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O ESTRUTURALISMO CHEGA AO BRASIL: MANUEL SAID ALI E

JOAQUIM MATTOSO CÂMARA JR1

Ricardo Cavaliere
UFF

Introdução

O estruturalismo surge nas primeiras décadas do século XX como uma teoria


que interpreta os elementos da cultura humana como unidades que se relacionam entre
si em uma estrutura sistêmica. Uma característica que distingue o estruturalismo de
outras propostas teóricas está em ter sido utilizado em vários campos das ciências
humanas, tais como a antropologia e a sociologia, além, naturalmente, da linguística.
Ademais, a concepção estruturalista do mundo e dos fenômenos atinentes à vida
humana deu oportunidade para que suas teses também fossem agasalhadas nas artes
visuais, de tal sorte que hoje pode-se entender o estruturalismo como um efetivo
movimento filosófico que integra a episteme do século XX.

Embora as bases do estruturalismo linguístico tenham-se fundado nas primeiras


décadas do século, sobretudo com as teses de Ferdinand de Saussure (1857-1913) e os
trabalhos subsequentes da Escola de Praga – notadamente Roman Jakobson (1896-
1982) e Nikolai Trubetzkoy (1890-1938) –, o estruturalismo somente chegou ao Brasil
nos últimos anos da década de 1930, mais especificamente em 1938, quando Joaquim
Mattoso Câmara Júnior (1904-1970) ministra o primeiro curso de linguística geral na
universidade brasileira – Universidade do Distrito Federal. Com a publicação do
volume Princípios de linguística geral (1941), Mattoso Câmara consolida em órbita
bibliográfica a inserção das teses estruturalistas no cenário acadêmico brasileiro,
inspirado, sobretudo, em Roman Jakobson e em Leonard Blomfield (1887-1949).

A partir desse momento, os estudos linguísticos brasileiros cingem-se em uma


bifurcação que põe em caminhos distintos, de um lado, os estudos histórico-
comparativos, de base diacrônica e caráter empírico, que vinham predominando na

1
Publicado em Bastos, Neusa Barbosa (org.). Língua portuguesa: história, memória, e interseções
lusófonas. São Paulo: EDUC, IP-PUC-SP, 2018, p. 103-120.
descrição do português desde as últimas décadas do século XIX, e, de outro, os estudos
estruturalistas, de base sincrônica e caráter formal, pautados na concepção sistêmica da
língua. Ao longo de pelo menos três décadas, vários textos sobre linguística geral e
descrição do português, inspirados nas teses estruturalistas, multiplicaram-se de
maneira tão avassaladora que muitos linguistas contemporâneos chegam a afirmar
equivocadamente que se deve a Joaquim Mattoso Câmara Jr. a introdução da ciência
linguística no Brasil.2

Buscamos, neste estudo, investigar a presença do estruturalismo na história da


linguística brasileira, cingindo-nos aos primeiros anos de sua chegada ao cenário
acadêmico-universitário, mediante referência a suas fontes doutrinárias, suas bases
conceituais, sua contribuição para a descrição do português e seu legado para o ensino
do vernáculo. Considerando a especial relevância de Joaquim Mattoso Câmara Jr. na
edificação desse modelo teórico no Brasil, comentamos suas principais ideias sobre o
fenômeno linguístico e a repercussão que tais ideias auferiram no cenário acadêmico a
partir dos anos 1950. Igual referência se impõe ao nome de Manuel Said Ali (1861-
1953), tendo em vista o caráter precursor de suas referências a Ferdinand de Saussure.

Verifica-se, hoje, que o ingresso da gramática gerativa no cenário acadêmico


brasileiro, embora haja ocorrido pouco tempo depois da publicação dos Princípios de
Mattoso Câmara e tenha recebido expressiva aceitação por parte dos pesquisadores, não
chegou a pôr em xeque a validez do estruturalismo como modelo adequado para a
pesquisa linguística do português, dada sua sensível presença, seja conceitual, seja
metalinguística, em vários projetos de pesquisa ainda hoje em curso no âmbito dos
cursos de pós-graduação brasileiros. As conclusões do trabalho, assim, conduzem para
uma avaliação do estruturalismo como uma vertente das tradições linguísticas do século
XX que não se deixa atingir pela descontinuidade ou ruptura paradigmática que
supostamente a poderiam situar em segundo plano epistemológico no cenário
historiográfico da linguística brasileira.3

