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Revista do Seminário dos Alunos do Programa de pós-graduação Lógica e Metafísica / UFRJ

Sobre o conceito kantiano


de consciência moral popular:
nossa disposição natural
para a moralidade

Tomaz Martins da Silva Filho | Doutorando em Filosofia na UFS


professortomazmartins@gmail.com

RESUMO: O texto trata sobre a noção de consciência moral popular como disposição natural
para a moralidade. Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Kant afirma que o
homem “[...] sabe perfeitamente distinguir, em todos os casos que se apresentem, o que é bom
e o que é mau, o que é conforme ao dever ou o que é contrário a ele [o princípio moral
universal].” Parece uma afirmação um tanto ariscada, quando se observa a experiência na qual
os homens parecem não distinguir o bem do mal com tanta clareza, porém para Kant, não é a
experiência que dará fundamentação aos costumes, mas a própria Razão Pura Prática
(Praktische Reinen Vernunf). O filósofo chama de consciência moral popular a capacidade
humana de distinguir o bem e o mal, assim como o bom do mau, sem, contudo, fazer uso de
qualquer ciência ou filosofia, essa capacidade revela nossa disposição para a personalidade
moral. Quando se analisa a estrutura da Fundamentação, percebe-se que Kant partirá do
imediatamente dado e fundado nas ações condicionadas, a consciência moral popular, rumo à
fundamentação metafísica dos costumes. Interessa saber que nossa noção de dever apresenta-
se primeiramente por meio da consciência moral popular, já que a razão humana comum, não
filosófica, é a autora do princípio moral supremo. É autora, porque nos dá a noção primitiva
do que é certo e errado, nos dispõe a estimar boas ações e desprezar as más, entretanto dada a
sua insuficiência na determinação da vontade, cabe à razão prática tomar para si o controle
dessas disposições. Desse modo, a importância da consciência moral popular vai além do
papel elementar que desempenha no método abordado por Kant na Fundamentação, ela é o
objeto indispensável e imediato da filosofia moral kantiana, que revela nossa disposição para
a moralidade.

PALAVRAS-CHAVE: MORALIDADE; POPULARIDADE; FUNDAMENTAÇÃO,


COSTUMES, CONSCIÊNCIA MORAL

RÉSUMÉ: Le texte traite de la notion de conscience morale populaire comme disposition


naturelle à la moralité. Dans les Fondements de la Métaphysiques des Mœurs, Kant affirme
que l'homme “sait parfaitement distinguer, dans tous les cas qui se présentent, ce qui est bon
et ce qui est mauvais, ce qui est conforme au devoir ou ce qui lui est contraire [le principe
moral universel]”. Cela semble une déclaration quelque peu risquée, quand on observe
l'expérience dans laquelle les hommes ne semblent pas distinguer si clairement le bien du mal,
mais pour Kant, ce n'est pas l'expérience qui fondera les coutumes, mais la raison pratique

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purê (Praktische Reinen Vernunf) elle-même. Le philosophe appelle conscience morale


humaine la capacité humaine à distinguer entre le bien et le mal, ainsi que le bien et le mal,
sans toutefois faire usage d'aucune science ou philosophie, cette capacité révèle notre
disposition à la personnalité morale. En analysant la structure de la Fondements, on constate
que Kant partira du donné immédiat et basé sur des actions conditionnées, la conscience
morale populaire, vers le Fondements de la Métaphysiques des Mœurs. Il est intéressant de
savoir que notre notion de devoir est d'abord présentée à travers la conscience morale
populaire, puisque la raison humaine commune, non philosophique, est l'auteur du principe
moral suprême. Elle est auteur, car elle nous donne la notion primitive de ce qui est bien et
mal, elle est prête à estimer les bonnes actions et à mépriser les mauvaises, mais étant donné
son insuffisance dans la détermination de la volonté, c'est une raison pratique de prendre le
contrôle de ces dispositions. De cette manière, l'importance de la conscience morale populaire
dépasse le rôle élémentaire qu'elle joue dans la méthode abordée par Kant dans la Raison
d'être, elle est l'objet indispensable et immédiat de la philosophie morale kantienne, révèle
notre disposition à la morale.

