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O Capital ­ Crítica da Economia Política

Estrutura:

vol I ­ O processo de produção do Capital

vol.II ­ O processo de circulação do Capital

vol. III ­ O processo global da produção capitalista

Estrutura do volume I:

Seção 1 ­ Mercadoria e dinheiro

Seção 2 ­ A transformação do dinheiro em capital

Seção 3 ­ A produção de mais­valia absoluta

Seção 4 ­ A produção de mais­valia relativa

Seção 5 ­ A produção de mais­valia absoluta e relativa

Seção 6 ­ O salário

Seção 7 ­ O processo de acumulação de capital
   
Estrutura do capítulo I:  Mercadoria

1. Os dois fatores da mercadoria: valor de uso e 
valor (substância do valor e grandeza do 
valor)
2. Duplo caráter do trabalho representado nas 
mercadorias
3. A forma de valor ou o valor de troca
4. O caráter fetichista da mercadoria e seu 
segredo

   
A MERCADORIA

 O ponto de partida da investigação de Marx é a análise da 
mercadoria, pois

“A riqueza das sociedades em que domina o modo de 
produção capitalista aparece como uma 'imensa coleção de 
mercadorias', e a mercadoria individual como sua forma 
elementar”;


 A mercadoria antes de tudo é um objeto externo, uma coisa, que 
satisfaz as necessidades humanas de qualquer espécie, sejam 
originadas do estômago ou da fantasia;

 Os valores de uso, o valor e o valor de troca são características 
dessa coisa chamada mercadoria.
   
VALOR DE USO
 A utilidade de uma coisa transforma essa coisa num valor­de­uso;
 Mas esta utilidade, sendo determinada pelas propriedades do corpo da 
mercadoria, não existe sem ela;
 O próprio corpo da mercadoria, tal como o ferro, o trigo, o diamante, 
etc., é, portanto, um valor­de­uso ou um bem;
 Os valores de uso constituem o conteúdo material da riqueza, 
qualquer que seja a forma social desta;
 Na sociedade capitalista, os valores de uso são também os portadores 
materiais do valor de troca. Pode­se dizer que a mercadoria, em 
princípio, tem um duplo caráter, valor de uso x valor de troca.

   
VALOR DE TROCA

O valor­de­troca aparece como a relação quantitativa, a 
proporção em que valores­de­uso de espécie diferente se 
trocam entre si, relação que varia constantemente com o 
tempo e o lugar;

O valor de troca parece algo intrínseco à mercadoria.

Por exemplo: quando trocamos 1 alqueire de trigo por x de 
graxa de sapato, y de seda ou z de ouro vê­se que o trigo 
possui múltiplos valores de troca;

Uma vez que cada uma dessas coisas ­ x de graxa, y de 
seda, z de ouro ­ é o valor­de­troca de 1 alqueire de trigo, 
elas têm de ser ­ por sua vez ­ valores­de­troca 
permutáveis entre si ou iguais entre si.
   
VALOR DE TROCA
 Daqui resultam duas coisas: 
− em primeiro lugar, os valores­de­troca válidos para uma mesma 
mercadoria exprimem algo em comum;             

1 quarter de trigo = a quintais de ferro

− em segundo lugar, porém, o valor­de­troca tem de ter um 
conteúdo distinto dessas diversas expressões.   
 Algo em comum da mesma grandeza existe em duas 
coisas qualitativamente diferentes. O que é? (Aristóteles)

   
VALOR
 Para encontrar o que há de comum nas mercadorias enquanto 
valores de troca, temos de deixar de lado seus valores de uso, e 
com eles suas propriedades naturais (geométrica, física, química);

 Como valores de uso as mercadorias são de diferente qualidade, 
como valores de troca só podem ser de quantidade diferente, não 
contendo portanto nenhum átomo de valor de uso;

 O que as iguala portanto não são seus valores de uso e sim a 
propriedade de serem produtos do trabalho;

 A sociedade, para trocar, reduz a totalidade das mercadorias a igual 
trabalho humano, trabalho humano abstrato.

   
VALOR
 O que resta aos produtos do trabalho, quando são 
trocados, é uma objetividade fantasmagórica, gelatina 
de trabalho humano indiferenciado, dispêncido de força de 
trabalho humano sem consideração pela forma como foi 
despendida; 

 O que essas coisas ainda representam é apenas que em 
sua produção foi despendida força de trabalho humano, 
foi acumulado trabalho humano. Como cristalizações 
dessa substância social comum a todas elas, são elas 
valores – valores mercantis.

