Você está na página 1de 8

Revista Brasileira de Cineantropometria & Desempenho Humano ISSN 1415-8426

Artigo de Revisão Rodrigo Siqueira Reis 1


Edio Luis Petroski 2
Adair da Silva Lopes 3

MEDIDAS DA ATIVIDADE FÍSICA: REVISÃO DE MÉTODOS

MEASURES OF PHYSICAL ACTIVITY: A REVIEW OF METHODS

RESUMO

A atividade física tem sido relacionada a diversos benefícios para a saúde. Apesar de evidências
levantadas em estudos populacionais, a mensuração da atividade física tem representado um desafio para
pesquisadores da área. O presente estudo pretende apresentar os principais instrumentos de medida da
atividade física, suas vantagens e limitações. A escolha do instrumento mais adequado deve atender a alguns
critérios como a qualidade, a praticidade do instrumento entre outros. A falta de um instrumento considerado
“padrão” sugere atualmente a utilização de uma combinação de métodos de maneira a fornecer dados mais
confiáveis e precisos. A construção de novos instrumentos, o refinamento dos instrumentos existentes e a
combinação de métodos são possibilidades consideradas para o uso de instrumentos de melhor qualidade.

Palavras-chave: medidas, atividade física, avaliação.

ABSTRACT

Physical activity has been linked with several health benefits. Despite the evidence from population
surveys, the measurement of physical activity has presented a challenge for researches in the area. The present
study intends to show the main instruments for measuring physical activity, as well as their limitations and
advantages. The choice of the most adequate instrument should observe criteria such as quality, simplicity or
others. Currently, the lack of a “gold standard” instrument, suggests that a combination of methods would be
the means of providing better data. The development of new instruments, improvement of current ones and the
combination of methods are possible choices presented in this study for the use of better quality instruments.

Key words: measurement, physical activity, assessment.


Volume 2 – Número 1 – p. 89-96 – 2000

1
Mestrando Educação Física (CDS/UFSC); Prof. PUC-PR e CEFET-PR; Pesquisador NuCIDH/CDS/UFSC
2
Prof. Doutor UFSC/CDS/DEF - NuCIDH
3
Prof. Doutor UFSC/CDS/DEF
90 Reis et al.

