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Cabala e Psicologia – Introdução

Prefácio
Quando Adão e Eva desceram do Éden, teve início um processo de encarnação e de
compreensão do porquê haviam sido trazidos à Existência.
Essa mesma situação apresenta-se novamente a cada vez que nascemos, ao
aprendermos sobre a fisicalidade e sobre como esta difere daquela outra realidade
da qual viemos.
A maioria de nós logo esquece essa memória pré-natal, mas alguns procuram,
olhando para dentro de si mesmos, retornar àquele estado de alma.
A psicologia é o estudo desse mundo arquetípico que paira entre a Terra e o Céu; a
cabala é uma tradição espiritual que coloca os aspectos interno e externo da psique
no contexto da realidade maior.
Combinados, esses corpos de conhecimento antigo e moderno podem esclarecer a
natureza e o propósito da nossa descida à matéria, à medida que o si mesmo de
cada indivíduo passa por nível após nível para tornar-se uno com o divino
SI MESMO, que contempla através dos nossos olhos o seu próprio reflexo.

Introdução
A psicologia é o estudo da mente.
A palavra grega que lhe serve de raiz quer dizer alma, ou aquilo que não é do
corpo, mas é o componente invisível de uma pessoa.
Nos tempos pré-históricos, a morte era reconhecida como o momento da divisão
entre o corpo e aquilo que o animava.
Em todo o mundo, as pessoas reconhecem esse fenômeno, e chegam a fazer
grandes esforços para aplacar ou homenagear a inteligência que partiu.
Qualquer pessoa que tenha visto o cadáver de alguém que tenha conhecido bem
experimenta a mesma sensação de ausência total, não somente de vida, como
também daquela essência particular que tornava a pessoa única.
Esse reconhecimento de uma dimensão invisível, e contudo palpável, de um ser
humano, deve ter estado na origem das primeiras indagações sobre o que seria
aquilo que começa a existir no nascimento, possui certas características durante a
vida e desaparece com a morte.
Com isso começou a psicologia.
Nos primórdios da vida da humanidade na Terra, a principal preocupação era
aprender a sobreviver.
As pessoas tinham que se adaptar às interações dos quatro elementos, usar plantas
e relacionar-se com os animais.
Ora, esses primeiros seres humanos podem ter sido primitivos, mas a sua
consciência era de uma ordem bem diferente de qualquer coisa que pudessem ter
encontrado nas florestas que os rodeavam.
Não somente observavam a natureza à medida que as estações passavam como
também registravam e relacionavam as experiências de um modo que nenhuma
outra espécie poderia fazer.
Os animais podem reagir a uma seca migrando, ou então, dormir para evitar as
dificuldades do inverno, mas trata-se de um instinto nato, totalmente inconsciente
no nível individual.
Os seres humanos viam nos ritmos da Natureza padrões recorrentes, dos quais
extraíam princípios que formavam uma imagem do Universo em que viviam.
Os mais inteligentes e sensíveis dentre esses primeiros xamãs transformaram suas
conclusões em mitos que explicavam os processos do mundo que os rodeava.
Tais especulações incluíam a origem da raça humana, de onde vinha e para onde
ia.
É sabido que não poucos deles tiveram uma experiência de revelação na qual lhes
foi mostrada a situação do gênero humano desde uma dimensão superior.
Um destes foi Enoch (Gênese V).
Ele, segundo a lenda cabalística, é considerado a fonte de diversas tradições
esotéricas que transmitem essas iluminações místicas.
Na época em que a primeira civilização surgiu no Egito e na Mesopotâmia, já
existiam cosmologias completas sobre o Mundo que se encontra por trás dos
eventos mundanos da vida de todos os dias.
Os cataclismas periódicos das guerras, terremotos e fome eram aceitos como
vontade dos deuses e deusas que habitavam o reinado invisível de onde as pessoas
vinham ao nascer e ao qual retornavam quando morriam.
Grandes sacerdotes e reis podiam, mediante sacrifícios e feitos, influenciar os
eventos, mas, em última instância, os mundos superiores regiam os inferiores,
porque ninguém, com exceção talvez dos místicos e dos magos, entendia as leis
desses níveis invisíveis.
Ora, porquanto o nascimento e a morte fossem os dramáticos pontos de entrada e
de saída da região desconhecida, e portanto de grande interesse para todos, havia
poucas pessoas especialmente interessadas no que acontecia entre os dois pontos.
A maioria, notava-se, não fazia mais que existir, sem outro propósito senão o de
sobreviver; uns poucos eram mais expansivos e dominadores, enquanto outros
retraíam-se ou procuravam viver uma vida interior, seja na loucura, seja no contato
deliberado com os reinos invisíveis.
Tais observações levaram à especulação sobre os tipos de pessoas, temperamentos
e sina, que é o padrão distintivo de uma vida, porquanto a natureza de uma pessoa
em particular interage com as condições em que nasceu.
Os judeus e os gregos foram os primeiros, no mundo ocidental, a considerarem
metodicamente essas questões.
Embora influenciados pela visões persa e indiana do Universo, a abordagem judaica
era basicamente profética, enquanto os gregos davam a primazia à análise
intelectual.
Ambos ponderaram sobre o lugar dos homens no Universo e examinaram o
desempenho dos indivíduos.
As histórias da Bíblia e as lendas gregas versam sobre pessoas que se estão
relacionando com os mundos sobrenaturais.
Em cada tradição, certos personagens incorporam vícios ou virtudes que estão
sendo postos à prova; deste modo, Jacó e heróis tais como Ulisses desenvolvem-
se, enquanto outros à volta deles movem-se inconscientemente através do drama
da existência.
O tema da evolução interior ocorre em todas as mitologias, na figura de indivíduos
que lutam para emergir de um grupo tribal e tornarem-se pessoas que não se
limitam a viver no nível mundano, mas que participam conscientes do processo
cósmico de manifestação Divina.
Moisés, Jesus e Maomé foram exemplos de seres humanos altamente desenvolvidos
que não somente falavam com as pessoas comuns como também comungavam
com seres dos mundos superiores e com Deus.
Entre os pólos da simples consciência física e da total realização está um amplo
espectro de experiência humana.
Tal espectro é dividido, por toda a tradição esotérica, em corpo, alma, espírito e
Divino.
A psicologia ocupa-se primariamente do mundo da mente, que tem acesso ao
corpo, contém a alma, é penetrada pelo espírito e tocada pelo Divino.

Este estudo é uma tentativa de colocar o estudo da psicologia nos marcos do


esquema da cabala, que leva em consideração a origem do ser humano e da sua
composição física, espiritual e Divina.
Daremos especial atenção à psique e à grande jornada do destino, que cada um de
nós empreende ao descer à encarnação, e ao voltar depois ao lugar de onde todos
viemos.
Para entender e fundir as disciplinas da psicologia e da cabala, contudo, devemos
examinar a história da nossa atual situação a cada nível.
Isso significa extrair os elementos mais importantes de cada tema e inter-relacionar
as suas relevâncias de maneira a compor uma síntese que proporcione uma nova
visão de ambos.
Serão consideradas diversas escolas de pensamento, não somente para obter um
panorama mais amplo como também para cobrir todos os estágios e níveis do
desenvolvimento.
Naturalmente, algumas áreas serão omitidas, devido à limitação do espaço e do
meu próprio conhecimento.
Se entretanto este trabalho puder colocar em contato o psicólogo e o cabalista, terá
alcançado o seu propósito.
Cabala e Psicologia – Parte 1

Observação
Nenhum estudo sistemático da psique foi empreendido no mundo ocidental antes
dos antigos gregos.
Reconhecia-se a presença da alma, mas o que era conhecido estava limitado às
escolas esotéricas, tais como a de Eleusis, ou fazia parte do folclore.
Essa informação poderia estar na observação das aparições dos mortos, no
significado dos sonhos ou nas histórias de aventuras entre os deuses.
Fragmentos de conhecimentos chegaram até nós, mas estão, na maior parte das
vezes, na forma de alegorias que precisam ser interpretadas na linguagem de
nossos dias.
Naquela época da História, o homem ocidental estava ainda na fase supersticiosa
do desenvolvimento, na qual os fenômenos incomuns eram observados, mas não
entendidos, de modo que o natural e o sobrenatural confundiam-se.
Um exemplo disso era a crença nos deuses do Mundo Subterrâneo, na convicção de
que as almas desciam, após o sepultamento, para o domínio deles.
Quando os gregos entraram em contato com as mais antigas e muito mais
avançadas civilizações do Oriente, em suas campanhas de conquista e de comércio,
ocorreu uma alquimia cultural, na qual a inteligência racional dos gregos foi
estimulada e fusionada com a experiência filosófica e religiosa da mente oriental.
Além dos contatos com as civilizações indiana e persa e a conexão com os egípcios,
houve também o encontro entre as culturas helênica e judaica, que deu origem aos
fundamentos da Cristandade e do Islã.
O impacto dessa interação estimulou não somente uma abordagem intelectual da
cosmologia como também a psicologia, quando os gregos começaram a examinar
seus próprios mitos, dando corpo a uma base lógica para a estrutura e a dinâmica
do macrocosmo e do microcosmo do Universo e do gênero humano.
Por volta do sexto século antes da era comum a.C., a ciência grega concluíra que
havia uma diferença clara entre sentido e razão, no sentido em que a mente
sintetiza o que o corpo percebe.
Paralelamente, a noção de temperamentos diferentes foi observada e relacionada
aos quatro elementos em uma fórmula do tipo "embaixo tal qual em cima", tão
apreciada pelos filósofos místicos.
Lá pelo quinto século a.C., a escola pitagórica diferenciou a psique do corpo, o qual
era visto por eles como uma prisão para a alma enquanto a pessoa estivesse
encarnada.
Acreditavam que a vida fosse um processo de aprendizagem, durante o qual a alma
abria vagarosamente o seu caminho em direção à liberdade interior, purificação e
imortalidade, ao transcender o ciclo natural de nascimento, crescimento,
decadência e morte.
As escolas que não se ocupavam tanto das questões ligadas ao desenvolvimento
focalizavam aspectos mais pragmáticos; aqui temos a grande divisão entre as
abordagens platônica e aristotélica, que partilham o estudo da psicologia até nossos
dias.
Platão seguiu a linha mística, pois via o Universo emergindo de um reino invisível
para uma manifestação, enquanto Aristóteles, o cientista, observava que esses
reinos mais sutis eram inerentes ao mundo material.
Ele via a psique como a soma ou essência do corpo vivo, enquanto Platão a
percebia como um organismo não físico que podia renascer várias vezes após a
morte.
Em um nível mais detalhado de observação da psique encarnada, os gregos
começaram a diferenciar diversas funções da atividade, tais como as nutritivas,
sensitivas e racionais, correspondentes aos níveis vegetal, animal e humano de
uma pessoa.
Preocuparam-se também com a moralidade da psique em conflito com os vários
impulsos do corpo.
O processo da vagarosa organização de impulsos primitivos em ações conscientes
complexas também foi observado, assim como o princípio do desejo e realização
nos sonhos, quando as faculdades superiores estão adormecidas e os apetites mais
básicos podiam ser desencadeados sem condenação social.
Muitas dessas primeiras conclusões foram incorporadas aos vários sistemas que
surgiram da visão helênica da psique.
Os estóicos, por exemplo, viam uma impressão dos sentidos como uma percepção
da consciência da psique, e estabeleciam uma diferença entre a imaginação e as
alucinações, assim como entre as convicções subjetivas e a realidade objetiva.
Concluíram também que a razão inata que faz com que os animais se comportem
de uma determinada maneira deveria ser definida como "instinto", o que é bem
diferente da capacidade de consciência de um ser humano, baseada em um
conhecimento interior das Leis do Universo.
O efeito do helenismo sobre a visão judaica da psique, e mais tarde sobre as visões
cristã e islâmica, foi enorme.
Philo, um judeu que vivia em Alexandria mais ou menos na mesma época em que
Jesus de Nazaré nasceu, tentou amalgamar a revelação da Bíblia ao pensamento
grego.
Racionalizou muitos dos temas contidos nas escrituras como alegorias da realidade,
relacionando diversos personagens bíblicos a certas qualidades e níveis de
desenvolvimento.
Esse processo foi retomado pelos pensadores judeus mais radicais, mas só foi
incorporado à perspectiva ortodoxa após ter passado pelas versões neoplatônicas
da Cristandade e do Islã, em uma época em que a psique já havia sido examinada
e definida com riqueza de detalhes.
A aceitação aberta veio somente quando a cabala saiu de sua tradicional reclusão
para opor-se à lógica filosófica que estava ameaçando a fé inquestionável, e
atraindo não só a intelectualidade do judaísmo como também a dos cristãos e dos
islamitas, no princípio da Idade Média.
Na crise entre razão e revelação, a psique foi submetida a profundos estudos,
quando vários místicos discutiam abertamente os muitos componentes, funções,
problemas e resoluções relacionados à vida interior.
Debates sobre a alma nas casas de estudo rabínicas, nas celas monásticas e nas
escolas sufistas exploravam cada aspecto e nível, até que o espírito criativo se
abatesse e as universidades se tornassem meros centros de repetição e
informações baseadas no que fora dito pelos mestres antigos e medievais.
Foi preciso esperar até a Renascença para que a psicologia começasse novamente a
mover-se, quando pessoas inquisitivas recomeçaram a estudá-la com uma nova
visão.
O trabalho do anatomista Vesalius, no século XVI, removeu muitas idéias sobre a
dependência do corpo pela alma, como sustentavam muitos antigos pensadores;
observadores sociais, como Maquiavel, varreram com o ideal acadêmico de que as
pessoas eram inerentemente nobres.
Estava bastante claro, naqueles tempos politicamente expeditivos, que o lado
primitivo de um ser humano podia perfeitamente predominar.
Isso levou a uma reformulação da psicologia e das suas implicações, com o estudo
do efeito da sociedade sobre os indivíduos.
Por outro lado, estudiosos como Thomas Hobbes tomaram outro caminho, e
desenvolveram uma abordagem mecanicista, que via os sonhos, por exemplo,
como algo causado unicamente por fatores externos.
Tal abordagem estava alinhada com a influência de Galiltu, que havia destruído a
antiga imagem do mundo e todo o seu mistério com a mecânica celeste.
A Idade da Razão, nascida desta perspectiva, foi combatida pelos platonistas da
época, como os da escola de Cambridge de Henry Moore, mas estavam fora de
moda.
Até mesmo Newton, um místico de primeira grandeza, era obrigado a ocultar o fato
de que a maior parte de suas anotações era sobre questões religiosas.
Aparentemente, durante os séculos XVII e XVIII, poucos estudos psicológicos reais
foram feitos, embora muito tenha sido feito com o uso da abordagem mecanicista e
teórica, o que levou a muitas conclusões baseadas no método empírico.
O extremo racionalismo dessa época produziu suas reações, desde os mais
pedantes edifícios teóricos até uma cega fascinação pelo irracional, como por
exemplo o processo magnético do mesmerismo.
Em uma era obcecada com o estilo requintado e com o aperfeiçoamento do
maquinário, a loucura não era entendida, e era tratada do modo mais bárbaro.
Foi somente após o surgimento da consciência social que as pessoas pensaram em
examinar a psique do indivíduo.
Por volta do fim do século XIX, existiam numerosas escolas de psicologia; algumas
tinham um ponto de vista fisiológico, enquanto outras consideravam os aspectos
sociológico, funcional e comportamental.
Escolas como a gestáltica exploravam os efeitos do meio ambiente sobre a psique,
em contraste com os procedimentos analíticos que se envolviam então para
devassar as estruturas da mente.
De tal confusão de estudos científicos surgiu Freud, que abriu o Mundo do
Inconsciente, com suas poderosas forças que permeiam a consciência, para
influenciar as pessoas sem que elas o percebam, causando neuroses, psicoses e
comportamentos ocasionalmente irracionais em pessoas consideradas normais.
A contribuição de Freud para a psicologia ocidental foi enorme.
Ele não somente redescobriu aquilo de que as escolas esotéricas falaram durante
séculos como também começou a sistematizar a mente de maneira científica,
embora tenha encontrado muita resistência em sua própria área profissional.
Jung, seu colega mais jovem, que estivera desenvolvendo sua própria visão da
psique, adotou uma postura platônica para a abordagem aristotélica de Freud.
Jung notou que, embora a mente tenha seus impulsos primitivos, está também
sujeita a uma influência mais profunda, vinda dos níveis mais altos do inconsciente.
Desse modo, o ego da psique inferior foi separado do si-mesmo que supervisiona o
processo de desenvolvimento descrito em textos e mitos espirituais.
Existe hoje em dia, no Ocidente, um grande interesse pelo esotérico.
Isso levou muita gente a reconhecer que a psicologia é um pré-requisito necessário
antes de se passar para o estudo do Espírito e do Divino.
É aqui que a psicologia e o esotérico podem encontrar-se, adaptar-se mutuamente
e dar origem a uma alquimia para a nossa época.
Antes que isso possa acontecer, porém, temos que considerar a idéia da revelação
como fonte de conhecimento.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 2

Revelação
De um certo modo, a história da cabala não tem importância, pois o seu
ensinamento essencial tem sido sempre o mesmo através dos séculos.
Apenas a forma deste ensinamento mudou com o tempo.
O conteúdo da Torá, tal como é tradicionalmente chamada, diz respeito à origem,
natureza e propósito do Universo, o lugar do homem em um processo Divino pelo
qual Deus contempla Deus no reflexo da Existência.
Este tema é recorrente em toda a Bíblia e em todos os sistemas esotéricos que
surgiram daquele círculo de seres humanos que aprenderam a dimensão
transpessoal da realidade.
Uma determinada cultura pode encobrir ou obscurecer o ensinamento, mas a
presença deste é sentida nos rituais, nas devoções e na metafísica por todos os que
buscam um sentido para a vida, e até mesmo por aqueles que têm somente uma
apreciação supersticiosa do que se encontra sob a superfície do mundo físico.
Os gnósticos originais, ou "os que sabem", foram os que tiveram acesso direto a
um conhecimento superior.
Tal acesso pode ter sido alcançado mediante ações corretamente executadas,
oração devota ou contemplação profunda.
Pode também ter sido revelado pela instrução de alguém que sabia, por uma
experiência mística pessoal, o que é que estava além da mente comum, e
compreendia os seus níveis superiores e o seu funcionamento.
Infelizmente, como tem sido notado pelos místicos, há sempre o problema de
descrever o indescritível.
Muitos, portanto, foram obrigados a reduzir suas percepções a termos corriqueiros,
de modo a poderem passar adiante algo dessas dimensões mais refinadas e sutis.
Os acontecimentos legendários que seguem dão uma amostra dessa ordem de
realidade.
Segundo a tradição judaica, Enoch ("o iniciado"), que viveu na época mais remota
da estadia da humanidade na Terra, era bem diferente das demais pessoas de seu
tempo.
Ele não se esquecera da sua origem no Paraíso, nem se tornara absorto na carne.
Vivia em reclusão, ponderando as razões pelas quais os seres humanos tinham sido
encarnados.
Outros antes dele haviam lido o Livro de Raziel (os Segredos de Deus), que fora
dado a Adão para explicar as razões da Existência, mas Enoch queria saber por si
mesmo, de modo que vivia uma vida de intenso trabalho interior, cujo resultado foi
a sua ascensão.
Ele foi levado a uma visão das regiões superiores da Existência, e a ver como
funcionavam.
Nelas, foi-lhe mostrado o passado, o futuro e as almas dos que ainda não haviam
nascido, assim como as dos mortos.
Viu também o reino angelical do Paraíso, com a multiplicidade de formas que são os
arquétipos do mundo material, e o reino celestial dos Arcanjos que vigiam e
supervisionam os processos criativos do Universo, antes de ser levado à Presença
do Santíssimo no Mundo Primordial de pura luz.
A tradição conta que o arcanjo Gabriel disse-lhe então: "Enoch, não temas. Vem
comigo e ergue-te diante da Face do Senhor".
Mas Enoch prostrou-se frente ao Santíssimo e orou, apesar de a voz do Divino ter
dito: "Não tenhas medo. Levanta-te e fica diante da minha Face para todo o
sempre".
O Grande Miguel, então, Capitão das Hostes de Deus, levantou Enoch e, despindo-o
das suas vestimentas terrenas (sua fisicalidade), ungiu-o com Óleo Santo e
vestiu-o com tecidos celestiais — Enoch tornara-se igual às criaturas angélicas que
o rodeavam.
Foi então instruído na Torá.
Durante trinta dias e noites ele permaneceu nesse estado exaltado de consciência,
registrando tudo o que via e ouvia.
Depois disso, o Santíssimo contou-lhe segredos que nem mesmo os arcanjos
conheciam — a razão da queda de Lúcifer e da ocorrência do pecado no Éden.
Foi também informado sobre a origem de Adão, a manifestação dos Mundos e viu a
grande cortina que pende diante do Trono Celestial, cujos fios representam todas
as gerações humanas.
Após essa revelação, ele foi instruído a descer para a realidade da Terra e ensinar
essas questões até que fosse chamado a ocupar, permanentemente, o seu lugar
nos mundos superiores.
Após ter transmitido o que podia aos membros de sua família (sua escola), ele os
instruiu a passar adiante o conhecimento, sem ocultar nada daqueles que
realmente desejassem saber.
A tradição reza que ele foi então oculto por uma escuridão que o fez desaparecer
aos olhos terrenos.
Nesse momento, no mesmo mês, dia e hora do seu nascimento, ele foi levado ao
mais alto Céu.
Quando a escuridão se foi, as pessoas viram que ele "não era", como diz
a Bíblia, isto é, que havia desencarnado sem ter que passar pelo procedimento
natural de morrer e deixar um cadáver.
Enquanto os seus filhos construíam um memorial no local terreno de sua partida,
Enoch passava pelos vários estágios da ascensão, chamados pela cabala de
vestíbulos inferior e superior.
Aqui ele encontrou as hostes angélicas e arcangélicas dos Mundos de Yezirah e
Beriah, ou Formação e Criação, que não foram, no início, muito amistosos com o
intruso terrestre; é preciso entender que, até aquele momento, nenhum ser
humano alcançara o pleno potencial.
Enoch foi o primeiro, e, se não fosse pela proteção Divina, alguns anjos poderiam
ter-lhe feito mal, pois tinham inveja da posição especial do homem no esquema da
Existência.
Esse mesmo problema fora a causa da queda de Lúcifer, o mais alto dos arcanjos,
quando se recusou a reconhecer a superioridade de Adão, que era a mais perfeita
imagem do Santíssimo.
Enoch deveria ocupar o lugar deixado por Lúcifer no Sétimo Céu, o lugar mais
próximo da Face da Divindade.
Ao chegar a este nível, foi transfigurado, pelo Fogo do Mundo de Azilut, ou
Emanação, na condição humano-angélica de Metatron, que tem o título de "o que
carrega os nomes de Deus".
Como tal, Enoch tornou-se o Mestre Principal de toda a humanidade, a fonte de
todas as tradições esotéricas.
Ele era conhecido no Egito como Thoth, na Grécia como Hermes Trismegistus e na
Bíblia como Melchidezek.
Como tal, iniciou Abraão nos segredos da Existência.
Mais tarde, apareceu como Elijah, que também não tinha genitores terrenos.
Na tradição cabalística, ele surge em pontos cruciais para instruir ou ajudar pessoas
em situação difícil, quando as leis do nível terreno precisam ser contornadas em
benefício de um propósito superior.
Isso é chamado de milagroso, e pode ser observado na preservação, em
circunstâncias perigosas, de indivíduos que têm certas tarefas espirituais a cumprir.
A história de Enoch pertence a um tipo diferente de realidade.
No nível da Natureza, apenas os sentidos percebem, mas isso está confinado ao
momento sempre-presente, de modo que apenas o óbvio pode ser provado.
A psique que habita o corpo, contudo, pode ir mais além, reconhecer outros níveis
e relacionar vários fenômenos para emprestar um sentido à situação em constante
mudança, detectando ritmos e padrões não somente no mundo exterior como
também nos processos corporais e psicológicos de emoção e pensamento, e nas
memórias que têm sua origem no passado próximo ou remoto.
Este é o reino da psique, que age como uma ponte entre as dimensões exterior e
interior de um ser humano e aquela outra realidade aludida na lenda de Enoch.
Enoch representa o completo desenvolvimento de todos os níveis em um indivíduo,
do físico aos organismos psicológicos e espirituais da consciência, e o Divino
presente em cada um.
Isso leva à premissa que deve ser aceita pelo menos provisoriamente, a de que,
nas partes mais profundas da psique, existem áreas inconscientes que detêm
memórias e não apenas desta vida, como de toda a humanidade, assim como o
corpo possui um conhecimento inerente, adquirido ao longo de milhões de anos de
evolução.
A cabala leva essa noção ainda mais longe ao dizer que todo ser humano é uma
versão em miniatura do Adão primordial, que é o modelo de tudo o que existe.
Assim, cada indivíduo é como um holograma, um microcosmo do Universo inteiro.
A partir daqui, tomamos a linha platônica e começamos a traçar o grande plano da
existência segundo a cabala, de modo a adaptar algumas conclusões de tipo
aristotélico a um esquema geral, fazendo uma combinação equilibrada entre o
empírico e o místico.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 3

Origens
Como se descreve o que não tem substância ou forma?
Como podemos falar da origem de todas as coisas?
O máximo que pode ser feito, concluem os místicos de todas as tradições, é
transmitir uma aproximação do que foi, é e será.
Os cabalistas usaram de diversos expedientes para explicar como surgiu a
Existência.
Alguns empregaram o símbolo de uma noz, com miolo e casca, outros contaram
fábulas sobre como o Santíssimo queria fazer-Se conhecido, e outros ainda
construíram modelos metafísicos que, segundo seus autores, não davam mais que
a mais vaga das noções da Realidade.
Neste estudo, faremos uso de diversas opiniões sustentadas pelos cabalistas
através dos tempos, para construir uma imagem coerente para o nosso quadro de
referências.
De acordo com alguns rabinos, Deus queria contemplar Deus e assim emergiu do
En, ou Nada, um ponto do qual o Absoluto retirou-Se, permitindo desse modo o
surgimento de um lugar de não-Existência.
Então, o En Sof, ou Todo Absoluto, rodeou esse espaço com o que foi chamado de
En Sof Or, ou Luz Infinita, que penetrou da periferia do lugar de não-Existência
para o seu centro, em uma série de dez radiações.
Estes Sefirot, como foram chamados, expandiram-se em uma seqüência
instantânea, traçando uma configuração que seria o paradigma de tudo o que seria
chamado, criado, formado e feito na Existência.
Composto de pura consciência, este reinado de luz era o reflexo do Santíssimo.
Como tal, tanto revelava quanto ocultava o Absoluto em uma imagem de
Divindade.
Chamado de Olam Ha Azulit, o Mundo do que está "ao lado" desse reinado da
Emanação estava continuamente em processo de vir-a-ser, ao emanar do primeiro
Sefirah de manifestação, chamado Keter, Coroa.
Este Keter mais alto, a Coroa das Coroas, está associado ao Divino nome de EHYEH
ASHER EHYEH, ou SOU O QUE SOU, que leva em si a intenção do Absoluto de
contemplar-Se no reflexo da Existência.
A seqüência seguinte de Sefirot são os diferentes aspectos da Manifestação que se
expandem e compõem uma eterna Unidade de Atributos Divinos.
Assim, a Coroa é o ponto de Origem, enquanto os dois que seguem formam o
contrapeso ativo e passivo do Intelecto Divino.
Estes são chamados Hokhmah e Binah, ou Sabedoria e Entendimento, e,
juntamente com a Coroa, formam a Tríade Supernal que ocorre em todos os
ensinamentos esotéricos.
Nesta tríade estão os princípios de equilíbrio, expansão e contração, visto que o
fluxo Divino é produzido e mantido entre a consciência, a dinâmica e a estrutura.
Na antiga China, isso era conhecido como o Tao, Yin e Yang, e, na índia, como os
Princípios de Sattva, Rajas e Tamas.
Abaixo da Tríade Supernal está o que é chamado de não-Sefirah de Daat, que
separa os Sefirot inferiores da Construção, como são chamados, dos três
Supernais.
Nos tempos medievais, esse não-Sefirah era chamado de véu ou abismo diante da
Face de Deus, mas a moderna noção de "Buraco Negro", como os que são
encontrados entre Universos, pode dar uma idéia do seu mistério e da sua função.
Diz-se que quando o Santíssimo assim o quis, o impulso irradiado dos Supernais
cruzou o espaço escuro do Daat, que significa Conhecimento, para continuar o
processo de expansão, contração e equilíbrio no nível seguinte da Emoção Divina.
Aqui, os Sefirot de Hesed, Gevurah e Tiferet agem como o Misericordioso, o
Julgador e o Princípio da Beleza, como os aspectos expansivo, controlador e
unificador do Coração da Imagem de Deus.
O par seguinte, Hod e Nezah, continuam a seqüência como os Sefirot práticos da
Ação, e, com efeito, as Hostes de Deus são vistas emanando desses dois, cujos
nomes têm origem em plantas do hebraico que querem dizer "reverberar" e "repetir
eternamente".
Esses Sefirot de Glória e Eternidade, como são às vezes chamados, ocupam-se das
questões rotineiras das vibrações e ciclos que governam os três mundos inferiores
que emergem do Mundo Primordial de Azilut.
O par final é composto de dois Sefirot verticais e centrais, que atuam como a
fundação e a resolução do processo Divino.
Com efeito, seus nomes são Yesod, "Fundação", e Malkhut, "Reino", e contêm tudo
o que foi vertido no fluxo do Raio de Luz da Coroa.
Yesod pode ser entendido como o lugar onde a imagem pode ver sua própria
imagem, assim como o ego da psique pode ter uma visão de si mesmo.
Malkhut é o receptáculo de tudo o que foi outrora chamado de Corpo do Divino.
A complexidade e a sutileza dos Sefirot aumentam ainda mais com aqueles que são
conhecidos como os 22 caminhos entre os Atributos Divinos, relações específicas
que ligam os três pilares daquilo que é chamado por alguns de "Árvore da Vida",
em uma simetria que contém todas as Leis da Existência.
O candelabro de sete braços, ou Menorah, no Tabernáculo e no Templo, é uma
visão primitiva da Árvore, com seus dois lados, coluna central, seis braços com
suas quatro junções e 22 adornos.
Essa era a base do diagrama da Árvore da Vida, usada pelos círculos rabínicos na
Espanha medieval,
Os primeiros cabalistas não viam este primeiro Mundo apenas sob a forma de uma
Arvore ou candelabro, mas também como a imagem de um ser humano, que é o
mais completo reflexo do Divino.
Essa imagem de Adam Kadmon, ou Homem Primordial, foi a síntese dos Sefirot, ao
expressar a sua unidade, função e raio de ação nos membros, tronco e cabeça,
assim como os vários níveis Divinos de pensamento, emoção e ação.
Acima de tudo, via-se que essa imagem humana possuía uma consciência capaz de
refletir sobre si mesma, realizando desse modo a vontade de Deus de contemplar
Deus na constatação de Adão de Quem fitava Quem.
Este era o propósito da Existência.
Neste ponto da Manifestação, contudo, Adão estava ciente apenas da unidade do
Mundo Primordial; não havia diferenciação ou experiência de existir: era a inocência
completa.
Tal estado significava que não havia conhecimento, não havia conhecer nem ser
conhecido.
Tudo não era senão potencial.
Se a situação continuasse assim, a imagem Divina não teria podido conscientizar-se
de ser um reflexo, e não poderia haver constatação de Quem era Quem.
Os mundos inferiores foram criados, formados e feitos para que Adam Kadmon
fosse a eles e voltasse em consciência do que foi, é e será.
Nesse processo de experiência através de todos os níveis da realidade, SOU O QUE
SOU contempla-SE nas reflexões de Adão.
O diagrama cabalístico da Escada de Jacó descreve os quatro mundos
interpenetrantes que compõem a plena extensão da Existência.
Isso é a Santa Firma, ou o fundamento do nosso esquema.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 4

A escada de Jacó
O primeiro dos três mundos inferiores a emergir do reinado do Mundo Primordial é
chamado de Beriah, o Mundo da Criação.
Ergue-se do meio de Azilut, de modo que a face ou metade inferior da Emanação
está oculta atrás da face superior da Criação.
Assim, há lugares em que os Sefirot do mundo superior correspondem aos Sefirot
do mundo inferior, em uma interpenetração de diferentes realidades.
Este princípio vale para todos os mundos subseqüentes, e permite a sua interação,
assim como ar dissolvendo-se na água, ou a água evaporando-se no ar.
Mais adiante, veremos de que maneira tais pontos de junção entre níveis são
cruciais na experiência e no desenvolvimento.
A Coroa da Criação ergue-se do Divino Sefirah da Beleza, que é também chamado
de lugar de YAHVEH ELOHIM, o Criador.
Este Keter Beriático, embora seja um eco do Keter de Azulit, tem uma qualidade
bem diferente, por marcar o início do tempo e do espaço.
A Bíblia fala dos sete dias da Criação, que descrevem as fases do desdobramento
cósmico, à medida que os Sefirot vão criando um universo segundo o modelo do
Mundo Divino que está acima deles.
Tal Mundo é de uma ordem inferior, de uma natureza mais densa e complexa, pois
as leis de Azilut e de Beriah combinam-se e interagem.
Em uma dimensão a um passo da própria origem, as "coisas" começam a aparecer
e a mover-se, pois, tendo emergido do Eterno Mundo da Unidade, a potencialidade
pode começar a diferenciar-se em localização e duração, e assim são separados os
firmamentos de cima e de baixo; a terra aparece, e emergem as plantas e os
corpos celestiais que marcam as estações.
Pássaros, peixes e animais surgem, e, finalmente, o Adão Beriático, a imagem
espiritual da Divindade, é criado.
Este é o Mundo Cósmico das Idéias — o lugar onde a essência de tudo o que será
ergue-se no Universo, como pensamentos na mente de Deus.
Daquilo que é tradicionalmente chamado de Trono do Céu, no qual está sentado o
Divino Adão de Azilut, emerge o terceiro mundo de Yezirah, ou Formação.
Este ergue-se do meio de Beriah, de modo que o seu Keter corresponde ao Tiferet
da Criação e ao Malkhut de Azilut.
É neste ponto que os três reinados superiores se encontram.
A qualidade de Yezirah é como a da água; Beriah é ligado ao ar e Azilut ao fogo.
Este simbolismo dá uma idéia do caráter dos três mundos.
O fogo irradia, o ar move-se e a água toma diferentes formas, enquanto a terra
representa a qualidade tangível do mais baixo e mais sólido dos mundos.
A zona fluida de Yezirah está na posição de intermediária entre o físico, o espiritual
e o Divino.
É também considerado como o nível emocional da Existência, enquanto Beriah é o
intelectual e Azilut o nível de pura consciência.
A qualidade de Yezirah é apreendida nas várias descrições do Paraíso e de todas as
formas e tamanhos, cores, sons e visões que nele podem ser experimentados.
É em Yezirah que as idéias criativas de Beriah e a Vontade de Azilut manifestam-se
em forma, quando as leis dos níveis superiores se combinam e interagem.
Este mundo tem um especial interesse para o nosso estudo, por ser o habitat da
psique e de todos os arquétipos, ou deuses, anjos e demônios, como os chamavam
os antigos.
O mundo mais baixo na Escada de Jacó é chamado de Assyah, ou Mundo da Ação e
dos elementos.
É nele que o influxo combinado de tudo o que ocorre nos mundos acima manifesta-
se na transitória realidade de cada momento do concreto; os estados dos sólidos,
líquidos, gases e radiações são o resultado de tudo o que aconteceu nos mundos
superiores.
Um exemplo disso é o efeito do Sol sobre a atmosfera, cujos ventos revolvem o
Oceano e precipitam a chuva sobre a terra.
Idéias Beriáticas e idéias Yeziráticas produzem as forças que fazem os minerais, e
as plantas e animais surgem do mundo elementar de Assyah.
A ciência moderna vê a materialidade como o fundamento, composto de ondas-
partículas, da existência física, mas não vê as origens dessa materialidade.
Tudo o que observamos com os sentidos é feito de uma vasta e sutil combinação
dos quatro mundos concentrados no espectro material.
A cabala vê a interação dos Mundos como os processos gêmeos da Descensão e da
Ascensão, ou Criação e Evolução.
A Vontade do Absoluto é implementada no impulso descendente da consciência
através dos Mundos, para alcançar a sua máxima extensão na densidade da
materialidade.
Aqui, ela se dá volta e começa a refletir-se, em estágios cada vez mais altos de
consciência, nos metais, minerais, plantas primitivas e avançadas e animais
inferiores e superiores.
Estes, por sua vez, são somados à consciência mais ampla da Natureza, na medida
em que esta refina e acrescenta níveis mais inteligentes às suas espécies, o que
acaba por aumentar a capacidade da Terra e subseqüentemente do Sistema Solar.
A noção de que os sóis e planetas são seres vivos é antiga, e, ao observar as
características celestes, os cientistas têm notado a sua semelhança com seres
vivos.
Por exemplo, o ritmo eletromagnético de 11 a 22 anos do Sol foi visto como o pulso
do Sistema Solar, que é como uma célula no corpo da Via Láctea, o qual, por sua
vez, tem as qualidades de uma criatura nas margens cósmicas de um oceano
superior da realidade.
O conceito esotérico de "embaixo tal qual em cima" pode ser observado no
microcosmo do corpo e no macrocosmo da Terra.
Ambos têm enormes populações de criaturas, cada uma desempenhando a sua
tarefa em uma cadeia ecológica, como intestinos ou como rios, ou os pulmões e as
florestas que respiram para o corpo e para o planeta.
Se essa lei é válida, então é certo especular, caso não se tenha tido experiência
direta, que também há criaturas que habitam os mundos superiores.
A lógica sensual negará tal possibilidade, mas também é verdade que essa mesma
faculdade da (chamada) razão pensou que a Terra era plana durante milênios, e
não acreditou nas bactérias até vê-las em um microscópio.
Até o século XVIII, a realidade das entidades não-físicas era aceita no Ocidente,
mas com a Idade da Razão a presença delas foi negada, suprimida ou racionalizada
como fenômeno subjetivo.
Alguns psicólogos modernos, no entanto, começaram a reconhecer que nem tudo o
que encontram é produto do inconsciente.
Uns poucos chegam a reconhecer a intrusão e a interferência dos reinados
invisíveis.
Isso abre uma porta que, durante séculos, esteve fechada para o estudo da
psicologia.
Segundo a tradição cabalística, há diversos níveis de seres.
Alguns, por exemplo, são responsáveis por vastas operações, tais como o
desenvolvimento galáctico; são os grandes espíritos ou arcanjos.
Outros, de uma ordem inferior, atuam como intermediários, cumprindo tarefas
específicas, como vigiar planetas ou espécies de plantas ou animais.
Outros ainda estão envolvidos com questões mais rotineiras, tais como os ciclos do
clima ou a manutenção de áreas específicas como lagos ou montanhas.
Eram estes os velhos deuses da natureza, ou os devas da tradição indiana.
Na cabala, os seres angélicos ou demoníacos são muitas vezes definidos com
relação à Árvore Sefirótica.
Alguns, como por exemplo os que são responsáveis pelas doenças ou pelas
migrações, trabalham em pilares opostos, um deles estimulando o processo de
expansão, enquanto o outro tem a função de conter, de tal maneira que se alcança
um equilíbrio.
Outros seres, entretanto, podem operar no modo vertical, um em cima e outro
embaixo, levando a cabo uma operação de fluxo recíproco, como por exemplo o
processo anual de manifestação, na primavera, e dissolução, no outono, à medida
que as estações trocam de hemisfério.
Estas criaturas, assim como aquelas dos mares e das selvas terrestres, são parte
de uma ecologia celestial, que mantém um campo de consciência no nível delas,
assim como um grupo de gaivotas expressa a mente da Grande Gaivota que reside
no Mundo da Criação.
Esses seres angélicos e demoníacos são os arquétipos da dinâmica, estrutura e
manutenção.
Nos mundos de Beriah e Yezirah, eles existem por direito próprio, e devem ser
considerados do mesmo modo que a flora e a fauna do mundo físico, pois, em seus
domínios, são bastante reais e poderosos.
A existência de toda uma hierarquia de seres nos mundos superiores é aceita pela
maioria das tradições espirituais, embora possam considerá-la sob diferentes
formas culturais.
Na cabala, essas hostes são vistas nos termos da Escada de Jacó, onde cada ordem
está limitada a um nível específico, do mesmo modo como a baleia e o verme estão
confinados aos seus habitats.
A raça humana, no entanto, é considerada única, devido ao fato de, por ter tido a
sua origem em Azilut, não estar limitada a nenhum mundo em particular.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 5

Seres humanos
Os seres humanos são diferentes de todas as demais criaturas existentes, porque
vêm do Mundo da Emanação, e não do da Criação.
Enquanto na Bíblia é dito que Adão foi criado no sexto dia, deve ser lembrado que,
segundo a cabala, Adão Kadmon existia antes da Criação.
A aparição de um Adão espiritual em Beriah é outra maneira de apresentar a idéia
da imagem Divina no nível seguinte e inferior.
Como tal, o Adão Beriático representa, por ter sido o último a ser criado, a imagem
da perfeição espiritual.
Lúcifer, o arcanjo mais alto, não pôde aceitar isso, e caiu.
O lugar dele, como foi dito, foi ocupado depois por Enoch, o primeiro ser humano a
retornar da descida à matéria, e a transfigurar a sua experiência de todos os
mundos em auto realização, tornando-se Metatron.
Enoch-Metatron marca o início de um vasto processo mediante o qual Adão
Kadmon é transformado, pela humanidade, de um estado de inocência ao estado
de experiência.
A tradição diz que, quando o último ser humano houver nascido e começado o seu
ciclo de iluminação, o Messias, o mais perfeito da humanidade encarnada, vai-se
manifestar na Terra para todos, pois Adão Kadmon estará próximo da consciência
plena.
Estes últimos dias do Fim dos Tempos ainda estão muito distantes, segundo o que
nos dizem.
Enquanto isso, a humanidade deve continuar o processo de desenvolvimento
individual e coletivo, abrindo o seu caminho por entre a sina e o destino.
Todos os seres humanos, segundo alguns rabinos, começam a existência como
centelhas na imagem radiante de Adão Kadmon.
Outros vão mais além e dizem que pessoas diferentes provêm de partes específicas
da anatomia de Adão; uns têm origem nos braços ou nas pernas, enquanto outros
vêm da cabeça ou de órgãos como o fígado ou o olho.
Esse é um modo simbólico de definir a qualidade e a tarefa especial do destino do
átomo humano do Divino.
Assim, há aqueles que se ocupam da ação, e outros que operam primariamente
pela emoção ou pelo intelecto.
Cada um de nós tem sua origem em uma célula específica do corpo de Adão, e leva
a cabo a tarefa daquela unidade em particular, em relação a um sistema específico
no seio da organização da Árvore Sefirótica.
Alguns rabinos dizem que há centelhas boas, más e comuns.
Isto é, aqueles que se inclinam fortemente para o progresso ou para a regressão,
enquanto os mais comuns dedicam-se aos processos rotineiros da Existência.
Neste ponto, é necessário fazer uma cuidadosa discriminação.

Por exemplo, o simbolismo de se ter origem na linha de Caim, em oposição a Abel


(os dois filhos de Adão), quer dizer que, na cadeia de vidas de uma pessoa, está
expresso mais o modo justo que o misericordioso.
Os antigos gregos tinham a noção de homens comuns e homens incomuns, isto é,
aqueles que têm um propósito especial e aqueles que levam a cabo as tarefas
gerais.
Originalmente, o sistema de castas indiano tinha a mesma idéia nos privilégios e
obrigações de cada nível; os mais altos e mais avançados tinham a maior
responsabilidade.
A divisão entre Altos Sacerdotes, Sacerdotes, Levitas e Israelitas tem, na Bíblia, a
mesma conotação.
A tradição cabalística descreve como essas centelhas ou átomos do Mundo da Luz
são enviados para baixo, para a Criação, a fim de participar de um vasto ciclo de
auto realização.
Uma amostra desse processo é a imagem de um ser humano saindo de Azilut e
entrando no Sétimo Céu com o grito de "EU SOU" ao ingressar no Universo
espiritual.
Aqui, a energia é somada à consciência, e a primeira distinção ocorre quando o
fóton de Divindade percebe que está em movimento no tempo e no espaço.
O contraste entre essa dimensão cósmica e a Eternidade deve ser enorme, e muitos
tentam regressar à Radiação de onde vieram.
A velocidade e a densidade da Criação, porém, somadas ao impulso que lhes deu
origem, leva-os para baixo através de todos os Sete Níveis da Espiritualidade, até
um lugar chamado Tesouro das Almas, que está situado abaixo do Trono do Céu.
Essa é uma maneira simbólica de dizer que saíram de Beriah e estão revestidos de
uma forma no reinado de Yezirah.
Aí, dizem os cabalistas, esperam até nascer, visto que parece haver uma seqüência
definida de chegada e saída entre os mundos superior e inferior da fisicalidade.
Ninguém é deslocado sem razão, pois isto iria chocar-se com todo o esquema da
Existência, que está fundamentado em leis que regem uma progressão ordenada.
Assim como a construção de um prédio, ou a gestação de uma criança, cada fase
deve proceder de acordo com um plano que permita que tanto o geral como o
particular surjam no lugar e no momento certos.
Desse modo, a centelha individual percebe a descida ao espírito, corpo e psique
como um evento muito pessoal, mas na verdade ela está coordenada com outras
centelhas.
Estas podem vir da mesma raiz, para agirem em apoio daquela, ou podem estar
fadadas a opor ou facilitar o desenvolvimento daquela entidade humana específica.
A Pargod, grande cortina que Enoch viu diante do Trono do Céu, traz em si o
grande plano do destino humano.
Do mesmo modo como os fios se entrelaçam em um tecido, um espírito humano
tece o seu destino cósmico através de muitas sinas.
Algumas dessas configurações são complexas e suscitam numerosos encontros,
enquanto outras podem ter apenas poucas, mas profundas, conexões, que ajudam
os indivíduos a unirem os seus potenciais e terem um grande papel na Existência.
Segundo alguns, no princípio do atual Grande Ciclo, ou Shemitah, somente uns
poucos seres humanos estavam encarnados na face da Terra.
Esses poucos propagaram-se e morreram, isto é, voltaram aos mundos superiores
antes de nascerem novamente como netos ou bisnetos de seus filhos.
Assim, a população humana do planeta cresceu em número e experiência, até que
houvesse, possivelmente, mais pessoas vivendo em corpo do que em Beriah ou
Yezirah.
A tradição afirma que há um número determinado (II Esdras, 4.36).
Espera-se que a explosão populacional vá se nivelar.
Na medida em que as pessoas vêm e vão, o fluxo e o refluxo dos vivos e dos
mortos estabelece um ritmo de gerações que influencia a história de acordo com o
carma individual e coletivo.
Dessa maneira, o infame holocausto da Segunda Grande Guerra, por exemplo,
serviu o seu propósito cósmico e individual ao dar origem ao Estado de Israel.
Muitos dos que morreram nas câmaras de gás, tem-se dito, renasceram naquele
país com a funda convicção de "nunca mais", pois a memória inconsciente
individual e coletiva de uma outra vida transforma a atual geração de israelenses
em uma nação em armas.
Ao longo dos milênios, uma rede de padrões fatais, baseada em relações cármicas
e estágios de desenvolvimento, cresceu para afetar não somente os indivíduos
como também seus grupos anímicos e associações espirituais, além de suas
estruturas sociais e culturais.
Essas conexões pessoais e coletivas são parte do organismo da humanidade, e têm
uma grande influência sobre onde os indivíduos nascem, com quem se encontram e
com quem se juntam.
Assim, a lei de recompensa e castigo determina as situações em que os indivíduos
se acham, e que lição têm que aprender antes de passar de novo pela morte e
voltar aos mundos superiores para recapitulação e repouso prévios ao
renascimento.
Esse processo é conhecido na cabala como Gilgulim, ou Rodas, e será tratado em
detalhe mais adiante, pois tem relevância direta para o estudo da psicologia.
Entretanto, antes disso temos que examinar a teoria cabalística dos Quatro Níveis e
ver como correspondem aos níveis em um ser humano.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 6

Quatro níveis
Ao abordar a composição de um ser humano desde um ponto de vista aristotélico
ou empírico, começamos por fixar a estrutura e a dinâmica do corpo.
O corpo é feito dos quatro elementos, isto é, sólidos, líquidos, gases e radiação.
Tem também quatro níveis de operação: mecânico, químico, eletrônico e de
consciência.
Nisso, vemos o eco dos quatro mundos na fisicalidade.
Em termos da Árvore, há uma interação dos pilares exteriores na estrutura e na
dinâmica, com a coluna central agindo como o eixo de consciência no organismo.
Assim, há um nível mineral de percepção em todas as operações essencialmente
físicas, uma percepção vegetativa nos processos viventes, uma percepção social e
ambiental no nível animal do corpo e uma dimensão humana, no sentido de que
uma pessoa pode estar consciente de coisas que estão além da percepção dos
sentidos.
Isso inclui a capacidade de ter consciência, uma capacidade, diz-se, que só a
humanidade possui.
Se olharmos mais detalhadamente para a Arvore do corpo, veremos que ela segue
o modelo da Árvore dos Sefirot superior, mas no nível físico da realidade.
Assim, o Malkhut do corpo contém os quatro elementos que olham para o exterior
para perceber sólidos ou líquidos pelo tato, gases pelo olfato e pela audição, e a
radiação por todos eles, especialmente pela visão.
Aqui também observamos o princípio da interpenetração dos níveis: o paladar, por
exemplo, é uma mistura de sólido e líquido, e a audição é uma combinação de
vibração gasosa e radiação.
A tríade em torno a Yesod, ou fundamento do sistema nervoso autônomo que rege
os procedimentos de rotina, é feita de músculos, que estão no lado ativo da Árvore,
e de nervos, no lado passivo ou receptivo, com a tríade horizontal de órgãos acima
processando o que chega através de Malkhut.
Além do caminho traçado entre Hod e Nezah, ou os princípios voluntário e
involuntário exemplificados pela escuta seletiva e pelo ritmo cardíaco, está a tríade
do tecido.
É nela que os elementos ingeridos passam do nível mecânico para o químico,
representado pelos processos que se ocupam em erguer a estrutura e em liberar
energia.
Essa resolução e dissolução é supervisionada pela tríade Gevurah-Tiferet-Hesed do
Metabolismo, governada pelo sistema nervoso central no eixo de rotação da Árvore
corporal.
A zona superior da Árvore corporal é composta pelas tríades laterais que controlam
os processos elétricos positivos e negativos que, por exemplo, aceleram e
desaceleram várias funções, tais como a ação muscular ou as ondas cerebrais.
A grande tríade central de Binah-Tiferet-Hokhmah contém o campo eletromagnético
do corpo, o qual inclui aquelas freqüências mais finas que não são detectadas por
máquina alguma, mas podem ser percebidas por pessoas sensíveis à aura do corpo.
Esse fenômeno não é tão misterioso quanto parece, pois a maioria das pessoas
reage a alguém com um campo áurico perturbado sentindo-o como uma atmosfera
peculiar ligada à pessoa.
Nesse esquema, Binah e Hokhmah representam a forma organizacional do corpo, e
o princípio de vida que o anima.
O Keter da Árvore corporal, no nosso esquema, corresponde simultaneamente ao
Tiferet da psique e ao Malkhut do espírito.
Aqui, vemos como os três mundos inferiores podem ser percebidos por um ser
humano.
Com isso queremos dizer que uma pessoa não apenas pode perceber através dos
sentidos como também pode estar a par das dimensões psicológica e espiritual da
realidade.
Assim como o corpo reage ao mundo físico, o organismo psicológico conhece o
Mundo da Formação e o Veículo Espiritual apreende o Mundo da Criação.
Contudo, embora a sua interação permita que as pessoas percebam as três
realidades, a maior parte delas só tem consciência da dimensão física.
Os níveis superiores estão geralmente confinados ao inconsciente, até que um
choque ou uma crise de desenvolvimento ocorra e coloque a questão do sentido da
vida.
Voltaremos a isso mais tarde.

Para ser preciso, a maioria das pessoas vive na área entre as funções físicas
inferiores e as faculdades psicológicas superiores.
Em termos da Árvore, estão desatentas aos processos autônomos do corpo abaixo
do sistema nervoso central do Tiferet e ignorantes dos eventos além do Tiferet da
psique, que operam no mesmo nível, mas em realidades diferentes.
No centro dessa interação de percepção de mundos diferentes está o lugar do Daat,
ou conhecimento do corpo, e do Yesod, ou fundamento da psique.
Neste ponto, o intercâmbio de dados físicos e psicológicos torna-se uma imagem
inteligível para o ego, que pode perceber uma dor no corpo ou um humor na
psique.
O ego, na maior parte das pessoas, é o modo principal da consciência.
O ego percebe através dos sentidos, e pode reconhecer e diferenciar os
sentimentos dos pensamentos.
Pode iniciar a ação, lembrar-se de acontecimentos passados, lidar com questões
rotineiras como guiar um automóvel, e selecionar com o que podem relacionar-se o
corpo e a psique.
Isso é possível graças a diversos fatores que iremos discutir.
Neste ponto, porém, vamos nos limitar ao traçado das linhas gerais em termos da
Arvore, de modo a construir um vocabulário básico.
As tríades em volta do ego da Árvore psicológica são compostas de ação, no lado
ativo, e de pensamento no lado passivo, com os sentimentos na tríade que
corresponde aos órgãos na Árvore física inferior.
Isso tem seu motivo, visto que há uma relação do tipo "embaixo tal qual em cima"
entre as tríades de uma Árvore e outra.
Desse modo, os sentimentos estão associados a órgãos como o estômago e o
coração, enquanto o pensamento está relacionado aos sistemas de nervos, e a ação
à tríade dos músculos.
Tais correspondências são relevantes para a interação do corpo com a psique, seja
através do sentimento precipitando o pensamento e depois a ação, seja por
qualquer outra combinação.
É nisso que se encontra o mecanismo das desordens psicossomáticas, quando a
psique e o corpo ressoam nas duas Arvores.
Acima da linha limítrofe estendida entre o Hod e o Nezah da psique, que
representam os processos voluntário e involuntário da mente, está a tríade do
Despertar, onde os dados colhidos por Hod e o poder de Nezah entram em contato
com o si-mesmo do Tiferet psicológico.
É neste ponto que a consciência é elevada e a pessoa torna-se consciente de ser
consciente.
Tudo fica claro, e uma lucidez se apresenta para perceber a parte inferior da
psique, especialmente o ego, com bastante objetividade.
Tal evento pode ocorrer em um momento dramático, ou quando se está
particularmente em paz.
Tem a qualidade de fazer ver o corpo e o mundo físico desde outro lugar, e é
exatamente isso que acontece, pois o centro de gravidade consciente da pessoa
transfere-se do ego sensualmente orientado para o reinado de Yezirah, quando
visto do Tiferet do si-mesmo.
A partir deste ponto, o inconsciente pode vir à consciência, pois subitamente os
impulsos e bloqueios da memória, que não são reconhecidos normalmente, saltam
à vista, quando as tríades laterais dos complexos emocional e conceituai podem
revelar seus conteúdos.
Estes, como veremos no diagrama, estão divididos em ativo e passivo, isto é, nas
experiências intelectual e emocional que formam os aspectos dinâmicos e
estruturais da psique.
Um exemplo de um complexo passivo pode ser visto em certas disciplinas que se
aprendem quando criança, tais como não expressar as próprias emoções ou
sustentar firmemente certos valores.
Um complexo ativo pode tomar a forma de um jeito para a música ou um ideal
político.
A tríade anímica da psique define a zona do livre-arbítrio.
Todas as demais tríades desempenham tarefas importantes, mas, mesmo assim,
estão sujeitas a leis definidas.
O corpo deve obedecê-las ou morrer, e a maior parte da psique é inconsciente, e
portanto inacessível à escolha.
Somente quando uma pessoa está centrada no si-mesmo, ainda que seja só por um
instante, é que ela pode alterar os padrões de sua vida.
Isto se dá porque a tríade anímica, como veremos, não faz parte do mundo inferior
da Natureza ou do reinado superior do Espírito; ela é bastante independente dos
dois, embora tenha a conexão Tiferet com o Keter do corpo e com o Malkhut do
Espírito.
O Si-Mesmo é o lugar onde os três mundos inferiores se encontram na psique.
A tríade Binah-Hokhmah-Tiferet é uma combinação da parte superior do Yezirah
com a parte inferior do Beriah.
É nela que o indivíduo se relaciona com a dimensão espiritual.
Desse modo, nas profundezas do inconsciente, há uma conexão com o Mundo da
Criação transpessoal.
Esse aspecto cósmico revela a relação do individual com o universal.
Aqui, a centelha Divina impelida através do espaço e do tempo é contida pelo
Espírito que anima a psique que vive em um corpo físico.
Assim, o momento e o lugar em que nascemos não é acidental, como tampouco o é
a forma de nossa sina, a qual está sujeita a leis tão severas quanto as que
governam o corpo, dando-lhe características próprias e limites.
Isso acontece porque, de acordo com a tradição cabalística, a Divindade olha por
cada um de nós mediante a Divina conexão no Keter da psique, onde os três
mundos superiores se encontram no Tiferet do Beriah e no Malkhut de Azilut.
Como dizem os sufis, "Deus está mais perto de nós do que nós mesmos".
Com isto, completamos o esquema geral da Árvore psicológica.
Maiores detalhes serão examinados mais adiante.

Cada um de nós é a imagem de Adão Kadmon.


Dentro de cada ser humano estão, em miniatura, todos os níveis da Emanação,
Criação, Formação e Ação.
Fomos chamados do Absoluto para um propósito definido, e foram-nos dados
quatro veículos que nos permitem operar em todos os mundos.
Após termos delineado o nosso quadro de referência, passemos a examinar o tema
da reencarnação, que tem uma profunda influência sobre a psicologia de um
indivíduo.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 7

Transmigração
A noção de reencarnação é comum a muitas culturas, e conhecida desde tempos
remotos.
O fato de ter sido extra-oficialmente declarada como uma heresia pelo Segundo
Concílio Cristão de Constantinopla em 553 e de não ter lugar na doutrina islâmica
não a invalida.
Ela era amplamente aceita no Oriente, e pelos druidas celtas no Ocidente.
Platão a reconhecia, assim como os gnósticos e os essênios.
O estudioso cristão dos primeiros tempos, Orígenes, observava que ela era a única
explicação para certas escrituras, e muitos outros pensadores concluíram que ela
era a razão pela qual algumas pessoas têm vidas afortunadas ou desafortunadas,
independentemente de suas boas ou más ações.
O fundamento lógico disto era que a reencarnação era vista como a correção do
equilíbrio pessoal e universal, que se consumava ao longo de uma seqüência
contínua de vidas que ajustava cada sina de acordo com o mérito.
Deste processo emergiam as lições a serem aprendidas sobre as leis da Existência e
sobre o propósito do destino daquela pessoa em particular.
Existem provas abundantes de pessoas que se lembram de vidas passadas.
Algumas dessas lembranças dão-se na forma de vagas sensações a respeito de um
certo lugar ou período, outras são precisas e distintas.
Um certo general americano, por exemplo, fez com que o seu motorista o levasse
para longe dos caminhos habituais, durante uma campanha no Norte da Africa,
para rever um antigo campo de batalha.
Quando lhe foi perguntado como é que sabia a respeito, respondeu que havia
estado lá na época.
Continuou dizendo que havia sido um soldado em todas as suas vidas anteriores ao
longo dos séculos.
Em outro caso, uma criança na Índia declarou que era de outra aldeia no norte
distante, e que havia sido assassinada pela esposa e pelo amante dela, e enterrada
em um lugar específico.
Pesquisas ulteriores revelaram que os nomes da aldeia e do homem eram reais, e
que este fora realmente assassinado da maneira descrita.
Tem-se argumentado que histórias e fatos podem ter sido ouvidos de diversas
maneiras, ou serem material absorvido inconscientemente, mas, se por um lado
isso realmente ocorre, por outro lado o volume de fatos que não poderiam ser do
conhecimento da pessoa que se está lembrando de uma vida passada é grande.
Um exemplo é o da mulher que se lembrava de uma velha cripta em uma certa
igreja, que foi descoberta mais tarde, durante reformas no prédio da igreja.
Mais recentemente, os pesquisadores têm estado coletando lembranças de vidas
passadas de um modo mais metódico, usando a técnica de regressão hipnótica.
Com esse método, a pessoa é levada para antes do nascimento em uma zona da
memória que, em alguns casos, conserva imagens de extraordinária clareza.
Para muitos, o momento da morte é ainda muito real.
Uma pessoa, por exemplo, lembrou-se claramente de estar caindo de um mastro
de bandeira em um mercado do antigo Iraque, quando tinha quarenta anos.
Outra recordou estar morrendo de um tumor intestinal na Inglaterra do século XI, e
outra ainda de ter morrido de velhice no século XVI, na Normandia, após uma dura
vida como soldado.
Algumas pessoas lembram-se das vidas passadas sem ter que ser hipnotizadas.
Um indivíduo reconheceu as ruas de uma velha cidade no momento em que chegou
a ela, e outro tinha uma vaga lembrança de estar sob as ruínas de uma casa à qual
os cossacos estavam pondo fogo.
Tal como se poderia esperar, os aspectos corriqueiros de uma vida são esquecidos,
ou, melhor, são misturados para formar um sentimento mais geral, enquanto os
momentos mais dramáticos cavam sulcos profundos na memória.
Isso sugere que a psique, ou pelo menos parte dela, sobrevive à morte física e
continua a reter a experiência ao longo do período pós morte, até a próxima vida.
Um pesquisador, usando o método regressivo, explorou uma seqüência de quatorze
vidas de uma mesma pessoa.
Primeiramente, o homem foi levado a um estado de consciência que o separou de
seu corpo físico.
Quando isso ocorre, os processos da psique são libertados das restrições práticas,
como nos sonhos.
A atenção foi então focalizada pelo hipnotista, mediante uma série de perguntas
aproximativas, que exploram o tempo e o lugar.
O resultado foi um quadro de uma série de períodos históricos vividos, desde o
século XX a.C. até os nossos dias.
Os detalhes sobre as condições de alguns períodos são notáveis, tais como
vestuário e os costumes.
Algumas vezes a pessoa tinha um alto cargo, outras estava em uma posição
humilde.
Em uma das vidas, estava preocupado com a jovem esposa moribunda; em outra
ligou-se pelo casamento a uma família rica, e em outra ainda tinha vivido no
Líbano, e desfrutara do fato de ser um mercador rico que estudava com o sábio
local.
Mais tarde, encontrou-se na Grécia em uma relação homossexual com um romano,
e em outra época em uma aldeia da América Central por volta de 1300 a.C.
Durante essas vidas e outras, ele foi algumas vezes homem e algumas mulher (foi
notada pelo pesquisador uma tendência predominante a ser homem ou mulher no
padrão de uma pessoa).
O paciente dessa experiência vivera em Portugal como mulher, e como homem na
Itália, onde não se dava bem com seus vizinhos aristocráticos.
Mais tarde, ele foi uma moça galesa que morreu no parto depois de um
relacionamento com um marinheiro espanhol.
Ele podia ainda sentir a culpa e a vergonha devida a esse incidente.
Tais memórias, como a de seu apego a uma certa colher de pau quando viveu
como camponês na França, deixaram marcas profundas, assim como os seus
sentimentos a respeito dos problemas causados pelas colônias americanas aos seus
negócios quando era um comerciante inglês de la no século XVIII.
Desde um ponto de vista cabalístico, tudo isso é perfeitamente factível.
O veículo Yezirático da psique é, em princípio, exatamente como o corpo, mas em
uma realidade diferente — isto é, assim como o organismo físico pode armazenar a
experiência de uma única vida e da evolução nas suas habilidades e nos seus
instintos, a psique pode tanto reter memórias antigas como relembrar os
acontecimentos da vida presente.
A psique é tão sutil e complexa quanto o corpo, e, na verdade, processa os
pensamentos, sentimentos e ações da mesma maneira que o corpo processa os
quatro elementos.
Os sonhos, por exemplo, são parte do sistema digestivo da psique.
As memórias mais profundas, contudo, tal como a gordura ou o álcool, estão
enterradas nos recônditos inconscientes da psique, para emergirem somente em
situações especiais, que libertam o que está incrustrado.
Tais acontecimentos ocorrem durante a análise ou certos exercícios cabalísticos.
Na maioria das análises, o analisando regressa apenas ao momento do nascimento,
embora alguns vão mais além, até a situação pré-natal.
A implicação disso é que aquilo com que se nasce é bem mais do que uma tipologia
genética.
A cabala leva em consideração esse ponto de vista mais amplo.
De acordo com a tradição, o processo do Gilgulim é um "giro" de vidas.
Ele é também chamado de Ha'atakah, ou "transferência".
Geralmente denominado como "transmigração", o conceito apareceu primeiramente
apenas no século XIII, entre os cabalistas do sul da França, após ter sido
combatido pelas escolas mais convencionais do Iraque.
Isso não é incomum, visto que os acadêmicos nunca aceitam o que não podem
provar.
O argumento do dejà vu, ou "já visto", como uma aberração da memória, é o que
se usa com maior freqüência para refutar as memórias de "reação tardia", mas as
memórias de vidas anteriores têm uma importância muito maior do que essa
conclusão baseada nos sentidos.
Segundo a cabala, todos os seres humanos têm origem em diferentes partes de
Adão Kadmon.
Isso dá a cada um de nós qualidade e tendência específicas, de modo que podemos
estar solidariamente inclinados para este ou aquele Sefirah, tríade ou pilar.
Mais ainda, a tradição afirma que os indivíduos descem ao mundo físico em grupos
de um tipo semelhante que permanecem ligados nos níveis mais altos quando
passam através dos mundos inferiores para encarnar de tempos em tempos e levar
a cabo as suas tarefas individuais.
Livros foram escritos sobre esses grupos, sobre as relações entre eles e suas
identidades e destinos coletivos ao longo de uma seqüência de vidas.
Os mais óbvios foram identificados pelos cabalistas em diferentes papéis históricos.
Por exemplo, considera-se que o patriarca Jacó retornou como Mordecai no Livro de
Ester, enquanto o rabino Isaac Luria, do século XVI, era considerado uma
reencarnação do grande místico rabino Simeon ben Yohai da época dos romanos
A transmigração é vista, em alguns casos, como uma punição corretiva por
discrepâncias em uma vida passada, e, em outros, como a continuação de um
processo de aperfeiçoamento.
Entre alguns cabalistas, era considerado um privilégio ser reencarnado para,
através da própria experiência, ajudar o Santíssimo a levar Adão Kadmon à plena
realização.
Vemos aqui a apreciação dos níveis, pois diferentes estágios do desenvolvimento
humano têm necessidades e situações diferentes para poder progredir.
Algumas pessoas precisam de condições fáceis após um momento difícil, enquanto
outras têm necessidade do contrário.
Certos indivíduos devem sofrer por causa de má-conduta em uma vida anterior, e
outros passam pela mesma experiência para poder ajudá-los.
Muitos indivíduos bons têm que agüentar pessoas muito ruins para tirá-las de uma
fossa cármica.
Em hebraico, esse processo é muitas vezes chamado de Ibbu, e serve para
indivíduos encarnados ou desencarnados que cumprem tais tarefas.
Todas essas possibilidades sugerem uma situação complexa.
Cada vida humana tem sua raiz Divina, o seu nível espiritual e o seu carma
psicológico que são a parte oculta do iceberg da vida corrente.
A razão, dizem-nos, pela qual tão poucas pessoas têm lembranças de vidas
anteriores é porque hoje é onde vivemos e temos o nosso ser.
Nossas vidas passadas, como ontem ou o ano passado, são o pano de fundo do
presente; pois, como disse um grande cabalista, "Basta ao dia o mal que nele
está".
Na verdade, o momento "agora" é o único momento e lugar sobre os quais
podemos agir.
A encarnação é necessária porque, fora da carne, não temos o poder de afetar
todos os mundos e de fazer a nossa contribuição para a educação de Adão Kadmon
mediante uma série de sinas que compõem a cadeia do nosso destino.
As transmigrações são parte de um grande projeto, mas são cuidadosamente
planejadas para dar ao indivíduo a máxima possibilidade de desenvolvimento.
É este o fator pré-natal em qualquer psicologia esotérica.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 8

Sina e Destino
No momento em que a pessoa nasce, isto é, quando respira pela primeira vez e é
separada da mãe, ela está sujeita às Leis da Natureza.
Isso acontece porque o corpo físico, no nascimento, finalmente manifesta-se no
Malkhut do Assyah, o mais baixo dos quatro mundos, após ter passado pela
seqüência descendente da gestação.
Tendo produzido o veículo físico, que permite que a entidade que o habita exista no
mundo natural, o processo então reverte-se e começa a retornar da materialidade
do corpo, através dos vários estágios do crescimento, maturidade e
envelhecimento, para a morte.
A primeira fase, após a investidura do Malkhut Assyático, é Yesod, ou o estágio da
primeira infância; o próximo é Hod, ou infância, e a seguir vem Nezah, que se
relaciona com a juventude.
O Tiferet marca o ponto em que a pessoa atinge a sua plenitude física, enquanto os
estágios Gevurah e Hesed correspondem ao começo e ao final da meia-idade.
O Daat traz a fase em que se começa a pensar sobre a morte, ao chegarem os
primeiros sintomas da mortalidade.
O período Binah é o início da velhice, e o Hokmah, ou a época do fim da velhice,
chega antes que o indivíduo alcance o Kêter e morra, deixando a Árvore do corpo
para dissolver-se novamente nos seus elementos Assyáticos.

Os estágios Sefiróticos da vida ecoam as idades planetárias da antiga arte da


astrologia, que muitos cabalistas vêem como o estudo da influência do mundo
Yezirático sobre a psique.
Posto que, claramente, há um conjunto de princípios universais em ação tanto no
corpo como na psique, considerava-se que o horóscopo levantado no momento do
nascimento possuía a chave de cada sina, por serem as suas relações fixadas
quando a pessoa respira pela primeira vez.
Isso leva à idéia de que a sina é o padrão final de uma vida, quando um indivíduo
em particular, com um dado carma e em um dado meio ambiente, passa pelas
várias fases do desenvolvimento físico e psicológico.
Vista dessa maneira, a sina é uma combinação altamente complexa de fatores que
operam em diversos níveis.
É por isso que há tantas concepções diferentes dela.
Por exemplo, alguns vêem a sina apenas como aquilo que acontece ao corpo;
outros a concebem como a história da psique; outros ainda a percebem como uma
combinação de ambos, mas somente no nível do ego e do condicionamento,
enquanto outros levam em consideração unicamente a vida interior, separando-a
da realidade física.
A sina contém todos esses fatores, isto é, a situação física, os seus aspectos
psicológicos e as suas dimensões espiritual e Divina.
Poucos vêem esses fatores como uma unidade que produz as condições
exatamente adequadas para a realização de cada indivíduo em seu estágio
específico de evolução.
De maneira a podermos apreender o sentido geral da seqüência do
desenvolvimento, façamos um esquema de alguns exemplos dos estágios
planetário e Sefirótico de uma encarnação e de suas qualidades.
Uma pessoa que não tenha progredido além da fase da Terra ou Malkhut da
encarnação, por exemplo, não seria capaz de superar e de dominar os elementos, e
estaria preocupada com a segurançá física, enquanto um indivíduo na fase lunar ou
Yesódica do desenvolvimento seria infantil e egocêntrico em todas as suas relações
com o mundo.
Aqueles no estágio mercurial de Hod seriam eternos estudantes, sempre em busca
de novidades e informações, assim como aqueles na fase Nezahiana ou venusiana
freqüentemente atravessam toda a sua vida orientados pelos prazeres como se
ainda estivessem na juventude.
Os que estão no estágio solar ou da plenitude de Tiferet muitas vezes assumem
uma grande autoconfiança, a menos que o seu orgulho tenha sido abatido pelas
provas da sina, enquanto as pessoas que estão na fase marcial ou Gevurah
costumam gastar suas vidas em uma compulsão sem fim, até que aprendam a
controlar seus impulsos e possam servir a um propósito superior.
Aqueles que estão presos à fase do Hesed, jupiteriana, podem ser pessoas
excessivamente generosas que procuram comprar o amor ou o respeito, e não
poucos que tenham alcançado a fase de Daat, ou de Plutão, vivem preocupados
com a morte e com o além.
Outros, no estágio saturnino, ou de Binah, ficam velhos antes da hora,
mergulhados em profundo entendimento, ou na falta dele.
Aqueles no estágio uraniano de Hokhmah freqüentemente vivem suas vidas
segundo visões que podem ser profundas iluminações ou loucura; e aqueles
cujas sinas têm a qualidade de Keter, ou Netuno, têm nelas, muitas vezes, uma
profunda dimensão religiosa que pode ser genuína em uns e uma ilusão em outros.

Tal como veremos, cada um desses estágios tem diferentes possibilidades.