   
VALOR

A sociedade abstrai realmente os valores de 
uso dos produtos do trabalho, obtendo seu 
valor total.


O seu valor é, portanto, o que há de comum, 
que se revela na relação de troca ou valor de 
troca da mercadoria;


O valor de troca, portanto, é a forma de 
manifestação do valor.
   
VALOR

Como medir então a grandeza do valor das 
mercadorias?

Por meio do quantum nele contido, da 
substância constituidora do valor, o trabalho;

A própria quantidade de trabalho é medida pelo 
seu tempo de duração, o e tempo de trabalho 
possui, por sua vez, sua unidade de medida 
nas determinações das frações do tempo, 
como hora, dia, mês, etc.

   
VALOR

O trabalho, entretanto, o qual constitui a substância dos 
valores, é trabalho humano igual, dispêndio da mesma 
força de trabalho do homem;

O tempo de trabalho socialmente necessário para 
produzir um valor de uso é que determina a grandeza de 
seu valor;


Obs: tempo de trabalho socialmente necessário é aquele requerido 
para produzir um valor de uso qualquer, nas condições dadas de 
produção socialmente normais, e com o grau social médio  de 
habilidade e intensidade do trabalho.

   
Para ficar claro!

Uma coisa pode ser valor de uso sem ser valor, é o 
caso quando sua utilidade para o homem não é 
mediada por trabalho, ex: ar, solo virgem;

Uma coisa pode ser útil e produto do trabalho humano 
sem ser mercadoria. Para produzir mercadoria, não é 
suficiente produzir apenas valor de uso, mas valor de 
uso para outros (social) e é preciso transferí­lo por 
meio da troca (feudalismo x capitalismo);

Finalmente, nenhuma coisa pode ser valor , sem ser 
objeto de uso. Sendo inútil, do mesmo modo é inútil o 
trabalho contido nela, não conta como trabalho e não 
constitui qualquer valor.
   
A MERCADORIA

É um objeto, serviço, coisa, útil;


Produzido pelo trabalho humano;


Não destinado ao consumo de seu próprio 
produtor;


Destinado à venda.

   
A MERCADORIA seção I
Em resumo:
a) a mercadoria é valor de uso e valor; 
b) o valor de troca é a forma do valor;
c) o trabalho abstrato é a substância do valor;
d) o trabalho abstrato é o contrário e a negação do trabalho 
concreto; 
e) o valor é o contrário e a negação do valor de uso;
f) mercadoria é, portanto, uma unidade de contrários

Podemos dizer, com alguma provocação, que a mercadoria é valor de uso 
que não é valor de uso, uma coisa esquizofrênica.
   
O DUPLO CARÁTER DO TRABALHO
Em resumo: A mercadoria é uma coisa dúplice: valor de uso portador de valor. 
O trabalho que produz mercadoria é também algo dúplice: trabalho concreto 
que conta como trabalho abstrato.

[A] totalidade dos vários tipos de valores de uso... [reflete] uma divisão social 
do trabalho... Ela é condição de existência da produção de mercadorias, 
embora, inversamente, a produção de mercadorias não seja condição de 
existência da divisão social do trabalho” (Ex: hindus ou fábrica)

Ademais, "numa sociedade cujos produtos assumem, genericamente, a forma 
mercadoria... desenvolve­se essa diferença qualitativa dos trabalhos úteis, 
executados independente uns dos outros, como negócios privados 
autônomos, num sistema complexo, numa divisão social do trabalho".
   
TRABALHO ÚTIL
"Como trabalho útil, o trabalho é uma condição da 
existência do homem, independentemente de todas as 
formas de sociedade, eterna necessidade natural de 
mediação do metabolismo entre o homem e a 
natureza e, portanto, da vida humana".

"O trabalho não é a única fonte dos valores de uso, da 
riqueza material. Dela o trabalho é o pai... e a 
natureza é a mãe".

   
TRABALHO ABSTRATO
Para Marx, ao contrário, o trabalho é a única fonte do valor­mercadoria. E é 
assim na sociedade produtora de mercadoria. Nela, o trabalho assume várias 
formas: trabalho de carpinteiro, trabalho de alfaiate, trabalho de professor, 
etc.
"Abstraindo­se... do caráter útil do trabalho, resta apenas que ele é um 
dispêndio de força humana de trabalho... dispêndio produtivo de cérebro, 
músculos, nervos, mãos, etc. humanos." O trabalho enquanto algo 
fisiológico é, pois, a base do trabalho abstrato. Mas a abstração precisa ainda 
ser feita [...] 
Para Marx o trabalho mais complexo vale (ou pode ser reduzido) apenas a 
muitos trabalhos simples. A experiência ou a sociedade que reduz 
objetivamente essa relação. “As diferentes proporções, nas quais as 
diferentes espécies de trabalho são reduzidas [a redução é a operação de 
abstração objetiva] [...]  são fixadas por meio do processo social por trás 
das costas dos produtores e lhes parecem, portanto, ser dadas pela 
  tradição".  
TRABALHO ABSTRATO
Entretanto, essas diferentes proporções mudam no tempo conforme aumenta a força 
produtiva do trabalho necessária para gerar cada espécie de mercadoria.