INTRODUÇÃO oricamente ser classificada (Sallis e Owen,


1999). Diferentes dimensões como a freqüên-
A atividade física tem sido considerada cia, a intensidade, a duração e ainda o tipo de
um importante componente de um estilo de vida atividade podem ser consideradas. Sendo as-
saudável devido particularmente a sua associa- sim, pode-se encontrar desde o exercício, a for-
ção com diversos benefícios para a saúde física ma estruturada e com propósito definido, até
e mental (Pate et al.,1995). Esta associação e aquela atividade realizada no cotidiano, ou ati-
os conseqüentes benefícios de um estilo de vida vidades da vida diária (Nahas, 1996). Esta com-
mais ativo têm sido determinados em estudos plexidade encontrada tem dificultado a constru-
epidemiológicos que procuram investigar diver- ção de instrumentos que possam assegurar
sos aspectos relacionados aos padrões de ativi- maior precisão na medida da atividade física.
dade física e a incidência de doenças em dife- A construção de instrumentos simples
rentes populações. Em um estudo clássico e de baixo custo tem sido uma preocupação de
Paffenbarger e colaboradores (Paffenbarger et diferentes pesquisadores não apenas pela as-
al.,1986) demonstraram que a mortalidade entre sociação entre atividade física e benefícios para
ex-alunos da Universidade de Harvard diminuiu a saúde, mas também pelo aumento da inativi-
em 53% entre aqueles considerados mais ati- dade física nos países desenvolvidos e em de-
vos; em outro estudo também muito conhecido senvolvimento e ainda por evidências de que
Dr. Blair e colaboradores (Blair et al, 1989) de- benefícios podem ser atingidos mesmo com ati-
monstraram que a taxa de mortalidade foi 73% vidades moderadas ou ainda com aumento das
menor entre homens mais aptos, quando com- atividades da vida diária (Pate et al, 1995; Sallis
parados a homens menos aptos num teste de e Owen, 1999). Estudos têm demonstrado que
esteira. o estilo de vida mais ativo oferece resultados
Esses estudos epidemiológicos bus- similares quando comparado a programas
cam comparar indicadores de mortalidade e estruturados de exercício (Andersen et al, 1999,
morbidade entre grupos de indivíduos com di- Dunn, 1999, Pratt, 1999).
ferentes padrões de atividade física e dessa O objetivo do presente estudo foi apre-
maneira associar a saúde com a atividade físi- sentar, a partir de uma revisão de literatura, os
ca. Diversos indicadores têm sido utilizados para principais instrumentos de medida da atividade
expressar a morbidade como: a) número de física, suas vantagens e limitações
pessoas doentes por unidade da população ao
ano; b) a incidência de condições específicas Considerações Metodológicas na Seleção de
por unidade da população ao ano; e, c) a média Instrumentos de Medida da Atividade Física
da duração dessas condições (Bouchard et al.,
1994). Todavia, quando procura-se um indica- Mais de 30 técnicas diferentes têm sido
dor para a Atividade Física, diversas questões utilizadas para estimar a atividade física e o gas-
têm sido levantadas desde a definição até a uti- to energético (Melanson e Freedson, 1996), com
lização de instrumentos de medida. alguns autores sugerindo que existam mais de
A definição de atividade física, enten- 50 técnicas diferentes ( Ainsworth et al, 1994).
dida como qualquer movimento corporal reali- Devido à complexidade e subjetividade que a
zado pela musculatura esquelética, que leve a atividade física apresenta, estes métodos me-
um gasto energético acima do repouso dem diferentes aspectos da atividade física. De
(Carspersen et al, 1985) tem sido utilizada. A um modo geral, os instrumentos de medida po-
partir dessa definição, a quantidade de energia dem ser classificados em dois grandes grupos:
Volume 2 – Número 1 – p. 89-96 – 2000

utilizada para a realização de determinado mo- a)aqueles que utilizam as informações dadas
vimento parece ser o critério definitivo para de- pelos sujeitos (questionários, entrevistas e diá-
finir o indicador da atividade física (Hensley et rios) e aqueles que utilizam marcadores fisioló-
al., 1993). No entanto, as diferentes formas ou gicos ou sensores de movimento para a
manifestações da atividade física têm repre- mensuração direta de atividades em determi-
sentado uma barreira para os pesquisadores da nado período de tempo. Ainsworth et al. (1994)
área. Na verdade, a atividade física apresenta- apresentam esses instrumentos classificados
se como um fenômeno complexo em que uma em 6 grupos principais: a) Calorimetria, b)
gama diferente de comportamentos pode te- Marcadores Fisiológicos, c) Sensores de movi-
Medidas da atividade física: revisão de métodos 91

mento eletrônicos e mecânicos, d)Observação ambiente ótimo para estudos controlados, no