Isso é determinado por dois fatores críticos.
O primeiro é o elemento de livre-arbítrio por parte da pessoa, em resposta à
situação em que se encontra, e o segundo é o propósito da sina de um indivíduo
com relação às lições que tem que aprender sobre o seu lugar no Universo.
Os velhos rabinos costumavam dizer: "Não cai nem um pardal sem que se note nos
céus".
E também: "Não estão numerados os cabelos da tua cabeça?"
Isto equivale a dizer que tudo ocorre de acordo com o grande projeto, e que tudo é
levado em conta.
Esse conceito foi simbolizado pela cortina que pende diante do Trono do Céu, na
qual cada fio, representando o destino de um indivíduo, é feito de segmentos que
seguem a seqüência Sefirática de cima para baixo e de novo para cima.
Em muitos casos, podem-se levar muitas vidas para completar um estágio; em
outros, o processo pode avançar rapidamente no espaço de uma vida, tal como no
exemplo do Buda.
É claro que esse plano global é demasiadamente vasto para que a maioria das
pessoas possa apreendê-lo em rápidos setenta anos, mas muitos indivíduos
sentiram ou perceberam, em momentos cruciais de suas vidas, algum tipo de
sentido ou propósito para as suas existências.
Não poucos chegaram realmente a vislumbrar o que era o seu destino, e o
seguiram.
Essas pessoas são bastante diferentes do resto da humanidade, a qual, na sua
maior parte, está inconsciente de seus objetivos cósmico e pessoal, e procura
somente sobreviver e propagar-se.
Existem milhões, contudo, que desenvolveram sinas do tipo Hod ou Nezah, e
aparecem como grandes descobridores e empreendedores, ou criadores e
inovadores, enquanto pessoas avançadas que estão centradas em Tiferet agem
como líderes em todos os níveis.
Do mesmo modo, aqueles que estão no estágio Gevurah manifestam-se como
soldados profissionais ou como advogados, ou em várias outras disciplinas do
mesmo tipo, enquanto que as pessoas que cultivam o Hesed são com freqüência
vistas em comunidades religiosas ou fazendo trabalhos de caridade.
Os indivíduos que operam um poderoso Daat podem ser os profetas de sua
geração.
Pessoas de Binah bem desenvolvidas são muitas vezes encontradas dirigindo
grandes organizações, e os tipos talentosos de Hokhmah costumam surgir como
aqueles que têm idéias nos laboratórios e partidos políticos.
Os iniciados de Keter são algumas vezes encontrados nos monastérios e nos asilos,
embora sejam raramente observados na vida comum, apesar de serem eles que,
sem dúvida, dão a esta vida o seu sentido Divino.
Todos esses são tipos bem caracterizados que, é preciso dizer, podem ser bons ou
maus.
Todos os seres humanos possuem o livre-arbítrio, mas poucos preocupam-se em
usá-lo plenamente.
A maior parte das pessoas prefere escolher, e escolhe, ficar sob o poder de uma
das funções.
Isso quer dizer que são governadas por seus corpos ou por seus egos, ou são
dominadas por um dos demais Sefirot.
Muitas pessoas não chegaram além do estágio de Yesod, e desse modo são
governadas por aquilo que a sociedade lhes impõe, ao que se conformam como
crianças crescidas.
Isso pode parecer um julgamento duro, mas, quando se considera a história
humana, e como a maioria permite que suas vidas sejam dirigidas por outros, é
fácil concluir que a individualidade real e madura é, na verdade, muito rara.
O propósito de cada Sina é criar as condições para que tal individualidade possa
surgir.
Essa noção é baseada no reconhecimento de que nada ocorre na Existência sem
uma razão, e que nenhum evento é carente de significado.
Se a organização do embrião pode ocorrer em perfeita seqüência, com cada estágio
do desenvolvimento entrando exatamente no momento certo para criar, formar e
fazer com que bilhões de células se ordenem em um organismo tão complexo, não
é exorbitante pensar que o plano da sina de um indivíduo siga as mesmas leis.
Não é por acidente que a Terra está exatamente no lugar certo em relação ao Sol,
à Lua e aos planetas para ter condições de suportar a vida; e que a delicadíssima
teia da Natureza seja mantida por uma rede integrada da flora e da fauna.
Nem é estranho, do ponto de vista dos princípios universais, ver como cada vida e
morte é parte de um todo em que cada geração não passa de uma estação na
evolução geral do planeta.
No caso da humanidade, o desenvolvimento da individualidade surge dos grupos
coletivos e famílias, tribos, povos e civilizações, à medida que ascendem ao longo
de várias encarnações, à maturidade espiritual e psicológica.
Esse processo, contudo, tem que ser monitorizado, porque o livre-arbítrio e o
carma que dele resulta levam a muitos desvios da sina antes que as pessoas
possam entrar em contato com os seus grupos espirituais originais, ou encontrem a
sua alma gêmea, com a qual possam levar a cabo o seu destino ou tarefa cósmica
particulares.
Infelizmente, muitos dos que estão treinados para observar a psique estão alheios
a essas dimensões mais amplas, que requerem uma consciência de coisas que
estão além da visão normal do mundo.
Tal sensibilidade está muitas vezes oculta por razões profissionais, ou perdida sob
observações clínicas.
No entanto, nesta tentativa de relacionar a psicologia à cabala, estamos livres para
explorar tais idéias e dimensões.
Portanto, no próximo capítulo, vamos deixar de lado a percepção da realidade
baseada nos sentidos e na lógica e vamos examinar o momento da morte e o que
vem a seguir, de modo a podermos ver o que acontece antes de uma nova vida.
Dessa maneira, poderemos vislumbrar a situação da psique antes que esta seja
afetada pelo condicionamento da sua próxima encarnação.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 9

Morte
A experiência de deixar o corpo não é incomum.
Elas têm sido relatadas durante operações médicas e com pessoas que tenham
estado gravemente doentes.
A característica do fenômeno é uma sensação de separação do físico, de modo que
a pessoa se encontra por cima da mesa de operações ou de seu leito de enfermo,
olhando para o que parece ser um corpo inanimado que reconhece como seu.
Muito tem sido escrito sobre o tema, e a teoria, em termos cabalísticos, é que
ocorre uma separação temporária entre os veículos Assyático e Yezirático.
Esse desalinhamento dos dois organismos normalmente coincidentes do corpo e da
psique também pode ocorrer durante acontecimentos traumáticos tais como
acidentes ou uma crise psicológica aguda.
Geralmente, ele passa, e a consciência separada que observa desde fora do corpo
costuma voltar ou é sugada de volta à sua união coesiva quando os sentidos
recuperam as suas funções, e o princípio vital reafirma a poderosa gravidade da
Vida.
A morte ocorre quando essa separação é mantida e a conexão entre o corpo e a
psique é rompida.
Muitas experiências de quase-morte foram examinadas por investigadores
qualificados que descobriram, para sua própria surpresa, que tais incidentes são
bastante comuns, depois que, para as pessoas, tornou-se aceitável falar de tais
momentos.
Muitos desses incidentes, tais como a experiência de se deixar o corpo, são
estimulados por situações fora do normal, como, por exemplo, afogamentos, ser
ferido em batalha ou sofrer um acidente.
Quando centenas dessas experiências haviam sido examinadas, notou-se que todas
elas demonstravam uma clara série de fases, que dependiam da duração e da
profundidade da experiência.
Algumas pessoas apenas percebiam a própria consciência separada de seus corpos,
mas outras, ao alcançar um ponto de extrema dor física, viam-se subitamente
passando através do que parecia ser um túnel ou um véu escuro.
Outros ainda foram além desse estágio e chegaram até mesmo a ouvir o anúncio
da própria morte, pois ainda podiam ouvir as vozes daqueles que supostamente
estavam vivos.
Aqueles que passaram por essa fase declararam ter-se apercebido de pessoas, que
sabiam estar mortas, aproximando-se dela, e muitos sentiam uma poderosa
presença ou uma luz brilhante que falava de suas vidas.
Em muitos casos, isso acontecia rapidamente, em seqüência inversa, como se
estivessem revendo o próprio desempenho.
Todos os que alcançaram esse ponto disseram ser ele a fronteira entre a vida e a
morte, e que, por várias razões, eram trazidos de volta ao corpo, muitas vezes com
grande pesar, pois experimentavam um maravilhoso êxtase por estarem
desencarnados.
Esses relatos de desencarnação parcial encontram seu eco nas descrições dos
primeiros estágios da morte em histórias como as que se encontram no Livro dos
Mortos tibetano.
As formas culturais podem ser diferentes, mas a essência é a mesma.
O mesmo sucede com as diversas descrições, encontradas em todo o mundo, das
condições após a morte em que se encontram aqueles que perderam a conexão
permanente com seus corpos físicos.
Os registros têm sido obscurecidos por muitas superstições e distorções devidas à
ignorância, mas, apesar disso, os princípios gerais do que acontece entre a morte e
o renascimento são conhecidos pela maioria das tradições esotéricas.
O mito platônico de Er, a quem supunham morto em batalha, mas acordou durante
o próprio funeral para descrever o processo, é um exemplo clássico do uso da
alegoria para relatar os eventos dos Mundos Superiores.
Na cabala existe a vantagem do sistema metafísico da Escada de Jacó, de modo
que se possa ver precisamente o que o mito e a experiência revelam.
Considerando o momento da morte — e, segundo os rabinos, existem 903 tipos de
morte — o modo como uma pessoa morre é considerado uma indicação do que vai
acontecer com ela no Olam ha Bah, ou Mundo Por Vir, que quer dizer o próximo
mundo, ou Yezirah.
Por exemplo, um homem ou uma mulher justos morrerão suavemente, como um
cabelo sendo retirado de um copo de leite, mas uma pessoa má sofrerá grandes
dores quando a psique for arrancada do corpo, pois a resistência a enfrentar os
próprios feitos na revisão das ações de sua vida é muito forte; ou então, a pessoa
pode estar demasiadamente imersa na materialidade, e assustar-se com a
separação.
Também se diz que, quando uma pessoa morre, o grito dela ecoa
por todos os Mundos, assim como o de um recém-nascido.
Esse é um símbolo do efeito cósmico de passar de um mundo a outro.
A transformação mais rara é a que é chamada de "o Beijo de Morte do Santíssimo",
que leva uma pessoa altamente evoluída suavemente para além da divisa entre os
vivos e os mortos.
Segundo a tradição, a Shekinah, ou Presença de Deus, chega para as pessoas boas
e sinceras, dando-lhes a oportunidade de subir diretamente pelo eixo central da
Escada, em um momento de pura consciência, até a união com o Divino.
O Livro dos Mortos tibetano descreve o mesmo fenômeno e insta a pessoa que está
morrendo a não se desviar da luz para poder assim renascer.
Esse é um entendimento budista.
A cabala acha que há muito trabalho a ser feito nos mundos inferiores antes de
uma tal iluminação, e por isso vê o renascimento como parte de um processo
contínuo.
Cada tradição tem o seu ponto de vista.
Considerado mais detalhadamente, o processo da morte começa com a separação
dos dois corpos inferiores.
Qualquer pessoa que tenha estado ao lado de alguém que estivesse morrendo
lentamente reconhecerá aquela impressão de alheamento que faz com que o
moribundo se distinga claramente daqueles que ainda estão fortemente
encarnados.
A morte sobrevém quando o físico e o psicológico estão de tal maneira separados
que a alma vital, Nefesh na cabala, não consegue mais manter os seus sistemas
sincronizados.
Em termos da Árvore, o Daat, ou Conhecimento, do corpo é separado do ego
Yesódico da psique quando a face superior da Árvore física afasta-se da face
inferior da psique.
Nesse momento, segundo dizem, o corpo chega mesmo a perder uma fração de seu
peso.
Passa-se então através dos processos descritos na situação de quase-morte, mas
isso pode levar até três dias para acontecer, visto que as forças vitais mantêm os
dois corpos em uma espécie de órbita até que ambos estejam exaustos e o Nefesh
entre em colapso.
Durante esse período, não é incomum que parentes e amigos ouçam ou vejam a
pessoa recentemente falecida.
Tais aparições são baseadas no fato de que ainda está presente aquilo que é
chamado de Zelim, ou imagem em sombra, que é mantida até que se esgotem as
forças vitais.
Este é um período de abandono do nível material para a maior parte das pessoas
recentemente falecidas que aceitam terem terminado essa vida e se retiram, após
despedirem-se daqueles que amam.
É também a razão pela qual dizem que não devemos segurá-los através de um
pesar demasiadamente forte, mas ajudá-los em sua jornada com orações e com
uma cerimônia de despedida em um funeral.
Isso é comum a todas as culturas.
Existem contudo aqueles que, por várias razões, querem ficar, tais como a pessoa
que se agarra aos bens materiais porque não acredita em nada além disso, ou
aqueles que por alguma razão estão excessivamente ligados a um determinado
lugar ou acontecimento em suas vidas,. e querem revivê-lo novamente.
Isso explica o fenômeno dos fantasmas que eventualmente aparecem, algumas
vezes após terem-se passado séculos, a menos que alguém com conhecimento
espiritual ou dons psíquicos possa libertá-los daquilo que, de um certo modo, é
uma forma de demência desencarnada.
Uma forma ou aparição mais comum é encontrada, por exemplo, no local de
acidentes recentes, onde os falecidos são vistos rondando a vizinhança, em choque,
durante algum tempo, antes de se darem conta de que estão mortos.
Um caso dos mais incomuns está registrado nos comentários Talmúdicos sobre
como o grande rabino Judah Ha-Nasi visitava a casa dele na noite do Sabbath, após
ter falecido, para estar presente a um seminário rabínico.
Entretanto, é-nos informado, que ele deixou de comparecer, em consideração aos
outros estudiosos.
O trabalho dele estava terminado, e tinha que deixá-los fazer as coisas à sua
própria maneira.
O processo inicial da morte completa-se quando a conexão entre a psique e o corpo
finalmente se rompe.
Isso acontece por volta do terceiro dia.
Nessa altura o Nefesh perde contato com a psique e paira sobre o corpo enquanto
este começa a descompor-se em seus elementos originais.
Isso explica a diferença acentuada de atmosferas entre os cemitérios velhos e os
novos.
De acordo com a tradição judaica, o Nefesh fica nas imediações por cerca de um
ano, em um estado chamado de condição de Sheol, ou Mundo Mais Baixo, isto é,
aqui embaixo, onde pode continuar a observar os vivos.
É por esse motivo que a colocação final da lápide tem lugar no primeiro aniversário
da morte, e também porque considerava-se que um ano era o período aproximado
de tempo necessário para a recapitulação e a purificação da alma do falecido.
Aqui, é preciso dizer que o tempo considerado era de uma ordem diferente, no
sentido de que um ciclo completo das estações na Terra correspondia
simbolicamente ao ciclo de uma vida no nível Yezirático.
Durante esse período, a psique separada do corpo passava por várias fases.
A primeira era uma expansão da percepção, no momento em que a psique era
libertada das amarras da carne.
Dessa maneira, tudo tornava-se mais intenso, de modo que, durante o período de
reflexão sobre a vida que acabara de passar, tanto o prazer como a dor fossem
experimentados ao extremo.
Isso deu origem aos estados simbólicos de Purgatório e Paraíso, que podem ser
vistos, nos termos da Escada de Jacó, como as faces superior e inferior de
Yezirah.
Tradicionalmente, são chamados de Éden Terrestre e Éden Celestial; o inferior está
obviamente relacionado ao nível mais próximo da face superior de Assyah, e o
superior à face inferior de Beriah.
Alguns cabalistas vêem os pilares direito e esquerdo da psique como a Severidade
do Purgatório e a Misericórdia do Paraíso.
De qualquer modo, a experiência da vida passada é destilada em uma essência que
é guardada na psique e permanece depois que o velho corpo é descartado.
A tradição acrescenta que, de acordo com a qualidade da vida e da consciência da
pessoa, ela se eleva ou desce para um nível ideal.
Gehennah, o equivalente judaico do Inferno, é o estado de ser daqueles que
insistem em transgredir leis universais.
Esse duro lugar de retribuição pode ou não ter um corpo, porque, por estar na base
do mundo Yezirático, as forças e leis aí concentradas (muitas vezes simbolizadas
pelos extremos dos quatro elementos, como gelo ou lama fervente) atuam sobre
todos aqueles que se agarram a uma visão completamente egocêntrica ou material
da Existência.
Tais pessoas são mantidas nesses extremos até que percebam por que estão aí e
sintam culpa e depois remorso.
O ato de arrependimento liberta-as automaticamente e as eleva para fora do
"Poço", que é o nome muitas vezes atribuído ao Gehennah, por ocupar a região
mais inferior de Yezirah.
A maioria das pessoas, segundo o que dizem, permanece no setor médio de Yezirah
até completarem o seu período de repouso, contemplação e instrução.
Aqueles que alcançaram um estágio avançado de desenvolvimento ficam para além
daquilo que alguns chamam de "terras de verão", no grande silêncio de Beriah, o
Mundo de Pura Consciência.
Em Beriah, passam por mais um período de treinamento, para aperfeiçoar o que
aprenderem durante a vida.
Esses são os verdadeiros gnósticos, os que conhecem os segredos da vida e da
morte e a razão da própria existência.
Podem esperar pelo momento propício, pois, ao contrário dos que estão mais
abaixo, podem escolher quando encarnar, para poder levar a cabo uma tarefa
qualquer.
A maioria da humanidade, afirma a tradição, avança e recua nos limites da órbita
de Gilgulim, as rodas da vida e da morte.
Esse movimento cíclico traz em si fatores, tanto coletivos como individuais, que
determinam a hora e o lugar de cada nova sina, à medida que esta passa através
das suas fases de destino.
Para que isso possa acontecer, porém, é preciso muita preparação antes da
concepção e do nascimento.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 10

Intervalo
Assim como a lama, a água e o óleo encontram cada um o seu nível em uma jarra
de vidro, o Nefesh, a psique e o espírito colocam-se em seus lugares respectivos
nos três mundos inferiores.
O Nefesh, a nossa alma vital, dispersa-se em seus aspectos elementares em um
período relativamente curto; a sua matéria retorna ao pó e a sua energia volta ao
fundo comum de vitalidade da natureza.
A psique tem uma composição mais sutil e uma duração maior, mas mesmo ela,
após um certo período de tempo, dissolve-se como o Nefesh, e regressa ao tecido e
à força de Yezirah, visto que é apenas um veículo para a dinâmica do Espirito e a
centelha da Consciência Divina.
No entanto, é preciso passar por muitas vidas na Terra antes que isso ocorra
permanentemente.
Do mesmo modo, o veículo espiritual, eventualmente, flui de volta ao seu Mundo da
Criação, quando o fóton de consciência que existe em cada indivíduo, ao alcançar a
plenitude do seu potencial, une-se novamente ao ser de Adão Kadmon e vai mais
além, até o Nada e Tudo do Absoluto.
Até então, cada ser humano vai para o seu nível apropriado; os mais evoluídos,
segundo a tradição, para o topo da Escada de Jacó, onde esperam ser chamados
novamente ou entram para os conselhos superiores da humanidade, que vigiam a
raça humana.
Aí, permanecem por muitos séculos, trabalhando desde cima, até que seja
necessário que alguém desça e atue diretamente nos mundos inferiores.
Pessoas como os grandes santos e sábios são dessa ordem, e selecionam o
momento de encarnar segundo a situação geral, levando em consideração as
tendências cósmicas.
A influência de mestres como Confúcio e Baal Shem, que surgiram em momentos
cruciais das histórias chinesa e judaica, são exemplos de uma cuidadosa escolha de
momento no nível transpessoal.
A maior parte das almas não alcançam as elevadas câmaras do mundo Beriático,
onde a Providência organiza e ajusta o grande projeto para o nosso planeta, mas
permanecem mais abaixo, no reinado de Yezirah, onde completam e assimilam as
lições de sua vida anterior.
Durante esse período, são revistas muitas conexões com os já mortos, e os efeitos
de longo prazo de vidas anteriores são examinados sob a luz da última, quando se
reconhece a repetição de certos padrões e faz-se com que o progresso rompa ou
desenvolva certas tendências.
Enquanto isso, aqueles de sua própria geração, com os quais têm relações cármicas
ou de grupo, vão e voltam na ciranda do nascimento e da morte.
Algumas pessoas ficam por pouco tempo, seja porque não conseguem fazer muita
coisa no nível Yezirático, seja porque é melhor para elas aprenderem quando
encarnadas.
Não poucas retornam rapidamente a um corpo, porque estão presas à sua própria
natureza primitiva, ou têm que completar uma tarefa em um prazo determinado e
têm que levá-la até o fim.
Muitas pessoas sentem isso em relação a outras pessoas ou situações.
A noção de grupos de almas que se juntam e se dispersam nos Mundos Superiores,
e depois reencontram-se na Terra, tem seus indícios.
Milhares de homens e mulheres reconhecem-se sem saber de onde.
Alguns chamam isso de Kismet, ou de Nemesis, quando trabalham juntos em
algumas coisa.
Ocasionalmente, alguns indivíduos chegam até mesmo a perceber a razão pela qual
foram postos em contato com os demais.
Alguns casam-se, tornam-se amantes ou amigos, outros são apenas companheiros
na estrada do Espírito, que se encontraram e trabalharam juntos antes ao longo
dos séculos e em diferentes países.
É comum, por exemplo, encontrar essas pessoas atuando na mesma comunidade
religiosa ou esotérica, ou outros que formam um grupo multirracial que sempre se
encontra nos centros de civilização, como na Toledo medieval ou na Amsterdã do
século XVII, onde as condições permitem conexões cruzadas e polinização entre
tradições, como em Bagdá no século X ou na Londres dos nossos dias.
Veremos que fazer com que se dêem tais situações requer muita organização.
Isso é alcançado graças às leis de causa e efeito e por um ordenamento consciente.
Desse modo, enquanto os angélicos tomam conta dos ciclos cósmicos da Natureza,
os seres humanos desencarnados com experiência e visão supervisionam e
determinam o momento certo para o retorno individual à carne.
Para o conjunto da humanidade, o ritmo é bastante regular.
Da mesma maneira, muitas pessoas vivem as suas vidas na Terra como uma
rotina, a menos que sejam perturbadas por acontecimentos importantes como uma
guerra ou uma crise econômica.
A maioria dos indivíduos vão e vêm entre os mundos em um fluxo e refluxo de
famílias que saltam umas sobre as outras ao longo dos séculos enquanto cumprem
os papéis de filhos, pais e avós, trocando algumas vezes de posições nas relações e
no sexo.
A tradição diz que há uma tendência para um sexo, e que qualquer mudança ocorre
para mostrar o ponto de vista do outro sexo.
De acordo com a lenda, as psiques encontram-se aos pares, e procuram uma pela
outra.
Se trabalham com integridade, vão se encontrar e juntar-se, mas, em demasiadas
ocasiões, as pessoas são desviadas pela busca de segurança, posição social e uma
dúzia de outras distrações que fazem com que não compareçam àquele encontro
fatal com sua metade psicológica.
Já foi dito que a ânima de um homem e o ânimus de uma mulher, que são os
complementos masculino e feminino da psique, são, na verdade, as imagens
yeziráticas de seu parceiro naquele Mundo.
Esse é um dos motivos pelos quais as projeções de ânima e ânimus são tão
poderosas e têm tão pouco a ver com a realidade física do parceiro.
Segundo o ensinamento esotérico, quando chega o momento de descer, tem início
um novo processo.
Após sintetizar as lições da vida anterior, que ficam profundamente marcadas no
corpo yezirático, a experiência vai juntar-se a todo o conhecimento acumulado por
aquele ser humano desde a sua primeira encarnação.
Isso surge algumas vezes como vagas memórias de épocas passadas, que formam
um pano de fundo para a psique.
Contudo, se a última vida foi traumática, por exemplo, deixa um resíduo
particularmente forte, que pode afetar a nova vida de uma pessoa desde as
profundezas do inconsciente.
Um casamento violento, por exemplo, influenciará qualquer relacionamento na vida
seguinte.
Aqui começamos a enxergar como um indivíduo chega a uma nova encarnação com
um conjunto bem claro de tendências, baseado, talvez, em uma série de vidas
desastradas ou harmoniosas.
A noção budista de que tudo o que somos é resultado do que pensamos inclui não
só as experiências de uma vida, mas de outras também.
Um exemplo disso é o do jovem que, tendo nascido após a Segunda Guerra, sentia-
se constantemente culpado por ter traído seus companheiros da Resistência
Francesa.
Ter sido fuzilado não fora suficiente para expiar sua culpa, e ele acabou cometendo
suicídio.
Tudo o que for feito em uma vida deve ter seu efeito na seguinte.
É inevitável que certas atitudes fixas darão origem a situações correspondentes.
O homem de temperamento explosivo invariavelmente atrairá conflitos, e a mulher
altamente emotiva amará ou odiará profundamente.
É nesse ponto que entram os supervisores, tal como são chamados algumas vezes,
fazendo com que esta mulher case-se com aquele homem, para que possam,
talvez, aprender a resolver seus problemas.
É claro que o arranjo e a escolha do momento para tais encontros é um assunto
complexo.
De acordo com alguns, as pessoas pertencem a grupos cármicos.
Tais grupos têm supervisores veteranos e principantes que relacionam os indivíduos
e que os formam ao esquema maior, de maneira que as conexões cármicas sejam
uma parte integral da família e da sociedade como um todo.
A maioria das pessoas é reunida para a descida sem maiores problemas, e nasce
em uma seqüência geral de maneira a viver aquilo que, para muitos, é uma vida
relativamente simples em comunidades urbanas ou rurais em todo o globo.
Essas pessoas são, na sua maior parte, o nível ainda adormecido da humanidade, e
formam a sua base.
A aldeia mexicana, a cidade comercial inglesa e a cidade industrial na Rússia têm
muitas pessoas desse tipo.
A individualidade ainda não está desenvolvida, e as pessoas se conformam, nas
vestimentas, nos costumes e nas atitudes, à imagem do verdadeiro árabe beduíno,
do mineiro de Yorkshire, do agricultor chinês, do funcionário público inglês ou do
aristocrata espanhol.
Esse nível não tem nada a ver com classe.
O nível animal do gênero humano é composto por aqueles que são movidos por
uma compulsão.
São pessoas que têm ambição e exibem todas as qualidades que fazem com que
uma pessoa queira alcançar o topo de uma profissão, de um partido político ou de
um bando de rua.
Não vivem como os seus contemporâneos menos agressivos.
Ficam sujeitas, em sua luta pela superioridade e pela dominação, a muito carma.
Por sua própria natureza, fazem grandes amigos e inimigos, que continuam
fortemente ligados a elas ao longo de muitas encarnações.
As famílias dominantes que assassinaram umas às outras na Espanha mourisca não
apenas deixaram para trás um atmosfera de violência que ainda pode ser sentida
como também levaram com elas o efeito cármico que pode estar-se manifestando
em alguma luta dinástica moderna nos negócios, no crime ou na política.
Tudo isso deve ser levado em conta quando se está organizando um grupo de
almas para a próxima encarnação.
Aqueles que alcançaram um certo nível de desenvolvimento e são definidos como
membros do nível "humano" da humanidade, estão sujeitos a leis diferentes.
É por esse motivo que surge o mal entendido sobre pessoas que são reencarnadas
como pedras, plantas ou animais.
Todos os humanos nascem como pessoas.
Não poderia ser de outro modo, mas as pessoas podem viver em qualquer desses
níveis, que são um estado do ser, e não uma entidade. tal como tornar-se um
cachorro.
Algumas pessoas animais, por exemplo, comportam-se como porcos ou leões, e
algumas pessoas vegetais são como a erva ou as margaridas.
Existem neste ou naquele nível, e como tal podem ser boas ou ruins naquilo que
são, como uma bela rosa ou um cão raivoso.
O humano "humano" é, muitas vezes, um indivíduo que viveu muitas vidas e
alcançou um ponto em que já não está apenas em busca de segurança, alimento ou
dominação, e dá-se conta de que a vida e o Universo têm uma meta.
Alguns são almas despertas e outros são espíritos conscientes.
Não é fácil localizar tais pessoas no esquema normal de nascimentos e mortes.
Elas requerem um posicionamento mais preciso e podem ter que esperar até que a
combinação certa de situações e de companheiros seja encontrada na Terra e elas
possam viver suas sinas conscientemente, e levar a cabo os seus destinos.
Os planos de longo prazo, feitos no nível da Providência beriática, são utilizados,
visto que os seres humanos "humanos" são raros e devem ser estrategicamente
colocados.
Assim, uma pessoa pode nascer na Argentina para poder receber um treinamento
específico, enquanto a sua futura esposa é criada na Inglaterra, onde as condições
para o carma dela são perfeitas, de maneira que, quando os dois se encontram, em
Nova York, no momento adequado, estão preparados um para o outro e para o
trabalho que deverão fazer juntos.
A cabala afirma que é dado a conhecer a cada alma, antes do seu nascimento, o
esquema geral de vida que está por vir, os lugares em que estarão e as principais
pessoas que encontrarão.
Essa memória, assim como a das vidas anteriores, é mais ou menos esquecida no
processo de ser-se um bebê, embora algumas pessoas retenham uma vaga idéia.
Antes de discutirmos esse fenômeno, no entanto, devemos examinar a situação
anterior à concepção de um novo corpo no ventre da futura mãe.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 11

Gestação

O Zohar, grande clássico cabalístico compilado na Espanha medieval, diz:


No momento em que a união da alma e do corpo está-se consumando, o
Santíssimo manda â Terra, uma Imagem gravada com o Selo Divino.
Essa imagem preside a união do marido e da mulher; uma visão límpida pode
percebê-las sobre suas cabeças; e essa face será a do homem que esta para surgir.
É essa imagem que nos recebe quando ingressamos no mundo, que cresce à
medida que crescemos e que deixa a Terra quando a deixamos.

O fenômeno de uma presença e até mesmo de uma imagem não é incomum no


momento da concepção.
Alguns a descreveram como se fosse uma terceira pessoa no mesmo cômodo.
Outros chegaram a ver realmente uma figura que as assistia, e outros ainda
sentiram alguma coisa de especial acontecendo quando faziam amor, de que se
lembram com grande clareza no momento em que fica estabelecido que a mulher
está grávida.
Em casos raros, é apresentado um nome e até mesmo o caráter da pessoa que esta
pra ser encarnada.
Para que um momento de gravidade como esse possa ocorrer, é necessário que
muitas coisas estejam no lugar certo.
Não apenas os genitores em perspectiva devem ser levados a uma união sexual
embaixo, como também as condições para a concepção tem que estar preparadas
nos mundos superiores.
É notório que uma relação sexual no momento certo do ciclo menstrual nem
sempre produz uma criança, e que os métodos anticoncepcionais nem sempre
evitam que o esperma masculino alcance o óvulo feminino.
Mais ainda, uma tentativa prolongada de conceber um filho durante vários meses
não é uma garantia de que isso venha a ocorrer, embora um único encontro sexual
com um completo estranho tem às vezes um resultado inesperado.
Isso acontece porque a escolha do momento é crucial na concepção e no
nascimento.
A Providência, que supervisiona o grande projeto, organiza os eventos de acordo
com as necessidades do indivíduo e do Universo.
Dessa maneira, há uma justaposição de considerações que leva em conta a
situação planetária geral, o estado da sociedade humana na Terra, as condições de
uma nação em particular, a fase de uma certa comunidade, as circunstâncias de
uma família específica e o carma de um indivíduo.
A maior parte desses fatores faz parte de um padrão geral que se vai desdobrando,
mas, quanto mais perto chegamos do particular, mais precisa tem que ser a
escolha dos momentos.
Por exemplo, uma revolução nacional costuma levar anos até gerar o seu próprio
ponto de partida; como o primeiro tiro disparado em Lexington Green na luta entre
os americanos e os ingleses.
E a pessoa que iria liderar a luta, como Washington, tinha que estar preparada e na
idade certa.
Foi necessária uma grande precisão para organizar a sua sina.
Desse modo, uma pessoa nasce em um determinado momento para enfrentar uma
situação em particular, ligar-se a pessoas específicas, relacionar-se aos seus pares
e casar-se com uma pessoa determinada.
Um menino de doze anos não pode casar-se com uma senhora de noventa anos e
ter filhos, ainda que sejam almas gêmeas.
A seqüência tem que ser sincronizada para produzir as condições mais vantajosas.
A sincronização não está confinada ao Mundo da Ação e dos Elementos.
Ela deve também ocorrer acima deste, no sentido que os níveis do espírito e da
psique têm que estar prontos para a descida.
A tradição diz que, tal como é indicado pelo "Selo Divino", o processo começa no
Mundo da Emancipação, onde a essência do espírito da pessoa é unida à essência
da psique dessa mesma pessoa.
Esses "átomos", ou "sementes", tal como são chamados por algumas tradições,
contêm a experiência residual de todas as vidas anteriores, que regenera os
organismos Beriático e Yezirático do mesmo modo como se manifesta o corpo
físico.
Primeiramente, segundo nos dizem, a estrutura e a dinâmica dos veículos espiritual
e psíquico são postas em contato e unidas.
São então mantidas preparadas para o período de gestação, enquanto a pessoa é
preparada e instruída.
Os indivíduos mais desenvolvidos costumam estar a par do que está em jogo, e
podem até recordar-se desse estado pré-natal após terem sido encarnados, ao
lembrarem-se de ter estado "em algum lugar" antes de nascerem, conversando
sobre a natureza de sua futura vida.
A maior parte das pessoas não se lembra de nada, mas experiências de regressão
hipnótica têm trazido, para muitas pessoas, recordações bastante surpreendentes.
Por exemplo, alguns lembraram-se de como era estar no útero, e que tipo de
relacionamento tinham com os vários membros de sua família em suas vidas
passadas.
Alguns lembraram-se de estarem esperando pelo seu nascimento, e outros, de sua
própria relutância em vir.
Houve alguns que viram que tinham uma tarefa determinada a cumprir em sua
próxima vida, enquanto outros não tinham a menor vontade de viver de novo.
As leis do carma, no entanto, governam o momento da concepção, e, ao encarnar,
as pessoas estão sob o impulso de necessidades do cosmos e do desenvolvimento.
O processo de concepção, visto cabalisticamente, é a união de todos os mundos e a
sua fusão na manifestação de um corpo físico para a entidade que está encarnando.
Assim, enquanto o casal faz amor, há uma união entre os Yesods macho-fêmea de
suas Árvores corporais, resultando em uma elevação da consciência à tríade
Yezirática do Despertar ou Êxtase, ao haver uma descida dos veículos espiritual e
psicológico do indivíduo que está para ser encarnado.
A concepção ocorre quando é decidida em Azilut, no lugar do Si-mesmo, onde os
três mundos se encontram, de modo que, quando o Daat do corpo e o Yesod da
psique, e o Daat da psique e o Yesod do espírito entram em contato criativo, e tem
lugar uma fusão de todos os níveis, abrindo caminho para que o esperma se
encontre com o óvulo.
Esse evento não representa uma seleção ao acaso de sementes, mas uma precisa
orientação das condições.
Desse modo, enquanto os pais, que têm talvez origens totalmente diferentes,
parecem ter-se encontrado casualmente em uma festa, isso é, na verdade, um
encontro fatal que pode afetar muitas vidas.
Tais acontecimentos são o resultado de uma enorme preparação, para pôr duas
pessoas em contato no momento certo, para que elas se cortejem, casem e
concebam uma pessoa específica.
Após a fertilização do óvulo, tem início o processo Assyático de construção de um
corpo físico.
Seguindo a seqüência do relâmpago descendente, a essência de uma pessoa é
mantida no Keter de Assyah, que está simultâneamente no Tiferet da psique e no
Malkhut do Espírito, que é o lugar do Si-Mesmo.
É assim que as qualidades centrais de um indivíduo fusionam-se com as
características físicas dos pais.
O processo continua, descendo para o Hokhmah do corpo, que dá vida, e daí para o
Binah que determina a estrutura.
Se o processo de gestação passa o ponto crítico de Daat, o abismo da Árvore
Corporal, e o impulso da encarnação não é retirado, como acontece às vezes, por
várias razões, os procedimentos genéticos continuam na forma da expansão de
Hesed na multiplicação das células e na sua diferenciação em Gevurah.
A essência do corpo e a base da psique são estabelecidos no Tiferet do corpo, que
se torna mais tarde o sistema nervoso central que serve a consciência física.
O processo então continua, à medida que os vários sistemas cíclicos Nezahianos
são construídos e sintonizados com os processamentos de dados de Hod.
Exemplos disso são a circulação sangüínea e o equilíbrio do açúcar de acordo com
as necessidades.
As três tríades ao redor do sistema autônomo do Yesod do corpo manifestam os
órgãos, nervos e músculos.
O impulso criativo é finalmente resolvido no nível Malkhutiano dos ossos que dão
sustentação ao corpo e da pele com seus órgãos dos sentidos, que dão acesso ao
mundo externo da fisicalidade.
O processo de gestação é complexo, por estarem os quatro elementos, ar, água,
fogo e terra combinados aos níveis da eletrônica, química, mente e mecânica.
Esses níveis espelham os quatro mundos no corpo.
Do mesmo modo é a interação entre os pilares da estrutura e dinâmica e o eixo
vertical da consciência.
Além disso, os vários estágios da gestação repetem o padrão de manifestação, mas
em miniatura, quando o átomo de Eternidade emerge da energia da Criação para
tomar forma, e depois substância.
Toda a experiência da Existência entra na gestação do corpo, assim como toda
criatura jamais criada está presente no embrião, o que pode ser visto na medida
em que este passa por todas as fases da evolução: primeiro parece uma planta
primitiva, depois um animal simples; mais tarde, toma a forma de um peixe, de um
réptil e de um mamífero, antes de finalmente desenvolver-se até tomar a forma de
um ser humano.
Durante o período de gestação, à medida que os vários veículos superiores da
psique e do espírito são gradualmente alinhados com o corpo, a consciência da
pessoa que está para ser encarnada paira sobre o embrião.
Nos primeiros momentos a relação é bastante flexível, o que é uma das razões
pelas quais os abortos acidentais podem ocorrer quase imperceptivelmente.
Mais tarde, quando a psique começa a integrar-se ao organismo físico, a ligação
torna-se mais forte.
Algumas pessoas lembram-se vagamente desse período, e muitas, sob hipnose,
recordam-se com bastante clareza de estarem flutuando dentro da mãe,
plenamente conscientes de seus sentimentos e dos da mãe a propósito do
nascimento que se aproximava.
Muitos têm prazer em fazer a associação, mas outros, como foi notado, não
gostam, e se retraem.
Isso pode levar a abortos espontâneos e às crianças com síndrome de Down, as
quais, devido ao desejo de permanecerem desencarnadas, retardam o processo
normal de gestação no nível genético.
Pode-se também dizer o mesmo das crianças autistas, que quase completam o
processo, mas não chegam realmente à plena encarnação.
Tal como veremos, a gestação é um período altamente critico, quando o corpo está
em seu estado mais vulnerável, e, portanto, mais suscetível a influências que vêm
tanto do indivíduo que está encarnando como da mãe.
Dessa maneira, aquilo que ela pensa, sente e faz psicológica e fisicamente pode
afetar o embrião..
É por isso que muitas mulheres grávidas entram em estado de fechamento em si
mesmas, e perdem todo interesse em qualquer coisa além do seu bebê.
Essa é uma proteção psicológica natural, destinada a proteger o feto de influências
nefastas anteriores ao nascimento.
A escolha do momento do nascimento é tão crucial quanto a da concepção.
Muitos médicos vêem o processo de gravidez nos termos de um modelo-padrão,
mas o momento do nascimento não é assim.
Nascer cedo ou tarde demais é uma abstração clínica.
Uma pessoa nasce no momento mais propício para que esse indivíduo entre no
mundo físico, e a Providência não está acima de urna utilização da profissão médica
para fazer com que um indivíduo seja pontual.
Não existe nascimento prematuro ou tardio quando este é visto como a primeira
intimação da sina.
A maneira como um indivíduo ingressa no Mundo é de grande importância.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 12

Nascimento
Durante o processo de gestação, os níveis mineral, vegetal e animal do embrião
são construídos por um campo de força e forma presente no útero.
Essa é uma combinação da energia vital da mãe com o Zelem, ou a imagem do
indivíduo que está para ser encarnado.
Lentamente, a necessária base elementar do feto preenche o plano Yezirático já
existente, enquanto o princípio vegetativo toma a sua nutrição da mãe e ergue a
estrutura.
Por volta do quarto mês, o corpo já está suficientemente desenvolvido para poder
mover-se, como se fosse um inquieto animal confinado.
Durante esse período a consciência, apesar de ligada ao feto crescente, está
relativamente livre.
De acordo com as pesquisas feitas com a técnica da hipno-regressão, 33 por cento
dos pesquisados observaram que não se integraram ao feto senão logo antes ou
durante o nascimento.
Mais ainda, alguns não se encarnaram plenamente até depois de nascerem.
Muitos deram descrições notavelmente claras de seu próprio estado e do da mãe, e
outros descreveram momentos cruciais da gravidez.
Tudo isso indica uma lúcida percepção do que estava acontecendo.
Em um dos casos, por exemplo, a pessoa observou que estavam assustados com o
rápido crescimento do feto e com o nascimento iminente, enquanto outro, um de
dois gêmeos, recordava o conflito sobre qual feto era de quem.
Isso lembra a história bíblica de Jacó e Esaú, que brigaram no ventre de Rebeca,
indicando um alto grau de consciência anterior ao nascimento.
Em muitos casos, observações detalhadas sobre os estados físicos da mãe, assim
como as suas atitudes e as do pai, eram lembradas porque a psique não estava, tal
como o feto, confinada ao útero.
Em alguns casos, a pessoa podia lembrar-se de ir e vir, como que pairando entre
dois mundos e, em um caso, o indivíduo lembrava-se de ir verificar o
desenvolvimento do feto de tempos em tempos, e de passar o resto do tempo em
outro lugar.
O grau de envolvimento com o feto durante a gravidez parece variar.
Por exemplo, apenas 12 por cento dos pesquisados relataram alguma ligação com o
feto até seis meses após a concepção.
A conexão entre o corpo e a psique, nesse estágio da relação dos dois, não é forte.
Isso significa que o privilégio do livre-arbítrio pode ser usado para barrar ou deixar
continuar o processo, como a pessoa que viu que o feto tinha os dedos ligados por
uma membrana, mas escolheu deixar que a gravidez continuasse porque a mãe
estava feliz.
Outros não são tão decididos e retiram-se, causando um aborto acidental.
Isso pode ser precipitado por uma atitude negativa por parte da mãe, ou por
acontecimentos externos que são mais do que a pessoa que está encarnando pode
suportar, gerando natimortos naturais ou acidentais que podem ser uma forma
inconsciente de aborto.
No caso de um aborto deliberado, a questão é diferente, por ser uma escolha;
nesse caso, existem conseqüências do carma — boas ou ruins.
A lei rabínica discute esse caso e conclui que, sob certas condições, a vida da mãe
vem em primeiro lugar, desde que a cabeça da criança ou uma parte maior do
corpo não tenha ainda emergido durante o nascimento.
O aborto anterior a esse estado não foi considerado.
Vista de um ponto de vista esotérico, a interrupção da gravidez, por muitas razões,
pode ter um momento de escolha, mas o seu efeito sobre os pais e sobre o
Indivíduo que está encarnado devem ser considerados com multo cuidado antes de
contemplar qualquer ação.
Muitos que decidiram abortar mantiveram o seu estilo de vida, mas
experimentaram uma perda profunda de muito mais que um criança.
Para a alma que foi enviada de volta para os Mundos Superiores, o choque talvez,
seja menor.
Essa alma, pelo menos, pode voltar através de outro casal.
Ou então, o que é mais correto, caso o casal lenha aprendido uma lição, voltar
como um segundo filho, ao qual, muitas vezes, é dado um segundo nome, o
mesmo que se pretendia dar ao primeiro feto, porque os pais sentem que é a
mesma alma, em outro corpo.
Tal como descrevemos, o momento e o lugar do nascimento são levados em
consideração por aqueles encarregados de organizar a encarnação.
Os ritmos e padrões cósmicos têm um fluxo e refluxo anual, e é uma questão de
inserir um indivíduo no mundo físico no melhor momento para o seu
desenvolvimento.
Tradicionalmente, existem doze tipos humanos diferentes, mantidos no lugar do
Si-Mesmo, no Tiferet da psique e no Malkhut do Espirito.
Cada uma dessas formas dinâmicas tem um caráter distinto que contribui para uma
experiência espiritual-psicológica geral.
A tradição sugere que nos encarnamos como um desses tipos para que possamos
aprender e desempenhar certas tarefas cósmicas e papéis psicológicos, além de
movermo-nos lentamente, de tipo a tipo, por todo o Zodíaco, à medida que
passamos de vida a vida.
Vistas cabalisticamente, essas formas são os vários modos pelos quais cada átomo
Divino de Adão Kadmon experimenta todos os níveis da Existência.
A astrologia é o estudo desses princípios, e por isso o momento do nascimento,
quando a qualidade fluida da psique se cristaliza na solidez do corpo, é da maior
importância.
Qualquer pessoa que tenha estado presente em um nascimento, e que tivesse
conhecimento de algo mais que a simples ação física, é impressionada pela
presença de algo muito poderoso e de outro mundo no mesmo local do nascimento.
Igualmente, o mesmo sentimento dos Mundos Superiores se apresenta a qualquer
pessoa que testemunhe uma morte, quando a alma parte.
No nascimento, o processo está invertido, sendo necessário um esforço
considerável para trazer a pessoa para baixo, porque, além dos problemas para
colocar a psique no pequeno invólucro do corpo, há os perigos que surgem quando
o indivíduo muda o seu centro de gravidade de um mundo a outro.
Isso pode ser devido à intromissão de desencarnados perdidos que ainda procuram
um corpo ou de entidades que, simplesmente, gostam de interferir nos processos
de transferência.
Uma idéia como essa pode parecer medieval, por que não está mais na moda na
nossa idade da ciência, mas muitas pessoas inteligentes e sensíveis admitem
discretamente que isso é possível, e que a possessão por uma psicologia alheia não
é apenas um mito.
Em outras épocas, as pessoas aceitavam a realidade de outros mundos e de seus
habitantes, e se precaviam com orações e amuletos.
Hoje em dia, ao mesmo tempo que dependemos principalmente de condições
fisicamente condutivas na sala de parto, nota-se que se está tomando mais cuidado
com as condições psicológicas às quais é trazida a criança.
A nova técnica do parto em água morna é um eco da idéia esotérica de que é
preciso trazer lentamente o indivíduo do Mundo da Água Yezirático à Terra de
Assyah.
Existem, contudo, outros procedimentos espirituais.
Assim como, tradicionalmente, existem aqueles que fazem o acompanhamento
espiritual da morte, pode-se fazer o mesmo no momento do nascimento.
Além das preparações feitas por aqueles que estão embaixo, criando melhores
condições para o nascimento, aqueles que estão em cima também esperam pela
encarnação.
Foi observado, por exemplo, por uma pessoa a quem fora confiada a tarefa de
acompanhar um parto sob a orientação da cabala, que, quando ia-se aproximando
o momento do nascimento, apareceu um círculo de luz que rodeava o quarto.
Isso foi acrescido de quatro colunas de fogo azul-frio, que passavam através do
piso e do teto do cômodo.
À medida que o parto progredia, crescia a intensidade da atividade psíquica.
Os médicos e parteiras fizeram tudo o que podiam para encorajar o nascimento,
mas tornou-se aparente, para os cabalistas presentes, que nada aconteceria até
que certas condições estivessem alinhadas.
Em um momento específico, começaram as contrações finais, e enquanto todos os
demais estavam envolvidos no parto, o acompanhante viu várias figuras, bem
acima do leito, ajudando alguém a descer.
A imagem estava borrada, mas as figuras eram inegavelmente humanas.
Esses assistentes trabalhavam em cima com a psique enquanto os que estavam
embaixo se atarefavam com o corpo.
Quando a criança apareceu, as figuras sobre o leito esvaneceram-se, mas o círculo
de luz e os pilares de chama azul permaneceram por algum tempo após o
nascimento.
Muitas pessoas que passaram pelo procedimento de hipno-regressão recordavam-
se vivamente da sua entrada no canal de parto.
As descrições de escuridão, pressões, textura e luz no final do canal de parto
lembram-nos de muitas experiências de quase morte, que falam da passagem
através de um túnel cm direçao a uma luz. Cabalisticamente, essa é a passagem
através do Daat, o buraco negro do Conhecimento que serve de ponte entre os
Mundos, para trazer a fissão ou a fusão entre os domínios físico e psicológico.
Muitas pessoas viam essa transição, ao serem espremidas através do canal, como
um evento traumático.
Alguns podiam até mesmo lembrar das mãos da parteira, ou de terem sido
agarrados por um instrumento cirúrgico.
Muitos ficaram chocados com a baixa temperatura do ar, e com a profusão de luz e
de barulho no ambiente.
Quase todos tiveram um sentimento de profunda perda ao serem encarnados.
Isso, provavelmente, não se deve somente à segurança do útero, mas também à
dramática redução de contato com os mundos superiores dos quais acabavam de
chegar.
Muitos, foi notado, estavam agudamente conscientes das pessoas à sua volta, e do
estado em que estas se encontravam.
Por exemplo, o alívio da mãe, a indiferença de um médico e, em muitos casos, o
desapontamento do pai sobre o sexo da criança.
Alguns chegam mesmo a lembrar o que as pessoas disseram, como, por exemplo,
"Que menino gordo!" Isso indica que a psique, no nascimento, não é infantil, mas
uma inteligência totalmente perpectiva.
O estado em que uma criança faz a sua entrada nesse mundo, do mesmo modo, é
mais do que um mero reflexo físico.
Uma pessoa lembrou-se de estar intensamente irritada, enquanto outra
lembrava-se de ter ficado calma.
Já foi dito que a maneira pela qual a pessoa reage ao nascimento é de crucial
importância para o resto de sua vida.
De fato, muitas mães têm observado que essa resposta permanece como uma forte
marca de caráter.
Exemplos disso são o bebê tranqüilo que olhava à sua volta e que se tornou filósofo
e o recém-nascido furioso que tem estado irado desde então.
Já se observou muitas vezes que bebês recém-nascidos são muito semelhantes a
pessoas de idade.
Não é apenas a face enrugada que empresta a semelhança, mas os olhos que
irradiam uma inteligência madura, e o sentimento geral de que há uma mente
adulta encerrada no pequeno e delicado corpo.
Essa realidade, entretanto, é rapidamente esquecida na projeção da maior parte
dos pais, parentes e amigos, que vêem apenas o corpo de um bebê.
É interessante notar que muitas das pessoas hipno-regredidas lembram-se de
pensar e de sentir como adultos, e de como oscilaram para dentro e para fora do
corpo do bebê, pois a conexão entre a psique e o corpo é muito frágil.
Uma pessoa descreveu o sentimento de ter sido reduzido o seu campo de ação por
não poder relacionar-se a um veículo tão pequeno.
Na cabala, esse estado de consciência infanto-adulta é chamado de "Dias da
Sabedoria".
Em alguns ele termina quando o corpo começa a fazer as suas exigências, e a
psique passa lentamente a mergulhar no aprendizado de como relacionar-se com o
frio e o calor, a fome e os movimentos intestinais.
Com o tempo, o elemento adulto da psique passa para o inconsciente, embora
possa ser parcialmente recuperado quando o corpo está adormecido, deixando a
conexão entre o corpo e a psique mais frouxa.
A encarnação está concluída e, lenta mas inexoravelmente, as memórias de vidas
passadas são encobertas à medida que o indivíduo começa a viver uma nova vida.
As possibilidades dessa encarnação, contudo, podem ser-nos reveladas pelo
horóscopo ou quadro macrocósmico, feito no momento do nascimento.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 13

Paradigma
A astrologia é o estudo das influências cósmicas sobre o gênero humano.
É uma das ciências mais antigas e, certamente, a mais velha forma de psicologia.
Esse complexo corpo de conhecimentos sobre os efeitos celestiais foi construído ao
longo de muitos milhares de anos pela observação empírica.
Os babilônios formularam o esquema geral dos níveis em interação, e os gregos
refinaram os detalhes.
Os árabes acrescentaram a dimensão mais precisa do sistema da Casa Mundana, e
os astrólogos ocidentais aprofundaram e ampliaram a matéria com a ajuda do
método científico moderno.
Hoje em dia, a astrologia é uma síntese sutil de mitologia, psicologia e tecnologia.
Vista cabalisticamente, é uma disciplina que relacionava os eventos do Mundo de
Yezirah com o que está acontecendo no Mundo de Assyah.
Olhando para ela de um modo mais contemporâneo, a astrologia é o estudo de um
sistema de dinâmicas e estruturas cósmicas, e dos seus efeitos sobre o subsistema
da psique, de acordo com as facilidades, tensões, bloqueios e aberturas que
ocorrem em um dado momento.
O seu fundamento é que o sistema solar, com o conjunto de suas relações
planetárias em constante mudança, afeta, por ressonância, a delicada
infraestrutura da Terra e particularmente dos seres humanos, que são
especialmente suscetíveis aos eventos dos mundos maiores.
Isso se dá porque cada um é uma miniatura do universo, e ressoa em solidariedade
com os padrões e ritmos cósmicos.
Um horóscopo natal é simplesmente um quadro da situação celestial no momento
do nascimento, quando a psique que está encarnando se implanta no corpo.
A razão pela qual tal carta pode vir a ser útil é porque existe uma relação analógica
entre a natureza dos Sefirot, os planetas e a psique.
Assim, por exemplo, o Malkhut e a Terra correspondem ao corpo, enquanto o Sol e
a Lua se relacionam ao Si-Mesmo e a Tiferet e o ego a Yesod.
Os planetas correspondem às várias funções e níveis da Arvore psicológica,
baseada na imagem de Adão Kadmon.
O modelo fica individualizado no momento do nascimento, quando cada um dos
princípios celestiais deixa a marca de um signo específico do Zodíaco na primeira
respiração.
Nesse ponto é preciso dizer aos astrônomos que o quadro não é das constelações
estelares, mas de doze divisões do céu centradas na Terra, no qual as luminárias e
os planetas são relacionados a um determinado lugar e momento.
É como a diferença entre uma pintura perceptiva, mas impressionista, de uma
pessoa, e a imagem altamente definida de uma fotografia.
Uma ocupa-se de profundidade e ênfase, enquanto a outra possui uma precisão
superficial que, muitas vezes, pode ser enganadora.
Para um bom astrólogo, um horóscopo revela aquilo que, em um caráter, tem mais
probabilidade de predominar, que tendências podem ser controladas e aquilo que
precisa ser trabalhado.
Quando esse astrólogo tem muita experiência, pode fazer previsões sobre uma
vida, assim como um bom médico pode prever o curso de uma doença; mas isso
precisa estar baseado em uma grande experiência e um profundo entendimento da
natureza humana, que muitos astrólogos, e muitos doutores, não têm, porque a
maior parte das pessoas apóia-se no óbvio e segue a regra da opinião estabelecida,
que está submetida à moda intelectual.
A posição do Sol, da Lua e dos planetas dá a cada carta um peso único, porque é
extremamente raro que duas pessoas nasçam a menos de quatro minutos uma da
outra em um mesmo lugar.
A maneira pela qual essa configuração está espalhada ou amontoada pode indicar
se a pessoa será versátil ou se vai ser um tipo obsessivo, como os que se
encontram quando o Sol, a Lua e Marte estão em conjunção em um determinado
Signo ou Casa.
Sem sermos demasiadamente técnicos, pois a astrologia não é o tema do nosso
estudo, uma Casa é o setor da vida em que um planeta se manifesta.
Por exemplo, quando Saturno está no que se chama de Décima Casa, que se
relaciona às realizações no Mundo, dá à pessoa a tendência a uma forte ambição.
Tanto Napoleão como Hitler tinham esse aspecto em suas cartas.
Nessa altura, temos que dizer, citando sir Thomas Browne, médico do século XVII:
Não carregues as costas de Aries, Leão ou Touro com tuas culpas, nem tornes
Saturno, Marte ou Vênus culpados de teus desatinos. Não penses em atar tuas
imperfeições às estrelas, e tão desesperadamente conceber-te sob a fatalidade de
seres mau. Calcula-te por dentro. Não te busques na Lua, mas em tua própria orbe
ou circunferência microcósmica.

Isso é dito para indicar que, apesar de o horóscopo indicar direções, estas não são
mais do que tendências que podem ser utilizadas ou controladas, pois o fator do
livre-arbítrio está sempre presente.
No entanto, essa escolha é feita no sentido de se permanecer ignorante das
próprias inclinações, especialmente as ruins, de maneira que uma carta é da maior
relevância para a maioria das pessoas.
Vamos, portanto, examinar um exemplo para ver quais são os princípios sefiróticos
e celestiais envolvidos, e os seus efeitos sobre a psique que foi encarnada.
Costuma-se levantar um horóscopo para o momento da primeira respiração
independente, quando os corpos psicológico e físico se unem em maior ou menor
grau.
Caso não se unam a criança morre e a psique retorna ao mundo Yezirático, como
nos partos de natimortos.
Essa fusão do corpo e da psique produz um padrão de forças e de estrutura, em um
processo muito semelhante ao dos flocos de neve, que assumem certas formas de
acordo com as condições.
No caso das pessoas, a psique é cristalizada em uma espécie de holograma pessoal
do cosmos, que revela o grande projeto.
Isso põe em movimento aquilo que chamamos de sina.
O processo pode ser comparado a uma flecha atirada sob certas condições de
ângulo, tensão, vento, umidade e mira; após ter sido disparada, seguirá uma
trajetória específica.
Em hebraico, a palavra Het, pecado, quer dizer, "errar o alvo" e é usada para
designar a pessoa que não faz uso da sina que lhe foi dada para desenvolver, pois,
ao contrário de uma flecha inanimada, podemos fazer correções de rumo durante o
vôo, mesmo que a passagem geral do nascimento à morte esteja fixa dessa ou
daquela maneira, de acordo com o carma que fez a mira.
As evidências empíricas indicariam que, por exemplo, uma pessoa nascida logo
após a alvorada, com o Sol em, digamos, Câncer, poderia ser excessivamente
retraída e preocupada com questões caseiras; enquanto que uma pessoa que
nascesse quinze minutos antes também estaria interessada em família e segurança,
mas esse interesse se manifestaria exteriormente em um impulso por mais e
melhores casas na sociedade, ou na fundação de comunidades em condições
pioneiras.
A Lua em, por exemplo, Leão poderia acrescentar a isso um ego carismático ou
megalomaníaco, segundo a relação da Lua com os demais planetas e a sua posição
no sistema de Casas; ao passo que uma Lua em Virgem, favoravelmente ligada ao
Sol, poderia, se bem usada, produzir um ego-Yesod prático para ajudar o
Si-Mesmo-Tiferet simbolizado pelo Sol.
No caso de uma má utilização, esse aspecto, apesar de ser bom, poderia fazer com
que uma pessoa se tornasse excessivamente mesquinha ou possessiva em sua
busca de segurança, e transformar uma situação familiar potencialmente boa em
uma tirania.
Isso ilustra que os horóscopos ditos bons ou ruins não são tão definitivos como
parecem.
Mais de uma pessoa com uma carta aparentemente difícil conseguiu controlar os
problemas que essa carta criava e crescer para afastar-se de ser o que
Shakespeare chamava de "subalterno" das suas próprias estrelas.
Ao mesmo tempo que o Sol, a Lua e o Ascendente são considerados como as
formas corporais, o ego e o Si-Mesmo representam, juntamente com os planetas,
as várias funções da psique.
Desse modo, Mercúrio em Hod no signo de Gêmeos, na Terceira Casa da
comunicação, deveria indicar um alto grau de inteligência e de curiosidade,
enquanto Vênus no mesmo Signo e Casa indicaria uma curiosidade sensual que
pode levar à promiscuidade.
Da mesma maneira, qualquer dos planetas, quando analisado em sua posição e
relação mútua com os demais indicará a propensão para um Sefirah determinado
na psique do indivíduo.
A má colocação de Marte ou Gevurah, por exemplo, sugere mau julgamento ou, ao
contrário, se for trabalhada, uma real capacidade de discriminação.
Júpiter, ou Hesed, bem colocado, contudo, pode criar uma certa frouxidão de
limites, de maneira que a pessoa estará sempre endividada ou apaixonada por
alguém que a magoa.
Essa, é claro, pode ser a sua sina, para que aprenda a não o fazer, ou para
desencalhar algum atraso cármico.
Saturno em Aries na Casa da parceria pode levar a um matrimônio impetuoso e
cheio de conflitos com alguém mais velho, no qual um problema qualquer de uma
vida passada é trabalhado em um relacionamento de tipo maternal até que um ou
ambos se tornem adultos.
A posição dos fatores de Urano, ou Hokhmah, pode tornar-se muito crítica na vida
de uma pessoa, caso sejam encontrados na Casa das possessões.
Isso indica ganhos e perdas repentinas nas coisas práticas, se for um signo de
terra, ou talvez em questões emocionais, se for um signo de água.
Os planetas Netuno e Plutão, de acordo com a cabala, estão associados com a
coluna central da consciência, e indicariam que tipo de contato com o Divino e com
o Conhecimento do Espírito a pessoa poderia ter.
Netuno em Peixes, por exemplo, poderia significar uma abordagem mística, ao
contrário de Netuno em Touro, que produziria uma conexão mais material e prática.
Tudo o que vimos acima dá somente uma ligeira impressão do que podemos
conseguir com um mapa natal.
Com uma visão treinada, pode-se coletar muito olhando e focalizando, analisando e
sintetizando todos os fatores.
Tal como uma chapa de raios X, o paradigma de um horóscopo contém muitos
pequenos detalhes, assim como o quadro geral de uma situação.
Pode indicar talentos e lições de caráter, inclinação para levar este ou aquele tipo
de vida.
Quando é inteligentemente aplicada, a astrologia pode detectar os momentos
cruciais de crescimento e de crise.
Isso porque, assim como o corpo tem que moldar-se a uma imagem já existente, a
psique tem um padrão que segue um caminho específico, à medida que a pessoa
vai passando pelas várias fases e idades de seu desenvolvimento.
Visto objetivamente, o mapa natal pode indicar o potencial de uma pessoa.
As pessoas alteram o padrão de suas vidas, mas isso é bastante raro, pois poucos
conhecem-se suficientemente bem para poderem modificar ou desenvolver os
próprios traços.
A astrologia é útil por ser um mapa detalhado que possui o tipo de informação que,
normalmente, leva anos para ser adquirida.
Após termos visto o surgimento da psique no mundo material do corpo, vamos
agora examinar as paralelas, ao mesmo tempo que começamos a estudar a relação
e a ressonância dos organismos psicológicos e físicos.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 14

Encarnação
Do ponto de vista da cabala, o corpo começa como uma única célula fertilizada que,
no processo de multiplicação e de diferenciação, preenche lentamente uma forma
já existente.
Essa imagem do corpo é mantida no Yezirah de Yesod, que é o Sefirah que se
ocupa de guardar imagens.
É também o lugar de Daat que, neste caso, é o Conhecimento do corpo.
O cientista vê o modelo do todo em cada célula, mas esta não é mais que um tijolo.
O projeto do organismo é de uma ordem de leis mais alta, e as células limitam-se a
seguir um padrão que se repete em milhões de corpos humanos.
Esse processo de preenchimento da forma não pára no nascimento, mas continua
ao longo de todas as fases sefiróticas, até que o corpo alcance a sua plenitude, por
volta dos vinte anos.
Durante esse período de crescimento, muitas etapas devem ser cumpridas, etapas
estas que são consideradas diferentes estágios do desenvolvimento da psique,
assim como do corpo.
A base da psique, segundo aqueles que só enxergam a dimensão material, é a
estrutura genética de cada célula, que determina o sexo, tipo de corpo, cor dos
olhos e do cabelo, pele e muitas outras características físicas.
Eles também limitam as memórias instintivas de toda a humanidade à raça de cada
indivíduo em particular, bem como as características do corpo da pessoa, que
resulta da combinação dos cromossomos dos pais.
Essa mistura singular de elementos físicos afeta grandemente a face inferior da
psique, que está agora instalada na face superior da Arvore corporal.
Um exemplo do que foi dito acima pode ser visto nas três principais divisões raciais
da humanidade, simbolizadas pelos três filhos de Noé, que povoaram o mundo após
o dilúvio.
Em uma generalização ampla, as raças branca, amarela e negra representam os
aspectos do pensamento, sentimento e ação da humanidade; e as civilizações que
elas geraram exibem essas qualidades distintas na ciência ocidental, nas religiões
orientais e nas danças africanas.
É claro que há muitas misturas das três nos subgrupos étnicos, onde ocorrem
casamentos interraciais e subdivisões raciais, posto que em cada raça existem
pensadores, "sentidores" e fazedores.
Contudo, embora as divisões definidas com clareza estejam borradas, existe ainda
uma forte tendência coletiva nas pessoas que reconhecem suas raízes e
conformam-se à mente grupai de sua raça, nação e comunidade.
O conflito na República da África do Sul entre as tribos branca e negra é um
exemplo de atitudes bastante diferentes, que levam em conta não apenas a cor da
pele de uma pessoa como também a psique e a sua atitude geral frente ao mundo.
Isso acontece em todo o mundo, até mesmo nos países ditos avançados, como a
Grã-Bretanha, onde os escoceses até hoje consideram os ingleses como "o velho
inimigo", nas partidas internacionais de futebol, nas quais surge o nível tribal.
Os três tipos também podem ser observados naqueles indivíduos que alguns
cientistas classificam como os ectomórficos, pensadores magros e nervosos, os
mesomórficos, pessoas musculosas e ativas, e os endomórficos, aquelas pessoa
que tendem ao rechonchudo e são sensíveis e melancólicas.
Esses tipos têm origem, segundo os biólogos, na predominância dos processos
nervosos, musculares ou viscerais durante a gestação.
O cabalista argumentaria que tais diferenciações surgem devido ao tipo da psique
que está sendo encarnada, no sentido de que a pessoa tem necessidade deste ou
daquele tipo de corpo para desenvolver ou corrigir esta ou aquela qualidade.
A classificação de tipos corporais enquadra-se na tríade basal da Árvore física, na
qual os músculos, nervos e órgãos são vistos agrupados em torno do sistema
autônomo em Yesod, com Malkhut no nível elementar da pele, dos ossos e dos
órgãos dos sentidos externos.
Essa ligação do corpo à Arvore pode ser vista no exemplo do sistema nervoso
autônomo, com a sua subdivisão em sistema simpático e parassimpático, que
correspondem aos pilares externos.
O simpático (coluna direita) dilata a pupila, enquanto o parassimpático (coluna
esquerda) a contrai; o simpático estimula o coração, enquanto o parassimpático faz
o contrário.
Aqui podemos ver os princípios de estrutura e dinâmica, que agem em todos os
Mundos presentes no corpo.
Continuando, a relação entre os sistemas nervosos autônomo e central condiz com
o Tiferet e o Yesod da Arvore corporal.
Isso acontece porque o sistema autônomo age como um regulador dos processos
de rotina do corpo, enquanto o sistema nervoso central, por ser de uma ordem
mais alta, faz a conexão do Malkhut da psique com as atividades do cérebro,
porquanto o ego Yesódico da psique se sobrepõe ao Daat do corpo, unindo-se em
uma relação de trabalho no nascimento, do mesmo modo como a parte inferior da
psique se liga com a parte superior da Árvore corporal.
Quando um bebê sai do útero e é separado da mãe, ele ainda está longe de ser
independente, pois, apesar de ter sido cortado o cordão umbilical, o cordão
psicológico entre a mãe e o filho ainda está presente, e tem que ser mantido.
Isso é chamado de processo de "vinculação".
Nas sociedades simples, a mãe e o filho raramente são separados.
Nos anos recentes, no entanto, no mundo ocidental, os dois são separados por
várias razões técnicas, no período imediatamente após o parto.
Tem sido observado que isso parece ter efeitos negativos sobre ambos,
principalmente sobre o bebê.
No nascimentos que acontecem em situações mais esclarecidas, o recém-nascido é
imediatamente entregue à mãe, para que esta o abrace e amamente.
Esse é mais que um processo dc familiarização extrema, após o longo
relacionamento interno da gravidez: é o estabelecimento de uma conexão muito
sutil e profunda entre dois seres humanos, quando o Malkhut e o Yesod da psique
da criança procuram fazer contato com o mundo físico, representado, em um
primeiro momento, pela mãe.
A falha em facilitar essa vinculação, tal como tem sido notado, gera uma falta de
habilidade, para a psique que está sendo encarnada, em relacionar-se com a
realidade física.
As experiências com macacos impedidos de estabelecer essa ligação Yesódica com
a mãe resultaram em animais extremamente perturbados que, se não são tratados,
tornam-se permanentemente instáveis e afastados do convívio dos demais.
O mesmo é verdadeiro para os bebês humanos que, se não podem formar uma
sólida conexão Yesod com a mãe, podem tornar-se psicóticos ou neuróticos.
Tais situações se dão quando a própria mãe está doente, indiferente à criança ou
enfrentando um problema que, desde o ponto de vista dela, precisa de mais
atenção.
Desde um ponto de vista cabalístico, isso não acontece acidentalmente, mas é o
primeiro efeito fatal de uma causa que tem suas raízes no carma.
Isso não significa que todos os indivíduos que têm a ver com uma tal situação não
devam assumir suas responsabilidades como pais, pois é preciso considerar o livre-
arbítrio e a noção de que a pessoa que acaba de nascer está também perfeitamente
consciente do que está acontecendo durante os primeiros dias e, algumas vezes,
semanas após o nascimento.
As ações e reações de ambas as partes são cruciais e formam o fundamento da
segurança física e psicológica, no momento em que o Malkhut e o Yesod da psique
do bêbe são marcados pelas experiências primárias da nova vida.
É nesse ponto que se estabelece uma confiança ou desconfiança fundamental em
relação ao mundo exterior.
Quando o corpo e a psique começam a unir-se com um impulso crescente, a
habilidade para manter a consciência pré-natal é enterrada sob um acúmulo cada
vez mais profundo de experiências sensuais.
Gradualmente, o corpo infantil e suas necessidades superam a clareza e a liberdade
da psique.
A maioria das pessoas logo a esquece, embora, como já vimos, muitas possam,
com a hipno-regressão, lembrar-se do que aconteceu com grande precisão, o que
sugere uma apreciação notavelmente madura do que estava acontecendo.
A perda dessa percepção psicológica, vista cabalisticamente, é a mudança do
centro de gravidade da consciência para um lugar mais baixo, no Malkhut, quando
a relação Yesod-Daat do ego desvia a atenção da psique para o corpo com o
desenvolvimento do mais direto dos sentidos, o do tato.
Este e outros órgãos malkhutianos de percepção da realidade física serão
examinados no próximo capítulo.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 15

Percepção
A maioria das pessoas pensa ver o mundo exterior como uma realidade.
Na verdade, o que elas percebem é uma imagem muito subjetiva do universo físico.
A razão para isso é que tudo o que tocamos, cheiramos, saboreamos e ouvimos
chega à nossa consciência mediante um dos sentidos.
Isso significa que aquilo que percebemos é uma impressão que foi filtrada por um
determinado órgão, sensível somente a uma freqüência específica, que pode ser
influenciada por alguma deficiência física e depois tem que passar por processos
mecânicos, químicos e eletrônicos antes de ser examinada por uma mente que está
cultural, individual e psicologicamente preconceituosa, em um estado mental
determinado.
Tal como veremos, não existe o conhecimento objetivo.
Até mesmo o mais fastidioso dos procedimentos científicos pode ser distorcido pelo
desejo de se chegar a um certo resultado, porque o ponto de vista pessoal do
cientista vai sempre influenciar o resultado, a menos que ele seja uma pessoa
consciente em todos os níveis da realidade.
É por isso que existem tantas teorias contraditórias sobre o Universo.
Depende de qual nível esteja sendo examinado.
Para a maior parte das pessoas, o único mundo real é o físico e, portanto,
consideram que a percepção deste pelos sentidos é bastante objetiva.
Isso, tal como a ciência apenas começa a ver, não é assim.
Por exemplo, uma das descobertas mais recentes é a de que as duas metades do
cérebro trabalham de maneira bastante diferente uma da outra.
O lado esquerdo é mais preciso em sua percepção e nos seus talentos.
Tem habilidade em matemática, línguas, lógica e literatura, enquanto o hemisfério
direito está inclinado para as habilidades irracionais da música, da dança e da
fantasia criativa que subjaz a todas as artes.
Esta descoberta, baseada em pesquisas feitas com cérebros normais e danificados,
tem particular interesse para o cabalista, pois está de acordo com a noção dos
pilares da Árvore, na qual o lado direito de Nezah, Hesed e Hokhmah está
relacionado aos processos mais criativos, e o lado esquerdo de Hod, Gevurah e
Binah tende à abordagem analítica.
É igualmente interessante notar que ocorre, no cérebro, um cruzamento de
impulsos, de modo que cada hemisfério influencia o lado oposto do corpo, para
contrabalançar qualquer tendência ao desequilíbrio ou à divisão.
Desse modo o lado direito, que costuma ser o lado ativo do corpo, é controlado
pela metade lógica do cérebro, e o lado mais passivo é estimulado pelo hemisfério
criativo.
Existem, é claro, pessoas que são canhotas, que usam o lado esquerdo do corpo
mais ativamente, mas isso indica um tipo de processo duplo de
contrabalanceamento que é bem ilustrado pelo exemplo de Leonardo da Vinci, que
não apenas era canhoto como também escrevia como em um espelho.
A razão para se ser assim deve estar, provavelmente, mais na psique que no corpo,
e nisso temos a relação entre o Daat do corpo e o Yesod da psique como o fator
crítico na maneira como enxergamos e reagimos ao mundo exterior.
No nascimento, o Daat, ou Conhecimento do corpo, é unido ao Yesod, ou ego, da
psique.
Isso significa que as impressões vindas do mundo exterior, através dos sentidos,
chegam ao ego e começam a esquematizar uma imagem da realidade externa.
Primeiramente, o tato é o sentido mais importante, pois através dele pode-se tocar
e receber uma impressão direta do físico.
Esse sentido-terra é servido por milhares de células na superfície do corpo, que
captam temperatura, umidade, pressão e uma dúzia de outros pequenos pedaços
de informação sobre tudo o que está acontecendo com a pele.
Algumas áreas do corpo, tais como as mãos e a face, têm uma concentração de
células tácteis, para que essas partes do corpo possam reagir rapidamente às
circunstâncias e aprender a responder aos perigos e delícias do mundo físico.
Sensores internos, por exemplo, são encontrados na boca, e reagem ao que quer
que tenha sido colocado nela pelo instinto de alimentar o corpo.
Desse modo, a primeira imagem que o recém-nascido constrói no seu ego Yesódico
está relacionada ao prazer, à dor e à alimentação.
Esses impulsos instintivos de buscar o conforto, evitar o desconforto e satisfazer-se
são rapidamente absorvidos pelo Yesod da psique, quando o Daat do corpo traduz
as impressões dos sentidos que vêm do Malkhut da psique, e quando recebe os
dados dos sistemas nervosos e dos órgãos dos sentidos do Tiferet, do Yesod e do
Malkhut do corpo.
O paladar e o olfato, sentidos intermediários de terra-água e água-terra, expandem
a imagem que está sendo focalizada no Yesod do recém-nascido.
O sabor do leite e da pele da mãe, juntamente com o seu cheiro, constroem
lentamente uma imagem centrada no ego para a psique recentemente encarnada.
Gradualmente, as memórias do mundo pré-natal são submergidas pelo aprendizado
de como sugar o seio, conseguir mais calor e absorver o máximo de apoio possível
da mãe, pois não se pode manter no que parece ser um meio hostil, onde, por
exemplo, ou a fome está contraindo o seu estômago ou tem os intestinos repletos.
O calor e o amor contrabalançam o frio e o medo, enquanto sons estranhos e
visões desconhecidas impressionam o pequeno mundo que vai-se lentamente
formando na tela do Yesod da consciência do ego.
O mundo exterior, em estado de constante mudança, deve ser muito ameaçador
para o recém-nascido, cujo único refúgio, inicialmente, é o sono.
Por um certo tempo, a mãe pode aliviar as tensões corporais, e funcionar como um
ego substituto, pois o Yesod do bebê não está ainda suficientemente desenvolvido
para perceber a diferença entre os eventos exteriores e os interiores.
O ego é o sentimento de "mim" e "meu".
Isso é bastante diferente de "Eu", que é mais objetivo e será reservado para o
termo "Si-Mesmo", que examinaremos mais tarde.
O ego surge da experiência do Mundo e da sua síntese nos limites da psique
inferior.
Isso começa com os sentidos, no momento que o corpo e o ambiente começam a
formar uma imagem da realidade externa no Daat físico e no Yesod psicológico do
ego.
Vejamos um exemplo de como funciona esse processo.
Um bebê enfia o dedo em uma xícara de café quente, enquanto está sentado no
colo de alguém, e descobre que isso dói.
Isso acontece porque os nervos aferentes informam o sistema nervoso autônomo
de que a pele está sendo queimada, e um circuito duplo de nervos aferentes fazem
com que a mão se retraia.
Essa experiência com o café quente será passada pelo Yesod corporal do sistema
nervoso autônomo para o Tiferet físico do sistema nervoso central, que informa o
Daat do corpo, o qual vai, por sua vez, comunicar ao Yesod da psique que dedos no
café quente doem.
Tudo isso acontece ao mesmo tempo que as tríades físicas inferiores dos nervos e
dos músculos lidam com a situação prática.
Enquanto isso, o Yesod do ego está arquivando a experiência futura na memória.
Pelo mesmo processo, em um nível mais complexo e sutil, as formas visuais, tais
como o rosto humano, são lentamente diferenciadas em mãe e não-mãe, e depois,
eventualmente, em pai e outras pessoas à medida que as experiências físicas, e
mais tarde psicológicas, focalizam e integram-se à consciência do ego, ainda
que seja por uma fração de segundo de cada vez.
Tais momentos de cognição deixam uma marca na memória que pode então ser
relembrada e usada para reconhecer o que foi aprendido.
Cabalisticamente, considera-se que a memória ocorre tanto no corpo como na
psique.
Antes de mais nada, estão todas as recordações das vidas anteriores,
profundamente incrustradas na psique, criando uma matriz geral; depois vêm
aquelas adquiridas nesta vida, criadas pela interação da pessoa com o mundo.
Estas são compostas de inúmeras impressões dos sentidos e pelo ponto de vista
psicológico formado por uma determinada visão do ambiente e da relação do
indivíduo com este último.
A imagem é mantida parcialmente nas milhões de células do corpo, particularmente
nas do cérebro, onde cada célula tem pelo menos 60 mil conexões que funcionam
como bancos de memória, e parcialmente na psique, que armazena cada momento
de consciência em sua vasta biblioteca de complexos emocionais e sistemas de
conceitos.
O argumento de que o cérebro físico retém toda a memória é invalidado pelo fato
de que algumas pessoas com o cérebro severamente danificado podem ainda
funcionar, embora algumas atividades motoras e memórias possam estar
prejudicadas ou perdidas.
O cérebro de um homem que só tem consciência do mundo físico pode sentir que
ele é o local da sua mente, mas a consciência, como veremos, não reside nele.
O processo de aprendizagem do uso dos sentidos e da coordenação às suas
descobertas não somente continuam de momento a momento como também
aprofundam a percepção geral da psique com relação ao mundo exterior.
No entanto, isso é grandemente influenciado por dois fatores, que são o equilíbrio
específico da psique e as condições particulares em que uma pessoa se encontra.
O primeiro é o resultado de muitas vidas, somado ao temperamento que o
indivíduo recebe ao nascer, e o último é o tipo de família e de cultura em que o
indivíduo vive.
Esses fatores, juntamente com os genes do corpo e da sua inclinação para esta ou
aquela tendência física, criam um condicionamento que, necessariamente, afeta a
maneira pela qual a experiência é interpretada.
Um exemplo disso são as diferentes visões que os índios e colonos brancos tinham
dos Montes Negros em Dakota, no século passado.
Para uns, essas montanhas eram uma área sagrada e compartilhada por todos,
dedicada ao Grande Espírito; para outros, eram um sertão habitado por selvagens e
cheio de ouro.
Essas percepções opostas do mesmo lugar são baseadas em impressões e atitudes
formadas lentamente desde a infância, que preenchem a imagem Yesódica de como
as coisas são.
A maioria das pessoas esquece a própria subjetividade.
Para contrabalançar isso, a psique tem que aprender o que é objetivo, para ser
capaz de viver no mundo físico.
Nesse ponto, devemos começar a diferenciar entre as habilidades físicas e os
padrões psicológicos que são aprendidos à medida que o recém-nascido vai
lentamente estendendo o seu raio de ação.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 16

Orientação
Do mesmo modo que o Daat do conhecimento corporal e o Yesod da pesquisa
geram o ego e sua visão de Mundo pela sua interação, o Binah e o Hokmah do
organismo físico também se relacionam com o Hod e o Nezah da psique nas
funções motoras e sensoriais, e o Malkhut da psique recobre o Tiferet físico do
sistema nervoso central.
Assim, a experiência é processada pela cooperação de dois sistemas.
Vejamos, por exemplo, o ato de comer uma maçã.

