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O diálogo interdisciplinar em Relações Internacionais:


o papel e a contribuição da Antropologia
The interdisciplinary dialogue in International Relations:
role and contribution of Antropology
TAÍS SANDRIM JULIÃO*
Meridiano 47 n. 97, ago. 2008 [p. 21 a 24]

As Relações Internacionais enquanto disciplina sua institucionalização. A partir da observação de


autônoma adquiriram status acadêmico somente seu desenvolvimento científico e, portanto, analítico
no século XX, datando sua institucionalização de e institucionalizado academicamente, pode-se argu-
1919 com a criação da cátedra Woodrow Wilson mentar que a agenda de pesquisa e os debates na
na Universidade do País de Gales, em Aberyswyth, área acompanharam os principais questionamentos
Grã-Bretanha. Suas origens institucionais estão da humanidade, aprofundando cada vez mais a
relacionadas com o término da Primeira Guerra percepção da interação entre o local e o global.
Mundial (1914-1918) e os impactos desta no As Relações Internacionais como área específica
mundo, pois a dimensão do conflito impulsionou a do conhecimento têm como particularidade o
consideração da guerra como um problema social. caráter multidisciplinar e interdisciplinar. O primeiro
Assim, firmou-se a convicção da necessidade de um diz respeito à consideração de outras áreas de
campo de estudo voltado especificamente à análise estudo correlatas, inseridas no âmbito das ciências
dessa problemática. sociais e humanas, que colaboram de modo integral
Todavia, na esfera internacional não operavam respeitando as fronteiras disciplinares, na reflexão
somente fluxos bélicos e aqueles complementares sobre as relações internacionais. A lógica que prevalece
a sua dinâmica, como os comerciais e políticos. é a cumulativa, ou seja, cada área é considerada em
Anterior ao próprio conflito mundial, havia o fluxo sua especificidade e com potencial de colaborar
de pessoas físicas e jurídicas, como, por exemplo, nesse formato. O segundo, por sua vez, supera esta
as imigrações e as corporações de comércio. Assim, perspectiva, advogando a artificialidade das fronteiras
podemos dizer que esta tendência de diversificação e sugerindo um diálogo e um intercâmbio efetivo
dos agentes e fenômenos no meio internacional foi entre as áreas, visando alcançar de modo produtivo
acentuada à medida que componentes importantes uma maior compreensão da realidade.
da globalização foram sendo difundidos por todo o Apesar de divergirem sobre a maneira como se
mundo ao longo da história, com destaque para as relacionam e as conseqüências deste processo, ambas
tecnologias e as redes de informação, e as empresas as perspectivas – a interdisciplinar e a multidisciplinar –
multinacionais. convergem em um ponto: reconhecem que a análise do
Nesse sentido, as relações internacionais como meio internacional comporta a utilização de variáveis
objeto de estudo passaram por um processo de de diferentes áreas para a compreensão de fenômenos
complexificação, e seu desenvolvimento e estado da complexos, como o são os internacionais.
arte sugerem que não se deve considerá-la voltada Antropologia, Ciência Política, Direito, Economia,
somente à problemática da guerra, como previa a Filosofia, História, Psicologia e Sociologia tornaram-

* Mestranda em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília – UnB (tais.sandrim@gmail.com).


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se, assim, possibilidades argumentativas para os compreendidas em termos de diferentes níveis de