MOTS-CLÉS: MORALITÉ; POPULARITÉ; FONDEMENTS, MŒURS, CONSCIENCE


MORALE

O texto trata sobre a noção de consciência moral popular como disposição natural para
a moralidade. 45Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes46, Kant (2011, p.37) afirma
que o homem “[...] sabe perfeitamente distinguir, em todos os casos que se apresentem, o que
é bom e o que é mau, o que é conforme ao dever ou o que é contrário a ele.” Parece uma
afirmação um tanto ariscada, quando se observa a experiência na qual os homens mostram
não distinguir o bem do mal com tanta clareza. Outra afirmação de Kant (1996, p. 104-105)
que nos deixa curiosos, agora na obra Pedagogia é que, as crianças sem ter, contudo, um
conceito abstrato de dever ou da obrigação, ou mesmo de uma conduta boa ou má, entendem
que há uma lei do dever e que esta não deve ser determinada pelo prazer, pelo útil ou
semelhante, mas algo universal que não se guie conforme os caprichos humanos. A pesar de
intrigantes, essas afirmações levam-nos ao conceito de consciência moral popular ou ao
conhecimento moral comum, ponto de partida de Kant para compreender o princípio supremo
da moralidade. Disso surge a questão de saber o que é a consciência moral popular e qual
papel desempenha no contexto moral kantiano. Nossa hipótese é que a consciência moral

45
Este trabalho foi apresentado no Seminário dos Alunos do PPGLM / UFRJ sob o título: A consciência moral
popular a partir da fundamentação metafísica dos costumes. A partir de necessárias retificações e ampliação
pensamos no título dado, Sobre o conceito kantiano de consciência moral popular: nossa disposição natural
para a moralidade, visto que no plano prático o lugar a ser dado à consciência moral popular é o das disposições
naturais, especificamente a disposição natural para a moralidade, a suscetibilidade de respeito à lei.
46
Doravante usaremos as seguintes siglas para as obras kantianas: Fundamentação da Metafísica dos Costumes
(Fundamentação); Sobre a Pedagogia (Pedagogia); Crítica da Razão Prática (KpV); Escritos Pré-Críticos (Pré-
Críticos); Lições de ética (Ética); A religião nos limites da simples razão (Religião); Metafísica dos Costumes
(Metafísica).

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popular, enquanto consciência moral examinadora, revela nossa disposição para a moralidade,
para tanto é necessário saber porque ela é popular.
Chama-se consciência moral popular o que na Fundamentação Quintela, na tradução
da Edições 70, traduz como conhecimento moral da razão vulgar, uma forma de compreensão
popular da noção de dever. Alguns comentadores da Fundamentação preferem termos como
conhecimento moral comum, como Sedgwick (2017. p. 80); ou Wood e Schönecker (2014, p.
51) que também utilizam conhecimento (Knowledge) moral comum. Augusto Guerra (1985,
p. 90), em Introduzione a Kant, utiliza “[...] a noção moral comum [...]” ao invés de
conhecimento. A tradução francesa da Fundamentação feita por Victor Delbos utiliza “[...]
conhecimento racional comum da moralidade[...]” (DELBOS, 1987, p. 55); todavia, em seu
livro La Philosophie Pratique de Kant (1905), ele utiliza o termo “[...] Inteligência
comum[...]” (DELBOS, 1905, p. 306) ou “[...] consciência moral comum [...]” (DELBOS,
1905, p. 319). Michel Canivet (1980, p. 369) utiliza “[...] consciência comum [...]” em
Enseigner les Fondements de la métaphysique des moeurs. Em nota à Fundamentação da
coleção Œuvres philosophiques, Alquié (1985, p. 1445) chama de “[...] Consciência popular
[...]”, levando em conta que para Kant (2013, p. 12), popularidade (Popularität) é “[...]
sensibilização suficiente para comunicação universal [...]”, ou seja, é aquilo que é acessível,
porque é comum entre os homens, comunicável e vulgar, por isso facilmente compreendido,
assim consideramos adotar o termo consciência moral popular, visto que contempla as
diversas interpretações. A popularidade de uma consciência moral diz respeito à ampla
divulgação dos costumes e hábitos nos quais ela subsiste, também diz muito sobre
compreensibilidade do conceito de dever que ela carrega, isto é, esse conceito é acessível ao
homem comum, dispensando qualquer elaboração filosófica. Assim, tal consciência manifesta
valores morais que estão enraizados na natureza humana e que dispensam, ao menos de início,
qualquer juízo filosófico, contudo para o filósofo é ponto de partida para uma filosofia moral.
Kant não se priva de tirar proveito de uma consciência moral popular que em seu uso vulgar,
facilita a possibilidade de um imperativo categórico.
A Fundamentação (Grudlegung) dá início a via crítica que Kant percorrerá em busca
do princípio supremo da moralidade, nele Kant percebe que o homem traz em si um juízo
moral comum e que por meio dele o homem cumpre certos costumes que, segundo Kant (2011,
p.41), embora possam estar em conformidade com o dever ainda é duvidoso que eles
aconteçam verdadeiramente por dever e que tenham, portanto, valor moral. O juízo moral
comum, como consciência moral popular norteia os costumes por sua noção primitiva do

