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Introdução aos Estudos Africanos e da Diáspora

Capítulo 2.

A invenção da África

Profª. Drª. Claudia Mortari Malavota

“Até que os leões tenham suas histórias, os contos de caça glorificarão sempre o caçador”.
(Provérbio africano)

O provérbio que escolhemos para iniciar este capítulo tem como objetivo
fomentar a reflexão acerca da construção de uma historiografia acerca da África. Que
histórias elas contam ou constróem em diferentes momentos? Com que objetivo? Elas
são isentas do contexto em que estão inseridas ou da perspectiva através da qual os
historiadores falam? Como compreender o processo de formação de diferentes discursos
históricos?
O objetivo deste capítulo consiste em problematizar estas questões. É preciso
identificar e caracterizar alguns períodos da produção de uma história africana visando
compreender as suas diferenças e o fato de que a sua construção é marcada por
interesses e perspectivas diversas conforme o contexto. Além disso, temos que ter
presente que a constituição desta área de estudos é caracterizada pela abordagem
interdisciplinar e que várias fontes históricas nos permite construir uma imagem
possível do seu passado.
Bem, você pode estar se perguntando: o que isso tem haver com a prática do
ensino de história da África?
Pois bem, podemos responder essa questão a partir de dois pontos. O primeiro
diz respeito a questão de que para nós saber analisar as abordagens historiográficas
permite identificar com qual delas queremos dialogar para a prática de um ensino sobre
a temática que não esteja carregada de estereótipos e de preconceitos. O segundo se
refere a possibilidade de utilizarmos fontes históricas (orais, escritas, iconográficas)
para o ensino da temática em sala de aula e, portanto, irmos para além apenas do uso do
livro didático.
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Além disso, é importante que compreendamos que a própria produção


historiográfica está inserida em relações de poder e que muitos discursos e visões acerca
da África e de suas populações, que persistem até hoje no imaginário popular e escolar,
é fruto de um contexto em que os objetivos de domínio do território e da sua população
estavam na sua base. Portanto, precisamos pensar que falar sobre história significa falar
de relações de poder.
Você já assistiu a palestra da escritora Chimamanda Ngozi Adichie proferida no
programa televisivo ―TED 2009‖, cujo título é “O perigo de uma história única”? Pois
bem, o vídeo está disponível na plataforma como material de apoio. Sugerimos que
você assista antes de iniciar a leitura deste capítulo. Neste momento faremos referência
a um determinado momento da fala na qual ela chama a atenção para a questão da
história única e a sua relação com o poder.

“É impossível falar sobre história única sem falar de poder. Há uma palavra, uma palavra da
tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas do poder no mundo, é a palvra
“nkali”. É um substantivo que livremente se traduz: “ser maior do que o outro”. Como nossos
mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio do “nkali”. Como
são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente
depende do poder. Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas
de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que
se você quiser destruir uma pessoa, o jeito mais simples é contar a sua história e começar com
“em segundo lugar”. Comece uma história com as flechas dos nativos americanos e não com a
chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente. Comece a história com o
fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma
história totalmente diferente.”

As palavras acima nos permite pensar: afinal, como esta questão do poder está
presente na produção do conhecimento histórico acerca da África e de suas populações?
Os autores que analisaram a construção da
historiografia africana apontaram alguns
Aqui sugerimos o estudo do texto
pressupostos de como a África é apresentada nas de Boubacr Barry, Senegâmbia. O
produções ocidentais e na dos próprios africanos. A desafio da História regional.
Disponível nas leituras
classificação dessas obras foi realizada por Carlos complementares.
Lopes, cientista social guienense e, segundo o qual,
existiriam três grupos nos quais podem ser
apontadas visões comuns das diversas produções historiográficas acerca da África, a
partir do século XIX, a saber as correntes: da Inferioridade Africana, da Superioridade
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africana e da Nova Escola de Estudos Africanos. Tomando como base essa classificação
realizaremos a discussão que segue.

A invenção da África ou a corrente da inferioridade africana.


