharia esse processo
imediatamente. Afinal, você sempre garantiu uma vida
confortável em termos financeiros para ela, agora só
precisa mostrar que pode dar um lar para ela, Luc.
O que ela quer dizer com isso? Que devo casar e
dar uma família a Selene? Viro de frente para a mesa onde
estive sentado há pouco e observo as duas mulheres na
mesa. Talvez não seja uma má ideia.
— Entendo.
— Espero que sim. Aproveite com sua filha, Luc,
manterei você informado. — ela ri do outro lado —
Amélia achou que poderia ganhar essa, hein? O tiro saiu
pela culatra.
— Mas ela não vai descansar até me atingir. — Mas
eu tenho uma forma de atingi-la também.
— Vá com calma, Luc, ela quer que você cometa um
deslize.
— Eu fiquei calmo por muito tempo, Elizabeth, e
ela sempre ganhou, está na hora de isso mudar. — retruco.
— Talvez esteja certo. Tenho de ir agora. Ligo para
você. Vá curtir sua filha!
— É exatamente isso que irei fazer — Estou
sorrindo como um maluco quando volto para a mesa.
Agarro Selene tão forte que ela protesta e tenta se
esquivar do meu aperto.
— Aiii, papai...
— Você é o bem mais precioso que tenho, filha. —
sussurro contra seus cabelos — Amo você.
Depois de sentá-la, vou até Lunna e não estou
pensado coerentemente quando a beijo profundamente,
sussurrando seu nome, esquecendo onde estamos.
Sua boca se abre recebendo a minha, receptiva. Ela
solta um gemido baixo, e eu aproveito para aprofundar
mais o beijo. Estou tão empolgado que esqueço que estou
na frente de Selene.
— Vocês são namorados! — a voz entusiasmada
dela nos tira do estado febril, e solto Lunna que está
vermelha e com um sorriso satisfeito nos lábios. Olho
para Selene, que nos assiste com atenção.
— O que a advogada falou? — questiona Lunna, já
refeita de nossa interação. Ela lança olhares ansiosos para
Selene, que está rindo deliciada, agora. Ah, temos uma
torcedora de primeira aqui.
— Bem... — digo, voltando para minha cadeira —
Tenho uma notícia estupenda! Selene não vai ter de voltar
para o Rio, não agora, e espero que nunca mais — olho-a
— O que acha disso, princesa?
— Verdade?! — ela praticamente grita — Vou
poder ficar aqui com você e... e... — ela olha para mim e
Lunna, e não termina a frase, mas eu a entendo. Essa
semana praticamente foi passada com nós três juntos, e
elas se tornaram amigas de imediato. Eu sabia que se
tirasse Lunna da minha vida agora, coisa que nem cogito
fazer, magoaria Selene. As duas têm uma afinidade
espantosa. E isso faz a sutil sugestão de Elizabeth criar
mais raízes em minha cabeça. Só não sei se posso dar
continuidade a esse pensamento.
— Sim, princesa, vai sim, não terá de voltar para
aquela casa. — bagunço seu cabelo, e ela volta a atacar
seu sorvete como se nada de mais tivesse acontecido.
Crianças!
— Fico tão feliz, Luc — Lunna se inclina,
encostando a cabeça em meu ombro carinhosamente, e
sinto a felicidade começar a se construir dentro de mim,
substituindo a dor e a amargura que passei o dia sentindo.
Um dia de cada vez, Luc Alonzo, aconselho-me
mentalmente. Tenho um nó na garganta enquanto observo o
motivo da minha existência do outro lado da mesa,
devorando seu sorvete. Sua inocência foi tão agredida por
Amélia, mas ela ainda é uma criança que precisa de mim
mais do que nunca.
Eu tenho muita coisa para organizar com a
permanência de Selene em minha casa. Eu tenho de
contratar alguém para ficar com ela nas horas que eu
estiver na empresa, mas, por enquanto, eu prefiro
trabalhar em casa. Poderia transferir meu escritório para
casa até tudo entrar nos eixos.
Voltamos para casa um pouco mais das sete da
noite. Selene está sonolenta no banco traseiro,
provavelmente com uma overdose de açúcar no sangue. O
silêncio no carro é cortado pela música suave que sai do
alto-falante.
— Quer que a leve para casa? — pergunto em
algum momento, e Lunna vira para me olhar, porém me
apresso em dizer: — Eu quero que venha conosco, tenho
uma noite de comemoração pela frente.
— Não sei, Luc, tenho de ir trabalhar logo cedo,
amanhã — ela diz, alcançando minha coxa com uma das
mãos — Você vai me fazer perder esse emprego.
— Contrato você. Sabe, as múmias precisam de um
fisioterapeuta particular, não é? — gracejo, fazendo-a rir.
— Você ama que eu o chame assim, admita — ela
belisca minha coxa.
— Tenho de pensar em um para você — tiros os
olhos rapidamente do trânsito e a olho — Venha conosco,
Lunna.
— Tudo bem, mas preciso ir em casa. Não tenho
roupa na sua.
— Isso é ótimo, não precisará de roupa.
— Temos uma criança no carro, papai — ela me
repreende e olha para trás, ao banco onde Selene
despencou de sono.
— Gosto de ver seu lado mamãe em ação —
Diabos, por que puxei esse assunto?
Ficamos em silêncio até eu parar o carro na frente
do seu apartamento, algum tempo depois.
— Volto já — ela diz, quando desce do carro.
Observo-a entrar no prédio e suspiro. Lunna sempre
buscou um cara para casar. Pelo que ouvia sempre nos
nossos encontros semanais com nossos amigos, a conversa
das mulheres sempre foi sobre a busca de Lunna pelo
príncipe encantado. Aperto o volante com as duas mãos e
volto meus olhos para minha menina no banco de trás.
Por que não? Nós três daríamos certo. Eu teria a
guarda de Selene mais rápido, Selene ganharia uma mãe e
Lunna... Bem, ela teria o conto de fadas dela, não é?
LUNNA
Volto para o carro com uma pequena mala de roupas
e me pergunto no que estou me metendo, mergulhando de
cabeça nessa com Luc e sua filha. No fim posso sair
magoada, porque Luc não parece inclinado a levar isso
adiante, mesmo que tenha mudado tanto desde que
começamos a transar.
Como não sou muito de lamentar, abro um sorriso
quando o vejo descer do carro e me ajudar com o porta-
malas. Depois de acomodar a minha pequena bagagem,
enlaço seu pescoço com meus braços.
— O que vamos fazer hoje à noite, senhor Alonzo?
— alcanço sua boca e pego seu lábio inferior entre os
meus dentes, puxando levemente. Uma mão masculina me
segura pela cintura, me mantendo no lugar, e a outra aperta
minha nuca. O beijo é lento e gostoso, e estou gemendo de
tesão quando ele me fasta. Luc está sério quando me olha
firme nos olhos.
— Temos que conversar, Lunna — ele aponta para o
carro — Vamos embora, pequena sabichona.
— Conversar o quê? — curiosidade me corrói até a
alma agora.
— Em casa, Lunna, em casa! — diz, antes de
arrancar com o carro.
Acomodo-me no banco e encosto em seu ombro com
um sorriso.
— Sabe que irei enfartar de curiosidade, não é?
— Casa.
— Ok, já sei...
Aumento a música e seguimos para sua casa. Dou-
me conta do sorriso que ostento e percebo que estou
completamente perdida de amor.
A voz apaixonante de Ed Sheeran, cantando
Friends, zomba um pouco de mim.

We're not friends, we could be anything


(Nós não somos amigos, nós poderíamos ser qualquer
coisa)
If we tried to keep those secrets safe
(Se tentássemos proteger esses segredos)
No one will find out if it all went wrong
(Ninguém descobrirá se tudo der errado)
They'll never know what we've been through
(Eles nunca saberão o que passamos)
CAPÍTULO 22

LUNNA
Estou curiosa sobre o que Luc quer
conversar, porém ainda estou processando a atitude dele
mais cedo. Beijar-me na frente de Selene, para mim, quer
dizer muita coisa, porque ele nem cogitava, alguns dias
atrás, fazer algo do tipo. Observo-o colocar a filha
dorminhoca na cama e sorrio para mim mesma. Não é que
a múmia fria de meses atrás leva jeito para essa coisa
paterna?
— Por que estou com essa sensação de que está
rindo de mim? — ele vira para mim de onde ele está
cobrindo Selene na cama e me pega com um sorriso bobo
no lábios.
— Porque é verdade. Alguém abduziu Luc Alonzo e
no lugar deixaram esse fofo papai — amplio mais meu
sorriso quando o vejo estreitar os olhos para mim. — Mas
estou superapaixonada por essa nova modalidade de
múmia fofa.
Mas que merda acabei de falar? Meu sorriso
desaparece quando tento consertar, mas nada coerente sai
— Quer dizer... hãn... — limpo a garganta, dou um sorriso
sem graça e me calo, porque isso pode ficar pior. Estar
apaixonada dá nisso, cometemos gafes quando o boy
magia não está nem aí para nossa paixão unilateral.
Ele dá uma última olhada em Selene e caminha para
fora do quarto dela, observando atentamente cada
movimento meu enquanto eu me afasto de costas. Paramos
no corredor. O clima mudou entre a gente. Eu, sempre
cheia de graça, perdi minha capacidade de brincar com a
situação. Muitas vezes eu li as emoções no rosto de Luc,
eu reconheci a luxúria, o desejo ou apenas quando ele me
olha com apreço. Agora eu não consigo definir o que
carrega em sua expressão. Essa é nova, parece que ele me
olha com outros olhos. Ele para tão perto que estamos
colados peito a peito, ou estaríamos se eu fosse mais alta.
— Você vai me beijar, Múmia? — falo,
recuperando minha capacidade de falar — Ou vai ficar aí
a noite toda, me olhando?
— Eu não teria problema nenhum de ficar olhando
você, Lunna. É linda e delicada — diz, quando tira uma
mexa loira da minha testa. Seus dedos roçando minha pele
causam arrepios intermináveis no meu corpo. O polegar
traçando meus lábios me faz fechar os olhos, e sinto seus
lábios como um sopro sobre os meus, tocando com leve
beijos.
— O que você queria conversar? — balbucio,
estremecendo com a vontade insana de agarrá-lo.
— Acho que isso pode esperar, e na verdade eu me
precipitei. — ele se afasta de mim — Ainda não podemos
ter essa conversa.
— Por que mudou de ideia, Luc? Sabe que vai me
matar de curiosidade?
— Percebi agora que ia cometer um erro — ele
pega minha mão e começamos a caminhar em direção ao
quarto principal.
— Mas...
— Sem “mas”, Lunna, quero apenas amar você toda
a noite. — diz, quando entramos em seu quando e me toma
em seus braços — Temos uma comemoração, lembra?
— Sim, quero tudo que tiver direito e o que não
tiver, também — exijo, quando tomo a iniciativa e o beijo.
A conversa que Luc me prometeu não aconteceu,
porém, ela está sempre lá no meu subconsciente de que é
importante, e não entendo o porquê de ele ter mudado de
ideia, mas não insisti; ele diria quando estivesse certo
sobre o que quer que seja isto.
Dois dias depois, estou empoleirada no colo de
Luc, em seu escritório, onde ele está trabalhando agora, já
que Selene está aqui. Minha blusa está desabotoada e a
boca de Luc está colada ao meu peito. Ele suga forte por
cima do tecido de seda do meu sutiã, o calor da sua boca
está me consumindo. Esfrego-me contra o duro cume do
seu pau, e estou prestes a pedir que ele me foda muito
forte aqui, em cima desta mesa, quando escutamos batidas
na porta do escritório. Ainda bem que fechei, Selene deve
ter acordado e veio procurar seu pai. Ou pode ser Marta.
Saio do colo dele, protestando. Ficar insatisfeita dói, que
droga! Aperto as coxas e olho feio para Luc, que está me
olhando com um cínico sorriso conhecedor nos lábios.
— Não ria, Múmia, isso é sinal de serviço mal feito
de sua parte — digo, abotoando a blusa e caminhando
para a porta. — Vou me livrar de quem quer que seja, para
o senhor terminar seu trabalho honestamente.
Ele está todo recomposto, não parece que estive em
cima dele há pouco. Abro a porta e..
— Gaby, que surpresa! — digo, sem graça, e tento
camuflar a surpresa abraçando minha melhor amiga, que
não sabe até onde vai meu relacionamento com Luc.
— Eu vejo... — ela diz, com um sorriso
conhecedor.
— Estava aqui perto e tinha um assunto para acertar
com o senhor Alonzo, mas já terminamos aqui — digo e
me amaldiçoo por ser tão boba. Droga, por que é tão
difícil admitir para elas? Talvez porque sempre disse que
preferia morrer a beijar o Matusalém do Luc, mas isso é
tão imaturo de minha parte.
— Já entendi, querida — sussurra conspiratória,
piscando para mim — Só uma vez, hein?!
Olho para trás e vejo Luc esperando que eu libere
Gabrielle.
— Vai demorar? Espero você, afinal faz semanas
que está sumida. — digo — Estou preocupada com você.
— E desde quando você não está? Parece uma mãe
galinha com seus filhotes — ela diz, sorrindo, com esse
jeito meigo dela, fofo. — Acho que não demorarei aqui,
encontro você daqui a pouco.
Ela entra na sala. Espero Gaby acompanhar Luc até
o escritório e vou ao quarto dele. Verifico o estrago que
sua boca fez em mim. Depois de me recompor, volto para
a sala para esperar Gabrielle, mas antes verifico Selene,
que dorme tranquilamente.
Estou há algum tempo na sala, quando Gabrielle
aparece juntamente com Luc e ela praticamente corre para
fora da casa, depois de dizer adeus para ele. Eu fico, pois
tenho algo para dizer.
— Sabia que ela viria e não me avisou? Luc, não
conte para elas.
— Já está na hora de deixar essa coisa escondida,
de parar com essa besteira. Eu antes não queria expor por
causa da guarda de Selene, agora não vejo razão. — ele
cruza os braços.
— Não acredito que me atraiu até o escritório só
para Gabrielle nos flagrar! — coloco minhas mãos na
cintura — Que baixo, devia ter me avisado!
Piso duro para fora e saio resmungando.
— Maldito homem cabeçudo!
Gabrielle me espera junto ao carro.
— Pronta?
— Sempre — fala. Quando entramos no carro, ela
cutuca: — Por que está brava? Isso tudo porque descobri
seus segredos?
— Não, pelo fato de não avisar. Ele me deixou ficar
até mais tarde quando sabia que você viria e não me disse
nada —Como não temos nos falando muito ultimamente,
tento mudar o assunto para ela — Mas conte-me o que
está havendo com você, querida.
Ela fica calada por um tempo, como se estivesse
medindo as palavras antes de dizer alguma coisa.
— Estive trabalhando no projeto do seu namorado
— dá risada quando lanço um olhar raivoso para ela. Mas
é apenas fingimento de minha parte.
— Ele não é meu namorado, eu o uso apenas para
sexo. — digo, toda séria. — Mas não estamos falando de
mim.
— Não há problema, Lunna. Por que acha que tudo
tem de ser um problema?
— Porque desde que você inventou de ser mamãe
não vejo um sorriso de felicidade em seu rosto. Essa
coisa com Nicolas nos preocupa, cansamos de te falar
isso, Gaby.
— Eu sei, mas está tudo bem. — ela diz, só que não
acredito nela.
Nos dias seguintes, eu praticamente não durmo em
minha própria casa. Saía do trabalho e seguia para ficar
com Luc e Selene. Em uma das noites, ficamos quase
loucos com o desaparecimento de Gabrielle, sem saber o
que aconteceu com ela.
Será que ela foi sequestrada? O Nicolas a matou e
enterrou e agora dava uma de vítima? Eu sei que ele
poderia fazer algo assim, Nicolas é louco, dominador,
possessivo. Eu já o teria matado e jogado no mar se fosse
a namorada dele. Ainda bem que não sou. Gabrielle é uma
santa, isso sim. Eu e Julie sabíamos que ela não iria até o
fim com aquela estupidez com Nicolas, Gaby não é esse
tipo de pessoa, fria e calculista; ela se acha assim, mas
nós a conhecemos melhor que ela mesma. Mas, na manhã
seguinte, Nicolas informou que Gabrielle provavelmente
fugiu, deixando um bilhete. Ah, minha amiga tão
dramática! Ela diz que sou a dramatizadora das três, mas
olha o que faz!
Só resta agora rezar para ela saber o que está
fazendo e, no fim, voltar para casa.
LUC
Vejo Lunna sair pisando duro. Ela acha que fiz de
propósito não dizer para ela que tinha uma reunião com
Gabrielle. Não estou ligando para quem sabe de nosso
relacionamento mais. Eu ontem tive um encontro com
meus melhores amigos e expus meus "segredos", mas eles
vivem seus próprios problemas para se importar e falar
disso. Homens não têm essa necessidade de contar um
para o outro de seus dramas pessoais quando se
encontram. Não eu e nem meus amigos conversamos muito
sobre nossas vidas amorosas. Ultimamente estive falando
mais da de Nicolas, que anda fazendo burradas uma atrás
da outra com a pobre da Gabrielle.
Deixo o drama de Nicolas para ele mesmo cuidar e
volto minha atenção para os meus, quando vou à sala de
jantar para esperar minha princesa para o café da manhã.
Marta está pondo a mesa pela segunda vez hoje, já que eu
e Lunna acordamos cedo. Eu abortei meu plano de pedido
de casamento.
Na noite que Elizabeth sugeriu que eu devo ter
estabilidade familiar para conseguir a guarda de Selene,
eu vim certo para colocar as coisas claras na mesa, mas
ela me fez parar com o comentário sobre estar
apaixonada. E aquele brilho nos olhos, quando
praticamente disse que está me amando, foi o que me
parou. Talvez ela nem tenha notado o quanto se deixou
levar pelos sentimentos.
Talvez, por minha filha, esse entrosamento entre nós
só aumentou, e eu ia cometer uma tolice pedindo que
casasse comigo apenas para me ajudar no processo. Eu
sei que ela nutre mais que amizade por mim, só que eu, até
aquela noite, não percebi isso. Eu planejo continuar com o
plano de casamento, mas agora eu teria que organizar um
pedido decente, que não magoasse seus sentimentos. Eu
não quero magoá-la. Tenho medo de perdê-la de uma
maneira que me deixa doente apenas por pensar na
possibilidade. Eu já estive apaixonado antes, e isso que
sinto por ela é totalmente diferente; é muito mais visceral.
Eu apenas preciso fazer a coisa certa.
Bracinhos infantis me cercam, e volto à realidade.
Nem percebi Selene chegar.
— Bom dia, minha princesa, dormiu bem? — puxo-
a para o colo, beijando seus cabelos.
— Humhum — ela balança a cabeça. — E a Lunna?
— Ela tem de trabalhar — inclino minha cabeça
para o lado, olhando-a. Não tínhamos conversado ainda
sobre Lunna e eu. — Você gosta dela, não é?
— Ela é divertida.
— Você se importa se ela for minha namorada? —
eu não ficaria com mulher que minha filha não gostasse,
mesmo que eu gostasse dessa mulher. Já coloquei tantas
coisas na frente do amor de Selene, que nada hoje poderia
servir como empecilho.
— Ela vai ser sua esposa, vai ter filhos com ela? —
pergunta inocentemente, mas no fundo noto a
vulnerabilidade da pergunta na sua voz, um tanto hesitante.
Ela não me deixa esperando muito para saber por que fez
essa pergunta: — Minha avó disse que, depois que você
tiver uma namorada, casar e tiver outros filhos, você não
vai mais me querer por perto.
— Querida, nada fará que eu deixe de amar você,
mesmo que um dia eu case e tenha outros filhos. Eles
serão seus irmãos, você os amará também — seguro sua
mãozinha nas minhas enormes — Você nunca vai ser
deixada de lado por nada. Isso são histórias que sua avó
inventa, não quero que pense em nada do que ela falava
para você, não são verdades.
— Tudo bem — toda vez que ela fala isso meu
coração dá um tombo, mostra o quanto ela é vulnerável.
Eu acho que ela não precisa de um acompanhamento
psicológico, mas noto que ela está sendo forte para uma
criança de sua idade. — Ela vai ser a minha mãe?
Ela agora me olha, marota.
— Só se você quiser, mas isso é segredo, ainda. Ela
não sabe.
Marta aparece com um copo de suco para ela.
— A Lunna vai ser a minha mãe! — ela conta
empolgada para Marta. Não deveria ter contado isso para
ela, agora, adeus segredo.
— Que maravilha, querida! Lunna vai ser uma
mamãe encantadora — Marta beija sua cabeça.
— Onde foi parar o segredo? — pergunto, rindo.
Ah, esse meu plano não vai dar muito certo, não depois de
contar para ela. — Não podemos contar ainda, ok?
— Ok!
Recebo um olhar de aprovação de Marta. É, se
depender dessas torcedoras, isso pode dar certo.
CAPÍTULO 23

LUNNA
A semana depois dos percalços de Gabrielle
segue normal: eu dividida entre minha casa e a casa de
Luc — eu estava mais à vontade com eles, já que com
Gabrielle longe e Julie ocupada com Isadora e voltando a
trabalhar fora, eu não tinha de inventar tantas desculpas
esfarrapadas para minha ausência dos encontros semanais.
— Pronto, chegamos — digo para minha
passageira. Dou a volta no carro e abro a porta de trás
para Selene descer. Fiquei de babá por um dia enquanto
Luc resolve algum problema na empresa, e como hoje é
dia de visita na minha mãe, a trouxe comigo.
— Quem mora aqui? — ela pergunta, quando
caminhamos de mãos dadas em direção à porta da casa de
mamãe. Em vez de jantar, eu preferi vir almoçar com ela.
— Minha mãe. — respondo e balanço seu braço
para frente e para trás — Vai gostar dela.
— Ah, ela vai ser minha avó também? Tenho um
monte de avós agora — ela conclui, pulando alegremente,
fazendo-me parar de supetão.
— Claro que não... — paro de falar — Por que
está dizendo isso? É porque estou com seu pai? —
pergunto. Recomeçamos a andar para a porta, que nesse
momento se abre e minha mãe aparece.
Olho Selene. Ela está diferente comigo esses
últimos dias, e está se apegando rápido demais a mim, e
eu por ela também, claro, mas isso pode machucar seu
coraçãozinho já tão machucado, se acaso eu e Luc não
progredirmos com nosso caso. Ela será a que mais vai
sofrer, caso isso tenha um final desastroso.
— Oi, mãe — digo, quando paramos na frente
dela. Ela está encarando Selene. Não disse nada sobre
trazer uma criança ao nosso encontro. Aproximo-me e
deposito um beijo em sua face, depois viro para
apresentar Selene a ela. — Mãe, diga olá para Selene.
Eu praticamente posso sentir a curiosidade
irradiando dela, mas, para minha surpresa, ela não faz
pergunta sobre quem é Selene, mas seu olhar curioso
promete que obterá detalhes mais tarde
Depois de as duas dizerem oi, seguimos para dentro
e mamãe puxa Selene para a cozinha imediatamente.
Imaginei que isso aconteceria, ela sempre reclama sobre
cozinhar apenas para nós duas, e uma criança vai ser uma
festa.
— Você está com sede, minha criança? — ela faz
Selene sentar à mesa, e nos cinco minutos seguintes ela já
tem uma mesa posta de guloseimas. Eu apenas aceno com
meus dedos para os olhos arregalados de Selene. Ela não
está acostumada a esse tipo de tratamento.
— Mamãe, por acaso sabia que viria com uma
criança para cá? — indago, curiosa com todos esses
bolos e guloseimas — Selene não poderá comer isso
antes de almoçar devidamente — meu Deus, estou
falando igual a uma mãe chata.
— Deixe a criança, Lunna — mamãe fala e recebe
um sorriso de orelha a orelha daquela pequena serelepe.

— Então você agora é babá? De quem é essa


criança, Lunna? De suas amigas? — estou lavando a
louça depois do nosso almoço, e ela vem com a pergunta.
Olho para Selene, que está na mesa concentrada com um
velho quebra-cabeça meu que mamãe guarda até hoje
— De um amigo, ele precisou de ajuda, hoje —
olho de relance para Selene, e ela está me olhando
parecendo um pouco decepcionada quando escuta o que
eu digo. Ela está prestando atenção ao que falamos. Baixo
minha voz para que ela não ouça a conversa— Não fique
toda animada.
— Não estou, mas vejo que está seguindo meu
conselho e procurando uma família, Lunna.
— Não começa, ok? Não hoje — repreendo
baixinho — Selene é um amor, mas ela tem o pai dela,
que provavelmente casará um dia com outra mulher que
aceite menos que amor, mãe. Eu procuro meu príncipe
encantado ainda. Ele está mais para sapo.
— Besteira! Até onde sei, os sapos viram príncipes,
querida — ela afaga meu ombro — Você nem percebe o
quanto sua voz muda quando fala desse amigo.
— Humm
— Eu já vi esse filme, querida.

