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GUIA PRÁTICO

SÉRIE
Alimentação Agricultura familiar:
boas práticas
escolar indígena e replicáveis de

de comunidades comercialização
de produtos da
tradicionais sociobiodiversidade
e agroecologia
GUIA PRÁTICO

Alimentação
escolar indígena e
de comunidades SÉRIE
Agricultura familiar:
tradicionais boas práticas
replicáveis de
comercialização
de produtos da
CASO
sociobiodiversidade
PNAE Indígena no Amazonas e agroecologia
GUIA PRÁTICO

Alimentação CASO

escolar indígena e PNAE Indígena


no Amazonas
de comunidades
tradicionais

Brasília
2020
1ª edição. Ano 2020

Sumário
Projeto Mercados Verdes e Consumo Sustentável Revisão 08 Siglas
Diretor do Projeto: Frank Krämer Daniel Caspar Wallmann, Luciana Rocha, Katharina Böhl,
Equipe do Projeto: Alexander Rose; André Machado Fernando Camargo, André Machado, Alexandre Vasconcellos 10 Apresentação
(Consórcio Eco Consult/Ipam); Cláudia de Souza (Consórcio de Melo e Daniel Caspar Wallmann
Eco Consult/Ipam); Fernando Camargo (Consórcio Eco
12 Capítulo 1 - Contexto e marco legal
Consult/Ipam); Gunter Viteri (Consórcio Eco Consult/Ipam); Revisão gráfica
Luciana Rocha; Octávio Nogueira e; Tatiana Aparecida Alexander Rose e Mariana Bitencourt
22 Capítulo 2 – O desenvolvimento da boa prática
Balzon. Estagiários: Daniel Caspar Wallmann; Gustavo
Projeto gráfico e diagramação:
30 A aplicação da boa prática
Cobello; Mariana Bitencourt e; Vitória Silva.
Anelise Stumpf (finotraco.com.br) 38 Capítulo 3 – Os resultados
Deutsche Gesellschaft fuer Internationale Zusammenarbeit
(GIZ) GmbH, com o apoio do consórcio ECO Consult Sepp Ilustrações 39 Fatores de sucesso
& Busacker Partnerschaft e Ipam Amazônia, em colaboração Daniel Dias Moreira
técnica com o Ministério da Agricultura, Pecuária e 42 Principais dificuldades
Abastecimento (Mapa) do Brasil. Imagens:
45 Riscos associados
Adriano Gambarini/Opan (página 15 e 17)

Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa)


Adriano Gambarini/Opan (página 133) 46 Capítulo 4 – A replicação
Bernardo Carvalho (página 11)
Cooperação Alemã - Deutsche Gesellschaft fuer
Diogo Campos - Iepé (páginas 20, 50 e 61)
47 Passo a passo para a replicação da estratégia
Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH
Projeto Mercados Verdes e Consumo Sustentável
Edison Bueno/Funai (página 30) 56 Passo a passo para povos indígenas e comunidades tradicionais acessarem
Márcio Arthur Oliveira de Menezes (folha de rosto)
os Programas de Compras Públicas
Coordenação da Série “Agricultura familiar: Boas práticas Marizilda Cruppe (capa, folha de rosto, páginas 22, 24 e 25),
replicáveis de comercialização replicáveis” disponíveis no site do SindRio 62 Referências
Cláudia de Souza Thiago Mota Cardoso (página 42)
Gunter Viteri 64 Anexos
Acervo FNDE (capa, página 29)
Autores Acervo Rede Maniva de Agroecologia 64 Anexo 1: Nota técnica nº 01/2017/ADAF/SFA-AM/MPF-AM
Mariana Gama Semeghini, Márcio Arthur Oliveira de Acervo do Projeto Mercados Verdes e Consumo Sustentável
Menezes, Cláudia de Souza, Fernando Merloto Soave, disponível em: https://www.flickr.com 80 Anexo 2: Nota técnica nº 3/2017/COPE/CGPC/DPDS-FUNAI
Olinda Figueira Canhoto, Mariana Dettmer de Castro
90 Anexo 3: Nota técnica nº 6/2019/COPROD/CGPT/DISAT/ICMBio
Mello, Tatiana Balzon, Karine Silva dos Santos e Maria
Sineide Neres dos Santos
102 Anexo 4: Nota técnica nº 3/2020/6ªCCR/MPF
113 Anexo 5: Lei nº 14.021, de 7 de julho de 2020

Reprodução livre 116 Anexo 6: Recomendação legal nº 01/2019 / 5º OFÍCIO/PR/AM / Força Tarefa Amazônia
124 Anexo 7: Orientações específicas sobre aquisição de alimentos dos povos indígenas para
alimentação escolar no Amazonas (FNDE)
7 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Foirn • Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro
Foreeia • Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas
Lista de siglas Funai • Fundação Nacional do Índio
FVS • Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas
GIZ • Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável
Adaf • Agência de Defesa Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas (Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH)
ADS • Agência de Desenvolvimento Sustentável do Amazonas ICMBio • Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade
Anvisa • Agência Nacional de Vigilância Sanitária Idam • Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal do Estado do Amazonas
Asproc • Associação dos Produtores Rurais de Carauari ISA • Instituto Socioambiental
Ater • Assistência técnica e extensão rural Mapa • Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
CAE • Conselho de Alimentação Escolar MC • Ministério da Cidadania
Catrapoa • Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos no Amazonas MCM • Memorial Chico Mendes
Casa Civil/AM • Casa Civil do Governo do Amazonas MEC • Ministério da Educação
Cecane • Centro colaborador em Alimentação e Nutrição do Escolar MPF/AM • Ministério Público Federal do Amazonas
CEEI • Conselho de Educação Escolar Indígena Opan • Operação Amazônia Nativa
CNS • Conselho Nacional das Populações Extrativistas PAA • Programa de Aquisição de Alimentos
Coipam • Coordenação das Organizações e Povos Indígenas do Amazonas PNAE • Programa Nacional de Alimentação Escolar
Conab • Companhia Nacional de Abastecimento Preme • Programa de Regionalização da Merenda Escolar
Cooine • Cooperativa Agrícola Indígena Nova Esperança de Tefé Pronaf • Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar
Copime • Coordenação dos Povos Indígenas de Manaus e Entorno Secoya • Associação Serviço e Cooperação com o Povo Yanomani
DAP • Declaração de Aptidão ao Pronaf Seduc/AM • Secretaria de Estado da Educação
Embrapa • Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Semed • Secretaria Municipal de Educação
FEI • Fundação Estadual do Índio Sepror/AM • Secretaria de Produção Rural do Amazonas
FNDE • Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação SFA/Mapa/AM • Superintendência Federal de Agricultura, Pecuária e
Abastecimento do Amazonas

9 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais


dicionais à alimentação escolar adequada aos Recentemente, em 2020, foi publicada uma nova
seus processos próprios de produção e à sua Nota Técnica Nacional que estende a todo o país,

Apresentação cultura alimentar. Essa é uma modalidade de


compra direta, com aval das agências regulado-
as garantias dadas pela Nota Técnica do estado
do Amazonas.
ras, respeitando as normas sanitárias, de acordo
com o previsto no Programa Nacional de Alimen- O guia sobre a boa prática de comercialização
tação Escolar (PNAE). “Alimentação escolar indígena e de comunidades
O Projeto Mercados Verdes e Consumo Sustentável tradicionais no Amazonas” aborda a estratégia
promovido pelo governo federal alemão através da A Catrapoa é uma articulação entre institui- da alimentação escolar indígena e tradicional, os
Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusamme- ções dos governos federal, estadual e muni- atores que fazem parte e os passos para a sua im-
narbeit (GIZ) GmbH, com o apoio do consórcio ECO cipal, movimentos e lideranças indígenas, de plementação, os resultados, os fatores de suces-
Consult Sepp & Busacker Partnerschaft e Ipam Ama- comunidades tradicionais e organizações da so, as dificuldades, os riscos associados e o passo
zônia, em parceria com o Ministério da Agricultura, sociedade civil que se reúne desde 2016. A a passo para a replicação desta boa prática.
Pecuária e Abastecimento (Mapa), através da Secre- Comissão busca soluções adequadas à falta ou a
taria de Agricultura Familiar e Cooperativismo (SAF), não adaptação da alimentação escolar entre po-
Boa leitura!
tem o objetivo de aumentar o acesso aos mercados vos indígenas e comunidades tradicionais, bem
para os produtos da sociobiodiversidade e da agro- como viabiliza o acesso às compras públicas a
ecologia provenientes das organizações econômi- este público. Michael Rosenauer
cas de agricultores familiares e comunidades tradi- Diretor Nacional
cionais da Amazônia. Houve inovação na forma de operacionalização Deutsche Gesellschaft für
da política pública através da criação de uma Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH
A estratégia da alimentação escolar indígena e tra- Nota Técnica do Ministério Público Federal/Ama-
dicional no Amazonas foi desenvolvida pela Catra- zonas, integrando os pareceres de duas institui-
poa (Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos ções regulatórias e a Funai, o que habilitou
no Amazonas) com o objetivo inicial de viabilizar o a compra de proteínas e produtos
cumprimento da compra de, no mínimo, 30% de vegetais processados diretamente
produtos alimentícios da agricultura familiar e o do produtor indígena, próximo às
direito dos povos indígenas e comunidades tra- escolas nas aldeias e comunidades.

10 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 11 | Guia prático . Alimentação
ntação escolar indígena e de comunidades tradicionais
De acordo com a Lei no 11.947, de 16 de junho de 2009, que
dispõe sobre alimentação escolar, o emprego da alimenta-
ção saudável e adequada, compreende o uso de alimentos

Contexto e
variados, seguros, produzidos em âmbito local e preferencial-
CAPÍTULO 1 mente pela agricultura familiar e pelos empreendedores fami-
liares rurais, que respeitem a cultura, as tradições e os hábitos

marco legal alimentares saudáveis, contribuindo para o crescimento e o


desenvolvimento dos alunos e para a melhoria do rendimento
escolar, em conformidade com a sua faixa etária e seu estado
de saúde, inclusive dos que necessitam de atenção específica,
priorizando as comunidades tradicionais indígenas e de rema-
nescentes de quilombos.

A Lei determina que do total dos recursos financeiros repas-


sados pelo FNDE, no mínimo 30% (trinta por cento) deverão
ser utilizados na aquisição de gêneros alimentícios diretamen-
te da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou
de suas organizações, priorizando-se os assentamentos da
reforma agrária, as comunidades tradicionais indígenas e co-
munidades quilombolas. O não cumprimento desta legislação,
somado a inquéritos civis públicos relatando a ausência ou in-
suficiência de alimentação escolar nas escolas indígenas e a
não adequação destes à cultura local, deram subsídios para a
discussão e criação de mecanismos para a busca de soluções
destes problemas. De acordo com a prestação de contas en-
viadas ao FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Edu-
cação), entre 2016 e 2018, dos 62 municípios do Amazonas, a
maior parte dos municípios do estado não cumpriu a obrigato-
riedade mínima de contratação. O Gráfico 1 a seguir especifica
bem esse contexto.

12 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 13 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Situação dos municípios do Amazonas em relação 2016
à aquisição de alimentos da agricultura familiar 2017
2018
55%

A Catrapoa
39%
34%
27% 26% A Catrapoa - Comissão de Alimentos Tradicio-
21% nais dos Povos no Amazonas se reúne periodica-
16% mente na sede do Ministério Público Federal do
13%14%
11% 11% Amazonas – MPF/AM, concomitantemente por
8% 8% 8% 8%
videoconferência com membros em Manaus e
em Brasília, utilizando o espaço físico da Procu-
5. Coordenação das Organizações e Povos
Não adquiriram Adquiriram Adquiriram Adquiriram Cumpriram a radoria Geral da República, com as instituições
alimentos provenientes entre 1 e 10% entre 10 e 20% entre 20 e 29% obrigatoriedade Indígenas do Amazonas – Coipam;
sediadas em Brasília para debater e dar encami-
da agricultura familiar mínima de
contratação de 30% nhamentos ao tema do acesso à alimentação de 6. Companhia Nacional de
qualidade dos povos e comunidades tradicionais Abastecimento - Conab;
do Amazonas. As mais frequentes instituições
A Catrapoa iniciou seus trabalhos no final do ano de Regionalização da Merenda Escolar – Preme). 7. Conselho de Alimentação
participantes da Catrapoa, no Amazonas, são:
de 2016 coordenada pelo 5º Ofício do Ministério A ideia de reunir essas instituições nasceu de uma Escolar – CAE
Público Federal no Amazonas, que atua com po- visita do Ministério Público Federal do Amazonas 1. Agência de Desenvolvimento
vos indígenas e comunidades tradicionais. A Co- à terra indígena Yanomami, em que se consta- 8. Conselho de Educação Escolar
Sustentável do Amazonas – ADS;
missão conta com a participação de órgãos públi- tou que a logística dificultava o escoamento da Indígena – Ceei
cos federais, estaduais e municipais, bem como produção e o fornecimento da alimentação às 2. Associação dos Produtores Rurais de
Carauari – Asproc; 9. Conselho Nacional de
de entidades da sociedade civil e movimentos escolas indígenas no estado do Amazonas. Além
Extrativistas – CNS;
indígenas/sociais, no intuito inicial de viabilizar o disso, quando chegam, os produtos são, em ge- 3. Associação Serviço e Cooperação com
acesso à venda da produção tradicional de povos ral, descontextualizados da cultura destes povos, o Povo Yanomani – Secoya; 10. Cooperativa Agrícola Indígena Nova
indígenas e comunidades tradicionais por meio de baixa qualidade e industrializados, o que gera Esperança de Tefé – Cooine;
dos programas de compras públicas (Programa doenças e hábitos alimentares ruins, que com- 4. Centro Colaborador de Alimentação e
Nacional de Alimentação Escolar – PNAE, Progra- prometem a aceitação dos alimentos saudáveis e Nutrição do Escolar da Universidade 11. Empresa Brasileira de Pesquisa
ma de Aquisição de Alimentos – PAA, Programa tradicionais produzidos localmente. Federal do Amazonas - Cecane/Ufam Agropecuária – Embrapa

14 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 15 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
12. Fundação Estadual do Índio – FEI; 26. Secretaria de Produção Rural do Ama- Após diversas reuniões nos anos de 2016 e 2017
zonas – Sepror/AM; da Catrapoa, verificou-se a existência de várias di-
13. Federação das Organizações Indígenas
ficuldades para a compra direta de produtos ali-
do Rio Negro – Foirn; 27. Casa Civil do Governo do AM;
mentícios indígenas para as suas aldeias. Dentre
14. Fórum de Educação Escolar Indígena 28. União dos Dirigentes Municipais de Edu- eles, podemos citar:
do Amazonas – Foreeia; cação do Amazonas – Undime/AM e;
1. legislação nacional que regula os aspec-
15. Fundação de Vigilância em Saúde do 29. Rede Maniva de Agroecologia – Rema. tos sanitários não compreende, geral-
Amazonas – FVS; mente, as formas tradicionais de produ-
16. Fundação Nacional do Índio – Funai; ção e consumo;
As instituições que participam da Catrapoa, em
17. Instituto de Desenvolvimento Agrope- Brasília, são: 2. a dificuldade de emissão da declaração
cuário e Florestal do Estado do Amazo- de aptidão ao Pronaf (DAP), cartão do nidades tradicionais, o respeito aos costumes
1. Fundação Nacional do Índio – Funai; produtor rural (programa do Amazonas
nas – Idam; e características de suas culturas, bem como
2. Fundo Nacional de Desenvolvimento que isenta a cobrança de ICMS na emis- o contexto de autoconsumo. É fato que, desde
18. Superintendência Federal de Agricultu- são de notas fiscais de venda de produ-
da Educação – FNDE; a produção até o consumo final nas aldeias tra-
ra, Pecuária e Abastecimento do Ama- tos e traz outros benefícios) para povos ta-se de um contexto familiar, nos quais pais ou
zonas – SFA/Mapa/AM; 3. Cooperação Brasil-Alemanha para o indígenas e tradicionais; tios plantam nos roçados, parentes preparam os
Desenvolvimento Sustentável (Deuts-
19. Ministério Público Federal do Amazo- alimentos nas escolas, sendo os seus filhos e so-
che Gesellschaft für Internationale 3. o desconhecimento e, por vezes, a omis-
nas – MPF/AM; brinhos, os destinatários finais desta alimentação
Zusammenarbeit (GIZ) GmbH) – GIZ; são dos gestores públicos sobre o cum-
produzida na comunidade.
20. Instituto de Pesquisa e Formação Indí- primento da obrigatoriedade de aquisi-
4. Ministério da Agricultura, Pecuária e
gena – Iepé; ção de no mínimo 30% de produtos da O Ministério Público Federal – MPF no Amazonas
Abastecimento – Mapa;
agricultura familiar e; instaurou um procedimento administrativo1 em
21. Instituto Socioambiental – ISA;
5. Ministério da Educação – MEC e; 2017 para acompanhar este tema, foco das reu-
22. Memorial Chico Mendes – MCM; 4. a falta de conhecimento e necessidade de
6. Ministério da Cidadania. niões da Catrapoa. Um dos pontos debatidos nas
formação de agricultores indígenas e ou-
23. Operação Amazônia Nativa – Opan; reuniões foi a necessidade dos órgãos públicos
tros povos tradicionais sobre as políticas
competentes se posicionarem a respeito do ser-
24. Secretaria de Estado de Educação – de compras públicas, os requisitos para
viço de inspeção sanitária para a comercialização
Seduc; acessá-las e a possibilidade de reivindica-
ção do cumprimento da legislação.
25. Secretarias Municipais de Educação – Se-
meds dos municípios do Amazonas; Por outro lado, é fundamental considerar, no âm-
bito da alimentação escolar indígena e de comu- 1
Procedimento Administrativo MPF nº 1.13.000.000342/2017-72.

16 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 17 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Procedimento É a autuação de uma representação feita ao Ministério Público. A
administrativo representação é separada conforme sua natureza (cível ou criminal),
recebe número e é encaminhada ao procurador. A partir daí, o
procurador responsável providenciará todas as medidas necessárias
à apuração dos fatos: requisita informações, determina diligências
ou, se for o caso, encaminha cópia do procedimento à Polícia
Federal para instauração do inquérito policial.
de produtos de origem animal, vegetal e suas
partes para acesso dos povos indígenas à compra Fonte: Conselho Nacional do Ministério Publico
e venda públicas.

A resposta dada pelos órgãos se deu em setem-


bro de 2017, através de uma Nota técnica2, Ane-
xo 1, que considera a existência de autoconsu-
mo, em que desde a produção até o consumo A Nota Técnica (NT)
final nas aldeias trata-se de um contexto familiar,
bem como de mecanismos tradicionais de con- Esta Nota Técnica tange aos aspectos legais para lução para a adequação dos produtos de origem
trole alimentar na cultura dos povos indígenas, a comercialização de produtos de origem animal vegetal e animal indígenas, aos padrões estabe-
respeita suas técnicas e possibilita que estes ali- e vegetal e suas partes no estado do Amazonas, lecidos pela vigilância sanitária.
mentos sejam consumidos pelos estudantes de pelos povos indígenas. Entre os dados e informa-
modo condizente a seus costumes. Assinam a Em junho de 2019, o ICMBio expediu a Nota Téc-
ções que apoiaram a elaboração da NT, cabe citar
Nota Técnica: a Agência de Defesa Agropecuá- nica nº 06/2019/COPROD/CGPT/DISAT/ICMBio,
a nota técnica anteriormente expedida pela Funai
ria e Florestal do Estado do Amazonas − Adaf; a Anexo 3, em moldes similares ao expedido pela
(Nota Técnica nº 3/2017/COPE/CGPC/DPDS-FU-
Superintendência Federal de Agricultura, Pecuá- NT da Funai agora voltando-se às comunidades
NAI, Anexo 2) sobre o tema. O documento per-
ria e Abastecimento do Amazonas − SFA/Mapa/ tradicionais. Em junho de 2020 a 6ª CCR (Câma-
mite a compra institucional, via Programa Nacio- ra de Coordenação e Revisão) do MPF expediu
AM; e o Ministério Público Federal/AM/5º Ofício.
nal da Alimentação Escolar − PNAE, Programa de a Nota Técnica nº 3/2020/6ªCCR/MPF, conforme
Regionalização da Merenda Escolar − Preme, Pro- Anexo 4, que amplia o entendimento já firma-
grama de Aquisição de Alimentos − PAA e outros do no Amazonas em 2017 (sobre a dispensa de
programas, de produtos de origem animal (peixe registro sanitário para proteínas e processados
e frango) e processados vegetais (farinha de man- vegetais da produção dos povos indígenas desti-
2
NOTA TÉCNICA nº 01/2017/Adaf/SFA-AM/MPF-AM, disponível dioca e derivados como beiju, goma e farinha de nada ao seu consumo, ainda que em compras pú-
em: http://www.mpf.mp.br/am/alimentacao-tradicional. Acesso tapioca, e polpas de frutas) produzidos na própria blicas) para todos os povos e comunidades tradi-
em 01/12/2019.
comunidade/aldeia, ou no entorno próximo, sem cionais do Brasil, ou seja, quilombolas, indígenas,
a exigência dos registros sanitários. Esta foi a so- extrativistas, ribeirinhos, entre outros.

18 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 19 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
O interesse da Catrapoa com tal medida era so- alimentos produzidos nas aldeias devem ser os
lucionar a falta e a inadequação da alimenta- primeiros considerados no momento da elabora-
Pandemia do
ção escolar nas aldeias indígenas, possibilitar ção de Chamadas Públicas, no atendimento à Lei Covid-19 e adequações
a venda da produção das comunidades e, ao da Alimentação Escolar.
nas políticas públicas
mesmo tempo, reduzir os gastos públicos com
transporte dos alimentos. Cabe ressaltar que os Em suma, esta Nota Técnica garante a viabilização
próprios órgãos de educação no estado do Ama- da compra institucional, por considerar a existên-
zonas trouxeram, durante as reuniões, dados de cia de mecanismos de autoconsumo e de con-
custos logísticos mais de cinco vezes superiores trole alimentar inseridos dentro da cultura dos
ao valor da própria alimentação escolar compra- povos indígenas que produzem e fornecem os
Com a pandemia do Covid-19, decretada pela visam a criar condições para garantir a soberania
da para alguns locais de difícil acesso. Além disso, alimentos. Além disso, a nota respeita e valoriza
OMS em março de 2020, houve a necessidade de e segurança alimentar e nutricional, como compra
a Catrapoa também buscava reconhecer que os os modos de vida, costumes dos povos indígenas
medidas de isolamento social, especialmente para pública, doação simultânea e alimentação escolar,
e agrobiodiversidade local. Mas, é importante sa-
povos indígenas e tradicionais, que se isolaram em aos povos indígenas, às comunidades quilombolas,
lientar que a Nota Técnica não é suficiente para
suas comunidades, o que dificultou o escoamento e aos pescadores artesanais e aos demais povos e co-
permitir a efetivação da política pública e resolver
a comercialização de seus produtos, inclusive para munidades tradicionais. O artigo 5 da Resolução nº
o problema da alimentação escolar indígena. Ou-
as compras públicas e, ao mesmo tempo, o forneci- 02, de 09 de abril de 2020 do FNDE corrobora com
tras ações, como a especificidade e a aderência
mento de alimentação escolar neste contexto ficou esta lei ao afirmar que os procedimentos e requisi-
das Chamadas Públicas, são necessárias para ga-
comprometido. Esta conjuntura mostrou a impor- tos de chamada pública para aquisição de produ-
rantir a aquisição destes alimentos.
tância da aquisição de produtos da própria comu- tos da agricultura familiar poderá ser realizado de
nidade, contribuindo para garantir a soberania e maneira remota, não presencial, com ferramentas,
segurança alimentar destes povos, e a necessidade modos e meios online.
da flexibilização destas políticas públicas.
Além disso, o artigo 10 (Lei nº 14.021) dispensa
No dia 07 de julho de 2020, foi sancionada a Lei a exigência de documentos da vigilância sanitá-
nº 14.021 (Anexo 5), que cria o Plano Emergencial ria, considerando o conceito de autoconsumo,
nos territórios indígenas e estipula medidas de em processos de compra pública, doação si-
apoio às comunidades quilombolas, aos pescado- multânea e alimentação escolar, dentro do ter-
res artesanais e aos demais povos e comunidades ritório de povos indígenas e comunidades tra-
tradicionais, para o enfrentamento à Covid-19. O dicionais. Portanto, o entendimento das Notas
artigo 10 determina a simplificação das exigências Técnicas nº 01/2017/ADAF/SFA-AM/MPF-AM e nº
documentais para acesso a políticas públicas que 3/2020/6ªCCR/MPF foram adotados por lei.

20 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 21 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
CAPÍTULO 2

O desenvolvimento No ano de 2018, no âmbito da Catrapoa, com o


apoio do Projeto Mercados Verdes e Consumo

da boa prática
Sustentável, do Ministério da Agricultura, Pecuá-
ria e Abastecimento (Mapa), do Fundo Nacional
de Desenvolvimento da Educação (FNDE), da
Fundação Nacional do Índio (Funai) e instituições
locais, foram realizadas oficinas para capacitar os
diferentes atores envolvidos na alimentação esco-
lar indígena, na região do Médio Purus, para ela-
boração das Chamadas Públicas. Os municípios
de Canutama e Tapauá foram envolvidos, em um
primeiro momento, e Lábrea, posteriormente. Em
2019, foram realizadas oficinas em Eirunepé, Paui-
ni e São Gabriel da Cachoeira. Estas ações conta-
ram com a participação de organizações governa-
mentais das esferas federal, estadual e municipal
(FEI, FNDE, Funai, Idam, Mapa, Seduc, prefeituras), Canutama
organizações da sociedade civil, povos indígenas Tapauá
e tradicionais destas regiões. Um dos resultados Lábrea
destas capacitações foi a elaboração de termos de São Gabriel
compromisso visando fomentar a implementação da Cachoeira
de projetos pilotos com chamadas públicas dife-
renciadas nestes municípios, além do comprome-
timento com outros pontos em relação à educação
e à alimentação escolar indígena e de comunida-
des tradicionais.