Comportamental, e) Ingestão Calórica e f) Le- entanto apresenta como desvantagens um custo
vantamentos de lazer e trabalho. muito elevado, a dificuldade de combinação com
Apesar da variedade de instrumentos medidas invasivas, um tempo maior para pes-
encontrados, alguns fatores devem ser consi- quisadores e sujeitos de estudo, e um ambien-
derados para a avaliação de qualquer método te artificial que não representa as atividades
empregado: a) validade, b) fidedignidade, c) realizadas na vida diária (Murgatroyd, 1993;
custo e d) aceitabilidade ou não-reatividade Schoeller & Racette, 1990).
(Schoeller & Racette, 1990). A dificuldade da Na calorimetria indireta, a produção de
escolha do instrumento adequado passa ainda calor é determinada a partir da taxa de troca
por outras considerações. As diversas dimen- gasosa associada com o substrato energético
sões que a atividade física apresenta também predominante (Murgatroyd, 1993). Neste méto-
associam-se com diferentes efeitos relaciona- do o sujeito é mantido em uma câmara em que
dos à saúde (Kriska, 1997). Desta maneira, a a troca gasosa é controlada. Os resultados são
atividade de baixa intensidade e com maior vo- semelhantes aos da calorimetria direta. Méto-
lume pode provocar melhora na aptidão dos portáteis e móveis que dispensam acomo-
cardiorrespiratória, a qual é importante para a dar o sujeito em um laboratório têm sido de-
melhora e/ou proteção da doença senvolvidos, entre estes a Bolsa de Douglas, o
cardiovascular. Por outro lado exercícios que Respirômetro K-M e o Sistema Oxilog. No en-
oferecem maior resistência (sustentação da tanto, o emprego desses métodos é limitado
massa corporal ou contrapesos) podem melho- pela adaptação do sujeito ao aparelho e pelo
rar a aptidão muscular, o que é importante na custo elevado (Murgatroyd, 1993; Schoeller &
prevenção da osteoporose. Finalmente Kriska Racette, 1990).
(1997) relata que a qualidade da medida pode
esconder importantes associações entre a ati- Monitoração de Freqüência Cardíaca
vidade física e doenças. Também é importante
considerar que os instrumentos são construídos Esse método fundamenta-se na rela-
e validados em determinadas populações com ção linear entre freqüência cardíaca e gasto
características próprias de sexo, idade, etnia e energético. O avanço na telemetria e
nível social (Nahas, 1996), o que dificulta a apli- miniaturização dos equipamentos tem tornado
cação em populações diferentes. este método mais fácil e acessível. Entre os
Essa dificuldade deve-se também ao métodos de medida da freqüência cardíaca es-
fato de não existir um instrumento que seja con- tão a radiotelemetria, a gravação contínua do
siderado padrão para a validação e conseqüente E.C.G e o microcomputador (Karvonen &
construção de outros instrumentos. Nahas Vuorima, 1988). Nos últimos anos, um dos equi-
(1996) acredita que o ideal seria dispor de ins- pamentos que tem sido amplamente utilizado
trumentos que atendessem às características com grande aceitação é o monitor de freqüên- Revista Brasileira de Cineantropometria & Desempenho Humano
desejadas e que a escolha deve atender a: a) cia cardíaca. O equipamento da marca Polar
forma de atividade física em questão; b) ade- armazena os dados e permite a transferência
quação do instrumento ao grupo populacional para um microcomputador por meio de um
em estudo, e c) praticabilidade, especialmente software específico.
quanto ao custo relativo de determinada medi- Neste método o gasto energético é
da. estimado a partir do ajuste de curvas individu-
ais durante uma variedade de atividades em la-
Métodos que Utilizam Marcadores Fisiológicos: boratório (Melanson & Freedson, 1996). Embo-
Calorimetria ra os monitores mensurem adequadamente a
freqüência cardíaca, a sua precisão para a me-
A calorimetria direta mede a energia dida de gasto energético é limitada pelo fato da
despendida a partir da taxa de calor perdido pelo freqüência cardíaca se alterar independente da
corpo para o ambiente e é usualmente uma atividade física (Schoeller & Racette, 1990).
medida de corpo inteiro, realizada dentro de Entre os fatores que podem alterar a associa-
câmaras fechadas (Murgatroyd et al, 1993). Este ção com a resposta do VO2 ao exercício estão
método apresenta uma grande precisão e um o aumento da temperatura ambiente e da umi-
92 Reis et al.

dade, fadiga, estado de hidratação, e respos- ves que permitem o armazenamento de dados
tas emocionais (Hensley et al., 1993). Outra li- por um determinado tempo. São colocados no
mitação deve-se ao fato de que em indivíduos pulso ou no cinto e medem o gasto energético
sedentários a freqüência cardíaca medida em pelo registro das acelerações do corpo ao lon-
24 horas quase não ultrapassa os limites de re- go do tempo, e então a partir de equações de
pouso, o que dificulta a distinção entre ativida- estimativa permitem o cálculo do consumo de
des leves e moderadas (Melanson & Freedson, oxigênio e do gasto energético (Schoeller &
1996). Apesar desta limitação, a freqüência car- Racette, 1990). Entre estes instrumentos encon-
díaca pode fornecer uma indicação da intensi- tram-se Pedômetros, Large-Scale Integrators,
dade, duração e freqüência da atividade. Acelerômetros e Monitores Tridimensionais de
Atividade.
Água Duplamente Marcada
(Doubly Labeled Water) Pedômetros