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dever, essa noção, por ser concedida pela razão, tem alta estima pela boa vontade. É por isso
que Kant (2011, p.37) dirá que no conhecimento moral da razão humana vulgar, ou na
consciência moral popular, o homem chega a alcançar o princípio moral, mas que tal
consciência vulgar não o concebe abstratamente numa forma geral, ela apenas o mantém
sempre realmente diante dos olhos, como que institivamente, o que lhe serve como padrão dos
seus juízos. Ao afirmarmos que a consciência moral popular traz em si a noção de dever, deve-
se ponderar que toda ação praticada no âmbito da popularidade não pode ser concebida como
moral, visto que a noção turva de dever na popularidade não garante moralidade, porque não
há obrigação aos fins propostos. É por isso que essa obrigação se distancia do conceito abstrato
de dever que é “[...] necessidade de uma acção por respeito à lei [...]” (KANT, 2011, p. 31),
no máximo, o que há é uma estima instintiva pelo moralmente bom47, todavia as ações mesmas
não podem ser concebidas como moralmente boas, pois mesclam-se com toda sorte de
sentimento físico ou moral e depositam sua confiança moral no objeto apetecido, contrariando
o conceito de dever que, segundo Kant (2011, p.31), tem o seu valor moral, não no propósito
que se quer atingir, porém na máxima que a determina. O conceito de dever não depende,
portanto, da realidade do objeto da ação, porém somente do princípio do querer segundo o
qual a ação, abstraindo de todos os objetos da faculdade de desejar, foi praticada. A
consciência moral popular estima o dever e tem apreço pela boa vontade, porque é no seu uso
vulgar que tem origem a possibilidade do princípio moral. Como não tem força suficiente para
determinar a ação, a consciência moral popular, torna-se o ponto de partida para se admitir a
existência do princípio supremo da moralidade.
É a admissão de um senso comum moral que estima acima de tudo a boa vontade, que
possibilita Kant percorrer uma via analítica na primeira seção da Fundamentação, tal análise
parte do pressuposto que existem princípios a priori, e isso é perceptível por conta da admissão

47
Kant (2011, p.51) na Fundamentação, diz que o moralmente bom ou o praticamente bom (Praktisch gut) é
aquilo que determina a vontade por meio de representações da razão. Na KpV, Kant refere-se ao moralmente
bom (Gute) como tudo aquilo que “[...] tem referência à vontade, na medida em que esta é determinada pela lei
da razão a fazer de algo seu objeto; aliás a vontade jamais é determinada imediatamente pelo objeto e sua
representação, mas é uma faculdade de fazer de uma regra da razão a causa motora de uma ação (pela qual um
objeto pode tornar-se efetivo)”. (KANT, 2015, p. 205). O moralmente bom diferencia-se do agradável que “[...]
só influi na vontade por meio da sensação em virtude de causas puramente subjetivas que valem apenas para a
sensibilidade deste ou daquele, e não como princípio da razão que é válido para todos.” (KANT, 2011, p.51) e
que por isso é bom (Wobl), porque “[...] sempre significa somente uma referência a nosso estado de agrado ou
desagrado, de prazer e dor, e se por isso apetecemos ou detestamos um objeto, isto ocorre somente na medida
em que ele é referido à nossa sensibilidade e ao sentimento de prazer e desprazer que ele produz [...]” (KANT,
2015, p. 205) e nunca em referência à vontade. Assim, pode-se dizer no âmbito da popularidade, a consciência
moral vê-se em terreno de disputa, pois à medida que tem estima pelo moralmente bom, os costumes de modo
geral guiam-se mais pelo agradado ou desagrado.