Os dentes e a língua dos órgãos sensoriais testam a consistência e o sabor da fruta,


após esta ter sido vista e muitas vezes cheirada para saber se está madura.
Esse procedimento é inteiramente inconsciente e automático.
Depois de passar pelo Malkhut dos órgãos sensoriais, a maçã é então trabalhada
pelos mecanismos interiores do corpo, que a reduzem a uma polpa que pode ser
absorvida.
Essas são as operações instintivas ou sub-conscientes do Nefesh, ou inteligência
vital, que cuida do corpo.
Mas, se um verme for descoberto pela língua, desencadeia-se imediatamente uma
reação.
De repente, surge uma imagem na mente, e todas as associações com vermes
chegam à percepção do ego.
Acontece uma mudança do sistema nervoso autônomo para o central, e o pedaço
de maçã, juntamente com o seu habitante, é atirado para longe, em uma mistura
de reação corporal e consciência do ego.
No caso de um recém-nascido, isso não aconteceria, pois a criança não tem
nenhuma associação com vermes.
O Hod da psique, como acumulador de experiências, certamente registraria a
diferença entre o verme e a maçã, mas a imagem Yesódica ainda não está
presente, de maneira que o princípio de Nezah não responderia.
É por isso que crianças muito novas engolem pedras, moedas e muitos outros
objetos que revoltariam um adulto.
A discriminação tem que ser aprendida.
O aprendizado é um processo de recebimento de informação pelo Hod da psique,
de interpretar a significação dessa informação com relação à imagem do mundo
mantida pelo Yesod da psique, e de responder a ela de maneira apropriada, através
do Nezah da psique, ou reação motora.
Para chegar a essa situação, são necessárias muitas fases de crescimento físico e
de desenvolvimento psicológico.
Examinemos uma seqüência particular que foi detectada.

Segundo os descobrimentos de um pesquisador, há seis estágios diferentes de


inteligência moto-sensorial.
Diz-se que o olho pode captar o estímulo de um único fóton, o que equivale a
enxergar a luz de uma vela a 45 quilômetros de distância, que o ouvido pode
detectar o tic-tac de um relógio a sete metros em um cômodo em silêncio, e que as
papilas gustativas podem perceber umas poucas moléculas, ou o equivalente a uma
colher de chá de açúcar dissolvida em nove litros de água destilada; o nariz pode
também detectar umas poucas moléculas, o que é o mesmo que uma gota de
perfume espalhada por uma casa de três cômodos, e o tato pode informar-nos que
uma asa de abelha, caída de uma altura de 90 centímetros, acaba de tocar a nossa
face.
Com esse equipamento altamente sensível, o recém-nascido apreende, mas não
pode ainda compreender, o ambiente em que se encontra.
A primeira fase a ser definida foi chamada de "reflexos ativantes".
Nessa fase, a inteligência moto-sensorial do recém-nascido, ou princípios de Hod e
Nezah, operam simplesmente como funções, tais como sugar e mexer os braços e
as pernas.
Os objetos não têm significado, nem existência separada, e não há nenhum sentido
de espaço e tempo, além daquilo que está presente.
Não existe noção de causa e efeito.
A segunda fase, chamada de "reações circulares primárias", é quando o recém-
nascido começa a coordenar ações casuais, como, por exemplo, quando sente
fome, leva acidentalmente os dedos à boca, e tenta obter sustento sugando-os.
Os objetos começam a ter alguma significação, embora ainda não tenham sido
dispostos em um arranjo significativo.
O terceiro estágio, conhecido como "reações circulares secundárias" ocorre por
volta dos seis meses de idade, quando a criança começa a interessar-se por objetos
específicos, e a fazer movimentos intencionais, como tocar um brinquedo.
Nesse ponto surge uma apreciação do espaço, juntamente com um sentimento de
poder, quando o bebê se dá conta de que, mexendo-se de uma determinada
maneira, consegue que lhe dêem um objeto.
O reconhecimento do tempo surge nesse ponto na forma de incidentes
memoráveis, tais como ser alimentado, ou ir e vir.
O quarto estágio, chamado de "coordenação das reações circulares secundárias",
que começa por volta do fim do primeiro ano, inicia a combinação de vários círculos
de percepção e de resposta em operações específicas para com isso obter um
resultado desejado.
Novas combinações são desenvolvidas, e os acontecimentos podem ser
relacionados uns aos outros, como, por exemplo, alcançar um objeto que está
oculto sob uma almofada.
Nesse ponto a memória começa a ampliar-se, embora o espaço e o tempo ainda
não sejam entendidos.
No quinto estágio, chamado de "reações circulares terciárias", a inteligência moto-
sensorial está suficientemente sofisticada para poder usar as habilidades que a
criança já tenha para elaborar operações tais como utilizar um brinquedo como um
ferramenta para alcançar outro.
Mais ou menos nessa época, o interesse da criança pela natureza das coisas
aumenta, e ela começa a manusear e examinar com mais atenção os objetos.
A consciência espacial se aprofunda à medida que o bebê nota as relações entre os
objetos e o tempo começa lentamente a preencher as lacunas da sua relação com o
mundo externo e com suas próprias ações.
Examinemos isso desde o ponto de vista cabalístico.

Até esse ponto, a combinação do Hod sensorial e do Nezah motor, juntamente com
o sistema nervoso central e com o Malkhut da psique, vai lentamente construindo
um sistema funcional, à medida que o ego, em Yesod, concentra todas as
experiências em uma imagem coordenada do mundo da criança.
Isso pode acontecer porque as tríades da ação, pensamento e sentimento
psicológicos estão também sendo acionadas pela experiência, de modo que é
adicionada uma dimensão interior à proficiência mecânica já adquirida.
Por volta do décimo oitavo mês, a criança entra na sexta fase, chamada de
"projeção de novos esquemas em combinação com a atividade mental".
Essa fase representa uma profunda mudança, de uma técnica meramente física ou
Assyática de tentativa e erro para as manifestações internas ou Yeziráticas.
O ego Yesódico, tendo desenvolvido suficiente capacidade para trabalhar somente
com imagens, pode agora lidar com formas no abstrato.
Isso proporciona uma capacidade perceptiva que os sentidos não podem ter, como,
por exemplo, deduzir que um objeto está oculto por outro sem nunca ter sido visto
que o pusessem lá.
Isso pertence a uma ordem diferente de percepção.
A capacidade Yezirática de cogitar sobre os problemas até resolvê-los vem de poder
considerar o que pode não ser fisicamente visível, e isso requer a habilidade de
identificar causa e efeito, e de recordar acontecimentos passados para relacioná-los
ao futuro.
É nesse ponto que o ser humano começa a ultrapassar o nível da inteligência moto-
sensorial, comum a todos os animais superiores, embora os psicólogos
desenvolvimentistas mais mecanicistas não concordem com isso, pois apenas
consideram o Mundo de Assyah.
Alguns pesquisadores, por exemplo, sustentam que a criança aprende por
condicionamento, isto é, responde a um estímulo que, se for repetido com
freqüência suficiente, estabelece um padrão.
Trata-se, dizem eles, de condicionar reflexos naturais.
Essa opinião vai mais além, afirmando que, à medida que a criança cresce em um
determinado ambiente, o seu temperamento, criado pela sua constituição genética,
vai sendo condicionado para transformá-la neste ou naquele tipo de pessoa.
Em oposição a esta visão behaviorista, está o que é conhecido como "nativismo",
que argumenta que a criança tem inerentemente todo o conhecimento de que
necessita, e que este precisa apenas ser ativado pela experiência.
Tal conhecimento inato pode ser observado nas crianças em toda a parte.
A realidade encontra-se a meio caminho entre essas duas correntes, e muitos
psicólogos infantis combinam elementos de ambas para formar o que, algumas
vezes, é chamado de "estrutura cognitiva".
A visão cabalística é muito mais ampla, pois é preciso considerar aquilo de que a
maioria dos psicólogos não se lembra, ou seja, tudo o que acontece antes que a
criança nasça.
Primeiramente, a psique recentemente encarnada tem já uma grande experiência,
mas esta pode ser rapidamente recoberta pelo aprendizado de como viver em um
mundo de criança.
Isso, contudo, não apaga o nível inato de desenvolvimento.
Podemos observar isso em certas crianças, que avançam com grande rapidez e
estão bem à frente da média, aprendendo a falar muito cedo e sendo notavelmente
perceptivas.
Há casos excepcionais, como o de Jean Cardiac, um prodígio do século XVIII, que
conhecia o alfabeto aos três meses e podia falar a sua língua materna, francês,
quando fez um ano.
Quando completou seis anos, falava inglês, latim, grego e hebraico, antes de
falecer com sete anos.
Isso sugere mais do qué simples condicionamento ambiental ou conhecimento
instintivo inerente.
Outro exemplo notável nasceu em Lubeck, em 1721.
Essa criança podia citar a Bíblia e, com três anos, discorrer sobre a história
mundial.
Registra-se que o rei da Dinamarca, que se recusava a acreditar que tal coisa fosse
possível, ficou estarrecido com a criança, que também morreu cedo, de acordo com
sua própria previsão, aos quatro anos.
Apesar de tais casos extremos serem raros, exemplos de crianças notavelmente
dotadas, como Mozart, que tocava e compunha com quatro anos, são às vezes
encontrados.
Mozart estava, claramente, nutrindo-se da experiência de vidas passadas.
Essa dimensão, somada aos fatores da base genética e do ambiente social,
juntamente com o enfrentamento de um novo corpo, deve ser levada em
consideração.
Visto nos termos da Árvore, temos o gradual engrenamento dos organismos físico e
psicológico, à medida que as habilidades práticas e a capacidade de pensar, agir e
sentir entram em relação umas com as outras mediante os ofícios do ego.
No entanto, essa interpenetração da face inferior da psique com a face superior do
corpo nem sempre é coordenada corretamente, e, algumas vezes, não tem
nenhuma coordenação, e nesses casos o desenvolvimento é retardado.
Isso é observado nas crianças autistas, nas quais os processos da forma da psique,
que funcionam como um molde que o corpo deve preencher, não estão completos.
Outro exemplo de um caso em que a conexão não está firme é o fenômeno da
morte no berço, quando a criança morre sem razão física aparente.
Isso sugere que o indivíduo em questão foi impedido de continuar encarnado por
motivos que nem sempre são óbvios para os pais.
Um reconhecimento dessa situação é encontrado entre os povos primitivos, que
não dão nome à criança até que esteja definitivamente estabelecido que ela vai
viver.
Na tradição judaica, a razão cabalística para a circuncisão não é apenas dar um
nome à criança após terem-se passado sete dias como também celebrar a união do
corpo com a psique através de um operação simbólica de Yesod, que é
tradicionalmente associado aos órgãos genitais.
Esse ato cerimonial também confere uma identidade pessoal e familiar à criança,
além de admiti-la na comunidade de Israel.
Visto dessa maneira, o ego é reconhecido como o elemento pessoal que diferencia a
pessoa das demais, no sentido de que é a imagem pela qual somos conhecidos.
Isso é importante para o ego, que é a combinação do Daat do corpo com o Yesod
da psique e todas as trilhas e tríades que lhe são adjacentes.
É também o espelho não-luminoso, tal como é chamado na cabala, mediante o qual
orientamos os mundos interior e exterior, e nós mesmos.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 17

Formação do Ego
O complexo Daat-Yesod do ego, localizado no centro da tríade eletromagnética do
corpo e da tríade do pensamento, ação e sentimento da psique inferior, pode ser
visto como um elemento que facilita tudo aquilo que passa entre os dois níveis da
realidade.
Isso vai desde as mais grosseiras impressões sensoriais e reações motoras,
passando pelo trabalho comum da atenção, até as mais refinadas e vagas
influências dos mundos superiores.
Durante o período da infância, o ego ainda não está formado e, portanto, não pode
diferenciar entre experiências, de maneira que tudo fica misturado até que uma
imagem reconhecível do mundo exterior começa a surgir.
Como já vimos, essa imagem é construída pela experiência sensual e pela resposta
motora, que são gradualmente transformadas em um conjunto coerente de
manobras que servem para resolver problemas práticos e começar a relação com o
mundo exterior.
A criança muito pequena carece quase totalmente de qualquer sentimento de "eu"
porque tudo, dos movimentos viscerais até a passagem do dia e da noite, é
relacionado a uma impressão geral da qual a criança é o centro.
Com o tempo, essa impressão começa a diferenciar-se em "eu" e "não eu".
O "eu" surge do fato de que, quando a criança aprende a viver no mundo físico,
começa a responder psicologicamente.
Em termos cabalísticos, a tríade da ação começa a ser preenchida por uma série de
fórmulas de como fazer as coisas, enquanto a tríade do pensamento desenvolve
métodos e ferramentas de pensamentos e a tríade do sentimento aprende a
experimentar diferentes humores.
Todos esses processos acontecem no nível Yezirático e, desse modo, o que se
observa é um conjunto de formas gradualmente interligadas que apóiam, absorvem
e se nutrem do que passa pelo ego.
Esses acontecimentos, tais como ser queimado por uma chama, não são apenas
enfrentados pelos sistemas motores e sensoriais dos pilares laterais como também
são arquivados na tríade da ação como aquilo que não se deve fazer, na tríade do
pensamento com algo ruim, mas interessante, e na tríade do sentimento como uma
coisa assustadora mas excitante.
Inúmeras impressões do mundo exterior são derramadas no ego, mas apenas
aquelas de algum interesse são lembradas.
Isso não quer dizer que muitas coisas não sejam apreendidas inconscientemente.
A tríade Hod-Nezah-Malkhut da psique absorve uma enorme quantidade de coisas
do ambiente da criança, que são arquivadas diretamente nas tríades emocional e
conceituai, para servirem como experiência de fundo, de modo que uma criança
marroquina faz uso de uma visão cultural totalmente diferente da de uma criança
da Espanha, logo do outro lado do Estreito de Gibraltar.
Cada uma delas apreende muito dos costumes e valores do Islã e da cristandade,
sem terem consciência de mais que uma série de breves lampejos de consciência,
que se acumulam tanto na mente individual como na coletiva, além do limiar de
Hod-Nezah.
À medida que o ego cresce, vai desenvolvendo um sentimento de continuidade,
através da memória.
Isso significa que as formas que cada experiência gera começam a ser
armazenadas na psique com um tipo qualquer de ordem.
Assim, ao mesmo tempo que as primeiras experiências criam determinados
pensamentos, sentimentos e ações que não se relacionam uns aos outros, as que
vêm depois começam a ser conectadas pela associação.
Inicialmente, esses aglomerados de memória são muito dispersos, pois a criança
não tem ainda capacidade para coordenar sua psique.
Entretanto, estando a mente baseada nos Sefirot, uma inevitável ordem começa a
prevalecer, enquanto a psique procura o seu equilíbrio e se desenvolve.
Dessa maneira, as experiências negativas ou restritivas acumulam-se no lado
esquerdo da Arvore psicológica, e as positivas e estimulantes no lado direito.
As que têm uma dimensão conceituai são atraídas para as tríades intelectuais,
enquanto aquelas de natureza emocional são congregadas nas suas respectivas
tríades ativas e passivas.
Esses grupos de complexos baseiam-se em experiências nucleares que formam
grandes influências na vida das pessoas, influências estas que, por sua vez, se
relacionam a um dos Sefirot que formam os princípios arquetípicos.
Voltaremos a isso mais tarde.
Através da memória, que se baseia em tudo o que tenha passado pelo ego, a
criança aprende a antecipar o futuro.
Devagar, mas com segurança, o ego reconhece quando deve e quando não deve
fazer certas coisas.
De uma massa de coisas incompreensíveis que foram experimentadas, surge a
percepção de que se podem obter determinados resultados se o ego controlar os
seus impulsos, pois o tempo lhe ensinou que fazer isto ou aquilo no momento
errado pode ser contraproducente.
Lentamente, a confusão dos primeiros meses diminui, à medida que os ritmos
físicos, como a alimentação e o sono, proporcionam ao ego um sentido de tempo, e
uma imagem aperfeiçoada do mundo, especialmente da mãe, fornece uma noção
de espaço.
Quando o acúmulo de pensamentos, sentimentos e ações começa a integrar-se, a
criança começa a reconhecer a sua situação de desamparo e dependência.
A raiva que se observa nos bebês, deve-se dizer, pode não ser sempre devida às
necessidades e humores infantis.
Pode ser a frustração de uma psique madura que, periodicamente, se dá conta
daquilo por que tem que passar antes que a reconheçam como adulta.
Como observou um grande cabalista, "Nasci velho".
Muitas pessoas passam por essa experiência na primeira infância.
Contudo, todos os processos da encarnação devem ser atravessados,
especialmente o do desenvolvimento do ego, que é essencial se se quer ter um
bom desempenho no Mundo da Ação.
É por isso que, na tradição cabalística, o ego não é considerado mau, mas algo que
deve ser treinado para ser um bom serviço.
O processo de aprender o controle dos impulsos instintivos faz parte da educação
do ego, e isso é válido não apenas para a infância mas também para todos aqueles
que estão no caminho espiritual, porque muitos desses impulsos tornam-se
inconscientes e, inadvertidamente, influenciam a nossa visão de nós mesmos e do
mundo.
Na criança, os limites são impostos pelos pais, pois a psique não tem ainda
suficiente experiência para poder observar a si mesma.
A diferenciação entre o ego e o Si-Mesmo, ou entre Yesod e Tiferet, vem muito
mais tarde.
Até esse momento, os pais atuam no lugar do Si-Mesmo.
Assim, os pais representam os modos do comportamento útil, mesmo que, em
privado, façam diferentemente, de maneira a proporcionar à criança um modelo
mediante o qual esta pode adaptar-se à família e à sociedade.
Esse processo de introjeção, tal como é chamado, é observado desde muito cedo
pelo ego em crescimento, que o copia em formas aceitáveis de ação, de sentimento
e de pensamento, de modo a poder assimilá-lo e alcançar o que necessita.
Além de aprender como comportar-se no mundo exterior, o ego começa a
desenvolver também uma capacidade interior.
Quando a fase de pensamento e de imaginação abstratos é alcançada, torna-se
possível a manipulação dos símbolos.
Inicialmente, dizem, o indivíduo encarnado tem uma memória bastante clara da
época pré-natal.
Isso nunca é esquecido, mas encoberto pelas impressões sensoriais da nova
encarnação e por todos os problemas de adaptação.
Desse modo, deve haver um período em que as memórias mais antigas e as mais
novas se misturam, e tal período parece ser enfrentado pelas crianças com sua
imaginação particularmente viva.
Diversas crianças pequenas, por exemplo, levam seus sonhos a sério e, quando
acordadas, muitas vezes afirmam ver e conversar com seres que os adultos não
podem perceber.
Isso pode ou não ser verdade, mas, seja o que for, é certamente real para a
criança.
Do ponto de vista cabalístico, esses fenômenos acontecem porque o Yesod é a
ponte entre dois mundos, e a sua tela de consciência é concebida de modo a poder
mostrar imagens de ambos.
Por exemplo, a impressão sensorial de um cômodo, após ter sido processada pelo
corpo e pelo cérebro, não passa, à sua maneira, de uma imagem muito limitada, ao
passo que as imagens dos sonhos e trabalhos de arte têm às vezes um poder maior
que qualquer coisa encontrada no mundo físico, especialmente nos pesadelos ou
nos filmes.
Em um adulto maduro, o ego pode separar as duas realidades.
No caso de uma criança que ainda não consegue ver a diferença, o cuidado dos pais
fornece tanto a orientação como a proteção.
Para o adulto que não aprendeu a distinguir a fantasia da realidade, a vida pode ser
muito dura, com ambições impossíveis que são frustradas e relacionamentos
idealizados que desmoronam.
Se essas lições não são apreendidas, o ego maduro pode regredir à neurose ou à
psicose, de volta ao estágio infantil em que ficou preso, ou "fixado", quando estava
oscilando entre os dois mundos.
Na formação normal do ego, os fracassos e sucessos da adaptação à vida no corpo
criam uma identidade forte e resistente.
Não é fácil aprender a lidar com a fisicalidade, mas a luta pela sobrevivência
desenvolve muitas habilidades, atitudes e abordagens úteis, que servem tanto para
a realidade externa como para a interna.
Em alguns casos, as condições são tão duras que o ego nunca cresce para além da
reação infantil de sobrevivência que se encontra com freqüência nas famílias
destituídas.
Por outro lado, se a pessoa é superprotegida pela riqueza ou pelo privilégio, pode
desenvolver um ego mimado e infantil que só reconhece as próprias necessidades.
Esses exemplos, contudo, trazem consigo um fator cármico que também se
encontra nas situações de maior normalidade, nas quais a imagem Yesódica do
mundo é um equilíbrio entre o nível de desenvolvimento de um indivíduo e aquilo
que ele pode enfrentar.
Por exemplo, uma criança em idade escolar não tem, em geral, muita consciência
da situação politica internacional, mas pode enfrentar com êxito uma crise surgida
no pátio de recreio, ou num exame.
Disso emerge uma imagem da identidade baseada no que se espera da criança na
sociedade em que vive, e como isso é enfrentado.
Dessa maneira, costuma existir na escola uma hierarquia para os esportes, para os
dotes artísticos, desempenho escolar e uma dúzia de outros subsistemas, nos quais
os indivíduos se encontram em uma situação de superioridade ou de inferioridade.
Esse papel é uma imagem do ego que pode ou não coincidir com o que a pessoa é
em um nível mais profundo, mas é o que a pessoa assume e projeta, de maneira a
assegurar um lugar no mundo.
Além disso, essa personalidade assumida pode variar de acordo com as
circunstâncias, de modo que, em uma situação, a personalidade ou "máscara" é
agressiva, em um grupo no qual o indivíduo é predominante, mas subserviente em
casa, onde é o menor de muitos irmãos.
O ego de uma criança em crescimento é suscetível a muitas influências.
Com as condições apropriadas, pode tornar-se um perfeito servidor, e fundamento
de uma vida.
Sob condições de extrema dureza ou facilidade, pode ficar aleijado.
Aqui, como já foi dito, temos que levar em conta a sina.
Ninguém pode culpar inteiramente a situação em que nasceu.
Há pessoas que se desenvolvem bem nos ambientes mais difíceis, e outras que não
conseguem aproveitar situações ideais, não porque fossem boas demais, mais sim
porque eram preguiçosas.
Isso introduz o elemento recorrente da escolha.
Os behavioristas diriam que não há nenhuma escolha, e os "nativistas" poderiam
dizer que o conhecimento inerente remove a decisão.
O cabalista vê a situação como a interação das leis de Assyah e de Beriah, tendo no
meio de ambos a psique, em Yezirah.
O livre-arbítrio é o princípio da adaptação, baseado naquilo que o ego apreende em
seu espelho de duas faces da consciência externa e interna.
Antes, porém, que o ego tenha capacidade de fornecer uma imagem clara e sem
distorções, muitos outros estágios têm que ser atravessados até a maturidade,
pois, até aqui, o Yesod ainda é completamente infantil em sua percepção da
realidade e na sua própria identidade.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 18

Identidade
Nos primeiros dois anos de crescimento corporal e de desenvolvimento da psique,
podemos observar como o indivíduo aprende a viver com limites físicos, à medida
que estes, gradualmente, ampliam a sua capacidade moto-sensorial de ação e de
cognição.
Por volta do décimo terceiro mês, a maior parte dos bebês já consegue ficar de pé
e, algumas semanas mais tarde, andar.
Novas habilidades aparecem a cada dia e, com elas, o mundo da criança vai
lentamente reduzindo-se a uma existência centrada no ego, na qual tudo é
relacionado ao que a criança pensa, sente e faz.
Essa fase de "narcisismo" é crucial, porque constrói uma imagem corporal Yesódica
que proporciona ao indivíduo um sentimento de existência independente, embora
isso seja na verdade uma ilusão.
Para a criança, isso não tem importância, pois não é responsável por si mesma.
Na realidade, tal egocentricidade é necessária para que a criança possa descobrir o
que é e onde está com relação à "outridade", tal como é chamado, às vezes, o
resto do Mundo.
Na criança dita normal, a transição de recém-nascido para uma criança que começa
a andar marca não somente o começo de um real domínio sobre o corpo e de uma
exploração mais profunda do mundo que a rodeia como também assinala um
alongamento do cordão umbilical que a liga à mãe.
Nesse ponto, a tendência narcisista de querer as coisas a seu modo entra em
conflito com a necessidade e a dependência da criança com relação à mãe.
Essas tensões podem, em certas circunstâncias, acumular-se até ensejar uma
grande crise, uma das muitas que um indivíduo tem que enfrentar em pontos
críticos do seu crescimento.
Se a psique está bem equilibrada, a Árvore pode-se dar ao luxo de ser flexível, e
adaptar-se.
Caso não esteja, por estar a Árvore muito deslocada para o lado da estrutura, cria-
se um esquema mais rígido nos complexos emocionais e conceituais em formação.
Se, ao contrário, a Árvore estiver inclinada para o centro, em direção ao pilar
dinâmico, pode ser semeada uma tendência à falta de controle e à impulsividade na
psique em crescimento.
Essa tendência, mesmo em uma personalidade dócil, pode emergir em uma crise
mais tarde, quando uma regressão a esse estágio pode ocorrer para evitar a
realidade.
O alcoólatra que volta à garrafa é um exemplo disso.
Nesse ponto, devemos notar que, ao mesmo tempo que a psique de uma criança é
imatura no nível da face inferior, as suas faces média e superior ainda são adultas.
Isso é revelado por lembranças da infância em que as pessoas sabiam o que estava
acontecendo à volta delas, apesar de, na época de que se lembravam, terem sido
necessariamente crianças inarticuladas.
Essa visão adulta vem do Si-Mesmo, isto é, do Tiferet, que supervisiona a psique
desde o seu ponto pivotal na Árvore.
Na maior parte dos casos, a memória das vidas passadas e das relações anteriores
com os membros da família atual é esquecida, ou seja, torna-se inconsciente.
Isso, contudo, não apaga as reações a esses indivíduos.
Isso pode ser visto claramente nas crianças pequenas, antes que adquiram um ego
bem desenvolvido, que contenha aquilo que elas pensam e sentem a respeito de
certas pessoas, e o que gostariam de fazer com elas.
Nos primeiros dias da psicologia freudiana, muitos ficaram chocados com a noção
de sexualidade infantil.
A idéia de uma criança que desejasse sexualmente a mãe e odiasse o pai ou
qualquer outro rival era inaceitável para a sociedade do século XIX, que
considerava a psicologia como algo não científico.
Hoje em dia, tal visão não é tão chocante, pois vemos a sexualidade em um clima
de aceitação criado, ironicamente, pelo trabalho de Freud.
Aquilo que, no entanto, não é levado em consideração, é o fato de que a criança
pode estar expressando um desejo adulto mediante um corpo infantil que não tem
as restrições de um ego maduro.
Ao mesmo tempo que um corpo de bebê pode ser, sexualmente, completamente
inadequado, a psique adulta que o habita não é, de modo que as relações entre os
filhos e as mães, e entre as filhas e os pais, com todos os seus complexos de Édipo
e de Electra tão apreciados pelos freudianos, podem ser bem mais que a etiqueta
de sexualidade infantil que lhes foi dada.
Vista cabalisticamente, a psique infantil é uma entidade que está a meio caminho
entre dois mundos.
Ela ainda reage, mesmo que seja inconsciente, à relação cármica que possa ter tido
com a família em que nasceu.
Ainda que não tenham tido nenhum tipo de relacionamento anterior, uma relação
de tanta dependência deve, forçosamente, criar uma atração sexual que com
freqüência encontra resposta nos pais e nas mães, que não tratam seus filhos do
mesmo sexo da mesma maneira que tratam os do sexo oposto.
Enquanto, em um nível, isso possa ser sem dúvida atribuído aos processos normais
de paternidade e de maternidade, em outro nível torna-se às vezes muito evidente
a exclusão do genitor rival dessa intimidade.
Como observou um pai muito distraído a respeito de sua relacão com a filha muito
pequena, "É como ter um caso amoroso".
Muitos dos velhos tabus que surgiram em todas as culturas para evitar tais coisas
são devidos ao reconhecimento do elemento adulto na criança.
A sedução de crianças e o incesto são mais comuns do que é geralmente admitido,
e nem sempre é iniciativa do adulto.
O relacionamento entre a criança e seus pais, e a maneira como eles resolvem
essas tensões sexuais têm uma profunda influência sobre a formação do ego, e
sobre a atitude deste em relação aos princípios masculino e feminino.
Fatores tais como uma psique masculina em um corpo feminino e vice-versa
exercem necessariamente uma influência, como também o fazem aqueles fatores
que envolvem relações cármicas prévias e presentes, que devem ser resolvidas.
A questão da sexualidade é tradicionalmente associada a Yesod, tanto na Árvore
corporal como na psicológica, no sentido de que a pessoa apresenta ao mundo uma
imagem masculina ou feminina.
Além dessa questão, está também a da geração da identidade, que é formada pelos
processos de introjeção e de projeção.
No primeiro processo, a faculdade Yesódica do ego de apreender imagens observa e
incorpora, desde o nascimento, as várias qualidades dos pais.
Isso pode ser visto nas efêmeras semelhanças a um ou outro dos pais que a criança
assume durante o crescimento de sua personalidade.
É certo que existem características genéticas particulares, mas o que se nota com
maior freqüência é o exato arremedo das expressões e dos movimentos dos pais,
que revela uma extraordinária capacidade de imitação.
A imitação de uma pessoa amada é, obviamente, muito natural, mas também o é a
tendência a ecoar aqueles que se teme e odeia, com o propósito de adquirir o poder
deles.
Essa característica é parte do processo altamente imaginativo que tem lugar no
jovem Yesod, que então projeta o que foi observado nas suas brincadeiras de
criança aprendendo a ser adulto.
Tais processos de introjeção e projeção não acontecem somente na estrutura mais
superficial do ego, mas também nas profundezas do inconsciente, formando uma
série de complexos feitos de uma infinidade de pequenas experiências.
Somadas ao nível pessoal da identidade estão não apenas as características dos
pais, mas também a aquisição e a absorção de toda uma cultura representada pela
família em que se vive.
Desse modo, o menino judeu lembra-se da cerimônia da Páscoa na casa dos seus
pais, com todos os seus costumes e atmosfera, que formam o modelo para quando
ele tenha a sua própria família, enquanto a menininha inglesa reproduzirá mais
tarde em sua vida cada detalhe de como alguém da classe dela recebe os colegas
profissionais do marido.
Os avós têm um papel particularmente importante na formação de uma identidade
cultural.
O fenômeno da relação especial entre os avós e os netos ocorre porque nenhum
dos dois está tão envolvido nas questões da vida como os pais, de modo que
podem comunicar-se diretamente, de alma a alma.
Essa conexão é fortalecida pelo fato de a criança não estar ainda totalmente
encarnada, enquanto os avós estão desencarnando lentamente.
Assim, é possível para as psiques deles conectar-se com maior facilidade, além de
transmitir e receber nos níveis mais profundos da família e da sua experiência
coletiva.
A figura do velho sábio sempre deixa, na vida da criança, uma profunda impressão
de raízes e destino.
A noção freudiana da sexualidade infantil poderia ser vista, cabalisticamente, como
o período durante o qual o Daat-Yesod do corpo e da psique se unem e coordenam
as tríades dos músculos, dos nervos e dos órgãos com os processos psicológicos da
ação, do pensamento e do sentimento.
Nisso, as fases oral, anal e edipiana pelas quais se passa desde o primeiro até por
volta do sexto ano de vida revelam uma clara progressão da base para o topo da
Árvore.
Primeiramente, o Yesod corporal, ou sistema autônomo, usa os sentidos orais do
tato e do paladar para explorar o mundo; depois, o Tiferet corporal, ou sistema
nervoso central, que é também o Malkhut da psique, aprende a controlar os
processos anais em um ato de vontade.
Finalmente, o nível Daat-Yesod do ego, onde se estabelecem a sexualidade e a
identidade, relaciona-se à conexão edipiana com os pais.
O estágio oral de morder e sugar o seio materno, que é considerado como o
gerador, em alguns casos, de atitudes de sarcasmo e de constante insatisfação,
poderia ser, todavia, considerado sob a luz de um relacionamento passado.
O mesmo poderia ser feito com a batalha anal a respeito do penico, em que a
criança exerce a sua vontade contra a dos pais, no que seja talvez a representação
de um antigo conflito com o poder e a autoridade, trazido para esta vida.
Do mesmo modo, os problemas edipianos dos meninos, e as dificuldades de Electra
das meninas, podem retroceder a sinas esquecidas que têm que ser resolvidas
nesta vida.
Tudo o que foi descrito sobre os primeiros anos deve ser visto contra o pano de
fundo mais amplo da sina.
Demasiados psicólogos focalizam apenas um determinado nível.
Os aristotélicos vêem somente os efeitos, e os platônicos as causas.
Em algum lugar entre as duas visões está a imagem mais abrangente.
Na cabala, levamos em conta a interação de todos os Mundos, embora possamos
estar examinando um ponto ou nível em particular.
Assim, por exemplo, o retraimento da sexualidade infantil para um estado de
latência é vista como a mudança de ênfase do Yesod para o Hod.
O estágio lunar da primeira infância, com o seu ego que não sai da órbita da mãe,
dá em seguida lugar à idade de Mercúrio, ou verdadeira infância, com sua intensa
atividade e insaciável curiosidade.
Nessa fase começa a utilização coerente dos símbolos que se foram acumulando
lentamente no ego infantil. quando os balbucios do bebê transformam-se em
palavras e frases e continuam mudando até chegarem à linguagem.
Façamos agora um traçado desse desenvolvimento desde o seu princípio, de modo
a podermos esclarecer o processo Hodiano de aprendizagem.
Continua
Cabala e Psicologia – Parte 19

Aprendizagem
Durante o primeiro ano de vida, a criança faz muitos barulhos.
Inicialmente, esses barulhos são apenas produtos do uso instintivo das cordas
vocais, registrando prazer ou desconforto; mais tarde, porém, sons diferentes são
utilizados para expressar este ou aquele humor, ou para marcar algum tipo de
comentário sobre a experiência.
Alguns psicólogos chamam isso de "balbucio", e consideram-no como uma espécie
inarticulada de comentário corrente.
Visto cabalisticamente, poderia ser uma torrente altamente sofisticada de
observações, surgida de um esforço do Yesod da psique e do Daat do corpo para
dominar a arte da linguagem.
O fato de que uma psique adulta possa achar complicado operar com um ego
infantil é de difícil aceitação para aqueles que se apercebem apenas do nível físico,
mas muitas pessoas são capazes de lembrar-se de momentos da infância em que
tentavam dizer aos pais, que não paravam de fazer "gugu" em volta do berço, que
eram pessoas que queriam comunicar-se.
Lá pelo fim do primeiro ano, a criança começa a explorar o alcance dos sons à sua
disposição, e o balbucio aumenta.
Foi notado que, durante esse período, são registrados sons de diversas línguas,
como se a criança estivesse aprendendo uma espécie de esquema primordial sobre
o qual todas as línguas se baseiam.
Essa observação não é tão estranha quanto possa parecer à primeira vista, pois
todas as tradições esotéricas afirmam que uma linguagem universal existe.
Alguns dizem que é o sânscrito, outros que é o grego e, é claro, muitos cabalistas
judeus sustentam, juntamente com alguns cristãos, que é o hebraico.
É certo que todas essas línguas são bastante antigas e têm significados radicais de
muita profundidade, mas, na verdade, a fala universal é exatamente o que diz ser,
isto é, está além de qualquer forma particular.
Isso quer dizer que há um nível de existência em que reside a essência de todas as
línguas, pois, como foi observado, todas as milhares de línguas diferentes faladas
na Terra têm a mesma estrutura básica; somente os particulares são diferentes.
Um homem é um homem em qualquer língua, assim como uma mulher é uma
mulher, sejam eles aborígenes ou membros do jet set.
A vida apresenta os mesmos problemas básicos, no deserto ou em um apartamento
de luxo.
Existem termos para todas as situações humanas, embora não para todos os
objetos, pois as tomadas de três pinos não são objetos universais, e é preciso
inventar nomes para elas.
O nível de que estamos falando é essencial, e pertence ao domínio da Criação ou de
Beriah, que com freqüência é chamado de lugar das idéias.
A tradição afirma que os seres angélicos usam essa língua; o mesmo é válido para
os humanos desencarnados.
Assim, quando estes últimos nascem, fazem-no com uma base inerente de
linguagem que é adaptada à língua do grupo em que se encontram, seja ele qual
for.
Tem sido observado que, quando o balbucio alcança um certo nível, ele diminui
repentinamente, como se, à maneira da água pouco antes de ferver, um novo
processo tivesse começado.
Por volta do final do primeiro ano, a criança começa a produzir sons na língua
daqueles que a rodeiam.
Quando atinge os dezoito meses, a criança pode já estar usando várias dezenas de
sons, e no final do segundo ano esses sons podem estar começando a ser
agrupados em pares, em diversas relações do tipo "minha bola" ou "mais bola", o
que indica um desenvolvimento tanto moto-sensorial como do ego.
Além disso, os adultos podem fazer perguntas que serão claramente entendidas,
embora as respostas nem sempre sejam coerentes.
Isso, mais uma vez, sugere que a inteligência da criança é bem maior do que a sua
capacidade de expressão.
Por volta do terceiro ano, a criança domina um modesto vocabulário, e começa a
fazer uso da gramática, à medida que os pensamentos e sentimentos são
expressados com crescente precisão.
Aos quatro anos, a criança já pode construir frases no futuro, revelando o
desenvolvimento da percepção abstrata.
De acordo com alguns, aprendemos por tentativa e erro.
Se uma ação é repetida com bastante freqüência, e evitamos cair nos erros
cometidos no início de uma operação, implantamos na memória um padrão que se
torna uma habilidade na resposta moto-sensorial à mesma situação.
Essa é uma visão muito mecanicista.
Inicialmente, a criança aprende desse modo.
Mais tarde, o processo de aprendizagem pelo discernimento chega quando
problemas de crescente complexidade podem ser resolvidos por experimentação e
pensamento.
Muitos dos primatas superiores podem fazer isso.
O próximo estágio é o da associação, e é aqui que a mente humana passa a outro
domínio, quando o ego Yesódico começa a recolher experiências e a arquivá-las
aleatoriamente na Árvore psicológica.
Primeiramente, essas memórias não estão relacionadas entre si, mas, à medida
que o tempo vai passando, começam a fazer-se conexões, como dar-se conta de
que a areia é encontrada com freqüência na beira do mar, onde se encontram
também conchas e algas marinhas, além de navios e faróis.
Essas imagens ou formas passam por diferentes fases, dos incidentes isolados às
associações de grande complexidade, que começam então a pôr-se em
funcionamento e a desenvolver-se para organizações altamente estruturadas que
podem ser usadas pela imaginação ou pela razão.
O processo descrito acima também pode ser observado no treinamento de adultos.
Em um primeiro momento, o aprendiz manuseia as ferramentas e as matérias-
primas para descobrir o que podem fazer; depois são feitos alguns exercícios
simples para demonstrar a sua interação.
Mais tarde, à medida que aumenta a habilidade, o aprendiz pode esquecer o
processo da operação e concentrar-se no trabalho.
Depois de alcançado um determinado nível de proficiência, surge uma qualidade
diferente de trabalho, que exibe a competência e a confiança de um artesão.
A mestria chega quando existe um completo domínio de todas as técnicas, e a
atenção pode ser devotada à imaginação e ao desenvolvimento da originalidade,
que é a marca de um mestre.
Todas essas fases podem ser vistas na linguagem, desde a palavra inteligível
isolada que surge do balbucio da criança até um soneto de Shakespeare, que em
poucas linhas conjura uma nuvem de associações que move os nossos corações e
faz com que nossas mentes se percam em conjeturas.
É por isso que a "palavra" é tão poderosa.
Ela é a chave que nos sintoniza à linguagem universal.
Alguns psicólogos vêem o processo de aprendizagem como uma percepção da
situação total, na qual respondemos à configuração particular de um "campo"
presente, de acordo com nossas reações selecionadas.
Desse modo, duas pessoas no mesmo ambiente não o apreendem da mesma
maneira, porque suas atitudes e objetivos não são idênticos.
Essa é uma descrição da interação dos dois mundos inferiores, grandemente
influenciada pelo "estado" da psique no nascimento, definido pela astrologia.
Um exemplo disso pode ser encontrado em uma criança nascida com a Lua em
Gêmeos, cujo Yesod apreende tudo imediatamente, e retém uma imagem
abrangente mas superficial, em comparação com uma criança com a Lua em
Capricórnio, cujo modo de aprendizagem é extremamente lento, mas muito
profundo.
A primeira criança pode parecer a mais brilhante, mas, à medida que os anos
passam, a segunda pode ultrapassar o irmão em entendimento, embora não possa
competir com ele em articulação.
Tais fatores, somados à posição do Sol e de todos os outros planetas, além da
colocação destes no sistema das Casas Mundanas, dará a cada indivíduo um tipo
específico de percepção, garantindo a um deles a visão da mecânica de uma
situação, enquanto outra pessoa vê nessa mesma situação o fluxo e refluxo
psicológico de que a primeira não se dá conta.
Tais diferenças de temperamento podem ser a explicação de por que algumas
pessoas aprendem pela observação dos pequenos detalhes com os quais constroem
uma imagem, enquanto outras o fazem mediante o que é chamado de
"aprendizagem global".
Pode-se treinar alguém para o trabalho a partir de qualquer um dos dois extremos,
ou até combinar ambos, mas sempre haverá uma clara tendência a aprender de um
modo específico, segundo o tipo físico e psicológico da pessoa.
O indivíduo ativo, por exemplo, entenderá as coisas de maneira prática, enquanto
os tipos sensível e pensador terão seus próprios modos de resposta.
Além disso, o extrovertido absorverá experiências de uma maneira aberta,
enquanto o introvertido tenderá a refletir sobre o que foi aprendido.
Em uma criança todos esses processos acontecem, na maior parte das vezes,
inconscientemente, pois a sua experiência de vida flui através da face inferior da
Árvore psicológica, para preencher os agrupamentos interativos de associações nos
pilares laterais superiores, que por sua vez influenciam as reações do ego e
colorem as respostas das tríades da ação, do sentimento e do pensamento, e do
corpo.
Um exemplo do que foi dito acima pode ser visto na aprendizagem dos costumes
que são baseadas em um fundo cultural.
Esses costumes influenciam o modo como sentimos, pensamos e agimos.
Desse modo, uma criança hindu e uma criança inglesa, educadas durante o domínio
britânico da Índia, têm visões do mundo e modos de expressão completamente
diferentes.
Essa teoria do inconsciente coletivo é contestada por alguns psicólogos, que
afirmam que é a resposta dos indivíduos às circunstâncias que forma o caráter.
Um exemplo disso é o da criança inteligente criada em uma família criminosa, que
adota os seus costumes e modos de falar, tornando-se um chefão do tipo mafioso.
Uma terceira visão é a de que as capacidades inatas da criança são o fator
determinante no desenvolvimento da personalidade, e que o ambiente tem uma
influência mínima.
Desde o ponto de vista cabalístico, todas essas visões são corretas, contanto que
sejam aplicadas aos seus níveis respectivos de evolução.
Não somos todos iguais.
Algumas pessoas nascem com o seu centro de gravidade consciente no corpo,
outras são estimuladas pelo lado dinâmico de sua Árvore, enquanto outras ainda
operam primariamente com base em uma das tríades inferiores ou laterais, ou
então baseadas na alma ou no espírito.
Depende do estágio de desenvolvimento que tenha sido alcançado, e que lições
devem ser aprendidas em cada vida em particular.
Algumas pessoas, por exemplo, aprendem as habilidades do mundo com muita
rapidez, pois estão muito familiarizadas com os modos como ele opera, enquanto
outras aprendem a agir com a mesma eficiência porque são indivíduos altamente
avançados e têm que cumprir uma determinada tarefa em um certo tempo.
Mais ou menos na época em que a criança aprende a vestir-se sozinha, ela tem
uma imagem rudimentar e narcisista do mundo em que vive.
Essa base egocêntrica é, contudo, vital para o próximo passo, que é o de
relacionar-se com os demais no campo mais amplo da família e além dele, pois sem
um ego forte ela "perderia" a sua identidade na sociedade mais ampla e menos
protetora em que deve ingressar.
Veremos isso a seguir.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 20

Sociedade
Na primeira fase da infância, a grande tríade da psique, composta pelas subtríades
da ação, do sentimento e do pensamento, cria o nível mecânico da mente, que dá à
criança um ego estabelecido e estabilizado.
Caso haja uma falha no início do processo, como privação materna ou falta de
instrução, cria-se uma distorção dos padrões da psique.
Isso significa que os caminhos entre os Sefirot e as tríades funcionarão mal, e
tratarão de compensar o desequilíbrio, levando a perturbações psicológicas mais
tarde na vida.
A viabilidade do ego Yesódico é vital, pois ela evita que o mundo exterior infiltre
demasiadamente a psique, inundando-a, e protege os demais, por exemplo, dos
aspectos impulsivos e irracionais que surgem no interior da pessoa.
Esses controles fazem parte de um complexo sistema do ego (do qual falaremos em
detalhe mais adiante), que o defende tanto das ameaças externas quanto das
internas quando a criança encontra o mundo mais amplo fora de casa.
Para a criança, a primeira experiência de extensão para além da mãe foi a relação
com o pai.
Nela, a criança tinha que aprender a diferenciar os dois, e lidar com sentimentos de
amor e de ódio, quando se lhe impunham, por parte da família, os tabus que
controlam essas relações íntimas.
As crises de desejo e de ciúmes são normalmente contidas e absorvidas pelo
inconsciente, à medida que o Yesod aprende a conformar-se.
Os limites são estabelecidos pela rotina diária e pelos períodos de tentativa e erro,
que mostram o que pode e o que não pode ser feito.
Todo esse treinamento, entretanto, é mais do que uma simples experimentação,
mais do que o estabelecimento da ordem social.
É também o exercício do livre-arbítrio, que está presente desde o dia do
nascimento, embora possa não estar articulado.
Por exemplo, uma criança logo aprende a escolher isto ou aquilo, e é perfeitamente
capaz de colocar um dos pais contra o outro, revelando uma compreensão muito
sutil da psicologia e, algumas vezes, um bom domínio da situação.
Tal como observou uma mulher, quando já era adulta: "Eu conseguia manipular
meus pais porque era mais inteligente do que eles".
Em compensação alguns pais, ao reconhecer esse fator, tentam deliberadamente
quebrar a vontade da criança.
Isso não elimina a livre escolha da criança, pois esta, com freqüência prefere
simplesmente retrair-se e parecer obediente.
Na maior parte dos casos, um equilíbrio entre o Gevurah da Severidade e o Hesed
da Misericórdia por parte dos pais dá origem a um conjunto de regras que podem
evitar que a criança torture um gato, ou estimular um talento para a pintura, além
de se dar à criança um sentimento de apoio, na medida em que ela introjeta a
visão de mundo dos pais.
Isso significa que tanto os valores individuais quanto os valores culturais presentes
chegam à psique e são absorvidos pelas tríades laterais superiores dos complexos e
conceitos emocionais, segundo a sua orientação para o pilar direito ou para o
esquerdo.
Dessa maneira, a criança, eventualmente, forma aquilo que é conhecido, por alguns
psicólogos, como o ego ideal e o superego; aquele está centralizado em torno a
Hesed na coluna dinâmica, e este em volta de Gevurah no lado estrutural.
Quando essas associações estão desenvolvidas, todas as experiências subseqüentes
são referidas a elas.
Mais tarde elas se tornam fatores cruciais nos inconscientes individual e coletivo.
O ideal do ego é uma formação composta por todas as idéias e emoções associadas
a conceitos tais como liberdade e altruísmo, e ser bonzinho, segundo os critérios do
mundo dos pais.
O superego ocupa-se mais de manter os padrões, restringir os impulsos e evitar
tudo o que possa perturbar a família e a sociedade à qual esta pertence.
Esses elementos de Hesed e Gevurah na psique transformam-se na consciência
social da criança.
A consciência individual é outra coisa.
Ela requer um alto grau de autoconsciência, o que é uma qualidade da alma.
Até esse estágio do desenvolvimento, a alma, definida na Árvore como a tríade
Hesed-Tiferet-Gevurah, está adormecida em sua maior parte, pois a psique está
ocupada demais com o processamento da experiência.
Todavia, de tempos em tempos, chegam momentos em que questões morais reais
devem ser enfrentadas pela criança, em vez de meras questões de costumes
sociais.
Um homem lembrava-se de quando, na sua infância, parou de matar sapos por
divertimento, porque alguma coisa muito profunda dentro dele disse: "Isso está
errado".
Tratava-se de uma voz interna completamente diferente daquela que ecoava a
aprovação ou a desaprovação de seus pais.
Tais momentos de verdadeira consciência têm origem no Tiferet, o Sefirah do Si-
mesmo, ao contrário das reações dos complexos do ego ideal e do superego, que
nos fazem baixar a cabeça para a autoridade, ainda que saibamos que ela está
errada.
No lado positivo, "Negro é bonito", dentro de certos limites, é um ideal de ego útil,
assim como o é a inspiração coletiva "Os britânicos nunca, nunca, nunca serão
escravos".
Por outro lado, o superego dos muçulmanos e dos judeus sempre irá impedi-los de
comer carne de porco, mesmo que não tenham sido criados em uma família
ortodoxa, e os superegos americanos têm uma reação parecida quando a
instituição da liberdade de expressão é ameaçada.
Todas essas noções coletivas, e muito mais, são introjetadas pela criança à medida
que ela aprende sobre a sociedade em que vive.
Além de começar a absorver os valores culturais do seu mundo, a criança agora
começa também a relacionar-se com os demais.
Antes de mais nada, os irmãos e irmãs apresentam problemas ao ego.
Por exemplo, outro bebê na família é uma ameaça direta contra qualquer Yesod
narcisista, pois, repentinamente, ele tem que competir pelo amor, pelo fato de os
pais darem especial atenção ao recém-chegado.
Aqui, os poderosos impulsos vegetais e animais do Nefesh do corpo, chamados de
id por Freud, levantam-se e perturbam os ritmos rotineiros estabelecidos na face
inferior da Árvore da psique.
A base Daat-Yesod do ego pode ficar desequilibrada em tais ocasiões, se a psique
não estiver bem centrada.
No entanto, enquanto os cachorros ciumentos são conhecidos por terem sido
cachorrinhos recém-nascidos furiosos, as crianças pequenas, possuindo um
superego primitivo e temendo a ira dos pais caso atirem o bebê pela janela,
encontram freqüentemente um substituto para a sua raiva dando uma surra em
uma boneca, ou, em alguns casos, regredindo para um estágio anterior do
desenvolvimento, para conseguir a mesma atenção que é dispensada ao irmão
mais novo.
Aqui vemos o início da supressão, um dos muitos mecanismos de defesa do ego
que enfrenta as situações inaceitáveis, forçando-as para longe da consciência do
ego.
Pensamentos desagradáveis e violentos, porém, devem ir para algum lugar, de
modo que eles atravessam a linha liminal entre Hod e Nezah, passando para as
tríades laterais superiores do inconsciente.
Estas extraem e contraem os vários elementos da experiência em associações
correlatas de pensamentos e emoções que formam o lado esquerdo do inconsciente
do indivíduo.
Como tal, podem influenciar o resto da vida, com atitudes que estejam talvez,
baseadas em alguma experiência crucial da infância que faz com que o indivíduo
tema e odeie todo e qualquer rival.
O contrário também é verdadeiro, quando o problema de irmãos pequenos em
conflito é resolvido com amor e boa vontade.
Esses primeiros encontros com a família e, mais tarde, com os amigos e com os
colegas de escola vão-se constituir em uma massiva quantidade de associações
positivas e negativas nas tríades laterais.
Os problemas de ter necessidade de adaptar-se aos demais, encontrar-se em uma
posição de superioridade ou de inferioridade, defender possessões, compartilhar e
cooperar devem transformar-se em um profundo trauma para um ego Yesódico que
não tenha segurança.
A maioria das crianças passa por essa fase e começa a desenvolver a percepção de
uma nova dimensão.
Após o período inicial, em que cada criança tenta impor a sua imagem do mundo
centrada em si mesma aos outros, ela tem que adaptar-se, ou ser deixada de fora
de todas as coisas excitantes que podem ser feitas com os outros.
Isso requer uma importante mudança na psique, na qual todas as associações
egocêntricas são superadas ou forçadas a conformar-se à ordem social local, que
está baseada no modelo da família e da sociedade em que vive. Contudo, os
impulsos do id-Nefesh e do superego ideal libertam-se de quando em quando.
Por exemplo, nas brincadeiras, a imitação dos pais é representada com pouca
sutileza, especialmente quando uma boneca ou uma criança mais nova que faz o
papel de filho faz alguma coisa considerada má.
Os poderes combinados do superego e do id castigam o malfeitor, porquanto os
sistemas de controle do ego não estão ainda suficientemente desenvolvidos para
pôr freios à violência que pode irromper quando os sentimentos inconscientes de
hostilidade a respeito de um rival podem ser projetados em uma brincadeira.
Nesse ponto devemos recordar, para não perdermos de vista a perspectiva mais
ampla e profunda, que nem tudo o que se vê acontecendo entre irmãos e irmãs é
meramente local ou psicológico.
As pessoas não nascem nesta ou naquela família por acaso,
Há um fator de carma que dá origem a certas relações que têm que ser resolvidas e
a lições que uma pessoa pode encenar para outra.
Desse modo, os sentimentos de amor, ódio ou indiferença entre irmãos e irmãs não
é apenas o resultado das condições familiares.
Ambos podem ter algo para resolver, não somente entre si como também com os
pais.
Os problemas do favoritismo e do incesto vêm somente da sexualidade, mas
também de origens fatais.
Os amores e ódios de uma família são os mais intensos, e são freqüentemente
percebidos com maior clareza na infância, antes que a máscara atenuante da
personalidade os oculte.
Nesse ponto, o que é chamado de sombra da psique emerge na forma de
impulsos do corpo ou da psique, social ou individualmente inaceitáveis.
Estes são disfarçados ou encobertos pelo ego, fortalecido pelas estritas regras dos
jogos aprendidos pelas crianças nesse estágio Hodiano do desenvolvimento.
Essa restrição desce do superego de Gevurah para o Hod, pois a criança imita a
forma da sociedade que a rodeia, e esforça-se por estar o mais próxima possível do
ideal de ego de Hesed, de modo a conquistar aprovação e benefícios de seus pares.
Essa necessidade de ser amado e, mais tarde, de ser respeitado, também é
projetado sobre os parentes mais velhos, quando o processo de introjeção e
transferência se desloca dos pais para outras figuras de autoridade, como, por
exemplo, os professores na escola.
Esse processo dá ao indivíduo um sentimento de independência dos pais, apesar de
ainda precisar do apoio destes para explorar o mundo.
Vista cabalisticamente, a psique está aumentando o seu alcance em Assyah e
ingressando na dimensão maior de Yezirah quando encontra a sociedade além da
família.
A introdução da criança em uma escola amplia mais ainda o horizonte.
Na escola, a experiência coletiva da sociedade é reforçada pelo modo como as
coisas são feitas, e por aquilo que é considerado importante.
Assim, uma criança egípcia ouve lições sobre o Corão, enquanto a criança
espanhola aprende os rudimentos do catolicismo.
Algumas escolas enfatizam as matérias científicas, outras a política; em outras
ainda, as boas maneiras estão na base do ensinamento, enquanto em outro lugar
são ensinadas as artes da guerra.
Seja o que for, a criança vai absorver tudo o que seja capaz, pois tem necessidade
de se tornar um membro pleno de sua comunidade.
Nesse estágio, a rebelião como resultado de alguma perturbação física ou
psicológica costuma ser contida, pois a criança não pode sustentar-se, embora
possa ser problemática para aqueles que a têm sob os seus cuidados.
A sina, agindo através do ambiente e do nosso temperamento, mantém-nos em um
curso fixo durante esse período, o que é a razão pela qual se diz, às vezes, que "o
Céu protege as crianças".
A providência toma conta da vida de uma pessoa com muita atenção, e nada
acontece por acidente.
Os pais, os irmãos, os parentes e a sociedade são levados em consideração, de
modo que se possa aprender o máximo, mesmo, por exemplo, no que parece ser
uma área de calamidade.
Muitas pessoas notaram, mais tarde em suas vidas, que "se não tivesse passado
por aquela crise, não teria crescido".
O modo pelo qual se enfrenta uma crise é de fundamental importância, e é nesses
momentos que o fator do livre-arbítrio torna-se crítico.
No próximo capítulo, vamos examinar alguns dos primeiros pontos decisivos mais
importantes, e a sua relação com os ritmos cósmicos que afetam o inconsciente
individual e o coletivo.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 21

Circunstâncias

Na cabala, tudo é parte de uma unidade.


Nada acontece na Existência sem afetar todo o resto, por maior, ou menor, que
seja o acontecimento.
Desse modo, as ações de um ser humano alteram o equilíbrio do Universo em
maior ou menor grau, ao mesmo tempo que, pelas mesmas leis, o que ocorre no
macrocosmo da Via Láctea e do Sistema Solar influencia a humanidade, produzindo
a história e a sina de indivíduos, altamente sensíveis às harmonias e dramas da
dança do Universo.
Contudo, posto que cada pessoa é composta de maneira única, cada uma delas
reage de maneira distinta à situação criada pelas forças cósmicas que as afetam,
juntamente com a sociedade em que vivem.
Considerando a escala maior em primeiro lugar, há períodos na História de grande
atividade, e há outros em que mal chega a acontecer alguma coisa.
Do mesmo modo, há épocas em que a exploração é a ocupação principal,
enquanto, em outras, a arte rouba a cena.
Há também tempos de migração em massa ou de estagnação, de rigidez ou de
revolução, com mudanças sociais que varrem continentes inteiros.
A ciência moderna ainda não explicou esse fenômeno, embora tenha feito muitas
estatísticas e observações, porque não consegue ver a interação dos diferentes
níveis de realidade, apercebendo-se somente dos dados físicos.
Foi apenas quando a descoberta do aspecto inconsciente da existência humana
começou a ter uma aceitação mais geral que uma nova dimensão revelou-se nas
forças ocultas que atuam sobre a sociedade.
Infelizmente, a maior parte desse conhecimento é aplicada à psicologia de massas
da propaganda e das vendas.
Apenas recentemente as tendências sociais começaram a ser reconhecidas como
expressões de algum padrão mais vasto no ritmo da História.
Antes da chamada Idade da Razão, o Universo era visto como um todo inter-
relacionado, onde os eventos do nível superior têm uma profunda influência sobre
os do nível inferior, e vice-versa.
Algumas culturas simbolizavam o macrocosmo como uma hierarquia de deuses,
outras como planetas, e os cabalistas, como a reciprocidade dos quatro mundos.
Se tomarmos somente os três níveis inferiores, os processos cósmicos de Beriah
precipitam padrões cambiantes em Yezirah, ou seja, no reinado psicológico.
Esses movimentos são transmitidos pelos corpos celestiais que, tal como já vimos,
representam princípios arquetípicos que agem sobre a psique da humanidade em
uma corrente de tendência em expansão, composta pelas várias combinações do
Sol, da Lua e dos planetas.
Essa situação e constante mudança é devida aos diferentes fatores e ritmos do
Sistema Solar, na medida em que estes interagem em relação com a Terra.
Por exemplo, o Sol tem um ciclo diário e outro anual, e a Lua tem um padrão
mensal que, juntamente com as órbitas trimestral e semestral de Mercúrio e de
Vênus, e os ciclos mais longos dos planetas exteriores, formam um complexo
sistema de influências, ao passarem pelas doze divisões do Zodíaco.
Essas combinações criam o clima psicológico da humanidade.
Por exemplo, se houver uma conjunção de Marte e de Saturno no signo de Aries,
isso pode precipitar uma dramática crise de guerra, tal como aconteceu em 1940,
quando a Alemanha invadiu os Países Baixos e a França, expulsou os Aliados da
Europa e fustigou a Inglaterra.
O resultado desse conflito continental, e depois global, foi a interrupção de padrões
domésticos e de trabalho, e o deslocamento de milhões de pessoas envolvidas nos
acontecimentos coletivos.
No caso de indivíduos, o efeito é mais específico, pois eles têm um papel particular
a cumprir no esquema geral.
Por exemplo, suponhamos que um homem tivesse nascido em 1900.
Ele teria sido jovem demais para lutar na Primeira Guerra, e velho demais para a
Segunda, mas, em compensação, teria precisamente a idade e o temperamento
para tornar-se útil no período de paz entre as duas guerras e após a segunda.
Ao contrário, a sina de alguém encarnado um pouco antes ou depois daquela data
poderia ser totalmente diferente, pois poderia contribuir com alguma coisa
necessária em tempos de guerra.
Esse é um trabalho da Providência, que organiza o melhor lugar e período para que
as experiências pessoais e coletivas possam interagir.
É extremamente importante ver o indivíduo nessa perspectiva mais ampla, pois a
atmosfera geral de uma sociedade pode ser relaxada, equilibrada ou severa,
dependendo do estado da Arvore da nação.
Em um dado país, é possível que a individualidade, por exemplo, seja altamente
cultivada; em outro, a regra pode ser favorável a estreitos laços familiares.
Em certos casos, a educação pode ser o interesse predominante de uma
comunidade; em outros, o dinheiro.
Uma criança que tenha nascido em qualquer uma dessas situações terá
inevitavelmente que absorvê-las no nível coletivo da psique, à medida que esta
passe pelas suas várias fases de desenvolvimento.
Nem todas as pessoas, no entanto, reagem da mesma maneira ao meio em que
vivem, pois algumas são constituídas para adaptar-se bem àquela sociedade em
particular, e outras não.
Um pensador, por exemplo, não teria problemas se fosse criado em uma
comunidade de estudiosos, mas teria grandes dificuldades se fosse o filho de um
trabalhador rural.
Do mesmo modo, um sensível estaria em uma situação difícil em uma família de
intelectuais, mas uma casa cheia de músicos seria benéfica para ele.
É claro que a Providência poderia criar uma situação difícil para resolver algum
carma, e esta estaria diretamente relacionada à situação coletiva.
Não foi sem uma boa razão que Abraão Lincoln nasceu em uma fazenda de
fronteira.
Isso o treinou para o árduo papel de presidente durante uma guerra civil
extremamente cruel.
No nível do indivíduo, os fatores de época e de lugar na circunstância geral também
são governados pela seqüência planetária-Sefirótica.
Algumas pessoas, como já notamos, reagem a serem encarnadas, e têm problemas
nos processos de gestação e de nascimento, resultando em um Malkhut físico ou
psicológico mirrado.
Outros, incapazes de entender-se com a vida na Terra durante o período yesódico
de formação do Ego, são atrapalhados por uma incapacidade de enfrentar o mundo
exterior.
Nenhuma dessas dificuldades é acidental, mas são situações dadas pela Providência
para ajudar o crescimento psicológico.
O livre-arbítrio, contudo, dá direito ao indivíduo de aceitar ou rejeitar o desafio.
Muitas pessoas têm memórias desses primeiros momentos de escolha, como a
criança que decidiu não crescer e tornou-se um anão, física e psicologicamente.
Esse é um caso extremo, mas trata-se apenas de uma questão de grau.
Um exemplo de uma crise Yesod do processo de crescimento nos é proporcionado
pela criança que tem que enfrentar o fato de não ser totalmente independente dos
pais.
Dessa situação pode emergir um ego saudável ou a necessidade de continuar sendo
criança, caso esse estágio lunar não seja completado.
Tais pessoas podem permanecer em uma órbita dependente mesmo depois de
adultas, pois o Yesod delas não tem condições de defender-se por si próprio.
A Providência costuma fornecer a esses indivíduos um pai substituto, como o
Estado, até que possa resolver o problema.
Uma crise de crescimento Hod pode ocorrer na forma de exames escolares ou na
incapacidade de pensamento coerente, necessário para a comunicação com os
demais.
Contudo, para algumas pessoas, essa facilidade mercuriana de falar e de coletar
dados pode ser o problema que as separa das demais, como o estudioso que nunca
se relacionava com as pessoas, a menos que estivesse fazendo uma conferência.
Felizmente, a Providência enviou-lhe uma adorável Vênus para ensinar, que o guiou
através dessa dificuldade.
Sempre há uma solução, se a pudermos ver.
A crise venusiana de Nezah chega com a adolescência e o aparecimento de
poderosos sentimentos.
Estes têm que ser manejados com muita habilidade, sob pena de fazer com que o
indivíduo perca as amarras e desaprenda tudo o que aprendeu, como aqueles que
fogem da escola e nunca saem da adolescência.
A maturidade marca a mudança da ativa posição à direita de Vênus para o
posicionamento na coluna central do Sol de Tiferet, quando a pessoa atinge a sua
plenitude física.
É aí que as pessoas preenchem a forma completa de seu veículo yezirático, que
está presente desde o nascimento.
Nesse ponto, uma visão atenta pode perceber o que um determinado indivíduo foi
na vida passada, e o que pode ser na presente.
Todos os processos de que falamos estão sujeitos a inúmeras influências sutis, que
vão da situação física, passando pelas atitudes familiares e os valores da sociedade,
até os celestiais em constante mudança que expressam o clima dos Mundos
Superiores.
Para a criança que ainda é muito suscetível às influências dos eventos na dimensão
não-física, a vida é vivida entre duas regiões.
Por um lado, ele ou ela está sendo ensinado a viver em um meio elementar,
habitado por pessoas que lhes projetam muitos fatores conformantes; por outro
lado, a criança existe em uma dimensão na qual as memórias da vida anterior, os
sonhos e as fantasias têm um papel importantíssimo.
A qualidade dessa vida interior é difusa, mas, dia após dia, o corpo em crescimento
mergulha a psique na realidade da Terra.
Muitas pessoas lembram-se dessa época "flutuante" com um sentimento de perda,
mas é necessário que ela passe, quando a psique inferior e o corpo tornam-se
firmemente interligados.
Todo esse condicionamento pelas circunstâncias está, como foi dito, sujeito à
escolha.
Com isso queremos dizer que há certas decisões que não fazem parte dos
processos físicos e psicológicos rotineiros.
Visto nos termos da Árvore, o livre-arbítrio opera desde tríade Gevurah-Hesed-
Tiferet da alma, que paira entre as faces interior e superior da psique.
Nessa posição, a alma tem liberdade para manobrar, pois não está sujeita a leis
tais como as do crescimento e decadência física, nem deve obediência automática a
injunções espirituais.
As pessoas podem, por exemplo, escolher entre submergir na materialidade ou
elevarem-se a alturas celestiais.
Muitas pessoas escolhem, por exemplo, passar suas vidas dedicadas ao status
social, enquanto outras, por sua própria vontade, retiram-se do Mundo e tornam-se
eremitas.
Outras ainda escolhem ficar no lugar em que nasceram e não fazer nada com seus
dons, enquanto outras vão para o estrangeiro ou começam grandes
empreendimentos.
Muitos escolhem não escolher e vagam em um limpo psicológico, assim como há
aqueles que escolhem impor regras a todos menos a si mesmos.
Todos têm escolha.
Ela está conosco desde o momento em que somos concebidos.
Nossas circunstâncias e estágio de desenvolvimento podem variar física, psicológica
e espiritualmente, mas a possibilidade de livre escolha não muda.
Os vários pontos cruciais da infância não são enfrentados pelo ego, mas pelo Si-
mesmo, desde a sua posição pivotal na Arvore.
O Si-mesmo está a par de cada situação, mesmo que pareça estar imerso nas
profundezas do inconsciente.
De fato, como muitas pessoas recordam, tais momentos cruciais de decisão têm
aquela extraordinária qualidade e clareza de consciência.
Isso é completamente diferente do processo geral de educação, durante o qual
aprendemos as regras e habilidades necessárias para as circunstâncias que a sina
nos deu.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 22

Educação
Vimos como existem, no processo de encarnação, vários estágios de cognição.
A primeira é a fase moto-sensorial, durante a qual a criança descobre o mundo e
move-se nele.
Alguns psicólogos, como Darwin, relacionaram esse estágio do desenvolvimento ao
período arcaico da humanidade, em que os seres humanos estão aprendendo a
viver sob as mais elementares condições.
A vida era, quase inteiramente, materialmente orientada, e a preocupação principal
era a de aprender como se mover no espaço e no tempo físicos.
Do mesmo modo que uma criança ocupa-se apenas de um dia de cada vez, a raça
humana infantil tinha que lidar com o ciclo anual de estações para poder
sobreviver, pois nada mais vinha tão prontamente quanto o consolo materno.
Esse extrato arcaico é visto por alguns psicólogos nos nossos instintos mais
primitivos, que se tornam mais tarde o componente principal do nível id-Nefesh do
nosso ser, erguendo-se através do Malkhut do corpo.
A fase seguinte é vista como o domínio yesódico dos símbolos.
Nesse ponto, a criança aprende a articular e a brincar com abstrações.
Histórias e desenhos infantis, jogos com pessoas imaginárias e brinquedos ganham
um poderoso significado que alimenta a fantasia que ocorre na mente da criança.
Esse estágio está relacionado, na História, ao tempo em que os homens viam
deuses e espíritos em toda a parte.
Muitos povos nunca foram além dessa época, mas alguns chegaram a desenvolver
essa capacidade imaginativa a um alto grau, produzindo mitos como os gregos.
Esse fenômeno é comum a todas as nações, e faz parte do seu sistema de
educação popular.
A história de George Washington, que nunca contou uma mentira quando era
criança, e a coragem e habilidade de William Tell são exemplos clássicos de heróis
míticos, como também o são os animais que simbolizam várias nações, como o
urso russo e a águia americana.
O partido nazista utilizou esse simbolismo popular para agitar o ego yesódico do
povo alemão e levá-lo ao estado de um valentão de feira, enquanto o Império
Britânico foi fundado sobre o desejo de agradar à mamãe, bem disfarçada na
imagem coletiva de Britânia e incorporada pela rainha Vitória.
Tudo isso tem suas raízes na situação individual, quando as crianças brincam sobre
suas fantasias yesódicas, segundo os valores da sociedade em que vivem, na favela
ou nos jardins da mansão.
Essa fase costuma completar-se antes que o estágio final da educação tenha
começado a tomar pé.
Educar é fazer aflorar os talentos latentes de uma criança, em um processo durante
o qual as qualidades analíticas de Hod combinam-se com o Yesod para emergir
como uma capacidade para a imaginação e a invenção.
Adicionados aos fatos e absorvidos e integrados na psique, os símbolos tornam-se o
principal modo de percepção do mundo.
Os símbolos encobrem os sentidos com filtros altamente subjetivos que
transformam a escuridão, por exemplo, em um terreno de demônios, e qualquer
ruído noturno em algo aterrorizante ou reconfortante, com o mesmo efeito sobre
nós que teria sobre os nossos ancestrais.
As abstrações como as letras e números, aprendidas nessa época, abrem
dimensões inteiramente novas, e as histórias sobre lugares distantes e sobre os
mistérios das medidas levam a criança àquilo que é realmente o Mundo de Yezirah,
onde problemas imaginários podem ser colocados e resolvidos através da
manipulação e do cálculo mental.
Nisso está a base de toda a mágica, quando as crianças percebem, como os seus
ancestrais remotos, o mundo das fórmulas e dos encantamentos.
Esse nível permanece na maioria das pessoas, como é demonstrado pelo grande
interesse pela fantasia.
Não há muita diferença entre as antigas histórias populares e os modernos contos
de ficção científica.
A saga dos cavaleiros do rei Artur e os filmes das guerras nas estrelas, sobre os
cavaleiros de Jedi do futuro, vêm do mesmo nível de Yezirah, asssim como a
mitologia sobre a medicina e sobre a psicologia.
Por volta dos sete anos, as habilidades Hodianas que foram sendo adquiridas, tais
como a competência física nos gestos e no manuseio, e a manipulação simbólica na
imaginação e na reso-lução de problemas, começam a ser racionalizadas.
A linguagem e a memória sofisticam-se, e as habilidades manuais são aplicadas a
muitas operações.
Jogos mais complexos são encenados e um interesse mais profundo no mundo mais
amplo surge na investigação da história humana e natural.
A ciência começa a tomar o lugar da fantasia, e as experiências práticas na escola e
em casa com plantas, animais e máquinas desenvolvem uma apreciação pelas
operações concretas nas quais se usa a lógica para determinar resultados e criar os
efeitos desejados.
O fator yesódico irracional ainda está presente nos sonhos noturnos e nos diurnos,
mas, lentamente, o método lógico de Hod toma as rédeas.
Historicamente, isso corresponde ao período dos grandes círculos de pedra, como
Stonehenge, que tanto são estruturas práticas quanto simbólicas, construídos para
traçar e calcular os movimentos das estrelas, do Sol e da Lua.
Esse é também o período do antigo Egito, cuja cultura era uma mistura de alta
magia e cálculo preciso.
Contudo, ainda vemos a presença de Yesod na hora das provas, quando a criança
leva para a sala de aula os seus amuletos, para ter sorte.
A magia não está morta.
A aquisição de habilidades concretas permite que a psique desenvolva a tríade
Hod-Yesod-Malkhut à sua capacidade operacional.
Isso é visto nas severas exigências das crianças em suas regras sobre a vida,
quando começam a aplicar os limites, que lhes são impostos pelo superego no pilar
da estrutura, àqueles que as rodeiam.
Não é permitido trapacear, e um tanque de brinquedo ou uma boneca não devem
ser malfeitos.
Espera-se que os adultos ajam como pessoas crescidas, ou não haverá confiança ou
respeito.
Todas essas são qualidades do lado esquerdo da Árvore.
As brincadeiras tornam-se altamente organizadas, e os talentos para a arte e as
ciências são desenvolvidos a um alto grau.
A astúcia é admirada, e as histórias sobre crianças brilhantes que passam a perna
em vilões adultos são populares, embora atualmente o estilo tende a favorecer o
jovem gênio dos computadores.
Quando a criança aproxima-se dos onze ou doze anos, as qualidades de Nezah são
despertadas, embora não ainda sexualmente.
Isso traz a próxima fase, chamada de "operações formais".
Nesse ponto a conclusão da grande tríade Malkhut-Hod-Nezah, com Yesod no seu
centro, proporciona uma dimensão de poder e de sentimento à psique.
Nessa época, a escola deixa de ser um mero local de estudos, e passa a ter uma
estrutura social bem organizada, com um forte sistema de relações.
Assim, enquanto as atividades Hodianas alcançam a sua plenitude, durante a qual
todas as habilidades gerais necessárias para a vida foram aprendidas, de maneira
que há uma correspondente intensidade de paixão Nezahiana, aparecem fortes
sentimentos sobre os amigos e os inimigos.
Ocorre o culto aos heróis, assim como as manias por isto ou por aquilo.
Se é verdade que a psique pode agora manusear temas como geometria, línguas
estrangeiras e até mesmo idéias abstratas com notável habilidade, surge também a
presença cada vez maior do despertar da sexualidade.
É nessa época que ocorre também a homossexualidade, quando o eixo Hod-Nezah
começa a ressoar antes da puberdade.
As meninas apaixonam-se umas pelas outras, e os meninos descobrem-se
intrigados ou obsedados pelos colegas.
Surgem dificuldades, pois tais sentimentos são incongruentes, tabu.
O trabalho se ressente, e as amizades sofrem tensões que põem à prova padrões
estabelecidos há muito tempo.
Em algumas sociedades, esses comportamentos são aceitos e seguem seu curso
até serem transformados em sexualidade normal, mas em outras comunidades são
proibidos, e muitas pessoas passam pela fase homossexual em privado.
Alguns indivíduos não conseguem mudar plenamente do estágio Hod ao Nezah, e
conservam uma dualidade andrógina de sexualidade imatura.
Historicamente, o período clássico grego corresponde a essa época, com seus
homossexuais brilhantes, astutos, lógicos e mercurianos que produziram escolas de
drama e filosofia ultra-Hodianas, e uma excepcional sofisticação na arte e na
ciência, baseadas nas medidas, na matemática e nas formas humanas,
especialmente as masculinas.
Com a conclusão da grande tríade vegetal, tal como é às vezes chamado o
Malkhut-Hod-Nezah, vem a adolescência.
Nesse ponto, o poder venusiano que está na base do pilar direito da dinâmica entra
em operação, com o efeito resultante de um declínio abrupto do interesse pelas
atividades mercuriais.
Subitamente, uma aguda sensualidade é despertada, quando o corpo começa a
passar por uma transformação.
O Nezah estimula o crescimento, emergem os pêlos do corpo e os seios femininos,
e o tórax do homem e os quadris da mulher aumentam.
Ao longo de um período muito curto a psique, que estivera vivendo uma vida sexual
relativamente pacífica, é confrontada com desejos que não experimenta desde a
primeira infância.
Durante a infância, tais impulsos eram controlados e direcionados pelas figuras dos
pais, e o ego yesódico aprende a controlar e pôr rédeas ao id-Nefesh até o
momento certo, ou a levá-los para o inconsciente.
Na adolescência esses desejos aparecem com força crescente, mas o indivíduo tem
que enfrentá-los por sua própria conta.
Alguns adolescentes retraem-se para a tríade dos sentimentos, em uma variedade
de humores, enquanto outros deixam escapar a sua paixão com furor Nezahiano.
Os pais repetem suas manobras de controle, mas não estão mais tratando com
alguém que depende deles completamente.
A tríade do sentimento Hod-Yesod-Nezah oscila violentamente, enquanto brigas e
perturbações acontecem no lar e entre companheiros, até que o adolescente
comece a relacionar a tríade ao Malkhut do corpo.
Quando isso é feito, o jovem está apto a produzir a próxima geração, e todos os
interesses centralizam-se na arte da corte.
Nas sociedades de pilar esquerdo, isso é controlado por um código estrito; nas
outras, onde o lado direito da Árvore é dominante, a corte é representada, e acaba
algumas vezes em gravidez ou em violência, quando a energia Nezahiana é
expressa em formas negativas ou positivas.
Do ponto de vista da raça humana esse é o padrão oscilante da História, entre os
extremos do Puritanismo e do Boemianismo.
Para o indivíduo, é nesse ponto que ele, ou ela, começa a tornar-se adulto, à
medida que a adolescência muda lentamente o eixo da consciência da tríade
vegetal, que se ocupa primariamente com a reprodução, para a tríade animal-
humana de Hod-Nezah-Tiferet, conhecida como "O Despertar".
À medida que a pessoa escapa do domínio do ego Yesódico e entra em contato com
a Coroa da Árvore corporal, que é também o Tiferet da psique e o Malkhut do
espírito, ela se aproxima da maturidade e da possibilidade da individualidade,
simbolizada pela sua transformação em "dona do próprio nariz".