Inventado nos anos 40, este método O pedômetro é um contador mecânico


foi por mais de 30 anos utilizado quase que ex- que grava movimentos de passos em resposta
clusivamente em animais, sendo as primeiras à aceleração vertical do corpo (Hensley et al.,
experiências com humanos iniciadas nos anos 1993). A distância deslocada pode ser estima-
80. O primeiro trabalho, validando o método da calibrando-se o equipamento à amplitude da
em humanos, foi publicado em 1985 passada.
(Murgatroyd et al., 1993). Desde então tem sido Apesar de apresentar um custo relati-
empregado na estimativa do gasto energético. vamente baixo, os pedômetros não são sensí-
O princípio do método é a ingestão de veis a atividades sedentárias, a exercícios
água marcada com isótopos de deutério e oxi- isométricos e às atividades que envolvam os
gênio. O deutério é eliminado como água, en- braços (Melanson & Freedson, 1996). Aisworth
quanto o oxigênio é eliminado como água e et al. (1994) relatam que estes aparelhos ten-
dióxido de carbono. A medida da concentração dem a subestimar distâncias em velocidades
destes elementos na urina e no ar expirado per-
baixas e superestimar distâncias em caminha-
mite o cálculo da demanda de energia (Schoeller
das e corridas rápidas. Registros imprecisos
& Racette, 1990; Murgatroyd et al, 1993;
podem resultar da localização no corpo e a di-
Hensley et al. 1993). Embora apresente uma
ferença da tensão da mola entre os instrumen-
grande precisão, com erro de medida em torno
tos (Hensley et al., 1993). Mas apesar da im-
de 4 – 7% (Schoeller & Racette, 1990), o custo
precisão, esses equipamentos podem diferen-
elevado e a necessidade de pessoal e equipa-
ciar mudanças nos padrões de atividades físi-
mentos muito especializados restringem o seu
cas (Aisworth et al., 1994, Hensley et al., 1993).
uso em estudos mais amplos. Além dessas,
outra limitação apontada é que esse método não
Large-Scale Integrators (LSI’s)
permite discriminar o tipo de atividade e a in-
tensidade do exercício (Melanson & Freedson,
1996). Todavia, é um método que tem sido em- Estes equipamentos são sensores de
pregado na validação de outras técnicas e em movimento em que um balanço maior que 3º
estudos clínicos de controle de balanço resulta na ativação de uma chave de mercúrio,
energético (Hensley et al., 1993). a cada 16 acionamentos desta chave uma con-
tagem é registrada (Melanson & Freedson,
Volume 2 – Número 1 – p. 89-96 – 2000

Métodos que utilizam Sensores de 1996). Do tamanho aproximado de um relógio


Movimento de pulso, o que possibilita que seja colocado
em diferentes posições no corpo, e com um
O uso de sensores eletrônicos de mo- mecanismo de mercúrio mais durável do que
vimento se baseia na hipótese de que o movi- com molas, apresentam-se mais confiável e ver-
mento dos segmentos corporais reflete o gasto sátil que o pedômetro. O LSI permite que se
energético total (Melanson & Freedson, 1996). discrimine diferenças de padrões de atividades
O avanço das tecnologias tem permitido o de- físicas entre grupos que diferem em nível de
senvolvimento de instrumentos pequenos e le- atividade física (Aisworth et al., 1994, Melanson
Medidas da atividade física: revisão de métodos 93