[...] à crescente massa de riqueza pode corresponder um decréscimo simultâneo da 
grandeza de valor. Esse movimento contraditório origina­se do duplo caráter do 
trabalho. Força produtiva é sempre, naturalmente, força produtiva de trabalho 
útil concreto. Ela determina o grau de eficácia de uma atividade produtiva. ... Ao 
contrário, uma mudança da força produtiva não afeta ... de modo algum o 
trabalho representado no valor.

Ou seja, uma hora de trabalho concreto, útil, produz 1 panela, 2 panelas, 3 panelas 
etc. conforme passa o tempo. Entretanto, um hora de trabalho abstrato gera 
sempre o mesmo VALOR.

   
A FORMA VALOR OU VALOR DE TROCA

Vimos que as mercadorias "são só mercadorias ... devido à sua 
duplicidade, objetos de uso e simultaneamente portadores de 
valor. [...] Possuem a forma de mercadoria apenas na medida em 
que possuem forma dupla, forma natural e forma de valor"


A objetividade da forma natural é "palpável e rude".

A objetividade do valor é, contrariamente, imperceptível pelos 
sentidos.

"Podemos virar e revirar uma mercadoria, como queiramos, como 
coisa de valor ela permanece imperceptível".

   
A FORMA VALOR OU VALOR DE TROCA

" [...] as mercadorias apenas possuem objetividade de valor na medida em que elas sejam 
expressões da mesma unidade social de trabalho humano, pois sua objetividade de 
valor é puramente social [...]"

E mais: "[...] é evidente que [essa objetividade] só pode aparecer numa relação social de 
mercadoria para mercadoria".

   Notem que Marx fala de uma relação social entre coisas. Mas relação social não é 
sempre travada entre pessoas? Há um mistério aqui e ele é também objetivo. Mas, 
não nos adiantemos. Para esclarecê­lo, é preciso primeiro chegar a forma dinheiro.
 
"Toda pessoa sabe que... as mercadorias possuem um forma comum de valor − a forma 
dinheiro. [...] Aqui cabe  [...]  realizar [...] a gênese da forma dinheiro".

   
FORMA SIMPLES DO VALOR
A. Forma simples, singular ou acidental do valor

x mercadoria A = y  mercadoria B
20 varas de linho = 1 casaco

Observação importante: a) a derivação genética que se segue é lógica e 
não histórica; b) a expressão acima tem uma direção de leitura: da 
esquerda para a direita   (ou seja, é lida do ponto de vista do dono de 
A). 

   
FORMA SIMPLES DO VALOR
1) Os dois pólos da expressão de valor 

Na expressão, "duas mercadorias diferentes, linho e casaco, [...] representam dois papéis 
distintos. O linho expressa seu valor no casaco, o casaco serve de material para essa 
expressão de valor."

"A primeira mercadoria representa um papel ativo, a segunda um papel passivo. O valor da 
primeira mercadoria é apresentado como valor relativo [...] A segunda mercadoria 
funciona como equivalente ou encontra­se em forma equivalente"

O valor do LINHO é tornado EXPLÍCITO por meio da relação do linho com o casaco. Essa 
explicitação se dá por meio da forma relativa do valor do linho. Ora, para que isto seja 
possível, o valor do LINHO precisa encontrar uma forma equivalente, ou seja, o casaco. 
Assim, o valor do CASACO permanece IMPLÍCITO. 

   
FORMA SIMPLES DO VALOR
"Forma relativa de valor e forma equivalente pertencem uma à outra, se 
determinam reciprocamente, são momentos inseparáveis, porém, ao 
mesmo tempo, são extremos que se excluem mutuamente ou se opõem, 
isto é, pólos da mesma expressão de valor. [...] Eu não posso, por 
exemplo, expressar o valor do linho em linho. 20 varas de linho = 20 
varas de linho não é nenhuma expressão de valor. [...] O valor do 
linho pode assim ser expresso apenas relativamente, isto é, por meio 
de outra mercadoria. A forma relativa de valor do linho supõe, 
portanto, que alguma outra mercadoria a ela se oponha na forma 
equivalente. Por outro lado, essa outra mercadoria, que figura como 
equivalente, não pode ao mesmo tempo encontrar­se em forma relativa 
de valor. Não é ela que expressa seu valor. Ela fornece apenas o 
material à expressão do valor de outra mercadoria".