2
Lembremo-nos necessariamente de que, na segunda metade do século XIX, Júlio Ribeiro (1845-1890)
já publicara os seus Traços gerais de linguística (1880), em que desfilam os princípios do evolucionismo
linguístico então difundidos pela obra de August Schleicher (1821-1868).
3
Embora sejam modelos formais, há nítida distinção entre o estruturalismo e a gramática gerativa como
paradigmas linguísticos, sobretudo da maior complexidade teórica desta em face daquele, a par do fato
de que efetivamente caberia ao estruturalismo contribuir decisivamente para a reformulação do ensino
da língua vernácula, inclusive no tocante à renovação da metalinguagem.
O tratamento dos textos que constituem o corpus da pesquisa, como “reflexo ou
depósito material da história da linguística” (Swiggers, 2014, p. 42), implica um
conjunto de providências indispensáveis para que se proceda a uma avaliação segura
dos movimentos ou escolas teóricas e seu papel em dado momento do percurso
historiográfico. Por tal motivo, cumpre analisar os textos mais representativos do
estruturalismo linguístico brasileiro, traçando-lhes o perfil no tocante a sua inserção no
circuito científico, sua posição em face de outros textos contemporâneos, em
verificação de sua intertextualidade e sua serialidade (Haßler, 2008), bem como de seu
papel dinâmico como textos-fontes, seja em sua concepção ou sua recepção (Swiggers,
2014, p. 41).

1. A abrangência epistemológica do estruturalismo


Muitos teóricos da linguística do século XX consideram que o estudo da língua
só se pode desenvolver mediante aplicação das teses estruturalistas. Essa visão
monocrática da linguística estrutural fundamenta-se na crença de que a noção de
estrutura, em que unidades funcionais se organizam segundo regras sistêmicas, não é
propriamente uma maneira de interpretar o fenômeno linguístico, senão a própria língua
em sua essência. Este é o motivo por que teóricos como Francisco Rodríguez Adrados
desenvolvem um raciocínio sobre a natureza da língua em que a noção de estrutura não
explica a língua, senão integra a língua como parte fundamental. Essa premissa de que
a estrutura sistêmica está no cerne da língua, portanto, expande os domínios do
estruturalismo para praticamente todas as propostas de tratamento e descrição da língua,
já que “no hay lengua sin gramática, lo que implica una estructura (...) Así, en
definitiva, la existência de uma gramática es testimonio de la existência de uma
estructura” (Rodríguez Adrados, 1969, p. 9).

As conquistas iniciais da linguística estrutural logo se fizeram acompanhar da


evidência de que as unidades ditas significativas, que constituem, por assim dizer, a
base de toda a organização sistêmica da língua, não cumprem um papel em si mesmas,
no sentido de cumprirem uma função individual, mas um papel dentro do sistema como
um todo, de que decorre serem significativas no plano geral da língua. Tal constatação
confere dois atributos às unidades sistêmicas: primeiro, o de que são unidades
funcionais, no sentido de que cumprem um papel bem definido no sistema como um
todo; segundo, o de que não são unidades dotadas de uma função, mas em exercício de
uma função, entendimento este que desvincula os conceitos de unidade mínima e de
função sistêmica – uma unidade pode exercer mais de uma função ou mesmo mudar de
função4.

Cedo, pois, ao lado de uma linguística estrutural passou-se a referir a uma


linguística funcional, termos que, a rigor, referem-se à concepção mais assentada do
estruturalismo como modelo de investigação da língua em que se estudam os traços
formais que determinam o funcionamento de um sistema de unidades estruturais
significativas. Enfim, para os linguistas estruturalistas ortodoxos, o fato irrefutável de
que toda língua implica um sistema – melhor dizendo, é um sistema – de unidades
funcionais conduz irremediavelmente à conclusão de que “toda Lingüística debe ser
estructural” (ibid., p. 10), no sentido de que não se pode admitir que exista um modelo
de investigação que desconsidere um atributo que está na própria essência da língua.

Essa postura é conveniente para explicar a tênue diferença entre as expressões


estruturalismo linguístico e linguística estrutural. Nesta última, o estruturalismo figura
como elemento adjetivo, que individualiza um dado aparato teórico de investigação que
surge paradigmaticamente em um momento de ruptura do curso do conhecimento
linguístico no século XX; na primeira expressão o estruturalismo é a substância que
supera as barreiras paradigmáticas para eclodir em todas as propostas de investigação
da língua como fenômeno atinente à natureza humana, exatamente porque a estrutura
não é uma maneira de conceber a língua, mas a própria concepção da língua. Disso
resulta alinharem-se sob o mesmo manto conceptual propostas distintas, em alguma
medida complementares, tais como a pioneira visão sistêmica de Ferdinand de Saussure
(1857-1913) com a posterior postura funcionalista de Eugenio Coseriu (1921-2002)5.

Nesse diapasão, conclui-se que mesmo paradigmas supostamente afastados das


teses estruturalistas trazem a noção de estrutura em seu aparato teórico. A gramática de
tradição filológica, por exemplo, fruto da linguística comparada do século XIX,
desenvolve métodos de descrição das línguas com base na noção de unidades sistêmicas
que se equivalem funcionalmente em sistemas linguísticos distintos, de que decorre sua

4
Os recentes estudos brasileiros sobre a gramaticalização e seu papel no processo de mudança linguística
– leia-se, em especial, Martelotta (2011) – bem demonstram que a relação entre a unidade sistêmica e a
função gramatical não é biunívoca e frequentemente modifica-se no decurso da mudança.
5
Notadamente em Coseriu (1980).
origem comum em sistemas existentes em estados de língua passados. Em outros
termos, não se poderia ir muito adiante no método comparativo se não se aplicasse a
noção de unidades sistêmico-funcionais aos radicais, afixos, temas e outros elementos
morfológicos cuja análise contrativo-comparativa abriu as portas da história da língua
no século XIX. O que se quer aqui dizer é que uma concepção estrutural da língua
impregna a investigação da língua no século XIX, bem antes de se pensar em uma
“linguística estrutural”, no sentido paradigmático que se confere ao termo.