estudos em Relações Internacionais. Essa afirmação análise, desconsiderando-se aspectos profundos
pode ser reforçada quando se observam as teorias de relativos à própria constituição dos Estados e do seu
Relações Internacionais, que se estruturam em grande sistema.
medida em premissas oriundas do intercâmbio de As transformações sistêmicas e seu impacto à
áreas. Contemporaneamente, a consistência do teoria foram responsáveis, em grande medida, pela
debate teórico está profundamente relacionada a valorização de temas ligados à cultura e à identidade
este diálogo produtivo entre as áreas. Como caso no contexto da agenda de estudos de Relações
emblemático pode-se mencionar o Construtivismo Internacionais. Os debates propostos por Huntington
Social proposto por Alexander Wendt entre o fim da e Fukuyama, e entre os dois autores, são emblemáticos
década de 1980 e o início dos anos 1990 na obra nesse sentido, apesar de não configurarem exata-
Social Theory of International Politics que busca mente uma contribuição científica – acadêmica para
refletir sobre as propostas de Anthony Giddens no as teorias de Relações Internacionais. A vitória do
campo das Ciências Humanas, notadamente da liberalismo e do capitalismo contra o socialismo, o
Sociologia, no âmbito das Relações Internacionais. papel da hegemonia e da ideologia, o hard power
Posto isso, nosso foco nesta oportunidade é e soft power, e os conflitos interétnicos que se
destacar no quadro das áreas que colaboram em acentuaram no período são alguns exemplos de
Relações Internacionais o papel e a contribuição da temas sensíveis à problemática da cultura e, por
Antropologia. Esta é considerada uma área de suporte, extensão, da identidade.
no sentido de apoiar reflexões e fornecer ferramenta Ao destacar esse contexto global pós-Guerra Fria
analítica a questões que envolvam problemáticas parece razoável considerar a visão de que fenômenos
culturais tais como religião, relações interétnicas, e problemas internacionais podem ser relacionados
multiculturalismo, direitos humanos, entre outras. No a dimensões culturais. A Antropologia possui, assim,
entanto, pode-se observar na literatura específica de papel importante e oferece contribuições significativas
Relações Internacionais que a utilização das demais para a reflexão das relações internacionais, especial-
áreas mencionadas, notadamente a Ciência Política mente dos desafios contemporâneos.
e a Economia, conquistaram maior visibilidade, colo- A Antropologia, assim como as Relações
cando a abordagem antropológica em segundo plano. Internacionais, é uma área recente quando
Com essa prática, acredita-se que o desenvol- comparada às demais ciências sociais, organizada
vimento científico de Relações Internacionais acabou institucionalmente no início do século XX. Apesar
negligenciando aspectos importantes do meio interna- disso, ela possui como antecedentes reflexivos a
cional, em grande medida homogeneizando-o, e não descoberta do Novo Mundo pela Europa e, portanto,
considerando a variável da cultura – conceito central do encontro entre diferentes culturas, tendo sua
para a Antropologia assim como o Estado para as base epistemológica vinculada na dicotomia entre
Relações Internacionais – como uma fonte explicativa a unidade da espécie humana e a diversidade
de problemas e questionamentos de ordem global. cultural.
Durante a manutenção da bipolaridade entre Os conceitos de cultura e diversidade são
Estados Unidos e União Soviética e, consequentemente, considerados centrais na compreensão dos objetos-
de relativo congelamento do poder nos dois pólos, sujeitos de estudo e na construção do conhecimento
a dinâmica interna e sua interação com o sistema antropológico, pois são eles que circunscrevem as
internacional era um aspecto analisado de forma problemáticas no âmbito da Antropologia, bem
superficial ou secundária. Isto porque o jogo das como caracterizam sua abordagem. Esses conceitos,
potências – e a hegemonia da interpretação desta por sua vez, são eles mesmos objetos de reflexão
interação pelos realistas e neorealistas – fazia com dos antropólogos, pois uma das perspectivas mais
que idiossincrasias internas dos Estados fossem significativas da área é a percepção do sentido social
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– e, portanto, cultural – do conhecimento, e do papel de alteridade. Em outras palavras, é a percepção