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 23

Amadurecimento
Em muitas sociedades, a puberdade é marcada por uma cerimônia que algumas
pessoas chamam de "ritos de passagem".
No judaísmo, o Bar Mitzvah marca a maioridade do menino, quando ele é chamado
à sinagoga para ler uma passagem da Lei.
Isso simboliza que ele deixou de ser responsabilidade dos pais, que conhece as
regras de conduta ditadas pelo Torah e pode assumir o papel de um adulto.
Na sociedades primitivas do Oriente Médio, onde a maturidade chegava com maior
rapidez, não era incomum que um rapaz ou uma moça estivessem casados aos
quatorze anos, mas isso se dava no seio de uma forte situação de família, em que o
clã ainda protegia o casal.
Hoje em dia, no Ocidente, a situação é completamente diferente.
Nesse ponto do início da puberdade, vemos o nascimento da procura da identidade,
no momento em que a pessoa ingressa na tríade Hod-Nezah-Tiferet do despertar.
Quando o indivíduo atinge a plena maturidade, ocorre uma mudança massiva do
equilíbrio entre o corpo e a psique.
O físico está sexualmente maduro e todos os sistemas físicos estão alcançando a
sua máxima eficiência.
A psique, no entanto, costuma ser ainda a de um jovem.
Isso, às vezes, causa muito conflito, pois os adultos começam a esperar que a
pessoa assuma algumas responsabilidades de adulto.
Nas sociedades ditas menos sofisticadas, os meninos são enviados para o campo ou
para longe de seu lugar de origem para pôr à prova as habilidades que adquiriram,
de modo a que se saiba que eles podem sobreviver e sustentar-se, podendo
portanto manter uma família.
Depois que isso é feito, eles são aceitos como homens, e serão tratados como tais
pelos adultos da comunidade.
Nas sociedades ocidentais não existe nada equivalente a isso.
O sistema de exames e o esquema de aprendizes cobrem alguns aspectos do
problema, mas, a menos que a pessoa seja parte de uma comunidade de laços bem
estreitos que mantenha tradições antigas, não há modos de guiar a transição da
infância à vida adulta, pois, nesse ponto, os pilares laterais do superego e do ideal
de ego são freqüentemente rejeitados.
Isso cria uma instabilidade, pois raramente o ego Yesódico é forte o bastante para
agüentar as sacudidelas da Árvore psicológica durante esse período.
A razão para essa perturbação durante o processo da adolescência é que toda a
experiência adquirida na infância é colocada sob pressão.
Em algumas pessoas, a energia impulsiva de Nezah é mantida sob controle pelas
regras de Hod, o que dá origem a tensões nervosas.
Em outras, dá-se o contrário, com uma oposição a tudo o que é racional ou
conformista.
Em alguns casos, a procura Nezahiana de prazer e de excitação assume completo
controle e o ego Yesódico adota a última moda e faz tudo para rejeitar os valores
dos pais.
Essa busca de uma nova imagem procura não apenas ser ultrajante e atrair a
atenção do sexo oposto como também encontrar uma personalidade com a qual o
indivíduo possa identificar-se.
Em alguns, várias máscaras diferentes são experimentadas em um curto período de
tempo, em outros ocorre uma manutenção das maneiras conservadoras, mas com
vistas a mudá-las.
Aqui, vemos os pilares passivo e ativo em ação, de acordo com a carga da psique.
Com a inteligência de Hod reforçada pelo poder de Nezah, a curiosidade torna-se
mais forte e amplia seus horizontes.
Surgem a sagacidade e a novidade, e tudo é feito para se alcançar um efeito.
Os relacionamentos tornam-se hipersensitivos e intensos, por estar a tríade do
sentimento plenamente ativada, com cada pessoa em busca do companheiro .que
espelhe a visão Yesódica que ela tem de si mesma.
Até mesmo o fenômeno do narcisismo retorna por um período, enquanto as
pessoas procuram pelos seus iguais ou pelo seus contrários, para complementar a
própria imagem, como, por exemplo, na atração mútua entre loiros e morenas, ou
a garota sofisticada que tem um namorado grosseiro, ou o contrário, quando o lado
sombrio do seu Nefesh é libertado em um caso de amor Nezahiano.
O mesmo pode-se dizer dos jovens que se libertam das amarras de uma educação
convencional e se dedicam às drogas e ao crime.
Isso tudo é resultado da violenta oscilação da Árvore psicológica, em sua busca
desesperada de um novo equilíbrio, no período dinâmico da juventude.
A tríade Hod-Tiferet-Nezah do despertar que está agora sendo ativada traz uma
aguda consciência do mundo e de suas imperfeições, quando Tiferet é tocado.
Enquanto a grande tríade vegetal, dominada pelo ego Yesódico, vai atrás dos seus
novos pensamentos, sentimentos e ações, o caminho entre o ego e o Si-mesmo,
chamado de "integridade" na cabala, fica alerta.
Isso dá origem, em muitos adolescentes avançados, a uma profunda fome de
verdade, devida ao seu contato com o Tiferet.
Desse modo, além dos apaixonados encontros entre os dois sexos, há uma
preocupação com religião, política, filosofia, psicologia e qualquer tema que possa
explicar o que está acontecendo no Mundo e dentro de si mesmo.
Em um período de confusão como esse, se o adolescente não estiver seguro em
suas crenças ou disciplina, estará sujeito a experimentar qualquer coisa que ofereça
respostas promissoras.
Isso pode significar explorar idéias ou modos de vida o mais longe de casa possível,
de modo a estabelecer uma individualidade.
Na maior parte das pessoas, esse impulso aos extremos não passa,
freqüentemente, de um protesto contra as convenções de seu tempo, e de uma
paixão por endireitar as coisas.
Tais pessoas saem desse período altamente perturbado com pouco mais que alguns
arranhões físicos e, talvez, um nariz psicológico quebrado.
Alguns, contudo, perdem-se, e outros até morrem em tolices ou aventuras juvenis,
assim como alguns jovens membros das tribos primitivas nunca voltam da sua
iniciação, por terem ido demasiado longe em terreno desconhecido.
A ironia e a provação da época adolescente é que ela está preocupada com a busca
de si mesmo.
Nessa altura, porém, a pessoa não tem suficiente experiência de vida para
diferenciar a imagem de ego da educação do Si-mesmo que para logo além da linha
liminar de consciência estendida entre Hod e Nezah, e desse modo a atenção
costuma ser dirigida para Yesod, e para qual imagem adulta adotar.
Isso é, com freqüência, percebido na forma de ambição, e o impulso animal do id
Nefesh produz as mais glamourosas projeções baseado nas estrelas do rock e nos
ganhadores do Prêmio Nobel.
Aqueles que funcionam melhor através da ação verão a si mesmos como grandes
esportistas ou dançarinos.
Os sensíveis desejarão ser poetas ou músicos famosos, e os pensadores vão querer
ser filósofos ou cientistas renomados.
Durante um certo período, essas fantasias serão consideradas como possibilidades
reais, até que o jovem se dê conta de que o trabalho que elas pressupõem pode ser
maior do que estejam dispostos a realizar, ou superior aos seus talentos.
Esse é o primeiro sinal da maturidade, porquanto o processo de desenvolvimento
aproxima a pessoa de Tiferet, ou Verdade.
Em alguns casos, a imagem não é vista como uma ambição impossível, e o ego
agarra-se a ela até muito depois de atingida a maturidade física.
Felizmente, a vida desgasta a fantasia, que muitas vezes está baseada em um
desejo infantil de atenção, em vez de ser o resultado de uma busca real do Si-
mesmo.
A maioria das pessoas encontra o seu nível, aceitando que ser um bom número
dois, ou três ou quatro, é o melhor que elas podem fazer, quando vêem a carga
que tais posições de destaque trazem consigo.
Alguns mantêm tenazmente o seu sonho Yesódico, e, caso não seja uma visão
realista, podem tornar-se neuróticos, e até mesmo, em caso extremos, psicóticos,
ao viverem suas fantasias desprezando a realidade.
Cabalisticamente, isso acontece quando o caminho entre o ego e o Si-mesmo é
bloqueado por uma ilusão, e a integridade é perdida.
Esse caminho entre Yesod e Tiferet é mantido, em maior ou menor grau, pela maior
parte das pessoas.
Em alguns, pode não passar de um aborrecido reconhecimento de que a
honestidade existe, embora possa ou não ser praticada em casa e no trabalho.
Em outros, tem importância o bastante para controlar suas condutas no trabalho ou
nas relações pessoais, e, em outros ainda, pode gerar um desejo de guiar a
comunidade para aquilo que é considerado certo pela sociedade.
Em poucos, é mais que a mera obediência às convenções.
Estes procurarão saber o que é certo para eles em termos de autodesenvolvimento.
A percepção de que há mais coisas na vida além de gerar uma família e ter sucesso
deixa algumas pessoas em desvantagem, pois, enquanto estão ainda preocupadas
com o quê e quem são, outros, que já incorporaram essa tríade animal/humana
seguem em frente, e abrem seu caminho no Mundo.
Aqui, vemos o homem ou mulher naturais plenamente desenvolvidos que querem
ser os reis e rainhas de sua geração, até serem desalojados pelos elementos
empreendedores da próxima.
Aquele que procura, sem às vezes saber o quê, de certa maneira nunca está
plenamente envolvido nesses jogos de possessões materiais e posição social.
São o que já foi definido por alguns como "os que estão fora".
Destes, alguns estão simplesmente procurando evitar a realidade e desaparecer na
existência de sonho de um retraimento excêntrico, se conseguirem, ou da mera
vagabundagem, se não.
A maioria deles, no entanto, pode ser composta de artesãos e profissionais muito
competentes, podendo ser encontrados nas casas, nos campos e nas fábricas.
Essas pessoas não são, aparentemente, tão diferentes das demais, além do fato de
que reconhecem um sentido de uma vida interior ou outra vida.
Na maior parte, não é mais que uma vaga memória de ter vindo de outro lugar.
Muitos, infelizmente, com o correr dos anos se esquecem, à medida que se vão
submergindo no trabalho e na família, mas alguns mantêm essa crença e procuram
seus semelhantes, que façam as mesmas perguntas e tenham a mesma profunda
sensação de estarem exilados, sem saberem de onde.
Uns poucos sabem por que estão aqui.
Ou porque não esqueceram as instruções recebidas antes da encarnação, ou
porque recordaram-se aos poucos de que tinham alguma coisa para fazer enquanto
estivessem na Terra.
Esse fenômeno não é incomum, e muitos pesquisadores das tendências sociais
usam termos como "dirigidos para dentro", juntamente com "consumidores
conspícuos", que são as pessoas do nível animal, e "sobreviventes", do nível
vegetal da humanidade.
Essas categorias estão ligadas à face inferior da Arvore psicológica.
Após passar a juventude na tríade do despertar, na qual é-lhes oferecida a
oportunidade de um maior desenvolvimento, a maior parte das pessoas regressa a
uma posição mais favorável, para fixar-se em uma das três subtríades
centralizadas em Yesod.
Dessa maneira, após os seus dias selvagens, elas descem para abaixo da linha de
consciência Hod-Nezah, e passam a vida no nível vegetal da rotina.
Apenas as pessoas do nível animal e "dirigidas para dentro" operam naquilo que é
chamado, na cabala, de Gatlut, ou estado superior.
Essa tríade Hod-Tiferet-Nezah, contudo, tanto pode ser utilizada para a exploração
dos demais como para o autodesenvolvimento.
Como sempre, a escolha está presente.
Aqueles que estão em Katnut, ou estado inferior, são os que preferem permanecer
no ego.
Somente uma grande crise, tal como um terrível desastre ou choque pessoal, faz
com que subam para Tiferet, despertando-os e fazendo com que comecem
novamente a fazer perguntas.
Isso também pode acontecer com a pessoa do nível animal, caso seja traumatizada
por ter sido desalojado do lugar que ocupava ou por descobrir que o sucesso é
vazio.
Tal descoberta pode levá-la a uma posição de busca do Si-mesmo, como "o que
está fora", que sabe que existem outros estágios de desenvolvimento além da
Coroa da plenitude física.
Na qualidade de lugar onde os Mundos da Criação, Ação e Formação se encontram,
o Si-mesmo permite que os veículos da psique e do espírito se enlacem
completamente com o físico.
É a partir desse momento que o organismo físico está completo.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 24

Inteireza
Segundo a tradição esotérica, os três organismos material, psicológico e espiritual
não estão unidos no nascimento, mas apenas frouxamente relacionados uns aos
outros, razão da fragilidade desses primeiros anos.
Na medida em que passam os meses e os anos, o tênue domínio do sopro vital,
governado pelo id-Nefesh, aumenta com a acumulação e a ligação da dinâmica e da
estrutura da face superior do corpo à face inferior da psique, de modo que, por
volta dos sete anos, na criança normal, o Daat-Yesod do ego já deu origem a uma
personalidade operacional.
Na puberdade, os níveis médios da psique estão em funcionamento.
Com a libertação da sexualidade e a entrada em ação da tríade do despertar, as
tríades emocionais passiva e ativa e a alma tornam-se conscientemente acessíveis.
Aos 21 anos, aproximadamente, o corpo alcança a sua máxima extensão de
crescimento e desenvolvimento.
Nessa altura, a Coroa da Arvore física liga-se ao Tiferet, ou Si-mesmo, da psique, e
aciona o Serifah mais baixo do organismo espiritual.
Aqui começa o contato com aquilo que é chamado por algumas pessoas de corpo
"mental", e por outras de nível transpessoal e verdadeiramente intelectual do
indivíduo.
Nesse ponto, a incorporação está completa.
O que foi dito acima resume o processo de encarnação desde o momento da
concepção, passando pela gestação, nascimento e primeiros desenvolvimentos, até
um ponto em que o corpo, a psique e o espírito são juntados.
Essa situação confere extraordinárias capacidades, como o demonstram os grandes
da raça humana.
Muitos dos jovens adultos, porém, ao amadurecerem costumam dedicar-se apenas
a sobreviver no mundo físico e a superar os demais.
Para a massa da humanidade, isso é perfeitamente aceitável, e muitos contentam-
se em viver relativamente confortáveis e seguros, enquanto deixam os mais
agressivos competirem entre si pela liderança.
Os "que estão fora" são diferentes, mas trataremos deles mais adiante.
Tendo alcançado a sua plenitude, a maior parte das pessoas não pensa senão em
ganhar a vida, acasalar-se e inserir-se na sociedade em que vive.
A menos que seja especial, o trabalhador faz o que o pai dele fazia, e casa-se com
uma moça que leva o mesmo tipo de vida.
O filho de um profissional irá, provavelmente, para a faculdade, a não ser que seja
pouco comum, e esposará uma mulher com o mesmo tipo de origem que ele.
A filha de um aristocrata, após reagir contra a sua própria classe, muito
provavelmente terminará casada com um homem do mesmo nível, cuidando de
urna casa não muito diferente, em essência, da de seus pais, salvo no caso de ela
ser muito diferente das outras moças de sua classe.
Isso, repetimos, é uma generalização, e nem sempre se aplica aos leitores de livros
como este, que, na sua maior parte, fazem parte dos que "estão fora", por um
motivo ou por outro.
Ao alcançar o ponto máximo da fisicalidade, a maioria das pessoas não deseja mais
nada.
A família e o trabalho absorvem a maioria da energia disponível, e há um
achatamento do campo de atividade.
A intensa curiosidade da infância e a vitalidade da juventude começam a esvanecer,
e muitos jovens belos e brilhantes tornam-se completamente comuns quando
chegam aos trinta anos.
Alguns, é claro, procuram manter a sagacidade e o fascínio, mas não conseguem
conservar a frescura da juventude.
Aquela época selvagem e muitas vezes dolorosa, mas quase sempre maravilhosa,
passa, e é preciso suportar a meia-idade, tão ocupada com encontrar e garantir um
lugar no mundo.
Este, como veremos, é o período de Marte e de Gevurah, em que a tenacidade e a
coragem, a disciplina e o discernimento são postos em ação, tanto em público como
em privado.
A satisfação no trabalho e a realização pessoal são coisas muito importantes para
as pessoas entre os trinta e os quarenta anos.
Um bom casamento e uma posição social respeitável são considerados objetivos
válidos.
Ao longo desse período, a experiência amadurece as habilidades adquiridas durante
a juventude, e a vida amplia-se, à medida que a riqueza material aumenta e o
trabalho, em casa ou fora dela, diminui com o crescimento dos filhos e com as
promoções.
Lá pelo final da meia-idade já passou o mais duro para a maioria das pessoas, e
elas começam a diminuir de ritmo e a apreciar o que conquistaram.
As crises interpessoais, familiares e profissionais, comuns entre os trinta e o final
dos quarenta, já terminaram, e tanto o amor corno a riqueza podem ser dados com
generosidade, a menos que os anos difíceis tenham deixado a pessoa retraída e
amarga, por ter sido derrotada, não pela vida, mas por suas próprias ilusões.
Esse é o ponto em que a tríade da alma começa a surgir para a consciência,
quando o Si-mesmo do Tiferet, o Julgamento de Gevurah e a Misericórdia de Hesed
passam a trabalhar em conjunto, e as pessoas começam a avaliar o próprio
desempenho.
Para a maioria, a meia-idade é quando eles começam a descer do nível físico da
vida ativa.
Gradualmente, as pessoas deixam de poder fazer o que faziam, e deixam também
de querer, a menos que sejam imaturas ou sintam que falharam.
É bastante natural começar a ponderar sobre a morte nessa época, em que os
contemporâneos da pessoa começam a morrer com mais freqüência.
Essa ponderação sobre a própria passagem pela Terra continua a partir dos
cinqüenta anos, quando os sentidos começam a diminuir e há uma sensação de
encurtamento do raio de ação física.
Para aqueles que estão centrados apenas no corpo, isso é o princípio do fim, e eles
lançarão mão de qualquer artifício para tentar deter o processo.
Aqueles que desenvolveram alguma visão do propósito da vida começam nessa
altura a refletir ainda mais seriamente, e a retribuir e distribuir sua experiência e
suas riquezas materiais, pois percebem que o corpo já começou a desligar-se da
psique.
Quando os primeiros anos da velhice se aproximam, o corpo em retirada já não
consegue lembrar-se do dia de ontem, pois seus sistemas já não são eficientes
como costumavam ser, embora possa-se lembrar com extraordinária clareza de
fatos ocorridos há anos.
Cenas da infância há muito esquecidas, momentos da adolescência e dramas da
vida de jovem adulto retornam, à medida que o ego menos controlador vai
afrouxando o seu domínio sobre o inconsciente.
Muitas horas são gastas na consideração de feitos e atitudes, quando o superego e
o ideal de ego são separados pelos Sefirot emergentes de Binah e Hokhmah, que
proporcionam sabedoria e entendimento àqueles que ouvem os níveis mais
profundos da própria mente.
Desse modo, esta pessoa pode entender por que teve êxito, enquanto aquela pode
vislumbrar por que falhou.
Outra pode enxergar o significado de um relacionamento específico, e outra ainda
os problemas criados por ela.
Certos padrões são recorrentes durante essas reflexões, até que a razão para a sua
repetição torna-se aparente e proporciona ao indivíduo uma chave vital para o seu
Daat psicológico de conhecimento, em uma importante tomada de consciência.
O estágio final da velhice aumenta a separação entre o físico e a psique, de modo
que o nível de desenvolvimento psicológico e espiritual alcançado durante a vida
torna-se cada vez mais evidente.
Aqueles que passaram a vida dedicados às possessões vão-se agarrar ao Malkhut
da materialidade, enquanto outros, unicamente preocupados com uma imagem
Yesódica da personalidade, descobrem que ela desaparece, nas ocasiões em que o
impulso do id-Nefesh por trás do ego manifesta-se na infantilidade exibida por
muitos anciãos.
Somente aqueles que foram além do domínio da fisicalidade, que aprenderam que
a personalidade é apenas um meio de operação, chegam a ver a lição de suas
vidas, e, mais ainda, percebem a morte como a porta de boas vindas a uma
experiência mais profunda.
Os que ainda estão centrados no mundo material não conseguem ver mais nada, e
a morte, para eles, representa a aniquilação total.
A marca distintiva desses dois estados, tal como foi notado por observadores, é a
dignidade e a integridade daqueles que aprenderam a lição da vida, e o desespero
e a desilusão daqueles que não a aprenderam.
Essa pode parecer uma conclusão muito dura para o final de uma estadia tão breve
na Terra, mas também devemos recordar que, do ponto de vista cabalístico, isso
não é o fim da existência, e que muitas outras oportunidades serão dadas à pessoa,
para que desenvolva e aperfeiçoe o próprio ser através da encarnação.
Na medida em que a morte vai-se aproximando, o id-Nefesh começa a retirar a
vitalidade do corpo, e surge uma estranha luminosidade na pele, e os olhos
parecem estar fixos na visão de outro mundo.
Isso é testemunhado pelo fato de que muitas pessoas agonizantes relatam estar
vendo parentes já falecidos ao seu redor.
Alguns indivíduos sensíveis ou avançados podem aperceber-se dessas presenças
que parecem estar, tal como as entidades similares presentes durante o
nascimento, supervisionando o processo de morte.
O momento da partida chega em um ponto crucial do tempo e do espaço, do
mesmo modo que no nascimento.
Algumas vezes, como na operação de nascimento, parece não estar acontecendo
nada óbvio.
Aqui temos que recordar que, ao mesmo tempo que o corpo e a psique inferior
podem estar velhos e inertes, os níveis mais altos são tudo, menos isso, no
momento em que se estão libertando do veículo físico.
Quando a vitalidade decrescente do ego finalmente afrouxa a conexão Yesod-Daat,
a morte é iminente.
Contudo, algumas pessoas ainda permanecem no corpo por força de hábito.
Isso atrasa a partida, enquanto a pessoa fica rodeando o corpo após ter sido
decretada a sua morte clínica.
Quando chega o momento do falecimento, os processos descritos no capítulo sobre
a Morte têm início, e todo o ciclo post-morte-pré-natal começa novamente, mas
dessa vez um estágio mais adiante.

Até agora estivemos mapeando o ciclo geral do desenvolvimento da vida, desde a


concepção até a morte, levando em conta que todos têm profundas memórias pré-
natais guardadas na psique, que afetam profundamente a sina e a psicologia
particulares de cada indivíduo.
Os indivíduos, por sua vez, estão relacionados ao meio ambiente e às pessoas que
encontrarão, assim como ao trabalho que deverão executar e às oportunidades que
lhes serão dadas.
Tudo isso resulta em uma situação muito mais complexa que a considerada pela
maioria dos psicólogos.
A seguir examinaremos, detalhadamente, os principais componentes e processos
da psique, especialmente os que foram observados pelas duas mais importantes
escolas de psicologia profunda, e iremos relacioná-los ao esquema cabalístico.
Começaremos com a visão freudiana.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 25

Id-Nefesh
Sigmund Freud nasceu em 1856 e morreu em 1939.
A maior parte da sua vida, ele passou trabalhando como psicólogo em Viena, onde
introduziu algumas importantes contribuições ao estudo da psicologia ocidental.
Muitas de suas idéias originais foram modificadas e várias escolas, baseadas no seu
ponto de vista, surgiram para formar o campo intermediário entre os psicólogos
que dão preferência aos processos originários do corpo e dos reflexos e os
junguianos que, seguindo a tradição de seu líder, exploram as regiões média e
superior da psique.
A principal descoberta de Freud foi o reconhecimento de dois níveis de atividade
psicológica, o consciente e o inconsciente.
Este último, afirmava ele, tinha sobre a vida das pessoas uma influência muito
maior do que elas percebiam.
A maior parte das pessoas, observava, eram manipuladas por impulsos instintivos
poderosos, que eram mantidos sob controle pela educação e pelos costumes
sociais.
O ego, ou mente consciente, agia como uma ponte entre os impulsos do id e as
restrições do superego, que punia ou recompensava o desempenho do indivíduo, de
acordo com suas opiniões, adquiridas muitas vezes de forma completamente
inconsciente.
Esse sistema tripartite forma o modelo básico da psicologia freudiana, e pode ser
relacionado, com base no ponto de vista cabalístico, ao corpo e à parte inferior da
Árvore psicológica.
O foco da consciência reside no ego Daat-Yesod, enquanto aquilo que está
inconsciente está além da linha liminar entre Hod e Nezah.
Essa zona oculta contém sua própria e distinta dinâmica e estrutura, e muitos
novos termos foram adicionados pelos freudianos para distinguir as diferentes
funções.
Começaremos por examinar primeiramente o básico.
Assim como o corpo do embrião, a psique forma-se lentamente a partir de um
esquema geral que, com o passar do tempo, vai sendo refinado, enquanto os
processos de crescimento e experiência interna vão-se completando e integrando.
Contudo, antes que o organismo psicológico possa começar a funcionar, precisa
receber uma quantidade enorme de energia e de impressões sensoriais.
Isso é proporcionado pelo veículo do corpo, que foi implantado na psique inferior no
momento do nascimento.
A partir desse momento, uma maré de impulsos sobe da Árvore física e passa para
a psique, que é inicialmente submergida pela experiência.
Uma das razões pelas quais o recém-nascido tem que dormir tanto é para permitir
que a psique, ainda não protegida, possa ajustar-se ao impacto do Nefesh, ou alma
vital, chamado por Freud de id.
O id, que tira a sua energia dos níveis mineral, vegetal e animal dos sistemas
mecânico, químico e eletrônico do corpo, segue uma lei básica de vida primitiva.
Procura aliviar-se de qualquer tensão que possa experimentar, como, por exemplo,
fome ou excesso de luz.
Ou seja, o id tratará de encontrar coisas prazerosas evitar coisas desagradáveis.
Esse é um reflexo instintivo que move todas as suas atividades, como tirar o dedo
de alguma coisa que está quente demais, ou procurar o seio da mãe para achar
sustento.
Esses instintos operam em todos os níveis do corpo e, inicialmente, a psique
recentemente encarnada não tem controle sobre eles, pois as conexões entre o
físico e o organismo psicológico são, no recém-nascido, totalmente tênues e sem
relação.
Por esse motivo, não existe nenhum fator restritivo, e as necessidades imediatas do
id rsão procuradas com um grau de ferocidade que deve ser associado no Nefesh,
uma síntese dos níveis animal, vegetal e mineral da consciência corporal.
Um exemplo disso na Natureza é encontrado nos lobos que não comem nada por
vários dias e que atacam qualquer coisa.
Outro exemplo são os elefantes, que são capazes de andar centenas de quilômetros
para encontrar sal.
O id tem a mesma força no seu impulso, pois sabe que morrerá se suas
necessidades não forem satisfeitas.
Posto que as necessidades do recém-nascido não são satisfeitas imediatamente —
pode não ser conveniente para a mãe satisfazê-las na hora — surge o fenômeno da
frustração, como observou Freud.
Normalmente, os órgãos sensoriais e as funções motoras reagem instantaneamente
a tais situações, como se fosse um cisco no olho, mas há momentos em que nem
mesmo eles podem resolver o problema.
Uma criança pode querer que a peguem no colo, mas não há ninguém disponível
para o fazer, ou pode querer pegar um objeto que está fora do seu alcance.
Isso gera uma tensão que não pode ser aliviada, e, sem a experiência de um ego
desenvolvido, a intensidade da carga é reforçada pela energia que está sendo
focalizada sobre o incidente, resultando em uma reação apaixonada que não
consegue encontrar satisfação.
Somada a isso está a frustração de uma psique que ainda é adulta em seu modo de
ver o mundo, mas que não pode fazer nada com um corpo tão primitivo.
Aqui começa o que é chamado de "processo primário", que dá início à conexão
entre o corpo e a psique através do Daat-Yesod do ego.
Ao longo do primeiro mês de vida, o recém-nascido forma lentamente uma série de
imagens através dos sentidos e da percepção que o ego Yesódico tem, digamos, do
seio da mãe que lhe dá sustento.
Com a constante repetição da amamentação, a memória começa a desenvolver-se,
de modo que o bebê pode lembrar-se do objeto que o satisfaz.
Como o ego não está suficientemente evoluído para diferenciar o tempo e o espaço,
não pode ver a diferença entre a imagem e a realidade de sua fonte de
alimentação, e isso pode causar ainda mais frustração e perturbação, até que a
criança se dê conta de que haverá momentos em que será amamentada e outros
em que não.
Aqui vemos o início de um processo em que a psique começa a relacionar-se ao
corpo, à medida que as impressões dos sentidos são reconhecidas e sintetizadas na
imaginação através da memória.
A imaginação, por sua vez, é usada pela criança para ajudá-la a reduzir a sua
tensão física, conjurando um objeto em uma tentativa de satisfazer à necessidade.
Isso dá à criança uma ilusão de realidade, pois o id Nefesh não sabe ainda a
diferença entre uma percepção objetiva e a memória subjetiva.
Na cabala, essa é a diferença entre o Daat, ou conhecimento do corpo, que se
relaciona somente com os dados dos sentidos, e o Yesod, que se preocupa com as
imagens.
Muitas pessoas podem reconhecer esse fenômeno quando vêem um ônibus a
distância e o número que querem com bastante clareza — até que o ônibus chega
mais perto e o número não é o que elas imaginaram.
Os bebês têm o mesmo problema, mas não o sabem, até desenvolverem os
processos secundários de identificação da realidade, isto é, até que percebam, por
exemplo, que o seio imaginário não está realmente presente, e que um objeto
próximo que desejam não vai chegar mais perto se não estenderem a mão ou não
gritarem para que alguém o apanhe.
Enquanto os processos primário e secundário não começam a ficar operacionais, a
energia do id não tem nenhuma forma que a amolde e canalize.
Posto que a psique pertence ao Mundo Yezirático da Formação, esses processos
têm que acumular-se para formar elos conscientes entre o corpo e a psique.
No entanto, até que se estabeleça um sistema bem organizado, o id dirá para onde
quiser.
Desse modo, instilará na psique dois poderosos impulsos Nefesh, que
permanecerão para sempre no indivíduo, por mais educado ou sofisticado que ele
se torne.
O aspecto positivo é chamado de "libido", e está relacionado ao lado direito
misericordioso da Árvore, como um processo ativo e criativo.
O aspecto negativo do id é conhecido como "mortido", e identifica-se com o pilar
esquerdo da Severidade.
Esses dois pólos de vida e morte são necessários, porque na Natureza o poder de
matar, de modo a poder defender-se ou alimentar-se, é tão vital quanto o poder de
propagar-se e de criar.
Em um ser humano, essas duas faces do id-Nefesh costumam ser contidas e
controladas pelo ego e, mais tarde, pelo superego, mas estão sempre presentes
naquilo que alguns psicólogos chamam de "subconsciente", ou aquilo que está sob
a consciência.
O "inconsciente", segundo a mesma visão, está acima do ego.
Essa é a diferença entre a Árvore do corpo e a Árvore da psique, quando elas se
encontram e operam abaixo e acima do Daat-Yesod do ego.
O poder dos níveis subconscientes acumula-se em todos nós e, em algumas
pessoas, nas quais o ego não é suficientemente forte, podem instalar-se os
conflitos da neurose, quando poderosos impulsos instintivos opõem-se aos padrões
estabelecidos pelo superego.
Ocasionalmente, quando o Daat-Yesod não tem bases firmes, o ego é derrubado e
surge a psicose, com o id-Nefesh irrompendo em um episódio psicótico, tal como o
furto ou, caso a mortido se volte contra a pessoa, suicídio.
Em uma escala maior, isso é visto em tempos de guerra, quando as nações sofrem
uma psicose de massa, ou mesmo em tempos de paz, quando, por exemplo, os
australianos brancos saíam nos fins de semana para caçar aborígenes negros, que
eram violentados ou castrados antes de serem mortos.
Aqui, tanto a libido quanto a mortido eram usadas selvagemente por seres
humanos supostamente "civilizados", de um modo que nenhum animal faria.
A função do ego é controlar esses impulsos primitivos e converter, não perverter, a
sua crua vitalidade em uma forma superior de atividade.
O fator do livre-arbítrio é importantíssimo nessas questões, se lembrarmos que o
recém-nascido tem uma psique adulta que ainda não está inconsciente.
No corpo do recém-nascido, o id-Nefesh é selvagem e indomado.
Como tal, a sua energia flui livremente para a face inferior da Árvore psicológica,
até ser amordaçado.
O termo clínico que se usa quando o ego começa a conter o id é "sujeição",
significando a instalação de padrões de pensamento, de sentimento e de ação, ou
seja, as tríades que encobrem a face superior da Árvore corporal exercem pressão
sobre o Daat-Yesod, que vai gerar o ego.
Esse processo, notou Freud, é auxiliado pelas memórias antigas das gerações
anteriores, que transmitem a experiência da humanidade, talvez através dos genes,
ou talvez pela sua conservação nas partes mais antigas do cérebro.
Essas formas arcaicas, contudo, são ainda muito primitivas, no sentido que estão
ocupadas primariamente com a busca do prazer e com evitar a dor.
São também totalmente irracionais, e, como o recém-nascido, percebem o mundo
como centrado nelas.
Freud observou também que a capacidade de formar imagens de realização de
desejos era muito semelhante às bases da magia primitiva, que se relacionava à
crença infantil no próprio poder de conseguir o que deseja movendo os membros de
um certo modo, ou emitindo certos sons.
Essa é uma visão muito freudiana da existência.
A sensação de onipotência que a criança tem pode ser a sua percepção da realidade
física, mas nem todos os seus sonhos e fantasias são sobre comida e conforto.
Muitas pessoas recordam-se do estado pré-natal nos mundos superiores, e de como
retornavam para eles durante o sono, enquanto seus corpos permaneciam no
berço.

Voltando ao id-Nefesh, pode-se dizer que este é a base física da atividade da


psique; ou seja, serve de âncora para a cobertura da educação, dos costumes e até
mesmo do desenvolvimento espiritual.
Como tal, tem um importante papel na vida, como uma fonte de poder que pode
expandir ou contrair a psique, de acordo com a maneira como é usado.
Sendo um fator oculto, o id infiltra-se na psique para estimular ou desencorajar
eventos conscientes ou inconscientes, tais como os chamados acidentes, que
evitam ou dão início a certas ações.
Ele é muitas vezes simbolizado pelo animal noturno que, em muitos sonhos ou
fantasias, carrega a pessoa através de tempos difíceis.
O id-Nefesh é a central energética da Árvore física.
Quando a habilidade e a inteligência da psique são capazes de converter a energia
vital que emana dele, pode-se conquistar muito.
Mas tal capacidade está ainda muito longe do alcance do recém-nascido, que tem
que aprender como relacionar a sua psique ao seu novo corpo.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 26

Ego-Yesod
De acordo com muitos psicólogos, o ego infantil é criado pela interação dos mundos
interior e exterior.
O astrólogo vai ainda mais longe, ao dizer que a posição da Lua, em Signo e Casa,
dá ao ego um caráter particular.
O cabalista vê o ego como o foco de muitos processos entre a face superior do
corpo e a face inferior da psique, nos quais as impressões sensoriais e a atividade
psicológica circulam ao longo dos caminhos e em torno das subtríades centradas no
Daat-Yesod do ego.
Os freudianos vêem o ego como uma função executiva que surge das frustrações
do recém-nascido, quando este está aprendendo a controlar e descarregar os
estímulos moto-sensoriais.
Ele produz imagens de realidade e de fantasia que governam as trocas entre os
níveis conscientes e inconscientes.
O fato de haver diferentes visões da mesma realidade é um exemplo de como o
ego apreende os fatos de acordo com a sua disposição e treinamento.
O dever principal do ego é dar continuidade às experiências por que passa.
Isso é feito pela memória, que é o registro de inúmeras percepções que formam
padrões na mente e no cérebro.
Desse processo nascem a lembrança do passado e a imaginação sobre o futuro,
quando vistos sob a luz do presente.
Inicialmente, o ego não percebe a diferença entre os mundos exterior e interior,
mas, à medida que a criança se familiariza com o próprio corpo e com o meio em
que vive, desenvolve o que é chamado de "princípio da realidade".
Este permite que a criança veja o que é realizável e o que não é, e gasta-se muito
tempo testando esse princípio para conhecer os seus limites.
Em termos cabalísticos, o ego-Yesod começa a diferenciar-se do seu Malkhut
mediante a experiência, e a distinguir entre o corpo e a psique ao adquirir a
capacidade de controlar os impulsos do id-Nefesh e a segregar os processos
psicológicos do pensamento, do sentimento e da ação.
Devido ao modo da Arvore, os cabalistas afirmam que existe uma forma, com
tendências natas, que é simplesmente preenchida pela experiência, e que o ego-
Yesod é o espelho não-luminoso, que reflete as imagens de acordo com a sua
constituição particular; esta última é governada por fatores tais como o carma e o
estágio de desenvolvimento.
Não é uma simples cera mole para ser moldada, como acreditam muitos psicólogos.
O atraso provocado pelo ego na reação imediata a uma situação, pois o bebê passa
a reconhecer que essa reação pode não alcançar o resultado desejado, transforma
o processo primário de perceber um objeto no processo secundário de negociar
com o mundo exterior.
Com o tempo, forma-se uma imagem da realidade, e são adquiridos poderes mais
refinados de discernimento e de manipulação, à medida que os caminhos e tríades
da face inferior da Árvore psicológica vão-se unindo cada vez mais à face superior
da Árvore corporal.
A acuidade da percepção e a precisão da resposta são reforçadas pela
aprendizagem e pelo uso dos símbolos, que se tornam cheios de significado em um
momento de consciência, e então cruzam a linha liminar entre Hod e Nezah, para
colocar-se junto aos demais de seu mesmo tipo, no inconsciente.
Um exemplo disso está em aprender a ver as horas.
Há um momento em que os números e ponteiros do mostrador do relógio deixam
de ser meros objetos e passam a representar certas horas e minutos do dia.
Quando isso acontece, o relógio deixa de ser visto objetivamente.
Assim, nove horas é quando se deve estar na escola, e meio-dia é hora de ir para
casa.
Todas essas associações, e inúmeras outras, passam através da consciência do ego
e vão desaparecer no inconsciente, onde são armazenadas, de acordo com a sua
classificação, nas tríades dos conceitos ou das emoções.
Algumas dessas primeiras memórias serão agradáveis, e outras não, e isso vai
determinar para qual lado da Árvore o indivíduo será atraído.
Enquanto isso, o ego-Yesod constrói lentamente uma imagem geral do mundo
exterior, e do lugar que a pessoa ocupa nele.
Aqui é preciso dizer que, simultaneamente, está sendo construída no ego uma
capacidade de formação de imagens que dá ao impulso do id-Nefesh e às
atividades do inconsciente uma forma que ocorre nos sonhos e nas fantasias
diurnas.
Trataremos disso em outra ocasião, mas devemos notar aqui que essa formação
interna de imagens ocupa grande parte do tempo e da energia da criança, e de
muitos adultos.
Em muitos casos, como nas crianças, esse não passa de um modo de passar o
tempo ou de representar uma situação impossível na realidade externa.
Em outros, é uma maneira de aliviar pressões internas que não podem ser
enfrentadas de outro jeito, e, em outros ainda, é simplesmente uma forma de
escapismo.
Inversamente, esse é o mecanismo pelo qual as pessoas criativas inventam novas
formas de arte, ciência, negócios ou o que quer que seja.
Alguns usam essas imagens para relaxar em devaneios, e outros para repassar o
que deviam ter dito ou feito nesta ou naquela situação, enquanto há aqueles que
utilizam essa capacidade Yesódica para planejar estratégias ou antecipar o que
deve ou vai acontecer.
Toda essa atividade interna do ego, em muitos indivíduos, está relacionada à
realidade exterior, de modo que, para a maior parte deles, ela não interfere
diretamente na sua capacidade de percepção do mundo exterior.
Contudo, em muitos casos de trauma ou de febre, essa capacidade Yesódica de
formar imagens pode vir à tona e parecer totalmente real em suas ilusões.
Em situações mais sérias de distúrbio psicológico, as fantasias podem transformar-
se em ilusões que bloqueiam a realidade externa, em períodos passageiros ou
cíclicos.
Quando um ego iludido não consegue ver a diferença entre a realidade interna e a
externa, instala-se a insanidade mental.
O princípio da realidade é crucial para o desenvolvimento do ego.
Desde o ponto de vista cabalístico, ele liga o Yesod da psique ao Daat do corpo, e
faz com que o Malkhut de Yezirah se encaixe no Tiferet físico de Assyah.
Desde o ponto de vista freudiano, ele capacita a pessoa a fazer uso da vitalidade do
id, e convertê-la para qualquer aplicação prática de que tenha necessidade.
A apreciação da realidade externa também traz consigo um sentido de identidade
que, com o tempo, estabelece um lugar reconhecível do Mundo. medida que o ego-
Yesod vai aprendendo o que é real, a sua capacidade aumenta, tanto no domínio
interno como no externo.
Isso significa que uma crescente troca de experiência é processada e relacionada à
aquisição de conhecimentos e habilidades que influencia grandemente a visão de
mundo e os valores pessoais do indivíduo.
A personagem ou máscara que o indivíduo usa para cobrir a face do ego é a
imagem que as circunstâncias requerem.
Estas, porém, podem mudar radicalmente, como em tempos de guerra ou de crise
pessoal, quando pode haver momentos e até mesmo longos períodos, em que
nenhuma das máscaras adquiridas pela pessoa consegue protegê-la do que está
acontecendo, e o ego, desnudado, tem que enfrentar as coisas diretamente.
Em muitos casos, como nos combates militares, somente a disciplina imposta por
outros pode impedir um colapso.
Em circunstâncias igualmente duras, como deixar de realizar uma ambição
importante, o choque inicial pode causar grande confusão, até que se vista uma
nova máscara, para proteger o ego.
A viúva que se veste de negro e o namorado rejeitado que finge que não está
ligando são exemplos disso.
Existem aqueles, contudo, que não têm um ego capaz de agüentar os golpes da
vida, e se abatem, porque o sentido de ego deles é basicamente inseguro.
Muitas vezes, tais indivíduos temem não apenas o mundo mas também a si
mesmos, pois nem sempre conseguem conter os poderosos impulsos do id-Nefesh
que surgem durante uma crise, como em um ataque de pânico, por exemplo.
Eles não conseguem suportar quando os impulsos infantis que nunca foram
totalmente dominados pelo ego irrompem.
O princípio da realidade perde-se em qualquer coisa, desde um acesso infantil de
mau humor até um episódio psicótico de homicídio ou suicídio.
Tais incidentes são, muitas vezes, obra do lado sombrio do ego.
Assim como o personagem é a fachada da imagem do ego, a sombra é o que não é
visto, pelo menos por nós mesmos, posto que a maioria de nós esconde os seus
traços menos desejáveis sob aquilo que projetamos em nossa imagem de ego.
Esses elementos inaceitáveis da nossa natureza têm suas raízes no poder primitivo
do id-Nefesh.
Felizmente, esses poderes são mantidos sob controle pelo ego e pela personalidade
social do indivíduo.
Entretanto, impulsos poderosos como esses, que surgem do corpo e, muitas vezes,
de elementos perversos da psique, conseguem passar através do ego sob certas
condições, tais como, por exemplo, durante uma separação conjugal, ou quando
são ditas ou feitas coisas terríveis.
Quando Freud introduziu essa dimensão sombria, teve que enfrentar uma enorme
resistência na pudica, porém sensual, Viena do século XIX.
Duas pavorosas guerras mundiais revelaram esse lado sombrio de milhares de
pessoas supostamente decentes de ambos os lados, quando o verniz de civilização
foi arrancado em combate, e milhões morreram de modo extremamente violento.
Esse elemento sinistro, observou Freud, pode estar bem oculto por maneiras
agradáveis, mas o ego nem sempre consegue impedir que ele se revele através de
escorregões da fala e de ações que contornam o Yesod e descem ou sobem pelos
pilares laterais entre Malkhut, Hod e Nezah.
Voltaremos a isso mais tarde.

O ego é o centro de recepção externo da psique, no sentido de que age como uma
peneira da consciência para a percepção de momento a momento da vida,
interpretando os dados dos sentidos e operando os sistemas motor e voluntário
para reagir à realidade física.
Ele também controla e equilibra os humores, pensamentos e o comportamento da
psique inferior.
Estes aparecem como os vários personagens que formam uma personalidade com o
que foi introjetado ou absorvido, em particular dos pais e em geral do meio
ambiente.
Desse modo, uma combinação de influêcias externas e tendências individuais,
baseada em qualidades genéticas e herdadas, juntamente com o arranjo cósmico e
cármico da psique encarnada, é sintetizada para formar o caráter distinto do ego.
Por ser essencialmente um catalisador, o ego Yesódico tem a faculdade de ajustar-
se às circunstâncias.
Isso, na maioria das pessoas, é muitas vezes limitado, depois que a personalidade
se torna fixa, pois poucas pessoas estão preparadas para mudar após a
maturidade, embora o ego possa ser forçado por circunstâncias dramáticas, como
por exemplo tornar-se um prisioneiro de guerra, a enfrentar condições que estão
mudando.
Isso, porém, torna-se cada vez mais difícil com o passar dos anos, como o
descobrem muitas pessoas de meia-idade ao verem que o Mundo considera os seus
valores, habilidades e maneiras como fora de moda.
Na cabala, o ego é visto como um talentoso administrador que serve o senhor do
Si-mesmo.
Com sua vasta gama de habilidades, ele pode desempenhar e proteger, contanto
que não procure usurpar o papel do Si-mesmo.
Uma das primeiras lições do desenvolvimento interior é conceber o ego Yesódico
como uma entidade dentro da psique, e não, como muitas pessoas o vêem, como a
identidade da pessoa.
O ego é o instrumento mediante o qual podemos ver os mundos interior e exterior.
A sua capacidade, como intermediário, não deve ser subestimada, assim como
tampouco devem ser-lhe atribuídos méritos que estão além do seu alcance.
Em algumas disciplinas espirituais, o ego é denegrido, por ser considerado inferior e
grosseiro.
Na cabala, ele é visto como a verdadeira Fundação da psique, e como tal deve ser
encorajado a ter um bom desempenho.
Isso nos leva ao terceiro componente do sistema básico de Freud: o superego, que
cumpre o papel, no interior da psique, de contrapeso do ego e do id.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 27

Superego Ideal
No momento do nascimento a psique não é, como alguns pensam, uma página em
branco.
E um organismo completo, com memórias de vidas anteriores e uma consciência do
que está acontecendo.
No entanto, ao unir-se ao corpo do recém-nascido, tem sua experiência e
capacidade grandemente limitadas, e tem que aprender, a partir daquele momento
da encarnação, a viver uma nova vida.
Com o tempo, a consciência do estado pré-natal é enterrada sob a preocupação
com a fisicalidade, à medida que a psique vai-se ajustando às leis do mundo
natural.
Ela também é encoberta pelo acúmulo de novas experiências que chegam à psique
através do Malkhut do corpo e do Yesod do ego.
Em um primeiro momento, o ego é desenvolvido de modo a poder conter e
controlar os impulsos primitivos do id-Nefesh, para que possa tirar o melhor
proveito da situação, do mesmo modo que qualquer animal.
Assim, a criança aprende como agradar aos pais, e portanto a gratificar suas
necessidades e evitar a dor, pois reconhece que o alimento ou o amor podem
ser-lhe negados se não se curvar à vontade deles.
Esse processo vai crescendo ao longo dos primeiros anos de vida, e forma o que
Freud chamava de superego e o ideal de ego, que, neste texto, combinamos para
formar o "superego ideal".
Segundo os freudianos, o superego ideal é a influência dos pais que surge da
experiência do ego, para servir como uma imagem da moralidade.
Visto cabalisticamente, esse é o Binah-Hokhmat, ou a mãe e o pai interiores, em
conjunção com Gevurah e Hesed, e Nezah e Hod.
Desse modo, as recompensas concedidas pelos pais acumulam-se em torno da
coluna direita da Misericórdia, e os castigos em volta da coluna esquerda da
Severidade.
Esses agregados são puramente psicológicos, pois, tal como veremos, as tríades
laterais não têm contato direto com a Árvore.
Na qualidade de elementos conceituais e emocionais da psique, as tríades mantêm
os valores individuais e coletivos da pessoa tal como estes lhe foram transmitidos
pelos pais.
O superego ideal, porém, não é a mesma coisa que a alma, que é composta por
Gevurah-Tiferet-Hesed, constituindo a coluna central, o órgão da consciência.
Na maioria das pessoas, introjeção e absorção dos valores dos pais torna-se o seu
modelo do bem e do mal.
Em algumas tribos primitivas, certas ações são tabu, como, por exemplo, não falar
com a sogra, enquanto em outras comunidades considera-se de mau gosto não ser
cortês com a mãe da própria esposa.
Muitos desses costumes perderam o seu significado original, mas continuam a
formar, juntamente com aqueles que ainda têm um valor prático, as regras da
conduta pessoal e social.
Tudo isso é absorvido pela criança e reforçado na vida adulta de maneira a que se
acumule no inconsciente um vasto arsenal de "pode" e "não pode".
Esses ditames não devem ser Confundidos com a consciência, que quer dizer "com
conhecimento", visto que o superego é sobretudo inconsciente.
Nesse ponto, deve ser dito que diversas escolas de psicologia usam o termo
diferentemente.
No presente trabalho, adotaremos o esquema acima.
Está claro que aquilo que é introjetado pela criança é uma mistura entre o que os
pais dizem e o que a sociedade exige, o que nem sempre é a mesma coisa.
Desse modo, em vez de ter um sistema bem integrado de conceitos e complexos
emocionais, a pessoa terá muitos aglomerados de experiências positivas e
negativas associadas que não só não estão conectadas como podem até ser
opostas, o que pode ser a causa de poderosas tensões na sua psique.
Estas podem ser conflitos totalmente inconscientes que mesmo assim influenciam
os pensamentos, sentimentos e ações do indivíduo.
Além disso, ao mesmo tempo que a inocência da infância pode ser perdida quando
se percebem as discrepâncias entre os pais e a sociedade, o superego ideal
continua a exercer sua influência sobre a vida adulta.
O aspecto do ideal de ego manifesta-se em grandes expectativas de desempenho e
ambição, enquanto o elemento de superego representa o flagelo contra a infração
dos costumes locais, pois as profundas fundações dos primeiros anos são a base
rochosa sobre a qual se constrói a psique.
Isso nos leva ao fato de que, se a psique é bem equilibrada, estabelece-se um
sentido de segurança e de confiança.
Caso não o seja, haverá sempre um sentimento de insegurança pairando sobre a
pessoa, por mais sucesso ou afirmação que ela venha a alcançar na vida.
Os freudianos vêem a solução para esses problemas na psicanálise, durante a qual
essas primeiras distorções são identificadas e resolvidas.
Os cabalistas usam o mesmo princípio, mas com a diferença de que o aplicam no
mundo em vez de o fazer no consultório, de modo que o problema pode ser
resolvido pela ação direta.
O poder da influência dos pais sobre a criança é enorme, e embora ela possa reagir
de diversas maneiras à educação que recebeu, não deixará, mesmo assim, de
transformar a visão do mundo de seus pais em uma autoridade interna e, mais
tarde, de projetar os valores deles sobre as autoridades sociais, como professores,
policiais e figuras políticas e religiosas.
Em condições ordinárias, isso é útil, pois controla os impulsos do id-Nefesh e ajuda
a pessoa a integrar-se na sociedade em que vive.
Porém, se a inevitável rebelião da juventude contra a autoridade dos pais não é
contida pelo superego ideal do indivíduo, a sociedade reagirá Gevurahlmente com
suas leis sociais e penais, assim como Hesed recompensa a boa conduta, segundo a
ocasião, com riqueza e honra.
Essa mistura de controles e de equilíbrios pessoais e coletivos é a base da
civilização.
A aquisição de modos em uma sociedade primitiva, e a noção de cavalheirismo, que
espera que um fidalgo se comporte como tal, são mais que um mero verniz.
Tais coisas podem ser a causa de acontecimentos como a abolição da escravidão,
ou criar comunidades em que as pessoas vivam segundo um código espiritual ou
político.
O superego ideal de algumas sociedades pode, é claro, ser perverso, como na
Espanha medieval, onde era considerado uma honra ser parte da Inquisição que
queimava e torturava milhares de supostos hereges e apóstatas.
Aqui vemos a diferença entre o costume e a consciência; aquela, a norma aceita;
esta, baseada em uma moralidade eterna.
Isso costuma causar uma divisão entre os conformistas, que normalmente vivem
no ego, e os indivíduos que vêem desde o nível do Si-mesmo e deixaram de estar
sujeitos ao domínio do superego ideal dos pais das colunas laterais.
Para aqueles que não percebem a diferença entre o ego e o Si-mesmo, a
consciência substituta do superego ideal age inconscientemente.
Por exemplo, se essa pessoa fizer, pensar ou sentir alguma coisa que seja
socialmente impróprio, terá um sentimento de culpa cuja origem não saberá
identificar.
Da mesma maneira, se estiver tendo um bom desempenho, de acordo com a
sociedade, vai sentir-se bem sem muitas vezes saber por que.
Mas ainda, caso uma pessoa esteja deliberadamente infringindo as regras, mas
recusa-se a reconhecê-lo, o que é bastante comum, o superego imporá a sua
sentença através dos pilares laterais e dos caminhos que afetam Malkhut, na forma
de um incidente que pune a má conduta ou atrai a atenção para ela.
Tais incidentes podem ir de um pequeno porém significativo engano a um acidente
que revela que algo vital está errado.
Inversamente, a sorte ou a boa fortuna podem ser atraídas pelo ideal de ego, que
cria as condições psicológicas para talvez uma promoção, pois a pessoa
corresponde ao que a sua sociedade considera certo.
Isso, é claro, depende dos valores da sociedade, pois houve épocas e lugares em
que era considerado uma recompensa ser vítima de um sacrifício.
Depende de onde a pessoa está fadada a ser encarnada.
A consciência é totalmente diferente daquilo que geralmente se acha que ela é.
Pode ser, tal como é na maioria das pessoas, uma mistura de costumes com uma
genuína compreensão da moralidade.
Todas as religiões procuram elevar seus seguidores criando certos padrões éticos
que colocam as prática locais acima do nível social.
Por exemplo, os Dez Mandamentos são um código que considera todos os Mundos.
Os três primeiros Mandamentos, relacionados aos Sefirot supernais, são sobre
Deus, ao passo que os que estão abaixo de Daat, lugar do Conhecimento, são obra
da conduta humana.
Hesed e Gevurah falam de guardar o dia santo e honrar pai e mãe, enquanto
Tiferet fala em não matar.
Nezah e Hod ocupam-se do adultério e do roubo, e Yesod e Malkhut com falar a
verdade e não cobiçar a propriedade do vizinho.
A posição de cada Mandamento na Árvore e a sua ordem específica formam a base
de uma moralidade que está preocupada como o Divino, com a espiritualidade, com
a psique e com questões do mundo prático.
Como tais, têm uma influência sobre o lugar do ser humano no Universo e a sua
relação com os demais e com Deus.
Com isso, os Mandamentos- são leis que se aplicam não apenas a este ou àquele
lugar ou momento mas a todas as condições e níveis de desenvolvimento.
A verdadeira consciência está preocupada com essas leis, e pode ser expressa por
um ditado que é encontrado em todo o mundo: "Não faças aos outros o que não
queres que façam contigo".
O que quer dizer que os outros são vistos como o mesmo Si-mesmo ou Tiferet.

O superego ideal é a acumulação de experiência adquirida e de autoridade


introjetada.
Ele atua, no interior da psique, como o contrapeso ao id-Nefesh, com o ego
servindo como fiel da balança.
Como tal, ele preenche as tríades laterais da psique com um sistema completo de
atitudes que governam a conduta do indivíduo em público, quando não em privado.
No seu lado mais sinistro, é preciso dizer que o superego ideal é a base da sombra
psicológica que ajuda e instiga a sombra do id.
Por exemplo, valores distorcidos podem justificar o assassinato, como é visto no
código da Máfia para os casos de traição ao clã.
O mesmo pode ser visto em pessoas supostamente boas que deliberadamente
ignoram alguém que precisa de ajuda porque desaprovam esse alguém.
O superego ideal não é, de modo algum, um elemento coesivo.
Na verdade, alguns indivíduos têm Árvores completamente desequilibradas, com
demasiada ênfase nesta ou naquela tríade ou Sefirah, na medida em que grupos de
emoções ou idéias dominantes distorcem a visão que a pessoa tem da realidade.
Muitos funcionários públicos subalternos, por exemplo, suportam um superego
excessivo, e não poucos benfeitores estão de tal modo cheios de ideais de ego que
não percebem que seus esforços podem perturbar o equilíbrio de forças e precipitar
uma guerra.
Na maior parte das pessoas, essas discrepâncias não são óbvias, até que elas
sejam submetidas a pressão.
Para uns poucos, infelizmente, os desequilíbrios são grandes demais e as cisões
originadas na infância surgem mais tarde na forma de desordens de personalidade
ou distúrbios psicológicos.
Entretanto, assim como uma Árvore sempre busca o equilíbrio, o id, o ego e o
superego ideal compensam-se como operações interdependentes.
Examinemos agora a psique como um sistema funcional.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 28

Sistema Funcional
Quando o ego, o id e o superego ideal tornam-se operacionais na psique, o
indivíduo já está bem, ainda que não completamente encarnado.
Isso quer dizer que a pessoa tem uma relação tanto com o mundo interior quanto
com o exterior, e pode atuar em ambos.
No entanto, devemos lembrar que a psique continua a ver a realidade externa
apenas em termos de imagens sensuais, e que a maior parte do que é visto é muito
subjetivo, sujeito ao temperamento pessoal e à cultura.
Desse modo, o beduíno no deserto verá coisas que nenhum habitante das cidades
notaria, e vice-versa.
Além do mais, tudo o que percebemos é modificado grandemente pela interação
dos três sistemas que passaremos a examinar.

Segundo diversos psicólogos, a energia da psique é derivada do corpo.


Essa noção de um único mundo é mantida porque eles não reconhecem a existência
de outras dimensões, e não conseguem apreender a realidade de mundos
diferentes, cada um dos quais com um cosmos completo em estrutura e dinâmica.
A verdade é que a fisicalidade está confinada ao seu próprio mundo, e só pode
alcançar, nos termos das Árvores interpenetrantes da psique e do corpo, o nível
mais grosseiro da mente.
Não há dúvida de que ocorrem trocas e conversões de energia entre os dois
organismos, quando o pensamento e o sentimento são transformados em ação,
mas tais processos são mais comunicações através da conexão Daat-Yesod do ego
que um interfluxo maciço de energias.
Comparado com o estômago, o cérebro é um mecanismo altamente complexo, mas
parece bastante tosco quando comparamos as suas operações com a sutileza da
psique.
Examinando em primeiro lugar o nível mais inferior, a energia gerada pelo corpo é
usada pelos instintos para mantê-lo vivo.
Segundo os freudianos, essa energia tem uma característica distinta, no sentido de
que flui, através de uma intenção, em direção a um objeto específico.
Assim, a fome no corpo traz consigo o desejo de comer e, portanto, do procurar
comida.
Esse processo é básico, visto que o id-Nefesh tentará sempre aliviar qualquer
tensão que apareça.
Quando o alívio é obtido a intenção cessa, e o equilíbrio é restabelecido até que
surja a próxima necessidade.
Esse processo contínuo que impulsiona o organismo é catalogado como "fonte",
"intenção", "objeto" e "ímpeto", e subdividido em "intenção interna", ou seja,
equilíbrio, e "intenção externa", isto é, atingir o objetivo, seja ele comida, sexo, ou
qualquer outro.
Em si, esse processo é totalmente repetitivo e compulsivo, e corresponde à tríade
vegetal de Malkhut-Hod-Nezah e de Yesod na Árvore corporal.
Posto que o id-Nefesh não possui discernimento, ele pode produzir, e o faz com
freqüência, imagens do que deseja na formação de imagens de Yesod.
Essas imagens são baseadas na experiência do corpo e na forma simbólica que o
ego atribui a objetos tais como maçãs, que evoca todas as qualidades da fruta e a
satisfação que ela proporciona.
Tais imagens, evidentemente, não podem satisfazer à necessidade do id-Nefesh, de
modo que se planeja uma ação com vistas a conseguir uma maçã e comê-la.
Esse processo pode ser igualmente aplicado na aquisição de um automóvel ou de
um parceiro sexual, cuja imagem está carregada com o que é chamado de "catexe
do objeto".
Isso significa que o objeto desejado torna-se carregado de interesse ou energia
psicológica que têm origem no veículo Yezirático da psique, e não no corpo.
Isso também ilustra como muitas coisas estão imbuídas de uma dinâmica que nós
mesmos lhes damos, devido à memória, ao desejo, à projeção e a muitas outras
associações que se ligam a qualquer coisa que vemos ou que seja objeto do
id-Nefesh.
A verdade é que esse poder psicológico é projetado a qualquer objeto semelhante
aos que tenhamos em mente no momento.
Freud afirmava que o sexo, por exemplo, era projetado em todos os tipos de
objetos, e isso se dá porque o id-Nefesh procurará alívio em qualquer lugar, se não
puder encontrá-lo pelos meios normais.
Isso dá origem à noção do deslocamento de energia, do seu objeto primário para
ser projetada sobre outro como um alívio secundário.
A mulher sem filhos que é louca pelo seu gato ilustra isso.
Uma parte bastante grande da vida é influenciada pela associação de características
comuns que não poderiam, essencialmente, ser relacionadas.
Houve épocas em que um bronzeado durante o inverno era associado à riqueza,
assim como um Rolls Royce é considerado um sinônimo de sucesso, embora, de
fato, em ambos os casos isso pode não ser verdade.
E apenas uma associação coletiva.
Existem inúmeras coisas como essas, carregadas de catexe psicológica, que
desperta o interesse.
A propaganda comercial depende delas.
Com efeito, as palavras "novo" e "grátis", quando aplicadas à maior parte dos
objetos, fará com que o id-Nefesh comece a procurar um alívio, resultando em uma
venda para o produtor que estimulou o desejo no mercado.
A tarefa do ego, nesse sistema tripartite, consiste em diferenciar a realidade da
fantasia.
A experiência demonstra que nem todas as imagens de comida, por exemplo,
podem ser comidas.
Pode não ser mais que o id, usando a imaginação Yesódica do ego para dizer que
está com fome, mostrando a imagem de um cachorro-quente.
O ego tem capacidade para identificar a diferença, porque ele se refere à memória
baseada na experiência que está arquivada na psique.
Na qualidade de porteiro entre as realidades interior e exterior, ele aconselhará a
pessoa a agüentar o seu impulso instintivo até que seja a hora de comer, pois um
adulto nem sempre pode gritar por comida, obtendo-a só porque a quer.
Esse controle é possível graças às muitas associações anticatéxicas, tal como são
chamadas, presentes no superego ideal, que se opõem ao id-Nefesh mesmo que
este tenha diante de si uma deliciosa refeição.
Nisso vemos como os elementos carregados positiva ou negativamente funcionam
para compensar um ao outro.
A função do ego Yesódico é a de garantir que a pessoa satisfaça às suas
necessidades instintivas de acordo com o que é socialmente aceitável.
Isso dá ao ego o papel importantíssimo de pivô entre os pilares laterais e as faces
inferiores e superiores das Árvores física e psicológica.
O superego ideal existe em um mundo puramente psicológico.
Por esse motivo, tem pouco senso comum, pois não tem nenhum contato direto
com a realidade física.
Como o id-Nefesh, porém, o superego ideal também tem as suas compulsões.
A partir dos seus pilares inconscientes da Severidade e da Misericórdia, ele
distribuirá implacavelmente castigos e recompensas, com base nas milhares de
cargas catéxicas e anticatéxicas que mantêm as associações intelectuais e
emocionais em seus pilares laterais ativos e passivos.
Essas galáxias opostas e complementares de complexos são uma fusão das
experiências individuais e coletivas de uma pessoa, que acabam por exercer uma
considerável influência.
A maioria das pessoas não se dá conta disso até que a psique delas seja, talvez,
momentaneamente desequilibrada.
Um exemplo disso pode ser visto quando uma pessoa encontra uma carteira
perdida.
A tentação de embolsá-la e, com isso, ganhar algo que outra pessoa já perdeu de
qualquer jeito (id) é contrabalançada pelo sentimento de culpa e pelo pensamento
do que poderia acontecer se apanhada (superego).
O ego, no papel de mediador do debate, pode ver imagens do dinheiro sendo gasto
em uma grande farra, por um lado, e do julgamento em tribunal, pelo outro lado.
Sendo o elemento realista do sistema tripartite, o ego então concluiria que seria
melhor levar a carteira para a delegacia.
Como o id foi controlado pelo superego, o ideal de ego instiga a pessoa a celebrar a
vitória, como recompensa.
Isso pode ser impedido pelo ego, que sabe que a pessoa não tem dinheiro para isso
e que se está iludindo com a idéia de ser honesta, pois por um momento o seu
id-Nefesh quase levou a melhor.
Visto sob a luz da mitologia moderna, o ego agiu como um xerife americano
pragmático, apanhado entre um santo puritano (superego ideal) e um bandido (id),
em um bangue-bangue à italiana.
Há ocasiões em que esse sistema de três partes não trabalha com tanta eficiência.
Normalmente, o superego opõe-se a qualquer movimento primitivo feito pelo id,
mas, às vezes, acontece uma confusão ou até mesmo uma distorção.
Isso pode ocorrer durante uma crise pessoal ou em um contexto social.
Tomemos, por exemplo, o caso de um país que está sendo invadido.
O inimigo está por toda a parte, destruindo não somente a rede de cidades como
também todo um modo de vida.
A mente coletiva do povo invadido pode gerar uma imagem do inimigo como a
expressão do mais puro mal.
Isso acontece em quase todas as guerras e, em pouco tempo, indivíduos
totalmente estáveis e respeitáveis estão desencadeando os ataques mais
devastadores contra o adversário, quando o lado mortido do id-Nefesh, apoiado
pelo superego, usa a praticidade do ego para vingar-se dos intrusos que tentaram
destruir o seu ideal de ego.
Coisas como liberdade e identidade religiosa ou nacional são utilizadas para atiçar a
sanha do superego e esporear o id, enquanto a imagem .de ego das pessoas, em
luta pelo que quer que seja que elas acreditam, obscurece o que elas estão
realmente fazendo.
O mesmo acontece no nível pessoal, quando a pessoa tem o seu sentido de
realidade perturbado pelas drogas ou pelo esforço prolongado.
Se o ego estiver avariado devido a traumas físicos ou psicológicos, pode permitir
que o id e o superego ideal, ambos irracionais, percam totalmente o controle.
Isso pode precipitar um colapso mental completo, ou uma violenta explosão, até
que o ego restabeleça a supremacia sobre o interfluxo descontrolado entre a face
superior da Árvore corporal e a face inferior da psique.
Casos como os de pessoas que costumam ser convencionais entregando-se, após
perderem o cônjuge, a uma vida dissoluta até que percebam o que estão fazendo e
voltem ao normal, são um exemplo disso.
Em circunstâncias menos dramáticas, a combinação pode ser manipulada por
qualquer dos fatores.
Por exemplo, o ego Yesódico, frente à visão de uma deliciosa torta de creme, pode
contornar o conselho do superego e empanturrar-se de doce junto com o id.
Do mesmo modo, a paixão de id-Nefesh pode ser usada para superar o senso
comum do ego, quando se está cortejando uma moça que o ego ideal costuma,
equivocadamente, julgar perfeita, por conformar-se aos seus critérios de perfeição.
Muitas obras de arte foram criadas pela combinação da energia do id-Nefesh, a
imaginação Yesódica e a busca da excelência do superego ideal.
Os trabalhos criativos têm outra qualidade, que pertence à dimensão do Si-mesmo,
o qual, na qualidade de Tiferet, ou árbitrio consciente da Verdade e da Beleza,
introduz alguma coisa de uma ordem superior, por sua conexão com os Mundos da
Criação.
É por isso que a arte original é tão rara.
O ego Yesódico foi projetado para cuidar da realidade de todos os dias.
Nesse papel ele reina supremo, mas não pode ver tão profundamente como o
Tiferet, ou criar como o Si-mesmo.
Ainda que o faça com perfeição, ele pode apenas imitar.
O poder, a estrutura, a complexidade e a sutileza do ego não devem ser
subestimados.
Ele é a câmara de compensação entre o corpo e à psique.
O seu desenvolvimento e educação, especialmente durante os primeiros anos, vão
determinar a sua capacidade de processar todos os caminhos e tríades que
convergem sobre ele, através dos quais fluem as impressões e impulsos do id, e os
sonhos, projeções e inspirações do inconsciente.
Um ego fraco ou de visão muito estreita é como uma válvula defeituosa que tem
que controlar as poderosas forças que circulam em muitos níveis e em grande
variedade.
Imagine-se caminhando por uma rua familiar.
Esse seu piloto automático cuida de muitas coisas, como ticar uma lista de
compras, ponderar sobre problemas profissionais, tentar enfrentar uma
preocupação inconsciente ou uma dor incômoda na perna, tudo isso enquanto você
caminha por entre as pessoas e conversa polidamente com um amigo que quer a
sua atenção.
Tudo isso e mais ainda acontece ao mesmo tempo, e as razões pelas quais o ego
pode suportar é que existem vários mecanismos psicológicos que evitam que ele
seja sufocado pelo mundo exterior, pelo id-Nefesh e pelo inconsciente, conhecidos
pelo nome técnico de "mecanismos de defesa".
Tais mecanismos são vitais para a preservação do equilíbrio da psique.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 29

Mecanismos de Defesa
Mesmo que a psique que está encarnando seja avançada, não deixa de ser um
choque nascer para o mundo físico.
Inicialmente, a única maneira que o bebê tem para se proteger é retirando-se para
o sono, ou para aquilo que os freudianos vêem como fantasia.
De acordo com a visão cabalista, esta é um regresso ao domínio de Yezirah, e
algumas pessoas recordam terem-se retirado do corpo infantil, retornando somente
quando a situação tornou-se aceitável.
Contudo, chega o momento em que o indivíduo tem que enfrentar a vida na Terra.
Nesse ponto começa a batalha entre realidades diferentes que causa o fenômeno
da ansiedade.
Uma das observações mais importantes de Freud foi sobre o efeito da ansiedade da
psique, e a maneira como o sistema tripartite do ego, id e superego lida com ela.
Por exemplo, ele notou que o id gera ansiedades que distorcem a visão da
realidade do bebê, dominando-o com suas necessidades.
Nesse contexto, a ansiedade pode ser vista como uma tensão Assyática ou
biológica que afeta a psique.
Mas Freud observou também que alguns estados de ansiedade eram totalmente
diferentes dos distúrbios orgânicos que surgem e desaparecem de acordo com a
sua solução.
Tais estados de ansiedade eram distúrbios que não tinham nenhuma fonte
evidente.
Freud, eventualmente, definiu três tipos básicos de ansiedade que se relacionam
aos três níveis inferiores da realidade.
O primeiro tipo era uma ansiedade geral com raízes no mundo externo.
Tratava-se de uma ansiedade completamente natural, pois era criada pelo instinto
de proteção do indivíduo contra o perigo físico.
Desse modo, ter medo do escuro ou de cobras é normal e forma a base de um
sistema bio-psicológico de defesa que, na cabala, é relacionado ao Mundo de
Assyah.
O segundo tipo foi chamado de neurótico, e era precipitado pelos próprios impulsos
id-Nefesh do indivíduo.
Nesse caso, o ego não é suficientemente forte para manter os impulsos da libido e
da mortido firmemente sob controle.
Isso cria um sentimento de insegurança em Yesod, a fundação da psique.
Um exemplo disso pode ser a frustração sexual, ou um sentimento de raiva ou
medo profundamente enraizado, baseado em alguma experiência anterior.
Um indivíduo afastado dos centros civilizados pode fazer muitas coisas para relaxar
a tensão no drama da sobrevivência, mas alguém que viva em sociedade não pode
obter um alívio tão fácil, a menor que encontre um modo de o fazer que seja
aceitável para o superego ideal.
Esses impulsos inibidos poderá acumular uma enorme quantidade de energia, que
distorcem a face inferior da Árvore psicológica e ameaçam a sua eficiência.
No entanto, posto que a Árvore é um sistema auto-regulado, ela pode ajustar-se,
por um certo preço, e manter as pressões sobre controle até que possam ser
liberadas.
O mais óbvio dos mecanismos para aliviar tensões acumuladas é o esporte, que
não é mais que operação do mortido contida, como é visto em qualquer final de
campeonato.
Em muitos casos, o impulso mortido que deixa de ser descarregado pode gerar um
neurótico medo da destruição, ou um igualmente neurótico amor por ela.
Isso pode ser testemunhado na fascinação patológica pelos filmes de guerra e de
crimes, nos quais o instinto de morte é representado em Yezirah.
Aqueles que se opõem obsessivamente a esse tipo de preocupação estão, muitas
vezes, utilizando-se de outro mecanismo de defesa para bloquear os mesmos
impulsos em si próprios.
Aqui, devemos lembrar que esses mecanismos costumam ser inconscientes.
Isso acontece porque o superego ideal, que atua através dos pilares laterais,
permite que Yesod justifique a agressão nas manifestações de protesto, que,
muitas vezes, são tão militantes quanto os que defendem a própria tribo ou o time
de futebol da cidade.
Muitas pessoas, como já foi observado, têm grande satisfação com o alívio
proporcionado pelos partidos e pelas partidas.
O terceiro tipo de ansiedade é moral.
Nelas, o superego ideal pressiona o ego desde o inconsciente.
Os valores assimilados dos pais e da sociedade causam pressão quando a pessoa
faz, sente ou pensa alguma coisa contrária à sua educação.
O ego pode inventar desculpas, mas o superego ideal não as leva em consideração,
pois ele existe em uma realidade baseada em leis coletivas.
Ter um caso amoroso ilícito pode ser racionalizado pelo ego, mas o superego ideal
não deixará de manifestar a sua desaprovação, dando origem a um profundo mal-
estar na face inferior da psique.
Esse é um fenômeno que leva alguns a beber, o que é uma forma muito prática de
defesa do ego.
A ansiedade moral é particularmente comum e em pessoas espiritualmente
orientadas, que sofrem as aflições da culpa sem terem, aparentemente, feito nada
de errado.
Isso é resultante de uma complicada situação para o Si-mesmo, quando o Tiferet
pode estar protegendo o ego Yesódico para preservar a sua viabilidade.
Se esta se perdesse antes que a pessoa estivesse em condições de enfrentar o
problema, qualquer que ele fosse, poderia ocorrer uma fragmentação da fundação
da psique.
Um exemplo disso pode ser visto no homem que era ilegítimo e não podia aceitar-
se até que encontrou a sua identidade interior.
A sua culpa inconsciente sentia que ele era o responsável pela sua ilegitimidade.
Desde um ponto de vista cármico, ele podia ter razão, mas ele ainda não estava
preparado para aceitar isso.
Poucos psicólogos levaria essa dimensão em conta, ao passo que nenhum cabalista
a deixaria de fora.
Existem muitos mecanismos de defesa.
Alguns operam com princípios chamados de "deslocamento" e "sublimação", nos
quais a tensão é referida a outro lugar da psique ou do corpo, ou então é
convertida em algo diferente até que possa ser resolvida.
No processo normal de desenvolvimento psicológico, os maneirismos pessoais e as
enfermidades de menor importância indicam e aliviam tensões no interior da
estrutura e da dinâmica da psique, enquanto os impulsos totalmente primitivos da
obstinação e da competição são transformados pelo Sefirot laterais em modos
completamente inofensivos e até mesmo construtivos, como a resistência e a
iniciativa.
A conversão da energia do id-Nefesh que não é usada para o sexo, o sustento de
uma família e o ganha-pão pode beneficiar muitos tipos de atividade, que vão
desde as brincadeiras para passar o tempo até as disciplinas de
autodesenvolvimento.
Todos esses processos alimentam-se de energias que poderiam romper o ego e
destruir o seu equilíbrio se não fosse pelos mecanismos de defesa.
Um exemplo disso é o da velha fiandeira que tricota meias para os marinheiros
porque o seu amor há muito falecido era capitão da Marinha.
Ela está protegendo o seu equilíbrio mental das emoções, pensamentos e ações que
poderiam destruí-la se permitisse que chegassem à consciência do ego.
A "repressão" é outro sistema de defesa que age desviando a atenção do ego de
qualquer dificuldade que não possa enfrentar, de maneira a não perturbar a
imagem Yesódica do mundo ou a imagem que a pessoa tem de si mesma.
O problema, no entanto, permanece, e pode regressar do inconsciente sob outra
forma.
Isso acontece porque, embora o ego tenha talvez evitado a questão, o Si-mesmo
não o pode fazer.
Além do mais, a sina com freqüência intervém, como no caso de uma mulher que
cruza um oceano para fugir de um problema sexual, mas, rapidamente, começa
tudo de novo com outro amante.
Isso indica que alguns mecanismos não bloqueiam os pilares laterais, ou Malkhut.
A "formação reativa" é um termo usado quando o que é reprimido é encoberto pelo
seu contrário, de modo que o Yesod apresenta o oposto exato daquilo que pensa ou
sente.
Um exemplo disso é o amor fingido por alguém que o indivíduo abomina, porque a
situação social assim o exige.
Esse processo pode também ocorrer nas profundezas do inconsciente, que procura
contrabalançar a visão do ego.
Isso pode ser visto no discurso dos fanáticos religiosos, que pregam o amor mas
buscam a dominação.
Desde o ponto de vista da Árvore, tudo isso representa os pilares exteriores e as
faces superior e inferior, compensando em demasia alguma função excessiva.
O fenômeno da "projeção" ocorre quando algo está acontecendo além da linha
liminar entre Hod e Nezah, mas é negado por Yesod, e projetado no mundo.
Esse mecanismo deixa a passagem livre para muitos aspectos sombrios da psique,
que descem por um dos pilares laterais para evitar a passagem pelo ego.
Um exemplo disso é o puritano que vê sujeira em toda a parte porque não pode
admitir a sua própria corrupção interior.
A projeção pode ser usada tanto pelo id quanto pelo superego ideal.
É vista com maior evidência na propaganda de guerra, que rejeita o inimigo como
inteiramente mal, enquanto ignora os males das nações amigas.
A União Soviética e os Estados Unidos vêem um ao outro como imperialistas, ao
mesmo tempo que ambos se consideram defensores do ideal revolucionário.
A "regressão" é um modo pelo qual o ego evita um presente difícil, retirando-se
para o passado.
Isso pode assumir a forma de um regresso a um estado de infância, por exemplo,
quando a vida era menos complexa.
O passatempo Hodiano de navegar barcos de brinquedo não é somente uma
brincadeira, mas um assunto muito sério para aqueles que querem escapar da
realidade.
Muitas pessoas regridem sem perceber quando fumam ou bebem em uma situação
tensa, em uma busca da inconsciente segurança do seio materno, segundo Freud.
Contudo, esse alívio pode ser vital para protegê-los daquilo que realmente sentem
ou pensam sobre a situação em que se encontram.
É nesse ponto que o Malkhut retira do ego o comando do relaxamento e da
estimulação dos sentidos.
A "introjeção" também é usada pela psique como um mecanismo de defesa,
absorvendo tudo aquilo que possa proteger a pessoa.
Por exemplo, o ego pode adotar a imagem Yesódica de uma comunidade, de modo
a não ser vitimizado por ela.
Vestir-se igual aos demais confere segurança no clã, e aquele que se curva à
vontade do chefe, até encontrar um emprego novo mais seguro, está fazendo
exatamente a mesma coisa.
Aqui o Yesod, com suas qualidades de camaleão, protege a pessoa mediante a
camuflagem física e psicológica.
O humor é um mecanismo útil quando se lida com situações embaraçosas, como na
história do rabino cujo irmão era desonesto.
O rabino o evitava, até que foi confrontado com as palavras "Quem você pensa que
é para ficar me evitando? O seu irmão é um ladrão e o meu é rabino".
Trata-se de uma manipulação do Yesod e do superego ideal para evitar uma
realidade Malkhutiana.
O mesmo acontece no caso do homem que diz: "Minha mulher me deixou por
motivos religiosos. Ela venerava o dinheiro, e eu não tinha nenhum".
Aqui, a realidade é contrastada com a fantasia, de modo a proteger o ego do
marido.
Essas piadas são concebidas para diminuir o peso de questões que possam
prejudicar o equilíbrio da psique.
Foi perguntado a Lincoln por que ele sempre fazia piadas nos piores momentos da
Guerra de Secessão americana.
Ele respondeu que não suportaria a pressão se não o fizesse.
De qualquer modo, ele era um depressivo, e precisava desesperadamente manter
afastado o seu pilar esquerdo da Severidade.
A "fixação" é um importante mecanismo de defesa.
Ela ocorre quando a psique é atrasada por algum problema de desenvolvimento não
resolvido.
Assim, enquanto o corpo e o ego podem parecer adultos, a psique pode ser
completamente imatura.
Por exemplo, algumas mulheres representam o papel de eternas mocinhas, mesmo
depois que a juventude e a beleza já se foram, e alguns homens sempre se portam
como rapazes, mesmo que tenham um metro e noventa de altura e sejam diretores
de uma grande companhia comercial.
Isso acontece porque um estágio vital do desenvolvimento interno não foi
completado.
Tais indivíduos têm muitas vezes uma psicologia bem reforçada que se recusa a
reconhecer aquilo que não tem capacidade de enfrentar, mas isso pode levar ao
desastre.
Muitos ditadores têm a qualidade fixa de ainda estarem fazendo jogos infantis nas
suas vidas privadas e públicas.
A invasão da Rússia por Hitler foi uma fantasia infantil.
O fracasso de Napoleão deveria ter deixado a maioria dos adultos de sobreaviso,
mas não ele, que foi em frente e causou a morte de milhões de pessoas.
Os eternos moços e moças podem levar a melhor por algum tempo, mas, mais
cedo ou mais tarde, eles encontram o seu Waterloo, e a sina os confronta com uma
grande crise que os força a crescer.
Tais crises, sejam nacionais ou individuais, são concebidas pela Providência para
dissolver o sistema de defesa e evitar que a mentalidade de fortaleza se transforme
em uma prisão ou asilo.
Tudo o que foi dito acima não passa de alguns exemplos dos muitos mecanismos
de defesa que a psique utiliza para proteger a sua viabilidade.
A função deles é manter o equilíbrio da psique até que o problema possa ser
resolvido.
Muitos desses mecanismos são totalmente invisíveis, pois operam no inconsciente,
que examinaremos a seguir como um princípio geral.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 30

O Inconsciente

A visão freudiana da psicologia enfatiza fortemente o id-Nefesh.