& Freedson, 1996), entretanto apresenta uma Alguns estudos de validação têm sido
correlação fraca com níveis de VO2 estimados desenvolvidos utilizando o modelo Tritrac R3D,
durante caminhada, corrida e ciclismo (Aisworth que é capaz de armazenar dados ao longo de
et al., 1994), e ainda não monitora a intensida- determinados períodos de tempo, mas o tama-
de do movimento (Melanson & Freedson, 1996). nho deste aparelho, que é maior que o Caltrac,
Soma-se a isto o custo, o que torna difícil a sua pode fazer com que participantes de estudos
aplicação em estudos de maior abrangência. relutem em utilizá-lo, especialmente jovens e
crianças (Sallis & Owen, 1999). Welk e Corbin
Acelerômetros (1995) encontraram uma correlação 0,88 com
o Caltrac e de 0.58 com a freqüência cardíaca
Acelerômetros são aparelhos portáteis em crianças. Em outro estudo, Sherman et al.
que são sensíveis à aceleração do corpo e trans- (1998), encontraram uma correlação de 0,96
formam esta informação em unidades de gasto com a calorimetria indireta em homens durante
energético (Hensley et al., 1993). O caminhadas. Em um estudo semelhante com
acelerômetro mais utilizado é o Caltrac. Neste jovens, Almeida et al., (1999) encontraram uma
aparelho acelerações verticais resultam no correlação de 0,70, caminhando lentamente,
movimento de um condutor piezoelétrico inter- 0,81, caminhando rápido e 0,86 em corrida, su-
no, sendo que a quantidade de movimentos é gerindo que o Tritrac é eficiente ao discriminar
proporcional ao tamanho da aceleração diferentes atividades, apesar de superestimar
(Melanson & Freedson, 1996). Este mecanis- o gasto energético. Welk, Corbin e Kampert
mo cerâmico de condução é mais confiável e (1998) encontraram uma correlação de 0,70 e
durável do que os mecanismos com molas, e 0,77 entre o Tritrac e a freqüência cardíaca em
como é sensível à intensidade e à quantidade períodos na sala de aula e na aula de educa-
de movimento, assim como a movimentos mais ção física respectivamente. Estes novos estu-
suaves do corpo humano, o Caltrac tem substi- dos têm sugerido a possibilidade de utilização
tuído o pedômetro e o LSI na pesquisa em ativi- deste novo equipamento em pesquisas na área
dade física (Melanson & Freedson, 1996). de atividade física. No entanto, novas pesqui-
Entre as vantagens do Caltrac estão o sas ainda são necessárias para validar o uso
tamanho e custo reduzido, e a não interferên-
do aparelho em diferentes populações e situa-
cia na atividade em andamento; por outro lado
ções, assim como o desenvolvimento de
muitas atividades que não envolvem movimen-
tecnologia que permita a miniaturização e con-
to vertical não são bem mensuradas por este
seqüente redução da reatividade do mesmo.
aparelho, como ciclismo, natação e levantamen-
to de pesos (Sallis & Owen, 1999). Por esta ra-
Métodos que Utilizam Informações dadas
zão, o Caltrac é mais preciso quando a forma
Pelos Sujeitos (Survey ou Levantamento)
de atividade predominante é a caminhada, sen- Revista Brasileira de Cineantropometria & Desempenho Humano
do apropriado para uso em estudos de campo
Também conhecido como survey ou
nesta situação (Melanson & Freedson, 1996).
levantamento, este método envolve instrumen-
Monitores Tridimensionais de Atividade tos na forma de questionários, entrevistas e di-
ários de atividade. Estas são as ferramentas
O avanço na tecnologia resultou no mais comumente empregadas em estudos
desenvolvimento de acelerômetros tridi- epidemiológicos de larga escala (Melanson &
mensionais desenhados especificamente para Freedson, 1996; Kriska, 1997). A abordagem
a pesquisa em atividade física. Foram desen- utilizada para medir a atividade física varia em
volvidos modelos com estrutura triaxial com sua complexidade da forma auto-administrada
sensores em cada eixo e outros com um único com questões com itens simples, até a entre-
disco piezoelétrico que deforma como resposta vista.
a cada movimento (Melanson & Freedson, Para Sallis e Owen (1999) de uma
1996). Estes aparelhos detectam movimentos maneira geral os questionários: a) requerem aos
laterais, horizontais e verticais, mas uma van- respondentes que recordem suas atividades ao
tagem teórica destes aparelhos ainda não foi longo de um período em particular; b) podem
comprovada (Sallis & Owen, 1999). ser administrados por um entrevistador ou por
94 Reis et al.