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de uma consciência moral popular, que mesmo frágil, envolve a verdade dada e manifesta no
uso da razão vulgar. Para Philonenko (1987, p. 53), Kant segue regressivamente até as
condições de possibilidade dos princípios práticos a priori e Gonelli (2004, p. 21) em Guida
alla lettura dela Critica della ragion pratica (2004) afirma-nos que o método analítico de
Kant começa com o condicionado e fundado, retornando aos princípios morais mais
fundamentais, a partir dos quais Kant mostra, portanto, no conceito comum de moralidade que
existem pressupostos dos quais nem as filosofias morais empiristas nem o racionalismo
metafísico conseguem dar conta48. Assim, a via analítica percorrida na Fundamentação
prepara o terreno para KpV, o que para George Pascal (2001, p. 111), essa constitui um grande
estudo preliminar, entretanto é somente a última poderá lançar as bases para uma ciência a
priori da conduta, na qual sua analítica deixa clara sua tarefa, a saber, a crítica tem a “[...]
obrigação de deter a presunção da razão empiricamente condicionada de querer, ela só e
exclusivamente, fornecer o fundamento determinante da vontade.” (KANT, 2015, p. 59). Nas
palavras de Kant (2005, p. 227), a análise aqui é uma “[...] regressão do fundado ao
fundamento [a rationato ad rationem] [...]”, a partir dessa afirmação Kant parte do
condicionado ao incondicionado.
O método empregado por Kant não tem sentido meramente procedimental, apesar de
ser um exercício minucioso, para nós, é relevante o fato de que Kant opera nessa analítica uma
ressignificação da tradição moral no âmbito do edifício prático. É um processo de
identificação do que é útil ou não para a fundamentação de uma metafísica dos costumes e,
ainda, o que pode ser revertido ao interesse da razão, assim podemos dizer que o dado do qual

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Para os empiristas a consciência moral é fruto do acúmulo de experiências, já que a moralidade provém do
sentimento que decorre do agrado e desagrado provocado por móbiles. Como dirá Hume (2004, p. 356-357) na
obra Uma investigarão sobre os princípios da moral: “Outra tendência de nossa constituição que reforça muito
o sentimento moral é o amor pela fama, que tem uma autoridade incondicional sobre todos os espíritos elevados
e muitas vezes é o grande objetivo de todos os seus planos e realizações. Em nossa busca contínua e sincera de
um caráter, um nome, uma reputação na sociedade, passamos freqüentemente em revista nosso procedimento e
conduta, e consideramos como eles aparecem aos olhos dos que nos estão próximos e nos observam. Esse
constante hábito de nos inspecionarmos pela reflexão mantém vivos todos os sentimentos do certo e errado, e
engendra, nas naturezas mais nobres, uma certa reverência por si mesmo e pelos outros que é a mais segura. Eis
aqui a mais perfeita moralidade que conhecemos, na qual se manifesta a força de muitas simpatias.” Kant não
pode concordar com o empirismo moral, pois se assim fosse tomaríamos o agradável por moralmente bom e
antecederíamos à lei o objeto dela, fazendo de seu rigor leniente com as inclinações e com que a razão ponha
“[...] em lugar do filho legítimo da moralidade um bastardo composto de membros da mais variada proveniência
que se parece com tudo o que nele se queira ver, só não se parece com a virtude aos olhos de quem um dia a
tenha visto na sua verdadeira figura.”(KANT, 2011, p.69). Kant também está em desacordo com o racionalismo,
pois faz surgir princípios morais de conceitos. Mesmo sendo menos prejudicial que o empirismo, o racionalismo
moral submete o homem à ilusão de querer extrapolar os limites da razão, incorrendo no fanatismo que é a
condição segundo a qual alguém excede sobre e além da máxima da razão, está fundado em princípios místicos
e hiper físicos. (KANT, 2018, p. 239)