De fato, Freud afirmou que a energia da psique é derivada principalmente do id,
que é o motivo pelo qual há tanta preocupação com a satisfação das necessidades
básicas da vida, de modo que a pessoa possa sobreviver e propagar-se.
O id está particularmente relacionado ao corpo e à psique inferior: o inconsciente,
segundo os freudianos, ocupa-se em grande parte dos impulsos do id.
O ego e o superego ideal são considerados como desenvolvimentos dele, que
surgem para controlar os instintos, de maneira a obter as condições mais
favoráveis para a realização do indivíduo.
Por exemplo, as pessoas não apreciam alguém que se preocupa apenas consigo
mesmo pois a sociedade é um equilíbrio entre as carências pessoais e as
necessidades da comunidade que ajuda a todos.
Isso significa que o comportamento socialmente inaceitável é reprimido.
Apesar disso, esse comportamento continua ativo no inconsciente, tanto do
indivíduo quanto da comunidade.
O reconhecimento dessa dimensão oculta é a principal contribuição de Freud à
psicologia.
Deve ser dito, no entanto, que a descoberta do inconsciente feita por Freud não era
nova.
Ele próprio reconheceu que as artes e a filosofia tinham plena consciência disso.
Mas foi ele que o trouxe à atenção do mundo científico, embora tivesse que passar
por momentos difíceis para conseguir que os cientistas reconhecessem a sua
presença e o seu poder de influência.
Mais tarde a sua avaliação do inconsciente, e do papel que ele tinha no esquema da
psique, tornou-se menos importante, e a ênfase foi deslocada para o id, o ego e o
superego ideal.
Isso revela o alcance da percepção freudiana, que, superposta à Escada de Jacó,
cobre a Árvore corporal e a face inferior e a zona média da psique, tendo o
inconsciente como uma área cinza acima e além de Hod e Nezah.
Foi a partir desse ponto que Freud e Jung afastaram-se um do outro, pois este
último estava mais interessado na dimensão mais alta da psique, e nas subdivisões
do inconsciente.
Freud tinha noção dos níveis arquetípicos da mente, mas considerava a formação
de imagens simbólicas como antes de mais nada instintivas e sexuais em sua
origem.
Aqui vemos como até mesmo a percepção de um grande homem pode ser
influenciada pela estrutura astrológica de sua psique, pois é interessante notar que
Freud tinha um Sol em Touro em seu nascimento, que inclina a pessoa para o
sensual e terreno, e a Lua em Gêmeos, que proporciona um ego extremamente
analítico que está sempre investigando o que o signo fixo do Touro absorve.
Além do mais, o seu Ascendente em Escorpião não somente deu origem a uma
aguda consciência sexual como também deu-lhe uma propensão ao estudo
aprofundado do oculto.
Essa combinação de um Malkhut de Escorpião com um Yesod geminiano e um
Tiferet ligado a Touro é a essência da visão e das preocupações de Freud.
Por ter tal temperamento e ter nascido em um momento específico, ele estava no
lugar certo para levar a cabo as suas investigações e apresentar suas conclusões.
Estas evoluíram com o passar dos anos, juntamente com aqueles que o seguiam,
para um plano geral do inconsciente que ainda varia nos detalhes de acordo com a
escola.
Na cabala, as leis da Árvore indicam um sistema distinto de estruturas e dinâmicas,
e é interessante ver como a observação clínica está de acordo com o que foi dito
pela tradição esotérica sobre a anatomia da psique.
Entretanto, enquanto Freud achava que o poder da psique vinha do corpo, a cabala
indica que isso só é verdade onde a face superior de corpo entra em contato com a
face inferior da psique.
Isso significa que o sistema nervoso central, no Malkhut da psique, é afetado pelo
id-Nefesh, do mesmo modo que é afetado o ego de Daat-Yesod e, até certo ponto,
também o Si-mesmo, que está localizado no Keter da Árvore corporal e no Tiferet
da psique.
O fato de que as duas Árvores se interligam no mesmo nível não quer dizer que
elas compartilhem da mesma realidade e de fato, as observações de Freud fazem
uma distinção clara entre a percepção física e a psicológica.
É a função Daat-Yesod do ego que serve de intermediária entre os dois mundos, e
isso sugere a existência de dois tipos totalmente diferentes de energia.
Na cabala, a Árvore corporal conteria certamente a dinâmica mais óbvia, mas a
fisicalidade não pode ingressar numa ordem mais sutil de realidade, assim como
um chimpanzé não pode compreender o significado de Hamlet, por mais que assista
à peça.
A natureza da psique é muito mais refinada, e a sua forma, mais delicada do que
qualquer processo ou instinto físico.
A conversão da experiência prática através do Daat-Yesod para a psique inferior é
um salto quantitativo facilitado pela consciência, que se pode mover entre mundos
diferente no momento em constante movimento do "agora".
Dessa maneira, a constante seleção de imagens formadas no ego é o lugar onde as
realidades física e psicológica podem se encontrar, quando a pessoa reage a uma
situação exterior e interior.
Os efeitos de tais momentos passageiros, no entanto, não se perdem, mas
desaparecem ao cruzar a passagem liminar para o inconsciente, que é uma vasta e
complexa biblioteca de experiências distribuída em torno dos pilares, Sefirot e
tríades da Árvore psicológica.
Essas memórias que podem ser trazidas de volta à consciência do ego são
chamadas de "pré-conscientes", e podem ir desde aquilo que a pessoa estava
fazendo ainda agora aos acontecimentos do passado distante.
Podem ser pequenos detalhes de informação ou humores, ou princípios gerais, a
profunda complexidade de um relacionamento ou a simplicidade de uma única
ação.
Alguns desses momentos podem ser agradáveis e outros não; alguns serão
fortemente carregados de energia, enquanto outros serão débeis e quase fora da
lembrança.
A sua característica principal é a de poderem ser trazidos através da passagem
liminar e recolocados na seqüência geral de pensamento, sentimento e ação que
tem lugar no ego Yesódico.
Nessas condições, são considerados racionais, ainda que incongruentes de vez em
quando, como a justaposição incongruente de dois elementos que ocorre no
humorismo.
O irracional tem início na margem entre o pré-consciente e o inconsciente.
Aqui, as formas sem relação com o que está sendo feito, pensado ou sentido
passam rapidamente pela tela do ego.
Algumas vezes, por exemplo, uma idéia surge com tal força que espanta a pessoa,
como se alguma coisa estivesse tentando forçar a entrada, o que pode
efetivamente ser o caso, quando o inconsciente cutuca o consciente com alguma
questão reprimida que foi ativada, como o nome de alguém que se quer esquecer.
Deve ser dito que a repressão no sentido geral é uma função absolutamente
necessária, para evitar que a consciência Yesódica embaralhe e que o raio de
atenção do ego seja desviado por demasiadas distrações.
Algumas vezes, o inconsciente chama a atenção para esses elementos reprimidos
mediante os sonhos.
Segundo as descobertas de Freud, os sonhos noturnos, e os diurnos, revelam um
tipo de atividade não muito diferente da que tem lugar no interior do corpo.
Cabalisticamente, o paralelo é exato.
Esses processos de digestão psicológica assimilam o material ingerido pelo ego e
distribuem energia e matéria por toda a psique.
Quando a atenção do ego é retirada das questões que o estiveram ocupando, o
resíduo é depositado além da linha liminar, algumas na zona pré-consciente, e o
resto no inconsciente, que Freud enxergou como o reservatório de energia psíquica
e depósito de material pessoal e arcaico que mantém a vida invisível da psique.
Nos termos da Árvore, as tríades laterais de complexos e conceitos, com as suas
cargas positivas e negativas, são como os órgãos ocultos da psique, regulando
continuamente o equilíbrio desta, em relação à consciência do ego.
Desse modo, ao longo do desenvolvimento, são feitos certos ajustes, à medida que
a capacidade da psique aumenta, e ela desloca o seu equilíbrio.
Se isso não acontecer, como no caso de uma recusa a passar da infância para a
adolescência, a psique torna-se instável e é forçada a regredir, de maneira a poder
enfrentar a situação e manter um centro de gravidade familiar.
Desse modo, por exemplo, o Sefirah de Hod ficaria sobrecarregado se a pessoa
procurasse a companhia de crianças ou fizesse brincadeiras infantis enquanto os
seus pares seguissem adiante.
A correção de tais fixações poderia ser alcançada, segundo Freud, penetrando o
inconsciente e trazendo à consciência a experência-chave que deteve o processo de
amadurecimento.
Isso, afirmou ele, libertaria as várias cargas catéxicas e anticatéxicas e permitiria a
retomada do desenvolvimento retardado.
Esta foi a outra grande descoberta que ele fez enquanto mapeava a psique inferior.
Um exemplo dessa técnica é a interpretação dos sonhos, pois Freud pensava que o
inconsciente, muitas vezes demonstrado pelo conteúdo dos sonhos, era a
dificuldade real do analisando.
Os problemas dos pacientes psicóticos eram identificados com relativa facilidade
nos sonhos, mas com neuróticos, ou com pessoas que estavam apenas
momentaneamente afetadas, isso não era tão aparente, e eram necessárias muita
paciência e habilidade para discernir o que realmente estava acontecendo na
psique.
Por exemplo, um homem pode sonhar continuamente com facas.
Isso poderia simbolizar ódio ou julgamento, um impulso da mortido ou frustração
sexual ou culpa.
O cabalista veria esse sonho como uma manifestação de Gevurah, qualquer que
fosse o contexto em que ocorresse; Freud, porém, o veria como um forte desejo do
id-Nefesh buscando ser realizado, no momento em que as barreiras do ego,
removidas pelo sono, permitem que um desejo inconsciente se manifeste.
Infelizmente, tal como já vimos, a psique é um organismo altamente complexo, e
nem sempre está claro onde se originam tais símbolos.
Isso é tornado ainda mais difícil pelo fato de que o mundo Yezirático do
inconsciente não obedece às leis da realidade física.
O tempo e o espaço são totalmente diferentes, tal como o pode atestar qualquer
sonhador, e processos como os de "condensação" podem, por exemplo, comprimir
problemas complexos em signos simples, e até mesmo converter sentimentos
inaceitáveis, como o ódio, em seus opostos, com as memórias catéxicas sendo
controladas pelo superego ideal e distorcendo o material armazenado no
inconsciente.
Ao longo de toda uma vida, camada sobre camada e grupos cada vez maiores de
associações de conceitos e complexos acumulam-se no inconsciente,
proporcionando ao indivíduo um caráter distinto.
O observador perspicaz pode ver isso na forma do corpo, que expressa a natureza
da psique que o habita.
Isso se dá porque as leis do mundo inferior conformam-se sempre às do mundo
superior.
Na cabala, a leitura do caráter pelo rosto era considerada como uma arte
importante, pois pelas suas linhas o estado da alma e o nível do espírito de uma
pessoa, isto é, o seu inconsciente, podia ser desvendado.
Ao mesmo tempo que, para o olho destreinado, o inconsciente pode aparentar ser
uma trapalhada incoerente, ele é, como veremos pelo modo como se ajusta
perfeitamente à Árvore, um esquema bem ordenado que absorve experiências e as
processa em vários níveis antes de integrá-las à psique.
Uma exata analogia disso é a maneira como o embrião assimila todos os elementos
e constrói com eles um sistema de células e órgãos altamente sofisticado, que atua
em muitos níveis diferentes como um todo unificado.
No caso da psique, todavia, o processo de crescimento não cessa quando é atingida
a maturidade física, mas continua por toda a vida.
Freud, que não podia levar em consideração as dimensões oculta ou espirituais,
pois queria dirigir-se a um público puramente científico, considerou apenas o
desenvolvimento da psique até o princípio da vida adulta, a qual era vista por ele
nos termos físicos e sociais do seu tempo.
De fato, ele era extremamente pessimista com relação à humanidade como uma
espécie em evolução, pois ele não ia além do id-Nefesh e do nível inferior da
psique.
O inconsciente, argumentava ele, é demasiadamente intangível e absorto em
memória primitivas e necessidades instintivas.
Se é certo que isso é verdadeiro para grande parte da humanidade, não o é para
muitas pessoas que alcançaram sua plenitude e querem mais da vida que a
satisfação de suas necessidades materiais e egocêntricas.
Para essas pessoas, o inconsciente é muitas vezes um estímulo para um maior
desenvolvimento interior, pois ele contém tudo o que foi experimentado, e constitui
a história de sua sina.
Isso ocorre quando o indivíduo alcança um certo nível de maturidade.
Mas, antes de passarmos a esse assunto, examinemos com mais detalhe aquilo que
Freud considerava como maturidade.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 31

Maturidade
Desde o momento da concepção, quando a psique é conectada ao óvulo fertilizado,
o indivíduo tem que enfrentar a realidade física.
Isso começa com o crescimento da percepção e com o aprendizado de como viver
no mundo.
Mais tarde, a família e a situação cultural em que a Providência colocou o indivíduo
têm que ser assimiladas.
Do nascimento à puberdade o crescimento é rápido e cada dia traz uma nova
experiência e fase de desenvolvimento.
De tempos em tempos ocorrem grandes mudanças, cada vez que o corpo atinge
uma fronteira de competência e a psique usa o que aprendeu para abrir caminho
em um mundo sempre mais amplo.
Da puberdade à maturidade corporal, a rapidez do desenvolvimento diminui,
embora o processo de transformação não seja menos dramático.
Por volta dos vinte anos, quando a pessoa chega ao seu máximo, começa a
afirmar-se uma certa estabilidade, à medida que os hábitos pessoais vão-se fixando
e um lugar no mundo é encontrado.
Tudo isso é válido para a média dos seres humanos que vivem uma vida
convencional.
Existem, evidentemente, exceções, quando a pessoa se afasta de sua localidade ou
dos padrões, mas, no conjunto, a maior parte das pessoas permanece nos limites
de sua órbita cultural, mesmo que se desloquem continuamente, como os ciganos.
Essa estabilidade costuma ser mantida pelo resto da vida, a menos que um
acontecimento importante, como uma guerra ou uma crise econômica, a perturbe.
Mesmo assim, porém, a maior parte das pessoas procurará recriar o modo
estabelecido, assim como um pai age como o seu próprio pai, e uma mãe segue os
passos de sua própria mãe quando amadurece.
Os freudianos reconhecem poucas mudanças após o amadurecimento, exceto sob
circunstâncias excepcionais.
Desse modo, atingido o pico físico, a psique deixa de se desenvolver, na maior
parte dos casos.
Esse ponto de vista é baseado na suposição de que a mente é parte do corpo, e
não tem existência independente.
Muitos psicólogos sustentam essa crença,, posto que há muitas provas que
demonstram que a maioria das pessoas não vai além da maturidade física e social.
Com efeito, muitos indivíduos começam a regredir quando chegam à meia-idade,
antes de passarem à senilidade infantil na velhice.
Visto que isso é a regra e não a exceção, muitos psicólogos relacionaram a psique
às fases físicas dos primeiros desenvolvimentos.
A observação feita por Freud dos estágios oral, anal, fálico e genital da consciência
levou-o a crer que eram fundamentais no processo de desenvolvimento da psique,
por seu surgimento e resolução formarem a base da maturadide, ou da
imaturidade, caso o processo seja detido em certos pontos de seu desdobramento.
Por exemplo, um estágio anal incompleto poderia acarretar mesquinhez patológica,
e o estágio edipiano da criança e como ela se relaciona com os pais afeta
profundamente a sexualidade adulta.
Essas conclusões seriam válidas apenas se unicamente os níveis do id-Nefesh e do
ego-Daat-Yesod estivessem envolvidos.
Nesse ponto, contudo, devemos aplicar a máxima esotéria: "O que foi dito, por
quem, para quem e quem mais devia ouvir", pois Freud era forçado a formular suas
conclusões com muito cuidado para uma platéia abertamente hostil.
Devemos, portanto, conceder-lhe o benefício da dúvida e suspeitar que havia muito
mais no que ele pensava que aquilo que deixou passar para o domínio público.
A imagem "clássica" de uma personalidade madura e estável é que todos os
sistemas psicológicos estejam mais ou menos operacionais.
O id está contido e canalizado, o superego ideal está relativamente equilibrado e o
ego mantém um sentido da realidade.
Contudo, essa imagem não quer dizer que a pessoa seja madura.
É bem possível, por exemplo, que alguém de personalidade bastante juvenil
encontre um nicho na vida que não exija que assuma todas as responsabilidades de
adulto.
Algumas pessoas vão levando a vida com pequenos jogos que permitem que
tenham uma vida relativamente segura, contanto que sejam sustentadas, assim
como a ninfomaníaca mantém-se bastante estável enquanto tiver um amante.
De maneira que os critérios óbvios de maturidade não são válidos.
Por exemplo, muitas pessoas são operacionais porque existe uma maciça
compensação em uma das tríades ou Sefirot.
O funcionário subalterno, por exemplo, cujo Hod é hiperativo, pode ser protegido
pela rigidez de um sistema burocrático.
Do mesmo modo, uma personagem agressiva, de um primeiro sargento, digamos,
que encobre um ego fraco, preserva a pessoa dos assaltos internos e externos da
disciplina militar.
Esse desequilíbrios compensados não são incomuns em pessoas aparentemente
aceitáveis socialmente, como no caso de um tranqüilo piloto comercial que é
totalmente irracional em sua vida doméstica.
O que poderia ser considerado como uma psique verdadeiramente estável e
madura é quando a carga dos dois lados da Árvore é basicamente o mesmo.
Desse modo, o catexe positivamente carregada dos conceitos das emoções e
dinâmicos pode ser mantida em equilíbrio pelas suas contrapartidas anticatéxicas,
permitindo com isso uma certa flexibilidade de movimentos para a Árvore, que não
seria possível se um dos pilares fosse grandemente predominante.
A definição freudiana de "compulsão repetitiva", por exemplo, é um ciclo Nezahiano
que mantém o momentum de muitas de nossas rotinas, enquanto a sua
contrapartida Hod ajusta a sintonia fina da operação, tal como guiar um carro e ler
um mapa ao mesmo tempo.
Do mesmo modo, o problema da descarga da tensão é resolvido, na psique
madura, pela dispersão e canalização dos impulsos do id-Nefesh para os diversos
interesses e habilidades que um adulto desenvolve.
Desse modo, mediante o deslocamento e a diferenciação múltipla, a energia, que
na infância e na adolescência teria rompido o limitado repertório de controles em
algum episódio violento, é conservada e dirigida para uma forma de atividade
diferente e mais útil.
Tudo isso sugere que a psique é capaz de desenvolver uma organização interna
altamente complexa e sofisticada.
O essencial para isso está presente no nascimento, no veículo Yezirático, do mesmo
modo que um sistema nervoso embriônico está presente no recém-nascido.
Ao longo dos anos de crescimento e educação, a forma desse corpo Yezirático
evolui mediante, por exemplo, a linguagem, que toma uma experiência e a divide
nas sutilezas de pensamento e sentimento que alimentam as tríades emocional e
conceitual.
Estas, por sua vez, formam complexos subsistemas que podem agüentar e
absorver choques poderosos, como o rompimento de um casamento, e manter a
psique em uma postura segura até que a crise tenha passado.
Uma psique instável não pode suportar esses traumas e regride, por exemplo, a um
estado infantil de violência ou de autopiedade, entregando-se à bebida ou ao sexo
para obliterar a realidade.
A psique madura pode ficar profundamente aflita, mas conseguirá atravessar a
tempestade, pois sua mente está basicamente equilibrada, o que quer dizer que a
Árvore está bem estabelecida no Malkhut do corpo, segura no ego de Yesod e tem
os dois pilares exteriores, simbolizados pelo superego ideal, em um equilíbrio
flexível.
A estabilidade só é possível quando a infraestrutura da psique está preenchida, de
maneira a haver uma probabilidade reduzida de uma perturbação maciça, do tipo
de um derrame psicológico.
Por exemplo, os processos de introjeção e projeção não distorcem o ego se o
superego estiver suficientemente abrandado pela experiência para não esperar
padrões impossíveis, baseados em um modelo infantil que pode bem ser
redundante.
As situações são enfrentadas com um compromisso maduro entre o que pode ser,
em vez do que deveria ser.
Esse realismo surge com a emergência da tríade Gevurah-Tiferet-Hesed da alma
que, nos momentos de consciência do Si-mesmo, percebe o que é realmente
factível para aquela pessoa.
O Si-mesmo em Tiferet age como o fulcro ou "Vigia" no inconsciente da maioria das
pessoas, alertando-nos, freqüentemente por meio de sonhos ou pressentimentos,
para dirigir a nossa atenção para alguma coisa que precisa ser corrigida.
A psique madura reconhece tal sinal e age em conseqüência.
Nessa altura começa a possibilidade de um maior desenvolvimento, mas poucas
pessoas ouvem as instruções do Si-mesmo, e muitas conservam uma visão de
mundo orientada pelo hábito.
É por esse motivo que, algumas vezes, a sina envia o choque de uma crise para
sacudir a psique de um estado de estagnação confortável mas indolente.
Nesses momentos algum conhecimento de astrologia torna-se muito útil.
No processo de amadurecimento, a experiência adquirida desde o momento do
nascimento é lentamente trabalhada nas profundezas da psique.
Para a maioria, trata-se de um procedimento completamente inconsciente em que
os pensamentos, sentimentos e ações que estiveram, mesmo que um breve
momento, sob os refletores do ego são separados e relacionados à estrutura e
dinâmica da Arvore, nas suas respectivas ordens e relações mútuas.
Essa diferenciação e integração começam a manifestar-se em Entendimento e
Sabedoria, nos termos cabalísticos, como os dois Sefirot de Binah e Hokhmah que,
no topo das colunas esquerda e direita, processam a experiência.
Como tais, conferem peso intelectual aos comentários das pessoas maduras, que
adquirem, com o passar dos anos, uma visão da vida cada vez mais ampla e
profunda.
Diz-se que, quando a pessoa chega aos quarenta, ou é tola ou é canalha.
Essa observação, contudo, pode ser interpretada de muitas maneiras.
Para aqueles materialmente orientados, ela quer dizer que você conseguiu ou não
"chegar lá"; mas, quanto a isso, muitas das pessoas que realizaram suas ambições
não passam de crianças crescidas brincando com brinquedos caros.
Ser um canalha também pode significar que a pessoa é senhora da própria situação
e pode manipular os acontecimentos.
Também poderia ser dito que ser um tolo quer dizer que se conservou a própria
inocência, sem ser corrompido.
Essas interpretações diferentes sugerem que há diferentes níveis de maturidade e
de estabilidade.
Segundo a cabala, a psique contém a Alma e a parte inferior do Espírito, além da
Divina conexão em nosso ser.
Para a maior parte das pessoas, esses níveis ocultos pertencem a uma zona
misteriosa das profundezas do inconsciente.
Algumas vezes, todavia, as pessoas se lembram, à medida que vão passando pelas
fases da vida, que vieram de outro lugar, para o qual retornarão ao morrerem.
Essa percepção é anunciada pela sensação ocasional de que se é um estranho na
Terra, que nos proporciona a visão de uma realidade diferente em uma iluminação
fugaz ou através dos sonhos. Aqui que o psicólogo e o cabalista podem se
encontrar, na soleira de uma porta que. se abre para os mundos interior e exterior.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 32

Sonhos
Entre a rotina e a racionalidade está o reinado do sonho.
Por mais ordenada que seja a pessoa, por mais que controle seus pensamentos,
seus sentimentos e suas ações, terá sempre aquele estranho espaço em que o
irracional se manifesta e, ocasionalmente, força a entrada com intensidade, quando
o inconsciente, fugazmente, toca, penetra ou até invade os processos do ego com o
seu mundo de imagens.
Todas as pessoas devaneiam; para a maior parte, isso costuma ser uma forma de
revisão do passado, ou de fazer projeções para o futuro, com um toque de fantasia
adicionado para torcer a realidade um pouco para cá ou para lá.
Muitos reconhecem nisso uma construção ilusória, e consideram-na como uma
fantasia controlada; outros resvalam para o faz-de-conta, vivendo uma fantasia
ociosa que pode relacionar-se à realidade ou estar completamente afastada de
qualquer coisa em suas vidas.
Há casos de pessoas que passam mais tempo nessa zona entre dois mundos do que
em qualquer outro lugar.
Estes podem ir dos lunáticos aos iluminados.
Do ponto de vista cabalístico, o sonho é quando a tela do ego recebe um impulso
irracional vindo de qualquer dos pilares laterais de Tiferet, em vez de receber um
impulso racional originário do Daat corporal ou das impressões moto-sensoriais de
Malkhut.
Nesses momentos, ocorre uma ligeira separação entre o corpo e a psique, que
afrouxa o controle do ego sobre o mundo exterior e permite que o inconsciente
atropele a percepção normal da realidade que mantém a pessoa em contato com as
coisas do mundo.
Durante o sono, essa separação aumenta, quando a formação reticular do cérebro
médio, que governa o fluxo entre os níveis superiores de atividade cerebral,
bloqueia os impulsos vindos do resto do sistema nervoso.
O resultado disso não é a diminuição da atividade, e sim um estado alterado de
consciência, que não depende dos órgãos dos sentidos.
Em outras palavras, o Malkhut do psique está separado, mas não desligado, do
Tiferet do corpo.
Durante o sono, o cérebro parece modificar o padrão dos seus ritmos, gerando
períodos de grande atividade que são associados com os sonhos.
Os biólogos ainda não determinaram com precisão o que é o sono, embora sejam
capazes de monitorizar as suas manifestações mecânicas, químicas e elétricas.
Os psicólogos vêem o sono como um período de trabalho inconsciente em que se
dão muitos processos psicológicos.
Essa conclusão baseia-se no fenômeno dos sonhos.
Freud via os sonhos como um modo de adquirir uma visão mais profunda da
estrutura e da dinâmica do inconsciente.
De fato, ele os chamou de "caminho real" para esse terreno.
A sua primeira conclusão foi que a maior parte dos sonhos são realização de
desejos, e que muitos tinham uma origem sexual.
Por exemplo, a solução de tensões que não podem ser satisfeitas na vida externa,
tais como o desejo de fazer amor com pessoas inatingíveis, ou ter êxito onde
somente o fracasso pode ser esperado.
Isso ocorre, concluiu ele, porque o ego racional está dormente e o superego parece
estar parcialmente desativado, embora possa participar das estranhas peças
simbólicas montadas pelo inconsciente.
Freud considerava que esses dramas têm um conteúdo manifesto ou óbvio, e um
significado latente ou oculto, além de serem uma condenação do que está
acontecendo no inconsciente.
Ele detectou, também, muitas distorções e muitas contradições no formato dos
sonhos, que serviam para encobrir ou para indicar o significado que está sendo
comunicado ao ego.
Com o tempo, surgiram certos princípios que o levaram a reconhecer elementos-
chave comuns a todos os sonhos.
Ele descobriu que certos símbolos diziam invariavelmente, mas não sempre, as
mesmas coisas.
A imagem de um rei era freqüentemente a figura do pai do paciente, e ser retirado
da água ficava em acontecimentos relacionados ao nascimento, e os trens pareciam
ser preocupações com a morte.
Mais tarde, esses símbolos tornaram-se úteis para decodificar o que estava
acontecendo no inconsciente.
Na cabala, o Mundo de Yezirah é o reinado das formas e dos símbolos.
Além disso, o seu elemento tradicional é a água e, de fato, a dimensão dos sonhos
tem essa qualidade fluida, adotando qualquer forma, pensamento ou emoção que a
esteja impelindo.
Freud reconheceu a linguagem do simbolismo, mas ele a relacionou às coisas e
situações que a pessoa encontra ao longo da vida, afirmando que o inconsciente
utiliza o que estiver à mão para expressar esta ou aquela questão do momento.
Desse modo, ele analisava o sonho de acordo com o passado da pessoa, e o
relacionava, após ver a quais associações estava ligado, ao problema que se estava
manifestando através do sonho.
A partir disso, ele investigava para encontrar o nó que estava procurando ser
desatado.
Depois de identificado o problema, ele tentava trazer o que estava inacessível no
inconsciente à consciência e desse modo resolver o que talvez fosse uma velha
dificuldade com o pai do paciente.
Em termos da Árvore, ele estava tentando ajustar o equilíbrio entre as tríades
emocional e conceitual da estrutura e da dinâmica, mediante o ego Yesódico, tendo
identificado uma série de pistas sobre qual seria a aberração.
Um exemplo disso era o sonho recorrente de uma mulher sobre um déspota
benigno que ela tentava derrubar.
A análise do sonho e da situação da paciente fez com que aquela pessoa
aparentemente bem controlada percebesse que nutria um ressentimento contra o
marido, embora ambos se relacionassem nos termos mais polidos, e até mesmo
afetuosos.
Vinte anos de hábito, aparência social e segurança material poderiam manter a
imagem do ego, mas não conseguiam enganar o Si-mesmo, nas profundezas do
inconsciente, de onde manifestava uma incômoda insatisfação com um casamento
no qual ela se sentia como uma adolescente sustentada.
A noção que Jung tinha dos sonhos era ligeiramente diferente.
Se bem que ele concordasse com Freud que muitos sonhos tinham a ver com
anseios não resolvidos, não os considerava predominantemente instintivos.
Ele pensava que os mais memoráveis dos sonhos estavam relacionados ao
desenvolvimento psicológico da pessoa, e não aos impulsos insatisfeitos do id.
Ele reconheceu a clara diferença entre os níveis psicocorporais do inconsciente e os
níveis puramente psicológicos.
Com efeito, ele foi mais além e detectou a dimensão espiritual desses "grandes"
sonhos, tal como os chamava.
Ele viu, assim como os antigos esotéricos que estudara, que o simbolismo dos
sonhos nem sempre estava relacionado às coisas pessoais, mas podia ser
arquetípico, quer dizer, princípios puramente psicológicos ou espirituais, e ligava os
sonhos de seus pacientes à mitologia, que descreve em história e símbolo os
processos do inconsciente coletivo da humanidade.
Vistos cabalisticamente, os arquétipos são as formas de Yezirah e os modos
criativos do Mundo Beriático.
Tal visão, aliada a outros fatores, separou Freud de Jung, e cada um seguiu seu
próprio caminho, com suas escolas, para diferenciar os vários níveis daquilo que
Freud chamava de "trabalho dos sonhos".
Jung, por exemplo, examinava os sonhos de uma pessoa por um longo período,
pois ele acreditava que havia uma clara progressão a ser observada.
Para ele, não se tratava apenas de detectar e descarregar fixações, mas de ajudar
a pessoa a desenvolver a sua psique mediante o que ele percebia como situações
arquetípicas que, quando trazidas à consciência, ajudava-a a tornar-se um
indivíduo.
Jung via o simbolismo dos sonhos não como representações disfarçadas de
impulsos do id mas como um método pelo qual se mostrava à pessoa um modo de
ser realmente ela mesma.
Isso era bem diferente da visão de Freud, orientada pelo ego Yesod.
A psicologia de Jung estava centrada no Sefirah de Tiferet, ou Si-mesmo, no centro
da Árvore Yezirática.
Ele via os sonhos como uma tentativa pelo Si-mesmo, que podia perceber a psique
como um todo, de diferenciar e refinar os seus elementos disparatados, para
formar uma unidade integrada.
Foi por isso que ele achou tantas coisas em comum com a disciplina da alquimia e
de muitas outras tradições esotéricas, inclusive a cabala.
Na cabala, os sonhos são divididos em três categorias.
A primeira ocupa-se dos acontecimentos imediatos.
Isso significa aqueles que envolvem as três tríades centradas no ego Yesódico, que
freqüentemente levam para o sono o ímpeto das atividades mundanas, tal como
sonhar que ainda se está dirigindo um carro após uma longa viagem.
A segunda ordem é de uma natureza mais profunda, e está focalizada sobre o Si-
mesmo Tiferet.
Nela, as questões da alma e da integridade do indivíduo são trazidas do
inconsciente e projetadas sobre a tela de Yesod durante o sono, de modo que a
atenção do ego é despertada para o problema.
Um exemplo disso pode ser o sonho sobre um casamento em que o indivíduo se vê
contraindo núpcias com a pessoa certa ou errada, e o resultado desse casamento
com aquilo que o outro simboliza interna ou externamente.
Tais sonhos são considerados sob a luz dos símbolos usados pelos vários Sefirot,
que são, essencialmente, os arquétipos de Jung.
A reflexão sobre, por exemplo, a relação entre a imagem tradicional de Adão e Eva,
associados a Hokhmah e Binah, dirá muito sobre o estado do ânimus e da ânima,
se por acaso eles, ou qualquer coisa dos princípios masculino e feminino, ocorrerem
em um sonho.
A terceira ordem de sonhos, na cabala, é chamada de profética, e Jung a
experimentou quando observou, entre as duas guerras mundiais, vários pacientes
alemães que falavam sobre "a besta loura", que saía de sua prisão subterrânea em
seus sonhos.
Nisso estava a voz do inconscinte coletivo, definida pela face superior da Arvore
psicológica, falando através daquilo que a Bíblia chamava de "profecia menor" dos
adormecidos.
Considera-se que os maiores profetas estavam acordados quanto tiveram suas
visões.
Estas pertenciam à dimensão Beriática e às colunas centrais superiores, enquanto a
maior parte dos sonhos tem origem nas tríades laterais, ou Tiferet do Si-mesmo,
para serem vistos rapidamente no Yesod da pessoa que está dormindo.
Fazendo uma combinação de Freud, Jung e cabala, podemos obter uma imagem
mais coerente do Mundo de Yezirah, tal como é experimentado pelo indivíduo
quando está separado da consciência sensorial.
Segundo a tradição, a alma, durante o sono, tem liberdade para mover-se à
vontade no Mundo da Formação, embora a conexão física nunca se rompa.
Muitos sonhos têm a qualidade de uma "viagem astral", tal como alguns a chamam,
pois a psique "flutua" durante o sono em uma zona que é de uma ordem
totalmente diferente de realidade.
Essas experiências etéreas não são incomuns, pois a psique, sem o peso da
fisicalidade para puxá-la para baixo, procura o seu verdadeiro nível em Yezirah.
O estrato inferior e mais mundano de Yezirah será a região daqueles adormecidos
que ainda estão no estágio do ego-Yesod, enquanto aqueles que buscam o
Si-mesmo se elevarão a altitudes menos densas, onde ocorre uma forma mais pura
de simbolismo psicológico.
Os indivíduos mais desenvolvidos ascenderão à face superior de Yezirah e à face
inferior de Beriah, ou o reinado transpessoal do Espírito.
Aqui, os indivíduos mais altamente desenvolvidos comungam com o Divino durante
o sono profundo, e recebem revelações "face a face", como se diz na Bíblia.
No entanto, como em todas as coisas, exige equilíbrio, pois preocupar-se em
demasia com os sonhos é viver no mundo errado.
Aqui na Terra, temos que trabalhar com o Mundo de Assyah, e portanto apenas os
sonhos que são lembrados naturalmente devem ser notados.
Essa era a intenção original da psique.
Examinar todos os sonhos pode tornar-se obsessivo, como radiografar o nosso
sistema digestivo cada vez que comemos.
Um escrutínio excessivo dos sonhos pode perder a ênfase e, portanto, aquilo que o
inconsciente nos está dizendo, o que poderia resultar em uma crise desnecessária.
Isso nos leva ao tema do desequilíbrio na mente e aos problemas da
psicopatologia.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 33

Psicopatologia
Todos conhecem o fenômeno da fase logo antes de se cair no sono de acordar.
É uma zona de penumbra da consciência, onde o sonho e a realidade se misturam.
Nesses momentos as impressões dos sentidos podem provocar fantasias e imagens
saídas do inconsciente, e gerar experiências sensuais.
Essa área localiza-se no espaço psico-físico entre o Yesod da psique e o Daat do
corpo, logo antes de eles se separarem no sono, ou de se unirem antes de estarem
completamente despertos, quando a distinção entre os mundos é resolvida pela
orientação para o exterior.
Em algumas situações anormais, esse processo pode ser retardado, de maneira que
se torna uma área de confusão, como no delírio da febre, ou um refúgio da
realidade, como acontece na esquizofrenia.
A razão para tais acontecimentos pode ser simples ou complexa, mas, qualquer que
seja ela, indica um desequilíbrio do corpo ou da psique, ou de ambos.
Nas desorientações baseadas no corpo, condições puramente físicas podem alterar
a química do cérebro para produzir alucinações.
O envenenamento por álcool, por exemplo, ou excessiva desnutrição, distorcem as
percepções do ego e permitem que o id-Nefesh ou impulsos inconscientes inundem
Yesod e confundam a pessoa.
Nas situações de origem psicológica, pode não ser tão fácil identificar e corrigir o
problema.
É nesse ponto que os terapeutas se dividem entre aristotélicos e platônicos.
O mecanicista puro vê, naturalmente, o problema e a solução no corpo e considera
todos os distúrbios inteiramente orgânicos.
Isso pode ser verdade em alguns casos, mas a questão é: o corpo cria ou responde
a uma desordem psicológica?
A própria palavra "desordem" nos dá uma pista, algo que está fora de seu lugar
certo, o que é compensado pela disfunção de outra coisa.
Nos termos das Árvores corporal e psicológica, muitas doenças podem ser
consideradas disfunções referidas a seu nível correspondente, abaixo ou acima do
local do problema.
Por exemplo, a tríade do sentimento de Hod-Nezah-Yesod é relacionada à tríade
dos órgãos de Hod-Yesod-Nezah no corpo, enquanto a tríade Hod-Yesod-Malkhut do
pensamento corresponde à tríade corporal dos nervos, de maneira que qualquer
dificuldade em uma gera uma ressonância na outra.
Por exemplo, um excesso de preocupações pode dar origem a desordens
estomacais, e pensamentos de pânico tornam as pessoas fisicamente nervosas.
Os distúrbios psicológicos podem ser permanentes ou passageiros.
Um acidente, por exemplo, com freqüência desorienta as Árvores psicológica e
corporal por alguns dias, devido à perda da conexão Daat-Yesod e ao desconcerto
do ego.
Algumas vezes passam-se meses nesse estado, após o final de um caso amoroso
profundo.
É sabido que um divórcio pode perturbar pessoas bem equilibradas por vários anos,
fazendo com que a sua percepção da realidade seja totalmente distorcida,
enquanto o seu ego e tríades emocional e conceituai não se apressem em afirmar e
reorganizar uma Arvore traumatizada.
Na maior parte dos casos, a psique, eventualmente, volta ao seu equilíbrio,
contanto que não haja uma lesão profunda originária de seus primeiros anos ou de
antes.
Como já vimos, o momento do nascimento é traumático.
De repente, a pessoa se encontra confinada a um corpo pequeno e ineficiente, após
ter estado em uma dimensão de tempo e espaço relativamente livre.
O impacto dos elementos, da gravidade e das exigências ferozes do id-Nefesh, que
divide o corpo com a psique, deve significar uma enorme pressão, que no princípio
é mantida a distância pelo apoio físico e psicológico da mãe.
Esse apoio é crucial, e deve ter um profundo efeito sobre o recém-nascido,
totalmente dependente.
Se as necessidades físicas daqueles primeiros momentos vitais não são satisfeitas,
a face inferior da psique, muitas vezes, não se une como deve à face superior da
Árvore corporal.
Isso pode criar um Daat-Yesod, ou ego, incorretamente construído, de modo que a
pessoa nunca está totalmente ligada à terra, ou vê o mundo através de uma tela
Yesódica deformada.
Em alguns casos isso é logo corrigido, quando, no início da vida do indivíduo,
aparece uma solução para o primeiro problema que a sina lhe apresentou.
O carinho adicional dado à maior parte das crianças doentes é um exemplo disso.
Nem todas as crianças carentes transformam-se em adultos aleijados na mente.
O fator da sina não é levado em conta por muitos psicólogos, embora seja a base
da vida, e explique por que esta pessoa age de uma determinada maneira, e aquela
de outra, embora tenham nascido nas mesmas condições.
Por exemplo, até mesmo gêmeos idênticos, que raramente nascem exatamente no
mesmo momento, estão sujeitos a sinas completamente diferentes, por terem que
dar solução a um antigo relacionamento de um modo novo, com cada um deles
reagindo de acordo com o próprio entendimento da situação.
Aqui, temos o fator do livre-arbítrio, e diferentes níveis de desenvolvimento.
Por exemplo, um dos gêmeos pode preocupar-se somente com o material,
enquanto o outro ocupa-se do moral, de maneira que um reage à situação comum
dos dois tornando-se policial e o outro um criminoso, ao assumirem a luz e a
sombra do superego ideal um do outro.
O local do nascimento não é acidental, assim como não o são os problemas
encontrados.
O tolo pode ter nascido rei, e o gênio em uma casa de mercador, ou até mesmo na
selva.
Um gigante espiritual nasceu na família de um carpinteiro, e outro começou a vida
como príncipe.
Os pais e a situação têm o seu papel, mas o mais importante é como o indivíduo
reage à sua sorte.
Conservando a dimensão da sina em mente, e a facilidade do livre-arbítrio, que age
tanto no recém-nascido como no adulto, há várias fases que o indivíduo tem que
atravessar.
O fracasso em completar essas fases pode ser a fonte da doença mental ou
psicopatologia.
O primeiro processo é o da simbiose com a mãe.
Esse período crítico da infância pode produzir, por um lado, uma situação de
superproteção, se levada a um extremo, ou total privação, pelo outro.
Ambas deixarão sua marca no indivíduo, de maneira que, quando adulto, ele ou
esperará que o mundo lhe dê o que deseja, ou achará que o mundo o rejeita.
Ambos os tipos, sob pressão, podem voltar a ter acessos infantis de raiva ou
recorrer a um sombrio retraimento.
Isso é uma regressão a uma condição de narcisismo em que se torna o pivô
egocêntrico de seu próprio universo.
Tal estado pode ser raso ou profundo, dependendo de escolha e circunstância.
Felizmente, as leis do carma proporcionam muitas oportunidades de romper o que
poderia tornar-se um padrão psicopático.
Primeiramente, muitas vezes a sina é muito gentil ao armar a situação que possa
resolver o problema, tal como encontrar a pessoa certa para ajudar.
Isso é visto com freqüência na relação arquetípica de "salvamento" entre o santo e
o pecador.
Se se despreza essa oportunidade, a pressão é aumentada, de modo que uma
circunstância de vida progressivamente mais difícil é encontrada, na qual as
pessoas tornam-se cada vez menos simpáticas à psique de criança em um corpo de
adulto.
É interessante notar que tais pessoas com freqüência sabem perfeitamente o que
estão fazendo, mas escolhem continuar com seus jogos, pois proporcionam muito
alívio a seus egos.
Um sinal disso é que elas passam sem cessar de situação a situação, recriando o
mesmo resultado egocêntrico até que chegam a um ponto de crise em que a sina
lhes dá a possibilidade de dissolver o problema e continuar em frente até chegarem
à maturidade.
Muitos reconhecem e agarram o momento de cortar o nó fixo que os ata, mas
alguns, desejando manter sua visão narcisista da vida, ingressam em uma zona de
penumbra na qual a fantasia e a realidade se misturam.
Ficam assim presos entre Assyah e Yezirah, como sonhadores matinais que não
têm certeza de em qual mundo se encontram.
Nos tempos antigos essas pessoas eram chamadas de lunáticos, pois como a Lua,
que é o símbolo de Yesod e do ego, dá voltas e paira entre o Céu e a Terra, sem
estar em contato com nenhum dos dois.
Em termos cabalísticos, estão presos no mundo de Yezirah, sem qualquer contato
com os mundos acima e abaixo.
Tudo o que vimos acima pode ser aplicado, em princípio, a cada estágio do
desenvolvimento.
Os problemas de identidade, de relação com os pais, rivalidade entre irmãos e
relacionamentos sociais surgem em seqüência e são enfrentadas por ajustamento,
expansão e absorção.
Se isso não acontecer, o processo é barrado em uma configuração retardada, até
que o desequilíbrio seja resolvido no curso normal da vida, ou com ajuda.
Se a dificuldade não é reconhecida, o problema pode aprofundar-se com o tempo, à
medida que se perde a flexibilidade e a Árvore se distorce e é compensada por
padrões que podem gerar sintomas de tensão e depois de doença.
Em alguns casos, a fixação pode não parecer mais que um trejeito da
personalidade, como colecionar ursinhos de pelúcia, o que pode significar a falta de
um pai carinhoso.
Em outros, pode ser notável o bastante para ser classificado como uma fobia de
porões, que pode ter sua origem em alguma experiência anterior de ser esmagado
em um abrigo antiaéreo.
Uma neurose muito comum é evidente em uma pessoa que está contínua mas não
seriamente doente, o que pode ser um modo de obter a atenção especial que não
teve quando criança.
Muitas vezes, os problemas dos recém-casados trazem à baila a questão dos
modelos paternos que cada parceiro projeta no outro.
Isso pode causar uma crise no cônjuge que não consegue livrar-se da
representação repetida do que foi introjetado quando era criança.
É aqui que as imagens arquetípicas do pai e da mãe inerentes ao superego ideal
podem quebrar-se frente à realidade, resultando no colapso de todas as
expectativas conjugais.
A maioria das neuroses é mais que simples ansiedades.
São com freqüência o sinal de conflitos da psique que prejudicam a capacidade da
pessoa para viver a vida normalmente, o que quer que isso seja.
Nos termos da Árvore, é quando um grupo de conceitos ou complexos bloqueia a
passagem de outro, ou restringe uma das tríades ou Sefirot de tal modo que
impede o funcionamento adequado.
Um exemplo disso é um Gevurah excessivamente criterioso que desautoriza
qualquer concessão feita por Hesed e por suas tríades associadas da estimulação
intelectual e da expressão emocional.
Isso poderia causar uma tendência neurótica a ser hipercrítico ou meticuloso, de
maneira que a limpeza de uma casa ou de um escritório torna-se mais importante
que fazer com que sejam um lar ou um lugar para a criatividade.
Essa tendência pode ser retraçada ao treinamento higiênico, mas também pode ser
dito que uma obsessão com a pureza é já inerente à psique, e portanto incorporada
à sina, que é concebida para fazer face e lidar com um problema que tenha talvez
dominado a vida precedente.
Uma pessoa, por exemplo, lembra-se de ter sido uma freira, e estava obcecada
com manter sua casa limpa.
A sina deu-lhe um marido bagunceiro mas afetuoso para ensinar-lhe o equilíbrio.
Alguns sinais de uma psicopatologia podem não se manifestar até tarde na vida
adulta, quando a pessoa torna-se responsável por si mesma, e talvez por outras
pessoas, no trabalho ou em uma sociedade.
Em tais casos, o sentimento de inquietação está presente muito antes que um
comportamento estranho indique que alguma coisa está errada.
A frustração, o desapontamento ou um revés costumam ser os motivos que dão
início ao processo de regressão que leva a pessoa de volta para onde o problema
começou.
Se isso não for percebido e resolvido, a formação dos sintomas tem início na
Árvore, e a disfunção da psique aumenta, ao mesmo tempo que as três tríades em
volta do ego começam a desmoronar.
Por exemplo, nas variações excessivas de humor ou na falta de sentimentos, os
pensamentos podem tornar-se obsessivos ou confusos, e a ação inadequada ou
desproporcional.
Com muita freqüência, a dissociação das pessoas e dos eventos externos ocorre
quando os componentes Daat-Yesod do ego começam a romper-se.
Isso pode não passar de uma reação neurótica a uma tensão específica, que pode
passar quando a pressão cessa, ou pode ser mais sério, no sentido que o indivíduo
está desligado do que está acontecendo e, de fato, acredita plenamente que a sua
experiência distorcida corresponde à realidade.
Ê a partir desse ponto que a zona de penumbra transforma-se no campo de batalha
entre o id-Nefesh e o superego ideal, com o ego entre os dois tentando manter
algum tipo de estabilidade funcional.
Caso ele falhe e o caos se instale, a psicose assume o controle, perturbando
profundamente o equilíbrio geral da Árvore da psique.
Se a situação for fundamental, a loucura pode eclipsar a vida.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 34

Loucura
A diferença entre a neurose e a psicose é que o neurótico está consciente de um
conflito psicológico, ao passo que o psicótico não está.
Isso marca uma ordem totalmente diferente de psicopatologia.
O conflito no interior da psique não é incomum, quando vários elementos lutam por
ascendência, equilíbrio e compensação.
Na maior parte das pessoas, a tensão entre diferentes necessidades, idéias e
emoções pode ser acomodada, mas, naqueles que têm um desequilíbrio básico
devido a um trauma ou a uma fixação, a situação pode aproximar-se de um ponto
crítico em que a psique não pode mais manter um nível operacional.
A "formação de sintomas" é um aviso de que tal possibilidade está presente.
O temor aos cães, por exemplo, como a maioria das fobias, é um mecanismo para
evitar o enfrentamento de um ponto de ruptura, e pode proteger a pessoa contra a
sua própria ira selvagem que ela se recusa a reconhecer, enquanto a agorafobia, o
temor dos espaços abertos, pode estar relacionada à sensação de estar exposto, e
portanto vulnerável — o que poderia levar a um pânico incontrolável.
A lista de fobias é enorme, mas a função de todas elas é a mesma: proteger a
pessoa de si mesma.
Nos termos da Árvore, uma fobia é quando o lado esquerdo da psique mantém o
direito sob controle.
Por exemplo, um Hod rigoroso restringe um Nezah selvagem, enquanto um
Gevurah severo prende um Hesed expansivo demais, e um Binah de peso bloqueia
um Hokhmah caprichoso.
Se o pilar esquerdo não possuísse o poder do medo, a coluna direita poderia
explodir em uma desintegração da sanidade, ou pelo menos a pessoa assim o crê,
donde a fobia, que quer dizer "medo".
Entre o neurótico e o psicótico está o histérico.
Em tais indivíduos, os conflitos internos são resolvidos por "reação de conversão".
Nesse processo o problema é transferido, por ressonância solidária, da Árvore
psicológica para a corporal, de maneira que uma cegueira ou uma surdez
psicológicas tornam-se físicas.
Nesse caso o ego Yesódico transfere o que não pode enfrentar, através do Daat e
dos pilares laterais, para as tríades correspondentes da Árvore corporal.
Isso proporciona um "lucro" duplo.
Primeiramente, o indivíduo evita o problema e, como um "ganho secundário",
arranca concessões especiais dos demais.
Esse é o padrão de muitos hipocondríacos, cujos sintomas muitas vezes não têm
realidade física.
Essa descoberta deu origem à noção de que a doença mental nem sempre era
orgânica, como se pensava.
A loucura é um termo relativo.
Por exemplo, existem muitos indivíduos que, apesar de serem completamente
insanos, podem mesmo assim dirigir uma empresa e até um país, desde que não
sejam postos sob pressão.
Caso ocorra uma crise, ela pode romper o sistema de defesa Yesódico e precipitar
uma crise psicológica.
Um exemplo disso é o maníaco depressivo, que oscila entre os dois pilares laterais.
Enquanto não for alcançado nenhum dos dois extremos, mantém-se a integridade
da Árvore, mas, caso a circunstância decrete uma dose excessiva de sucesso ou de
fracasso, um dos lados da Árvore derrubará o contrapeso do outro, provocando
talvez um período de incontrolável mania ou profunda depressão suicida.
Por exemplo, um eminente acadêmico, com um Hod muito sagaz, foi humilhado em
uma grande batalha intelectual.
Isso arruinou a sua imagem Yesódica de si mesmo como um erudito brilhante.
Ficou tão desconcertado que o seu pilar esquerdo desmoronou, e ele teve uma
série de explosões violentas que libertaram todo o poder de um pilar direito sem
amarras, em uma orgia demente de sexo e bebida, até consumir-se totalmente.
Em alguns casos, a pane pode acontecer no equilíbrio vertical entre o id e o
superego ideal, quando a pessoa oscila entre uma introversão extremada e uma
intensa extroversão.
Tais casos podem não ser mais que desordens da personalidade, ou podem ser
mais profundos, e patológicos.
Devemos observar que nem todos os psicopatas estão em asilos.
Muitas pessoas famosas podem ser incluídas nessa categoria.
O soldado altamente condecorado pode ser um homicida, e a estrela de cinema
símbolo sexual pode ser uma ninfomaníaca que, como o herói, calhou de estar
exatamente no lugar onde a sua loucura servia para o que se necessitava.
Muitas figuras históricas de renome eram psicopatas.
A megalomania de Hitler não foi reconhecida até que fosse tarde demais.
A psicose ocorre quando o ego deixa de relacionar os eventos externos ao que está
acontecendo na psique.
Isso pode assumir a forma de uma inflação, na qual a imagem Yesódica cresce até
tornar-se rainha do Universo, ou de uma deflação em que o indivíduo diminui até
tornar-se uma não-pessoa.
O mecanismo disso é que, quando ocorre um conflito interno, vários elementos da
psique dividem-se para evitar uma grande confrontação no interior da Árvore.
Essa operação, contudo, não pode ter êxito se a fundação Yesódica do ego estiver
danificada.
Quando isso acontece, a Árvore fica distorcida, com o fluxo entre a posição pivotal
de Tiferet e as tríades adjacentes e os Sefirot laterais sendo desequilibrados.
Em um período longo, isso pode causar uma fragmentação gradual, ou, em
algumas circunstâncias, uma perda dramática da coesão da psique, em um colapso
psicótico.
Com isso, os pilares, os Sefirot e as tríades renunciam ao seu controle e o id-
Nefesh e toda a energia encerrada nos complexos e conceitos escapa ou implode
para o interior de pessoa.
Se o processo de desintegração não for fatal, pode-se esperar uma recuperação
parcial, pois a Árvore tratará de curar-se procurando um ponto mais baixo de
equilíbrio operacional.
Caso a loucura percorra todo o seu caminho até o final, só restará uma casca
fragmentada da pessoa, com os elementos sem relação entre si da psique
expressando-se em estranhos gestos e maneiras de falar, até que a morte
intervenha e conceda a possibilidade de outro começo mais tarde na história.
Os vários tipos de loucura indicam quais são os pilares, tríades e Sefirot da Árvore
psicológica que estão sendo afetados.
A paranóia, por exemplo, pode ser uma pesada combinação de Gevurah com as
tríades do superego.
Esse desequilíbrio permite que os impulsos da mortido passem para o ego, que
desvia a ameaça à sua estabilidade projetando-a nos demais.
Alguns paranóicos ouvem vozes que os insultam.
Essas vozes chegam desde o outro lado da linha liminar Hod e Nezah, originárias
dos segmentos divididos e conflitantes das tríades laterais.
A esquizofrenia catatônica é um claro exemplo de se estar encerrado no pilar
esquerdo, posto que a pessoa assume uma postura rígida e freqüentemente
bizarra, de maneira a poder enfrentar a violenta dinâmica que pode ser
descarregada pela coluna direita.
Isso acontece porque o Yesod está fora de funcionamento e pouco contato com a
realidade acima ou abaixo é perceptível.
De fato, tem sido notado que esses pacientes inacessíveis têm uma assustadora
atmosfera do outro mundo à sua volta.
Para um cabalista, isso se deve a que a conexão Daat-Yesod se afrouxa com a
inevitável perda de vitalidade física e de substância que ocorre quando a face
inferior da psique separa-se da face superior do corpo, deixando para trás um ego
vazio que vive em um nível etéreo e responde apenas mecanicamente aos
estímulos externos.
Tomando um caso específico, examinemos o processo detalhamente.

'X' era uma mulher jovem que temia ser anulada caso se envolvesse com alguém.
O retraimento a protegia do mundo exterior, mas isso levou a um empobrecimento
da psique que criou um vácuo em um espaço interno já rarefeito.
Em termos da Árvore, Yesod evitou que as tríades emocional e conceituai fossem
preenchidas pela experiência.
A falta de estímulos externos a despersonalizou, pois não havia nada para manter
ativa a face inferior da psique.
Lentamente, instalou-se uma espécie de petrificação da personagem, que foi
compensada por uma acumulação de fantasias.
Ou seja, o Daat do corpo começou a separar-se de Yesod da psique.
Isso deu origem à formação sintomática do sentimento de descorporização.
Essa tendência foi rejeitada pelo ego, com a construção de uma imagem aceitável
da situação da jovem.
Isso revelou-se satisfatório, pois ela via-se como a senhora narcisista de seu
mundo Yezirático.
Contudo, o Si-mesmo em Tiferet viu o perigo, e ela teve muitos sonhos sobre sua
própria morte, ou nos quais se via em uma ilha deserta ou desintegrando-se.
Ela ignorou os avisos.
Enquanto isso, o seu Yesod foi construindo uma imagem totalmente falsa dela e de
sua colocação no mundo, no que constituía o início da insanidade.
Conhecem-se casos de pessoas nesse estado que ficaram boas quando foram
capazes de reconhecer a situação em que estavam, mas, infelizmente, muitos
vagam entre dois mundos, muitas vezes afirmando categoricamente que a sua
imagem da existência é a correta, até que finalmente a sina as leva a uma crise e
dá-lhes a escolha de serem curados ou mergulharem na insanidade total.
Desde um ponto de vista cabalístico, a loucura é considerada como uma rejeição
das coisas tal como são.
De fato, a marca distintiva de muitos neuróticos e psicóticos é a obstinação de
obter as coisas ao seu próprio modo, mesmo que a vida esteja dizendo que estão
errados.
O fenômeno da loucura é o resultado de um processo, e não a causa.
A Providência concebe cada vida para desenvolver um indivíduo, e a insanidade
pode ser o último recurso da sina em sua tentativa de evitar um dano ao espírito.
Muitos psicóticos ignoram deliberadamente as leis da vida, de maneira a imporem a
sua visão egocêntrica da realidade.
O cabalista entende esses acontecimentos como o resultado do mau uso do livre-
arbítrio, embora os pilares laterais estejam continuamente empurrando o indivíduo
de volta para o centro da Árvore.
Todos têm que aprender suas lições de maneira a se desenvolverem e
representarem seu papel no Universo corretamente.
Alguns escolhem não o fazer, e acumulam um carma pesado que resulta no inferno
da loucura, que é chamado na cabala de Poço de Gehennah, onde residem todos
aqueles (mortos ou vivos) que se opõem à realidade.
A maior parte das pessoas não chega a esse ponto, embora possa chegar bem
perto nas grandes crises que sempre acontecem nos momentos importantes da
vida.
Este é o tema que examinaremos a seguir.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 35

Crise
O encontro com a neurose e até mesmo com a psicose não é incomum.
Quase todas as pessoas conhecem alguém sob pressão que não foi capaz de
agüentar.
Todo o mundo, para dizer a verdade, teve experiência pessoal de uma crise em
algum ponto da vida.
De fato, nascer é ingressar em uma situação em que o indivíduo é periodicamente
confrontado com a mudança e com o ajustamento.
Essa é uma das principais" características da vida.
Por que, pode-se perguntar, acontecem essas crises?
Na cabala, elas são consideradas oportunidades para o desenvolvimento, no
processo de evolução, em que o átomo Divino de consciência de cada pessoa
aprende a expandir-se na experiência, mas permanece contido nos limites do
equilíbrio.
Essa é a espiral gradual para cima, na qual o indivíduo muda de colunas direitas
para as esquerdas, em uma ascensão de realização do Si-mesmo.
Vistas psicologicamente, as crises controlam o crescimento e aliviam as limitações,
à medida que a pessoa vai avançando através da progressão da expansão e
consolidação, no processo de se tornar um indivíduo pleno e completo.
Um exemplo de crise e da sua função é a chegada de um novo bebê em uma
família de três pessoas.
Subitamente o padrão que foi talvez bem estabelecido entre o primogênito e os
pais é perturbado.
O filho mais velho, que se sentia o foco do amor, é ameaçado quando a criança
mais nova leva inicialmente a precedência.
A segurança, que se acreditava garantida, é ameaçada e uma reação instintiva do
id-Nefesh gera um ciúme de considerável poder.
Os pais podem entender a situação e fazer grandes esforços para garantir à criança
que o amor deles por ela não diminuiu.
Mas a alma animal, com o seu temor de que o novo bebê frustre a satisfação de
suas necessidades, exerce enorme pressão sobre a psique da criança mais velha.
Na maior parte dos casos, a crise é enfrentada pelo ego, quando ele se dá conta de
que perderia se empreendesse qualquer ação hostil.
Esse é um ato de chegar a um acordo com a realidade, pois o ego deve refrear um
considerável sentimento de hostilidade.
Contudo, embora esse impulso seja reprimido, ele continua mesmo assim presente,
e tem que ser dominado periodicamente nos conflitos de rivalidade entre irmãos.
Essa luta, assim como o exercício de aprender a andar, fortalece o lado estrutural
da psique, de maneira que o seu pilar dinâmico mais selvagem é domado e depois
controlado.
Essa capacidade é muito útil para desenvolver a flexibilidade mais tarde na vida.
Ela poderia, por exemplo, impedir que uma pessoa se comporte de maneira infantil,
quando ameaçada no amor ou na rivalidade profissional.
Ela também ajuda a pessoa a conter o superego ideal, que pode às vezes ser
completamente irracional, especialmente durante períodos de crise, quando visões
coletivas se opõem ao desenvolvimento individual, como quando a pessoa tem que
escolher entre o costume social e o que a sua consciência diz que está certo.
A crise é observada na mudança de desenvolvimento da criança, da percepção
moto-sensorial à cognição abstrata, quando se deve descartar o velho modo de
operação e adquirir um novo método.
Esse princípio se aplica à maioria das situações críticas.
O mesmo momento de hesitação e temor ao risco e à aventura ocorre na mudança
da vida de bebê para a de criança.
O primeiro dia de escola deixa uma profunda impressão na psique, e a maneira
como o ego Yesódico enfrenta a situação é fundamental na formação das atitudes
sociais.
Nesse ponto, a expansão e limitação dos pilares laterais, quando entram em um
mundo mais amplo, são um choque para a imagem egocêntrica tão
cuidadosamente nutrida até o momento.
Caso a visão narcisista não seja dissolvida e formada novamente para acomodar,
os demais, surgirão muitas crises para impulsionar a pessoa através dessa
iniciação.
Se isso não for feito no momento devido, pode tornar-se um problema sério na vida
adulta, pois a psique gera continuamente a mesma situação de modo a fazer
avançar o processo de desenvolvimento.
Quando essas crises não são enfrentadas e superadas, a pessoa fica fixada nesse
estágio.
Alguns indivíduos tentam lidar com isso assumindo uma máscara evasiva, como ser
brincalhão.
Outras pessoas, que estão, temperamentalmente, no pilar esquerdo, simplesmente
recuam para uma atitude passiva, enquanto os que estão inclinados para a coluna
direita procurarão evitar o problema mediante a ação excessiva.
Contudo, cedo ou tarde a sina organizará outra crise para resolver a dificuldade, tal
como um caso amoroso em que esses dois opostos são atraídos um para o outro,
em uma busca inconsciente de uma solução.
Como vimos, a sina de uma pessoa é posta em uma progressão, de maneira que o
crescimento do corpo e da mente seja equilibrado, e um apóie o outro no processo
de desenvolvimento.
Entretanto, além dessas fases e crises transicionais, está a infraestrutura mais sutil
notada pelos astrólogos, que têm milhares de anos de dados para os apoiarem.
Por exemplo, foi observado que, assim como as idades planetárias e estágios da
vida, existem os ritmos periódicos e seus efeitos colaterais.
A Lua, por exemplo, gera no corpo e na psique inferior, especialmente no ego, um
padrão mensal de tranqüilidade, tensão e equilíbrio, ao mover-se em relação à Lua
natal do horóscopo.
Assim, uma pessoa cuja carta tem a Lua em Aries sentir-se-á cheia de energia
quando a Lua estiver em conjunção com esse signo, mas frustrada quando a Lua
estiver em quadratura com o signo, passando por Capricórnio.
Mais ainda, estará irritável quando tiver a Lua em Câncer, e talvez levemente
descuidada com a Lua em Leão.
Quando a Lua estiver em Libra, a tensão do ego nesse dia pode subir ou descer,
dependendo de como a pessoa usar a energia.
Esses estados cambiantes da consciência (a Lua, normalmente, fica dois dias em
cada signo) são quase sempre imperceptíveis, por serem tão efêmeros.
Mesmo assim, eles têm uma influência sobre os humores da psique, pois podem
algumas vezes ser os catalisadores de uma situação mais profunda ligada aos
ritmos mais longos mas mais sutis do Sol e dos planetas.
Segundo a tradição astrológica, esses padrões cíclicos criam uma configuração de
influência que está sempre mudando, afetando profundamente o estado da psique.
Por exemplo, Mercúrio e Vênus têm ritmos curtos, e as suas várias influências, com
relação aos demais planetas e luminárias, são fugazes e passageiras.
Os planetas superiores, com seus ciclos muito mais longos, têm efeitos mais
profundos e mais prolongados sobre a psique.
Marte, com seu circuito de dois anos, precipita momentos de conflito repentino, ao
transitar e angular cada signo.
Caso um desses signos esteja na Casa de Parceria de um indivíduo, confrontos com
os amigos acontecerão na escola, se for uma criança, e sobre questões de amor se
for um jovem, ou, de fato, em qualquer ponto da vida em que Marte estiver em
uma posição fundamental para o horóscopo da pessoa.
Isso é igualmente verdadeiro para Júpiter, que tem um padrão de doze anos.
Se Júpiter passar pela Casa de Parceria, deve-se esperar uma expansão nessa
área, a menos que, como acontece algumas vezes, Saturno em oposição atrase
uma relação em uma crise de prudência versus amor.
Essas e muitas outras combinações planetárias em ação na sutil tela de fundo do
cosmo agem principalmente através do inconsciente, não somente do indivíduo
mas de toda a humanidade, que, periodicamente, tem que fazer face a crises como
a Idade das Trevas ou a Revolução Industrial.
Essas crises coletivas afetam milhões, embora a maior parte das pessoas não se dê
conta dessa dimensão, seja porque está envolvida demais com o nível pessoal, seja
por ter uma resistência a aceitar que não é senhora da própria sina.
Somente aqueles que têm consciência dessas forças Yeziráticas têm poder de
manobra nos limites de seu poderoso fluxo e refluxo, e mesmo assim a única coisa
que pode ser alterada é a sua atitude frente ao que acontece, pois ainda menos
pessoas podem realmente alterar a própria sina.
Apesar de todo o seu poder espiritual, até mesmo Jesus e Sócrates tiveram que
passar pela execução.
O triunfo deles foi terem escolhido fazê-lo com graça.
Uma crise pode ser tanto uma situação interna quanto externa, posto que ela é o
resultado de ambos os fatores agindo sobre a pessoa naquele momento e lugar.
Esses momentos críticos não chegam por acaso.
Cada vida se prepara para os momentos em que a sina põe o novo e o velho em
jogo.
Muitos indivíduos vivem como se fossem o centro do Universo, e de fato, de certo
modo, são mesmo, pois bem no fundo se seu ser, no coração do seu inconsciente,
está o Divino.
Posto que quase todos nós, porém, somos inconscientes, só enxergamos os quatro
mundos desde um ponto de vista egocêntrico.
Todavia, isso não altera o fato de que tudo na Existência está sujeito às leis,
esboçadas graficamente pela Escada de Jacó, que nos colocam exatamente onde
temos que estar de modo a podermos fazer a nossa viagem de realização do Si-
mesmo.
Pode haver momentos de relaxamentos, de modo que possamos nos preparar, ou
épocas de tensão, que se acumulam até alcançar um ponto de ruptura ou de
passagem.
Nesse meio tempo chegam momentos de equilíbrio que nos permitem perceber o
que está acontecendo, quando a Árvore do nosso ser está momentaneamente em
equilíbrio e o conjunto da situação pode ser apreciado desde o Si-mesmo em
Tiferet.
Tais momentos de iluminação podem durar uma fração de segundo, ou continuar
por algum tempo enquanto os fatores ativos e passivos de uma situação ficam
oscilando antes de alcançarem uma resolução.
Muitas pessoas consideram bons os momentos fáceis, e ruins os tempos difíceis.
Desde o ponto de vista do desenvolvimento, com freqüência o contrário é
verdadeiro.
A falta de tensão e de atrito pode gerar preguiça e relaxamento.
Isso pode ser visto quando um império alcança o seu ponto máximo, perde a sua
vitalidade e começa a declinar.
O mesmo acontece quando uma pessoa chega a um ponto de desenvolvimento em
que padrões bem estabelecidos começam a sufocar a criatividade.
Felizmente, chega o momento em que as forças do pilar ativo começam a inclinar-
se na outra direção, de modo a precipitar uma mudança.
Isso pode ser aplicado externamente, pelas circunstâncias, ou internamente, pelo
lado dinâmico da psique.
De qualquer modo, um é o espelho do outro, pois a sina é uma expressão do
equilíbrio entre os dois pilares.
As crises de acidente e doença são os efeitos dos pilares e de Sefirot em ação em
todos os Mundos, para trazer à consciência o que precisa ser feito naquele ponto do
tempo e do espaço.
Um exemplo disso pode ser uma batida de carro que mostra à pessoa que a sua
imagem não era boa no lugar para onde estava indo.
O organismo Yezirático da psique é aquoso por natureza.
Pode, contudo, tornar-se gelatinoso demais se o processo de crescimento inclinar-
se demais para o lado da estrutura.
Do mesmo modo, às vezes a psique fica excessivamente fluida, se houver
demasiada ênfase no lado da dinâmica.
Esses desequilíbrios sempre precipitam uma ação contrária que dissolve e resolve
continuamente a situação.
Desse modo, uma psique saudável nunca está fixa demais ou livre demais, pois
excessos em qualquer das direções disturbam o equilíbrio necessário para mantê-la
em seus limites.
As crises que surgem naturalmente no curso dos acontecimentos podem,
normalmente, ser contidas.
As que não podem são, com freqüência, auto infrigidas pela obstinação, ou
resultam de carma.