Esta corrente historiográfica, inserida no contexto do século XIX, possuía uma
perspectiva na qual as populações africanas, principalmente aquelas localizadas na
região sul saariana, eram vistas como destituídas de história por não terem códigos
escritos e por serem classificadas como tradicionais. É o período, daquilo que vamos
denominar de invenção da África (Hernandez, 2005) no qual se consolida o discurso do
racismo científico justificador da exploração do continente e de suas populações pelas
potências européias que estavam se expandindo no contexto.
Porque o termo ―invenção da África‖?
Segundo Hernandez (2005) e Serrano (2007) a África foi inventada porque a
imagem que foi construída em relação a esta está pautada em critérios exteriores à ela,
quase sempre elaborados por europeus ou muçulmanos. Por exemplo, os nomes que
foram utilizados para designar a África e as suas populações por outras sociedades e
tempos históricos indicam que o que marcou o contato entre os diversos povos foi o
estabelecimento das diferenças, do estranhamento e das comparações negativas.
Características como cor da pele escura, formato do nariz e dos cabelos, as diferentes
formas de organização social e práticas culturais serviram como critérios para o
estabelecimento destas diferenças.
Segundo M´Bokolo (2008), na Antigüidade, a África era chamada de Etiópia, e
os africanos, de etíopes. Para os muçulmanos, eram o Sudão e seus homens. Para os
viajantes dos séculos XV e XVII, eram a Guiné e seus estranhos moradores. Mas,
segundo Hernandez (2005) no século XVIII e XIX se desenvolve e se consolida na
Europa, respectivamente, um saber dito ―moderno‖ e ―científico‖ que propunha que
apenas ―alguns‖ são capazes de produzir conhecimento, de elaborar uma nova visão de
mundo. É a chamada consciência planetária (PRATTT, 1999), forma de pensamento
constituída por visões de mundo, auto-imagens e estereótipos que compõem um ―olhar
imperial‖ sobre o universo, visão que conhecemos com o nome de eurocentrismo.
Qual o resultado dessa visão?
A produção sobre a África (final do século XIX e meados do século XX) é
repleta de equívocos, pré-noções e preconceitos derivados desse olhar e do
desconhecimento sobre o continente e suas populações.
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A base que serviu como concepção teórica para fundamentar esse olhar foram os
sistemas classificatórios, da História
Natural, que a princípio foram
utilizados para classificar o reino Homem selvagem. Quadrúpede, mudo, peludo.
b. Americano. Cor de cobre, colérico, ereto. Cabelo
vegetal, mas que acabaram por se negro, liso, espesso; narinas largas; semblante
estender ao humano. A exemplo do rude; barba rala; obstinado, alegre, livre. Pinta-se
cm finas linhas vermelhas. Guia-se por costumes.
Sistema Naturae, de Charles Linné, c. Europeu. Claro, sangüíneo, musculoso; cabelo
1778 que se tornou o marco deste louro, castanho, ondulado; olhos azuis; delicado,
processo, que apresentamos ao lado. perspicaz, inventivo. Coberto por vestes justas.
Governado por leis.
Como se pode perceber, pela d. Asiático. Escuro, melancólico, rígido. Cabelos
negros; olhos escuros; severo, orgulhoso, cobiçoso.
classificação a categorização dos Coberto por vestimentas soltas. Governado por
humanos é explicitamente opiniões.
e. Africano. Negro, fleumático, relaxado. Cabelos
comparativa e na qual se estabelece o
negros, crespos. Pele acetinada; nariz achatado,
mito da superioridade européia e os lábios túmidos; engenhoso, indolente, negligente.
africanos passam a ser vistos através Unta-se com gordura. Governado pelo capricho.

da noção de raça negra.