2. O formalismo da linguística estrutural


As palavras que se leram no item anterior a respeito da ortodoxia da linguística
estrutural dão oportunidade para que se discuta em que medida se pode atribuir a esse
fato um caráter positivo ou negativo para o desenvolvimento e difusão do saber
linguístico. Afinal, é cabível condenar os modelos extremamente formais, tais como o
estruturalista e o gerativista, pelo (suposto) reducionismo epistemológico que
encarceram a língua como objeto de investigação nos limites do sistema? Levando em
conta que a língua se realiza no discurso e sua própria existência só se justifica em face
do uso pelo falante, como admitir que sua investigação seja infensa à consideração de
fatores externos ao sistema, que se manifestam na órbita do discurso?

Essas indagações dão oportunidade para que se reflita mais profundamente


sobre o papel da linguística como ciência e o exato perfil de seu objeto. Uma possível
macrovisão desse tema poderia erigir uma oposição entre uma linguística de fronteiras
restritas, resguardada no estudo da língua tout court6, e uma linguística de fronteiras
amplas, em que seu escopo é o estudo da língua em todas as suas manifestações. Aqui
nos situamos em uma questão nevrálgica, já que a delimitação do objeto está na própria
identidade da ciência como atividade de investigação. Evidente que inúmeras outras
questões subliminares surgem em face dessa indagação, como, por exemplo: quem é
um linguista? Por sinal, já no século XIX, quando a linguística ganha status científico
ao mergulhar no sistema sem propósito pedagógico ou retórico, põe-se em confronto a
figura do linguista e do filólogo, este fiel ao texto e suas implicações culturais, aquele
devotado ao desvendamento da história da língua. Mas o que dizer de outros, que na

6
Em certa medida, a “microlinguística”, a que se refere John Lyons em sua avaliação do fato (1981, p.
36).
mesma época não faziam nem uma coisa nem outra, tais como Wilhelm Wundt (1832-
1920) e Heymann Steinthal (1823-1899): eram linguistas ou psicólogos?

Bem mais tarde, já na segunda metade do século XX, os avanços dos estudos na
construção do discurso deram oportunidade ao surgimento da pragmática como modelo
de investigação linguística, não obstante nesse campo a língua seja um elemento
coadjuvante. A rigor, admitir que a pragmática seja um ramo da linguística não se
distancia tanto da admissão da psicologia de Wundt ou da sociologia de Labov. A
solução de se conferir a denominação de psicolinguística e sociolinguística a essas áreas
de investigação, do ponto de vista epistemológico, apenas informa que a linguística se
desdobrou em mais paradigmas, em vez de sugerir o surgimento de outras ciências. O
perigo (se é que podemos usar esse termo) está na expansão de domínios que abra os
caminhos de uma “linguística sem fronteiras”.

3. A primeira referência a Saussure no Brasil


Coube a Manuel Said Ali, na segunda edição de suas Dificuldades da língua
portuguesa ([1908] 1919), tecer referência inaugural a Ferdinand de Saussure no
âmbito dos estudos linguísticos brasileiros. Não se duvide, por sinal, que essa referência
seja pioneira no contexto dos estudos linguísticos em língua portuguesa. O nome de
Saussure, como sabido, está intimamente ligado ao próprio surgimento do
estruturalismo linguístico como modelo alternativo à gramática histórico-comparada, à
linguística naturalista e ao paradigma neogramático, que dominaram o cenário
acadêmico em largo decurso no século XIX e início do século XX7. Dono de invejável
leitura teórica, Said Ali logra percorrer todos os modelos citados em seus estudos sobre
o português, conforme se atesta pela aplicação das teses neogramáticas acerca do fator
psicológico na sintaxe e, em especial, da linguística de Berthold Delbrück (1842-1922)
no âmbito dos estudos sobre a entonação frasal, a par da já mencionada referência a
Saussure e aos primeiros fundamentos da linguística estruturalista no texto das
Dificuldades.

