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ESTUDO DA CONCENTRAÇÃO NA AGROINDÚSTRIA CANAVIERIA NO

ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL

Giuliana Mendonça de Faria

1. Introdução

Atualmente, a cana-de-açúcar é um dos principais produtos agrícolas do Mato


Grosso do Sul, desenvolvendo-se principalmente na região sul do Estado, ocupando uma
área de 192 mil hectares, com projeção de aumento para 300 mil hectares em 2008. O setor
sucroalcooleiro no Estado conta com 11 unidades produtoras, participando em média (para
o período 1999/2000 a 2007/2008) com 2,58% da produção nacional de cana-de-açúcar.

O setor agroindustrial canavieiro do Mato Grosso do Sul, consoante com a


realidade nacional, vem passando por mudanças intensas desde o início da
desregulamentação estatal na década de 90, que podem ser entendidas como sendo
responsáveis pela alteração da organização setorial e pela redefinição dos modelos de
gestão vigentes na atividade produtiva, podendo ser visto como uma etapa de um processo
de reestruturação dinâmica e expansão de novas bases produtivas.

Isto posto, o objetivo deste trabalho consiste em verificar a concentração (moagem


de cana-de-açúcar) na agroindústria canavieira do Estado de Mato Grosso do Sul pós-
desregulamentação setorial. Para tanto, utiliza-se do cálculo da razão de concentração, do
índice de Hirschmann-Herfindahl e índice de volatilidade.

Este trabalho se divide, além desta introdução, em quatro seções. Na segunda seção
é apresentada uma breve revisão da literatura sobre a agroindústria canavieira no Estado de
Mato Grosso do Sul. A seção três contém a exposição sucinta do referencial teórico e da
metodologia de coleta e análise dos dados sobre o desempenho recente do setor.
Posteriormente são apresentados os resultados obtidos e, em seguida, concluindo este
trabalho, são apresentadas as considerações finais.
2. Revisão de Literatura

A agroindústria canavieira sul-mato-grossense possui atualmente 11 unidades


produtoras, 7 usinas com destilaria anexa e 4 destilarias autônoma. O setor sucroalcooleiro
está em expansão no Mato Grosso do Sul, atualmente estão em fase de implantação 28
unidades produtoras e 52 em fase de negociação (on-line). Para Shikida et. al. (2008), dois
fatores são fundamentais para explicar o crescimento da produção canavieira no Brasil, e
consequentemente no Mato Grosso do Sul: 1) o incentivo dado pelo Programa Nacional do
Álcool (PROÁLCOOL); 2) o ambiente proporcionado pela desregulamentação setorial.

Com a crise do PROÁLCOOL, via descompasso entre oferta e demanda alcooleira,


a heterogeneidade existente em termos produtivos, na agroindústria brasileira aumentou.
Assim como, a partir do início dos anos 90, devido às mudanças políticas importantes,
como a extinção do Instituto do Açúcar e Álcool (IAA), a desregulamentação do setor e a
liberação dos preços da cana, do açúcar e do álcool, houve enorme diferenciação na
estrutura interna das unidades produtivas e na estrutura competitiva da agroindústria
canavieira (BELIK et. al., 1998).

A desregulamentação que afetou a agroindústria canavieira brasileira pós-90, e que


se intensificou ao final da década de 90, contribuiu para ampliar a competitividade setorial.
Com o fim do controle estatal, as usinas e destilarias tiveram que se adaptar ao livre
mercado e caminhar sem os incentivos, os subsídios e a coordenação do Estado que
existiam anteriormente.

Para Vian (2003), o processo de desregulamentação da agroindústria canavieira


nacional alterou a função do Estado, que deixou de ser interventor para ser coordenador.
Com efeito, diversas modificações ocorreram no setor sucroalcooleiro com o objetivo de
adequar esta atividade a um ambiente mais concorrencial Vale dizer que, “um regime de
maior liberdade de atuação deverá aumentar a participação no mercado das empresas mais
eficientes que a média e com isso tornar o setor mais rentável.

Estas modificações podem ser entendidas como responsáveis por alterar a


organização setorial. Sendo assim, para enfrentar o acirramento da competição nos
mercados, setores e elos da cadeia produtiva, as usinas procuraram adquirir maior
capacitação produtiva, tecnológica e mercadológica, o que pode ser traduzido em redução
dos custos e produção e a busca constante de oportunidades para o setor (PAULILLO et.
al., 2007).

A cana-de-açúcar é um dos principais produtos agrícolas, ocupando no Mato


Grosso do Sul uma área de 192 mil hectares, apresentando maior concentração da
produção no sul do Estado, em terras antes destinadas à pecuária e em áreas de pastagem
degradada. O Estado do Mato Grosso do Sul apresenta uma conjunção de fatores positivos
para a atividade canavieira: disponibilidade de terras com valor competitivo, solos
apropriados à mecanização, clima adequado, assim como, a localização estratégica pela
proximidade dos centros consumidores e também pela implantação do Alcooduto, ligando
o Mato Grosso do Sul ao porto de Paranaguá/PR (on-line).