Considerando uma visão mais transpessoal, a nossa investigação agora vai além da
mecânica da psique, para concentrar-se mais uma vez sobre o inconsciente, mas
desde um nível diferente, olhando para indivíduos que não são neuróticos ou
psicóticos, mas têm um profundo sentimento de que falta alguma coisa em suas
vidas.
Essas pessoas tem crises freqüentes, mas não do tipo comum.
Elas são aquelas pessoas "que procuram", de que falamos antes, que desejam
encontrar o seu verdadeiro Si-mesmo.
É aqui que a abordagem junguiana faz a sua entrada no nosso estudo.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 36

Jung e Freud
Carl Jung nasceu em 1875 e morreu em 1961.
O seu horóscopo tinha o Sol (Tiferet) em Leão, um fogoso signo fixo, e a Lua
(Yesod) em Touro, um signo fixo terreno.
Dessa maneira, a sua Lua correspondia ao Sol de Touro de Freud, o que encorajou
um relacionamento íntimo enquanto o ego de Jung refletisse a luz do Si-mesmo de
Freud.
Contudo, quando os seus sóis estivessem em quadratura, o conflito entre iguais
seria inevitável.
Foi exatamente isso que aconteceu quando Jung seguiu seu próprio caminho e
deixou de ser, como o chamava Freud, "seu príncipe herdeiro".
A cisão, é interessante notar, como um evento no padrão de sina de Freud, deu-se
em 1913, quando Urano, o planeta da iluminação e da mudança repentina, estava
em exata oposição ao Sol de Jung, juntamente com Marte, o planeta do confronto e
da decisão, precipitando uma revolução na Casa da Parceria.
O relacionamento dos dois, além disso, não foi ajudado por Saturno, o imponente
planeta da lei, em conjunção com a Lua de Freud mais tarde naquele ano, enquanto
Marte fazia o mesmo com o seu Sol.
A combinação desses aspectos cósmicos só poderia trazer uma separação fatal,
quando os princípios refletidos em suas psiques, representados pelos planetas,
levaram as diferenças entre os dois a uma crise, Jung, que tinha um Sol ou
Si-mesmo igualmente fogoso e fixo, ter-se-ia afastado inevitavelmente da
abordagem terrena de Freud, para seguir o ponto de vista mais inspirativo.
Isso foi demonstrado pela sua vida e pela sua obra.
Isso não quer dizer que ele fosse superior a Freud.
Eles simplesmente percebiam dois níveis diferentes de realidade.
Antes de começarmos a explorar em detalhes a visão de Jung, examinemos o seu
esquema geral da psique, de maneira a ver onde é que ele e Freud estavam de
acordo e onde não.
Jung via a psique como um organismo.
Ele afirmava que a sua estrutura e dinâmica não era construída pela experiência,
mas que era um todo já existente que se desenvolvia desde o nascimento para
formar um sistema bem diferenciado cujos vários componentes procuravam agir
em harmonia.
Rejeitava a visão de quebra-cabeça da psique e o padrão de desenvolvimento em
mosaico cujos elementos autônomos lutam pela supremacia.
Os conflitos da neurose e da psicose eram considerados como facções dissociadas
que se opunham à unidade essencial da psique, que tinha uma tendência normal
em direção à integração e um profundo sentido de unidade com tudo o que existe.
Essa visão é platônica, em contraposição à abordagem mais aristotélica de Freud.
O campo em que Freud e Jung tinham muita coisa em comum é o da divisão da
psique em consciente e inconsciente, embora ambos, ao desenvolverem os seus
caminhos respectivos, tenham dado nomes ligeiramente diferentes para a mesma
coisa.
Por exemplo, o superego ideal de Freud era o "inconsciente pessoal" de Jung,
enquanto o id freudiano era considerado por alguns junguianos como o
"inconsciente coletivo".
Às vezes o mesmo nome era usado para coisas diferentes, o que levava a alguma
confusão, mas, considerando que ambas as escolas estavam desbravando um novo
território, isso não nos deve surpreender.
É como o nome das Índias Ocidentais, derivado da crença de seus descobridores
europeus de que haviam achado uma nova rota para a Índia.
O mesmo ocorre quando cientistas descobrem novos fenômenos físicos e dão-lhes
vários nomes, de acordo com o seu entendimento no momento da descoberta.
Os títulos dos métodos freudiano e junguiano refletem as suas abordagens
diferentes.
Freud chamou o seu de "psicanálise", e Jung batizou o seu de "psicologia analítica".
Os cabalistas também enfrentaram o mesmo problema.
Alguns conheciam o estudo da psique como "Descer para a Carruagem", enquanto
outros o conheciam como "Subir para a Carruagem", o que significa, como qualquer
um que se dedique ao trabalho esotérico pode dizer, exatamente a mesma coisa,
mas abordada em duas direções diferentes.
A chave está em reconhecer que há um acima e um abaixo, e isso tanto Freud
como Jung reconheceram na divisão básica entre consciente e inconsciente.
Jung, porém, foi mais adiante, subdividindo o inconsciente em um nível individual e
outro cósmico.
Jung, tal como Freud, definia a consciência como a parte da psique que é
obviamente acessível.
Ele acreditava que ela existia anteriormente ao nascimento; ou seja, a psique é
uma coisa completamente diferente do corpo.
Isso parece ser corroborado por suas observações sobre a vida após a morte, e
pela sua crença em um grande desígnio.
Freud, que como se sabe considerava Deus como uma vasta projeção da imagem
dos pais, não podia abertamente ir tão longe, e de fato tentou eliminar todos os
elementos ocultos de seu trabalho, ao passo que Jung estava claramente
interessado nessa dimensão.
Segundo as observações de Jung, a consciência de um recém-nascido não está
organizada.
Tudo o que chega a ela é passageiro, e inicialmente não há nenhuma continuidade
em particular, pois os processos instintivos e a mãe tomam conta de suas
necessidades imediatas.
Contudo, à medida que passa o tempo e o processo de desenvolvimento tem início,
as experiências que passam através do ego rudimentar começam a acumular-se
nos vários sistemas da psique, principiando a formação da memória.
Segundo a cabala, ocorre nesse ponto uma aceitação de um veículo, ou carruagem,
que seleciona o material recebido e o armazena em seu lugar apropriado.
Algumas dessas experiências são absorvidas pelas tríades em torno do ego; outras
vão para o inconsciente pessoal e outras ainda vão para o coletivo.
Com o tempo, segundo Jung, o ego começa a aprender a avaliar as situações e a
responder.
Começa a ter capacidade, em sua maneira limitada, para concentrar a consciência,
de modo a identificar objetos externos e perceber eventos internos.
Essa habilidade do ego para ser seletivo é grandemente afetada pelo tipo físico do
recém-nascido, além da sua condição psicológica básica, da sua educação e de
muitas influências inconscientes que se filtram através da linha Hod-Nezah desde
os níveis pessoal ou coletivo.
Tudo isso está de acordo com as descobertas de Freud.
Contudo, o que interessava particularmente a Jung era o processo de individuação.
Nesse processo, o desenvolvimento de uma identidade pelo ego é não apenas o
começo do próprio reconhecimento como pessoa, como também o princípio de uma
diferenciação entre o geral e o particular.
Há nisso um grande afastamento da noção de que todos estão sujeitos a idênticos
impulsos do id e a pressões do superego ideal que fazem com que a pessoa se
conforme a um padrão social.
Enquanto isso é certo para um nível, também é certo que muitos indivíduos reagem
a seu próprio modo às circunstâncias.
Esses indivíduos são peculiares a si mesmos, e a sua percepção do mundo interior e
do exterior é única.
Essas são as pessoas que dão continuidade ao processo de individuação.
Normalmente, elas estão plenamente amadurecidas e com suas necessidades vitais
básicas satisfeitas.
Em termos cabalísticos, isso quer dizer que elas preencheram a face inferior da
psique e estão prontas para ir mais alto e mais fundo na Árvore.
É por isso que Jung tinha mais interesse no futuro do paciente do que Freud, que se
preocupava mais com o seu passado.
A imagem que Jung fazia da psique era a de uma esfera com uma mancha brilhante
na superfície.
Esse ponto luminoso é considerado como o centro do campo de consciência, tal
como é percebido pelo ego ao mover-se para a frente e para atrás sobre a
superfície, o que pode ser visto como a linha Hod-Nezah.
Desse modo, muitas coisas que estão disponíveis no pré-consciente podem ser
trazidas para cima (ou para baixo) e projetadas na tela Yesódica, embora sejam
imediatamente esquecidos quando a atenção do ego se afasta delas.
Debaixo da superfície da esfera (ou acima da linha liminar) estão aquelas coisas
que são atraídas pela luz que se ergue desde as profundezas, tal como as
memórias há muito esquecidas que estão associadas ao que está acontecendo no
ego, como lembrar-se do cheiro do mar quando se está folheando um folheto
turístico.
Essas memórias podem não ser diretamente relevantes para os assuntos do ego,
mas podem influenciar um pensamento, um sentimento ou uma ação e, talvez, ir
para este ou aquele local turístico, que traz à pessoa lembranças de umas férias de
sua infância.
Abaixo desse nível recuperável mais profundo estão aquelas associações que não
podem vir à superfície, como, por exemplo, experiências desagradáveis da guerra e
de memórias que não foram relevantes para a vida da pessoa por muito tempo,
como aquilo de que menos se gostava de aprender na escola.
Ainda mais ao fundo, próximo ao centro da esfera, estão aquelas áreas de que
poucas pessoas têm consciência, mas que exercem mesmo assim sua influência.
É nessas áreas que residem as experiências arcaicas que pertencem a toda a
humanidade, no nível coletivo, ou parte superior da Arvore.
Essa zona é acessível apenas para as pessoas altamente evoluídas, como os santos,
sábios e profetas, embora possam exprimir-se aos mortais de menor estatura nos
sonhos ou em lampejos de visão profunda, como entendimento e sabedoria.
No próprio centro da esfera está o que Jung chama de Si-mesmo.
Este é o governante da psique, e está relacionado à mais plena realização que um
ser humano pode atingir, tanto na individuação quanto na Consciência Universal.
Do ponto de vista da Árvore, a definição junguiana do Si-mesmo é uma combinação
de Tiferet, Daat e Keter, que mantém o consciente do Si-mesmo em vários níveis
da coluna central.
Tal como veremos, a visão junguiana tem muito em comum com o esquema
cabalístico.
De fato, grande parte da sua obra foi baseada em anos de estudo intensivo de
diversas tradições esotéricas, da alquimia ao xamanismo.
Além de passar várias horas em sua ampla biblioteca, Jung fez muitas viagens ao
exterior para encontrar-se com pessoas que praticavam diversas técnicas místicas
e mágicas.
Toda essa experiência foi utilizada no que é chamado de psicologia junguiana.
Ele com certeza tinha conhecimento da cabala, assim como Freud, que possuía
formação judaica.
Nenhum dos dois, contudo, relacionou esse sistema de grande precisão
diretamente ao próprio trabalho, pois enquanto eles viveram a cabala tinha má
reputação, especialmente entre os judeus ocidentais.
Hoje em dia, graças ao trabalho desenvolvido por estudiosos eminentes como
Gershen Scholem, a cabala está se tornando um modo mais aceitável de ver a
Existência.
Se colocarmos o esquema geral freudiano e o junguiano em justaposição à Escada
de Jacó, poderemos ver exatamente como coincidem.
O diagrama junguiano da esfera, como todos os esquemas, inclusive a Arvore
Sefirótica, não passa de uma maneira esquematizada de descrever o indescritível.
Todavia, com uma síntese dos dois sistemas, examinemos a psique para ver não
somente como ela opera desde um ponto de vista junguiano, como também em
que ponto ela se relaciona aos mundos superiores do espírito e do Divino, segundo
o esquema da cabala.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 37

Funções
Tal como Freud, Jung considerava o ego como o foco da consciência, embora o
visse não apenas como o pivô da percepção, do pensamento, do sentimento e da
ação, mas também como o centro de diversas funções psicológicas.
Ao mesmo tempo que ele reconhecia que o ego tinha apenas um papel limitado na
operação total da psique, achava esse papel muito importante, posto que é através
do ego que a pessoa vê tanto o mundo interior como o exterior.
Como tal, o ego seleciona o que pode ser absorvido e o que deve ser afastado da
atenção.
Assim, por exemplo, ao caminharmos pela rua, notamos somente as coisas que nos
são relevantes.
O resto é mantido fora; se não fosse assim, nossa percepção ficaria
sobrecarregada.
Desde um ponto de vista cabalístico, o Yesod lida com o que é de interesse direto,
à medida que vem subindo o caminho desde Malkhut, enquanto o resto é arquivado
e tratado pelos caminhos laterais que sobem para Hod e Nezah.
Esse fenômeno fica aparente quando, por exemplo, a polícia pergunta às pessoas o
que elas lembram de um incidente.
Um interrogatório feito com perícia, que inquira qual era a cor disso, ou em que
posição estava aquilo, revela que muito mais foi absolvido do que o ego notou na
ocasião.
Para Jung era de particular importância apenas o que era selecionado, e por quê.
Isso era relacionado por ele a dois fatores cruciais que influenciam a visão do ego,
além do efeito das impressões externas e do inconsciente, com todas as suas
pressões físicas, pessoais e culturais.
O primeiro ele designou como a atitude mantida pelo ego, e a segunda de função
psicológica dominante.
Esses dois fatores eram considerados como subsistemas em interação que
aplicavam sua ênfase como fatores passageiros para enfrentar um
momento específico, ou como uma tendência permanente que faz com que o ego
veja o mundo de uma determinada maneira.
O primeiro sistema é o da "introversão" e "extroversão".
Esses termos não eram novos, mas Jung os usou de um modo específico.
A introversão eia vista como uma inclinação a perceber o mundo de maneira mais
reflexiva, avaliando o conteúdo interior dos acontecimentos em vez da sua forma
aparente.
Por exemplo, dois homens saem para um passeio noturno, e tropeçam em alguma
coisa no escuro.
O extrovertido sai às apalpadelas para descobrir em que tropeçou, enquanto o
introvertido pode começar a pensar sobre os motivos de um tal acontecimento,
vendo-o talvez como um presságio.
O extrovertido, tendo achado o objeto, tira-o do caminho, enquanto o introvertido
fica ruminando sobre como a sina, periodicamente, põe tais coisas no caminho das
pessoas.
Essa diferença na atitude altera o que é percebido pelo ego, de maneira que duas
imagens totalmente diferentes da mesma cena são apresentadas à consciência de
cada pessoa.
O extrovertido vê o mundo em termos de fenômenos externos, enquanto o
introvertido percebe o Universo simbolicamente, pois a sua percepção está voltada
para uma realidade interior.
Nessas visões de mundo existem, é claro, gradações.
Nos extremos está o desequilíbrio neurótico que nega a relação do introvertido com
a realidade externa e reforça a fuga do extrovertido de seus processos internos.
A preferência pelos sonhos do viciado em cocaína e o amor dos Hell's Angels pela
ação violenta são exemplos disso.
Nos termos da Árvore, o extrovertido olha desde Yesod para baixo, em direção a
Malkhut, enquanto o introvertido dirige a atenção do ego para o mundo interior do
devaneio.
Felizmente para quase todos nós, qualquer desequilíbrio entre o corpo e a mente é
contido por um ego relativamente competente.
Apesar disso, a maior parte das pessoas costuma ter uma tendência para o
predomínio de uma dessas duas atitudes.
O segundo sistema do ego, segundo Jung, era a interação das quatro funções
psicológicas, tal como ele as via.
Estas baseavam-se na observação de quatro processos recíprocos centrados no
ego.
Jung os chamou de pensamento, sentido, sentimento e intuição.
À primeira vista, eles parecem estar relacionados às tríades de pensamento,
sentimento e ação, o que pode ser confuso pela semelhança dos nomes, mas caso
se considere que o sistema junguiano está relacionado aos tipos corporais
ectomórfico (nervo: pensamento), mesomórfico (muscular: ação) e endomórfico
(visceral: sensível), ele poderá de fato ser considerado uma descrição das funções
psicológicas.
Vistas nos termos da Árvore, as quatro funções, ao contrário dos tipos corporais,
preenchem toda a face inferior da Árvore psicológica.
A sua disposição é a seguinte: a função do pensamento adapta-se à tríade Hod,
Yesod, Malkhut; a dos sentidos vai para a tríade de Nezah, Yesod e Malkhut; a do
sentimento para a tríade de Nezah, Tiferet e Yesod e a da intuição para a tríade de
Hod, Tiferet e Yesod.
Todas, como veremos, concentram-se sobre o ego em Yesod, assim como os tipos
corporais.
Como um subsistema na Árvore, o pensamento e a intuição estão no lado passivo,
enquanto os sentidos e o sentimento estão no lado ativo da face inferior.
Além disso, as duas tríades exteriores do pensamento e dos sentidos têm uma
tendência extrovertida, por estarem ligadas a Malkhut, e as duas tríades interiores
da intuição e do sentimento são inclinados para a introversão, devido às suas
ligações com Tiferet.
Isso significa que os pares superiores e interiores são recíprocos como tríades
introvertidas, e as inferiores fazem o mesmo, mas de modo extrovertido.
Além dessas relações horizontais e verticais, há um processo cruzado em que a
tríade dos sentidos contrabalança a tríade da intuição, e a tríade do pensamento
complementa a do sentimento.
Mais ainda, Jung via esse sistema quadripartite dividido em racional e irracional,
com as tríades dos sentidos e da intuição assumindo o eixo irracional, pois operam
sem qualquer lógica evidente.
O sentimento, pelo menos, tem suas simpatias e antipatias.
Para adicionar complexidade e mais sutileza aó sistema, todas as várias funções
podem, de fato, ser introvertidas ou extrovertidas.
Desse modo, para dar exemplos, a tríade dos sentidos, que devido ao seu modo
extrovertido, costuma ocupar-se da ação, pode tornar-se reflexiva, de maneira que
as impressões dos sentidos dão origem a especulações.
Do mesmo modo, a tríade do pensamento, que normalmente trata somente de
questões concretas, pode ocupar-se da leitura de estudos como este.
Em determinadas circunstâncias, a função do sentimento, que é por natureza
ativamente introvertida, pode passar a aplicar uma pressão silenciosa, projetando
no Mundo um forte humor.
A tríade da intuição, também de disposição introvertida, pode igualmente deixar de
ser o receptor oculto, altamente sensível, mas passivo, para assumir uma postura
extrovertida que procura dados ativamente, como quando alguém sintoniza uma
nova situação para entender o que está acontecendo.
Jung não somente observou que uma das funções e atitudes costumava ter o
predomínio, mas que esse elemento forte, com freqüência, estava compensando a
debilidade de uma função.
Desse modo, por exemplo, o indivíduo sensível introvertido se esconde de suas
próprias faculdades intuitivas, e o pensador extrovertido está tentando racionalizar
seus sentimentos.
Em compensação, muitas vezes as pessoas intuitivas usam a sua capacidade
delicada e introvertida para evitar encontros com questões práticas, enquanto
a pessoa sensível e introvertida com freqüência faz de tudo para parar de pensar
sobre problemas materiais.
Vista positivamente, cada função pode ser desenvolvida, de modo que existem
pensadores brilhantes, pessoas sensíveis de talento, indivíduos de ação intrépidos,
e intuitivos dotados.
Essas funções altamente desenvolvidas, contudo, chegam ao ponto em que estão
às custas, em geral, de suas contrapartes, de modo que o matemático sagaz é frio,
o músico temperamental não tem noção de ordem, o montanhista corajoso não tem
sensibilidade para os demais, e o poeta místico não é prático.
Jung viu também que qualquer uma dessas funções pode ser levada à ação, de
maneira que uma imagem completa e mais verdadeira das realidades interna e
externa possa ser obtida.
Infelizmente, a maior parte das pessoas tem somente uma ou duas dessas funções
em boas condições de funcionamento e, por isso, a nossa visão é um tanto quanto
subjetiva.
Cabalisticamente, as quatro funções e suas combinações extrovertidas e
introvertidas descrevem a dinâmica do cinco Sefirot inferiores, e as tríades que eles
compõem.
A maior delas é a de Malkhut-Hod-Nezah, que se ocupa dos processos de ação,
sentimento e pensamento prático.
Sob essa camada estão as quatro funções junguianas, que adicionam a dimensão
psicológica ao influxo de material vindo do corpo e da psique, abaixo e acima da
linha liminar.
A tríade Hold-Tiferet-Nezah, ou do "Despertar" neste esquema, é o nível onde a
conexão Tiferet do Si-mesmo ilumina o que está acontecendo na metade superior
das tríades funcionais da intuição e do sentimento.
É quando a pessoa não tem apenas uma vaga premonição, de alguma coisa
pairando nas proximidades da linha liminar, mas chega realmente a discernir.
Tais momentos separam o ego da consciência do Si-mesmo, e a pessoa vê com
grande clareza o que o ego está fazendo, sentindo e pensando em relação ao
mundo exterior, isto é, pela via das tríades corporais.
Isso pode ser bem diferente do que está acontecendo nas funções psicológicas.
É uma circunstância que pode ocorrer em uma crise diplomática, quando o ego tem
que representar um papel de modo a encobrir uma situação incômoda ou distrair a
atenção dela, ou em uma crise pessoal em que o ego representa o que for preciso,
enquanto o Si-mesmo fica à espreita, esperando o momento certo para falar.
Muitas pessoas recebem esses momentos de discernimento mas nem sempre agem
em conseqüência, porque o ímpeto do sistema do ego é forte demais para ser
enfrentado, carregado pela força do hábito.
Na cabala, isso é considerado como estar no estado menor de Katnut, em
comporação com o estado de Gadlut, no qual a pessoa está no comando das
funções.
Tal como veremos, a complexidade da estrutura e da dinâmica que rodeia o ego
pode gerar muitos tipos de padrão.
A maioria das pessoas, influenciada pelo seu temperamento inato, imagens da
própria formação, desenvolve um gênero particular de "tipo psicológico", como dizia
Jung.
Essa tipologia foi uma maneira útil de definir como o ego reage, e para avaliar suas
forças e debilidades.
Ela explicava também por que certas pessoas não se davam umas com as outras
ou com o meio em que vivem.
Por exemplo, um introvertido intuitivo acharia a vida muito difícil se se encontrasse
vivendo em um bairro industrial com gente demais, ao mesmo tempo que poderia
ser muito feliz como um pastor de cabras na montanha.
Aqui, temos que lembrar a imagem mais ampla ; ver o mecanismo da Sina, que
procura equilibrar o indivíduo, por exemplo, colocando o introvertido intuitivo em
uma situação que seja um desafio para ele.
O sensível pode ter necessidade de aprender a pensar enquanto ao sonhador é
dada uma vida em que os sentimentos são constantemente provocados.
O intuitivo pode muito bem encontrar-se em situações que cultivem as outras três,
assim como qualquer tipo de pessoa, para que possa experimentar e equilibrar as
suas discrepâncias.
Tudo o que foi dito acima acontece na face inferior da consciência do ego, e nas
margens daquilo que Jung chamava de inconsciente pessoal.
Examinemos a sua visão dessa área da psique que ocupa a zona central.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 38

Inconsciente Pessoal
O inconsciente pessoal é aquela parte da psique que contém toda a experiência do
indivíduo.
Ele conserva as memórias do que passou pela atenção do ego e foi para a mente.
Um exemplo disso é a lembrança detalhada de um caso amoroso; cada paisagem,
cada som e cada cheiro é lembrado, juntamente com tudo o que foi dito, sentido e
pensado.
Em comparação estão também as recordações dos momentos negros, como os de
um acidente, quando todos os detalhes do metal retorcido, das feridas, das luzes
piscando, da dor e até mesmo dos períodos de inconsciência são lembrados.
Em circunstâncias normais, as memórias do que foi bom e agradável serão
armazenadas na zona pré-consciente do insconsciente pessoal, pois a sua potência
não perturba o equilíbrio do ego, nem dá origem a reações defensivas poderosas.
Essas memórias aceitáveis podem ser chamadas à consciência por uma melodia de
um determinado período, uma carta ou foto que trazem de volta, com
extraordinária clareza, inúmeras outras coisas relacionadas a uma época de talvez
meio século atrás.
Memórias altamente desagradáveis, ao contrário, devido à sua carga dolorosa,
podem nunca mais voltar à superfície da consciência Yesódica, pois são seguras por
um dos mecanismos de defesa do ego, que as confina ao inconsciente, de maneira
que nada, com exceção de um acontecimento similar, choque ou investigação
profunda, evoque a sua existência.
O poder dessas memórias, no entanto, exercerá uma influência que pode vir à tona
nos sonhos ou em uma memória fugaz que é imediatamente suprimida.
O inconsciente pessoal é composto de milhões dessas experiências positivas e
negativas.
Algumas delas serão pequenas e insignificantes, e outras da maior importância.
Todas, em maior ou menor grau, têm o seu efeito sobre a vida do indivíduo.
Por exemplo, um incidente da infância, tal como um encontro incestuoso reprimido
por muito tempo, pode continuar a estragar relações adultas, e um fracasso
profissional não esquecido pode fazer fracassar qualquer tentativa de recomeço no
mesmo terreno.
Pode-se perguntar como podem, todos esses pedaços esparsos de memória, ter
qualquer influência sobre a psique, posto que eles parecem chegar de maneira
casual e desordenada, alguns passando diretamente pelo ego e outros pela via dos
pilares laterais.
A organização do inconsciente pessoal pode ser percebida de dois modos.
O primeiro está baseado na descoberta feita por Jung dos complexos emocional e
conceituai, que se relacionam às tríades laterais superiores da Arvore.
Durante o seu estudo das associações de palavras, Jung notou que,
ocasionalmente, alguns pacientes faziam uma pausa ao chegarem a certas
palavras.
Uma observação mais cuidadosa revelou que tais palavras evocavam uma poderosa
resposta do inconsciente, o que levou à conclusão de que existiam coleções
associadas de memórias altamente carregadas, que pareciam reunir-se em torno
de certos princípios nucleares na psique.
Desse modo, enquanto cada experiência ia sendo processada, os pensamentos e
sentimentos evocados eram atraídos por similaridade.
Com o tempo, esses grupos formavam vários complexos associados.
Um exemplo disso pode ser visto quando alguém apanha uma concha marinha de
cima da lareira durante uma festa.
Girando-a entre os dedos, memórias dos tempos passados à beira do mar são
evocadas do inconsciente.
Repentinamente, a sala cheia de gente pode desaparecer, quando todos os cheiros,
as paisagens e sons do mar retornam.
Talvez um incidente em particular seja recordado, um triste e pungente momento
de separação no último estágio de um relacionamento que era tão promissor.
Enquanto a pessoa olha para a concha, pode se lembrar da dor no coração e do que
aconteceu depois, o que a traz abruptamente de volta à sala e à festa.
O presente pode então estimular uma nova linha de pensamento, que classifica
cientificamente a concha, enquanto a sua forma lembra à pessoa uma obra de arte
que viu durante uma viagem ao estrangeiro, o que, por sua vez, evoca outras
memórias que passam rapidamente pela tela Yesódica.
Uma momento casual como esse pode revelar muitos níveis de memória que são
parte de uma grande teia inter-relacionada de associações.
Estas, por sua vez, pertencem a diversas categorias que formam o pano de fundo
dinâmico e estrutural do vasto Universo interior da psique.
Aqui começamos a ver como a Árvore psicológica é mais do que um simples
diagrama.
Ela começa a tornar-se viva com o que é visto nela.
Um complexo, tal como Jung o via, era um agrupamento particular que tem no seu
centro um tema específico.
Um exemplo de complexo pode ser tudo o que relacione a dinheiro, de maneira que
o que quer que toque essa área traz uma resposta forte ou fraca, dependendo da
importância que a pessoa dê ao tema.
Para um indivíduo, o dinheiro pode não significar mais do que uma ferramenta útil,
enquanto para outro pode ser uma obsessão, resultante de um problema atual ou
de privações anteriores.
Em alguns casos a carga de um complexo pode estar bem distribuída, de modo que
uma certa equanimidade governa a atitude em relação ao dinheiro, enquanto em
outros o complexo pode dominar tudo.
Na maior parte das pessoas algum tipo de equilíbrio funcional é alcançado, embora
muitas tenham seus amores e temores favoritos, que podem ser expressos em
sonhos noturnos, ou diurnos, e tendências inconscientes, como o avarento que está
economizando para os dias difíceis, mesmo sendo rico.
Essas obsessões, ou poderosos complexos, podem formar entidades
completamente diferentes na psique, criando o que é chamado de
"subpersonalidades".
Estas agem, em certas situações como unidades independentes que buscam a sua
própria autonomia.
Todos nós temos nossos impulsos do id-Nefesh e fantasias psicológicas, mas a
maioria mantém isso sob controle, ou exprime em passatempos como o esporte ou
o teatro, jogos ou artes.
Mas alguns indivíduos não conseguem encontrar tais vias de escape simplesmente
porque não têm consciência desses impulsos.
Algumas vezes isso deixa o caminho livre para a subpersonalidade, de maneira que
a pessoa é levada a uma situação contra a sua própria razão.
Um homem, que parece ser completamente normal, pode tornar-se um homicida
caso as condições para isso sejam apropriadas, e não se lembrar de nada.
Isso se dá porque o impulso da mortido, e talvez um complexo carregado de ódio,
está encerrado fundo demais no inconsciente para ser detectado pelos parentes e
amigos, embora algumas coisas estranhas feitas de vez em quando pudessem ser
um indício suficiente para um observador treinado.
Tal evento poderia também ocorrer quando o equilíbrio da psique estivesse tão
perturbado que qualquer incidente trivial seria o bastante para provocá-lo.
Isso poderia libertar um inflamado complexo de vingança que transforma a pessoa
em um vingador que mata quem esteja por perto.
Trata-se, evidentemente, de um episódio psicopático, mas muitas pessoas têm
esses elementos não integrados na psique, embora não a tal grau.
Jung, a respeito desse fenômeno, observou que "essa pessoa não tem um
complexo; é o complexo que a tem".
Desde o ponto de vista cabalístico, o inconsciente pessoal é constituído de
experiências que atravessam o limiar entre Hod e Nezah e são atraídas para suas
tríades respectivas.
Algumas inclinam-se para a esquerda, onde constroem a estrutura da psique ao
acumularem-se nas tríades passivas de emoção e conceitos; outras fazem o
contrário e somam-se às tríades dos estímulos emocionais e conceituais.
Uma vez instaladas na sua tríade respectiva, elas se reúnem em torno de um
determinado Sefirah.
As que dizem respeito à informação geral e particular, tal como aprender a dirigir
ou calcular, vão se reunir em volta de Hod.
As que forem atraídas a Nezah terão a qualidade da ação e do ritmo, atração e
repulsa.
As experiências que têm o elemento da disciplina, discernimento, ira justa ou até
mesmo ódio agrupar-se-ão em torno de Gevurah, enquanto as associadas ao amor,
relaxamento, generosidade e emoções poderosas mas positivas serão atraídas a
Hesed.
Do mesmo modo, as idéias relacionadas à lei, aos princípios, organização e razão
vão se reunir em volta de Binah, e os momentos que geram inspiração, visão e
revelação irão para aquela parte da psique governada por Hokhmah.
Igualmente, tudo o que estiver relacionado ao ego ficará agrupado nas tríades que
servem Yesod, e todas as experiências relacionadas ao Si-mesmo essencial do
indivíduo orbitarão o Sefirah central de Tiferet, assim como todo o material ligado à
experiência e ao conhecimento superiores do Divino será atraído aos Sefirot altos e
profundos do Daat e do Keter que se localizam além do inconsciente pessoal, no
transpessoal.
O número de complexos e dos seus componentes, quando vistos nos termos da
Árvore, não tem importância, pois todos se alinharão aos dez princípios Sefiráticos
básicos e suas concomitantes tríades e caminhos.
Esses fundamentos dividirão sempre qualquer coisa que faça entrada na psique em
ativo e passivo, dinâmica e estrutura, superior e inferior, emoção ou idéia, da
mesma maneira que a limalha de ferro se arranja em um padrão do campo de
força.
Tal complexo pode não parecer ligado a tal outro complexo, mas, examinando-os
bem, veremos que seus núcleos compartilham de uma base que os atrai a um
determinado Sefirah.
Por exemplo, todos os pensamentos sobre o tempo têm em si o princípio dos
limites, assim como todas as emoções ligadas à perda.
Isso os inclinaria para o pilar do lado esquerdo, onde podem encontrar-se o
relacionar-se através de Gevurah, que atrai tudo o que tenha a ver com carma.
Milhares de configurações semelhantes são feitas de formas Yeziráticas que estão
positiva ou negativamente carregadas.
Elas se acumulam durante os primeiros anos como camadas básicas, mais ou
menos como o tecido básico de um tapete que é continuamente trabalhado pela
psique.
O padrão geral desse desenho em constante enriquecimento é estabelecido pela
disposição particular dos Sefirot no momento do nascimento, o que confere uma
característica clara à maneira como a pessoa reage à sina que essas
tendências inatas fazem-na viver.
Na maioria das pessoas, o arranjo interno do inconsciente pessoal assume uma
forma convencional, pois não existe um alto grau de desenvolvimento.
Dessa maneira o ego, que é socialmente orientado, gera um tipo de personalidade,
em vez de gerar um indivíduo claramente distinto.
Esse fato pode ofender alguns idealistas, mas a observação nos leva a perceber que
a maior parte das pessoas está de acordo com o que espera delas o superego ideal
da sociedade em que vivem.
Uma recente greve de mineiros na Inglaterra revelou perfeitamente o poder da
conformidade na comunidade mineira.
A condenação social implícita em ser considerado um "fura greve" ou "crumiro"
evitou que muitos indivíduos desesperadamente necessitados voltassem ao
trabalho.
Nesse caso, o inconsciente pessoal não está suficientemente evoluído para superar
o superego ideal que segura o ego no lugar.
A verdadeira individualidade é muito rara, pois até mesmo os hippies e os
vagabundos são tão convencionais em suas maneiras quanto os conformistas que
eles tanto desprezam.
Também eles vestem um uniforme e têm código rígido.
Aqui chegamos à margem superior do inconsciente pessoal, onde ele se mistura ao
coletivo.
Abaixo desse nível, tudo o que foi experimentado torna-se a matriz de uma psique
determinada, na qual o carma adquirido é trabalhado pelo desempenho da pessoa
na presente vida.
É aqui que a psicologia cabalística considera o que poderia acontecer sob a luz das
encarnações passadas, pois cada vida é o resultado de inúmeras impressões que
foram sendo sintetizadas ao longo de muitos séculos: A mulher que se parece com
um freira e vive como se fosse uma, é uma mera solteirona que não consegue
entender o sexo.
Ela, provavelmente, tem toda uma história de celibato e de pureza que marca a sua
psique.
E o homem que é um soldado profissional pode não estar simplesmente
exercitando os seus fortes impulsos da mortido, mas aprendendo disciplina, após
ter passado as últimas três ou quatro encarnações como um molenga ou um
libertino.
Tanto Francisco quanto Agostinho eram pecadores antes de se tornarem santos.
Algumas pessoas precisam de muitas vidas para aprender suas lições; quase todos
nós precisamos de várias.
O que pode ser dito é que o inconsciente pessoal contém tudo o que somos no
momento.
Isso, juntamente com a sina, define o trabalho a ser feito na presente encarnação.
Contudo, antes que possamos vir a saber o que somos, temos que destacar o
inconsciente coletivo.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 39

Inconsciente Coletivo
Assim como era sabido que o corpo contém toda a experiência do desenvolvimento
físico, acreditava-se que a mente herdasse o conhecimento adquirido pela
humanidade desde a sua aparição na Terra.
Freud reconheceu esse nível arcaico na psique, mas considerava-o um vestígio
primitivo.
Jung, ao contrário , via nesse antigo extrato a experiência acumulada da
humanidade, uma dimensão coletiva incrustrada no inconsciente de cada indivíduo.
Desde o inconsciente, ela afetava a psique de muitas maneiras, influenciando os
assuntos contemporâneos.
Um exemplo disso é a necessidade de conformar-se ao próprio grupo ou sindicato
profissional para obter proteção, no que constitui uma reencenação de uma
situação tribal pré-histórica.
A mesma origem têm os vários papéis representados pelas pessoas, do berço à
tumba.
Por exemplo, tal como Jung percebeu em suas observações de culturas avançadas
e primitivas, os pais ocupam mais ou menos a mesma posição em todas as
sociedades, demonstrando que existe, claramente, uma imagem comum do que os
pais são e fazem.
É como se houvesse um arquétipo universal facilmente reconhecível em todo o
mundo.
Jung entendia o fenômeno como um fato psicológico objetivo que tem a sua própria
forma de realidade na mente humana coletiva, juntamente com muitos outros
princípios arquetípicos que se tornaram parte desse nível profundo da mente
humana.
O reconhecimento dessa dimensão teve grande importância, pois separava o que
era inferior ou mais físico e o que era médio ou mais pessoal do que era
transpessoal.
Havia nela um mundo arquetípico de direito próprio que não tinha muito a ver com
o indivíduo, e no entanto influenciava profundamente o que ele pensa, sente e faz,
tanto em suas vidas interiores como nas exteriores.
Cabalisticamente, Jung identificara e reafirmava o reino de Yezirah, conhecido em
outras tradições espirituais como o Mundo Astral, o Palácio dos Deuses, Paraíso e
Purgatório e muitos outros nomes que descrevem o nível que está acima do físico,
mas abaixo do espiritual.
Esse mundo é não apenas a dimensão da psique como também o habitat de anjos e
demônios.
É também o Tesouro das almas, onde residem os que ainda não nasceram e onde a
psique é processada nos períodos após a morte e antes do nascimento.
Jung trouxe para o estudo da psicologia ocidental aquilo que o monge budista, o
místico cristão, o sufista muçulmano e o cabalista judeu já conheciam e descreviam
em seus escritos há muitos séculos.
Ele levou a comunidade científica para aquilo que, para ela, era um território
desconhecido.
No curso de sua ampla pesquisa do conhecimento antigo, ele encontrou
repetidamente as mesmas descrições, histórias e princípios, quando se tratava de
descrever esse nível da psique.
Tudo isso foi por ele sintetizado e relacionado ao que observava em seus pacientes,
à medida que foi descobrindo o mesmo simbolismo em certas situações psicológicas
e espirituais clássicas.
À medida que foi desenvolvendo sua obra teórica e prática, Jung começou a
formular certas conclusões sobre o inconsciente coletivo.
Por exemplo, afirmou que "a forma do mundo no qual ele [o indivíduo] nasce já se
encontra nele como uma imagem virtual".
Um cabalista do Século XIII escreveu: "É esta imagem que nos recebe quando
chegamos ao mundo, desenvolve-se conosco enquanto crescemos e nos
acompanha quando deixamos a Terra".
Jung acreditava que essa forma estava cheia de padrões e arquétipos latentes, do
mesmo modo como o corpo do recém-nascido tem todos os seus vários sistemas no
lugar quando nasce.
Esses processos psicológicos são ativados, segundo ele, quando uma pessoa
percebe um objeto do mundo exterior que corresponde ao arquétipo de, digamos,
um pai, ao qual a criança reage de uma certa maneira porque a imagem paterna já
existe em sua mente.
A forma arquetípica é tão poderosa que as pessoas que são privadas de um pai a
projetam em homens que tenham a qualidade paternal, e tentam exercer o
relacionamento pai-filho de modo a poderem amadurecer.
Cabalisticamente, a figura paterna é o símbolo associado ao Sefirah Hokhmah, ou
Sabedoria.
Localizada no topo da coluna direita e ativa, ela é considerada como o aspecto
masculino do Divino, que se manifesta no mundo inferior da Formação com a
imagem de Adão, o pai da humanidade.
No pilar oposto está Eva, em Binah, a companheira e contraparte feminina,
formada depois que o Adão espiritual de Beriah, ou Criação, foi transformado de
um ser andrógino, como o primitivo Adão Kadmon, em um casal psicológico ou
Yezirático.
Nisso tem a sua origem o mito judaico das almas companheiras, segundo o qual
aqueles que têm a mesma raiz Divina e Espiritual são divididos no nível psicológico
e vivem em corpos diferentes enquanto estão encarnados.
Aqui está a origem da idéia que influencia a busca de muitas pessoas por um
superego no companheiro.
Qualquer tradição espiritual, seja a de uma primitiva cultura de caçadores ou a da
mais alta civilização, tem a sua mitologia.
Algumas são histórias simples de como a humanidade e o Universo tomaram forma,
enquanto outras são extremamente complexas, envolvendo metafísicas elaboradas
e símbolos sutis que descrevem diversos níveis, a maneira como eles agem e quem
neles vive.
Quase todas falam da descida da humanidade aos mundos inferiores, e de como os
indivíduos podem erguer-se para recuperar seu lugar adequado e a Graça e o
conhecimento que vêm com ele.
Jung analisou muitas dessas histórias, e percebeu um padrão de desenvolvimento
inerente a todas elas.
Foi a partir desse ponto que ele se afastou de Freud e de muitos outros psicólogos,
que reconheciam somente as dimensões física e psicológica.
Da obra de Jung sobre o inconsciente coletivo surgiu uma imagem composta geral
e detalhada baseada no folclore, na mitologia e em várias disciplinas esotéricas.
Essa imagem foi relacionada à análise de inúmeros sonhos, dos pacientes e dele
mesmo.
Com esses estudos ele esclareceu o conceito dos arquétipos.
Um arquétipo quer dizer o modelo original, mas, nesse sentido, é o princípio
essencial que está na raiz de certos fenômenos.
Os primeiros homens haviam projetado imagens arquetípicas nos rios, nas
montanhas e no clima, mas viam-nas como deuses ou demônios exteriores.
Eram uma reação e uma personificação de, por exemplo, um pé-de-vento ou de
uma queda d'água.
Os arquétipos junguianos tratavam de identificar fenômenos sociais e psicológicos.
Por exemplo, arquétipos como os da inocência da infância ou a sabedoria da idade
são facilmente reconhecíveis, assim como os do herói ou os do malandro, que não
apenas ocorrem na mitologia como também operam como caracteres humanos
distintos.
Pode-se ver o jogador de cartas nas feiras mexicanas ou nos fundos de um pub
inglês, e todo Exército, dos antigos egípcios ao serviço aéreo especial britânico, tem
seus homens de valor.
Tais pessoas, normalmente, não se dão conta do modelo que estão representando,
assim como o pai ou a mãe comuns, que seguem instintivamente as instruções do
Adão e da Eva arquetípicos.
Jung catalogou diversos tipos de princípios arquetípicos, que vão desde situações
como o nascimento e a morte aos objetos como um anel, que trazem em si um
estado e um significado simbólicos.
O amor e o ódio têm formas arquetípicas, assim como os encontros e as
separações.
Ele via esses arquétipos como formas puras, até que se manifestassem em uma
situação real, quando então assumiam uma força muito maior do que as pessoas
lhes atribuíam.
Qualquer casamento, não importa em que cultura, gera um enorme foco de poder,
quando as pessoas ingressam em uma celebração arquetípica da união.
Todos os envolvidos tiram da cerimônia muito mais do que põem, do momento em
que o casal anuncia a união até que os noivos partam para a lua-de-mel.
Todos os rituais da apresentação à família, montar uma casa, organizar a festa e
comprar presentes são formas sociais altamente carregadas que afetam até mesmo
os que estão de fora.
O casamento real entre o príncipe e a princesa de Gales atraiu a atenção de
milhões de telespectadores.
Tal é o poder do coletivo ao gerar uma interação entre o inconsciente pessoal e o
coletivo.
Até mesmo pessoas de fortes convicções republicanas foram profundamente
afetadas pelo casamento, ao assistirem a um conto de fadas em que uma Cinderela
aristocrática desposou um futuro rei.
Um exemplo de arquétipo no nível individual é a transição da infância à juventude.
Isso se cumpre quando o arquétipo de "menino" é deslocado pelo arquétipo de
"adolescente", que a pessoa adota com todas as suas aparências e atitudes.
Aqui podem ser vistas as idades arquetípicas do homem, os princípios planetários e
os Sefirot em ação por trás das formas.
O poder desses modos é imenso, como pode ser testemunhado a cada primavera,
quando repentinamente os eternos jovens e donzelas aparecem por toda a parte
para representar os jogos do amor, enquanto os velhos assistem e recordam seus
tempos de galanteios.
Esse arquétipo coletivo de Vênus, Eros ou Nezah ocorre tanto na selva primitiva do
Brasil como na sofisticada Chelsea, em Londres, na Sibéria comunista ou na
Califórnia capitalista.
Onde quer que haja pessoas jovens surgirá o arquétipo do romance.
No coração de cada arquétipo há um princípio que atrai qualquer coisa que ressoe
com ele.
Isso segue as leis que operam nos Sefirot, estendendo-se e atraindo para si tudo o
que seja similar à sua natureza.
Naturalmente, esses processos acontecem sob a influência geral da Árvore, de
maneira que todos os arquétipos estão relacionados a este Sefirah ou àquela tríade
ou coluna.
Isso quer dizer que há uma base ordenada para inúmeros arquétipos, que
correspondem aos vários aspectos da Árvore.
Visto de outra maneira, da complexidade e da sutileza da Árvore Azilútica surgem
inúmeras possibilidades.
Estas estão três vezes mais numerosas quando chegam ao mundo de Yezirah, pois
este contém tanto as dimensões espiritual e Divina como a psicológica.
Desse modo, o inconsciente coletivo inclui muitos modos abstratos, tais como o
Divino, os arquétipos polares da Misericórdia e da justiça, e os arquétipos
espirituais da bondade e do mal, que se expressam na religião, na arte e na
literatura de cada cultura.
A divindade, por exemplo, é universalmente retratada como Luz, do mesmo modo
como as imagens de Cristo e de Maomé são usadas por cristãos e muçulmanos para
simbolizar um ser humano plenamente realizado.
De maneira a ter uma idéia de como os arquétipos agem, examinemos agora os
dez símbolos cabalísticos mais importantes, para podermos ver como eles se
relacionam com a psique.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 40

Arquétipos
A noção da existência de arquétipos é antiga.
A personificação de princípios ocorre em toda a mitologia.
Alguns arquétipos são amplos, e outros são particulares; muitos incluem princípios
menores em sua órbita, e uns poucos personificam aspectos muito específicos de
realidade ou fantasia.
No mundo antigo, quando a humanidade estava em sua infância e não podia
entender as forças que atuavam no Universo senão como mágica, definia o invisível
por símbolos.
Enquanto alguns desses símbolos não passavam de impressões supersticiosas do
desconhecido, outros eram conceitos cuidadosamente considerados, elaborados na
linguagem da poesia e das artes.
O fato de que a maioria da humanidade possa ter estado ignorante não quer dizer
que não tenham existido pessoas de alto desenvolvimento.
Homens como Lao Tsu na China, Akhenaton no Egito e Homero na Grécia eram
santos e sábios responsáveis por levar a humanidade para a compreensão de que
há mais coisas na vida além da sobrevivência.
Eles sintetizaram o que receberam após uma visão mística ou uma longa
contemplação, e apresentaram esses conceitos na forma de símbolos que
indicavam e explicavam a profunda ordem da Existência em relação à humanidade.
Essas compreensões passaram ao inconsciente coletivo como histórias, ditados,
edifícios, escultura, pintura, dança e drama, que continham princípios arquetípicos.
Em determinados períodos da História, várias tradições esotéricas formularam
sistemas completos baseados no caráter e no efeito dos princípios mais importantes
que governavam o mundo.
Os astrólogos produziram, por exemplo, cinco arquétipos distintos baseados nos
planetas observáveis, assim como duas simbologias muito complexas sobre o Sol e
a Lua.
Por exemplo, um aspecto do caráter lunar era expresso por Ártemis, a deusa dos
muitos seios, que representava a plenitude da Lua e a sua relação com a
fecundidade da Natureza.
Diana, a esbelta caçadora virginal, com seu arco em forma de crescente,
simbolizava- a junção no ciclo entre a morte e o renascimento.
Como Selene, a Lua era adorada por Pan, o deus da Natureza, mas amava
Endymion, símbolo da humanidade, que ela admirava enquanto dormia.
Esse mito falava do nível do ego Yesódico da humanidade, e do seu estado de
dormência.
Hécate, a grande feiticeira, era o símbolo da magia da Lua, que tinha o poder de
influenciar a visão da realidade do ego, e representava a mente inferior.
Enterradas nesses mitos há muitas informação sobre o funcionamento da psique.
Ártemis e Diana são os pólos de luz e sombra do ego, e os impulsos da libido e da
mortido.
O princípio de Selene é o domínio do ego sobre a Natureza ou o corpo, enquanto a
capacidade de Hécate para dirigir imagens fortemente catéxicas nos fala da
imaginação aplicada e da projeção consciente.
Isso e muito mais pode ser encontrado ao se examinar a mitologia, como Jung de
fato fez.
O mesmo se aplica em relação à cabala, salvo que aqui é usado um sistema de
arquétipos antropológicos.
Isso porque os personagens da Bíblia têm nomes que descrevem a sua função.
Josué, por exemplo, quer dizer "entregador" e Davi "o amado", enquanto Ruth, o
nome da leal nora de Naomi, quer dizer "amizade".
Estes e muitos outros nomes bíblicos representam certos princípios que têm papéis
específicos, assim como Josué e Jesus de Nazaré corporificam a idéia do homem
Divino que libertaria a Judéia dos romanos, que representavam a humanidade
aprisionada pela fisicalidade.
Nos termos da Árvore, os cabalistas colocam nela os arquétipos bíblcos de acordo
com a sua natureza, de maneira que Davi, o rei terreno mas divinamente inspirado,
representava o corpo, ou Malkhut, o Reino, que é o mais baixo dos Sefirot,
enquanto José, o sonhador que tinha o manto de muitas cores e tornou-se Vizir do
Faraó, era visto como o símbolo de Yesod, ou o ministro do ego.
Moisés e Aarão foram postos no fundo dos pilares da esquerda e da direita, pois
tiveram que lidar com os problemas do dia-a-dia dos anos de selvageria em que a
vida estava em um nível básico.
Moisés foi posto em Nezah como o profeta prático, e Aarão em Hod, pois ele era um
orador eloqüente e sacerdote.
Isaac foi colocado no Sefirah de Gevurah, pois temia o Julgamento do Senhor;
Abraão, o amigo de Deus, foi para Hesed, o Sefirah clemente e dedicado, enquanto
o terceiro patriarca, Jacó, foi designado para Tiferet, a posição do Si-mesmo, onde
foi transformado em Israel, que quer dizer "aquele que luta por Deus".
O não-Sefirah de Daat não tem imagem humana, embora se diga que, às vezes, o
arcanjo Gabriel é visto através do seu vidro escuro.
Keter, a Coroa, também não tem símbolo, pois não era permitido ter uma imagem
do Divino.
Binah e Hokhmah têm os arquétipos de Adão e Eva como as cabeças masculina e
feminina dos pilares exteriores.
Isso nos leva a dois dos mais importantes arquétipos de Jung — ânima e ânimus,
que têm suas raízes na idéia do companheiro de alma e espiritual.
Ânima e ânimus correspondem ao que os cabalistas chamam de princípios de Adão
e Eva, que representam os lados passivo e ativo da Árvore.
Segundo alguns junguianos, ânimus é o masculino nas mulheres e ânima é o
feminino nos homens.
Com efeito, ambos estão presentes em cada indivíduo, mas o sexo oposto ao da
pessoa está oculto no seu inconsciente.
O homem age a partir da coluna direita, enquanto a sua esquerda opera
inconscientemente, e vice-versa nas mulheres.
Os arquétipos de ânima e ânimus têm um imenso papel em como agimos, em como
respondemos, no Mundo e nas nossas atitudes, a nós mesmos e às nossas
relações.
Na área mais óbvia e mais importante, a saber a comunicação íntima entre os
sexos, o Adão arquetípico na mulher e a Eva arquetípica no homem procuram o seu
oposto em um companheiro que seja o espelho de sua imagem interior.
Quando existe uma correspondência suficientemente próxima entre a Eva interior
do homem e o Adão interior da mulher, ocorre o fenômeno da projeção e contra
projeção que se experimenta nos casos amorosos que levantam a relação para fora
do mundano e para outro mundo.
Cabalisticamente, isso é muito preciso, pois o amor ergue o aspecto físico de seu
encontro íntimo para o mágico Mundo Yezirático de Arquétipos, onde o mais diáfano
dos gestos ou palavras assume um significado simbólico e pungente.
Esse nível psicológico de comunicação é o motivo pelo qual muitas vezes se
estabelece uma conexão psíquica entre amantes, que percebem o que está
acontecendo com o outro mesmo que haja um oceano entre os dois.
O Mundo de Yezirah tem um tipo diferente de tempo e de espaço, e é aqui que a
psique tem o seu ser; essa é a razão pela qual o amor pode ser um paraíso ou um
purgatóro.
Na cabala, cada um dos Sefirot tem dois aspectos: um positivo e um negativo, e
um lado bom e outro ruim.
Os pilares podem também inverter suas cargas, o masculino tornando-se passivo e
o feminino ativo.
Essa inversão foi reconhecida por Jung.
Por exemplo, um pilar direito ou ânimus demasiado reativo pode levar uma mulher
a assumir inconscientemente uma atitude agressiva em relação à vida e
especialmente em relação aos homens, se estiver convencida de que eles querem
dominá-la.
Por outro lado, o seu ânimus afirmativo pode agir de outra maneira, procurando um
homem de um nível mais primitivo, que possa exprimir e igualar o Adão pouco
desenvolvido da mulher.
Uma ilustração disso é o caso da jovem e presunçosa dinamarquesa que, uma vez
por ano, dirige-se às praias de topless da Espanha, para passar duas semanas de
sensualidade ininterrupta com os pescadores locais, antes de voltar ao seu
sonolento trabalho no banco.
O seu impulso viking fica satisfeito.
Ao contrário disso, há o caso do rapaz que se apaixona mas é rejeitado pela garota
dos seus sonhos, que tinha medo da obsessão dele por ela.
Ele ansiou por ela por muitos anos até que se encontraram novamente em sua
cidade natal.
Ela então perdera a juventude e os cabelos dourados.
Estava gorda, cínica e exaurida pelos anos.
Subitamente, ele se põe a pensar no que é que vira nela.
Ela já não correspondia à sua imagem de uma princesa.
O horror chegou quando ele se deu conta de que perdera muitas oportunidades de
casar-se porque a sua projeção da ânima bloqueava a visão do que era uma
verdadeira mulher.
A propaganda comercial moderna explora a força dessa projeção com a sua
constante apresentação de belas mulheres e homens potentes que simbolizam a
forma e a energia dos pilares exteriores.
Essa projeção pode partir de qualquer dos Sefirot funcionais, de modo que esta ou
aquela qualidade pode ser enfatizada em um determinado arquétipo.
Assim, por exemplo, Gevurah pode ser evocado por um piloto de caça da Batalha
da Inglaterra com sua coragem estóica, enquanto Nezah pode transformar uma
certa modelo de moda no furor da estação.
Devemos dizer que cada pilar tem sua subdivisão em masculino e feminino, de
maneira que Binah, por exemplo, pode ser a bisavó ou o grande filósofo Saturnino,
enquanto Hokhmah pode produzir o arquétipo da grande profetisa da Sabedoria.
É interessante notar que os junguianos observam quatro níveis de ânima e ânimus,
que correspondem aos quatro níveis cabalísticos.
O primeiro é o herói viril ou a mulher natural que exercem forte atração sensual; o
segundo, o poeta romântico ou a garota sensível, que evocam uma reação mais
psicológica do que física.
O terceiro é o homem de mente poderosa e a mulher profunda, que simbolizam a
Sabedoria e o Entendimento espirituais.
A ordem mais alta é exemplificada pelas figuras de ânimus e de ânima iluminadas
que não são apenas imagens, mas vivem realmente o que pensam, sentem e
fazem.
Todos esses níveis e muitos outros aspectos da polaridade do ânimus e da ânima
formam um sistema complementar altamente complexo e, contudo, essencialmente
simples que opera entre homens e mulheres, enquanto estes trabalham dentro de
si mesmos e um com o outro em busca de equilíbrio para suas respectivas Árvores.
Esse equilíbrio vem, segundo a cabala, quando o Adão e a Eva de cada parceiro
estão face a face em uma união mútua e interna.
Jung diria que essa é a integração do masculino e do feminino; na cabala, é visto
como o "o casamento do Rei e da Rainha".
Os principais arquétipos junguianos, quando justapostos à Árvore, correspondem
quase exatamente, embora os termos possam ser diferentes.
Por exemplo, o Grande Rei de Jung seria colocado em Hesed; o seu arquétipo do
Herói é certamente Gevurah, a bela donzela ou jovem é com certeza Nezahiano,
enquanto o Trapaceiro adapta-se perfeitamente a Hod.
Esses arquétipos ocorrem em muitas formas, mas o Grande Rei é sempre
misericordioso e generoso, e o guerreiro é corajoso e tem discernimento, que são
as qualidades de Hesed e Gevurah, ou o contrário, se o lado escuro dos Sefirot for
invocado.
O mesmo é verdadeiro para todos os outros arquétipos.
Por exemplo, o Trapaceiro pode aparecer como o Curinga ou o esperto Ladrão, o
encantador Gaiato ou o Espião sinistro, usando todos os aspectos e habilidades de
Hod para trapacear, intrigar e passar a perna em seu oponente, seja este bom ou
mau.
Esses arquétipos aparecem não apenas nos sonhos como também na política, nos
negócios e nas situações familiares.
Podem também ocorrer nos mitos, tais como os que são encontrados no cinema.
Os velhos filmes de faroeste, por exemplo, sempre contêm um audacioso herói
Gevúrio e um rancheiro rico e Hesédico que tem uma bela filha Nezahiana, além de
um desonesto advogado ou chefe de quadrilha Hodiano.
É por isso que os filmes de faroeste tinham tanto apelo popular.
Nos termos da Árvore, qualquer grande drama é uma representação da tensão
entre os vários arquétipos, quando os aspectos bons e maus são postos em
confronto.
Por exemplo, toda peça segue o padrão de estabelecer primeiramente uma situação
estável que é subitamente perturbada pela aparição de um elemento inesperado.
A trama então revela uma seqüência em desenvolvimento na qual o conflito entre a
normalidade e a desarmonia é levada a uma clímax.
Restaura-se o equilíbrio, seja porque Hamlet finalmente toma uma atitude, seja
pela chegada da Cavalaria.
Essas situações arquetípicas encontram eco tanto na sociedade quanto na psique
do indivíduo, quando são deslocadas por uma crise de uma posição antiga e fixa
para uma nova fase dinâmica, e são com freqüência correspondidas por símbolos
arquetípicos maus, tais como o terrorismo Gevúrico, a sedutora Nezahiana, o
ditador Bináhico ou o gênio louco do tipo Hokhmah.
O reino dos arquétipos é o Mundo de Yezirah.
Neste, as experiências coletivas e pessoais manifestam-se de inúmeras formas,
expressando a inter-relação dos dez Sefirot da Árvore psicológica.
Assim, elas podem ser combinações ou a pura essência de um arquétipo que pode
ser projetado em uma situação externa ou ser parte de uma fantasia particular.
A natureza aquosa e em constante mudança de Yezirah não deixa acontecer
nenhuma fixação, pois esta fluidez é vital para se poder encontrar o Mundo em
constante movimento dos pensamentos, sentimentos e ações.
De fato, a flexibilidade é a base da boa saúde mental, pois a mente ajusta
continuamente o próprio equilíbrio, de maneira a evitar qualquer estagnação
psicológica.
Isso nos traz aos arquétipos especiais do pilar central que mantêm o equilíbrio
pivotal em cada nível.
O primeiro a ser examinado é a persona, máscara que cobre e protege o ego.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 41

Persona
Assim como os arquétipos do ânimus e da ânima procuram um pelo outro no
relacionamento sexual e psicológico, o arquétipo do ego, na forma da persona,
procura satisfazer às exigências da sociedade e conquistar um lugar para o
indivíduo.
Persona, como foi dito, quer dizer "máscara", e Jung a via como um tipo particular
de arquétipo, pois ela com freqüência assumia uma projeção externa baseada na
personalidade adquirida, como um ator.
Cabalisticamente, a persona é a aparência que é assumida por Yesod para proteger
o ego e relacionar-se com o mundo.
Um exemplo disso é uma festa, onde as pessoas classificam uma às outras de
modo a poder avaliar o próprio lugar na ordem social.
Um homem de negócios, um artista e um médico apresentar-se-ão como tais,
assim como o agricultor, o operário, o erudito, o Senhor, o general ou a garota de
programa.
Cada um deles vai vestir ou usar alguma coisa ou modo de falar que indique o que
são, mesmo que estejam todos vestindo jeans e camiseta pólo.
Essa é a maneira que tem o ego de preservar e projetar uma identidade Yesódica.
Uma persona é necessária pois apenas poucos indivíduos sabem realmente o que e
quem são.
A vasta maioria das pessoas projeta uma imagem do que acredita ser.
Observe qualquer reunião e vai ouvir constantemente "O que é que você faz?"
A resposta costuma ser dada em termos de profissão ou de posição, como, por
exemplo, lavador de garrafas, dona de casa ou primeiro-ministro.
Até mesmo o desempregado e o vagabundo dirão que são um ex-ferramenteiro e
um poeta.
Essa imagem, embora possa ser uma projeção, permite que as pessoas reajam
umas às outras de acordo com os costumes locais, seja na Casa Branca ou em um
encontro dos Hell's Angels.
Contudo, a importância da persona e do arquétipo que ela adota não devem ser
subestimadas.
As pessoas podem fazer enormes esforços para selecionar o que vão vestir, como
vão se mover e falar, de maneira a comunicar que papel eles pensam e sentem que
devem projetar.
Como disse Oscar Wilde, "aquele que não julga pelas aparências é um tolo".
Ele era um perito em persona, posto que muitas de suas peças são comédias de
costumes onde as personagens devem desempenhar este ou aquele papel social.
No entanto, é interessante notar que o seu romance O retrato de Doriam Gray,
sobre um belo jovem que nunca envelhece enquanto o seu retrato oculto assume a
feiúra de sua vida odiosa, é um notável estudo sobre uma persona arquetípica
mascarando o que está acontecendo no inconsciente.
No lugar certo, a persona cumpre uma importante tarefa, pois permite que o
indivíduo assuma um papel e permaneça seguro em si mesmo.
Pode-se ser um bom engenheiro, carteiro, bóia-fria ou rainha sem que seja
necessário expor o que está acontecendo em um nível mais profundo.
Além disso, a persona permite que o indivíduo tenha diferentes personalidades em
diversas circunstâncias, como ser um bom colega de trabalho, sério, mas um alegre
companheiro no bar, embora isso possa ser confuso quando não se sabe muito bem
que máscara vestir quando se está com dois amigos de duas esferas totalmente
diferentes da vida.
Há indivíduos, contudo, que sempre apresentam a mesma face.
Costumam ser limitados em seu repertório de máscaras, porque não
desenvolveram um ego Yesódico amplo e flexível, ou porque são tão seguros
interiormente que não têm necessidade de uma fachada.
No primeiro caso o indivíduo é imaturo, e no segundo exatamente o contrário, no
sentido que pode enfrentar e acomodar a maior parte das situações sem perder o
sentido de si mesmo.
Esses indivíduos agem a partir de Tiferet.
No relacionamento entre o homem e a mulher, a persona pode ser crucial, pois
revela o equilíbrio do fator ânimus-ânima dos pilares exteriores.
Vejamos um exemplo extremo para ilustrar isso.
A maioria dos homossexuais masculinos têm na psique uma forte ênfase sobre a
ânima, que lhes proporciona a tendência ao lado feminino da Árvore, que com
freqüência se expressa na persona.
O mesmo é verdadeiro para as mulheres com um forte ânimus, em que a força do
pilar direito predomina.
Essa tendência do pilar, contudo, é algumas vezes compensada pela persona, de
modo que o homossexual pode projetar uma imagem excessivamente masculina, e
a lésbica uma personalidade extraordinariamente feminina.
Essa sobrecompensação pode, é claro, ser devida ao Yesod, assumindo uma
persona aceitável para encobrir uma alma masculina em um corpo feminino e vice-
versa.
Nos relacionamentos heterossexuais, a persona é importante porque os homens e
as mulheres projetam o ânimus-ânima através da imagem Yesódica.
A moça que sempre se veste como Alice no País das Maravilhas está projetando a
sua ânima, tentando atrair um homem com o mesmo problema, ou alguém que
possa cuidar dela como um pai.
O homem que só veste couro negro e nunca lava ou corta o cabelo está usando a
sua persona para atrair uma garota com um ânimus igualmente selvagem.
O mesmo é válido para os homens e mulheres que gostam de ser vistos nos
melhores restaurantes, ou freqüentam o bar que "só eles conhecem".
A imagem de sofisticação ou de originalidade que eles projetam destina-se a atrair
seus iguais, e qualquer um que não corresponda à imagem deles está fora do clã.
Aqui podemos ver a persona como um importante fator na criação da ordem social,
que é a fundação Yesódica de uma sociedade.
Em alguns casos, a persona pode revelar alguma lesão profunda na psique da
pessoa.
Por exemplo, existe um fenômeno particular, conhecido como síndrome de puella
ou da "eterna menina".
Nessa situação, algum acontecimento da infância, como, por exemplo, não ter
estabelecido um relacionamento real com o pai, produz o fenômeno distorcido da
persona "Boneca Adorável", que assume a imagem de uma coisinha bonita, de
maneira a obter a reação que teria tido como criança.
Outro caso seria o exato oposto, em que a persona adota o papel de uma
"Amazona Encouraçada", para que ninguém possa magoar um ego tão protegido.
No primeiro caso predomina o pilar feminino, e no segundo o masculino.
A "Filha Dedicada" é mais defesa, mas de maior complexidade.
Nesse caso, o relacionamento com os pais é um elaborado equilíbrio entre amor e
ódio, de necessidade e ressentimento, contido por uma máscara de aparente
bondade filiar que pode ocultar um espantoso reservatório de energia id-Nefesh
reprimida.
Essa situação pode manter-se até mesmo depois que os pais tenham morrido, pois
o superego ideal pode manter o Yesod sob controle até que o indivíduo amadureça
e aceda ao Si-mesmo de Tiferet.
O "Desajustado" é um tipo de persona que procura um consolo masoquista na
desgraça, atraindo constantemente o infortúnio sobre si mesmo.
Aqui, o impulso inconsciente da mortido surge em um poderoso desejo de morte
que usa a persona para destruir aos demais e a si mesmo.
Casos extremos podem tornar-se psicopatas, pois o Yesod é afastado da influência
do Tiferet e da capacidade de perceber a realidade.
Um exemplo disso é o do lunático que diz "O fim do mundo está próximo por causa
da sua corrupção", predizendo e projetando o próprio sentimento de destruição
sobre os demais para não ter que enfrentá-lo.
Essa inclinação é vista em muitos revolucionários que querem que o mundo seja
feito à sua própria imagem.
Ao contrário, a persona de aparente sucesso também pode estar encobrindo um
desequilíbrio.
O alto funcionário que usa a própria posição para oprimir as pessoas pode estar
compensando uma falta de estima do ego, e a personalidade brilhante e espirituosa
com freqüência está mascarando uma profunda depressão em sua vida particular.
Vemos aqui as reações da Árvore, tratando de alcançar um equilíbrio funcional.
Em alguns casos a persona vai ao encontro de uma necessidade da comunidade,
como o presidente paternalista que dirigiu um país atrasado durante décadas.
É o indivíduo que corporifica a moda do momento e, normalmente, a personificação
do ideal da sociedade em que vive.
Algumas pessoas ambiciosas chegam mesmo a cultivar a persona que os fãs
querem ver em seu ídolo, mas viver à altura dessa projeção de massa já destruiu
muitos indivíduos talentosos, que projetaram a mesma imagem de volta de modo a
chegar ao topo.
Quando a imagem começa a tornar-se insípida e a popularidade a cair, eles muitas
vezes transformam-se em casos de autodestruição.
Não têm maturidade bastante para sobreviverem sem adulação.
Isso já aconteceu a reis, generais, poetas e muitas celebridades que desaparecem
das vistas do público.
O fenômeno descrito acima é o da "inflação".
Nele, o ego está tão preso à própria imagem que a persona torna-se o foco
predominante da psique.
Isso quer dizer que quase toda a atividade da psique é dirigida para a máscara, que
se expande para fora e para longe do caminho da honestidade entre Yesod e
Tiferet, formando uma personalidade intumescida que, cedo ou tarde, tem que
arrebentar.
Por exemplo, no ápice de sua carreira, Napoleão disse: "Eu sou a revolução".
A partir desse momento, o movimento, baseado na França, que queria levar a
liberdade republicana a toda a Europa feudal, tornou-se apenas mais um império,
com Napoleão como imperador.
Após a sua dramática queda, foi confinado à pequena ilha de Santa Helena, onde se
transformou em uma pessoa incrivelmente mesquinha.
A conexão Tiferet-Yesod quase partira, deixando para trás a casca de um homem
que fora grande.
Em outro nível está a mulher que via a si mesma como uma psicoterapeuta que
podia resolver os problemas de todo o mundo, mas não conseguia fazer face aos
seus próprios problemas.
Além disso, a sua persona inflacionada não conseguia conduzir uma conversa social
banal sem ficar ponderando sobre os motivos por trás de cada observação, o que a
afastou de muitos bons amigos.
Esse domínio exercido pela pessoa pode ter origem em um Gevurah
demasiadamente ativo, que pode produzir um inquisidor espanhol, assim como um
Hesed defeituoso pode transformar a persona em um "pau para toda obra", que faz
tudo pelos outros, mas nada por si mesmo.
Do mesmo modo como muitas pessoas supostamente religiosas têm suas personas
inflacionadas, também a têm os homens de negócios poderosos e as estrelas do
rock.
A possessão por um arquétipo que age através da persona nem sempre é uma
questão espetacular.
Muitas pessoas são dirigidas pela máscara que adotaram, e ficam aprisionadas por
toda a vida.
Veja-se o caso do soldado profissional que sempre obedece, e acaba executando
pessoas que ele sabe que são boas.
Jung observou que há muitos indivíduos que sabem que a persona é apenas uma
máscara.
Estas costumam ser pessoas de mais idade que descobriram que o papel que
desempenharam tão bem no mundo não era o que eles queriam.
A personalidade Yesódica, no fim de contas, não era mais que uma imagem pela
qual eles comunicavam seus pensamentos, sentimentos e ações para as outras
pessoas.
Essa compreensão cria um sentimento de vazio em muitas pessoas que sabem que
há na vida mais que o mero reconhecimento como o melhor profissional, o artesão
mais habilidoso ou simplesmente como uma personalidade interessante.
Cabalisticamente, todos os Sefirot; tríades e caminhos dessas pessoas estavam em
seu nível ótimo.
Elas gerenciavam bem a própria vida e podiam até mesmo aumentar o seu alcance,
mas uma proficiência maior ou uma posição social mais alta não era a resposta,
A reputação no mundo deixara de ter significado, pois sabiam tratar-se de uma
bolha frágil.
Nada parecia motivá-las ou excitá-las mais, pois o tempo lhes mostrara que, apesar
das mudanças no mundo, existem sempre os mesmos problemas humanos
essenciais que nada do mundo externo pode solucionar.
A questão real era: por que se sentiam tão vazios?
Existe um propósito para a vida e para a Existência, ou não?
A persona é útil para lidar com a vida de todos os dias, mas pode evitar ativamente
o crescimento interior, ao ocupar a mente com questões mundanas.
Jung notou que as pessoas que realmente perguntavam "Quem sou eu?" eram
aqueles indivíduos que aspiravam a crescer além do ego e tornarem-se conscientes
do Si-mesmo.
Cabalisticamente, essa pergunta suscita um avanço no caminho da Honestidade, de
Yesod a Tiferet.
Contudo, esse processo também agita o lado sombrio da psique, que tentará
combater qualquer ameaça ao seu poder, e perpetuar a máscara da persona.
Trazer a luz da consciência à inconsciência evoca inevitavelmente o arquétipo da
Sombra.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 42