7
A rigor, algumas vertentes dos estudos linguísticos do século XX, tais como a geografia linguística de
Jules Gilliéron (1854-1926) e a etnolinguística de Abel Hovelacque (1843-1896), decorrem da
delimitação mais estreita do objeto da linguística naturalista. Desmet (2007, p. 41) dá-nos conta de que
Hovelacque chegou a fundar uma “escola de linguística naturalista” no âmbito da Société
d’Anthropologie e da École d’Anthropologie em Paris.
O teor dessa referência inaugural ao mestre genebrino reúne conceitos
fundamentais, entre eles a dicotomia sincronia-diacronia. Segundo Bechara (2015, p.
11), ao atribuir a seu texto sobre história do português o título de Lexiologia do
português histórico – em vez de Gramática histórica do português 8 –, Said Ali
demonstra acatar a premissa de que só se pode proceder à descrição gramatical de um
estado de língua, de que decorre não se poder falar em uma “gramática histórica”, senão
em uma linguística diacrônica. Ademais, ao cuidar do português histórico, Said Ali opta
por situar o ponto de partida na fase inicial do galego-português, desconsiderando a
natural e, porque não dizer, obrigatória referência ao latim vulgar. O que se percebe
aqui é um conceito de diacronia que admite um plano de sucessões dentro do próprio
português, de que decorre não ser necessária a referência ao sistema linguístico que o
antecede e lhe dá origem.

Tal fato levou um nome como o de Joaquim Mattoso Câmara Jr. (1904-1970) a
desconfiar de que a Gramática histórica de Said Ali fosse, na realidade, um estudo
sincrônico, uma vez que desconsidera a cadeia de mudanças que se operaram na língua
a partir do latim vulgar:

E em verdade se pode dizer que o seu campo de interesse foi a descrição sincrônica
da língua, nos moldes propugnados por Saussure. Assim a sua Gramática histórica
[...] é no fundo uma gramática expositiva, complementada com um cotejo com as
antigas fases da língua. (Uchôa, 2004a, p. 187)

Verifica-se, aqui, que Mattoso Câmara, como de resto a maioria dos linguistas
que trabalharam com a história da língua, deixou-se levar por um conceito de estudo
diacrônico que implicava necessariamente a referência a pelo menos dois sistemas
linguísticos no plano das sucessões, fato que, a rigor, não se coaduna com o conceito
de estudo diacrônico em Saussure, em que se há de entender o estudo histórico da língua
no plano das sucessões ainda que no âmago de um único sistema linguístico.

Outra aproximação nítida entre as teses de Saussure e a visão linguística de Said


Ali, esta também assinalada por Bechara, em seu precioso estudo sobre as teses do

8
Posteriormente, por motivos editoriais, que buscavam atribuir à obra um título consoante com as
propostas de ensino do vernáculo à época, a Lexiologia do português histórico, saído em 1921 e a
Formação de palavras e sintaxe do português histórico, publicada em 1923, reuniram-se na Gramática
histórica da língua portuguesa (1937).
linguista genebrino na obra do mestre fluminense, situa-se na necessária observância
da psicologia do homem para que se confira tratamento adequado aos fatos linguísticos.
Basta verificarmos a estrita relação entre uma asserção como “au fond, tout est
psychologique dans la langue” (Saussure, [1916]1995, p. 21) como a seguinte: “É a
psicologia elemento essencial e indispensável à investigação de pontos obscuros [sobre
a língua]” (Said Ali, 1937, p. III). No entanto, cremos que aqui há mais proximidade
com o Saussure de raízes neogramáticas do que com o Saussure estruturalista, já que o
tratamento da língua à luz da psicologia não se consolidou no modelo de investigação
estruturalista que o século XX viria a conhecer.

Por fim, convém aqui observar que a publicação da Gramática secundária, de


Said Ali (s.d.) no início dos anos 20 do século passado,9 cerca de sete anos após a
publicação do Cours, desvia os rumos da gramatização do português no Brasil para um
enfoque eminentemente sincrônico, dentro da concepção de gramática como descrição
de um estado de língua: “qui dit grammatical dit synchronique et significatif”. A
concepção orgânica da Gramática secundária, por sinal, que abandonou a antiga
subdivisão bipartite em Lexiologia e Sintaxe para propor a subdivisão em Fonética,
Lexiologia e Sintaxe, viria a inspirar a sinopse gramatical organizada em Fonética,
Morfologia e Sintaxe que a Nomenclatura Gramatical Brasileira consagrou em 1959.

4. O passo decisivo de Mattoso Câmara Jr.


Não são poucos os estudos linguísticos que atribuem a Joaquim Mattoso
Câmara Jr. o título de “pai da linguística” no Brasil. Sem querer ingressar no mérito
dessa afirmação, que obviamente passa por um conceito muito particular sobre o que é
a linguística e de que forma surgiu como ramo das ciências, não se pode negar que a
Mattoso Câmara devemos a introdução das teses linguístico-estruturalistas no meio
acadêmico brasileiro10. Essa é uma constatação que já se fez em inúmeros estudos sobre
a presença de Mattoso Câmara no panorama historiográfico da linguística no Brasil,
cujos efeitos também são por demais conhecidos, sobretudo o intenso cisma teórico-

9
Ainda resta dúvida quanto ao ano de publicação da primeira edição: 1922 ou 1923.
10
Ou das teses da linguística descritiva, conforme o próprio Mattoso gostava de referir-se, uma
designação em contraponto com a linguística histórica de caráter diacrônico. Decerto que a linguística,
pelo paradigma de August Schleicher (1821-1868), já havia chegado ao Brasil, há cerca de um quarto de
século antes do nascimento de Mattoso Câmara, com a publicação dos Traços gerais de linguística
(1880) por Júlio Ribeiro (1945-1990).
metodológico que se instalou a partir dos anos 40 do século passado entre a linguística
e a filologia como disciplinas dedicadas dos estudos linguísticos.