— Então, gostou do nosso dia? — tiro rapidamente


meus olhos do trânsito e olho Selene. Estamos voltando
para casa no fim da tarde, e ela não falou nada desde que
entramos no carro — Você está bem, princesa?
— Sim.
— Ok.
Ela vira a rosto para a janela, os braços cruzados na
frente do corpo. Algo está errado, esse gesto de
autodefesa eu conheço.
— Selene, está sentindo alguma coisa?
— Não.
Certo. Não forço um diálogo.
Mal paro o carro na frente da casa de Luc, ela desce
e corre para dentro. O que está havendo? Ela nunca agiu
assim comigo.
Sigo atrás dela. A sala está vazia, e questiono
quando Marta aparece:
— Viu Selene?
— Passou por aqui correndo, acho que foi para o
quarto. Aconteceu algo?
— Acredito que sim, mas ainda vou descobrir. E
Luc?
— Ainda não chegou.
Aponto para cima.
— Vou falar com Selene. — Enquanto ando, busco
na mente o que poderia ter chateado a criança, mas nada
vem à mente, a não ser minha conversa com minha mãe.
Ela escutou?
— Ei, querida — bato na porta antes de abrir e a
encontro deitada de bruços, na cama. Durante todo tempo
que estive aqui, ao longo desses dias, nunca a vi
emburrada. Quieta, sim, mas não uma criança emburrada.
— Ei, fale comigo.
Ela está chorando? Seus ombros convulsionam, e
sento na cama ao lado dela.
— Selene, querida, o que a deixou tão chateada?
Venha aqui, amor, me fale.
Deus, eu não sou boa nisso. Na primeira vez que
fico com a filha de Luc, a magoo. Deito e passo meu braço
por cima de seu corpo, e ela não me repele. — Desculpe,
eu magoei você, não foi, querida?
Passamos um tempo lá, em silêncio, enquanto
embalo seu pequeno corpo junto a mim, até que ela me
olha, com os olhos cinzas cheios de incerteza.
— Meu pai não pode se casar — a voz sai abafada,
porém cheia de certeza.
— Certo, amor — É o que digo, tentando amenizar
a situação — Eu gosto muito de você, pequena, não
duvide disso. Mas seu pai não tem planos...
— Ele não vai casar com outra mulher — repete,
como se eu não tivesse entendido da primeira vez — Ele
disse que ia casar com...
— Está tudo bem? — a voz de Luc vem da porta, e
me viro para olhá-lo. Ele está todo vestido em um terno
preto e os cabelos loiros escuros perfeitamente no lugar.
— Oi, estamos sim — levanto — Selene só está
um pouquinho chateada — digo e o olho com um pedido
de desculpa.
Ela levanta e corre para ele, que a pega nos braços
como um bebê. Sorrio, me sentindo meio deslocada, mas
isso não dura muito. Colocando Selene em um lado do
corpo, Luc passa o outro braço sobre meus ombros e
saímos do quarto. Ele nos conduz para a sala de estar.
Estranho que ele nem perguntou à filha o que a tinha
chateado.
Só quando ela foi dormir e que nós nos recolhemos
também, é que ele pergunta o que de fato aconteceu.
Quando conto, ele apenas me abraça sem dizer nada.
Estamos formando um trio muito estranho.
LUC
Climb on board
(Suba a bordo)
We'll go slow and high time
(vamos devagar e rápido)
Light and dark
(no claro e escuro)
Hold me hard and mellow
(me abraça com força e delicadeza)

A escolha musical de Lunna faz minha cabeça rodar,


exausta, de tão melosa. Mas diabos se eu vou me importar
com isso agora.
Gemo baixinho enquanto a cabeça de Lunna sobe e
desce em todo meu comprimento rígido. A língua dela
desliza sobre a pele sensível, e quero segurar seus
cabelos e controlar seus movimentos, mas já levei dois
tapas quando tentei controlá-la. Ela concentra toda a
atenção na tarefa deliciosa de me enlouquecer, usando
suas mãos, língua e os dentes, levemente. Muitos homens
não gostam de pensar em dentes perto de suas partes
sensíveis, porém eu mal posso respirar ou lembrar do meu
próprio nome enquanto me submeto à boca quente e
deliciosa dela. Observo, deliciado, ela chupar a ponta
suavemente antes de tomá-lo no fundo de sua garganta.
Gemo novamente e perco todo o controle.
A agarro pelos ombros e a jogo no meio da cama.
Abro suas pernas antes de mergulhar a língua em sua
boceta ávida e desesperada, com impetuosos golpes duros
e famintos da minha língua.
—Luc! — geme, sem fôlego.
O prazer vibrando pelo corpo pequeno e receptivo
de Lunna faz meu próprio prazer agigantar por cada fibra.
Sugo o botão duro, latejante, de seu clitóris, para dentro
da minha boca, querendo arrancar cada suspiro, cada gota
de prazer dela. Estou viciado, e cada dia ela entra mais
sob minha pele. Seu gosto, sua irreverência, sua bondade,
só me fazem querer mais. Levanto e beijo-a na boca, a
vontade de tomá-la, fazê-la minha de verdade, faz com
que esse beijo seja diferente. Nossas bocas se grudam,
sedentas, cheias de fome. Luxúria. Prazer.
Expressamos através desse beijo tantas coisas,
sentimentos que nunca falamos para o outro. Eu sinto cada
um deles nesse momento. Ela provoca uma fome diferente
de tudo que já senti na vida. Sem nunca deixar sua boca,
deslizo meu pau para dentro dela. Sim. Isso é o céu.
Gememos quando vou até o fundo.
—Você está me matando, Múmia — ela consegue
sussurrar contra meus lábios. Saio dela e faço que segure
a cabeceira da cama. O momento delicado já passou,
agora quero isso muito violento.
—Segure firme, querida — a aviso, antes de
estocar fundo, sem piedade. Puta que pariu! Quem foi que
inventou o sexo delicado? Isso sim é catapultar você
direto para o paraíso.
Continuo a estocar com força, amando ver seus
seios balançando a cada impulso do meu corpo. A cada
vez que envio meu pau, sua boceta quente me aperta, me
sugando avidamente para dentro dela, querendo me
prender no seu valor enlouquecedor.
As pernas de Lunna tentam me prender, mas me
desvencilho delas e, sob seus protestos, saio mais uma
vez de seu corpo e me ergo. Viro Lunna de lado,
prendendo suas pernas juntas com um braço, deixando-a
numa posição vulnerável. Volto a meter meu pênis duro eu
sua vagina faminta, voltando às minhas investidas duras.
Tomo o seu corpo ao som dos seus gemidos e dos nossos
corpos batendo. Tê-la assim, cativa ao meu prazer, me
deixa selvagem e enlouquecido. Aumento meus impulsos,
e nossos gemidos se elevam, proclamando a vinda do
êxtase, que vem como um tornado, arrebatando nosso
fôlego e nos transportando para o paraíso do puro prazer
carnal.
— Acha que acordamos alguém? — a voz de Lunna
vem abafada do banheiro. Como não respondo, a cabeça
loira aparece no vão da porta — Será que amanhã sua
filha vai contar a Marta que você estava me fazendo
gritar? Ou que a parede tem buracos do outro lado?
— Volte para a cama — sento e pego o anel que
comprei hoje, mais cedo. Não tenho um plano elaborado
sobre o pedido. O que poderia fazer? Volto a colocar a
caixinha no criado-mudo quando ela apaga a luz do
banheiro e vem para o quarto.
— Sabe, Luc, sua calma me enerva — ela reclama,
preocupada — Mas acho que a música abafou todo ruído.
Ela vem deitar e praticamente deita em cima de
mim.
— A cama tem mais espaço para você, não acha?
— implico, mas passo meu braço pelo seu corpo,
atraindo-a mais para mim.
— Sei disso, mas não sinto atração por esses
espaços. — beijo seus cabelos antes que o sono nos
embale.
Levanto mais cedo e fico no escritório, decidindo o
que fazer sobre o pedido de casamento. As coisas
poderiam ser mais fáceis, mas sei que ela não aceitará um
pedido pela razão racional, e eu não sou romântico,
droga!
Desde que ela me falou da conversa que teve com a
mãe e Selene quase falou que vou pedi-la em casamento,
fico pensando como fazer isso da melhor maneira
possível.
Pego meu celular e ligo para Elizabeth, sei que a
essa hora ela deve estar trabalhando. Ela não me
decepciona.
— Luc, que bom que ligou, queria mesmo falar com
você. — ela diz, sem preâmbulos, quando atende.
—Novidades?
—Sim, já tem data marcada para a avaliação
psicológica de Selene. — ela diz, entusiasmada —
Daqui a vinte dias. Passarei toda informação por e-mail
para você.
—Isso é bom.
— O processo não é assim, de uma hora para outra,
mas o importante é tê-la com você. Pensou sobre o que
falei?
— Me falou muitas coisas — me faço de
desentendido.
— Sobre um possível casamento.
—Casamento. Não tem outra maneira de me tornar
um homem de respeito? — brinco.
— Isso você já é, só precisa ser um homem de
família.
— Acha mesmo que um casamento resolveria isso
mais fácil? — esfrego minha testa onde se inicia uma dor
de cabeça.
— Acredito.
—Então farei isso, já tenho uma pessoa perfeita em
mente.
—Que maravilha, Luc! Vamos marcar um jantar e
você me apresenta a ela.
— Claro que sim, mande uma data quando estiver
por aqui.
—Farei isso. Você está indo no caminho certo.
— O importante é ter Selene comigo, Elizabeth, o
resto eu dou um jeito. E ela já gosta de Lunna. Isso
também é importante.
— Ótimo. Ligo para você. Até logo.
— Até.
Desligo o celular e o jogo na mesa. Bom, agora isso
parece mais real.
Levanto com o intuito de verificar se as
dorminhocas acordaram, e paro quando vejo Lunna em pé,
na porta.
— Já ia verificar se estava acordada. — digo, indo
ao seu encontro.
Ela se afasta para trás. Olho atentamente para ela e
vejo seus olhos marejados de lágrimas. Ela engole em
seco quando olha firme para mim. E uma emoção que
nunca vi nos olhos dela antes transparece: mágoa.
Que droga! Ela escutou a conversa com Elizabeth.
CAPÍTULO 24

LUNNA
O sentimento de traição que sinto, ao escutar
a conversa, me faz cambalear para trás, quando Luc
caminha na minha direção. Ele planeja um casamento de
conveniência? Acha que eu aceitaria? Ele pensa realmente
isso?
Deve me achar uma mulherzinha apaixonada por
ele. Não estou muito longe disso, mas ele se engana se eu
vou receber migalhas.
— Lunna — ele começa ao se aproximar. Minha
vontade é correr daqui e para bem longe dele, mas
também nunca fui de correr de nada. — Sei que a
conversa deve ter parecido algo frio, mas...
— Não pareceu, Luc; foi — minha voz não trai
minha decepção. Empino meu queixo na tentativa de
impedir as emoções de tomarem conta de mim. — Diga-
me, não planejava me pedir para casar para ter a guarda
de Selene? Porque foi isso que ouvi, Luc. Não escutei
nada sobre sentimentos na conversa. Tudo que escutei
foram: já tenho a pessoa certa. Isso não parece romântico
para mim.
— Por que não senta e conversamos, Lunna? — ele
aponta que entre na sala, e eu vou, porque essa conversa
não ser deve ser feita no corredor, onde a filha dele pode
aparecer e escutar, como eu, uma conversa que poderá
magoá-la, já que ela quer muito que eu fique com eles.
Ontem foi a prova disso. Ela me aceita, e pelo visto sabe
sobre esse casamento. Isso pode ser a razão de ela ter
ficado chateada ontem, por escutar minha conversa com
minha mãe.
— Estou escutando — digo, quando sento na
poltrona ao lado da mesa dele, não dando chance para que
ele sente perto de mim. Luc senta no sofá e me olha.
— Serei totalmente honesto, Lunna, afinal, eu
respeito e gosto de você —ele começa, e não gosto desse
"respeito e gosto." Isso, em outras palavras, é: eu não amo
você — Sabe, eu nunca pensei em casamento em minha
vida, eu até o momento tinha uma coisa em mente: ter
Selene na minha casa, ter sua guarda. Ter uma mulher em
minha vida e pensar em casamento? Isso nunca foi uma
opção para mim. Mas você surgiu, e mesmo sem querer,
nós temos algo construído, às avessas, mas temos. — ele
se inclina para frente, descansando os cotovelos nos
joelhos — Elizabeth sugeriu que me casasse para que isso
ajude no processo da guarda de Selene. Você sabe o
quanto quero isso?
— Mais que a mim, eu sei...
— Ei, não é justo comparar!
— Não estou comparando, Luc, eu também quero
muito que tenha Selene, ela merece ficar junto a você,
vocês merecem isso. Eu nunca iria competir sua atenção
com ela, nunca. — eu esclareço isso, porque eu jamais
vou querer essa dúvida entre nós.
— Eu sei que não, mas eu preciso que entenda que
casar é uma chance a mais pela guarda — ele continua —
Eu planejei fazer um pedido romântico...
— Só responda uma coisa, Luc, e não minta. — o
interrompo — Você pensaria em casar comigo, agora, se
não fosse pela guarda?
Ele levanta sem responder, e eu sei que a resposta é
negativa; ele não pensaria. Eu sinto o coração tombar feio
no chão e sangrar. Levanto meus olhos, e seu olhar
cinzento encontra o meu.
— Sinto muito, Lunna, eu queria dizer que pensei
nisso antes de Selene, mas seria um mentiroso e você não
merece isso. Tem sido minha rocha nesses últimos tempos
e...
— Eu preciso de ar — digo, tentando controlar a
tempestade de lágrimas que estão vindo.
— Lunna, por favor...
— Eu preciso sair agora.
— Eu preciso de você, Lunna, nós precisamos de
você — ele fala, cortando mais meu coração em
minúsculos pedaços sangrentos.
— Você não precisa de mim, precisa de qualquer
mulher. Qualquer uma serve para seu propósito, Luc. Eu
não posso fazer isso. — uma lágrima teimosa rompe a
barreira dos meus olhos e desce pela minha face. Limpo-a
com raiva. E quando penso que irei sair daqui para
sempre, a torrente ameaça romper de vez. — Espero que
consiga o que quer, Luc, de verdade.
Começo a marchar para fora da sala, mas mal dou
três passos, sou impedida de continuar.
— Eu quero você, Lunna, entende isso? — ele
implora.
— Sabe, Luc, eu prometi a mim mesma que não
colocaria ninguém acima dos meus sentimentos, então não
posso ser infiel a mim. Mesmo que isso parta meu
coração, porque eu passei a amar muito sua filha, como
se ela fosse minha, nesse curto tempo que nos
conhecemos. Não posso aceitar um casamento porque
você acha conveniente.
— Não é bem assim.
— E como é?
— Eu...podemos...
— Quando você descobrir, sabe onde me encontrar.
Adeus, Luc.
Passo por ele, que agora não tenta me impedir. Vou
praticamente correndo pegar minha pequena mala em seu
quarto. Estou chateada, magoada. E ele nem teve a
decência de dizer que sente algo por mim. Gostar e
respeitar não é bom o suficiente para mim. Eu não vou
dizer que estou apaixonada, quando é óbvio que ele não
está. Burro!
Quando desço as escadas me deparo com Marta. Eu
não quero ter de me despedir dela também, nem de
Selene, ou vou desmoronar aqui na frente delas.
— Pensei que fosse passar o dia — ela começa,
pois eu passei na cozinha mais cedo e disse que ia ficar o
dia todo, antes de ir ao escritório de Luc e escutar aquela
malfadada conversa.
— Surgiu algo e preciso ir — digo apressadamente,
com receio que Selene apareça e me faça mudar de ideia
com relação a esse casamento.
— Você está bem, querida? — ela franze a testa e
me olha interrogativamente, e eu assinto e passo por ela
em direção à porta. Eu não imaginei que iria ficar tão
sentida como estou, mas eu quero mais, e não vou aceitar
menos que isso. Estou quase na porta, quando ouço a voz
de Selene me chamando. Oh, Deus!
Paro de frente para a porta fechada diante de mim e
respiro fundo algumas vezes antes de me virar. Ela vem
descendo as escadas correndo, como se pressentisse que
não me veria mais.
— Vou passear com você — ela diz, quando chega
junto de mim, abrindo um sorriso conspiratório, fazendo
meu coração doer — Tinha muita coisa gostosa na casa da
minha nova avó, você vai hoje para lá?
Ela agarra minha mão, e tenho vontade de desabar
diante dela ou voltar lá naquele escritório e esbofetear
Luc Alonzo. Vontade não me falta. Se eu demorar mais
cinco minutos aqui, é justamente isso que vou fazer.
— Selene, querida, eu não posso levar você hoje —
me abaixo para ficar no mesmo nível que ela — tenho
algo na clínica para fazer, querida.
Estou inventando mentiras, pois sei que irei magoá-
la.
— Tudo bem — ela aceita facilmente, como
sempre, e eu a abraço apertado.
— Tchau, querida — sussurro em seu ouvido antes
de sair.
— Venha, querida, a Lunna tem de ir — Marta vem
ao meu socorro.
— Tchau, Lu! — Selene grita antes de eu fechar a
porta e correr para meu carro. Eu preciso de espaço,
longe deles, ou cometeria um erro.
Migalhas e mais migalhas. É isso que mereço?
Talvez Gabrielle tenha razão, eu sou a rainha do
drama, mas, nesse momento, eu não posso aceitar menos
que o coração daquela múmia velha e moribunda.
Meu telefone tem umas mil ligações de Luc, mas
estou sofrendo com cada parte do meu ser. Aumento o som
para não escutar minha própria fraqueza em chorar pela
terceira vez na vida. A primeira foi quando meu pai
preferiu outra família a mim e minha mãe, e foi embora
deixando nós duas perdidas e sem rumo. Cada palavra que
meu pai não pôde dizer naquele dia, do porquê de ir
embora, não podiam ser ditas na cara de sua filha: que eu
não era importante o suficiente para ele ficar. E agora,
como anteriormente, choro por causa de Luc, que me
oferece migalhas. Não posso aceitar o que ele quer que eu
seja, uma esposa de conveniência para ele atingir seus
objetivos. E eu ainda acreditei que ele poderia ser
diferente. Eu o conheço há tanto tempo e o ouvi a cada dia
dizer que mulher para ele não tem importância. Eu achei
mesmo que o conquistaria? Que raiva tenho de mim
mesma! Ah, como sou burra!
Migalhas, isso que ele ofereceu. Não vou perdoar
seu erro comigo. Talvez, quando essa dor passar, eu pense
diferente, mas não acredito que possa.
Deito no sofá da minha sala e encaro o teto.
Selene.
Ela é a única que penso com pesar. Ela merece ficar
com ele. Tenho coragem de sacrificar-me para ajudá-la a
ficar com seu pai? Ah, Deus, não posso decidir isso
agora, quando estou com tanta raiva...
Respiro fundo uma vez, duas, três e incontáveis
vezes, enquanto a voz de Simone, cantando Migalhas,
embala meu sofrimento.

Sinto muito, mas não vou medir palavras


Não se assuste com as verdades que eu disser
Quem não percebeu a dor do meu silêncio
Não conhece o coração de uma mulher
Eu não quero mais ser da sua vida
Nem um pouco do muito de um prazer ao seu dispor
Quero ser feliz
Não quero migalhas do seu amor
Do seu amor

Por que diabos eu desejei amor? Essa droga só faz


doer. Não quero saber de príncipes, de agora em diante
será apenas Lunna Maia, sempre. Sozinha. Sem Múmia e
Mumiazinha. Uma nova torrente de lágrimas desce, e eu as
limpo. Sem chorar, boboca!
Devia ter uma garrafa de uísque aqui em casa, eu
ficaria bêbada e feliz.
LUC
— Papai...
A voz incerta de Selene me tira dos meus
pensamentos conflitantes. Estive parado aqui desde que
Lunna saiu. Ela é pavio curto, eu só preciso que ela se
acalme e irei falar com ela. Ela não pode nos deixar
agora, eu estive incluindo-a em todos meus planos,
inconscientemente. Eu devia falar essas merdas para ela,
sei que ela quer ouvir essas porras românticas, mas sou
uma droga destreinado com mulheres. Afinal, passei anos
sem me importar se eu era grosso com elas ou não.
Contudo, ela merece um tempo e vou dar isso a ela.
Mesmo assim, não me contive e já liguei pelo
menos umas dez vezes. Que inferno! Eu não posso deixá-
la ir embora sem fazer nada. A briga conflituosa dentro de
mim é grande, pois antes de mim eu tenho de pensar em
Selene.
— Sim, princesa?
— A Lunna vai voltar?
— Claro que vai, ela só teve de ir resolver umas
coisas — digo, e vou cumprir isso, nem que eu tenha de
trazer certa maluca pelos cabelos.
— Acho que ela estava chorando — Selene diz,
pensativa — A Marta disse que era água da ducha.
— Provavelmente.
Tento mudar de assunto, perguntando o que ela quer
fazer hoje. Ela diz que vai esperar a Lunna chegar para
decidir. Ah, sim, eu só estou muito ferrado agora.
Ela sai, e tento trabalha um pouco, mas a tarefa é
árdua quando meus pensamentos não estão aqui.
São dez da manhã quando o meu celular apita, em
resposta à milionésima mensagem.

“ Não ligue, não mande mensagem. Acabou, Luc.”

Acabou porra nenhuma! Não somos adolescentes,


caramba, podemos encarar tudo isso como dois adultos.
Vou dar até amanhã para ela e depois vou até onde ela
estiver e trazê-la de volta.
CAPÍTULO 25