Pois bem, no contexto das duas últimas décadas do século XIX encontrava-se no
auge o paradigma de modernidade que enaltecia o progresso e a civilização ocidental,
no qual a hierarquia e a classificação acima serão utilizadas para caracterizar homens e
nações. Acrescida de um novo ingrediente: a ideia de que as raças – branca, amarela,
vermelha e negra –, tinham diferentes
níveis de evolução e as suas
Racialismo.
características seriam herdadas Segundo Appiah, a teoria racialista parte do
biologicamente. Esta perspectiva princípio que existem características hereditárias,
possuídas por membros de nossa espécie, que
racialista e racista, segundo o filósofo nos permitem dividi-los num pequeno conjunto
africano Kwame Appiah, atribuía as de raças, de tal modo que todos os membros
dessas raças compartilham entre si certos traços
características biológicas, aptidões
e tendências que eles não têm em comum com
intelectuais e atribuições morais, membros de nenhuma outra raça. Esses traços e
legitimando a classificação e a tendências são uma espécie de essência racial
(pré-disposições morais e intelectuais). Portanto,
hierarquia entre as raças. Portanto, esse as características hereditárias essenciais da raça
“conhecimento reconhecido como correspondem mais do que as características
morfológicas visíveis – cor de pele, tipo de cabelo,
científico sustentava o princípio não
feições do rosto – com base nas quais formamos
razoável de que as diferenças nossas classificações informais. O Racialismo é
equivaliam às desigualdades”. um pressuposto de outras doutrinas que
chamamos de Racismo.
(Hernandez, 2010, p. 220)
Qual o resultado disso?
Bem, podemos afirmar que essa concepção é causadora de muito sofrimento na
história do mundo e que, ainda hoje, serve de base para o estabelecimento do
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preconceito, da inferioridade e da exclusão das populações africanas e afro-


descendentes.
Do ponto de vista do conhecimento histórico, essa forma de pensamento foi
acrescida de lacunas acerca da África e de suas populações “perdendo-se em
generalizações de histórias particulares de povos, lugares, processos sociais e
dinâmicas culturais da costa Atlântica para toda a „África Negra‟” (Hernandez, 2010,
220).
Exemplo característico desta visão é o filósofo Friedrich Hegel (1770- 1831),
segundo o qual, a África sul saariana é marcada pela ausência de história (aistoricidade)
em função de duas questões: primeiro porque a esta é entendida como própria do Velho
Mundo, lê-se Europa; e segundo por conceber o africano como sem autonomia para
construir sua própria história. Vale lembrar que o autor vê o continente formado por três
partes distintas: a África setentrional ligada ao Mediterrâneo que, na visão do autor, não
pertence propriamente à África mas sim à Espanha; a África Meridional, que contém o
Egito; e a África propriamente dita, ao sul do Saara e praticamente desconhecida, a
Negra. Segundo as palavras do autor citadas por Hernandez (2005, p. 19-20):

A África propriamente dita é a parte característica deste continente.


Começamos pela consideração deste continente, porque em seguida podemos
deixá-lo de lado, por assim dizer. Não tem interesse histórico próprio, senão
o de que os homens vivem ali na barbárie e na selvageria, sem fornecer
nenhum elemento à civilização. Por mais que retrocedamos na história,
acharemos que a África está sempre fechada no contato com o resto do
mundo, é um Eldorado recolhido em si mesmo, é o país criança, envolvido na
escuridão da noite, aquém da luz da história consciente. [...] nesta parte
principal da África, não pode haver história.

Numa contraposição a esta visão e, portanto, estabelecendo uma crítica


contundente à ela, M´Bokolo (2008) vai afirmar que o trabalho dos homens da ciência
produziu estereótipos persistentes pois apareciam aparelhados com os emblemas da
legitimidade científica ou acadêmica mas que nada mais são do que mitos. Os primeiros
a escreverem sobre a história da África foram estrangeiros e tiveram conseqüências
sobre as produções posteriores da historiografia.
É importante considerar que o contexto da construção dessa historiografia é
caracterizado por relações desiguais entre os africanos e aqueles que produziram essa
história. Aparece o comportamento, o maravilhoso, o paganismo, a negação da
humanidade destes homens e mulheres com o objetivo de transformá-los em
mercadoria. Para acrescentar este quadro, os africanos formados pelas escolas
europeias, na primeira metade do século XX, acabaram por incorporar as hipóteses e
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conclusões conferindo-lhes o carimbo da autenticidade a exemplo do uso historiográfico


do conceito de raça que discutimos anteriormente.
E se pensamos que tal perspectiva deixou de existir, estamos enganados. Estes
mitos ainda estão presentes no imaginário popular bem como no acadêmico. Quer um
exemplo? Poderíamos citar vários. Mas vamos fazer referência aqui ao que você leu no
capítulo I acerca das pesquisas realizadas por CARDOSO e OLIVA: África selvagem,
fome, miséria, tribos etc. Além disso, no quadro a seguir você tem outro exemplo.

