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EXCELENTÍSSIMO SENHOR MINISTRO PRESIDENTE DO SUPREMO

TRIBUNAL FEDERAL

1) PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL - PCdoB, partido político com


representação no Congresso Nacional, registrado no Tribunal Superior Eleitoral, com sede na
sala 1.224, do Edifício Executivo Office Tower, localizado no Bloco F, da Quadra 2, do SHN,
Asa Norte, Brasília, DF, inscrito no CNPJ sob o nº 54.956.495/0001-56, representado por sua
presidenta, Luciana Barbosa de Oliveira Santos, brasileira, em relação de união estável, no
exercício de mandato de Vice-Governadora do Estado de Pernambuco, residente e domiciliada
em Recife-PE e estabelecida na sede do outorgante e; 2) PARTIDO SOCIALISMO E
LIBERDADE – PSOL, partido político com representação no Congresso Nacional,
registrado no Tribunal Superior Eleitoral por meio da Resolução 22.083, de 2005, inscrito no
CNPJ sob o nº. 06.954.942/0001-95, com endereço no com sede no SCS, SC/SUL, Q. 02 BL
C número 252, 5º andar, Edifício Jamel Cecílio - Asa Sul, Brasília/DF, neste ato representado
por seu Presidente Nacional, Juliano Medeiros, brasileiro, historiador, inscrito no CPF nº
004.407.270-81 e do RG 8.084.283.962 SJS/RS, vêm conjuntamente promover o ingresso de
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE POR OMISSÃO, COM PEDIDO
DE MEDIDA CAUTELAR, sob o fundamento dos arts. 12-A, 12-B e 12-F da Lei nº
9.868/1999, em face de omissão inconstitucional, quanto à adoção de providência de índole
administrativa pelo PRESIDENTE DA REPÚBLICA, autoridade competente para implantar,
no plano federal e em coordenação com as demais unidades da Federação, providências
urgentes e inadiáveis necessárias ao combate à pandemia de COVID-19, no cumprimento das
normas constitucionais inscritas nos artigos 1º, III, art. 5º, caput, art. 6º, art. 37, caput, 170,
III, VI, IX, e art. 196, pelas razões a seguir expostas:

O anjo da história contempla, impotente, a acumulação de ruínas e de


sofrimento a seus pés. Gostaria de ficar, de criar raízes na catástrofe para,
a partir dela, acordar os mortos e reunir os vencidos, mas sua vontade foi
expropriada pela força que o obriga a optar pelo futuro, para o qual está de
costas. O seu excesso de lucidez combina-se com uma falta de eficácia (...)as
raízes e as ações são cegas”. (Boaventura de Souza Santos, sobre alegoria
de Benjamin a respeito do quadro “Angelus Novus”, de Paul Klee).

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Todo ser humano tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes
remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe
sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei. (DECLARAÇÃO
UNIVERSAL DOS DIREITOS DO HOMEM)

I - DO OBJETO DA AÇÃO.

1. A conexão da parábola do “Angelus” em epígrafe com o artigo 8º da Declaração


Universal dos Direitos do Homem contém toda a problemática da efetividade dos Direitos
Fundamentais, que remete tanto diretamente para a grandeza teleológica do Estado moderno,
como para seus limites reais nos grandes terremotos da História. Este é o desafio do tempo
presente.

2. Esta ação tem por objeto a obtenção de tutelas jurisdicionais, cautelares e


definitivas, visando à superação da conduta omissiva do Chefe do Poder Executivo Federal
na adoção de medidas para garantir o exercício dos direitos fundamentais à vida e à saúde de
milhões de brasileiras e brasileiros, abrangendo ações administrativas e atos de governo, no
contexto da pandemia do Sars-Cov2 (novo coronavírus).

3. Busca assim a presente ADI obter medida cautelar para suprimento imediato e
provisório das condutas omissivas, com base no reconhecimento de que a continuidade das
omissões aponta para o aprofundamento do colapso dos sistemas sanitário e funerário do país,
resultando consequências catastróficas, que ameaçam promover o caos social e o
desmoronamento do próprio sistema jurídico.

4. A pretensão deduzida volta-se a proporcionar a contenção de aglomerações e de


circulação de pessoas, cuja permissão irrestrita vem causando não apenas uma exponencial
disseminação da pandemia em nosso país, como também a produção de novas cepas ou
variantes do novo coronavírus, com maior capacidade de contágio e gravidade.

5. Por fim, a ação ora proposta pretende assegurar aos agentes econômicos que
vierem a ser afetados pelas medidas restritivas de alcance nacional uma compensação razoável
pela suspensão de suas atividades, de modo a propiciar a subsistência dos seus negócios e o
amparo às cadeias produtivas e aos empregos respectivos.

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II - DOS FATOS E DO PROTAGONISMO DO PRESIDENTE DA
REPÚBLICA.

6. O estado de pandemia foi reconhecido no Brasil no mês de março do ano passado,


após o primeiro óbito em decorrência da COVID-19. Hoje superou-se o patamar de 350 mil
mortos, depois de um declínio que não persistiu até o final do ano passado. Nos últimos meses
de 2020, ocorreu o colapso do sistema sanitário no Amazonas, com o surgimento de uma
mutação do vírus que o tornou mais potente (a variante P-1) e que já acarretou na região o
crescimento exponencial das mortes.