LUNNA
Eu não cheguei a conhecer Elizabeth
pessoalmente, mas ouvi muito sobre ela enquanto estava
na casa de Luc. E procuro na internet algo sobre ela.
Aparece um telefone comercial para o escritório.
Pego o telefone e ligo para lá. Sou avisada, pela
telefonista, que ela está viajando, mas que retorna em dois
dias. Faz dois dias também que não vejo Luc e nem atendo
suas ligações. Pode ser infantil, até dramático, para
algumas mulheres, mas eu tenho um amor incondicional
por mim mesma que é mais enraizado em mim. Meu
abandono, quando era pequena, ainda dói, e não vou ser
igual à minha mãe, aceitando um homem que não a ama
apenas para não ficar sozinha. Isso é falta de amor
próprio. Se isso é drama, então sim, temos de ser
dramáticas às vezes, para conseguir o que queremos.
Dizer sim facilmente para Luc não o fará sentir minha
falta; ele se acomodará e fará desse relacionamento uma
estrada de mão única, onde eu serei a mártir. Tenho sangue
demais nas veias para me sujeitar a isso.
Mas, em dois dias, toda minha bravata vai caindo
por terra quando penso na pequena Selene. Caramba, por
que tenho coração de manteiga quando se trata dela?
Com o final de semana chegando, minha vontade de
ver a família Alonzo só cresce. Sinto saudades deles. Fico
imensamente grata a Gabrielle por ligar e avisar a mim e a
Julie que está bem e que espera que a visitemos em breve.
Eu não recuso, e como preciso de um tempo longe,
prometo ir no próximo fim de semana, visitá-la em
Campos do Jordão. Aquela malandrinha está enganando
Nicolas direitinho. Bem feito, aquele homem não a
merece, é um grosso igual ao amigo dele. Aliás, daqueles
três, o único que se salva é o Adam — ou assim eu
acredito.
Olho Julie à minha frente, linda e fresca. Estamos
em uma noite das meninas, assim aproveito para tentar
afastar minha mente de meu relacionamento conturbado.
Não resisto e pergunto à minha amiga:
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Como é seu relacionamento com Adam? Quer
dizer, eu sei que vocês se amam e tudo, tem a linda Isa
para coroar isso, mas vocês vivem bem entre quatro
paredes? Não que eu queira saber da vida sexual de
vocês, Deus me livre, isso é uma imagem horrenda, mas
só quero saber como Adam é com você, quando não tem
plateia e essas coisas. Aliás, como ele agiu quando pediu
você em casamento, digo, antes de pedir...
— Lunna, você está tagarelando, em uma mistura
louca que não entendi nada. Repita para mim, por favor.
— ela está rindo — Não, deixe-me adivinhar! O que Luc
fez agora?
— Por que tem de ser ele? Não tenho nada a ver
com aquele senhor.
Ela está me olhando com uma cara de "sério isso,
Lunna? Esse papo de novo?"
— Ok, tudo bem, é ele, mas não quero falar dele,
quero falar de Adam.
— Lunna, você bebeu?
— Claro, duas caipirinhas — levanto três dedos.
— O suficiente para te deixar nesse estado, sem
falar coisa com coisa. Menina, está me deixando tonta.
— Então, Adam é bom ou não?
— Sua fixação por meu marido está me deixando
com uma pulga atrás da orelha — ela ri — Nem tudo são
flores em um relacionamento, Lunna. Quando passa a
euforia do começo, do sexo como coelho, aí sim
começamos a conhecer um pouco da superfície de nosso
parceiro. Acho que nunca realmente conhecemos as
pessoas tão profundamente como gostamos de acreditar.
E, sim, Adam é bom.
Fico pensativa por um momento, remoendo as
palavras de Luc. Aliás, sua falta de palavras, quando
perguntei se ele tinha intenção de me levar a sério se não
fosse por Selene.
— Diga-me o que está havendo, é tão incomum vê-
la assim.
— Quero arrancar o couro de certa múmia, isso
sim! Nada leve, não, quero ir profundamente e ainda
arrancar seu pau delicioso fora. — falo com fúria,
fazendo Julie franzir a testa. — Cara de pau, bandido!
— Oookay, vejo que a coisa entre vocês é mais
complicada que imaginei. Os dois são tão misteriosos
com essa coisa entre vocês, mas que fique registrado,
ainda assim, são óbvios demais. Só os cegos não veem
que gostam um do outro. Essa implicância não é nada, a
não ser um monte de amor não dito.
— Nada de amor.
— Você, Lunna? Ah, faça-me um favor! Você não
estaria assim se não fosse amor. Quantas vezes acabou
namoro e no dia seguinte estava planejando um novo?
Agora está aí, bebendo, porque não conseguiu domar o...
Como é mesmo? Eunuco?
— Múmia horrorosa, feia e velha.
— Isso aí — ela prende o riso — Sarado e todo
loiro gostoso. Entendi.
— Isso também. Já falei do pau dele? Amo aquela
coisa. — apoio meu queixo na mão, pensando quando foi
a última vez que o tive inteiro só para mim.
— Já falou, sim, uma tonelada de vezes, desde que
começou a acidentalmente cair na cama dele — ela está
rindo como louca — Você é tão fofa, bêbada!
— Ele é cheio de segredos, sabe, mas não posso
contar — prendo uma mecha de cabeço atrás da orelha —
Mas um deles eu posso: ele quer casar comigo por
conveniência.
— O quê? — Julie arregala os olhos, estupefata —
Vocês não eram apenas...
— Mas eu não caso com ele, nem morta! — digo,
cheia de convicção — Nem que ele me peça de joelhos
em um cenário das mil e uma noites.
Reclamo pela próxima meia hora, quando Julie me
deixa em casa. Caio na cama em um sono perturbador,
onde Selene é arrancada dos braços de Luc porque não
aceitei seu pedido. Eu sei, isso é meu lado masoquista que
tem vontade de estar junto deles.
No dia seguinte, estou com uma ressaca horrenda,
quando levanto para ir para a clínica. Enquanto passo a
manhã ocupada, minha mente corre solta. Uma ideia
começa a se formar em minha mente, contudo, será
arriscada para meu pobre coração. Mas saber que poderei
ajudar Selene me deixa com isso martelando na mente. Eu
posso ajudá-la, se eu aceitar casar com ele, mas seria
realmente um casamento de conveniência. Só no papel, e
quando ele conseguisse a guarda eu irei embora. Eu fui
criada sem pai, e é duro ver aquela pequena correndo o
risco de não ficar com seu pai, e sim com uma avó sem
coração e que perturba a vida da neta com ódio
acumulado.
Eu estou mal por causa disso, eu me envolvi
demais, deveria ter ouvido a voz do bom senso e ter saído
fora disso quando vi que ele tinha uma vida para lá de
complicada.
Estou saindo da clínica, no fim da tarde, quando
vejo Leonardo vindo em minha direção, sorrindo. Ai,
Deus, o que ele quer agora? Abro meu sorriso “engana-
homem-bobo” e o espero falar.
— Olá, Lunna, tudo bem? — ele dá uma de amigo
íntimo para beijar meu rosto.
— Oi — continuo com um sorriso falso. Estou de
saco cheio de homens complicados.
— Está livre hoje à noite? Temos um happy hour no
Apollo, quer ir junto? — ele parece esperançoso.
No Apollo? Humm, por que diabos meus colegas de
trabalho estão frequentando nosso bar da noite das
meninas?
— Acho que não será possível. — Respondo e
começo a caminhar para meu carro, com ele me seguindo.
— Vamos, Lunna, será divertido.
Será? Ele não é nada divertido, por que ele acha
que a noite será? Paro ao lado do meu automóvel, e ele
me olha com esse olhar de cachorrinho ridículo. Deus!
— Acho que não vai dar, tenho... — começo a falar,
porém paro quando vejo um carro familiar parar, e pouco
depois um furacão de cabelos loiros sai correndo pela
porta traseira e vem em minha direção. Ah, meu Deus.
— Lunna! — Selene tromba contra mim, seus
braços finos em volta da minha cintura.
— Ei, querida, que surpresa! — abaixo para
receber um abraço carinhoso.
— Papai veio também — ela diz, apontando para o
carro. Sim, eu vejo. Luc já está vindo em nossa direção
com a testa franzida, e seus olhos estão em Leo. Sua
presença me deixa inquieta. Olho para Leonardo, e este
está olhando abismado para Selene junto a mim. Ele volta
seus olhos para Luc e confusão preenche sua face.
Excelente!
— O que fazem aqui? — pergunto para Selene,
ignorando seu pai.
— Viemos convidar você para ir jantar conosco, a
Marta está fazendo sua comida favorita — ela recita como
se tivesse sido instruída para isso.
Estreito meus olhos e dou uma olhada em Luc. Ele
para a pouco mais de um metro de nós, ainda olhando Leo
próximo a mim.
— Lunna – diz em cumprimento. Aceno com a
cabeça e me viro para Leonardo.
— Leo, essa é Selene e seu pai, Luc — seguro os
ombros de Selene — Ela é uma amiga muito querida.
— Oi, Selene — ele também apenas acena para
Luc, e eu quase rio da cara de poucos amigos com que Luc
olha para ele.
— Oi. — ela se vira para mim — Você vem para
nossa cara?
— Ah, querida, eu não posso hoje — acaricio seu
rosto — Posso ir outro dia?
— Ah... — Selene faz uma cara de decepção.
— É que já tinha aceitado um convite hoje. Você me
perdoa? — Eu não quero ir lá com eles, eu preciso de
espaço. Luc me consome, e usar Leo para me safar é feio,
eu sei, mas Selene também me domina com apenas um
dedo mindinho. — Posso pegar você amanhã para darmos
um passeio, que tal? Isso se seu pai deixar, lógico.
Ela só assente, cabisbaixa. Deus, virei a Cruela,
agora. Céus, como odeio magoá-la assim!
— Vai ser divertido, querida, podemos passar o dia
todo juntas.
— Posso falar com você, Lunna? Em particular –
Luc diz, os olhos ainda firmes em Leo — Por favor.
— É claro. Leo, encontro você lá. — digo, com um
sorriso falso. Depois enviarei uma mensagem declinando
do convite, mas eu não poderia perder a chance de
mostrar à Múmia que ele tem concorrência, mesmo que
não seja uma real.
— Sim, espero você — Leo acena para nós e
caminha para o próprio veículo.
Ainda segurando os ombros de Selene, a trago para
junto de mim e encaro Luc. Não falo nada, apenas o
encaro com ar interrogativo.
— Ficaríamos imensamente gratos se aceitasse
nosso convite. Na verdade, eu quero me desculpar com
você sobre o outro dia — ele começa e desvia os olhos
para Selene, e voltando a olhar nos meus olhos quando
diz: — Sentimos sua falta.
— Bom, eu fico honrada, mas como disse, tenho
compromisso hoje, não vai ser possível. Porém, se você
permitir, amanhã tenho folga e posso dar um passeio com
Selene.
Ele abre a boca para falar, mas olha para a filha e
se contém. Melhor mesmo. Bem, eu poderia falar da
minha ideia amanhã para ele.
LUC
Fervo de raiva quando observo o cara caminhar
para longe e nos deixar. Eu lembro desse cara, ele estava
com Lunna outro dia, em um restaurante, antes de nos
envolvermos, e também em seu apartamento. Ela voltou
para esse...
Paro a linha de pensamento, não tenho razão para
cobrar nada dela. Sou o único culpado por ela estar longe
de nós. Eu não soube fazer a coisa certa com Lunna. Eu
sempre soube que, com ela, teria de ter um anel, flores e
champanhe, acompanhados de palavras bonitas. Eu tinha
tudo isso planejado e tudo deu errado porque não soube
mentir para ela, quando me perguntou se antes estive
pensando em casamento. Eu não poderia jamais mentir
deliberadamente.
Volto minha atenção para Lunna, e ela está com os
braços em volta da minha filha. Eu as quero juntas assim,
sempre. Observo seu rosto, e um misto de sentimentos
estão refletidos lá. Mágoa, confusão e um carinho infinito
quando ela olha Selene.
Faço o convite para ela ir jantar conosco, pois
Selene não me deixou um segundo em paz desde que
Lunna fugiu, dias atrás. Ela declina, e quando estou
prestes a argumentar, me contenho. Não quero discussão
na frente de Selene, ela não entenderia, e vejo que Lunna
está irredutível.
— Bem, eu tenho de ir. — não digo nada, estou
frustrado, e o mau humor começa a se construir por
dentro. Ela está me punindo. Eu mereço, no fim das
contas.
— Vejo você amanhã, querida? — ela conversa com
Selene, e minha filha assente, descontente. Ela gosta de
Lunna e não faz questão de esconder seu desapontamento
quando ela recusa nosso convite.
Travo minha mandíbula e sinto um músculo pulando
no meu maxilar. Quero agarrar Lunna e fazê-la me escutar,
porém não forço. Nos despedimos e voltamos para o
carro, eu e Selene, emburrados.
Tal pai, tal filha.
Sentamos no veículo e vemos Lunna entrar no dela e
sair para o trânsito. Suspiramos juntos.
— Por que a Lunna não gosta mais de nós, papai?
— Selene dispara a pergunta, e me surpreendo por ela
perceber que a desculpa de Lunna é esfarrapada.
— Ela gosta, princesa, só que ela tem outros amigos
— digo e aperto minhas mãos no volante. Não gosto desse
seu amigo em particular, mas claro que não vou dizer isso
a uma criança. A que me reduzi, perseguindo uma mulher
que não me quer mais.
Estou descendo as escadas, na manhã seguinte, para
começar um trabalho antes que o barulho da reforma, que
começou essa semana, me atrapalhe, quando escuto o som
de conversa no hall de entrada. Espreito e vejo Lunna na
porta com Marta. Ela me vê e me envia um olhar de pouco
caso.
Levanto minha sobrancelha para ela e me aproximo
das duas.
— Ei, você! — Marta foge, nos deixando a sós.
Lunna parece desgostosa quando é deixada sozinha —
Não a culpe por querer que nós dois nos acertemos.
— Acho que ela vai ficar para sempre chateada —
ela devolve. — Vim pegar Selene. Claro, com sua devida
benção.
— Ela está dormindo, e você sabe disso. Acredito
que veio mais cedo apenas para ficar a sós comigo. — eu
sei que não é assim, mas amo implicar com ela.
— Seu ego é do tamanho do Himalaia, querido
eunuco — ela alfineta — Sinto desapontá-lo, mas não
tenho a menor vontade de conversar com você, nem olhar
na sua cara.
— Terminou?
— Não, na verdade eu nem comecei. Você é um
insensível filho da mãe, que acha que pode ter as coisas
fáceis.
— Nunca tive nada fácil, Lunna — digo, sério —
Principalmente no que diz respeito a Selene. Não venha
com a porra do seu julgamento sobre mim. Posso não ser
o cara romântico que você esperava, mas eu meti os pés
pelas mãos com você por minha filha, e nunca considerei
outra mulher para ser mãe dela. Você tomou isso como um
maldito insulto, mas eu não acho um insulto; só queria ter
você de qualquer forma. Eu tinha a droga de um anel e um
pedido todo meloso em mente, mas você escutou uma
conversa e jogou isso na minha cara. Eu poderia ter
mentido para você e dito que estava pronto há séculos
para pedi-la em casamento, pelos motivos que você
considera românticos, mas eu a respeito demais para isso.
Desabafo e dou meia-volta, indo para o escritório,
deixando-a lá.
Bato a porta, furioso. Que merda! Tudo vai ficando
pior a cada encontro com ela. Porra, Luc Alonzo, você é
pior que Nicolas quando o assunto é mulher!
A porta bate no canto quando o furacão loiro
irrompe na minha sala, depois é fechada com uma
pancada.
— É um babaca, Luc! Não sabe o que é respeito
coisíssima nenhuma. — ela para, com as mãos na cintura,
à minha frente. Olhos claros tempestuosos me fitam com
fúria.
— E você não entre na minha sala assim, não mais!
— retruco.
— Entro quando quiser, e você vai me ouvir!
Sento à minha mesa e ignoro-a, pegando meu jornal.
As folhas são retiradas das minhas mãos com um puxão.
— Você vai escutar umas verdades, Luc!
— Ah, loirinha, você está pedindo... — ameaço e a
deixo mais furiosa, se os lábios apertados são indícios de
sua ira.
Cruzo meus braços e espero.
CAPÍTULO 26

LUNNA
— Não me chame desse nome ridículo! —
digo, com minhas mãos na cintura — Senta aí e me escuta,
Sr. Alonzo.
— Estou esperando, Loirinha, pode falar — ele diz,
enfatizando o “loirinha” de propósito para me irritar. Não
sabe ele que estou para lá de irritada com ele. Sua
prepotência de agora há pouco me deixa com calor, de tão
raivosa. Quem ele pensa que é?
— Sabe, Luc, sempre achei você frio e sem emoção,
mas a sua insensibilidade com meus sentimentos é
inacreditável. — planto minhas duas mãos no tampo da
mesa, me inclinando para frente. — Seu amor por Selene
é lindo, mas isso não te dá o direito de passar por cima
dos meus sentimentos. Nenhuma mulher quer ouvir que um
homem a quer por achar cômodo e conveniente, isso não é
respeito, como proferiu aos quatro cantos. Isso é ser
insensível. Isso é pensar apenas em seu benefício. Diga-
me, o que ganho em troca de tudo isso? Sexo? Não quero,
já tenho sem precisar casar.
— Está distorcendo tudo, Lunna. — ele chega perto
de mim por sobre a mesa — Eu quero você independente
de qualquer coisa. Sabe que me quer também, loirinha
— Vai sonhando, Esfinge, eu não quero saber nada
sobre você, estou aqui por causa da Selene. E não ache
que tem algum motivo por trás disso, também.
— Sabe o que acho nesse momento? Quer que eu a
pegue e beije até toda essa lacuna entre nós se dissipar —
ele estreita aqueles olhos cinzentos para mim — Quer
isso, loirinha, é só pedir. Quer que estenda você sobre
essa mesa e coma você de todas as formas que eu estou
fantasiando agora.
— Nunca que irei deixá-lo me tocar novamente —
pronuncio lentamente, porque estou agora com as imagens
brincando na minha mente. Deitada com ele entre minhas
pernas, sua boca me devorando... Balanço minha cabeça,
dissipando as imagens — Nunca mais.
— Estou sendo desafiado, loirinha? — Luc levanta
e vem em minha direção. Eu apenas afasto-me para trás,
até sentir a porta atrás de mim.
— Fique longe, Luc, falo sério — não vamos
resolver isso com sexo, ele é tentador, mas sexo tem hora
e lugar para acontecer, e aqui, nesse momento, não.
— Deixe-me fazer a coisa certa, Lu, deixe-me
consertar — ele me prende entre seu corpo e a porta, seus
braços ao lado da minha cabeça. Sua boca está tão
próxima da minha. — Eu sou um bronco que não sei como
agradar mais uma mulher...
— É um mentiroso e, além disso, trapaceiro, pois
usa Selene para me amolecer — digo ferozmente, para
que ele pare com essa conversa fiada.
— Não diga que uso minha filha, Lunna, não diga
isso nem de brincadeira! — ele se afasta, furioso, sua voz
alterada — Eu não vou admitir isso, nem de você.
— Tudo bem, Luc, faça como quiser. — sorrio, sem
vontade.
— Lunna, não quero que isso acabe, sei que tudo
deu errado, mas eu... — ele respira fundo, a mandíbula
trincada.
— Papai? — a voz de Selene vem através da porta
fechada. Nos olhamos em uma guerra particular de
vontade, e ele acaba desviando o olhar primeiro, indo
para a porta.
— Isso não acabou — resmunga, antes de abrir a
porta e Selene entrar correndo para me abraçar. — Ei, não
ganho beijos nem abraços aqui? — Luc reclama de
brincadeira com ela.
— Ei, docinho! — Levanto-a nos braços, e ela se
agarra em mim, seu rosto em meu pescoço — Ora, tem
gente feliz em me ver, hein!
— Papai está bravo com você — ela diz, e tenho
vontade de rir, pois a filha dele está do meu lado. Bem
feito!
— Não se preocupe com isso, vim apenas ver você,
e claro que vamos passear só nós duas. — digo e olho
desafiadora para o múmia mal-humorado. — Vamos nos
divertir, querida. — começo a caminhar para a porta com
ela nos braços — Diga tchau para o papai.
Provoco-o com os olhos. Selene acaba com minha
pose quando desce e vai para ele.
— Divirta-se, princesa — ele fala, beijando seus
cabelos antes de sairmos.
Eu não tinha muita ideia de onde levar Selene e
acabo passando na casa de Julie, pelo menos ela tem uma
filha. Quando paro o carro em frente à casa dela, estou
quase mudando de ideia.
— Você vai amar a Isadora, ela é minha afilhada,
minha e da Gabrielle — digo para Selene — Vamos,
amor.
— O que é afilhada? — isso, lá vamos nós para os
porquês e os quês, penso, rindo de seu olhar curioso.
— Quando o bebê nasce ele tem de ser batizado,
sabe? — sabe nada, pelo olhar dela lá vem outro o quê?
— Bem, batizado é como uma benção que o bebê recebe
do padre, ok?
— Ok — Ela para ao lado do carro, franzindo a
testa e me encarando — O que é...
— Benção é quando o padre joga água benta na
cabeça do bebê — me apresso em explicar, estou tão
ferrada hoje — Bem, para isso acontecer, precisa de duas
pessoas, que vão ser o padrinho e a madrinha, ou seja, um
segundo pai e uma segunda mãe, mais ou menos isso,
entendeu?
— Não.
Oh, meu deus!
— A Isadora tem a mim e a Gabrielle como
madrinhas dela, e ela é nossa afilhada, ou seja, uma filha
postiça — digo, mas minha inquisidora espanhola não
parece satisfeita.
— Ah...
— O que foi esse “ah”? — eu não tenho amor a mim
mesma.
— Eu não tenho madrinha — ela fica pensativa por
um momento — Você pode ser a minha, também?
— Ah, querida, você é tão fofa! Precisa de uma
mamãe especial em sua vida — digo e me arrependo. Que
droga, ela deve sofrer por falta de uma mãe, coisa que ela
não deve nem lembrar que teve uma. — Você tem seu
papai. Ele ama você em dobro.
— Mas...
— Ei, o que fazem no meu jardim? Vão ficar aí o
dia todo? — a voz de Julie nos faz virar em direção à
casa. Estivemos paradas aqui?
— Vamos lá, amor — pego em sua mão e nos
juntamos a Julie, que tem Isa em seu quadril, com a mão
enfiada na boca cheia de baba. Ela abre um sorriso
desdentado para mim.
— Olha a tia Lu, querida — Julie fala com a filha,
depois volta a atenção para Selene — E essa princesa
linda, quem é?
— Essa é Selene, minha nova afilhada — digo,
piscando para ela e recebendo um sorriso encantador dela
— Selene, filha, essa é a tia Julie.
— Oi!
— Oi, querida, você é linda e... — Julie para e me
olha — Ela não me parece estranha.
— Depois falamos disso, ok? — dou a ela um olhar
de advertência e pego a fofura da Isadora em meu colo —
Você é tão linda, meu amor.
Meia hora depois, parece que passou um furacão na
sala de Julie, com brinquedos espalhados por toda a parte.
Isa e Selene estão fazendo a festa, na verdade, é Selene
atrás de Isadora, que não para. Sorrio quando vejo Selene
tentando pegá-la nos braços e Isa escapulir engatinhando,
como se tivesse um motor nas perninhas e braços.
— Ela é filha de quem estou pensando que é? —
Julie cochicha ao meu lado — Deus, Lunna, como diabos
não sabemos sobre ela!?
— É uma longa história, mas, sim, é filha dele —
confesso. Sei que trazê-la aqui acarretaria isso, eu
inconscientemente estou revelando os segredos de Luc.
— Você, na verdade, tem se mantido com muitos
segredos...
— Julie, não comente isso com ninguém, ok? Isso é
assunto de Luc, a vida dele, não é meu assunto.
— Não? E o que faz com a filha dele? Isso para
mim é mais que óbvio.
— Luc não tem a guarda dela e ainda está lutando
para isso. A ex-sogra dele é uma cascavel maliciosa, e
não quero causar problemas.
— Meu Deus! Luc é algum James Bond?
— Só você mesmo, Julie — caio na risada com a
pergunta descabida.
— Com essa vida secreta, ele já passou Bond em
segredos — ela replica.
— Ele se manteve em uma briga judicial por anos,
Julie. Pelo que entendi, ele só queria se resguardar e ter
Selene em sua vida — tento explicar, mas eu ainda me
pergunto se ele fez bem em manter tudo para ele, talvez
seus amigos o tivessem ajudado com tudo isso.
—Bom, deixemos os segredos de Luc Bond de lado
e vamos levar essas duas sapecas para uma verdadeira
diversão. — ela levanta, deixando o assunto de lado,
coisa que agradeço imensamente.
Pela tarde, acabamos indo para um piquenique, no
jardim que ela tem atrás da casa. E ficar ao ar livre é
revigorante, além disso, Selene está se divertindo com
Isadora.
LUC
As coisas sempre saem do controle quando você
não planeja. Meu caso com Lunna deveria ser
descomplicado, mas tudo ficou uma bosta desde que ela
descobriu sobre o casamento. Caramba, eu ia fazer tudo
direito, com pedido romântico e toda essa coisa melosa,
porém, o destino sempre gosta de trapacear comigo. E
agora não consigo pensar em uma forma de trazer a
loirinha de volta.
Sorrio, quando penso no quanto ela fica brava
quando a chamo assim. Fico duro quando penso nela
brava comigo. Preciso tê-la de volta. Sinto falta de sua
loucura e língua afiada, de seus apelidos sem noção.
Após uma hora olhando o vazio, depois que elas
saem, eu revolvo sair de casa. Aproveito e passo a tarde
com Nicolas e Adam no Club, jogando polo, apesar de
não ser sábado, o dia que sempre fazemos isso. Não temos
nos encontrado ultimamente, já que Nick está em uma
corrida louca atrás de Gabrielle. Ele é implacável quando
quer algo, e hoje coincidiu de ele estar por perto.
São quase cinco da tarde, quando recebo uma
mensagem de texto de um número desconhecido. Eu abro a
mensagem sem nenhuma pretensão e sinto a porra do meu
sangue gelar.
Uma foto mostra Selene entrando no carro de Lunna.
Essa foto foi tirada hoje, mas é a mensagem que faz com
que meus medos anteriores voltem com tudo.

“O juiz pode gostar de saber a forma como expõe sua


filha, vivendo com as prostitutas que você mantêm sob o
mesmo teto que uma menor de idade.”

— O que é isso? — Adam pergunta.


— Nada — digo, levantando. Não consigo ficar
parado. Maldita Amélia! Ela não sabe a hora de parar.
— Você ficou branco mais do que já é, Alonzo —
agora é Nic quem fala — Algum problema na empresa?
— Eu tenho de ir — digo, já me afastando e
pegando meu celular.
Ela atente no primeiro toque.
— Vejo que gostou da foto.
— Amélia, você acha que com uma porcaria dessa
vai me intimidar? Acredita nisso? Deixe-me esclarecer
para você: está perdendo seu tempo.
— Vamos ver isso na audiência, Luc, vamos ver
quem sai perdendo. Eu não vou deixar você viver em paz,
nunca! Irá pagar por tudo que não fez por minha filha. —
ela está gritando do outro lado — Vou fazer você lamentar
o dia que a conheceu.
— Perde tempo, Amélia, você não terá Selene de
novo, nem que eu tenha que...
— O quê? Me matar, como fez com minha filha?
— Matar você? Não merece a morte, Amélia,
merece castigo pior que isso. Fique longe da Selene, isso
é um aviso.
Desligo o celular e entro no carro. Saio do
estacionamento do Club cantando os pneus. Ela tem o
poder de fazer-me perder o controle.
Ligo para Lunna, e ela não atente. Droga, onde elas
foram? Será que estou cometendo um erro, confiando
minha filha a Lunna?
Ligo novamente, e ela, enfim, atente.
— Oi.
— Onde está?
— Por que quer saber, Múmia?
— Não estou para brincadeira agora, Lunna —
digo, e ela parece capitar a ideia.
— O que houve?
— Apenas traga Selene, sim?
— Tudo bem, estamos indo.
— Não é nada sobre você, só que eu preciso tê-la
perto, agora — digo, em tom de desculpa pelo meu tom
ríspido.
— Tudo bem.
— Lunna...
— Sim?
— Eu confio em você, na verdade, em confiei em
você mais do que qualquer pessoa em muito tempo. — Eu
preciso que ela saiba disso.
— Por que isso agora?
— Achei que gostaria de saber. Eu a... — fecho
meus olhos e respiro fundo — Eu agradeço muito por seu
apoio.
— Estamos indo.
Ela desliga sem se despedir, e seu tom
decepcionado só faz minha culpa por minha fraqueza
aumentar. Eu sou um fraco por não ter coragem de falar
com Lunna, mesmo porque, ela nunca vai acreditar que
estou me apaixonando por ela. Mesmo isso parece
supérfluo para descrever; estou sentido a porra do meu
peito vazio sem Lunna ao meu lado. Ela levou meu
coração naquela manhã, quando terminou comigo. Lunna é
daquelas que só acredita em ações e, bem, eu posso tentar
isso, quando a tempestade em minha vida passar.
Quando paro o carro na frente da minha casa, estou
decidido que vou recuperar as duas mulheres da minha
vida.
É, loirinha, eu só preciso descobrir como, penso,
quando estou descendo do automóvel. Um som de um
veículo chegando me faz virar, e o carro de Lunna para ao
lado do meu. Como elas chegaram tão rápido?
Caminho para o carro e abro a porta para Selene.
— Venha aqui, princesa, papai estava com saudade.
— Eu estou indo embora — Lunna diz, do outro
lado do carro — Está entregue, então.
— Espera. Posso falar com você? — peço —
Selene, pode ir entrando?
— Sim, papai. Tchau, Lunna — ela corre para
dentro, nos deixando a sós.
— Eu não posso demorar, Luc — Lunna diz.
Eu apenas caminho para ela, e não peço licença
quando a tomo nos braços e a beijo.
CAPÍTULO 27