23 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais


Também foi realizada intensa articulação jun- da agricultura familiar (Lei nº 11.947/2009), com
to aos órgãos de Assistência Técnica e Extensão prioridade aos povos indígenas, quilombolas e
Rural (Ater) locais, em especial Idam, sociedade assentados da reforma agrária, considerando a
civil, FEI/AM e Funai, de modo a possibilitar a ex- Nota Técnica nº 01/2017/Adaf/SFA-AM/MPF-AM
pedição de documentações aos indígenas que como recurso para assegurar a compra. O docu-
dessem acesso às compras públicas no âmbito da mento destaca que o descumprimento desta de-
agricultura familiar (em especial a DAP – Declara- terminação legal pode acarretar responsabiliza-
ção de Aptidão ao Pronaf). ção ao gestor executivo do município ou estado,
inclusive por improbidade administrativa. A partir
No início de 2019, o MPF/AM enviou a Recomen- de então, houve um processo inédito de lança- Força Tarefa Amazônia
dação 01/2019 (articulada com Procuradores do
MPF de todas as regiões do estado – unidades do
mento de chamadas públicas para aquisição de (FT Amazônia)
produtos da agricultura familiar, sendo parte es-
MPF nas cidades de Tefé e Tabatinga), conforme pecífica para povos indígenas, com base na NT.
Anexo 6, a todos os municípios do Amazonas, por
meio de articulação entre a Catrapoa e a Força
Tarefa Amazônia (FT Amazônia). Esta Recomen-
dação tratava do cumprimento da obrigação le- A FT Amazônia foi criada por Portaria da PGR em agricultoras, populações tradicionais e povos in-
gal da contratação mínima de 30% de produtos 2018, a partir de demandas da sociedade civil dígenas, como meio de sedimentar o combate à
no Fórum Diálogo Amazonas (coordenado pelo criminalidade socioambiental após a persecução
MPF no Amazonas desde 2011, com intuito de criminal de chefes de organizações criminosas,
viabilizar a regularização fundiária em unidades uma vez que em alguns casos este público (famí-
de conservação e áreas de uso tradicional). O in- lias agricultoras, populações tradicionais e povos
tuito da FT Amazônia é combater especialmente indígenas) pode ser alvo de cooptação das redes
a criminalidade socioambiental na Amazônia (em de criminalidade, em especial quando suas fon-
especial garimpo e mineração ilegal, desmata- tes de sustento são eliminadas, como castanhais,
mento, grilagem e violência agrária). Participam degradação de rios, entre outros. Neste contexto,
dela diversos procuradores da República do MPF a Catrapoa se tornou parceira da FT Amazônia,
no país, sendo a maioria dos estados amazôni- neste objetivo de possibilitar a geração de renda
cos. Um dos diferenciais desta FT é a sua atua- ao público citado, em especial em áreas de maior
ção além dos casos criminais, em tutela coletiva criminalidade socioambiental, como no arco do
(cível), buscando meios de regularização fundi- desmatamento envolvendo a tríplice fronteira
ária, bem como geração de renda entre famílias Acre, Rondônia e Amazonas.

24 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 25 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
No entanto, o processo de monito-
ramento das Chamadas Pú-
blicas lançadas, pela as-
sessoria da Catrapoa,
identificou diversas
incongruências
nos editais, o que
levou o FNDE a
elaborar um mo-
delo específico para
povos indígenas, e um
material informativo sobre
a Nota Técnica, Anexo 7,
que foram encaminha-
dos a todos os gestores
Amaturá das prefeituras e secreta- O valor total das chamadas públicas indígenas en-
Autazes rias de educação munici- tre 2019 e 2020 foi mais de 3 milhões de reais e
pais e estadual. envolveu pelo menos 350 produtores e 57 produ-
Benjamin Constant
tos, tais como: abacate, abacaxi, abiu, araçá, bana-
Eirunepé
na (pacovã, inajá, maçã, prata), batata cará, batata
Lábrea Prefeituras de 22 municípios
doce, biriba, castanha uará, cheiro verde, crueira,
Manaus do Amazonas lançaram chamadas
cucura, feijão de praia, guaraná, ingá, jerimum, laranja,
Maraã públicas com especificidade para povos in-
limão, macaxeira, mamão, manga, mangarataia, mapati,
Maués dígenas em 2019 e 2020 que estão em andamen-
maxixe, melancia, milho, pepino, pimenta de cheiro, pimen-
Novo Aripuanã to em 15 (Amaturá, Autazes, Benjamin Constant,
ta em pó, pimentão regional, pupunha, tomate, tucumã, uma-
Parintins Eirunepé, Lábrea, Manaus, Maraã, Maués, Novo
ri, ukuki), sendo da Nota Técnica: beiju, farinha de mandioca,
Santa Isabel do Rio Negro Aripuanã, Parintins, Santa Isabel do Rio Negro,
farinha de tapioca, goma de tapioca, galinha caipira, ovo de
São Gabriel da Cachoeira São Gabriel da Cachoeira, Tabatinga, Tapauá, To-
galinha, peixes regionais: matrinxã, pacu, pirarucu, surubim
Tabatinga nantins). Em 2020, as propostas de venda em São
e tucunaré, peixe “moqueado”, polpas de frutas: açaí, bacaba,
Gabriel da Cachoeira atingiram 100% do valor re-
Tapauá buriti, camu camu, cupuaçu, patauá e taperebá.
passado pelo FNDE ao município pelo PNAE.
Tonantins

26 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 27 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
A Secretaria Estadual de Educação Em resumo, nos anos de 2019 e 2020, cerca de a Secretaria Estadual de Educação lançou uma
do Amazonas (Seduc) lançou um 24 municípios do Amazonas, o que corresponde a chamada pública para agricultura familiar que
edital contemplando 36 municí- mais de um terço do estado, realizarão compras e contemplou os 62 municípios do Amazonas e re-
pios e 92 produtos, a maioria dos entregas de produtos em aldeias e comunidades cebeu 250 propostas, sendo 141 de grupos for-
citados na página anterior, além indígenas, beneficiando pelo menos 350 produ- mais no valor total de R$ 29.898.969,10 e 109 de
de cacau, caju, cana de açúcar, tores indígenas, 20 mil estudantes (quase 30% do produtores individuais no valor de R$ 894.386,20.
castanha, goiaba, graviola, jenipa- total) e respectivas aldeias e comunidades.
po, maracujá, patauá, piquiá e, da Cabe ressaltar que uma das medidas, além da
Nota técnica, tambaqui e pato, no Além das chamadas públicas para povos indí- recomendação expedida que impulsionou o
final de 2019, no valor de R$ 1,7 genas, a Secretaria Municipal de Educação de lançamento das chamadas públicas na grande
milhão. A chamada pública rece- Manaus lançou uma chamada pública específica maioria dos municípios em 2019, foi a partici-
beu propostas de 16 municípios para as escolas ribeirinhas do município e outra pação do MPF/AM no Fórum da União dos Di-
(Alvarães, Anamã, Atalaia do Nor- para produtos orgânicos, que recebeu propos- rigentes Municipais de Educação (Undime/AM)
te, Autazes, Borba, Carauari, Coari, tas de famílias agricultoras ribeirinhas. A partir da do Amazonas, que reúne os secretários de edu-
Japurá, Manaus, Maraã, Nhamun- recomendação, pelo menos 50 de 62 municípios cação municipais na capital Manaus periodica-
dá, Pauini, São Paulo de Olivença, do Amazonas lançaram Chamadas Públicas para mente. A partir de tal evento, também cresceu
Alvarães
Tabatinga, Tefé, Uarini) com valor aquisição de produtos da agricultura familiar. E substancialmente a participação dos gestores
Anamã
que ultrapassou 700 mil reais. municipais nas reuniões mensais da Catrapoa.
Atalaia do Norte
Autazes
Borba
Carauari
Coari
Japurá
Manaus
Maraã
Nhamundá
Pauini
São Paulo de Olivença
Tabatinga
Tefé
Uarini

28 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e d


de comunidades tradicionais 29 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
A aplicação da boa prática Atores Atribuições

FEI – Fundação Parceiro local nas reuniões e articulações da Catrapoa em Manaus e/ou nos
A aplicação da boa prática exigiu uma arti-
Estadual municípios;
culação das principais organizações na Co-
do Índio Levantamento da produção nos municípios;
missão. Segue a descrição das atribuições
de cada uma. Todos os atores institucionais Apoio ao acesso dos povos indígenas às políticas públicas de
também realizam um papel relevante de di- comercialização;
vulgar a Catrapoa. Participação em oficinas de formação sobre alimentação escolar indígena.

FNDE – Fundo Parceiro federal nas reuniões e articulações da Catrapoa;


Nacional de Gestor do Programa Nacional da Alimentação Escolar que determina a
Desenvolvimento compra de no mínimo 30% de compras públicas da agricultura familiar e
da Educação parceiro institucional;
Acompanhamento do cumprimento dos 30% da AF e alimentos adquiridos;
Seleção dos municípios de acordo com número de estudantes indígenas para
receber monitoramento e assessoria;
Tabela 2: Descrição das atribuições dos atores na Catrapoa
Elaboração de material específico sobre a Nota Técnica no PNAE;
Elaboração de modelos de Chamadas Públicas específicos para povos
Atores Atribuições indígenas com base na Nota Técnica;
Organização e participação em oficinas de formação sobre alimentação
MPF – Ministério Organizador e catalisador da Catrapoa, ator chave para a escolar indígena.
Público Federal viabilização e criação da Nota Técnica e atendimento das
demandas dos povos indígenas e comunidades tradicionais no
MC – Ministério Gestor dos programas de Aquisição de Alimentos (PAA) - Compra com
Estado do Amazonas. Tal papel pode também ser desempenhado
da Cidadania Doação Simultânea (CPR Doação) e Compra Institucional;
por outros atores de fiscalização, como Defensoria Pública da
Apoio à ampliação da participação de povos indígenas e comunidades
União (DPU), Defensoria Pública do Estado (DPE), Ministério
tradicionais nestas políticas de comercialização;
Público Estadual, Tribunal de Contas da União (TCU),
Controladoria Geral da União (CGU), por exemplo. Participação em oficinas de formação sobre alimentação escolar indígena.
+ +
30 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 31 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Atores Atribuições Atores Atribuições

Cecane/Ufam – Centro Parceiro local nas reuniões e articulações da Catrapoa em GIZ – Cooperação Parceira local nas reuniões e articulações da Catrapoa;
Colaborador em Alimentação Manaus e/ou nos municípios; Brasil-Alemanha para
Apoio na ampliação dos mercados para produtos da
e Nutrição do Escolar da o Desenvolvimento
Formação e assessoria aos gestores municipais e estadual agroecologia e da sociobiodiversidade;
Universidade Federal do Sustentável (Deutsche
Amazonas em alimentação escolar, com foco na aquisição de Gesellschaft für Internationale Contratação de assessoria para apoio à Catrapoa por meio
produtos da agricultura familiar; Zusammenarbeit (GIZ) GmbH) do Projeto Mercados Verdes e Consumo Sustentável;
Participação em oficinas de formação sobre alimentação Organização e participação em oficinas de formação sobre
escolar indígena; alimentação escolar indígena.

Apoio ao acesso dos povos indígenas às políticas públicas


de comercialização; Funai – Fundação Parceira federal e local nas reuniões e articulações da
Nacional do Índio Catrapoa em Manaus e/ou nos municípios;

Publicação da Nota Técnica nº 3/2017/COPE/CGPC/DPDS-


Idam – Instituto de Parceiro e articulador local presente em todos os Funai;
Desenvolvimento municípios do Amazonas;
Levantamento da produção nos municípios;
Agropecuário e Florestal Levantamento da produção nos municípios;
Sustentável do Estado Apoio ao acesso dos povos indígenas às políticas públicas
do Amazonas / Sepror – Apoio ao acesso dos povos indígenas e comunidades de comercialização;
Secretaria de Produção Rural tradicionais às políticas públicas de comercialização; Organização e participação em oficinas de formação sobre
do Amazonas alimentação escolar indígena.
Emissão de documentos necessários para viabilização do
acesso à política pública, como DAP e Cartão do Produtor
Primário; ADS – Agência de Parceira local nas reuniões e articulações da Catrapoa em
Desenvolvimento Sustentável Manaus e/ou nos municípios;
Participação em oficinas de formação sobre alimentação
do Amazonas
escolar indígena. Gestora do Programa de Regionalização da Merenda
Escolar – Preme.
+
+

32 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 33 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Atores Atribuições Atores Atribuições

Conab – Companhia Nacional Parceira local nas reuniões e articulações da Catrapoa em CEEI/AM – Conselho Estadual Parceiro nas reuniões e articulações da Catrapoa em
de Abastecimento Manaus e/ou nos municípios; de Educação Indígena do Manaus e/ou nos municípios;
Amazonas Assessoria e monitoramento das ações, projetos e políticas
Gestor dos Programas de Aquisição de Alimentos (PAA)
públicas referentes à Educação Escolar Indígena no
- Compra com Doação Simultânea (CPR Doação), Apoio
Amazonas;
à Formação de Estoque pela Agricultura Familiar (CPR
Estoque) e da Política de Garantia de Preços Mínimos para Participação em oficinas de formação sobre alimentação
escolar indígena.
os Produtos da Sociobiodiversidade (PGPM-Bio);

Apoio à ampliação da participação de povos indígenas Gerência de Educação Escolar Parceira nas reuniões e articulações da Catrapoa em
e comunidades tradicionais nestas políticas de Indígena/Seduc-AM Manaus e/ou nos municípios;
comercialização.
Execução da Política Estadual de Educação Escolar Indígena;
Participação em oficinas de formação sobre alimentação
CAE – Conselho de
Parceiro nas reuniões e articulações da Catrapoa em escolar indígena.
Alimentação Escolar
Manaus e/ou nos municípios;
Secretaria de Estado de Entidades executoras do PNAE;
Monitoramento da aplicação de recursos para aquisição
Educação e Secretarias Responsáveis por todo o processo de alimentação escolar
dos produtos pelo PNAE, desde a aquisição, distribuição,
Municipais de Educação do (elaboração e divulgação de chamada pública, contratação,
até o recebimento da refeição pelos escolares;
Amazonas aquisição, distribuição, monitoramento e fiscalização),
Analisar a prestação de contas e emitir Parecer Conclusivo junto a outros órgãos do município e estado, de acordo com
acerca da execução do Programa; com a Lei No 11.947/2009 e todos os normativos do PNAE;
Participação em oficinas de formação sobre alimentação
Participação em oficinas de formação sobre alimentação
escolar indígena.
escolar indígena.

+ Adaf – Agência de Defesa Um dos atores responsáveis pela elaboração e revisão da


Agropecuária e Florestal do Nota Técnica com os requisitos necessários a liberação da
Estado do Amazonas compra direta sem a necessidade dos registros sanitários.
+

34 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 35 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Atores Atribuições Atores Atribuições

Mapa – Ministério da Agricultura, Parceiro local e federal nas reuniões e articulações da Organizações das Parceiras locais nas reuniões e articulações da Catrapoa
Pecuária e Abastecimento Catrapoa; comunidades tradicionais em Manaus e/ou nos municípios;
(ribeirinhos e extrativistas):
Um dos atores responsáveis pela elaboração e revisão Levantamento da produção nos municípios;
da Nota Técnica com os requisitos necessários a Conselho Nacional das
liberação da compra direta sem a necessidade dos Populações Extrativistas Articulação no Coletivo do Pirarucu, que atua na
registros sanitários; (CNS), Memorial Chico promoção do manejo sustentável do pirarucu, com
Mendes, Associação dos objetivo de incentivar a melhoria da qualidade de vida das
Organização e participação em oficinas de formação
Produtores Rurais de Carauari populações ribeirinhas do Amazonas e a conservação dos
sobre alimentação escolar indígena.
(Asproc) e outras3 recursos naturais;
MEC – Ministério da Educação
Parceiro federal nas reuniões e articulações da Apoio ao acesso das populações tradicionais ribeirinhas e
Catrapoa; extrativistas às políticas públicas de comercialização.
Planejamento, orientação e coordenação, em
articulação com os sistemas de ensino, de políticas
para a educação dos povos indígenas e comunidades Outras organizações da Parceiras locais nas reuniões e articulações da Catrapoa
tradicionais; sociedade civil (Instituto em Manaus e/ou nos municípios;
Fomento à políticas públicas para os povos indígenas e Socioambiental – ISA,
Operação Amazônia Nativa Levantamento da produção nos municípios;
comunidades tradicionais, como por exemplo, PNAE.
– Opan, Associação Serviço Apoio ao acesso dos povos indígenas e comunidades
e Cooperação com o Povo tradicionais às políticas públicas de comercialização;
Organizações dos povos indígenas Parceiras locais nas reuniões e articulações da Catrapoa
(Coord. das Org. dos Povos Indígenas Yanomani – Secoya, Instituto
em Manaus e/ou nos municípios;
do Amazonas – Coipam, Fed. das de Pesquisa e Formação Organização e participação em oficinas de formação
Org. Indígenas do Rio Negro – Foirn, – Levantamento da produção nos municípios; Indígena – Iepé, Slow Food, sobre alimentação escolar indígena.
Fórum de Educação Escolar Indígena entre outras)
do Amazonas - Foreeia, Coord. dos Apoio ao acesso dos povos indígenas às políticas
Povos Indígenas de Manaus e Entorno – públicas de comercialização;
Copime, Fed. das Org. e Comunidades
Indígenas do Médio Purus – Focimp, Organização e participação em oficinas de formação
Coop. Agrícola Indígena Nova sobre alimentação escolar indígena. 3
Essas organizações e entidades vinculadas às populações tradicionais (ribeirinhas,
extrativistas) passaram a participar mais recentemente da Catrapoa.
Esperança de Tefé – Cooine)
+
36 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 37 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
O capítulo 3 abordará os resultados do desen-
volvimento da boa prática de comercialização, ci-
tando os fatores de sucesso, as dificuldades e os
riscos associados.

CAPÍTULO 3
Sociais e econômicos
Os resultados
Escolas beneficiadas

Estima-se que mais de 200 escolas e 20 mil


estudantes indígenas (quase 30% do total)
sejam beneficiados com as Chamadas Públi-
cas municipais e estadual lançadas em 2019
no Amazonas.

39 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais


Sociais e econômicas Ambientais

do estado do Amazonas, com a Nota Técnica Ambientais


Segurança alimentar e nutricional e e as oficinas de capacitação foi possível viabi-
valorização do etnoconhecimento lizar a compra de produtos oriundos da agri-
cultura familiar em pelo menos 50 municípios
de um total de 62, com compra direta das al- Redução do lixo nas aldeias Redução do uso de combustível

A aquisição de alimentos locais, frescos e deias em 15.


constituidores da cultura dos povos represen-
Diminuição do lixo industrial (sacolas, plásti- Diminuição dos impactos ambientais negati-
ta impacto positivo na soberania e segurança
cos, latas, entre outros) nas aldeias e comuni- vos gerados pelo grande consumo de com-
alimentar e nutricional e, consequentemente,
dades, cuja difícil destinação adequada gera bustível necessário para a logística de entrega
na saúde, além de reconhecer e valorizar as Maior controle social
por vezes lixões próximos às moradias e até da alimentação escolar, a partir dos centros
especificidades e vocação dos produtores in-
mesmo poluição de rios e igarapés. urbanos.
dígenas, bem como a biodiversidade e etno-
conhecimento de cada local. Maior possibilidade de controle social sobre
a entrega e qualidade da alimentação es-
colar, considerando que o fornecedor está
mais próximo. Promoção de atividades sustentáveis
Geração de renda e autonomia

A geração de renda proveniente da comercia-


A venda de produtos alimentícios para o pro- Redução dos gastos públicos lização de alimentos locais incentiva atividades
grama de compras públicas surge como fon-
sustentáveis com base no uso da biodiversida-
te de renda às comunidades e aldeias, ainda
de local (agricultura e extrativismo) e, dessa for-
mais importante em contextos de mineração,
Diminuição de gastos públicos com desloca- ma, evita a busca de alternativas ilícitas, como
garimpo, desmatamento e exploração ilegal
mentos para a entrega dos gêneros alimentí- mineração e desmatamento, que geram gran-
em terras indígenas e territórios tradicionais.
cios nas aldeias indígenas e chegada de ali- de impacto ambiental, desestruturação social,
Através do apoio à realização de novos edi- mentos no prazo. impactos culturais e na saúde dos povos.
tais para as compras públicas nos municípios

40 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 41 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Fatores de sucesso

Existência de uma Comissão Articulação de todos os atores


(Catrapoa) para operacionalização, envolvidos no processo como
gestão e promoção da estratégia de parte integrante da discussão.
comercialização dos produtos de
origem indígena e de populações Chancela do MPF à iniciativa
processo, como Funai, FEI, Cecane,
tradicionais para a alimentação como ponto chave para o sucesso
Idam, ONGs, organizações dos povos
escolar, dentre outras atribuições. da estratégia.
indígenas e comunidades tradicionais e
Reuniões e articulações com outros apoiadores.
Identificação de assessores,
servidores públicos e demais atores gestores municipais e estaduais
com afinidade e engajamento para a divulgação da Nota Técnica
relacionado à temática nos órgãos e envio da Recomendação para
que fazem parte da Catrapoa. o estado e municípios, para o
Por parte dos grupos indígenas:
cumprimento da Lei no 11.947/2009.

Organização social própria e Processo ainda inicial de aprendizado


específica de cada povo indígena, e familiaridade com os procedimentos
Principais dificuldades historicamente voltada à produção inerentes às políticas públicas de
para consumo interno e comércio comercialização, como controle e
Para a aquisição de alimentos por compra dire- local, entre outros aspectos, que, em registro de produção, formação de
ta, cabe aos povos indígenas a realização do le- geral, não se adequa ao modelo de estoque, emissão de documentos
vantamento de sua produção, e este processo associativismo exigido no acesso às fiscais e prestação de contas.
pode representar uma dificuldade inicial, além políticas públicas.
Apoio governamental escasso.
da documentação necessária para acessar a po- Gestão administrativa e contábil
lítica pública. No Amazonas, tem sido possível precisa ser ampliada. Falta de documentação necessária ao
devido à presença de agentes de Ater e da rede acesso às compras públicas
de parceiros locais que auxiliam os povos neste Falta de capital de giro.

42 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 43 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Riscos associados
Por parte das instituições governamentais:

Ausência de pessoas engajadas Falta de sensibilidade das instituições


Reduzido quadro de funcionários Entendimento equivocado por parte de e com aderência à temática. estaduais e municipais em lidar com as
e/ou servidores e gestores pouco instituições de Ater, responsáveis pela pautas e políticas públicas relacionadas
Apoio institucional limitado. aos povos indígenas e comunidades
sensíveis ao tema. emissão de documentos como DAP,
O Projeto Mercados Verdes e Consumo tradicionais.
que não consideram as produções em
Orçamento disponível reduzido para esta Sustentável apoia atualmente a
pequena escala e extrativas de castanha,
finalidade (logística e recursos humanos). atuação da Catrapoa, seja por meio A demora gerada por entraves
açaí, peixe, dentre outros.
de disponibilização de assessoria, seja burocráticos decorrentes das
Dificuldade de emissão de documentos Dificuldade de diálogo entre pelas articulações realizadas. Desta dificuldades com as documentações
para acesso às políticas públicas de diferentes atores da gestão pública. forma, garante-se a organização, necessárias pode gerar problemas nas
comercialização (DAP e Cartão do priorização e busca de soluções às entregas, devido à sazonalidade dos
Produtor Primário). Normas sanitárias inadequadas e descon- demandas estabelecidas nas reuniões. produtos, desestímulo e desistência
textualizadas dos modelos tradicionais de dos agricultores.
produção e preparação de alimentos. Ausência de voluntários ou
servidores suficientes no MPF ou Risco de desmonte nas legislações
Políticas públicas formuladas com foco órgão fiscal de apoio que auxiliem o promotoras da compra dos produtos
universal, partindo de uma concepção procurador ou responsável da agricultura familiar.
urbana ou contexto regional, sem levar pelo tema nas demandas.
em consideração as especificidades locais Criação de expectativas excessivas
e de visões de mundo de povos indígenas Falta de priorização do tema nos povos indígenas e populações
e comunidades tradicionais. pelos órgãos fiscalizadores tradicionais por parte das políticas
(MPF, MP estadual, DPE, DPU ou de compras públicas em relação
outros), deixando as câmaras de à demanda das escolas de suas
comercialização ou comissões comunidades e aldeias que, de forma
sem apoio importante. geral, envolvem poucos estudantes.

Mudanças na gestão das políticas em


nível federal.

44 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 45 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
De forma bem resumida e simples, relatamos o
passo-a-passo para a replicação da boa prática
“Alimentação escolar indígena e de comunidades
tradicionais no Amazonas”.

Passo a passo para a


replicação da estratégia

Para a replicação desta estratégia é fundamental


a percepção do engajamento por parte das orga-
nizações no estado ou região, assim como o apoio
institucional local e a articulação de base para for-
talecimento dos produtores rurais familiares, po-
vos indígenas e comunidades tradicionais.

CAPÍTULO 4

A replicação
47 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Gestores que operam outras políticas de Também se constitui como fator importante a
1 compras públicas: Conab e, no caso do junção e colaboração em rede destes atores,
Reunir instituições Amazonas, ADS tal qual ocorre na Catrapoa, em que há um
relacionadas ao tema da espaço de diálogo e construção das ações a
É fundamental haver reuniões periódicas serem direcionadas e executadas por cada
Alimentação Escolar para a articulação da base e a capacitação de uma das organizações em suas respectivas
todos os atores que devem estar envolvidos partes do processo. Como forma de replica-
no processo. No princípio das articulações e ção da estratégia, a Catrapoa aparece como
Gestores que operam a política pública: reuniões, em geral, estes apoios e o engaja- elemento catalisador.
FNDE, Secretarias de Educação Estadu- mento dos órgãos podem ser ainda tímidos
al e dos Municípios, e escolas federais; ou pouco perceptíveis. O mesmo ocorreu na Outro fator importante a ser considerado é a
Catrapoa, que há cerca de quatro anos vem desestruturação dos municípios do interior
Assistência Técnica e Secretaria de
buscando os caminhos possíveis. No entanto, amazônico, que muitas vezes sequer con-
Produção Estadual, como Idam (no
a participação efetiva da sociedade civil inte- tam com uma assessoria jurídica ou técnica
caso do Amazonas);
ressada (por exemplo, movimentos e associa- adequada em certos aspectos. Portanto, por
Vigilâncias Sanitárias (Estadual e dos ções indígenas e de populações tradicionais vezes, uma mera Recomendação legal, sem
municípios); quilombolas e ONGs) e a coordenação do a existência de uma articulação mais efetiva,
processo entregue a um dos atores colabo- não geraria os resultados e a sensibilidade es-
SFA/Mapa e defesas agropecuárias ram para a identificação dos servidores e dos perada no gestor. Tal articulação efetiva pode
estaduais; gestores públicos com afinidade com o tema. se dar de diversas formas, como reuniões,

Representação da sociedade civil:


Agricultores Familiares, Povos Indíge-
nas e Tradicionais (lideranças, movi-
mentos, associações, cooperativas);

Assessoria a estes públicos: Funai e,


no caso do Amazonas, FEI (povos in-
dígenas), ICMBio (populações tradi-
cionais), Incra (quilombolas), organiza-
ções não governamentais.

48 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 49 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
envio de correios eletrônicos, ligações telefô- Além disso, a articulação entre diferentes ins-
nicas ao Prefeito ou Secretário de educação, tituições nos municípios, com apoio da Ca- 2
visitas presenciais nos municípios, ou ainda trapoa, é fundamental para enfrentar os de- Institucionalizar o grupo
safios, como a questão logística, assessoria
com a participação em momentos de reunião
técnica aos povos indígenas e comunidades
de diversos gestores públicos num só local
tradicionais, emissão de documentos, entre Avaliar a possibilidade de se criar uma Co-
(como a citada União Nacional dos Dirigen- outros. Constatou-se que nos casos de suces- missão/Conselho/Câmara Técnica/Grupo
tes Municipais de Educação – Undime), que so da implementação da alimentação escolar de Trabalho, entre outros, para tratar sobre
no caso do Amazonas, reúne os secretários e indígena houve esta integração institucional. este tema. A institucionalização desta Câ-
secretárias de educação municipais. mara/Comissão pode ser um fio condutor
para a organização e efetivação das de-
mandas de povos indígenas e comunida-
des tradicionais.