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Kant partirá é a consciência moral popular. Para Canivet (1980, p. 371) parece ser arriscado
pensar, sem qualquer precisão conceitual, ou explicação adjacente que, na primeira seção da
Fundamentação Kant parte da boa vontade. É verdade que ele parte da boa vontade, mas é
preciso acentuar que ela se encontra em uma consciência moral comum e que, essa por sua
vez, estima a boa vontade, porque revela a lei moral interna do dever. O próprio Kant (2011,
p. 26) esclarece que para desenvolver, o conceito de uma boa vontade altamente estimável em
si mesma e sem qualquer intenção ulterior, deve-se levar em conta que tal conceito reside já
no bom senso natural e que, há mais necessidade em ser esclarecido que ensinado, já que é
algo natural. O conceito de boa vontade, que está sempre no cume da apreciação de todo o
valor das nossas ações e que constitui a condição de todo o resto, manifesta-se de modo mais
efetivo no conceito de dever, que contém em si o de boa vontade, segundo Kant (2011, p. 26).
A vontade “[...] não é outra coisa senão razão prática [...], é a faculdade de escolher só
aquilo que a razão, independentemente da inclinação, reconhece como praticamente
necessário, quer dizer como bom.” Manifesta o caráter prático da razão pura prática, porque
ela é “[...] uma espécie de causalidade dos seres vivos, enquanto racionais [...]” (2011, p.91).
Logo, a boa vontade é a capacidade de escolher somente aquilo que é ordenado pelo dever,
como tal, não há necessidade de ensinar a ter uma vontade ou estima pela boa vontade, já se
tem naturalmente. Com efeito, educa-se à vontade para ser boa, pois embora estimemos o
dever e a boa vontade, nossa estima é frágil, sendo apenas um indicativo do princípio supremo
da moralidade. Se concebemos que conceito de boa vontade está sempre no cume da
apreciação de todo o valor das nossas ações (KANT, 2011, p. 26), então temos que entender
que tal apreciação é feita em primeiro lugar pela consciência moral popular, sem ela não
poderíamos examinar nossas ações conforme a lei interna, aqui está a estreita relação entre tal
consciência examinadora e o princípio supremo.
Podemos perceber certa relação entre uma consciência moral popular e o princípio
supremo na Pedagogia, no que concerne à educação prática. Kant diz que importante é, antes
de mais nada, ensinar às crianças a lei que tem dentro de si. (KANT, 1996, p. 106). Uma
referência à lei interna também é feita já nos Pré-Críticos, sobre a qual Kant (2005. p. 71) diz:
“Essa lei interna é um fundamento positivo de uma boa ação [...]”, por fundamento positivo,
entende-se a condição que possibilita a boa ação (Guten Handlung). Muito embora se saiba
que nos Pré-Críticos, Kant está tratando da noção primeira do imperativo categórico, a
interconexão entre esse trecho e o da Pedagogia não se dá pela noção de imperativo categórico
somente, importa perceber nos dois trechos o caráter interno da lei, isto é, ela está