LUNNA
Como ele ousa?
Empurro o peito de Luc, mas é como uma muralha
de granito, não se afasta um milímetro. A boca dele é
feroz e arranca gemidos da minha garganta, sem que eu
perceba que estou apenas correspondendo ao beijo cru
que ele está me dando.
Quando ele enfim se afasta, eu bato meu punho
fechado em seu peito.
— Mantenha essa boca longe de mim — digo,
falsamente indignada. Eu ainda não vou dar outra chance
para ele.
— Precisava beijar você, Lunna, sei que sou um
porco chauvinista, não mereço você, mas estou querendo
merecer de verdade — ele diz, e fico um pouco balançada
com seu tom de voz, cheio de desespero, talvez — Tenho
tentado te falar isso, e só sai tudo errado. Eu preciso de
você, e não é por causa da Selene. Penso em você a cada
maldito minuto do dia. Não queria uma mulher em
definitivo em minha vida nesse momento, porque é tudo
uma bagunça, tenho minha cabeça voltada para a guarda
de Selene. Acredito que uma mulher como você, amorosa,
merece tudo de um homem, não ele e sua vida bagunçada.
Mas eu não posso ficar longe, e quando tento me
aproximar, tudo só te afasta.
— Luc...
— Escute, por favor — ele esfrega lentamente o
polegar em meus lábios — Deixe-me acertar tudo com
relação a Selene, e depois farei toda essa coisa romântica
que você deseja. Ser esse príncipe tão falado. Agora eu só
preciso de você ao meu lado, Lunna. Eu deixei tanta gente
de fora dos meus problemas, e agora eles parecem
maiores do que eu, e eu não consigo seguir sozinho sem
você.
— Luc...
— Sei que tivemos até um relacionamento baseado
em luxúria e tesão, mas eu quero mais que isso.
— O que você quer, Luc?
— Você, minha filha e um pouco de paz, só isso —
ele ri, um sorriso fraco — Amélia quer te usar para me
atingir, porém não vou permitir isso. Eu assumirei, diante
de quem for, que nós somos um casal para sempre, mas eu
só preciso conquistar você outra vez.
Choque seria uma palavra fraca para descrever o
que sinto agora.
— Para sempre? — Isso era um “eu te amo” ao
modo Luc múmia de ser? Eu quero acreditar nisso, mas
estou tão chateada ainda. — O que sua ex-sogra tem a ver
com isso?
— Ela não tem nada a ver com o que sinto por você
— ele suspira — Apesar de hoje ela abrir meus olhos
para algo, que mantê-la como minha amante não é justo, e
pedir que case comigo por conveniência também é injusto
— ele beija minha testa — Dê-me uma chance para
consertar as coisas, querida.
— Você só teria de começar a falar a verdade e o
que realmente sente, Luc. Eu não posso dar um passo com
você achando que serei apenas uma conveniência boa, que
posso ser descartada depois, quando não for mais
necessária. Não quero isso para mim. — Respiro fundo
— Pense sobre isso, e quando eu voltar e você ainda
achar que quer isso, que é real, então podemos tentar —
digo, mesmo querendo agarrar isso agora, mas eu iria
contra minha personalidade.
— Você vai viajar? — ele está franzindo a testa.
— Sim, apenas o fim de semana, para Campos do
Jordão. — digo apenas, mas isso aguça mais sua
curiosidade.
— Irá com alguém? — Droga, não quero dizer o
paradeiro de Gabrielle, ele poderia falar para seu amigo e
Gaby iria me matar.
— Bem, não exatamente, irei me encontrar com uma
pessoa lá.
Acho que foi a coisa errada a dizer, porque ele dá
um passo para trás e seu rosto se fecha, carrancudo.
— Eu sinto muito, estou falando de ficarmos juntos
e você já seguiu em frente, eu... — vejo a mandíbula dele
apertar — Divirta-se.
Ele começa a caminhar para casa com passos
decididos, e reviro os olhos quando sigo atrás dele.
— Eu vou, sim — eu estou me divertindo agora —
Vai ser um final de semana incrível. Mal posso esperar.
Prendo o riso quando ele para subitamente e vira-se
para mim. Ele tem um olhar feroz.
— Não brinque comigo — as palavras baixas são
intensas, e ele não está para brincadeira, eu vejo. Luc
morde as palavras furiosamente, os olhos cinzentos muito
intensos — Só deixe para lá, vá se divertir com seu...
novo brinquedo.
Ondulações vibram no ar, eu posso praticamente
apalpar a tesão vindo dele. Luc está se mordendo de
ciúmes? De algum homem imaginário?
— Não...
— Eu pensei que o seu amiguinho não fosse
importante quando os vi juntos, mas me enganei, pelo
visto! — Ele dá meia-volta outra vez e caminha furioso
para dentro de casa, me deixando aqui fora, pasma. Ele
está tão bravo. Acha que estou com Leo? Incrível.
Entro na casa e encontro Selene na sala com suas
bonecas.
— Ei, amor — digo, sentando ao lado dela no sofá
— Eu vou encontrar uma amiga no fim de semana, então
não nos veremos esses dias — acaricio seus cabelos
lisos. — Se você quiser, pode me ligar.
Ela assente.
— Você volta quando? — seus olhos pidões me
comovem. Essa criança precisa se distrair de tantos
problemas.
— Depois do fim de semana estarei de volta e
passarei aqui para ver você — beijo seus cabelos, e ela
larga a boneca e passa os braços ao redor do meu
pescoço. Ah, meu coração que não consegue deixar tudo
para trás! Essa garotinha veio apenas para salvar a pele
do pai dela comigo. — Vai ficar tudo bem, querida. Agora
deixa eu falar com seu pai, ok?
Ela dá uma risadinha.
— Ele está bravo. Muito — ela fala, me fitando
com olhos brilhantes.
— Está, sim — cochicho.
Sigo atrás dele. Eu poderia deixá-lo pensando que
iria mesmo encontrar um homem, mas isso seria muito
infantil de minha parte, além do fato óbvio que se eu
quero a verdade dele, eu devo fazer o mesmo, mas tem
aquele meu lado travesso que adoraria vê-lo arrancando
os cabelos no fim de semana. Encontro-o no escritório,
mas está olhando pela janela, para a vista lá fora. As
mãos nos bolsos da calça evidenciam a bunda sexy dele, e
desvio os olhos, porque posso ficar tentada.
— Posso entrar? — digo, da porta.
— Desde quando pede permissão para alguma coisa
que você quer, Lunna?
— É, tem razão, não sou como uns e outros com
meias verdades. — alfineto e caminho para ficar ao lado
dele — Por isso estou dizendo para você que não tenho
nenhum encontro romântico, na verdade, irei encontrar
uma amiga.
Ele se vira para olhar-me.
— Não vai se encontrar com aquele seu amigo?
— Isso que estou dizendo, Múmia. Você merece
passar um fim de semana sofrendo de ciúmes de mim, mas
se quisermos ter algo real, mentir não é o caminho, e não é
adulto, você sabe.
— Quem disse que estou com ciúme? — ele
resmunga e volta a olhar para fora.
— Isso é tão óbvio — cantarolo, depois digo,
brincando: — Múmia, negue o quanto quiser, mas sei que
me ama.
Ele se vira surpreso para mim e apenas me olha
fixamente.
— Então não precisa fingir que não se importa.
— Vou me encontrar com Gabrielle, mas se você
contar para Nicolas, será um homem morto, Alonzo —
fico séria quando retribuo seu olhar. Passamos um longo
tempo apenas lá, olhando fixamente um para o outro — Eu
tenho de ir. — sussurro.
— Case comigo, Lunna — ele diz, baixinho — Não
agora, mas um dia. Agora só preciso consertar as coisas.
Ele caminha para a escrivaninha, e nela pega uma
caixinha na gaveta, voltando depois para perto de mim —
Fique com ela, no dia que decidir que valemos a pena
estarei aqui.
Sinto um nó na garganta quando pego a caixa azul
bebê com o logotipo da Tiffany. Abro, e dentro tem uma
caixinha preta. A retiro e a abro para revelar um lindo
anel.
— Esse não é o tradicional anel de noivado deles.
— Luc diz.
Não, esse tem um diamante central e duas pedras
azuis em cada lado.
— É lindo, Luc — digo, com emoção.
— Achei que duas rosas azuis não iam convencer
você — fala, com voz cheia de carinho — Achei prudente
ser duas pedras valiosas, em vez de flores. — ele ri — Eu
aprendi a lição da última vez que mandei um botão de
rosa azul para você. Amanhã não quero receber um
caminhão de anéis, hein?
— Não vai. Isso aqui vale mais que minha casa, Luc
— digo, rindo — Vou guardar, sim.
— Obrigado. — ele fixa seu olhar em meus lábios e
depois em meus olhos.
Segurando minha nuca com uma das mãos, ele me
atrai para ele, beijando-me suavemente. Seu calor me
envolve e queima através de mim. O beijo mais suave e
delicado que recebi dele me toca e faz-me querer dizer
sim, mas diante de tudo que disse e fez hoje, e continua
sem dizer as palavrinhas mágicas, prefiro adiar um pouco
enquanto penso.
— Se divirta no seu fim de semana — ele fala
contra minha boca quando se afasta, terminando o beijo.
Balanço a cabeça e o abraço por um momento.
— Cuide de sua filha, Luc, e não deixe que essa
mulher a tire de você — digo, acariciando seu queixo, e
sorrio — Se comporte na minha ausência, Múmia.
— Serei um santo, Loirinha — o tom provocativo
me faz estreitar os olhos para ele.
— Ainda vou pensar em uma forma de castigar você
por isso.
Eu vou embora levando o anel mais lindo que
recebi. Bom, eu não tinha recebido nenhum antes, de
qualquer forma. Mas é lindo e exagerado. E me faz pensar
que talvez tenhamos alguma chance de fazermos tudo certo
e ficarmos juntos.
LUC
Eu estava com tanto ciúme dela. Pensar que ela já
tinha partido para outra me incomodou tanto que queria
quebrar algo com meus punhos, mas ela é a Lunna franca,
que me cativou, e vir dizer que não tem ninguém foi um
alívio.
Vejo-a sair, e minha vontade de impedir que se vá é
grande. Eu preciso da alegria e da força de Lunna aqui,
comigo, agora. O silêncio do ambiente me incomoda, e
ligo o aparelho de som quando sento e tento trabalhar um
pouco. Isso se torna impossível, porque meus
pensamentos derivam sempre para ela, e quando a música
Pensa em Mim, de Malta, começa a tocar em minha
playlist, parece ser o fundo musical perfeito para nós
dois. Quem diria, Luc Alonzo, sentimental!

Tudo certo gosto mesmo de você


Falo sério juro que vou ser
Bem mais que a vida e o fim
Te dar tudo de mim
Pensa em mim e finge que estamos perto, sério!
Lembra de mim cuida bem do nosso amor e mesmo
Longe daqui pensa em mim
Depois de Selene ir dormir, volto para o escritório.
Tentando pensar em uma forma de neutralizar Amélia,
mando um e-mail para Elizabeth, falando do ocorrido, e
sua resposta vem dez minutos depois.

Luc,
Nenhum juiz vai condenar você por namorar a
Lunna e Amélia sabe disso, só que ela já percebeu que
você teme perder Selene, e ela vai tentar, de todas as
formas, desequilibrar você. Deixe-a falar o que quiser,
ela não é nenhum juiz. Fique calmo, já falei tanto isso
que vou aumentar meus honorários.

Sorrio; eu tinha feito a coisa certa ao contratar


Elizabeth, ela me deixa tranquilo a maior parte do tempo.
No dia seguinte, Selene e eu passamos o dia na casa
dos meus pais, e vê-los juntos faz com que eu me
recrimine por ter excluído minha família dos problemas
de guarda dela.
— Quando ela vai ficar com você em definitivo? —
meu pai, que está sentado ao meu lado, indaga.
— Esses processos demoram, Elizabeth tem feito
tudo que pode para agilizar, mas mesmo contando com
suas amizades não é tão fácil assim. Mas, por enquanto,
ela fica comigo.
— E já está procurando uma escola? Ela não pode
ficar sem escola por tanto tempo — meu pai é um homem
prático, sempre pensando em soluções.
— Irei ver isso em breve.
— Deixe sua mãe verificar isso — ele sugere.
— Eu vejo isso, pai — eu já tenho outra pessoa em
mente.
— Como queira — ele se levanta e vai até a neta,
falando com ela e fazendo-a rir.
Sorrio e me recosto na cadeira. Tudo poderia ser
perfeito, se tudo com relação à guarda findasse e que eu
pensasse em algo para convencer certa loira que sou um
bom partido.
CAPÍTULO 28

LUNNA
Foi um pouco doloroso e difícil ir embora
depois do gesto romântico de Luc. Eu tenho de admitir que
ele está tentando, mas foi necessário sair para que algo
realmente mudasse entre nós. Eu guardo o anel em um
pequeno cofre dentro do meu guarda-roupas, e sei que não
passará muito tempo guardado, eu quero exibir para o
mundo que Luc Alonzo quer se amarrar. Meu sorriso cai
um pouco, quando penso que se ele está fazendo isso com
o intuito de se beneficiar, por que, afinal, ele não anuncia
para todos? Por que não oficializar isso publicamente?
Bem, enquanto ele não se toca nesse detalhe, eu irei
usufruir desse lado romântico dele. Fazê-lo colocar em
prática. Ele passou muitos anos sem ter uma mulher com
quem se importasse, penso, voltando a rir.
Meu fim de semana com Gabrielle é apenas
relaxante. Ficamos os quase dois dias inteiros atrás da
casa dos Andretti, deitadas em espreguiçadeiras. Sua
barriga de quase sete meses está enorme.
A casa dos Andretti é simplesmente fantástica, e a
vista é um espetáculo. Ficaria aqui por um longo tempo,
no entanto, minha amiga parece inquieta nesse lugar.
Talvez ficar sozinha agora não seja o caminho.
— Está reclamando do que, querida? — questiono,
apontando ao redor. Talvez eu a entenda por sentir-se
solitária aqui, mesmo que tudo seja muito relaxante e
tranquilo. Gabrielle deveria estar junto de nós, suas
amigas, mas sua teimosia não tem limites. Ela e Nicolas
se merecem, são dois loucos.
Os dois dias passados em Campos do Jordão me faz
pensar em minha própria história de amor mal resolvida
com Luc. Eu não tenho dúvidas que me apaixonei por ele
nessa brincadeira de gato e rato, mas casar, depois de
saber que ele faria isso por Selene, me deixa com dor no
peito. Temos de ir com calma com esse casamento, não
estamos em uma corrida, afinal de contas. Quando volto
para casa, na segunda-feira, eu tenho tudo decidido e,
como prometido, vou visitar os Alonzo.
Selene me recebe como se não tivesse me visto em
anos.
— Ei, baby, também senti saudade! — devolvo seu
abraço caloroso, enquanto dou um sorriso a Marta, que
nos olha. Luc tem sorte de ter uma figura feminina
amorosa junto de Selene, nesse momento de suas vidas. —
Oi, Marta!
Ela acena e nos deixa sozinhas na sala. Luc não está
em casa, fico sabendo por Selene.
— Vocês se divertiram o fim de semana?
— Sim, meu pai e eu ficamos na casa dos meus avós
— ela balança as pernas, inquieta — Meu pai queria que
você fosse.
— Ele disse isso?
— Disse. — fala, com veemência.
Eu tinha minhas dúvidas, dona Selene Alonzo é
muito espertinha, e claro que ia puxar a sardinha do seu
pai. Pequena faceira!
Estreito meus olhos, fingindo não acreditar nela.
— Eu juro — diz, com um sorriso infantil inocente
que vai direto ao meu coração.

— Acha que Luc demora? — pergunto para Marta,


que está nos servindo o bolo favorito de Selene, na
cozinha. Faz mais de meia hora que estou aqui e não quero
ir embora sem que tenhamos uma conversa.
Mas, no fim, acabo indo embora antes que ele volte.
Estou no meio do lanche com Selene, quando recebo um
telefonema da minha mãe, e ela quer que eu vá até sua
casa, e pelo tom de sua voz, parece sério. Encontro-a
sentada no sofá, segurando um lenço entre os dedos, e
pelo amassado, está torcendo-o há bastante tempo.
— Ei, o que houve? — indago, preocupada,
sentando-me ao lado dela e pegando suas mãos nas
minhas.
— Eu sinto muito que tirei você dos seus afazeres
assim — ela fala — Mas eu não tenho com quem falar
desse assunto.
— Que assunto, mãe?
— Seu pai. — ela baixa a cabeça e espreme mais o
lenço. — Ele veio me ver.
Eu não digo nada por um longo tempo, porque
simplesmente não sei o que falar para ela agora. Ela não
podia ter deixado esse homem chegar perto dela, de nós,
outra vez.
Mas parece que ela não se importa que eu não diga
nada, já que continua falando:
— Ele veio me pedir perdão — ela está dizendo —
Que sair de casa foi um erro.
— Mãe...
— Eu pensei que poderia mudar minha vida — ela
me corta — Eu passei anos esperando que seu pai
voltasse para casa, que se arrependesse e voltasse para
sua família de verdade, mas isso nunca aconteceu. Quando
eu tomei a decisão de não esperar mais e tentar ser feliz
de alguma forma, ele voltou.
— Você ainda pode...
— Eu conheci uma pessoa que estava me fazendo
enxergar outra vez o amor, ou talvez uma nova forma de
amor, e agora tudo está confuso. Eu desejei tanto ter seu
pai aqui, e quando isso finalmente aconteceu, eu estou
confusa. — ela lamenta.
— Você conheceu outra pessoa? E não me falou?
Você anda estranha porque está namorando? Mas me
chama para falar desse homem? — eu praticamente estou
gritando agora.
— Não era importante antes, Lunna, mas agora seu
pai quer ter sua família de volta — ela me olha suplicante,
como se eu tivesse as respostas às suas dúvidas. No
entanto, ela está certa, eu tenho resposta para dar, não a
ela, e sim a esse calhorda que acredita que pode voltar
para nossas vidas como se nunca tivesse saído.
Sinto raiva pura se construindo dentro de mim. Ele
não tem o direito de vir aqui à nossa casa e propor isso a
ela. Entretanto, minha raiva maior agora é com ela. Como
ela pode ter alguma dúvida sobre isso?
— E você disse não a ele, não foi, mãe? —
pergunto mansamente. Ela está me decepcionando por
apenas cogitar voltar para um homem desses.
— Eu não sei o que fazer, por isso chamei você. Eu
preciso que saiba o que está acontecendo, antes que eu
tome uma decisão.
— Mãe, esse é o mesmo homem que abandonou
você com uma filha e foi embora com outra mulher para
formar uma nova família. Nunca nem ligou para você, e
agora está confusa? Diga-me, qual a razão da confusão,
mamãe? — Levanto, furiosa — Você passou anos
chorando por esse cafajeste e agora, depois de anos de
humilhação, você cogita aceitá-lo de volta? Sério?
Não acredito nisso. Não acredito que tem mulheres
por aí assim e minha mãe é uma delas.
— Ele foi o homem que amei por toda vida e me
deu uma filha maravilhosa — diz, como se isso fosse
razão para ele fazê-la sofrer.
— Ele é um canalha e não merece perdão, e você
está me decepcionando além da razão agora, mãe — pego
minha bolsa e começo a caminhar para a saída.
— Lunna?
— Eu não vou ficar e assistir você se humilhar
dessa forma. — falo, antes de virar as costas: —Tenha
mais amor próprio, mãe. Não desista dessa nova pessoa
na sua vida, por uma que a humilhou por mais de vinte
anos. — aponto para ela — Você o terá em sua vida, mas
irá me perder. Nunca permitirei que esse ser chegue perto
de mim. Inacreditável que você possa pensar nisso.
— Lunna!
— Tchau, mãe. — a casa me sufoca, e caminho até
meu carro, contudo, não entro, começo a andar pela rua.
Preciso clarear as ideias ou os pensamentos irão me
comer viva.
Quando eu entro no meu apartamento é quase meia-
noite, e estou me sentindo cheia de raiva contida. Quero
extravasar, e, pelo visto, eu vou ser atendida de alguma
forma, porque eu o sinto antes de vê-lo. A sala está
escura, mas a sombra perto da janela faz meu coração
começar uma corrida maluca no meu peito. Solto minha
bolsa no chão e caminho direto para ele.
— Ei...
Sua voz some quando eu fico na ponta dos pés,
entrelaçando meus braços ao redor de seu pescoço. Eu o
beijo. A barba áspera causa um frisson através do meu
corpo. Nossos corpos são pressionados quando ele segura
minha cintura e me ergue, assumindo o controle do beijo.
Estamos nos beijando com fome, diferentemente da última
vez que nos beijamos delicadamente. Agora, tudo que eu
posso sentir é o cheiro dele, o sabor delicioso de sua
boca na minha, nossas línguas esfregando uma na outra,
fazendo arrepios quentes e frios correrem por nossa pele.
Nossas roupas são uma barreira que precisa ser
eliminada. Preciso sentir sua pele na minha outra vez. O
desejo tangível faz nossas ações caóticas e frenéticas, na
tentativa de sentir mais o outro. Luc me empurra para o
sofá, fazendo-me virar de costas para ele e inclinar para
frente. Apoio minhas mãos no braço do sofá e sinto sua
boca deslizar por minhas costas, e não seguro o gemido
rouco que sai do fundo da minha garganta. Sua mão
desliza por meu traseiro e entre minhas pernas,
acariciando para trás e para frente sobre o meu clitóris.
Isso causa sensações incríveis, arrancando mais e mais
gemidos de mim. O enrijecer do meu corpo não me
prepara para o meu orgasmo, alguns segundos mais tarde.
— Luc!
— Tudo bem. — ele diz, beijando meu pescoço, os
dentes raspando minha pele, e uma renovada onda de
desejo me faz arquear mais em sua direção.
Esfrego minha bunda em sua virilha, sentindo seu
pau duro e ansioso para me foder. Quero sexo rápido e
forte, necessito saciar a urgência que há em meu corpo.
Luc geme quando continuo a provocá-lo,
friccionando minha bunda em seu sexo, e seu gemido é
como um toque em minha pele, pois sinto, através dele e
do seu corpo excitado, a intensidade do seu desejo por
mim.
—Me fode... quero sentir seu pau dentro de mim...
— falo, de forma direta e atrevida, sabendo que vou
excitá-lo.
Luc não espera um segundo mais; com uma perna
ele afasta as minhas, deixando-as mais separadas. Eu me
abro para ele, querendo senti-lo dentro de mim, e quando
seu pau me invade, em um golpe rápido e ansioso, solto
um gemido alto, quase um grito de prazer.
Quando sua virilha encosta em minha bunda,
começo a rebolar, exigindo suas estocadas. Mas Luc me
controla com suas mãos fortes, deixando-me passiva às
suas arremetidas, que começam suaves, provocadoras,
atiçando ainda mais minha ânsia por ele. Meu corpo se
agita conta o dele, querendo mais.
—Impaciente, Loirinha? — Luc pergunta, sua
respiração ofegante me dizendo o quanto está perto do
descontrole.
Não tenho tempo para respostas; ele agarra mais
firme minha cintura e começa a investir com força em meu
corpo, que treme a cada batida do seu quadril. Seu pau, a
cada vez que é puxado da minha boceta, volta com mais
força, em uma carícia intensa e quente que faz minha
vagina se umedecer mais e mais. A sala é preenchida com
o som dos nossos gemidos e com o som das batidas cada
vez mais rápidas e fortes do seu quadril na minha bunda,
cada vez que ele mete o pau com força na minha boceta.
Embalados pelo som luxuriante, somos levados a um
êxtase que nos tira da nossa realidade. Seu pênis pulsa
dentro de mim, e minha vagina o aperta em um abraço
quente, absorvendo todo o seu prazer, que complementa
totalmente o meu.
Sexo rápido igual coelho, é o pensamento que vem
à minha mente, quando caio no sofá em cima do peito
sólido de Luc.
— Deveríamos ter feito isso, loirinha? — Luc
questiona, me apertando entre os braços — Não que eu
esteja reclamando, mas estou em uma missão de conquista
aqui e não quero estragar nada.
— Tudo bem, precisava disso. De sentir você —
respondo.
Meu ouvido está em cima do seu coração acelerado,
e eu sinto as comportas se abrirem e eu liberar a raiva que
senti toda a noite em forma de lágrimas. Raiva de meu pai,
de minha mãe, de suas malditas dúvidas e falta de amor
próprio. E agora eu só preciso da merda de um abraço,
como um ser humano normal.
— Ei? — Luc chama, quando sente meu corpo
estremecer em soluços silenciosos — Está tudo bem,
querida.
Ele continua falando enquanto acaricia meus
cabelos, e eventualmente as lágrimas param.
— Quer conversar sobre isso? — Luc beija meu
ombro carinhosamente — Eu sou ótimo ouvinte.
— Você não é nada disso, Luc Alonzo — retruco,
com um riso fraco — Precisamos conversar sobre nós.
— Claro, mas não precisa ser agora.
— Sim, precisa.
— Tudo bem.
— Eu aceito me casar com você, Luc.
— O quê?
— Mas não agora. Precisamos ir devagar, eu
preciso rever algumas coisas antes de tomar uma decisão
que afetará não só a nós, mas à sua filha.
— Já estamos indo devagar, Lunna — diz — E
Selene gosta de você.
— Não estamos. No dia que eu usar aquele anel,
quero ter certeza que ele estará no meu dedo sem nenhuma
sombra entre nós. — Retruco — E é por Selene gostar de
mim que devemos ir devagar e pensar nela antes de uma
decisão entre nós.
— Eu não tenho nenhuma dúvida mais sobre nós —
ele fala com certeza na voz, mas não vou entrar nisso
enquanto os sentimentos de rejeição por meu pai, dentro
de mim, parecerem um tufão, aniquilando tudo. Além
disso, a vida dele também não é nada tranquila. E é o que
tento deixar claro quando digo:
— Temos uma custódia para ganhar, vamos nos
concentrar nela. Selene precisa de você nesse momento
mais que qualquer outra pessoa, e eu estarei aqui para
vocês dois, sempre. Mas casamento nesse momento?
Quando está lutando pela guarda? Isso é precipitado.
Prefiro esperar até você estar livre de toda pressão e de
sua ex-sogra do mal.
— Tudo bem.
— Só isso?
— Sim. Você não me disse não, isso já é um grande
passo no longo caminho para o seu coração. — ele se
ergue do sofá, me toma nos braços e me carrega pelo
corredor em direção ao quarto — Vou conquistar você,
loirinha, eu juro.
— Eu amo você — as palavras saem, e eu levo
minha mão à boca, na tentativa falha de impedi-las de
saírem.
Luc para no meio do quarto e me olha, chocado.
Desejo cru, luxúria e tantos sentimentos nos olhos cor
mercúrio me incendeiam por dentro. Ele está sem
palavras
— Eu te amo. — digo novamente.
— Diga isso novamente! — ele ri.
— Luc Alonzo, é para dizer eu te amo de volta.
— Caramba, é mesmo, loirinha! Eu tinha todo um
ritual para esse momento. Você estragou meu momento.
— Luc! — grito, quando ele me joga no colchão e
cai por cima de mim.
— Eu amo cada pedacinho doce desse seu traseiro,
Lunna Maia.
— Que original, Múmia!
— Palavras são superestimadas, eu prefiro mostrar
o quanto é importante para mim, Lunna.
CAPÍTULO 29