3
Coordenação

Definir uma instituição responsável pela


coordenação da Comissão e articulação
entre organizações para implementação e
qualificação do Programa Nacional de Ali-
mentação Escolar e outras políticas de com-
pras públicas, como por exemplo o Minis-
tério Público Federal, a Secretaria Estadual
de Educação ou de Produção. Em caso de
o MPF (ou MP estadual, DPU, DPE, entre
outros) não ser o coordenador, será impor-
tante a participação efetiva de pelo menos

50 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 51 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
um destes órgãos nas reuniões, de modo 5
a estabelecer um adequado ritmo de gera- Sensibilizar os órgãos
ção de compromissos em cada reunião, e
de Ater local
cobrar formalmente o cumprimento da Lei
nº 11.947/2009 e fornecimento de alimenta-
ção escolar regionalizada com base na NT.
Sensibilizar a direção do órgão de Ater lo-
Estes órgãos são também importantes para
cal e representantes nos municípios para
facilitar o diálogo entre os entes públicos (às
atuação na divulgação da política públi-
vezes pouco fluido em face de divergências
ca e assessoria aos povos indígenas e
políticas, entre outros entraves possíveis). 6
comunidades tradicionais, principalmen-
te na emissão de documentos exigidos Criar grupos de trabalho
para participação das chamadas públicas, nos municípios e estado
como a Declaração de Aptidão ao Pronaf para implementação da
(DAP), mas também levantamento da pro- política pública
dução local, organização social, comer-
4
cialização e apoio administrativo e contá-
Nota Técnica bil, também com apoio de instituições do Estimular o diálogo local entre as Secreta-
terceiro setor e/ou do poder público. rias de Educação, de Produção, Setor de
Compras e outras envolvidas nas chama-
Para a exigência sanitária, usar como base das públicas nas prefeituras, povos indí-
a Nota Técnica nº 3/2020/6ªCCR/MPF que genas e comunidades tradicionais e suas
se aplica a todos os povos e comunidades organizações, instituições que atuam com
tradicionais do Brasil (inclusos indígenas e este público (Funai, ICMBio, entre outros),
quilombolas). É possível também usar os órgão de Ater e instituições da sociedade
subsídios da Nota Técnica nº 01/2017/Adaf/ civil parceiras nos municípios e estado, e
SFA-AM/MPF-AM e das Notas Técnicas já articular com FNDE, Cecane, Mapa, para
expedidas pela Funai e pelo ICMBio no planejar as ações necessárias para imple-
tema, conforme os Anexos 2 e 3. Articular mentação do PNAE com base na Nota Téc-
com as instituições vinculadas ao controle nica, entre os povos indígenas e comuni-
da vigilância sanitária no estado a aplicação dades tradicionais, por meio de reuniões,
destas notas para evitar eventuais proble- oficinas de formação e assessoria no muni-
mas de entendimento. cípio ou região.

52 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 53 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
7 8
Cumprimento da Chamadas Públicas
Lei nº 11.947/2009
As Secretarias de Educação municipais e
Quando for o caso, acionar o MPF (ou órgão estadual devem elaborar editais específi-
fiscal atuante, como DPU, DPE, MP estadu- cos para povos indígenas e comunidades
al, entre outros) para cobrar o cumprimen- tradicionais com base na Nota Técnica e 9
to da exigência de aquisição de no mínimo nos levantamentos de produção das co-
Participação do edital
30% de produtos da agricultura familiar na munidades (Ver o passo a passo para po-
alimentação escolar e implementação da vos indígenas e comunidades tradicionais,
alimentação escolar regionalizada, com descrito a seguir).
Assessorar os povos indígenas e comuni-
respeito aos costumes de povos indígenas
dades tradicionais para participação dos
e comunidades tradicionais e com base na
editais de Chamada Pública (Ver o passo
Nota Técnica, a exemplo do Amazonas.
a passo para povos indígenas e comunida-
des tradicionais, descrito a seguir).

10
Monitoramento

Acompanhar e monitorar o cumprimento


da Lei nº 11.947/2009 com base na Nota
Técnica, a efetivação dos editais, entrega
dos produtos, pagamento e prestação de
contas. As reuniões são importantes para
este monitoramento.

54 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 55 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Passo a passo para 4 5
povos indígenas e Declaração de Aptidão Chamada Pública
comunidades tradicionais ao Pronaf
acessarem os Programas Procurar representantes da Secretaria de
de Compras Públicas Procurar o órgão de Ater oficial e institui- Educação do Município e/ou do Estado e
ções parceiras para solicitar a emissão de instituições parceiras, entregar o levanta-
documentos exigidos para participação da mento da produção e solicitar o lançamen-
Este passo a passo dirige-se ao público formado política pública, como a DAP. to da chamada pública diferenciada para
2 aquisição de produtos para alimentação
principalmente por povos indígenas e comunida-
des tradicionais para facilitar o acesso ao PNAE.
Famílias agricultoras interessadas escolar da agricultura familiar, com priori-
Grande parte destas etapas podem ser aplicadas a dade para povos indígenas, quilombolas
outros programas, como PAA e outros específicos e assentados da reforma agrária (lembran-
A comunidade ou organização deve defi- do que não é licitação, nem preço mínimo,
regionais, como o Preme no Amazonas.
nir as famílias agricultoras que tem interes- mas sim preço médio de acordo com cada
Todo este processo pode contar com apoio de se em entregar produção para alimenta- local). O edital de chamada pública pode
instituições parceiras locais, como órgãos de Ater, ção escolar. ser específico para cada comunidade e
Funai, ICMBio, ONGs entre outros. deve adequar o fornecimento da alimen-
tação escolar de modo a respeitar a cultu-
ra e as tradições de cada povo (a melhor
3 maneira de realização desta adequação é
1 Levantamento da produção com base na Nota Técnica).
Reunir a comunidade
Levantar a produção de cada família agri-
Reunir a comunidade ou associação para cultora, com informações sobre o produto,
explicar como funciona o Programa Na- quantidade (preferencialmente em kg) e
cional de Alimentação Escolar (PNAE) e período de produção, incluindo todos os
os documentos necessários, a Nota Técni- itens consumidos nos hábitos alimentares
ca e outras políticas de compras públicas, da comunidade, mesmo que a produção
quando for o caso. seja pequena.

56 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 57 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
6 7 bre o cumprimento do limite individual dutos para alimentação escolar, com respon-
de venda de seus cooperados/associa- sabilidades e direitos de ambas as partes.
Projeto de venda Documentação
dos, comprovação de atendimento de
A família agricultora, grupo informal ou
requisitos previstos em lei específica.
organização assume um compromisso de
É o documento que detalha informações Os documentos devem ser organizados
É preciso ter conta bancária pois o recur- fornecer produtos à alimentação escolar
sobre os produtos e cronograma de entre- pelos fornecedores individuais ou grupos
so é depositado na conta. Muitas vezes, os (ou outro programa de compras públicas)
ga. Formaliza o interesse dos agricultores informais de agricultores familiares, de-
editais exigem os dados ou comprovan- e se não cumprir pode sofrer penalidades.
e organizações de agricultores familiares, tentores de DAP física; e grupos formais,
te da conta. Nos projetos de agricultores Se houver imprevistos com a produção
povos indígenas e comunidades tradicio- detentores de DAP jurídica. Além do pro-
e agricultoras individuais e grupos infor- de determinado item, deve-se comunicar
nais em participar do processo seletivo de jeto de venda, deverão ser entregues os
mais, o recurso é depositado na conta de a Secretaria de Educação para buscar
propostas destinadas a atender a deman- seguintes documentos para habilitação:
pessoa física e nos grupos formais jurídica. uma solução conjunta.
da de gêneros alimentícios da alimentação
escolar, em parte ou na sua totalidade. A Agricultores e agricultoras individu-
base para a construção do projeto de ven- ais: DAP, CPF, projeto de venda com
da é o edital de chamada pública. assinatura do agricultor e declaração
de produção individual;
É importante reunir as famílias agricultoras
Grupo Informal: CPF e DAP física 8 9
para elaborar os projetos de venda, que
podem ser individuais, por grupo infor- de cada agricultor, projeto de venda Contrato de compra Entrega
mal ou organização formal (associação ou com assinatura de todos os agriculto-
cooperativa). O limite individual do valor res e declaração de que os alimentos
são produzidos pelos participantes Os projetos de venda classificados resul- Organizar as entregas entre as famílias agri-
que cada família agricultora pode receber
do projeto. tarão na pactuação de contratos entre os cultoras da comunidade, gestor da escola e
é de R$ 20.000,00 por ano no PNAE, por
agricultores ou organizações de agriculto- unidade executora (secretaria de educação),
entidade executora, que corresponde às
Grupo Formal: CNPJ, DAP jurídica, res familiares e a secretaria de educação. obedecendo o calendário estabelecido no
prefeituras e secretaria estadual de edu-
certidões e comprovantes de regulari- Esse documento formaliza os compromis- contrato. Ao entregar os produtos, o gestor
cação (cerca de quase dois salários míni-
dade (Receita, INSS e FGTS), cópia do sos assumidos entre as partes e elenca ou- ou responsável por receber os alimentos na
mos mensais em caso de oferta no limite
estatuto e ata de posse da atual direto- tras ações inerentes aos contratos de com- escola assina o Termo de Recebimento.
máximo). No entanto, em geral, a deman-
ria, projeto de venda assinado pelo seu pras públicas.
da das escolas das comunidades e aldeias Se houver imprevistos com a produção de
representante legal, declaração de que
é relativamente baixa pois o número de O contrato de compra formaliza o compro- determinado item, deve-se comunicar a
os alimentos são produzidos por parte
estudantes é reduzido. misso entre a Secretaria de Educação e as Secretaria de Educação para buscar uma
ou todos os associados/cooperados,
declaração do representante legal so- famílias agricultoras para entrega dos pro- solução conjunta.

58 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 59 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
10 Para saber mais sobre os Programas de Com- mentais para superar e buscar soluções conjuntas lação entre os atores que desejam implementar
pras Públicas acesse o Guia “O Programa Cap- para os desafios e entraves, como a questão lo- a prática no município, estado ou região com os
Prestação de contas
Gestores e a ampliação das compras públicas da gística, formação e assessoria técnica aos povos órgãos regulamentadores locais e os executores
agricultura familiar” desta Série “Agricultura fa- indígenas e comunidades tradicionais, emissão das políticas de compras (por exemplo, Secre-
Emitir documento fiscal que atesta o pro- miliar: boas práticas replicáveis de comercia- de documentos, entre outros, especialmente na tarias de Produção, de Educação, entre outras),
cesso de compra/venda: lização de produtos da sociobiodiversidade e região amazônica. bem como buscar sensibilização na aplicação da
agroecologia” NT. Dessa forma, garante-se geração de renda,
Nota Fiscal: associações e cooperativas. Com a Nota Técnica Nº 3/2020/6ªCCR/MPF, expe- alimentação adequada, respeito à cultura e modo
dida pela 6ªCCR do MPF, e demais NT, é possí- de vida destes povos, além do cumprimento da
Nota fiscal avulsa ou Bloco do Pro- vel expandir e replicar a boa prática para povos obrigação legal de compra de no mínimo 30%,
dutor: povos indígenas, populações indígenas e comunidades tradicionais em todo o podendo chegar até 100%, do recurso do PNAE
tradicionais, agricultores familiares, in- Considerações finais território nacional. Mas é importante haver articu- proveniente da agricultura familiar com priorida-
dividualmente ou em grupos informais.
de a estes grupos.

A experiência do PNAE indígena no Amazonas


implementada pela Catrapoa mostrou diversos
benefícios da ampla inserção de produtos da ali-
11
mentação tradicional destes povos na alimenta-
Pagamento ção escolar, incluindo produtos de origem animal
e processados vegetais, com adequação das nor-
mas sanitárias à cultura e tradição destes povos.
O pagamento é realizado na conta bancá-
Destacam-se a geração de renda, a valorização
ria do agricultor ou da agricultora (forne-
da biodiversidade e do etnoconhecimento local,
cedor individual ou grupo informal) ou da
a melhoria da qualidade da alimentação nas esco-
organização (associação e cooperativa) de
las, contribuindo assim com a soberania e segu-
acordo com o que foi assinado em contra-
rança alimentar e nutricional, e o direito humano
to. Deve ocorrer de maneira que não gere
à alimentação adequada (DHAA), das comunida-
uma demora excessiva a partir da entrega
des, o incentivo à economia local, e a redução de
e comprovação pelo produtor, de modo a
gastos públicos e de impacto ambiental.
não desestimular a venda.
A consolidação desta iniciativa foi possível devido
à atuação em rede das diversas instituições que
formam a Comissão. Estas parcerias são funda-

60 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 61 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Documentos elaborados com a coorde- BRASIL. Nota Técnica nº 01/2017/Adaf/SFA-AM/ BRASIL. Lei nº 11.947/2009 de 16 de junho
nação da Catrapoa: MPF-AM. Posicionamento da Agência de Defe- de 2009. Dispõe sobre o atendimento da
sa Agropecuária e Florestal do Estado do Ama- alimentação escolar e do Programa Din-
Cartas de compromisso elaboradas nas Oficinas de zonas – Adaf, da Superintendência Federal de heiro Direto na Escola aos alunos da ed-
Alimentação Escolar Indígena em Canutama, Lábrea Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Ama- ucação básica
e São Gabriel da Cachoeira, em 2018 e 2019. zonas – SFA/AM e do Ministério Público Federal/
Comissão Pró-Índio de São Paulo. Al-
Referências Termo de Compromisso de Eirunepé, em 2018.
AM/5º Ofício, no que tange aos aspectos legais
para a comercialização de produtos de Origem imentação nas escolas indígenas: de-
Recomendação Legal nº 01/2019 – 5º ofício/PR/ Animal e dos Vegetais e suas partes no Estado safios para incorporar práticas e sa-
AM – Força Tarefa Amazônia. do Amazonas para os povos indígenas. 2017. beres / [texto] Carolina Bellinger, Lúcia
Disponível em: http://www.mpf.mp.br/am/sa- M. M. de Andrade. São Paulo, 2016.
Documentos elaborados pela Relação de municípios que lançaram chamada
equipe do Projeto Mercados la-de-imprensa/docs/nota-tecnica-merenda-es-
pública para aquisição de produtos da agricultura FAO, FIDA e PMA. 2014. O Estado da Inse-
Verdes e Consumo Sustentável colar-indigena/at_download/file
familiar na alimentação escolar. gurança Alimentar no Mundo. Fortalecimen-
(GIZ/Mapa, com apoio do Consórcio to de um ambiente favorável para a segurança
Eco-Consult/Ipam): Resumo dos Resultados da Catrapoa. 2020.
alimentar e nutrição. Roma, FAO. 2014.
Resultado das chamadas públicas de alimentação Legislações:
Boletim Informativo nº 03 de 15 de agosto de
escolar indígena – Amazonas lançadas em 2019.
2018, do Projeto Mercados Verdes e Consumo BRASIL. Resolução nº 06, de 8 de maio de 2020.
Sustentável – GIZ/SEAD sobre as Câmaras Estad- BRASIL. Nota Técnica n 03/2020/6aCCR/MPF
o
Dispõe sobre o atendimento da alimentação esco-
uais de Comercialização. 2018. elaborada em 01/06/2020 pela 6ª CCR do MPF. lar aos alunos da educação básica no âmbito do
Disponível em: http://www.mpf.mp.br/atua- Programa Nacional de Alimentação Escolar - PNAE.
cao-tematica/ccr6/documentos-e-publicacoes/
publicacoes/nota-tecnica-1. BRASIL. Lei nº 12.982, de 28 de maio de 2014. Al-
tera a Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009, para
BRASIL. Nota Técnica nº 03/2017/COPE/CGPC/ determinar o provimento de alimentação escolar
DPDS-FUNAI. Subsídio técnico sobre alimentação adequada aos alunos portadores de estado ou de
escolar indígena para contribuir com a efetiva condição de saúde específica. 2014.
implementação dos programas de aquisição de
alimentos. 2017. Disponível em: http://www.mpf. BRASIL. Ministério da Educação (BR), Fundo Na-
Acesso a diversos materiais sobre
mp.br/am/sala-de-imprensa/docs/2nota-tecni- cional de Desenvolvimento da Educação. Alimen-
o tema alimentação tradicional e
ca-alimentacao-escolar_sei-_-funai-0269135.pdf/ tação escolar: Programa Nacional de Alimentação
Catrapoa" disponíveis em: http://www.
at_download/file Escolar PNAE. Brasília (DF); 2009.
mpf.mp.br/am/alimentacao-tradicional

62 | Guia prático . Aliment


Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 63 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abasteci- E VENDA VIA PROGRAMA NACIONAL DE ALI-

ANEXO 1 mento – Mapa, através da Superintendência Fe-


deral de Agricultura, Pecuária e Abastecimento
MENTAÇÃO ESCOLAR – PNAE, PROGRAMA
DE AQUISIÇÃO DE ALIMENTOS – PAA, PRO-
do Amazonas – SFA/AM, a quem compete à ins- GRAMA DE REGIONALIZAÇÃO DA MERENDA
peção, fiscalização e registro de estabelecimen- ESCOLAR - PREME, entre outros, fazendo-o nos
tos que abatam animais e que industrializem seguintes termos:
produtos de origem animal, bem como a fiscali-
zação e registro de bebidas, a Agência de Defesa
Agropecuária e Florestal do Estado do Amazonas I – DOS FATOS
- ADAF, autarquia estadual sob o regime especial
criada pela Lei nº 3.801, de 29 de agosto de 2012,
responsável pela prévia fiscalização, sob o ponto
A análise em tela tem como escopo principal dis-
de vista industrial e sanitário, dos produtos e de-
correr sobre os serviços de inspeção para a comer-
rivados agropecuários no território amazonense,
cialização de produtos de origem animal, vegetal
no uso de suas atribuições legais, com fulcro no
e suas partes, levando em consideração a defesa
artigo 5º da Lei nº 9.013/17, artigo 1º da Lei Es-
agropecuária na produção rural para a prepara-
tadual nº 4.223/15 combinado com o artigo 2º,
ção, manipulação ou armazenagem doméstica de
inciso II, da Lei 3.801/12, e o 5º Ofício da Procu-
produtos de origem agropecuária para consumo
NOTA TÉCNICA Nº 01/2017/ADAF/SFA-AM/MPF-AM radoria da República do Amazonas, com atribui-
familiar, como forma de viabilizar o acesso dos
ção nos procedimentos relativos aos direitos dos
povos indígenas à alimentação diferenciada, com
povos indígenas e populações tradicionais, das
respeito aos seus processos próprios de produção
minorias e demais matérias afetas à 6ª Câmara de
tradicional, inclusive por meio de contratação via
Coordenação e Revisão do Ministério Público Fe-
merenda escolar, com base na legislação vigente.
deral, fazem expedir a presente NOTA TÉCNICA,
Nota técnica sobre o posicionamento da Agência de Defesa Agropecuária para instrução referente ao Procedimento Admi- Inicialmente, os produtos de origem animal, vege-
e Florestal do Estado do Amazonas - ADAF, da Superintendência Federal de nistrativo MPF nº 1.13.000.000342/2017-72, bem tal e suas partes estão presentes nos hábitos ali-
Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Amazonas - SFA/AM e do Minis- como para divulgação e conhecimento públi- mentares de uma grande parcela da população,
tério Público Federal/AM/5º Ofício, no que tange aos aspectos legais para a
co, relativamente aos fatos, fundamentos e con- constituem fontes de proteínas de alta qualidade,
comercialização de produtos de Origem Animal e dos Vegetais e suas partes
clusões sobre o tema SERVIÇO DE INSPEÇÃO de aminoácidos, de vitaminas e de alguns mine-
no Estado do Amazonas para os povos indígenas. Referência: Lei nº 1.283,
de 18 de dezembro de 1950, Lei nº 7.889, de 23 de novembro de 1989, PARA A COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS rais, especialmente o ferro. Para que esses pro-
Decreto nº 9.013, de 29 de março de 2017, Lei Estadual nº 4.223, de 08 de DE ORIGEM ANIMAL, VEGETAL E SUAS PARTES dutos mantenham tais qualidades nutricionais,
outubro de 2016 e Decreto nº 37.434, de 07 de dezembro de 2016. – ACESSO DOS POVOS INDÍGENAS À COMPRA faz-se necessária a adoção de medidas higiêni-

64 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 65 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
co-sanitárias na manipulação, no armazenamento administrativos da economicidade, da eficiência do a recusa de crianças indígenas aos alimentos e. o impacto da não contratação de alimentos para
e na comercialização, para aumentar o prazo de e da prestação adequada dos serviços públicos, tradicionalmente produzidos; aumento expo- a merenda escolar diretamente junto aos povos
vida comercial da carne desses alimentos, a pre- cabendo ressaltar entre eles: nencial de casos de diabetes, pressão alta entre indígenas, em territórios imensos como no esta-
servação do valor nutricional e, principalmente, outros; abandono gradativo das práticas de cul- do do Amazonas, não apenas geram os danos
evitar que se torne veículo de enfermidades. a. há centenas de inquéritos civis públicos no tivo tradicionais e desinteresse dos mais jovens, acima elencados a tais povos, como também
âmbito do Ministério Público Federal no país ressaltando que todos estes danos são poten- causam prejuízos ao erário, ainda mais em tem-
A segurança alimentar, atualmente, tem se torna- relatando a ausência ou insuficiência de me- cialmente aptos a serem imputados aos órgãos pos de contingenciamento; estes altos custos
do uma preocupação para a sociedade nos últi- renda escolar nas terras indígenas. Apenas no públicos que participam da cadeia de forneci- foram relatados expressamente pela Secretaria
mos anos. Dentre as questões que exigem maior âmbito do Ministério Público Federal do Ama- mento de referida alimentação escolar aos po- de Estado de Educação do Amazonas – Seduc/
segurança, incluem-se a necessidade de controle zonas, há diversos inquéritos e dezenas de vos indígenas, nas três esferas governamentais; AM nas reuniões citadas, como o pagamento
de microrganismos patogênicos e a contamina- denúncias sobre tal ausência ou insuficiência,
ção cruzada de alimentos e da água com pató- em terras indígenas localizadas em todas as c. o fornecimento de alimentos industrializados de até cinco vezes o valor do próprio alimento
genos entéricos de origem animal. A qualidade calhas de rios do Estado, desde o rio Negro, o em terras indígenas, sem a priorização no for- para fins de transporte a determinadas regiões,
microbiológica dos alimentos depende também rio Solimões e seus afluentes ao sul (rios Ma- necimento de alimentos tradicionais próprios ou seja, para levar mil reais em alimento até o
do estado fisiológico do animal no momento do deira, Jutaí, Juruá, Purus), entre outros; de cada povo indígena, além dos danos cultu- alto rio Negro, por exemplo, o Estado chega
abate, a contaminação durante o abate e o pro- rais e à saúde, gera um aumento exponencial a gastar 5 mil reais apenas com combustível e
cessamento, a temperatura e outras condições de b. além das denúncias referentes à falta ou insufi- de resíduos (lixo não orgânico) nas aldeias, custos logísticos; não bastasse o dinheiro públi-
armazenamento e distribuição. ciência da merenda escolar indígena, diversas que em sua imensa maioria não possuem co sendo equivocadamente destinado para fins
são as denúncias de que, quando há efetiva formas adequadas de descarte de referidos pouco razoáveis, ainda há o impacto ambiental
A segurança alimentar está também relaciona- entrega da merenda nas aldeias, verifica-se em resíduos (sacos plásticos, latas, entre outros). causado pelos combustíveis/poluição gerada
da com os hábitos alimentares de determinado grande parte dos casos sua não adaptação à Tais impactos prejudicam diretamente o bem pela necessidade de levar tais alimentos por
povo ou população e seus meios de produção. cultura e tradição indígenas. Entre os casos mais viver destes povos originários, ao tempo em centenas de kilometros via fluvial.
No âmbito de diversas reuniões nos anos de 2016 emblemáticos: o relato nas reuniões de forneci- que causam prejuízos socioambientais e sani-
e 2017 realizadas no Ministério Público Federal mento de proteína animal (peixe pirarucu pro- tários graves nas aldeias;
do Amazonas, por meio de videoconferências via cessado) a povos indígenas que não se alimen-
Brasília com órgãos públicos, entidades indige- tavam de referido peixe por questões culturais; d. o cumprimento da obrigatoriedade míni- Ressalte-se, enfim, as constatações de amplo es-
nistas e movimento indígena, relativas ao tema da alimentos enlatados entregues a comunidades ma de contratação de 30% de alimentos da tudo realizado por pesquisadores vinculados ao
merenda escolar indígena e a contratação obri- que não possuíam hábito alimentar de produ- merenda escolar proveniente da agricultu- Ministério do Desenvolvimento Social, em sete
gatória mínima dos 30% referente à agricultura tos industrializados; entre outros. Entre os preju- ra familiar ou não é atingido na maioria dos terras indígenas de todo o Brasil, publicado no
familiar (com prioridade para povos indígenas e ízos culturais e à saúde citados pelos indígenas, municípios ou, quando é, não prioriza o for- final de 2016, sob o nome “Estudos etnográficos
remanescentes de quilombos), alguns pontos vio- decorrentes da não observância de sua cultura necimento de alimentos oriundos de povos sobre o programa bolsa família entre povos indí-
ladores aos direitos indígenas foram registrados, e tradições alimentares, podem-se elencar: in- indígenas, comunidades tradicionais e rema- genas”, onde constata na parte das condicionali-
bem como situações contrárias aos princípios terferência nos hábitos alimentares ocasionan- nescentes de quilombos; dades em educação que (p. 128)