7. Desde então, epidemiologistas e autoridades sanitárias alertam para a possibilidade


de propagação do vírus mutante, com sua irradiação para outras regiões do país e amplificação
das contaminações em escala nacional. O Brasil passou a ser o epicentro da pandemia no
mundo, ostentando o índice de mais de 25% das mortes diárias no planeta, tendo apenas menos
de 3% da população mundial.

8. Assim, alcança-se o colapso nacional do sistema sanitário-hospitalar,


aproximando-se celeremente do colapso do sistema funerário, capaz de levar ao surgimento
de uma multiplicidade de infecções bacterianas, com capacidade de amplificar as mortes
geradas pelo vírus letal. Nesse sentido é a advertência do epidemiologista Miguel Nicolelis,
seguido de tantos outros, bem como das manifestações da Organização Mundial da Saúde
(OMS).

9. Medidas de isolamento tornam-se, então, imperativas, porque a vacinação avança


em ritmo bem menor que o necessário, por retardamento proposital na aquisição de vacinas e
insumos. Mesmo que sejam agora adquiridas milhões de doses, elas não chegarão em tempo
hábil para impedir o avanço do contágio e o crescimento descontrolado das mortes.

10. Foram ampliadas as restrições ao funcionamento do comércio e serviços, além


do controle de reuniões em lugares públicos, pelos governos estaduais e municipais, contra a
vontade manifesta e os atos obstrutivos do Presidente da República, embora o país esteja ainda
distante do lockdown parcial ou total, no território nacional, indicado pelos cientistas e

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ratificado pelos epidemiologistas do mundo como recomendáveis ante à dramática situação
ora enfrentada.

11. Por outro lado, cresce a resistência de uma fração da sociedade, em especial, de
pessoas que se identificam e apoiam o presidente da República, dando ensejo a manifestações
e carreatas ao longo do território, estimuladas cada vez mais pelo protagonismo do
mandatário, que convoca a “coragem” de todos os brasileiros para “enfrentar de peito aberto”
o inimigo invisível.

12. Nesse contexto, não são cogitados subsídios do Estado para cobrir os danos
impostos aos setores da sociedade afetados gravemente pela evolução trágica da pandemia.
Assim, persiste e cresce a resistência social às medidas de isolamento social e ao lockdown,
bem como crescem os sinais de que o presidente adotou uma estratégia colaboracionista com
o vírus invasor, que avança sobre nosso território.

13. A condução do governo federal, ao longo da ocupação do território nacional pelo


vírus, é análoga à do governo colaboracionista do general Pétain na ocupação da França pelos
nazistas, no curso da Segunda Guerra Mundial. A diferença é que o governo brasileiro tem,
ainda hoje, o apoio de uma fração expressiva da população, que aceita as fantasmáticas
alegações que o confronto com os vírus será vencido pela fé e pela coragem.

III - DOS PRINCIPIOS CONSTITUCIONAIS INCIDENTES.

III.1. A PONDERAÇÃO DE PRINCÍPIOS COMO MECANISMO DE SÍNTESE DA


COLISÃO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS.

14. O presidente da República tem reiterado que, havendo um (suposto) conflito entre
as medidas de defesa da vida e a continuidade das atividades econômicas, deve prevalecer o
lado da economia, sem concessões. Trata-se de um falso dilema porque alinha alternativas
reciprocamente excludentes.

15. Em lugar desse equacionamento simplista, deve-seconsiderar existir uma


tendência real à colisão no exercício de direitos fundamentais. De um lado, alinham-se
medidas necessárias à defesa dos direitos à vida e à saúde, ameaçados pelo vírus que ocupa o

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território e devasta a sociedade brasileira. Do lado oposto, conformam-se medidas de defesa
da liberdade da atividade econômica, expressa no princípio da livre empresa, associado ao
princípio da liberdade de trabalho – resistindo às descontinuidades no seu exercício.

16. Está, assim, configurada no Brasil da crise sanitária, portanto, uma tendência à
colisão no exercício de direitos fundamentais, que dimensiona universos contrapostos que não
são demarcados apenas pelas convicções formadas individualmente a partir de embates
políticos na esfera pública. É certo que muitos dos pertencentes ao conjunto dos que estão
sendo cerceados em suas atividades participam também diretamente do universo dos que têm
risco de vida (especialmente com o avanço da letalidade do vírus sobre os mais jovens), ou
mediatamente por seus ascendentes familiares. Mas parece mais provável que prevaleça nas
consciências a pertinência ao universo parcial dos que são cerceados em suas atividades, por
ser um dano real mais próximo, ficando secundarizado o risco decorrente do avanço do
inimigo invisível. E com o avanço do estado de calamidade, a demarcação continuada dos
dois campos vai escavando uma fratura na sociedade política.

17. Estando configurada no Brasil uma propensão à colisão no exercício de direitos


fundamentais, cabe uma ponderação para definir o que deve prevalecer, devendo ser
assegurado o menor dano possível ao direito que cedeu espaço ao exercício do outro. A
própria Constituição confere precedência ao direito à vida sobre todos os demais direitos
fundamentais, razão pela qual o exercício do direito à livre atividade econômica deve ceder.
Mas o direito que cede ao exercício do prevalecente, deve ser também tutelado, visando à
redução do sacrifício ao menor patamar possível, o que no caso concreto vem a indicar a
necessidade de medidas compensatórias efetivas, para que o prejuízo não se torne irreversível
e tampouco imponha gravame excessivo.