O que não se desvendou ainda são as causas desse fato: por que terá cabido a
Mattoso Câmara o privilégio de haver enxergado além dos horizontes a que se
limitaram seus contemporâneos? Em que medida a formação intelectual do linguista
fluminense o encaminhou para sendas que, não obstante já se houvessem aberto em
outros centros de investigação, teimavam em manter-se fechadas no percurso dos
estudos linguísticos brasileiros? São indagações que interessam ao historiógrafo já que
contribuem para que se desvende, ainda que em pouca medida, o fenômeno da
alternância de paradigmas em suas descontinuidades, fatos que, na singeleza de sua
inobservância, podem perfeitamente explicar por que um dado membro de uma geração
de cientistas opta por desviar os rumos, inovar a leitura e, consequentemente (ou
inadvertidamente), figurar como um iconoclasta do paradigma dominante11.

Já nos referimos aqui ao pioneirismo de Manuel Said Ali na referência às ideias


estruturalistas de Saussure, mas, a rigor, o que temos em Said Ali é muito mais Saussure
do que estruturalismo. Melhor explicando, a referência do autor das Dificuldades da
língua portuguesa ao mestre genebrino não se faz no sentido de aplicar os fundamentos
do estruturalismo como paradigma renovador da linguística, mas no intuito de
aprofundar conceitos pontuais que a linguística de Saussure tão bem elucidou, tais
como a distinção entre sincronia e diacronia e sua relevância para a descrição de um
estado de língua. Portanto, se quisermos pôr os fatos em devidos lugares, devemos a
Said Ali a primeira referência brasileira ao pai do estruturalismo linguístico, mas, com
efeito, o pioneiro na aplicação das teses desse paradigma no cenário acadêmico do
Brasil é indubitavelmente Mattoso Câmara Júnior.

À época em que Said Ali mergulhava na leitura do Cours, muito provavelmente


nos idos de 1916 ou 1917, Mattoso Câmara, ainda um pré-adolescente, dedicava-se aos
estudos básicos sob orientação de mestres particulares e supervisão do professor
Jônatas Serrano (1885-1944), um conceituado professor de História do Colégio Pedro
II e da Escola Normal do Rio de Janeiro, citado como precursor do vínculo entre o
cinema e a atividade pedagógica no Brasil12. A rigor, a formação intelectual de Câmara

11
Leia, a respeito, o conceito de “essential tension” em Kuhn (1977).
12
Sobre Jônatas Serrano, leia Schimidt (2004) e Campelo (2007).
dar-se-ia provavelmente a partir de 1923, ano em que teria ingressado na Escola
Nacional de Belas Artes para estudar arquitetura, não obstante seja bem provável que
o espírito heurístico que o caracterizava tenha-lhe facilitado anteriormente a
convivência com os temas mais relevantes da cultura nacional, tais como, por exemplo,
as repercussões e implicações decorrentes da Semana de Arte Moderna de 1922, em
que as vozes panfletárias em prol da liberdade de expressão linguística certamente se
fizeram ouvir pelos jovens intelectuais.

De início, supõe-se que a convivência de Câmara com professores e artistas no


ambiente da Escola de Belas Artes teria sido a porta de entrada para o ideário
estruturalista, visto que a segunda década do século XX já testemunhava a aplicação do
conceito de estrutura e unidades sistêmicas em praticamente todas as ciências humanas
e tecnológicas. No entanto, a hipótese perde força se considerarmos que, ao menos na
seara dos estudos arquitetônicos, o pensamento estruturalista só se consolidou no Brasil
a partir dos anos 1950 (referência), em decorrência da falência que a chamada escola
modernista sofria após pelo menos três décadas de vigência.

No tocante ao contato de Mattoso Câmara com as ciências jurídicas13, decerto


que dele resultou um aprimoramento, talvez, melhor dizendo, uma complementação
das bases epistemológicas que iam moldando seu perfil intelectual, sobretudo se
levarmos em conta que o ensino jurídico o aproximou da sociologia e da antropologia,
áreas do saber em que os princípios estruturalistas sempre exerceram grande influência
no plano epistemológico.