“Ainda que a influência direta de Hegel na elaboração da história da África tenha sido fraca, a
opinião que ele representava foi aceita pela ortodoxia histórica do século XIX. Essa opinião
anacrônica e destituída de fundamento ainda hoje não deixa de ter adeptos. Um professor de
história moderna na universidade de Oxford, por exemplo, teria declarado: ‘Pode ser que, no
futuro, haja uma história da África para ser ensinada. No presente, porém, ela não existe; o que
existe é a história dos europeus na África. O resto são trevas... e as trevas não constituem tema
de história. Compreendam-me bem. Eu não nego que tenham existido homens mesmo em
países obscuros e séculos obscuros, nem que eles tenham tido uma vida política e uma cultura
interessantes para os sociólogos e os antropólogos; mas creio que a história é essencialmente
uma forma de movimento e mesmo de movimento intencional. Não se trata simplesmente de
uma fantasmagoria de formas e de costumes em transformação, de batalhas e conquistas, de
dinastias e de usurpações, de estruturas sociais e de desintegração social...’ Ele argumentava
que ‘a história, ou melhor, o estudo da história, tem uma finalidade. Nós a estudamos (...) a fim
de descobrir como chegamos ao ponto em que estamos’. O mundo atual, prosseguia ele, está a
tal ponto dominado pelas idéias, técnicas e valores da Europa ocidental que, pelo menos nos
cinco últimos séculos, na medida em que a história do mundo tem importância, é somente a
história da Europa que conta. Por conseguinte, não podemos nos permitir ‘divertirmo-nos com o
movimento sem interesse de tribos bárbaras nos confins pitorescos do mundo, mas que não
exerceram nenhuma influência em outras regiões’”.

Fage, 1982, p. 49. As citações utilizadas por Fage da palestra do referido professor no texto
foram tiradas da abertura do primeiro ensaio de uma série de cursos proferidos pelo mesmo
intitulada a Ascensão da Europa Cristã, em 1963.