66 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 67 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Em todas as TIs há problemas com a meren- II – DOS FUNDAMENTOS Portanto, uma boa higiene pessoal, bem como
da escolar, pois não é oferecida em quanti- práticas de controle sanitário no trabalho são
dade e qualidade adequadas – isso apesar do componentes essenciais de qualquer programa Os povos indígenas e tradicionais, no entanto,
Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e no possuem mecanismos milenares próprios de con-
a. Dos fundamentos técnico-sanitários: de prevenção para garantir a segurança alimen-
Programa Nacional de Alimentação Escolar(P- servação e manipulação de alimentos, aptos a ga-
tar. Com isso, os manipuladores devem ter conhe-
NAE) existir mecanismos de gestão e estarem Devido ao seu elevado valor biológico, os ali- rantir uma mínima qualidade para consumo no
cimento e capacidade para manipular os alimen-
abertos precedentes do ponto de vista legal, ambiente local das terras indígenas, citando ape-
mentos de origem animal e vegetal servem de tos com segurança.
que autorizam a compra direta de alimentos nas como exemplo a prática do “moqueado” por
substrato para a multiplicação de inúmeros mi-
do agricultor familiar cadastrado (e também alguns povos, consistente na queima externa in-
crorganismos, sendo muitos os fatores que po- As doenças de origem alimentar podem ser trans-
de famílias indígenas), sem necessidade de li- tensa da proteína animal, no intuito de garantir-lhe
dem favorecer a multiplicação microbiana, como mitidas por contaminação cruzada, associada a
citação, democratizando e descentralizando as
as diversas operações que os produtos sofrem diversos utensílios de uso em cozinhas industriais. maior durabilidade.
compras públicas e criando mercado para os
pequenos produtores. Além de poder fornecer antes da sua comercialização, que podem com- Assim, microrganismos patogênicos podem ser
alimentos de melhor qualidade e culturalmente prometer a qualidade do produto final. Caso es- transferidos dos utensílios que não estão devida-
mente limpos e desinfetados aos alimentos. b. Dos fundamentos jurídicos:
mais adequados às escolas nas Terras Indígenas, sas operações não sejam realizadas dentro dos
estimulando a produção de alimentos oriundos padrões higiênico-sanitários, estes produtos po-
Os estabelecimentos industriais de alimentos A Lei nº. 4.223, de 08 de outubro de 2015, dis-
da agroecologia e das cadeias da sociobiodiver- dem transformar-se em fonte de veiculação de
devem atender às listas de verificação das Boas põe sobre a Inspeção Industrial e Sanitária dos
sidade indígenas, a um custo mais baixo, a valo- microrganismos.
Práticas de Fabricação, bem como possuir auto- Produtos de Origem Animal no âmbito do Esta-
rização da produção local se constituirá num fa-
rização específica para produção de produtos de do do Amazonas. O artigo 1º da citada legislação
tor de geração de renda adicional às famílias e a A qualidade sanitária da proteína animal está di-
origem animal e de produtos vegetais, entre eles, estabelece a obrigatoriedade da prévia Inspeção
comunidade onde vivem. Em 2013, o Fundo Na- retamente relacionada à sanidade dos animais,
Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Ani-
cional de Desenvolvimento da Educação (FNDE)
que dão origem aos produtos que lhe servem de as bebidas. As condições higiênico-sanitárias dos
criou um Grupo de Trabalho sobre Alimentação mal, produzidos em território amazonense e des-
matéria-prima, às condições em que são obtidos, produtos de origem animal são determinadas no
Escolar Indígena. O objetivo formal desse grupo tinados ao consumo, in verbis:
conservados e transformados, ao tipo de emba- Amazonas pelo Decreto Estadual nº 37.434, de
de trabalho é elaborar uma proposta com ações 07 de dezembro de 2016, que regulamenta a Lei
lagem utilizada e às condições de transporte, de Art. 1. Esta Lei regula a obrigatoriedade da pré-
estratégicas em alimentação e nutrição direcio-
comercialização, de conservação e de preparo do Estadual nº 4.223, de 08 de outubro de 2015, as- via Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos
nadas aos escolares indígenas, visando adequar
produto acabado. sim como pelo Decreto Federal nº 9.013/17. de Origem Animal, produzidos no Estado do
os normativos do PNAE a essa realidade.
Amazonas e destinados ao consumo, nos limites
Art. 53. Os responsáveis pelos estabelecimentos de sua área geográfica, nos termos do art. 23, II,
Os manipuladores são importantes veículos de
deverão assegurar que todas as etapas de fabri- combinado com o art. 24, V e XII, da Constitui-
transmissão de microrganismos. Logo, as práticas
cação dos produtos de origem animal sejam rea-
Contudo, após quatro anos, ainda hoje em 2017, de manipulação inadequadas podem causar a lizadas de forma higiênica, a fim de se obter pro-
a realidade precária do fornecimento quantitativo contaminação dos alimentos, podendo ocasionar dutos que atendam aos padrões de qualidade,
e qualitativo de merenda escolar em terras indí- doenças de origem alimentar, o que representa que não apresentem risco à saúde, à segurança
genas permanece inalterada. um risco potencial à saúde pública. e ao interesse do consumidor4. 4
Decreto Federal nº 9.013, de 29 de Março de 2017.

68 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 69 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
ção Federal, e em consonância com o disposto tecimento (Mapa) quando a produção se destinar Levando em consideração que uma das fontes pelo pequeno produtor rural que os produz; e
nas Leis Federais nº 1.283, de 18 de dezembro ao comércio interestadual e internacional. da inspeção e fiscalização promovidas e execu-
de 1950 e nº 7.889, de 23 de novembro de 1989. III - na agroindustrialização realizada pela agri-
tadas pelos órgãos competentes é a preservação
IV - pela Secretaria de Estado da Saúde e pelos cultura familiar ou equivalente e suas organiza-
da saúde humana e do meio ambiente, sem que ções, inclusive quanto às condições estruturais e
Municípios, quando se tratar de estabelecimento
atacadista e varejista. isso caracterize um empecilho para a instalação de controle de processo. (Grifo nosso).
A obrigatoriedade de inspeção e fiscalização sani- e legalização da agroindústria rural de pequeno
tária de produtos de origem animal sejam eles co- porte, no qual também se enquadra a produção
mestíveis e não comestíveis, adicionados ou não de rural para autoconsumo, que consiste na prepa-
Importante registrar que a fiscalização e a inspe- Assim, em que pese a obrigatoriedade do registro
produto vegetal, preparados, transformados, mani- ração, manipulação ou armazenagem doméstica
ção dos produtos de origem animal, têm por ob- no Serviço de Inspeção Federal, Estadual ou Mu-
pulados, recebidos, acondicionados, depositados de produtos de origem animal para consumo fa-
jetivo, além de proteger a saúde do consumidor, nicipal, a produção rural para a preparação, mani-
ou em trânsito, possui embasamento nos seguintes miliar, conforme prevê o artigo 7º do Decreto nº
incentivar a melhoria da qualidade dos produtos pulação ou armazenagem doméstica de produtos
diplomas legais: Lei nº 1.283, de 18 de dezembro 5.741, de 30 de março de 2006.
e estimular o aumento da produção, possuindo de origem animal para consumo familiar, ficará
de 1950, Lei nº 7.889, de 23 de novembro de 1989,
os seguintes princípios norteadores, nos termos Nesse sentido para viabilizar e normatizar a dispensada de registro, inspeção e fiscalização,
Decreto nº 5.741, de 30 de março de 2006, Lei Esta-
do artigo 2º do Decreto nº 37.434/2016: agroindustrialização de produtos de origem ani- nos moldes da legislação vigente, ficando condi-
dual nº 4.223, de 08 de outubro de 2015 e Decreto mal nos estabelecimentos de pequeno porte, o cionada sua aplicação ao risco mínimo de disse-
Estadual nº 37.434, de 07 de dezembro de 2016. Art. 2º Os princípios a serem seguidos no pre- Ministério da Agricultura, Pecuária e Abasteci- minação e veiculação de doenças, de pragas e de
sente regulamento são: mento, através da Instrução Normativa Mapa nº agentes microbiológicos e químicos prejudiciais à
As competências para realizar a fiscalização de
16 DE 23/06/2015 estabeleceu que: saúde pública e os interesses dos consumidores,
que trata a Lei em comento (Lei nº 4.223/2015), I - promover a preservação da saúde huma-
em observância ao artigo 23, inciso II, combinado na e do meio ambiente e, ao mesmo tempo, de acordo com o artigo 7º, parágrafo segundo, do
Art. 2º As normas específicas relativas à defesa
com o artigo 24, incisos V e XII, da Constituição que não implique obstáculo para a instala- agropecuária servirão de referência para todos os
Decreto nº 5.741/2006 c/c artigo 6º da IN 16/2015.
da República Federativa do Brasil, estabelece em ção e legalização da agroindústria rural de serviços de inspeção e fiscalização sanitária, para:
pequeno porte; No que diz respeito aos produtos de origem ve-
seu artigo 2º, parágrafo único, que serão exerci-
I - produção rural para a preparação, manipu- getal, a Instrução Normativa nº 17, de 23/06/2015,
das da seguinte forma: II - ter o foco de atuação na qualidade sanitária lação ou armazenagem doméstica de produ- do Mapa, aprova os requisitos e os procedimentos
dos produtos finais; tos de origem animal para consumo familiar,
I - pela Agência de Defesa Agropecuária e Flo- administrativos para registro de bebidas e de pro-
que ficará dispensada de registro, inspeção e
restal (ADAF), através da Gerência de Inspeção
III - promover o processo educativo permanen- duto, elaboração de produto e unidade industrial
Animal (GIA), quando a produção se destinar ao fiscalização;
te e continuado para todos os atores da cadeia e em estabelecimento de terceiro e contratação de
comércio intermunicipal; unidade volante de vinho, em conformidade com o
produtiva, estabelecendo a democratização do II - venda ou no fornecimento a retalho ou a gra-
II - pelos municípios, quando a produção se des- serviço e assegurando a máxima participação do nel de pequenas quantidades de produtos de Decreto nº 6.871/2009 e o Decreto nº 8.198/2014.
tinar ao comércio municipal; governo, da sociedade civil, de agroindústrias, origem animal provenientes da produção pri-
dos consumidores e das comunidades técnica e mária, direto ao consumidor final, pelo agricultor Essa Instrução Normativa se aplica a todas as be-
III - pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abas- cientifica nos sistemas de inspeção. familiar ou equivalente e suas organizações ou bidas, tais como: os sucos, polpas, cervejas, cacha-

70 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 71 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
ças, licores, vinhos, derivados da uva e do vinho e compete o registro, a padronização, a classificação pelos empreendedores familiares rurais, priori- Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimen-
vinagres. Estabelece a IN nº 17/2015 no artigo 34 e, ainda, a inspeção e a fiscalização da produção e zando as comunidades tradicionais indígenas e to – Mapa e da Agência de Defesa Agropecuária e
de remanescentes de quilombos; Florestal do Estado do Amazonas – Adaf.
que os regramentos que a integram não se apli- do comércio de bebidas, em relação somente aos
cam aos casos em que o produto for preparado seus aspectos tecnológicos, uma vez que cabe ao
Contudo, vale ressaltar que compete à vigilância
para ser consumido no mesmo dia e quando a pro- Sistema Único de Saúde – SUS a inspeção e fiscali-
sanitária normatizar, controlar e fiscalizar produ-
dução for destinada ao consumo próprio, sem fim zação de bebidas nos seus aspectos bromatológi- Nesse prisma, a lei supracitada propõe que do to-
tos, substâncias e serviços de interesse para a
comercial. Estando, de igual modo, dispensada da cos e sanitários (art. 3º da Lei nº 8.918/94). tal dos recursos financeiros repassados pelo Fun-
saúde abrangendo o controle de todas as etapas
fiscalização e controle do Mapa, senão vejamos: do Nacional de Desenvolvimento da Educação -
Logo, os sucos e as polpas a serem fornecidos e processos da produção e comercialização de
FNDE, no âmbito do PNAE, no mínimo 30% (trinta
Art. 34. O disposto nesta Instrução Normativa pelos indígenas para a merenda escolar, inserido bens de capital e de consumo que se relacionem
por cento) deverão ser utilizados na aquisição de
não se aplica: direta ou indiretamente com a saúde e de sua uti-
nesse contexto, não necessitam de inspeção ou gêneros alimentícios diretamente da agricultu-
lização, bem como a prestação de serviços que se
I - Ao serviço de alimentação e unidade de co- da fiscalização do Mapa. Contudo, não podemos ra familiar e do empreendedor familiar rural ou
relacionem direta ou indiretamente com a saúde
mercialização de alimentos cujos produtos de- deixar de consignar que a manipulação de ali- de suas organizações, priorizando-se os assenta-
(artigo 124, incisos I e II, da Lei nº 70 de 03 de
vem ser consumidos no mesmo dia do preparo, mentos e bebidas preparados com vegetais deve mentos da reforma agrária, as comunidades tra-
dezembro de 2009), ficando a cargo da direção
em conformidade com o estabelecido na Resolu- ocorrer com zelo aos critérios de Boas Práticas dicionais indígenas e comunidades quilombolas
ção RDC/ANVISA nº 218, de 29 de julho de 2005; municipal a execução de serviços de vigilância
relacionados com o beneficiamento, o armazena- (artigo 14 da Lei nº 11.947/2009).
em saúde, compreendendo as vigilâncias epi-
II - Ao produto destinado a concurso de qualidade; mento, a distribuição de vegetais e o seu preparo,
A referida aquisição, contudo, fica vinculada a exi- demiológica, sanitária e ambiental e os serviços
de forma a prevenir as doenças que possam ser laboratoriais de saúde. Inclusive, a execução de
III - Ao produto destinado ao desenvolvimento
gência dos alimentos estarem submissos ao con-
transmitidas por alimentos. serviços de saúde indígena, nos termos do artigo
de pesquisa; trole de qualidade estabelecida pelas normas de
fiscalização e inspeção sanitárias, ficando o FNDE 12 da Lei nº 70/2009.
Assim, tendo em vista que a mola propulsora da
IV - À produção destinada ao consumo próprio, autorizado a dispensar a compra de alimentos
presente Nota Técnica envolve o direito dos po- Válido ressaltar que a Administração Pública, ao
sem fim comercial. que estejam em condições higiênico-sanitárias
vos indígenas ao acesso à alimentação diferencia- exercer suas funções, deve nortear seus atos pri-
inadequadas (artigo 14, parágrafo segundo, inci-
Parágrafo único. Será considerado produto des- da, com respeito aos seus processos próprios de mando pela razoabilidade como forma de legi-
tinado ao desenvolvimento de pesquisa aquele so III, da Lei nº 11.947/2009).
produção para o fornecimento da merenda esco- timar suas condutas e justificar a emanação e o
identificado e segregado do destinado à comer- lar, não podemos olvidar que a Lei nº 11.947 de Como já mencionado, quando se tratar de consu- grau de intervenção administrativa impostos ao
cialização e que dispuser de documentação que
16 de junho de 2009 consigna que: mo familiar, tais alimentos ficarão dispensados de destinatário. Dessa forma, os atos da adminis-
caracterize a atividade de pesquisa.
registro, inspeção e fiscalização por determinação tração pública analisados frente ao princípio da
Art. 2o São diretrizes da alimentação escolar:
na legislação vigente. Assim, os alimentos a serem razoabilidade, permitem que o agente use da
V - o apoio ao desenvolvimento sustentável, com produzidos pelos povos indígenas obedecerão a discricionariedade para enquadrar as peculiari-
É válido mencionar que ao Ministério da Agricul- incentivos para a aquisição de gêneros alimentí- processos próprios de produção conforme a cul- dades do caso concreto, sob justificativa de me-
tura, Pecuária e Abastecimento, de acordo com o cios diversificados, produzidos em âmbito local tura e os costumes de cada povo indígena, por- lhor atender as conveniências da administração e
artigo 2º da Lei nº 8.918, de 14 de julho de 1994, e preferencialmente pela agricultura familiar e tanto, tais alimentos prescindem da chancela do as necessidades coletivas.

72 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 73 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
Portanto, conforme acima exposto, resta na norma ra familiar, técnicas e manejos para obtenção de Entende-se por família extensa ou ampliada SEY, 1997 (Kayapó, Brasil Central); RICADRO &
certa margem de opção para a Administração Pú- alimentos oriundos de cultivos e outras formas aquela que se estende para além da unidade CABALZAR, 2009 (Alto Rio Negro); SILVA, 2013
blica efetivar a vontade abstrata da lei, que neste de produção. Isso porque cada uma dessas etapas de pais e filhos ou da unidade do casal, formada
(Baniwa, Alto Rio Negro); SILVEIRA, 2011 (Guarani
acontece no seio da comunidade de parentes ide- por parentes próximos com os quais a criança ou
caso consiste no enquadramento dos alimentos Mbya, Santa Catarina).
almente concebida e vivida cotidianamente. Não adolescente convive e mantém vínculos próxi-
produzidos pelos povos indígenas como consu-
raro, a produção ocorre nas roças familiares ou mos de afinidade e afetividade
mo familiar, permitindo o acesso desses povos à Tais estudos, entre muitos outros produzidos sobre
coletivas nas imediações da aldeia, a depender
alimentação diferenciada, com respeito aos seus da disponibilidade de solos agricultáveis, pra- 24. Portanto, percebe-se que há respaldo em parte o tema, abordam contextos indígenas muito diver-
processos próprios de produção e cultura, inclu- ticada por homens e mulheres, com funções da legislação brasileira para lidar com outros ar- sos, com práticas produtivas, organização social
sive para a merenda escolar, no qual a autoridade complementares dentro do processo produtivo, ranjos familiares que não o nuclear, inclusive na e cosmologia específicas. No entanto, um ponto
pública deverá adotar a melhor medida para o com a participação dos mais novos de forma implementação de políticas sociais (assistenciais). que aparece de forma recorrente é o envolvimen-
gradual nos afazeres. O preparo dos alimentos Estes outros arranjos permitem melhor entendi- to das vastas redes de parentesco nos processos
atendimento da finalidade pública.
é realizado por merendeira, normalmente uma mento sobre a organização social indígena o que,
de produção, preparo e consumo dos alimentos.
Note-se que, ao se referir a consumo familiar, a le- mulher indígena contratada, quando a preca- contribui com o argumento apresentado no pará-
Assim, as etapas que envolvem o "autoconsumo"
gislação de referência menciona a produção de ali- riedade de condições não impede a presença grafo 22, a respeito das imbricações dos arranjos
deste funcionário no cotidiano da escola. Por familiares na estrutura produtiva indígena. ou “consumo familiar” de muitos povos indígenas
mentos por vínculos de proximidade, parentesco,
fim, os alunos que recebem a alimentação são não são realizadas única e exclusivamente pelas fa-
que são diversos conforme as culturas em ques-
filhos tanto dos produtores indígenas, quan- mílias nucleares (ou "grupos de fogo"), mas abar-
tão, mas a ideia central é o alimento ser produzido
to dos professores e funcionários indígenas cam também uma rede mais extensa de parentes
em contexto familiar e voltado para o consumo no responsáveis pelo funcionamento da escola.
Ainda, há uma vasta bibliografia antropológica
(consanguíneos e afins) em uma mesma aldeia ou
mesmo contexto. Ainda que necessário adaptar os Portanto, excetuando a aquisição feita pelo que confirma isto e aponta para a grande impor-
em um conjunto de aldeias. As próprias aldeias
termos à realidade e contextos culturais indígenas, Estado através da Secretaria de Educação ou tância das práticas de produção, preparo, consu-
constituem-se, via de regra, como espaços de ha-
a produção alimentar indígena é, em si, familiar, da própria escola, todo o processo produtivo mo e distribuição de alimentos na cosmologia e
e de preparo de alimentos ocorre no âmbito bitação e convivência de um conjunto amplo de
quando contempla estes fatores acima elencados, na organização social de diversos povos indígenas
da comunidade de parentesco, assim como a parentes, onde há diferentes níveis e intensida-
enquadrando-se também no modelo do autocon- no Brasil e nas terras baixas da América do Sul (cf.
alimentação escolar dos estudantes, filhos da des de relação, e não apenas um aglomerado de
sumo. Corroborando este entendimento, segue CARDOSO, 2008 (Baixo Rio Negro); BELAUNDE,
comunidade, encerra este processo no âmbito núcleos familiares independentes (cf. CHERNELA,
trecho de Nota Técnica nº 3/2017/COPE/CGPC/ familiar (estendendo-se a rede familiar entre 2001 (Airo-Pai, Peru); CHERNELA, 1997 (Alto Rio
1983; HUGH-JONES, 1979; JACKSON, 1984).
DPDS-FUNAI, que acompanha a presente nota: os consanguíneos e afins reconhecidos como Negro); COSTA, 2013 (Kanamari, Rio Juruá); ELOY,
parentes para cada grupo local). 2005 (Alto Rio Negro); EMPERAIRE, 2010 (Rio Ne- Note-se que a recente Resolução nº 77, de 27 de
22. O entendimento de que os alimentos ofertados
gro); EWART, 2005 (Panará, Brasil Central); JOUR- julho de 2017, da SECRETARIA NACIONAL DE
pelos produtores indígenas locais estão em confor- 23. Outrossim, é preciso considerar a categoria
midade com a definição de autoconsumo se calca
NET, 1988 (Curripaco, Alto Rio Negro); LEITE, 2007 SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL, que
de autoconsumo à luz do Estatuto da Criança e
na indissociabilidade entre produção, preparo do Adolescente (ECA), pois o conceito de famí- (Wari', Rondônia); MAIZZA, 2014 (Jarawara, Médio regulamenta a modalidade de aquisição de Se-
e consumo da alimentação escolar indígena na lia aí empregado extrapola sua forma nuclear. A Purus); MORIM DE LIMA; 2016 (Kraô, Brasil Cen- mentes e Mudas no âmbito do Programa de Aqui-
região do rio Negro, como na maioria dos po- reforma do ECA (Lei nº 12.010/09), em seu art. nº tral); MILLER, 2010 (Brasil Central); OLIVEIRA, 2012 sição de Alimentos – PAA, já isenta a necessida-
vos indígenas do país, que mantém a agricultu- 25, parágrafo único, traz a seguinte definição: (Wajãpi, Amapá); OVERING (Cubeo e Piaroa); PO- de de DAP (Declaração de Aptidão ao PRONAF)

74 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 75 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
para indígenas, conforme art. 7º, §3º: “No caso de em seus artigos 3, 8, 23 e 27 sobre a necessidade o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abasteci- de de inspeção e fiscalização, o que permite
entregas de sementes ou mudas a indígenas, na do respeito às técnicas tradicionais, valores e as- mento – Mapa, representado pela Superinten- que sejam fornecidos pelos indígenas, dentro
ausência da DAP, poderá ser aceito o CPF junta- pirações sociais, econômicas e culturais dos po- dência Federal de Agricultura, Pecuária e Abaste- desse contexto;
mente com Certidão de Atividade Rural emitida vos indígenas e tribais (populações tradicionais). cimento do Amazonas – SFA/AM e o 5º Ofício do
pela Funai”, demonstrando o reconhecimento do Ministério Público Federal no Amazonas firmam d. Por se tratar de consumo familiar e alimento
contexto cultural diferenciado e a necessidade de O Decreto nº 6.040/2007 traz menção expres- os seguintes entendimentos: perecível, a comercialização fora de territórios
adaptações específicas para este contexto. sa às comunidades tradicionais, em especial nos indígenas fica impossibilitada, pois apenas
artigos 01 e 03, quando se refere à inclusão pro- a. Não existe flexibilidade na legislação vigen- destinada ao consumo interno dos próprios
De modo a extirpar de vez qualquer dúvida sobre dutiva e o respeito e valorização das práticas, sa- te, até o momento, quanto ao processamento indígenas, restringindo-se a pequenas distân-
o tema, a Constituição Federal, as normas nacio- beres e tecnologias tradicionais. de produtos de origem animal e produtos de cias e dentro do limite geográfico do Estado
nais e internacionais amparam tal entendimento, origem vegetal e suas partes sem que os mes-
do Amazonas.
senão vejamos: A Lei nº 9.394/96 (LDBE) corrobora tais enten- mos passem por um estabelecimento inspe-
dimentos no art. 78 quando inclui em seus obje- cionado e regularizado;
Os artigos 210, § 2º, 216 e 231 da Constitui- tivos proporcionar aos índios, suas comunidades
ção Federal garantem a proteção aos povos in- e povos, a recuperação de suas memórias históri- b. Submetendo o processo sob o ponto de vista Manaus, 15 de setembro de 2017.
dígenas, seus métodos de ensino e respeito aos cas; a reafirmação de suas identidades étnicas; a da legislação do autoconsumo/consumo fa-
processos próprios de aprendizagem, bem como valorização de suas línguas e ciências. miliar, no que se refere à produção rural para
aos costumes e tradições indígenas. Ou seja, a preparação, manipulação ou armazenagem
Por fim, ainda que existam outras normativas no HAMILTON NOBRE CASARA
qualquer norma infraconstitucional ou interpreta- doméstica de produtos de origem animal
tema da alimentação escolar indígena, a Lei nº Diretor-Presidente
ção de tais normas que não respeite estas dispo- para consumo familiar (incluso o fornecimen-
11.947/2009 traz as diretrizes que priorizam as Adaf
sições, sofre de inconstitucionalidade expressa. to e consumo no âmbito da merenda escolar
comunidades indígenas (e remanescentes de qui- indígena, de caráter claramente familiar, como
No âmbito das convenções internacionais adota- lombos) na aquisição de gêneros para alimentação acima exposto), há possibilidade de dispensa
das pelo Brasil, os artigos 8 e 10 da Convenção escolar, ressaltando ainda o mínimo de 30% dos de registro, inspeção e fiscalização, onde não GUILHERME DE MELO PESSOA
sobre a Diversidade Biológica são expressos recursos do PNAE na aquisição com tal prioridade. haveria interferência nos hábitos alimentares Superintendente Federal Substituto
no respeito e práticas das comunidades locais e dos indígenas, permitindo que tal alimento de Agricultura, Pecuária e Abastecimento do
populações indígenas, obviamente estando inse- seja consumido no ambiente escolar; Amazonas - SFA/AM
ridos seus meios próprios de produção alimentar
III – DAS CONCLUSÕES
e uso destes recursos, que não podem ser desres- c. De igual modo, para os produtos de origem
peitados pelo Estado quando do fornecimento da vegetal, especialmente bebidas, em se tratan-
merenda escolar, como vem ocorrendo. Ainda, a do de consumo próprio, sem fim comercial FERNANDO MERLOTO SOAVE
Convenção nº 169 da Organização Internacio- Por todo o exposto, a Agência de Defesa Agrope- ou quando o produto for preparado para ser Procurador da República
nal do Trabalho (OIT), discorre com pormenores cuária e Florestal do Estado do Amazonas – Adaf, consumido no mesmo dia não há necessida- 5o Ofício da PR/AM

76 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 77 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
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78 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 79 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
1. Em atendimento à solicitação expressa pelo pazes de reconhecer a capacidade e os