   
FORMA SIMPLES DO VALOR
2) A forma relativa de valor
a) Conteúdo da forma relativa de valor

Note que, aqui, Marx vai redescobrir o VALOR e o TRABALHO ABSTRATO na 
relação de troca entre duas mercadorias.

"Para descobrir como a expressão simples de valor de uma mercadoria se esconde na 
relação de valor entre duas mercadorias deve­se considerar a relação, de início, 
totalmente independente de seu lado quantitativo", ou seja, apenas qualitativamente.

"Linho = casaco é o fundamento da equação".  Como?  Diferentemente do que faz a 
teoria neoclássica do século XX, aqui é preciso se espantar....

   
FORMA SIMPLES DO VALOR
"Ao equiparar­se, por exemplo, o casaco, como coisa de valor, ao linho, é 
equiparado o trabalho inserido no primeiro com o trabalho contido neste 
último. Na verdade, a alfaiataria que faz o casaco é uma espécie de 
trabalho concreto diferente da tecelagem que faz o linho. Porém, a 
equiparação com [o trabalho de]  tecelagem reduz [o trabalho de] 
alfaiataria realmente àquilo em que ambos são iguais, a seu caráter comum 
de trabalho humano. Indiretamente é então dito que também [o trabalho 
de] tecelagem, contanto que teça valor, não possui  nenhuma característica 
que [o] diferencie [do trabalho de] alfaiataria, e é, portanto, trabalho 
humano abstrato. Somente a expressão de equivalência de diferentes 
espécies de mercadoria revela o caráter específico do trabalho gerador de 
valor, ao reduzir, de fato, os diversos trabalhos contidos nas mercadorias 
diferentes a algo comum neles, ao trabalho humano em geral". 

   
FORMA SIMPLES DO VALOR
"Na relação de valor, na qual o casaco constitui o equivalente do linho, vale, 
portanto, a forma de casaco como forma de valor. O valor da mercadoria 
linho é assim expresso no corpo da mercadoria casaco, valor de uma 
mercadoria no valor de uso da outra. Como valor de uso é o linho uma coisa 
fisicamente diferente do casaco, como valor é algo igual ao casaco e parece, 
portanto, como um casaco. Assim, o linho recebe uma forma de valor 
diferente de sua forma natural".

"Vê­se, tudo que nos disse antes a análise do valor das mercadorias, diz­nos o 
linho logo que entre em relação com outra mercadoria, o casaco. Só que ele 
revela o seu pensamento em sua linguagem exclusiva, a linguagem das 
mercadorias".

   
FORMA SIMPLES DO VALOR
b) Determinação quantitativa da forma de valor relativa

"A forma de valor tem de expressar não só o valor em geral, mas 
também valor determinado quantitativamente, ou grande de valor"

"A equação "20 varas de linho = 1 casado" [...] pressupõe que 1 
casaco contém tanta substância de valor quanto 20 varas de linho, 
que ambas as quantidades de mercadorias custam assim o mesmo 
trabalho ou igual quantidade de tempo de trabalho".

"O tempo de trabalho necessário para a produção de 20 varas de linho 
ou 1 casaco muda [...] conforme altera­se a força produtiva do 
trabalho de tecelagem ou de alfaiataria"
   
FORMA SIMPLES DO VALOR
3) A forma equivalente

Aqui se analisa as peculiaridades da mercadoria casaco como corpo de valor.

"Tão logo, porém, a espécie de mercadoria casaco assume na expressão de 
valor o lugar de equivalente, sua grandeza de valor não adquire nenhuma 
expressão como grandeza de valor. Ela figura na equação muito mais apenas 
como determinado quantum de uma coisa"

"Por exemplo: 40 varas de linho "valem" ­ o que? 2 casacos. Como a espécie 
de mercadoria casaco desempenha aqui o papel de equivalente, ... basta 
também determinado quantum de casacos para expressar determinado 
quantum de valor de linho". 