Outros fatores são responsáveis pelo aumento significativo da produção de cana-de-


açúcar no Mato Grosso do Sul, com destaque, o lançamento de veículos bicombustíveis e
as perspectivas favoráveis de exportação do álcool combustível, fazendo com que a
produção expandisse da região paulista para novas fronteiras agrícolas. Assim como, a
possibilidade de ampliação da área cultivável no Estado.

A Tabela 1 evidencia as produções da cana-de-açúcar brasileira e sul-mato-


grossense, assim como a representatividade do Mato grosso do Sul em termos de Brasil.
Nota-se um crescimento da participação de Mato Grosso do Sul na produção nacional de
cana-de-açúcar, e também, que as taxas de crescimento geométricas da produção de cana-
de-açúcar no Estado são maiores que a do Brasil no período analisado.

Tabela 1 – Índices de Concentração da Indústria Sucroalcooleira no Estado de Mato


Grosso do Sul, safras 1999/2000 a 2007/2008

Produção de Cana-de-Açúcar
Safra (em toneladas)
Mato Grosso do Sul Brasil %
MS/Brasil
1999/2000 7.410.240 306.965.623 2,41
2000/2001 6.520.923 257.622.017 2,53
2001/2002 7.743.914 293.050.543 2,64
2002/2003 8.247.056 320.650.076 2,57
2003/2004 8.892.972 359.315.559 2,47
2004/2005 9.700.048 386.090.117 2,51
2005/2006 9.037.918 387.441.876 2,33
2006/2007 11.635.096 425.535.761 2,73
2007/2008 14.869.066 493.384.552¹ 3,01
Taxa de 0,69642012 0,47455313
Crescimento
¹ Os dados da safra 2007/2008 para a Região Norte-Nordeste ainda não foram finalizados. Os valores
apresentados na tabela referem-se a posição em 01/07/08.

Fonte: União da Indústria de Cana-de-Açúcar - UNICA (2008).

Nesse cenário visível de crescimento, um aspecto no processo da agroindústria


canavieira do Mato Grosso do Sul, a concentração industrial, merece ser analisada. Vale
ressaltar que na agroindústria canavieira brasileira é peculiar a tendência à centralização de
capital, via concentração industrial e fundiária, que se revertem, nesse caso, em
concentração técnica e econômica (RAMOS, 1999). Surge então a seguinte questão: qual o
nível de concentração da produção canavieira no Mato Grosso do Sul? Para tanto, a
próxima seção busca elucidar o material e método proposto neste trabalho.

3. Material e Método

A estrutura de mercado é analisada pela Organização Industrial, ramo da Ciência


Econômica que estuda aspectos como a concorrência, a política antitruste, os processos de
fusões e aquisições, além de outros arranjos empresariais e institucionais que afetam e
transformam as estruturas organizacionais de mercado – estas independentemente da
natureza de sua atividade, podendo ser industrial, agrícola, agroindustrial, somente de
serviços, etc. (TIROLE, 1988).

Dois pontos muito discutidos por este ramo dizem respeito a: 1) se a redefinição de
estratégias das empresas é função da adequação ao cenário competitivo imposto pelo
mercado; 2) se é possível o exercício de poder de mercado concentrado pari passu com a
busca por maior competitividade das empresas (SHIKIDA et. al., 2008). No Brasil, de
acordo com Possas et. al. (2002), são discutidas políticas públicas de defesa da
concorrência de mercado em estruturas organizacionais.

De acordo com Canuto (2000, p.1), “economias de escala na oferta e economias de


escopo na demanda favorecem, de fato, a concentração na estrutura de mercado”. A busca
pela melhoria da eficiência técnica, e conseqüentemente de maiores ganhos de
produtividade, que estão inseridas na discussão sobre a tendência à concentração,
entendidas como características básicas do sistema econômico atual.

Visando mensurar a concentração na agroindústria canavieira sul-mato-grossense


foram utilizadas duas medidas de concentração positivas: razão de concentração e índice
de Hirschmann-Herfindahl. A metodologia para o cálculo destas medidas está baseada em
Resende (1994), Cabral (1994) e Hasenclever e Kupfer (2002).

Para tanto, inicialmente foi verificada a participação de cada usina sobre o total de
cana-de-açúcar moída no Estado de Mato Grosso do Sul em cada um dos períodos acima
citados, definida por:

yi = xi / qi

Em que: yi = participação da i-ésima usina ou grupo no total de cana moída em


Mato Grosso do Sul; xi = volume de cana moída pela i-ésima usina ou grupo; qi = volume
total de cana moída no Estado de Mato Grosso do Sul.

Para o cálculo da razão de concentração, os valores de yi foram ordenados de


maneira que y1 > y2 > ... > yn.