LUC
O dia está claro lá fora. Sei que são apenas
cinco da manhã, pois o despertador ao lado da cabeceira
da cama me despertou.
Beijo o ombro de Lunna, enquanto observo-a
dormir. Era para ter ido embora faz tempo, mas estou
ainda flutuando, meio embriago de saber que ela me ama,
apesar de toda trapalhada que estamos passando. Ela é a
louca mais sensata que conheço, casar em meio ao caos
que estou com Amélia vai ofuscar esse momento
importante para ela; momento importante para todas as
mulheres, acredito, e Lunna não é diferente nesse quesito.
Ela quer romance e toda coisa envolvida nisso, e como
tenho sido um idiota a esse respeito, vou tentar
recompensá-la de alguma forma.
— Acorda, loirinha — cantarolo, descendo minha
mão por seu abdome reto, e sinto um arrepio quando
penso nele volumoso com um irmãozinho para Selene, lá.
— Um dia. — murmuro, descendo mais minha mão.
Ela não está dormindo, porque se eu não estiver engando,
minha doce menina está muito excitada. Levanto um pouco
e seguro o peso do meu corpo em um braço, e, em
seguida, deslizo a mão mais abaixo, para suas dobras
molhadas e lisas. Minha cabeça mergulha para abocanhar
um dos seios, que agora estão bem ao alcance da minha
boca. Meu pau está lutando para sentir sua vagina quente,
estou tão duro que dói, mas não me importo, quero
acordar minha mulher da maneira mais deliciosa que há.
— Querida... — chamo em um sussurro, deslizando
a palma da minha mão para baixo, esfregando suavemente
contra o monte delicado de sua boceta, enquanto eu
empurro dois dedos lentamente no calor molhado dela. O
suspiro dela me faz sorrir. — Você está acordada, meu
doce? Hum?
Mordo o bico duro de seu seio, depois passo a
língua lentamente. Meus dedos deslizam lentamente no
canal apertado, e eu quero sentir esse aperto no meu pau,
mas tenho o prazer da minha loirinha em primeiro lugar, e
quero-a mansinha para me contar o que a chateou tanto,
ontem.
— Luc, sua delicadeza está me irritando — o
resmungo mal-humorado me deixa mais excitado. Olho-a,
e seu rosto está rubro, a respiração ofegante, seus olhos
fechados, entregue ao prazer. Seu quadril sobe em busca
de mais atrito.
— Paciência.
— Faz meia hora que está fungando em mim, Alonzo
— rio de seu mau humor — Não ria. Aja, Múmia!
— Sim, senhora. — digo, antes de beijar seu lábios
úmidos e convidativos. — Estou aqui para seu prazer,
loirinha.
— Você, definitivamente, tem de acabar com esse
“loirinha”, Luc —Lunna reclama do outro lado da mesa,
do pequeno restaurante onde viemos tomar nosso café da
manhã. É perto de onde ela trabalha, e por essa razão
estamos aqui. Ela precisa trabalhar.
— Alguém acordou geniosa, hoje.
— Sério, é irritante.
— Isso é uma via de mão dupla, querida. Múmia
tem de ir, também.
— Ah, sem chance!
Querendo mudar de assunto e correndo o risco de
ter minhas bolas arrancadas, pergunto inocentemente,
enquanto tomo um gole de café:
— Que tal nós dois sermos sócios de uma clínica de
fisioterapia? — espero a explosão calmamente, mas ela
não faz nada, a não ser me olhar sem nada dizer.
— Sério? E você sabe o que sobre fisioterapia,
Luc? Tem alguma graduação na área que eu não sei? —
ela finalmente devolve, com um sorriso.
Limpo minha garganta e sorrio de volta.
— Ora, eu seria um investidor e você a mão de
obra.
— Que gracinha. — ela pega minha mão sobre a
mesa minúscula entre nós — É esse seu jogo de sedução,
Múmia? Porque se for, você está em maus lençóis.
— Claro que não, só acho que, sendo sócios,
poderíamos ter mais tempo juntos. — Eu, Luc Alonzo, não
admiti isso em voz alta não, né? — O que fez comigo,
Lunna?
— Eu te falei, eunuco, que você ia ficar viciado em
mim — ela sorri de orelha a orelha, piscando maliciosa.
Sinto a mão atrevida dela alcançar minha perna, por baixo
da mesa.
— Lunna!
— Chato! — ela retira a mão errante e eu respiro,
aliviado. Lembro de seu atrevimento, pegando em meu
traseiro em uma festa na casa de Adam, e balanço minha
cabeça, afugentando a imagem da mente. Eu tinha ficado
tão puto naquele dia.
Deixando de lado nossa implicância natural, olho
sério para ela. A noite teria sido perfeita se não fosse pelo
fato de Lunna ter chegado chateada e logo depois ter uma
crise de choro. Ela não é assim. Não vivia lacrimejante
como outras mulheres, e vê-la assim é inusitado, e por
isso estou atrasado para ir encontrar minha filha, que deve
estar dando trabalho a Marta em casa.
— Vai me contar por que estava aborrecida, ontem?
— pergunto, enfim — Sei que não é mulher que vive
chorando, Lunna, você me deixou preocupado.
— Estou bem, apenas aborrecida com problemas
familiares — espero-a continuar, e quando isso não
acontece, é minha vez de segurar sua mão sobre a mesa.
— Lunna, eu não quero que seja apenas eu a dividir
meus problemas com você, quero que confie em mim para
dividir os seus também.
— Não é grande coisa, Luc — fala e desvia os
olhos para fora do restaurante — Eu estive com mamãe
ontem e tivemos uma conversa que me chateou.
— Tudo bem, não quero ser invasivo — recosto-me
na cadeira, observando seu rosto. Isso está chateando-a
realmente. Sua relutância em falar já é sinal de que ela
precisa de mais tempo.
— Eu... é apenas minha mãe sendo idiota, para
variar — ela diz, por fim, ainda olhando para longe de
mim — Meu pai nos abandonou quando eu ainda era muito
pequena, ele foi embora sem olhar para trás e construiu
uma vida com outra pessoa. Nunca procurou saber se
minha mãe estava bem, se eu estava bem. Eu desejava
todos os dias que ele me procurasse, mas nunca veio.
Parei de esperar e de desejar isso, passei a odiá-lo por
anos e anos, pelo simples fato de minha mãe não esperar
que ele voltasse um dia. Ele nunca voltou, quer dizer, ele
voltou recentemente.
— Sinto muito por isso, Lunna...
— Eu passei mais de vinte anos sem um pai. Eu não
sinto nada por esse homem, nem amor nem ódio, apenas
indiferença — ela sorri sem alegria quando me olha —
Me diga: por que uma pessoa deixa de se amar para
aceitar humilhação da outra? Não compreendo isso. Ele
quer voltar para casa, depois de anos e anos, e mamãe
cogita aceitar.
— Não seja dura com ela e com você.
— Não aceito! E se ele voltar, ela não vai me ver
— uma lágrima solitária desliza por sua face, e eu me
movo, colhendo-a antes que caia. Meu polegar acaricia
seu rosto. — Mas irei encontrá-lo e direi tudo que tenho
guardado por anos.
Depois de respirar fundo, ela continua:
— Sabe, talvez minha afinidade com Selene tenha
sido tão rápida por eu saber o que é desejar ter um pai
presente. Eu entendo sua filha, Luc, por isso que desejo
que vocês dois fiquem juntos.
— Nós vamos. E quero você conosco.
— Você não vai me aguentar por muito tempo,
Múmia.
— Quer apostar, loirinha, que te aguento até você
ficar uma velhinha decrépita?
— Luc, alguém precisa te ensinar a ser romântico.
Velha decrépita?
— Melhor que caduca — provoco — Ou anciã.
— Múmia, isso não é melhor coisa nenhuma— ela
reclama, me jogando o guardanapo.
Sorrio, me inclino para frente e beijo seus lábios.
Depois de saquear sua boca, me afasto olhando seus
olhos, agora sorridentes.
— Eu não posso prometer que não cometerei erros,
Lunna, mas eu posso prometer que nunca abandonarei
você e nossos filhos por causa de outra pessoa ou o que
quer que seja. Porque não sei bem como isso aconteceu,
mas eu não consigo imaginar um futuro sem que você não
esteja nele — seguro firme em sua nuca, nossas bocas
quase unidas — Ter você na minha vida foi umas das
melhores coisas que a vida poderia me dar, além da minha
Selene. Vocês duas, hoje, são o centro do meu universo.
— Múmia, isso foi romântico — ela ri, antes de
colar sua boca na minha, beijando-me com ímpeto. Gemo
em sua boca quando assumo o beijo quente. Ofegantes,
nos afastamos ou íamos dar um show hoje aqui.
— Vocês dois também são tudo para mim. Eu amo
sua filha, Luc.
— Eu estou ficando foda nesse negócio de romance.
— digo apenas para provocar, quando volto a sentar-me
corretamente em minha cadeira.
— Menos, Luc!
Quando volto para casa, mais tarde, eu estou me
sentindo leve. Aumento o som e dirijo ao encontro da
minha filha. A vida está entrando nos eixos.
CAPÍTULO 30

LUNNA
Nossa relação dá um salto para algo mais
consistente. É no que eu estou acreditando, e, diante disso,
eu acabo entregando o jogo para Julie. Era para nós três,
ela, Gabrielle e eu, termos essa conversa, mas como Gaby
tem seus próprios problemas, só nós duas sentamos no
nosso ponto de encontro e eu despejo tudo sobre ela. E até
de Selene eu falo.
— Ah, enfim abriu o jogo! Mas, querida, já
sabíamos disso. Vocês dois são óbvios demais — ela ri
enquanto bebe seu vinho — Mas eu fico muito feliz que
estejam começando a se entenderem.
— Temos muito pela frente — digo, pesarosa,
pensando na próxima semana, em que ele levará Selene
para uma avaliação psicológica, e eu não posso pensar
que esse psicólogo não vá favorecê-lo e acabe dando um
parecer atestando que Selene não sofre morando com a
avó. Ela tem desabrochado com Luc cuidando dela, dando
toda atenção para ela. Mas e se isso for ruim para a
consulta? E se o psicólogo achar que ela é uma criança
sem nenhum trauma? Meu estômago dói com o
pensamento.
— Vão superar, Lunna, tenha mais fé em vocês dois
— Julie diz, me tirando dos pensamentos ruins.
— Eu tenho medo de que a justiça não seja feita,
Julie, e aquela criança volte a viver oprimida e coagida a
odiar o próprio pai.
— Vamos torcer, minha querida — ela segura minha
mão na dela — Tenho certeza que tudo vai acabar bem,
você vai ver.
Seguro essas palavras no coração, rezando para que
ela tenha razão.
Nos dias seguintes, eu tento descobrir, por meio de
minha mãe, onde meu pai está morando, mas ela não diz
nada. Eu preciso tirar esse homem de minha mente, não o
deixarei destruir minha mãe outra vez quando ele for
embora, porque ele vai. Ele não merece um pingo de
confiança, é totalmente indigno.
— O que vai fazer, Lunna? Você não precisa vê-lo
por causa disso — minha mãe diz, quando a questiono —
A ideia de nos darmos uma chance talvez seja boba, não
se preocupe com isso, já deixou claro que não o quer
aqui.
— Sim, não quero esse homem perto de nós, mãe —
enfatizo — Mas eu não posso deixá-lo fazer sua cabeça e
seu coração carente.
— Eu não sou uma menina boba, filha.
— Não? Você estava falando em voltar para ele,
mãe, isso não é ser boba? — cruzo meus braço, olhando-a
com firmeza — Ele te humilhou e você continua o
amando, e vem dizer que não é boba? Realmente não é
boba, é masoquista e gosta de sofrer.
— Olhe como fala, Lunna Maia! — ela reprende
com um sorriso incipiente no canto dos lábios — Você
pode ter razão, eu só... Não sei como agir.
— Seja forte e pense no quanto doeu esses anos
todos — sugiro. E tentando fazê-la esquecer de uma vez
por todas, digo: — Tenho outro pedido para fazer.
— O quê?
— Quero muito conhecer essa outra pessoa que
você está namorando — dou um sorriso matreiro, quero
esquecer que estou chateada com ela.
— Não sei se é uma boa ideia — ela começa,
incerta, e vejo que aquela mulher insegura foi a que
convivi durante anos, e de quem é a culpa? Do meu pai e
dela mesma. Isso é tão triste! Eu vejo o quanto somos
diferentes, eu e a mulher que me deu a vida.
Eu alimentei essa raiva por meu pai por anos,
porque a vi sofrendo. Nunca tive trauma de não querer um
relacionamento porque não tive pai, ao contrário; sempre
quis compartilhar minha vida com meu príncipe
encantado.
Eu estou embarcando com Luc em um
relacionamento, estou apaixonada por ele e por sua filha
linda, contudo, se um dia esse relacionamento acabar, não
vou me tornar como mamãe, jamais. Mendigar o amor
dessa forma, esquecendo de mim mesma. Eu iria sofrer
muito separando-me deles, mas nunca me humilharia para
ter a atenção dele, nunca. Provavelmente eu ficaria insana
e louca se a múmia me desse um fora definitivo.
Planejaria sua morte. "Bem morta". Arrancaria suas bolas
e guardaria em uma caixa de sapato igual Perpétua fez
com as bolas de seu falecido... Ops, Lunna, querida,
menos, por favor.
— Está rindo de que, querida? — A voz de mamãe
está confusa, me tirando dos devaneios esquisitos.
— Hum. De nada. — Dou um sorriso sem graça e
continuo o assunto anterior: — Marque um jantar, ok? Não
hesite em ser feliz com outra pessoa, mãe, aquele homem
que deixou você não merece seu amor e nem um minuto de
seu pensamento.
— Está bem. — ela cede, e eu dou um abraço
apertado nela.
— Você nunca me disse o nome dele. Fale-me dele.
— Gregório — ela diz — Ele é voluntário da igreja
no bazar beneficente que montamos. Ele faz um trabalho
voluntário lá.
Ela discorre sobre o tal bazar e sobre Gregório, e
eu apenas balanço a cabeça. Ela parece diferente quando
fala dele, e me pergunto se ela percebe isso. Ela viveu
tanto tempo com uma fixação no seu antigo
relacionamento, que não percebe que está apaixonada por
essa nova pessoa.
Três dias depois, quando paro o carro em frente à
casa dela, para enfim conhecer Greg, eu nunca imaginei
que fosse me surpreender tanto.
Entro na casa sem bater na porta, já que eu tenho a
chave, e paro em choque quando vejo um homem jovem
segurando a cintura da minha mãe, na sala de estar. Oh,
meu Deus! Minha mãe namora um adônis! Minha mãe é
ainda muito jovem, mas o homem ao lado dela deve ter
uns trinta anos.
Tento segurar o ataque de riso que estou prestes a
ter. Mamãe safadinha, por isso ela estava guardando
segredo. Ela, agora mesmo, parece muito nervosa.
— Olá! — dou um sorriso encorajador para mamãe.
Ela pigarreia e me apresenta a ele.
— Greg, essa é minha filha, Lunna. — ela fala, sem
fôlego.
Nos cumprimentamos. Deixo o choque inicial de
lado e passo a noite analisando Gregório. Ele é alto e
forte, sua pele escura contrasta lindamente com minha
mãe, de pele branca. Seus olhos cor de mel são diferentes,
parecem felinos no rosto jovem. Seu carinho por mamãe
parece genuíno, mas ele ainda vai demorar para ter
totalmente minha benção de filha. Não que eu seja contra,
ao contrário, qualquer um é melhor que meu pai, pode
acreditar.
— Então, Greg, o que você faz da vida? —
pergunto, quando estamos sentados ao redor da mesa.
Deveria ter convidado Luc para vir, mas eu não quis tirá-
lo de Selene, afinal, estávamos tendo as noites juntos
desde que voltamos.
— Sou médico. Cirurgião geral. — ele diz — Sua
mãe me disse que você é fisioterapeuta.
— Verdade.
A conversa no jantar flui tranquilamente, e vejo
minha mãe relaxar durante nossa conversa descontraída.
Eu gostei do Greg, apesar do receio de sua idade com
relação a de mamãe. Mas se tem alguém que pode fazê-la
esquecer o passado, é ele.
Quando me despeço dela, no fim da noite, cochicho
em seu ouvido que ela está de parabéns pelo gostosão. Ela
cora terrivelmente, e saio de sua casa mais tranquila.
Hoje é o dia que Luc irá com Selene à avaliação
psicológica. Como tudo está sendo no Rio de Janeiro, é
para lá que eles vão. Eu não consigo ficar em São Paulo e
deixar esses dois sozinhos, por isso estou aqui, sentada ao
lado deles, em um voo para o Rio. Não sei bem como me
portar caso a ex-sogra dele me use para atingir Luc, mas a
força que me faz ir com eles é maior que qualquer temor.
Sinto a pequena mão agarrando a minha e volto
meus olhos para Selene. Ela aprece assustada desde que
Luc disse a ela para aonde estamos indo.
— Vai ficar tudo bem, princesa — cochicho para
ela, me inclinando em sua direção — Estamos juntas
nisso, hein?
— Não quero mais morar com minha avó — sua voz
sai em um apelo doloroso — Eu quero ficar com o meu
pai.
Luc teve uma conversa franca com ela, alguns dias
atrás, sobre o que eles estavam indo fazer. Selene tem
nove anos, mas sua carência afetiva parece a de uma
criança mais nova. Culpa do medo e da coação daquela
cobra da avó que ela tem.
— Você vai ficar, querida — sinto-me impotente,
sem ter certeza daquilo que estou prometendo a ela. Não
está em minhas mãos o poder de consertar tudo isso, mas
não posso deixar essa criança com medo do futuro, sem
tentar amenizar o caos que deve estar a cabecinha dela.
Luc está sentado na outra poltrona e mantém os olhos em
nós duas. Elizabeth está sentada ao lado dele. Eu enfim
conheci a advogada. Ele me lembra Kerry Washington,
uma atriz americana. O cenho franzido de Luc indica sua
preocupação e que ele tem a cabeça longe das palavras de
Elizabeth. Ele tem se mantido calado desde que passou no
meu apartamento, a caminho do aeroporto. Sua seriedade
me deixa inquieta. Seus olhos encontram os meus por um
instante, e sinto um frio na barriga com a intensidade de
sua íris cinzenta em mim. Eu quero abraçá-lo, e em vez
disso, transfiro meu afeto para a pessoinha mais carente
nesse avião. A consulta será à tarde, e segundo Elizabeth,
o psicólogo avaliará possíveis problemas
comportamentais e emocionais de Selene. E torço que seja
eficiente nisso, que veja o que nós vemos: uma criança
assustada com a possibilidade de deixar seu pai.
Quando entramos no hotel onde iremos ficar, eu
tenho ânsia de encontrar Luc. Estou em uma suíte ao lado
da de Luc e Selene, eu prefiro assim, já que estamos perto
da jararaca e ela pode jogar sujo com Luc. Depois de
deixar minha mala no quarto, vou até a suíte deles, pela
porta de comunicação. Estou precisando dos beijos de
Luc, mais do que ar. Ele está na sala ao telefone, e pelo
teor da conversa, provavelmente é com sua mãe. Ele me
vê e prende seus olhos em mim.
— Ligo para você quando terminar. — ele diz, antes
de desligar. Luc vem em minha direção, e eu agarro sua
camisa nas mãos antes de beijá-lo.
CAPÍTULO 31

LUC
Agarro seu rosto e colo a boca na dela. Por
mais temeroso que o dia me deixasse, ela é como um
pedaço de céu. O gosto de Lunna e a sensação dos lábios
dela nos meus quase me faz perder o equilíbrio.
A tomo com minha boca, sinto seu corpo, seu
cheiro. Seu cabelo suave entre meus dedos é
completamente insano, para mim, perfeito. O toque da
língua feminina na minha me faz estremecer. Quase nada
no mundo importa quando estou assim, com ela. Lunna é
tão deliciosa que...
O riso infantil me faz soltar Lunna do beijo
escaldante em que a tenho presa. Eu seria capaz de ficar
beijando-a ali para sempre, se não fosse essa pequena
interrupção. Levanto minha cabeça para me deparar com
Selene na porta do quarto, no qual eu a tinha mandando se
trocar antes de ir ao psicólogo. Estou tenso, e essa
avaliação é muito importante para a decisão judicial que
iremos enfrentar nas próximas semanas. O processo está
sendo agilizado pelos conhecimentos e amizades de
Elizabeth na área jurídica e por ter se arrastado por tanto
tempo, já que venho lutando pela guarda de Selene por
anos, e saber que, daqui a algumas semanas, teremos a
primeira audiência, me deixa eufórico e apreensivo ao
mesmo tempo.
Estou confiante que, dessa vez, tudo vai ser
diferente de antes. Elizabeth me passa essa confiança no
desenrolar do processo, que antes tinha um parecer
negativo para mim.
— Está pronta? — Pergunto, me afastando de Lunna
e caminhando até ela. Seguro sua pequena mão na minha
— Vamos lá, garota. Isso é apenas uma consulta, ok?
Mesmo que não seja, até para mim.
— Ok.
Seguimos para a porta, e Lunna engancha seu braço
no meu outro lado, quando fecho a porta da suíte atrás de
nós. Parecemos uma família normal, comum, e meu
coração dá um salto com o pensamento. A prudência me
diz que Lunna aqui, nesse momento, pode ser um tiro no
pé, todavia, meu coração diz algo totalmente diferente.
Ela me traz uma calma tão serena, que tudo parece mais
fácil que as outras vezes em que estive sozinho nesse
processo. Tudo isso é novo, nunca tive tampouco Selene
aqui, comigo.
Elizabeth nos espera ao lado do elevador. Ela não é
necessária aqui, hoje, na consulta de Selene, mas ela quer
dar esse apoio, como ela me prometeu quando a contratei,
que me seguiria a cada passo até a guarda definitiva.
O local designado fica a cinco minutos do hotel que
escolhi. Selene está sentada entre eu e Lunna, sua pequena
mão ainda grudada na minha. Minha pequena garota, que
há pouco meses parecia me odiar, agora parece
inconcebível para ela ficar longe de mim. Amo essa
sensação, no entanto, a razão pela qual ela chegou a esse
estágio de insegurança me causa raiva intensa de sua avó,
mas hoje quero deixar esse sentimento longe, minha filha é
prioridade. Estive, nessas semanas, em constante contato
com Elizabeth, que me explicou que essa é apenas a
primeira parte do processo, que isso pode se estender,
mesmo que ela esteja fazendo tudo que pode para que seja
agilizado. Essa consulta com o psicólogo é um tanto
diferente, pelo que ela me falou. Eu não tinha passando
por nada disso antes, e estou nervoso que isso seja demais
para Selene.
Quando o carro para em frente ao prédio, seguro a
mão das duas mulheres da minha vida e seguimos
Elizabeth para dentro do prédio.
Meia hora depois, todo procedimento tinha sido
explicado para mim. Eu, Selene e uma psicóloga estamos
acomodados em uma sala. Pelo que Elizabeth me
explicou, um juiz poderia estar presenciando toda a
entrevista com Selene. Não na sala, mas assistindo em
uma sala adjacente. Estou sentado atrás da cadeira onde
Selene foi acomodada, em frente à psicóloga. Fui
instruído a não falar durante todo o tempo, a não interferir
nas respostas de Selene, estou presente apenas como
guardião dela.
A psicóloga se chama Dra. Cecília, e ela explica
diretamente para Selene por que estamos aqui, que ela vai
passar por uma avaliação que fará parte do processo de
guarda dela.
Ouço-a falar com minha filha, dizendo que ela está
segura, que ela pode falar qualquer coisa que queira, que
estou aqui e que nada pode acontecer com ela. Não escuto
as respostas de Selene, e imagino que ela esteja
assentindo com a cabeça, que foi o que ela mais fez desde
que entramos no prédio. A poltrona que ela foi acomodada
tem o espaldar alto e não a vejo totalmente. Acredito que
é de propósito, para que não haja nenhum contato visual
entre nós.
— Você pode dizer o que quiser aqui nessa sala,
Selene, e estou apenas para ouvir você. Tudo que disser é
importante. — Ela finaliza. Sua voz é calma, tentando
deixar Selene tranquila.
Segue um momento de silêncio, e a psicóloga se
dirige a ela outra vez.
— Me conte sobre seu dia a dia como é, Selene.
— Agora que estou com meu pai é divertido — ela
diz, alegre. — Quando morava com minha avó, não era
tanto. Não tinha ninguém lá para falar nem nada.
— E como é morar na casa de sua avó Amélia?
— Legal — vem a resposta rápida de Selene, de
quando ela não está disposta a falar. Eu já tive muitos
"legais" dela durante minha vida, e isso nunca é bom. —
Mas eu quero morar com meu pai para sempre, agora!
— Você não queria antes?
— Não.
— E agora mudou de ideia?
— O meu pai não matou minha mãe. — ela diz, e
isso corta meu coração. Maldita Amélia.
— E por que achava isso, Selene? — ela olha
rapidamente em minha direção e volta a olhar para minha
filha — Você pode falar tudo que quiser aqui. Sem medo.
Eu tenho receio que essa conversa não dê em nada.
Selene gosta de Amélia, pelo menos ela sempre pareceu
gostar. Ela está crescendo, e talvez essa mudança sobre
mim seja pela curiosidade em não me ter durante sua curta
vida.
— Quando eu morava com minha vó, ela dizia que
meu pai matou minha mãe. — ela fala ligeiramente — Eu
não gostava quando ela falava assim.
— Você era feliz morando com sua avó?
—Não sei . — sua voz agora transmite tristeza e
toda incerteza de uma criança de sua idade. Sua apatia
deve ser bem visível, para essa psicóloga ver que minha
filha não era feliz lá com Amélia.
— Pode falar o que quiser, Selene.
— A vovó gritava muito e queria que falasse para
meu pai que eu o odiava, eu não entendia por que, ele
nunca foi mau comigo — trinco minha mandíbula para
impedir que eu comece a falar, porém, a voz de Selene me
mantém contido no lugar — Não quero voltar a morar lá.
Não quero odiar meu pai, não quero.
— Certo. Soube que você fugiu do colégio e se
machucou, Selene, você gostaria de falar sobre isso?
— Hã... eu não estava fugindo.
— Não?
— Não.
— E quer falar sobre isso? Você prefere que seu pai
saia para que possa ficar mais à vontade? — Eu não vou
sair daqui e deixar minha filha sozinha. Que droga!
— Não.
— Certo, fale o que quiser, então.
— Eu... eu escutei minha avó falando que meu pai
estava vindo, e eu não queria vê-los brigando, como
sempre acontecia quando meu pai ia me visitar na casa da
minha avó. Eu pensei que, se eu fosse embora, eles não
poderiam brigar mais por minha causa.
— E morar com seu pai? Como é?
— É mais divertido lá, não tem escola — ela ri —
Mas eu vou começar, quando o juiz decidir se eu fico com
meu pai — termina, com voz séria.
— Me conte como é lá, então — ela induz — Só é
legal porque não tem escola?
— Lá tem a Marta, que faz um monte de coisas
gostosas para mim. — sua voz muda, fica alegre.
— É?
— Sim. E eu gosto da casa, também, tem uma
piscina enorme, onde posso ficar. Tem a vovó e o vovô,
também, e eles são legais, além da Lunna, ela é muito
divertida. — Ah, não, Selene. Deixe a Lunna fora disso,
penso, aflito.
— Você entende o que está acontecendo com você
agora? Por que estamos tendo essa conversa?
— Talvez. Sei que não posso morar com meu pai,
por causa da minha avó. E ela disse que, seu eu morar
com ele, meu pai será preso.
A conversa se estende por um tempo, e Selene fala
mais sobre como é morar com Amélia. A psicóloga vai
puxando sobre o assunto, e ela vai falando sem perceber o
quanto sua avó a induzia a me odiar. De como ela não
tinha amigos e morar em um apartamento isolado a
deixava triste. Talvez ela tenha mudado tanto, em tão
pouco tempo morando comigo, pelo simples fato de
sentir-se mais livre em uma casa espaçosa. Penso no
quanto falhei em proteger minha filha.
— Fala-me do que tem mais medo, Selene — a
psicóloga fala, e a pronta resposta de Selene me faz ver
que essa luta vale a pena.
— Não poder ficar com meu pai, já que não tenho
uma mãe. — responde, e sua voz traz um pesar latente. —
Por que não posso morar com ele?
—Selene, a justiça está aqui para nos dizer qual o
melhor para nós, às vezes — a psicóloga diz — Por isso
está aqui hoje, para tentarmos fazer o melhor para você.
— O melhor é eu ficar com meu pai. — Selene diz,
petulante.
Quando enfim se encerra a consulta, estou mais
exausto que Selene. De ficar tanto tempo calado sem
poder dar minha opinião dos fatos.
Encontramos Lunna na sala de espera junto com
Elizabeth, seus rostos em expectativa.
— Então? — Lunna pergunta para mim, quando nos
aproximamos.
— Não sei, achei meio sem utilidade, mas quem sou
eu para saber algo?
— Posso tomar sorvete agora? — Selene reduz a
situação a nada com sua tirada.
— Podemos, princesa.
Elizabeth nos deixa para resolver outros assuntos, e
nós três, depois do sorvete de Selene, preferimos voltar
para casa. Talvez fosse pedido um confronto entre neta e
avó, mas Elizabeth está tentando impedir isso, alegando
mais desgaste da criança, porém não é certo. O caso é
longo e desgastante, e temos que ter paciência.
Estamos saindo do hotel com as malas, já no final
do dia, quando vejo Amélia vindo em nossa direção.
Meu instinto é tirar Selene da linha de confronto,
mas ela já viu a avó, que para a poucos passos de nós.
— Já indo embora sem deixar eu ver minha neta,
Luc? — ela fala, olhando para Lunna em vez da neta —
Por que a pressa? O que tem a esconder?
— O que veio fazer aqui? Temos um voo para pegar
— resmungo, minha mão protetoramente no ombro de
Selene. Penso no que Selene disse sobre nossas
discussões mais cedo e tento amenizar — Ligue-me, se
precisar me falar algo.
— Eu apenas vim dizer que está lutando uma guerra
perdida, Luc. — ela nos analisa — Selene, querida, venha
dar um abraço na sua avó.
— Oi, vovó. — ela diz, de longe, em vez de fazer o
que Amélia pede.
— Já colocou a cordeirinha contra mim, Luc? Não
bastou minha filha, agora é minha neta também?
— Luc, acomode Selene no carro, querido — a voz
de Lunna é amável. — Deixe que me apresente. Sou Lunna
e não sou nada amável como Luc, senhora, então a
aconselho a sumir daqui antes que eu quebre suas duas
pernas.
Que droga, o que Lunna está fazendo? Ameaçar
Amélia nunca é bom caminho.
Amélia a ignora e fala com Selene:
— Selene, querida, em breve você volta a morar
comigo, então aproveite as férias com seu pai — ela se
vira para Lunna, enfim — Ele está usando você para
passar a imagem de bom moço de família, e quando
conseguir a guarda da menina, a primeira coisa que ele
vai fazer é se livrar de você, como fez com minha filha.
Ela vira e vai embora.
Olho para Lunna, e seus olhos se prendem aos meus.
Ela não pode acreditar nessa mulher ordinária.
LUNNA
A volta para São Paulo é tensa, porém não me abato
com nada. Eu quero fazer esse dois sorrirem outra vez,
nem que eu tenha de subir em cima do telhado e dançar
hula hula lá em cima.
— Você vai ficar conosco, hoje à noite? — Pergunta
Luc, quando o carro para na frente da casa dele, no
começo da noite.
— Depende do que tem para oferecer, Múmia —
pisco, maliciosa, e ele levanta as sobrancelhas, indicando
a criança presente.
— Sempre tenho o melhor.
— Meu pai é o melhor em todo mundo — Selene
puxa o saco dele, no bando de trás.
— Ok, vamos dar folga para Marta e colocar Luc
Alonzo para fazer o jantar.
Os planos são desfeitos quando entramos: Marta
tem tudo preparado como se fosse um banquete, para sua
pequena hóspede.
Os dias seguintes passam rápidos e, nesse meio
tempo, Gabrielle volta para casa e fico feliz em ver que
ela e Nicolas estão se dando bem. Os planos para o
casamento dela me fazem pensar que ainda não disse sim
para Luc, que o anel está lá guardado e não achei o
momento certo de colocá-lo no dedo e anunciar aos quatro
cantos que estamos juntos.
Luc e Selene fazem outra viagem para o Rio durante
esse tempo, e dessa vez eu tinha um paciente que não
podia adiar e fiquei com meu coração na boca por não
estar presente para eles lá.
Quando eles voltam, eu sinto o coração pular de
felicidade em ver que estão bem.
As coisas poderiam estar indo meio atropeladas,
mas tudo vai ficar bem, é o que gosto de dizer sempre
para mim.
— Vamos fazer uma despedida de solteira para
você — digo para Gabrielle, quando por fim chega a
semana do casamento dela com Nicolas — Seu noivo vai
ter uma despedida, e você também.
— Não tenho saco para isso, minha barriga pode
explodir a qualquer minuto. — ela fala, rejeitando a ideia
de uns caras gostosos em sua despedida.
— Estraga-prazer! E eu contando com esse dia —
torço minha boca com falso desgosto — Queria tirar Mini
Lu da miséria.
— O quê? E Luc? — Julie praticamente grita lá do
outro lado da mesa, onde dá papinha para Isadora.
— Ei, Mini Lu pode querer variedade — brinco,
mordendo uma fatia de melão.
— Duvido. — Julie ri.
— Estou por fora dessa conversa, atualização, por
favor — resmunga Gaby.
— Nada que você já não sabe, querida, que nossa
amiga continua odiando Luc Alonzo.
Dou um sorriso para elas e fico calada.
— Vocês são tão misteriosas —Gabrielle diz, mas
não leva o assunto adiante, o que é bom.
O dia do casamento chega, e o pandemônio se
instala quando Gabrielle entra em trabalho de parto, em
meio à cerimônia. Nunca vi Nicolas Andretti verde como
vejo agora.
— Não acredito que vão casar — digo, espantada,
quando vejo Luc oferendo um par de alianças para os dois
loucos no altar.
Pouco depois, vejo minha melhor amiga ser levada
para o hospital, e eu fico tentando, junto com Alicia, a
organizadora do casamento, conter os convidados.
Depois de tudo organizado, eu vou ver Gabrielle no
hospital, para sair logo em seguida, pois ela está exausta.
Estou no corredor do hospital, indo para o carro,
quando meu celular toca e vejo o telefone de Marta na
tela. Ela está de babá de Selene hoje. Mas Luc deve estar
chegando em casa nesse momento. Estranho, ela me ligar.
— Oi, Marta, querida.
— Lunna! — Pânico na voz dela faz os pelos da
minha nuca eriçarem.
— O que houve, Marta?
— Alguém levou Selene de casa!
— O quê?
— Eu não consigo falar com o senhor Luc. — ela
está chorando agora, apavorada. Minhas pernas tremulam,
mas já estou correndo para fora do hospital.
— O que aconteceu?
— Eu não sei, ela simplesmente sumiu!
CAPÍTULO 32