ANEXO 2 Ministério Público Federal (MPF) em Manaus,


representada pelo Sr. Procurador Fernando
modos indígenas de produção, distribui-
ção, armazenagem e preparo de produtos
Merlotto durante a reunião do GT de Alimen- alimentares, atestada pelo próprio Estado,
tação Escolar ocorrida na sede da PGR em por exemplo, ao registrar o Sistema Agrí-
30/03/2017, servimo-nos da presente para cola Tradicional do Rio Negro como Patri-
prestar subsídios técnicos acerca da possibili- mônio Imaterial Nacional;
dade de aquisição direta de produtos indíge-
nas destinados à alimentação escolar, não só • Sobre a exigência de controle da construção
do cardápio pela(o) nutricionista, desrespei-
para o rio Negro (caso em questão), mas para a
tando os preceitos constitucionais e legais
realidade brasileira, já que os problemas estru-
sobre a autonomia dos povos indígenas para
turais se repetem em todo o território nacional,
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA variando basicamente sua composição.
viverem e manterem seus hábitos alimenta-
res (entendidos como hábitos culturais);
FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO
2. Apesar da legislação que norteia o direito por
COORDENAÇÃO DE PROCESSOS EDUCATIVOS educação específica, diferenciada, bilíngue/mul- • Sobre a exigência da Declaração de Ap-
tidão ao Programa Nacional de Fortaleci-
tilíngue com a participação comunitária dos po-
mento da Agricultura Familiar (DAP-Pronaf)
vos indígenas no Brasil, a qual incorpora também
NOTA TÉCNICA Nº 3/2017/COPE/CGPC/DPDS-FUNAI avanços dispostos em dispositivos legais interna-
para acessar os processos de compras pú-
blicas, uma das causas para que os produ-
cionais, há muito que se avançar na implementa-
tores indígenas não acessem as chamadas
ção e execução da política educacional indígena,
públicas do PNAE na região do rio Negro,
no sentido de cumprir factualmente com o dis-
assim como nas outras regiões do país.
Em 28 de junho de 2017 posto no ordenamento jurídico brasileiro.
4. Ao fim, o documento reafirma a necessida-
3. Considerando o exposto acima, esta Informa-
À Senhora Coordenadora-Geral - de de cumprimento do direito à alimentação
ção Técnica apresenta sucintamente os pon-
Léia do Vale Rodrigues escolar indígena se efetivar na região do rio
tos centrais do direito à alimentação escolar
Negro, mas salienta a necessidade de se cons-
Assunto: Subsídio técnico sobre alimentação escolar indígena indígena que fundamentam, na sequência, as
truir agenda para alterações legais e regula-
para contribuir com a efetiva implementação dos programas críticas à estrutura rígida e inadequada da le-
mentares que permitam arranjos institucionais
de aquisição de alimentos. gislação que versa:
viáveis para que o Programa Nacional de Ali-
• Sobre as exigências de controle sanitário mentação Escolar ocorra em nível nacional de
da produção agrícola e extrativista, inca- forma regular, tendo em vista que tais proble-

80 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 81 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
mas são recorrentes em comunidades indíge- 231 da Constituição Federal de 1988 e Art. os arts. 18 e 19, especificam as competên- • Na impossibilidade de emissão de do-
nas localizadas em todo país. nº 2, do Decreto 5051/2004, que promulga cias dos Conselhos de Alimentação Escolar cumento fiscal correspondente (acesso à
a Convenção nº 169 da Organização Interna- (CAE), sua composição, formas de seleção compra pública);
cional do Trabalho) que garantem aos povos e duração dos mandatos. Compete ao CAE
indígenas a livre manifestação de sua organi- acompanhar e fiscalizar os repasses feitos • Na inviabilidade de fornecimento regular
O MARCO LEGAL
zação social e de sua cultura, incluídas nesta, e constante dos gêneros alimentícios (exis-
pelo programa de alimentação escolar para
por extensão, o direito ao respeito dos hábitos tência de produção local suficiente para o
o ente federado responsável pela execução
alimentares próprios. abastecimento da demanda escolar);
da educação básica. Do mesmo modo, o zelo
5. A legislação que trata da alimentação escolar
pela qualidade dos alimentos, a aceitação do • Em condições higiênico-sanitárias inade-
define esta como “todo o alimento oferecido no 7. Cabe ao Estado brasileiro respeitar e levar em
cardápio e a emissão de parecer conclusivo a quadas (problemas sanitários para a aqui-
ambiente escolar, independentemente de sua consideração tais especificidades na sua re-
respeito da execução do Programa. sição de gêneros alimentares para esco-
origem, durante o período letivo” – Art. 1º da Lei lação com o povo indígena em questão. Isso
11.947/2006, conhecida também por Lei da Ali- implica a necessidade de se construir políticas las indígenas devido às inadequações
9. A LAE define em seus arts. 11 e 12 que a res-
mentação Escolar (LAE). Entre suas diretrizes des- públicas diferenciadas com e para os povos legais que desconhecem os sistemas de
ponsabilidade técnica pela alimentação esco-
tacam-se, conforme o Art. 2º da supracitada lei: indígenas, tendo em vista sua participação em produção, distribuição, armazenagem e
lar nos entes da federação cabe ao nutricio-
todo o ciclo de políticas, desde sua formulação preparo dos povos indígenas, em parti-
• O respeito à cultura, às tradições e hábitos nista responsável, que deve agir conforme as
até sua avaliação. Para tanto, deve haver infor- cular, no rio Negro).
alimentares saudáveis; prescrições legais e regulamentares sobre a
mação pública e suficiente para que os povos
matéria. Para tanto, explicita a lei que o cardá- 11. O conteúdo dos incisos acima sumarizados
indígenas, por meio de suas formas de orga-
• A participação da comunidade no controle pio deve ser construído tendo em vista uma resumem três dos principais problemas para
social e acompanhamento das ações estatais; nização e representação coletiva, e na medida
alimentação saudável, de acordo com a cultu- a efetivação do direito à alimentação escolar
do tempo necessário para construção de posi-
ra e tradição alimentar local. dos povos indígenas na região do rio Negro.
• Inclusão da educação alimentar e nutri- ções, consigam intervir de maneira qualificada
cional no processo de ensino e aprendiza- no processo da política nos espaços públicos Destes, o do controle sanitário exigido pela
10. Já os artigos arts. 13 e 14 definem que a aqui-
gem, inserindo-a no currículo escolar; institucionais existentes. legislação é o ponto a seguir.
sição da alimentação escolar ocorrerá por dis-
pensa do processo licitatório, ficando o mínimo 12. O Dossiê da Legislação Sanitária foi elabora-
• Apoio ao desenvolvimento sustentável, 8. A implementação do exposto no parágrafo
com incentivos para a aquisição de gêneros precedente passa pelo que está estabeleci- de 30% do repasse do Fundo Nacional de De- do pelo Grupo de Trabalho Interministerial
alimentícios diversificados, produzidos em do nos arts. 16 e 17 da Lei da Alimentação senvolvimento da Educação (FNDE) vinculado de Estudo da Legislação Sanitária e enviado
âmbito local, preferencialmente, junto aos Escolar, que atribui ao FNDE a responsabi- à aquisição de gêneros alimentícios diretamen- pela SEAD/MDSA para as discussões sobre
produtores indígenas. lidade pela cooperação na capacitação dos te da agricultura indígena, sempre que houver os problemas com a alimentação escolar no
recursos humanos envolvidos no controle oferta local disponível. Entretanto, nos incisos rio Negro. Dossiê elaborado com o objetivo
6. Assim, reconhece e especifica a Lei dispositi- social do PNAE, cuja realização compete aos I, II e III, do §2º do art. 14, estão expressos os de diminuir as exigências estruturais e simpli-
vos constitucionais e supralegais (vide art. nº municípios, estados e ao Distrito Federal. Já casos em que a cota mínima fica dispensada: ficar o processo de registro para as pequenas

82 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 83 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
agroindústrias. Cabe ressalvar que a discus- existente para lidar com as diversas realida- serção dos produtos no mercado formal, tam- drem à legislação existente, em certa medida,
são presente no Dossiê diz respeito à produ- des escolares indígenas no Brasil, em particu- bém há problemas de ordem cultural e social, significa desconsiderar, conforme Parecer nº
ção agroindustrial de pequeno porte de base lar, das restrições normativas que dificultam a que impedem ao Estado reconhecer e apoiar 026/CR/DPI/IPHAN:
familiar. Ainda que haja incompatibilidade aquisição da alimentação escolar. às diversas formas de organização da vida
O conjunto de saberes, mitos e relatos, práti-
patente na concepção de agricultura familiar produtiva e de organização das relações de
14. Para as comunidades indígenas no rio Ne- cas, produtos, técnicas, artefatos e outras mani-
presente na legislação sanitária (concepção trabalho dos povos indígenas, respeitadas as
festações associadas que envolvem os espaços
de agricultura mais calcada na experiência gro, tanto as exigências de controle sanitário disposições constitucionais a respeito de cada manejados e as plantas cultivadas, as formas de
histórica encontrada na região sul do país), re- e de elaboração do cardápio escolar, quan- um dos temas. transformação dos produtos agrícolas e os siste-
conhece-se que os motivos encontrados para to as exigências para acesso ao mercado de mas alimentares locais. Em outros termos, trata-
as dificuldades de apoio e fomento à agroin- compras públicas, operam como fatores re- 16. Levar em consideração o exposto no pará- -se do complexo de saberes, práticas e relações
dustrialização de base familiar encontram produtores da desigualdade de atendimen- grafo precedente recoloca a questão sobre sociais que atuam no ciclo de roças-floresta, e se
paralelos com as inadequações existentes na to do Estado a grupos minoritários quando as necessidades legais de adequação dos estendem até os alimentos e seus modos de con-

realidade dos povos indígenas na região do comparados à média de atendimento para produtores indígenas para acesso ao PNAE. sumo em diversos domínios da vida social.

rio Negro, mesmo que de forma parcial. São grupos sociais majoritários. Isso porque o objeto de análise é estendido.
(...) a centralidade do sistema está no manejo da
dificuldades paralelas: Quando se coloca como entrave para aces-
mandioca brava e a existência de inúmeras va-
15. Cabe um destaque sobre os problemas exis- so ao PNAE a falta de condições dos produ- riedades. Seu manejo tem por base um corpo
• A necessidade de diminuir exigências es- tentes nas tentativas históricas de integração tores indígenas na região do alto e médio teórico de saberes expresso nos discursos e con-
truturais e simplificar o processo de regis- da Amazônia no sistema econômico nacional rio Negro (mas poderiam ser quaisquer ou- siderado nas práticas (p. 8)
tro para as pequenas agroindústrias; (e internacional) a partir de modelos de de- tros lugares de difícil acesso e distantes de
senvolvimento cíclicos pautados em produtos centros econômicos importantes no Brasil),
• A legislação sanitária que impõe vários do setor primário, de exploração extrativa in- consolida-se o entendimento que é preciso 17. Válido destacar que levar em consideração as
entraves ao desenvolvimento da agroin-
tensiva, incompatíveis com as dinâmicas so- inserir tais produtores no mercado nacional
dústria da agricultura familiar e à coloca- especificidades das comunidades indígenas
cial, demográfica, de ordenamento territorial e formal. Um fator que sustenta este entendi-
ção dos produtos no mercado formal; em relação à atividade produtiva não quer di-
e econômica regionais. Tais ciclos não levaram mento é a legislação que, para além de sua zer que a legislação não se aplica ao povos
13. Porém, é importante reiterar, não se podem em conta especificidades regionais, falhas de centralidade para garantir a qualidade da indígenas, mas que, neste caso, apresenta
reduzir os sistemas agrícolas e de base extra- mercado e do Estado brasileiro na coordena- produção ofertada no mercado e estabele- pontos problemáticos que precisam ser me-
tivista, praticados e vividos pelos povos indí- ção e apoio de tais processos de desenvolvi- cer regras claras e objetivas para acesso ao lhor elaborados para contemplarem a socio-
genas, ao sistema produtivo agroindustrial mento. Para os povos indígenas e seus mode- mercado de compras públicas, não consegue diversidade intrínseca à sociedade brasileira.
familiar baseado em experiências históricas los produtivos e de troca, integrados ou não reconhecer os modos produtivos existentes,
predominantemente exógenas ao contexto ao mercado nacional, a situação é homóloga, por exemplo, no sistema agrícola do rio Ne- 18. De outro lado, se o Estado brasileiro optar
amazônico. E é esse o ponto central da argu- quando não mais complexa. Além da ausência gro. Portanto, sustentar que os produtores por um processo de desenvolvimento que
mentação sobre a inadequação da legislação de políticas de incentivo à produção e de in- agrícolas e extrativistas indígenas se enqua- considere os povos indígenas, é preciso que

84 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 85 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
os mesmos tenham acesso às políticas que, dução e implementação de sistemas autô- munidade, trazendo-os não só para dentro Ficou estabelecido que a produção rural para a
respeitando suas especificidades e suas for- nomos de produção e distribuição de ener- da sala de aula, mas também integrando-o ao preparação, a manipulação ou a armazenagem
doméstica de produtos de origem agropecuá-
mas próprias de desenvolvimento (muitas ve- gia de pequeno porte de fontes limpas; cotidiano da escola e suas atividades extra-
ria para consumo familiar, ficará dispensada de
zes entendida como bem viver), contemplem- curriculares. E o reconhecimento dos modos
• Ausência de política de incentivos e subsí- registro, inspeção e fiscalização.
-nos. Assim como contempla aos grandes produtivos, de troca e preparo dos alimentos
grupos de interesse que possuem participa- dios que reconheçam a contribuição que os
pelo Estado contribui para a reafirmação da
ção no setor agrícola brasileiro. Para tanto, se- modos produtivos e de manejo indígenas
alimentação como valor social. Logo, enten-
guem alguns pontos críticos para se fortalecer têm na regulação climática regional e para a 22. O entendimento de que os alimentos oferta-
dida como aspecto fundamental para a re-
os arranjos produtivos locais e potencializar a sustentabilidade socioambiental e econô- dos pelos produtores indígenas locais estão
produção física e cultural.
produção indígena, facilitando, por consequ- mica nacional, uma vez que ecologicamen- em conformidade com a definição de auto-
ência, a capacidade desta chegar ao mercado te (e cosmologicamente) equilibrados. 21. Para que a alimentação escolar atenda aos consumo se calca na indissociabilidade entre
formal e respeitar a legislação existente: requisitos acima expressos é preciso que produção, preparo e consumo da alimenta-
tanto ocorram as mudanças de cunho nor- ção escolar indígena na região do rio Negro,
• Inexistência de política nacional de crédito CONCLUSÃO mativo/institucional, quanto entrem na pau- como na maioria dos povos indígenas do
específica e diferenciada para investimen- ta de governo a construção de políticas de país, que mantém a agricultura familiar, téc-
to no setor agrícola e extrativista indígena; desenvolvimento para os povos indígenas, nicas e manejos para obtenção de alimentos
com fontes de financiamento claras e sufi- oriundos de cultivos e outras formas de pro-
• Ausência de políticas fiscais de incentivo 19. Até o momento, a presente IT expôs os prin-
cientes de caráter continuado. Entretanto, dução. Isso porque cada uma dessas etapas
e subsídio à produção indígena específi- cipais pontos da legislação sobre alimenta-
a alimentação escolar não pode depender acontece no seio da comunidade de paren-
ca e diferenciada; ção escolar. Na sequência, abordou-se: a) a
dessas condicionantes estruturais para ocor- tes idealmente concebida e vivida cotidiana-
possibilidade de alteração da legislação para
• Infraestrutura logística e produtiva inade- rer nas escolas indígenas brasileiras. Para mente. Não raro, a produção ocorre nas roças
abarcar os modos produtivos indígenas; b) e
quada à realidade produtiva amazônica, tanto, o MPF tem mantido fórum de discus- familiares ou coletivas nas imediações da al-
a construção de agenda democrática e parti-
incompatível com os arranjos produtivos são governamental e com participação dos deia, a depender da disponibilidade de solos
cipativa de promoção de políticas de desen-
locais indígenas; povos indígenas interessados. Constatada a agricultáveis, praticada por homens e mu-
volvimento local que levem em consideração
urgência do caso e tendo em vista uma pos- lheres, com funções complementares dentro
Falta de previsão de subsídios e isenções os arranjos produtivos indígenas e híbridos.
• sibilidade legal apresentada no Dossiê (vide do processo produtivo, com a participação
que fomentem o fortalecimento dos arran- 20. Uma mudança nessas duas frentes também parágrafo 12), e discutida durante as reuni- dos mais novos de forma gradual nos afaze-
jos produtivos locais indígenas e híbridos; contribui para o estabelecimento da educa- ões organizadas pelo MPF, foi a ampliação res. O preparo dos alimentos é realizado por
ção alimentar e nutricional no processo de do conceito de autoconsumo – estabeleci- merendeira, normalmente uma mulher in-
• Baixa cobertura de energia provinda da
ensino e aprendizagem. Isso porque eviden- do no art. 7º do Decreto 8.471/2015, naquilo dígena contratada, quando a precariedade
matriz energética do sistema nacional;
cia e valoriza os conhecimentos e práticas que alterou o Decreto 5.741/2006. De acor- de condições não impede a presença deste
• Inexistência de política de incentivo à pro- culturais secularmente transmitidos pela co- do com o Dossiê, em sua página 5: funcionário no cotidiano da escola. Por fim,

86 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 87 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
25. Outro ponto a favor da aquisição de alimentos por meio do entendimento de que a
modalidade de autoconsumo para o contexto do rio Negro, conforme depoimentos realizados pelos
representantes indígenas presentes nas reuniões organizadas pelo MPF, é que a alimentação produzida
localmente pelos produtores indígenas é mais saudável, e de acordo com a tradição alimentar indígena,
os alunos que recebem a alimentação são outros arranjos familiares que não o nucle- enfermidades associadas
uma vez que respeita aoecológicos
os ciclos consumoe agrícolas
de- com Com
regionais. a utilização de gêneros
a possibilidade da produção
de substituição de fa-
filhos tanto dos produtores indígenas, quan- ar, inclusive na implementação de políticas sequilibrado de alimentos
produtos industrializados porproduzidos comin natura, miliar
produtos nativos esta ação contribuirá
indígena, para a diminuição
atualmente de
comprometida
to dos professores e funcionários indígenas sociais (assistenciais). Estes outros arranjos lixo oriundo da industrial,
processamento alimentação reproduzindo
adquirida na cidade,
o que possui por embalagens e outros componentes
conta da legislação que trata damaisaquisi-
responsáveis pelo funcionamento da escola. permitem melhor entendimento sobre a or- difíceisurbano
padrão de seremmoderno,
decompostos, já quecada
sendo a coleta
vezde lixo não ção
é uma realidade nas com
incompatível aldeias. Um aspecto
outros que exis-
atos legais
Portanto, excetuando a aquisição feita pelo ganização social indígena o que, contribui merece maior investigação no campo
mais comuns as denominadas doenças crô- da saúde indígena, é a realização de estudos sobre as taxas de
tentes na administração pública
morbidade atualmente existentes nas aldeias, onde é crescente o número de enfermidades associadas ao brasileira,
Estado através da Secretaria de Educação ou com o argumento apresentado no parágrafo nicas não transmissíveis (diabetes, hiperten-
consumo desequilibrado de alimentos produzidos com tanto do ponto industrial,
processamento de vista doreproduzindo
direito à educação
o
da própria escola, todo o processo produtivo 22, a respeito das imbricações dos arranjos são, doenças cardiovasculares, doenças res-
padrão urbano moderno, sendo cada vez mais comuns as denominadas doenças crônicas nãoponto
diferenciada e intercultural, como do
e de preparo de alimentos ocorre no âmbito familiares na estrutura produtiva indígena. piratórias, neoplasias).
transmissíveis (diabetes, hipertensão, doenças cardiovasculares, doenças respiratórias, neoplasias).
de vista das políticas que propiciem de forma
da comunidade de parentesco, assim como a
25. Outro ponto a favor da aquisição de ali- 26. Por fim, objetivou-se nesta IT realizar a discus- sustentada e continuada condições para que
alimentação escolar dos estudantes, filhos da 26. Por fim, objetivou-se nesta IT realizar a os discussão dos problemas que impedem
mentos por meio do entendimento de que são dos problemas que impedem a aquisição povos indígenas consigam acessar ao mer-
comunidade, encerra este processo no âm- aquisição de alimentação escolar saudável conforme os hábitos alimentares locais. Os
a modalidade de autoconsumo para o con- de encaminhamentos
alimentação escolar saudável cado formal, inclusive o de compras públicas,
bito familiar (estendendo-se a rede familiar apontados ao longoconforme
do texto visam a garantia do direito à alimentação escolar, com a
entre os consanguíneos e afins reconhecidos texto do rio Negro, conforme depoimentos os utilização
hábitos alimentares
de gêneros dalocais. Os familiar
produção encaminha- de forma
indígena, atualmente que tenhapor
comprometida uma inserção
conta de acordo
da legislação
como parentes para cada grupo local). realizados pelos representantes indígenas que trata
mentos da aquisição
apontados incompatível
ao longo do textocom com seus
outros atos legais
visam direitos,
existentes na suas decisões pública
administração e as especi-
presentes nas reuniões organizadas pelo brasileira,do
a garantia tanto do ponto
direito de vista do direito
à alimentação à educação diferenciada
escolar, e intercultural,
ficidades garantidas pelacomo do pontovigente.
legislação de
23. Outrossim, é preciso considerar a categoria MPF, é que a alimentação produzida local- vista das políticas que propiciem de forma sustentada e continuada condições para que os povos
de autoconsumo à luz do Estatuto da Crian- mente pelos produtores indígenas é mais indígenas consigam acessar o mercado formal, inclusive o de compras públicas, de forma que tenha
uma inserção de acordo com seus direitos, suas decisões e as especificidades garantidas pela legislação
ça e do Adolescente (ECA), pois o conceito saudável, e de acordo com a tradição ali-
vigente.
de família aí empregado extrapola sua forma mentar indígena, uma vez que respeita os
nuclear. A reforma do ECA (Lei12.010/09), ciclos ecológicos e agrícolas regionais. Com Documento assinado eletronicamente por NIKOLAS RAPHAEL GIL ALCON MENDES, Indigenista
em seu art. nº 25, parágrafo único, traz a se- a possibilidade de substituição de produtos Especializado(a), em 11/07/2017, às 16:25, conforme horário oficial de Brasília, com fundamento
guinte definição: industrializados por produtos nativos in na- no art. 6º, § 1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015.
tura, esta ação contribuirá para a diminuição
Entende-se por família extensa ou ampliada Documento assinado eletronicamente por ANDRE RAIMUNDO FERREIRA RAMOS,
aquela que se estende para além da unidade
de lixo oriundo da alimentação adquirida Coordenador(a) Substuto, em 11/07/2017, às 18:55, conforme horário oficial de Brasília, com
:: SEI / FUNAI - 0269135 - Nota Técnica :: http://sei.funai.gov.br/sei/controlador.php?acao=documento_imprimir...
de pais e filhos ou da unidade do casal, formada na cidade, que possui embalagens e outros fundamento no art. 6º, § 1º, do Decreto nº 8.539, de 8 de outubro de 2015.
por parentes próximos com os quais a criança componentes mais difíceis de serem decom-
ou adolescente convive e mantém vínculos pró- postos, já que a coleta de lixo não é uma re-
A autencidade deste documento pode ser conferida no site: hp://sei
ximos de afinidade e afetividade alidade nas aldeias. Um aspecto que merece /controlador_externo.php?acao=documento_conferir&id_orgao_acesso_externo=0, informando
maior investigação no campo da saúde in- o código verificador 0269135 e o código CRC 1A599678.
dígena, é a realização de estudos sobre as 6 de 7 11/07/2017 19:01
24. Portanto, percebe-se que há respaldo em taxas de morbidade atualmente existentes
parte da legislação brasileira para lidar com nas aldeias, onde é crescente o número de Referência: Processo nº 08620.011576/2017-63 SEI nº 0269135

88 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 89 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
1. DESTINATÁRIO 4.2. Decreto nº 5.741, de 30 de março de 2006 -

ANEXO 3 Coordenação Geral de Populações Tradicionais


Regulamenta os arts. 27-A, 28-A e 29-A da Lei
no 8.171, de 17 de janeiro de 1991, organiza
o Sistema Unificado de Atenção à Sanidade
Agropecuária, e dá outras providências.
2. INTERESSADO
4.3. Decreto no 5051, de 19 de abril de 2004
Ministério Público Federal - Procuradoria da Re- - Promulga a Convenção no 169 da Organi-
pública no Amazonas zação Internacional do Trabalho − OIT so-
02070.005334/2019-90 bre Povos Indígenas e Tribais.
Número Sei:5138636
4.4. Decreto no 6.040, de 07 de fevereiro de
3. OBJETIVO 2007 − Institui a Política Nacional de De-
senvolvimento Sustentável dos Povos e
A presente nota técnica visa apresentar subsídios
MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE para a dispensa de inspeção sanitária na prepara-
Comunidades Tradicionais.