18. Se a pregação insólita e a conduta temerária do presidente da República produzem


a negação da garantia do direito à vida, e isso precisa ser objeto de restauração, convém em
paralelo adotar providências mitigatórias dos sacrifícios experimentados por uma fração
extensa da sociedade com a suspensão forçada das suas atividades econômicas, de forma
intermitente ou continuada. Esse contingente abrange mais de 4 milhões de micro, pequenos
e médios empresários, que empregam mais de 40 milhões de trabalhadores formais e
informais, além de afetar 24 milhões de micro-empreendedores, sem empregados, e outros
tantos trabalhadores autônomos, ou por conta própria.

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19. Efetivamente, o direito à vida tem precedência sobre todos os demais direitos
fundamentais. Ele foi posto neste lugar pela Declaração Universal Direitos Humanos de 1948,
que dispõe: “Artigo 3. Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança
pessoal”. E a Constituição Federal, no seu artigo 5°, proclama à frente de todos os direitos “a
inviolabilidade do direito à vida,” seguida da liberdade e da igualdade, da segurança e do
direito à propriedade.

20. A doutrina dos direitos humanos propõe uma “escala de fundamentalidade” na


tentativa de fundar uma hierarquia substancial dos direitos fundamentais, que possa ser
emancipada de uma visão unicamente formal da estrutura hierárquica do ordenamento, mesmo
que a hierarquia substancial de fundamentalidade se insira no interior de cada classe dessa
hierarquia formal. Visto que alguns princípios podem ser consagrados por normas de valor
diverso, nota-se que a hierarquia formal foi largamente modelada pela herarquia substancial.
Assim, a Constituição consagra os princípios “mais” fundamentais e a lei ocupa-se dos
princípios “menos” fundamentais. Os regulamentos referem-se a princípios de importancia
menor, e assim por diante. A primazia de sua localização do direito à vida na abertura da
Declaração Universal dos Direitos Humanos aponta no mesmo sentido.

21. Na Constituição brasileira, a principal garantia institucional do direito à vida é


instituída no seu artigo 196, que inicia a seção da saúde, no capitulo da seguridade social:

“Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido


mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco
de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às
ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.”

22. Ao dizer que a saúde é um dever do Estado, parece inegável que a norma
constitucional gera um mandato para ser cumprido pelos agentes investidos na direção das
instituições que o conformam – os três poderes à frente.

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23. Cumpre observar, por outro lado, que a Constituição no seu artigo 1º inclui entre
os fundamentos da República “os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa " atribuindo
ao trabalho e à livre iniciativa um lugar central no projeto de sociedade que ela edita. O seu
artigo 170 diz que a ordem econômica é “fundada na valorização do trabalho humano e na
livre iniciativa”. E entre os princípios que regem a atividade econômica está “a busca do
pleno emprego”, “assegurado a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica,
independentemente de autorização dos órgãos públicos”.

24. Esses direitos veiculam os valores estruturantes da ordem econômica e social.


Eles devem ser tutelados pelo Estado, no atual momento nacional, na medida em que seu
exercício cedeu ante a primazia do direito à vida. Eis aí configurado o dever jurídico do Estado
de oferecer ao trabalho e a atividade econômica um amparo efetivo através de subsídios
suficientes e medidas eficazes, no curso da calamidade pública.

25. Isso decorre diretamente da prescrição normativa da Constituição que prevê a


possibilidade de haver, em situações extraordinárias, a tendência de colisão no exercício dos
direitos fundamentais em questão, fazendo desde logo a ponderação. E mais do que isto, indica
a tutela devida aos direitos que cedem no seu exercício ante o que prevalece.

26. O ordenamento constitucional prescreve a aplicação das medidas de tutela


devidas às micro, pequenas e médias empresas, além de trabalhadores por conta própria, que
tenham as suas atividades bloqueadas parcial ou totalmente pelo Estado. O dever de tutela do
Estado decorre do enunciado normativo do artigo 5°, inciso XXV da Constiuição, que autoriza
o governo a suspender ou reduzir o exercício dos demais direitos, inclusive o do direito de
propriedade, que dá suporte ao exercício da livre empresa, condicionando à indenização do
dano causado. E essa intervenção do Estado, decorrente da função social da propriedade, é
autorizada precisamente no caso de iminente perigo público, que é gritante nesse atual
momento da vida nacional: “no caso de iminente perigo público, a autoridade competente
poderá usar de propriedade particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior se
houver dano.”

27. Parece evidente que as medidas restritivas do funcionamento normal das atividades
econômicas de extensos setores empresariais – que já vêm sendo impostas pelo Estado, em
grande escala e extensão temporal, aproximando-se da medida extrema do lockdown -

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constituem uma forma de uso da propriedade particular que dá ensejo a obrigação
compensatória de indenizar, a ser cumprida prévia ou simultaneamente com a interdição das
atividades, mediante o deferimento de medida cautelar, sob pena de tornar-se ineficaz.

28. A efetivação da tutela cautelar é realizável mediante subsídios financeiros, sob a


forma de empréstimos de liberação imediata, através dos estabelecimentos oficiais, para
posterior conversão em indenização e quitação do empréstimo. O dimensionamento do
empréstimo deferido cautelarmente encontra parâmetro no montante dos salários devidos aos
empregados, relativos aos períodos estimados de paralisação do trabalho, mais um valor
arbitrado para cobertura de despesas inadiáveis.

29. A omissão legislativa pode ser suprida pela edição de normatividade provisória, a
ser implantada pelos Poderes Executivo e Legislativo, propondo os ajustes necessários para
assegurar que os subsídios sob a forma de empréstimos sejam acessados pelos destinatários –
os titulares dos direitos fundamentais cerceados em seu exercício.