telefone, ou ainda auto-administrados; c) os dos quando administrado nas mesmas circuns-


respondentes podem ser solicitados a recordar tâncias, e para tanto são realizadas as medi-
atividades de lazer apenas ou atividades de tra- das de reprodutibilidade. Os estudos de
balho e de lazer; e d) podem também perguntar reprodutibilidade utilizam coeficientes de teste-
sobre a descrição de atividades bem detalha- reteste ou correlação intraclasse (Kriska, 1997).
das, como freqüência, duração e intensidade a Num estudo recente Nahas e Barros (1999) pro-
cada hora, ou apenas menos detalhada, como curaram verificar a reprodutibilidade do Questi-
a participação em classes mais amplas de ati- onário Internacional de Atividade Física (OMS-
vidades. 6.0) com adultos no Brasil e encontraram um
Os diários podem detalhar toda a ativi- valor (R) de 0.55, 0.60, e 0.68 para atividades
dade física realizada num período de tempo que ocupacionais, domésticas e de lazer respecti-
é usualmente curto, de 1 a 3 dias. Devido ao vamente, confirmando a utilização do instrumen-
curto intervalo de tempo investigado, os diários to na versão para a língua portuguesa. A medi-
podem não representar o padrão de atividade da de validade determina o quanto o questio-
física de longo termo e também apresentam a nário mede aquilo que para o qual foi desenvol-
desvantagem de exigir um maior esforço do par- vido (Kriska, 1997). Para a validação de questi-
ticipante no seu preenchimento, assim como uma onários, diversas medidas diretas da atividade
maior reatividade, ou modificação do padrão de física têm sido empregadas e embora muitos
atividade física durante o período de investiga- destes métodos possam ser considerados pa-
ção (U.S. Department of Health and Human drões adequados, a validade pode ser adequa-
Services, 1996). Os levantamentos recordatórios damente medida verificando a correlação do
têm uma menor influência no comportamento, questionário com diferentes instrumentos (Sallis
embora possa haver alguma dificuldade em re- & Owen, 1999). Todavia, mediante a ausência
cordar a atividade, especialmente em idosos e de um padrão ouro como medida de compara-
crianças até 10 anos (Sallis & Owen, 1999). ção tem levado a outras alternativas como a uti-
Os levantamentos apresentam como lização da aptidão cardiorrespiratória como pa-
principais vantagens: a) uma grande quantida- drão de validação (U.S. Department of Health
de de informação em relação ao tempo e custo and Human Services, 1996). Embora a ativida-
envolvido; b) facilidade de administração; c) não- de física habitual seja um determinante para a
reatividade; e, d) em geral não oferecem difi- aptidão cardiorrespiratória, outros fatores tais
culdades para preencher (Hensley et al., 1993). como herança genética, sexo e idade também
Kriska (1997) relata que a escolha destes mé- têm um importante papel. Apesar de alguns es-
todos para estudos populacionais se deve ao tudos de correlação demonstrarem que a ativi-
fato destes possuírem as características de: dade física auto-relatada não seja perfeitamen-
a)não-reatividade; b)praticabilidade, c) te correlacionada com a aptidão
aplicabilidade; e d)acuracidade. Todavia estes cardiorrespiratória, ainda pode ser considera-
métodos não oferecem estimativas tão precisas do o maior fator preditivo (U.S. Department of
de gasto energético quanto os métodos dire- Health and Human Services, 1996).
tos, como a calorimetria.
Embora possua uma vantagem espe- CONSIDERAÇÕES FINAIS E RECOMENDA-
cialmente quanto ao custo e abrangência dos ÇÕES
estudos, existem algumas desvantagens no
emprego de levantamentos. Hensley et al. A atividade física em contraste com
Volume 2 – Número 1 – p. 89-96 – 2000

(1993) considera que uma desvantagem deste outros fatores de risco para doenças que são
método é que o instrumento empregado pode relativamente fáceis de medir, é de difícil medi-
não identificar todas os comportamentos de ati- ção e quantificação. Portanto, é importante apri-
vidade física, o que pode levar a uma dificulda- morar os instrumentos de medida, melhorando
de em classificar os hábitos de atividade física. a sua precisão e condições de utilização em
As medidas de reprodutibilidade e va- estudos amplos. Melanson e Freedson (1996),
lidade podem assegurar a precisão e qualidade sugerem que distinguir os padrões de atividade
da medida em questionários. Um questionário física deveria ser uma consideração primária ao
confiável deve apresentar os mesmos resulta- medir a atividade.
Medidas da atividade física: revisão de métodos 95