   
FORMA SIMPLES DO VALOR
1ª peculiaridade: "o valor de uso torna­se forma de manifestação de seu contrário, o 
valor"
Note­se que a forma natural da mercadoria "casaco" torna­se forma de valor, ou seja, 
forma do valor do linho. O mesmo ocorre em "um saco de carvão = 60 cilindros de 
platina", cilindro esse que foi chamado de quilo; "um saco de carvão pesa 60 quilos". 
Aqui a figura geométrica cilindro expressa peso, algo que nada tem de geométrico. 
Peso, como sabemos, é nome comum da ação da gravidade.
"Aqui termina, entretanto, a analogia. [A platina representa na expressão de peso do saco 
de carvão uma propriedade natural comum a ambos os corpos], [...] enquanto que o 
casaco representa na expressão de valor do linho uma propriedade sobrenatural a 
ambas as coisas: seu valor, algo puramente social". 
"[...] a forma relativa [...] indica que nela se oculta uma relação social. Com a forma 
equivalente se dá o contrário [...] parece que o casaco possui, por natureza, sua forma 
equivalente, sua propriedade de ser diretamente trocável... Daí o enigmático da forma 
equivalente... quando essa se apresenta já pronta, sob a forma de dinheiro" 

   
FORMA SIMPLES DO VALOR
2ª peculiaridade: "o trabalho concreto se converte na forma de manifestação de seu 
contrário, trabalho humano abstrato". 

"O corpo da mercadoria que serve de equivalente figura sempre como corporificação do 
trabalho humano abstrato e é sempre o produto de determinado trabalho concreto, útil. 
Esse trabalho concreto torna­se portanto expressão de trabalho humano abstrato".

3ª peculiaridade: "o trabalho privado se converte na forma de seu contrário, trabalho em 
forma diretamente social.

Os trabalhos concretos que produzem linho, casaco etc. são trabalhos privados. O trabalho de 
alfaiataria, entretanto, funciona aí como mera expressão de trabalho humano indiferenciado, 
trabalho em forma diretamente social. "Por isso mesmo, apresenta­se ele num produto que é 
diretamente trocável por outra mercadoria". 

   
FORMA SIMPLES DO VALOR
4) O conjunto da forma simples de valor

Chegamos a seguinte conclusão:

"o valor de uma mercadoria tem expressão autônoma por meio de sua representação como 
"valor de troca". Quando no início deste capítulo [...] havíamos dito: a mercadoria é valor 
de uso e valor de troca, isto era, a rigor, falso. A  mercadoria é valor de uso [...] e 'valor". 
Ela apresenta­se como esse duplo [...]"

x mercadoria A = y  mercadoria B

"O exame mais pormenorizado da expressão de valor da mercadoria A, contida na relação de valor com a 
mercadoria B, demonstrou que dentro da mesma [expressão] a forma natural da mercadoria A funciona 
apenas como figuração de valor de uso, a forma natural da mercadoria B apenas como forma valor ou 
figuração de valor. A antítese interna entre valor de uso e valor, oculta na mercadoria, é, portanto, 
representada por uma antítese externa, isto é, por meio da relação de duas mercadorias, na qual uma delas, 
cujo valor deve ser expresso, funciona diretamente apenas como valor de uso; a outra, ao contrário, na 
qual o valor é expresso, vale diretamente apenas como valor de troca. A forma simples de valor de uma 
  mercadoria é, por conseguinte, a forma simples de manifestação da antítese entre valor de uso e valor".
 
CRÍTICA DA ECONOMIA POLÍTICA
Um pouco de crítica da economia política:
"Nossa análise provou que [...] a expressão de valor da mercadoria origina­se da natureza do valor das 
mercadorias, e não, contrário, que valor e grandeza de valor tenham origem em sua expressão como valor 
de troca. Essa é, entretanto, a ilusão, tanto dos mercantilistas [...] quanto [...] dos [partidários do] livre­
cambismo. [...] Os mercantilistas dão a maior importância ao lado qualitativo da expressão de valor, ou 
seja, a forma equivalente [forma dinheiro], [...] os  [partidários do] livre­cambismo [...]ressaltam ao 
contrário, exclusivamente o lado quantitativo da forma relativa de valor. Para eles não existem, em 
conseqüência, nem valor nem grandeza de valor da mercadoria, exceto na expressão por meio da relação 
de troca, portanto, apenas no boletim diário dos preços."
Para os mercantilistas, o dinheiro é sobretudo "meio de entesouramento";
Para os livre­cambistas, o dinheiro é sobretudo "meio de circulação".
Todos eles, para Marx, em virtude de seu comprometimento com a prática inerente à economia mercantil, dão 
expressão apenas às formas. Eles são, por isso, prisioneiros ideológicos das formas. Eles se contentam em 
apresentar a aparência da relação social entre mercadorias, acriticamente.
Para terminar: "O primeiro olhar mostra a insuficiência da forma simples de valor, esta forma embrionária 
que somente amadurece [...] na forma preço [...] Entretanto, a forma individual de valor passa por si 
mesma a uma forma mais completa: forma de valor total ou desdobrada [passando, primeiro, para a forma 
geral e, depois, para a  forma dinheiro.