III.2. O PRINCÍPIO DA SOLIDARIEDADE PODE CONDUZIR À


SOLUÇÃO DO CONFLITO.

30. O princípio da solidariedade concorre para a superação do impasse surgido no


Brasil no curso da pandemia, reconhecida a colisão com o exercicio de direitos fundamentais,
ensejando a tutela de ambos os direitos tendencialmente colidentes com a primazia do direito
à vida. A solidariedade foi consagrada na Constiuição como um princípio fundamental da
Republica. O seu artigo 3° proclama os objetivos fundamentais da República “I - contruir
uma sociedade livre, justa e solidaria; II - garantir o desenvolvimento nacional; III -
erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV -
promover o bem de todos sem preconceitos (...) e quaisquer outras formas de discriminação”.

31. Os enunciados revelam que o princípio da solidariedade – dotado de função


estruturante – é gerador de garantias institucionais e de normas de conduta imperativas para
os agentes públicos. É o caminho para a instituição do Estado republicano e a construção de
uma sociedade justa, livre e fraterna, como anuncia o Preâmbulo, onde a Assembleia
Constituinte declara a missão que irá cumprir nossa lei fundamental. O Preâmbulo apresenta

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a reserva de valores pelos quais deve ser construída toda a dogmática constitucional, sob pena
de esvaziar-se a força normativa da ordem instituída.

32. A solidariedade pode ser expressa em pecúnia, ou através de gestos de


desprendimento ou renúncia, e é habitualmente gravosa para os solidarizantes, mas pode ainda
ser imposta à toda a a sociedade pela lei, em benefício de uma parte dela, como ocorre na
previdência social, em que todos são obrigados a dar contribuições tributárias para a
sobrevivência dos trabalhadores regulares nos períodos de incapacidade.

33. A suspensão das atividades dos agentes econômicos pode ser vista como uma
aplicação do princípio da solidariedade, gerando uma solidariedade involuntária, exigida
atualmente no Brasil por frações extensas da sociedade. É ato imposto pelo Estado em
benefício do todo social, que difere da solidariedade moral, que é sempre um gesto
espontâneo. Cumpre lembrar que o ato de solidariedade imposto a essa parte se fundamenta
na vontade geral do povo constituinte, expressa através da lei e imposta pelo Estado.

34. Está-se diante de uma solidariedade imposta a uma fração da sociedade em


benefício do todo social, por quem representa este universo maior – o Estado. O custo para
essa parte da sociedade parece ser desnecessário dimensionar, já que ele corresponde à
suspensão do trabalho, que pode importar privação imediata do alimento. E pode chegar à
perda do meio de vida. E parece certo que o dano pode se tornar irreversível.

35. Nessas condições, é incontornável o dever ético (e também jurídico) da sociedade


inteira, de subsidiar, a partir do Estado, a fração da sociedade chamada ao sacrifício. A oferta
de subsídios a uma fração da sociedade, com recursos oriundos de imposições tributárias sobre
a sociedade inteira, corresponde a uma solidariedade de sentido inverso, gravando agora todo
o universo social.

36. A solidariedade imposta pelo Estado tem, portanto, duplo sentido. Primeiro, uma
fração do universo social suporta restrição ao exercício de seus direitos em benefício da
sociedade inteira, e depois a sociedade inteira, mediada pelo Estado, subsidia, através de
imposições tributárias, a fração da sociedade chamada ao sacrifício à defesa da vida de todos.

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III.3. A PRESCRIÇÃO CONSTITUCIONAL DE CAUTELAS ANTE
CALAMIDADES PÚBLICAS.

37. No contexto da pandemia acelerada e com o cerceamento das atividades


econômicas, foi retomado o auxílio emergencial para os desempregados e informais, com sua
redução a valores ínfimos e encolhendo o universo de beneficiários. Algumas lideranças do
campo da oposição assumiram, diante disso, atitudes propositivas fundamentadas na
Constituição.

38. Flávio Dino, governador do Maranhão, defendeu a formulação de um programa


emergencial, mostrando que a Constituição torna obrigatória a tutela do Estado em caso de
calamidade pública, da mesma forma que no caso de guerra, prescrevendo os meios de
intervenção. (No art. 167, § 3º, é autorizada a abertura de crédito extraordinário para atender
a despesas imprevisíveis e urgentes, como as decorrentes de guerra, comoção interna e
calamidade publica”).

39. Ciro Gomes, ex-governador do Ceará, apontou o caminho mais célere para o
Estado buscar as receitas necessárias para cobrir operação de apoio à fração da sociedade
chamada ao sacrifício. Primeiro, o Tesouro Nacional emitiria letras no montante de 600
bilhões de reais, compradas imediatamente pelo Banco Central, que detém moeda retirada de
circulação em montante várias vezes maior. A base da proposta coincide com a do projeto
construido pelo Instituto Justiça Fiscal - IJF para a imposição tributária sobre os ricos, com
dimensionamento semelhante da arrecadação anual prevista.

40. O ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva defendeu ajudas


emergenciais de maior monta, especialmente com o alargamento imediato da base monetária
por emissão para financiar em amplo projeto de desenvolvimento com obras públicas e
privados com financiamentos subsidiados.

41. Em igual sentido, apontando para a necessidade de o Estado brasileiro instituir


políticas públicas de financiamento da atividade econômica e de preservação de empregos e
salários dos trabalhadores, também se manifestaram Guilherme Boulos, candidato à
presidente da República, em 2018, e Juliano Medeiros, presidente nacional do PSOL.

