Você está na página 1de 3

ASSUNTO: MOBILIDADE INTERCARREIRAS E CATEGORIAS.

Informação GJANMP n.º: 113/07/2015

Solicita o Município de --- a emissão de parecer sobre o assunto supra referenciado, que se prende, a final, em
saber da possibilidade e requisitos para a ocupação de postos de trabalho, pela via da mobilidade intercarreiras e
intercategorias.

Colocado o problema, cumpre, pois, informar:

1. Com a entrada em vigor da Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas (LTFP), aprovada em anexo à Lei n.º
35/2014, de 20 de Junho1, o regime aplicável à mobilidade2 passou a constar dos seus artigos 92.º a 100.º e 153.º;
relevando acrescentar que, de grosso modo, a LTFP mantém as soluções do regime anterior3.

2. A mobilidade é um instrumento de gestão de recursos humanos da Administração Pública que continua, na


essência e por princípio, a ser pautado e necessariamente fundamentado na conveniência para o interesse
público4 -- designadamente por motivações de economia, a eficácia e a eficiência – e que exige, sempre, a
titularidade de habilitação adequada do trabalhador e, a montante, o cumprimento de outras formalidades e
requisitos legais.

3. Entre tais formalidades e requisitos ressalta a demonstração do cumprimento do artigo 62.º da Lei n.º 82-
B/2014, de 31 de Dezembro, que aprovou a Lei do Orçamento de Estado de 20155 e, bem assim, e sempre
cumulativamente, o cumprimento do requisito da prévia previsão e caracterização em mapa de pessoal6, a par da
correspondente orçamentação das despesas com pessoal.

1
Objecto da Declaração de Rectificação n.º 37-A/2014, de 19 de Agosto e de alteração pela Lei n.º 82-B/2014, de 31 de
Dezembro.
2
Mobilidade interna ao abrigo da revogada Lei de Vínculos, Carreiras e Remunerações (LVCR), revogada, precisamente, pela
LTFP, com excepção das normas transitórias abrangidas pelos artigos 88.º a 115.º.
3
Previstas nos artigos 59.º a 65.º da LVCR.
4
Com efeito, ainda que a sua iniciativa possa caber ao trabalhador, só poderá concretizar-se, sem prejuízo dos restantes
requisitos previstos, se se demonstrar conveniente para o interesse público. Tal significa que não há um direito à mobilidade
por parte dos trabalhadores e que a mesma não pode resultar de um mero interesse particular do trabalhador.
5
Cfr. Circular ANMP sobre o artigo 62.º n.º CIR_21-2015_SA, de 20/02/2015.

6
Entendemos que os postos de trabalho previstos no mapa de pessoal do Município, e respectivamente orçamentados, reportam-
se a todas as formas de ocupação de um posto de trabalho (ocupados ou que se preveja ocupar), i.e., independentemente da
modalidade de vinculação (nomeação, contrato ou comissão de serviço), da duração da ocupação (permanente ou transitória)
ou, do modo de recrutamento para a sua ocupação, seja ele a designação, o procedimento concursal ou a mobilidade (e mesmo
a cedência de interesse público).
Não ignoramos que a Direcção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP) perfilha em diferente sentido,
defendendo que
“(…) é o que resulta da conjugação dos artigos 6º/2, 59º, 60º/4, e 64º/2-d) da LVCR, este último a contrario. Nos termos
destes dispositivos não constitui pressuposto para recurso à mobilidade a existência de posto de trabalho não ocupado
no mapa de pessoal. A mobilidade é sempre um exercício transitório de funções que, não raras vezes, tem subjacente
necessidades/situações que não eram previsíveis aquando do planeamento anual. De notar que também no anterior
regime de mobilidade (requisição, destacamento) os trabalhadores não ocupavam lugar do quadro, não tendo o
legislador da LVCR inovado nesta matéria.”
Percebendo e respeitando tal entendimento no que respeita ao âmbito da Administração Central em sentido lato -- que partilha
do mesmo “bolo” orçamental e onde não entram por mobilidade trabalhadores das administrações regionais e autárquicas, realce-
se – não o transpomos tout court para a Administração Local, atendendo à Autonomia das Autarquias Locais, autonomia
abrangente e consagrada constitucionalmente, que abrange não apenas património e finanças próprios (artigo 238.º da CRP),
mas também a existência de mapas de pessoal próprios (artigo 243.º da CRP).
Neste enquadramento e confrontados os propósitos e termos supra expostos dos mapas de pessoal e orçamentação das
correspondentes despesas, somos de opinião que a transposição e aplicação do entendimento da DGAEP à Administração Local

Página 1 de 3
Gabinete Jurídico da Associação Nacional de Municípios Portugueses (GJANMP)
4. Nas situações trazidas pelo Município consulente, em causa eventuais mobilidades intercarreiras ou categorias,
modalidades que nos termos do n.º 3 do artigo 93.º da LTFP operam “para o exercício de funções não inerentes à
categoria de que o trabalhador é titular e inerentes:

a) A categoria superior ou inferior da mesma carreira; ou

b) A carreira de grau de complexidade funcional igual, superior ou inferior ao da carreira em que se


encontra integrado ou ao da categoria de que é titular”.

