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Reflexão

Disciplina: Laboratório de Corpo: Composição


Profa. Dra. Lilian Freitas Vilela
Aluno: Leandro Senna Cardoso Gomes

Na disciplina “Laboratório de Corpo: Composição” deste semestre nos


deparamos com um panorama dos processos composicionais de realizadores
do século XX, com foco para o campo da dança. Passar por todas estas
criações e maneiras particulares de entendimento do corpo em cena, foi de
grande valia para o desenvolvimento da turma, para a expansão de nosso
repertório, e para nossa percepção sobre as questões em pauta entre os
criadores neste campo de atuação. As atividades práticas foram de grande
valia, ao nos possibilitarem a vivência de diversas propostas que certamente
enriquecerão nosso trabalho como educadores da área.

O contato com o trabalho de Pina Bausch indicou-nos as bases de uma das


estéticas mais influentes na contemporaneidade. A relação singular que Pina
desenvolve com o tempo e o espaço em suas coreografias, a presença
instigante do imprevisto como componente de cena, a proximidade de seu
trabalho com o de outros criadores contemporâneos ligados à performance,
sua forma singular de trabalhar com poucas palavras, em provocações mudas,
levando os bailarinos aos limites de suas capacidade expressivas e criativas,
sua própria figura enigmática trabalhando em flerte com o sagrado, como se a
sala de ensaio fosse um espaço de comunicação paranormal, todas estas
características em paralelo à disposição dos meios de comunicação em
transformá-la em um ícone pop, criam uma paradigma para coreógrafos,
performers, diretores, atores, atrizes, artistas.

O trabalho que desenvolvemos com o Professor Pedro Haddad, acerca do jogo


“Campo de Visão” de Marcelo Lazzaratto, professor do Instituto de Artes da
Unicamp, apontou-nos um caminho bastante interessante para a intersecção
entre teatro e dança, uma dinâmica em que o corpo assume um lugar de
destaque e onde o processo criativo coletivo se sobressai ao individual. O jogo
“Campo de Visão” abre muitas perspectivas de trabalho, seja na educação,
seja na criação. Há alguns anos havia já tido contato com esta técnica em uma
oficina ministrada pela Cia. Estável de Teatro no Arsenal da Esperança, um
imenso abrigo para moradores de rua no bairro do Brás. A partir desta
experiência, passei a utilizar-me da técnica em sala de aula e, posteriormente,
em uma montagem, o espetáculo “Emquadros: Diálogos por uma juventude
viva” no qual realizávamos todas as transições de cena com o jogo Campo de
Visão formatado com regras específicas que havíamos criado. Gostei bastante
do trabalho com o Prof. Pedro Haddad, entre outras coisas por poder ter
contato com o jogo a partir do modelo desenvolvido dentro da companhia do
próprio sistematizador do jogo, o grupo Elevador de Teatro Panorâmico. Esta
nova experiência instigou-me a pensar em novas formas de aplicação do jogo.
Exploramos em sala algumas possibilidades como: a realização do jogo com
mais de um líder, com pausas, com uma liderança fluída, entre outras. Acredito
que um dos pontos fortes do Campo de Visão seja justamente a sua
flexibilidade para ser adaptado à diferentes contextos, como ferramenta
pedagógica e como ferramenta de criação.

Uma reflexão recorrente que tive neste período tratou sobre a importância da
escuta, principalmente nas formas de criação como esta que observamos mais
ao final do semestre, a “composição em tempo real”. Neste modelo de trabalho,
assim como no Campo de Visão, a percepção da coletividade e do espaço em
movimento são a chave de todo o processo. Aqui o coreógrafo/diretor mais do
que estabelecer a forma final de uma obra, se debruça sobre os mecanismos,
os gatilhos, que possibilitam a interação entre os atores/bailarinos. Estes, por
sua vez, mais do que trabalharem a virtuose de uma partitura corporal que lhes
chega do exterior, vêem-se com o desafio de se trabalharem interiormente para
potencializar a própria escuta e, por conseguinte, o nível de interação com seus
companheiros de cena e com o espaço. Assim a compreensão do artista sobre
o próprio trabalho sofre um drástico câmbio de perspectiva. Já não existe corpo
isolado para o bailarino ou as marionetes passivas para o coreógrafo. A
substância do trabalho se desloca para o espaço entre os corpos, para a esfera
intangível das “relações”.

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