Os levantamentos são os métodos Enquanto não se encontra um instru-


mais utilizados em pesquisas epidemiológicas. mento que atenda a todas as características
Todavia o seu uso não está livre de considera- desejadas, a combinação de diferentes instru-
ções e limitações. Como exemplo, Sallis e Owen mentos pode fornecer dados mais confiáveis e
(1999) relatam que as medidas de auto-repor- precisos. Por exemplo ao combinar sensores
tagem apresentam uma precisão limitada nos de movimento ou monitores de freqüência car-
primeiros anos da adolescência, devendo, até díaca com questionários, é possível que se ob-
mesmo não serem utilizadas em crianças entre tenha informações mais adequadas quanto ao
9 e 10 anos. Por outro lado, os monitores de tipo, intensidade, e duração da atividade, as-
freqüência cardíaca e os sensores de movimen- sim como do gasto energético. O refinamento
to apresentam algumas limitações quanto ao dos instrumentos já existentes também deve ser
tipo de atividade e intensidade do movimento e considerado. A validação de questionários e
da atividade. Cada método apresenta vantagens outros instrumentos para diferentes etnias, ida-
e desvantagens que dependem muito do tipo des e situações da vida diária também pode le-
de atividade e do grupo que se deseja investi- var no futuro a construção de instrumentos mais
gar, como pode-se observar no Quadro 1. confiáveis.

QUADRO 1. Uso potencial dos procedimentos de medida na pesquisa epidemiológica em atividade física
B aixa B aixa
U so em B aixo
Idade dem an da dem an da Influência no
Instru m ento estudo s custo
aplicad a de tem po tem po d o com p ortam ento
am plo s fin anceiro
pesq uisa sujeito
D iários adultos sim sim S im não sim
idosos
Q uestionários adultos sim sim S im sim não
Idosos
M onitor de todas não não N ão sim não
Freqüência
C ardíaca
S ensor eletrônico adultos sim não S im sim não
de m ovim ento idosos
P edôm etros adultos sim sim S im sim não Revista Brasileira de Cineantropometria & Desempenho Humano
idosos
A celerôm etros todas sim sim S im sim N ão
C alorim etria D ireta todas não não N ão não sim
C alorim etria adultos não não N ão não sim
Indireta idosos
Á gua D uplam ente crianças não não N ão sim não
M arcada adultos
idosos

Adaptado do Physical Activity and Health: A Report from Surgeon General (1996) p30.
96 Reis et al.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS (1993). Techniques for the measurement of