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indissociavelmente ligada àquilo que o homem é na filosofia prática, um sujeito moral. É por
isso que na Lições de Ética (2018), Kant (2018, p. 200) afirma que a “[...] alma humana não
é completamente vazia de todos os motivos da moralidade pura.” O moralmente bom é
reconhecido e estimado porque a lei interna, como princípio originário do bem em nós está
presente no que o ser humano tem de mais elementar em questão de moral, sua consciência
moral. Para nós, é claro o fato de que tanto a consciência moral popular como o princípio
supremo têm em comum o caráter interno, isso possibilita entender o estreito laço que une
nossa noção turva do dever ao princípio supremo da moralidade, ele é o fio condutor de nossa
consciência moral vulgar.
Uma noção primitiva do dever é encontrada não só nas obras de evidente caráter moral,
como a Fundamentação e a KpV, mas chama atenção que Kant trata indiretamente desse tema
na Pedagogia e na Ética. É na Pedagogia que Kant (1996, p. 104-105) faz-nos perceber que
as crianças, como indivíduos morais em formação, mesmo não tendo qualquer conceito
abstrato de dever, da obrigação, da conduta boa ou má, entendem que há uma lei do dever. Ao
observamos atentamente, o texto kantiano não se trata de uma análise das capacidades morais
infantis, ao contrário, trata-se das capacidades morais do homem de modo geral. O filósofo
percebe que quando o homem começa a sociabilizar-se, começa também a fazer uso da ideia
de dever, porque “[...] tudo na natureza age segundo leis. Só um ser racional tem a capacidade
de agir segundo a representação das leis, isto é, segundo princípios [...]” (KANT, 2011, p. 50),
então como um ente racional dotado da capacidade dá-se regras, o homem naturalmente
entende que há uma lei do dever e que ela não pode ser circunstancial, porque revela
princípios. É por isso que já no uso vulgar do dever, cito Kant (2011, p. 107), o “[...] homem
encontra realmente em si mesmo uma faculdade pela qual se distingue de todas as outras
coisas [...], essa faculdade é a razão.”
É a partir da possibilidade da existência de uma sã razão no homem, que tal se põe sob
o título de consciência moral popular que Kant (2011, p.21-22) considera na primeira seção
da Fundamentação que o discernimento, argúcia de espírito, capacidade de julgar, assim
como, a coragem de decisão, constância de propósito são talentos do espírito e do
temperamento, e que apesar de serem coisas boas, podem tornar-se extremamente más e
prejudiciais se a vontade não for boa. Essas virtudes devem ser comandadas por uma vontade
que guie a si mesma, caso contrário, podem se vincular a vícios. Por serem dons naturais, por
serem qualidades que a todos interessam, mesmo ao mais vil dos homens, são identificados
pela consciência moral popular como bens de estima moral, porque esses dons a constitui. Tal

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consciência popular baseia-se em uma tendência natural que, enquanto seres humanos, temos
de valorizar a capacidade de bem examinar, de ter argúcia de espírito, coragem de decisão e
constância de propósito, todavia por maior estima que tenhamos por eles esses dons naturais
são dependentes da boa vontade. Para Souza (2009, p. 19), os dons naturais podem ser bons
desde que a vontade que haja de fazer uso deles seja boa, pois do contrário, se, deles se faz
mau uso, consequentemente, eles se tornam maus. Por meio do apreço aos dons naturais Kant
identifica que esse conhecimento moral é um senso comum, o que revela os “[...] valores
moralmente intrínsecos, incondicionalmente valiosos [...]”, Segundo Wood e Shönecker
(2014, p. 45), porém, um homem vil pode reunir diversos dons naturais sem, contudo, ser
moralmente bom. O valor que concedemos aos dons naturais, diz mais sobre nossa capacidade
de estimar de reconhecer o moralmente bom, do que do fato de sermos bons ou não. Essa
capacidade é nossa disposição natural para a personalidade moral, para Kant (2008, p.33), tal
disposição é a susceptibilidade da reverência pela lei moral como de um móbil, por si mesmo
suficiente, do arbítrio. A susceptibilidade da mera reverência pela lei moral em nós seria o
sentimento moral, que, no entanto, não constitui por si ainda um fim da disposição natural,
mas só enquanto é móbil do arbítrio. Esse sentimento o identificamos como respeito, e como
vimos respeito e consciência moral estão interligados, embora essa consciência na esteira da
popularidade ainda não tenha força suficiente para julgar, ela examina as ações.
O respeito, segundo Kant (2011, p. 33), embora possa ser considerado um sentimento,
não é um sentimento recebido por influência externa, mas sim um sentimento autoproduzido
pela razão, por isso diferente de todos os sentimentos morais e físicos de condição empírica
que se reportam à inclinação. Se consideramos que dever é a necessidade de uma ação por
respeito à lei e que nossa consciência moral popular tem uma noção primitiva do dever, então
temos que considerar que sua estima moral pelo dever é respeito 49. É de fato, o respeito que
garante a estabilidade da consciência moral diante dos infinitos móbiles, pois “[...] sem
instrução o entendimento comum não pode distinguir qual a forma na máxima presta-se, e
qual não, a uma legislação universal.” (KANT, 2015, p. 93) e nesse caso, a instrução é a norma
suprema, que apesar de latente nos costumes é invariavelmente firme na coação moral. Por