LUC
Nicolas Andretti é o cara mais sem humor
que eu conheço. Ele simplesmente "buzinou" em alguns
lugares que nossas empresas, a minha e a de Adam,
estavam entrando em falência, e nossas ações
despencaram hoje. Ele sabia que iríamos ter prejuízos
astronômicos com isso, mas Nicolas estava puto com a
nossa ideia de despedida de solteiro, com Gabrielle
aparecendo de repente e o pegando com uma mulher no
colo. E ainda mais beijando-o. Sorrio quando termino de
enviar os últimos e-mails, lembrando da cena.
E é onde eu estou agora, no escritório, para conter
os danos antes de ir para casa, socorrer Marta do pequeno
furacão de nome Selene. Já é noite, e só tenho os guardas
noturno trabalhando. Estive tão concentrado no trabalho
que não notei que o celular não tocou nem uma vez. Pego
o aparelho e vejo um bombardeio de ligações na tela. Ele
esteve no silencioso durante o casamento, por causa do
volume de ligações que recebi hoje dos meus diretores,
loucos com minhas ações caindo no mercado financeiro.
E, por consequência, eu esqueci de verificar nas últimas
horas, com a iminência do nascimento do filho de Nicolas.
Após isso estive no trânsito, depois trabalhando. Quando
vejo o quanto tem de ligações de casa, eu retorno
imediatamente, minha mente em Selene. Ela é um pequeno
foguete, e Marta...
— Luc? — A voz de Lunna é tensa e rouca, fazendo-
me praticamente pular da cadeira na qual estive sentado.
— Lunna, o que houve?
— Onde você está, Luc? Estivemos ligando para
você como loucas! — escuto vozes ao fundo e reconheço
como a da minha mãe, e soa preocupada. O que ela faz lá?
— Vi isso agora. Estou na empresa — digo — O
que está acontecendo? Selene está bem? — minha filha é a
única coisa que vem em minha mente nesse momento.
— Não, Luc, Selene, ela...
— O que aconteceu com minha filha, Lunna?! — eu
grito, meu pés indo para fora, em direção ao elevador,
como se eu estivesse sendo sugado por uma força vital —
Diga-me!
— Ela simplesmente sumiu, Luc — a voz dela falha
— Você precisa vir para casa agora. A polícia já está
aqui.
— Polícia? — o elevador parece levar um tempo
maior que o normal para chegar à garagem do prédio. —
Como ela sumiu, Lunna? Como minha filha sumiu de
dentro de casa assim? E Marta?
— Elas tinham acabado de chegar do parque, que
fica a poucas quadras de sua casa. Marta acredita que o
portão de acesso ficou aberto quando elas passaram e
alguém entrou e levou Selene. Ela não sabe explicar, Luc.
— Minha filha pode estar ferida!
— Eu sei... — ela chora, pesarosa.
— Estou indo para casa. — digo, tentando manter o
controle que está por um fio. Eu vou perder a minha filha!
Como eu vou explicar para a justiça que não fui capaz de
cuidar do bem-estar da minha menina?
Como isso pôde acontecer agora? Isso não é justo.
— E, Luc?... — Lunna está dizendo. Ela pausa,
fazendo meu coração falhar uma batida. O ar penetra em
meus pulmões com dificuldade quando eu tento respirar.
— Amélia está aqui.
— O quê!? — choque me penetra, depois vem a
raiva cega e imediatamente a clareza dos fatos em
seguida. Puta que pariu. Engulo os impropérios que
ameaçam sair da minha boca.
— Ela disse que veio tentar um acordo de paz com
você — Lunna diz.
Eu quase tenho um ataque de riso incrédulo. Amélia
acha que eu sou o quê? Algum otário?
— Ela veio, é? — Conecto meu celular no carro e
dirijo para fora do edifício, cantando os pneus segundos
depois. Amélia acabou de me fazer um enorme favor. Não
tenho nenhuma dúvida de quem é a responsável pelo
sumiço de Selene. Eu sabia que ela ia jogar sujo, mas
prejudicar Selene, é demais. Ela não machucaria minha
filha, se ela tocasse apenas em um fio de cabelo dela, eu
juro que seria um homem condenado para ir à prisão ainda
hoje. Ela não ousaria. Bufo de raiva fulminante quando
acelero pelas ruas. Que se dane as multas que irei receber.
A máscara de Amélia comigo não funciona. Eu a conheço
bem demais, são dez anos de inferno.
— Sim. — Ouço Lunna responder minha pergunta
retórica anterior. Depois continua: — Luc, por favor,
encontre nossa menina — ela murmura, e saber que ela
está chorando por minha filha faz meu coração inchar no
meu peito. — Como alguém pode fazer mal a uma criança
assim? Como?
— Eu vou, querida. Selene está bem, Lunna, eu
tenho certeza. — Garanto, quando avanço a porra de um
sinal vermelho e uma buzina estronda atrás de mim. Eu
não ligo, eu quero chegar logo e tentar ter uma pista de
onde Selene foi levada. Eu posso ter inimigos na esfera
dos negócios, mas não acredito que seja sobre isso.
Porém, sei quem tem interesse em me ver sangrar até a
morte — Me coloque com a polícia no telefone, querida.
— Tudo bem. O delegado Eduardo Teles é da
delegacia da criança e do adolescente, ele que está aqui.
Ele foi chamado por mim, acha que fiz mal? Quando não
encontramos você, eu entrei em pânico.
— Você fez bem, loirinha, eu amo você por isso —
falo isso tão naturalmente, que não percebo o que acabei
de dizer, apenas seu arfar de surpresa e seu murmúrio do
outro lado é que me faz consciente do que acabei de jogar
sobre ela.
— Só venha logo — diz baixinho, antes de a ligação
ser cortada.
LUNNA
Eu movi céus e terra quando recebi o telefonema de
Marta, sobre o desaparecimento de Selene. Passou apenas
uma hora desde que ela me ligou, mas eu já tinha falado
com tantas pessoas que poderia ajudar, que eu não sei
dizer com quem falei. O delegado tinha chegado há apenas
vinte minutos, e por coincidência, há mais de um ano fui
fisioterapeuta do filho dele, e como pai solteiro, ele
sempre ia levar o filho para as sessões, e isso acabou
criando um vínculo de amizade. Quando o tratamento
chegou ao fim, ele agradeceu e disse que, se um dia eu
precisasse de qualquer coisa, ele estaria pronto a me
ajudar. Eu na época ri, dizendo que era muito "do bem"
para ter ajuda de um delegado de polícia, mas eu agora
quero beijar esse homem pela prontidão de sua ajuda. Ele
deixou tudo que estava fazendo e veio para a casa de Luc,
quando eu falei que minha enteada tinha desaparecido, que
poderia ter sido sequestrada. Caramba, assumi Selene
como minha enteada. Meu Deus! Eu sou louca! Mas eu
amo essa garota, e saber que ela pode estar machucada,
nas mãos de criminosos, me causa calafrios. Meu corpo
está congelado.
Eu não sou de chorar, raras são as vezes que faço
isso, mas agora, o nó na minha garganta é tão grande que
me sufoca, e simplesmente não me contenho mais.
Lágrimas teimosas caem, turvando minha visão,
enquanto observo o delegado Teles falar ao telefone com
Luc. Luc se manteve frio e controlado quando soube que
Amélia está aqui. Antes que eu tivesse dito sobre isso, ele
pareceu mais preocupado com Selene, logo após ele
mudou o tom de voz e pediu para falar com Eduardo. Isso
faz exatos cinco minutos que eles conversam. O delegado
se afastou de nós e fala baixo. Olho os pais de Luc, que
estão aflitos do outro lado da sala. Eu os conheço há
algum tempo, através de encontros superficiais. Encontrei-
os mais cedo no breakfast, antes do casamento de
Gabrielle.
Olho para Amélia, e essa mantém os olhos no
delegado, prestando atenção na conversa. Eu me pergunto
o que essa mulher faz aqui. Que conveniente ela aparecer
aqui, logo hoje.
O delegado caminha de volta à sala, depois de
desligar o telefone, e chama outro policial que veio com
ele para uma conversa. Tudo parece tranquilo demais.
Levanto e vou para a cozinha, onde a coitada da Marta
está inconsolável.
— E seu Luc? — pergunta, quando me vê entrar.
— A caminho daqui. Ele estava na empresa —
respondo — Você não tem culpa de nada, Marta.
— Você tem razão, essa pobre mulher não tem
mesmo, o culpado de tudo isso é o pai dessa criança, que
não tem a mínima condição de cuidar da própria filha — a
voz de Amélia diz, atrás de mim.
Viro-me, possessa de raiva.
— Melhor você se calar ou eu mesma irei fazer
você calar a boca! — ameaço, fora de mim. — Tenha um
pouco de sentimento por sua neta. Demonstre que se
importa o mínimo com ela!
— É por isso que estou aqui, porque me importo.
Vim vê-la, e o que encontro? A menina sequestrada! Luc
Alonzo não tem capacidade de ter a guarda da filha, e o
juiz saberá disso.
Eu perco a razão e faço o impensável não me
importando que ela seja mais velha que eu: bato com toda
força em sua cara enrugada miserável. Escuto Marta gritar
meu nome, mas meu ódio, zanga e medo por Selene se
juntam, e eu bato repetidamente em Amélia. Sinto braços
me enlaçarem pela cintura, mas eu continuo soltando
socos em todas as direções, junto com lágrimas de raiva.
— Ei, Lunna! — A voz de Luc ao meu ouvido me
acalma, e sou arrastada para longe de Amélia, que está
esbravejando contra mim todo tipo de coisa. — Você tem
de manter o controle, querida.
— Desculpe, ela simplesmente me tirou do sério.
Essa mulher é completamente sem noção, ela não tem um
pingo de amor por Selene, será que não veem isso?! —
digo, em um desabafo, quando Luc me faz sentar no sofá.
— Eu sei.
Ainda nervosa, vejo o delegado levar Amélia, que
tem o lábio rachado, para fora da casa.
— Para onde a estão levando?
— Para a delegacia. E eu preciso ir para lá também
— Luc diz, me surpreendendo — Eu acredito que Amélia
sabe onde está Selene. O delegado só vai fazê-la falar.
— Eu não duvido disso. Afinal, o que ela faz aqui?
— Olho para ele. O Luc que eu conheço parece totalmente
abalado. — Você vai tê-la de volta.
— Eu sei — seus olhos cinzentos escurecem, e eu
acaricio seu rosto — Só não quero imaginar minha filha
com medo, por aí. Venha comigo. Tenho que ir à
delegacia.
As horas seguintes são as piores de nossas vidas.
Quando chegamos à delegacia, Elizabeth nos espera lá
com outro advogado. Luc presta uma queixa formalmente
contra Amélia, e a partir daí tudo começa a desenrolar.
Ela é pior do que imaginamos, e veio preparada
com sua advogada também. Eu quase sou presa por
agressão. Maldita velha. A advogada dela achou que
ganharia de Elizabeth, com a acusação de maus tratos que
Luc está dando à filha e por isso fora sequestrada, mas o
contra-ataque, em forma da acusação de sequestro da
própria neta, elas duas não esperavam.
Às duas horas da manhã, o delegado Teles recebe
um telefonema com a localização de Selene. Ela está no
hotel onde Amélia se hospedou. Eu quase morro de alívio
quando chega a notícia que ela fora encontrada. Tinha
saído no noticiário a foto de Selene, e um funcionário do
hotel reconheceu a menina e ligou para a polícia.
Agora estamos indo buscar nossa garota. A mão de
Luc aperta tanto a minha que dói. Ele não tinha falado
muito, apenas andou de um lado para outro na delegacia, e
quando ele soube que era mesmo Amélia que estivera com
Selene, ele se dirigiu para o advogado que estava com
Elizabeth.
— Faça o seu melhor. Não quero que essa mulher tenha nem um dia livre pelo
resto da vida. — a voz profunda e cheia de raiva dele foi taxativa.
Eu sei que, se ela conseguir ficar em liberdade, ele
pode fazer uma loucura.
O carro para em frente ao hotel, e Luc praticamente
corre para fora do carro, me puxando com ele para dentro
do edifício.
Selene está sentada no sofá da recepção e parece
sonolenta. Ela levanta a cabeça quando escuta a
movimentação e nos vê. Ah, droga! Eu não devia chorar
de novo.
Mas ver Luc correr para abraçar sua filha me deixa
chorosa como nunca. Que droga, Múmia, não me faça
ficar toda melosa. Caminho para eles e envolvo meus
braços ao redor dos dois. Enterro meu rosto entre eles.
— Ei, pequena mumiazinha, eu estava com saudade
de você — digo para Selene, com um sorriso — Amo
você, pequena.
CAPÍTULO 33
LUC
Eu a agarro com tanta força que temo quebrar
seus ossos frágeis.
— Filhinha — murmuro em seus cabelos, quando a
tenho nos braços —, o pai está aqui agora, meu amor.
— Eu estava com medo, papai — ela diz, em voz
temerosa e baixa, como se temesse que alguém a ouvisse
— O amigo da vovó foi embora, ele disse que ela queria
me ver, mas ela não veio.
Sinto os braços de Lunna nos envolver em um
abraço coletivo e passo meu braço por ela, trazendo-a
para o nosso pequeno casulo, em meio à recepção do
hotel.
— Ei, pequena mumiazinha, eu estava com saudade
de você — ela fala enrouquecida para Selene, com um
sorriso que faz me sangue aquecer nas veias — Amo
você, pequena.
Tenho vontade de esmagar sua boca com a minha.
Eu não poderia ter encontrado mulher mais perfeita para
ser a mãe da minha filha. Minha loirinha maluquinha. Ela
não me disse que me ama, mesmo eu falando isso para ela,
contudo eu não preciso de palavras quando olho nos olhos
de Lunna. Isso é amor que vejo brilhar na íris clara dela,
por mim, por minha filha. Não tem como essa pequena
mulher não nos amar. Selene e eu somos dois sortudos por
tê-la em nossas vidas.
— Senhor Alonzo?! — a voz do delegado Teles me
faz levantar a cabeça e encará-lo — Meus policiais
estarão fazendo uma busca pelo hotel e redondeza, e
posso falar com sua filha? Claro, se isso não for
incomodá-la. Contudo, ela pode ajudar a capturar os
homens que a levaram de sua casa.
— Acho que minha filha já passou por muita coisa
hoje, delegado, vou levá-la para casa — digo, firme. Eu o
compreendo por querer ter uma conversa com Selene e ter
mais informações das pessoas que estiveram com ela e
que fugiram quando viram no noticiário a notícia sobre o
sequestro, e que a avó poderia estar envolvida. Eu, no
fundo, agradeço por ela envolver pessoas covardes
suficientes para abandonar Selene no hall do hotel e fugir,
assim dando chance de alguém a ver e reconhecer. Caso
contrário, ainda estaria sem minha filha nos braços.
No entanto, chega por hoje de emoções, quero
apenas levá-la para casa. O delegado nos libera, mas diz
que precisa de nossa colaboração com as investigações.
Estou bufando quando sento no carro, de volta para casa.
Amélia tem de agradecer de estar presa, ou ela não estaria
viva agora. Eu mesmo teria estrangulado aquela mulher
com minhas mãos.
Selene dorme assim que entramos no carro, ela está
exausta, e eu não a solto em nenhum segundo, mantenho-a
no colo, seu rosto enterrado no meu peito.
— Tudo bem, linda? — pergunto, quando sento ao
lado da cama de Selene, mais tarde, em casa. Ela se
aconchega debaixo das cobertas, acenando que sim.
— Papai... — chama, depois de um tempo.
— Sim, bebê?
— Por que a vovó pediu para aqueles homens me
levarem? — o sono, que até agora há pouco parecia que a
dominava, tinha desaparecido um pouco — Eu não queria
ir com aqueles homens.
— Depois falamos sobre sua avó, Selene, quero que
você durma agora, querida — digo, acariciando seus
cabelos — Vai ficar tudo bem a partir de hoje, eu
prometo.
— Não vou mais morar com minha avó?
— Hoje sua avó cometeu um ato que não permitirá
que ela tenha sua guarda, Selene, isso significa que sim,
você passa a viver comigo — digo solenemente.
— Eu te amo, papai — diz apenas, e sinto a droga
dos olhos arder.
— Amo você mais que minha vida, filha — abaixo
e beijo sua testa. Ela fecha os olhos, como se o fato de
saber que ela não sairá mais daqui é o que ela precisa
ouvir para dormir em paz.
Não sei quanto tempo fico a velar seu sono. Só não
quero me afastar do seu lado. Sinto mãos femininas e
delicadas envolverem meus ombros, e o perfume suave de
Lunna toma meus sentidos.
— Venha dormir um pouco, Luc, daqui a pouco ela
acorda e vocês podem ficar juntos o dia todo. —
Sussurra.
Eu obedeço sem questionar. Dou uma última olhada
em Selene e sigo Lunna para fora do quarto.
— Venha comigo, Múmia, você precisa relaxar—
ela me puxa pela mão em direção ao quarto.
— Eu preciso de tratamento especial, loirinha —
rio, enlaçando sua cintura por trás e levantando-a do chão,
terminando de entrar no quarto com ela nos braços.
Passou um longo tempo desde que a tive debaixo de mim,
gemendo meu nome. Giro-a nos braços, e as pernas dela
prendem na minha cintura, minha boca captura a dela com
fome. Eu preciso da boca dela com gana, como se tivesse
passado semanas sem tê-la beijado. As minhas mãos estão
em sua bunda, apertando-a contra minha ereção
proeminente. Minha perna bate na beirada da cama e nós
dois caímos nela, enroscados, devorando um ao outro.
Tiro minha boca da dela e arranco nossas roupas.
Giro o corpo e me ergo sobre o dela. Contemplo-a
em abandono sobre a cama, seus seios se erguendo e
baixando de acordo com a sua respiração agitada, seu
ventre liso, suas pernas prontas a me acomodar entre elas.
Abaixo-me e beijo suas coxas de cima a baixo e sobre seu
estômago plano, enterrando minha língua em seu umbigo.
Sua respiração é pesada, sôfrega, é difícil dizer se isso é
de tesão ou ansiedade para que minha boca toque seu
clitóris. Há apenas uma maneira de descobrir isso. Afasto
duas pernas, depois levo minhas mãos ao seu sexo
molhado de excitação, o abro com os polegares e passo
minha língua ao longo de sua boceta, parando em seu
clitóris, e pressiono minha língua contra seu ponto
sensível e duro. O gemido que ela deixa escapar é tudo
que eu preciso para comê-la com vontade. Eu amo cada
pedacinho dessa mulher, e nunca vou cansar de prová-la.
***
Marta não me olha durante o café da manhã, e isso
depois de quase meia hora de pedido de desculpas por
ontem.
— Marta, sente-se — digo, depois que ela
praticamente quase derruba um bule de café em Lunna —
Sente-se!
— Senhor...
— Marta! — corto com firmeza, fazendo os olhos
cinzentos de Selene arregalarem de onde ela está sentada
à mesa, ao meu lado. Quando Marta me obedece, eu
continuo: — O dia de ontem não foi culpa sua, Marta,
então não quero você nervosa ao nosso redor por causa
disso.
— Irei entender se me demitir, senhor Luc, irei
embora sem reclamar, pois fui...
— Não! — Selene me olha, suplicante — Papai, ela
não pode ir embora.
— Ela não vai, querida — olho firme de volta para
minha governanta — O que aconteceu ontem poderia ter
acontecido com qualquer um, Marta. Amélia, infelizmente,
perdeu a razão sobre o ódio que sente por mim. E levar
Selene à força era uma forma de me atingir, só que ela
calculou isso errado. Ela não pode ganhar sempre, e isso
só acelerou o processo da guarda que passará para mim
em definitivo. É só uma questão burocrática agora,
Elizabeth já está trabalhando nisso. Amélia vai ficar presa
pelo sequestro da neta.
— Que coisa horrível, meu Deus! — diz Marta,
horrorizada.
— Agora, essa mocinha linda tem residência fixa
com o papai dela — Lunna pisca para Selene,
conspiratória, e muda de assunto, já que o clima fica
pesado na sala — E vamos esquecer o dia de ontem!
Odeio tristeza e chorei muito ontem, estou igual uva passa
hoje. Luc, querido, você precisa me dar tratamento
especial, hoje.
— Como meu pai vai fazer isso? — Selene
pergunta, de testa franzida
— Ele vai... hã... Nos levar para jantar! As duas.
— Ah, legal! — Selene comemora, dando pulinhos
em sua cadeira.
— E vamos comprar vestidos perfeitos!
Sorrio para as duas, que se envolvem em uma
conversa sobre vestidos. Mulheres, não importa a idade,
falou em vestidos elas enlouquecem.
Eu passo o dia com elas, na verdade, viro chofer
das duas, mas eu faço isso com prazer. Selene precisa de
distração, e passar um dia fazendo compras com Lunna
parece ser o remédio para isso, ela se mantém totalmente
distraída. Eu apenas faço meus telefonemas enquanto
espero as duas nas boutiques. Elizabeth me garante que,
diante das circunstâncias, irei ter uma audiência com o
juiz apenas para ter a guarda. Sem precisar de tanto
desperdício de tempo. No fim, a loucura de Amélia me
favoreceu.
— Eu estou trabalhando com seu advogado, sobre o
caso de sequestro de Selene, Luc, e tenho certeza que ela
pegará uns doze anos de prisão, se somar todos os crimes.
— Elizabeth disse, em um telefonema que faço para ela.
— Só isso? Quero essa mulher para sempre na
cadeia.
— Vamos tentar tudo que pudermos, Luc. O que
você mais quer está a um passo de ter para sempre — ela
fala suavemente — Você devia comemorar e deixar as
coisas chatas comigo, agora.
— Obrigado, Elizabeth.
— Só faço meu trabalho, Luc.
Desligamos, e vejo as duas mulheres da minha vida
vir em minha direção.
— Papai, a Lunna vai pedi que você cas...
— Selene, querida, você não disse que estava com
fome? — Lunna diz, com as sobrancelhas arqueadas para
Selene.
— Mas você disse lá...
— Estou faminta, e você? — Lunna agarra a mão
dela e caminha pelo shopping, na minha frente.
— Hã... eu também — escuto a resposta desanimada
de Selene e sorrio. O que essas duas estão aprontando?
— Vamos, Múmia, não fique para trás!
— Amo a visão daqui, loirinha! — resmungo,
malicioso, e recebo um olhar que diz: um loirinha
anotado, senhor Alonzo.
Abro mais largo o sorrio.
LUNNA
Nos dias seguintes, não vejo mamãe por estar
envolvida na vida um tanto conturbado de Luc e Selene,
contudo, já podemos, enfim, respirarmos aliviados.
Selene não corre risco de viver com a avó. E essa
mudança definitiva dela para cá tem me mantido ocupada,
estou praticamente vivendo na casa de Luc, e nem um
convite me fora feito. Mas tudo parece tão natural,
principalmente depois de declarar que me ama, naquele
telefonema, apesar de não termos conversado sobre isso.
No entanto, as circunstâncias e o amor que cresce a
cada dia por aqueles dois me fazem querer voltar ao fim
de cada dia de trabalho para eles. Mas hoje eu vim ver
como minha mãe está e saber se ela já deixou as ideias
loucas de voltar para meu pai e ficar com o médico
garotão.
Tenho um sorriso malicioso nos lábios, quando
caminho em direção à porta da frente. Procuro as chaves
que costumo carregar na minha bolsa, mas não acho, devo
ter esquecido. Bato na porta e espero. Nada. Olha para o
relógio e percebo que são apenas 16:43hs. Estou quase
desistindo, quando escuto passos atrás de mim e uma voz
masculina:
— Ela não está, estive batendo e não houve resposta
— diz, fazendo-me virar para olhá-lo de frente. Ele deve
ter uns cinquenta anos, os cabelos loiros escuros quase
castanhos, e olhos claros familiares. As rugas ao redor
dos olhos são marcas de uma vida sorridente. Ele tem
altura e corpo medianos, vestido com calças social e
camisa de botão comum. Olha-me agora fixamente, e eu
percebo que nunca estamos preparados para rever seu pai,
mesmo quando acredita estar durante toda sua vida. Eu
tenho dito a mim mesma que quero dizer um monte de
desaforos a ele, e agora eu estou aqui, apenas olhando,
sem nada dizer.
— Você é a minha filha? — ele pergunta, sua voz
baixa e um tanto insegura. Ele nem tem certeza? Que
patético! — Você se tornou uma mulher linda. Vejo por
que sua mãe tem tanto orgulho de você.
— Não posso dizer o mesmo de você — acho minha
voz perdida, quando devolvo com desprezo — O que
você quer na porta da minha mãe? O que acha que está
fazendo com a cabeça dela, depois de todos esses anos?
— Sua mãe e eu temos uma história que precisa ser
resolvida...
— Errado, meu senhor, essa história acabou no dia
que você deixou sua família para trás e buscou outra.
Fique com sua família, não queremos você aqui. —
despejo, furiosa — Você é o pior tipo de canalha, aquele
que acha que pode voltar depois de anos e terá o mesmo
lugar esperando. Deixa eu te contar, velho caquético, você
não é bem-vindo aqui, você não vai fazer minha mãe
sofrer outra vez. Eu juro!
— Lunna! — A voz da minha mãe vem de algum
lugar, eu não percebi que ela chegou da rua — O que está
havendo aqui?
— Esse ser insignificante acha que pode vir aqui?
Você deu liberdade para ele vir, mamãe? — Olho-a com
desconfiança. Raiva queima através das minhas veias.
— Claro que não, filha.
— Então o que ele faz aqui? — questiono.
— Por que não estramos? Podemos conversar lá
dentro, como pessoas normais — sugere o homem que se
diz meu pai.
— Acho que não, tenho visitas e você não é bem-
vindo aqui — mamãe diz, e escuto a porta do carro bater,
depois vejo o namorado dela caminhar para cá. Isso não
poderia ficar melhor. — Você não tem mais espaço nessa
casa, e minha filha tem razão, você é o pior canalha que
existe. Não abandone sua família como abandonou a nós
duas e depois volte, achando que eles estarão lá
esperando por você. Pode ser substituído mais rápido do
que foi aqui nessa casa. Passar bem!
Ela lhe dá as costas e caminha para a porta. A abre
esperando por mim e por seu novo amor. Eu olho para o
estranho e balanço minha cabeça em desprezo. Enfim,
mamãe está colocando a cabeça no lugar. Se permitindo
viver além das lembranças de um amor que só lhe trouxe
insegurança e desgosto. Viro minhas costas e entro,
deixando-o lá fora no lugar onde ele sempre esteve.
CAPÍTULO 34
LUNNA
Entro na sala, e minha mãe me olha com o
semblante preocupado
— Sinto muito, querida, você não tinha que passar
por isso, quando nunca teve vontade de vê-lo — ela diz,
em tom de desculpas.
— Não tem de pedir desculpas por esse homem,
mamãe — vou até ela e seguro suas mãos nas minhas —
Já basta que passou a vida toda se desculpando por ele.
Estou muito orgulhosa de você hoje.
Dou a Greg, que se manteve apenas nos observando,
um olhar que diz: não faça igual a ele, ela merece um
homem de verdade ao lado dela. Acho que ele entende
meu pedido silencioso, porque acena quase
imperceptivelmente para mim. Sorrio para ele.
Eu sinto um clima tenso na sala e resolvo deixar os
dois a sós. Eu quero ficar para a noite, para jantarmos
juntas, mas me sinto um pouco intrusa ali. Dou um abraço
nela, dizendo: — Passei aqui apenas para vê-la
rapidamente, mas vejo que tem planos para a noite.
Ela cora. Observo que está parecendo mais jovem.
O que um amor não faz pela gente! Realmente é
transformador. Alguns meses atrás, mamãe era outra
mulher. Se colocassem eu e ela juntas e nos analisassem
agora, poderíamos ser quase irmãs. "Greg, você tem meu
total apoio, continue fazendo o que vem fazendo, está
funcionando."
— Você pode ficar, querida, eu e o Greg íamos fazer
um jantar simples e...
— Tudo bem. Na verdade, vou jantar com Luc e
Selene. E mãe — digo, e agora é minha vez de corar —
Essa semana irei convidar você e o Greg para um jantar,
com o Luc e a Selene.
— O seu amigo? Querida, ficarei feliz em ir — ela
ri — Estou tão feliz que finalmente está criando raízes,
minha filha. Quando ganharei um neto?
Como ela tem essa capacidade de mudança de
assunto tão rápido?
— Você me envergonha com esse papo de raiz —
reviro os olhos para ela, ignorando a história de neto.
Fico de ligar para marcar um dia e saio logo em seguida.
Eu nunca parei para pensar em ter seus netos ainda, eu e o
Luc temos um longo caminho a percorrer para isso. Ele
precisa de um tempo apenas com Selene antes de poder
pensar em outros bebês, e para começo de história, nós
nem atingimos o primeiro estágio de um relacionamento,
para seguirmos para esse. Minha mãe é malévola, vindo
com essa história, e minha mente já começa a projetar
pequenas mumiazinhas para o futuro.
Faço uma careta para mim mesma, quando fecho a
porta atrás de mim.
Olho ao redor quando saio, mas meu pai deve ter
ido embora. Sinto-me aliviada. Não sinto raiva, apenas
alívio, por saber que mamãe está superando essa história
toda. Acredito que é mais por essa razão, em não mais vê-
la remoendo o passado e deixando a vida passar. Pego
meu carro e vou para minha aula de zumba, gastar energia.
A academia a qual faço parte está lotada hoje, e eu
rapidamente troco minha roupa e vou para a aula que já
teve início. André, meu professor, está fazendo a
mulherada aquecer e alongar antes de botar todo mundo
para dançar. Eu tomo meu lugar e, pouco depois, estou
pronto para gastar minhas calorias. Não tenho muito o que
perder ultimamente, Luc Alonzo tem me mantido ocupada,
fazendo-me perder todas as calorias possíveis na sua
cama.
André dá uns gritos lá na frente, chamando nossa
atenção para eles.
— Vamos, meninas, levantem esses traseiros mais
alto! — grita alto, batendo palmas acima do som da
música — Quero esse chão molhado com as calorias
perdidas, vamos lá!
Uma música agitada começa a tocar, contagiando
todas, e minha mente vai para Luc e meu pedido de
casamento que estou planejando. Ele não falou mais sobre
ele. Eu agora ando com um anel Tiffany em minha bolsa,
querendo uma oportunidade para dizer sim ou pedi-lo.
Mas eu quero um momento especial e não o encontrei
ainda.
Termino a aula, frustrada, e fico no carro uns bons
cinco minutos, pensando em uma forma de abalar o
coração da múmia. Resolvo ir para meu apartamento,
onde tomo um banho e ligo para Julie.
— Hei, sumida — ela diz, quando atende.
— Preciso de ajuda.
— Em quê? O que anda aprontando, Lunna Maia?
— Quero aprontar, isso sim — digo, rindo — Eu
preciso me encontrar com você.
— Agora?
— Agora.
— Ah, Lunna, não vai ser possível, estou saindo
para jantar com Adam, na verdade, é um jantar de negócio
— ela faz uma pausa — Estou me arrumando para sair.
— Ah... — digo, frustrada — Tudo bem.
— Mas o que houve?
— Tudo bem, eu só queria conversar.
— Você disse que precisava de ajuda, então me
conte o que está havendo — ela insiste — Você está com
problemas?
— Problema é meu segundo nome, queridinha, não
se preocupe, estou bem — depois de mandar um beijo
para Isadora, eu desligo. Não quero tirá-la de
seu jantar devido aos meus problemas do coração, então
não digo nada.
Olho a parede em frente, pensando em uma forma de
deixar Luc louco, e nada vem à mente. Deito olhando o
teto, agora, e tenho vontade de rir de minha falta de ideia.
Percebo que tudo isso está me afetando mais do que eu
pensei. Casar, mudar minha vida. Ter o que as minhas
amigas têm com seus maridos é uma das coisas que mais
desejei para mim, e agora que estou às vias de fato de ter,
estou "amarelando."
Claro que não! Estou nervosa, feliz, e isso não
podia sair errado, tinha de ser perfeito. Minha relutância
talvez se desse pelo fato de querer isso terrivelmente.
Mas eu não sou totalmente séria, sou? Claro que
não! Eu tenho de fazer algo para deixar o múmia tão bravo
comigo, que passe uma semana me fazendo pagar tintim
por tintim por minha falta de senso.
Agora tenho de colocar meus planos em ação, e
tinha muito trabalho pela frente. O próximo telefonema é
para Marta, irei precisar de sua ajuda para entrar na casa
de Luc. E de, claro, minha principal aliada, Selene, para o
manter ocupado para mim.
LUC
— Que tal essa? — aponto o folheto da escola para
Selene, a segunda melhor escola que consegui encontrar
mais próximo aqui de casa, mas ela parece mais
interessada em seu telefone celular. Ela está digitando
nessa coisa há uns bons dez minutos, e minha paciência
está começando a minar. Deus! Luc, você só a tem por
umas semanas e já está no modo pai chato?
Estou a ponto de ser o "pai chato", quando ela diz:
— Podemos ir para o jardim?
— A essa hora, filha? Está frio lá fora, pode pegar
um resfriado.
— Posso me agasalhar e nem está frio assim, papai,
quero ver as estrelas lá no céu — diz, com voz sonhadora,
suspirando. Humpf! Ela está estranha.
— Claro, querida, vá pegar um casaco. — cedo, a
contragosto — E você largue esse celular ou irei
confiscá-lo.
— Tudo bem, papai, irei apenas mandar uma
mensagem para Lunna, posso? — ela pede, com esse olhar
que me tem na palma da mão.
— Certo.
Ela digita algo e sai correndo em busca do casaco.
Ela deixa o celular e pego-o, verificando com quem ela
tanto conversa. Não estou sendo invasivo, estou sendo
precavido. Criança, com nove anos, com um celular, os
pais devem ter um cuidado especial e olhar, a regra é
clara aqui, e a impus quando o dei para ela. Senha,
jamais! Bem, ela tem me obedecido quanto a isso. Selene
é a criança mais linda que eu conheço, depois, é claro,
que saiu do meio do veneno de Amélia. Aquela criança
que gritava e que parecia me odiar, cada vez que me via,
não parece a mesma que sorri para mim como se eu fosse
seu super-herói.
Meu sangue ferve quando vejo a última mensagem
de Lunna para Selene.