A razão de concentração das k maiores usinas/grupos é:

k
Ck = ∑ si
i

Para efeito deste trabalho, e diante do número de usinas em Mato Grosso do Sul, foi
considerada uma razão de concentração: CR4. Salienta-se, contudo, que a razão de
concentração não leva em conta os dados da totalidade das empresas em operação num
determinado setor, sendo consideradas medidas de concentração parciais. A omissão das (n
– k) empresas dificulta o uso do CRk como medida de poder de mercado (RESENDE e
BOFF, 2002). Esta deficiência pode ser superada com a utilização de outra medida: o
índice de Hirschmann-Herfindahl (HHI).

O índice de Hirschmann-Herfindahl (HHI) é definido por:

n
HHI = ∑ ( si ) 2
i
Em que: n = número total de usinas/grupos e yi = participação das usinas/grupos no
total ao quadrado.

Os dados da produção de cana-de-açúcar no Mato Grosso do Sul (utilizou-se a


tipificação cana-moída), dos anos-safra 1999/2000 até 2007/2008, foram coletados junto à
União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) e à União dos Produtores de Bioenergia
(UDOP). Buscou-se analisar as mudanças estruturais ocorridas neste setor após a
desregulamentação e mediante a disponibilidade de dados.

A próxima seção apresenta os resultados e discussão deste trabalho.

4. Resultados

Os indicadores de concentração calculados para a produção sul-mato-grossense de


cana-de-açúcar encontram-se na Tabela 2. Pode-se dizer, de maneira generalizada que
apesar da redução na concentração da produção de moagem da cana, esta ainda pode ser
considerada alta, estando relacionada à competitividade das empresas, principalmente as
maiores, que buscam redefinir as suas estratégias visando ganhar ou consolidar posição no
mercado.

Com a desregulamentação, as unidades produtivas passaram a adotar o paradigma


tecnológico como forma de criar novos e melhores produtos e processos de produção, e
dessa forma, aumentar a sua competitividade (VIAN, 2003).

Tabela 2 – Índices de Concentração da Indústria Sucroalcooleira no Estado de Mato


Grosso do Sul, safras 1999/2000 a 2007/2008

CR(4) H n¹
Safras %
1999/2000 67,91 0,1533 8
2000/2001 62,18 0,1371 8
2001/2002 61,20 0,1342 8
2002/2003 59,03 0,1283 9
2003/2004 57,96 0,1251 9
2004/2005 53,28 0,1188 9
2005/2006 57,82 0,1224 9
2006/2007 56,62 0,1194 10
2007/2008 52,33 0,1052 11
¹ Número de usinas que realizaram a moagem na safra.

Fonte: Dados da pesquisa.

Detalhando a análise de cada índice de concentração da moagem de cana-de-açúcar


no Estado, verifica-se que o CR(4) passou de 67,91% no período de 1999/2000 para 52,33%
no período de 2007/2008. Com esta queda, o CR(4) permaneceu abaixo do limite
“sugerido” de 60%, que ainda proporciona oportunidade para comportamento
oligopolístico, passando ao longo do período analisado, de oligopólio forte para fraco.
O índice de Hirschmann-Herfindahl corrobora a redução da concentração ao longo
do período analisado. Dessa forma, confirma-se o que Vian e Pitelli (2005, p.227)
afirmaram, que “o setor sucroalcooleiro nacional possui algumas características dos setores
de oligopólio concentrado”.

5. Conclusão

Este artigo realizou uma análise do nível de concentração da produção canavieira


no Mato Grosso do Sul, utilizando a variável cana-de-açúcar moída, através dos cálculos
da razão de concentração e do índice de Hirschmann-Herfindahl. Verificou-se que o CR(4)
passou de 67,91% no período de 1999/2000 para 52,33% no período de 2007/2008, e
através da análise do índice de Hirschmann-Herfindahl, corrobora-se que houve uma
redução da concentração ao longo do período analisado, podendo-se concluir que, o setor
passa de um oligopólio forte moderadamente concentrado para um oligopólio fraco
moderadamente concentrado.

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Rubens M. S. de. Análise da gestão ambiental em empresas agroindustriais


de usinas de Açúcar e Álcool no Mato Grosso do Sul. Dissertação de mestrado. Porto
Alegre: UFRGS, 2001.
CABRAL, Luis. Economia industrial. Lisboa: McGraw-Hill, 1994.
Governo de Mato Grosso do Sul (2008). CANASUL. André Puccinelli
KUPFER, David. Economia industrial: fundamentos teóricos e práticos no Brasil. Rio
de Janeiro: Campus, 2002.
TIROLE, 1988.
VIAN, Carlos Eduardo de F. LIMA, Roberto A. de S. L. FERREIRA FILHO, Joaquim B.
S. Estudo do Impacto Econômico (Eis) para o complexo agroindustrial canavieiro
paulista: desafios e agenda de pesquisa. Rev. de Economia Agrícola, São Paulo, v. 54, n.
2, p. 5-26, jul/dez 2007.