No interregno entre a conclusão do curso de arquitetura e a formatura em direito,


Mattoso Câmara já se iniciara com professor de língua portuguesa em escolas
particulares e no Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Segundo os poucos dados
biográficos de que dispomos (cf. Uchôa, 2004a e 2004b, p. 15; Rodrigues, 2004),
Câmara iniciou-se no magistério em 1928 e já em 1938 atuou como professor de latim
e de linguística na Universidade do Distrito Federal. Esse fato é relevante para
demonstrar que o horizonte de retrospecção em Mattoso Câmara revela uma sólida
formação plural em que ciências nem sempre aproximadas contribuíram para moldar a
personalidade de um investigador descomprometido com a preservação de paradigmas.

13
Mattoso Câmara formou-se em Direito pela Universidade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de
Janeiro.
Talvez esteja aí um dos motivos, senão o motivo, de ter cabido a Mattoso Câmara o
privilégio de haver lido textos que seus contemporâneos desconheciam ou, se os
conheciam, pouca atenção lhes atribuíam.

A sólida formação filológica, com excelente formação em línguas clássicas, que se logo
percebe nos primeiros textos sobre temas linguísticos publicados em 1934 no Correio
da Manhã, alia-se a um inevitável pendor para as novidades que a linguística
estruturalista vinha oferecendo para a construção de uma teoria formal do
funcionamento da língua. É nessa fase que se irmanam em Mattoso Câmara o filólogo
e o linguista, em convivência harmônica, não obstante, a partir de então, as duas
disciplinas viessem a seguir trilhas antagônicas no cenário dos estudos sobre a língua
no Brasil. Com efeito, Mattoso Câmara figura como personagem singular na
historiografia da linguística brasileira, já que, formado nas bases da escola histórico-
comparativista e pioneiro das teses estruturalistas, encarnava um “ser ambíguo”, para
aqui convalidarmos a feliz denominação que Coelho (2005) atribui aos “ambíguos
primeiros passos da linguística sincrônica” no Brasil. Era, pois, um homem de diálogos
e monólogos: dialogava com os colegas quando os temas eram filológicos, ou quando
a teoria aplicada era a herdada aos filólogos da denominada “geração de ouro”
portuguesa,14 ou mesmo quando o tema explorado era afeito às mentes filológicas –
citem-se os estudos sobre estilo em língua literária, tais como o maravilhoso texto Cão
e cachorro no Quincas Borba de Machado de Assis, a investigação sobre fatos
complexos do português, como se atesta em sua tese de doutorado Para o estudo da
fonêmica portuguesa, e a atenção aos estudos diacrônicos, de que é exemplo o ensaio
O consonantismo histórico em português.15

5. As primeiras referências à linguística estrutural no Brasil


O que se disse até aqui sobre Joaquim Mattoso Câmara Jr. ainda não elucida em
que época as teses da linguística estrutural ingressaram nos círculos acadêmicos

14
Geração de filólogos portugueses que integra necessariamente o horizonte de retrospecção de todos os
filólogos brasileiros à época de Câmara Jr., entre eles Aniceto dos Reis Gonçalves Viana (1840-1914),
José Leite de Vasconcelos (1858-1941), Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1851-1925) e José Joaquim
Nunes (1859-1932).
15
Ressalte-se, por sinal, sua amizade com Carlos Henrique da Rocha Lima (1915-1991), com quem
escreveu o Curso da língua pátria (1945), considerado um representante fiel da escola filológica
brasileira. Os textos referidos estão na excelente bibliografia organizada por Uchôa (2004a).
brasileiros. Todos os indícios apontam para o ano de 1944, quando Mattoso Câmara
retorna de um estágio de aperfeiçoamento nos Estados Unidos, financiado por uma
bolsa da Fundação Rockfeller. No período de 14 de setembro de 1943 a 9 de abril de
1944, matriculou-se na Universidade de Colúmbia, onde estudou grego, sânscrito,
línguas africanas e linguística comparada, sob supervisão acadêmica de Louis Herbert
Gray (1875-1955). Frequentou também a École Livre des Hautes Études, onde assistiu
a um curso de linguística geral ministrado por Roman Jakobson. Estudou fonética
experimental em fevereiro de 1944 na Universidade de Chicago, curso oferecido por
Clarence Edward Parmenter (1906-?) e, em março do mesmo ano, frequenta as aulas
de Giuliano Bonfante (1904-2005) sobre geografia linguística na École Livre des
Hautes Études. Nessa temporada norte-americana, Mattoso Câmara também manteve
contato acadêmico com Leonard Bloomfield (1887-1949)16. Com Câmara, desembarca
no Brasil uma nova visão dos fatos linguísticos que encerra as teses sobre fonologia do
Círculo Linguístico de Nova York, inspiradas nas antecedentes do Círculo Linguístico
de Praga, os conceitos de unidade distintiva e unidade funcional de Roman Jakobson,
a primazia da língua oral como corpus fidedigno de investigação, entre outras
conquistas que a comunidade acadêmica brasileira possivelmente ainda desconhecia
por completo.17