   
FORMA DE VALOR TOTAL
B) Forma de valor total ou desdobrada

z mercadoria A = u mercadoria B ou = v de mercadoria C ou = w mercadoria D ou = etc

1. A forma relativa de valor desdobrada
"O valor de uma mercadoria, do linho, por exemplo, é agora expresso em inumeráveis outros elementos do 
mundo das mercadorias. Qualquer outro corpo de mercadoria torna­se espelho do valor do linho"
"Assim, aparece esse valor mesmo pela primeira vez verdadeiramente como gelatina de trabalho humano 
indiferenciado. Pois, o trabalho humano que o gera é agora expressamente representado como trabalho 
equiparado a qualquer outro trabalho humano, seja qual for a forma natural que possua […]"
"Na primeira forma, 20 varas de linho = 1 casaco, pode ser casual que essa duas mercadorias sejam 
permutáveis em determinada relação quantitativa. Na segunda forma, ao contrário, transparece 
imediatamente um fundamento [constante] [...]Desaparece a relação eventual [...] evidencia­se que não é a 
troca que regula a grandeza de valor, mas, ao contrário, é a grandeza de valor da mercadoria que regula 
suas relações de troca."

   
FORMA DE VALOR TOTAL
2. A forma equivalente particular
"Cada mercadoria, casaco, trigo, chá, ferro, etc. vale na expressão de valor do linho como equivalente e, 
portanto, como corpo de valor".
3. Insuficiências da forma de valor total
"Primeiro, a expressão relativa de valor da mercadoria é incompleta, porque sua série de representações 
não termina nunca.
[...] Segundo, ela forma um mosaico colorido de expressões de valor, desconexas e diferenciadas[...]
[...] As insuficiências da forma relativa [...] refletem­se na forma equivalente:
[...] Como [...] a forma natural de cada espécie particular de mercadoria é uma forma equivalente 
particular ao lado de inumeráveis outras formas equivalentes particulares, existem, em geral, apenas 
formas equivalentes limitadas, das quais cada uma exclui a outra; 
[...] Do mesmo modo, é a espécie de trabalho determinada, concreta, útil, contida em cada mercadoria 
equivalente particular, apenas forma de manifestação particular ­ portanto não exaustiva ­  do trabalho 
humano".
Notem que aquilo que possui muitas formas particulares de manifestação não possui nenhuma forma de 
manifestação unitária. A forma de valor desdobrada é inacabada e, por isso, insuficiente. Ele requer o 
seu próprio desenvolvimento. A economia mercantil gera a forma geral de valor.

   
FORMA GERAL DO VALOR
C) Forma geral do valor

1 casaco =
10 libras de chá =
40 libras de café =
1 quarter de trigo =
2 onças de ouro = 20 varas de linho
1/2 tonelada de ferro =
x de mercadoria A =
etc. mercadoria =

   
FORMA GERAL DO VALOR
1. Caráter modificado da forma valor

"As mercadorias representam agora seus valor 1) de modo simples, porque na mesma 
mercadoria, e 2) de modo unitário, porque na mesma mercadoria. Sua forma valor é simples e 
comum a todas, portanto, geral.

... As duas formas anteriores expressam o valor de cada mercadoria, seja numa única mercadoria 
de espécie diferente, seja numa série de muitas mercadorias diferentes dela. Em ambos os 
casos é, por assim dizer, questão particular da mercadoria individual assumir uma forma de 
valor determinada". E isto acontece sem que contribuam as outras mercadorias.

... "A forma valor geral surge, ao contrário, apenas como obra comum do mundo das 
mercadorias. Uma mercadoria só ganha a expressão geral de valor porque simultaneamente 
todas as demais mercadorias expressam seu valor no mesmo equivalente. Cada nova espécie de 
mercadoria que aparece tem de fazer o mesmo. 

   
FORMA GERAL DO VALOR
"Evidencia­se, com isso, que a objetividade do valor das mercadorias 
por ser mera "existência social" dessas coisas, somente pode ser 
expressa por sua relação social por todos os lados, e sua forma, por 
isso, tem de ser uma forma socialmente válida".