Olhar a África pelos pressupostos africanos ou a corrente da superioridade


africana.
A corrente da superioridade africana, do período da segunda metade do século
XX, possuía como característica comum construir uma nova visão acerca da história da
África e de suas populações, colocando estas como central para pensar, inclusive, a
história ocidental. Portanto, perceber a África a partir dela mesma pautado no estudo e
na discussão de obras de historiadores africanos e de africanistas não eurocêntricos.
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Como coloca Ki-Zerbo (1982, p. 39): “A história da África não será escrita por
frenéticos da reivindicação. Nem pelos diletantes acadêmicos. Tratar-se-á de pesquisa
humanista. Ela será escrita, sobretudo, por africanos que entendam o passado como o
local de onde se deve haurir energias espirituais e rituais de viver”.
É importante fazer referência aqui ao contexto de produção dessa corrente dos
estudos africanos. De acordo com Blajberg, no contexto do pós-guerra com o processo
de descolonização e a entrada maciça dos africanos como sujeitos na História e Ciências
Contemporâneas, começa a perder terreno o exotismo científico que cercava os Estudos
Africanos — o Estudo da África em sua totalidade passa a considerar o vínculo colonial
que se afrouxa e a estudar criticamente todas as outras abordagens que tinham
proeminência anteriormente. Ganha espaço na discussão a Sociologia e, principalmente,
a Sociologia do (sub) Desenvolvimento.
A partir das experiências e desilusões que seguem à independência gradual ou
violenta dos povos africanos, na década de 60, e com a caracterização de relações
neocoloniais entre os países avançados da Europa, América e Ásia e as ex-colônias da
África, os Estudos Africanos passam a ser permeados de enfoques funcionalistas ou
marxistas, com destaque para a disciplinas Antropologia, Sociologia e Ciência Política,
mas já se referem a uma área de conhecimento mais ampla de orientação interdisciplinar
que envolve também a Arte e a Arqueologia, a Economia, a História, a Geografia, a
Linguagem e a Literatura, a Lingüística Comparada, a Música, a Política, a Religião, a
Filosofia e os Estudos das Ideologias. Além
disso, mas não menos importante, as lutas
Aqui sugerimos o acesso a dois materiais
por libertação da África do jugo colonial, as que estão disponíveis para você. O
denúncias da existência do racismo e da primeiro é o texto de Hernandez no qual
ela aborda o movimento pan-africano, as
exclusão das populações de origem africana suas características, os seus pensadores,
na diáspora e a própria historiografia vão seus pressupostos teóricos e de ação. O
estar pautada nas ideias pan-africanistas e segundo é o vídeo da entrevista com
Abdias Nascimento uma das principais
de negritude. Estas que influenciaram o referências brasileiras no que se refere
pensar sobre a África e, também, sobre as ao movimento negro e, portanto, aos
ideais pan-africanistas no nosso
populações africanas na diáspora e as suas contexto.
referências culturais e históricas. A ideia
primordial é a de valorização do legado
africano e negro, para o mundo. Portanto, aqui o conceito de negro é incorporado e
reinterpretado a partir de uma perspectiva positiva, ou seja, existe um conjunto de
valores culturais do mundo negro que se expressam nas suas vidas, nas suas instituições
e nas suas obras que possuem uma mensagem a dar a humanidade (APPIAH, 1997).
Essa perspectiva de análise da história africana teve como marco a publicação da
coleção, patrocinada pela UNESCO, denominada de História Geral da África (reeditada
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neste ano no Brasil). No contexto do processo de independência das colônias africanas e


sob a direção geral do historiador africano Joseph Ki-Zerbo, constituiu-se um comitê
científico internacional para a redação dos textos da coleção. A narrativa historiográfica
que perpassa todos estes está pautada no objetivo de construir uma unidade da história
africana se caracterizando por ser uma escrita afrocêntrica valorativa e enaltecedora do
patrimônio cultural africano e da sua memória.
Como mesmo afirma Ki-Zerbo, no texto introdutório do primeiro volume da
coleção, a história da África, “como a de toda humanidade, é a história de uma tomada
de consciência”. E, portanto, deve ser reescrita porque até o presente momento foi
camuflada, mascarada, desfigurada, mutilada pela força das circunstâncias, ou seja, pelo
interesse. (KI-ZERBO, 1982, p. 21). Para isso, existiriam quatro grandes princípios que
deveriam nortear a pesquisa em história da África: a interdisciplinaridade; que seja vista
do interior, ou seja, a partir do polo africano o que não requer abolir as relações
históricas da África com outros continentes “mas tais conexões serão analisadas em
termos de intercâmbios recíprocos e de influências multilaterais, nas quais as
contribuições positivas da África para o desenvolvimento da humanidade não deixarão
de aparecer”; a história da África é dos povos africanos em seu conjunto porque os
grupos podem ser vistos como unidades culturais; deverá evitar ser excessivamente
factual pois com isso se correria o risco de destacar em demasia as influências e os
fatores externos. (KI-ZERBO, 1982, p. 35-41)
A elaboração da coleção demandou um amplo esforço de construção de novos
instrumentos e técnicas para abordar as novas questões que os historiadores começaram
a se defrontar e, entre estes, podemos destacar, o próprio Ki-Zerbo, A . Ajauy, B. Ogot,
T. Obenga, Tamsir Niane, Cheick Anta Diop.
Evidentemente que uma análise historiográfica crítica percebe explícito nos
escritos destes autores as suas histórias ufanistas, afro-centristas, totais e, a tentativa de
construção de uma identidade negra africana para todo o continente. Bem, hoje
pensamos que esta última concepção possui suas limitações pois como coloca Appiah se
pensarmos o contexto africano até o século XIX:

Se nos fosse possível viajar pelas muitas culturas da África naqueles anos –
desde os pequenos grupos de caçadores-coletores bosquímanos, com seus
instrumentos da Idade da Pedra, até os reinos haussás, ricos em metais
trabalhados –, teríamos sentido, em cada lugar, impulsos, idéias e formas de
vida profundamente diferentes. Falar de uma identidade africana no século
XIX – se identidade é uma coalescência de estilos de conduta, hábitos de
pensamento e padrões de avaliação mutuamente correspondentes (ainda que
às vezes conflitantes), em suma, um tipo coerente de psicologia social
humana –, equivalia a dar a um nada etéreo um local de habitação e um nome
(1997, p. 243).
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Mas é preciso considerar que toda e qualquer produção historiográfica deve ser
percebida no seu contexto de produção e, neste especificamente da corrente da
superioridade africana, podemos considerar que esta foi fundamental para a construção
de uma história revisada que acabou servindo de base para posteriores estudos. A
coleção História Geral da África e seus historiadores acabaram por firmar a
historiografia africana. Mais do que isso: configurou com positividade toda uma
referência histórica que precisava ser explicitada.
E aqui vale estabelecer uma referência ao que foi assinalado no Capítulo I acerca
do ensino de História da África. As próprias Diretrizes determinam que não se trata de
substituir uma visão eurocêntrica por um afrocêntrica mas de pensar a articulação e o
ensino de forma a compreender as diversas histórias que compõem a humanidade. No
nosso entendimento as Diretrizes estão apontando para o cuidado com uma afinação
irrestrita a esta corrente historiográfica da superioridade africana.
Além disso, como afirma Appiah, a resposta correta ao eurocentrismo não é
certamente um afrocentrismo reativo, mas uma nova compreensão que humanize todos
nós, através do aprendizado de pensar além da raça (1997, p. 19). Vale lembrar aqui,
também, a reivindicação de Fanon (1952, p. 185) em prol de uma história da
humanidade para todos, seja qual for a sua cor. Por isso, pertencia-lhe tanto a guerra do
Peloponeso quanto a invenção da bússola. Por ser homem, todo o passado do mundo era
seu, e não apenas a revolta de São Domingos. (FANON, 1952, p. 185).

A Nova Escola de Estudos Africanos


A corrente historiográfica chamada de Nova Escola de Estudos Africanos
conforme proposto por Carlos Lopes, se refere ao período a partir dos anos 80 do século
XX. Grosso modo, pode ser pensada como uma construção historiográfica que tem
como pressuposto pensar a história do continente e de suas populações a partir de
processos endógenos e exógenos ao mesmo, as suas diversidades culturais em tempos
históricos remotos ou do tempo presente (M´BOKOLO, 2008). Evidentemente as atuais
perspectivas do estudo histórico do continente pretendem tornar conhecido o passado da
África a partir da perspectiva africana sem contudo se perder o seu caráter universal de
específico campo de saber.
Diante das contribuições e dos limites colocadas pelas correntes anteriores, neste
novo contexto, de acordo com Pantoja, o historiador africano teve e tem grandes tarefas
a sua frente como a construção de novos olhares para os métodos e as técnicas de
investigações históricas apropriadas a cada caso estudado e, mesmo assim, manter os
princípios históricos da causalidade. O continente africano, com sua diversidade é visto
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em cada uma das suas partes como uma entidade histórica, mas apesar dessas diferenças
não se perde de vista a noção de totalidade histórica africana, a exemplo da questão da
ancestralidade e da tradição oral, que você irá estudar no capítulo IV.
O estado atual dos Estudos Africanos é caracterizado, principalmente, por uma
vasta revisão bibliográfica produzida tanto por intelectuais africanos como outros de
diferentes nacionalidades que rompem com a historiografia colonialista tornando
possível a interação global de perspectivas que se relacionam e desconstroem a visão de
produções eurocêntricas e colonialistas. A premissa essencial destes novos estudos é a
descolonialidade do olhar e, portanto, da abordagem, como propõe Mignolo. E é nesta
perspectiva que abordaremos no Módulo II as temáticas relativas as histórias de
algumas sociedades africanas entre o século XV e XIX.