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42. O dever de intervenção do Estado, além de ser um dever ético é também um dever
jurídico, prescrito pela Constituição, contido no inciso XXV do artigo 5º: “no caso de iminente
perigo público, a autoridade competente poderá usar de propriedade particular, assegurada
ao proprietário indenização ulterior se houver dano”. O professor Ladislau Dowbor, em
artigo recente, assinala:

“O essencial é que a economia brasileira está numa crise estrutural,


com subutilização de fatores de produção, desindustrialização,
desemprego e caos financeiro, à qual se sobrepõe a crise da pandemia.
As famílias não têm como consumir, as empresas não têm como
produzir. As pequenas e médias empresas, que dependem
essencialmente do mercado interno e frequentemente do mercado local,
não precisam de “confiança” e outras narrativas: precisam de uma
população com capacidade de compra, para ter para quem vender, e
de crédito barato para ter como financiar o investimento e a produção.
No Brasil o empresário produtivo não tem uma coisa nem outra. As
empresas estão trabalhando com mais de 25% de capacidade ociosa,
quando não fecham. O dinheiro que vai para a base da sociedade
retorna, pois dinamiza a economia.
Neste sentido, o problema não está em “de onde tirar” recursos, pois
tanto podem ser do orçamento, do endividamento, da conversão das
reservas cambiais, de emissão monetária ou de uso das reservas do
BNDES e outros bancos públicos, e sim do seu direcionamento
adequado: que cheguem às famílias e às pequenas e médias empresas,
pois o dinheiro na base gera efeitos multiplicadores, conquanto não
seja com juros que mais extraem do que aportam. Fernando Haddad,
no seminário sobre propostas econômicas da Fundação Abramo
(Março 2021) afirma com razão de que “não existe desenvolvimento
sem crédito barato”, e de que “o orçamento foi capturado pelas elites”.
O crédito cujo custo é mais elevado do que o impacto produtivo gerado
trava a economia.
O país tem os recursos, tem capacidade administrativa, e pode
perfeitamente montar uma estrutura emergencial de alocação de
recursos descentralizada, transparente e participativa. O problema
não está em onde encontrar os recursos, mas em direcioná-los
adequadamente, e administrá-la com transparência.”1

43. A excepcionalidade e gravidade do momento, que exige o combate à proliferação


do vírus, têm levado a quase totalidade dos países, seguindo recomendações da comunidade
científica e da Organização Mundial da Saúde, a adotar medidas restritivas, de isolamento
social, com consequências econômicas. No entanto, a fim de não permitirem que as exigências

1
DOWBOR, L. Colocar o dinheiro onde é preciso. Disponível em:
https://direitosfundamentais.org.br/colocar-o-dinheiro-onde-e-preciso/. Acesso em 11. Abr. 2021.
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sanitárias conduzam ao caos econômico e social, mesmo países sob governos de viés
neoliberal, logo, compromissados com a austeridade fiscal, vêm incrementando audaciosos
planos de incentivo e desenvolvimento das economias. Parecem ser emblemáticos o programa
francês de recuperação econômica com a injeção de mais de 100 bilhões de euros2 e o mais
recente plano estadunidense que disporá de quase 2 trilhões de dólares3.

44. Realidades tão distantes da vivenciada no Brasil, onde o governo federal, sob o
comando de Jair Bolsonaro, nem sequer utilizou integralmente a verba destinada no orçamento
de 2020 para o combate à pandemia, deixando de alocar mais de 80 bilhões de reais, algo em
torno de 15% da quantia aprovada pelo Congresso Nacional para tal finalidade4.

45. Desse valor quase 29 bilhões referem-se ao auxílio emergencial que poderiam ter
alcançado 16 milhões de pessoas a mais do que as benefeciadas pelo programa. Dinheiro que
– por ficar retido – não serviu ao propósito de permitir a manutenção de condições mínimas
de subsistência de um percentual expressivo da população. São recursos que não circularam
na economia deixando de alavancar o desenvolvimento econômico.

46. Além disso, os 50 bilhões restantes poderiam ter sido destinados a programas de
linhas de crédito de bancos públicos às micro e pequenas empresas, em especial de setores
econômicos mais atingidos pela pandemia.

47. A omissão e o descaso do governo federal são graves. 48. Na proibição ou


suspensão parcial de atividades funcionais das empresas, há uma restrição ao exercício do
direito de propriedade, todavia autorizada pelo art. 5º, inciso XXIII, que vincula o exercício
desse direito ao atendimento de uma função social.

48. A consagração da responsabilidade do Estado indica que ele deve também


oferecer apoio financeiro às empresas para prevenção ou compensação do dano iminente, o
que só poderá ser feito no bojo de uma regulação nacional do combate à pandemia, de forma
centralizada, nas suas normas mais gerais a serem expedidas pelo Poder Executivo da União.

2
https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2020/09/03/franca-plano-de--100-bilhoes-para-reanimar-
economia-leva-em-conta-a-ecologia.htm. Acesso em 11. Abr. 2021.
3
https://oglobo.globo.com/mundo/e-grande-ousado-nos-podemos-faze-lo-biden-apresenta-plano-
economico-colossal-24950460. Acesso em 11. Abr. 2021.
4
https://brasil.elpais.com/brasil/2021-04-07/governo-deixou-de-gastar-807-bilhoes-de-reais-destinados-a-
pandemia-em-2020-diz-estudo.html. Acesso em 11. Abr. 2021.
12
IV - DO CABIMENTO E DOS FUNDAMENTOS CONSTITUCIONAIS E LEGAIS
DESTA AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE POR OMISSÃO.