49
Para Kant (2015, p. 265) “[...] o respeito sempre tem a ver somente com pessoas e nunca com coisas [...]”,
como ele afirma na KpV. Continua ele, as coisas “[...] podem despertar em nós inclinação e, tratando-se de
animais (por exemplo, cavalos, cães etc.), até amor ou também medo, como o mar, um vulcão, um animal de
rapina, mas jamais respeito.” Na Ética, Kant (2018, p. 396) diz que o “[...] respeito refere-se ao nosso valor
interno, enquanto o amor apenas ao valor relativo de outras pessoas. Alguém é respeitado porque possui um
valor interno, mas uma pessoa é amada por outros por causa das vantagens que traz e do prazer que decorre
disso. Amamos o que nos traz vantagem e respeitamos o que, em si, tem um valor interno.” Então nisso se
diferencia o amor do respeito.

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isso, para Kant (2015, p. 269), respeito é um tributo que não podemos recusar ao mérito, quer
o queiramos ou não; podemos, quando muito, abster-nos dele exteriormente, mas não
podemos evitar de senti--lo interiormente. E nisso se firma a certeza examinadora da
consciência moral popular, mesmo que neguemos o bem, saberemos identificá-lo, por conta
de seu fio condutor, a lei interna, essa capacidade de identificar o bem em meio às inclinações,
designa o exame da consciência moral.
A consciência moral popular não pode ser confundida com a moral em si, nem pode
ser observada como a consciência moral judicativa, mas tão somente pode ser vista como
consciência moral examinadora. Não há a consciência moral como factum da razão, isto é, em
todo seu esplendor, pois se assim o fosse ela não vacilaria, visto que estaria ligada ao respeito,
à lei moral, e já que respeito é, segundo Kant (2011, p. 33), uma “[...] consciência da
subordinação da minha vontade a uma lei, sem intervenção de outras influências sobre a minha
sensibilidade [...]”, então essa função examinadora ainda não tem valor crítico, por isso só
pode ser considerada como algo vulgar. Ela é para Kant (1996, p. 107) a lei considerada em
nós e por isso se chama consciência, no entanto não como factum, dado que como tal, essa
seria a referência das nossas ações à lei moral. Para Nodari (2009, p. 279), respeito e factum
“[...] estão tão intimamente associados a ponto de se poder dizer que o fato da razão e respeito
à lei são, por isso, meramente descrições distintas do mesmo acontecimento, a saber, a
determinação racional da vontade.” Podemos, portanto, dizer que a consciência moral popular
é um fato moral que como disposição natural indica o fato da razão, como dirá Alquié (1985,
p. 224) a primeira seção da Fundamentação tem o objetivo de estabelecer o fato moral em
virtude do fato da razão mostrar que o juízo moral manifesta em nós a ação da razão, por isso,
não podemos confundir consciência popular com a consciência da lei como factum da razão.
É por isso que Kant, nas lições de ética fará uma crítica aos costumes que tomam toda sorte
de inclinação como fundamento moral, e por isso parece tomar a consciência moral popular
como judicativa, quando na verdade ela apenas examina. Kant (2018, p. 302) afirma-nos que
“[...] muitos homens têm tão somente um análogo da consciência moral que eles consideram
como a própria consciência [...]” e que o arrependimento muitas vezes encontrado no leito de
morte não diz respeito à moralidade, mas sim “[...] por eles terem agido tão imprudentemente
de modo que, agora que precisam comparecer diante do juiz, não são capazes de se manter de
pé.” (KANT, 2018, p. 302).
Quem na verdade julga é a consciência moral judicativa, um juiz interior, diante do
qual não podemos escapar, o que a consciência moral popular pode fazer é nos defrontar com