Lu: Apague esse SMS, lembre-se, seu pai olha seu


celular.

Como é?
— Estou pronta, papai — Selene para à minha
frente.
— O que é isso aqui? — questiono, balançando o
celular na mão. — O que estão escondendo de mim?
— Oh, não é nada...
— Selene...
— Vamos lá fora?
— Antes diga-me por que Lunna pediu que você
apagasse suas mensagens — olho duro para ela. Sei que
deve ser bobagem das duas, mas estou me sentindo de
fora, aqui. Até Marta está estranha, hoje. Ela esteve
sumida na cozinha e praticamente não a vi ao redor.
Selene faz cara de cachorrinho perdido quando diz:
— Ela quer fazer uma surpresa de aniversário para
você — ela abaixa a cabeça, como se tivesse traído sua
amiga. Olha para mim com um olhar recriminatório e diz,
com o mesmo tom: — Era uma surpresa, papai.
É isso?
— Não conta para Lunna que me contou — digo,
rindo.
— E se ela me perguntar, devo mentir? — ela
pergunta astutamente, me encarando — Você diz que não
devemos mentir.
Crianças, elas só querem uma oportunidade para
colocar você à prova, e essa minha filha é muito
espertinha.
— Bom, nesse caso, pode dizer que eu fiquei
sabendo. — digo, por fim.
— A Lunna vai ficar muito brava. — cruza os
braços com um sorriso, como se soubesse que me pegou
— Agora, podemos ir lá fora?
— Claro — concordo, mais rápido do que eu
desejo — Mas não vamos demorar. Já é tarde para você,
mocinha, já deveria estar na cama...
Ela nem espera que eu termine de falar, sai correndo
para a porta. Desde o dia do sequestro que não permito
que ela fique lá sem um adulto por perto. Não sei do que
Amélia, mesmo dentro da cadeia, pode fazer para me
atingir. Ela pode muito bem ter aqueles homens, que ainda
não foram presos, fazendo alguma coisa contra Selene.
Tenho pesadelo com o pensamento.
Saio para o jardim e não vejo Selene em nenhum
lugar. Meu coração falha uma batida, apreensivo, e já
estou quase chamando por ela quando escuto sua voz me
chamando, na direção da piscina, mas não a vejo em lugar
algum.
— Selene?! Não é hora de se esconder por aí —
que diabos, ela nunca faz esse tipo de travessura. Se
esconder e nos deixar preocupados. Quando já estou em
uma mistura de furioso e preocupado, noto que a luz da
casa da piscina está piscando. Não acredito que Selene
esta brincando de pisca-alerta com a luz da casa. —
Selene?!
Nada. A luz apaga de vez, deixando tudo no escuro.
Temor começa a se instalar. A lembrança de que ela já foi
levada daqui uma vez me deixa com uma dor latejante no
estômago.
Abro a porta e fico paralisado com uma luz
colorida, piscando e acendendo na parede, formando a
frase:
Casa comigo?
— Surpresa!!
Como ela fez isso e não vi?
A luz central acende e vejo as três lá. Selene e
Marta, as duas alcoviteira que são, têm plaquinhas na mão
com os dizeres “Diga sim”, escrito nelas. Mas estou além
disso agora, estou furioso por elas não pensarem que isso
me deixaria preocupado com a segurança de Selene.
— O que estavam pensando? — esbravejo,
olhando duramente para Lunna.
— Essa não é a resposta certa, Múmia.
— Diga sim, papai — Selene está saltitante ao
lado.
— Vamos, seu Luc! Termine logo com isso —
Marta reitera.
— Isso não teve graça, fiquei preocupado que
Selene tivesse sido levada outra vez.
Observo o sorriso de Lunna se desfazer e dou um
tapa mental em mim mesmo por estragar seu momento.
Puta merda, ela está me pedindo para casar?
— Você é o pior pretendente que a humanidade já
viu! Como se ignora um pedido de casamento, Alonzo?
— Papai, você tem de dizer sim — Selene se
intromete, impaciente.
— Ouça sua filha, seu Luc.
O sorriso de Lunna está de volta.
— Isso era para ser romântico — ela diz, e acabo
prestando atenção nela. No quão sexy ela está nesses
saltos e vestido curto. — Queria que esse momento fosse
especial para todos, sua filha, Marta, você e eu. Uma nova
família Alonzo. Com as pessoas que realmente importam
aqui, para celebrar conosco.
Meu coração acelera no peito quando tomo
conhecimento real do que ela quer. Aceitar por fim meu
pedido de casamento. Isso significa que ela está pronta
para nós...
— Múmia faraônica, você me dá a honra de casar
comigo? — Ela me estende agora o anel que dei para ela
algum tempo atrás e que eu pedi que guardasse e só usasse
quando enfim aceitasse meu pedido de casamento, no dia
que a magoei com minhas palavras insensíveis.
— Lu..
— Diz sim, papai!
— Viu, tenho torcedora, assim você não pode mais
fugir de mim.
— Siiiimmm — Selene aprova.
— Não era eu que estava fugindo, amor — digo,
agora meu coração bombeando sangue rápido nas minhas
veias. Caminho para ela e pego o anel de seus dedos, que
estão trêmulos. Não acredito que estou deixando-a
nervosa. Ela deu uma surra em Amélia e nem piscou, e
agora está nervosa por causa da minha resposta, que ela
sabe que será um sim? Ah, como ela é fofa.
— Sabe que isso está tudo errado, não é? Teria que
ser eu, de joelhos, suplicando a você para ser minha para
sempre — traço suavemente, com meu polegar, os seus
lábios pintados de vermelho. — Sabe que é a mulher mais
enervante, mais louca, mais irritante, mais linda e perfeita
que existe, não é? E que eu seria muito louco se te deixar
escapar?
Ela funga, mordendo os lábios timidamente, e seus
olhos se prendem aos meus. Esquecemos, por um instante,
que estamos com pessoas ao nosso redor e que uma delas
está muito impaciente.
— Papai, diz sim — Impaciente, Selene me cutuca
na perna.
— Eu estou dizendo, filha. — Respondo, ainda
olhando para Lunna.
— Não escutei “sim”, nem uma vez — ela teima, me
fazendo rir.
— Sim, amor, vamos nos casar — coloco o anel
suavemente no dedo anelar de Lunna, antes de puxá-la
para mim. Quero sua boca na minha mais que o ar que
respiro. — Amo você — sussurro, antes de tomar seus
lábios.
— Eu também te amo, muito... — diz, quando ela
quebra o nosso beijo, mas o sussurro se perde quando
volto a beijá-la. Seus lábios macios nos meus me deixam
com essa sensação de plenitude. De estar em casa. De
estar completo. Seus seios estão pressionados no centro
do meu peito, e eu sinto seus mamilos duros através do
tecido desse vestido indecente que ela está usando.
Nos separamos, e Selene vem para o meio de nós
dois, segurando a cintura de Lunna em um abraço. Isso me
deixa mais feliz que qualquer outra coisa. Sei que as duas
serão amigas. Elas já são amigas. Poderiam ser mãe e
filha perfeitas.
— Seu Luc, estou tão feliz pelo senhor! — Marta
está com o rosto molhado de lágrimas.
— Obrigado, Marta.
— Menina, você demorou tanto — ela diz, agora
para Lunna — Já estava com vontade de falar em seu
nome. —Lunna gargalha. Puxo Lunna para mim outra vez e
enterro meu rosto em seu pescoço, sussurrando:
— Já disse que você está pecaminosa com esse
vestido? —beijo seu pescoço, deslizando a língua até sua
orelha. — Quero foder você como louco agora. Além de
fazer você pagar pelo susto que passei hoje.
— Eu te amo — ela enlaça meu pescoço com seus
braços delicados — Você é tão indelicado. Mas eu amo
você.
— Por que vocês dois não saem para comemorar
esse noivado? Eu e a Selene podemos ficar aqui. —
sugere Marta, em um tom conspiratório.
— Você tem razão, Marta, por que você duas não
voltam para casa? Tenho um assunto para tratar com minha
noiva. — digo, austero.
— Vamos lá, menina — ela pega a mão de uma
Selene relutante e a arrasta em direção à saída — Vamos
deixá-los a sós.
— Mas...
— Vamos lá, querida.
Quando a porta se fecha atrás delas, nós dois já
estamos arrancando nossas roupas. Que outra maneira
melhor de comemorar?
— Nunca mais junte-se com minha filha para me
matar do coração — recrimino sem muita convicção,
quando estou a ponto de mergulhar em seu corpo
receptivo.
— Claro que não — fala, ofegante — Eu prometo...
por hoje.
CAPÍTULO 35
LUNNA
— Por que não me disse que vínhamos
para meu apartamento, senhor Alonzo?— vejo Luc parar o
carro na frente do meu prédio e descer rapidamente. Ele
não falou muito, apenas dirigiu até aqui feito um louco e
agora está abrindo a porta do carro para que eu desça. Ele
está meio bestial depois do pedido de casamento. Ele não
quis ficar em casa depois da nossa festinha na casa da
piscina. Ele comunicou à Marta que íamos sair para
jantar. Desculpa esfarrapada, pois já era tarde para isso.
Luc me beija assim que desço, me prensando contra
a lataria do carro. O desejo aumenta quando aquela mão
grande dele aperta duro meus seios. Ele aperta entre os
dedos indicador e o polegar meu mamilo duro e receptivo
por cima do meu vestido, e eu gemo em sua boca. O beijo
gostoso, erótico que ele me dá tira meu fôlego. Luc chupa
minha língua em sua boca, disparando flashes de prazer, e
eu quero mais. Minhas mãos vão para seus cabelos e eu os
agarro forte, pois o tesão é muito grande. Os lábios
atrevidos descem para meu pescoço, estou gemendo a
cada mordidinha que ele dá, até parar em minha orelha,
que ele segura entre os dentes. Minhas pernas bombeiam e
me seguro em seus ombros para não cair. Estou sedenta
dele. Esfrego-me nele, buscando um atrito que me dê
alívio.
— Eu preciso estar dentro de você, amor. — ele se
arrasta para longe de mim e me puxa para dentro do
prédio.
Tropeçamos para dentro do meu apartamento como
se estivéssemos famintos um do outro. Ele me empurra
para o sofá.
— De joelhos, amor. – Comanda, com voz gutural.
Eu tremo e fico de joelhos no sofá, segurando o encosto, e
olho para ele. Ele segura meus cabelos curtos e puxa meu
rosto para ele, beijando-me furiosamente. Sua língua
enroscando-se na minha, e parece sugar tudo de mim. —
Esse vestido me deixou louco. — rosna. E me posiciona
até que esteja com meu peito colocado no encosto e minha
bunda para o ar. Ele sobe lentamente minha saia curta,
expondo meu fio dental, também vermelho, e bate a palma
aberta em um tapa firme.
Maldição! Gemo, empinando o traseiro para ele.
— Isso é delicioso. — ele diz, ajoelhando-se, e o
calor de sua boa em minha vagina, quando afasta o tecido
da calcinha para o lado, é como choques elétricos
percorrendo minha coluna. Isso é muito bom, gostoso. Luc
puxa minha calcinha para baixo, e gemo de ansiedade.
— Luc...
— Não posso esperar mais, amor, preciso de você
— sinto seu pau contra minhas dobras molhadas antes de
ele enfiar até o fundo. Enfia rápido, forte, indo todo até o
fim, eu gritando seu nome agora a cada estocada firme que
ele dá. Uma de suas mãos desliza por minhas costas e
segura meu ombro, a outra na minha cintura me mantém no
lugar. O pau grande me tomando, saindo para voltar até o
fim, minha vagina derretendo, e perco o controle de mim
mesma. Estou tão excitada, estou a ponto de gozar por
todo seu pau. Minhas sensações se intensificam quando
ele desliza a mão que estava em minha cintura até minha
boceta, onde começa a acariciar meu clitóris com
movimentos circulares, tão intensos quanto as estocadas
firmes do seu pênis em minha vagina.
— Lunna! — ele geme meu nome, em total
descontrole também — Porra! — Meu interior parece ter
uma ligação direta com sua voz, porque sinto o
redemoinho de prazer se alastrar por meu corpo, e essa
quentura me toma inteira, e eu simplesmente apago com o
gozo puro. Êxtase.
Tremendo, volto à realidade e o encontro em
furiosas estocadas buscando seu próprio prazer, e saber
que o fiz perder o controle, me faz ser levada outra vez
pelo orgasmo, quando o sinto gozar dentro de mim.
Caímos no sofá, e percebo, depois de um tempo,
que estamos completamente vestidos.
— Venha, vamos para um lugar confortável. — Ele
me leva para o quarto, onde começamos uma segunda
rodada de sexo, agora calmo, porém não menos intenso. A
cada estocada de seu pau, ele diz que me ama.
— Amo você, loirinha. — ele prende minha cabeça
entre seus braços, seus quadris em um vai e vem lento e
delicioso.
— Você é lindo e amo você, mas eu não o quero me
chamando de loirinha — resmungo, fingindo mau humor,
porém, no fundo, amo que ele me chame assim, só não vou
dizer isso a ele. — Isso é tão inha.
— É carinhosinho, amorzinho. — ele ri, safado,
quando praticamente sai de dentro de mim e volta mais
lento ainda.
— Isso é tortura.
— O que, loirinha? — provoca outra vez.
— Luc... — gemo, rendida.
Ficamos a noite inteira no meu apartamento. Nós
tínhamos planos, e isso incluía planejar um casamento e
dizer a nossos amigos — oficialmente, claro — que íamos
nos casar, porque eles já sabiam, de qualquer forma, que
estamos tendo um relacionamento. Estivemos vivendo
meses em uma bolha onde era apenas nós três,
praticamente. E eu amo isso, mas está na hora do mundo
exterior fazer parte de nossas vidas.
Na manhã seguinte, enquanto estou me arrumando
para ir a uma palestra, ele diz, divertido:
— Você demorou meses para dizer sim. Aquele
pedido foi tudo que conseguiu pensar? Você merece um
castigo, senhorita Maia.
A meia preta 7/8 que estou colocando faz par com o
vestido cinza perolado e os saltos que vou usar. E ele me
assiste de braços cruzados, ao lado da janela do quarto,
onde ele está apenas de calça jeans, causando sérios
danos ao meu cérebro, além de rir do meu pedido de
casamento. Seu olhar atento aos meus movimentos faz as
bolhas na minha barriga parecer champanhe borbulhante
em uma taça.
— Você é tão bruto! — digo, levantando a segunda
perna para vestir a meia — Você devia ficar de joelhos e
me adorar.
Caminhando para mim, ele se ajoelha entre minhas
pernas. Estou nua, apenas com calcinha e meias pretas.
Lambo os lábios nervosamente — Eu vou adorar você
para o resto de minha vida, Loirinha. Eu sou
completamente louco por cada pedacinho de você.
Passo minhas pernas em torno dele, meus braços...
— Você anda me prometendo muitas coisas, e,
falando nisso, quero me casar, já. — sorrio.
— Lunna Maia, case comigo daqui a um mês, aliás,
daqui a uma semana!
— Fechado.
Digo, beijando-o.
A campainha toca, fazendo-nos separar, e olho para
ele com indagação. Eu não esperava ninguém a essa hora.
— Você pode ver quem é?
— Claro —diz, antes de beijar rapidamente meus
lábios. — Volto já.
Ele sai e, pouco depois, escuto vozes na sala, que
rapidamente ficam em silêncio depois.
— Luc?!
— Estou aqui — viro-me para ele e fico abismada
com o buquê de rosas azuis em suas mãos — Eu deveria
comprar uma dúzia de buquês para que não fosse chamado
outra vez de muquirana e não sei mais o que pela minha
futura esposa.
— Esse já é um título, seu múmia — mordo o lábio
inferior, sorrindo — Elas são lindas.
— Para você. A mulher mais rara e valiosa para
mim.
— Você está melhorando — agarro as rosas e as
levo ao nariz, inalando o perfume das flores — Obrigada.
Tem um cartão e pego para ler, ansiosa.
“Minha resposta ao seu pedido de casamento
brega nunca poderia ser diferente de sim.
SIM, loirinha, eu quero pertencer a você
Porque você também é minha”
L.
— Brega? — olho feliz para ele.
— Humhum.
— Vocês, homens, não entendem o quanto é
trabalhoso uma mulher fazer um pedido. — resmungo,
quando enlaço seu pescoço — Eu não ia receber um não
como resposta, teria te raptado e o feito meu refém, até
você dizer sim. Pena que foi tão fácil.
— Posso mudar de ideia — diz, contra meus lábios.
— Por favor — voltamos a nos beijar, e as rosas
são esquecidas depois disso. E eu? Bom, minha palestra
ficou bem atrasada...
CAPÍTULO 36
LUNNA
Um mês depois...