central do homem nesse processo. Deste modo, da diferença que constrói a diferenciação entre as
a Antropologia se insere em uma categorização culturas.
moderna das ciências, na qual o conhecimento é As raízes do etnocentrismo se encontram nas
construído pelo homem e, por conseguinte, possui teorias evolucionistas no âmbito social, que, ao contrário
suas dimensões históricas, permitindo ao pesquisador do que é comumente divulgado, são anteriores ao
questionar-se acerca de sua natureza, objetividade, trabalho de Charles Darwin em A origem das espécies,
neutralidade e relação sujeito-objeto. que versa sobre o evolucionismo biológico. A idéia do
É importante ressaltar a proximidade entre os evolucionismo social baseia-se na crença de que há um
conceitos de cultura e diversidade. A diversidade entre caminho linear do progresso humano, sendo este um
os povos, ou seja, a consciência das diferenças entre conceito muito utilizado nos trabalhos que adotam
os homens, emerge de uma capacidade intrínseca essa abordagem. Na perspectiva antropológica, a
dele reconhecer a si e aos outros, sendo essa aplicação do evolucionismo social culminou na visão
separação dicotômica ela mesma uma característica de que a Europa representava o topo da evolução,
essencialmente humana de estabelecer relações de sendo, portanto representantes da civilização, ao
diferenças e/ou identidade. O conceito de cultura, contrário dos bárbaros e dos selvagens, que deveriam
desse modo, emerge de um esforço conceitual para inevitavelmente alcançar o mesmo estágio dos
compreender essa diversidade enquanto fenômeno, europeus por meio de sua intervenção. Assim, é
o que torna essa última o sentido ontológico da construída a dimensão de superioridade de algumas
primeira. culturas sobre outras, o que conferiu autoridade e
As tentativas de se refletir sobre o que é cultura responsabilidade no plano político aos representantes
fomentaram na área um debate intenso e uma série dessa superioridade, como por exemplo, a doutrina
de teorias a respeito do tema, todas convergindo para do Destino Manifesto. Esta estabelecia que o homem
a compreensão das características da diversidade. branco europeu estava destinado a dominar as
Dentre as muitas possibilidades apresentadas pela culturas inferiores para salvá-las. Essa atitude esteve
Antropologia, destacam-se as idéias acerca do em evidência principalmente nas aventuras colonialista
etnocentrismo e da alteridade e a sua contrapartida e imperialista da Europa, entre os séculos XV e XX.
e o relativismo cultural, pois além de fundamentais Assim, as primeiras definições do conceito
para a compreensão da abordagem antropológica, de cultura eram influenciadas por essa postura
acredita-se que estes parecem ser conceitos etnocêntrica. Embora o etnocentrismo seja uma
produtivos para as análises de temas internacionais. característica natural do homem, é consensual que
O etnocentrismo é, antes de tudo, um em situações extremas ela tem a potencialidade
comportamento natural do homem em face da de impulsionar reações violentas e conflitos, tais
diferença cultural. O estranhamento, a surpresa ou como a intolerância, o preconceito, e em casos
o preconceito em vista de uma determinada cultura mais graves, o etnocídio. Podemos citar como
são, segundo a Antropologia, uma reação universal exemplo amplamente conhecido de etnocídio a
no homem. Isso porque seu fundamento está na perseguição dos alemães nazistas de judeus, ciganos,
percepção de que determinada escolha ou cultura é homossexuais e deficientes físicos durante a segunda
mais adequada do que a de outrem, justamente pelo Guerra Mundial.
fato de o parâmetro da diferença ser estabelecido a A resposta conceitual ao etnocentrismo foi o
partir do eu, ou seja, a partir da minha própria cultura relativismo cultural. É essa reviravolta que marcará o
e visão de mundo. Nesse sentido, o etnocentrismo pensamento da Antropologia até a atualidade. Esta
só pode ser entendido a partir do fenômeno da concepção insere a diversidade cultural em medidas
diversidade de culturas pois é a partir desse que o não qualitativas e não hierarquizantes, apontando
que se entende como reação a esse fato, em termos que a pluralidade de modos de viver e compreender o
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mundo é um fato. Esta perspectiva foi essencial para como cultura, diversidade cultural, etnocentrismo,
o rompimento da idéia de superioridade de uns em alteridade e relativismo cultural fornece ferra-
detrimento de outros. Com a primazia da concepção mentas analíticas importantes para as Relações
de relativismo cultural, foi possível consolidar esse Internacionais, especialmente quando a agenda
campo do conhecimento como capaz de dar voz de pesquisa está voltada para a compreensão de
as mais diferentes culturas, viabilizando assim a fenômenos contemporâneos.
construção de uma postura dialógica em detrimento Como exemplos desta possibilidade do inter-
de dominação. câmbio entre as áreas nos estudos de Relações Inter-
No debate contemporâneo sobre a diversidade nacionais, destacam-se questões como a ascensão
cultural, alguns esforços intelectuais buscam de lideranças indígenas na América Latina e seu
menosprezar o discurso do relativismo cultural. Há papel na política externa dos Estados e o desafio do
aqueles que argumentam que é possível encontrar terrorismo internacional.
elementos comuns entre os homens, ligados a O diálogo interdisciplinar entre a Antropologia e
preceitos do liberalismo e do pragmatismo; há as Relações Internacionais é potencial, especialmente
aqueles que apontam que o etnocentrismo é quando se observam as tendências mais recentes
intransponível, tornando o relativismo cultural uma do debate teórico na área que buscam repensar
mera retórica antropológica; há os que postulam o as premissas positivistas na construção de teorias,
niilismo das abordagens relativistas. No entanto, os trabalho que pode se beneficiar de modo substantivo
defensores da perspectiva relativista indicam que a de uma leitura atenta e crítica dos pressupostos
diversidade cultural é a principal fonte de estudos antropológicos e do seu desenvolvimento conceitual.
dos antropólogos, sendo mérito da Antropologia
abranger essa parcela da realidade dentro dos Recebido em 05/08/2008
limites da ciência, especialmente quando combate Aprovado em 12/08/2008
o etnocentrismo.
Este debate sintetiza, em grande parte, a
contribuição da Antropologia na atualidade. Através Palavras-chaves: Teoria das Relações Internacionais,
do estudo de sua construção e de seus conceitos, antropologia, interdisciplinaridade
pode-se ser capaz de conviver, no plano ontológico Key words: International Relations Theory; Anthro-
e metodológico, com a diversidade cultural como pology; Interdisciplinarity
premissa, o que, na realidade dos fatos, é um
fenômeno evidente, cada vez mais próximo e visível Resumo: O artigo trata da contribuição acadêmica
em virtude de um mundo globalizado e conectado ao campo de relações internacionais. Nesse
pelas redes de informação. Nesse sentido, a sentido, cultura é um conceito chave para este
Antropologia seria capaz de contribuir com a área entendimento.
de Relações Internacionais na compreensão de
cenários contemporâneos complexos, marcados Abstract: The article deals with the academic contri-
pela pluralidade de culturas, em contatos cada vez bution to the field of International Relations. The
mais freqüentes e, em muitos casos, conflituosos concept of culture is central to this understanding.
e violentos. Em outras palavras, a compreensão de English title:
conceitos centrais do pensamento antropológico