E aqui destacamos alguns, publicados no Brasil, que possibilitam uma compreensão da


História da África: Alberto da Costa e Silva. A Enxada e a Lança. A África antes dos
portugueses (1996) e a A Manilha e o Libambo. A África e a Escravidão de 1500 a 1700
(2002); Kwame A. Appiah. Na Casa de Meu Pai. A África na filosofia da cultura (1997); Paul
E. Lovejoy. A Escravidão na África. Uma história de suas transformações (2002); Leila L.
Hernandez. A África na Sala de Aula. Visita à História Contemporânea (2005); Joseph Ki-
Zerbo. Para quando a África? (2006); Marina de Mello e Souza. África e Brasil Africano
(2006); Carlos Serrano e Maurício Waldman. Memória D’África. A temática africana em sala
de aula ( 2007); Coquery-Vidrovitch, Catherine. A descoberta da África (2004); M’BOKOLO,
Elikia. África negra. História e civilizações, VI e VII; MEILLASOOUX, Claude. Antropologia da
escravidão. (1995). PANTOJA, Selma. Nizinga Mbandi. Mulher, guerra e escravidão (2000),
entre outros.

Portanto, a década de 90 apresentou uma verdadeira transformação


historiográfica trazendo novos temas e abordagens advindas das demandas para o
entendimento do passado e do presente do continente africano. Questões como a história
das mulheres e do gênero, dos trabalhadores rurais e urbanos, das doenças, do saber
médico (tradicional e moderno), dos nacionalismos, das lutas armadas, dos conflitos do
continente, das técnicas de produção, das diferentes formas de organização social, das
diferentes culturas da e na África tornaram-se os novos objetos de estudos.
Evidentemente que isso só se tornou possível devido a uma ampliação das fontes de
pesquisa mas, principalmente, de um novo olhar sobre elas. Novas perguntas, novos
aportes teóricos, novas demandas para o entendimento do passado africano.
Introdução aos Estudos Africanos e da Diáspora

As fontes para a pesquisa e o ensino de História da África


De acordo com Ki-Zerbo, (1982, p. 25-34) as fontes de pesquisa (e podemos
pensar de ensino) sobre o continente africano podem ser múltiplas: escrita,
arqueológica, oral, linguística, antropológica e etnográfica. Evidentemente não existe
uma hierarquia entre estas fontes, mesmo porque, elas podem se complementar no
sentido de possibilitar um conhecimento mais amplo daquilo que está sendo estudado.
Mas o autor assinala alguns cuidados que é preciso ter em relação ao uso destas fontes.
Por exemplo, as escritas anteriores ao século XIX são produtos, principalmente,
de europeus ou muçulmanos. Nós disponibilizamos a você uma série de sites que
trazem alguns destes relatos. Especificamente o site Costa da Mina apresenta relatos de
viajantes europeus sobre a região homônima no qual aparecem indicações sobre os
modos de vida, as religiosidades, a organização social das populações africanas daquela
região. São relatos interessantíssimos que podem ser utilizados no ensino de história
desde que problematizados. Dito de
outra forma é preciso explicitar que o
estranhamento e os estereótipos Uma análise bastante primorosa acerca das fontes
escritas existentes sobre ao continente africano e
advindos do primeiro, por exemplo, são suas populações foi realizada por Fage, J. D.
resultados de visões diversas do mundo Evolução da historiografia da África. In: In: Ki-
Zerbo, J. (Org.). História Geral da África, V. 1.
no qual o europeu se colocava como Metodologia e Pré-História da África. São Paulo:
superior julgando todos os outros povos Ática: UNESCO, 2010.
a partir do seu pressuposto de O autor faz uma diferenciação entre relatos
acerca de África produzidos por diversos
civilização. Portanto, consoante com viajantes, comerciantes, geógrafos etc., das
Ki-Zerbo, é preciso utilizar os produções propriamente historiográficas que
caracterizam o trabalho do historiador. Boa parte
documentos escritos, mas sob outra do que foi escrito pelos antigos, pelos árabes, no
perspectiva de análise, caso contrário que se refere a África mediterrânea e depois pelos
portugueses em relação a África ocidental tratam
em nada adiantará o esforço de tentar
de descrições, relatos... Vale a leitura do texto
reunir as fontes. Evidentemente a como um complemento para a reflexão acerca das
interpretação dessas implica em se inúmeras fontes históricas escritas que
possibilitam hoje, com métodos, técnicas,
depara com ambigüidades e interpretações e problematizações, escrever uma
dificuldades mas é necessário que seja perspectiva de história de África.
realizada tendo como princípio básico a
eliminação do preconceito anacrônico e
ser percebida dentro do contexto de sua produção.
Mas Ki-Zerbo vai valorizar sobretudo a tradição oral como fonte ímpar para o
estudo da história africana porque para ele é aquela nutrida pela autenticidade por ser
fornecida pelos próprios sujeitos africanos. Isto posto o argumento central está focado
na idéia de que é através das tradições orais que é possível perceber as criações sócio-
culturais acumuladas pelas populações africanas ágrafas. Os guardiões desta sabedoria
Introdução aos Estudos Africanos e da Diáspora