Sombra
No sistema cabalista, cada um dos 22 caminhos entre os Sefirot que compõem as
tríades é designado por uma letra hebraica.
O que vai de Malkhut a Yesod, ou do corpo ao ego, tem a letra Resh, cuja raiz
significa "cabeça".
Isso pode também ser interpretado como a face da aparência física da imagem do
ego.
Sobre a linha liminar entre Hod e Nezah está a letra Nun, cuja raiz quer dizer
"florescer e decair" — ou seja, resolver e dissolver o que quer que atravesse entre
"reverberação" e "repetição" (que são os significados radicais, em hebraico, de Hod
e Nezah) e aquilo que vai e volta entre o consciente e o inconsciente.
O caminho que nos interessa particularmente está sob a letra Tsade, que costuma
ser traduzido como justo" ou "honestidade", mas que também pode significar
"aquele que espera".
Isso revela o lado de sombra da conexão entre o ego e o Si-mesmo, e entre o
consciente e o inconsciente.
Sob esse aspecto, o caminho está sujeito tanto à iluminação quanto à escuridão,
quando o nível liminar flutua entre os processos exteriores de Yesod e o Vigia
interno do Tiferet.
Essa zona pré-consciente pode abrir ou fechar, suscita compreensões ou as
reprime, torna as coisas claras ou as mergulha em distorções.
É aqui que a luz da honestidade corta um caminho por entre os pensamentos,
sentimentos e ações repisados da psique inferior para unir o ego ao Si-mesmo, ou
para ser surpreendida pela escuridão, quando o lado sinistro da psique eclipsa o
nosso Sol e a nossa Lua interiores.
Freud via a sombra como a intromissão do id na consciência do ego, seja para
perturbar a sua ordem com comportamento irracional, seja como um fator
altamente criativo, em que a energia instintiva do Nefesh é aproveitada para dar
um impulso libidinal ao indivíduo, ao contrário do impulso da mortido que está por
trás dos atos destrutivos e criminosos.
Jung concordava com grande parte disso, e com a noção de que a Sombra continha
o que fora reprimido pela consciência.
A história de O médico e o monstro simbolizava essa dicotomia, no sentido de que
o lado escuro do bom dr. Jekyll corporificava-se no caráter grosseiro e violento de
Hyde — um caráter que ele não podia controlar após ter adquirido autonomia.
Todos nós temos um dr. Hyde, composto de tudo o que achamos inaceitável, de
acordo com os critérios pelos quais vivemos.
Desse modo, o benfeitor reprimirá a malvadeza, e o pacifista a agressão; o cidadão
obediente às leis reprimirá qualquer impulso a transgredir o código.
No entanto, esses elementos suprimidos reaparecem no comportamento
inconsciente.
Os benfeitores com freqüência negligenciam suas famílias, os pacifistas são muitas
vezes ofensivos em sua causa, e o cidadão obediente às leis procura, normalmente,
achar meios de contornar as regras, contratando contadores, por exemplo, para
ajudá-lo a evitar o pagamento de impostos.
Talvez o mais óbvio desses casos seja o do guru que dormia com suas seguidoras,
segundo ele para iniciá-las em seus ensinamentos.
As que ele escolhia para iniciar, notavam os seus devotos, eram sempre as mais
desejáveis, do ponto de vista sexual.
O aspecto positivo da Sombra é que ela é composta principalmente pelos nossos
impulsos irracionais, o que nos dá um faro instintivo para a ação espontânea, de
maneira que possamos reagir instantaneamente às situações.
Isso adiciona vitalidade às nossas vidas, que, sem ela, podem ser bastante
aborrecidas, mas também significa que existe uma dimensão imprevisível na
psique, que tanto nos põe em dificuldades como nos tira delas, como o cientista
explorador, que fingiu ser louco com tanta convicção que os selvagens que o
haviam capturado soltaram-no, pois ele podia trazer má sorte à tribo.
Um exemplo extremamente sinistro da Sombra em um homem altamente civilizado
foi o Joseph Mengele, que dirigia uma clínica em um campo de concentração
nazista.
Esse homem educado e sofisticado conduziu muitas perversas experiências com os
internos do campo.
Retirava os ossos das pernas para ver o que aconteceria, e privava as pessoas de
certos elementos químicos para observar os efeitos.
Aqui, o Hyde deslocou completamente o Jekyl.
O caminho para o Tiferet e para a tríade de alma da consciência foi cortado ou
bloqueado pelo aspecto "aquele que espera", que simboliza o mal.
A expressão mais comum da Sombra é a atitude instintiva das pessoas em relação
aos membros de seu próprio sexo.
Dois homens, de características bem semelhantes, podem ter uma forte reação
negativa um ao outro, considerando as falhas um do outro repugantes, em uma
projeção de seus próprios lados obscuros.
Tanto Freud como Jung notaram que essas reações têm um acentuado componente
sexual, assim como o fenômeno do ânimus e da anima desequilibrados, nos quais a
Arvore exerce uma atração sexual tão poderosa pelo sexo oposto que fica seduzida
pelo seu próprio poder.
Isso dá origem à psicologia da femme fatale ou Don Juan do que toma conta da
pessoa, que então procura conquistar qualquer candidato que ingresse em seu raio
de ação.
As situações do homem brilhante destruído por uma mulher sensual e fútil e da
virgem aristocrática perdida pelo vilão encantador são a base de muitos mitos, que
vão desde a história da queda de Merlin, provocada por uma bela moça, até o filme
Alfie, sobre um homem que apenas usava as mulheres.
Essa Sombra tem o que a cabala chama de elementos Luciférico, ao explorar o seu
poder de sedução.
Isso faz com que o caminho da integridade entre Yesod e Tiferet seja interrompido,
quando a Sombra toma conta do ego e transforma a pessoa em um arquétipo do
sedutor.
É interessante notar que Lúcifer, cujo nome significa "Portador da Luz", representa
o seu exato oposto desde sua queda.
Desde um ponto de vista convencional, aquilo que a maioria das pessoas considera
como o mal é aquilo que o superego ideal percebe como ruim.
O ruim pode ser, em algumas sociedades, qualquer coisa que ofenda os costumes
locais.
Por exemplo, não se vestir para o jantar é uma coisa que, simplesmente, não se
faz, enquanto não pagar o alfaiate pode ser perfeitamente aceitável, de acordo com
o código de certos oficiais de regimento do século XIX.
A Inquisição espanhola via todos os hereges como malfeitores, que deviam ser
destruídos para preservar a Fé.
O uso da tortura era bastante normal, com a combinação do impulso sombrio da
mortido com o superego ideal, para extrair "provas" das vítimas.
É interessante notar que o Grande Inquisidor, Torquemada, que não tolerava
judeus e mouros convertidos, era, ele próprio, de raça mestiça, e portanto
inaceitável para uma sociedade espanhola de sangre limpia (puro sangue).
O seu id-Nefesh vingava-se através da persona do Grande Inquisidor, que via a
impureza por toda parte, e lidava com ela de maneira extremamente cruel, apesar
de pertencer a uma Ordem conhecida como Santo Ofício.
Essa perversidade é característica do demônio, que pode ser considerado um
arquétipo da Sombra.
O demônio, para muitas pessoas, é a personificação de tudo o que elas abominam
Desde um ponto de vista objetivo, isso pode ser ou não ser o mal.
A moralidade do ego costuma ser totalmente subjetiva, pois está sujeita à
influência inconsciente do superego ideal.
A maioria das pessoas reage de acordo com a própria educação e com a pressão
social.
Vejamos novamente o exemplo da guerra, na qual muitos indivíduos supostamente
normais, uma vez uniformizados, fazem as coisas mais horríveis às pessoas que
vestem um uniforme diferente.
Bons e maus cidadãos destroem uns aos outros quando o lado Sombra do indivíduo
e da comunidade é libertado.
Esse tipo de loucura alcançou o seu ponto mais alto na Primeira Guerra Mundial,
quando a psicose organizada foi encorajada e milhões morreram futilmente por
alguns metros de terreno lamacento.
Qualquer protesto feito por aqueles que viam o que realmente estava acontecendo
era impedido, e muitos foram até punidos por exporem a realidade.
Pode-se ver também que as mulheres que davam uma pena branca de covardia
para qualquer homem que não estivesse uniformizado não estavam sendo
realmente patriotas, e sim expressando o desejo de destruir o que quer que elas
considerassem como uma ameaça à sua segurança.
Isso acontecia porque o inimigo, quem quer que fosse, assumia a projeção de todos
os maus pensamentos, sentimentos e ações que tinham sido suprimidos durante o
século XIX, com sua ética vitoriana.
O id-Nefesh frustrado da Europa irrompeu em 1914 em um frenesi guerreiro, e a
propaganda que encorajava a mortido coletiva foi concentrada em um esforço
titânico para derrotar o adversário, que, da noite para o dia, passou de um culto
vizinho a um inimigo bárbaro que procurava destruir tudo o que era bom.
Em termos clínicos, tratava-se de paranóia em massa.
Freud era muito pessimista sobre o lado Sombra da humanidade, mas Jung sentia
que, se era possível reconhecê-lo, podia-se fazer alguma coisa para transformar a
sua função em uma lição útil.
De acordo com ele, cada pessoa tinha um demônio particular responsável por todos
os seus aspectos negativos.
Essa criatura interior podia surgir nos sonhos ou até mesmo ser projetada nos
demais, pois servia como o oponente interno que buscava testar a bondade do
indivíduo.
É aqui que a noção cabalista do bem e do mal, tão apreciada pelos rabinos, se
relaciona com o arquétipo de Satã, cujo nome quer dizer "o examinador".
Tendo sido outrora a mais alta de todas as criaturas, Lúcifer agora patrulha a
coluna central da Árvore, no ponto em que ela passa através do Yesod do ego para
o Si-mesmo em Tiferet, e além dele.
Como Satã, a tarefa de Lúcifer é evitar qualquer coisa divergente que se eleve
acima do Tiferet de Yezirah, onde se encontram os três mundos do corpo, psique e
espírito, e ingresse no "Caminho do Espírito".
Esse caminho, cuja letra hebraica, Het, quer dizer "veneração", é o que parte de
Tiferet, passa por Daat, lugar do Conhecimento, e chega a Keter, onde se
encontram os três mundos superiores.
Desse modo, o papel do demônio é extraviar, como os Amalaquistas durante o
êxodo, os israelitas em sua jornada à Terra Prometida.
Em termos do desenvolvimento, se esses elementos de Sombra "que esperam" são
trazidos à luz da consciência, podem ser neutralizados e integrados à psique do
mesmo modo como os israelitas foram transformados em uma nação unificada a
partir de um agrupamento de tribos díspares e de mentalidade escrava.
O conjunto da Bíblia é uma parábola coletiva desse processo.
Na cabala há várias técnicas para descobrir a Sombra.
Um método é mediante companheiros de confiança ou um tutor, que atuam como o
Tiferet, ou Si-mesmo, para o estudante.
Outro método é examinar sonhos que revelam, ao serem relacionados à Árvore, o
que está acontecendo ao sonhador.
Contudo, esse procedimento só pode ser útil para aqueles que conhecem e vêem o
diagrama como uma realidade viva.
Assim como na análise, há muitas sutilezas a observar antes que se possa
identificar o demônio particular da pessoa.
Alguns cabalistas chegaram até mesmo a ver esse ser das trevas bloqueando-lhes a
passagem em visões, quando a Sombra estava desempenhando um papel
particularmente importante em um certo ponto do processo de desenvolvimento.
É nesse ponto que o cabalista, tal como o analisando, tem que observar com
escrupulosa honestidade, e refletir sobre a própria conduta e sobre os comentários
dos seus tutores, e considerar aquilo que está sendo trazido para a sua atenção
pelos acontecimentos externos.
Por exemplo, algumas vezes a Sombra é revelada por um pequeno incidente, como
um lapso freudiano, enquanto em outras ocasiões pode assumir a forma de uma
grande crise, tal como a escolha entre a felicidade pessoal e um trabalho
importante que só pode ser feito pela pessoa sozinha.
Muitas pessoas que estão no "Caminho do Espírito" tiveram que fazer face a essa
escolha.
É aqui que a Sombra da pessoa pode argumentar de uma maneira extremamente
persuasiva para impedir o progresso.
O demônio é muitas vezes atraente, especialmente quando faz uso de pessoas que
amamos e respeitamos para nos seduzir.
A tríade Hod-Nezah-Tiferet do Despertar ilumina a seção superior do caminho da
Honestidade, quando a consciência se ergue desde Yesod para Tiferet.
Isso é alcançado, pela observação psicológica aguda e continuada, que proporciona
acesso direto ao inconsciente.
Quando isso acontece, a vida do indivíduo começa a tornar-se cada vez menos
influenciada pelos hábitos do ego e pelos preconceitos do superego ideal, pois é
então que o Tiferet se senta sobre o trono de Salomão, no pivô da psique.
Este é o lugar do Si-mesmo.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 43

Si-mesmo
O lugar do Si-mesmo é conhecido como o Trono de Salomão porque está no centro
da Árvore.
Desde essa posição ele tem acesso a todos os Sefirot, exceto a Malkhut.
É também o foco da maioria dos caminhos e tríades, ocupando um ponto a meio
caminho entre as faces inferior e superior da Árvore.
Além disso, mantém uma posição em que o Keter do corpo, o Tiferet da psique e o
Malkhut do Espírito se encontram, o que lhe dá acesso aos três diferentes mundos
e realidades.
Desse modo, o Trono de Salomão é o lugar do Si-mesmo, que algumas vezes é
chamado de "Sábio" ou "Vigia na Torre".
Jung o chamou de Philemon.
A noção do Si-mesmo é antiga.
É encontrada em todas as tradições esotéricas, embora tenha muitas formas.
Entre alguns povos primitivos, o Si-mesmo é percebido como um companheiro
espectral, que aconselha e algumas vezes intervém na vida da pessoa.
Entre os antigos gregos, era visto como o "daimon" da pessoa, que supervisionava
a Sina, e os romanos o reconheciam como o "gênio" oculto que todas as pessoas
possuem.
Os hindus, que tinham um sistema metafísico altamente sofisticado, viam o
Si-mesmo como possuidor de dois aspectos, um humano e um Divino.
Essa idéia também é encontrada entre os ameríndios, que chamam o Si-mesmo de
Grande Homem.
Nesse ponto, devemos diferenciar entre o Si-mesmo e o SI-MESMO, sendo este
último um reflexo, em termos cabalísticos, da Adão Kadmon.
Jung diferia de Freud por ver o Si-mesmo como uma entidade totalmente separada
do ego.
O Si-mesmo não estava sob o controle de nenhum processo consciente, nem podia
ser contido pelo ego.
Isso é visto com clareza quando a posição do ego e do Si-mesmo são vistas na
Árvore.
O ego em Yesod pode ser a Fundação da psique, mas ele só tem controle sobre as
tríades que se concentram nele, e estas estão confinadas à face inferior.
Ao contrário, o Si-mesmo está a par de praticamente tudo o que acontece na
psique, e age como a câmara de compensação para todos os Sefirot e arquétipos,
exceto o corpo.
O Si-mesmo percebe com relativa objetividade o que está acontecendo, enquanto o
ego só toma conhecimento do que acontece na face inferior da psique.
O arquétipo do Si-mesmo, tal como Jung o via, é a simbolização da unidade.
Isso é revelado pela sua posição na Árvore, onde age como o foco do organismo
psicológico, no ponto de equilíbrio entre os dois pilares exteriores e as faces
superior e inferior.
Nessa posição, ele opera como o harmonizador e o organizador da psique.
Assim, o Sefirah de Tiferet, que significa Beleza (a combinação de muitas coisas em
uma fusão refinada), é provavelmente o que Jung tinha em mente quando definiu o
Si-mesmo.
Indo mais além, Jung via o Si-mesmo como o arquétipo dos arquétipos e, de fato,
isso corresponde à noção esotérica de que o ser humano é a imagem de Deus.
Esse conceito é muito familiar para o cabalista, que se vê como um microcosmo do
Divino.
Contudo, como foi dito antes, é necessário estabelecer uma distinção clara entre
Deus e Adão Kadmon, que é um reflexo macrocósmico do Si-mesmo microcósmico
do indivíduo, que é a menor unidade completa de consciência.
O Si-mesmo tem muitos outros níveis, que ocupam vários pontos do eixo central da
Escada de Jacó, em uma seqüência de degraus de percepção.
O Si-mesmo em Tiferet é o primeiro estágio da totalidade.
Como tal, ocupa-se com a totalidade da psique, por estar localizado no cimo da
Árvore física, ao mesmo tempo que ocupa a base da Árvore do Espírito e mantém
uma posição central na psique.
Como psicólogo, Jung preocupava-se principalmente' com o mundo de Yezirah, que
é o reino da formação.
Assim, ele considerava que o Si-mesmo agia, por exemplo, através dos sonhos.
Todo esse nível pode assumir muitas formas.
Em alguns casos, o Si-mesmo aparece como um velho ou velha dando bons
conselhos, e em outros como um jovem montando um animal poderoso, que é o
id-Nefesh do corpo.
Em outro exemplo ainda, o Si-mesmo adota a imagem de uma pessoa respeitada e
famosa, ou o semblante de um tutor cabalístico ou de um analista.
Nos sonhos das mulheres, ele aparece com freqüência como uma grande rainha ou
madre superiora, enquanto nos sonhos masculinos ele pode surgir como um sábio
ou uma figura paterna.
Entretanto, apesar de toda essa variação, essas imagens terão todas as mesmas
qualidade.
A cabala define essas qualidades como Beleza, Bondade e Verdade — isto é, a mais
fina expressão do corpo, da alma e do espírito.
É claro que esta é uma imagem idealizada do Si-mesmo plenamente realizado,
mas, mesmo assim, revela o que está em cada pessoa, e aquilo que elas podem vir
a ser.
Jung reconheceu que, para a maioria das pessoas, o Si-mesmo está oculto no
inconsciente.
Em um primeiro momento, ele tem pouca influência direta, pois a psique ainda não
está suficientemente avançada para reconhecer que o Si-mesmo é um fator crucial
na vida das pessoas.
Apenas ocasionalmente, quando aquilo que os junguianos chamam de algo
"estranho" acontece, que se torna aparente que a pessoa está sendo guiada por
alguma coisa de mais profundo que a reação normal do ego.
Isso pode surgir em um sonho de aviso, como o homem que sonhou que se via em
seu próprio carro, que estava sendo guiado por outra pessoa, no que constituía em
um conselho simbólico de que a vida dele não estava mais sob o seu próprio
controle.
Ou poderia ser também uma comunicação, como nos sonhos que alguns dizem ter
tido, avisando-os de que não deveriam viajar no Titanic, que estava condenado.
Isso é possível porque o Si-mesmo tem acesso a níveis superiores do tempo e do
espaço, e conhece o padrão da Sina.
O Si-mesmo, agindo a partir do inconsciente, também tem o poder de manipular,
como o id e o superego ideal, mas por uma razão totalmente diferente.
Ele não procura satisfazer a uma necessidade corporal imediata, nem fazer com
que a pessoa se conforme a uma visão coletiva, mas leva o indivíduo à
compreensão de sua verdadeira situação.
Isso pode ser alguma coisa de muito pessoal, como o início ou o fim de um
relacionamento, ou estar relacionado a um horizonte mais amplo, tal como mostrar
ao indivíduo para que é que ele, na linguagem da cabala, foi "chamado, criado,
formado ou feito".
Jung via isso como a aquisição do Si-mesmo, do conhecimento daquilo que a
pessoa é, e onde é que ela se encaixa no Grande Desígnio da Existência.
Para ele, isso significava não tanto a perfeição, que era o processo acabado, como
o conhecimento de Si-mesmo.
Aqui começa a compreensão de Si-mesmo, que está na raiz de todas as disciplinas
espirituais.
Tal visão deve inevitavelmente levar àquilo que foi chamado de "transpessoal".
Na cabala e em outras ordens esotéricas, isso é conhecido como a dimensão
Beriática, ou Cósmica.
O aspecto coletivo do Si-mesmo ocupa-se com esse nível.
Por isso, relaciona-se com a parte superior da psique, e portanto com a face inferior
do Mundo de Beriah.
Nesse momento o nível universal da Criação se manifesta nos vários arquétipos
cósmicos.
Um exemplo, tomado da Bíblia, nos é dado pelos espíritos das Nações,
representados por certos arcanjos.
O Grande Miguel, por exemplo, vigiava Israel e defendia a sua honra contra os
príncipes da Babilônia e de Roma.
O espírito de um povo determinado era reconhecido nos tempos antigos e muitas
vezes simbolizado por um caráter distinto.
Os ingleses adotaram São Jorge como seu arquétipo coletivo, e muito mais tarde os
americanos escolheram o Tio Sam, baseado em um certo Samuel Wilson, que
trabalhava no governo americano durante a guerra de 1812.
Essa figura alta, magricela, de cabelos brancos e despachada, com sua cartola,
capturou a imaginação patriótica do povo, e ele se transformou no equivalente
americano de John Bull, representação do camponês inglês.
O paralelo francês é a figura revolucionária de Marie Anne portando a tricolor,
assim como o Japão tem a imagem do Sol Nascente e a India tem a Roda de
Oshoka.
Todas essas são imagens do Si-mesmo nas nações.
Pode ser que Britannia não comande mais as ondas, mas continua na mente dos
ingleses, especialmente se for provocada, como no caso das Falklands, quando um
remoto remanescente do Império foi invadido.
Voltando ao nível do pessoal, o Si-mesmo está ligado principalmente ao processo
de maturidade psicológica.
Ele representa o seu papel nos bastidores, no inconsciente, fazendo com que o
indivíduo se torne cada vez mas consciente de quem é.
Isso é completamente diferente do superego ideal dos pilares laterais, com sua
reação convencional à realidade.
O Si-mesmo não está apenas no centro da Arvore, mas também no pivô da tríade
da Alma, que paira no espaço entre a face inferior, envolvida com o corpo, e a face
superior, que se relaciona ao reino transpessoal do Espírito.
Considera-se a alma como o lugar onde a conduta da pessoa é revista.
Não, deve ser repetido, segundo os critérios das tríades da emoções e dos
conceitos do superego ideal, mas com relação à síntese que ocorre na tríade que é
composta pelo Si-mesmo e pelas alas da Misericórdia e do Julgamento, o que dá
origem ao fenômeno da consciência do Si-mesmo.
A consciência de Si-mesmo é a parte de nós que tem a capacidade de recuar e
olhar objetivamente para o que estamos pensando, sentindo e fazendo.
Ela pode, à medida que os processos de maturidade vão-nos tornando mais
sensíveis aos fatores sutis, penetrar com profundo discernimento em nossas
psiques.
Avalia uma situação a longo prazo e nos aconselha sobre o momento, se nos
dermos ao trabalho de escutá-la.
Essa arte tem que ser adquirida, pois toda a educação da pessoa tende a fazer com
que ela note apenas aquilo que é sugerido pelo ego, conhecedor das coisas do
mundo e tolo, de acordo com seus padrões habituais.
Como um professor observou, "é como no caso daquilo que o porteiro diz. Ele vê
somente o óbvio, e não sabe o que está acontecendo".
Isso fica muito aparente quando a família da psique está muito perturbada, pois o
ego não tem capacidade para enfrentar qualquer coisa fora de seu alcance, embora
possa tentar.
O Si-mesmo, como chefe da casa, muitas vezes tem uma maneira de lidar com as
crises que o ego não entende.
Por exemplo, uma repentina "limpeza geral", para arrumar a bagunça de várias
décadas de velhos hábitos, pode confundir o ego.
Um colapso nervoso nem sempre é uma coisa ruim.
Algumas vezes, uma cirurgia psicológica conduzida pelo Si-mesmo pode causar
muito sofrimento, quando o aspecto Gevurah da alma lanceta um furúnculo mental
para extrair um pouco de pus da consciência, mas isso pode ser necessário antes
que ocorra um envenenamento fatal.
Um exemplo disso é o de Guilherme, o Conquistador, em seu leito de morte.
Ele passou por uma agonia de remorsos por causa de sua crueldade.
Isso abriu para ele a possibilidade da redenção antes que se iniciasse o processo do
purgatório.
Essa é a razão que está por trás do ditado esotérico segundo o qual "é preciso
morrer antes de morrer" — isto é, enfrentar conscientemente o Si-mesmo.
O Si-mesmo, de acordo com Jung e muitas tradições espirituais, está aqui para
tornar consciente o inconsciente.
Esse processo é revelado, nas pessoas que procuram desenvolver-se, como
mudanças profundas nas atitudes, e na compreensão de que tudo, inclusive os
tempos difíceis, é útil para o crescimento interno.
As crises tornam-se amigas das pessoas que estão em contato com seu próprio
Si-mesmo, e os períodos negros são transformados em momentos de iluminação, à
medida que uma compreensão mais profunda de suas causas nos liberta de velhos
padrões que dominam a nossa vida, talvez desde a infância.
Assim, influências à psique há muito esquecidas e invisíveis são reveladas pela
perspicácia e convertidas em um estudo contínuo, não apenas das experiências da
própria pessoa mas de toda a humanidade, de maneira que se reconhece que todos
os indivíduos são ao mesmo tempo únicos e universais em sua jornada em direção
à realização do Si-mesmo, como átomos de Adão Kadmon.
Contudo, antes que tenhamos qualquer idéia do que isso pode significar, devemos
examinar as complexas interações que têm lugar na psique, de maneira a
vislumbrar aquilo que o Si-mesmo tem que administrar.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 44

Interações
Estivemos até agora construindo uma imagem estrutural e do desenvolvimento da
psique, e vendo como ela se relaciona ao esquema da Arvore Yezirática.
Ficamos sabendo como é que todos os elementos gerais se encaixam em um
sistema funcional que gradualmente amadurece, de uma criança a um adulto cujas
tendências inerentes interagem com o meio.
Essas interações foram definidas, tanto por Freud como por Jung, de acordo com a
ciência de seu tempo.
Os termos usados para definir e analisar o mundo físico foram aplicados à psique.
Isso é o "embaixo tal qual em cima" esotérico usado ao contrário, de maneira a
apreender as mesmas leis em ação em uma realidade diferente.
Jung via a psique como um sistema relativamente contido, que converte as
informações externas, como a alimentação e as impressões sensoriais, em energia
psíquica.
Essas informações, pensava ele, perturbavam constantemente o equilíbrio da
psique, de maneira que esta ficava sempre em movimento.
Cabalisticamente, o estímulo que vem do corpo é transformado, de uma ordem
mais grosseira, em outra mais refinada, que pode então ingressar na psique
através da face inferior do organismo Yezirático.
Um exemplo disso é uma boa conversa, acompanhada de uma boa refeição.
Ambas geram nutrição, quando a psique, assim como o corpo, extrai o que é
necessário ao seu sustento.
Jung foi mais adiante, observando que a psique não poderia jamais obter um
equilíbrio perfeito, devido a toda essa atividade.
Mesmo assim, ela procura uma estabilidade que permita seu funcionamento — no
momento em que cada lado da Arvore psicológica alcança uma predominância, é
oposto pelos Sefirot e tríades do pilar contrário.
Ele também especulou que, se a psique fosse privada de estímulos externos,
poderia, eventualmente, ficar como um lago estagnado.
Isso ocorre na loucura completa, quando uma psique totalmente isolada é
transformada em uma pocilga mental, pois nada de novo flui para ela.
A psique normal, descobriu-se, está em um estado de contínua mudança, com
pressões internas e externas mudando de lugar entre os pólos da aquiescência e da
crise.
Esta última é necessária para que a psique continue interessada e alerta, e não caia
na ineficiência indolente.
Ë por isso que as pessoas procuram a excitação e até mesmo o perigo.
Contudo, foi observado que as pessoas comuns não chegavam a tais extremos,
mas mantinham a própria Árvore viva e balançando suavemente.
Jung usou o termo "lindo" para definir esse processo, mas expandiu o seu alcance,
para que significasse não apenas as necessidades do id-Nefesh, mas incluísse
também os impulsos que todos têm no sentido de realizarem o que é importante
para eles, seja a busca da satisfação terrena, seja algo de uma ordem superior.
Desse modo a energia da psique pode circular pela face inferior da Árvore, na
forma de pensamentos, sentimentos e ações que serão usados para transformar a
experiência no inconsciente pessoal e coletivo.
Essa energia é o combustível do processo onírico, e a força impulsionadora do
crescimento interno.
Jung vislumbrou também uma ação recíproca entre o corpo e a psique, no sentido
de que podem estimular ou anular, bem como nutrir e inspirar um ao outro.
Esse intercâmbio é o processo que passa através do combinação Daat-Yesod, que
funciona como um transformador bidirecional.
Os eventos psicossomáticos baseiam-se nessa reciprocidade, assim como no
princípio de ressonância transmitido entre dois pilares.
Um exemplo disso é o do homem que fica literalmente duro de medo antes de um
salto de paraquedas.
Outra inovação introduzida por Jung sobre as operações gerais da psique foi a idéia
dos valores psíquicos.
Segundo esse conceito, uma pessoa distribui toda a energia psíquica que possa ter
de acordo com o que considera mais importante.
Desse modo, uma mulher que se interessa por esportes dedicará muito tempo e
energia a essa ocupação, enquanto um homem que escreve poesia deslocará uma
enorme quantidade de sua libido para essa área.
Isso quer dizer que a distribuição da carga na Árvore psicológica será diferente em
cada indivíduo.
Disso surgirá uma hierarquia de interesses, na medida em que a pessoa selecionar
seus interesses prioritários.
Em uma pessoa, a segurança pode predominar sobre todas as coisas, enquanto em
outra a liberdade pode ser a preocupação principal.
Esses valores, como observou Jung, não eram absolutos, mas relativos, pois, por
exemplo, um artista que gosta de pintar poderia mesmo assim dar mais atenção à
sua família, por considerá-la mais importante.
Pode-se ver também que aqueles que investem sua energia em muitas coisas não
conseguem concentrar suficiente atenção em nenhum tema isolado profundamente,
e dessa maneira deixar de tornar-se um mestre em sua área.
Leonardo da Vinci foi uma exceção, mas mesmo ele tinha os seus limites, pois
deixou muitos projetos inacabados.
Aqui podemos ver como a ênfase dos valores pode alcançar o equilíbrio da Árvore.
Tomemos, por exemplo, os pobres escoceses que foram para a América, fizeram
uma fortuna e voltaram para casa para viverem como lordes.
Eles gastaram toda a sua energia e substância para compensar uma falta de estima
do ego.
No entanto, dentro deles mesmos eles continuavam a pensar, sentir e agir como
escoceses pobres, por atribuírem um valor tão alto à frugalidade.
Jung considerava os valores psíquicos como a base de vários complexos.
Assim, as associações de interesse agrupam-se em importantes constelações.
Temas menos concentrados têm um relacionamento tênue, pois a carga que trazem
não é suficientemente forte para afirmar qualquer força, ou por serem controlados
por um conceito ou emoção com uma catexe igualmente forte, tal como o desejo de
engravidar, acompanhado pelo temor de o fazer.
Os agrupamentos de elementos de alto valor podem ser facilmente observados, por
exemplo, na pessoa que adora montar a cavalo ou fazer negócios, buscar o prazer
ou estudar, e são igualmente aparentes nas coisas que as pessoas evitam, como o
trabalho ou a responsabilidade.
Não tão claros são aqueles complexos de alto valor, mas que não se manifestam,
mas que mesmo assim influenciam a pessoa a partir do inconsciente, na forma de
atitudes "estranhas", neurose ou psicose.
Esses valores podem ser uma fantasia oculta ou uma obsessão que somente podem
ser observadas nos sonhos, por estarem tão pesadamente disfarçadas por uma
"formação reativa" que podem assumir a forma de um sentido comum ou um
comportamento razoável excessivos.
Isso é um contrapeso inconsciente a um impulso inconsciente da psique, quando a
energia procura encontrar uma solução funcional na tecitura da Árvore.
Outro exemplo disso é o da pessoa que é excepcionalmente meticulosa.
Com freqüência, essas pessoas têm psiques caóticas que são suprimidas pelo ego,
pois elas não podem admitir o seu verdadeiro estado mental.
A energia dispendida. para conter o que é visto como uma grave ameaça interior
forma um mundo exterior altamente organizado de modo a preservar a imagem de
completo controle.
Isso muitas vezes leva ao que é conhecido como "neurastenia", ou fadiga crônica,
que só permite que a pessoa funcione em um padrão inferior de desempenho.
Essa condição, no entanto, não resolve o problema básico.
Muitas pessoas vivem nesse estado de desequilíbrio compensado durante grande
parte de suas vidas.
Tal como veremos, um grande número de coisas pode ocorrer na aparente
simplicidade da Árvore, à medida que uma camada após a outra de associações e
constelações vai ativando este ou aquele complexo ou conceito.
Essas ênfases vão, ao mesmo tempo, fortalecer e opor-se a outras, fazendo com
que algumas absorvam uma enorme quantidade de energia, enquanto outras são
dilapidadas.
No caso de extremos, como em qualquer disfunção do corpo, a psique pode
adoecer com várias formas de patologia.
Observação, dedução e intuição levaram Jung a um conceito que ele chamou de
"indicadores de complexos", que poderiam ser, por exemplo, a eloqüência ou a
reticência de uma pessoa a respeito de certos temas.
Essas coisas levaram-no a acreditar que as "leis de compensação" estavam em
ação.
Por exemplo, quando um menino chega à adolescência, transporta a sua atenção
das brincadeiras para o sexo.
Desse modo, toda a paixão id-Nefesh que ele punha no futebol irá para a estratégia
de passar a perna nos rivais e agarrar a moça.
Esse redirecionamento dos impulsos da libido e da mortido é um sinal de
equivalência, quando um conjunto de valores perde o seu poder para outro, ao
absorver e usar a totalidade do quantum de energia disponível no momento.
Esses eventos ocorrem o tempo todo, quando a psique muda de posição no
processo de crescimento e transformação.
Essa descoberta foi extremamente significativa, pois explicava como a psique se
adaptava às diferentes situações, emprestando de Pedro para pagar Paulo.
Jung também viu a equivalência em ação no relacionamento entre o consciente e o
inconsciente, no qual a energia psicológica assume uma forma Yezirática e passa
para o inconsciente para ficar adormecida ou apenas sub-repticiamente ativa, salvo
pelas fugazes passagens ocasionais através da tela Yesódica do ego, ou por uma
explosão em uma libertação catéxica como a ira ou o amor.
Também foi notado que, quando a persona usa mais que a sua quota de energia, o
ego fica debilitado.
Por exemplo, há sargentos profissionais que ficam muito dóceis quando estão em
casa sem uniforme.
Isso é igualmente verdadeiro para a jovem com uma ânima, ou pilar esquerdo,
dominante em sua psique, que cultiva urna feminilidade excessiva para atrair um
macho forte que lhe proporcione um substituto protetor para o seu pilar direito
fraco.
Um segundo princípio complementar é o da "entropia", que determina de que
maneira flui o padrão de energia.
Segundo esse princípio, o maior tende a descarregar a sua energia no menor, do
mesmo modo como a água quente perde o seu calor na água fria, em uma busca
de equilíbrio.
Nos sistemas da psique ocorrem muitos desses intercâmbios, quando vários
elementos descarregam a sua tensão para aliviá-la, como quando um sentimento
intenso é posto em um poema ou carta.
Esse processo de entropia é vital para evitar a atrofia da Árvore.
Por exemplo, valores opostos criam conflitos que precisam de soluções, o que leva
a pessoa para adiante.
A fraqueza em um complexo pode gerar uma força em outro, como o medo do
fracasso que faz com que um homem trabalhe mais.
Igualmente um arquétipo que tenha estado em proeminência durante algum tempo
deve ceder a passagem, devido à lei da entropia, ao que toma o seu lugar ou o seu
oposto.
Um exemplo disso é o do valentão que fica totalmente submisso ao ser derrotado,
quando a ênfase é invertida e o poder flui para as mãos da agora vitoriosa
ex-vítima.
Nos jovens e naqueles que não se desenvolveram totalmente, esses intercâmbios
são simples e algumas vezes dramáticos, pois a energia não é desarmada, como é
feito no caso de uma psique bem desenvolvida de uma Arvore madura.
Uma mente adulta é mais complicada devido aos controles e equilíbrios, que, no
entanto, lhe dão estabilidade.
Essas estruturas, formadas pela experiência, podem conter ou suavizar uma vaga
de prazer ou de dor, do mesmo modo que a areia absorve a força de uma explosão.
A resolução entre fluxos opostos, como o desejo de ter os privilégios da vida adulta
sem as suas responsabilidades, é um dos processos de amadurecimento da Árvore
psicológica, que vai preenchendo-se e diferenciando-se em um veículo mais sutil
para uso do indivíduo.
A entropia dirige a energia recebida para onde seja necessário, enquanto a
equivalência mantém a sua potência quando a energia é gasta ou assume novas
formas na psique.
Aqui vemos a interação dos lados ativo e passivo da Árvore, pois os Sefirot,
caminhos e tríades agem em pares, para cima e para baixo e de lado a lado.
Um exemplo dessas complexas operações é que Gevurah pode complementar
qualquer coisa na Árvore que esteja relacionada a ele.
O Tiferet pode funcionar como um parceiro, assim como Binah, ou Hod, ou Hesed, o
que significa que cada princípio pode fazer várias combinações.
Esse processo é vital quando se está trabalhando em um problema a partir de
vários ângulos e níveis.
As tríades também estão sujeitas à lei da entropia, assim como as faces superior e
inferior, o Si-mesmo e o ego e o ego é o corpo.
Também estão sujeitos à mesma lei o consciente e o inconsciente, e as dimensões
da Alma e do Espírito.
Todas essas e muitas outras combinações possíves revelam a ampla variedade de
movimentos na psique.
Entretanto, tudo isso envolve outro grande processo de que nos fala Jung, o da
síntese.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 45

Síntese
Jung, assim como muitos outros psicólogos, observou um princípio polar em ação
em toda a psique.
Este princípio manifesta-se em reciprocidades, como o ânimus e a ânima, ou em
oposições, como a resistência do ego ao impulso da mortido.
Esses pares também operam em sistemas mais complexos e maiores.
Por exemplo, as funções psicológicas do pensamento, do sentimento, sentidos e
intuição agem em combinações aos pares de introversão e extroversão em torno do
Yesod, enquanto a consciência ativa do ego é polarizada com o inconsciente, que se
torna o parceiro ativo durante o sono.
Os pilares laterais são o par mais facilmente identificável, pois assumem a força
masculina e a forma feminina nos indivíduos.
É interessante notar que o papel dos pilares é invertido algumas vezes, em uma
briga entre um homem e uma mulher, quando uma rusga aumenta até tornar-se
um confronto entre o ânimus da mulher e a ânima do homem.
Esse tipo de polarização ocorre quando diferentes impulsos, desejos e ideais se
contradizem, e formam um nó entre dois aspectos da Árvore que não pode ser
desatado.
Essa situação tem suas raízes, muitas vezes, em algum bloqueio no fluxo
psicológico, ou em uma perda de controle.
Isso pode ir desde um Gevurah-Hesed obcecado com a injustiça, como se encontra
em muitos dissidentes, até um Hod e Nezah defeituoso que busca dar uma
expressão totalmente hedonista a todos os seus impulsos.
Felizmente, há processos que eventualmente superam esses problemas na maioria
das pessoas, à medida que elas amadurecem psicologicamente.
Jung chamou isso de "progressão".
O termo foi usado para descrever como a psique está continuamente em estado de
mudança, embora possa já ter alcançado um nível ótimo de desenvolvimento, de
maneira que até mesmo um santo tem que processar o que a vida apresenta e
adaptar-se a condições que não param de mudar.
Isso significa, por exemplo, que há um incessante processo de ajustamento, que
traz à baila diferentes funções.
Por exemplo, em um determinado momento a função da ação pode ser
predominante, empurrando a sua contraparte da intuição para o segundo plano.
Em outro, quando a ação não pudesse agüentar, a intuição sairia de seu papel
inconsciente para compensar o que a tríade dos sentidos não pudesse fazer.
Um exemplo disso é o do montanhista em pânico.
Todas as suas ferramentas são inúteis nesse estado de mente, até que
repentinamente a sua intuição, fazendo apelo a toda a experiência armazenada no
inconsciente, faz com que ele se lembre de uma disciplina espiritual que pode
acalmá-lo.
Essa é a técnica mais importante para tirá-lo da enrascada.
O tipo de crise descrito acima, quando a pessoa se encontra sem nenhum
procedimento para lidar com uma nova situação, ocorre quando todos os padrões
conhecidos são redundantes, deixando o indivíduo perplexo e, muitas vezes, em
uma posição totalmente instável.
É nesse momento que o processo de síntese começa a operar sem ambigüidades.
Tais acontecimentos podem dar-se no surgimento da puberdade, quando um
conjunto juvenil de idéias e emoções é descarregado em um sistema adolescente
de interesses.
Vem disso todo o drama do conflito com a autoridade dos pais, e o estabelecimento
e rompimento de relações com companheiros de ambos os sexos.
Com sorte, surge uma nova pessoa, em forma corporal e atitude mental, que pode
enfrentar a situação.
Esse período traumático é mais que um simples intercâmbio de equivalência.
É uma reorientação fundamental no uso do tempo e da energia que dissolve todo
um modo de vida, quando a psique em processo de amadurecimento assume um
novo tipo de equilíbrio.
Alguns passaram por essa crise mas não a sintetizaram, o que significa que, muitas
vezes, continuam a considerar seus parceiros sexuais como substitutos dos pais, ou
meras pessoas com que se brinca, por divertimento ou excitação.
Como resultado, esses indivíduos com freqüência sofrem muito, por não poderem
relacionar-se como adultos.
Felizmente, o princípio da progressão leva-nos para adiante, queiramos ou não, e a
vida costuma oferecer a solução na forma de algum encontro fatal com a pessoa
justa, embora essa justeza possa não ser aparente até mais tarde, pois pode ser o
martelo que quebra a casca.
Para complementar a progressão está a "regressão".
Aqui também Jung usou o termo com um significado especial.
A progressão, para ele, era a adição de energia a um elemento psicológico, de
maneira que este é nutrido e mantido, enquanto a regressão retira energia de um
dado sistema ou função, subtraindo-lhe vitalidade.
Desse modo, um adolescente já não lê histórias em quadrinhos, nem se interessa
por jogos infantis, por começar a interessar-se por outras coisas.
Todas as sutis habilidades e a graça da infância desaparecem quando o indivíduo
enfrenta uma imagem Yesódica em dramática alteração.
Pensamentos, sentimentos e ações desconhecidos, que muitas vezes são
inicialmente expressos em maneiras grosseiras e desajeitadas, são experimentados
quando a regressão leva a pessoa de volta ao aprendizado da manipulação do
próprio corpo e mente.
Jung observou que muitos velhos problemas desaparecem durante esses períodos
de transição.
Isso parecia ser devido à perda de poder em elementos opostos, quando uma nova
ordem absorvia a energia.
Por exemplo, meninas amolecadas beligerantes tornam-se com freqüência
adoráveis namoradas.
Além disso, notou ele, isso se aplica não somente às mulheres no processo de
amadurecimento, mas também a situações psicológicas que não podem ser
resolvidas por interesses opostos.
Por exemplo, uma mulher que odeia o trabalho que faz, mas se preocupa com a
idéia de perder a segurança financeira, pode ficar doente, e desse modo obter uma
licença remunerada.
Essa é uma solução inconsciente, que pode dar-lhe tempo para procurar um novo
emprego.
Ou então, vejamos o caso de um homem em um casamento insatisfatório.
Ele pode começar a sair com outras mulheres, de maneira a ser posto para fora de
casa, o que talvez resolvesse o problema.
Nos dois casos, uma resposta regressiva leva a pessoa a uma crise, que os força a
romper uma situação com a qual não conseguiam lidar conscientemente.
Uma fase de regressão não é incomum logo antes da passagem a um novo estágio
de desenvolvimento.
Entretanto, é muitas vezes um preço pesado a pagar pelo desenvolvimento.
Cabalisticamente, a progressão e a regressão são a oscilação da Árvore em geral,
ou de uma determinada parte dela.
Estruturas e padrões de energia são reunidos para desempenhar uma determinada
tarefa e, uma vez realizada a tarefa, a configuração começa a dissolver-se.
Essa fase interina é quando a Árvore está em equilíbrio momentâneo.
Isso é percebido como uma certa quietude psicológica, em que a pessoa parece
calma ou até mesmo indiferente por um breve momento, ou como um estado de
aparente desequilíbrio, quando se instala um pânico ou um profundo sentimento de
insegurança.
Isso continua até que os Sefirot e tríades comecem a trabalhar novamente, e a
pessoa é mais uma vez envolvida na ação.
Por exemplo, o homem com um Gevurah excessivo é freqüentemente criticado
severamente pelos outros.
Isso pode chegar a um ponto em que ele não tem mais certeza do que é o
discernimento ou o julgamento.
Contudo, dessa reação pode nascer uma maior tolerância, gerada pela virada a
partir de uma pausa momentânea no Si-mesmo na coluna central em direção à
compaixão de Hesed.
Isso nos leva à noção de que a resolução de opostos é mais que uma mera
exaustão em uma guerra de atrito, ou apenas a mudança de ênfase para outro
sistema.
É a intervenção daquilo que algumas tradições espirituais chamam de "terceria
força”, ou Graça.
Em todos os sistemas esotéricos existe o princípio da Trindade.
Nos ensinamentos védicos, ela é chamada de Rajas, Tansas e Sattva, e
corresponde aos princípios ativo, passivo e condicionante do sistema de Gurdjieff,
que por sua vez estão relacionados com o Yang, o Yin e o invisível Tao reconciliador
do misticismo chinês.
Na cabala, os três são às vezes chamados de Zahzahot, ou Esplendores Ocultos,
que geram as três colunas da Árvore da Vida.
A interação desses três fatores foi o tema de muitos estudos metafísicos, pois as
suas várias combinações podem ser multiplicadas e subdivididas em uma
complexidade cada vez maior, à medida que abrem caminho para baixo através dos
quatro mundos.
Para o nosso propósito, é suficiente reconhecer que qualquer novo evento só ocorre
quando os três princípios são unidos.
Quando somente dois estão envolvidos, não acontece nada de novo, posto que eles
simplesmente se opõem ou se acomodam um ao outro, mas quando um terceiro
elemento é introduzido, o foco muda de posição e alguma coisa de totalmente
original acontece.
O exemplo mais óbvio é o das relações íntimas.
Duas pessoas podem encontrar-se sem se relacionarem necessariamente.
Contudo, se houver uma terceira força, como o interesse comum, uma situação
totalmente nova pode surgir.
Não basta simplesmente pôr um homem e uma mulher em contato.
Tem que haver essa terceira força para que eles possam apaixonar-se.
Pode ser sexo, temperamento ou carma.
Pode ser qualquer coisa que una o masculino e o feminino (ou o ativo e o passivo)
neles, embora eles possam inverter ou trocar periodicamente os papéis positivos e
negativos.
Estes são vistos na cabala com funções, sendo o terceiro fator, ou central, a
consciência, que pode agir como uma catalisador mesmo em um nível oculto.
O mesmo princípio é encontrado na psique.
Em um dado período, uma relação recíproca entre um par de elementos pode ser
necessária para manter a estabilidade do ego, por exemplo, mas chega um
momento em que essa situação impede um importante ajuste, tal como uma
mudança de atitude que pode salvar um casamento ou um emprego.
Nesse momento a terceira força, qualquer que ela seja, incentiva a pessoa a agir ou
pensar de outra maneira.
Por exemplo, um homem pode ficar de repente notavelmente interessado em seu
trabalho se for ameaçado de ser despedido, e a descoberta de uma amante já fez
com que muitas esposas reavaliassem maridos negligenciados.
Esse terceiro fator muitas vezes não é notado, seja porque é um elemento
inconsciente, seja porque é tão remoto que permanece oculto, mas mesmo assim
poderoso.
Um exemplo disso foi o sonho surpreendente que fez com que uma mulher
emigrasse.
Algumas vezes a intervenção é direta, como no caso da mulher que não conseguia
decidir-se.
Um dia ela repentinamente decidiu casar-se, quando se deu conta de que só ficava
feliz com aquele pretendente que ela sempre rejeitava.
O Si-mesmo tinha-lhe mostrado isso em um momento de compreensão, que
galvanizou o ego e soltou-o das amarras dos pilares laterais, que estavam
emperrados em um conflito.
A progressão, regressão e depois síntese é um processo contínuo que tem lugar na
psique.
Ele continua dia após dia, em todos os níveis.
Em qualquer que seja o momento, há algo que se está dissolvendo e, às vezes,
resolvendo.
Se isso não acontecesse, não aprenderíamos nada, e não cresceríamos.
A loucura é um estado em que demasiadas funções e reciprocidades ficam
emaranhadas na Arvore.
Nessa situação não existe movimento, exceto para repetir uma série de curtos-
circuitos que, algumas vezes, queimam qualquer possibilidade de mudança.
Quando isso acontece, a psique torna-se uma coleção de elementos cindidos que
não conseguem reagir ao princípio unificador corporificado em Tiferet.
Na psique saudável, os controles e equilíbrios são firmes mas flexíveis, de modo a
poderem acomodar os diversos mecanismos psicológicos e auxiliar o processo de
crescimento interno.
Os períodos vazios que todos nós experimentamos de tempos em tempos são a
maneira que a psique tem de fazer-nos parar, enquanto sintetizamos o passado e
preparamos o futuro.
Jung aconselhava as pessoas a tirarem uma folga para fazer exatamente isso,
permitindo assim que o que quer que necessitasse mudar o seu centro de
gravidade tivesse o espaço necessário para fazê-lo.
Na cabala, o ciclo cotidiano de a pessoa lembrar-se de quem é, onde está e QUEM
mais está presente foi designado para facilitar essas mudanças quando ela está no
Caminho do Senhor.
Esse caminho, contudo, não é fácil, pois a pessoa é assediada não apenas pelos
guinchos e rangidos dos processos interiores que foram descritos, como também
pelos deuses e demônios que habitam o mundo Yezirático da psique.
Esse é um terreno que poucos psicólogos admitem existir fora da imaginação, mas
todas as tradições esotéricas reconhecem a possibilidade de intromissão e
possessão, e a levam em consideração.
Foi nesse ponto que Freud traçou o seu limite em sua rejeição do oculto.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 46

Possessão
Os mundos superiores da Existência são considerados como diferentes tipos de
realidade de direito próprio.
Muitos místicos descreveram com grande detalhe a sua topografia e dinâmica.
As tradições esotéricas do Tibete e do México, assim como da Europa, do Oriente
Médio e da índia, compartilham de visões similares desses reinos superiores, que
indica que eles são um fenômeno objetivo.
Jung encontrou relatos semelhantes desses Mundos não-físicos tanto na mitologia
de culturas muito diversas quanto nos sonhos e visões de muitas pessoas.
Na cabala, aceita-se a realidade desses Mundos.
Contudo, aquilo que nos interessa particularmente são as muitas observações de
seus habitantes, que são chamados de Malakim e Sheddim, ou anjos e demônios.
Se consideramos que a psique é um organismo Yezirático, devemos diferenciar
entre o que é subjetivo e o que é objetivo.
O objetivo é o que reside no inconsciente coletivo e é comum a toda a humanidade.
Os elementos subjetivos são todas aquelas coisas que passaram pelo ego de um
indivíduo para serem armazenadas no inconsciente da pessoa.
Por esse motivo, essas memórias têm um aroma muito subjetivo, de acordo com o
tipo psicológico da pessoa, o seu estágio de desenvolvimento e a maneira como ela
aceita ou rejeita as experiências por que passa.
O elemento coletivo é completamente diferente, no sentido de que está a uma
profundidade grande demais para ser influenciado pelo nível do ego.
Um exemplo disso é a crença universal nos espíritos da natureza, que podem ser
conhecidos por mil diferentes nomes em todo o mundo.
O fato de que as pessoas supostamente educadas não acreditam neles não faz com
que desapareçam.
Essa divisão da psique em áreas subjetivas e objetivas é crucial, pois explica muitas
coisas que os psicólogos consideram perturbadoras por não conseguirem ir além da
própria visão mecanicista da psique.
Jung via o aspecto objetivo da psique como o reino dos arquétipos.
Alguns deles eram de escala cósmica, outros mais psicológicos.
Essa era a diferença entre os níveis coletivo e pessoal.
Ele também percebeu que, além dos elementos simbólicos, havia muitos arquétipos
menores que eram entidades de direito próprio.
Alguns deles relacionavam-se aos elementos cindidos da psique de uma pessoa, e
outros não.
Na psique normal, que esteja relativamente equilibrada, os arquétipos têm um
papel remoto na vida do indivíduo.
O padrão de um caso amoroso que se transforma em corte e segue em direção a
um casamento, é uma progressão natural de arquétipos em ação.
Cada parceiro é estimulado a dar a resposta recíproca ao outro, à medida que a
ânima e o ânimus vão passando pelos vários estágios de reação e fusão física e
depois psicológica, antes que ambos ingressem no arquétipo universal da união
matrimonial.
Na maioria dos casos os arquétipos agem através do inconsciente pessoal, e cada
uma das partes sente-se apanhada por algo muito maior que os dois, o que é
verdade.
A escolha, contudo, nunca se perde, e muitos noivos em perspectiva recuaram do
processo aparentemente inevitável antes que se completasse.
As razões podem ser reais ou fantasiosas, mas o indivíduo tem o poder de aceitar
ou negar-se a continuar, escolha que um indivíduo possuído por um arquétipo não
tem.
Essas pessoas são regidas por um princípio, que pode ser uma preocupação com
dinheiro ou com a mãe, uma identificação total com seu emprego ou a idéia de que
se é Átila o Huno.
Nesse caso, não existe possibilidade de escolha.
Elas "são" essa preocupação — tanto que com freqüência perdem a vulnerabilidade
do resto da humanidade, e tornam-se como expressões de sua idéia ou paixão
dominante, como Napoleão, que se tornou uma caricatura de si mesmo como
Imperador dos Franceses.
O mesmo pode ocorrer a um coletor de impostos que se identifica tanto com sua
tarefa que deixa a Inquisição espanhola no chinelo.
Esse tipo de possessão já foi mencionado, mas vamos agora examiná-la desde um
ponto de vista ligeiramente diferente, de maneira a vermos que nem sempre é
apenas um defeito da psique, mas alguma coisa de intrusa e alienígena.
Jung via muitos dos deuses da mitologia como projeções de arquétipos na psique.
A cabala, contudo, vai mais longe, e afirma que os Mundos superiores não apenas
contêm princípios simbolizados em ação como também possuem entidades
objetivas que vivem suas vidas como nós, mas em realidades diferentes.
Há referências a eles em muitos textos, como bons e maus espíritos.
A idéia de que essas criaturas existem era bastante comum no Ocidente até a
Revolução Industrial.
Recentemente, tem havido um interesse renovado por tais coisas, talvez como uma
reação contra a tecnologia.
A cabala via esses habitantes dos Mundos superiores como criaturas que cuidam de
seus afazeres, do mesmo modo que as pessoas e os animais do Mundo físico.
Contudo, além dos duendes e fadas, como algumas pessoas os vêem, existem
entidades humanas que não têm corpos.
Isso pode ser devido ao fato de terem falecido recentemente, ou por não
conseguirem abandonar o nível inferior de Yezirah.
A razão para isso pode ser que eles não aceitam o fato de estarem mortos, ou
preferem ficar entre os mundos, com a esperança de encontrar um novo corpo sem
ter que passar pelos processos post-mortem e pré-natal.
Uns poucos, diz a tradição, ficam vagando à procura de alguém vivo a quem ligar-
se.
Estes são conhecidos como dibukim, que procuram apossar-se de psiques fracas ou
desequilibradas, para manter um contato com a vida na Terra.
Os psiquiatras chamam o fenômeno de duas ou mais identidades em um só corpo
de "múltipla personalidade".
Esse pode ser o caso de certos indivíduos com psiques fragmentadas, mas nem
sempre.
Algumas vezes, o que toma conta da psique não é somente a sua Sombra, nem
mesmo um arquétipo reconhecível, como a sedutora ou o avarento, mas um
caráter distinto com qualidades decididamente diferentes das do paciente.
Um exemplo disso é o do homem que desapareceu de casa por muitos meses e foi
encontrado a uma grande distância de sua cidade com outro nome, depois de ter
começado um modo de vida completamente novo.
Então, de repente, ele "acordou", tomou posse de si mesmo novamente e voltou
para a casa de onde vieira.
Não se tratava de um episódio psicótico qualquer, pois ele parecia ser
completamente normal em ambas as personalidades.
Desde um ponto de vista científico, a idéia de uma entidade desencarnada que
entra na psique e a domina é medieval.
Aqui temos uma reação subjetiva moderna em confronto com o que não está
contido no paradigma do momento.
Quando a Idade da Razão destruiu a antiga imagem de um Universo de muitos
níveis em interação, a idéia dos Mundos superiores perdeu-se de vista.
Felizmente, aqueles que são como Jung, que não têm a mente fechada a essas
dimensões, vêem além do físico e abrem a mente ocidental para a Dimensão
Universal novamente.
Muitos dos que continuaram a sua obra começaram a dar-se conta de que o que os
antigos diziam não estava longe da verdade.
De fato, Jung viu muitos desses fenômenos, dos quais se fala na cabala e na
alquimia, manifestarem-se no consultório ou no hospital psiquiátrico, de modo que
a noção de entidades e possessão não é mais considerada mera imaginação.
De fato, um médico muito respeitado confessou, em particular, estar plenamente
consciente de que entidades benignas o ajudavam em seu trabalho.
Nem todas as entidades são sinistras.
Voltando ao tema dos deuses e demônios, a cabala diz que cada indivíduo tem um
anjo em um ombro e um demônio no outro, instando a pessoa a seguir os seus
bons ou maus conselhos.
A idéia de que a Árvore tem seu lado de Sombras é perfeitamente compatível com
a noção de que qualquer Sefirah, tríade ou caminho pode ficar defeituoso e ter um
efeito negativo ou demoníaco.
Isso é observado no guerreiro com um Gevurah atormentado, ou no trapaceiro
inescrupuloso de Hod, que não consegue senão enganar, e no advogado opressor
de Binah, que é visto no juiz enforcador.
Demônios menos espetaculares assumem a forma de certas atitudes que sempre
condenam ou negam tanto a própria pessoa quanto os demais, ou como idéias ou
experiências emocionais que bloqueiam a compreensão.
Da mesma maneira, complexos distorcidos podem perturbar constelações
harmoniosas de conceitos, de modo que ocorre uma batalha interna na psique
entre os anjos e os demônios.
O problema dos demônios que infestam a psique não está confinado apenas aos
perturbados ou loucos; ele tem um significado especial para aqueles que desejam
desenvolver-se mais internamente e começam a ir mais além do lugar de Tiferet
onde está o Si-mesmo, pois surge um movimento contrário para os deter.
Isso foi chamado por um sábio de "Levantar do Mal".
Já falamos da Sombra, do demônio e do princípio Luciférico, mas o que vemos
agora é peculiar à pessoa que estabeleceu um contato com o Si-mesmo em Tiferet.
Nesse momento o sentido de realização adquirido atrai o Tentador, que algumas
vezes oferece grandes benefícios em termos aparentemente bastante razoáveis.
Isso acontece, em geral, quando menos se espera.
Satã cria uma situação externa ou interna na qual todo o lado sombrio da psique é
encorajado a solapar e ao mesmo tempo explorar todo o resultado de anos de
trabalho.
Isso pode ser a crença de que a iluminação torna a pessoa especial, ou que a
habilidade para ver o que os outros não vêem a faz superior.
Muitas pessoas que estavam no Caminho foram possuídas pelo sentimento de
importância de Si-mesmo, e não poucos caíram por terem sido seduzidos por seu
próprio carisma.
Aqui devemos lembrar que, segundo a cabala, o Si-mesmo tem três componentes
distintos.
Se o Keter do corpo ou o Tiferet da psique e o Malkhut do Espírito forem separados
(e isso pode acontecer propositadamente ou por negligência), essa cisão pode
permitir que qualquer dos três arquétipos se aposse da pessoa.
É por isso que o louco inteligente muitas vezes tem um rosto tão notável, como
uma personagem bíblica.
Ele está em Tiferet, mas sem conexão entre o Céu e a Terra.
Seus delírios de grandeza estão centrados no reino arquetípico de Yezirah, que está
cheio de tudo o que podem imaginar uma mente possuída por Si-mesmo.
Posto que não está sujeito às leis espirituais de Beriah, nem sob as restrições da
realidade Assyática, ele vive, meio descorporificado, em uma embriagada
beatitude, ou agonia, entre os Mundos.
Satã, o Tentador, opõe-se ao Si-mesmo para evitar que qualquer pessoa
desequilibrada ou sem valor siga em frente, pois além desse ponto está tudo aquilo
que as tradições chamam de "Caminho".
Na cabala, ele vai desde o Si-mesmo até o lugar onde se encontram os três Mundos
superiores.
Como já dissemos, foi dada a esse caminho a letra hebraica Het, que quer dizer
"Veneração".
É nesse ponto que o processo que Jung chamou de "individuação" assume uma
nova dimensão, ao unificar os três aspectos do Si-mesmo e ingressar no Reino
Espiritual de Beriah.
Examinemos com mais detalhes a individuação.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 47

Individuação
De acordo com Jung, a pessoa começa a vida em uma condição de plenitude
indiferenciada.
Assim como a semente traz dentro de si o carvalho em potencial, o indivíduo tem
todos os elementos que serão o seu ser maduro, inclusive traços de suas antigas
origens.
Jung reconhecia os efeitos do meio e a influência dos pais sobre a criança, pois o
estado e o relacionamento psicológico deles eram transmitidos a ela juntamente
com as tendências culturais e genéticas.
Ele chegou até mesmo a dizer que os sonhos das crianças nem sempre eram delas
mesmas, pois elas estavam na órbita psíquica dos pais, e funcionavam às vezes
como seus espelhos.
Isso deixava a sua marca na psique da criança antes que ela desenvolvesse uma
identidade separada.
Cabalisticamente, Jung percebeu o embrião do organismo Yezirático no nascimento,
que então começava a crescer e a desenvolver-se de acordo com as várias forças
em ação sobre ele.
O interesse de Jung pela astrologia conduziu-o, sem dúvida, a levar em
consideração as tendências fatais da psique, que normalmente não se tornam
aparentes por muitos anos.
Diferenciar quer dizer desenvolver e refinar, de modo que o que está em potencial
atinja a sua máxima manifestação e função.
Um exemplo disso é o processo de gestação.
Nele, a semente fertilizada se divide, multiplica e especializa, de maneira que,
quando o corpo alcança a sua plena maturidade, cada célula está em seu lugar,
desempenhando uma tarefa específica em relação ao todo.
Exatamente o mesmo se dá com a psique.
A diferença é que o processo de desenvolvimento a partir de um estado primitivo
para um sofisticado está em uma realidade mais sutil.
Jung reconhecia cinco fases distintas de expansão.
Infância, juventude, jovem vida adulta, meia-idade e velhice.
Isto é, o Hod Mercuriano, o Nezah Venusiano, o Gevurah Marciano, o Hesed
Jupiteriano e o Binah Saturnino.
A época Lunar de Yesod, quando o ego está emergindo, está incluída no período da
infância, pois Jung sentia que os pais agiam pelo ego até que a criança
desenvolvesse uma memória coesa.
Até chegar a esse estágio, a criança opera no campo dos pais, e os seus impulsos
são contidos e dirigidos por eles.
Quando o padrão dos pais e a habilidade para perceber e reagir ao meio começa a
se estabelecer, ocorre a primeira diferenciação entre a criança e o mundo exterior.
Disso surge um "Eu" primitivo, que se transforma no núcleo do ego.
Dessa maneira o Yesod da psique, juntamente com as suas tríades adjacentes,
começa a operar, e os pensamentos, sentimentos e ações são acionados na face
inferior da Árvore.
Mais adiante as quatro funções dos "sentidos", "pensamento", "intuição" e
"sentimento" começam a separar-se, embora inicialmente em uma forma muito
primitiva.
Essa é a primeira fase da diferenciação.
Os vários estágios do desenvolvimento, como ir para a escola, formar
relacionamentos fora da família e conhecer o mundo lá fora, enchem a psique de
experiência.
Esta, como já vimos, também passam por um processo de diferenciação em
diversos complexos e conceitos que se agrupam em torno dos arquétipos, criando
uma elaborada rede que fica suspensa sobre os pilares.
Na puberdade, observou Jung, um fator totalmente novo aparece.
Ele o chamava de "nascimento psíquico" — o que corresponde quase exatamente à
noção esotérica de que os três organismos do corpo, da psique e do espírito se
ajustam e se integram em um novo arranjo em certos pontos, como a puberdade.
Esse influxo repentino de energia na adolescência não é apenas a libertação de
mais energia hormonal, mas um aumento da influência da psique sobre o físico.
Os elos entre o corpo e a mente fundem-se mais eficientemente quando o Binah e
o Hokhmah do corpo se ligam plenamente ao Hod e ao Nezah da psique, e a pessoa
aprofunda o seu estado de encarnação.
Esse processo de desenvolvimento age tanto para baixo quanto para cima, à
medida que o Yesod da psique e o Daat do corpo, ao se integrarem mais
plenamente, vão ficando ativos, quando a criança sai do estado sexualmente
latente para tornar-se pubescente e ainda mais envolvida com a vida como uma
entidade independente.
O estágio seguinte da individuação chega quando o adolescente começa a
afastar-se do ambiente dos pais, rejeitando os costumes familiares de maneira a
estabelecer uma identidade pessoal.
Isso representa uma mudança do lado estrutural da Árvore para o dinâmico — ou
seja, de Hod para Nezah.
Quanto mais poderosas as restrições paternas, maior a resistência, quando o jovem
procura encontrar a individualidade.
Aqueles que não são fortes o bastante para romper realmente com o ambiente
familiar rebelam-se internamente, muitas vezes nutrindo um profundo
ressentimento por estarem sendo impedidos de crescer, isto é, de passar de Nezah
a Tiferet.
Essa parada no processo de individuação está na raiz de muitas desordens
psicossomáticas e psicológicas.
A solteirona azeda, que fica em casa e toma conta do pai ou da mãe de idade que
ela odeia enquanto aparenta não ligar para isso, é um caso clássico de alguém
preso ao pilar esquerdo do Rigor.
Entretanto, aqueles que se afastam em demasia do que foi a proteção dos pais
podem ir longe demais, para o outro pilar da paixão e do amor.
A ex-aluna de colégio de freiras pode ter um caso de amor proibido, assim como se
conhecem casos de ex-estudantes rabínicos que se tornam muçulmanos ou se
vestem como árabes palestinos.
Todas essas tramas, e muitas outras similares, são tentativas de libertar o
indivíduo do poder do superego ideal.
Esse processo inicialmente inconsciente de tentativa de alcançar o Si-mesmo na
coluna central necessita de muito mais que a simples saída de casa, ou o mero
rompimento dos códigos tribais.
Muitos jovens renegados viram-se repentinamente em alguma praia longínqua e
estranha, lutando contra os pais em sua própria psique, por estarem ainda
dominados pelas funções dos pilares laterais.
Muitos são derrotados e voltam a ser aquilo que a sociedade em que vivem
considera como um membro ideal.
Para a maioria das pessoas, isso seria correto, pois elas ainda não passaram do
Yesod para o Tiferet.
Um exemplo disso são os dois colegas de escola que continuaram a ser amigos
inseparáveis, apesar de um deles ter ficado milionário e ser o prefeito da cidade e o
outro ser um leiteiro, exatamente com o pai.
Ambos estavam ainda sob a influência do próprio superego ideal, apesar das
diferenças sociais.
Devemos lembrar que, na cabala, existem vários níveis de humanidade.
O primeiro é o Malkhutiano, ou pessoa elementar, que só valoriza o que é material.
Essas pessoas identificam-se de tal modo com suas posses que apenas a riqueza as
distingue.
O segundo é o nível vegetal ou Yesódico.
Essas pessoas vêem a sobrevivência e o conforto físico como a sua principal
prioridade.
Não buscam a individualidade, mas procuram a segurança em uma sociedade
conformista.
A sua identidade está em ser um membro firme do sindicato, ou um executivo com
muitos anos de serviço em uma companhia, com a aposentadoria garantida.
Esse tipo não luta por promoções, pois não está disposto a correr os riscos que
correm os indivíduos do nível animal para conseguirem ser os primeiros.
As pessoas do nível animal, contudo, que se relacionam com a tríade de
Hod-Nezah-Tiferet, estão tentando ser diferentes, mesmo que essa diferença seja
apenas estar à frente da multidão.
Isso dá a elas uma certa individualidade, que têm as pessoas de mente
independente.
No entanto, para alguns isso não é suficiente, pois eles enxergam através da ilusão
de uma imagem terrena ou do ídolo da autoestima.
As pessoas que iam a Jung para tratamento eram, com freqüência, desse tipo.
Elas sentiam que mais coisas estavam por chegar, como resultado do trabalho da
tríade do Despertar, que as erguia até o Tiferet e lhes dava uma visão do
Si-mesmo.
Muitas pessoas chegam, nesse momento, à metade da vida, que segundo a
tradição é o momento certo para começar a estudar a cabala.
Isso é porque a pessoa alcançou a plena maturidade e resolveu os problemas e
crises que têm as pessoas comuns.
Existem aqueles que tentam chegar a esse ponto mais cedo na vida, mas com
freqüência essa não passa de uma tentativa de escapar da realidade e das lições da
Sina, evitando assim as responsabilidades do próprio carma.
Freqüentemente essas pessoas retiram-se para um tipo qualquer de reclusão
introspectiva, em que oram e pensam sobre o que deveriam estar fazendo.
Isso nem sempre tem o efeito desejado, pois, na maior parte dos casos, elas caem
no devaneio ou na fantasia, o que é uma forma de regressão infantil.
A individuação exige que se enfrente e se domine os mundos interior e exterior, e,
de fato. os velhos cabalistas não treinam indivíduos que não possam se sustentar,
tanto interna quanto externamente.
É este o raciocínio que está por trás do princípio de não se estudar a cabala antes
de alcançar a maturidade.
O mesmo se aplica à análise avançada, que está mais preocupada com o
desenvolvimento do que com a cura.
A individuação, tal como Jung a via, é a diferenciação gradual das várias partes da
psique, de maneira a harmonizá-las com o todo.
Cabalisticamente, o nível corporal de Malkhut é o primeiro a atingir a maturidade, à
medida que as várias tríades do pensamento, do sentimento e da ação vão-se
desenvolvendo em relação ao ego e ao mundo exterior.
Depois disso, as quatro funções psicológicas são trazidas à existência, completando
a face inferior da psique, enquanto o inconsciente absorve e diferencia a
experiência pessoal e coletiva.
A seguir, o ego Yesódico deixa de ser um mordomo dominador e transforma-se em
um valete obediente e útil, a partir do momento em que o mestre em Tiferet surge
nos sonhos e através dos pensamentos, dos sentimentos e das ações para guiar o
indivíduo que tem capacidade de escutar a voz do Si-mesmo.
Nesse ponto deve ser dito que esse processo não é uma passagem suave.
A jornada está cheia de tempestades e entremeada de calmarias, recifes,
redemoinhos e monstros, além de piratas que procuram saquear o navio da psique,
escravizar a tripulação e matar o capitão.
O livro Pilgrirn's progress percorre o mesmo trajeto em terra, do mesmo modo
como a história de Cinderela e muitos outros mitos sobre a individuação.
A meta da individuação é encontrar uma maneira cada vez melhor de expressar o
Si-mesmo, mediante as muitas habilidades e artes aprendidas com a experiência ao
longo da jornada.
Isso requer uma grande vigilância e uma profunda integridade, pois é possível
naufragar a qualquer momento.
Alguns, por exemplo, ao descobrirem que são de fato indivíduos, acreditam poder
fazer o que querem, pois estão acima das leis que governam a maioria da
humanidade.
Muitas pessoas altamente individuadas sucumbiram a essa tentação, e ficaram
abandonados na ilha deserta da loucura ou da desgraça.
Isso pode ir desde um incidente menor que elas desejariam esquecer, como uma
má conduta sem importância, ao aprisionamento físico ou psicológico que acaba
com toda a credibilidade.
O famoso mago Aliester Crowley, que disse "faz o que tiveres vontade", pagou por
isso, como também Oscar Wilde, que afrontou o código sexual da sua sociedade.
Essas duas pessoas talentosas e altamente individuadas caíram no ápice de seus
poderes, e morreram em objeta pobreza.
A individuação significa viver-se a própria Sina em um nível mais alto e profundo,
de maneira que se possa encontrar o próprio destino e descobrir o próprio lugar no
Grande Projeto.
Examinemos isso mais de perto, para que possamos ver o padrão por trás da
individuação.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 48

Padrão
A Sina é um padrão de desenvolvimento, que é estabelecido no nascimento e
baseado no carma, que por sua vez é formado pelas outras encarnações por que
passou o indivíduo.
Essa cadeia de corporificações segue uma linha clara, chamada de "destino", que se
ocupa do propósito de uma entidade humana determinada e com o lugar desta na
Existência.
Desse modo, o indivíduo e o seu meio têm um relacionamento específico um com o
outro.
Ninguém nasce em um lugar ou momento qualquer, ao acaso.
O livre-arbítrio, todavia, permite a modificação pessoal, e assim um indivíduo pode
progredir ou regredir de vida a vida, ou permanecer por um tempo estagnado, até
que o fluxo cósmico o incite a seguir adiante.
Cada Sina, de acordo com a tradição esotérica, é concebida para proporcionar o
máximo de oportunidades de crescimento, à medida que a pessoa vai passando
pelos vários estágios físicos e psicológicos de desenvolvimento.
Isso possibilita muitas combinações de situações, pois não há duas pessoas no
mesmo estágio de desenvolvimento.
Algumas estarão bem colocadas, enquanto outras estarão em aparente
desvantagem.
O aleijado com profunda compreensão, o surfista sem cérebro, a menina pobre
extraordinariamente bonita e de grande inteligência e o aristocrata privilegiado sem
nenhuma não são acidentes.
Cada um está exatamente onde deveria estar para encontrar as circunstâncias
exatamente certas e as pessoas que ajudem a corrigir os desequilíbrios e a seguir
adiante na jornada do destino.
Como foi dito, a cada um de nós é mostrado o esboço geral da nossa vida, logo
antes do nascimento.
A memória disso costuma perder-se para a inconsciência logo depois que
nascemos, mas algumas pessoas retêm um traço dela, que pode ser evocado
quando encontram uma pessoa ou lugar que têm a certeza de ter visto antes,
embora não saibam onde.
Os sonhos, às vezes, dão acesso a esse programa interno, e algumas vezes o que
está por vir é-nos mostrado em vislumbres premonitórios.
Esse padrão, enterrado em nosso inconsciente, não é muito diferente de um mapa
natal interior, pois descreve o caminho e a configuração geral de uma determinada
vida.
Alguns psicólogos argumentariam que se trata de um padrão rígido e pré-ordenado,
mas o cabalista o vê como algo que está localizado entre os pólos da rigidez e da
liberdade total.
Tomemos, por exemplo, um esperto menino do campo.
Ele pode ver a vida como uma chatice aprisionadora para a qual ele estava fadado
a nascer, viver e morrer, ou pode encará-la como um desafio a ser enfrentado e
vencido.
Muitos trabalhadores rurais ficaram onde estavam e morreram na casa em que
nasceram, após terem aprendido pouco ou nada, enquanto outros na mesma
fazenda enfrentaram a situação e tornaram-se os seus próprios senhores em mais
de um sentido.
Alguns chegaram mesmo a abandonar o seu terrão para abrir caminho no vasto
mundo, tornando-se grandes difusores de idéias ou presidentes de nações.
Vemos aqui um padrão que não está fixo, mas é suficientemente flexível para
acomodar o desenvolvimento.
O que está ordenado não é esta ou aquela coisa em particular, que deve ser feita,
mas certas situações necessárias para estimular a resposta correta, de maneira que
o menino do campo possa aprender sobre a tenacidade e a praticidade, que ele
poderia não adquirir na família de um decano de Oxford.
A menina tímida que evita a vida vivendo de uma herança terá eventualmente que
aprender a defender-se por si mesma quando a herança acabar, mas ela pode
encurtar e facilitar a lição se sair e enfrentar o problema antes que o dinheiro
acabe.
O que pode ser dito é que a Sina é concebida para levar as pessoas à consciência
precisamente daquilo que elas procuraram evitar em sua vida anterior.
Isso pode ser, por exemplo, o exato oposto de circunstâncias difíceis, como aqueles
que nascem em situações de riqueza, poder e glamour.
Pode ser que eles tenham que aprender sobre os problemas da tentação, da
corrupção, da responsabilidade e das conseqüências do bom ou do mau uso dessas
coisas.
A boa e a má sorte nem sempre são o que parecem ser.
O padrão tem muitas convoluções e dimensões invertidas, além de linhas gerais e
dominantes.
Jung reconheceu muitos dos princípios de que falamos acima, e sem dúvida levou-
os em conta no seu trabalho com analisandos.
As suas idéias sobre a sincronicidade (coincidências significativas e suas origens)
chegam muito perto do entendimento esotérico dos presságios.
A noção de que um incidente significativo pode ser uma indicação sobre o futuro é
antiga.
O princípio disso é que, posto que o Si-mesmo tem acesso ao Mundo de Yezirah, a
psique pode ficar consciente de um evento que se aproxima ao reconhecer os sinais
de um padrão em expansão.
Esses sinais podem assumir a forma de uma projeção seletiva, que chama a
atenção para algo que simboliza o que está para acontecer, tal como a queda de
uma árvore favorita, indicando o final de uma época.
Ou então a pessoa pode sonhar sobre uma certa cidade para a qual tem que ir, de
modo a poder encontrar uma determinada pessoa.
Tais cognições não são incomuns, como também não o são os fenômenos
conhecidos como déjà vu, em que as pessoas têm a sensação de estarem vivendo
uma coisa que já aconteceu antes.
Os psicólogos descartam esses incidentes como disfunções cerebrais, o que podem
efetivamente ser, mas apesar disso um grande número deles não pode ser
explicado com tanta facilidade.
Muitos incidentes têm a qualidade de serem meramente familiares, seja porque já
estavam no inconsciente desde o período pré-natal, seja por causa de algum
evento coincidente, como o homem no meio de um colapso que descobre que a
casa dele tinha um maciço defeito estrutural.
Essas sincronicidades, às quais Jung atribuía grande importância, são obra da
Providência, ou Mundo da Criação, que é responsável pela organização e
desdobramento do Universo.
Um paralelo disso pode ser visto na técnica de análise do "caminho crítico" usada
pelos construtores que têm que planejar exatamente quando devem introduzir cada
componente, de maneira que tudo se encaixe no momento e no lugar certos.
A natureza usa o mesmo processo a cada ano, assim como o embrião durante a
seqüência da gestação.
A dinâmica vem de Beriah, o formato de Yezirah, e a manifestação ocorre em
Assyah.
Ora, o fato de que os sonhos pré-cognitivos e os presságios podem ser vistos como
emanando da Providência ou do Si-mesmo, que vêem a situação objetivamente,
não significa que a indicação vá ser acatada, pois temos sempre a opção da
escolha, o que significa que a nossa Sina pode ser alterada.
Contudo, essa é uma eventualidade muito rara, pois só é possível mudar o fluxo
fatal mediante um esforço consciente, e a maior parte das pessoas age por hábito e
repete o velho e ordenado padrão até aprender a lição.
Veja-se, por exemplo, o caso da mulher que decide não casar-se porque é muito
difícil e complicado.
Ela terá mesmo assim que fazer face ao seu ânimus em uma situação qualquer, ou
será confrontada por sonhos em que o masculino exigirá atenção.
A Sina não quer dizer que a pessoa vai casar com outra pessoa específica, mas que
deve repetir a sua lição com um determinado tipo de indivíduo, quando a psique
projeta as suas necessidades no mundo exterior e atrai as pessoas necessárias.
Pode não ser a nossa alma gêmea, visto que quase nenhum de nós está pronto
para isso ainda.
Aqueles que se inclinam para o pilar direito, como os obcecados com o trabalho,
ver-se-ão inevitavelmente ocupados demais, no campo ou na cidade, enquanto os
que estão na coluna esquerda, como o homem temeroso, terão sempre medo, por
melhor que seja a proteção que fazem para si mesmos.
O livre-arbítrio funciona quando se está livre do domínio dos pilares e tríades
funcionais, e se é capaz de agir a partir do Si-mesmo ou Tiferet na coluna central.
Desse modo, em um momento de inspiração pode-se fazer alguma coisa, quando a
consciência ilumina e oferece uma solução.
Somente isso pode alterar a nossa Sina.
Os mestres disseram "Vive o presente", e não o passado ou o futuro, sobre os quais
não temos controle.
Na seqüência normal do desenvolvimento, todas as fases descritas se desdobram
de um modo geral, de maneira que o corpo e a psique passam através de uma
forma que é apropriada a cada período, até que a maturidade física e um tipo geral
de estabilidade mental tenham sido estabelecidos, o que muitos consideram como a
chegada da vida adulta.
Contudo, tal como observamos, muitos indivíduos não são maduros
psicologicamente.
Alguns continuam sendo essencialmente bebês, com suas vidas dominadas por
desejos infantis, enquanto outros ainda jogam os jogos da juventude ou conservam
os valores da adolescência.
A Sina de cada nível costuma ser acompanhada por vários contrapesos a essas
discrepâncias, dando a todos a possibilidade de avançar no próprio
desenvolvimento.
Essa é, mais uma vez, obra do Mundo Beriático da Criação, que maneja o padrão
mais amplo de maneira que todos possam encontrar o seu lugar no Universo.
O Sagrado é extremamente misericordioso.
A maioria não nota o extraordinário pensamento empregado em sua Sina devido à
repressão, à projeção e a uma dúzia de outros mecanismos de defesa, que
impedem que se veja o que está realmente acontecendo.
Uma tradição esotérica chama isso de "sono", ou Katnut, o estado menor.
Devido aos próprios problemas, muitos consideram-se vítimas das circunstâncias, e
estão certos, mas não da maneira que pensam.
A Sina deles é resultado direto de seu próprio esforço ou falta de.
Outros, mais abertos à realidade, procuram por aquilo que poderia ser a causa de
suas dificuldades, e aprendem, tentando e esforçando-se, a alterar o próprio
padrão.
Os que procuram crescer amadurecerão rapidamente em cada vida, e tornar-se-ão
adultos que vêem em cada acontecimento um professor.
Eles aceitam a vida como ela é, e exploram cada momento para obter o máximo da
situação.
Existem alguns, todavia, que olham mais profundamente ainda, e almejam o
conhecimento do propósito da Existência.
A eles é mostrado, se souberem decifrar os sinais, o padrão que está por baixo do
seu e dos demais, de maneira que possam começar a vislumbrar a vaga forma de
um padrão cósmico em que todos estão envolvidos.
Algumas vezes o véu é afastado, e uma cadeia de vidas pode ser vista, à medida
que as velhas memórias vão voltando de outros tempos e lugares.
Aqui chegamos à fronteira de uma dimensão totalmente diferente.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 49