human energy expenditure - a pratical guide.
Ainsworth, B. E., Montoye, H. J. & Leon, A. S. (1994). International Journal of Obesity. (17), 10.
Methods of assessing physical activity during p468-549.
leisure and work. In Bouchard, C., Shepard, R., Nahas, M.V. e Barros, M.V. (1999). Reliability of the
& Stephens, T. Physical activity, fitness and international Physical Activity Questionnaire
health: Consensus Statement. Human (IPAQ – version8): a Pilot Study with Adults in
Kinetics. Champaign,IL. Brazil. Abstract. Measurement of physical
Almeida, M.J.C. et al. (1999). Relationships between activity conference. pp34. Dallas,TX.
Tritrac-R3D estimates of energjy expenditure and Nahas,M.V. (1996). Revisão de Métodos para a
indirect calorimetry in adolescents (sumary). The Determinação dos níveis de Atividade Física
cooper institute conference series: Habitual em Diversos Grupos Populacionais.
measurement of physical activity. p28. Revista Brasileira de Atividade Física e Saú-
Andersen, R.E. et al. (1999). Effects of lifestyle activity de. (1),4. p27-37.
versus structured aerobic exercise in obese Paffenbarger, R.S., Hyde, R.T., Wing, A.L. & Hsie,
women. JAMA. (281),4, jan27. p335-340. C.C. (1986). Physical activity, all-cause mortality,
Blair, S.N., Kohl, H.W., Paffenbarger, R.S. Clark, and longevity of college alumni. New England
D.G., Cooper, K.H. & Gibbson, L.W. (1989). Journal of Medicine. (314). p605-613.
Physical fitness and all-cause mortality: A Pate, R. R. et al. (1995). Physical activity and public
prospective study of healthy men and women. health: a recommendation from the center for
JAMA. (262). p2395-2401. disease control and prevention and the American
Bouchard C. & Shepard, R. J. (1994). Physical College of Sports Medicine. JAMA. (273),5.
activity, fitness, and health: the model and key p402-407.
concepts. In . C. Bouchard, R.J. Shepard & T. Pratt, M. (1999). Benefits of lifestyle activity versus
Sthephens. Physical activity, fitness and structured exercise. JAMA. (281), 4. p75.
health International proceedings and Sallis, J. F.; Owen, N. (1999). Physical Activity &
consensus statement. p 11 – 23. Toronto: Behavioral Medicine. London, UK: Sage.
Human Kinetics Publishers. Schoeller A.D. e Racette, S.B. (1990). A review of
Casperssen, C.J. et al. (1985). Physical activity, field techniques for assessment of energy
exercise and Physical fitness: definitivos and expenditure. Journal of Nutrition. (120). p1492-
distictions for health related research. Public 1495.
Health Reports. (100), 2. p 172-179. Sherman, D. M., Morris, T. E., Kirby, R. A., Petosa,
Corbin,C e Lindsey, R. (1994). Concepts of Physical B. A., Smith, D. J. Frid, N. L. (1998). Evaluation
Fitness With Laboratories. 8ªed. Iowa. of a commercial accelerometer (Tritac-R3D) to
W,C,Brown publishers. measure energy expenditure during ambulation.
Dunn, A.L. et al. (1999). Comparison of lifestyle and Int.J.Sports Med. 10. p43-47.
structured interventions to increase physical US Department of Health and Human Services.
activity and cardiorespiratory fitness. JAMA. (1996). Physical Activity and Health: A Report
(281),4, jan27. p327-334. of the Surgeon General. Atlanta, GA: Centers
Hensley L. D., Ainsworth, B. E., & Ansorge, C. J. for Disease Control and Prevention, National
(1993). Assessment of physical activity – Center for Chronic Disease Prevention and
professional accountability in promoting active Health Promotion, The President,s Council on
lifestyles. JOPERD. January. p 56-64. Physical Fitness and Sports.
Karvonen, J. & Vourimaa, T. (1988). Heart rate and Welk, G. J., Corbin, C. B. (1995). The validity of the
exercise intensity during sports activities – Tritrac R3D activity monitor for the assessment
pratical implication. (1988). Sports Medicine. 5. of the physical activity in children. RQES. 66.
p303-312. p202-209.
Kriska, A. M. & Caspersen, C. J. (1997). Introduction Welk, G. J., Corbin, C. B. & Kampert, J. B. (1998).
to a collection of physical activiity questionnaires. The validity of the Tritrac-R3D activity monitor
Medicine and Science in Sports and Exercise. for the assessment of physical activity: II.temporal
(l29), 6. p S5-S9 relationships among objctive assessments.
Matthews, C. E., Herbert, J. R., Ebbeling, C. B., RQES. (69), 4. p395-399.
Volume 2 – Número 1 – p. 89-96 – 2000

Freedson, S.D. (1999). Physical activity energy


expenditure: self-report and doubly labeled water
comparisons in middle-aged women. The
cooper institute conference series: Endereço dos Autores
measurement of physical activity. p38..
Melansson, E.L. e Freedson, P.S. (1996). Physical Rodrigo Siqueira Reis
activity assessment: A review of methods. R. Brasilio Itiberê, 4324 ap 702 - Curitiba – Paraná
Critical Reviews in Food Science and
Nutrition. 3650. p385-396. CEP 80.240.060 – e-mail: reisr@rla01.pucpr.br
Murgatroyd, P. R., Shetty, P. S. & Prentice, ª M.

Você também pode gostar