No entanto, antes mesmo de sua viagem para os Estados Unidos, Mattoso


Câmara já trabalhara na tradução de A linguagem: introdução ao estudo da fala
([1954]1971), obra expressiva de Edward Sapir (1884-1939) em que a linguística
estrutural serve de apoio teórico. Embora traduzido em 1938, o livro somente seria
publicado em 1954 devido a dificuldades editoriais (Uchôa, 2004b, p. 21). Diga-se
ainda que, em 1941, Mattoso Câmara publica seus Princípios de linguística geral, obra
resultante das aulas ministradas no curso homônimo a partir de 1938 na Universidade
do Distrito Federal (UDF) 18 , cuja relevância, do ponto de vista historiográfico, é
verdadeiramente exponencial, não só por retomar os estudos de linguística geral (ou

16
Sobre esses dados biográficos, leia-se obrigatoriamente Uchôa (2004a).
17
Digo possivelmente porque ainda há muito que descobrir acerca do saber científico compartilhado
entre os linguistas brasileiros a partir de Said Ali.
18
Com a extinção da UDF e posterior criação da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do
Brasil, o curso de Linguística Geral de Mattoso Câmara foi interrompido por vários anos, vindo a
reiniciar em 1948 com uma turma de apenas três alunos: Rosalvo do Vale, Solange Pereira de
Vasconcellos e Maximiano de Carvalho e Silva.
teoria linguística) há muito esquecidos 19 , como também por consolidar em letra de
forma as conquistas que o paradigma estruturalista vinha implementando no estudo da
linguagem humana. Nesse sentido, assevera Uchôa (ibid., p. 1):

O discurso de Mattoso Câmara sobre a linguagem distinguia-se também do de


seus contemporâneos por divulgar um referencial teórico novo entre nós: o
estruturalismo. O linguista brasileiro se apresentava, por ocasião da 1.ª edição
de Princípios e no correr dos anos 40 e 50, como representante isolado, no
Brasil e em Portugal, do discurso teórico estruturalista, opondo-se deste modo
ao discurso dominante dos filólogos, de orientação atomista, quer no estudo da
língua, sobretudo a literária, quer no estudo diacrônico do vernáculo. Na edição
de 1941 de Princípios, Mattoso esclarece alguns fundamentos básicos da
linguística estrutural: explica as dicotomias de Saussure e dedica um capítulo
à Fonologia, com base nas ideias de Sapir e do Círculo Linguístico de Praga,
Trubetzkoy à frente.

Essas informações são bem elucidativas para definirmos mais precisamente o


momento em que as ideias estruturalistas ingressam no meio acadêmico brasileiro. Se
considerarmos que os Princípios já expressam concepções de Saussure, Sapir e do
Círculo Linguístico de Praga, como bem nos informa Uchôa, e que o texto dos
Princípios decorre dos cursos ministrados por Mattoso Câmara na UDF a partir de
1938, disso resulta admitirmos que a leitura dos estruturalistas já participava dos
estudos do mestre fluminense bem antes dessa data, o que nos faz remontar à época em
que lecionou na Escola Normal do Distrito Federal.20

19
Os textos anteriores sobre teoria linguística descomprometidos com o estudo do vernáculo são pontuais
na história gramatical brasileira. Do pioneiro Traços gerais de linguística (Ribeiro, 1880), passando pelo
capítulo inicial dos Serões gramaticais (Ribeiro, 1890), ambos do século XIX, transcorre largo lapso
temporal até a publicação dos Princípios de Mattoso Câmara Jr.
20
Por tal motivo, permitimo-nos discordar parcialmente de Cristina Altman quando assevera que “o
encontro de Jakobson e Mattoso Câmara em Nova Iorque no início da década de 1940 levou Mattoso a
aderir à análise sincrônica, com a qual ele tinha tomado contato anteriormente através da leitura do Cours
(1916) de Saussure, da Language (1921) de Sapir e Die phonologischen Vokalsysteme (1929) de
Trubetzkoy” (2004, p. 129). Na verdade, conforme asseverado, a leitura dos Princípios, publicados dois
anos antes da viagem aos Estados Unidos da América, Mattoso já expressa o convencimento de que os
estudos sincrônicos eram o futuro da linguística, não obstante ainda habitassem as ideias do mestre
fluminense alguns conceitos da linguística diacrônica oitocentista, tais como os de leis fonéticas e da
analogia como fundamentos da mudança das línguas.
Por sinal, há evidências de que a leitura dos textos estruturalistas não era um
privilégio de Mattoso Câmara no meio acadêmico brasileiro, pelo menos a partir do
período em que ministrou o referido curso pioneiro de linguística geral na Universidade
do Distrito Federal. Tome-se, como prova, a resenha de Serafim da Silva Neto (1917-
1960) sobre o Grundzüge der Phonologie, de Nikolai Trubetzkoy, publicada na Revista
Filológica (1941, pp. 87-88) no mesmo ano de publicação dos Princípios de Câmara
Jr. Como sabido, Silva Neto não era intelectual de muito diálogo na troca de
conhecimento, conhecido tanto pela genialidade quanto pelo exclusivismo com que
lidava na produção do saber científico. Imaginar que a leitura de Trubetzkoy lhe tenha
sido indicada por Mattoso Câmara é, portanto, muito além de improvável.