INSTITUTO CHICO MENDES DE CONSERVAÇÃO ção, manipulação e armazenamento de produtos 4.5. Fraxe, Therezinha de Jesus Pinto; Pereira,
DA BIODIVERSIDADE de origem animal, vegetal e suas partes, a serem Henrique dos Santos, Witkoski, Antônio
comercializados através de políticas de compras Carlos (orgs). 2007. Comunidades ribeiri-
institucionais para consumo familiar, mais especi- nhas amazônicas: modos de vida e uso dos
NOTA TÉCNICA Nº 6/2019/COPROD/CGPT/ ficamente em relação a aquisição de alimentação recursos naturais. EDUA.
DISAT/ICMBio escolar para o abastecimento de escolas no inte-
rior de unidades de conservação. 4.6. Fundação Amazonas Sustentável e Fun-
dação das Nações Unidas para a Infância.
2017. Recortes e Cenários em Localidades
Brasília-DF, 21 de junho de 2019 Rurais Ribeirinhas do Amazonas. Fundação
4. REFERÊNCIAS
Amazonas Sustentável.
Assunto: subsídios para a dispensa de inspeção sanitária na
4.1. Allegretti, Mary Helena. 2002. A Constru-
preparação, manipulação e armazenamento de produtos de 4.7. Harris, Mark. 2000. Life on the Amazon: the
ção Social de Políticas Ambientais − Chico
origem animal, vegetal e suas partes, a serem comercializa- Anthropology of a Brazilian Peasant Villa-
Mendes e o Movimento dos Seringueiros.
dos através de políticas de compras institucionais para con- ge. The British Academy.
Tese apresentada ao Programa de Pós-
sumo familiar, mais especificamente em relação a aquisição
Graduação em Desenvolvimento Sustentá- 4.8. Instrução Normativa Mapa no 16 , de 23
de alimentação escolar.
vel da Universidade Federal de Brasília. de junho de 2015 - Estabelece, em todo o

90 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 91 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
território nacional, as normas específicas 4.13. Oliveira e Souza, Mariana. 2011. Passar 5.2. Em um período mais recente, é importan- laços, a existência de núcleos de sociali-
de inspeção e a fiscalização sanitária de para Indígena na Reserva de Desenvolvi- te citar os distintos ciclos de exploração da zação como escolas, igrejas, roças comu-
produtos de origem animal, referente às mento Sustentável Amanã (AM). Disserta- borracha que promoveram o aprofunda- nitárias ou outros espaços em que a coo-
agroindústrias de pequeno porte. ção apresentada ao Programa de Pós- Gra- mento das investidas pela ocupação dos peração entre os membros da família se
duação em Antropologia da Universidade territórios indígenas distribuídos ao longo expressam. Os laços de parentesco são
4.9. Lei no 11.947, de 16 de junho de 2009 - Federal de Minas Gerais. da calha dos rios amazônicos (Allegretti, importantes na manutenção das unidades
Dispõe sobre o atendimento da alimen- 2002). A interação entre os diversos atores domésticas; na realização de atividades
tação escolar e do Programa Dinheiro ao longo dessa sequência de fatos foram produtivas, como caça, pesca e agricultura;
Direto na Escola aos alunos da educação determinantes para formação do campe- no cuidado com as crianças, dentre outras
5. Análise técnica
básica; altera as Leis nos 10.880, de 9 de sinato amazônico que apesar de consti- atividades. Além disso, o sistema de trocas
junho de 2004, 11.273, de 6 de fevereiro 5.1. A formação do campesinato amazônico tuir-se de uma multitude de identidades, não imediatas que se estabelece dentro
de 2006, 11.507, de 20 de julho de 2007; guarda estreita relação com as políticas e foram historicamente agrupados sob o do complexo familiar ribeirinho e o com-
revoga dispositivos da Medida Provisória investidas de diferentes atores sobre os ter- termo "caboclo", denominação usada por partilhamento de espaços de uso comum
no 2.178-36, de 24 de agosto de 2001, e a ritórios indígenas, após a chegada dos euro- terceiros para designar de maneira pejora- como lagos e florestas, é de grande impor-
Lei no 8.913, de 12 de julho de 1994; e dá peus na Amazônia. As missões de diversas tiva moradores da zona rural da Amazônia tância para a segurança alimentar dos seus
outras providências. ordens religiosas foram as primeiras forças (Lima, 1999). Após anos de afirmação en- membros. (Lima, 2006; Harris, 2000).
propulsoras da aculturação dos indígenas quanto grupo social e na busca de visibili-
4.10. Lima, Deborah Magalhães. 1999. A Cons- 5.4. Economicamente, a produção dos ribeiri-
que, por fim, passaram a suprir a demanda dade, os "caboclos" se transformaram em
trução Histórica do Termo Caboclo: Sobre nhos está baseada na força de trabalho fa-
da sociedade por mão-de-obra (Oliveira e "ribeirinhos".
Estruturas e Representações Sociais no miliar, considerando tanto o núcleo familiar
Souza, 2011). O Diretório dos Índios, institu-
Meio Rural Amazônico. Novos Cadernos 5.3. Em relação a estrutura familiar dos ribeiri- como a família extensa, com foco na sub-
ído em 1758, estabelecia um novo regime
NAEA vol. 2, no 2 − dezembro. nhos, depois do casamento, o casal passa sistência e comercialização de exceden-
que buscava promover uma radical e agres-
4.11. Lima, Deborah Magalhães. 2006. A Econo- siva integração dos povos indígenas à socie- a residir em uma nova residência, estabe- tes, embora em determinados contextos e
mia Doméstica em Mamirauá. 144 − 172. dade em constituição (Lima, 1999). A Carta lecendo espaços próprios de moradia e períodos da história tivesse uma inserção
in Adams, Cristina; Murrieta, Rui; e Neves, Régia de 1798, assim como as legislações produção, como os quintais e roças. Os mais ativa no mercado. Considerando os
Waltter (2006) Sociedade Caboclas Ama- que se a sucederam tiveram como eixo prin- distintos núcleos familiares constituem espaços produtivos, o ribeirinho se carac-
zônicas: modernidade e Invisibilidade. − cipal a promoção o estabelecimento de uma uma família extensa que, geralmente teriza pela exploração dos recursos presen-
Editora Anna Blume. sociedade em que, apesar de supostamente concentrados em comunidades ou em tes nos diversos ambientes que circundam
homogênea, os indígenas e negros entras- colocações estreitamente relacionadas, a área de moradia. Isso inclui as praias de
4.12. Nugent, Stephen. 1993. Amazonian Cabo- sem como principal mão de obra para produ- se estabelecem em torno de uma família várzea, utilizadas durante o verão amazô-
clo Society: An Essay on Invisibility and Pe- ção de mercadorias e serviços para a igreja e central que agrega os demais núcleos. nico para cultivo de itens como mandioca,
asant Economy. Berg Publishers. o estado brasileiro (Oliveira e Souza, 2011). Contribuem para o fortalecimento dos melancia-de-praia, feijão-de-praia, dentre

92 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 93 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
outros gêneros alimentícios; os lagos for- a estrutura, a alimentação e a dinâmica tura alimentar dos ribeirinhos. De acordo comprometer o acesso a outras ne-
mados durante o período de descida das comunidade-escola não refletem a cultura com o estudo, os alimentos mais frequen- cessidades essenciais, tendo como
águas e que permitem o fácil acesso a uma dos ribeirinhos. O resultado da descon- tes no cardápio das escolas são arroz, leite base práticas alimentares promo-
diversidade de espécies de peixes de alta textualização da educação é a evasão dos em pó, salsicha, bolacha, suco instantâneo, toras de saúde, que respeitem a
relevância para a nutrição dos ribeirinhos; estudantes, a precariedade da estrutura fí- açúcar e café. As condições de transporte diversidade cultural e que sejam
as florestas de terra firme, onde determi- sica, a falta de alimentação escolar e a ofer- e armazenamento precariamente oferta- ambiental, cultural, econômica e
nados recursos do extrativismo, como se- ta de um conteúdo descontextualizado das, resultam no fornecimento de alimen- socialmente sustentáveis;
mentes, látex e resinas diversas, frutos de que não contribui para o fortalecimento e to, muitas vezes, em duvidáveis condições
palmeiras (açaí, bacaba, patauá) são cole- manutenção sócio-cultural das comunida- V. o desenvolvimento sustentável
para o consumo.
tados para consumo ou comercialização, des. Em relação a alimentação escolar, de como promoção da melhoria da
de forma a permitir que o ribeirinho possa acordo com o estudo realizado pela FAS & 5.6. Além disso, a inserção de alimentos indus- qualidade de vida dos povos e co-
adquirir os itens que não produz. As flores- UNICEF (2017), 84,2% das escolas amos- trializados afeta diretamente a reprodução munidades tradicionais nas gera-
tas de terra firme são também utilizadas tradas ficaram algum período sem receber da cultura alimentar dos ribeirinhos no ções atuais, garantindo as mesmas
para caça e, quando convertidas em roças, alimentação escolar. Desse total, pelo me- que tange não somente a diversidade de possibilidades para as gerações fu-
para cultivo de uma variedade de espécies, nos 34% dessas escolas ficaram entre 120 alimentos que a compõem, como também turas e respeitando os seus modos
com destacada importância para a mandio- e 180 dias sem fornecer merenda escolar ao saber associado à forma de preparo e de vida e as suas tradições;
ca. Além disso, os rios e igarapés são utiliza- para os alunos, seja pela falta de recursos obtenção dos componentes da dieta. Esta
IX. a articulação e integração com o Sis-
dos para a pesca e fornecem grande parte para sua aquisição, seja pela dificuldade situação verificada é bastante sensível ao
tema Nacional de Segurança Ali-
da proteína necessária para manutenção em transportar a merenda a ser servida desconsiderar não somente um direito es-
mentar e Nutricional;
dos ribeirinhos (Nugent, 1993; Fraxe, Perei- para as escolas. Dados coletas nas Unida- tabelecido destas populações tradicionais
ra e Witkosky, 2007). des de Conservação federais pelo ICMBio, bem como não observar aspectos legais. XIV. a preservação dos direitos culturais, o
entre os anos de 2014 e 2015 apresenta- Neste sentido a importância de garantir o exercício de práticas comunitárias,
5.5. Dentro do contexto das comunidades, ram um resultado semelhante: 87% dos acesso a uma alimentação culturalmente a memória cultural e a identidade ra-
os desafios em relação ao educação se entrevistados disseram que as escolas ofe- contextualizada está expresso nos princí- cial e étnica.
assemelham aos das comunidades indí- recem merenda, contudo, quando questio-
genas. A educação e a dinâmica das es- pios III, V, XI e XIV do Decreto no 6.040/07
nados sobre sua frequência, as respostas que estabelece que: 5.7. A citada integração com o Sistema Nacio-
colas tende a seguir o modelo universal e demonstraram ser bastante irregular (sem- nal de Segurança Alimentar e Nutricional
homogeneizante dos centros urbanos. A pre falta;uma semana tem, outra não; algu- III. a segurança alimentar e nutricional (Lei no 11.346/06) estabelece ainda a ne-
escola ribeirinha atual não reflete a realida- mas vezes tem, no final do mês acaba, etc). como direito dos povos e comuni- cessidade das políticas e ações definidas
de social, econômica e cultural do cotidia- Chama atenção ainda a baixa qualidade dades tradicionais ao acesso regular para garantir a segurança alimentar e nu-
no das comunidades em que estão assen- da merenda do ponto de vista nutricional e permanente a alimentos de quali- tricional da população considerarem as
tadas. O calendário, a ementa, o currículo, e da inserção de alimentos alheios à cul- dade, em quantidade suficiente, sem dimensões ambientais, culturais, econômi-

94 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 95 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
cas, regionais e sociais, devendo o poder nais e relacionadas com a economia de e aprendizagem, que perpassa pelo idades e condições de saúde dos alu-
público respeitar, proteger, promover, pro- subsistência dos povos interessados, tais currículo escolar, abordando o tema nos que necessitem de atenção espe-
ver, informar, monitorar, fiscalizar e avaliar como a caça, a pesca com armadilhas e a alimentação e nutrição e o desen- cífica e aqueles que se encontram em
a realização do direito humano à alimen- colheita, deverão ser reconhecidas como volvimento de práticas saudáveis vulnerabilidade social.
tação adequada, bem como garantir os fatores importantes da manutenção de de vida, na perspectiva da seguran-
mecanismos para sua exigibilidade. Em se- sua cultura e da sua autosuficiência e de- ça alimentar e nutricional; Nesta mesma Lei no 11.947/09, se estabele-
guida, na referida lei, define-se segurança senvolvimento econômico. Com a parti- ce ainda, no seu artigo 14, que do total dos
alimentar como: cipação desses povos, e sempre que for III. a universalidade do atendimento aos recursos financeiros repassados pelo FNDE,
adequado, os governos deverão zelar alunos matriculados na rede pública no âmbito do PNAE, no mínimo 30% (trinta
Art. 3o A segurança alimentar e nutricio- para que sejam fortalecidas e fomentadas de educação básica; por cento) deverão ser utilizados na aqui-
nal consiste na realização do direito de essas atividades. sição de gêneros alimentícios diretamente
todos ao acesso regular e permanente a IV. a participação da comunidade no
da agricultura familiar e do empreendedor
alimentos de qualidade, em quantidade 5.9. Especificamente em relação a alimentação controle social, no acompanhamen-
familiar rural ou de suas organizações, prio-
suficiente, sem comprometer o acesso escolar, a lei no 11.947/09, que dispõe so- to das ações realizadas pelos Estados,
rizando-se os assentamentos da reforma
a outras necessidades essenciais, tendo bre o atendimento da alimentação escolar pelo Distrito Federal e pelos Municí-
agrária, as comunidades tradicionais indí-
como base práticas alimentares promoto- e do Programa Dinheiro Direto na Escola pios para garantir a oferta da alimen-
genas e comunidades quilombolas. Ainda
ras de saúde que respeitem a diversidade aos alunos da educação básica, estabelece tação escolar saudável e adequada;
prevê que a aquisição de que trata este ar-
cultural e que sejam ambiental, cultural, entre as diretrizes da alimentação escolar:
V. o apoio ao desenvolvimento susten- tigo poderá ser realizada dispensando-se o
econômica e socialmente sustentáveis.
I. o emprego da alimentação saudável tável, com incentivos para a aquisi- procedimento licitatório, desde que os pre-
5.8. A Convenção no 169 da "Organização In- e adequada, compreendendo o uso ção de gêneros alimentícios diversi- ços sejam compatíveis com os vigentes no
ternacional do Trabalho sobre Povos Indí- de alimentos variados, seguros, que ficados, produzidos em âmbito local mercado local, observando-se os princípios
genas e Tribais", ratificada pelo governo respeitem a cultura, as tradições e e preferencialmente pela agricultu- inscritos no art. 37 da Constituição Federal,
brasileiro através do Decreto no 5051, de os hábitos alimentares saudáveis, ra familiar e pelos empreendedores e os alimentos atendam às exigências do
19 de abril de 2004 define ainda que na contribuindo para o crescimento e o familiares rurais, priorizando as co- controle de qualidade estabelecidas pelas
formulação e implementação de políticas desenvolvimento dos alunos e para a munidades tradicionais indígenas e normas que regulamentam a matéria. E por
públicas deve-se considerar o papel do melhoria do rendimento escolar, em de remanescentes de quilombos; fim estabelece que a observância do per-
poder público em estimular na manuten- conformidade com a sua faixa etária centual previsto no caput será disciplinada
ção e preservação das práticas culturais e seu estado de saúde, inclusive dos VI. o direito à alimentação escolar, vi- pelo FNDE e poderá ser dispensada quando
das comunidades: que necessitam de atenção específica; sando a garantir segurança alimen- presente uma das seguintes circunstâncias:
tar e nutricional dos alunos, com
Art. 23o O artesanato, as indústrias rurais II. a inclusão da educação alimentar e acesso de forma igualitária, respei- I. impossibilidade de emissão do docu-
e comunitárias e as atividades tradicio- nutricional no processo de ensino tando as diferenças biológicas entre mento fiscal correspondente;

96 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 97 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
II. inviabilidade de fornecimento regular cionada ao risco mínimo de veiculação e Importante ressaltar que diante do explici- 6. CONCLUSÃO
e constante dos gêneros alimentícios; disseminação de pragas e doenças regu- tado na referida norma, precisamente no
lamentadas. citado inciso I do artigo 2º, há o entendi- 6.1. Apesar das adequações de conteúdo ne-
III. condições higiênico-sanitárias ina- mento de que a produção animal para cessárias, nas comunidades ribeirinhas, a
dequadas. 5.11. Especificamente em relação aos produtos consumo familiar fica dispensada de re- escola se constitui como um importante
de origem animal, a Instrução Normativa gistro, inspeção e fiscalização. espaço para aprendizagem e socialização
5.10. Acerca dos aspectos sanitários, em acor-
Mapa nº 16, de 23/06/2015 em seu artigo das famílias. O estabelecimento de um
do com o previsto no art. 7º do Decreto 5.12. Conforme exposto, existem entendimen-
2º estabelece normas específicas relativas cardápio para a alimentação escolar ba-
5.741/2006, o Ministério da Ministério da tos e mecanismos legais que possibilitam
à defesa agropecuária que servirão de re- seado nos gêneros alimentícios da cultura
Agricultura, Pecuária e Abastecimento es- o enfrentamento dos desafios relaciona-
ferência para todos os serviços de inspe- alimentar dos ribeirinhos é relevante por
tabelecerá normas específicas relativas à dos à baixa qualidade nutricional, inade-
ção e fiscalização sanitária, para: permitir o acesso a alimentos localmente
defesa agropecuária a serem observadas: quação do cardápio à cultura alimentar e produzidos, com uma dependência menor
I. produção rural para a preparação, frequência de fornecimento dos itens da
I. na produção rural para a preparação, da, muitas vezes deficiente, estrutura de
manipulação ou armazenagem merenda escolar para as escolas que aten-
a manipulação ou a armazenagem abastecimento e transporte dos municí-
doméstica de produtos de origem dem famílias ribeirinhas, especialmente no
doméstica de produtos de origem pios, onde é relevante ainda se considerar
animal para consumo familiar, que interior de unidades de conservação. Além
agropecuária para consumo familiar, o papel que o Estado deve desempenhar
ficará dispensada de registro, ins- disso há de se ressaltar que o PNAE e ou-
que ficará dispensada de registro, como promotor das práticas culturais asso-
peção e fiscalização; tros programas estaduais voltados para
inspeção e fiscalização; (Redação ciadas ao alimento como a sua produção,
aquisição de alimentos para fornecimento
dada pelo Decreto nº 8.471, de 2015) II. venda ou no fornecimento a retalho preparação e consumo.
da alimentação escolar, além de suprir este
ou a granel de pequenas quantida-
II. venda ou fornecimento a retalho ou direito fundamental de acesso à alimenta- 6.2. Necessário observar também que a intro-
des de produtos de origem animal
a granel de pequenas quantidades ção escolar de qualidade e compatível com dução de gêneros alimentares localmente
provenientes da produção primária, as culturas locais, visam também contribuir
de produtos da produção primária, produzidos e culturalmente contextualiza-
direto ao consumidor final, pelo agri- para o fortalecimento do componente de
direto ao consumidor final, pelo agri- dos na alimentação escolar de estabeleci-
cultor familiar ou equivalente e suas geração de renda das famílias ribeirinhas
cultor familiar ou pequeno produtor mentos de ensino e aprendizagem de co-
organizações ou pelo pequeno pro- fornecedoras dos insumos ao terem incor-
rural que os produz; e munidades apartadas de centros urbanos,
dutor rural que os produz; e poradas a sua produção no programa de minimiza os impactos da descontinuidade
III. agroindustrialização realizada em compra institucional.
III. na agroindustrialização realizada pela do fornecimento por problemas relaciona-
propriedade rural da agricultura fa-
agricultura familiar ou equivalente e dos ao abastecimento e logística de trans-
miliar ou equivalente.
suas organizações, inclusive quanto porte. Frente ao cardápio das escolas da
Devendo ainda a aplicação das normas às condições estruturais e de controle rede estadual e municipal, onde há uma
específicas previstas no caput ser condi- de processo. notória predominância de produtos in-

98 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 99 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
6.4 Considerando a tradicional estrutura das famílias ribeirinhas e que a produção está destinada ao autoconsumo dos seus
membros, uma vez que os produtores dos alimentos, os estudantes, merendeiras e, muitas vezes, os professores são parte da
mesma família extensa, e adequando-se assim à legislação sanitária vigente que dispensa do registro, inspeção e fiscalização os
alimentos destinados ao consumo familiar, é razoável considerarmos a possibilidade de dispensa de inspeção sanitária na
dustrializados, a incorporação de produtos ainda que haja possibilidade explícita em preparação, manipulação e armazenamento de produtos de origem animal, vegetal e suas partes, a serem comercializados através
da agricultura familiar, extrativismo e pes- norma federal de aquisição da produção de políticas de compras institucionais para consumo familiar, mais especificamente em relação a aquisição de alimentação
escolar por programas de governo, sejam federais, estaduais e/ou municipais, como o Programa de Regionalização da
ca possibilitam o acesso a alimentos mais para consumo familiar, onde associamos Alimentação Escolar - PREME e Programa Nacional de Alimentação Escolar - PNAE.
saudáveis. O conjuntos dos fatores citados neste caso ao consumo da alimentação
garante a segurança alimentar de crianças e escolar pelas próprias crianças que fazem
jovens, conforme legalmente determinado. parte das famílias ribeirinhas e que vivem
LEONARDO MARQUES PACHECO
em comunidades no interior de unidades LEONARDO MARQUES PACHECO
6.3. A incorporação de gêneros alimentícios de conservação. ANALISTA AMBIENTAL - COPROD/CGPT/DISAT/ICMBIO
localmente produzidos e culturalmente ANALISTA AMBIENTAL - COPROD/CGPT/DISAT/ICMBIO
contextualizados na alimentação escolar 6.4. Considerando a tradicional estrutura das fa-
tem previsão legalmente estabelecida, mílias ribeirinhas e que a produção está des-
uma vez que a Lei da Alimentação Escolar tinada ao autoconsumo dos seus membros,
JOÃO DA MATA NUNES ROCHA
define que no mínimo 30% (trinta por cen- uma vez que os produtores dos alimentos, JOÃO DA- MATA NUNES ROCHA
COORDENADOR COPROD/CGPT/DISAT/ICMBIO
to) deverão ser utilizados na aquisição de os estudantes, merendeiras e, muitas vezes,
COORDENADOR - COPROD/CGPT/DISAT/ICMBIO
gêneros alimentícios diretamente da agri- os professores são parte da mesma família
cultura familiar e do empreendedor fami- extensa, e adequando-se assim à legisla-
liar rural ou de suas organizações, prio- ção sanitária vigente que dispensa do re-
rizando-se os assentamentos da reforma gistro, inspeção e fiscalização os alimentos
agrária, as comunidades tradicionais in- destinados ao consumo familiar, é razoável
dígenas e comunidades quilombolas. No considerarmos a possibilidade de dispensa Documento assinado eletronicamente por Leonardo Marques Pacheco, Analista Ambiental, em 27/06/2019, às 11:58,
conforme art. 1º, III, "b", da Lei 11.419/2006.
entanto, um dos maiores gargalos para de inspeção sanitária na preparação, ma-
a implementação da normativa é a inter- nipulação e armazenamento de produtos
Documento assinado eletronicamente por Joao Da Mata Nunes Rocha, Coordenador(a), em 27/06/2019, às 12:00,
pretação que a aquisição dos gêneros ali- de origem animal, vegetal e suas partes, a conforme art. 1º, III, "b", da Lei 11.419/2006.
mentícios deve estar adequada às normas serem comercializados através de políticas
sanitárias exigidas para agroindústria de de compras institucionais para consumo fa-
processamento, embalagem e armazena- miliar, mais especificamente em relação a A autenticidade do documento pode ser conferida no site https://sei.icmbio.gov.br/autenticidade informando o código
verificador 5138636 e o código CRC A201C4E5.
mento de alimentos, independentemente aquisição de alimentação escolar por pro-
da origem desses alimentos, sem consi- gramas de governo, sejam federais, esta-
derar assim as práticas culturais dos ribei- duais e/ou municipais, como o Programa
rinhos no que diz respeito a produção de de Regionalização da Alimentação Escolar
alimentos e impondo uma normativa con- - PREME e Programa Nacional de Alimenta-
trastante com a cultura das comunidades, ção Escolar - PNAE.

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I – Introdução nio cultural imaterial desses grupos sociais. Por

ANEXO 4 Esta nota técnica tem o escopo de discorrer sobre


isso, a alimentação tradicional deve ser valorizada
a partir das suas próprias práticas e da importân-
os serviços de inspeção sanitária incidentes sobre cia de seu papel para a manutenção e reprodu-
a comercialização e consumo de alimentos pro- ção da agrobiodiversidade.
duzidos pelos povos e comunidades tradicionais.
A interpretação da legislação vigente deve res- Por outro lado, a agricultura intensiva, com a cres-
peitar seus processos tradicionais de produção cente aplicação de tecnologias e a busca por
no que tange à segurança alimentar, inclusive na produtividade, tem causado a simplificação das
aquisição de alimentação escolar. opções alimentares e a erosão genética e cultural
da alimentação. Este processo ocorre no sentido
O Decreto n° 6.040/2007, que institui a Política contrário do vetor da própria Constituição da Re-
Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos pública que, no seu art. 216, inciso II, inclui os mo-
Povos e Comunidades Tradicionais, conceitua o dos de criar, fazer e viver dos povos e comunida-
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL PROCURADORIA que são povos e comunidades tradicionais: des tradicionais entre os elementos formadores
GERAL DA REPÚBLICA 6ª CÂMARA DE Art. 3o
do patrimônio cultural brasileiro.
COORDENAÇÃO E REVISÃO - POPULAÇÕES Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasi-
I - Povos e Comunidades Tradicionais: grupos
INDÍGENAS E COMUNIDADES TRADICIONAIS culturalmente diferenciados e que se reconhe-
leiro os bens de natureza material e imaterial,
tomados individualmente ou em conjunto, por-
cem como tais, que possuem formas próprias
tadores de referência à identidade, à ação, à
de organização social, que ocupam e usam
NOTA TÉCNICA Nº 3/2020/6ªCCR/MPF territórios e recursos naturais como condição
memória dos diferentes grupos formadores da
sociedade brasileira, nos quais se incluem:
para sua reprodução cultural, social, religiosa,
ancestral e econômica, utilizando conhecimen- (...)
tos, inovações e práticas gerados e transmitidos
Assinado digitalmente em 01/06/2020 18:29. pela tradição. II - os modos de criar, fazer e viver;
Para verificar a autenticidade
Acesse http://www.transparencia.mpf.mp.br/validacaodocumento.
Chave C228613B.23657D6F.9619903E.3BF62985
Intimamente ligada à vida dos povos e comunida- A segurança alimentar tem se tornado uma pre-
des tradicionais, a alimentação faz parte do ima- ocupação para a sociedade nos últimos anos.
ginário desses grupos sociais e de seu cotidiano, Dentre as questões que exigem maior segurança,
conta suas histórias, suas origens e, dessa forma, incluem-se a necessidade de controle de micror-
é considerada elemento integrante do patrimô- ganismos patogênicos e a contaminação cruzada

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de alimentos e da água com patógenos entéricos sua aquisição, seja pela dificuldade em transpor- estabeleceu que no mínimo 30% dos recursos mais distantes esses dois pontos, mais petróleo é
de origem animal. A qualidade microbiológica tar a merenda a ser servida para as escolas. destinados ao PNAE deverão ser destinados à agregado à cadeia econômica alimentar.
dos alimentos depende também do estado fisio- aquisição de alimentos produzidos pelos povos e
lógico do animal no momento do abate, a con- Dados coletados nas Unidades de Conservação comunidades tradicionais. Trata-se, como se ob-
taminação durante o abate e o processamento, federais pelo ICMBio, entre os anos de 2014 e serva a seguir, de um critério normativo.
2015, apresentaram resultado semelhante: 87% III – Dos fundamentos técnico-sanitários:
a temperatura e outras condições de armazena-
mento e distribuição. Não obstante, a segurança dos entrevistados disseram que as escolas ofe- O art. 14, da Lei nº 11.947, de 16 de junho de
alimentar deve, por imperativo constitucional, ser recem alimentação. Quando questionados sobre 2009 estabelece, nesse sentido que "do total dos
compatível com os hábitos alimentares dos di- a sua frequência, as respostas demonstraram ser recursos financeiros repassados pelo FNDE, no Os estabelecimentos industriais de alimentos,
versos segmentos da população brasileira e seus bastante irregular: sempre falta; uma semana tem, âmbito do PNAE, no mínimo 30% (trinta por cento) como é cediço, devem atender às listas de verifi-
meios de produção. outra não; algumas vezes tem; no final do mês deverão ser utilizados na aquisição de gêneros ali- cação das Boas Práticas de Fabricação, bem como
acaba; etc. Chama atenção ainda a baixa qualida- mentícios diretamente da agricultura familiar e do possuir autorização específica para produtos de
de da alimentação do ponto de vista nutricional e empreendedor familiar rural ou de suas organiza- origem animal e vegetal. As condições higiêni-
a inserção de alimentos alheios à cultura alimen- ções, priorizando-se os assentamentos da reforma co-sanitárias dos produtos de origem animal são
II - Alimentação Escolar tar tradicional. agrária, as comunidades tradicionais indígenas e determinadas pelo Decreto Federal nº 9.013/17.
comunidades quilombolas".
De acordo com o estudo, os alimentos mais fre- Art. 53. Os responsáveis pelos estabelecimen-
quentes no cardápio das escolas são arroz, leite A não aquisição de produtos tradicionais para tos deverão assegurar que todas as etapas de
A alimentação escolar para povos e comunidades fabricação dos produtos de origem animal se-
tradicionais tem sido, igualmente, alvo de preo- em pó, salsicha, bolacha, suco instantâneo, açú- a alimentação escolar, diretamente das popula-
jam realizadas de forma higiênica, a fim de se
cupação e debate entre educadores e agentes car e café. As condições de transporte e armaze- ções destinatárias, ocorre por vezes em territórios
obter produtos que atendam aos padrões de
públicos, tendo em vista a necessidade de com- namento precariamente ofertadas resultam, ain- imensos, como no estado do Amazonas, e agre- qualidade, que não apresentem risco à saúde, à
patibilizá-la com as suas atividades produtivas, da, no fornecimento de alimento, muitas vezes, ga outros problemas de custo de transporte, ar- segurança e ao interesse do consumidor.
bem como o consumo de alimentos industrializa- em duvidáveis condições para o consumo. mazenamento e conservação. Em estados como
dos de baixo valor nutricional. o Amazonas e o Pará a necessidade de levar tais
A inserção de itens industrializados afeta diretamen- alimentos por centenas de quilômetros tem for-
te a reprodução da cultura alimentar tradicional no Os alimentos de origem animal e vegetal, pelo
Estudo realizado pela FAS e UNICEF (2017) em 83 te expressão orçamentária, sem contar o impacto
que tange não somente a diversidade de alimentos seu elevado valor biológico, servem de substrato
escolas localizadas em comunidades ribeirinhas ambiental decorrente do consumo de combustí-
que a compõem, como também o saber associado para a multiplicação de inúmeros microrganismos,
de cinco municípios do Amazonas, gerenciadas veis fósseis.
à forma de preparo e obtenção dos componentes sendo muitos os fatores que podem favorecer a
pelas Secretarias Municipais e Estadual, mostrou
da dieta e a saúde destas populações. Em todo o mundo é acirrado o debate sobre o multiplicação microbiana, como as diversas ope-
que 84,2% das escolas ficou algum período sem
alto consumo de combustíveis fósseis decorren- rações que os produtos sofrem antes da sua co-
receber alimentação escolar, sendo 34% entre O legislador ordinário, sensível a estas peculiari- tes do distanciamento entre o local de produção mercialização, que podem comprometer a quali-
120 e 180 dias, seja pela falta de recursos para dades e ao texto da Constituição da República, dos alimentos e do seu efetivo consumo. Quanto dade do produto final. Caso essas operações não