"A forma valor geral relativa do mundo das mercadorias imprime à 
mercadoria equivalente, excluída dele, [...] o caráter de equivalente 
geral. [...] Sua própria forma natural é a figura de valor comum [...] 
trocável por todas as outras mercadorias. Sua forma corpórea [é 
encarnação visível de] [...] todo trabalho humano."

   
FORMA GERAL DO VALOR
2. Relação de desenvolvimento da forma valor relativa e da forma equivalente

"Ao grau de desenvolvimento da forma valor relativa corresponde o grau de 
desenvolvimento da forma equivalente. Mas é de se notar que o 
desenvolvimento da forma equivalente é apenas expressão e resultado do 
desenvolvimento da forma valor relativa."
Lembrar que a forma relativa é ativa e a forma equivalente é passiva.

"No mesmo grau, porém, em que se desenvolve a forma valor em geral, 
desenvolvem­se também a antítese entre ambos os pólos, a forma valor relativa 
e a forma equivalente."
"Já na primeira forma [...] contém essa antítese, mas não a fixa". Aqui se podem 
inverter os lados da equação de valor.
   
FORMA GERAL DO VALOR
"Na segunda forma só uma das [...] mercadorias pode de cada vez 
desdobrar totalmente o seu valor". Aqui já não se podem inverter os 
lados das equações de valor.

A última forma [...], por fim, dá ao mundo das mercadorias forma valor 
relativa social geral, porque e na medida em que, com uma única 
exceção, todas as mercadorias que lhe pertencem são excluídas da 
forma equivalente geral [...]. 

E, inversamente, a mercadoria que figura como equivalente geral é 
excluída da forma valor relativa unitária e, portanto, geral do mundo 
das mercadorias.
   
FORMA GERAL DO VALOR
3. Transição da forma valor geral para a forma dinheiro

"A forma equivalente geral é uma forma do valor sobretudo. Ela pode ser 
recebida, portanto, por qualquer mercadoria [...] [Uma mercadoria 
assume essa posição quando é excluída por todas as demais. Quando 
essa exclusão ocorre], a forma valor relativa unitária do mundo das 
mercadorias adquire consistência objetiva e validade social geral.

A mercadoria excluída, cuja forma natural se funde agora socialmente 
com a forma equivalente, "torna­se mercadoria dinheiro ou funciona 
como dinheiro".  Uma mercadoria "conquistou históricamente essa 
posição privilegiada, o ouro". Temos, pois, a forma dinheiro.
   
FORMA DINHEIRO
D) Forma dinheiro

1 casaco =
10 libras de chá =
40 libras de café =
1 quarter de trigo =
2 varas de linho = 2 onças de outro
1/2 tonelada de ferro = varas de linho
x de mercadoria A =
etc. mercadoria =

   
FORMA DINHEIRO
"O ouro se torna na forma D o que o linho era na forma C ­ equivalente geral. O 
progresso apenas consiste em que a forma de permutabilidade direta geral ou a 
forma equivalente geral se fundiu agora definitivamente, por meio do hábito 
social, com a forma natural específica da mercadoria ouro". 
A 'forma preço'  do linho é, pois:
20 varas de linho = 2 onças de ouro

A "forma preço unitário" ficaria:

1 vara de linho = 1/10 onças de ouro

Se 1/10 onças de ouro é chamado de 1 real sério, então 1 vara de linho custa 1 real.
   
FETICHISMO DA MERCADORIA
4. O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo

À primeira vista, a mercadoria parece uma coisa trivial, evidente.  Ou seja, uma 
mera forma natural, um mero valor de uso.

Analisando­o, vê­se que ela é uma coisa complicada, cheia de subtilezas 
metafísicas e manhas teológicas.  Para Marx, notem, a mercadoria é 
metafísica e o capitalismo é metafísico. Ele não recusa, adotando um 
materialismo crasso, a metafísica do real.

Como valor de uso, não há nada de misterioso nela. [...] a mesa continua sendo 
madeira, uma coisa ordinária e sensível.  Como valor de uso, a mesa não 
encerra qualquer mistério.
   
FETICHISMO DA MERCADORIA
[...] como mercadoria, ela se transforma numa coisa sensível 
suprasensível. Notem que, num outro contexto, uma pedra mágica 
também pode ser dita uma coisa sensível suprasensível.

Logo, "o caráter místico da mercadoria não provém, portanto, de seu 
valor de uso". 