49. A norma inscrita no § 2º do art. 103 da Constituição, instituindo a Ação Direta


de Inconstitucionalidade por Omissão cria mais do que um meio de defesa da integridade da
Constituição, pois ela é o instrumento de defesa mais avançado para assegurar a sua
efetividade. Essa modalidade de ação defere a sua aplicação ao Supremo Tribunal Federal,
que é o guardião da Constituição e, por isto mesmo, o guardião da soberania popular, que se
manifesta no momento constituinte. Dispõe esta norma:“§2º Declarada a
inconstitucionalidade por omissão de medida para tornar efetiva norma constitucional, será
dada ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias e, em se
tratando de órgão administrativo, para fazê-lo em trinta dias.”

50. Segundo o artigo 12-B da Lei Nº 9.868/1999, que disciplina a Ação Direta de
Inconstitucionalidade, a petição indicará: “I - a omissão inconstitucional total ou parcial
quanto ao cumprimento de dever constitucional de legislar ou quanto à adoção de
providência de índole administrativa; II - o pedido, com suas especificações.”

51. A primeira omissão inconstitucional do presidente da República se evidencia na


conduta assumida praticamente – e nos discursos reiterados – de resistência e de oposição aos
procedimentos prescritos em defesa da saúde e da vida dos brasileiros. E além disso, inúmeras
iniciativas de menosprezo à gravidade da pandemia e de boicote ou retardamento de
providências imprescindíveis e urgentes para a atenuação de seus efeitos.

52. Ao dizer que a saúde é um dever do Estado, parece inegável que a norma edita
um comando a ser cumprido, por iniciativa dos agentes investidos na direção das instituições
que o conformam – os três poderes – e, à frente destes, o Poder Executivo.

53. As políticas sociais que visem à redução do risco de doença, no contexto da


calamidade pública iniciada há um ano e agravada exponencialmente agora, seriam as medidas
de isolamento social e quarentena, mais a medida extrema do lockdown, as quais caberia ao
Chefe do Poder Executivo promover e coordenar nacionalmente.

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54. A segunda omissão se manifesta na recusa e resistência notória à aplicação das
medidas de tutela devidas às micro, pequenas e médias empresas, além de trabalhadores por
conta própria, que têm as suas atividades bloqueadas parcial ou totalmente pelo Estado. O
dever de tutela do Estado decorre do enunciado normativo do artigo 5°, inciso XXV da
Constiuição: “XXV- no caso de iminente perigo público, a autoridade competente poderá usar
de propriedade particular, assegurada ao proprietário indenização ulterior se houver dano”.

55. A decisão na Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão, ora proposta, é


regulada pela lei nas disposições seguintes, impondo-se, frente à catástrofe ou como uma
interpretação ampliativa dos seus enunciados normativos:

“Art. 12-H. Declarada a inconstitucionalidade por omissão, com observância do


disposto no art. 22, será dada ciência ao Poder competente para a adoção das
providências necessárias
1o Em caso de omissão imputável a órgão administrativo, as providências deverão
ser adotadas no prazo de 30 (trinta) dias, ou em prazo razoável a ser estipulado
excepcionalmente pelo Tribunal, tendo em vista as circunstâncias específicas do
caso e o interesse público envolvido.
§ 2o Aplica-se à decisão da ação direta de inconstitucionalidade por omissão, no
que couber, o disposto no Capítulo IV desta Lei.”

56. Os enunciados normativos não limitam os efeitos da sentença de procedência ao


efeito declaratório que se esgotaria com uma simples comunicação. Ao contrário, são
compatíveis com uma decisão com efeitos mandamentais que assegurem o suprimento efetivo
das omissões, restaurando integralmente o cumprimento da Constituição. Se assim não fosse
entendido, a prestação jurisdicional estaria condenada à ineficácia, o que impõe a adoção de
uma interpretação ampliativa do texto normativo. Caso se entenda impossível a emissão de
efeito mandamental solicita-se, em caráter subsidiário, efeito declaratório que colocará desde
logo a União em mora.

57. A vinculação do presidente da República à Constituição não é definida apenas


pelo respeito de mantê-la e defendê-la, o que poderia ser entendido como um compromisso de
não a ofender e de não permitir a ofensa. Vai além disto, eis que assume expressamente o
dever de cumpri-la, o que corresponde inquestionavelmente a fazer o que ela determina. Vale
dizer, a representação política institui o governo das leis sobre os homens e não o inverso.

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58. A primeira premissa para fixar o alcance das normas jurídicas reguladoras das
ações constitucionais decorre da força interpretativa dos princípios, o primeiro deles o
princípio da supremacia da Constituição, que se expressa diretamente no enunciado do seu
artigo 78, observado no ato litúrgico da investidura do presidente da República no cargo. Ele
deve “prestar o compromisso de manter, defender e cumprir a Constituição, além de observar
as leis, promover o bem geral do povo brasileiro e sustentar a reunião a integridade e a
Independência do Brasil, o que traduz representação política, com objetivos determinados,
além de serem fixados os contornos, a extensão e limites do mandato pelo próprio
ordenamento constitucional.

59. Daí resulta que as omissões no cumprimento dos mandamentos constitucionais,


extensamente enunciados no seu corpo, contrariam seu compromisso de cumprir a
Constituição, desafiando a sua supremacia. Aliás, o sentido de desafio à supremacia da
Constituição se manifesta reiteradamente na retórica do Chefe do Poder Executivo, que adota
habitualmente a forma de bravata e uma tonalidade triunfalista.