seriam os mais velhos. Sobre esta questão você estudará especificamente no capítulo IV
deste módulo. Por ora nos interessa ressaltar que mesmo referenciando o trabalho com a
tradição oral o autor vai atentar para os cuidados no seu uso como qualquer outro
relativo aos documentos escritos, por exemplo, como colocamos anteriormente.
Principalmente, em relação a oralidade é preciso perceber o próprio contexto de sua
criação pois fora deste perde seu sentido. Ela é fortemente ambígua, envolvida por
apologias, alusões, subentendidos e provérbios que as pessoas encontram como base
para explicar, ser, estar e transformar o seu mundo. Embora a citação a seguir seja
extensa pensamos ser fundamental a sua reprodução para o entendimento daquilo que o
autor quer afirmar.

Em suma, o discurso da tradição, seja ela épica, prosaica, didática ou ética,


[...] é revelador do conjunto de usos e valores que animam um povo e que
condicionam seus atos futuros pela representação dos arquétipos do passado.
Fazendo isso, a epopéia não só reflete, mas também cria história. [...] Por
conseguinte, a multiplicidade de versões transmitidas por clãs adversários,
por exemplo, pelos griots-clientes de cada nobre protetor, longe de constituir
uma desvantagem, representa uma garantia suplementar para a crítica
histórica. [...]Não se trata de uma propriedade privada, mas de um bem
indiviso pelo qual respondem diversos grupos da comunidade. O essencial é
proceder à crítica interna desses documentos através do conhecimento íntimo
do conhecimento literário em questão, sua temática e suas técnicas, seus
códigos e estereótipos, as fórmulas de execução, as digressões convencionais,
a língua em evolução, o público e o que ele espera da tradição. [...] Em
poucas palavras, a tradição oral não é apenas uma fonte que se aceita por falta
de outra melhor e à qual nos resignamos por desespero de causa. É uma fonte
integral, cuja metodologia já se encontra bem estabelecida e que confere à
história do continente africano uma notável originalidade‖ (KI-ZERBO,
1982, p.27-31).

Um exemplo que nos parece interessante é aquele que foi disponibilizado para
na Plataforma e que se refere a alguns contos africanos transformados num programa de
rádio por acadêmicas do curso de História da UDESC. Sugerimos que você escute o
áudio e levante questões: como posso utilizar este material em sala de aula? O que estes
contos e lendas me informam sobre as sociedades que os produziram? Como
problematizar essa fonte? O que ela implica em perceber? É possível trabalhar de forma
interdisciplinar com esses contos? Como você faria isso? Podemos ou devemos
valorizar as tradições orais, por exemplo, que nossas crianças na escola trazem de seu
ambiente familiar? Qual a importância de fazer isso?
Introdução aos Estudos Africanos e da Diáspora

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