Havemos, entretanto, de admitir como provável que, nos primeiros anos de


existência da UDF, fosse ordinário o diálogo linguístico não apenas entre Mattoso
Câmara e Serafim da Silva Neto, como também com outros que compunham o corpo
discente do curso de Letras, tais como Othon Moacir Garcia (1912-2002), Celso
Ferreira da Cunha (1917-1989), Antônio Houaiss (1915-1999), matriculados
regularmente, além de Silvio Edmundo Elia (1913-1998), que, à semelhança de
Mattoso e Serafim, assistia às aulas como aluno ouvinte (Carvalho e Silva, 2004).
Saliente-se, ainda, que pertenciam ao corpo docente Álvaro Ferdinando Sousa da
Silveira (1883-1967), cadeira de Língua Portuguesa, e José Oiticica (1882-1957), que
ministrava uma disciplina intitulada Linguística Geral, fato que não se pode
desconsiderar, visto que não era ordinário o estudo teórico da língua, sem aplicação ao
vernáculo, nesse momento historiográfico brasileiro.

Observe-se, ainda, que vieram somar-se aos mestres brasileiros três nomes
eminentes vindos da França: Georges Millardet (1876-1953), Jean Bourciez (1894-
1969) e Jacques Perret (1906-1992) 21 , cuja participação nesse cenário de trocas
acadêmicas decerto muito contribuiu para o aprimoramento da leitura não só dos
alunos, como também dos próprios professores dedicados às questões linguísticas.
Embora tivessem formação nas línguas clássicas, os três franceses certamente
mantinham leitura atualizada da literatura linguística, razão por que não se pode
descartar a hipótese de que tenham contribuído para a introdução das bases do
estruturalismo no meio acadêmico brasileiro.

21
Sobre a presença dos professores estrangeiros na UDF, leia Fávero, Peixoto e Silva (1991).
Fato é que o rigor da pesquisa, de um lado, há de atribuir a Mattoso Câmara Jr.
o pioneirismo de haver estampado a estruturalismo linguístico em letra de forma no
Brasil, mas, por outro lado, não pode afirmar categoricamente que o ideário
estruturalista tenha chegado às rodas de discussão pela via singular de seu horizonte de
retrospecção. Lembremo-nos, para aqui recuperar uma informação dada em nossas
primeiras linhas, que Saussure já estava na obra de Said Ali em 1919, sendo certo que
o mestre fluminense continuava em plena atividade pelo menos até o início dos anos
1930, quando publicou seus Meios de expressão e alteração semântica, atuando no
magistério da língua alemã no Colégio Militar (Escola de Estado Maior) e no Colégio
Pedro II. No prólogo dessa obra, há asserções como “o linguista de hoje investiga os
factos sem preocupar-se com a questão do que é ou deixa de ser correto” (1930, p. 5),
que, se nada tem efetivamente de estruturalista, e muito menos de deontológico, muito
tem, com certeza, de uma ciência linguística que renova o olhar sobre os usos
linguísticos. Nessa esteira, lembremo-nos de que, à mesma época em que Mattoso
Câmara ministrava seu curso de linguística na UDF, a Revista filológica publicava um
texto de Mansur Guérios (1907-1987) intitulado Classificação e fins da ciência da
linguagem: conceito e classificação de Filologia, Glotologia e Lingüística (1940)22.
No ano seguinte, o próprio Guérios publica o estudo A gramática, o uso e a norma:
minucioso estudo sobre a norma literária, e o uso escrito e oral da língua com sua
dinâmica e suas modalidades (1941), em que a expressão “o uso escrito e oral da
língua” muito nos diz sobre os novos ares que respirava a linguística brasileira dos anos
1940.

Em suma, essa busca de descerrar as cortinas que ainda ocultam as sendas por
onde nos chegaram as teses da linguística estrutural infelizmente ainda nos dá poucas
certezas em deserto de dúvidas. A certeza de um pioneirismo bibliográfico de Mattoso
Câmara Jr. convivente com as dúvidas acerca das mentes que inovaram quanto à
aplicação da nova teoria linguístico-estruturalista no cenário acadêmico da UDF.
Decerto que a cada passo da pesquisa historiográfica – que há de trilhar, por exemplo,
o a consulta aos programas do curso ministrado por José Oiticica – mais ficaremos

22
Infelizmente, até o momento não tive acesso ao texto de Mansur Guérios, cuja leitura e resenha se
impõem para que se verifique em que medida as teses da recente linguística descritiva, conforme a
denominava Mattoso Câmara, reside nas linhas escritas pelo linguista paranaense.
cientes dos fatos que estão na gênese dessa importantíssima página do percurso da
linguística no Brasil.

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