60. O modelo de Estado social, principalmente, assim como a destinação dele e os


valores que devem ser realizados através da sua instituição, não foram concebidos livremente
pelos constituintes. Eles se identificam como meros representantes e trataram de buscar as
instruções emitidas pelo mandante, o povo soberano, recolhidas do processo político que os
elegeu. A Lei Maior não confere “poderes” aos dirigentes das instituições do Estado, mas os
empoderam com competências.

V – DOS ATOS ADMINISTRATIVOS E DOS ATOS DE GOVERNO


OMITIDOS E DO PEDIDO DE PROVIMENTO JURISDICIONAL.

61. O agravamento voluntário da crise parece uma estratégia de movimento


protofascista para levar ao colapso da economia e ao caos social, ensejando a seguir o colapso
do sistema jurídico. Ao mesmo tempo em que ostenta uma olímpica indifereça ao crescimento
exponencial das mortes, o governo anuncia uma renovada ofensiva contra os imperativos
constitucionais da defesa da vida e da saúde, expressos no seu artigo 196.

62. Por outro lado, o presidente da República tem repetido que o colapso da economia
poderia levar ao caos social – o que diz ser evitável unicamente cortando todas as medidas

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restritivas da atividade econômica – acenando irresponsavelmente com a hipótese de uma
intervenção militar.

63. A ação direta de inconstitucionalidade por omissão concebida pelo direito para
tornar efetiva a supremacia da Constituição – vencendo a pretensão eventual dos dirigentes de
“restabelecer o governo dos homens sobre o governo das leis” – foi recepcionada com
amplitude pelo Brasil, eis que abrange, além de imposição do cumprimento da obrigação de
legislar, também a “adoção de providência de índole administrativa” (art. 12-B da Lei nº
9.868/1999).

64. A legitimação para a propositura da ação é regulada pelo artigo 12-A, que
qualifica os mesmos sujeitos credenciados para propor a ação direta de inconstitucionalidade
por ação, entre eles os autores: “Art. 12-A. Podem propor a ação direta de
inconstitucionalidade por omissão os legitimados à propositura da ação direta de
inconstitucionalidade e da ação declaratória de constitucionalidade”.

VI - DA MEDIDA CAUTELAR.

65. A lei prevê o deferimento de medida cautelar em caso de excepcional urgência,


que é notório no contexto da calamidade pública e do colaboracionismo explicitamente
assumido pelo Presidente da República para o avanço exponencial da contaminação e da
letalidade em escala social. O cabimento da medida, o seu processamento e a sua execução
são estabelecidos nos enunciados normativos seguintes:

“Art. 12-F. Em caso de excepcional urgência e relevância da matéria, o Tribunal,


por decisão da maioria absoluta de seus membros, observado o disposto no art. 22,
poderá conceder medida cautelar, após a audiência dos órgãos ou autoridades
responsáveis pela omissão inconstitucional, que deverão pronunciar-se no prazo de
5 (cinco) dias.
§ 1o A medida cautelar poderá consistir na suspensão da aplicação da lei ou do ato
normativo questionado, no caso de omissão parcial, bem como na suspensão de
processos judiciais ou de procedimentos administrativos, ou ainda em outra
providência a ser fixada pelo Tribunal.”
§ 2o O relator, julgando indispensável, ouvirá o Procurador-Geral da República,
no prazo de 3 (três) dias.

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§ 3o No julgamento do pedido de medida cautelar, será facultada sustentação oral
aos representantes judiciais do requerente e das autoridades ou órgãos
responsáveis pela omissão inconstitucional, na forma estabelecida no Regimento
do Tribunal.

Art.12-G. Concedida a medida cautelar, o Supremo Tribunal Federal fará


publicar, em seção especial do Diário Oficial da União e do Diário da Justiça da
União, a parte dispositiva da decisão no prazo de 10 (dez) dias, devendo solicitar
as informações à autoridade ou ao órgão responsável pela omissão
inconstitucional, observando-se, no que couber, o procedimento estabelecido na
Seção I do Capítulo II desta Lei.”

66. Neste caso, é evidente a “excepcional urgência” e a relevância da matéria, uma


vez que se trata do imperativo de estancar o morticínio e livrar o país da catástrofe. Nessas
circunstâncias, impõe-se o deferimento de medida cautelar que, observados os trâmites
necessários, determine ao presidente da República que edite, ato instituindo uma Comissão
autônoma de coordenação das medidas de contenção superação da pandemia – editando
normas regulamentares para os procedimentos necessários, prevendo inclusive a possibilidade
de adoção da medida extrema de um lockdown nacional.

67. A determinação para a instituição da Comissão para gestão da crise deve adiantar
a composição mínima, o número as fontes de indicação, incluindo representantes da União,
dos governos dos Estados e da comunidade cientifica, representando a participação social.

68. A promoção de medidas econômicas voltadas a subsidiar os agentes econômicos


afetados pelas restrições de suas atividades, de modo a compensá-los mediante o
dimensionamento dos valores necessários para suportarem as limitações temporárias impostas
aos seus negócios.

VII – DOS PEDIDOS.