104 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 105 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
sejam realizadas dentro de padrões higiênico-sa- servação da saúde humana e do meio ambiente, que ficará dispensada de registro, inspeção e vem ser consumidos no mesmo dia do preparo,
nitários, estes produtos podem transformarse em nos termos do art. 24, XII da Constituição da Re- fiscalização; em conformidade com o estabelecido na Resolu-
ção RDC/ANVISA nº 218, de 29 de julho de 2005;
fonte de veiculação de microrganismos. pública. Esta atividade deve ser exercida de for- II - venda ou no fornecimento a retalho ou a gra-
ma a compatibilizar os padrões sanitários com a nel de pequenas quantidades de produtos de II - Ao produto destinado a concurso de qualidade;
A qualidade sanitária da proteína animal está direta- agroindústria rural de pequeno porte, conceito origem animal provenientes da produção pri-
mente relacionada à sanidade dos animais, que dão no qual se insere a produção rural destinada ao mária, direto ao consumidor final, pelo agricultor III - Ao produto destinado ao desenvolvimento
origem aos produtos que lhe servem de matériapri- autoconsumo. familiar ou equivalente e suas organizações ou de pesquisa;
ma, às condições em que são obtidos, conservados pelo pequeno produtor rural que os produz; e
IV - À produção destinada ao consumo próprio,
e transformados, ao tipo de embalagem utilizada e A preparação, manipulação ou armazenagem do-
III - na agroindustrialização realizada pela agri- sem fim comercial.
às condições de transporte, de comercialização, de méstica de produtos de origem animal para con-
cultura familiar ou equivalente e suas organiza-
conservação e de preparo do produto acabado. sumo familiar é dispensada de registro, inspeção Parágrafo único. Será considerado produto des-
ções, inclusive quanto às condições estruturais
e fiscalização, conforme prevê o artigo 7º do De- tinado ao desenvolvimento de pesquisa aquele
e de controle de processo. (Grifo nosso)
As populações tradicionais, no entanto, possuem creto nº 5.741, de 30 de março de 2006. O fato identificado e segregado do destinado à co-
mecanismos próprios de conservação e manipu- de não existir uma atividade sanitária estrita nas
mercialização e que dispuser de documentação
lação de alimentos, aptos a garantir qualidade que caracterize a atividade de pesquisa.
hipóteses de autoconsumo não significa, a toda
compatível com o consumo em seus próprios terri- Por outro lado, a Instrução Normativa nº 17, de
evidência, o abandono aos protocolos sanitários.
tórios. Não se trata, por conseguinte, de isentar es- 23/06/2015, do Mapa, disciplina os procedimen-
ses produtores dos protocolos sanitários, mas de Nesse sentido, para viabilizar e normatizar a tos para registro de produtos de origem vegetal, Essas duas hipóteses em que há dispensa do po-
adaptar estes protocolos às práticas tradicionais. agroindustrialização de produtos de origem ani- bebidas etc. Esta Instrução Normativa, aplicável a der público de registro e fiscalização demons-
mal nos estabelecimentos de pequeno porte, o todas as bebidas, tais como sucos, polpas, cerve- tram a permanência dos padrões sanitários que
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimen- jas, cachaças, licores, vinhos, derivados da uva e servirão, em qualquer caso, de referência para a
to (Mapa), baixou a Instrução Normativa Mapa nº do vinho e vinagres, estabelece, de igual forma, preparação, manipulação e armazenamento de
IV - Dos fundamentos jurídicos:
16, de 23 de junho de 2015, na qual estabeleceu que tais procedimentos não se aplicam aos casos alimentos.
que as normas sanitárias servirão de referência em que o produto é preparado para ser consumi-
mesmo em relação aos produtos dispensados de do no mesmo dia e quando a produção for desti- A Nota Técnica nº 01/2017/ADAF/SFA-AM/MPF-
As leis nº 1.283, de 18 de dezembro de 1950, nº registro, inspeção e fiscalização. nada ao consumo próprio, sem fim comercial. Es- -AM explicitou este mesmo posicionamento por
7.889, de 23 de novembro de 1989 e o decreto tando, de igual modo, dispensada da fiscalização parte da Agência de Defesa Agropecuária e Flo-
nº 5.741, de 30 de março de 2006, disciplinam a Art. 2º As normas específicas relativas à defesa e controle do Mapa, senão vejamos: restal do Estado do Amazonas - ADAF, da Supe-
inspeção e fiscalização sanitária de produtos de agropecuária servirão de referência para todos os rintendência Federal de Agricultura, Pecuária e
serviços de inspeção e fiscalização sanitária, para: Art. 34. O disposto nesta Instrução Normativa
origem animal e seus derivados. Abastecimento do Amazonas - SFA/AM e do 5º
não se aplica:
I - produção rural para a preparação, manipu- Ofício do Ministério Público Federal no Estado do
A inspeção e fiscalização promovidas pelos ór-
lação ou armazenagem doméstica de produ- I - Ao serviço de alimentação e unidade de co- Amazonas no que tange aos aspectos legais para
gãos públicos tem por objetivo primordial a pre- tos de origem animal para consumo familiar, mercialização de alimentos cujos produtos de- a comercialização de produtos de origem animal

106 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 107 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
e dos vegetais e suas partes naquele Estado para dos territórios dos povos e comunidades tradi- do este entendimento, segue trecho de Nota Téc- Considerando a tradicional estrutura das famí-
os povos indígenas. cionais. Subsiste em qualquer hipótese o dever nica nº 6/2019/COPROD/CGPT/DISAT/ICMBio: lias ribeirinhas e que a produção está destinada
ao autoconsumo dos seus membros, uma vez
jurídico de produtores e distribuidores de garan-
A presente nota técnica tem o objetivo de analisar Em relação a estrutura familiar dos ribeirinhos, que os produtores dos alimentos, os estudan-
tir a higidez sanitária dos alimentos, podendo a
a questão em âmbito nacional. depois do casamento, o casal passa a residir em tes, merendeiras e, muitas vezes, os professores
Administração Pública, se for o caso, e a qualquer são parte da mesma família extensa, e adequan-
uma nova residência, estabelecendo espaços
momento, exercer seu regular poder de polícia. do-se assim à legislação sanitária vigente que
próprios de moradia e produção, como os quin-
Não se trata, portanto, de uma cláusula de imuni- tais e roças. Os distintos núcleos familiares dispensa do registro, inspeção e fiscalização
V - Da fiscalização sanitária de dade à vigilância sanitária, mas de um espaço de constituem uma família extensa que, geral- os alimentos destinados ao consumo familiar,
produtos tradicionais exercício de liberdades civis. mente concentrados em comunidades ou em é razoável considerarmos a possibilidade de
dispensa de inspeção sanitária na preparação,
colocações estreitamente relacionadas, se
A Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009, fomenta estabelecem em torno de uma família central
manipulação e armazenamento de produtos de
o desenvolvimento sustentável para a aquisição que agrega os demais núcleos. Contribuem
origem animal, vegetal e suas partes, a serem
Os sucos e as polpas fornecidos pelas populações de alimentação escolar produzidos em âmbito lo- comercializados através de políticas de com-
para o fortalecimento dos laços, a existên-
tradicionais para a alimentação escolar em suas cal, "com incentivos para a aquisição de gêneros cia de núcleos de socialização como escolas,
pras institucionais para consumo familiar, mais
próprias comunidades são exemplo de produção especificamente em relação a aquisição de
alimentícios diversificados, produzidos em âmbi- igrejas, roças comunitárias ou outros espaços
alimentação escolar por programas de gover-
de alimentos que devem observar os padrões to local e preferencialmente pela agricultura fa- em que a cooperação entre os membros da
no, sejam federais, estaduais e/ou municipais,
de referência do Mapa, mas não necessitam, em miliar e pelos empreendedores familiares rurais, família se expressam.
como o Programa de Regionalização da Alimen-
princípio, se submeter a atividades estritas de ins- priorizando as comunidades tradicionais indíge- tação Escolar - PREME e Programa Nacional de
A produção dos ribeirinhos está baseada na
peção ou fiscalização. nas e de remanescentes de quilombos" (art. 2o, V). Alimentação Escolar - PNAE.
força de trabalho familiar, considerando tanto
Os alimentos produzidos pelas populações tra- o núcleo familiar como a família extensa, com
O estabelecimento de um cardápio escolar base-
dicionais, à semelhança daqueles destinados ao foco na subsistência e comercialização de exce-
ado nos gêneros alimentícios da cultura alimentar
consumo familiar, ficam dispensados de registro,
dentes. (Nugent, 1993; Fraxe, Pereira e Witkosky, A importância do acesso a uma alimentação cul-
dessas populações, produzidos localmente, aten-
2007). Os laços de parentesco são importantes turalmente contextualizada está expressa no De-
inspeção e fiscalização com base na legislação de a um desiderato legal, aproxima o produtor
na manutenção das unidades domésticas; na creto no 6.040/2007 que estabelece a política na-
vigente. Obedecerão, assim, aos processos pró- do consumidor e possibilita o acesso a alimentos realização de atividades produtivas, como caça, cional de desenvolvimento sustentável dos povos
prios de produção, conforme sua cultura e cos- mais saudáveis e compatíveis com as tradições de pesca, agricultura e extrativismo; no cuidado
e comunidades tradicionais. O respeito à diversi-
tumes. Não prescindem, nem impedem a inter- cada grupo. com as crianças, dentre outras atividades. Além
dade cultural e aos modos de vida e tradição é o
venção do Ministério da Agricultura, Pecuária e disso, o sistema de trocas não imediatas que se
Com as adaptações devidas à realidade e con- eixo principiológico, nos termos art 1o do anexo,
Abastecimento – Mapa. estabelece dentro do complexo familiar ribeiri-
textos culturais dos povos e comunidades tradi- nho e o compartilhamento de espaços de uso
assim vazado:
Não há, por conseguinte, colisão entre o poder cionais, a produção alimentar destas populações, comum como lagos e florestas, é de grande im- I - (...)
de polícia administrativa e a livre circulação dos considerando os fatores acima elencados, enqua- portância para a segurança alimentar dos seus
alimentos produzidos e consumidos no âmbito dra-se no modelo do autoconsumo. Corroboran- membros (Lima, 2006; Harris, 2000). III - a segurança alimentar e nutricional como

108 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 109 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
direito dos povos e comunidades tradicionais tentável, gerar renda nas áreas rurais e melhorar a ceito no qual se insere a produção rural desti- nais. Trata-se do exercício de liberdades civis
ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade de vida no campo. nada ao autoconsumo, inclusive a dos povos e não de uma cláusula de imunidade à fiscali-
qualidade, em quantidade suficiente, sem com- zação sanitária;
e comunidades tradicionais;
prometer o acesso a outras necessidades essen- A compatibilização das práticas sanitárias com a
ciais, tendo como base práticas alimentares produção dos povos e comunidades tradicionais IV. A Instrução Normativa Mapa nº 16, de 23 de IX. Subsiste em qualquer hipótese o dever jurí-
promotoras de saúde, que respeitem a diver- dico de produtores e distribuidores, povos e
permite a participação nos processos licitatórios, junho de 2015, estabeleceu que as normas
sidade cultural e que sejam ambiental, cultu-
configurando uma importante fonte de comple- sanitárias servirão de referência mesmo em comunidades tradicionais, de garantir a higi-
ral, econômica e socialmente sustentáveis;
mentação de renda para esses produtores. relação aos produtos dispensados de regis- dez sanitária dos alimentos.
(...) tro, inspeção e fiscalização;

V - o desenvolvimento sustentável como pro- V. Os padrões sanitários estatais servirão, em


moção da melhoria da qualidade de vida dos VI – Conclusão Brasília, 1º de junho de 2020.
qualquer caso, de referência para a prepa-
povos e comunidades tradicionais nas gerações
ração, manipulação e armazenamento de
atuais, garantindo as mesmas possibilidades
para as gerações futuras e respeitando os seus alimentos, respeitadas as peculiaridades tra-
Por todo o exposto, a 6a Câmara de Coordenação ANTONIO CARLOS ALPINO BIGONHA
modos de vida e as suas tradições; dicionais. Obedecerão, assim, aos processos
Subprocurador-Geral da República
e Revisão do Ministério Público Federal firma as próprios de produção, conforme sua cultura
(...) Coordenador da 6a Câmara/MPF
seguintes conclusões: e costumes;
XI - a articulação e integração com o Sistema Na-
I. A atividade sanitária de poder público (inspe- VI. Os alimentos produzidos pelas populações MARIO LUIZ BONSAGLIA
cional de Segurança Alimentar e Nutricional;
ção e fiscalização) tem por objetivo primor- tradicionais, à semelhança daqueles destina- Subprocurador-Geral da República
(...) dial a preservação da saúde humana e do dos ao consumo familiar, são dispensados de Membro da 6a Câmara/MPF
meio ambiente, nos termos do art. 24, XII da registro, inspeção e fiscalização, com base na
XIV - a preservação dos direitos culturais, o
Constituição da República; legislação vigente; ELIANA PERES TORELLY DE CARVALHO
exercício de práticas comunitárias, a memória
Subprocuradora-Geral da República
cultural e a identidade racial e étnica.
II. A alimentação dos povos e comunidades VII. A compatibilização das práticas sanitárias Membro da 6a Câmara/MPF
tradicionais deve ser valorizada e respeitada com a produção dos povos e comunidades
pelas instituições sanitárias brasileiras por um tradicionais permite sua participação em pro- FELICIO PONTES JR
A compra institucional da agricultura familiar para imperativo constitucional (arts. 215 e 216 da cessos de licitação; Procurador Regional da República
a alimentação escolar é uma política em consoli- C.R.); Membro da 6a Câmara/MPF
dação, com grande potencial para proporcionar, VIII. Não há contradição entre o poder de polícia
aos educandos, alimentos mais saudáveis e fres- III. Esta atividade deve ser exercida de forma a administrativa e a livre circulação dos alimen- MARCELO VEIGA BECKHAUSEN
cos, garantir uma renda mínima para numerosas compatibilizar os padrões sanitários com a tos produzidos e consumidos no âmbito dos Procurador Regional da República
famílias, promover o desenvolvimento local sus- agroindústria rural de pequeno porte, con- territórios dos povos e comunidades tradicio- Membro da 6a Câmara/MPF

110 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 111 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
ANEXO 5

MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

Assinatura/Certificação do documento PGR-00206010/2020 NOTA TÉCNICA nº 3-2020

Signatário(a): ANTONIO CARLOS ALPINO BIGONHA


Data e Hora: 01/06/2020 17:40:17
Assinado com login e senha
LEI Nº 14.021, DE 7 DE JULHO DE 2020
Signatário(a): FELICIO DE ARAUJO PONTES JUNIOR
Data e Hora: 02/06/2020 11:28:45
Assinado com login e senha

Signatário(a): MARCELO VEIGA BECKHAUSEN


Data e Hora: 01/06/2020 18:29:42
Assinado com login e senha
Dispõe sobre medidas de proteção social para Art. 10. Serão simplificadas, para o enfrentamen-
Signatário(a): MARIO LUIZ BONSAGLIA prevenção do contágio e da disseminação da to à Covid-19, as exigências documentais para
Data e Hora: 01/06/20 20 19:55:51 Covid-19 nos territórios indígenas; cria o Plano acesso a políticas públicas que visam a criar con-
Assinado com certificado digital Emergencial para Enfrentamento à Covid-19 nos dições para garantir a segurança alimentar aos
territórios indígenas; estipula medidas de apoio povos indígenas, às comunidades quilombolas,
Signatário(a): ELIANA PERES TORELLY DE CARVALHO às comunidades quilombolas, aos pescadores ar- aos pescadores artesanais e aos demais povos e
Data e Hora: 01/06/2020 20:23:47 tesanais e aos demais povos e comunidades tradi- comunidades tradicionais.
Assinado com login e senha cionais para o enfrentamento à Covid-19; e altera a
Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990, a fim de § 1º Em processos de compra pública, doação si-
Acesse http://www.transparencia.mpf.mp.br/validacaodocumento. assegurar aporte de recursos adicionais nas situa- multânea e alimentação escolar, quando a aqui-
Chave C228613B.23657D6F.9619903E.3BF62985 ções emergenciais e de calamidade pública. sição e o consumo da mercadoria ocorrerem na

112 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 113 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
mesma terra indígena, fica estendido o conceito Art. 4º O fornecimento semanal de porções de § 4º Os projetos de compra e venda recebidos
de autoconsumo, dispensando-se o atesto dos frutas in natura e de hortaliças deverá ser manti- pela Entidade Executora serão analisados por
órgãos de vigilância animal e sanitária. do, sempre que possível. uma comissão de chamada pública, independen-
temente da presença dos interessados.
§ 2º Em processos de compra pública, doação si- Art. 5º Sempre que possível, a aquisição de gêne-
multânea e alimentação escolar, se houver uma ros alimentícios da agricultura familiar deverá ser § 5º No caso de ausência dos interessados, a
única pessoa jurídica na terra indígena e se a mantida, priorizando-se a compra local. Comissão deverá fornecer a todos os partici-
aquisição e o consumo da mercadoria ocorrerem pantes a ata de análise e resultados das propos-
§ 1º A aquisição dos gêneros alimentícios adqui- tas vencedoras.
nessa mesma terra indígena, será dispensado o
ridos diretamente dos agricultores familiares e
chamamento público. § 6º A Entidade Executora poderá criar mecanis-
suas organizações, identificadas com as Declara-
mos necessários para que os agricultores familia-
§ 3º As Declarações de Aptidão ao Programa Na- ções de Aptidão ao Programa Nacional de Forta-
res e/ou suas organizações participem da análise
cional de Fortalecimento da Agricultura Familiar lecimento da Agricultura Familiar – DAP-PRONAF,
por meio de videoconferência, quando houver
(Pronaf) para pessoas físicas indígenas podem ser físicas e jurídicas, poderá ser realizada por proce-
possibilidade.
substituídas pelas Certidões de Atividade Rural dimento de maneira remota, não presencial, com
ou outros documentos comprobatórios simplifi- ferramentas, modos e meios online. § 7º O local e a periodicidade de entrega dos ali-
cados que já sejam emitidos pelo órgão indige- mentos deverão ser definidos pela Entidade Exe-
§ 2º No caso da aquisição por meio eletrônico,
nista oficial. cutora e descritos na chamada pública.
a documentação para habilitação das propostas,
bem como o projeto de venda e seus anexos, e § 8º Os resultados da chamada pública deverão
também contratos de compra e venda poderão ser publicados em imprensa oficial e outros meios
RESOLUÇÃO Nº 02, DE 09 DE ABRIL DE 2020 ser encaminhados às Entidades Executoras de de comunicação.
forma digitalizada, sendo esses documentos váli-
Dispõe sobre a execução do Programa Nacional
dos para participação na chamada pública, desde
de Alimentação Escolar – PNAE durante o perío-
que previstos no edital e registrados no processo.
do de estado de calamidade pública, reconheci-
do pelo Decreto Legislativo nº 6, de 20 de março § 3º A Entidade Executora deverá disponibilizar
de 2020, e da emergência de saúde pública de um endereço eletrônico no edital de chamada
importância internacional decorrente do novo co- pública para envio da documentação e habilita-
ronavírus – Covid-19. ção dos interessados.

114 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 115 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
tos dos povos indígenas, populações tradicionais CONSIDERANDO que, nos termos do artigo 2º,

ANEXO 6 e demais matérias afetas à 6ª Câmara de Coorde-


nação e Revisão do Ministério Público Federal;
a Lei 11.947/2009, elenca entre as diretrizes da
alimentação escolar, o emprego da alimentação
saudável e adequada, compreendendo o uso de
CONSIDERANDO a constituição da Força Tarefa alimentos variados, seguros, produzidos em âm-
Amazônia pela Procuradoria Geral da Repúbli- bito local e preferencialmente pela agricultura fa-
ca no ano de 2018, composta por procuradores miliar e pelos empreendedores familiares rurais,
da República de diversos estados amazônicos e que respeitem a cultura, as tradições e os hábitos
outras regiões do Brasil, tendo entre suas atribui- alimentares saudáveis, contribuindo para o cres-
ções o desenvolvimento de alternativas sustentá- cimento e o desenvolvimento dos alunos e para a
veis de renda e bem viver, políticas públicas ade- melhoria do rendimento escolar, em conformida-
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORIA DA REPÚBLICA NO ESTADO DO AMAZONAS quadas, para os povos indígenas e populações de com a sua faixa etária e seu estado de saúde,
tradicionais; inclusive dos que necessitam de atenção específi-
RECOMENDAÇÃO LEGAL Nº 01/2019 ca, priorizando as comunidades tradicionais indí-
CONSIDERANDO que, nos termos do artigo 6º,
5º OFÍCIO/PR/AM inciso XX, da Lei Complementar nº 75/93, com-
genas e de remanescentes de quilombos;
FORÇA TAREFA AMAZÔNIA pete ao Ministério Público “expedir recomenda- CONSIDERANDO que, nos termos do artigo 14º,
ções, visando à melhoria dos serviços públicos e a Lei 11.947/2009, determina que do total dos
de relevância pública, bem como ao respeito, aos recursos financeiros repassados pelo FNDE, no
Assinado digitalmente em 11/01/2019 13:20. Para verificar a autenticidade acesse interesses, direitos e bens cuja defesa lhe cabe âmbito do Programa Nacional de Alimentação Es-
http://www.transparencia.mpf.mp.br/validacaodocumento. Chave 6043337D.373F6B55.09C0765A.AF545886 promover, fixando prazo razoável para a adoção colar (PNAE), no mínimo 30% (trinta por cento)
das providências cabíveis”; devem ser utilizados na aquisição de gêneros
alimentícios diretamente da agricultura familiar
Inquérito civil nº 1.13.000.000342/2017-72: CONSIDERANDO que, nos termos do artigo 1º, o
e do empreendedor familiar rural ou de suas or-
Decreto 6040/2007, reconhece como um dos prin-
ganizações, priorizando-se assentamentos da
O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pelos procura- dividuais indisponíveis, nos termos dos artigos 5º, cípios a segurança alimentar e nutricional dos povos
reforma agrária, comunidades tradicionais indí-
dores da República que esta subscrevem, no exer- inciso III, alínea “e”, e 6º, incisos VII, alínea “c”, XI e e comunidades tradicionais como direito ao acesso
genas e comunidades quilombolas;
cício das suas atribuições constitucionais e legais, XIV, “e”, da Lei Complementar n. 75/93, 127 e 129, regular e permanente a alimentos de qualidade, em
inciso V, da Constituição Federal; quantidade suficiente, tendo como base práticas CONSIDERANDO que o descumprimento de de-
CONSIDERANDO a atribuição do Ministério Pú- alimentares promotoras de saúde, que respeitam a terminações legais, como a obrigatoriedade de
blico Federal para a defesa da ordem jurídica, do CONSIDERANDO as atribuições do 5º Ofício da diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, compra mínima de 30% dos produtos da agricul-
regime democrático e dos interesses sociais e in- PR/AM sobre os procedimentos relativos aos direi- econômica e socialmente sustentáveis; tura familiar, com as prioridades acima mencio-