5. Nessa eventualidade, de mobilidades intercarreiras ou categorias, pertinente também relembrar que ao abrigo
das Leis do Orçamento do Estado (LOE) dos anos 2011, 2012 e 20137 vigorou uma (ainda mais) ampla proibição
de valorizações remuneratórias que abarcava, inclusivamente, todas as modalidades de mobilidade (ao tempo,
interna).

Todavia, desde a publicação e entrada em vigor do n.º 3 do artigo 39.º da LOE 20148, e depois com o n.º 3 do
artigo 38.º da LOE 20159, que as situações de mobilidade nas modalidades intercarreiras ou intercategorias foram
excluídas da proibição de valorizações remuneratórias.

Assim, sem prejuízo do cumprimento dos restantes requisitos exigidos (cfr. os pontos 2 e 3 da presente
informação), desde 01 de Janeiro de 2014 que qualquer trabalhador que se encontre em situação de mobilidade
a exercer funções de outras carreiras ou categorias, passou a ser remunerado, primeiro de acordo com os n.ºs 2
a 4 do artigo 62.º da LVCR e, a partir de Setembro de 2014, de acordo com os n.ºs 2 a 4 do artigo 153.º da LTFP10.

6. Posto isto, importa agora aludir à remuneração de tais situações e, por conseguinte, ao supra apontado artigo
153.º da LTFP.

E no domínio deste artigo, não obstante reconhecermos que a sua formulação é muito confusa e potenciadora de
dúvidas e de diferentes interpretações, sempre avançamos com algumas conclusões que retiramos do seu
articulado:

a) Como premissa base, o trabalhador nunca pode ficar a auferir uma remuneração menor (Cfr. o n.º 2 do
artigo 153.º);

b) Se a primeira posição remuneratória da carreira/categoria onde o trabalhador vai exercer funções


(destino) for superior à primeira posição remuneratória11 da carreira/categoria onde o trabalhador se
encontra a exercer funções (origem), a sua remuneração será acrescida para a posição/nível
remuneratório da carreira/categoria de destino, “superior mais próximo daquele que corresponde ao seu
posicionamento na categoria de que é titular” (Cfr. o n.º 3 do artigo 153.º);

apenas colhe quando se tratar de mobilidade de trabalhadores dentro do mapa de pessoal do Município que não impliquem
aumento dos postos de trabalho ou da despesa.
7
Primeiro pelo artigo 24.º da Lei n.º 55-A/2010, de 31 de Dezembro (LOE 2011), cujos n.ºs 1 a 7 e 11 a 16 foram mantidos em
vigor pelo n.º 1 do artigo 20.º da Lei n.º 64-B/2011, de 30 de Dezembro (LOE 2012) e depois pelo artigo 35.º da Lei n.º 66-B/2012,
de 31 de Dezembro (LOE 2013).
8
Aprovada pela Lei n.º 83-C/2013 de 31 de Dezembro.
9
Aprovada pela Lei n.º 82-B/2014, de 31 de Dezembro.
10
Normativos que se encontraram suspensos na vigência das LOE´s 2011, 2012 e 2013.
11
Por outras palavras, corresponde ao “nível remuneratório da primeira posição daquela de que é titular” previsto pelo n.º 3 do
artigo 153.º.

Página 2 de 3
Gabinete Jurídico da Associação Nacional de Municípios Portugueses (GJANMP)
c) Não se verificando o prescrito pela primeira parte alínea anterior, o trabalhador poderá ser “remunerado
pela posição remuneratória imediatamente seguinte àquela em que se encontre posicionado na
categoria”, ou seja, pela posição remuneratória seguinte na carreira/categoria de origem (Cfr. os artigos
153.º, n.ºs 4 e 1 da LTFP).

6.1 Por outras palavras e em síntese, afigura-se-nos resultar daquele artigo 153.º que na situação de mobilidade
intercarreiras ou categorias, na comparação das bases remuneratórias (i.e, das 1.ª posição e nível
correspondente12) das carreira/categoria de origem (de que é titular) com a carreira/categoria de destino (onde o
trabalhador vai exercer funções em mobilidade), teremos que:

i. Quando a base da carreira/categoria de destino for superior à base da carreira/categoria de origem, o


trabalhador passará a ser remunerado pela posição/nível remuneratório superior mais próximo da carreira
de destino.

ii. Tal não sucedendo, ou seja, quando a base da carreira/categoria de destino for inferior à base da
carreira/categoria de origem, poderá ser remunerado pela posição remuneratória seguinte da
carreira/categoria de origem.

É o que, sem prejuízo de melhor opinião, nos oferece dizer sobre o assunto.

Susana Alves
(Jurista GJANMP)

Fátima Diniz
(Responsável pelo GJANMP)

21 de Julho de 2015

12
Em regra porque, de facto, mais entendemos que na especificidade da situação de mobilidade intercarreiras para a carreira
técnico superior, tal cânone admite declinações que se prende com a destrinça da posição remuneratória de base, consagrada
pelo Legislador, conforme os trabalhadores sejam, ou não, em concreto, titulares de licenciatura.

Página 3 de 3
Gabinete Jurídico da Associação Nacional de Municípios Portugueses (GJANMP)

Você também pode gostar