Não provém, também, do fato de ser produto do trabalho. Isto é dito 
por Marx de um modo indireto: "Sob todas as condições, o tempo 
de trabalho, que custa a produção dos meios de subsistência, havia 
de interessar ao homem, embora não igualmente nos diferentes 
estágios de desenvolvimento".
   
FETICHISMO DA MERCADORIA
"De onde provém, então, o caráter enigmático do produto do 
trabalho? Evidentemente, dessa forma mesmo, ou seja, da forma 
mercadoria. Ou seja, o enigma da mercadoria vem do fato de que o 
produto do trabalho assume a forma mercadoria.

Dito de outro modo, na economia mercantil [...] as relações  entre os 
produtores ... assumem a forma de uma relação social entre os 
produtos do trabalho. É, portanto, a sociabilidade mercantil que 
origina o mistério, que confere o caráter fetichista à mercadoria. 

O fetiche da mercadoria está, pois, resumido, na expressão "relação 
social entre coisas".
   
FETICHISMO DA MERCADORIA
O misterioso da forma mercadoria consiste, portanto, simplesmente  no fato de que 
ela reflete aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como 
características objetivas dos próprios produtos de trabalho, como propriedades 
naturais sociais dessas coisas e, por isso, também reflete a relação social existente 
fora deles, entre objetos. Por meio desse quiproquó os produtos do trabalho se 
tornam mercadorias, coisas sensíveis suprassensíveis, metafísicas e sociais. 

... a relação de valor dos produtos de trabalho ... não é mais nada que determinada 
relação social entre os próprios homens que para eles assume a forma 
fantasmagórica de uma relação social entre coisas.

Marx usa o termo fetiche por analogia. No caso do fetiche original, ele ocorre porque 
os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, figuras 
autônomas, que mantêm relações entre si e com os homens. No caso do fetiche 
mercantil, ele ocorre porque os produtos do trabalho assumem a forma mercadoria, 
 
uma forma que parece, também, dotada de vida própria. 
 
FETICHISMO DA MERCADORIA
Os homens na vida cotidiana, como participantes da economia mercantil, não 
podem deixar de viver, portanto,  num mundo fetichizado. 

Mas, e os homens de ciência que abominam cair em mitos, cortejar o 
sobrenatural e as explicações metafísicas?

Eles também caem no fetiche quanto tomam a relação social mercantil como 
mera relação de coisas, quando aceitam a forma natural acriticamente, 
quando tomam a realidade social como mera realidade natural. 

Eles começam como Walras: "O fato do valor de troca tem  [...] o caráter de 
um fato natural, natural em sua origem, natural em sua manifestação e 
 
sua maneira de ser".  
FETICHISMO DA MERCADORIA
Para dizer depois: os bens econômicos têm valor, o ouro é dinheiro, a máquina é 
capital, etc. Assim, eles caem no fetiche porque atribuem a essas formas 
naturais, acriticamente, propriedades sociais que elas adquiriram por mediarem 
relações sociais.  

E terminar caindo em contradição: não se diz em Economia, normalmente, que o 
mercado faz isto ou aquilo, que o capital produz, etc? Desse modo, ademais, as 
coisas não se apresentam personificadas? 

Mas os pensadores sociais podem dizer, de modo contrário, que os homens criam 
os bens econômicos, instituem o ouro como dinheiro, põe a máquina como 
capital. Agora, eles partem do pólo oposto ao de Walras: o valor de troca é um 
fato social (estritamente); o mercado é um fato moral (Hayek). Mas, assim,  
eles caem na ilusão simétrica à do fetiche que Ruy Fausto chama de ilusão 
 
convencionalista.    
FETICHISMO DA MERCADORIA
Eles abstraem a forma natural inerente à relação social, tomando a relação 
mercantil como relação humana, sem a sua forma não social, não humana. E 
acabam dizendo, por exemplo, como Hayek que os homens são guiados pela 
ordem espontânea para fazerem o que é melhor para eles, a despeito do que 
consideram moralmente certo ou errado na esfera econômica. Nesse caso, não 
coisificam as pessoas? Hayek não cai em contradição?

Verdadeiramente, os homens de ciência caem em contradição em ambos os casos 
porque procuram ser analíticos rigorosos, porque querem evitar a contradição 
como o diabo, a cruz. Para dizer adequadamente essa realidade é preciso falar, 
como Marx, em "relações sociais entre coisas", dizendo a contradição.

Todo o cerne da contribuição de Marx encontra­se na consideração segundo a 
qual "a mercadoria é valor de uso e [...] valor, uma coisa sensível 
 
suprasensível, uma unidade de contrários"