Direção
Existem três estágios gerais de desenvolvimento.
O primeiro é o bio-psicológico, o segundo é o da educação e ocupação e o terceiro é
o da Alma e do Espírito.
Quase todos os indivíduos passam pelos primeiros dois sem maiores dificuldades, e
encontram um lugar na sociedade, seja como padre, dirigente, comerciante ou
bóia-fria, pois a maioria se encaixa nas quatro castas básicas da humanidade.
Há, claro, os desajustados.
De um lado estão os criminosos, que servem de elemento demoníaco da
humanidade, e do outro os "que estão fora", e não se encaixam no padrão
convencional por alguma razão.
Nos tempos mais remotos, essas pessoas dirigiam-se ao sábio local para se
aconselharem.
Se o problema fosse apenas psicológico, podia ser resolvido por ele.
Se, todavia, a questão fosse mais séria, ele as enviaria a um xamã ou mago que
entendesse um pouco do que acontecia além dos problemas comuns.
Mais tarde, os padres e rabinos passaram a desempenhar a mesma função.
Isso indica a diferença entre os curadores e os que se preocupam com o
desenvolvimento.
Na nossa época, temos curadores especializados que tratam da psique.
Estes podem ir desde o behaviorista mecanicista até os alternativos mais
extremados.
Ambos os extremos mantêm pontos de vista estreitos que algumas vezes, justiça
seja feita, resolvem problemas que precisam do seu tipo de solução, como a
cirurgia para um tumor cerebral ou o espiritualismo para a mulher que é curada
quando conversa com sua mãe falecida.
Freud e Jung estão entre os dois extremos, com Freud inclinado para a bio-psique e
Jung para o psico-espírito.
Assim, atuavam com pessoas que eram atraídas por seu modo particular de
trabalho.
Essa é a lei da atração pelo semelhante.
É também parte de um padrão fatal.
Desse modo, uma pessoa com problemas ligados aos pais ou ao sexo procuraria os
freudianos, e os indivíduos em busca de si mesmos achariam a abordagem
junguiana mais apropriada.
Essa descoberta da ajuda certa é crucial, e podem ser precisos vários anos e
diversos começos falsos para se chegar à porta da pessoa exata de que se precisa.
Há uma máxima esotérica que diz que "quando o aluno está pronto, surge o
mestre".
Isso está ligado não tanto ao processo curativo quanto ao terceiro estágio de
desenvolvimento, no qual se procura ir além de apenas ser o que se chama de
normal.
Mas antes que esse estágio possa ocorrer, deve-se estabelecer um equilíbrio na
psique, pois é muito perigoso passar a um crescimento mais profundo se houver
uma discrepância na mente que possa ser amplificada e produzir uma loucura mais
séria do que qualquer desordem psicológica comum.
O neurótico ou psicótico médio costuma apenas fazer a própria vida mais difícil para
si mesmo e para os que lhe estão próximos, mas o louco altamente desenvolvido
pode causar muitos danos.
Um exemplo clássico é o de Shabbertai Zvi, no século XVI.
Ele afirmou ser o Messias esperado, e por ter claramente um imenso carisma e um
grande conhecimento da cabala convenceu não apenas judeus comuns como
muitos rabinos de que era realmente o Ungido.
Quando o seu crescente movimento messiânico tornou-se uma ameaça política, o
sultão da Turquia deu-lhe a oportunidade de escolher entre converter-se ao Islã e
morrer.
Ele se converteu instantaneamente e tornou-se o honrado porteiro do sultão.
Milhares de judeus, muitos dos quais haviam vendido tudo para voltarem à Terra
Prometida, ficaram profundamente chocados.
Esse evento sacudiu a tal grau o povo judeu em todo o mundo que a cabala foi
proibida para todos os que tivessem menos de quarenta anos, pois o seu
conhecimento podia, acreditou-se, enlouquecer a pessoa.
Para a maioria, qualquer investigação dos níveis mais profundos da mente pode ser
perturbadora, pois esses níveis estão na área inconsciente do irracional e do
espiritual.
Ambos podem ser uma ameaça ao raciocínio do ego.
Quem procura ajuda para problemas estritamente psicológicos deve ser tratado por
técnicas de observação e análise até que chegue a um ponto em que veja a
dificuldade.
Pode então resolvê-la desatando o nó e seguindo para a próxima fase, de equilíbrio
de sua Arvore psicológica.
Isso pode continuar por muitos anos, ou pode limitar-se a uma poucas sessões em
que a pessoa e o terapeuta examinam um problema específico.
Isso pode ser certo para os que buscam uma cura, mas não para os que procuram
o desenvolvimento.
Muitos passaram décadas analisando-se e não conseguiram nada, exceto irem mais
fundo em seus problemas, pois as sessões careciam da dimensão espiritual.
A menos que o próprio analista ou terapeuta tenha essa conexão ou direção, o
processo psicológico pode apenas girar em um círculo Yezirático.
O curador tem que ser também um padre ou rabino, pois deve ter consciência dos
mundos superiores, e familiaridade com a realidade deles.
Isso, porém, é muito raro, devido à cisão no Ocidente entre a ciência e a religião,
causada pela Idade da Razão.
Felizmente, está ocorrendo um processo de correção, com o surgimento de um
renovado interesse pelo esotérico, mesmo entre psicólogos.
É por isso que esse estudo está sendo escrito.
O termo indiano guru significa "mestre espiritual".
Na cabala ele é chamado de Maggid.
Mas antes que a pessoa possa receber a instrução dessa pessoa, ela é
supervisionada por um Moreh.
De um certo modo, na análise o analista tem quase a mesma função, no sentido de
que se põe na posição do Tiferet na Árvore do analisando, de modo a haver uma
conexão relativamente objetiva entre os dois.
Isso permite que qualquer projeção do analisando apareça e seja vista na tela
virgem da persona profissional do analista.
Essa técnica é muito útil para revelar elementos inconscientes, como um desejo de
aprovação, manipulação e ressentimento, que pode ter atrapalhado a vida da
pessoa.
Após percebê-los, o analisando pode corrigir velhos desequilíbrios, removendo
bloqueios e dissolvendo fixações que distorcem a sua Árvore.
A habilidade e a imparcialidade do analista nesse processo é testada ao limite, pois
ele tem que evitar a sua própria contraprojeção.
Por exemplo, se o analisando vê no analista uma figura paterna, este não deve
reagir como se o fosse, para que a relação não perca a objetividade e não comecem
a repetir um velho padrão.
Isso exige que o terapeuta conheça muito bem a própria psique, o que é o motivo
pelo qual a maioria dos analistas passa também por um processo analítico.
Aqui deve ser dito que ainda estamos falando da operação de cura no equilíbrio da
Árvore.
A abordagem junguiana é algo diferente da freudiana.
Nela, o analista estabelece uma relação pessoal com o analisando, como um amigo
com uma base analítica.
Ou seja, cria-se uma conexão de Tiferet a Tiferet.
Isso dá origem a um fluxo mútuo em que tudo o que surge é examinado com
franqueza e sem qualquer duplicidade Yesódica.
Esse é o caminho da Honestidade entre Yesod e Tiferet em ação.
A abertura e a aceitação geradas permitem que muitas coisas venham à tona, de
modo que a "transferência", ou seja, qualquer projeção vinda do analisando, possa
ser tratada com tato mas com firmeza pelo analista, que serve de Moreh, ou
supervisor.
Um exemplo disso é quando o analisando vê sua própria agressão no analista, de
modo que qualquer coisa que este diga ou faça será entendida como uma ameaça
ao ego Yesódico do analisando.
Se o analista aceita o papel de agressor, o analisando assume inevitavelmente o
pólo da vítima, e a Árvore mútua dos dois fica sob pressão.
Contudo, se o analista reflete a situação a partir do Tiferet, o analisando pode
perceber o que está fazendo, detendo-se no caminho da Honestidade que vai do
velho padrão do ego ao Si-mesmo.
Todos esses métodos e muitos outros mecanismos e contra mecanismos foram
usados pelos cabalistas ao longo dos séculos para aconselhar e ensinar.
Um rabino do século XII perguntou: "Como podes esperar que eu seja perfeito se
estou cheio de contradições?"
Essa é uma definição muito precisa dos problemas da diferenciação e da
integração.
Mas a principal diferença entre o psicólogo e o cabalista está na direção.
Nesse sentido, direção quer dizer ser instruído por um professor, o que é um
processo distinto e bem diferente da terapia psicológica.
Na cabala, o Moreh serve como tutor para um estudante por muitos anos.
Nesse período ensina-se a teoria da psicologia e da cosmologia, e praticam-se
muitas técnicas de auto-observação.
Isso é comum a todas as tradições esotéricas.
A psicologia cabalística pode não usar termos modernos, e há muitas diferenças de
nomenclatura mesmo na Tradição, mas a estrutura e a dinâmica básicas da psique
são as mesmas.
O id é o Nefesh ou Nafs, como é chamado pelos Sufis, e a descrição do Yesod e das
tríades que o rodeiam é um relato extremamente preciso do ego e suas funções.
Trata-se simplesmente de traduzir os termos para a linguagem moderna.
No início do treinamento, o cabalista tem que se familiarizar com todos os aspectos
da psique inferior.
Exercícios de ação, pensamento e sentimento dão uma experiência dessas tríades e
de seu funcionamento através do ego em Yesod.
Depois, o Estudante aprende a diferenciar entre Yesod e Tiferet, e a notar as
qualidades de todos os Sefirot, bem como a reconhecer o caráter de cada tríade e
pilar.
Os tutores instruem os alunos em sessões de grupo ou em consultas privadas.
São feitos comentários sobre o equilíbrio de sua própria Árvore e os efeitos dos
padrões.
Os sonhos são examinados, assim como os presságios ou incidentes de
sincronicidade.
Esses eventos são considerados sob a luz do desenvolvimento do aluno na altura, e
em sua relevância para o presente.
São feitos relatórios de progresso, estudos avançados e exercícios na forma de
seminários aprofundados que aumentam a compreensão do aluno sobre seus
caminhos e a Tradição, isto é, sobre a dimensão coletiva que inclui o estudo da
mitologia, história, metafísica e filosofia, além de outras práticas de penetração.
Isso somente pode acontecer em uma escola que esteja sob a direção de um
Mestre.
Os Mestres, ou Maggidim, são extremamente raros.
Freud e Jung foram professores de sua geração de psicólogos.
Eles viam muito mais que os investigadores médios ou mesmo brilhantes da época.
Abriram a porta do inconsciente para a ciência, assim como um Mestre cabalista,
como o Maggid do século XVIII, Baal Shem Tov, que introduziu a dimensão
espiritual àqueles que não tinham formação rabínica.
Esses Maggidim são originais.
Essa é a qualidade criativa do Mundo de Beriah, que muda as formas psicológicas
de Yezirah, que por sua vez afeta o mundo rotineiro de Assyah.
Sir Isaac Newton era dessa ordem, assim como o rabino Azriel, do século XIII, em
Gerona, que reformulou a cabala para o modo filosófico, o que levou à sua ampla
aceitação entre os místicos judeus e cristãos que palmilhavam o Caminho do
desenvolvimento.
Esses Mestres fazem parte de uma longa corrente de seres humanos evoluídos que,
com o tempo, foram lentamente preenchendo os vazios entre o primeiro homem
plenamente realizado, Enoch, e a mais inocente pessoa recém-nascida que nunca
tenha sido encarnada.
Em algum lugar no meio dessa Escada de Jacó da humanidade estão aqueles que
almejam erguer-se acima do domínio do id-Nefesh, do ego Yesódico e do superego
ideal, para tornarem-se verdadeiros indivíduos.
Os junguianos chamam esse processo de "Jornada Interior", e os cabalistas de
"Ascenção da Escada".
Não há diferença.
Na maioria das tradições esotéricas, isso é chamado simplesmente de "Obra".
Em hebraico, a palavra Avodah significa tanto "obra", como "adoração".
Jung a encontrou na alquimia como a "Grande Obra".

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 50

Obra
Na cabala, a relação entre tutor e aluno tem muito em comum com a moderna
abordagem psicológica.
Mas seus objetivos são diferentes, pois está diretamente preocupada com as
dimensões espiritual e Divina.
Como método de trabalho, tem evoluído por vários milhares de anos.
Isso significa que muitas das ciladas em que cai o que procura podem ser evitadas,
devido ao acúmulo de experiências.
Por exemplo, um indivíduo pode estar em um beco sem saída psicológico sem o
saber.
Pode fazer exercícios, como observar o mecanismo de Yesod e suas tríades, que
estavam corretos quando ele começou a ir além desse ponto.
Isso pode fazer com que ele fique excessivamente egocêntrico, se não soubesse
disso.
Um tutor que esteja observando isso indicará que é preciso uma mudança, para
fazer com que o aluno siga em frente de acordo com a progressão ligada à Árvore.
Uma pessoa por si só não pode perceber a própria situação objetivamente; a ajuda
é necessária não apenas para aconselhar como também para exercer um certo
estímulo ou controle.
Isso significa um grau bastante alto de confiança entre o tutor e o aluno.
Essa situação tem seus riscos, mas a Tradição tem suas maneiras de equilibrar
discrepâncias, referindo-se sempre aos princípios objetivos da Árvore Sefirótica.
No método junguiano, o Si-mesmo é o Maggid que guia o analista e o analisando
através do processo de análise.
Os sonhos, os eventos pessoais presentes e a situação que se apresenta em cada
sessão levam ambos a muitas áreas que precisam ser trazidas à consciência.
No caso do cabalista há, além da Árvore, um vasto corpo de tradição como
referência.
Em última instância, contudo, o contato interior que o tutor e o aluno têm com o
próprio Tiferet e com o que têm em comum é o que importa.
Trata-se do mesmo Si-mesmo em todos nós, que dá acesso ao consciente e ao
inconsciente.
Esse lugar onde os três mundos inferiores se encontram é o primeiro estágio do
Caminho Espiritual.
Examinemos a situação teórica, de modo a podermos ver os paralelos entre os
métodos cabalísticos e os psicológicos.

Como já vimos, o Malkhut é o ponto de contato com o fundo físico e externo.


Aqui o aluno aprende a observar os eventos sob a luz da imagem mais abrangente.
Fenômenos sociais e psicológicos são analisados para ver a interação entre o macro
e o microcosmo.
Isso o mantém afastado da tendência, comum ao trabalho psicológico, de limitar-se
em demasia ao pessoal.
O Malkhut também se relaciona à maneira como o aluno participa da vida corrente.
Pode ver a lição que está sendo apresentada pela Providência?
E como está reagindo a ela?
Estas são as perguntas que o tutor coloca, ou faz com que os alunos ponham a si
mesmos.
Um entendimento do que está acontecendo tanto interna como externamente é
crucial, pois alguns eventos são chaves vitais para o desenvolvimento, como uma
série de percalços, uma oferta de emprego ou um novo relacionamento.
Os eventos sincronísticos do nível pessoal e coletivo são vistos com grande
interesse, pois podem revelar alguma coisa sobre o Grande Projeto, e sobre onde,
nesse projeto, a escola ou o indivíduo se encaixa.
Um exemplo disso foi a mudança de Freud de Viena para Londres, e a passagem da
operação psicanalística para o mundo de fala inglesa.
Isso abriu as portas de uma nova época da psicologia, que preparou terreno para
um renascimento do interesse pela cabala algumas décadas mais tarde, pois a base
para a auto exploração e o exame interior havia sido estabelecida por Freud.
A observação de Yesod é feita no dia-a-dia.
A expressão junguiana "ser um estranho para si mesmo" descreve exatamente a
noção cabalística de se observar a mente do ego a partir do Tiferet, o que implica
uma consciência permanente dos vários processo da face inferior da Árvore.
Os budistas chamam isso de "consciosidade".
Contudo, nesse exercício, as tríades são trabalhadas para dar origem a um
equilíbrio se a pessoa estiver fraca ou forte demais.
Desse modo, o aluno não só fica sabendo como a mente comum funciona como
também pode corrigir qualquer discrepância.
Por exemplo, talvez uma das quatro funções psicológicas precise desenvolver-se
para que o ego não fique tendencioso demais para um lado ou para outro.
Aquilo que o Yesod projeta é de grande importância, e permite que os alunos
percebam com grande detalhe a imagem que o ego apresenta.
Lampejos de consciência do Tiferet revelam muito sobre a persona e sobre a
presença de algum impulso inconsciente que esteja influenciando demais o que
está sendo pensado, sentido ou feito.
Uma vigilância contínua por parte do aluno, juntamente com o tutor, pode ensiná-lo
a observar com imparcialidade e a seguir o fluxo da vida, à medida que a psique
reage tanto interna quanto externamente à situação.
Essa objetividade é vital se a pessoa quiser perceber quem é e onde está.
O exame do nível Hod-Nezah da psique é o estágio seguinte.
Aqui o aluno aprende a teoria e faz a prática — isto é, o estudo dos princípios da
cabala e da sua aplicação.
A teoria é aprendida pela observação da Árvore em todo tipo de terreno.
Por exemplo, uma situação dada é analisada de acordo com os vários Sefirot,
tríades, caminhos e pilares, de maneira a que se veja o seu padrão de equilíbrio, e
onde está.
Esse tipo de contemplação é combinado com a prática da meditação e da ação
consciente, para juntar o Hod, o Nezah e as três tríades do ego.
Desse modo a pessoa pode, por exemplo, viver um caso amoroso e vê-lo como um
meio de desenvolvimento, quando os parceiros exploram um ao outro e a si
mesmos.
Isso pode, no entanto, causar problemas, como sabem quaisquer duas pessoas em
análise ou apaixonadas.
Mas pode também dar à situação um elemento de crescimento, que caso seja
corretamente aproveitado pode enriquecer o relacionamento.
O caminho entre Yesod e Tiferet é o da Integridade.
Se ele falta entre o tutor e o aluno, nada de valor pode acontecer.
Qualquer interação deve ser honesta, pois o tutor, como o analista, serve como o
Tiferet do aluno, pelo menos por um tempo.
Quando o aluno iguala-se ao seu mentor, os Si-mesmos de ambos podem
combinar-se para produzir uma situação singular em que as coisas que estavam
ocultas no inconsciente dos dois podem ser reveladas.
Muitas coisas notáveis podem acontecer nessa situação.
A discussão de um sonho pode abrir uma janela sobre o transpessoal, que
proporciona uma visão da dimensão cósmica.
Um comentário aparentemente casual pode fazer com que uma conversa se torne
uma profunda revelação pessoal.
O caminho da Honestidade dá acesso não somente ao Tiferet como também a toda
a psique.
Pode também, como foi notado, libertar a Sombra e o princípio Luciférico, o que
requer toda a habilidade e a integridade do cabalista para identificar e combater o
problema.
O lado escuro da psique é um inimigo terrível, assim como o intruso externo
proveniente do Mundo Astral do Yezirah.
Essa abertura para o domínio do invisível e do inconsciente é uma das razões pelas
quais a cabala era considerada perigosa, mas, se for por isso, também é perigoso
apaixonar-se, ter um filho ou, para todos os efeitos, viver.
O nível de Hesed e Gevurah opera em um extrato muito mais profundo.
Aqui é vivida a vida emocional da pessoa, muitas vezes em total inconsciência.
No caso de pessoas sob a influência da disciplina cabalística, o poder e a influência
desse nível são cruciais, pois é a partir deles que o superego ideal opera, nutrindo-
se dos complexos e conceitos armazenados nas tríades laterais acima e abaixo do
Julgamento e da Misericórdia.
Essas áreas têm que ser trazidas à consciência pela observação detalhada de tudo
o que é pensado, sentido e feito.
Depois de muito trabalho vem o reconhecimento daquilo que a pessoa aprendeu
quando criança, que é puramente convencional, e daquilo que é real, no que diz
respeito à moralidade, por exemplo.
Quando isso acontece é estabelecido um código interno de ética, não segundo os
costumes aceitos mas de acordo com leis eternas.
Obedecer aos Mandamentos nesse nível psicológico pode significar a infração dos
regulamentos locais, como, por exemplo, o apartheid ou um código militar, se
forem contra o que é essencialmente certo.
Desse modo uma verdadeira consciência começa a desenvolver-se, uma
consciência que não pune ou recompensa segundo o modelo dos pais, mas age em
linha com o coração da psique ou a tríade Hesed-Tiferet-Gevurah da Alma.
A realidade de Hokhmah e Binah, no nível do inconsciente coletivo, só se torna
aparente depois de anos de estudo e de prática, ou em uma visão fugaz.
Essa é uma área em que se deve esperar apenas uma insinuação de compreensão,
inicialmente, embora muitas pessoas pensem ter captado o sentido desses Sefirot
apenas porque os etiquetaram.
Possuir a Sabedoria e o Entendimento leva toda uma vida, se não levar várias, e
para muitos de nós é o esforço coletivo da humanidade que proporciona _alguma
compreensão desse nível cósmico e espiritual.
Os mitos e as lendas, da Bíblia ou de algum remoto povo pagão, apontam para a
dimensão espiritual, na qual se transcende o pessoal.
Os encontros com esse nível, através de vários exercícios tradicionais de meditação
e visualização, dá ao cabalista um sentido de um vasto padrão que se estende ao
longo das eras.
Essa compreensão é adquirida por acumulação e muita ponderação, que é um
processo lento e completo que alcança fundo na psique.
A sabedoria é algo que pode ser concedido em uma visão, mas nem sempre é
entendida.
Tem que haver uma combinação de Binah e Hokhmah, de maneira que o seu Daat,
ou não-Sefirah do Conhecimento pode trazer um momento de compreensão ao
Tiferet.
Esse momento pode ocorrer no alto de uma montanha, na cama, durante o jantar
ou enquanto a pessoa está com o seu tutor.
Não é algo que possa ser encomendado, mas que é conferido pela Graça, e está
além do alcance da psicologia.
A visão que Newton teve da lei universal ao ver uma maçã caindo era desse tipo.
O vidro escuro de Daat ficou repentinamente claro e iluminado.
A obra realizada por um tutor e pelo aluno, ou pelo analista e o analisando, deve
levá-los a percorrer a maior parte da experiência humana.
O caminho deles irá para adiante e para trás, às vezes avançando diretamente com
grande rapidez, e outras vezes quase parando.
Por momentos, a Obra pode parecer inútil, e muitas pessoas se afastam do
processo nesses estágios, usando esta ou aquela razão para partir.
O motivo para isso, que pode ocorrer em qualquer ponto ao longo do Caminho, é
muitas vezes o ocultamento de algum bloqueio ou o rodeio de alguma dificuldade,
que pode levar a pessoa, de um terreno familiar e seguro, para aquela área
aterradora de mudanças onde ela sente que a sua psique será transformada e ela
se perderá.
Isso, é claro, que não pode acontecer.
O Si-mesmo não muda.
Ele pode crescer, mudar de posição em sua ênfase ou o seu equilíbrio, mas jamais
deixará de ser senão o Si-mesmo, pois é a expressão do eterno SI-MESMO.
Esse processo de desenvolvimento é descrito graficamente por muitas tradições
com a imagem da borboleta, que passa pelo estágio de lagarta, de crisálida e chega
à sua requintada realização.
Essas fases são atravessadas em cada nível; quando o pilar direito é ativado, o
esquerdo se consolida, antes de eventualmente surgir como a Coroa de Keter, no
alto da coluna onde se encontram os três mundos superiores da psique, do Espírito
e da Divindade.
As pessoas que estão profundamente envolvidas na Obra confiam no processo, e,
embora possam ser velhos veteranos com um passado de imensa experiência,
ficam mesmo assim espantados com o que quer que aconteça, porque sempre
contém o maravilhoso.
Para termos uma noção da Obra (pois nenhum livro pode transmitir a sua
realidade), examinemos uma vida individual de maneira a termos uma visão da
Sina, dos modos da Providência ou do caminho da realização do Si-mesmo.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 51

Uma Vida
Neste capítulo, vamos examinar uma vida, com anotações, para vermos em ação
alguns dos processos que vimos.

Sarah Alvarez nasceu na Espanha nos anos 30, de pais espanhóis, que haviam
deixado o país ao previrem a Guerra Civil.
Sarah era filha ilegítima (Sina), e seu nascimento fora fácil (Malkhut), ao contrário
de sua irmã mais velha, que fora a causa de um difícil confinamento para sua mãe.
A sua infância (Yesod) foi passada em Londres, onde seu pai era artesão em couro,
uma tradição familiar trazida de Córdoba, um antigo centro dessa profissão.
Suas memórias mais antigas (face inferior e ego) eram de um pequeno
apartamento no norte de Londres, e das ruas que o rodeavam.
Todos eram pobres naquela época, mas seu pai, um bom artesão, conseguia
manter a família.
A mãe dela era uma boa mulher (Hesédica), sujeita a mudanças ocasionais de
humor, mas o pai era firme (Vevúrico), e conservava muitos dos costumes da
Espanha (inconsciente coletivo), inclusive a queima de velas na noite de
sexta-feira, embora ninguém soubesse por que o fazia (superego ideal).
Sarah e sua irmã iam à missa regularmente, o que deixou uma profunda impressão
em Sarah, do mesmo modo como sua irmã, que a segurava firmemente no lugar
(inconsciente pessoal).
A mãe tentava não demonstrar nenhum favoritismo em relação a Sarah, mas esse
favoritismo era, mesmo assim, sentido pela irmã mais velha, que continuamente
obrigava Sarah a retirar-se para uma postura reflexiva e defensiva (introvertida de
sentido e intuição), embora ela no fundo sentisse bastante certeza do amor de sua
mãe (Hesed-Yesod).
O pai também tinha preferência por Sarah, mas por bondade e dever para com sua
filha mais velha, tinha com ela uma marcada diferença de comportamento
(Gevurah-Binah) o que era ressentido por Sarah (id-Nefesh).
(Deve-se notar a ênfase invertida dos pilares masculino e feminino nos pais.)
Aqui temos todos os sinais de uma situação cármica, em uma estrutura cultural
cruzada. Sarah nasceu em um determinado momento, em uma família em
particular, porque eventos em uma encarnação anterior puseram-na nesse lugar
para aprender certas lições.
Desse modo, ela tem um tipo de corpo e de psique racial e coletivo para interagir
com um tipo individual de psicologia e Sina estabelecido no momento de seu
nascimento.
Suponhamos que o Sol dela esteja em Escorpião, a Lua em Virgem, e o ascendente
em Libra.
Isto é, o Si-mesmo é fixo, aquoso e de qualidade investigadora, enquanto o ego é
mutável, terreno e preocupado com os detalhes.
O ascendente dá origem a um físico cardinal, aéreo e atraente.
Essa combinação particular poria o Sol na Casa da Possessão, gerando desejo de
adquirir uma riqueza de experiência sexual, emocional e espiritual.
A Lua na décima segunda Casa da privacidade faria com que o ego tendesse a ser
reservado e analítico.
Como caráter, Sarah pareceria uma garota bonita, inteligente, vigorosa mas
introvertida, com necessidade de penetrar e explorar o que está por trás da vida.
Quando chegou a Segunda Guerra, a família de Sarah mudou-se para o campo, e o
pai dela juntou-se ao Exército britânico, sendo enviado para o estrangeiro.
A infância, aparentemente, não foi movimentada.
Com exceção de um ocasional bombardeio aéreo, a guerra foi somente o pano de
fundo da sua consciência Yesódica.
Contudo, essa vida semi rural não excluiu totalmente um forte sentimento de
unidade nacional que prevaleceu na Inglaterra durante a guerra, pois Sarah estava
vagamente consciente de distantes acontecimentos históricos (inconsciente
coletivo), que afetava as vidas de todos eles.
Sarah sabia que a mãe estava preocupada com o pai (tríade emocional esquerda),
mas todas as cartas que chegavam desde algum lugar no norte da África indicavam
que ele estava bem até o momento (tríade emocional direita).
Talvez a sua memória mais importante daquela época não tenha sido da Batalha de
El Alamein e sim do concurso para Rainha da Primavera da escola.
Sendo inteligente e bonita, Sarah, para delícia de sua mãe, foi selecionada para as
eliminatórias do concurso.
Sua irmã fingiu orgulho familiar, mas ficou com ciúmes( id-Nefesh), o que foi
revelado em uma observação despeitada (mortido) quando Sarah perdeu a coroa
para a moça mais popular da escola (ânima).
O comportamento da irmã deixou Sarah profundamente abalada, provocando uma
cicatriz (inconsciente pessoal) que fez com que ela se desse conta de que as
famílias não são sempre leais e amorosas, como a tinham feito acreditar (superego
ideal).
A outra lembrança significativa daquele tempo foi ter vestido uma roupa espanhola
tradicional, que a mãe dela fizera para o baile a fantasia do Dia da Vitória.
Esse vestido mexeu com algo de muito profundo dentro dela (inconsciente
coletivo).
Era como se ela já tivesse vestido uma roupa igual muitas vezes (memória pré-
natal).
Provocou também uma coisa ainda mais profunda em sua alma, que fez com que a
festa se tornasse algo mais que um episódio agradável da infância.
Ele sentia ser uma estranha que estava ficando com a família apenas enquanto não
estivesse pronta para sair e encontrar alguma coisa ou alguém no futuro
(precognição do seu padrão fatal).
Quando Sarah fez dezesseis anos, era uma estudante conscienciosa (Hod),
inteligente e pernuda na escola de artes da cidade.
Com o fim da guerra, a vida tornou-se uma rotina, com sua mãe cozinhando e
lavando o tempo todo, enquanto o pai, e logo a irmã, iam trabalhar em Londres
todos os dias (nível vegetal).
O único drama era a vida amorosa da irmã, que escolhia rapazes turbulentos
(Nezah).
O pai via tudo mas não dizia nada.
Algo terrível acontecera com ele durante a guerra (cisão entre Yesod e Tiferet), e
ele se contentava em ficar sentado e evocar recordações do velho país (Yesod).
A mãe dizia que a Espanha "dele" desaparecera com a Guerra Civil.
Sarah estava fascinada pelas histórias do pai (memórias antigas).
Aos dezoito anos, apaixonou-se por um rapaz que era o exato oposto da sua beleza
trigueira e maneiras reservadas, com seus cabelos claros e jeito extrovertido
(ânimus).
Essa experiência despertou (Hod-Tiferet-Nezah) toda a sua sexualidade de
Escorpião, até que ele quisesse dormir com ela.
A educação católica de Sarah (inconsciente coletivo), somada ao seu ego de
virgem, evitou que a sua libido sucumbisse, mesmo que o corpo (Yesod-Malkhut)
desejasse.
O rapaz, não conseguindo o que queria, deixou-a, e ela sofreu durante um ano
inteiro, embora sem saber com certeza por que (tríade de sentimento).
A experiência dera origem a um profundo anseio por uma alma gêmea.
Sarah tinha esperanças de que a realização desse anseio se desse na escola de arte
em Londres, mas isso não aconteceu.
O seu trabalho ia bem, mas, no fundo (Tiferet), ela sentia que essa época de
estudos era um treinamento para alguma tarefa que lhe havia sido designada
(destino).
Tinha muitos admiradores, mas nenhum deles cumpria as exigências de sua Lua
em Virgem, que esperava o perfeito (projeção do ânimus).
Além disso, em se tratando de sexo, o seu superego ideal comandava.
Isso criava problemas (Nezah versus Gevurah), e ela tornou-se neurótica quando
foi criticada por atrair os homens com sua maneira de vestir-se e mover-se
(persona freira-cortesã).
Ela via isso (Tiferet), mas não podia aceitar (Yesod).
Aos 22 anos ela saiu de casa, em um ato de rebeldia.
Seus pais disseram que isso ia contra os costumes espanhóis, mas ela saiu assim
mesmo, dizendo que era inglesa (coletivo), para dividir um apartamento em
Londres com três outras moças.
Encontrou um emprego em um estúdio gráfico, onde conheceu um projetista que
parecia ter todas as qualidades que procurava em um homem (a imagem Yesódica
de seu próprio ânimus).
Ficou profundamente apaixonada (Hesed), e decidiu perder a virgindade (Nezah).
Após o choque inicial (para o superego ideal dela), o caso amoroso tornou-se um
idílio (Hod-Yesod-Nezah).
Nas férias eles visitaram Córdoba.
Ela ficou profundamente comovida quando teve a estranha sensação de ter estado
lá antes (alma), especialmente na Judéria, que pareceu incrivelmente familiar.
Quando perguntou ao pai sobre a história da família, tocou em alguma coisa muito
profunda nele (Tiferet), quando ele contou que eram descendentes de judeus
convertidos.
Ela ficou particularmente comovida (Gevurah-Tiferet-Hesed) quando ficou sabendo
que sempre houvera uma Sarah na família.
Isso fez com que ela se desse conta de por que se acendiam velas na sexta-feira à
noite (o Sabbath judaico), embora as razões para isso houvessem sido esquecidas
há muito tempo (coletivo).
Essa investigação teve um fim abrupto quando ela achou que estava grávida, e o
seu maravilhoso caso de amor acabou da noite para o dia (Yesod-Malkhut), pois o
namorado não conseguia enfrentar a realidade.
Quando a suposta gravidez se revelou um falso alarme, ele quis voltar, mas ela não
o quis.
A fantasia não tinha futuro.
Ela precisava crescer.
Quando chegou aos 29 anos (retorno do ciclo de Saturno), ela estava
completamente desolada e desesperada (crise do superego ideal).
O suicídio foi considerado, mas o seu inconsciente coletivo católico e agora judaico
proibia isso.
Todos os seus sonhos Yesódicos tinham murchado.
Ela agora sabia que não era um gênio nem, aparentemente, tinha capacidade para
estabelecer um relacionamento real.
Em seu momento de maior desespero, Sarah teve um sonho memorável (Tiferet-
Yesod), em que aparecia uma velha sábia (Si-mesmo) oferecendo-lhe um livro que
continha todos os segredos da Vida.
Quando acordou no dia seguinte, Sarah percebeu que alguma coisa acabara com a
sua repressão (síntese).
Naquela mesma tarde decidiu tornar-se uma desenhista free-lance.
Essa idéia estivera em seu pensamento muitas vezes antes, mas a voz da mãe
(superego) dizia-lhe que não era muito certo para uma moça ser independente
demais.
Ela resolveu desconsiderar esse conselho.
Mudou-se para um apartamento só dela, e estabeleceu-se como profissional (tríade
do Despertar).
Em dois anos ficou conhecida como desenhista de capas de livros.
Suas relações com os editores ensinaram-lhe muito sobre si mesma e sobre o seu
trabalho, e ela conquistou um lugar no mundo.
Com 35 anos estava no topo da carreira, pois seu estilo estava na moda (Sina).
Vivia bem e namorava ocasionalmente (id-Nefesh).
Por uma série de coincidências (Providência), ela conheceu uma mulher que parecia
possuir algum tipo de conhecimento profundo (Cabala).
Essa senhora era psicanalista profissional e, embora as duas se encontrassem
apenas socialmente, tiveram muitas importantes conversas sobre psicologia e
questões do Espírito, que agora interessavam Sarah mais que qualquer outra coisa
(estado de busca).
Mais ou menos na mesma época (fatal), ela conheceu um editor em uma festa a
quem pensou reconhecer.
Os dois tinham muita coisa em comum (reciprocidade astrológica).
Logo ficou óbvio que eles tinham alguma coisa para resolver juntos (carma), que só
podia acabar em casamento.
Tiveram problemas sobre questões religiosas, mas isso não os fez mudar de idéia.
Casaram-se e viveram com grande felicidade por um ano (Árvore conjugal
equilibrada).
Durante esse tempo, a amiga sábia de Sarah (Tiferet interino), apresentou-a a um
grupo de estudos que estava tutelando.
Aí, Sarah viu um diagrama da Árvore.
Era o mesmo desenho que ela vira em seu sonho memorável.
Esse grupo, além disso, estava cheio de pessoas que, como ela, encontravam-se
em busca de alguma coisa.
Essa era a sua verdadeira família (grupo de alma).
Contou ao marido, mas ele não pareceu entender.
Ele foi convidado a participar; foi uma vez e negou-se a voltar, hostilizando a tutora
(ego versus Tiferet).
Isso incomodava Sarah, pois a obra de desenvolvimento do Si-mesmo tornara-se
para ela vitalmente importante (Tiferet).
O marido gostava das coisas como elas eram (Yesod).
Eles faziam amor, mas o sentido da união (de almas) não estava mais presente.
Ele não queria encontrar Si-mesmo com Si-mesmo, muito embora eles tivessem
um contrato de Tiferet.
Começaram a afastar-se.
A escolha era entre o marido e a Obra.
Sarah não sabia o que fazer.
Nesse momento, o inconsciente interveio.
O marido teve um sonho memorável, no qual ele e Sarah iam para outro país e
começavam uma nova vida.
Quando ele contou isso para sua esposa, ela interpretou o sonho como um
presságio sobre o relacionamento dos dois, mas ele o considerou como um sinal
sobre uma oferta de emprego no Canadá.
Ela ficou dividida, pois amava o marido, mas ir para o Canadá significaria deixar a
sua vida em Londres e, principalmente, separar-se de sua nova família.
O que fazer (Yesod versus Tiferet)?
Ela decidiu ser uma boa esposa (vitória do superego ideal).
No dia em que os documentos para o Canadá ficaram prontos, Sarah encontrou-se
(tríade do despertar) em uma reunião da cabala, ouvindo uma discussão sobre o
símbolo da Terra Prometida.
O grupo era de israelitas que, tendo-se desfeito das amarras do Egito, estavam a
caminho do país do Espírito.
Foi então que Sarah percebeu o verdadeiro significado do sonho de seu marido.
Eles o haviam entendido literalmente.
Repentinamente, tudo ficou claro (Daat).
O que queria ela — liberdade ou escravidão (crise do Caminho da Honestidade)?
Nessa noite ela contou a sua decisão ao marido (tríade da alma).
Ele ficou muito irritado, e após algumas semanas conturbadas foi para o Canadá.
Sarah lamentou pelo casamento, mas sabia que tinha que ser fiel ao próprio
Si-mesmo, seguindo uma coisa maior que a convenção social.
Essa fora a sua mais difícil prova (iniciação) de integridade.
O tempo deu razão à sua decisão, pois a vida dela começou a florescer de um modo
totalmente novo.
Ela está agora esperando para ver que mais a Sina vai lhe trazer.
Talvez, depois que as lições mais vitais tenham sido aprendidas, a Providência lhe
mostre qual é o seu destino.

A história acima, composta pela experiência de várias pessoas, mostra de que


maneira a Sina arruma testes para que o indivíduo enfrente e resolva.
Pode não ser sempre fácil, mas a oportunidade para o desenvolvimento está
sempre presente, especialmente nos momentos cruciais de uma vida.
Esses momentos são quando há decisões importantes a tomar, e essa é uma
prerrogativa da Alma, que é o agente do livre-arbítrio.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 52

Alma
A alma propriamente dita é um dos principais componentes da psique.
Nos termos da Árvore, ela é a tríade Gevurah-Tiferet-Hesed.
Como tal, está no meio do caminho entre as faces superior e inferior da psique, e
adjacente às tríades conceituai ativa e emocional passiva.
É uma tríade puramente psicológica ou Yezirática, totalmente independente das
Árvores física e espiritual.
Isso lhe confere a singular capacidade do livro-arbítrio.
É aqui que a pessoa toma as suas decisões, processa a experiência e desenvolve a
consciência do Si-mesmo.
Na cabala, ela tem diversos nomes, de maneira que usaremos a palavra portuguesa
"alma".
Algumas pessoas associam a alma ao Si-mesmo, mas isso não é correto.
O Si-mesmo está ligado à totalidade do ser.
A alma relaciona-se principalmente à psique e a uma pessoa em particular, à
medida que os Sefirot emocionais do Julgamento e da Misericórdia vão-se
equilibrando e controlando em conjunção com o Tiferet.
A alma é mais um veículo da consciência que uma função, pois está ancorada e
centrada no Si-mesmo.
A partir dessa posição central, ela age como monitor e sintetizador da atividade
consciente e inconsciente da Árvore.
Como já vimos, a psique é composta por vários sistemas, que estão em constante
movimento, cada um tentando cumprir sua tarefa.
No processo de individuação, esses processos são dispersados em configurações
complexas e sutis, que se agrupam em torno a vários Sefirot e formam uma
hierarquia funcional.
Algumas vezes porém eles se opõem uns aos outros de tal modo, como a paixão
versus o sentido comum, que um grande conflito pode dar origem a qualquer coisa,
desde um nervosismo suave a um estado psicótico em que há uma cisão na psique.
É tarefa daquilo que Jung chamava de "função transcendente" resolver esse
confronto e instalar a harmonia, ou pelo menos uma cooperação tolerante.
Essa função transcendente é obra da tríade da alma, que tem o poder de manobrar
e ajustar o desequilíbrio.
Um exemplo disso é o conflito que uma mulher pode enfrentar a respeito de dois
admiradores.
Ela é atraída para um porque ele tem vitalidade e lhe oferece prazer sensual e
segurança e para outro porque é intelectual e espiritual e lhe dá paz.
Ela fica em um dilema, pois pode ser a hora de, talvez, fazer uma escolha fatal.
Na sua psique instala-se a confusão, pois nenhum dos pilares laterais consegue
tomar uma decisão, cada um clamando pela sua própria satisfação, e o seu ânimus
inferior, baseado no id-Nefesh, se opõe a seu ânimus superior, que se nutre do
Espírito.
Nessa situação, ela poderia ficar dilacerada, especialmente se a sua Sombra
sadomasoquista der uma mãozinha e destruir os dois relacionamentos.
Nesse ponto a alma, sob os auspícios do Si-mesmo, pode reagir à crise, se a
pessoa quiser uma solução.
Se for esse o caso, Gevurah verá os limites e Hesed apreciará as vantagens de
cada relacionamento.
O Si-mesmo em Tiferet pode então considerar o equilíbrio da situação e os seus
efeitos a longo prazo sobre as almas da mulher e dos dois homens.
A conclusão a que se chega pode ser que nenhum dos dois pretendentes serve.
Assim, a alma, no seu papel de consciência do Si-mesmo e consciência,
aconselharia a mulher a largar os dois.
Esse processo grandemente inconsciente viria então à tona, na forma de
pensamentos, sentimentos e, eventualmente, ações.
Caso ela se decida por um compromisso, escolhendo um dos dois para satisfazer à
necessidade do ego, a alma pode avisá-la de que alguma coisa não está certa,
talvez através de um sonho ou de algum presságio manifestado externamente,
como brigar com um homem.
Se os sinais forem ignorados, o processo que ela iniciou procederá até que a
questão possa ser levantada novamente.
Se ela continuar a suprimir o conselho da alma, o processo continuará até que a
realidade da situação se afirme anos mais tarde no colapso de um casamento.
Mas caso ela reconheça aquilo que a alma está indicando, ocorre uma síntese que
lhe mostra que nenhum dos dois serve.
Isso permitirá que surjam outras possibilidades com as quais ela possa trabalhar,
tal com saber quem é a pessoa certa no momento em que se conhece essa pessoa.
Essa é a marca característica do nível em que a alma opera.
O processo da síntese, no qual se relacionam elementos mediante uma ordem
superior de consciência, acontece de diversas maneiras.
Por exemplo, algumas questões podem ocupar a alma durante vários anos, até
serem resolvidas, enquanto outras podem ser liquidadas em um lampejo de
compreensão, quando um momento de consciência do Si-mesmo vê a essência de
um problema.
O processo de síntese é vital para o equilíbrio da mente, e acontece o tempo todo,
sendo acompanhado pela alma, que ajuda a psique a adaptar-se ao que os
processos automáticos não conseguem resolver.
Isso implica uma mudança dinâmica de posição contínua na estrutura da Arvore.
Essa flexibilidade só é possível por causa da alma.
Nenhum animal ou anjo tem essa capacidade especial de sintetizar e, portanto, de
desenvolver-se.
Por exemplo, se a alma estiver isolada, como na psicose, a psique deixa de
desenvolver-se até que se estabeleça um equilíbrio funcional e a tríade da alma
possa operar novamente.
Uma vez ocorrido isso, a lição aprendida pode ser incorporada por compreensão,
discernimento e aceitação.
Estas são as qualidades de Tiferet, Gevurah e Hesed que compõem a alma.
A alma é o lugar onde a pessoa se avalia.
É o lugar em que toda a experiência adquirida através do corpo, da psique e do
espírito torna-se individual.
Desse modo, um homem e uma mulher podem estar tendo um caso amoroso igual
a dez milhões de outros que estão acontecendo ao mesmo tempo, mas a alma de
cada um deles faz com que seja único.
As conversas de travesseiro e os clichês podem ser arquetípicos, mas a alma
transformará o relacionamento em algo especial.
As pessoas que fazem amor sem a conexão da alma podem experimentar paixão
corporal ou atração psicológica, mas não uma intimidade real.
Um homem e uma mulher podem ter uma formação semelhante e compartilhar dos
mesmos interesses em artes ou esportes; podem também complementar-se
perfeitamente do ponto de vista físico e ter egos que correspondam inteiramente no
nível social; se não existir a conexão da alma, não poderá ocorrer nenhum
relacionamento único e profundo.
Quando duas pessoas têm esse elemento em comum, acontece um encontro fatal
que é muito mais que a simples união entre o ânimus e a ânima.
O profundo sentido de reconhecimento mútuo nessa situação pode ser devido ao
fato de que os dois têm um carma comum a resolver, ou porque são almas gêmeas
que finalmente se encontraram.
Isso é raro, mas acontece.
A maioria das pessoas não opera nesse nível porque se relaciona através do corpo,
do ego e da dimensão coletiva, e não consegue reconhecer seu verdadeiro
companheiro quando o encontra.
É por isso que casamentos verdadeiros são tão raros.
O estado da alma é fundamental para a saúde da psique.
Isso depende, inicialmente, da sua condição no nascimento.
Por ser a essência do indivíduo, a alma traz para a encarnação tudo o que
aconteceu à pessoa antes.
Na condição de nível emocional da consciência, ela tenderá a ser mais Gevúrica ou
mais Hesédica na distribuição da sua carga, segundo o carma em que se incorreu.
Desse modo a pessoa começa com, talvez, uma inclinação para ser otimista, ou até
mesmo o contrário.
É nesse ponto que o mapa astrológico se torna muito útil.
Por exemplo, o planeta Gevúrico Marte pode estar em Aries, onde é muito
poderoso, conferindo à alma um porte impetuoso, ou pode estar em Peixes, o que
pode embotar o seu agudo sentido de discernimento.
Júpiter, o planeta de Hesed, por outro lado, pode estar bem colocado e apoiar
Marte a partir de Touro, dando-lhe um poder fixo e estabilizador.
Ao contrário, Júpiter poderia estar em um aspecto difícil em Gêmeos,
descarregando um excesso contraproducente de força emocional desarmada em um
Gevurah já por si indeciso.
Existem muitas combinações possíveis desses dois planetas, e um bom astrólogo
pode aprender muito sobre o estado da alma, examinando a relação dos dois com o
Si-mesmo do Sol.
De maneira geral, a maioria das almas está em um estado relativamente
equilibrado, pois as leis que governam a encarnação escolhem uma situação que
proporciona à pessoa a exata combinação planetária necessária para que ela
depare com qualquer que seja a lição que deve aprender.
Em alguns casos, porém, a configuração de Marte, Júpiter e o Sol revelam um dom
ou problema específicos, que devem ser enfrentados ou utilizados.
Um exemplo disso é o da pessoa com Marte e Júpiter em conjunção na Casa da
Parceria.
Isso pode indicar questões de consciência no casamento ou em qualquer parceria
de longo prazo ou legalizada.
Desde um ponto de vista psicológico, essa pessoa poderia descobrir que o seu
superego ideal conflita com aquilo que ela realmente sente em relação aos arranjos
formais, como o soldado que despreza o seu oficial comandante, mas obedece
mesmo assim às ordens dele, por disciplina.
Para o cabalista, essa situação seria vista como decididamente cármica, e como
oportunidade para desatar algum profundo e antigo nó que pusera os dois homens
em contato novamente, para que eles não tenham que repetir essa situação vida
após vida.
Assim como o ego pode ser atrasado por tal fixação, a alma pode ser distorcida por
uma ênfase excessiva em direção a Gevurah, o que a fará demasiadamente
limitada, ou para Hesel, o que permitirá que ela relaxe em demasia.
A alma também pode opor-se totalmente ao que é certo, pois o livre-arbítrio pode
ser usado para o bem e para o mal.
Um exemplo do mal é o do grande criminoso que possui um profundo entendimento
da psique, e usa esse conhecimento para manipular os demais para os seus
próprios objetivos.
A moralidade começa nesse nível, pois a escolha abre o tipo de alternativas que
estão fechadas para as tríades laterais e inferiores da função psicológica.
Uma pessoa que esteja agindo a partir do ego pode nem sequer notar qualquer
questão moral, pois reagirá de acordo com os costumes locais, como aceitar a
escravidão ou o apartheid.
A alma é o lugar onde o indivíduo acede ao autoconhecimento.
É onde se mantém a essência do indivíduo.
Isso pode ser expresso como uma forma ou um símbolo especiais em um sonho.
Desse modo, um homem pode ver a própria alma como um caçador, e a mulher
pode ver-se como uma sacerdotisa.
Conhecem-se casos de pessoas que retrataram a própria alma como uma cidade-
fantasma ou como um templo delicado.
Algumas pessoas, inconscientemente, revelam o estado da alma por um lema
pessoal, como "sou uma rocha", ou "esperando", ou até mesmo "sou um perdedor
nato".
Essas frases muitas vezes surgem de maneira totalmente espontânea, quando a
alma indica em frases reveladoras como devem ser tratadas as lições da presente
encarnação.
Como parte do processo de individuação, a alma tem um papel da maior
importância.
Ela é o principal agente da observação do Si-mesmo, por ter uma posição
independente entre as tríades laterais e as faces superior e inferior da Árvore.
Nessa posição, pode tomar parte da maioria dos processos, embora possa também
ser prejudicada pelos elementos inferiores da psique.
Isso é descrito simbolicamente pela história de Cinderela, que, como a alma, é
destituída de seu verdadeiro lugar em sua própria casa pela madrasta, ou o lado de
Sombra do ego.
Forçada a morar e a trabalhar no porão, simbolicamente o nível inferior do corpo e
da pisque, Cinderela é auxiliada por sua fada-madrinha do Si-mesmo, para que
possa conhecer o principe do Espírito.
Esse processo é obstaculizado, porém, pela madrasta, em favor de suas feias irmãs
de criação, representando tríades laterais distorcidas, que se enfeitam com suas
personas, mas não são capazes de igualar a Beleza de Cinderela, nem mesmo
reconhecê-la após a transformação, quando os camundongos e a abóbora, níveis
animal e vegetal, são transformados pelo Si-mesmo em cavalos e em uma
carruagem que podem levar a alma de Cinderela para o Baile.
Aqui, o príncipe não tem olhos para mais ninguém, apesar da tentativa do ego de
manter Cinderela afastada de sua união ao destino.
Examinemos agora o Palácio do Espírito que existe no fundo da psique, onde
acontece o Sagrado Matrimônio do Rei e da Rainha interiores.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte 53

Espírito
Tal como a alma, a tríade do Espírito é de consciência, não de função.
Composta por Hokhmah, Binah e Tiferet, ela ocupa a parte inferior da face superior
da psique.
Isso quer dizer que ela encobre a face inferior do Mundo espiritual ou criativo de
Beriah, e portanto corresponde, no nível psicológico, ao transpessoal.
Com isso quer-se dizer que, ao contrário da alma, a tríade do Espírito está mais
ligada ao aspecto cósmico da psique do que ao individual.
É nela que a pessoa tem um sentido de lugar no Universo, mesmo percebendo que
não passa de um pontinho na imensidão do Espírito.
Essa é a vasta dimensão que algumas pessoas experimentam em sonhos e visões,
meditações e contemplação da parte transpessoal de seus próprios seres.
Situado no centro desse grande triângulo, formado pela Sabedoria, pelo
Entendimento e pela Verdade, está o espelho escuro de Daat, ou Conhecimento.
É o véu que encobre o Yesod, ou Fundação, do próximo Mundo da Criação, que está
por baixo do inconsciente coletivo.
Jung dizia que o inconsciente contém a contraparte do consciente, de maneira que
o que quer que seja observado no mundo exterior é espelhado na mente.
Por exemplo, quando olhamos para o céu à noite, percebemos apenas o que está
em nós mesmos.
Com radiotelescópios podemos ver mais, mas isso também é limitado pelo que
sabemos.
O mesmo é verdadeiro para a psique.
À medida que vamos penetrando no cosmo do inconsciente reconhecemos somente
aquilo de que somos cônscios.
Aprofundar a nossa percepção do mundo interior é alcançar essa mesma dimensão
cósmica.
Muitos místicos (e, de fato, psicóticos), que penetram intencional ou
inadvertidamente nessa dimensão transpessoal, descrevem algo que só pode ser
descrito como um universo interior, que conferia uma visão do macrocosmo
exterior.
Um homem, físico de profissão, quando estava sentado na praia viu
repentinamente tudo o que lhe haviam ensinado transformando em uma realidade
viva, ao perceber a dança cósmica em toda a sua volta.
Essa experiência espiritual tornou-se a base de um livro que relacionava a antiga
metafísica à ciência moderna.
De fato, por toda a história existem relatos de experiências semelhantes.
Alguns chamam isso de "consciência cósmica", outros de "experiência de pontal", e
outros ainda de "visão da entrada celestial".
Para a maioria das pessoas, esse nível cósmico é tão remoto quanto a Via Láctea,
pois o seu olhar está fixo nos eventos terrenos.
A lide cotidiana da vida é mais que suficiente para essas pessoas, e elas não se dão
conta de que mudanças grandes mas sutis estão ocorrendo no Universo e no
inconsciente coletivo.
Um profeta é alguém sensível a essa realidade, que percebe as correntes do tempo.
Essas pessoas podem, algumas vezes, discernir os acontecimentos que estão por
vir com grande precisão.
Isso é possível quando se tem acesso aos padrões e formas que estão sendo
criados na parte superior do Mundo de Yezirah.
Aqueles que desenvolveram a tríade Binah-Tiferet-Hokmah podem perceber o
estado de uma sociedade e prognosticar o seu futuro da mesma maneira que os
médicos podem predizer os padrões de crescimento de uma doença.
Cabalisticamente, a profecia é uma visão do funcionamento da Providência.
Desse modo, uma pessoa que opera a partir da tríade espiritual pode, algumas
vezes, ver de que maneira os acontecimentos vão se desdobrar.
No século XVI, por exemplo, havia um vidente chamado Brahan, que previu as
ferrovias.
Tal presciência era comum entre os curandeiros dos índios americanos e outros
xamãs primitivos.
Essas pessoas podiam captar formas que ainda não se haviam manifestado no
mundo físico.
Esse dom requer muitos anos, quando não diversas vidas, de desenvolvimento, ou
um Ato de Graça que às vezes confere tais visões.
A Bíblia os chamava de profetas menores.
No linguajar moderno eles são chamados de psíquicos, que nem sempre são
confiáveis quando se trata de interpretar, pois trabalham a partir dos pilares
laterais, e não do central, estando portanto influenciados por uma função
dominante.
A tríade do Espírito faz uma apreciação Yezirática e psicológica dos Princípios
Universais.
Isso é visto nas formulações arquetípicas do tipo das mandalas.
Por exemplo, os 64 hexagramas do I Ching são um conjunto de imagens
metafísicas da interação dos processos básicos que governam o Universo, ao passo
que o sistema astrológico é uma visão do Oriente Médio do cosmos interior e
exterior.
Outra formulação é o Alef-Bet dos hebreus, que contém o roteiro do drama da
Criação.
A visão que teve Ezequiel das Carruagens, do Trono e de um Homem flamejante é
uma imagem Yezirática do Universo, assim como os Livros de Enoch e das
Revelações.
Tudo isso tem origem na Tríade de Entendimento-Beleza-Sabedoria, pois não existe
nenhuma forma além, no Mundo do Espírito.
No centro dessa tríade está o não-Sefirah de Daat, o buraco negro do
Conhecimento Cósmico.
É nesse ponto que se ingressa na consciência cósmica.
Foi nesse nível que Buda viu a corrente de todas as suas vidas em um momento,
quando a face superior de Yezirah juntou-se à face inferior de Beriah, permitindo
que a luz do Divino Mundo de Azilut jorrasse através da porta escura de Daat para
iluminá-lo.
Buda foi um profeta maior.
Se olharmos para uma Árvore madura sob a luz do que aprendamos, veremos que
ela é composta de muitas diferentes partes que se foram acumulando lentamente e
refinando a sua capacidade ao longo dos anos.
Se o desenvolvimento envolvesse apenas isso, não seríamos mais que uma coleção
de mecanismos psicológicos ordenados por um sistema central de controle.
Mas não é assim, pois há também um processo de integração e unificação em
andamento, que amplia a nossa capacidade.
Assim, uma pessoa que contenha em seu corpo os reinos mineral, vegetal e animal,
e na mente os vários paralelos humanos, pode abranger esses níveis e relacioná-los
ao Universo.
É isso que faz do ser humano uma parte de um processo maior, e lhe concede o
acesso à experiência coletiva.
Assim, caso tenha alcançado o grau cósmico de consciência que é representado por
Binah-Tiferet-Hokhmah, a pessoa pode saber o que as demais fizeram, pensaram e
sentiram em qualquer lugar ou época.
Essa tríade psicológica do Espírito é um contato do indivíduo com o Grande Projeto.
Ela permite que a pessoa veja como ela se encaixa no fluxo e na manifestação do
tempo e do espaço, isto é, o ponto que ela alcançou no seu desenvolvimento, e
onde podem operar com maior eficácia como uma unidade útil no desdobramento
da Evolução.
Consideremos a pessoa que tem um desequilíbrio dos pilares laterais.
Tal indivíduo poderia não ser objetivo sobre o relacionamento entre homens e
mulheres.
Em compensação, um indivíduo que tenha atingido uma mistura do masculino e do
feminino dentro de si mesmo poderá relacionar-se com equanimidade tanto com
um como com outro, e será extremamente útil, pois suas opiniões serão
compreensivas e sábias.
Estes são aqueles que se casaram com o seu Adão e Eva.
Podem prestar um grande serviço para o Universo, de mais de uma maneira, e são
os andróginos psicológicos de que falava Jung.
Nem bissexuais nem assexuados, eles têm a capacidade de apreciar ambos os
pilares, pois juntaram o Rei e a Rainha de Hokhmah e Binah.
Quando um indivíduo atinge esse ponto do desenvolvimento interior, o seu centro
de gravidade passa do individual para o transpessoal.
Isso quer dizer que ele é capaz de perceber desde um nível objetivo, mesmo sendo
deste ou daquele sexo.
Isso é possível porque a integração da tríade espiritual concentra a consciência
pessoal, e a sua contraparte inconsciente, sobre um alinhamento com o Coletivo no
lugar em que os três mundos inferiores se encontram no Si-mesmo, conferindo-lhe
uma visão Universal.
A soma da dimensão espiritual ao lugar do Si-mesmo, além disso, põe o físico e o
psicológico em contato com o Cósmico, de maneira que o indivíduo possa vir a
saber o que é e qual o seu destino.
O aspecto cósmico da vida não tem sentido para a maioria das pessoas, embora
possa ser percebido na cultura e na religião, que são projeções externas desse
nível.
O judeu, o cristão ou muçulmano devoto podem ter versões diferentes da dimensão
espiritual, mas, se vissem através da "forma" Yezirática, perceberiam a mesma
realidade essencial que os hindus, confucionistas e outras tradições.
Os arquétipos cósmicos, tal como observou Jung, podem variar em estilo, mas não
existe urna diferença real entre eles.
Bem e Mal, Ordem e Caos são universalmente reconhecidos.
Os seres humanos, no entanto, podem operar em qualquer dos Mundos, de modo
que é possível para eles perceber, experimentar e trabalhar onde quiserem, se
tiverem a disposição para desenvolver todos os aspectos das suas possibilidades
Divinas, Espirituais, psicológicas e naturais.
Desde o ponto de vista cósmico, a raça humana está na Terra há relativamente
pouco tempo.
Aqueles que chegaram no princípio e passaram muitas vidas aprendendo acerca da
vida na materialidade estão agora amadurecidos e lideram as gerações mais jovens
da humanidade, que estiveram descendo à encarnação, de geração em geração, ao
longo dos últimos milênios.
Alguns desses indivíduos mais velhos são bem conhecidos por nós como profetas,
sábios e santos, mas muitos são completamente desconhecidos, como aqueles que
fazem a História.
Por exemplo, há aqueles que introduziram importantes idéias e invenções.
Ninguém sabe o nome da pessoa que trouxe os blocos de imprensa da China para a
Europa, mas esse ato mudou o curso da História ocidental, dando a milhões o
acesso ao conhecimento.
Aquele viajante vindo da China foi um instrumento do destino.
Quer tivesse ou não consciência de qual seria o resultado, não saberemos nunca.
Mas algumas pessoas vêem com certeza a sua tarefa, como o homem que compilou
um dicionário de uma língua há muito morta, que é agora a que se fala em Israel.
A originalidade é a marca distintiva da Criação.
Os que agem a partir do nível Beriático alteram a nossa visão da Existência com a
introdução de algo novo, como o grego que disse que o mundo é redondo ou o
brasileiro e os americanos que provaram que é possível voar.
Essas descobertas deslocam a percepção da realidade da humanidade.
Essa tríade possibilita o acesso à atmosfera celestial Beriática, onde surge a
inspiração.
Freud e Jung inspiraram-se nesse nível quando abriram a mente ocidental para o
cosmo interior do inconsciente.
A obra deles afetou a ciência, a arte e o comércio, a guerra e a propaganda, o
trabalho policial e a educação.
Eles abriram uma brecha justamente quando a religião ortodoxa começava a
apagar-se e a perder o domínio sobre muitas pessoas que procuravam uma entrada
para o Caminho do Espírito.
É interessante notar que tanto Freud como Jung nasceram ambos exatamente no
lugar e no momento certos para que pudessem conhecer-se e depois separar-se de
maneira a polimizar e estimular a psicologia clínica, tirando-a assim de sua fase
mecanicista.
Isso é obra da Providência, agindo através da tríade Espiritual dos inconscientes
individual e coletivo, para revelar o que está oculto por trás do não-Sefirah de
Daat, que encobre o Yesod de Beriah.
Quando uma pessoa é escolhida para cumprir alguma tarefa cósmica, não é
concebida e nasce segundo as leis comuns do carma ou da Sina mas sim de acordo
com as do Destino, que treinará e depois dirigirá o indivíduo, até que chegue o
momento em que o inteiro ser dele esteja sintonizado, interna e externamente, de
modo que o micro e o macrossomo possam agir em uníssono.
A tríade da Sabedoria, Entendimento e Beleza é o sexto nível dos sete "Vestíbulos"
da organização cabalística da psique.
A pessoa chega a esse Vestíbulo quando alcança o terceiro estágio do Si-mesmo.
Isso quer dizer que ela é senhora de seu próprio corpo e de sua própria psique,
pode controlar as tríades laterais e tem consciência do nível da Alma.
Isso permite que ela contenha os Mundos de Assyah e Yezirah e que vá para Beriah
quando queira, de maneira que possa andar, falar, pensar e sentir sem perder o
contato com o Mundo do Espírito.
Tal grau de realização indica que o processo psicológico de amadurecimento está
quase completo.
O último e mais alto Vestíbulo da psique é a tríade formada por Binah, Hokhmah e
pelo Keter de Yezirah, logo abaixo do lugar onde se encontram os três Mundos
superiores.
Aqui, na Coroa da psique, o indivíduo entra em contato direto com o Mundo Divino
de Adão Kadmon.

Continua
Cabala e Psicologia – Parte Final

Divindade
A dimensão Divina da psique está contida na tríade da Sabedoria, Entendimento e
Coroa de Yezirah.
Aqui, o ápice do organismo psicológico toca o lugar onde os três Mundos superiores
se encontram.
Nessa posição ela tem acesso ao mais alto limite da psique, à zona central do
Espírito e ao nível mais baixo do reinado da Emanação.
Isso confere a esse lugar uma qualidade especial, por ser onde a Luz da Divindade
toca a psique, dando-lhe uma visão do Mundo dos Sefirot.
Em termos de experiência humana, essa dimensão retira a consciência da
fisicalidade, através das formas em constante mudança da psique, para levá-la aos
espaços profundos do Espírito e para a Eternidade.
Esse momento é concedido a todas as pessoas, em algum ponto de suas vidas.
Alguns o vêem como um momento de profunda iluminação, outros como um
vislumbre daquilo que mantém a Existência coesa, e outros ainda como um instante
de realização do Si-mesmo.
A imagem de pura consciência simbolizada pela Luz vem diretamente do Mundo de
Azilut, através do Keter de Yezirah, ou Coroa da Formação, descendo diretamente
pelo eixo central da psique para o Si-mesmo, onde é percebida pelo Espírito, pela
alma e pelo corpo.
De fato, qualquer pessoa que tenha experimentado essa conexão Divina
compreende que ela é, com efeito, sempre refletida no "Espelho Luminoso" do
Tiferet psicológico.
Apenas quando nos erguemos para fora do domínio do corpo e passamos através
dos limites dos inconscientes pessoal e coletivo é que vemos a fonte da nossa
iluminação jorrando da tríade Binah-Keter-Hokhmah no alto da Arvore psicológica.
Um símbolo desse nível é o olho sempre aberto usado para indicar o SI-MESMO
superior.
Cabalisticamente, esse SI-MESMO superior, onde os três mundos superiores se
encontram, é o Vigia do Si-mesmo onde os três mundos inferiores se encontram.
Entre os dois está o Daat Yezirático, que não somente oculta a Luz Azilútica que
desce da Coroa como também esconde o Yesod Beriático, ou Formação da Criação.
Aqui também está o Ruah Ha Kodesh, ou Espírito Santo, cujo mensageiro, o
arcanjo Gabriel, serve como anunciador quando o SI-MESMO quer dirigir-se ao
Si-mesmo.
Paradoxalmente o Daat, ou Conhecimento, é a cortina escura que está entre a
pessoa e o seu "Senhor".
Tradicionalmente, esse é o Nome Divino dado ao Malkhut de Azilut, através do qual
o SI-MESMO se expressa em conjunção com o Tiferet do Espírito e o Keter da
psique.
Juntos, os dois compõem um ponto de comunicação Divina e cósmica com a Coroa
da psique.
Assim, eles têm o mais profundo efeito sobre o inconsciente, pois são a base da
realidade interior da psique.
Sem que esses dois níveis superiores toquem a psique, a vida é grosseira,
mesquinha e sem propósito.
As pessoas que negam essas dimensões superiores acham-se em um terrível
dilema.
Nada faz sentido.
Tudo é acidente, no final a morte, e a vida delas é inútil.
Um exemplo disso é o do médico brilhante que acreditava que a psique fosse um
produto do cérebro.
Ele temia a loucura e a morte porque via Deus como uma projeção humana.
Para ele não havia nada além da consciência do ego ou da tumba.
Essa posição está afastada da Luz de Azilut, naquilo que alguns chamam de "Treva
Exterior".
No outro prato da balança, para aqueles que se elevaram a essa mais alta tríade da
psique e fazem a união de Hokhmah e Binah, ou Sefirot da Revelação e Razão, há o
contato direto com o Mundo de Azilut, quando atingem o Keter de Yezirah.
Esse processo final unifica a psique e leva o Espírito e a Divindade a uma relação
consciente.
Chama-se a esse estado de exaltação ser "Ungido", quando a Graça desce e se
impregna no indivíduo.
O significado de se tornar "Ungido" é que quem quer que chegue a esse estágio de
integração atinge a plena realização terrena do SI-MESMO.
Diz-se que é preciso que haja sempre um ser humano sobre a Terra consciente
desse nível enquanto está encarnado.
Segundo uma tradição, todos passarão por essa experiência em algum ponto da
sua jornada de evolução, embora apenas alguns serão reconhecidos publicamente,
como Buda e Jesus de Nazaré.
Muitos místicos deixaram indicações de terem alcançado esses estado sublime.
Plotino disse: "Esta Luz vem do Supremo e é o Supremo".
Os Sufis chamam a pessoa que está nessa posição de "Katub", ou "Eixo da Idade",
e têm para isso um bom motivo, pois ela é, nesse momento, o pináculo da
humanidade encarnada, e o contato desta com o Divino, através da Coroa da sua
psique.
Atingir esse nível Divino de consciência, diz-se, leva muitas vidas, ou então requer
um intenso esforço físico, psicológico e espiritual, ou um Ato de Graça.
No entanto, nem todos os que buscam essa meta são autênticos em seus motivos.
Não poucos, entre eles pelo menos um imperador romano, acreditam ser Divinos.
Essas pessoas, em termos junguianos, estão muitas vezes possuídas pelo arquétipo
da Deidade, que se expressa em uma megalomania na qual o Si-mesmo controlado
Lucifericamente venera a própria imagem.
Por outro lado, para os bons e sinceros é perfeitamente possível receber uma
iluminação que vem de um contato direto com a Divindade, o que confere a tais
pessoas uma estranha qualidade de estarem banhados em Luz.
Tanto Moisés quanto Maomé possuíam essa irradiação, devido ao seu encontro com
Deus, e ambos tinham que cobrir o rosto com um véu — isto é, fechar o Daat e
investir-se de uma persona Yesódica, de modo a poderem relacionar-se com as
pessoas.
Essa presença radiante também pode ser vista em mulheres grávidas felizes, em
pessoas realmente apaixonadas e em indivíduos altamente evoluídos, quando a Luz
da Divindade desce da Coroa da psique para penetrar no corpo, conferindo-lhe uma
qualidade claramente luminosa.
Os que meditam adquirem algumas vezes esse brilho, assim como as pessoas
altamente contemplativas e aquelas que procuram agir sempre com base naquilo
que têm de mais elevado.
Isso indica o quão poderoso pode ser esse momento de consciência Divina, que não
é tão raro quanto parece.
A maior parte das pessoas teve pelo menos um encontro com o Divino.
Muitos menosprezam-no como um truque da luz, ou como um estado alterado da
mente, mas alguns o percebem como algo que foi, é e será um dos momentos mais
solenes de suas vidas, quando vêem que tudo é Um.
Desde um ponto de vista estritamente psicológico, não há como definir um
momento como esse.
Diz-se que o misticismo é uma forma de loucura, mas não se trata disso, pois o
místico não vê senão beleza, ordem e propósito, enquanto o psicótico percebe
exatamente o contrário.
O louco pode ter uma visão dos Mundos superiores, mas a sua percepção é
diferente da do místico, que é disciplinado, concentrado e tem controle sobre a
Árvore psicológica, de maneira que o raio de Luz Divina e os Ventos Cósmicos não
atravessam violentamente nem perturbam a fase inferior da psique.
É por essa razão que os Filhos de Israel foram proibidos de subir na Montanha
Sagrada.
Eles não estavam ainda suficientemente desenvolvidos para receber a Radiação
Sagrada que repousava no cume do Monte Sinai, que representa a Coroa da
psique.
É aqui que o Fogo ou Luz de Azilut e a Nuvem, que é uma mistura de ar e água de
Beriah e Yezirah, se encontram no lugar superior do Divino, Espírito e psique.
O Senhor disse a Moisés, em Éxodo XIX:21: "Desce, avisa as pessoas que não
devem forçar a passagem a YHVH para ver, pois muitos perecerão".
Contudo, o versículo seguinte diz: "Mas deixa que os sacerdotes se aproximem do
Senhor, embora eles tenham que santificar-se para que o Senhor não caia sobre
eles".
Nessa tradução livre são colocados dois níveis diferentes.
Há sacerdotes que não estão ainda desenvolvidos, simbolizados pelo israelitas, e
sacerdotes que possuem algum conhecimento e experiência.
Mesmo assim, esses iniciados ainda tinham que se preparar e ser santificados para
um encontro com o Divino.
Isso significa um treinamento longo e rigoroso sob direção competente.
É aqui que a psicologia chega ao seu limite, e a progressão torna-se uma disciplina
espiritual, que tem uma ordem de critérios completamente diferente.
O caminho espiritual é um compromisso profundo com a Obra da Unificação, tal
como é chamado na cabala.
Em termos junguianos, o arquétipo do SI-MESMO é o Princípio Divino da Unidade.
Como tal, procura levar tudo a uma inteireza, levando Adão Kadmon da inocência à
experiência.
Mandados para o nível mais baixo da Existência, abrimos lentamente o nosso
caminho de volta através de todos os Mundos, vida após vida, em uma jornada de
individuação que diferencia e integra a parte específica de que viemos de Adão
Kadmon.
Quando todos tenham alcançado o próprio destino, diz a Tradição, a educação de
Adão Kadmon estará completa.
Nessa realização máxima da contemplação do SI-MESMO, o que contempla e o
reflexo tornam-se um quando Deus olhar para Deus na imagem do Divino.
Então, diz-se, todos os Sefirot vão-se fundir em um ponto de consciência total
conhecido pelo Santo Nome de SOU O QUE SOU.
Até que chegue esse momento, deixemos que a Obra da Unificação siga em frente.

Amém. Assim seja.

Por: Z’ev Ben Shimon Halevi