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EDUCAÇÃO PARA O SÉCULO XXI

Recentemente esteve no Brasil, pela segunda vez, o sociólogo italiano


Domenico De Masi, professor nos EEUU e mundialmente conhecido por seus
estudos sobre o mundo atual, especialmente o mundo do trabalho. Seu livro sobre
os grupos de criatividade bateram todos os recordes de venda no Brasil e o mais
atual, sobre o Futuro do Trabalho, vendeu 7 edições na primeira semana, na Itália.
O que há de mais original em De Masi, é ter abordado a questão das
transformações do trabalho nesta virada de século e intuído muitas de suas
conseqüências. Essa visita nos provoca a reflexão sobre o futuro de nossos filhos
neste mundo em transformação.
Na verdade, hoje sentimos uma revolução profunda no mercado de trabalho -
a exigência de educação continuada (mestrado, doutorado, pós-doutorado, etc.), a
perda da estabilidade pela flexibilização das leis trabalhistas, a mundialização do
mercado (exigindo domínio de vários idiomas, aumentando os contatos sociais e
cobrando mais mobilidade física do profissional), a velocidade da informação (via
Internet, por exemplo), o trabalho sem sede (homework), etc. - que ao mesmo tempo
nos fascina e nos amedronta.
Além de todas essas transformações (ou talvez por causa delas), temos uma
aparente contradição: nosso tempo livre aumenta e desaparece simultaneamente.
Se por um lado as horas efetivas de ocupação produtiva tenderão a diminuir na
virada do século, devido principalmente às inovações tecnológicas e seu impacto
sobre nossas tarefas, por outro todas as nossas relações sociais e culturais
tenderão a ser significativas também para o trabalho. Sendo o trabalho num mundo
globalizado cada vez mais "envolvente" (por ser menos seguro e mais competitivo) e
cada vez mais "social" (pois não está mais delimitado em salas, fábricas, cidades ou
países), ele nos transforma em "trabalhadores integrais", tanto no sentido de se
tornar o centro de nossas preocupações quanto no de nos exigir habilidades e
conhecimentos que estão muito além da antiga "aptidão para a tarefa".
Nesse contexto, a educação de nossos filhos passa a ser fundamental para
seus futuros. Mais do que QI e aptidões específicas (que não deixam de ser
importantes, é claro), a educação tem que buscar desenvolver criatividade e
compreensão. Além da "antiga" inteligência lógico-matemática, nos diz Howard
Gardner, um dos maiores pedagogos deste final de século, necessitamos
desenvolver a inteligência espacial, corporal, naturalista, inter e intrapessoal,
existencial e artística.
Para o maestro Yeruham Scharovsky, por exemplo, a música é uma das
formas mais adequadas para ensinar a ouvir o outro e a trabalhar em equipe. A
mesma opinião tem o professor Ricardo Breim, do MEC, para quem a música,
aumentando a capacidade de concentração, ajuda no aprendizado de outras
disciplinas, especialmente da matemática.
Mas a globalização, promovendo o aldeamento do mundo, além da ampliação
cultural exigirá qualidades outras do homem do futuro, necessárias não só à sua
sobrevivência enquanto espécie como também para seu relacionamento. As
principais dessas qualidades serão, sem nenhuma dúvida, a ampliação da tolerância
e uma ética profundamente ecológica. As duas virtudes, aliás, se interpenetram:
tanto a tolerância implica no respeito profundo à natureza quanto a visão ecológica
implica no respeito profundo ao outro. Uma revolução qualitativa tem que ser, antes
de tudo, uma revolução dos valores humanos.
Enquanto vivemos em nosso país essa fase política e financeira dramática,
com as funestas conseqüências que vemos na educação, na saúde e,
especialmente, no trabalho, talvez seja difícil enxergar essa tênue linha que se
projeta do futuro. Temos, ainda, que nos apegar às poucas esperanças que nos
restam e nossos horizontes, ao invés de se alargarem, estreitam-se cada vez mais.
Nesse contexto, nos agarramos, indivíduos e organizações, ao "essencial": a
formação "essencial" dos cursinhos, o curso universitário mais "essencial", os livros
de "realize-se rápido", as apresentações mágicas das "consultorias", e tais. São
sinais de um tempo... de agonia.
É naquela linha tênue, contudo, que encontraremos o caminho para formarmos
nossos filhos para o mundo que se avizinha. Um mundo que será extremamente
difícil, radicalmente diferente deste que conhecemos, mas muito mais rico do ponto
de vista humano do que o nosso. Será a grande síntese entre o mundo
"calorosamente humano" de nossos avós e o mundo "hightech" de nossos filhos.
Oxalá assim o seja!
Francisco Cezar de Luca Pucci