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os conselhos prudenciais, estes não provocam arrependimento moral, pois isso exige
transformação de conduta, no entanto provoca um remorso incapaz de ser superado, porque a
vida chegou ao leito de morte. O homem reconhece que suas ações não estavam em completo
acordo com a lei interna do dever, porque essa consciência moral é acusativa. Trevisan (2018,
p.57) adverte-nos que com isso não podemos entender que a consciência moral é “[...] uma
espécie de capacidade moral exercida espontaneamente, um guia instintivo da vida prática,
uma forma irrefletida e imediata de conduta moral”. A consciência moral só pode ser vista
como senso comum, tomada como “[...] um “poder” ou “capacidade” espontânea da razão
prática, serve como um complemento essencial da ética de Kant, auxiliando a iluminar e
compreender temas importantes de sua filosofia prática, tais como a base da consciência do
dever e a relação entre religião e moral.” (TREVISAN, 2018, p.57). Evidentemente que a
consciência moral popular não deve ser vista como uma forma irrefletida e imediata de
conduta moral, Trevisan (2018, p.58-59) em O papel da consciência moral na doutrina
kantiana dos deveres e na religião, expõe duas funções atribuídas à consciência moral na
filosofia kantiana, uma como consciência moral examinadora, outra como consciência moral
julgadora. O próprio Kant (2015, p. 283) condiciona essas funções ao conceito de dever, pois
“[...] o conceito de dever exige na ação objetivamente, concordância com a lei, mas na sua
máxima, subjetivamente, respeito pela lei, como o único modo de determinação da vontade
pela lei.” Então só se pode falar de respeito, mediante o cumprimento integral do dever,
quando a vontade é determinada imediatamente pela razão. Porém Kant (2015, p. 283) não
impossibilita de que haja consciência moral na ação que não tem determinação completa da
razão, pois diz que existe uma “[...] diferença entre a consciência de ter agido conformemente
ao dever e a de ter agido por dever, isto é, por respeito à lei.” Disso podemos perceber que há
duas tarefas da consciência moral, aquela que se liga à conformidade e aquela que se funda
no dever, contudo para que se reconheça certa conformidade, é preciso que se tenha uma noção
do dever, e nisso se prova nossa hipótese de que a consciência moral popular tem uma noção
turva do dever. Para Kant (2015, p. 283) nessa “[...] forma de consciência (a legalidade) é
possível mesmo que apenas as inclinações tivessem sido os fundamentos determinantes da
vontade, enquanto a segunda forma (a moralidade), o valor moral, tem que ser posta
unicamente em que a ação ocorra por dever, isto é, simplesmente por causa da lei.”

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Revista do Seminário dos Alunos do Programa de pós-graduação Lógica e Metafísica / UFRJ

A consciência moral popular com sua tarefa examinadora enquadra-se na esteira da


legalidade,50 é verdade, mas nem por isso perde seu valor, pois para Kant (2015, p. 346) “Um
homem pode dissimular o quanto ele quiser, para dourar perante si mesmo um comportamento
ilegal do qual se recorda, e declarar-se não-culpado a seu respeito[...]”, um ato imprudente,
talvez, do qual queira livrar-se como se fosse um engano não premeditado. Acontece que,
segundo Kant (2015, p. 347), todos temos um acusador que não se consegue fazer calar e que
este aponta para o juiz interior, fazendo com que o homem perceba de imediato que “[...] no
momento em que praticava a injustiça estava de posse do seu juízo, [...], ele explica o seu
delito a partir de certo mau hábito contraído por crescente abandono do cuidado para consigo
próprio”. Assim a nossa consciência moral examinadora é prudencial, todavia dispõe para a
moralidade, à medida que nos ensina a examinar nossas ações.

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50 Na introdução da Metafísica, Kant (2013, p. 20) diz que diferente das leis da natureza as leis da liberdade
chamam-se leis morais, assim à medida que essas ações se referem apenas às ações exteriores e à conformidade
destas à lei, elas se chamam jurídicas, essa concordância chama-se legalidade. Na mesma obra Kant, afirma que
“A mera concordância ou discrepância de uma ação com a lei, sem consideração ao móbil da mesma, denomina-
-se legalidade (conformidade à lei), mas aquela em que a ideia do dever pela lei é ao mesmo tempo o móbil da
ação se chama moralidade (eticidade) da mesma.” (KANT, 2013, 25)

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