Casar com Luc Alonzo não foi bem o que eu


imaginava, quando eu sonhava com meu príncipe
encantado, mas aqui estou eu, caminhando com Selene e
Isadora à minha frente, para o homem que vai ser meu
para o resto de nossas vidas.
Bem, se eu não o estrangular antes.
Sorrio para a dúzia de convidados na igreja, apenas
nossos amigos mais chegados. Mamãe, Greg, minhas
amigas e os amigos de Luc, em sua maioria. Além dos
seus pais.
— Você está linda — Luc beija meus lábios
rapidamente, quando me encontra no altar, com um sorriso
de tirar meu fôlego.
— Você está um verdadeiro Lucat, minha múmia. —
digo, de encontro aos lábios tentadores dele.
— Está uma noiva linda!
Meu vestido de noiva, branco, é curto. O buquê é
composto apenas por três rosas azuis, símbolo de nossas
"desavenças" e que eu passei a amar. Eu as tinha recebido
essa manhã, minha múmia muquirana está aumentando a
quantidade.
Ele disse que, no dia que eu der um bebê a ele, vou
ganhar uma dúzia. Mas vamos esperar. Seria de mau gosto
ter um bebê agora. É tão recente que ele tem Selene. Ela
merece toda atenção para ela, um bebê toma toda atenção
dos adultos em volta, e eu não quero que ela se sinta
rejeitada quando acabou de ganhar seu papai.
— Eu te amo. — ele murmura.
— Amo você, também. — sussurro de volta.
A cerimônia é rápida e simples. Logo depois,
recebemos os parabéns de todos na frente da igreja. A
felicidade é tanta que não noto de imediato Amélia do
outro lado da rua. O local é a igreja que mamãe conheceu
Greg, e acabei vindo fazer a cerimônia aqui, por ser um
lugar especial para ela. O parque em frente à igreja tem
árvores, e quando levanto meus olhos rapidamente, rindo
quando Julie diz algo sobre eu e Luc esconder o jogo,
então a vejo.
Um carro passa no meio e a perco de vista um
segundo, mas depois olho, e ela ainda está lá. Meu sangue
gela nas veias. Procuro Luc e Selene, e eles estão nos
degraus da igreja à minha frente. Luc tem a mão de Selene
na dele, e quero gritar para ele. Estou em completa
paralisia.
— O que você tem? — Julie me cutuca, preocupada.
— Luc! — chamo, e vejo quando Amélia começa a
caminhar para a igreja. Sua mão no bolso do moletom que
ela está vestindo sai, e a arma em sua mão me põe em
movimento. — Luc!
Parece que tudo acontece em câmera lenta. Quando
eu grito, um tiro é disparado e sons de freios de carro são
ouvidos ao longe. Algo queima através de mim. O susto
me paralisa e me sinto ser segurada por Luc quando ele
chega perto de mim e me impede de cair . Eu não tinha
percebido, em meu medo, que eu estava caindo...
— Lunna!
CAPÍTULO 37
LUNNA
— O amor é sofredor, é benigno; o amor
não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se
ensoberbece.
Sim, o amor sofre demais para mim...
Estou no hospital no dia do meu casamento, quando
deveria estar na minha quente lua de mel. Jesus, aquela
mulher tinha de atrapalhar tudo?
— Não se porta com indecência, não busca os seus
interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga
com a injustiça, mas folga com a verdade. Tudo sofre,
tudo crê, tudo espera, tudo suporta...
Não suporto perder minha lua de mel, isso sim...
Quero pegar a múmia de jeito e só soltar um mês depois..
A voz de mamãe para de recitar. Estou sonolenta
dos remédios que tomei. O tiro disparado passou de
raspão por meu lado esquerdo, por pouco não atingindo
Julie. Pelo visto, Amélia saiu da cadeia e veio acabar
com a felicidade de Luc, porque ela disparou contra mim
sabendo que iria atingi-lo mais do que atirando nele. Seu
ódio por Luc era tanto que ela não suportava que ele fosse
feliz. O pior foi para ela: em sua ânsia de atingir a nós,
não prestou atenção no carro vindo em sua direção. Agora
está morta. E pior, tudo isso na frente de sua neta. A
mulher não tinha decência.
Gemo.
— Acordou, querida. — ela diz, e abro os olhos,
deparando-me com ela acima de mim. — Ah, bem-vinda
de volta, os remédios derrubaram você.
— Mãe, você está melosa demais sobre o amor —
digo, com uma careta — Estou ficando enjoada com você
falando aí.
— Você nem doente toma jeito — ela repreende
com carinho.
— Cadê Luc? — questiono, meio grogue. Eu tinha
vindo para o hospital completamente consciente, até
porque não foi nenhum ferimento grave, mas estava com
dor, e o analgésico me deixou muito sonolenta, acabei
dormindo.
—Ele foi levar Selene para casa. Ela estava
querendo dormir junto com você, aqui na cama.
— Ah, tadinha.
— Ela ama você, querida, estava preocupa quando
viu você dormindo depois de levar um tiro — mamãe
afasta meu cabelo da minha testa em uma carícia — Não
faça isso comigo de novo. Não posso ter um susto desse
outra vez.
— Claro que não, mãe! — garanto, rindo
debilmente.
— Amo você, criança— beijando minha testa, ela
volta a sentar ao lado da cama — Descanse, que seu
marido volta daqui a pouco.
Marido. Caramba, eu agora sou uma Alonzo!
Como se tivesse sido invocado, a porta abre e Luc
aparece.
— Viu? Não falei? — mamãe diz, olhando-me com
uma piscadela.
— Vá para casa descansar, ficarei aqui — ele diz
para minha mãe — O médico disse que ela pode ir para
casa agora, se quiser, mas eu prefiro que ela fique aqui.
— Hey, estou bem, marido.
— Você levou um tiro — ele vem e me beija
suavemente.
— Um tiro de raspão.
— Estou indo, crianças — mamãe levanta e vem
pegar minha mão — Qualquer coisa me ligue, não faça
nenhuma bobagem.
— Ela não fará — Luc garante, e mamãe vai embora
depois de se despedir.
Quando ficamos a sós, sou sufocada de beijos.
— Você é minha existência, Lunna, perder você
acabaria comigo.
— Não vai, Múmia, pare com isso, ainda temos uma
lua de mel para ir — sorrio.
— Claro que sim.
— E Amélia?
— Não quero saber, a advogada que fez de tudo
para que ela fosse solta que cuide para que o corpo dela
seja enterrado decentemente, ou será enterrada como
indigente — ele diz, com raiva.
— Tem de pensar em Selene, é a avó dela. —
amenizo.
— Não, quero minha filha longe dessa podridão.
E ficamos todos. Saio do hospital no dia seguinte, e
não sabemos mais nada sobre Amélia, toda questão do
incidente foi tratada com os advogados de Luc, enquanto
nós três partimos em lua de mel. Sim, Selene está indo
conosco para a Grécia.
— Devíamos ir para o Egito — digo, quando
decolamos.
Luc me olha, intrigado.
— Lá tem as tumbas dos faraós mumificados, seus
parentes — digo, séria, e Selene ri.
— Muito engraçado. Piada velha. — diz — Sabe
que vai me pagar por isso, não?
— De que jeito?
Ele se inclina e fala em detalhes ao meu ouvido
como pretende me castigar. Realmente, não vejo a hora de
receber seus castigos.
CAPÍTULO 38
LUNNA

— Você está grávida?


— Sim
—Não acredito! Como isso aconteceu?
— Filha, como engravidamos? — ela dá um sorriso
sem graça.
— Mamãe, você não tem mais idade para ter filho,
isso pode ser um risco para sua saúde — digo, chocada.
— Isso não me impede de engravidar, pelo visto. —
mamãe está radiante, e sua pele brilha, porém, atrás de
tudo isso tem preocupação ali. — Muitas mulheres, com
mais de quarenta anos, têm filhos, Lunna.
— Vocês estão bem?
— Eu e o bebê? Sim.
— E você e o Greg?
— Bem... sim — sua hesitação diz mais que
palavras.
— Estão bem, não é? Ele não está te deixando por
causa do bebê, não é?
— Não, isso não, mas temos problemas que vão
além disso. Mas não se preocupe, querida, vamos ficar
bem — ela garante.
Saio de sua casa eufórica e preocupada, mas feliz
que vou ter um irmãozinho. Eu tinha ido dizer que estava
planejando ter um bebê nos próximos meses, mas eu
prefiro esperar um ano agora.
Não temos pressa.
EPÍLOGO

LUNNA
— Você tem certeza? — pergunto ao
telefone, minha voz embargada.
— Claro que sim, Lunna. Parabéns, querida! —
Dona, minha médica, diz do outro lado.
— Obrigada — digo, em um fio de voz, antes de a
ligação ser cortada.
Um felizes para sempre poderia até ser muito
otimismo de minha parte, afinal das contas, a vida real
não é sempre felicidade eterna, mas o vislumbre dele
acontecendo é a certeza que nós estamos no caminho
certo. Os sapos faraônicos implicantes podem ser
príncipes amorosos quando encontram seu par oposto e se
completam mais que perfeitamente. Eu e meu oposto nos
completamos por sermos exatamente assim, e eu sou
feliz...
As coisas mudaram na minha vida completamente,
nesses últimos dois anos. Eu nunca imaginaria que
ganharia uma filha e que nos daríamos melhor que muitas
mães e filhas naturais, mas aqui estou eu, sendo uma mãe
coruja de Selene há mais de um ano, desde que casei com
seu pai. Está tudo perfeito, ou quase. Minha múmia
favorita está louco por um bebê, mas eu ainda estou
relutante em ter um filho, eu temo não ser capaz de cuidar
de uma vidinha nova.
Na verdade, eu morro de medo, e não contei isso
para Luc. Eu amo os filhos das minhas amigas e meu novo
irmãozinho, que nasceu há um ano, mas ter um bebê está
me apavorando como nada jamais fez. O irônico disso
tudo é que já não está em minhas mãos decidir isso. Mas,
por incrível que possa parecer, eu estou feliz por
acontecer agora.
Olho ao redor e sinto orgulho demais do dia de
hoje.
Emoção é uma palavra rasa para descrever como
me sinto, é uma mistura louca de sentimentos dentro de
mim. Um dia que minha vida começou a mudar desde que
acordei. A vida programou o dia de hoje, um dia mais que
especial. É o começo de uma nova etapa na minha vida e
na minha carreira como fisioterapeuta, um passo
importante para mim. Eu sozinha, talvez, não tivesse
conseguido em um ano, desde que comecei a construção,
concluir esse projeto que sempre foi um dos meus sonhos.
Mas eu tenho pessoas maravilhosas ao meu lado e um
marido que me faz me sentir como a única mulher na terra.
Todos tinham contribuído para esse dia ser perfeito, de
alguma forma. Minha mãe, minhas amigas, seus maridos,
meu marido e minha filha adotiva.
— Tudo está perfeito, Lunna — Gaby diz,
orgulhosa, parando ao meu lado— Não foi porque eu dei
o meu melhor aqui não, mas sua clínica tem um charme
especial. Ficou tudo muito lindo.
Sim, ela tinha tomado para si o projeto da
FisioCenter, meu sonho realizado. Não poderia dizer que
conquistei só, Luc e Gaby foram os mais envolvidos junto
comigo, para que tudo hoje estivesse perfeito.
Sorrio, agradecida, quando bato minha taça na
dela e finjo beber depois do brinde.
— Obrigada, querida — olho ao redor, para os
convidados da inauguração da clínica, que estão por toda
parte. Sinto algo quente no peito quando o sentimento de
realização bate. — Você fez o projeto exatamente como eu
queria, então, sim, está perfeito.
— Mamãe! — Braços enlaçam minha cintura por
trás, e a voz de Selene aquece meu coração. —
Demoramos por culpa do meu pai.
— Seu pai é sempre o culpado — digo rindo,
quando me viro para olhá-la — E onde ele está agora?
Ela está tão crescida, quase uma linda
adolescente. Eu amo essa garota. E, além disso tudo, me
chama de mamãe. Na primeira vez que ela fez isso, quase
tive um infarto de emoção. Ela simplesmente passou a me
chamar assim do nada, e cada vez que ela me chama assim
eu quero ser essa mãe perfeita que ela merece.
— Lá fora, em uma ligação — ela revira os olhos,
respondendo minha pergunta.
— Lunna, querida, parabéns — minha sogra vem e
me envolve em um abraço também, depois que se afasta
aponta ao redor — Isto aqui está lindo. Tenho certeza que
será um sucesso.
Assinto.
— Obrigada por vir.
— Não perderia por nada — quem disse que
sogros eram ruins? O meus são os melhores.
Avisto minha mãe e Greg e vou ao encontro deles.
— Hei, cadê meu irmão? — pergunto, quando dou
um beijo na face dela.
— Festa barulhenta não é lugar de bebês.
—Ele tem mais de um ano, mãe — bato no braço
de Greg — Você a deixou abandonar seu filho em casa,
sozinho?
— Temos planos para depois daqui, querida
enteada, então um bebê não era apropriado — ele diz,
depois dá uma olhada quente à minha mãe — Não é,
amor?
— Argh! Não quero ouvir isso, poupe meus
ouvidos de certas coisas — finjo horror do pensamento de
mamãe e Greg juntos — Que bom que vieram.
— Querida, é sua festa, sua clínica, e não quero
perder nada de suas conquistas — minha mãe segura em
meus braços — Orgulho-me muito de ter uma filha como
você. Apesar de às vezes eu te decepcionar, você sempre
foi o contrário, me deu apenas alegria. Por sua causa eu
me tornei o que sou hoje. Então sua conquista é minha
conquista e não posso perder nenhum passo disso
enquanto ainda estiver viva. Filha, nada me deixa mais
feliz que ver você feliz e realizando seus sonhos. Esse
lugar brilhará apenas por você estar aqui, você sempre foi
minha maior estrela, esfuziante e irreverente.
Lágrimas bobas correm dos meus olhos e meu
lábios estão trêmulos na tentativa de conter as lágrimas
que teimam em cair.
— Você não me decepcionou, mãe, mesmo que às
vezes eu tenha dito coisas assim, mas você sempre foi
minha heroína favorita.
— Hei, por que essas lágrimas? — a profunda voz
de Luc me alcança e, segundos depois, estou sendo puxada
para ele. — O que houve? Algo errado na festa? Diga-me
e daremos um jeito.
— Oh, senhor Alonzo, respire — retruco e me
aconchego em seu peito — Apenas um momento
sentimental.
— Humm, Loirinha, eu me preocupo com você,
amor — ele beija meus lábios rapidamente. Suas palavras
são como combustão, me deixam quente em todos os
lugares. A emoção parece aflorar mais a cada segundo
hoje.
— Eu te amo — sussurro, trazendo toda emoção
para minha voz embargada — Amo que você faça parte da
minha vida, Luc Alonzo.
— Eu também te amo, sabe disso, Loirinha —
mesmo que nós dois estejamos no meio de nossos
convidados, ficamos abraçados ali por um momento,
apenas desfrutando desse instante.
A festa, não é bem uma festa, é apenas um coquetel
de inauguração de minha clínica de fisioterapia. Eu
circulo pelo ambiente, cumprimentando todos meus
amigos. Eu adiei esse momento até não poder mais, porém
não posso deixar de agradecer a todos por estarem aqui,
pois sei que estou além de emocionada com a notícia de
Dona e tudo isso aqui.
Não adio mais, pego o microfone e chamo a
atenção de todos.
— Hoje é um dia mais que especial para mim, de
tantas maneiras incríveis, que se eu ficar aqui muito
tempo, falando, vai ser constrangedor. Sou péssima
discursando — dou um sorriso trêmulo — Eu agradeço a
todos por terem vindo aqui partilhar comigo dessa
conquista. Obrigada a todos pelo apoio, vocês são
incríveis. Meus amigos, minha mãe, obrigada.
Fixo meu olhar em meu lindo marido e em nossa
filha.
— Mas quero me dirigir especialmente ao meu
marido e à minha filha. Vocês dois têm sido meu centro de
força e gratidão por serem tão... tão maravilhosos. Sem
vocês eu não teria isso agora, talvez mais para frente,
afinal, sou uma pessoa incrível, não esqueçam — todos
riem, e espanto uma lágrima antes de encarar Luc, que tem
esse sorriso que me abala e aquece, e esses olhos
cinzentos que brilham, cheios de amor para mim — Eu
queria dizer isso em particular a você, mas eu não estou
conseguindo segurar mais, e esse momento é mais que
perfeito para que todos saibam de uma vez, então.
Respiro fundo e continuo:
— Mais cedo, recebi um telefonema da minha
médica e...
— Você está bem, Lunna? — Luc me corta,
preocupado — Você...
— Estou ótima. Eu adiei isso por dois anos,
porque eu não me sentia preparada e você quis desde o
início. Nem planejei para agora, mas, vejam só, agora não
tem mais volta. Múmia, vamos ter um bebê. E eu estou
feliz, tão feliz...
Eu não termino de falar, porque ele praticamente
pula em cima de mim.
— Deus, mulher, você me mata dessa forma! — a
voz sai abafada, já que ele tem a cabeça enterrada nos
meus cabelos, que agora estão crescidos. Escuto as
palmas dos convidados, mas Luc me levanta nos braços e
me tira do salão onde acontece a recepção da clínica, e
me leva direto para meu consultório, deixando os
convidados lá.
— Os convidados...
— Agora não, Lunna, eu preciso de você só para
mim. — Ele fecha a porta com um chute, nos insolando de
todos — Você está falando sério?
— Sobre o bebê? Claro que sim, teremos uma
mumiazinha, enfim — seguro seu rosto com as duas mãos
— Eu sei que demorei para que isso acontecesse, mas eu
acho que talvez agora seja o certo, mesmo que você seja a
babá, enquanto eu faço essa clinica crescer...
Ele me cala com sua boca voraz na minha. O beijo
é cheio da emoção que vibra entre nós, como algo
palpável, intenso e maravilhoso. Gemo quando a língua
dele acaricia a minha, e apenas me entrego ao calor que
vem como chama através dele para mim.
— Te quero agora — ele sussurra, quando me
empurra para o sofá no canto da sala. — Hora de batizar
sua sala, loirinha, porque estou feliz pra caralho.
— Temos pessoas lá fora nos esperando, Luc
— Você tem ideia de como ter um filho com você
é importante para mim? — ele parece esquecer, por um
instante, que queria fazer amor no sofá e me encara, sério
— Eu fui o pior pai para Selene quando ela nasceu e
ainda me sinto terrivelmente em dívida com ela por isso.
Eu a rejeitei de uma forma mesquinha e egoísta, e tenho
tentado compensá-la de todas as formas até hoje. E você
não querer até agora um filho comigo era como um castigo
por meu egoísmo. Seria meu castigo? Nunca mais ter um
filho? Para que eu pudesse fazer diferente? Ou porque
você tinha medo de que eu te abandonasse como fiz com a
mãe de Selene? Tudo isso tem me corroído por dentro
desde que casamos...
— Hei, não é nada disso. Por que não falou suas
dúvidas, nesse tempo todo? Não quero você se sentindo
dessa forma — beijo seus lábios repetidas vezes —
Nunca, amor, nunca te faria algo mal intencionalmente.
— Eu sei, mas agora eu quero fazer diferente,
amor.
— Já estamos fazendo. Você é lindo e maravilhoso
com Selene, tenho certeza absoluta que será o melhor pai
que nosso filho poderia querer.
— Nosso filho! Porra, loirinha, eu amo o som
disso — Ele se ajoelha e beija minha barriga inexistente
por cima do vestido, depois olha para cima, aos meus
olhos, e ri, malicioso — Agora podemos ir até o sofá? —
ele sobe as duas mãos por baixo da minha saia, e quero
obedecer a sugestão, contudo, resisto bravamente.
— Não! Podemos fazer isso mais tarde, então seja
um bom menino.
— Não serei um bom menino, você me chamou de
Múmia na frente dos convidados? Ah Lunna Alonzo, eu...
A resposta dele é cortada por uma batida na porta,
e a voz de Selene vem de lá de fora.
— Papai?! Mamãe?!
— Viu? Falei...
Antes de abrir a porta, ele rouba meu fôlego com
um beijo quente.
— Selene, filha, onde é o incêndio?
Ela o ignora e vem direto para mim, abraçando-me
pela cintura
— Estou tããããão feliz porque vou ter uma irmã —
ela fala, saltitante.
— Irmã ou irmão, querida — digo rindo — Você
está bem com isso?
Ela assente, batendo palmas, feliz, e sinto as
drogas das lágrimas voltando. Nunca conversamos
abertamente sobre irmãos com ela, mas vejo que não é
problemas para ela.
— Vai ser a melhor irmã do mundo, por ser tão
generosa.
Voltamos os três para onde os convidados estão, e
começa um pandemônio de felicitações e abraços.
Eu apenas sorrio, transbordando com esse calor
que aquece meu peito de uma forma confortante. Eu sei
que estamos no caminho certo do felizes para sempre...
Fim
AGRADECIMENTOS

Nada sem Deus na frente vai bem, é por isso que


agradeço a Ele por ser meu guia. Tudo pertence a Ele.
Mas agradeço a todas as pessoas que cooperam
para que eu continue tentando e tentando. Obrigada.
Mas meu agradecimento especial vai para uma
pessoa que sabe por que estou agradecendo a ela. Minha
revisora Lucilene Veira, tu sabe que mora no meu coração.
Obrigada.
Minhas leitoras lindas, O&P eu dedico também a
vocês, suas lindas. Sem vocês nada disso seria possível.
Amaram meu Luc, minha Múmia favorita, a louquinha
Lunna e, claro, Selene.
Tem uns anjos que vieram com ajuda com capa,
imagens, grata pela ajuda. Joyce Dias, obrigada, amore.
Pat, Cat, Kele, Jenni, Joseania, Adriana, Raíra,
Kelly, Drika, Rayanna, Rosa, Mony, Alice, Nani, Su,
Ellah, e todas mayzetes lá do meu grupo no WhatsApp.
Lindonas, cheiro para vocês e, claro, para minhas
seguidoras/leitoras do Wattpad.
Obrigada pelo carinho,

MAYJO
TRILOGIA
IMPERFEITOS

Obêbê Andretti (Lançado)


Opostos & Perfeitos (Lançado)
InCompletos (em breve)
Livros independentes, cada um conta a história de um
casal

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