69. Ante o exposto, requerem os partidos políticos autores:

a) com fulcro no artigo 12-F, caput e § 1º, da Lei nº 9.868/99, o deferimento de


medida cautelar para, imediatamente:

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a.1) determinar ao presidente da República que edite, no menor prazo possível, ato
regulamentar instituindo a comissão descrita, dotada de autonomia e prevendo expressamente
a sua competência para adotar todas medidas de contenção e isolamento social, até o
extremo de um lockdown nacional, pertinentes à sua missão institucional, composta por
representantes da União, dos governos dos Estados e da comunidade científica, conferindo-
lhe ainda competência para recomendar iniciativas legislativas visando à promoção de
medidas econômicas voltadas a subsidiar os agentes econômicos, dimensionando os valores
necessários para possam suportar as restrições temporárias já impostas à suas atividades e as
que vierem a ser decretadas;
a.2) Subdiariamente ao pedido anterior, requer-se seja determinado ao presidente da
República que dentro de 30 dias defina – dentro da sua competência regulamentar – um plano
de subsídio aos agentes econômicos, especialmente, micro, pequenas e médias empresas e
empreendedores autônomos para, se necessário, enfrentarem o período de “lockdown” sem o
prejuízo da sua sobrevivência, com a capacidade mínima de adimplir regulamente a sua folha
de pagamento no péríodo em tela e custear as necessidades imediatas;
a.3) findo o prazo deferido em caráter cautelar e não sendo atendida a determinação,
seja, em caráter excepcional, editada pelo Tribunal a normatividade necessária, instaurando a
aludida comissão;
b) a notificação do presidente da República, para que se manifeste sobre a presente
ação, no prazo legal;
c) a notificação do Excelentíssimo Senhor advogado-geral da União, para se
manifestar sobre o mérito da presente ação, no prazo de 15 (quinze) dias, nos termos do art.
12-E, § 2º, da Lei nº 9.868/99;
d) a notificação do Excelentíssimo Senhor procurador-geral da República, para que
emita o seu parecer, nos termos do art. 12-E, § 3º, da Lei nº 9.868/99;
e) a procedência do pedido de mérito, para que seja declarada a mora legislativa do
presidente da República na adoção das medidas sanitárias e econômicas necessárias à efetiva
contenção da Pandemia de COVID-19 que se irradia por todo o território nacional, em
evidente afronta aos termos dos artigos 1º, III, art. 5º, caput, art. 6º, art. 37, caput, 170, III, VI,
IX, e art. 196;
f) por fim, e caso não deferida a medida cautelar, o estabelecimento/determinação
dessa Eg. Corte de prazo a se fixado, contado da data de julgamento da presente ação, para
que o presidente adote as providências referidas no item “a” supra (determinar ao Presidente
da República que edite, no menor prazo possível, ato regulamentar instituindo a comissão

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descrita, dotada de autonomia e prevendo expressamente a sua competência para adotar
todas medidas de contenção e isolamento social, até o extremo de um lockdown nacional,
pertinentes a sua missão institucional, composta por representantes da União, dos governos
dos Estados e da comunidade científica, conferindo-lhe ainda competência para recomendar
iniciativas legislativas visando à promoção de medidas econômicas voltadas a subsidiar os
agentes econômicos, dimensionando os valores necessários para possam suportar as
restrições temporárias já impostas à suas atividades e as que vierem a ser decretadas), findo
o qual, não sendo atendida a determinação, seja, em caráter excepcional, editada a
normatividade necessária, instituindo e instaurando a respectiva comissão.

70. Deixa-se de atribuir valor à causa, em face da impossibilidade de aferi-lo.

71. Os advogados subscritores declaram a plena autenticidade dos documentos que


acompanham a presente petição. Por fim, requerem que as publicações se deem em nome de
MAURO DE AZEVEDO MENEZES, OAB/DF 19.241, NASSER AHMAD ALLAN,
OAB/PR 28.820, nos termos do artigo 272, §§ 2º 5º, do Código de Processo Civil, sob pena
de nulidade.

Nesses termos, pede deferimento.

Brasília, 16 de abril de 2021.

TARSO FERNANDO HERZ GENRO ROGÉRIO VIOLA COELHO


OAB/RS nº 5.627 OAB/RS nº 4.655
MAURO DE AZEVEDO Assinado de forma digital por
MAURO DE AZEVEDO MENEZES
MENEZES Dados: 2021.04.16 20:57:46 -03'00'
MAURO DE AZEVEDO MENEZES NASSER AHMAD ALLAN NASSER Assinado de forma digital por
NASSER AHMAD

AHMAD
ALLAN:90933044968
DN: c=BR, o=ICP-Brasil,
ou=Secretaria da Receita Federal

ALLAN:909
do Brasil - RFB, ou=RFB e-CPF A1,

OAB/DF nº 19.241 OAB/PR nº 28.820 ou=(EM BRANCO),


ou=03558029000181, cn=NASSER

33044968
AHMAD ALLAN:90933044968
Dados: 2021.04.16 20:42:51 -03'00'

PAULO MACHADO GUIMARÃES ANDRÉ BRANDÃO HENRIQUES MAIMONI


OAB/DF 5.358 OAB/DF nº 29.498
Assinado de forma digital por RENATA ALVARENGA FLEURY FERRACINA
DN: c=BR, o=ICP-Brasil, ou=Autenticado por AR CERTISIGN OAB, ou=Assinatura Tipo A3,
ou=ADVOGADO, cn=RENATA ALVARENGA FLEURY FERRACINA
OAB/
DF24.
038 Dados: 2021.04.16 20:59:18 -03'00'

RENATA ALVARENGA FLEURY FERRACINA


OAB/DF nº 24.038

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