116 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 117 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
nadas, pode acarretar responsabilização legal desde 2016 com órgãos municipais, estaduais, CONSIDERANDO que, conforme informações e, quando realizadas atendem somente as esco-
do gestor executivo do município ou Estado, federais, sociedade civil, lideranças e movimento obtidas no âmbito da CATRAPOA, a SEDUC/AM las próximas aos municípios e não abrangem as
inclusive por improbidade administrativa; indígena para debate de medidas e implementa- também não efetuou a compra obrigatória dos mais isoladas, em áreas fora do limite urbano, que
ção de políticas públicas que garantam a efetiva 30% dos produtos da agricultura familiar no ano são historicamente mais carentes de políticas pú-
CONSIDERANDO que, nos termos do artigo 9º, aplicação da Lei 11.947/2009 e uma alimentação de 2018; blicas e do fornecimento de alimentação escolar,
a Lei 11.947/2009, o FNDE, os entes responsáveis escolar tradicionalmente adequada aos povos in- justamente onde vivem as populações citadas;
pelos sistemas de ensino e os órgãos de contro- dígenas e comunidades tradicionais; CONSIDERANDO a expedição da Nota Técnica
le externo e interno federal, estadual e municipal nº 01/2017/ADAF/SFAAM/MPF-AM sobre o CONSIDERANDO que, o impacto da não con-
criarão, segundo suas competências próprias ou CONSIDERANDO que, em 2016, segundo da- posicionamento da Agência de Defesa Agrope- tratação de alimentos para a alimentação esco-
na forma de rede integrada, mecanismos adequa- dos declaratórios enviados ao FNDE, de 47 mu- cuária e Florestal do Estado do Amazonas – ADAF, lar diretamente junto às populações locais do
dos à fiscalização e ao monitoramento da execu- nicípios do Amazonas recebendo recursos do da Superintendência Federal de Agricultura, Pe- Amazonas, de suas produções, nos termos da
ção do PNAE; FNDE, 15 municípios (32%) não adquiriram ali- cuária e Abastecimento do Amazonas - SFA/AM Lei 11.947/2009, não apenas gera os danos aci-
mentos provenientes da agricultura familiar, 06 e do Ministério Público Federal/AM/5º Ofício, no ma elencados a tais povos, como também causa
CONSIDERANDO que há centenas de inquéritos municípios (13%) adquiriram entre 1 e 10%, 08 que tange aos aspectos legais para a comerciali- prejuízos ao erário, devido aos altos custos de
civis públicos no âmbito do Ministério Público Fe- municípios (17%) adquiriram entre 10 e 20% e 08
zação de produtos de origem animal e dos vege- logística, que causam ainda impacto ambien-
deral no país relatando a ausência ou insuficiên- municípios (17%) entre 20 e 29,90%, sendo que
tais e suas partes no Estado do Amazonas para os tal em função da poluição gerada pelo uso de
cia de alimentação escolar nas áreas onde vivem somente 10 (21%) cumpriram a obrigatoriedade
povos indígenas, possibilitando a compra de tais combustíveis por centenas de quilômetros via
povos indígenas e comunidades tradicionais; mínima de contratação de 30%.
produtos (como peixe, galinha, farinha, polpas, fluvial, quando poderiam ser diminuídos com
CONSIDERANDO que, além das referidas denún- etc) das aldeias e comunidades indígenas para a compra direta nas comunidades;
cias, verifica-se que quando a entrega de alimen- o consumo na alimentação escolar indígena, no
CONSIDERANDO que, além de garantir a alimen-
tos ocorre, em grande parte dos casos os alimen- modelo do consumo familiar, sem a necessida-
tação escolar, promover alimentação saudável e
tos não são adequados à cultura e tradição dos de das medidas sanitárias padrões da sociedade
com respeito à cultura dos povos e comunidades
povos indígenas e populações tradicionais, por envolvente, em respeito às suas próprias práticas
tradicionais, diminuir altos custos logísticos, esta
se tratar de produtos processados e com grande tradicionais;
política pública, bem como outras relacionadas
quantidade de ingredientes químicos, o que oca-
CONSIDERANDO que, de forma geral, as cha- à aquisição de produtos da agricultura familiar,
siona impactos à cultura e à saúde, além de gerar
madas públicas das secretarias de educação para contribui para a geração de renda e incentivo à
resíduos sólidos nestes locais em que não há o
aquisição de alimentos da agricultura familiar, produção sustentável e fixação destas popula-
descarte adequado ou coleta;
tanto municipais como estatual, não são diferen- ções nas áreas protegidas, de floresta, evitando,
CONSIDERANDO a formação da CATRAPOA – ciadas para regular participação do público-al- assim, o envolvimento em atividades explorató-
Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos vo, e não priorizam o fornecimento de alimentos rias do ponto de vista trabalhista e predatórias ao
no Amazonas − que se reúne periodicamente oriundos de povos e comunidades tradicionais, meio ambiente, e o êxodo rural;

118 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 119 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
CONSIDERANDO que os preços pagos pelos aquisição de gêneros alimentícios da agricultura I – Cumpram a obrigatoriedade mínima de com-
produtos a serem fornecidos, no âmbito da familiar pela SEDUC/AM, direcionada à imple- pra de 30% de alimentos da merenda escolar EFICÁCIA DA RECOMENDAÇÃO: o não
agricultura familiar, devem respeitar os valo- mentação do entendimento constante na Nota proveniente da agricultura familiar, no ano de atendimento da presente recomendação
res locais de mercado, específico de cada mu- Técnica nº 01/2017/ADAF/SFA-AM/MPF-AM 2019 e nos anos seguintes, nos termos da Lei dá ciência e constitui em mora o(s) desti-
nicípio ou região no Amazonas, estimulando a para os povos indígenas, nos seguintes municí- 11.947/2009, com a priorização de compra da natário(s) quanto às providências aponta-
produção e geração de renda locais; pios: Amaturá, Benjamin Constant, Borba, Jutaí, produção de assentados da reforma agrária, po- das. O não atendimento das providências
Nhamundá, Santo Antônio do Içá, São Gabriel da vos tradicionais indígenas, quilombolas; apontadas ensejará a responsabilização
CONSIDERANDO que, devido às grandes dis-
Cachoeira, Tabatinga e Tefé; dos destinatários e dirigentes recomen-
tâncias e altos custos de logística para escoamen- II – Efetuem a realização de chamada pública di-
dados por sua conduta comissiva ou
to da produção até a sede dos municípios e/ou Resolvem RECOMENDAR ao Governo do Es- ferenciada para compra de alimentos da meren-
omissiva, sujeitando-os às consequentes
centros consumidores no Amazonas, as políticas tado do Amazonas, na pessoa do Governador da escolar proveniente da agricultura familiar até
medidas judiciais e extrajudiciais cabíveis.
públicas de aquisição de alimentos da agricultura do estado ou quem o suceder, ao Secretário de 30/03/2019, respeitando as prioridades acima,
familiar constituem muitas vezes a única alterna- Educação da SEDUC/AM, ou quem o suceder, de maneira a possibilitar o fornecimento dos refe-
tiva de comercialização direta de muitas comuni- e a todas as Prefeituras Municipais no Estado ridos produtos nas escolas ainda no 1º semestre O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL fixa o prazo
dades, sem a intermediação de atravessadores; do Amazonas, (Alvarães, Amaturá, Anamã, Ano- do ano letivo de 2019; de 15 dias, contados a partir do recebimento,
ri, Apuí, Atalaia do Norte, Autazes, Barcelos, Bar- para prestação das informações sobre o acata-
CONSIDERANDO que o FNDE possui assesso- III – Considerando a obrigação legal de forneci-
reirinha, Benjamim Constant, Beruri, Boa Vista do mento ou não das medidas recomendadas, infor-
ria disponível e qualificada para prestar escla- mento de alimentação escolar que respeite a cul-
Ramos, Boca do Acre, Borba, Caapiranga, Canu- mando-se datas e o cronograma para seu cum-
recimento e apoiar a elaboração das chamadas tura e tradições dos povos indígenas, bem como
tama, Careiro da Várzea, Careiro, Carauari, Coa- primento.
públicas diferenciadas no âmbito dos municí- a expedição da Nota Técnica nº 01/2017/ADAF/
ri, Codajás, Eirunepé, Envira, Fonte Boa, Guajará,
pios, para compra de produtos da agricultura SFA-AM/MPF-AM, efetuem o lançamento de cha- Divulgue-se. Publique-se. Encaminhe-se cópia ao
Humaitá, Ipixuna, Iranduba, Itacoatiara, Itamarati,
familiar, bem como dentro das prioridades legais mada pública em 2019 contemplando referidos FNDE, MEC, Funai, ICMBio, Idam, CNS, IEB, mem-
Itapiranga, Japurá, Juruá, Jutaí, Lábrea, Mana- povos nos termos da Nota Técnica mencionada
(assentados da reforma agrária, povos tradicionais bros da Catrapoa e demais interessados.
capuru, Manaquiri, Manaus, Manicoré, Maraã, (ressaltando que o FNDE disponibiliza o apoio
indígenas, quilombolas), já contemplando inclusi-
Maués, Nhamundá, Nova Olinda do Norte, Novo técnico e orientações para realização das chama- Encaminhem-se anexos à presente Recomendação:
ve a compra de proteínas, vegetais e suas partes,
Airão, Novo Aripuanã, Parintins, Pauini, Presiden- das públicas diferenciadas por meio dos contatos
nos termos da Nota Técnica nº 01/2017/ADAF/
te Figueiredo, Rio Preto da Eva, Santa Isabel do i. a Nota Técnica nº 01/2017/ADAF/SFA-AM/
SFA-AM/MPF-AM, podendo ser contatados por mencionados na presente Recomendação);
Rio Negro, Santo Antônio do Içá, São Gabriel da MPF-AM;
meio da representante do FNDE: Maria Sineide
Cachoeira, São Paulo de Olivença, São Sebastião
Neres dos Santos, fone (61) 2022-5501 e cor- ii. as Orientações específicas sobre aquisição de
do Uatumã, Silves, Tabatinga, Tapauá, Tefé, Tonan-
reio eletrônico: maria.neres@fnde.gov.br; alimentos da agricultura familiar para alimen-
tins, Uarini, Urucará e Urucurituba), na pessoa de
tação escolar indígena do Estado do Amazo-
CONSIDERANDO que em 18/12/2018 houve o seus respectivos Prefeitos Municipais ou quem os
nas, produzida pelo FNDE;
lançamento do edital de Chamada Pública para suceder, que:

120 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 121 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
iii. o Manual de Aquisição de produtos da agri-
cultura familiar para a alimentação escolar, 2ª
edição, FNDE.

Encaminhe-se cópia por meio digital à 6a CCR e Assinatura/Certificação do documento PR-AM-00001438/2019 RE-
ao GT Educação indígena do MPF para ciência. COMENDAÇÃO nº 1-2019

Signatário(a): ALEXANDRE JABUR


Data e Hora: 11/01/2019 16:20:50
Manaus, 11 de janeiro de 2019
Assinado com certificado digital

Signatário(a): JOSE GLADSTON VIANA CORREIA


Data e Hora: 11/01/2019 16:31:36
Alexandre Jabur Ana Carolina Haliuc Bragança Assinado com certificado digital

Procurador da República em substituição Procuradora da República


Signatário(a): FERNANDO MERLOTO SOAVE
PRM Tefé/AM Coordenadora da Força Tarefa Amazônia Data e Hora: 11/01/2019 13:20:22
Assinado com certificado digital

Signatário(a): ANA CAROLINA HALIUC BRAGANÇA


Bruna Menezes Gomes da Silva
Fernando Merloto Soave Data e Hora: 11/01/2019 13:27:31
Procuradora da República em substituição Assinado com login e senha
Procurador da República
PRM Tabatinga/AM
5º ofício PR/AM Signatário(a): BRUNA MENEZES GOMES DA SILVA
Procuradora Regional dos Direitos do Cidadão
Data e Hora: 11/01/2019 16:43:02
Assinado com login e senha

José Gladston Viana Correia Acesse http://www.transparencia.mpf.mp.br/validacaodocumento.


Procurador da República em substituição Chave 6043337D.373F6B55.09C0765A.AF545886
PRM Tefé/AM

122 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 123 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
reuniões no Ministério Público Federal do Amazo- tura, Pecuária e Abastecimento - Mapa, por meio da

ANEXO 7 nas em conjunto com órgãos públicos, entidades


indigenistas e movimento indígena sobre o tema
Instrução Normativa nº 16 de 2015 estabelece:

alimentação escolar indígena e a contratação mí-


nima de 30% dos recursos referente à agricultura I- Produção rural para a preparação, manipula-
familiar. Expõem-se vários pontos de violação aos ção ou armazenagem doméstica de produtos
direitos indígenas e à segurança alimentar, ressal-
de origem animal para consumo familiar, ficará
tam-se entre eles:
dispensada de registro, inspeção e fiscalização.

• Ausência ou insuficiência de alimenta-


ção escolar nas escolas indígenas;
Ao se referir a consumo familiar, a legislação re-
ORIENTAÇÕES ESPECÍFICAS SOBRE • Quando há entrega dos alimentos nas al- porta-se à produção de alimentos por vínculos de
AQUISIÇÃO DE ALIMENTOS DA AGRICULTURA deias, verifica-se, em grande parte, a não
proximidade e parentesco. A produção alimen-
FAMILIAR PARA ALIMENTAÇÃO ESCOLAR adaptação à cultura e tradição indígenas;
tar indígena é familiar, no momento em que há
INDÍGENA DO ESTADO DO AMAZONAS o envolvimento das vastas redes de parentescos
• Aumento da recusa pelas crianças indí-
genas aos alimentos tradicionalmente nos processo de produção, preparo e consumo
produzidos; dos alimentos. As próprias aldeias constituem-se,
comumente, como espaços de habitação e convi-
CONHEÇA A NOTA TÉCNICA N°1/2017 • Abandono gradativo das práticas de cul- vência de um conjunto amplo de parentes onde
tivo tradicionais; há diferentes níveis e intensidades de relação.

Com o objetivo de viabilizar o acesso dos po- bilita a aquisição de produtos de origem animal, • Fornecimento de alimentos industriali- A respeito de produtos de origem vegetal e bebidas
zados; a IN nº 17 de 2015 os regramentos não se aplicam
vos indígenas a alimentação escolar adequada vegetal e bebidas, sob o prisma da legislação do
com respeito aos seus processos próprios de autoconsumo/consumo familiar à dispensa de re- aos produtos que forem preparados para consumo
• Aumento exponencial de resíduos (lixo
gistro, inspeção e fiscalização permitindo que tal no mesmo dia e quando a produção for destinada
produção e por meio de contratação, com recur- não orgânico) nas aldeias;
alimento seja consumido em âmbito escolar. ao consumo próprio. Ficando, de modo igual, dis-
so do PNAE, foi expedida a NOTA TÉCNICA N°
pensada da fiscalização e controle do Mapa.
01/2017/ADAF/SFA-AM/MPF-AM que destaca o A segurança alimentar, tem se tornado uma pre-
rigor na legislação vigente, até o momento, refe- ocupação para a sociedade nos últimos anos. Por Buscando viabilizar e normatizar a agroindustrializa- Portanto, sucos e polpas a serem fornecidos
rente à inspeção de produtos de origem animal e estar, também, relacionada aos hábitos e a cultura ção de produtos de origem animal nos estabeleci- pelos indígenas para a alimentação escolar, no
vegetal por estabelecimento regularizado, possi- alimentar de um povo, foram realizadas diversas mentos de pequeno porte, o Ministério da Agricul- contexto da legislação do autoconsumo/consu-

124 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 125 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
mo familiar, não necessita de inspeção ou da fis- familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas
calização do Mapa. organizações, priorizando-se os assentamentos
PASSO A PASSO PARA
da reforma agrária, as comunidades tradicionais AQUISIÇÃO DE PRODUTOS
À vista disso, há possibilidade de dispensa de
registro, inspeção e fiscalização, permitindo que
indígenas e comunidades quilombolas”.
DA AGRICULTURA FAMILIAR
tal alimento seja adquirido para consumo no am-
biente escolar, ocasionando benefícios como o Com base, portanto, nas prerrogativas
Quem compra:
estimulo aos hábitos alimentares locais, redução abertas pela NT, assim como nas especi-
de custos, possibilidade de compra, de mínimo, Entidades executoras (Prefeituras Municipais e ficidades mencionadas quanto ao direito
30% da agricultura familiar - com prioridade as SEDUC/AM) a ações de alimentação escolar diferen-
comunidades indígenas e quilombolas e desen- ciada, são apresentados os passos para
volvimento econômico local. a aquisição de gêneros alimentícios dos
povos indígenas pelo PNAE.
Conclui-se também que por se tratar de consumo Quem vende: 1 Fase de planejamento
familiar e alimento perecível, a comercialização
Indígenas
fora de territórios indígenas fica impossibilitada, 1º Orçamento
restringindo-se a pequenas distâncias e dentro • Individualmente; 2º Articulação entre os atores
do limite geográfico do Estado do Amazonas.
Construção da Chamada Pública 2
• Organizados em grupos formais (asso-
ciações e cooperativas);
3º Cardápio
DAS AQUISIÇÕES • Organizados em grupos informais (gru-
4º Pesquisa de preço
po de mais de um produtor sem estarem
DA AGRICULTURA constituídos em CNPJ). 5º Chamada Pública 3 Processo de aquisição
FAMILIAR INDÍGENA
6º Projeto de venda
7º Seleção
Art. 14 da Lei 11.947/09: Fornecimento
4 8º Amostra
“Do total dos recursos financeiros repassados pelo 9º Contato
FNDE, no âmbito do PNAE, no mínimo 30% (trinta 10º Entrega os produtos
por cento) deverão ser utilizados na aquisição de 11º Prestação de contas
gêneros alimentícios diretamente da agricultura

126 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 127 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
ção o acréscimo dos insumos exigidos no edital
1º PASSO: 2º PASSO: 3º PASSO: da chamada pública. O preço de compra de cada
verificar orçamento! Articulação entre os atores Elaboração do cardápio produto será o preço médio pesquisado por:

Responsável: Entidade Executora sociais Responsável: Nutricionista (responsável técnico). • Mínimo 3 mercados locais, priorizando
Responsável: Entidade Executora feiras da agricultura familiar,

• Considerar todos os insumos exigidos no


• Número de escolas e de alunos a serem Após o mapeamento dos produtos da agricultura
edital: frete, embalagens, encargos, etc.
atendidos pela chamada familiar local é o momento de elaborar o cardápio
• Secretaria (municipal estadual)
da alimentação escolar. O nutricionista é essen- • Preço de aquisição/pago ao agricultor:
de educação
• Período do fornecimento – quais e quan- cial nesse processo, pois deve planejar um car- MÉDIA dos preços pesquisados!
tos meses? (análise deve ser comple- dápio nutritivo, com alimentos regionais – confor-
• Instituições de Ensino Superior
mentada com informações sobre o ma- me a safra, de qualidade e considerar os hábitos No caso de impossibilidade de calcular o pre-
(UEA, Ufam, Ifam)
peamento da produção) locais. Por isso o mapeamento é tão importante, ço de aquisição por falta de referência local, a EEx
• ONG’s (Opan, IEB) pois de posse desse conhecimento o nutricionis- poderá.... (verificar com FNDE)
ta terá mais sucesso ao elaborar o cardápio e o
• Ater pública IDAM
objetivo será alcançado, que é a aceitabilidade e
• Controle Social (CAE, Comsea, boa alimentação dos estudantes.
CAEI, CMDRS) 5º PASSO:
Chamada Pública
• Movimentos Indígenas (Focimp, Amit)
4º PASSO: Responsável: Entidade Executora – EEx e parceiros.
• Secretaria de Produção
Pesquisa de Preço (Definição
• Cooperativas e associações
ATENÇÃO! prévia de preços e publicação
A Chamada Pública é um edital para realizar a
• Funai, CTL no edital da Chamada Pública) aquisição de produtos da agricultura familiar, com
Os estudantes indígenas dispensa de licitação. Deve fornecer informações
tem direito a um valor per Responsável: Entidade Executora (e parceiros).
necessárias para que os produtores apresentem
capita/aluno/dia letivo os projetos de venda corretamente.
diferenciado.
Para definição dos preços deve ser realizada am- A Entidade Executora é a responsável pela Cha-
pla pesquisa de preços, levando em considera- mada Pública. Ressalta-se, todavia, que o nutricio-

128 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 129 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
nista RT pode contribuir na elaboração desse ins- O projeto de venda é um documento que efetiva o
trumento. Por se tratar de um recurso que permite interesse dos agricultores familiares em vender sua
7º PASSO: 8º PASSO:
a veiculação de diretrizes importantes relaciona- produção para a alimentação escolar. Deve estar Recebimento e seleção dos Amostra para controle de
das ao desenvolvimento sustentável, ao apoio à de acordo com o publicado em chamada Pública.
projetos de venda qualidade
inclusão social e produtiva local e à promoção da
Documento onde o indígena efetiva seu inte-
segurança alimentar e nutricional. Responsável: Entidade Executora- EEx. Responsável: Entidade Executora – EEx.
resse em vender sua produção para a alimen-
Recomenda-se que seja elaborada uma chamada tação escolar.
específica para as escolas indígenas.
Com apoio das entidades de ater locais (Ongs, Poderá ser previsto na Chamada Pública a apre-
Essa etapa refere-se à habilitação dos projetos
A divulgação da chamada deve levar em conside- secretaria de produção, IDAM) e da Funai, deve- sentação de amostras dos produtos a serem ad-
de venda, para isso o projeto deve ser entregue
rão ser elaborados os projetos de venda tendo quiridos, para que sejam submetidos ao controle
ração os meios de comunicação acessados pelas acompanha da seguinte documentação de habi-
em vista a capacidade de fornecimento dos indí- de qualidade.
comunidades indígenas. litação dos fornecedores:
genas, individualmente e/ou em grupo.
Esse passo é especialmente relevante, as EEx e
Recomenda-se que sejam realizadas audiências pú- Documentação exigida para habilitação dos for- nutricionistas devem levar em consideração a
blicas para divulgação das chamadas entre as enti-
necedores: Nota Técnica N° 01/2017.
dades apoiadoras e lideranças indígenas locais.
• Grupo Formal: DAP jurídica, CNPJ, cópias
das certidões negativas junto ao INSS, FGTS,
ATENÇÃO! Receita Federal e Dívidas Ativas da União,
6º PASSO: cópia do estatuto e projeto de venda;
Limite individual de Sob o ponto de vista da legislação do
Elaboração do Projeto de Venda autoconsumo/consumo familiar dis-
venda do agricultor • Grupo Informal: DAP de cada agricultor
pensa o registro, inspeção e fiscaliza-
Responsável: Agricultores familiares, ou suas asso- familiar é de R$ familiar, CPF e Projeto de venda.
ção de produtos de origem animal. De
ciações ou cooperativas.
20.000,00 por DAP/ igual modo, produtos de origem ve-
ANO/ENTIDADE getal e bebidas, quando preparados
Após Habilitados a EEx deverá fazer a seleção dos para consumo no mesmo dia, não há
É um dos passos mais importantes, já que a par- projetos de venda levando em consideração os necessidade de inspeção e fiscaliza-
ticipação e contratação do agricultor familiar no critérios estabelecidos de acordo com a Nota N° ção, permitindo que sejam fornecidos
Programa Nacional de Alimentação Escolar – 01/2017/ADAF/SFA-AM/MPF aos indígenas no ambiente escolar.
PNAE dependem da correta elaboração do Pro-
jeto de Venda.

130 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 131 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
genas deverão comunicar às escolas que, por seu
9º PASSO: turno, informarão à EEx para que tome as medi-
Contrato de Compra das cabíveis.

Responsável: Entidades Executoras – EEx e Agri- Termo de recebimento:


cultores familiares fornecedores.
O pagamento aos indígenas/grupo formal deve-
rá ser realizado em conta bancária própria.

O contrato de compra é a formalização legal do


compromisso assumido pelas EEx e os fornece-
dores para entrega dos gêneros alimentícios da 11º PASSO:
agricultura familiar para a alimentação escolar.
Prestação de Contas
Os contratos devem estabelecer as condições
para sua execução, expressas em cláusulas que
definam as responsabilidades e direitos de ambas Documento fiscal que atesta o processo de com-
as partes, em conformidade com a Chamada Pú- pra/venda:
blica. Deve ser assinado pelas partes envolvidas.
• Nota Fiscal: associações e cooperativas

• Bloco do Produtor: indígenas, individual-


10º PASSO: mente ou em grupos informais.

Termo de recebimentos e
pagamento dos agricultores
Responsável: Agricultores familiares fornecedores.

O fornecimento dos produtos deve obedecer ao


calendário de entregas estabelecido no contrato;

Caso haja algum imprevisto nas entregas, os indí-

132 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais 133 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais
A Série de Guias “Agricultura familiar: boas prá- 1. “Gestão de feiras orgânicas na Amazônia”
ticas replicáveis de comercialização de produ- que detalha os aspectos técnicos e práticos
tos da sociobiodiversidade e agroecologia” relacionados à gestão das feiras orgânicas por
foi desenvolvida no âmbito do Projeto Mercados famílias agricultoras;
Verdes e Consumo Sustentável, promovido pelo
2. “Formação de Organizações de Controle
governo federal alemão, por meio da Deutsche Social (OCS)”;
Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit
(GIZ) GmbH, com o apoio do consórcio ECO Con- 3. “Sistemas Participativos de Garantia (SPG)
sult Sepp & Busacker Partnerschaft e Ipam Amazô- para produção e comercialização de pro-
nia, em parceria com a Secretaria de Agricultura dutos orgânicos” que contribuem com a
ampliação do conhecimento sobre sistemas
Familiar e Cooperativismo do Ministério da Agri-
orgânicos de produção e garantia da confor-
cultura, Pecuária e Abastecimento (SAF/Mapa).
midade orgânica;
No total foram sistematizadas seis referências de
boas práticas replicáveis de comercialização de 4. “Alimentação escolar indígena e de comu-
produtos da sociobiodiversidade e da agroecolo- nidades tradicionais” que aborda a estraté-
gia e transformadas em Guias práticos. São eles: gia da boa prática realizada no Amazonas, a
respeito da alimentação escolar para indíge-
nas e populações tradicionais, assim como, os
passos para a sua implementação;

5. “Marcas coletivas para a comercialização


de produtos da agricultura familiar” que
traz uma série de ferramentas conceituais e os
procedimentos necessários para o registro de
uma marca coletiva; e, por fim,

6. “O Programa CapGestores e a ampliação


das compras públicas da agricultura fami-
liar” que detalha o conteúdo, as trocas de
experiências e as lições aprendidas durante o
Programa CapGestores para a ampliação dos
mercados institucionais.

134 | Guia prático . Alimentação escolar indígena e de comunidades tradicionais


Os espaços de diálogo criados e/ou impulsionados é aquele produzido na própria comunidade ou
nos quatro estados da Amazônia (Acre, Amazonas, território. Além de gerar renda localmente, incentivar
Amapá e Pará), foco do Projeto Mercados Verdes e valorizar os modos de produção tradicionais de
e Consumo Sustentável, permitiram identificar, cultivo, produção e preparo dos alimentos, a partir da
sistematizar e transmitir diferentes experiências perspectiva das comunidades locais.
de comercialização, além de refletir e promover
a construção coletiva de conhecimento no Este é um tema de extrema relevância para os
entorno delas. Um destes espaços de diálogo governos federal, estadual, municipal e para a
trabalhou a estratégia de apoio à alimentação sociedade civil, representada pelas organizações da
escolar indígena no Amazonas, coordenada pela agricultura familiar, povos e comunidades tradicionais
Comissão de Alimentos Tradicionais dos Povos no que buscam o cumprimento da Lei da Alimentação
Amazonas (Catrapoa), considerada pelo projeto Escolar (Lei nº 11.947, de 16 de junho de 2009). Com
como uma boa prática de comercialização. a expedição da NT nacional em 01/06/2020 pela 6ª
Promover este reconhecimento e contribuir para a CCR do MPF, o que era possível apenas aos indígenas
sua replicação é um dos objetivos do projeto. do Amazonas com a NT local de 2017, se expande
para todos os povos e comunidades tradicionais do
A alimentação escolar de povos indígenas e Brasil (indígenas, quilombolas, extrativistas, entre
comunidades tradicionais tem o objetivo de outros). Com este Guia pretendemos descrever como
valorizar a biodiversidade e os produtos de seus essa boa prática de comercialização foi desenvolvida
territórios, fazendo cumprir a Lei da Alimentação e o passo a passo para a sua replicação.
escolar . É o reconhecimento que o melhor
alimento a ser consumido pelos alunos das escolas

Este guia foi elaborado em conjunto com: Em colaboração com o consórcio:

ECO Consult
Durchgeführt von:

Projeto

Por meio da:

Projeto

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